Em meados de junho de 1967, poucos meses depois do famoso ‘Encontro das Tribos’ ou Gathering of the Tribes em San Francisco (EUA) – um festival informal que reunira uma multidão hippie – um grupo de músicos e promotores resolveu organizar o primeiro grande festival de música rock, considerado hoje um inquestionável marco da Contracultura. O Monterey Pop, como muitos o identificam, catapultou para o estrelato três grandes nomes da música popular americana – Janis Joplin, Otis Redding e Jimi Hendrix – que três anos depois estariam mortos.
Tudo começou com um projeto de Alan Pariser (1935-2001), produtor discográfico americano nos anos 60, e Ben Shapiro, promotor, que idealizaram um evento para afirmação da música pop-rock, vista ainda desfavoravelmente face ao jazz e ao folk. Estes géneros musicais vinham conquistando o seu lugar em termos de visibilidade e de adesão do público e já contavam, desde a década de 50, com festivais anuais em Newport (Costa Leste) e em Monterey (Califórnia): jazz a partir de 1954 e 1958, respetivamente, e folk em ambos os locais desde 1963. Mas o rock parecia não ter ainda a confiança da poderosa indústria discográfica americana, que o encarava como uma moda juvenil passageira, com a agravante de estar conotado com rebeldia, violência e consumo de drogas, o que dificultaria a sua comercialização em larga escala.
O objetivo dos promotores era dar visibilidade às novas bandas que estavam a surgir na Califórnia, nomeadamente em Los Angeles (LA) e em San Francisco (SF), com linguagens próprias, repertório original e sonoridades consideradas psicadélicas (inspiradas ou influenciadas pelo consumo de alucinogénios). A organização pretendia, também, trazer à América alguns dos nomes mais importantes da cena musical britânica e proporcionar um espaço de partilha e troca de experiências entre músicos.
Escolhido o local, trataram dos trâmites burocráticos para a utilização do recinto das feiras de Monterey, uma pequena cidade situada 180 quilómetros a sul de San Francisco, onde decorriam anualmente os festivais de jazz e de folk. Mas era prioritário assegurar o cabeça de cartaz que pudesse atrair o público-alvo e, simultaneamente, incentivar outros músicos a aderirem. Para isso, quem melhor do que o grupo californiano The Mamas & The Papas (M&P) que, em pouco mais de um ano, tinha chegado ao auge da fama e emanava uma aura hippie tão cativante e tão consentânea com a época?
Constituída por quatro vozes – duas femininas e duas masculinas, então uma raridade – esta banda pop-rock era liderada por John Phillips (1935-2001) que, além de cantar, compunha, fazia os arranjos, ensaiava os músicos e tocava guitarra, sendo Lou Adler (1933) o manager e produtor. Quando a ideia geral do Festival foi apresentada a Adler e Phillips, propondo-lhes um cachet considerável para que os M&P assegurassem o encerramento, estes, para além de aceitarem participar, encantaram-se de tal forma com o projeto que puseram como condição assumirem eles próprios a direção do evento. Acabaram por estabelecer que o Festival Internacional Pop de Monterey, dedicado à música rock, folk, soul e blues, apresentaria intérpretes de várias nacionalidades ao longo de três dias (16-18 junho) – não apenas um, como inicialmente previsto – agora sob o lema Love, Peace and Flowers.
E como o tempo era escasso e a data marcada deixava apenas sete semanas para organizar tudo, não seria possível angariar financiamento suficiente para pagar a tantos músicos – uns famosos, outros emergentes – nem resolver todas as particularidades contratuais de cada um. Simplificando, resolveram então que seria um evento de beneficência, sem cachet para ninguém, e os lucros seriam doados a entidades dedicadas ao ensino da música para crianças e jovens desfavorecidos.
Pariser e Shapiro tinham associado à sua equipe um experiente Assessor de Imprensa, nada menos do que o britânico Derek Taylor (1932-1997), na época trabalhando para importantes bandas como os Beach Boys e os Byrds, mas com a aura de ter trabalhado anteriormente com os Beatles. Shapiro acabou por se afastar do projeto – ou, segundo alguns, foi afastado com uma choruda indemnização[1] – mas Pariser manteve-se como coorganizador com Adler e Phillips, que se entregaram à tarefa de corpo e alma. O primeiro apoiava-se na sua experiência e contactos profissionais, o outro na sua amizade e relações musicais com um grande número de artistas.
A montagem passo a passo
John Phillips recorda, numa entrevista no ano seguinte, que começaram logo a fazer telefonemas a prestigiados músicos do seu meio, procurando apoios. Entre eles, John Lennon (1940-1980) e Paul McCartney (1942), dos Beatles, Terry Melcher (1942-2004), produtor discográfico e músico, Paul Simon (1941) e os próprios Adler e Phillips, doaram cada um dez mil dólares para abrirem uma conta no banco e arrancar com o Festival, criando a Fundação que iria gerir os dinheiros do evento (e que continua em atividade, sessenta anos depois).[2]
Entretanto decorriam reuniões e muita diplomacia para convencer as autoridades e instituições locais de que seria um evento sério, de jovens para jovens, é certo, mas que não haveria situações negativas para os habitantes, receosos que estavam de sofrer inconvenientes como os que assolavam a cidade de San Francisco com o crescente fluxo hippie. Os promotores não pouparam esforços para envolver todo o tipo de pessoal local que quisesse participar (muitos, certamente voluntários), o que acabaria por criar uma relação de confiança favorável à organização.
A todos os músicos participantes era oferecida a viagem até Monterey (em 1ª classe), alojamento e alimentação de qualidade (incluindo lagosta e outras iguarias), uma vez que atuavam gratuitamente. Nos bastidores havia um confortável espaço reservado aos artistas onde, de facto, se gerou um clima de confraternização e familiaridade entre todos, sem hierarquias, e onde ocorreram por vezes sessões de improvisação coletiva [jam sessions].
Os equipamentos de som e de luz instalados no local eram de ótima qualidade, ao contrário do habitual – o que foi notado e apreciado tanto pelos músicos como pelos críticos – tendo sido escolhidos com o propósito de garantir uma experiência excecional tanto para a audiência como para os artistas, tão habituados a más instalações sonoras em concertos ao ar livre.
Em contrapartida, todos (aliás, quase todos) assinavam um documento prescindindo dos direitos de gravação e filmagem, uma vez que havia o projeto de fazer um documentário para um canal de televisão.
Músicos presentes e ausentes
Os Mamas & Papas tinham andado em digressão com Simon & Garfunkel (S&G) e admiravam-se mutuamente, o que facilitou o convite a Paul Simon para o seu famoso duo encerrar a primeira noite. Com o OK de S&G o projeto ganhava credibilidade e avançava – já não era só a malta da Califórnia – agora com a garantia deste cabeça de cartaz de Nova Iorque. Simon aceitou também colaborar com a direção do Festival e recomendou que trouxessem uma cantora folk britânica praticamente desconhecida, Beverly [Kutner/ Martin] (1947-2026). Foi também ele quem, depois do evento, ficou encarregado de entregar um cheque a uma instituição nova-iorquina escolhida para receber um donativo financeiro em nome do Festival e de todos os músicos.
Havia uma enorme expectativa de que através de Derek Taylor se conseguisse que os Beatles participassem – o que seria a coroa de glória – uma vez que era conhecida a decisão da banda de não voltar a tocar em público. Paul McCartney confirmou que não haveria Beatles em palco nunca mais, mas como membro do Conselho de Diretores [Board of Directors] insistiu muito para que não deixassem de convidar Jimi Hendrix (1942-1970), um americano com uma carreira fulgurante em Inglaterra, mas ainda desconhecido nos Estados Unidos.
Por seu lado, Michelle Phillips (1945) – participante na organização ao lado do seu marido, angariando publicidade paga para o folheto do Festival – era de opinião que deviam trazer um cantor negro fenomenal que ela tinha ouvido num clube em LA, Otis Redding (1941-1967). Redding seria de facto uma das grandes revelações do Festival.
Além de outros músicos e grupos locais, foram convidadas as mais destacadas bandas de San Francisco – nenhuma das quais ainda com projeção a nível nacional – Jefferson Airplane, Greatful Dead, e Big Brother & the Holding Company, esta última com a vocalista praticamente desconhecida Janis Joplin (1943-1970).
De Los Angeles vieram os Byrds – considerados os pioneiros do folk-rock, muito influenciados pelos Beatles e já com um amplo reconhecimento – e os Buffalo Springfield, ainda numa trajetória ascendente e promissora, mas num momento crítico devido à ausência inesperada de Neil Young (1945), que tinha abandonado o barco (como aliás viria a fazer com diversos grupos ao longo da sua carreira). Seria substituído temporariamente por um colega e amigo da banda, David Crosby (1941-2023), dos Byrds.[3] Os Doors, aparentemente, tinham nesse fim-de-semana compromissos de agenda, mas subsistem dúvidas se terão chegado a ser convidados.
De fora ficaram também os Beach Boys, na altura com concertos na Europa, mas o seu líder, Brian Wilson (1942-2025), solidarizou-se com o Festival e integrou o Conselho de Diretores, que contava igualmente com outros nomes importantes, como Donovan (1946), músico folk escocês, impedido de atuar por não conseguir visto de entrada nos EUA (devido a um recente caso de posse de cannabis).
À boa maneira hippie, a organização não tinha a certeza absoluta de quem participaria efetivamente, constatando a desistência de Dionne Warwick (1940) já perto do início do festival. Note-se que o curto prazo com que tudo fora planeado significava que muitos músicos já tinham compromissos prévios e, como não seriam pagos em Monterey, não podiam arriscar-se a cancelar agendamentos. Otis Redding andava em digressão e não se conseguia contactar para confirmar se, ou quando, viria. De facto, havia alguma hesitação da parte dos managers e de alguns músicos, uma vez que o evento era organizado por colegas muito bem-intencionados, mas sem experiência profissional nesta área. Haveria mesmo Festival… ou seria um tal amadorismo que acabaria em descalabro? Note-se que os músicos mais proeminentes tinham entre 20 e 26 anos e os principais organizadores rondavam os 30.
Devido às rivalidades latentes entre os músicos de SF e os de LA – os primeiros consideravam-se mais dedicados à música pela música, acusando os colegas do sul, situados geograficamente na área dos estúdios, de terem objetivos comerciais – as bandas de San Francisco hesitavam, desconfiadas, ainda para mais sendo o Festival organizado por pessoal de Los Angeles. À cautela, os promotores tinham mesmo recorrido a figuras proeminentes de San Francisco como consultores – Bill Graham (1931-1991), ele próprio promotor de concertos, e Ralph Gleason (1917-1975), crítico musical – para credibilizar a organização e eventualmente influenciar estes músicos.[4] No entanto, se à última da hora uma banda de SF acabasse por desistir, as outras, por solidariedade, também cancelariam. Além de tudo, sendo pro bono, não havia contratos formais.
No plano internacional, estavam garantidos os britânicos Eric Burdon (1941) & The New Animals e a banda The Who, o sul-africano Hugh Masekela (1939-2018), trompetista da área do jazz, e a banda canadiana The Paupers com o rock psicadélico de Toronto. Destaca-se a presença de Ravi Shankar (1920-2012), a primeira vez que um músico indiano participava num festival de música pop na América, tocando música clássica do seu país. Respeitado citarista internacional, quase quinquagenário, era o único a receber cachet, de entre os trinta e um grupos/solistas participantes (tinha sido contratado antes de decidido o formato de beneficência).
O ambiente fervilhante
A divulgação, extremamente eficiente, deixava uma enorme expectativa não só no público mas também nos músicos, que apareciam com frequência no escritório, então montado numa zona central de Los Angeles, a partir de onde o Festival ganhava forma. Muitos tinham a perceção de que iriam pela primeira vez ter contacto direto com colegas que tanto admiravam e que só conheciam da rádio e dos discos. Em Inglaterra, o semanário Melody Maker (MM) anunciava o programa [provisório] uma semana antes – “It’s Happening in Monterey” – afirmando que muitas grandes estrelas da Costa Oeste estavam a colaborar com os organizadores.[5]
Em maio tinha sido lançado o single “San Francisco (Be Sure to Wear Some Flowers in Your Hair)”, canção escrita e produzida por John Phillips e gravada pelo seu amigo Scott McKenzie (1939-2012), que visava promover o evento, retratando os ideais hippies plenamente em vigor em San Francisco. O sucesso instantâneo, chegando de imediato ao nº1 das tabelas de vendas no Reino Unido (nº4 nos EUA e nº6 no Canadá), atraía uma multidão de jovens que procuravam estilos de vida alternativos e se identificavam com as propostas do Festival.
O campo de futebol do Monterey Peninsula College tinha sido transformado em parque de campismo onde se acomodavam cerca de vinte mil pessoas e onde, pontualmente, alguns músicos acabariam por tocar, em sessões informais de improvisação a que os campistas assistiam gratuitamente.[6] Relatos posteriores de alguns participantes referem um ambiente de convívio e partilha generalizado, entre profissionais e pessoas de diversos estatutos, inclusivamente nos motéis circunvizinhos onde eles próprios estavam alojados.
O recinto do espetáculo, com lotação mais do que esgotada, consistia numa plateia de sete ou oito mil cadeiras rodeada de uma pequena multidão em pé, estimada em dois milhares, calculando-se ainda que na envolvente exterior estariam umas dez mil pessoas sem bilhete. Notícias divergentes estimam entre duzentas mil e [mais provavelmente] sessenta mil pessoas nos três dias.
Segundo um jornalista britânico, o espaço estava decorado com enormes balões coloridos e luzes, havendo também barracas de venda de frutas e expositores vendendo todo o tipo de coisas ‘bonitas’,[7] certamente em sintonia com o gosto pelo artesanato e bijuteria de tipo ‘étnica’ tão em voga. Vários autores salientam a alegria patente nos presentes, a relação descontraída e espontânea entre desconhecidos, a criatividade festiva dos trajes de cada um – que incluía roupa exótica, anacrónica, original, numa enorme variedade de modelos e padrões – com chapéus de personagens históricos ou lenços e écharpes de cores vivas ao pescoço e, claro, com flores no cabelo.
Cem mil orquídeas tinham sido lançadas de helicóptero sobre o recinto, fazendo jus ao lema do Festival e contribuindo para o ambiente idílico que se fazia sentir.[8] Algumas dessas flores foram colocadas, sem resistência nem oposição, nos bolsos e nos canos das armas dos guardas que prestavam serviço no recinto, criando uma inesperada relação de simpatia entre o público e as forças da ordem.
Embora preocupadas com a possível circulação de drogas – presumivelmente marijuana e ácido, muito disseminadas entre os jovens – as autoridades acabariam por não interferir repressivamente. A propósito, Paul Simon lembra a figura icónica de Owsley Stanley (1935-2011), técnico de som dos Greatful Dead e conhecido fabricante e distribuidor de comprimidos roxos no local, que abastecia simpaticamente todos os interessados.[9] Note-se que o LSD (ácido lisérgico) só no ano seguinte seria proibido nos EUA, pelo que era partilhado e consumido às claras. David Crosby especifica que Owsley apresentava uma gama de produtos com diferentes graduações, designadamente os White Lightning ou os famosos Purple Haze, para além de uns frasquinhos azuis com ácido, o Blue Cheer.[10] Michelle Phillips, numa das muitas entrevistas que foi dando ao longo dos anos, recorda que a organização tinha montado um posto médico no local, nomeadamente para apoiar os que tivessem problemas decorrentes do consumo de drogas: más viagens ou overdoses.[11]
Pessoas e performances
É assinalada a presença de uma multidão de cerca de mil e cem repórteres – uns credenciados, outros apenas tentando convencer a organização a dar-lhes um livre-trânsito (ou vários)[12] – apesar de, na época, a música pop praticamente não ter cobertura nos principais órgãos de comunicação social dos EUA. Mas os esforços de Derek Taylor tinham conseguido atrair centenas de jornalistas e fotógrafos de jornais e revistas, bem como equipas de rádio e de televisão, de diversas partes do mundo.
Algumas celebridades – amigos ou familiares dos envolvidos, ansiosos por participar na festa – faziam voluntariado nos bastidores servindo refeições, entre as quais a famosa cantora e atriz dos anos 40/50 Doris Day (1922-2019), mãe de Terry Melcher (envolvido na organização), ou a atriz Kim Novak (1933), por essa altura ligada ao meio musical pela escrita de letras para cantores folk.[13] É reportada também a presença dos Smothers Brothers, dois irmãos músicos/comediantes que se tinham celebrizado em programas televisivos de variedades, que alguns artistas se espantavam de encontrar ali, cara a cara, ainda por cima a trabalhar.[14]
Na assistência encontravam-se diversos agentes, produtores e executivos ligados à indústria musical, entre os quais o intimidante Albert Grossmann (1926-1986), manager de Bob Dylan (1941) e mais tarde também de Janis Joplin, Clive Davies (1932-1926), diretor da respeitável Columbia Records, que assinaria em breve Janis para a sua discográfica, ou Jerry Wexler (1917-2008), vice-presidente da Atlantic Records, que tinha incentivado a participação de Otis Redding em Monterey. Estavam também os músicos Micky Dolenz (1945), cantor e baterista dos muito célebres Monkees, e o seu colega de banda Peter Tork (1942-2019), que apresentaria os Buffalo Springfield em palco, tal como Brian Jones (1942-1969), guitarrista dos Rolling Stones, faria no último dia com Jimi Hendrix.
O Festival começou numa sexta-feira à noite com nomes não muito conhecidos, encerrando com o grupo de fama internacional Simon & Garfunkel, duas vozes harmonizando na perfeição, acompanhando-se suavemente com guitarra acústica.
A tarde de sábado foi preenchida por grupos pouco conhecidos, incluindo a banda de rock Big Brother and the Holding Company, cuja cantora, Janis Joplin, surpreendeu toda a gente com uma atuação absolutamente explosiva. Era o único grupo que não tinha autorizado filmagens, por decisão do seu manager (o qual se arrependeu rapidamente), mas o sucesso foi de tal maneira estrondoso que acabou por se conseguir que voltassem ao palco no domingo, para serem filmados e ficar documentado este momento histórico.
Na noite de sábado apresentaram-se bandas mais famosas, entre as quais os Byrds (LA) e os Jefferson Airplane (SF). Atuaram depois os Booker T. & the M.G.’s, músicos de estúdio de Memphis que, com a secção de sopros The Mar-Keys, encerravam a noite acompanhando o fenomenal Otis Redding, praticamente desconhecido do grande público, mas cuja performance arrebatou completamente a assistência e os muitos músicos presentes.[15]
Numa escolha arriscada, a tarde de domingo foi preenchida unicamente por uma longa apresentação de música indiana de matriz clássica – Ravi Shankar acompanhado por tabla (percussão) e tampura (cordas friccionadas) – que conseguiu envolver a enorme plateia num encantamento mágico durante horas, ultrapassando todas as expectativas da organização. A receção foi estrondosa, para o que certamente terá contribuído, indiretamente, o envolvimento de George Harrison (1943-2001) e dos Beatles com a música indiana desde uns anos antes.
À noite voltou então Janis Joplin com a banda – de novo o público em delírio – e mais tarde os Buffalo Springfield (LA) e os Greatful Dead (SF). Destaca-se no entanto a atuação espetacular dos britânicos The Who, com a destruição súbita de uma guitarra e massacre dos amplificadores, seguido de um violento ataque à bateria, que ficava também destroçada, enquanto os assistentes de palco se esgueiravam rapidamente tentando salvar os caros microfones. Consta que em Inglaterra esta banda competia em excentricidade com a Jimi Hendrix Experience, procurando cada uma superar a outra em palco, pelo que em Monterey tinham atirado moeda ao ar para decidir quem atuaria primeiro, tendo assim mais probabilidades de surpreender o público.
Não obstante, este ambiente de agressividade e destruição seria suplantado pela muito inovadora Jimi Hendrix Experience. Não só pela notabilíssima execução guitarrística de Hendrix que, além de musicalizar os efeitos de feedback dialogando com o altifalante – coisa nunca vista – e de também cantar, se entregou a uma performance teatralizada que incluía por vezes tocar com os dentes ou com o instrumento atrás das costas e, finalmente, simular uma relação sexual com a guitarra, sem nunca interromper a música. Para assinalar o final, verdadeiramente orgástico, ficou para a História a cena do frasquinho com gasolina de isqueiro que Jimi despejou em cima da guitarra – nesta altura exangue, jazendo por terra – acendendo um fósforo atrás do outro para atear fogo à pobre Fender, que não se deixava arder facilmente. Foi preciso martelar repetidamente com o instrumento no chão, ainda ligado e produzindo um estertor fielmente suportado pela banda – baixo e bateria – até se desfazer em pedaços, que o músico generosamente arremessou para a plateia. Uma espantosa experiência![16]
Depois disto, cabia aos anfitriões – The Mamas & The Papas – encerrar o Festival, apresentando o seu repertório pop-folk… mas apesar dos receios, o público reagiu muito bem à sua atuação, acolhendo os organizadores calorosamente. Programado ou não, Scott McKenzie subiria também ao palco para, com eles, cantar o já considerado hino da temporada, “San Francisco (Be Sure to Wear Some Flowers in Your Hair)”.
As grandes revelações
Terminado o Festival, para além das boas memórias e do balanço extremamente positivo da generalidade dos presentes – incluindo autoridades e forças de segurança – alguns dos artistas participantes entraram num ritmo alucinante de projetos e atividade profissional.
Tendo começado a cantar em público desde muito novo, aos 25 anos Otis Redding estava a fazer uma carreira muito consistente e já com algum reconhecimento internacional, tendo atuado nos Estados Unidos, Caraíbas, Canadá e Europa, apresentando-se também em importantes programas de televisão. Depois de Monterey voltaria a cantar no Canadá e em diversos estados americanos, mantendo também uma intensa atividade de estúdio. Em setembro surge em 1º lugar nas preferências dos leitores do Melody Maker, na votação anual do público referente a intérpretes masculinos, à frente de Elvis Presley (1935-1977) e outras estrelas americanas e britânicas.[17]
Mas a fama estava a cobrar o seu preço. Otis adquire uma rouquidão crónica, resultante de pólipos nas cordas vocais, sendo submetido a uma cirurgia e a um longo período de recuperação. Volta aos concertos em novembro, com uma voz nova, gravando intensivamente, intercalando o estúdio com a sobrecarregada agenda de concertos.
No auge da carreira, o músico tinha agora meios financeiros para otimizar o tempo das frequentes deslocações, adquirindo uma pequena aeronave que podia transportar juntamente os músicos e o equipamento. Tudo parecia correr bem quando, numa dessas viagens, a poucos quilómetros da pista de aterragem, o piloto perdeu o controlo da aeronave, aparentemente em consequência das péssimas condições meteorológicas, provocando a queda e imediato afundamento do avião num lago gelado. O corpo de Otis só foi encontrado no dia seguinte, no fundo do lago, ainda preso com o cinto de segurança, sendo hoje admissível que tivesse ficado imediatamente inconsciente com o embate do aparelho.
Jimi Hendrix, vindo de uma família problemática e com um historial de rebeldia juvenil, aos 18 anos tinha-se alistado como voluntário no exército. Saindo ao fim de quinze meses (por lesão ortopédica durante um treino), passaria os quatro anos seguintes a viver como um sem-abrigo em diversas cidades americanas, tentando ganhar a vida a tocar guitarra em cafés e clubes, dormindo nos locais mais sórdidos e chegando a passar fome, mas sempre procurando agarrar uma oportunidade de mudança – às vezes para melhor, outras nem por isso. Em 1966, estando em Nova Iorque e já com experiência como guitarrista em inúmeras bandas alheias, surgiu um convite de Chas Chandler (1938-1996), músico da banda britânica The Animals, que o ouviu tocar e o desafiou a ir para Inglaterra fazer carreira.
Na situação em que estava, Hendrix não tinha nada a perder e era mais uma tentativa de afirmar a sua criatividade e desenvolver os seus projetos como artista em nome próprio, pelo que arriscou. Foi aí que, com a ajuda do seu novo mentor e manager, encontrou os parceiros Noel Redding (1945-2003) e Mitch Mitchell (1946-2008) – baixo e bateria, respetivamente – com quem criou a Experience. Em poucos meses fizeram dezenas de concertos em Inglaterra e noutros países europeus, publicaram os seus primeiros singles com imenso sucesso e lançaram o primeiro álbum, numa escalada que não tinha qualquer comparação com tudo o que Jimi tinha feito no seu país.
Segundo afirmou depois de Monterey, o Festival ajudou-o a vender de repente mais dez mil discos. No mês seguinte teria a sua primeira digressão nos EUA e tornava-se numa estrela internacional.[18] Em 1970, esgotado pelo trabalho e ritmo de vida alucinante, viria a falecer em Londres, supostamente durante o sono, de causas até hoje não completamente esclarecidas.
Janis Joplin, a jovem texana que tinha fugido de casa na adolescência em busca do sonho californiano, depois de uma fase experimental – em que literalmente experimentou tudo o que havia para experimentar na área de San Francisco – e de voltar para casa num lastimável estado de dependência de certas substâncias, tinha recuperado e regressado a San Francisco a convite dos Big Brother & The Holding Company, que procuravam uma vocalista. Com esta banda psicadélica Janis foi-se aperfeiçoado e ganhando experiência profissional, tornando-se a pouco e pouco reconhecida, a nível local, como membro da banda de pleno direito.
Mas depois de Monterey já não havia dúvidas de que era muito mais do que isso. Janis passou a aparecer com frequência na imprensa, fotografias suas acompanhando as notícias. Se antes a banda conseguia ganhar cerca de 400 dólares num fim-de-semana, no final de 1967, com um novo estatuto, cobrava 2.500 por uma só noite. Em efervescência, o grupo lançou três singles entre agosto e fevereiro do ano seguinte. E a editora, tentando capitalizar o sucesso do Festival, resolveu lançar um álbum compilando gravações antigas, o que deixou os músicos furiosos. Mas um conceituado representante nova-iorquino da indústria discográfica, Clive Davis, absolutamente rendido com a prestação de Janis em Monterey, estava em sérias negociações para comprar o contrato da banda para a Columbia Records. Dito e feito. Em agosto de 1968 era com esta etiqueta que saía o segundo álbum dos Big Brother, Cheap Thrills, o qual afirmaria Janis, indiscutivelmente, como uma grande estrela.
A cantora mudaria de banda por pressões de muitos quadrantes – duas vezes entre 1968 e 1970 – sendo aconselhada a procurar um suporte instrumental compatível com o seu nível artístico. O excesso de trabalho daí decorrente, entre ensaios, concertos e estúdio, para além da instável vida afetiva, levavam Janis a procurar consolo artificial no álcool e nas drogas, perdendo facilmente o controle dos consumos. No pico da fama, feliz por finalmente ter reconhecimento e folga financeira, a cantora viria a falecer de uma overdose acidental em outubro de 1970, numa fase avançada da gravação de um novo álbum, Pearl, lançado postumamente e alcançando o nº1 das tabelas em vários países.[19]
O filme: Monterey Pop
A organização do Festival tinha firmado um contrato com o canal de televisão ABC para documentar o evento, convidando para isso o realizador D. A. Pennebaker (1925-2019), que acabava de estrear em San Francisco um documentário dedicado a Bob Dylan. Embora não houvesse ainda um modelo para filmar concertos de música popular, o realizador concebeu o seu plano, contratou pessoal e definiu o posicionamento estratégico de cinco camaras portáteis mais duas fixas, assim como os diversos microfones, entre os quais um virado para a plateia.
Quando finalmente visionaram o material filmado – Pennebaker, com Phillips e Adler como produtores – pareceu-lhes que o filme seria mais adequado para cinema do que televisão, o que permitiria um documentário com maior duração e mais possibilidades a nível de circulação internacional, rentabilizando o fenomenal sucesso do Festival. Como tinha havido muito empenho na qualidade de captação do som direto nos concertos, com bons microfones e bons gravadores – um dos quais cedido por Brian Wilson, dos Beach Boys – havia condições para optar pelo cinema.
Na apresentação ao responsável do referido canal, os produtores, manhosamente, mostraram excertos dos momentos mais chocantes das atuações dos Who e de Hendrix – ambos destruindo violentamente instrumentos em palco – levando-o a rejeitar liminarmente o documentário, afirmando que de modo algum passaria tal coisa no seu exemplar programa para famílias. Libertos da obrigação contratual, os responsáveis apresentaram Monterey Pop no final de 1968, sendo recebido com enorme entusiasmo pelo público das salas de cinema.
O filme inclui uma seleção das atuações que se tornaram históricas, intercaladas com imagens do ambiente envolvente e breves comentários de alguns participantes, retratando para a posteridade um momento decisivo da contracultura e, mais especificamente, do então designado Flower Power.
Dada a sua natureza, em 1986 achou-se oportuna a comercializado em formato videocassete (VHS), ano em que Pennebaker edita também dois curtos filmes com as atuações integrais de Hendrix e de Redding. Com a evolução tecnológica e o desaparecimento progressivo das cassetes, o filme seria lançado em DVD em 2002 e reeditado em 2017 (35º e 50º aniversários, respetivamente), o último com entrevistas a Lou Adler e ao realizador, entre outros extras. Em 2018 Monterey Pop foi selecionado pela Biblioteca do Congresso para preservação no Registo Nacional do Filme dos Estados Unidos.
Um ano e meio depois de Monterey
Por ocasião da antestreia do filme, no Natal de 1968, muita água tinha corrido debaixo das pontes.
Os Mamas & Papas tinham-se separado, assim como os Buffalo Springfield, e os Big Brother tinham perdido a sua companhia, Janis Joplin, agora prosseguindo uma carreira a solo com uma nova banda. David Crosby tinha sido despedido dos Byrds na sequência da sua colaboração com os Springfield em Monterey (sem ter informado os colegas, entre outras desavenças). Stephen Stills (1945), reconhecido músico dos Springfield, e Crosby, ambos desempregados, tinham-se aproximado musicalmente e estavam a trabalhar num novo projeto com o ex-membro dos Hollies, Graham Nash (1942), criando o que viria a ser a superbanda Crosby, Stills & Nash, com um estrondoso êxito instantâneo.
Os Jefferson Airplane tinham deixado de ser apenas um fenómeno local, ganhando folego e reconhecimento a nível nacional com o lançamento de vários sucessos discográficos e aparição em importantes programas televisivos de grande audiência. Em finais do verão de 1968 tinham embarcado na sua primeira grande digressão europeia.
Clive Davis tinha assinado, para além da sua querida estrela Janis Joplin, também outros músicos/bandas que conheceu em Monterey, nomeadamente Laura Nyro (1947-1997), cantora e autora de canções, e The Electric Flag, banda de rock-blues, tendo ainda negociado, sem efeito, a Steve Miller Band, do guitarrista Mike Bloomfield (1943-1981), e os Quicksilver Messenger Service com o seu rock psicadélico, ambas de San Francisco.[20]
Otis Redding tinha morrido num acidente aéreo a 10 de dezembro de 1967, deixando em choque todos quantos o admiravam como pessoa e como estrela em ascensão. O seu disco “(Sittin’ on) The Dock of the Bay”, lançado postumamente em janeiro/68, foi o seu primeiro single Nº1, sendo a primeira vez que um músico falecido alcançava este patamar.[21]
Os icónicos Simon & Garfunkel tinham ficado bloqueados com o rumo fulgurante que a nova música seguia, sentindo-se num beco sem saída e desfasados dessa realidade. A balada folk estava a ser submergida pelas novas sonoridades psicadélicas e, sobretudo, pelas inovações tecnológicas que o trabalho de estúdio possibilitava, magistralmente exploradas no álbum-sensação dos Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado duas semanas antes de Monterey. No entanto, em breve surgiria uma oportunidade de ouro para S&G: o convite para fazer música para um filme de Mike Nichols – The Graduate [A primeira noite], estreado em dezembro de 1968 – que viria a receber vários prémios, entre os quais um Grammy pela banda sonora.
Inspirado pela forte impressão que o Festival lhe deixou, Eric Burdon tinha escrito e gravado com a banda um dos seus maiores sucessos – intitulado justamente “Monterey” (dez. 1967) – relatando os três dias de música, fraternidade e flores, nomeando alguns dos participantes e citando-os musicalmente.
Shankar tinha lançado um álbum com parte da sua atuação em Monterey, intitulado Live: Ravi Shankar at the Monterey International Pop Festival (nov. 1968). Outras gravações seriam publicadas em disco, nomeadamente Historic Performances Recorded at the Monterey International Pop Festival (1970), inteiramente preenchido pelas atuações de Hendrix e Redding. No 35º aniversário do Festival seria lançada uma coletânea de quatro CD, abrangendo então um vasto leque de artistas, intitulada Monterey International Pop Festival, com o sugestivo subtítulo de “The Definitive Document Of The First Rock Festival!”.
Memórias: o sonho global
Segundo o investigador e autor americano Jonathan Gould (1951), depois de Monterey a imprensa generalista americana passou a dar mais cobertura a assuntos da música popular, proporcionando mais visibilidade a artistas anteriormente desconhecidos do grande público.[22]
O jovem Jann Wenner (1946) – jornalista americano que poucos meses depois fundaria a revista Rolling Stone, dedicada à música rock – reportava de San Francisco para o semanário Melody Maker, após o Festival, elogiando os músicos britânicos presentes e destacando o bom nível das bandas de SF. Mas não disfarçava o entusiasmo pelo «soberbo momento para o rock ‘n’ rol», reiterando que era «o primeiro festival de música deste género e o primeiro a ser organizado pelos próprios músicos», confessando: «Foi um grande fim-de-semana!».[23]
Sem dúvida foi um vislumbre paradisíaco – de música e juventude, de paz e amor, de ingenuidade e utopia – e ajudou a esquecer o inferno da guerra no Vietname, dizimando incessantemente centenas de jovens americanos e milhares de cidadãos vietnamitas. Foi também a faísca que desencadeou o que viria a ser o famoso Festival de Woodstock – Music and Art Fair: 3 Days of Peace & Music – dois anos mais tarde, na Costa Leste, com uma dimensão incomensuravelmente maior, que também ficaria registado em filme.
Michelle Phillips – na altura com 22 anos – como única sobrevivente dos Mamas & Papas (desde 2007) tem dado incontáveis depoimentos sobre este acontecimento histórico em que participou como artista e como produtora, não escondendo o seu enorme entusiasmo quando o designa como «o grande festival de sonho que mudou a face do rock ‘n’ roll».[24]
BIBLIOGRAFIA
Altham, Keith: “Monterey Pop”. The History of Rock, 1967, s.d. (76-79)
Browne, David: Crosby, Stills, Nash & Young, 2020
Crosby, David e Carl Gottlieb: Long Time Gone, 1988/2007
Davis, Clive: The Soundtrack of my Life, 2013
George-Warren, Holy: Janis, her Life and Music, 2019
Gould, Jonathan: Otis Redding, An Unfinished Life, 2017
Hendrix, Jimi e Peter Neal (ed.): Starting at Zero, His Own Story, 2014
Hilburn, Robert: Paul Simon, The Life, 2018
Joplin, Laura: Love, Janis, 1992
Phillips, Michelle: California Dreamin’, 1986
S.a.: “It’s Happening in Monterey”. Melody Maker, 10-06-1967 (8-9)
Taylor, Derek, As Time Goes By, 2018
Wenner, Jann: “British Groups ‘Smash’ at Monterey!”. Melody Maker, 24-06-1967 (8-9)
- Crosby, 122. Taylor, 28. Phillips, 130. ↑
- FOUNDATION — Monterey International Pop Festival Ver também John Phillips, entrevista (1968) Interview with John Phillips After 1968 Monterey Pop Festival Concert (Audio) ↑
- Browne, 24. ↑
- George-Warren, 197. ↑
- S.a.: “It’s Happening in Monterey”. Melody Maker, 10-06-1967, 8-9. ↑
- George-Warren, 198. ↑
- Altham, 78. ↑
- Phillips, 131-132. ↑
- Hilburn, 113. ↑
- Crosby, 122. ↑
- Entrevista a Michelle Phillips, Library of Congress, 2021 Monterey Pop with Michelle Phillips ↑
- Taylor, 73. ↑
- Entrevista a John Phillips. Interview with John Phillips After 1968 Monterey Pop Festival Concert (Audio) ↑
- Gould, 410. ↑
- Embora geralmente anunciado apenas como Booker T. & the M.G.’s – um quarteto com teclas (Booker), guitarra, baixo e bateria – na verdade apresentaram-se em Monterey acompanhados com os Mar-Keys, neste caso com trompete e dois saxofones. Existe um vídeo de D. A. Pennebaker, disponível online, da apresentação completa de Otis Redding em Monterey: Shake! Otis at Monterey, 1986 (19’). Otis Redding – Live at Monterey Pop Festival 1967 (4K Remaster Upscale) – YouTube [consultado 20 Ag. 2026] ↑
- Em 1986 o realizador Pennebaker editou um filme com uma curta introdução documental: Jimi Plays Monterey (49’) Bing Vídeos [consultado 20 Ag. 2026] ↑
- Gould, 424. ↑
- Hendrix, 69-70. ↑
- Texto sobre Janis Joplin baseado maioritariamente em: Joplin, 1992. ↑
- Davis, 68-69, 79-80. ↑
- Gould, 445. ↑
- Gould, 419. ↑
- Wenner, 8-9. ↑
- Phillips, 117. ↑
