Por Miguel Nunes Silva, Director Instituto Trezeno (https://www.trezeno.pt)
Quem viveu os anos 90 recordar-se-á da figura de Boris Ieltsin. O primeiro presidente russo pós soviético que havia sido fulcral na abolição definitiva do império comunista. O Ocidente estimava muito o líder russo, em parte, precisamente, pelo seu papel no colapso da URSS, mas também pelo seu compromisso para com valores ocidentais como a democracia e o mercado livre.
Já os russos não o recordam com tanta saudade. Na verdade, Ieltsin entregou o país a oligarcas corruptos e mafiosos que depredaram o tecido industrial do país e depositaram os lucros em paraísos fiscais do Ocidente. Quanto à democracia, Ieltsin teve pouco pejo em agir de conluio com o governo de Bill Clinton na sua campanha presidencial de 1996, quando Washington concedeu a Ieltsin uma catadupa de vitórias diplomáticas e financeiras, destinadas a mantê-lo popular e no poder. Juntamente com o controlo oligárquico dos media, Ieltsin logrou ganhar ao famoso candidato do partido comunista russo.
Para a população da Federação Russa, Ieltsin acabou por ficar associado a um dos períodos mais humilhantes da sua história. A Rússia estava falida, endividada para com o Ocidente, os russos passavam fome e vendiam o pouco que tinham nas ruas, a máfia tornava-se obscenamente rica, as forças armadas eram corrompidas e viam os seus arsenais enferrujar, e o exército sofria derrotas vergonhosas às mãos de fanáticos jihadistas na Tchetchénia. A imagem de Boris Ieltsin foi ainda mais agravada pela sua vassalagem ao Ocidente e pela constante vergonha que os russos passavam, cada vez que os media ocidentais o apanhavam bêbado em cimeiras internacionais.
Em 1999, com quase 70 anos de idade, Ieltsin decide abdicar ao cargo e um político desconhecido, oriundo do meio autárquico de São Petersburgo, assume a presidência: Vladimir Putin. Consta que pressionado pelo aparelho estado, Ieltsin convenceu-se a deixar o poder em troca de um acordo posteriormente cumprido escrupulosamente pelos governos de Putin: a futura inimputabilidade da família Ieltsin. Hoje em dia Putin é visto como o líder que vergou os oligarcas e tal reputação foi conquistada graças a perseguições sem tréguas a alguns dos homens mais poderosos da Rússia, assim como humilhações periódicas dos que escolheram colaborar com o novo ‘homem forte’. O facto de que Ieltsin e a sua família nunca foram importunados parece confirmar a existência de tal acordo de bastidores.
Os EUA de 2024 passam por um momento político semelhante. Com 81 anos, o presidente americano sofreu uma derrota pesada no debate de 27 de Junho com Donald Trump. A prestação do presidente não foi minimamente surpreendente para quem segue o seu declínio cognitivo e físico dos últimos 4 anos mas desta vez toda a comunicação social norte-americana não hesitou em crucificar Biden e em expôr a sua fragilidade. O consenso mediático dos últimos anos evaporou da noite para o dia e em uníssono a imprensa exclamou ‘o rei vai nu’.
Em parte, a tolerância e cobertura da degeneração de Biden, foi facilitada pelo antagonismo entre os media e Donald Trump mas a verdade é que Biden nunca foi um líder amado ou carismático. Apesar de vice-presidente de Barack Obama e presumível sucessor, Biden permitiu que a candidatura de Hillary Clinton passasse à frente em 2016 e muito do apoio das estruturas do Partido Democrata adveio do sentido de dívida que tinham para com Biden. O actual presidente nunca foi, aliás, um líder popular, tendo-se candidatado ao cargo repetidamente sem sucesso e sofrendo mesmo escândalos no processo, como nas várias vezes em que foi apanhado plagiando discursos de figuras históricas. Ao longo da sua longa carreira no congresso e no governo, Biden nunca ficou conhecido por representar nenhuma causa ideológica ou ser coerente na defesa de nenhum eleitorado, em particular. A única constante no seu currículo foi ter sistematicamente sido uma voz de interesses estabelecidos e financeiros opacos. A prova foi o seu enriquecimento e o da família que – ao contrário de Donald Trump que perdeu dinheiro, contactos e oportunidades com a carreira política – hoje possuem dezenas de milhões de dólares no nome Biden.
Não ajuda que o 46º presidente americano teve um mandato catastrófico com uma subida brutal da inflação causada por políticas de expansão monetária da Reserva Federal e do governo, destinadas a pagar vários esquemas de subsidiação governamental, para não mencionar os custos dos confinamentos. Tudo isto agravado ainda pelas centenas de milhares de milhões para a Guerra da Ucrânia e pelas políticas energéticas ecologistas que desincentivam o investimento em combustíveis fósseis e subsidiam as renováveis, estas últimas menos fiáveis e mais caras para o consumidor. Como se não bastasse, Biden fica ainda associado à atabalhoada retirada do Afeganistão e ao mortífero conflito israelita em Gaza, que lhe vale o ódio da juventude esquerdista norte-americana.
Um qualquer político partidário, confrontado com a má vontade de um sistema mediático normalmente alinhado, consideraria seriamente uma saída de cena. Não se trata sequer de capacidade própria mas sim do facto de que a deslealdade dos media implica que o partido se está a afastar dele. Sem a protecção partidária, a família Biden teria que suster a frente de batalha de modo independente. A família Trump, por exemplo, não pertence ao sistema e é abastada por direito próprio mas os Biden não têm essa capacidade. A situação é ainda mais delicada atendendo às vulnerabilidades de Biden, dissimuladas durante a sua presidência. O seu irmão e o filho Hunter foram durante décadas parte fulcral de um alegado esquema de peculato e corrupção activa e passiva que enriqueceu a família Biden; a carreira de consultoria de Hunter Biden sendo a prova mais explícita, tratando-se de alguém negociando milhões sem qualquer tipo de qualificação profissional ou estatuto empresarial.
À semelhança de Ieltsin, Joe Biden representa uma decadência pessoal mas também nacional que se extremou ao ponto da sátira social e da descredibilização política. Ao contrário de Ieltsin, porém, o sistema político estado-unidense não consegue garantir aos Biden a imunidade que porventura eles desejariam. Para os democratas, a dissuasão só é garantida com uma retaliação própria.
Nos EUA, as eleições presidenciais ocorrem simultaneamente a eleições locais e estaduais, e muitos democratas receiam aparecer no boletim de voto com o mesmo partido do presidente senil e corrupto. Para precaver contra este efeito de colagem, muitos preferirão denunciar Biden ou no mínimo não se associarem a ele durante a campanha, o que penalizaria demasiado o esforço de mobilização de eleitores em Novembro. O desalinhamento dos media e as várias fugas de informação de dentro da Casa Branca e do Partido Democrata, anunciam que a dinastia Biden tem os dias contados.
O povo não quer Biden e o sistema não quer Biden. Para ele e os seus próximos, o desafio agora consiste em negociarem o acordo mais vantajoso possível enquanto ainda têm poder negocial. O futuro da eleição e do próprio Partido Democrata dependem do pragmatismo e da capacidade de improviso dos dirigentes. A urgência de uma solução é consequência da fuga para a frente em que todos foram coniventes até ao dia de hoje.