Uma recensão ao novo trabalho de Paul Thomas Anderson, uma história de amor adolescente na América dos anos 70 do passado século.
Texto de Ana Sérgio. Revisão de João N.S. Almeida. Imagens: poster e fotogramas do filme.
O sonho americano foi já retratado de várias maneiras (em Frank Capra, Norman Rockwell, mais tarde na versão crepuscular de Edward Hopper) mas é importante reflectir sobre se tal campo conceptual terá sido sempre retratado como algo pertencente ao passado. Do mesmo modo, uma descrição do sonho americano (ou seja, qualquer referência ao mesmo, verbal ou visual) pode acabar sempre por ser uma forma de recordação que facilmente se desenvolve para uma forma de nostalgia, uma cultura da recordação. A questão é particularmente viva nos anos setenta, ou em relação aos anos setenta, conforme tratada neste filme de paul Thomas Anderson. Licorice Pizza, de um título algo bizarro para ouvidos americanos e ainda mais bizarro para ouvidos extra-americanos, é enquanto vocábulo uma amálgama de duas recordações de infância do cineasta: o fruto do alcaçuz, usado em doces, de um negro semelhante ao vinil, e a delícia tão prática da pizza, iguaria italiana inteiramente americanizada neste contexto. É também o nome de uma antiga cadeia de venda de discos na Califórnia. Enfim, é tudo isso. O que o filme é, porém, é mais uma obra-prima, talvez a maior até agora, do realizador, esta especificamente mais pessoal do que outras: uma ode ao amor adolescente, à liberdade — no sentido americano, liberdade económica e liberdade social — e às memórias que Thomas Anderson possui dessa década em específico.

O miolo do argumento é uma história simples, tão complicada como um amor adolescente, e tão simples quanto um amor entre um homem e uma mulher. O tropo não só narrativo, mas de comentário sociológico, que é o facto do homem, o protagonista, ser adolescente e a mulher, sua co-adjuvante, estar no início da idade adulta, e dá hipótese a Anderson de brincar com os desafios que cada um desses papéis impõe ao outro. O adolescente, por vezes, apresenta-se hiper-confiante; estará a fingir maturidade ou será um talento natural? A jovem adulta, apesar de mais experiente, emocional e sexualmente, é mesmo assim rendida ao rapaz; estará a sério? Depois, no inverso, o adolescente parece uma criança: corre, suado e ansioso, à procura da jovem adulta quando julga que está está com outro; e a jovem adulta corrói-se de ciúmes quando vê o adolescente desfrutando do prazer com outras colegas. Esta é a história que Anderson vai construindo, de desencontros, com um final expectável, e constitui a trave central de todo o filme, sem mais mistérios. Só há um beijo na película, entre os dois protagonistas, no final. Nem isso seria necessário para assentar definitivamente qualquer tipo de material narrativo: o trabalho está todo feito anteriormente pelo desenho das tensões na relação, e no final podemos esperar desses desenvolvimentos o advento de qualquer conclusão que seja pelo menos formalmente digna, mas sem ética predefinida: o espectador não requer isso, estando já inteiramente satisfeito com o desenho em si da relação, não sendo propriamente necessário nenhum tipo de consumação. Em última análise, poderia ser a história de uma amizade e não de um amor, e talvez pouco se perdesse do filme.
Um ponto importante na história, e intimamente ligado com o sonho americano, é o à-vontade com que se retrata o empreendedorismo económico do protagonista, que tem apenas quinze anos: monta empresas de vendas de colchões, de máquinas de pinball, etc., conta com a ajuda dos amigos, pelos quais distribui remuneração — todos eles menores de idade, uns inclusive mais novos — e é respeitado enquanto nesse papel. Ficamos com a sensação de que este retrato pertence ao passado e nem leis laborais nem climas mentais económicos deixariam hoje tais aventuras serem assim tão possíveis, mas é possível que se nos virarmos para as novas tecnologias ainda encontremos versões magras e mais policiadas do sonho americano, não tão radicais e luminosas como esta.

Um bom realizador consegue colocar actores frequentemente tão desperdiçados em papéis estereotipados e dar-lhes breves e inesquecíveis performances, como é o caso aqui de Sean Penn e Tom Waits, apesar de tudo ainda dentro do seu território habitual, interpretando bêbados ricos, fala-baratos, com muito catarro. Personagens pouco importantes para a trama, secundários ou terciários, tal como, aliás, Bradley Cooper, cuja versatilidade na interpretação de um produtor discográfico ébrio de cocaína não surpreende por já conhecermos o actor nesse tipo de lugares. São, no entanto, todos bem-vindos, e nenhum é um caso de actor-interpretando-se-a-si-próprio que tantas vezes é usado como um recurso banal. Na verdade, o único ponto, muito breve, já perto do clímax da película, em que Anderson parece não ter imaginação é quando faz amálgama das várias cenas do filme em que os protagonistas estão a correr em direção ao outro. A montagem parece tosca, apressada e sem originalidade. Na verdade, o momento coincide com aquele que já referimos ser a conclusão desnecessária do filme, a consumação da relação; duvida-se que tenha sido uma espécie de exigência da produção, dado que Thomas Anderson não se gere particularmente por esses mapas económicos, mas de certo modo até parece.
Vale a pena referir a banda sonora? Dada a década em questão (que, sonoramente falando, é na verdade uma mistura de sessentas com setentas, tudo dentro do rock americano) e o filme tratar de paisagens de infância de Anderson, é natural que seja muito evocativa, que namore o poético, que se aproxime do onírico, etc. É, na verdade, maioritariamente música de grande qualidade. E não nos enganemos: tem de facto uma presença quase constante ao longo do filme. Se em geral películas dependentes de canções rock, constantemente auxiliando como bengalas a construção visual da narrativa e não só, se tornam irritantes e em última análise inconseguidas (pensemos em Sofia Coppola, por exemplo), aqui em Licorice Pizza a coisa até funciona e não chega ao ponto da irritação e do empecilho.
Conclui-se esta apreciação toda com uma impressão pouco determinada: Thomas Anderson não parece, com esta película, nem tecnicamente, nem autoralmente de modo genérico, mais competente, mais conseguido, mais vitorioso, do que noutras: ou seja, continua igualmente muito bom, um cineasta de enorme qualidade, de voz completamente madura inteiramente enquadrada na tradição do cinema enquanto forma de arte. Nada de novo. Porém, fica-se com a impressão, não se sabe bem porquê, que é a sua melhor obra até hoje.