Tempo e Mudança em Hölderlin

Texto de Lauro Filipe Reis. Revisão de João N.S. Almeida. Imagem de capa: Moonrise at the Ocean, Caspar David Friedrich, 1822.

Uma afirmação, diga-se por si só banal, é a de que ocorre na poesia de Friedrich Hölderlin (1770-1843) uma acentuada preocupação com o tempo, a passagem, a mudança. O que era e o que virá servem de motores para impulsionar o poema, oferecendo ao leitor a impressão de movimento e sucessão. Esse movimento é, veremos, interpretado pelo autor alemão como declinante, quando comparado com o tempo prévio, sendo na maioria das vezes representado pela infância, pelo dia, pela alegria, entre outras metáforas. Desta forma, será possível demonstrar uma precariedade inevitável que recai sobre o Homem. O que proponho é, fundindo o conceito de sujeito humano (o autor) e sujeito poético, sem distinguir um de outro, analisar certos poemas desta figura chave do Romantismo alemão, de forma a cartografar uma temporalidade que permita observar uma relação com uma passagem de tempo que salienta a precariedade humana (subordinada a esse tempo) e uma busca por atemporalidade, possibilitando variadas manifestações poéticas por parte de Hölderlin.

I – Diotima

Diotima é uma figura feminina de grande relevo na obra poética de Hölderlin, que ressurge em múltiplos poemas. Em To Diotima, observamos uma reprodução poética do grande amor de Hölderlin:

«Beautiful being, you live as do delicate blossoms in winter,
In a world that’s grown old hidden you blossom, alone.
Lovingly outward you press to bask in the light of the springt
To be warned by it still, look for the youth of the world.
But your sun, the lovelier world, has gone down now,
And the quarreling gales rage in an icy blrk night.»

(To Diotima. Friedrich Hölderlin.)

Neste curto poema são acentuadas a beleza, delicadeza e amabilidade de Diotima. Estas características contrastam com o Inverno, realçando desta forma a raridade de Diotima, a quem se dirige directamente, porque em «um mundo que envelheceu tu floresces sozinha.»; contudo, até a beleza dela se desvanecerá, pois o sol acabará por descer, ofertando o seu lugar à noite.

Podemos destacar neste poema algumas dialéticas que serão aprofundadas na obra poética posterior de Hölderlin: dia/noite, juventude/velhice, Primavera/Inverno. Todas estas temáticas são possíveis de serem agrupadas temporalmente. Diotima (a mulher), para além da importância amorosa, possui mérito poético, porque Hölderlin discerne que Diotima personifica características que a passagem do tempo torna mais raras. No entanto, nem mesmo esta excepção sublime conseguirá fazer frente ao surgimento da noite. Existe, assim, uma correspondência com o título do poema e o que Diotima representa: este poema é para Diotima, aquela que, sozinha e condenada à mesma condição temporal que todos os outros, perdura bela, delicada e amável perante este estado humano, precário e inevitável.

Revela-se uma certa predisposição em Hölderlin de contemplar o que foi e passou de modo favorável e de observar o tempo que virá como algo que irá fazer decair qualquer vitalidade de outrora. Até Diotima não escapará a tal fatalidade. Em um diferente poema, Diotima, somos introduzidos nos dois primeiros versos a outra dialética: a de ordem/caos. «Bliss of the heavenly Muse who on elements once imposed order, / Come, and for me now assuage the chaos come back in our time,». É-nos revelada outra temática que se torna verificável nos poemas de Hölderlin: a ideia de que o retorno só é fazível através de elementos extranaturais e atemporais. Sendo normal a deterioração e decadência da passagem inevitável do tempo e da materialidade, Hölderlin invoca uma certa concepção divina que abençoa, que recai especialmente sobre algo ou alguém, de modo a romper com a linearidade temporal. É a partir da concepção intuída nestes dois primeiros versos que abunda, ao longo desse poema, um desejo de retorno, restauração e regresso a algo grandioso, algo capaz de ser executado somente por influência divina (e estimulado pelo acto poético, actividade humana mais próxima do divino, característica comum aos autores Românticos da época):

«(…)
Till the former nature of men, the calm, the majestic,
From our turbulent age rises, restored to its prime.
Living beauty, return to the destitute hearts of the people,
To the banqueting table return, enter the temples once more!
(…)»

(Diotima. Friedrich Hölderlin. Sublinhado para acentuar o vocabulário de súplica ao retorno)

É curioso o acto de rogar ao divino para uma restauração da grandeza de outrora; Hölderlin possui permanentemente um olho no passado e outro no futuro, sendo o próprio a intersecção e culminação desses dois tempos, na sua vertente poética. Seguindo este raciocínio, ocorre uma intensa proximidade entre o que foi e o que virá, o que justificaria a natureza dialética da sua poética, visto que quando ocorre a mudança de sentido, por norma ocorre saltando de temporalidades diferentes. A duração do presente, do momento, consiste na oportunidade de contemplar o passado executando um futuro; o passado pesa e influencia Hölderlin, no sentido em que o futuro é moldado pelo acto de olhar para o passado que, por si só, é impossível de ser experienciado, a não ser futuramente. A intersecção entre estes dois planos compõe o presente. Creio que Hölderlin via como sua responsabilidade e dever, e de qualquer ser humano, o de reconhecer que o presente serve para remembrar o passado e o futuro. O presente, como momento de ligação entre o que fora e o que virá, está subordinado a uma temporalidade anterior e posterior.

II – Aqui e Agora

Dois homens contemplam a lua, ca. 1825–30, Caspar David Friedrich, 1774–1840.

Em Then and Now é possível descortinar uma dialética complacente face à inevitabilidade temporal: Hölderlin estabelece duas diferentes disposições face ao tempo, a disposição dos dias jovens e a disposição dos anos posteriores. Enquanto no primeiro tempo começava os dias com alegria, para chorar ao anoitecer, no segundo começa os dias duvidoso, para terminá-los sereno e abençoado:

«In my youth I enjoyed the morning
And wept at night; now that I’m older
My day begins with doubt but
Its end is sacred and serene.»

(Then and now. Friedrich Hölderlin)

Este poema vai ao encontro da ideia de um presente que se revela sempre como posteridade porque se estabelece como contraste face ao tempo anterior, neste caso, ao tempo em que era jovem. Relacionando ambos os tempos, é possível argumentar que o presente de Hölderlin, dos anos posteriores, é, de facto, um futuro porque colocado em contraste com o tempo anterior; no entanto, mais importante e menos trivial que esta correlação é o facto de que foi possível identificar duas disposições diferentes pela forma como Hölderlin as relaciona com a única constante: a passagem do tempo. Quem mudou de disposição foi Hölderlin. O tempo permaneceu imutável, indiferente à alegria, tristeza, dúvida ou serenidade do poeta. Contudo, algo se sucedeu para que ele mudasse a sua relação com a passagem do tempo. No fim deste poema, Hölderlin é alguém em paz com a inevitabilidade do tempo e a precariedade e fragilidade que impõe sobre a humanidade. Por isso, é curioso que não esteja poetificado nada que identifique algum acontecimento, alguma revelação, alguma ruptura que demonstre a mudança de predisposição que Hölderlin passara a ter. Seguindo este argumento, pode-se intuir que podem existir movimentos de ruptura instantâneos, que provocam mudança imediata no Homem, embora tal não signifique que esteja imune à longa mudança temporal que recai sobre todos os homens e que inevitavelmente acaba por mudá-lo. Creio que neste poema está elucidada essa mudança gradual, lenta e quase ininteligível, embora Holderlin consiga discerni-la: apesar de subordinados à vontade do tempo e à sua precariedade imposta no Homem, o tempo oferece também a possibilidade de mudança no Homem face à sua existência, face à precariedade causada pelo tempo e face ao tempo como entidade subordinante. Seguindo este argumento, confirma-se a possibilidade de alterar o modo como o Homem se relaciona com o tempo. Creio ser este o processo intuído neste poema.

Esta relação do Homem com o Tempo possui também uma característica unilateral: a única variável possível é a predisposição que o Homem poderá ter face à cruel inevitabilidade do tempo, do envelhecimento, do declínio. Embora o elemento variável esteja do lado dele (o tempo, de facto, possui também um elemento variável, mas incorporado no paradoxo de mudança imutável), o irónico emerge pelo facto de que muita dessa possibilidade de mudança de predisposição humana (face ao tempo) está dependente do Tempo. O Tempo aprisiona o Homem e, cruelmente, oferece as ferramentas necessárias para aceitar esse aprisionamento, até ao ponto de nos tornarmos serenos e sagrados face à nossa condição. É este último adjectivo que se revela peculiar: o sagrado (no poema em inglês está traduzido como «sacred») é uma característica que aproxima Hölderlin ao divino. Como já se referiu anteriormente, o divino possui um estatuto atemporal, não se deixando afectar da mesma maneira que um mero mortal. O que Hölderlin parece dar a intuir neste último verso é que uma possível predisposição (que foi consequência de se sentir aprisionado pelo tempo) poderá manifestar-se como forma de se libertar desse tempo, mesmo que de forma efémera. Ao entrar num estado sereno e sagrado, aproxima-se do divino, estabelecendo uma relação que possibilitará, mesmo que efemeramente, Hölderlin sentir-se temporariamente fora da acção do tempo. Os seus finais de dias são sagrados e são pequenas vitórias que são celebradas poeticamente contra o tempo. (Poderíamos relacionar este argumento com os poemas de Diotima analisados no capítulo anterior: também é uma vitória contra o tempo poetificar e aproximar outro ser humano que não Hölderlin a uma atemporalidade divina.)

Esta dialética é fundamental para demonstrar a relevância face a uma certa aceitação: é porque, nos dias jovens de Hölderlin, havia uma noção de declínio (de acordar com alegria para chorar ao anoitecer), que agora, sabendo ele o que a acção do tempo poderá causar, começa os dias duvidoso mas termina-os serena e sagradamente. Há um elemento irónico presente nesta relação, visto que a passagem do tempo causou sobre o autor uma predisposição oposta àquela que o tempo materialmente causa: a predisposição que Hölderlin demonstrava nos seus dias jovens era de complacência, condenação e tristeza, porque todos os dias revelavam um fim; agora, ele conquista o seu tempo todos os dias e, face à inevitabilidade temporal, deixa de haver uma certa complacência triste, mas uma aceitação serena. Esta aceitação permitirá, face a todas as contingências, relacionar-se com o tempo de forma positiva, usufruindo das suas características, possibilidades e mudanças, sem se subordinar negativamente a esse tempo. Este poema possui uma marca profundamente positiva e terapêutica, porque pressupõe ser possível, a partir de dentro da temporalidade absoluta, estabelecer o que se poderia denominar por duração, a capacidade de aceitar e relacionar-se com as inevitabilidades temporais, não como condicionantes, mas como características inerentes da vivência, experiência, contemplação e mudança humanas. Hölderlin reconhece assim o tempo como algo essencial à sua existência, não como algo que impede a concretização do homem.

Caspar David Friedrich: Wanderer above the Sea of Fog

III – Zeitgeist

O tempo é invocado e personificado como uma entidade divina nos dois primeiros versos do poema The Spirit of the Age.

«For too long you have ruled above my head
You in the dark cloud, you God of Time!
Too wild and fearful around me,
Whatever I look at shatters and wavers.

Like a boy, I looked down at the ground,
Sought refuge from you in caverns, and, weakling
That I am, must find a place where you,
Breaker of all things, might not be.

Finally, Father, let me meet you
With open eyes! Wasn’t it you who first
Flashed awake the spirit within me, you
Who so splendidly brought me to life, o Father! —

It’s true, a sacred force gathers in young vines;
In mild air or when they wander calmly
Through the grove, men meet a serene God;
Yet, all-powerful, you awaken

The pure souls of youth and teach
The old, wise arts; the bad only
Grow worse, sooner to meet their end,
When you will seize them, violent one.»

(Spirit of the Age. Friedrich Hölderlin)

Através dessa personificação, o poeta afirma que «For too long you have ruled above my head,»; presume-se que acima dele esteja a entidade divina, que não padece ou sofre das mesmas terrestres limitações, pelo contrário: ela é a entidade que provoca a precariedade sobre Hölderlin. Há demasiado tempo que o tempo paira sobre Hölderlin e força-o a observar o que o rodeia como uma terra «Too wild and fearful around me / Whatever I look at shatters and wavers.»

Na segunda estrofe, Hölderlin confessa que, como uma criança – deste modo reforçando que já não se considera uma -, ele procura um refúgio «(…) from you in caverns / (…), must find a place where you, / Breaker of all things, might not be.» Este poema demonstra que, reconhecendo a inevitabilidade da passagem do tempo que paira sobre ele, não resiste a comportamentos antigos, infantis, onde se presume uma possibilidade de refúgio, onde a temporalidade não o atinja. Hölderlin associa aqui a idade jovem com uma possível ausência de tempo. Embora o tempo não esteja obviamente ausente quando jovem, a noção temporal pode encontrar-se ausente: essa é a predisposição que Hölderlin está a invocar, quando descreve o Deus do tempo e a reacção jovem dele ao mesmo. Contudo, Hölderlin possui, mesmo quando criança, uma noção de tempo incomum: Hölderlin, enquanto jovem, possui a noção do tempo, e é precisamente por presumir que ele paira omnipotente sobre si que procura um refúgio em uma caverna, onde esse «breaker of all things» não o descubra. (Enquanto crianças fugiriam ou procurariam refúgio dos pais, ou de um monstro imaginário, Hölderlin procura refúgio da única inevitabilidade omnipotente da sua existência.) Um pormenor curioso reside na personificação que atribui ao tempo, sendo, de facto, um atributo que normalmente é associado aos jovens: personificar, atribuir entidades a um acontecimento, ou vários, de modo a concentrar a relação normalmente antagónica em um elemento externo a ele, com o propósito de o afastar de si. Neste poema, Hölderlin descreve como a sua atitude para com o tempo enquanto jovem era errónea, ao elaborar uma entidade externa a si, de modo a refugiar-se dela. Neste caso, o tempo adquire uma qualidade divina na primeira estrofe e uma qualidade íntima na segunda, quando Hölderlin se dirige directamente ao tempo no segundo e terceiro versos: «Sought refuge from you in caverns, and, weakling / That I am, must find a place where you / (…) might not be». Ao atribuir uma entidade externa a si mesmo, o Hölderlin-presente invoca o tempo como entidade com um propósito oposto ao de Hölderlin-passado, enquanto jovem: não de procurar um refúgio, mas como possibilidade de diálogo e confrontação, de procurar um certo retorno a uma condição que não é externa a Hölderlin, mas inerente a ele.

Na terceira estrofe, Hölderlin pede ao Pai, o mesmo que lhe deu vida e lhe abençoou o «espírito dentro de si», que o deixe ir ao seu encontro. Deste modo, encontrar o Pai, o Criador, pressupõe uma suspensão temporal, um afastamento do que é o plano terrestre e precário humano. O facto de terminar o poema com uma questão directamente ao seu “Pai” reforça o nível de proximidade que Hölderlin sente com o divino, sendo essa proximidade que irá revelar-se como justificação para buscar uma atemporalidade (mesmo que temporária) através do acto poético.

Hölderlin refere que esse “Pai” desperta «The pure souls of youth and teach / The old, wise arts (…)». A partir deste verso é possível discernir que, embora extra-temporário, o “Pai”, Deus, desempenha um papel temporal sobre o Homem: ele é o que desperta as almas dos jovens e o que transmite artes sábias aos mais velhos. Desta forma, o “Pai”, o Criador, Deus, desempenha um papel relevante no olhar de Hölderlin, o de estimular uma espécie de inspiração pelo contacto que exerce aos homens. A sua atemporalidade, a sua qualidade de «brightening god», contrastam com o plano terrestre desolado da primeira estrofe, e exercem sobre o Homem um deslumbramento divino que só poderá resultar, ou no desejo de prolongamento desse deslumbramento, ou de louvor a esse acontecimento que, embora proveniente de um ser eterno, quando manifestado no plano terrestre, é sempre temporal, finito e extraordinário no olhar do Homem. Este poema é, assim, um louvor à manifestação temporária de uma atemporalidade experienciada por Hölderlin, manifestação atribuída ao Criador de tudo, inclusive do tempo. Desta forma, as “wise arts” são assim a oferta temporária (no sentido em que são oferecidas e possibilitadas somente num tempo futuro de Hölderlin) que o “Pai” abençoou sobre Hölderlin, de forma a finalmente conseguir confrontar o “God of Time” que, quando jovem, procurava refugiar-se.

IV – Os que partem

Há um poema de Hölderlin onde é possível intuir uma não-linearidade temporal, no sentido em que o presente – o instante onde se insere o Homem – possibilita retornos ao passado e progressos para o futuro. Em The Departed, é possível discernir uma dialética que, embora profundamente subordinada ao tempo, não padece da linearidade passado-presente-futuro:

«With my own kind I lived and could grow for a day that was fleeting,
One by one they depart, gone from me into their sleep.
Yet you sleepers within me are wakeful, and in my related
Soul an image of each, fugitive, lingers and rests.
And more living there you live on where the god-given spirit´s
Joy rejuvenates all, all who have aged, and the dead.»

(The Departed. Friedrich Hölderlin)

Este pequeno e íntimo poema começa com uma exortação à companhia humana com quem cresceu, demarcando que «With my own kind I lived and could grow for a day that was fleeting,». Este verso demonstra, através de uma deliberada omissão, que existe outro “tipo” de seres com quem não viveu e cresceu naquela passagem breve que compõe um dia (reforçando a omissão de alguém que não padece dos mesmos dias passageiros e fugazes).

O segundo verso descreve como, um por um, os que partilham da natureza como e com o poeta, partem, «(…) gone from me into their sleep.» Os dias, símbolo do tempo, causam sobre o Homem o sono que afasta todos do poeta. O dormir representado neste poema não corresponde à necessidade biológica do sono, mas personifica a ideia de morte e de finitude. A ideia de adormecer acarreta a ideia de um afastamento entre outros seres, sendo o adormecer um acto interno que afasta o consciente e o real. Ou seja, este verso demonstra que, embora cada ser detenha o seu sono, a sua morte, o seu fim, e sejam características fundamentalmente solitárias, elas são processos universalmente realizados; por isso é que, quer no sono quer na morte, um por um, todos os seres que partilham do mesmo fim solitário partem materialmente de Hölderlin para o seus fins privados e inacessíveis.

No entanto, no terceiro verso, Hölderlin introduz no poema uma dimensão interna, justificando simultaneamente a correlação que fez entre morte e adormecer: os que dormem dentro dele estão acordados («Yet you sleepers within me are wakeful, (…)»). Esta dimensão interior introduzida neste terceiro verso contrasta com os dois versos anteriores, que ocorriam no exterior, através da percepção do poeta. Aqui, mesmo face à morte, mesmo face aos dias fugazes, há algo que permanece desses seres que partem e que partilharam os dias com Hölderlin. Daí que o quarto verso, transportado do terceiro, continue a descrição interna, introduzindo no conceito de alma uma imagem de cada um desses seres transitórios, que agora permanecem e descansam dentro de Hölderlin. Estes dois últimos verbos contrastam com a passagem do tempo, externa à dimensão interior do poeta, como se de um refúgio interior se tratasse: dentro de Hölderlin, aqueles seres que cresceram e viveram com ele, podem finalmente permanecer e descansar. A dimensão interior e da alma não padece das mesmas circunstâncias que o Homem no plano terrestre, subordinado a todas as precariedades inerentes à sua existência. Dentro de si e perto da alma, cada homem adquire um estatuto diferente. «(…), and in my related / Soul an image of each, fugitive, lingers and rests.» Estes quatro versos acima analisados distinguem duas dimensões do ser, a interna e a externa, a do corpo (que decai) e a da alma (que permanece). É através desta última que será possível procurar uma aproximação divina, desta forma provocando um rejuvenescimento de todos os que envelheceram, inclusive os mortos. Aliás, os últimos dois versos são introduzidos com a proposição “And”, funcionando como ponte, prolongamento e desenvolvimento dos dois versos interiores, que discorriam sobre a dimensão interior do Homem. Eis o que dizem os dois últimos versos: «And more living there you live on where the god-given spirit´s / Joy rejuvenates all, all who have aged, and the dead.»

A possibilidade de rejuvenescimento introduzida pela dimensão divina, aproximada pela dimensão interior do Homem, pressupõe um retorno a uma condição exterior ao envelhecimento e à morte. Reconhecendo que, no plano factual e natural, tal é impossível, a possibilidade de oferecer (interiormente) a capacidade de manutenção perpétua e rejuvenescedora a seres que partilharam e cresceram connosco e entretanto partiram, fornece uma intensidade (poética) impossível de ser presenciada no mundo factual. Daí que Hölderlin afirme, no quinto verso, que se vive mais pela graça e alegria de Deus quando se usa a dimensão interior do Homem como receptáculo para a «god-given spirit ́s / Joy» exercer uma influência que contrasta com a existência e precariedade terrestre e humana. A possibilidade de rejuvenescimento acarreta, também, a eternidade, pelo menos enquanto houver uma dimensão interna; desta forma, a imagem intensa dessas pessoas que envelheceram e/ou morreram, permanecerá eterna, imóvel, descansada, intensa. A relação de Holderlin com Deus é, de certa forma, uma tentativa de apaziguar a sua relação com o tempo, a mudança e a precariedade. Deus possibilita uma ponte entre o agora e o que já não existe, sendo Hölderlin – o homem presente – o receptáculo dessa graça divina. Recai sobre Hölderlin a responsabilidade de acordar os que viveram e cresceram com ele dentro de si, mas depende da inspiração divina a possibilidade de os fazer permanecer eternos dentro de Hölderlin. A relação entre estes três aspectos (Tempo-Homem-Deus) é inerente à experiência humana e é uma característica fundamental da poesia de Friedrich Hölderlin. Através deste poema, o autor aprofunda as dimensões da experiência do Homem, bifurcando-as em dimensão externa e interna. A dimensão externa é a que sofre as condições temporais e as experiências humanas, sendo a dimensão interna a que se aproxima ao divino, ao eterno, à imutabilidade, e possibilita a permanência. O ser humano em Hölderlin possui uma natureza que se desdobra e conflui ao mesmo tempo, sofrendo a manifestação do tempo e recebendo a dádiva de Deus. O ser humano em Hölderlin é um ponto de encontro e um ponto de partida.

Retrato de Friedrich Hölderlin (1770-1843) por Franz Carl Hiemer, circa 1792.

Bibliografia

HöLDERLIN, Friedrich. Selected Poems and Fragments. Penguin Books. 1998.