Texto de Sofia A. Carvalho. Site da 4AD aqui e uma biografia da editora pode ser encontrada na obra Facing The Other Way — The Story Of 4AD.
Abstracção. Continuidade. Lirismo. Literalidade. Progressão. Cinco traços atmosféricos que poderiam descrever uma das aventuras editoriais discográficas mais audazes a que o século XX teve acesso: 4AD e 23 Envelope. A contracção entre um número, uma vogal e uma consoante (Forward -> 4wArD -> 4AD[1]), visando a substituição do nome inicialmente pensado para a editora (Axis[2]), não existiria sem o número grifado num envelope surpreendente, que ostenta dois remetentes: Vaughan Oliver (1957-2019), design gráfico e tipógrafo britânico, e Nigel Grierson (1956), artista e fotógrafo britânico, as duas capitais responsáveis pelas peças artísticas da 4AD até 1987.

O natural design, aliado a uma tipografia natural (vide: capa do álbum You and Me Both, 1983, da dupla de synth-pop Yazoo), ao jogar hábil e criativamente com a ambiguidade das manchas e dos traços, esbate as fronteiras entre fotografia e design e, não raras vezes, as capas mais fotográficas são autênticas peças de design assinadas por Oliver e Grierson. É, aliás, em 23 Envelope Documentary (4AD, 1985) que o primeiro chega a afirmar que, muitas vezes, uma fotografia surgiria como solução para um problema gráfico. Esta dupla forte exibe, assim, uma técnica auto-consciente, tornando-se saliente o modo como consegue captar a atmosfera musical e singular de cada uma das bandas que integra o catálogo exquisite da editora. O truque para atingir o lado formal e abstracto que pervade as criações da 4AD, admite Oliver, é não aceder às letras das canções.
Na verdade, Vaughan Oliver, tendo trabalhado para algumas food companies (cf.: campanha I’ve never been sympathetic with baked beans, 1985), considera não ser diferente o trabalho na 23 Envelope, afirmando — não sem um certo cinismo, no sentido alto e filosófico do termo — que também na 4AD se embalam produtos, ainda que neste caso se simpatize com o produto. Por seu turno, o fotógrafo e artista Grierson, na senda de um trato estilizado da luz, e a propósito da feitura de um filme sobre a relação de um homem e de uma mulher, sob o prisma do homem, considera como fundamental o jogo justaposto dos diálogos mentais dos personagens, reforçando a força onírica e fantasmática, que transita do filme e da fotografia para um mercado musical que se firmou como independente e distinto do mainstream.

A força magnética desta dupla tornou-se uma marca indelével do projecto, que apostou numa exploração dialógica intensa e profícua com as bandas, como firmado pelos Cocteau Twins, embora, algumas vezes, o seu estilo idiossincrático comportasse tensões criativas entre os editores e as bandas, como aconteceu com o grupo electrónico britânico Colourbox.
A estes dois nomes, que gostariam de ter ficado anónimos, junta-se a figura (quase) anónima de Simon Potter que dedicou uma emissão, Music Box with Simon Potter, a alguns dos nomes inescapáveis da linha editorial da 4AD, tais como: Cocteau Twins, Dead Can Dance, The Wolfgang Press, Clan of Xymox, This Mortal Coil, entre outros.
A combinação extraordinária de um número e duas letras, grifando a componente literal e abstracta desta linha editorial, denota a criação de um tipo de música sombria e onírica, cujas formas reverberantes, segundo Stephen M. Deusner, evocam um “quiet drama of introversion”, (vide: https://pitchfork.com/features/paper-trail/9281-facing-the-other-way-the-story-of-4ad/). Mais do que drama, há um lirismo provocador e detalhista em cada composição musical e gráfica.
É assim que, no dealbar dos anos 80, num pequeno escritório de uma cadeia de loja de discos independentes, Beggars Banquet, em Londres, nasceu a 4AD. Casa editorial que acolheu, entre tantos outros, Come On Pilgrim (1987), o mini-álbum de estreia dos Pixies, e Surfer Rosa (1988), álbum-première, e cuja marca artística é enaltecida por Black Francis, nestes termos: “It was an opportunity to be signed to an artsy-fartsy label with an odd name, what was there not to like? I remember seeing Vaughan’s artwork for our [debut] record, of this incredibly hairy man in sepia tones, which to my eye was straight out of a David Lynch movie. We didn’t know we wanted to be like this, but it was right, and I never questioned what Vaughan Oliver gave us after that. The day I saw the artwork, I quit my job at the warehouse of The Windsor Button Shop, to go on the road, where I’ve been ever since.” (https://thevinylfactory.com/features/art-rock-adventurism-the-complete-4ad)
O co-fundador visionário desta mundividência musical, o britânico Ivo Watts-Russell (1954), em conjunto com Peter Kent, não só produziu alguns dos discos da linha editorial (e.g.: Garlands de Cocteau Twins), como foi a força motriz do projecto This Mortal Coil, tendo colaborado na forja de algumas das canções deste grupo britânico. Eis como descreve Peter Kent a ligação entre ambos: “Ivo and I clicked as people. It was like I was Roxy Music and he was Captain Beefheart, but we appreciated where each other was coming from. He was mellower; I was more outgoing.” (vide: https://thevinylfactory.com/features/art-rock-adventurism-the-complete-4ad)
No entanto, enquanto Peter Kent ansiava por êxitos comerciais massivos, procurando fundos para promover as bandas, Ivo Watts-Russell encontrava-se mais direccionado para o encontro entre a música e a arte, numa espécie de ethos artístico que, prescindindo das repercussões financeiras, procurava dedicar-se, em exclusivo, a cada criação individual, mas leiam-se as palavras de Oliver sobre Watts-Russell: “I was obsessed with the idea of working for an independent label and I would have told Ivo he needed a logo and consistency, to express identity. The role models were ECM and before that, Blue Note. Ivo got the idea straight away. In my mind, he wasn’t into selling units; he loved the music and wanted people to hear it, and he cared so much about it that he wanted to package it properly.” (vide: https://thevinylfactory.com/features/art-rock-adventurism-the-complete-4ad)

Em 1999, Watts-Russell abdica da sua posição editorial na 4AD, tentando superar uma depressão de anos não diagnosticada. Segundo Martin Aston, Watts-Russell não possuía nenhum plano estratégico para a editora, importando-lhe apenas o som e a relação familiar e íntima com os músicos: “He loved the name 4AD because there was no aesthetic, no attitude. It was just music. He had no strategy. It was just things that he heard and responded to purely as a fan. He certainly wasn’t trying to sign bands that were part of a trend or would sell records. In fact, he often let the bands that did sell records go because it involved talking to them about what their next single was going to be or what kind of promo video they should make. He had no interest in that. He let Modern English go because he wasn’t interested in where they were going. He let Bauhaus go because they were putting out covers of T. Rex songs and he had no interest in that. It was never about the sales. It was about what Ivo liked. He just followed his nose.” (vide: https://pitchfork.com/features/paper-trail/9281-facing-the-other-way-the-story-of-4ad/)
Em 2013, sai do prelo Facing The Other Way – The Story of 4AD (NME Book of the Year; A Rough Trade Book of the Year e Times Literary Supplement Book of the Year) da autoria do escritor e jornalista Martin Aston. Com capa desenhada por Oliver, esta obra de fôlego, com mais de 600 páginas, condensa o trabalho editorial de Watts-Russell, apresentando uma exaustiva entrevista ao recluso e impenetrável co-fundador na sua remota casa no Novo México. Realçando a estética abstracta e intimista de Vaughan Oliver e a atmosfera lírica de Nigel Grierson, sem esquecer os artistas editados (This Mortal Coil, Birthday Party, Bauhaus, Cocteau Twins, Pixies, Throwing Muses, Breeders, Dead Can Dance, Lisa Germano, Kristin Hersh, Belly, Red House Painters, entre outros), esta obra foca o interesse nas duas primeiras e grandiosas décadas desta casa editorial ímpar e mítica.

Em entrevista a Stephen M. Deusner, datada de Dezembro de 2013, Aston confessa ter estado dezoito meses a investigar os meandros atmosféricos desta experiência editorial única, um misto de “beauty masking secrets, feelings buried, persisting in anxious dreams and suppressed fear, hope and anger; lyrics that don’t explain emotion as much as cloud the issue, penned by a carnival of beautiful freaks who didn’t want to be seen.” (vide: https://pitchfork.com/features/paper-trail/9281-facing-the-other-way-the-story-of-4ad/)
Segundo Dorian Lynskey, em artigo de The Guardian (2013), se a Factory Records, em Manchester, irrompia, entre 1978 e 1982, como uma galeria de arte, encabeçada por Peter Saville, Tony Wilson e Alan Erasmus Tony, e a Rough Trade emergia no campus universitário, a 4AD destacava-se como um templo (vide: https://www.theguardian.com/books/2013/sep/12/facing-other-way-4ad-aston-review).
A marca familiar e intimista que Watts-Russell concedeu à mais bela aventura editorial do século XX, não isenta de dramas, fragilidades e disfunções pessoais, a par da estética abstracta, lírica e literal da dupla Oliver-Grierson, provocou uma ruptura vertical no panorama editorial. A 4AD continua a apresentar uma linha editorial limpa, mantendo abertos os dois pulmões, mas a frequência modal e a intensidade cardiovascular dos seus primeiros tempos, como não poderia deixar de acontecer, estabilizou. E assim estamos.
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Em Frequently Asked Questions 4AD, espaço virtual devotado à mailing list da editora, e que é mantido por David Thorpe e Mark Von Minden, tendo sido originalmente compilado e mantido por Jens Alfke, encontra-se uma explicação alternativa, a propósito da criação nominal da editora, cedida por Tym Rourke: “I’ve heard a different story on where the name came from. I was told it was a play on words. The label was created to act as a one-off label for Beggar’s Banquet, much like Guernica for 4AD (Bauhaus was the only band to follow this route). So bands were originally going to be on the label for only one release…For A Day…4AD…”. No entanto, esta leitura alternativa parece não corresponder ao intento editorial, dado surgir no catálogo de Dezembro (circa 1998) a seguinte informação: “1980 FORWARD. 1980 FWD. 1984 AD. 4AD” (vide: http://www.evo.org/4ad-faq/otherQs.html). ↑
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Título do segundo álbum, datado de 1967, do The Jimi Hendrix Experience: Axis: Bold As Love. ↑