Destaca-se hoje uma obra de cinema, The Love Witch, de 2016, escrito e realizado por Anna Biller, mas com o intuito de falar sobre um género cinematográfico italiano dos anos 60 do passado século: o Giallo. Género que mistura o thriller, o suspense, o erótico, e, por último, o terror sanguinário — giallo, que significa literalmente amarelo, advém de uma série de histórias de crime publicadas na década de trinta em itália, de capa amarela, mas também representam o amarelo da febre e aproximam-se do vermelho do sangue — pertenceu a uma idade de oiro do cinema italiano, hoje já desparecida, mas que deixou os seus pontuais herdeiros, como este The Love Witch.
Este conta com uma imensidão de referências cinematográficas, uma recriação do Technicolor dos anos 196O e do Giallo italiano. Elaine, a protagonista interpretada pela actriz Samantha Robinson, tem muitas semelhanças com ícones desse género cinematográfico como a actriz italiana Edwige Fenech. Toda a maquilhagem e o guarda roupa, remetem para o universo feminino do Giallo. Além desse género, encontra-se no filme o Folk horror — e possivelmente a cena da protagonista com um vestido vermelho, ao volante do carro, é uma referência ao filme The Velvet Vampire realizado por Stephanie Rothman.

Quanto ao enredo de The Love Witch, trata-se de uma bruxa, como o nome do filme indica, uma bruxa do amor que usa feitiços para que os homens se apaixonem perdidamente por ela. Esta perseguição desenfreada pelo seu príncipe encantado foi despoletada por um desgosto amoroso: na raíz desta obsessão estão traumas causados pelo sexo masculino. Elaine persegue um amor de conto de fadas, e por isso está condenada ao fracasso e a uma insatisfação crónica relativamente aos homens que vai enfeitiçando pelo caminho.
Desta forma, de modo satírico, o filme centra-se na condição feminina contemporânea e universal, com pontos transversais a todas as sociedades: a exigência quando se trata da aparência, a artificialidade como instrumento de sedução, a insegurança, expectativas românticas irrealistas, a dinâmica do poder nas relações entre os sexos. Ainda, não se contentando com os feitiços, Elaine esforça-se imenso, não se apresenta como é, enche-se de maquilhagens, perucas, ajusta a aparência e comportamento de acordo com o gosto do seu alvo: o artifício é a sua especialidade. Na sua óptica, está numa situação de poder, consegue seduzir os homens , mas aí entra o paradoxo: está a submeter-se aos desejos e a sacrificar a sua essência para encarnar as fantasias masculinas. No fundo, o pior dessa situação é a parte consciente do sacrifício pessoal da verdadeira identidade, interiorizado por Elaine, como necessário para ser amada. “I’m your ultimamente fantasy”, declara, rendida à sua condição.

O filme consegue também parodiar outros estereótipos femininos relacionados: a mulher fatal , a dona de casa perfeita que cozinha um bom bife, a combinação de ambas. Elaine encarna todos eles para agradar ao seu amado. Sugerimos a todos não só que espreitem esta peculiar e retrospectivesca película mas também que se inteirem do que é o género Giallo da itália fílmica dos anos setenta, sobre o qual falaremos mais em breve.