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Do Uso do Conhecimento na Sociedade

Do Uso do Conhecimento na Sociedade”, por Friedrich A. Hayek. Publicado originalmente na revista The American Economic Review, Volume 35, Nº 4 (setembro de 1945), pp. 519-530. Tradução nossa.

Qual é o problema que pretendemos resolver quando tentamos construir uma ordem económica racional? Partindo de certos pressupostos familiares, a resposta é bastante simples.

Se possuirmos toda a informação relevante, se pudermos partir de um sistema de preferências dado, e se dominarmos o conhecimento completo dos meios disponíveis, o problema que resta é puramente lógico. Ou seja, a resposta à questão de qual é o melhor uso dos meios disponíveis está implícita nos nossos pressupostos. As condições que a solução deste problema ótimo deve satisfazer foram plenamente elaboradas e podem ser enunciadas da melhor forma em termos matemáticos: resumidamente, elas são que as taxas marginais de substituição entre quaisquer duas mercadorias ou fatores devem ser as mesmas em todas as suas diferentes utilizações.

Contudo, este não é, de forma alguma, o problema económico que a sociedade enfrenta. E o cálculo económico que desenvolvemos para resolver este problema lógico, embora constitua um passo importante para a solução do problema económico da sociedade, ainda não fornece uma resposta para ele. A razão é que os “dados” de que parte o cálculo económico nunca estão “dados” para toda a sociedade a uma única mente que possa tirar as suas implicações — e nunca poderão estar.

O caráter peculiar do problema de uma ordem económica racional é determinado precisamente pelo facto de que o conhecimento das circunstâncias de que temos de fazer uso nunca existe de forma concentrada ou integrada, mas apenas sob a forma de fragmentos dispersos, incompletos e frequentemente contraditórios que os diversos indivíduos possuem. O problema económico da sociedade não é, portanto, meramente um problema de como alocar recursos “dados” — se “dados” for entendido como dados a uma única mente que resolve deliberadamente o problema colocado por esses “dados”. É, antes, um problema de como assegurar o melhor uso dos recursos conhecidos por qualquer dos membros da sociedade, para fins cuja importância relativa apenas esses indivíduos conhecem. Ou, resumindo, é um problema de utilização do conhecimento que não é dado a ninguém na sua totalidade.

Este caráter do problema fundamental tem sido, receio, obscurecido em vez de esclarecido por muitos dos refinamentos recentes da teoria económica, particularmente pelos muitos usos feitos da matemática. Embora o problema com que pretendo tratar principalmente neste artigo seja o de uma organização económica racional, serei levado, ao longo do mesmo, a apontar repetidamente as suas estreitas ligações com certas questões metodológicas. Muitos dos pontos que desejo fazer são, na verdade, conclusões para as quais diversos caminhos de raciocínio convergiram inesperadamente. Mas, tal como agora vejo estes problemas, isto não é um acaso. Parece-me que muitas das controvérsias atuais, tanto na teoria económica como na política económica, têm a sua origem comum numa conceção errada sobre a natureza do problema económico da sociedade. Esta conceção errada deve-se, por sua vez, a uma transferência incorreta para os fenómenos sociais dos hábitos de pensamento que desenvolvemos ao lidar com os fenómenos da natureza.

II

Na linguagem comum, descrevemos com a palavra “planeamento” o complexo de decisões inter-relacionadas sobre a alocação dos nossos recursos disponíveis. Toda a atividade económica é, neste sentido, planeamento; e em qualquer sociedade em que muitas pessoas colaboram, este planeamento, independentemente de quem o faça, terá de se basear, em certa medida, em conhecimento que, em primeira instância, não é dado ao planeador, mas a outra pessoa, e que de alguma forma terá de ser transmitido ao planeador. As diversas formas como o conhecimento em que as pessoas baseiam os seus planos lhes é comunicado constituem o problema crucial para qualquer teoria que explique o processo económico. E o problema de qual é a melhor forma de utilizar o conhecimento inicialmente disperso por todas as pessoas é, pelo menos, um dos principais problemas da política económica — ou de conceção de um sistema económico eficiente.

A resposta a esta questão está estreitamente ligada a outra que aqui surge: a de quem deve fazer o planeamento. É em torno desta questão que gira toda a disputa sobre o “planeamento económico”. Não se trata de uma disputa sobre se deve ou não haver planeamento. É uma disputa sobre se o planeamento deve ser feito de forma centralizada, por uma única autoridade para todo o sistema económico, ou se deve ser repartido por muitos indivíduos. O planeamento no sentido específico em que o termo é usado na controvérsia contemporânea significa necessariamente planeamento central — direção de todo o sistema económico segundo um plano unificado. A concorrência, por outro lado, significa planeamento descentralizado por muitas pessoas separadas. A solução intermédia entre as duas, de que muitas pessoas falam mas que poucos apreciam quando a veem, é a delegação do planeamento a indústrias organizadas ou, por outras palavras, o monopólio.

Qual destes sistemas é mais provável que seja mais eficiente depende principalmente da questão de saber em qual deles podemos esperar que se faça um uso mais completo do conhecimento existente. E isto, por sua vez, depende de sabermos se é mais provável conseguirmos colocar à disposição de uma única autoridade central todo o conhecimento que deve ser utilizado mas que inicialmente está disperso por muitos indivíduos diferentes, ou transmitir aos indivíduos o conhecimento adicional de que necessitam para conseguir ajustar os seus planos aos dos outros.

III

É evidente que, neste ponto, a situação será diferente consoante os tipos de conhecimento; e a resposta à nossa questão dependerá, portanto, em grande medida da importância relativa dos diferentes tipos de conhecimento: aqueles que estão mais provavelmente à disposição de indivíduos particulares e aqueles que poderíamos esperar com maior confiança encontrar na posse de uma autoridade composta por peritos devidamente escolhidos. Se hoje se assume tão amplamente que estes últimos estarão em melhor posição, é porque um tipo de conhecimento — nomeadamente o conhecimento científico — ocupa agora um lugar tão proeminente na imaginação pública que tendemos a esquecer que não é o único relevante. Pode admitir-se que, no que respeita ao conhecimento científico, um conjunto de peritos devidamente escolhidos poderá estar na melhor posição para dominar todo o melhor conhecimento disponível — embora isto, evidentemente, apenas transfira a dificuldade para o problema de selecionar os peritos. O que desejo salientar é que, mesmo admitindo que este problema possa ser facilmente resolvido, ele representa apenas uma pequena parte do problema mais vasto.

Hoje é quase heresia sugerir que o conhecimento científico não é a soma de todo o conhecimento. Mas uma breve reflexão mostrará que existe, sem dúvida, um conjunto de conhecimentos muito importantes mas não organizados que não podem, de modo algum, ser chamados científicos no sentido de conhecimento de regras gerais: o conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e lugar. É relativamente a este que praticamente cada indivíduo tem alguma vantagem sobre todos os outros, porque possui informações únicas das quais se poderia tirar proveito benéfico, mas cujo uso só pode ser feito se as decisões que delas dependem lhe forem deixadas ou forem tomadas com a sua cooperação ativa. Basta recordar quanto temos de aprender em qualquer profissão depois de concluída a nossa formação teórica, quanta parte da nossa vida de trabalho passamos a aprender empregos específicos e quão valioso é, em todos os domínios da vida, o conhecimento de pessoas, de condições locais e de circunstâncias especiais. Saber de e utilizar uma máquina não plenamente ocupada, ou a habilidade de alguém que poderia ser melhor aproveitada, ou ter consciência de um stock excedente que pode ser usado durante uma interrupção de fornecimentos, é socialmente tão útil como o conhecimento de técnicas alternativas melhores. E o armador que ganha a vida utilizando viagens de navios de carga que de outro modo estariam vazias ou meio vazias, ou o agente imobiliário cujo conhecimento é quase exclusivamente de oportunidades temporárias, ou o arbitragista que lucra com diferenças locais de preços de mercadorias, estão todos a desempenhar funções eminentemente úteis baseadas em conhecimento especial de circunstâncias do momento fugaz que não são conhecidas por outros.

É um facto curioso que este tipo de conhecimento seja hoje geralmente olhado com uma espécie de desprezo e que quem, através dele, ganha uma vantagem sobre alguém melhor equipado com conhecimento teórico ou técnico seja considerado como tendo agido de forma quase desonrosa. Ganhar uma vantagem através de um melhor conhecimento de facilidades de comunicação ou transporte é por vezes considerado quase desonesto, embora seja tão importante que a sociedade aproveite as melhores oportunidades neste domínio como usar as últimas descobertas científicas. Este preconceito afetou em medida considerável a atitude face ao comércio em geral, em comparação com a produção. Mesmo economistas que se consideram imunes às grosseiras falácias materialistas do passado cometem constantemente o mesmo erro no que respeita a atividades dirigidas à aquisição de tal conhecimento prático — aparentemente porque, no seu esquema das coisas, todo esse conhecimento se supõe “dado”. A ideia comum hoje parece ser que todo esse conhecimento deveria, como é natural, estar facilmente ao comando de todos, e a acusação de irracionalidade lançada contra a ordem económica existente baseia-se frequentemente no facto de não estar assim disponível. Esta visão desconsidera o facto de que o método pelo qual tal conhecimento pode ser tornado o mais amplamente disponível possível é precisamente o problema a que temos de encontrar resposta.

IV

Se hoje é moda minimizar a importância do conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e lugar, isto está estreitamente ligado à menor importância agora atribuída à mudança enquanto tal. De facto, há poucos pontos em que os pressupostos feitos (geralmente apenas implicitamente) pelos “planeadores” diferem tanto dos dos seus opositores como no que respeita ao significado e frequência das mudanças que tornarão necessárias alterações substanciais nos planos de produção. Claro que, se planos económicos detalhados pudessem ser estabelecidos com bastante antecedência e depois rigorosamente cumpridos, de modo que não fossem necessárias mais decisões económicas importantes, a tarefa de elaborar um plano abrangente que governe toda a atividade económica seria muito menos formidável.

Vale talvez a pena sublinhar que os problemas económicos surgem sempre e apenas como consequência de mudança. Enquanto as coisas continuarem como antes, ou pelo menos como se esperava, não surgem novos problemas que exijam uma decisão, nem necessidade de formar um novo plano. A crença de que as mudanças, ou pelo menos os ajustes diários, se tornaram menos importantes nos tempos modernos implica a afirmação de que os problemas económicos também se tornaram menos importantes. Esta crença na importância decrescente da mudança é, por essa razão, geralmente sustentada pelas mesmas pessoas que argumentam que a importância das considerações económicas foi relegada para segundo plano pela crescente importância do conhecimento tecnológico.

Será verdade que, com o elaborado aparato da produção moderna, as decisões económicas só são necessárias em intervalos longos, como quando se constrói uma nova fábrica ou se introduz um novo processo? Será verdade que, uma vez construída uma fábrica, o resto é mais ou menos mecânico, determinado pelo caráter da fábrica, e deixando pouco a alterar na adaptação às circunstâncias sempre mutáveis do momento?

A crença bastante generalizada na resposta afirmativa não é, tanto quanto posso verificar, confirmada pela experiência prática do homem de negócios. Numa indústria concorrencial, pelo menos — e só uma tal indústria pode servir de teste —, a tarefa de impedir que os custos subam exige uma luta constante, que absorve uma grande parte da energia do gestor. Como é fácil para um gestor ineficiente dissipar os diferenciais em que assenta a rentabilidade, e que é possível, com as mesmas instalações técnicas, produzir com uma grande variedade de custos, são lugares-comuns da experiência empresarial que não parecem igualmente familiares no estudo do economista. A própria força do desejo, constantemente expresso por produtores e engenheiros, de poderem prosseguir sem serem entravados por considerações de custos monetários, é um testemunho eloquente da medida em que estes fatores entram no seu trabalho diário.

Uma razão pela qual os economistas estão cada vez mais inclinados a esquecer as pequenas mudanças constantes que compõem todo o quadro económico é provavelmente a sua crescente preocupação com agregados estatísticos, que mostram uma estabilidade muito maior do que os movimentos do detalhe. A estabilidade comparativa dos agregados não pode, contudo, ser explicada — como os estatísticos por vezes parecem inclinados a fazer — pela “lei dos grandes números” ou pela compensação mútua de mudanças aleatórias. O número de elementos com que temos de lidar não é suficientemente grande para que forças acidentais produzam estabilidade. O fluxo contínuo de bens e serviços é mantido por ajustes deliberados constantes, por novas disposições feitas todos os dias à luz de circunstâncias desconhecidas no dia anterior, por B intervir imediatamente quando A falha na entrega. Mesmo a fábrica grande e altamente mecanizada continua a funcionar em grande parte graças a um ambiente do qual pode retirar todo o tipo de necessidades inesperadas: telhas para o telhado, papel para os impressos e as mil e uma espécies de equipamento em que não pode ser autossuficiente e que os planos de operação da fábrica exigem que estejam prontamente disponíveis no mercado.

Este é, talvez, também o ponto onde devo mencionar brevemente o facto de que o tipo de conhecimento com que me tenho preocupado é do género que, pela sua natureza, não pode entrar em estatísticas e, portanto, não pode ser transmitido a qualquer autoridade central sob forma estatística. As estatísticas que tal autoridade central teria de usar teriam de ser obtidas precisamente abstraindo das diferenças menores entre as coisas, agrupando, como recursos de um mesmo tipo, itens que diferem quanto à localização, qualidade e outros pormenores, de uma forma que pode ser muito significativa para a decisão específica. Segue-se que o planeamento central baseado em informação estatística não pode, pela sua natureza, ter em conta diretamente estas circunstâncias de tempo e lugar, e que o planeador central terá de encontrar alguma forma pela qual as decisões que delas dependem possam ser deixadas ao “homem no local”.

V

Se pudermos concordar que o problema económico da sociedade é principalmente um de adaptação rápida a mudanças nas circunstâncias particulares de tempo e lugar, pareceria seguir-se que as decisões últimas devem ser deixadas às pessoas que estão familiarizadas com essas circunstâncias, que conhecem diretamente as mudanças relevantes e os recursos imediatamente disponíveis para as enfrentar. Não podemos esperar que este problema seja resolvido comunicando primeiro todo este conhecimento a um conselho central que, após integrar todo o conhecimento, emita as suas ordens. Temos de o resolver por alguma forma de descentralização. Mas isto responde apenas a parte do nosso problema. Precisamos de descentralização porque só assim podemos garantir que o conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e lugar seja utilizado prontamente. Mas o “homem no local” não pode decidir apenas com base no seu conhecimento limitado mas íntimo dos factos do seu ambiente imediato. Resta ainda o problema de lhe comunicar a informação adicional de que necessita para ajustar as suas decisões ao padrão global de mudanças do sistema económico mais vasto.

Quanto conhecimento precisa ele para o fazer com sucesso? Quais dos acontecimentos que ocorrem para além do horizonte do seu conhecimento imediato são relevantes para a sua decisão imediata, e quanto deles precisa de saber?

Quase nada do que acontece em qualquer parte do mundo pode não ter efeito na decisão que ele deve tomar. Mas ele não precisa de conhecer esses acontecimentos como tais, nem todos os seus efeitos. Não lhe interessa por que razão, naquele momento particular, são precisos mais parafusos de um tamanho do que de outro, por que razão os sacos de papel estão mais facilmente disponíveis do que os de lona, ou por que razão a mão de obra qualificada ou determinadas máquinas-ferramenta se tornaram momentaneamente mais difíceis de obter. Tudo o que é significativo para ele é quanto mais ou menos difícil se tornou obtê-los em comparação com outras coisas com que também se preocupa, ou quanto mais ou menos urgentemente são desejadas as coisas alternativas que ele produz ou utiliza. É sempre uma questão da importância relativa das coisas particulares com que se preocupa, e as causas que alteram a sua importância relativa não lhe interessam para além do efeito sobre aquelas coisas concretas do seu próprio ambiente.

É neste contexto que aquilo a que chamei o “cálculo económico” propriamente dito nos ajuda, pelo menos por analogia, a ver como este problema pode ser resolvido — e de facto está a ser resolvido — pelo sistema de preços. Mesmo a única mente controladora, na posse de todos os dados para algum pequeno sistema económico autossuficiente, não passaria — todas as vezes que fosse necessário um pequeno ajustamento na alocação de recursos — explicitamente por todas as relações entre fins e meios que pudessem possivelmente ser afetadas. É, de facto, a grande contribuição da pura lógica da escolha ter demonstrado conclusivamente que mesmo tal mente única só poderia resolver este tipo de problema construindo e utilizando constantemente taxas de equivalência (ou “valores”, ou “taxas marginais de substituição”), isto é, atribuindo a cada tipo de recurso escasso um índice numérico que não pode ser derivado de nenhuma propriedade possuída por essa coisa particular, mas que reflete, ou em que se condensa, o seu significado em vista de toda a estrutura meios-fins. Em qualquer pequena mudança, ele terá apenas de considerar estes índices quantitativos (ou “valores”) em que toda a informação relevante está concentrada; e, ajustando as quantidades uma a uma, pode reorganizar adequadamente as suas disposições sem ter de resolver todo o enigma desde o início ou sem precisar, em qualquer etapa, de o perscrutar de uma vez em todas as suas ramificações.

Fundamentalmente, num sistema em que o conhecimento dos factos relevantes está disperso por muitas pessoas, os preços podem atuar para coordenar as ações separadas de diferentes pessoas da mesma forma que os valores subjetivos ajudam o indivíduo a coordenar as partes do seu plano. Vale a pena contemplar por um momento um exemplo muito simples e comum da ação do sistema de preços para ver o que ele precisamente realiza. Suponhamos que algures no mundo surgiu uma nova oportunidade de uso de alguma matéria-prima, digamos estanho, ou que uma das fontes de abastecimento de estanho foi eliminada. Não importa para o nosso propósito — e é muito significativo que não importe — qual destas duas causas tornou o estanho mais escasso. Tudo o que os utilizadores de estanho precisam de saber é que parte do estanho que costumavam consumir está agora a ser utilizado de forma mais rentável noutro lugar e que, em consequência, têm de economizar estanho. Não há necessidade de a grande maioria deles saber sequer onde surgiu a necessidade mais urgente, ou em favor de que outras necessidades devem poupar o abastecimento. Se apenas alguns deles souberem diretamente da nova procura e transferirem recursos para ela, e se as pessoas que tomarem consciência da nova lacuna assim criada a preencherem por sua vez a partir de outras fontes, o efeito espalhar-se-á rapidamente por todo o sistema económico e influenciará não só todos os usos do estanho, mas também os dos seus substitutos e os substitutos destes substitutos, o fornecimento de todas as coisas feitas de estanho e os seus substitutos, e assim por diante; e tudo isto sem que a grande maioria dos que contribuem para estas substituições saiba absolutamente nada sobre a causa original destas mudanças. O todo atua como um único mercado, não porque algum dos seus membros perscrute todo o campo, mas porque os seus campos de visão individuais limitados se sobrepõem suficientemente para que, através de muitos intermediários, a informação relevante seja comunicada a todos. O simples facto de existir um preço para qualquer mercadoria — ou antes, de os preços locais estarem ligados de uma forma determinada pelo custo de transporte, etc. — traz a solução que (é conceptualmente possível) poderia ter sido alcançada por uma única mente na posse de toda a informação que de facto está dispersa por todas as pessoas envolvidas no processo.

VI

Temos de ver o sistema de preços como um tal mecanismo de comunicação de informação se quisermos compreender a sua função real — uma função que, evidentemente, cumpre de forma menos perfeita à medida que os preços se tornam mais rígidos. (Mesmo quando os preços cotados se tornaram bastante rígidos, as forças que operariam através de mudanças de preço ainda operam em grande medida através de mudanças nos outros termos do contrato.) O facto mais significativo sobre este sistema é a economia de conhecimento com que opera, ou quão pouco os participantes individuais precisam de saber para poderem tomar a ação correta. Em forma abreviada, por uma espécie de símbolo, apenas a informação mais essencial é transmitida e apenas aos interessados. É mais do que uma metáfora descrever o sistema de preços como uma espécie de maquinaria para registar mudanças, ou um sistema de telecomunicações que permite aos produtores individuais observar meramente o movimento de alguns ponteiros, como um engenheiro pode observar os ponteiros de alguns mostradores, para ajustarem as suas atividades a mudanças das quais podem nunca saber mais do que o que se reflete no movimento dos preços.

Claro que estes ajustamentos provavelmente nunca são “perfeitos” no sentido em que o economista os concebe na sua análise de equilíbrio. Mas receio que os nossos hábitos teóricos de abordar o problema partindo do pressuposto de conhecimento mais ou menos perfeito por parte de quase todos nos tenham tornado algo cegos para a verdadeira função do mecanismo de preços e nos tenham levado a aplicar padrões bastante enganadores ao julgar a sua eficiência. O milagre é que, num caso como o da escassez de uma matéria-prima, sem que seja emitida uma ordem, sem que mais do que talvez um punhado de pessoas saiba a causa, dezenas de milhares de pessoas cuja identidade não poderia ser determinada por meses de investigação sejam levadas a usar o material ou os seus produtos com maior parcimónia; isto é, se movam na direção certa. Isto já é suficientemente milagroso, mesmo que, num mundo em constante mudança, nem todos acertem tão perfeitamente que as suas taxas de lucro sejam sempre mantidas no mesmo nível constante ou “normal”.

Usei deliberadamente a palavra “milagre” para chocar o leitor e tirá-lo da complacência com que muitas vezes damos como garantido o funcionamento deste mecanismo. Estou convencido de que, se fosse o resultado de um design humano deliberado, e se as pessoas guiadas pelas mudanças de preços compreendessem que as suas decisões têm significado muito para além do seu objetivo imediato, este mecanismo seria aclamado como um dos maiores triunfos da mente humana. A sua desgraça é dupla: não ser produto do design humano e as pessoas guiadas por ele geralmente não saberem por que são levadas a fazer o que fazem. Mas aqueles que clamam por “direção consciente” — e que não conseguem acreditar que algo que evoluiu sem design (e mesmo sem o compreendermos) possa resolver problemas que não conseguiríamos resolver conscientemente — deveriam recordar isto: o problema é precisamente como estender o alcance da nossa utilização de recursos para além do alcance do controlo de qualquer mente individual; e, portanto, como dispensar a necessidade de controlo consciente e como fornecer incentivos que façam os indivíduos fazerem as coisas desejáveis sem que ninguém tenha de lhes dizer o que fazer.

O problema que encontramos aqui não é de modo algum peculiar à economia, mas surge em ligação com quase todos os fenómenos verdadeiramente sociais, com a linguagem e com a maior parte da nossa herança cultural, e constitui realmente o problema teórico central de toda a ciência social. Como Alfred Whitehead disse noutra ligação: “É um truísmo profundamente erróneo, repetido por todos os manuais e por pessoas eminentes quando fazem discursos, que devemos cultivar o hábito de pensar no que estamos a fazer. O preciso oposto é que se verifica. A civilização avança estendendo o número de operações importantes que podemos realizar sem pensar nelas.” Isto tem um significado profundo no domínio social. Fazemos uso constante de fórmulas, símbolos e regras cujo significado não compreendemos e através do uso das quais nos apropriamos da assistência de conhecimento que individualmente não possuímos. Desenvolvemos estas práticas e instituições construindo sobre hábitos e instituições que se provaram bem-sucedidos na sua própria esfera e que, por sua vez, se tornaram o fundamento da civilização que construímos.

O sistema de preços é apenas uma dessas formações que o homem aprendeu a usar (embora ainda esteja muito longe de ter aprendido a fazer o melhor uso dele) depois de ter tropeçado nele sem o compreender. Através dele, não só uma divisão do trabalho, mas também uma utilização coordenada de recursos baseada num conhecimento igualmente dividido se tornou possível. As pessoas que gostam de ridicularizar qualquer sugestão de que isto possa ser assim distorcem geralmente o argumento insinuando que ele afirma que, por algum milagre, surgiu espontaneamente precisamente o tipo de sistema mais adequado à civilização moderna. É o contrário: o homem foi capaz de desenvolver essa divisão do trabalho em que a nossa civilização se baseia porque, por acaso, tropeçou num método que a tornou possível. Se não o tivesse feito, poderia ainda ter desenvolvido algum outro tipo de civilização completamente diferente, algo como o “estado” das formigas termitas, ou algum outro tipo completamente inimaginável. Tudo o que podemos dizer é que ninguém ainda conseguiu conceber um sistema alternativo em que certas características do existente possam ser preservadas — características que são caras mesmo àqueles que mais violentamente o atacam, como particularmente a medida em que o indivíduo pode escolher as suas atividades e, consequentemente, usar livremente o seu próprio conhecimento e habilidade.

VII

É, de muitas formas, afortunado que a disputa sobre a indispensabilidade do sistema de preços para qualquer cálculo racional numa sociedade complexa já não seja conduzida inteiramente entre campos com diferentes visões políticas. A tese de que sem o sistema de preços não poderíamos preservar uma sociedade baseada numa divisão do trabalho tão extensa como a nossa foi recebida com um uivo de escárnio quando foi pela primeira vez avançada por von Mises há vinte e cinco anos. Hoje, as dificuldades que alguns ainda encontram em aceitá-la já não são principalmente políticas, e isto cria um ambiente muito mais propício a uma discussão razoável. Quando encontramos Leon Trotsky a argumentar que “a contabilidade económica é impensável sem relações de mercado”; quando o Professor Oscar Lange promete ao Professor von Mises uma estátua nos salões de mármore da futura Autoridade Central de Planeamento; e quando o Professor Abba P. Lerner redescobre Adam Smith e sublinha que a utilidade essencial do sistema de preços consiste em induzir o indivíduo, ao procurar o seu próprio interesse, a fazer o que está no interesse geral, as diferenças já não podem ser atribuídas a preconceito político. O desacordo restante parece claramente dever-se a diferenças puramente intelectuais e, mais particularmente, metodológicas.

Uma declaração recente do Professor Joseph Schumpeter no seu Capitalismo, Socialismo e Democracia fornece uma ilustração clara de uma das diferenças metodológicas que tenho em mente. O seu autor é preeminente entre aqueles economistas que abordam os fenómenos económicos à luz de uma certa vertente do positivismo. Para ele, estes fenómenos aparecem, portanto, como quantidades objetivamente dadas de mercadorias que se impõem diretamente umas às outras, quase, parece, sem intervenção de mentes humanas. Só contra este pano de fundo posso explicar a seguinte afirmação (para mim surpreendente). O Professor Schumpeter argumenta que a possibilidade de um cálculo racional na ausência de mercados para os fatores de produção resulta para o teórico “da proposição elementar de que os consumidores, ao avaliarem (‘demandarem’) bens de consumo, ipso facto também avaliam os meios de produção que entram na produção desses bens”.

Tomada literalmente, esta afirmação é simplesmente falsa. Os consumidores não fazem nada disso. O que o “ipso facto” do Professor Schumpeter presumivelmente significa é que a valoração dos fatores de produção está implícita, ou decorre necessariamente, da valoração dos bens de consumo. Mas isto também não é correto. A implicação é uma relação lógica que só pode ser afirmada com significado de proposições simultaneamente presentes a uma e à mesma mente. É evidente, porém, que os valores dos fatores de produção não dependem apenas da valoração dos bens de consumo, mas também das condições de oferta dos diversos fatores de produção. Apenas a uma mente a quem todos estes factos fossem simultaneamente conhecidos é que a resposta decorria necessariamente dos factos que lhe eram dados. O problema prático surge precisamente porque estes factos nunca são assim dados a uma única mente e porque, em consequência, é necessário que, na solução do problema, seja usado conhecimento disperso por muitas pessoas.

O problema não é, assim, de modo algum resolvido se conseguirmos mostrar que todos os factos, se fossem conhecidos por uma única mente (como hipoteticamente assumimos que são dados ao economista observador), determinariam de forma única a solução; em vez disso, temos de mostrar como uma solução é produzida pelas interações de pessoas cada uma das quais possui apenas conhecimento parcial. Assumir que todo o conhecimento é dado a uma única mente da mesma forma que assumimos que é dado a nós, economistas explicadores, é eliminar o problema e desconsiderar tudo o que é importante e significativo no mundo real.

Que um economista do estatuto do Professor Schumpeter tenha assim caído numa armadilha que a ambiguidade do termo “dado” coloca aos incautos dificilmente pode ser explicado como um simples erro. Sugere antes que há algo de fundamentalmente errado numa abordagem que habitualmente desconsidera uma parte essencial dos fenómenos com que temos de lidar: a imperfeição inevitável do conhecimento humano e a consequente necessidade de um processo através do qual o conhecimento é constantemente comunicado e adquirido. Qualquer abordagem, como a de grande parte da economia matemática com as suas equações simultâneas, que na prática parte do pressuposto de que o conhecimento das pessoas corresponde aos factos objetivos da situação, deixa sistematicamente de fora aquilo que é a nossa principal tarefa explicar. Estou longe de negar que, no nosso sistema, a análise de equilíbrio tem uma função útil a desempenhar. Mas quando chega ao ponto em que induz alguns dos nossos principais pensadores a acreditar que a situação que descreve tem relevância direta para a solução de problemas práticos, é mais do que tempo de recordarmos que ela não lida de todo com o processo social e que não é mais do que um prelúdio útil para o estudo do problema principal.

  1. J. Schumpeter, Capitalism, Socialism, and Democracy (Nova Iorque: Harper, 1942), p. 175. O Professor Schumpeter é, creio, também o autor original do mito de que Pareto e Barone “resolveram” o problema do cálculo socialista. O que eles, e muitos outros, fizeram foi meramente enunciar as condições que uma alocação racional de recursos teria de satisfazer e apontar que estas eram essencialmente as mesmas que as condições de equilíbrio de um mercado concorrencial. Isto é algo completamente diferente de saber como a alocação de recursos que satisfaz estas condições pode ser encontrada na prática. O próprio Pareto (de quem Barone retirou praticamente tudo o que tem a dizer), longe de reivindicar ter resolvido o problema prático, nega explicitamente que ele possa ser resolvido sem a ajuda do mercado. Ver o seu Manuel d’économie pure (2.ª ed., 1927), pp. 233-234. A passagem relevante é citada numa tradução inglesa no início do meu artigo sobre “Socialist Calculation: The Competitive ‘Solution’”, em Economica, Nova Série, Vol. VIII, N.º 26 (Maio de 1940), p. 125.

Rise in Autism Spectrum Disorder and Screen Time During COVID-19: A Retrospective Study

Abstract: Background and Objectives The COVID-19 pandemic led to major changes in children’s daily routines, including increased exposure to digital devices. Concerns have emerged regarding the potential impact of increased screen time (ST) on children’s behavioural development and the possible rise in referrals for suspected Autism Spectrum Disorder (ASD). This study aimed to explore the relationship between ST during the COVID-19 pandemic and the number of first referrals for suspected ASD. Methods A retrospective study was conducted at the Department of Child and Adolescent Psychiatry of CHUSJ. Children referred for a first consultation due to suspected ASD between January 2018 and December 2022 were included. Participants were divided into two groups: pre-pandemic and pandemic. Parents completed a structured questionnaire regarding their children’s ST and behavioural characteristics. Results A total of 52 participants were included (18 pre-pandemic and 34 pandemic). ST increased significantly during the pandemic compared with the pre-pandemic period (p=0.040). Institutional data also showed a progressive increase in first consultations for suspected ASD between 2018–2022. There was no association observed between ST and behavioural characteristics related to ASD in this sample. Conclusions Consultations for suspected ASD increased substantially following the COVID-19 pandemic, accompanied by a significant rise in ST among the children assessed. However, no association was found between ST and behavioural characteristics related to ASD, suggesting that the increase in consultations may reflect broader changes in children’s routines and social context during the pandemic. Therefore, we cannot affirm that there is no link between increased ST and ASD. Keywords Autism Spectrum Disorder (ASD); Screen time (ST); COVID-19; Child psychiatry; Neurodevelopment; Referrals. Authors: Sofia Rodrigues de Ornelas Nunes, Department of Child and Adolescent Psychiatry of Centro Hospitalar Universitário do São João; Alda Múrias Mira Coelho, Department of Child and Adolescent Psychiatry of Centro Hospitalar Universitário do São João. 

Introduction

Autism Spectrum Disorder (ASD) is a neurodevelopmental condition characterized by persistent difficulties in social communication and interaction, together with restricted and repetitive patterns of behaviour, interests or activities. To make the diagnosis, symptoms must be present early in development and cause clinically significant impairment in social, occupational, or other important areas of the individual’s present functioning. Because Autism is a spectrum disorder, it can range from very mild to very severe levels – Level 1 “Requiring support”, Level 2 “Requiring substantial support” and Level 3 “Requiring very substantial support” – and occur in all ethnic, socioeconomic and age groups.[1]

Recent epidemiological literature indicates a rapid increase in the prevalence of ASD worldwide, noting a sex ratio where boys are affected about four times more frequently than girls.[2] A variety of factors may explain this rise, including a broader definition of ASD, changes in diagnostic criteria and screening tools, shifts in research methods, and a heightened public and professional awareness of the disorder.

In Portugal, epidemiological data on ASD remains relatively scarce. A landmark study by Guiomar Oliveira in 2005, entitled: “Epidemiologia das Perturbações do Espectro do Autismo em Portugal: prevalência, caracterização clínica e condições médicas associadas numa população infantil” provided some of the first national prevalence estimates. More recently, as part of the European project “ASDEU – Autism Spectrum Disorders in the European Union” (2015-2018), an epidemiological study was conducted in the Central region of Portugal, coordinated by the National Institute of Health Dr. Ricardo Jorge. Interestingly, the prevalence identified by Oliveira et al. (0.125%; 95% CI: 0.096–0.15) was approximately four times lower than the figures reported later by the ASDEU study, reflecting the evolving landscape of ASD identification in the country.

Early diagnosis of autism is crucial for timely intervention and improved long-term outcomes. The benefits of early diagnosis – typically between the ages of two and five – allow early intervention, which has been shown to enhance developmental outcomes in critical domains such as communication, social interaction and movement skills.[3]

The emergence of the COVID-19 pandemic affected all parts of society, imposing unprecedented challenges on global health and social structures. In Portugal the first two cases of COVID-19 were confirmed on 2 March 2020 and the first lockdown as well as the State of Emergency began on 18 March 2020. On 15 January 2021, in response to a new severe wave of the disease, there was a second lockdown. The end of the alert situation was declared in September 2022, marking the end of exceptional pandemic measures in the country. At the beginning of 2023, the World Health Organisation (WHO) declared the end of the pandemic.

A review study demonstrated that pandemics often serve as precursors to a decline in mental health.[4] Evidence of this can be seen in how the COVID-19 pandemic affected the lives of children and adolescents around the world, by the disruption of school routines and social environments, resulting in greater loneliness, distress, social isolation, reduced psychological well-being and increased symptoms of anxiety, depression and stress. The circumstances created by this social isolation acted as a non-normative stressor, increasing the likelihood of developing mental health problems for the first time, as well as exacerbating or triggering the recurrence of pre-existing mental disorders.

People with mental disabilities were especially vulnerable to the physical, psychological, and social effects of the pandemic. The pandemic-induced uncertainty and the sudden disruption of established routines frequently led to increased irritability, social withdrawal, and challenging behaviours in ASD patients.[5] Research has also highlighted a significant escalation in sleep disturbances and circadian rhythm imbalances, which further intensified behavioural symptoms during periods of confinement.

Although electronic devices have taken on an essential role during the COVID-19 pandemic in maintaining school, social and recreational activities, excessive use of screen time (ST) has many negative health effects caused by a multitude of mechanisms, affecting plenty of systems. There has been a 52% increase in ST amongst children and adolescents during the COVID-19 pandemic. Excessive ST is associated with various adverse outcomes, including cardiometabolic disorders as well as sleep disorders, chronic neck and back problems, depression, and anxiety.[6]

It has been well established that excessive ST affects the mental health of youth. Recently, pandemic-related stressors led to decreased physical activity and increased ST, both of which were associated with poorer mental health outcomes. Furthermore, recent findings by Heffler KF et al. documented that while an early onset of ST viewing does not affect the risk for ASD, it increases the risk for “ASD-like symptoms”.

There are still few studies that specifically quantify the evolution of initial child psychiatry consultations motivated by suspected ASD and their possible association with ST during the pandemic period. Thus, this study aims to investigate the possible correlation between ST during the COVID-19 pandemic and whether there was an increase in first paediatric psychiatry consultations for suspected ASD, seeking to understand the impact of this new digital reality at the time of diagnosis. By providing objective data from a major clinical centre (CHUSJ), this research aims to offer essential insights for clinicians to assess environmental factors in neurodevelopmental disorders, ultimately optimizing early intervention strategies in a post-pandemic digital era.

Material and Methods

Study design

This analytical retrospective study aimed to evaluate the potential association between ST during the COVID-19 pandemic and the number of referrals for suspected ASD. The study compared children referred for a first consultation in child and adolescent psychiatry during two distinct time periods: a pre-pandemic period and a pandemic period.

Setting

The study was conducted at the Department of Child and Adolescent Psychiatry of Centro Hospitalar Universitário do São João (CHUSJ), Portugal. Children referred for a first psychiatric consultation due to suspected ASD between January 2018 and December 2022 were considered eligible for inclusion. For analytical purposes, the study period was divided into two groups: a pre-pandemic group, including children whose first consultation occurred between January 2018 and February 2020, and a pandemic group, including children referred between March 2020 and December 2022. March 2020 was used as the cut-off point, corresponding to the onset of the COVID-19 pandemic and the implementation of public health containment measures in Portugal.

The pre-pandemic group served as a comparison group for evaluating changes observed during the pandemic period.

Participants

Children referred for a first consultation due to suspected ASD during the defined study period were identified through clinical records. Parents or legal guardians were invited to answer a structured questionnaire regarding the child’s digital media use and behavioural characteristics. Inclusion criteria consisted of having a first consultation for suspected ASD during the study period, availability of clinical information regarding the consultation, and completion of the parental questionnaire. Responses were excluded if the reported date of the first consultation did not correspond to the predefined study periods or if questionnaire data were inconsistent with the eligibility criteria.

Data sources and variables

Data were obtained from two main sources: retrospective review of clinical records and parental questionnaires. Clinical records provided information regarding referral characteristics and diagnostic classification. The questionnaire collected information on demographic characteristics of the child, including age and sex, as well as the identity of the responding parent. Information regarding daily ST was obtained through parental report and categorised into five levels: less than one hour per day, one to two hours per day, two to four hours per day, four to six hours per day, and more than six hours per day. For children included in the pandemic group, parents reported ST for two time periods, corresponding to the period before the pandemic and the period during the pandemic. Additional variables included the type of digital devices used, such as television, tablet, smartphone, computer and gaming console, as well as the main purpose of screen use, including educational activities, video viewing, gaming, social media or mixed use. Parents were also asked to report perceived behavioural characteristics in their children, including aspects related to social interaction, isolation, verbal and non-verbal communication, repetitive behaviours, restricted interests, irritability, agitation and sleep patterns. ST was recorded using categorical intervals to facilitate parental reporting and statistical analysis. Institutional clinical records were also consulted to determine the annual number of first consultations for suspected ASD during the study period, allowing the evaluation of trends in referrals over time.

Bias

Several measures were implemented to minimise potential sources of bias. The same questionnaire was used for all participants to ensure consistency in data collection, and predefined screen-time categories were employed to reduce variability in parental reporting. Eligibility criteria were applied uniformly to all responses to ensure comparability between the study groups.

Study size

The study sample included all eligible participants who completed the questionnaire during the study period. No formal sample size calculation was performed, as the study aimed to include all available cases meeting the inclusion criteria.

Statistical methods

Statistical analyses were performed using IBM SPSS Statistics 30. Descriptive statistics were used to characterise the study sample. Continuous variables are presented as mean and standard deviation, whereas categorical variables are presented as frequencies and percentages. Comparisons between the pre-pandemic and pandemic groups were conducted using the Mann–Whitney U test for continuous variables and the chi-square test or Fisher’s exact test for categorical variables, as appropriate. Changes in ST before and during the pandemic within the pandemic group were analysed using the Wilcoxon signed-rank test. A significance level of p < 0.05 was considered statistically significant.

Ethical considerations

The study was approved by the Ethics Committee of CHUSJ. Participation was voluntary and informed consent was obtained from parents or legal guardians prior to questionnaire completion. All data were anonymized prior to statistical analysis.

Results

A total of 57 parental questionnaires were initially received. Of these, 18 corresponded to children whose first consultation took place between January 2018 and February 2020 and were assigned to the pre-pandemic group. Thirty-nine questionnaires corresponded to children whose first consultation occurred between March 2020 and December 2022 and were therefore initially classified as belonging to the pandemic group. However, 5 questionnaires were excluded because the reported date of the first consultation did not fall within the predefined study period. After applying the eligibility criteria, the final sample comprised 52 participants, including 18 children in the pre-pandemic group and 34 children in the pandemic group.

Questionnaires received

n = 57

Pandemic group

Questionnaires received

n = 39

Excluded

n = 5 (first consultation outside study period)

Included in analysis

n = 34

Pre-pandemic group

Questionnaires received

n = 18

Excluded

n = 0

Included in analysis

n = 18

Figure 1. Flow diagram of participant selection and inclusion in the study. A total of 57 questionnaires were received. After applying eligibility criteria, 52 participants were included in the final analysis (18 in the pre-pandemic group and 34 in the pandemic group).

Final sample included in analysis

n = 52

The demographic and clinical characteristics of the study population were analysed to assess the comparability between groups (Table 1). The mean age of the overall sample was 8.5 years (standard deviation [SD] = 2.93). Children referred before the pandemic were significantly older than those referred during the pandemic. The mean age in the pre pandemic group was 10.39 years, compared with 7.50 years in the pandemic group. The difference was statistically significant (p < 0.001).

A predominance of male participants was observed in the overall sample. Of the 52 children included in the study, 45 were male and 7 were female and most questionnaires were completed by mothers. The distribution of sex did not differ significantly between the pre-pandemic and pandemic groups (p = 0.399). No statistically significant differences were identified between groups regarding the responding parent (p = 0.495).

Regarding diagnostic status, most children were ultimately classified as having ASD. In the pre-pandemic group, 17 children received a diagnosis of ASD and in the pandemic group 27 children were diagnosed with ASD. No statistically significant differences were observed between the two groups regarding diagnostic outcome (p = 0.273), although the interpretation of this result is limited by the small number of cases in some categories.

Variable

Pre-pandemic (n=18)

Pandemic (n=34)

P value

Responding parent – father, n(%)

4 (22.2)

5 (14.7)

0.495

Responding parent – mother, n(%)

14 (77.8)

29 (85.3)

Age (years), mean SD

10.39 +- 2.00

7.50 +- 2.86

<0.001

Male sex, n(%)

17 (94.4)

28 (82.4)

0.399

Female sex, n(%)

1 (5.6)

6 (17.6)

ASD diagnosis, n(%)

17 (94.4)

27 (79.4)

0.273

Non-ASD diagnosis, n(%)

1 (5.6)

3 (8.8)

Diagnostic evaluation ongoing, n(%)

0

4 (11.8)

Table 1. The sociodemographic characteristics of the sample.

ST prior to the pandemic was subsequently examined (Table 2). The mean category of daily ST before the pandemic was similar in both groups, with a mean value of 1.94 in the pre-pandemic group and 2.06 in the pandemic group. No statistically significant differences were found between groups regarding baseline ST prior to the pandemic, suggesting that both groups had comparable patterns of screen use before the onset of the COVID-19 pandemic (p = 1.00).

Screen time category

Pre-pandemic group (n=18)

Pandemic group (n=34)

P value

< 1 hour/day, n(%)

6 (33.3)

13 (38.2)

1.00

1-2 hours/day, n(%)

7 (38.9)

11 (32.4)

2-4 hours/day, n(%)

5 (27.8)

7 (20.6)

4-6 hours/day, n(%)

0 (0.0)

1 (2.9)

> 6 hours/day, n(%)

0 (0.0)

2 (5.9)

Table 2. Baseline ST before the pandemic according to study group.

The main purpose of screen use before the pandemic was also analysed. Reported uses included watching videos, playing games, educational activities, social media and mixed use. The distribution of these categories did not differ significantly between the pre-pandemic and pandemic groups (p = 0.327).

In addition, the types of digital devices used before the pandemic were evaluated, including television, tablet, smartphone, computer and gaming consoles. No statistically significant differences were observed between groups for any of these devices, indicating similar access to and use of digital devices in both groups prior to the pandemic.

Within the pandemic group, changes in daily ST before and during the pandemic were analysed (Table 3). Before the pandemic, most children were reported to have relatively low levels of daily ST. Specifically, 38.2% of children were reported to use screens for less than one hour per day and 32.4% for between one and two hours per day. During the pandemic, a shift towards higher exposure categories was observed. The proportion of children reported to spend two to four hours per day using screens increased to 38.2%, and 8.8% of children were reported to have more than six hours of daily ST. In the pandemic group, there was a statistically significant increase in ST during the pandemic compared to the pre-pandemic period (p = 0.040).

Screen time category

Before pandemic (n=34)

During pandemic (n=34)

P value

< 1 hour/day, n(%)

13 (38.2)

10 (29.4)

0.040

1-2 hours/day, n(%)

11 (32.4)

7 (20.6)

2-4 hours/day, n(%)

7 (20.6)

13 (38.2)

4-6 hours/day, n(%)

1 (2.9)

1 (2.9)

> 6 hours/day, n(%)

2 (5.9)

3 (8.8)

Table 3. Changes in ST during the pandemic.

Changes in the purpose of screen use before and during the pandemic were analysed using the Wilcoxon signed-rank test. Although a trend towards a change in the purpose of use of the devices was observed between the pre-pandemic and pandemic periods, the difference did not reach statistical significance (p = 0.064). Also, no statistically significant correlations were observed between increased ST during the pandemic and the behavioural variables analysed.

Parental perceptions of behavioural changes during the pandemic were also explored (Table 4). Variables analysed included social interaction, isolation, verbal and non-verbal communication, repetitive behaviours, restricted interests, irritability, agitation and sleep disturbances. Comparisons between the pre-pandemic and pandemic periods did not reveal statistically significant differences in these behavioural variables. The groups presented a similar profile and most behavioural variables assessed in the pre-pandemic period, with a statistically significant difference only in the sleep variable (p = 0.024).

Variable

Before pandemic median (IQR)

During pandemic median (IQR)

P value

Social interaction

3.0 (2.0–4.0)

3.0 (2.0–4.0)

0.76

Isolation

3.0 (1.0–4.0)

3.0 (2.0–4.0)

0.13

Eye contact

2.0 (2.0–4.0)

2.0 (2.0–4.0)

0.95

Verbal communication

4.0 (2.3–5.0)

4.0 (3.0–5.0)

0.60

Non-verbal communication

3.0 (2.0–3.0)

3.0 (2.0–3.0)

0.31

Reduced communication

3.0 (2.0–4.8)

3.0 (2.0–4.0)

0.41

Repetitive behaviours

3.5 (2.0–4.8)

3.0 (2.0–5.0)

0.19

Restricted interests

3.5 (3.0–4.0)

3.5 (3.0–4.0)

0.73

Resistance to changes in routine

3.0 (2.0–4.0)

3.0 (2.0–4.0)

0.88

Irritability

3.0 (2.0–4.0)

3.0 (2.0–4.0)

0.73

Agitation

3.0 (2.0–4.0)

3.0 (2.0–4.0)

0.73

Sleep

1.0 (1.0–2.8)

1.0 (1.0–3.0)

1.00

Table 4. Behavioural characteristics in the pandemic group before and during the COVID-19 pandemic, expressed as median and interquartile range (IQR).

Finally, institutional clinical data were examined to analyse trends in the number of first consultations for suspected ASD over time (Table 5). A progressive increase in referrals was observed during the study period. The number of first consultations rose from 130 in 2018 to 266 in 2022, representing a marked increase following the onset of the COVID-19 pandemic.

Year

Number of 1st consultations

2018

130

2019

147

2020

154

2021

218

2022

266

Table 5. Number of first consultations for suspected ASD from 2018 to 2022.

Overall, these findings indicate that although referrals for suspected ASD increased substantially during the pandemic period and ST increased among children evaluated during this time, no statistically significant associations were observed between ST and the behavioural variables assessed in this sample. However, we cannot state that there is no link between increased ST and ASD; what may have happened is that these children likely already had these symptoms and did not improve due to the increase in ST.

Discussion

The present study aimed to explore the potential relationship between ST during the COVID-19 pandemic and the number of first referrals for suspected ASD. The findings revealed a substantial increase in first consultations for suspected ASD following the onset of the pandemic. Additionally, ST among children referred during the pandemic increased significantly compared with the period before the pandemic. However, no significant associations were identified between ST and behavioural characteristics related to ASD. These findings underline the complexity of factors influencing referrals for suspected ASD and suggest that increased ST alone may not fully explain the observed rise in consultations during the pandemic period.

The increase in referrals for suspected ASD observed in the present study is consistent with findings reported in another study[7] conducted after the COVID-19 pandemic. The 2024 comparative analysis between the pre-pandemic and pandemic periods found a significant increase in ASD diagnosis during the pandemic period compared to the pre-pandemic one. Several factors may help explain this trend. During periods of lockdown, parents spent considerably more time at home with their children, which may have increased their awareness of developmental and behavioural difficulties. In addition, greater public awareness of the signs and symptoms of ASD may have contributed to a higher number of initial consultations, as parents sought professional evaluation to confirm or rule out concerns regarding their children’s development.

The increase in ST observed in this study is also consistent with findings reported in another study conducted during the COVID-19 pandemic.[8] Restrictions related to lockdown measures, school closures and reduced opportunities for outdoor activities resulted in children spending more time at home and relying more heavily on digital devices for entertainment, communication and educational activities. Previous research has shown that these circumstances contributed to a substantial increase in screen use among children and adolescents during the pandemic.[9]

Despite the observed increase in ST, no significant associations were identified between ST and behavioural characteristics related to ASD in the present study. This finding suggests that increased digital media use alone may not fully explain the rise in referrals for suspected ASD observed in this study. The relationship between ST and developmental outcomes is complex and likely influenced by multiple factors, including family environment, parental involvement, and the type of digital content consumed, and cannot be fully established based on the findings of this study. Previous research has suggested a possible association between ST and autism-related outcomes. However, evidence remains inconsistent and may be influenced by methodological limitations.[10]

Several limitations should be considered when interpreting the results of this study. First, the relatively small sample size may have limited the statistical power to detect more subtle associations between ST and behavioural characteristics. Second, ST was assessed through parental report, which may be subject to recall bias. Additionally, the age difference observed between the pre-pandemic and pandemic groups may represent a potential source of confounding, as patterns of digital media use may vary according to age.

Despite these limitations, the present study contributes to a better understanding of factors associated with referrals for suspected ASD during the COVID-19 pandemic. The findings point out the importance of considering multiple environmental and developmental factors when evaluating children referred for suspected ASD. Increased ST may reflect broader lifestyle changes during the pandemic rather than a direct causal factor underlying the observed increase in referrals.

These findings may contribute to understanding post-pandemic patterns of referral for suspected ASD in similar clinical settings, but should be interpreted with caution, as the study was conducted in a single clinical centre and may not fully represent patterns observed in other healthcare settings.

Conclusion

In conclusion, this study identified a substantial increase in first referrals for suspected ASD following the COVID-19 pandemic, accompanied by a significant rise in ST among children referred during this period. However, no statistically significant association was observed between ST and the behavioural variables assessed in this study. These findings suggest that the increase in referrals may reflect broader changes in children’s daily routines, parental awareness and social environments during the pandemic rather than being solely explained by increased screen use. Clinicians should therefore interpret parental concerns within the broader context of children’s routines, social experiences and environmental changes that occur during this period. Further research with larger samples is needed to better understand the complex factors influencing referrals for suspected ASD in the post-pandemic context.

Funding

This research did not receive any specific grant from funding agencies in the public, commercial, or not-for-profit sectors.

References


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  4. Meherali S, Punjani N, Louie-Poon S, et al. Mental Health of Children and Adolescents Amidst COVID-19 and Past Pandemics: A Rapid Systematic Review. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(7):3432. Published 2021 Mar 26. doi:10.3390/ijerph18073432



  5. Ahmed S, Hanif A, Khaliq I, et al. Psychological impact of the COVID-19 pandemic in children with autism spectrum disorder – a literature review. Int J Dev Disabil. 2022;70(2):173-183. Published 2022 Apr 22. doi:10.1080/20473869.2022.2066248



  6. Priftis N, Panagiotakos D. Screen Time and Its Health Consequences in Children and Adolescents. Children (Basel). 2023;10(10):1665. Published 2023 Oct 8. doi:10.3390/children10101665



  7. St Victor R, Mulakalapalli S, Park Y, Daly E. Rise in Autism Spectrum Disorder Diagnoses: A Comparative Analysis of Pre-pandemic and Pandemic Periods. Cureus. 2024;16(9):e70167. Published 2024 Sep 25. doi:10.7759/cureus.70167



  8. Berard M, Peries M, Loubersac J, et al. Screen time and associated risks in children and adolescents with autism spectrum disorders during a discrete COVID-19 lockdown period. Front Psychiatry. 2022;13:1026191. Published 2022 Dec 1. doi:10.3389/fpsyt.2022.1026191



  9. Viner R, Russel S, Saulle R, et al. School Closures During Social Lockdown and Mental Health, Health Beahviors, and Well-being Among Children and Adolescents During the First COVID-19 Wave: A Systematic Review. JAMA Pediatr. 2022;176(4):400-409. doi:10.1001/jamapediatrics.2021.5840



  10. Ophir Y, Rosenberg H, Tikochinski R, Daylot S, Lipshits-Braziler Y. Screen Time and Autism Spectrum Disorder: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Netw Open. 2023;6(12):e2346775. doi:10.1001/jamanetworkopen.2023.46775


Edição: Abril 2026

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Mesmo nos anos de prisão (1173-1189) impostos pelo marido, Eleanor manteve influência cultural indireta, e após a libertação continuou a atuar como patrona até idade avançada. A sua visão transformou a Aquitânia e as cortes anglo-francesas em berços da literatura medieval em vernáculo, pavimentando o caminho para obras como os romances arturianos. Eleanor da Aquitânia não foi apenas uma rainha poderosa, mas uma verdadeira mecenas que elevou o estatuto das artes na Idade Média, deixando um legado que ainda ressoa na cultura ocidental.

J.D. Bernal (1929) sobre Transhumanismo, Ciborgues e Colonização Interplanetária

Excertos de Bernal, J. D. (1929). The World, the Flesh and the Devil: An Enquiry into the Future of the Three Enemies of the Rational Soul. London: Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Sob sugestão de Jason Blakely em https://x.com/jasonwblakely/status/2062966669178536090?s=46. “Os tecno-utopistas como Sam Altman querem que acredites que a IA transumanista é o que há de mais avançado. Na realidade, tratam-se de sonhos velhos e frustrados — com 100 anos e a contar! Basta pensar nos primeiros transumanistas como J. D. Bernal em 1929 a falar de colónias interplanetárias e evolução ciborgue. Bernal imaginava o que o ramo não-evoluído e não-robotizado do Homo sapiens poderia fazer ao enfrentar gradualmente a extinção: «A humanidade — a humanidade antiga — ficaria na posse indiscutida da Terra… o mundo poderia, na verdade, transformar-se num jardim zoológico humano… inteligentemente gerido». Bernal chamava àqueles que se aventuravam sem medo na evolução mecanizada «os cientistas», que dominariam a parte sem esperança da espécie que permanecesse celular/biológica e que possivelmente seria encerrada em zoos «os humanistas»…! Note-se que a colonização espacial de Musk e a estranha mistura de Thiel com robôs, extinção e o anti-Cristo também são antecipadas neste tratado… vanitas vanitatum!”

Tendo seguido separadamente as nossas principais linhas de mudança, resta-nos agora considerar a interação entre os elementos físico, fisiológico e psicológico da futura evolução humana. É muito fácil ver as relações entre os dois primeiros: a colonização do espaço e a mecanização do corpo são obviamente complementares. A dessemelhança entre as condições de vida no espaço e na Terra seria, por si só, suficiente para provocar mudanças evolutivas perfeitamente normais e não assistidas nos seres humanos, mas é evidente que as condições espaciais seriam mais favoráveis ao homem mecanizado do que ao homem orgânico. Se ele conseguisse livrar-se da maior parte do seu corpo e da necessidade de uma ingestão relativamente grande de oxigénio e de alimentos saturados de água, a natureza celular dos globos celestes deixaria de ser necessária. Isto daria ao homem mecanizado uma vantagem semelhante à que a célula animal relativamente flexível e nua tem sobre a planta rigidamente delimitada. Além disso, é apenas no espaço que as potencialidades das formas mais altamente desenvolvidas de mentes complexas teriam um campo de funcionamento adequado, particularmente nas suas relações temporais alargadas. Pode ser que estejamos a aproximar-nos ou que venhamos a atingir, em última análise, uma conceção do tempo que torne o trânsito no tempo tão fácil como o trânsito no espaço. Mas todo o nosso conhecimento atual, independentemente dos nossos desejos, sugere que tal é improvável. Mesmo que o tempo e o espaço fossem tornados equivalentes, ganhar um segundo do futuro equivaleria a viajar 180 000 milhas. Mas mesmo sem uma mudança fundamental na conceção do tempo, as faculdades temporais do homem mecanizado seriam ainda muito diferentes das nossas. A extensão será o seu carácter principal: já no estádio do macaco, o presente atual de um animal abrange uma pequena parte do passado e do futuro. A antecipação do movimento, através da inervação muscular e da memória, pela retenção de imagens de impulsos nervosos, estende o presente até ao limite de um segundo ou assim. Sempre que jogamos ténis, somos profetas sem o saber da posição futura da bola, que é concebida como presente. No estádio humano, estendemo-nos principalmente para trás, como memória, sendo a nossa previsão imediata limitada pela falta de conhecimento científico. Esta está agora a aumentar rapidamente, mas normalmente não é aceite como previsão porque é consciente e intelectual. No entanto, a previsão tende claramente a tornar-se cada vez mais dedutiva e, para o homem mecanizado, o imediatamente apreendido poderá incluir anos ou séculos de passado e de futuro.

Pode imaginar-se então estes seres, residentes de forma nuclear, por assim dizer, num conjunto relativamente pequeno de unidades mentais, cada uma utilizando o mínimo indispensável de energia, ligadas entre si por um complexo de intercomunicação etérea, e espalhando-se por imensas áreas e períodos de tempo por meio de órgãos sensoriais inertes que, tal como o campo das suas operações ativas, estariam, em geral, a uma grande distância deles próprios. Como o cenário da vida seria mais o vazio frio do espaço do que a atmosfera quente e densa dos planetas, a vantagem de não conter material orgânico algum, de modo a ser independente de ambas as condições, seria cada vez mais sentida.

É quando nos voltamos para a interação no plano psicológico que as dificuldades surgem novamente. O físico e o psicológico têm uma influência mútua que é muito difícil de estimar no momento atual. Sem dúvida, se as tendências modernas tiverem algum elemento de permanência, uma grande parte da atividade do futuro será dedicada ao objetivo de uma maior compreensão do universo. A humanidade, ou os seus descendentes, poderá estar muito mais ocupada com a investigação científica pura e muito menos com a necessidade de satisfazer necessidades fisiológicas e psicológicas primárias do que atualmente. Este carácter poderá marcar todo o desenvolvimento futuro, de modo que a maquinaria será organizada não para a produção, mas para a descoberta. Na verdade, a grande necessidade de produção, quer de alimentos quer de outros artigos de consumo, desaparecerá rapidamente com o progresso da desumanização.

Mas tais mudanças são pequenas comparadas com aquelas que seriam necessariamente envolvidas pelas alterações fisiológicas que sugeri. A mente humana evoluiu sempre na companhia do corpo humano e do corpo animal antes de ser humana. As conexões intricadas entre a mente e o corpo devem exceder a nossa imaginação, pois, do nosso ponto de vista, estamos particularmente impedidos de as observar. Alterar de qualquer forma perfeitamente sã, do ponto de vista fisiológico ou cirúrgico, o funcionamento do corpo terá certamente efeitos secundários, mas de longo alcance, na mente, e estes efeitos secundários são imprevisíveis e provavelmente continuarão imprevisíveis no momento em que ocorrerem as alterações fisiológicas.

Mas está perfeitamente de acordo com a evolução humana e natural que as alterações secundárias não sejam tidas em conta quando se reage ao desejo ou estímulo primário: por outras palavras, os passos fisiológicos serão provavelmente dados sem consideração das consequências psicológicas, que poderão, claro, destruir todo o organismo ou, por outro lado, levar a um aumento imprevisivelmente grande da capacidade e eficiência mental. É devido a este equilíbrio delicado entre fatores fisiológicos e psicológicos que o futuro, tal como o presente, estará cheio de pontos de viragem perigosos e armadilhas.

Teremos sempre reacionários muito sensatos em todas as épocas a avisar-nos para permanecermos no estado natural e primitivo da humanidade, que costuma ser o penúltimo estádio da sua própria história cultural. Mas as consequências secundárias do que os homens já fizeram — os reacionários tanto como os outros — levá-los-ão consigo então, como agora.

É evidente que terão de ocorrer certas deslocações ou perversões psicológicas consideráveis para equilibrar as perversões fisiológicas. Os instintos sexuais em particular, que ainda encontram uma gratificação direta considerável, seriam irreconhecivelmente alterados. Pode assumir-se que existe algum tipo de princípio de conservação psicológica que os impedirá, como os impediu até agora, de serem suprimidos por completo. Mas em que se transformarão? A solução poderá ser uma extensão da sublimação, um processo que atualmente está fora do controlo consciente, mas que poderá não permanecer sempre assim. Uma parte da sexualidade poderá ir para a investigação e uma parte muito maior terá de conduzir à criação estética. A arte do futuro, devido às próprias oportunidades e materiais de que disporá, precisará de um impulso formativo infinitamente mais forte do que atualmente.

A tendência cardinal do progresso é a substituição de um ambiente de acaso indiferente por um deliberadamente criado. À medida que o tempo avança, a aceitação, a apreciação e até a compreensão da natureza serão cada vez menos necessárias. No seu lugar surgirá a necessidade de determinar a forma desejável do universo controlado pelo homem, que não é mais nem menos do que arte.

A psicologia de uma mente complexa terá de diferir quase tanto da de uma mente simples e mecanizada como a sua psicologia difere da nossa, porque algo que deve estar subjacente e talvez ser ainda maior do que o sexo está envolvido. Pela intercomunicação íntima das mentes, a própria existência do ego seria prejudicada pela primeira vez. Terá de se encontrar algum tipo de equilíbrio entre cada personalidade parcial e corporativa. Isto podemos esboçar vagamente quando pensamos nos conflitos entre o ego e os impulsos sexuais, estes últimos tentando sempre quebrar o isolamento do primeiro e alcançar outro indivíduo ou um grupo. Se uma vez for possível alcançar este alcance do sentimento, os resultados estão destinados a ser enormes e talvez avassaladores.

As personalidades corporativas formarão complexos cada vez maiores até restar apenas uma inteligência, ou haverá uma multiplicação de complexos separados e em evolução diferente com conflitos resultantes? As considerações espaciais parecem, no geral, favorecer a segunda hipótese, mas temos de permitir aumentos enormes nas comunicações e na capacidade de conduta racional.

Outra consideração psicológica ainda mais profunda surge neste ponto. Qual será o futuro do sentimento? Será pervertido ou superado por completo? Por outras palavras, os homens mecânicos ou corporativos do futuro serão emocionais ou racionais? Aqui temos muito pouco que nos oriente; não temos a certeza se a frieza comparativa do intelectualismo moderno é o efeito de um desenvolvimento considerável ou de uma repressão perigosa. Mesmo que soubéssemos a resposta, isso dificilmente nos ajudaria, uma vez que os nossos novos seres teriam um equilíbrio fisiológico diferente. Este equilíbrio não estará, como em nós, à mercê das interações descontroladas entre o indivíduo e o ambiente. O sentimento, ou pelo menos os tons de sentimento, estará quase certamente sob controlo consciente: um tom de sentimento será induzido para favorecer a realização de um determinado tipo de operação. Claro que seria excessivamente perigoso para os seres humanos no seu estado atual terem este controlo dos seus sentimentos. A grande maioria provavelmente se contentaria em permanecer num estado de felicidade mais ou menos extática, mas o homem do futuro terá provavelmente descoberto que a felicidade não é um fim da vida.

Isto é o mais longe que podemos ir mesmo em conjecturas. A psicologia do organismo completamente mecanizado deve permanecer um mistério.

Vista do ponto de vista do presente, a concretização de tal programa de desenvolvimento humano deve parecer uma ocupação muito sem sentido; mas é duvidoso que a civilização atual parecesse a um ateniense educado como algo digno de marcar o culminar dos seus esforços. Não devemos assumir uma psicologia estática e um conhecimento estaticamente adicional. O futuro imediato que é o nosso próprio desejo, procuramo-lo; ao alcançá-lo, tornamo-nos diferentes; ao tornarmo-nos diferentes, desejamos algo novo, pelo que não há estagnação exceto quando o próprio desenvolvimento parou. Além disso, o desenvolvimento, mesmo nos estádios mais refinados, será sempre um processo muito crítico; os perigos para toda a estrutura da humanidade e dos seus sucessores não diminuirão à medida que a sua sabedoria aumentar, porque, sabendo mais e querendo mais, ousarão mais e, ao ousar, arriscarão a sua própria destruição. Mas esta ousadia, esta experimentação, é realmente a qualidade essencial da vida.

(…)

Mas os cientistas não são senhores do destino da ciência; as mudanças que provocam podem, sem que o saibam, forçá-los a posições que nunca teriam escolhido. A sua curiosidade e os seus efeitos podem ser mais fortes do que a sua humanidade. Estes dois obstáculos à separação dos cientistas, embora ponderosos, são do tipo que perderia força com o tempo, enquanto os que favorecem a sua separação tendem a aumentar. A importância técnica do cientista está destinada a dar-lhe a administração independente de grandes fundos e a pôr fim ao estado mendicante em que atualmente existe. As corporações científicas poderiam muito bem tornar-se quase Estados independentes e ficar habilitadas a realizar as suas maiores experiências sem consultar o mundo exterior — um mundo cada vez menos capaz de julgar em que consistiam tais experiências. É muito provável que, antes que a verdadeira independência da ciência se fizesse sentir, a organização do mundo tivesse de passar pelo seu atual estádio semi-capitalista até à ditadura proletária completa, porque é improvável que, num Estado capitalista comum, se permitisse a uma corporação científica ser tão rica e poderosa. Num Estado soviético (não o atual, mas um livre do perigo de ataque capitalista), as instituições científicas tornar-se-iam de facto, gradualmente, o governo, e atingir-se-ia uma nova etapa da hierarquia marxista de dominação. Os cientistas nessa fase tenderiam muito naturalmente a identificar-se emocionalmente mais com o progresso da própria ciência do que com o de uma classe, de uma nação ou de uma humanidade exterior à ciência, enquanto o resto da população, pela difusão de uma educação em que os valores mais altos residissem numa direção científica em vez de moral ou política, estaria muito menos propensa a opor-se efetivamente ao desenvolvimento da ciência. Assim, o equilíbrio que agora se opõe à divisão da humanidade poderia bem inverter-se, quase impercetivelmente, na direção oposta.

A questão toda é largamente uma questão de números e tornar-se-ia inteiramente assim tão logo a quantidade e a qualidade da população fossem controladas pela autoridade. De um ponto de vista, os cientistas surgiriam como uma nova espécie e deixariam a humanidade para trás; de outro, a humanidade — a humanidade que conta — poderia parecer mudar em bloco, deixando para trás, num estado relativamente primitivo, aqueles demasiado estúpidos ou teimosos para mudar. Esta última perspetiva sugere outra analogia biológica: pode não haver espaço para ambos os tipos no mesmo mundo e o antigo mecanismo da extinção entraria em ação. Os seres melhor organizados ver-se-iam obrigados, em autodefesa, a reduzir o número dos outros até deixarem de ser seriamente incomodados por eles.

Se, como bem podemos supor, a colonização do espaço tiver ocorrido ou estiver a ocorrer enquanto estas mudanças se derem, poderá oferecer uma solução muito conveniente. A humanidade — a humanidade antiga — ficaria na posse indiscutida da Terra, sendo olhada pelos habitantes das esferas celestes com uma curiosa reverência. O mundo poderia, na verdade, transformar-se num jardim zoológico humano, um zoo tão inteligentemente gerido que os seus habitantes não se apercebessem de que ali estavam apenas para fins de observação e experimentação. Essa perspetiva deveria agradar a ambas as partes: satisfazer os cientistas nas suas aspirações a um maior conhecimento e a uma maior experiência, e os humanistas na sua busca por uma boa vida na Terra. Mas, de algum modo, falha precisamente pela virtude de ser uma solução possível e provável dentro das linhas do nosso próprio conhecimento. Não esperamos nem queremos realmente o provável; todos, mesmo os menos religiosos, conservam na mente, quando pensam no futuro, uma ideia de deus ex machina, de algum acontecimento transcendental e sobre-humano que, sem a sua ajuda, trará o universo à perfeição ou à destruição. Queremos que o futuro seja misterioso e cheio de poder sobrenatural; e, no entanto, essas mesmas aspirações, tão completamente afastadas do mundo físico, construíram esta civilização material e continuarão a construí-la no futuro, enquanto existir qualquer relação entre aspiração e ação.

Mas podemos contar com isto? Ou, antes, não teremos aqui o critério que decidirá a direção do desenvolvimento humano? Estamos prestes a poder ver os efeitos das nossas ações e as suas prováveis consequências no futuro; seguramos ainda timidamente o futuro, mas percebemo-lo pela primeira vez como uma função da nossa própria ação. Tendo-o visto, vamos virar as costas a algo que ofende a própria natureza dos nossos desejos mais antigos, ou o reconhecimento dos nossos novos poderes será suficiente para transformar esses desejos ao serviço do futuro que terão de concretizar?

O Fim de uma Música que Nunca Tocou

Paronomásia.

Raramente me dá o fado pretexto para espanejar o pó a uma das minhas palavras predilectas. O preço a pagar é sair do túmulo da minha rotina. Tempos atrás, ouvi um podcast com Rui Nunes, epíscopo do romance português, que durou quatro horas. Acomodei-me no episcénio para o espectáculo.[1] As primeiras três passaram-se previsíveis que nem o crescimento de unhas, mas menos alarmantes do que uma onicocriptose. Os iniciados sabem que os interesses de Nunes são estreitos como uma fechadura. Os escritores são criaturas de fixações. Finalmente, porém, começou a discorrer sobre as traduções da poesia do alemão Paul Celan (3:03:00). Segundo ele, há três grandes traduções a nível mundial, scilicet a inglesa, a francesa e a portuguesa. Das três, a portuguesa, de João Barrento, leva a palma de vencida. Opiniões inócuas. Como desconheço a poesia de Celan em absoluto, é-me igualmente inócua a opinião de que o inglês não se presta a traduzir este poeta alemão, não me compete a mim concordar ou contestar. Até aqui nenhuma perturbação. Mas a quarta opinião proferida por Nunes foi para este amante do inglês uma declaração de guerra.

Entende ele que a superioridade da tradução de Barrento se deve à “imensa capacidade plástica” do português (3:04:48). Triste dilema o meu: o lusófilo em mim está estarrecido por ouvir um elogio ao idioma pátrio a um escritor português quiçá pela primeira vez desde Afonso Lopes Vieira, se não António Feliciano de Castilho; mas a descabida lógica competitiva com que o autor de Cães recheou seu panegírico à língua de Camões atenua o regozijo neste lexífilo. À guisa de exemplo dessa imensa capacidade plástica, nunca por mim duvidada, lembra ou relembra Nunes que é possível substituir-se uma letra (vogal) numa palavra e obter cinco palavras diferentes. O exemplo dele (luxo, lixo, laxo) manca um tanto, “lexo” e “loxo” não existem em nenhum dicionário por mim consultado, mas o ponto dele é claro e devemos dar desconto à espontaneidade da podfala. Mãos largas, Nunes refere ainda oura riqueza da nossa língua: a facilidade no fabrico de neologismos. Animado como uma criança vinda duma visita de estudo, contou até que para o próximo livro inventou uma palavra: “sub-reptilígnea”, se desconstruí bem, combinação de “sub-reptícia”, “reptilínea” e “ígnea”. (Nunes está a brincar com a crença medieval de que as salamandras nasceriam do fogo.) Óptima proeza de engenharia, ingresso garantido no restrito Clube de Neologistas Lusitanos… o outro sócio do clube deve estar aturdido por haver finalmente alguém com quem conversar nas galas oficiais.

Perguntei-me se valia a pena intervir após a contagem dos minutos livres no turbilhão de tarefas. O essencial não é esbanjador. Somos mero barro a prazo, um tanto burro, que berra de viver e faz uma birra que não barra a morte e no fim voltamos ao barro e nem borras de memórias deixaremos – vale a pena trocar o tempo por um campo de batalha? Mas se aplicada a pressão certa, não há bilha que não rebente como uma bolha. O meu limite, o que me leva a deixar a minha lura tal e qual Grendel, são certas taras de pessoas inteligentes sobre línguas nacionais. A euforia com que comunica este assunto deixa-me encalacrado, digo-o sinceramente, ao ponto de sentir amargura por lhe debangar uns defeitos. Nunca deixará de me aprazer a conversão de um colega aos deleites lúdicos da linguagem literária. É possível, plausível, provável que este seja o segundo neologismo da vida do octogenário Nunes, após o Sauromaquia no ido ano de 1976. (Far-se-ão teses no futuro para deslindar a relação entre o frémito neológico dele e rastejantes de quatro patas acaudatados). A redescoberta do reportório retórico é rejuvenescente; espero estar à beira da aura de êxtase dele no dia em que descobrir que até há jitanjáforas, será o melhor bronzeado da minha vida. Onde o dia triunfal descamba em tribunal é o autor de Barro, por assomos patrióticos invulgares nele, afirmar que estas operações não são possíveis em Inglês nem Francês, embora sim em Alemão. Falta-me a agudeza para vislumbrar que neologismo formariam Heimlich (sub-reptício), reptilien (reptilíneo) e feurig (ígneo), mas em Inglês funciona elementarmente. Em menos de dois minutos transformei surreptitious, reptilian e igneous em surreptiligneous(ly). Se ele, na terceira idade, vai meter-se em bandeiras para desbravar um Amazonas retórico ainda inóspito, a minha experiência é contratável. Cobrarei um preço simbólico e só imponho a condição de que na página de agradecimentos eu figure na qualidade de “consultor neológico”, para me enriquecer o CV nestes tempos selvagens de meritocracia.

A literatura não nos prepara para as afirmações bizarras sobre línguas e linguagem de que os escritores são capazes. A aptidão neológica do Português não é superior à do Inglês e do Francês; mas o anfitrião do podcast, em vez de chamá-lo à razão, cortesmente encorajou-lhe o deslumbramento mencionando uma convidada anterior que se saiu com outra obra-prima: rastígios. E, preocupado com o bem-estar dos ouvintes, ligou as legendas para quem for duro de cérebro e explicou que rastígios é a soma de rasto, rastilho e vestígios. Rastilho é de si um derivado de rasto, mas adiante para Nunes. Que, legitimado, repetiu que nenhuma outra língua europeia, tirando o português e o alemão, é capaz de criar palavras novas imbuídas de sentido (3:06:18). Sem desprimor para a língua de Arno Schmidt, mas porque é que decidiu esquecer estrategicamente que houve Rabelais? Anthony Burgess? Julián Ríos? James Joyce?

Mas é a do luxo-lixo-laxo que me lixa. Nunes está a meter-se com uma figura de estilo a que já dei um quinhão de carinho e muitas horas de reflexão. Não a nomeou, mas ao pôr-se numa frase palavras semelhantes com variação vocálica interna letras (adição, subtração, substituição) os Antigos chamavam paronomásia. O Padre António Vieira usa no “Sermão da Sexagésima”: “Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos”.[2] Luiz Pacheco intitulou um folheto “Maravilhas & Maravalhas”. Saramago, num raro uso desta figura de estilo, escreveu “este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa”.[3] E é – perdoem-me o desaforo de me insinuar em tão selecta companhia – uma figura de estilo também frequentemente usada por mim na ficção que venho publicando há nove anos. Num conto de 2017, “Lagor, Vogais, TULL”, um coitado à espera à noite do metro que o leve a casa é abordado por um logómano que colecciona estes “naipes”, como lhes chama. O conto está montado inteiramente em diálogo corrido e a melhor reacção que recebi até hoje veio dum leitor que me contou que a leitura lhe infligiu a sensação de claustrofobia, o desconforto inescapável de ouvir um obsessivo que não se toca do quão chato é:

“Sabes, se não vais ouvir música convém desligares isso, Não, eu, Assim gastas as pilhas, Hm, os telemóveis não têm pilhas, O quê fusão a frio já, Tipo, bateria, Ah que maravilhoso, como um carro maravilhoso, Tipo, elóu, Tem piada, a palavra pilha, Sim, quando um gajo tem sete anos, Não me refiro a trocadilhos ordinários, Oh, ócai, pensei que, Estou a falar de ordens implícitas, de harmonias, de um naipe perfeito de palavras em relação à alteração da vogal, Desculpa, Pensa, temos palha pilha polha e pulha mas não temos pelha, não existe estraga o naipe, Polha é o quê, Não compras comida de gato, Não tenho gatos, Não interessa há outros naipes, Isso não são na, Fana fena fina fona mas não funa, Fana, De fanar, Ah, inclui conjugações verbais, Porquê a tautologia, Como, Conjugações verbais, Eu, hã, Por oposição a quê, substantivais, adjectivais, adverbiais ah talvez pronominais, Bem, Os verbos conjugam-se, tudo o resto declina-se correcto, Hã, sim su diz, O raio do metro nunca mais chega prò gajo me deslargar, Mas pra responder à tua pergunta, sim incluo conjugações, naipes duma só categoria gramatical são raros muito raros, Conhece algum, Por que raio lhe perguntei isto, Claro que conheço ando a ordená-los desde 1979, olha pata peta pita pota e tu sabes o quê, Hã, ah, pois, Ou sama sema sima soma suma, Conheço algumas, E ainda pá pé Pi pó pu, Espere o sen, Sim, aceito acentos como aceito conjugações, Néra isso que ia perg, E pala péla pi, aquela com i certo, mais póla e pula, Bem tem a sua piada como passatempo mas,”

Simplesmente listar estes conjuntos é fazer uma contrafacção da arte de combinar e recombinar palavras. O meu obsessivo talvez saiba muito sobre palavras, mas nada percebe “de aproveitamento e valorização das palavras que, por muito que caladas, uma pena que bem diga a Alma as restitui a virgens.”[4] Para o lexífilo, a paronomásia medalha-se de mérito por pôr palavras semelhantes numa frase ao serviço da narrativa, preservar o sentido e ser esteticamente deleitável. É esse desígnio que espero ter cumprido quando escrevi numa novela de 2019: “Nunca aprendeu a podar o pudor de pedir ao Poder.” Ou na mesma novela: “(…) encontrou até nas traças um traço de troça, pareciam banquetear-se com a sua oeuvre antes de esburacarem as inimicíssimas.” Taras gramaticais e lexicais todo o escritor as tem, irracionais, irredutíveis a uma explicação prática e irridentes aos de fora. Eu volteio de harmonia por fazer sobressair as contingências gráficas e aurais das palavras, converter o alea da aleatória fonética e ortografia em aliado contra a frase-lego, o lugar-comum com manual de instruções. De invisível, o cliché é invencível. O meu dever, se algum tenho, é lembrar o leitor da fisicalidade da linguagem, fazê-lo percepcionar as palavras que ecoam dentro de outras palavras: “D. Sebastião, se bastião foi da Cristandade, santificado seja porque (…)”. É como se, por um instante, o cosmos realmente fosse tão cosmético quanto o prometido no nome. Tão segunda natureza se me tornou esta paixão combinatória que até me esqueço de que no Parnaso há compadres como Nunes, com mais de meio século de escrita na caixeta, que ainda se espantam com o que para mim é um dia desacidental à secretária.

Vários tipos há de paronomásia: substituição de vogais por vogais (nesta área do teatro não se ouve a ária), de vogais por consoantes (um congresso de economistas onde discutem: “O Euro foi um erro?”), de consoantes por consoantes (há cartas de amor castas?). Há subtracções e adições (os ombros cobertos por uma capa de caspa.) As paronomásias atravessam a história: da Batalha de Zela não ficou nada senão a gabança de Júlio César: “Veni vidi vici”. Entretecidas nos diálogos platónicos. Teorizadas e definidas por Cícero e Quintiliano. O inegociável, no uso que lhes dou, é que seja preservada uma apreensão imediata de semelhanças gráfico-sonoras (vazante/valsante), um choque de reconhecimento que convide o leitor a abrandar para apreciar a ordem e simetria.

Todavia, a variação a que mais me afeiçoei, talvez em demasia, como uma amásia, foi a adição ou subtracção duma letra. É com essa figura que abro uma novela de 2019: “Samar, tal como a maioria das pessoas, odeia a maioria das pessoas. O ódio, como a humidade nos trópicos, é um tópico persistente na sua paisagem mental.” Ou noutra novela: “Merece um prémio só por deste proémio o vosso postiço panegirista se despear”. Ou na abertura do conto “Balanço a Meio do Século” “A alma solta-se dos anos, sobe aos anjos.” Numa novela, aproveitando a grafia obsoleta de “rubi”, usei “sem se destrinçar o ruim do rubim,”. (Tencionava evitar “separar o trigo do joio”, e antes algures já gastara “separar o joio da jóia”, por isso…)

Afeiçoei-me tanto à variante aditiva que me ganhou foros de figura autónoma e busco uma nomenclatura para esta especificidade. Sem sucesso corri a Silva Rhetoricae. E se for miragem? Mas não acredito que nos últimos 2500 anos ninguém tenha sentido este ardor antes de mim. Conto ter sorte, um dia, com o arábico. Num maravilhoso livro de Lara Harb, Arabic Poetics: Aesthetic Experience in Classical Arabic Literature, descobri uma arte da retórica muito mais minuciosa do que a dos greco-romanos. Os árabes cunharam conceitos desmerecidos pelos europeus até há muito pouco tempo. Aristóteles estragou a vida aos lexífilos ao normatizar e normalizar que a poesia devia imitar uma coisa chamada “natureza”. Excepto que a natureza para um grego antigo era uma abstracção ordeira, clara e moderada. Os árabes, mais poéticos e subtis, compreenderam que a poesia vale apenas enquanto linguagem, e tanto mais quanto mais engenhosa for. Foi por isso que no século XII os árabes já haviam cunhado “poeticidade” (shi‘riyya), que Roman Jakobson só viria a teorizar quase um milénio mais tarde. Também defenderam que o propósito da poesia é produzir no ouvinte/leitor espanto (ta‘ajjub), estranheza (istighrab) e a sensação de estar na presença de algo novo (istitraf). Na Europa, só no século XVII é que o Cavaliere Marino diria: “È del poeta il fin la meraviglia”. E poucos concordaram, então. Ezra Pound, coitado, por volta de 1934 sinceramente pensava que estava a fazer alguma coisa nova ao gritar “Make it new!”. Os árabes foram ainda pioneiros em teorizar o que Viktor Shklovsky baptizaria de “desfamiliarização”. O desgaste constante a que a linguagem está sujeita através do uso, da imprensa, da política, da publicidade, afirmou na Teoria da Prosa, obriga o escritor a renová-la através de técnicas que devolvam ao leitor a sensação duma experiência vívida. O livro de Shklovsky, de 1924, além dum importante avanço na teoria literária, foi altamente influente no século XX. Para os árabes, porém, isso era a base do óbvio. Zakariyya al-Qazwini (falecido em 1283) argumentou no ‘Aja’ib al-Makhluqat wa Ghara’ib al-Mawjudat que, se somos incapazes de estar num estado de espanto ininterrupto, apesar de o mundo estar atochado de maravilhas, isso é porque o espanto esmaece por efeito da familiaridade. Linguagem intensamente retórica – aliterações, assonâncias, lipogramas, palíndromos, paronomásias, anagramas, acrósticos – seria um paliativo para uma espécie pensante condenada a habitar o hábito até à banalidade do tédio animicida.

É um assunto tabu, mas um escritor pode fartar-se da sua língua materna. Tão baixa é a minha tolerância à frase familiar que anos atrás o Português me aborrecia: sempre as mesmas palavras, a mesma ordem sintáctica, as mesmas desinências, as mesmas paroxítonas. A escrita só é divertida quando se vai à linguagem para uma luta e não como que vestido de luto a um velório. Por isso, para ver se recuperava a pica que sentia nove anos atrás, transfugi-me, sem remorso, para o Inglês. Com o que reatei o meu romance com dois romances. Contra as expectativas de Nunes, o meu vezo paronomásico não paralisou nem abrandou: “But it doesn’t behoove a beehive to behave.”, “(…) of the kind king kind, fairy-talish, fair-minded, signate and sober (…)”, “absent- because absinthe-minded”. Chocante teria sido o oposto. A língua inglesa tem albergado paronomásias muitas e maravilhosas. Não fiz mais do que Lilian Bowles Lyon no poema “Daybreak”: “Have learned by rote, not leaned over like lover”; ou Robert Lowell em “Night Sweat”: “I dabble in the dapple of the day,”. Em Nabokov são super-comuns: “The summer night was starless and stirless, with distant spasms of silent lightning.” Seria indigno fazer uma competição quantitativa; já preenchi mais de 4000 linhas dum ficheiro Excel com grupos paronomásicos portugueses, mas a verdade é que nem uma língua nem outra me regatearam recursos quando precisei. Sendo esta actividade combinatória possível em qualquer língua nacional, o limite é a ocasião para a praticar sem prejuízo para a narrativa, e, acima de tudo, o escritor ter veia para partir pedra neste veio estilístico.

Mas é fabulosamente distante a recta que vai do encómio de Nunes à realidade. Vista lúgubre abre-se ao lexífilo lusitano se se puser espiando em estado selvagem figuras retóricas embrincadas. As alcateias de aliterações, os bandos de antanáclases, se alguma vez foram numerosos, debandaram há muito para outras bandas mediante o avanço do betão do puramente informativo, os seus planaltos e planícies aplanados pelos parques de estacionamento da plain prose. Não sei que literatura portuguesa dos últimos 300 anos tem Nunes andado a ler, mas a mim custa-me dar de caras com um “colega” com a disposição, paixão e inclinação para trilhar esta via. Tirando os sermões de Vieira e uma curiosidade de D. Francisco Manuel de Melo, A Feira dos Anexins, depois do século XVII a paronomásia tornou-se tão ameaçada como todas as demais figuras de estilo que interfiram com o desígnio nacional de alcançar a prosa mais simples e límpida possível. Neste censo incluo a extensa obra de Nunes, que não se tem revelado propriamente um rouxinol da retórica.

Estando assente e em pé de igualdade a nossa fé na imensa plasticidade da língua portuguesa, a minha pergunta é: porque é que ele nunca a concretizou antes nos seus romances, onde impera a prosa simples do artigo jornalístico? O romance dele que mais recentemente li foi o Grito (título já de si um conciso manifesto anti-retórico). Que topei na página 8?

“Deitada na cama, Emília vê o tecto, em esconso, baixar para o seu corpo, a corticite pintada de branca, pontilhada de poros onde a tinta não entrara. O tecto é uma doença: sinais, verrugas, cicatrizes. Ouve, sob as telhas, o chiar dos padais, o restolhar das suas asas, e pensa: esta merda não isola, gastei um dinheirão nesta merda e ela não isola. Sente-se cansada. Sente-se sempre cansada. Hoje, mais do que é costume. Sonhou com a morte de Manuel e não viu nada nesse sonho. Ouviu o sonho: um som: o da navalha de barbear a cair no peito de Manuel já morto.”[5]

Onde o usufruto da susodita plasticidade? Estilisticamente, isto denota em quê mais mestria do que o costumeiro romance luispeixotino? Permite-me uma correcção, caridosa leitora, eu nem sequer acredito que a língua portuguesa é imensamente plástica – eu sei que é, empiricamente, porque nos últimos nove anos milhares de vezes o provei a mim próprio. Mas Nunes está a tentar convencer-se dos milagres duma religião que nos actos tem repudiado. De contrário, seria o autor de romances mais retoricamente coca-bichinhosos. Em 1967, estreou-se com um temperamento já acabado

“numa praça com arcos de metal e sem estátua que se abria para o cinzento, pensou que o cinzento era rio. Só estranhou tudo vago. encostou-se a um pilar entre os arcos: as costas roçaram uma superfície, lisa e sem asperezas e os pés deslizaram no chão. olhou para baixo: metal. olhou para o céu, mas não encontrou nada de diferente: uma realidade parda. talvez chapa ou nevoeiro. restava-lhe a saída do rio mas guardou-a para mais tarde. agora queria percorrer a praça. iam ali dar ruas indistintas e polidas. caminhou batendo os passos. soavam-lhe vindo dos arcos.”[6]

Encho-me de pena dizer que não enxergo a materialização das potencialidades da nossa língua imensamente plástica. Já agora, o trecho acima é um parágrafo que começa mesmo com “numa praça”, minúscula e tudo. Sempre me engriguilhei com os contemporâneos de Nunes que pensavam que bastava trocar maiúsculas por minúsculas para exibir dotes verbais superiores aos dos neo-realistas. Era a tal e famosa “aventura da escrita” de Jean Ricardou que serviu de lema à geração dele. Na minha experiência, aos escritores que usam técnicas anti-gramaticais deste jaez subjaz um ódio intenso à mente retórica que se deleita na criação paronomásica. Daí que procurá-las na obra de Nunes seja tão ingrata tarefa como procurar a carteira no escuro duma gruta.

O que me intrigou (instigou) foi a dissonância entre as palavras faladas e as palavras escritas. Hoje em dia, e desde há muito, é assaz raro a um escritor português a língua materna merecer elogios; o prato da balança pende mais para as pavanas da prata da grande casa lusitana. Eis Hélia Correia neónica de nacional-desdenhismo: “O português de Portugal é velho e rígido, o português de África e do Brasil é jovem, plástico, criativo, fértil”.[7] Agora Arnaldo Saraiva: “Língua morta, de mortos, ou, quando não, língua de velhos, velha. Cheia de catarro. De piropos pirosos. De perdigotos. De pontos de exclamação vazia.”[8] A contradição de Nunes interessa-me na medida em que tenho um interesse etológico na espécie a que pertence o autor de Osculatriz, endémica nas plagas e penedos de Portugal. O escritor português (Pachequensis scriba) pode ser observado, em estado selvagem, a desprezar qualquer operação linguística criativa que vá além de frases curtas, simples e puramente informativas. O termo técnico para o seu canto é “simplifico”. Um escritor português identifica-se pelo tom distintivamente lamuriento dum simplifico dardejando na brisa tépida do que resta do Pinhal de Leiria:

Fernando Namora: “A meu ver, a nossa língua é um instrumento simultaneamente duro e fluido, essas características mais se salientam quando, como na tendência actual, à linguagem se pede muito do significado de uma obra literária. A prolixidade rouba-lhe limpidez e a dureza obriga o escritor a artifícios que, por vezes, ficam à beira da orgia.”[9]

José Saramago: “O português falado e escrito no Brasil é uma língua fremente, em transe de criação – não este soturno cantochão, emperrado e solene, em que o português de cá se transformou.”[10]

Nuno Bragança: “O meu susto, diante da tarefa de escrever, não estaria relacionado com as dificuldades de uma prosa em que parece sempre necessário escrever tantas palavras para dizer tão pouco?”[11]

José Rodrigues Miguéis: “À nossa linguagem literária, como à nossa gente, falta-lhe ginástica: a cada passo tropeçamos com a falta de termos precisos para lhe definir o impreciso, de formas definidas para fixar o indefinido…”[12]

Luiz Pacheco: “Mas a nossa língua é tão pesada! Ou prolixa e se perde em divagações vesgas; ou dura e abusa das chocarreirices, grosseirona. Os Franceses cravam o punhal com tal delicadeza!”[13]

Diogo Vaz Pinto: “E o português como ele hoje existe é uma linguagem que não te permite dizer nada, é uma linguagem caduca, é uma linguagem que está sempre em processo outonal”[14]

Ao escritor português, conta David Attenborough num programa de domingo, falta o hábito de adornar o seu covil com paronomásias, neologismos, antanáclases, aliterações, lipogramas, palíndromos e similares operações linguísticas a que antigamente se dava o nome de figuras de estilo. É-lhe inato segregar a frase curta e desadornada a partir duma glândula especial no cérebro. Quando muito, desencantará umas metáforas.

Quando os portugueses querem simular “aventura da escrita” e chamar a atenção do leitor, fazem-no impreterivelmente através de efeitos fáceis: tirar a pontuação, Dessinalizar as maiúsculas, destruir a sintaxe. Nos anos 60 chamava-se isto “desregramento”, como Nunes estará lembrado. Hooliganismos que não relevam de talento nenhum do lado deles. A nenhum português passaria pela cabeça impressionar graças a um lipograma de 300 páginas sem a vogal E, como La disparition de Georges Perec. O píncaro do estilo será, quando muito, a frase longa, a engenhoca mais preguiçosa e fácil de enjorcar, baixa em consumo de colorias, uma adaptação evolucionária necessária visto que o escritor português tem de conservar o calor durante os longos invernos frios nos apartamentos mal insulados em que vive.

Os literatos portugueses andam a maldizer o próprio idioma desde o século XIX, pelo menos; com pouca margem de erro a afiliação política dum literato era extrapolável a partir do que pensava acerca dele. Para contrabalanço de tradicionalistas e conservadores, o pacote progressista incluía o enxovalho da ferramenta de trabalho. O conceito da modernidade portuguesa, que nasceu enquanto tal no século XVIII, fez-se contra um Seiscentos que, além de Barroco e retórico, englobava a monarquia absoluta, a Inquisição, a decadência do Império, a superstição, o isolamento da Europa. Para um progressista oitocentista, ser-se moderno significava escrever de forma simples e natural, sem marcas de oratória. A intelligentsia desenvolveu uma basta terminologia para identificar os perigos. O adjectivo “fradesco” designava tudo o que julgasse anti-moderno. “A nossa literatura clássica é intragável: é o produto, com raras excepções, de frades babosos e místicos que se não podem ler de fio a pavio”, lamentou Raul Brandão.[15] Antero falava das “prosas imitadas das algaravias místicas de frades estonteados” de António Feliciano de Castilho.[16] Alexandre Conceição deplorou o estilo “fradesco e obsoleto” de Camilo.[17] O grande desígnio nacional tem sido não ser fradesco.

Nem retórico, vade retro. A assunção do intelectual português é de que nós portugueses somos inescapavelmente retóricos, verborreicos. Disso fomos lembrados há poucos anos quando Vasco Pulido Valente teceu a sua inexcedível elegia a Agustina Bessa-Luís:

“Morreu Agustina e teve justamente uma aclamação nacional. Peço desculpa de me excluir da imensa multidão dos seus devotos. Enquanto ela era celebrada na Sé Catedral do Porto, os literati comentavam o facto lamentável de ela não ser também um grande autor internacional. Porque será?

Porque Agustina é uma filha de Entre-Douro-e-Minho, que nunca percebeu o que ficava para lá das fronteiras em que sempre se fechou. Nós podemos, como portugueses, ter uma certa inclinação por ela. Partilho o gosto pela retórica. Mas nunca consegui desculpar a ausência de arquitectura dos romances, nem a prosa imperdoavelmente irresponsável, como diria Borges. Assim vai o mundo.”[18]

Sendo isto uma laracha de Pulido Valente, é uma questão de tempo até descobrirmos a página de Eça de Queiroz de que a plagiou. Poupo-te o trabalho: a fonte é a famosa carta que Eça se escusou de enviar a Camilo, onde ironizou “sou meridional, portanto loquaz.”[19] Mas é plágio ou estavam os dois apenas sintonizados com a ideia-feita quási-rácica de que nós, os europeus do sul, papistas e cerimoniosos, somos mais verbosos do que os austeros protestantes do norte? Para mim, o mais tenebroso é alguém pensar que a prosa relativamente lisa de Agustina é “retórica”. Desastradamente, o que VPV está a cometer é aquela confusão muito comum de fazer retórico passar por sinónimo de verboso, se não verborreico, conotado com indisciplina e disformidade.

De seguida vem o “barroco”. Além da sua queda para a retórica, convém não subvalorizar a “tendência para o barroco pitoresco do português,” lembrava José Gomes Ferreira.[20] É assim que os intelectuais portugueses olham para a população e a língua há 300 anos. É por isso que somos tão frouxos a elogiar o idioma, é literalmente a fonte do nosso fiasco cultural. É por isso que, nas raras ocasiões em que um se lembra de serenatar ao idioma, ocorrem pequenos desastres. Certo dia Saramago teve uma palinódia e plantou-se no pólo oposto, excessivamente, proclamando que “a nossa língua é a mais bela do mundo” num congresso de lusitanistas no Rio de Janeiro, motivando Antonio Tabucchi a reflectir se não estariam numa “época de feroz retorno na Europa da xenofobia e dos racismos”.[21] Quem diria que o autor de Afirma Pereira era profeta além de pessoanista.

Rui Nunes está longe de ser um energúmeno fascista, é aliás um dos poucos romancistas entre nós que produziram um pensamento cogente sobre o lento relapsar da Europa no fascismo. Contudo, nem ele nem Saramago perguntaram: se a nossa língua é assim tão excelsa, e eu sei que é, o que tem inibido os portugueses de usarem as suas potencialidades ao máximo? Se somos assim tão retóricos, tão barrocos, tão verbosos, que malas-artes têm obstado um Finnegans Wake de surgir entre os portugueses, de pequenos glotalmente munidos para tão grandiosa empresa? Respostas em português mas não portuguesas ao Wake conheço duas: Galáxias (1963-84) de Haroldo de Campos e Catatau (1975) do seu semi-discípulo Paulo Leminski. Mas a criação destes livros ímpares foi congruente com um meio literário apaixonado por formas retóricas retorcidas. Foi da autoria de um brasileiro, Antônio Houaiss, dicionarista para mais, a primeira tradução portuguesa de Ulysses, em 1966. Quatro anos antes, Haroldo e o seu irmão, Augusto, verteram para português pela primeira vez fragmentos do Wake. Com mais afinco, assumiu a responsabilidade desse devaneio Donaldo Schüler. Depois veio Vinicius Alves. E em 2022 a Iluminuras lançou uma tradução integral feita por um colectivo de onze tradutores. Pela lição do contraste, é esclarecedora a fortuna de Joyce em Portugal. Os direitos de Ulysses foram comprados pela Arcádia em Dezembro de ‘59, com Mário-Henrique Leiria escolhido para tradutor.[22] Mas a Arcádia faliu e a empreitada passou para a Livros de Brasil, que por fim pôs no mercado a tradução de João Palma-Ferreira, em ‘89. Nesse lapso temporal, o Wake só mereceu atenção a um tradutor, M. S. Lourenço, que publicou os modestos resultados na revista Tempo e o Modo,[23] em ’68, voltando ao assunto na Colóquio/Letras em ‘75.[24] Zero continuadores até hoje.

Porque é o inglês o idioma (por assim dizer) de Finnegans Wake se é tão impróprio para fazer surreptiligneously e outros neologismos? Enganou-se Nunes nos seus ditirambos? Será o português, afinal, uma bosta como o afiançavam sem prurido os colegas dele? Não, o defeito não está na língua portuguesa, por mais que Namora, Pacheco e C.ª a achincalhassem como o lixo da laringe. O factor não é linguístico, é aquele indefinível humano que orienta o desenvolvimento duma cultura numa direcção em vez de outra. A totalidade do ambiente nacional, das escolas às Academias, dos jornais às tertúlias literárias, tem incutido de há séculos a esta parte o desprezo não só por neologismos mas pela ideia de que a prosa literária deva ser mais do que puramente informativa e subserviente à moderação e invisibilidade conformadas com as normas do “bom gosto”. O bom gosto literário em vigor desde os poetas arcádicos descoraja todo o excesso através de uma (auto-)vigilância doentia que demove a habituação a uma retórica que produza mais do que frases básicas na ordem de “Ela saiu de casa e o céu estava azul”. Para que não haja equívocos: não estabeleço nenhuma diferença retórica entre “Ela saiu de casa e o céu estava azul” e uma das “frases longas” de Saramago.

Ordem, moderação e contenção têm sido os motes desta espécie pouco criativa e aventurosa que o nosso meio produz. Aliás, Nunes de imediato se ajoelhou a essa hegemonia simplificante com um auso que chocou até os vigilantes do seu tempo. Em ‘66, Gastão Cruz fez uma resenha colectiva a um lote de livros de poemas de Nunes, Júlia Maury, Beatriz Rodrigues Barbosa, Ercília Leitão e Luísa Maria Simões Raposo e não poupou ao estreante o seu Restos de Raios Partidos: “Tenho-me referido, nestas colunas, ao amadorismo, no pior sentido, que afecta uma grande parte dos livros de poesia entre nós publicados.” Sim, era com ele também: “É o que, no pior sentido, sob diversas formas e, apesar de tudo, em diversos graus, revelam os livros Milagre do Pão, Pinto Fixo e Restos de Raios Partidos.” Especificamente com ele: “Efectivamente, só uma total ausência de leituras de poesia (leitura, entenda-se) e de autocrítica pode consentir que se escrevam (e publiquem!) versos como Resta somente / não ter agonias na voz (Rui Nunes)”, etc.[25] O primeiro contacto com o predador natural do Pachequensis scriba ajudou esta cria a ganhar forças. Seguiram-se os contos de Ângulo sem Espaço, nos quais ele, reprovou Manuel Poppe, cometeu um “abandono ao subjectivo a que a linguagem pobre não consegue dar forma.”[26] Farpa que deve estar emoldurada numa parede da casa ao modo de galardão. Em ‘68 foi a vez de As Margens, novela, ressalvou Manuel Alberto Valente, que “só por uma questão deontológica conseguimos ler até ao fim”.[27] Nem Terra do Pecado suscitou recensões assim tão mazinhas. O estranho é que nem os temas nem a linguagem mereciam tanta hostilidade; à luz do que se fazia na época, Nunes estava plenamente integrado nas coordenadas estéticas dos outros jovens descobridores do anti-romance no qual puseram as esperanças duma ruptura vital com o neo-realismo.

No entanto, embora o estilo do Pachequensis scriba seja indistinto de espécime para espécime, habitat não há que não congemine uma hierarquia de valores. Assim, são escolhidos aleatoriamente felizardos para fundarem mitos. Nesta mistificação tem Nunes participado. Certa vez disse numa entrevista esclarecedora: “Está a tocar num ponto absolutamente essencial da minha escrita. Gosto muito da escrita do Herberto Hélder. Mas no Herberto existe o fascínio da linguagem, em mim não existe. A linguagem não me fascina. Tudo aquilo que eu sou está de certo modo aí, e eu estou condenado a ela [à linguagem], mas ela não exerce nenhum tipo de fascínio sobre mim.”[28]

O retoricão encastoado em mim contraporia que Ada or Ardor ou The Tunnel ou Quer pasticciaccio brutto de via Merulana ou Larva ou Darconville’s Cat ou Dom Tanas de Barbatanas teriam sido inexequíveis sem fascínio pela linguagem, sem volúpia pelo Verbo. Mas o mais perturbador nesta confissão é o ele acreditar sinceramente que Helder estivesse dominado pelo djinn da dicção. Talvez se referisse aos poemas. Mas a única poesia que me interessa é prosa e quando penso em Helder penso exclusivamente na prosa medíocre de Os Passos em Volta, esse batido de frases batidas:

“O seu quarto fica sobre uma loja onde se vendem leite, natas, queijos, cremes. Tudo isso é branco e gordo. Ele desce as escadas, pára em frente da loja. O que é isto? – pergunta. Refere-se a Deus, devorador de natas. – Aqui existe decerto qualquer confusão – supõe – Sou um inocente. Afastem Deus de ao pé de mim. Além disso, estou amaldiçoado.” [29]

Caveat: aos que me chamarão filho da puta malvado com requintes de ressentimento por ter escolhido este trecho desenxabido de propósito para enxovalhar o Herberto, quando podia, quando devia ter escolhido a passagem na página tal, tão mas tão mais ilustrativa do seu estro, deixem-me contar-vos um pouco da Ângela Varela. Num passado incerto, a Ângela fez um estudo com o centipédico e estridente título Configurações do Poema em Prosa: de ‘Notas Marginais’ de Eça ao Livro do Desassossego de Pessoa. Neste estudo transcreveu a supracitada infelicidade para exemplificar o que entende por “prosa poética”. A Ângela, depois de compulsar Os Passos em Volta, genuinamente se persuadiu de que “O seu quarto fica sobre uma loja onde se vendem leite, natas, queijos, cremes.” é um exemplo poderoso de prosa fora de série, imbuída de características raras e inatingíveis por meros mortais. Para mais, ela doutorou-se com esta tese. É verdade, a Ângela é oficialmente doutora em prosa poética, conforme o grau académico conferido pela minha antiga alma mater, a Universidade de Lisboa. No dia em que um prosopoeta for apanhado dentro da Assembleia Nacional, com uma caçadeira de canos serrados debaixo da gabardine e uma lista de deputados a abater no bolso das calças, é ela quem vai ser chamada para milhazear nas televisões sobre chatrooms no dark web onde jovens são radicalizados com epânodos e epanáfora. Portanto, baixa a bolinha, estás na presença duma perita com costas aquecidas pelas luminárias da FLUL e a conversa ainda não chegou aos leigos nas caixas de comentários.

Varela é um caso teratológico fascinante. Suponho que para se tornar doutora em prosa poética teve de fazer um levantamento exaustivo do que seria prosa poética em Portugal. Fez cotejos, estabeleceu critérios implacáveis e rejeitou muita moeda falsa que anda por aí a enganar papalvos, como eu. Quer dizer, especulo, que Varela, a dada altura, se cruzou com um romance de Tomaz de Figueiredo, Nó Cego (1950), passou os olhos por isto,

“Saudades de tudo… Nem ele sabia que tinha amor a muitas coisas para as quais até ali mal cuidaria ter olhado. Os cortinados de cassa com florzinhas miúdas, a desbotarem… A cadeira de coiro do tio Bento, sempre com uma manta dobrada em cima, para o tio Bento deitar à noite sobre os joelhos… Os quadrados da manta, uns azuis escuros e outros de azul um nadinha menos escuro… A caixa dos óculos do tio Bento, com a pele descolada numa das pontas, a descobrir o metal amarelo cheio de verdete… A barrinha doirada, a desvanecer-se, das xícaras por onde acabavam de tomar chá… A cómoda toda feita de bocadinhos de madeira de umas poucas de cores, onde o tio Bento guardava papéis que nunca mais acabavam… Um nó do soalho, que, sempre que o molhavam, ao esfregar, ficava a parecer ainda mais uma cabeça de gato, com olhos e bigodes, orelhas e tudo… O retrato do Papa, a deitar a bênção à família, com uma esquininha do vidro estalada… O florão de estuque, no tecto, que volta e meia o candeeiro de suspensão defumava e que logo o tio Bento mandava caiar, tanto que já pouco se lhe percebiam as grinaldas, entupidas pelas muitas demãos… Saudades até do fantasma, do fantasma que, ouvia contar às criadas, costumava aparecer no quarto vermelho… Nunca ele o vira, isso sim! – de medo passava sempre às carreiras em frente do quarto vermelho – mas agora parecia-lhe que até o ter medo do fantasma lhe fazia falta… E, logo de manhã, até que chegassem as férias, nem mais fantasma, nem mais florão de estuque, nem o retrato do Papa, nem o nó do sobrado, que parecia a cabeça dum gato, nem a cómoda, nem a barrinha das xícaras, nem a caixa dos óculos, nem a manta, nem a cadeira, nem os cortinados… Nem tudo, nem o pai… Nem o pai!”[30]

e a doutora de prosa poética in vitro pensou para consigo, “Nããããã, esta longa frase, minuciosamente arquitectónica, que espirala sobre si mesma, não é poética. Poética-poética é ‘O seu quarto fica sobre uma loja onde se vendem leite, natas, queijos, cremes.’” E lá transpôs a prosita do Herberto para a sua tese brilhante para ilustrar aos paspalhões que coisa é essa da prosa poética. E a tese foi à defesa e um júri de outros doutores, sentados em juízo, escutaram a eloquência da doutoranda e convenceram-se com a faustosidade persuasiva da sua facúndia.

De uma assentada, Varela criou um precedente universitário perigoso: doravante estamos autorizados a proclamar que Pedro Chagas Freitas escreve prosa poética ao nível do Herberto. Porque, em que sentido é que a frase “O infeliz fecha os olhos para morrer; o feliz fecha os olhos para viver.” é menos poética, competente, aliciante ou invulgar do que “O seu quarto fica sobre uma loja onde se vendem leite, natas, queijos, cremes.”? Até a julgo mais poética (usa estruturas paralelas, rima interna e antítese) e provavelmente exigiu mais esforço. A única proeza que a prosa de Herberto Helder alcançou foi plantar uma bandeira no cume dum coma. À versão literária de gaslighting que nome dar? Que chamar à subtil falcatrua que me tenta engrupir de que a linguagem medíocre à minha volta é extraordinária? Em homenagem a Varela cunharei o verbo herbertar.

Claramente, o Pachequensis scriba e eu temos ideias irreconciliáveis sobre o que seja prosa poética. É que o meio está constantemente a herbertar os incautos. Quando Os Passos em Volta apareceu, em 1963, ia de vento em pomposidade o processo de canonização dum equívoco chamado Almeida Faria. Faria adiantou-se-lhe com Rumor Branco, cujo fedor a primeiro rascunho se atenuou sob perfumes retóricos invulgares para a época, de que a aliteração seria o mais penetrante. Havia sinais claros de problemas com a oficina dele, mas a crítica, desarmada por inexperiência em lidar com este tipo de prosa, estrenuamente adulou-lhe os fogachos de virtuosismo. Faria, muito contentinho com o seu ditado escolar, tendo acreditado que chegara ao pico da mestria aos 19 anos, foi-se simplificando de livro em livro, cada vez mais, até decair na plenitude da planeza no seu último romance, O Conquistador (1990), mesmo último. A partir daí, não podendo piorar mais por auto-recreação a não ser que causasse uma lesão cerebral a si próprio, optou por se calar até hoje. Tinha 47 anos. Num meio onde a regra é começar simples e simples morrer, ele não é caso único de estreias de verbos retumbantes que progressivamente defraudaram as expectativas de quem esperou que se viessem a tornar mais exagerados, excessivos, amaneirados, artificiais, barrocos, rococós. Aconteceu com José Saramago, que se desfez do seu barroquismo a partir de Ensaio sobre a Cegueira. Mas Saramago, sem desprimor para as suas outras virtudes, só foi um lexífilo para um povo que vinte anos antes achara Faria um mandarim estilístico.

Veramente trágica foi a rendição ao gosto vigente de António Lobo Antunes, um dos maiores magos verbais que Portugal alguma vez produziu. Mas desde o seu surgimento, em 1979, foi massacrado ininterruptamente pelo seu barroquismo exibicionista, pelas “metáforas patetas”, no célebre dizer de Pacheco. Lobo Antunes aguentou a hostilidade por uns anos, mas finalmente acatou. Esta gradual submissão é cronicada em recensões e entrevistas. Em 1985, Clara Ferreira Alves pontificou que o primeiro dos “sete pecados mortais” de Lobo Antunes “é a acumulação de comparações a torto e a direito, várias num único parágrafo, a cavalgarem num verbo ou num substantivo que, com o peso, coxeiam e acabam por perder a corrida”.[31] O romancista, ao invés de defender a sua arte da insignifiqueira que nos infligiu Pai Nosso, aceitou a achega e prometeu, contrito, “que o meu próximo livro vai ser muito mais expurgado de imagens e de excesso.”[32] O declínio começara. Em 1992, o entrevistador Luís Coelho registou com visível agrado que A Ordem Natural das Coisas abusava menos nas metáforas do que romances anteriores.[33] Tereza Coelho dizia, em 1994, que A Morte de Carlos Gardel saiu “(Quase) sem adjectivos, comparações, imagens.”[34] Podias dizer o mesmo de qualquer manual de aspirador. O autor confirmaria o desbaste: “Imagens, metáforas, adjectivos, advérbios, saiu tudo.”[35] E a Rodrigues da Silva, do JL, repetiu no mesmo ano: “Com menos gordura, menos banha e sem a necessidade do palavrão, da metáfora constante…”[36] De facto, 1994 seria um ano-chave para a domesticação de Lobo Antunes aos diktats do seu povo odiador de estilo. A João Botelho da Silva confidenciou: “Não sei como irão ser os meus futuros livros, mas terei de mudar muita coisa porque não consigo ir mais longe na secura. O livro está reduzido ao osso, nos adjectivos, advérbios, metáforas, imagens, talvez porque a intensidade dos sentimentos seja muito grande.”[37] Em 1997, completamente mascotizado, ele justificou a sua mudança, talvez ao seu passado traído, com Tolstoi: “Isso prende-se com aquela noção do Tolstoi, que falava da arte do romance em termos de eficácia. Ele dizia que um bom romancista era um romancista eficaz, aquele que não se sacrifica à pirueta, à metáfora… O seu objectivo é a eficácia da narrativa.” E acrescentou: “Todo o livro é que tem de ser a metáfora…”[38] Em 1999, reportou menos a Rodrigues da Silva do que a um tribunal abstracto, talvez o inconsciente colectivo, sei lá: “Desapareceram os advérbios, os adjectivos. E as metáforas, já só uso as directas.”[39] Esta auto-mutilação atingiu a apoteose em 2003, num repúdio total dos seus romances até às Naus, o seu último momento de fulgor: “Não gosto de ler aqueles livros em que se está sempre a ver o autor a aparecer: repara como eu faço, repara nesta metáfora, nesta imagem, repara como eu arranco isto… retira a eficácia ao livro. Às vezes custa uma pessoa retirar do livro certas tournures que saíram muito bem. Um livro não tem que ser bonito, tem que ser eficaz, no sentido de ser implacável.”[40] E completada a metamorfose, a força da sua prosa morreu na forca que ele próprio montou para ela, sem músculos, ligada por agrafos, tanto ao agrado do português. Há uns anos, tentei reconciliar-me com O Manual dos Inquisidores, mas em poucas páginas percebi que a fornalha se apagara para sempre; larguei-o de imediato para que se não evaporasse como uma miragem a imagem que conservo do engenho dos livros 3 a 7.

Percurso oposto tomam os lexífilos. O excesso sincero é uma descoberta em progresso. Joyce começou com um livro de contos em prosa simples e acabou a com um livro escrito num idioma que Anthony Burgess, com perspicácia, apelidou de “pun-European”. O primeiro romance de Nabokov é o execrável Mary e só aos 60 anos é que iniciou Ada or Ardor. Carlo Emilio Gadda produziu muita tralha naturalista antes de reinventar o italiano em Quer pasticciaccio brutto de via Merulana. Os contos macabros, muito imitativos de Sá-Carneiro, que Tomaz revelou no semanário Fradique nos anos 1930, não davam a ninguém o direito de imaginar o advento de Dom Tanas de Barbatanas.

A prosa de Herberto Helder e Almeida Faria não é a minha. Mas não foram os únicos felizardos neste sorteio. Um dia a Prémio Camões ’02 morreu, como às vezes acontece aos imortais, e Mário de Carvalho evocou-a um ano depois:

“MARIA VELHO DA COSTA. Casas Pardas. Porventura a maior escritora da nossa Língua. Linguagem trabalhada, prosa eriçada de surpresas, tipos sociais observados com minúcia e engenho, recusa total das facilitações. Cadência estudada de palavras e frases. A sua presença pessoal era tão fascinante como a sua escrita, o que nem sempre acontece. Sensibilidade apurada, vivo e rápido senso de humor, uma conversação sofisticada, com abundância de efeitos, ora irónicos ora graves, sempre únicos e inteligentes.”[41]

Isto é um repto descomunal. Vais precisar dum tassalho de prosa extraordinário para me convencer. Isto é o que o autor de Os Alferes teria em mente:

“…, inda outro dia, ali para os lados do Limoeiro, salta-me para dentro um gajo todo afiambrado que me mandou seguir para o Alto de São João, isto noite alta, aí pelas quatro da matina, chega que não chega, eu a dar ao tramelo como o costume, que é para não ouvir as tripas da traquitana a ranger, o gajo moita, até que me chega ali a Campo de Ourique, naquele jardim onde está a Maria da Fonte maneta e diz-me para eu lhe passar o envelope, isto o frio da ponta da naifa apontado aqui ao cachaço, o meco deve ter visto que não valia a pena ir a fiéis defuntos , que eu tinha afinfado a buzina a um desses bananas de caixinhas de fósforos e pneu mamalhudo e trago-a chilra que nem tosse de grilo, Cheguei-lhe uma guinada aqui ao volante e olhe, foi com uma chave de cabeça marota que o sô guarda tem aí aos pés, esbarrondei a ponta do focinho à máquina, foi-se-me um farolim pró galheiro, mas olhe que a fachada do gajo não ficou melhor, dentes só dois apanhei-lhe eu no capacho, ao outro dia, que dei à miúda para fazer jantarinhos de tutano…”[42]

Esta lengalenga incontinente em hiper-calão, oralidade em esteróides, tinha muto mais piada quando era redigida por Luís de Sttau Monteiro sob o pseudónimo de Guidinha, dez anos antes. É mesmo isto o melhor que se extrai de 400 páginas? Um ano depois da morte de quem queremos honrar? Para expormos ao mundo provas da sua mestria sobre a língua portuguesa? Um exercício em “escrever tal como se fala”, como pedia aos escritores o antigo professor do Mário, Mário Dionísio, nos anos 40? Voltamos ao dilema criado por Varela: se isto é uma amostra da porventura “maior escritora da nossa Língua”, que título de consolação se adequa ao compositor desta melodia?

“Tem-me custado a morrer. O tempo, comigo, custa-lhe a levar a melhor, e até hoje ainda não levou. Ponho-me a pino com ele. Reponto-lhe, desafio-o para a pancada. Há-de vencer, mas devagar. Chega um perfume, para que o vença. E um pássaro no beiral, o redondo loiro de uma nuvem, a baeta dum reposteiro, a chita duma colcha, uma xícara, o aço dum espelho que a humidade enfoscou, o quadro que sempre tende para entortar num papel de parede com uma pastorinha a fiar e ovelhas, e nem te falo em retratos. O timbre dum copo de cristal! O macio dum veludo! O oxidado duma espingarda! O cheiro duma pinha a assar à lareira, o dum jasmim-do-cabo! O rosado duma cereja, dum morango! Um rio: o meu rio! O que haverá, o que hás-de encontrar, para deitar fora, de recordações minhas, de que eu e mais ninguém sabe o significado, depois de eu morrer! Não queimes logo tudo, meu filho. Vê, primeiro, bem. Entre tantos jornais amarelos, entre tantas cartas delidas, tanta papelada, algum papelinho seria pena. Em tantos versos que deixo, nalgum teria sido poeta. E, em cada gaveta, ou entre as folhas dalgum livro, uma fotografia de tua mãe… Há – e já to mostrei, no escaninho duma prateleira – um botão de rosa que esteve na mão do cadáver de tua mãe. Não me ter ficado no gravador a voz da tua mãe! Que evidência viva, a da voz! A de uma fonte!”[43]

Isto será o quê? Um esforço decente? Um 6 em 10? O vislumbre duma verve vindoura? De que características e qualidades falamos em concreto quando falamos de “linguagem trabalhada”, “prosa eriçada de surpresas”, “recusa total das facilitações”, “cadência estudada de palavras e frases”? Mário de Carvalho está a tentar endrominar quem?

Mas há pior. Em 2015 labutava eu no meu primeiro livrito quando me passou isto debaixo dos olhos:

“Para Ana Margarida de Carvalho o prazer da influência pode muito bem acabar angústia. “Deve haver muita gente que gostaria de escrever à sua maneira, até porque os seus livros sacodem-se e das suas páginas não cai nada, está lá tudo no sítio certo”, defende. “É uma falsa simplicidade, que não pode ser confundida com uma certa escrita anglo-saxónica e nórdica ou com aquela horrível expressão pages turners para designar os livros que se leem facilmente – como se isto fosse necessariamente bom. Se alguém o ler como um page turner é porque não o leu.

Depois de se passar pelos seus livros não fica leveza nem vacuidade nenhuma.” Por isto, a conclusão, na sua opinião, só pode ser esta: “Se não há mais escritores a escreverem como ele, isso acontece por uma simples razão: não conseguem.”[44]

e só me deu para sorrir melancolicamente. A bolota não caiu longe do carvalho. Se ela sinceramente acredita que é incapaz de superar esta sopa insípida,

“António Grácio disse:

-Porca de vida.

O companheiro continuou com a cabeça levantada sempre no mesmo sentido e exclamou, batendo com a bengala branca no alcatrão:

-O gajo prometeu que vinha, Tóino?

-Sei lá. Em casa não está ele. Só se foi prà cidade.

Ouviram o buzinar dum automóvel e desviaram-se para a berma da estrada. Adiante deles, uma cobra pardacenta lançou-se ao caminho precipitadamente. António Grácio apertou o braço do companheiro e estacaram os dois.”[45]

talvez não seja má ideia acabar com as desovas anuais de romances. Porque se a prosa no interior dum deles é tão corriqueira que “O companheiro continuou com a cabeça levantada sempre no mesmo sentido e exclamou, batendo com a bengala branca no alcatrão” parecerá um portento por comparação, então até redigir menus de restaurante estará acima dos recursos dela. Capaz não sou de compreender o regozijo estético que se coa desta prosa a que, polida com acetona, a cor toda foi arrancada. É como admirar a amada por o que o seu esqueleto tem de indistinto com os demais saídos da linha de montagem da natureza e não pelas carnes onde o curso da vida arquivou o relatório duma singularidade. O estilo de Pires é uma apólice de seguro contra riscos; arrisca tão pouco que não consegue falhar. Eu não me assusto com o fracasso fértil; prefiro falhar na ambição do que triunfar na mediania. A verdade, malgrado o condicionamento social, é que a simplicidade de Pires é irrefutável e tem tudo que ver com page-turners. Neste engrandecimento cego de Pires estão todos os defeitos da prosa literária moderna: o culto da eficiência; a submissão ao prático; a crença assente na lógica capitalista de que é possível fazer mais com menos; o enfunilar o espirro de comunicação pelo atalho mais curto; o depaupero da retórica ao dizível prevenido. Grande escrita é apenas transmitir info velozmente, tal e qual clickbait.

Estarei a ser injusto ao trazer à baila o primeiro livro de Pires? Estou a implicar com um estreante? Mas Os Caminheiros foi recebido em apoteose, em 1949. Além disso, quando no meu primeiro livro quis transmitir a magnitude do caos e destruição que se infiltram por Lisboa no dia em que o chão tremeu em 1755, mas sugerir também que destruição a tal escala é capaz de possuir algo de belo e harmonioso, saí-me com isto:

“Mas há negrume, reparo agora, não porque o Sol apodreceu como maçã em ramo e se despeçou na corrente do rio para sempre, nem porque o eterno confundiu a noite, nem porque o tempo perdeu o enigma, mas porque o pó se desprende dos escombros e encarda escadas e arcadas, combros e rincões, casas e esquinas, curas e claustros, cumes e calhes, cores e cãs, mosquitos nos charqueiros, corpos e cruzes, côdeas e chicotes, alcorques e mascotes, cabras e escravos, capas e crinas, couves e brocados, buquês e decretos, cavas e decotes, marquesas e esquírolas, criptas e escoltas, marqueses e cântaros, alecrins e mendicantes, brinquedos e almocreves, acácias e traqueias, toucados e traquetes, queixos e orquídeas, quadros e queijos, caixas e alcovas, colos e arquetas, escoras e recamos, crostas e mercados, condes e sacrários, couros e tacões, barquetas e recados, requins e soqueiros, locandas e lucarnas, caracóis e banqueiros, colchas e barqueiros, cartas e boticários, escolas e estrinqueiros, cascalhos e fanqueiros, copos e duquesas, cárceres e batoqueiros, quintas e queixas, escanos e escrúpulos, carros e discórdias, socorros e porqueiros, crónicas e facadas, crenças e lambrequins, macacos e incógnitas, tucanos e loucura, o preclaro eclipse da corte, da carne, da incúria e do pecado antes de a brancura de Cristo coruscar sobre este claro-escuro e nos clarificar: que vista deveras divina!”

que, espero, um júri imparcial concordará é ligeiramente mais empolgante do que “Ouviram o buzinar dum automóvel e desviaram-se para a berma da estrada.” Se não me espojo ao estilo oficial do bom gosto vigente de que Pires foi guardião, não é por incapacidade minha: é porque escolhi uma tradição mais gladiatória e gratificante.

O Mário e a Ana estão a usar um lance retórico específico cuja estrutura lógica implícita se pode descrever como “Se A, então B”. Só Diogo Vaz Pinto teve a coragem de a tornar explícita: “Se eu ler Agustina Bessa-Luís, então borro-me de medo.” Esta estrutura lógica, de que os neopositivistas se esqueceram de teorizar, apareceu num episódio de Enterrados no Jardim, onde ele se ia engasgando a incensá-la (3:35:00): “Ao nível da linguagem, aquilo é uma coisa quase – um tipo lê a Agustina e tem dificuldade em acreditar que possa escrever naquela liga”.[46]

A sério?

“O seu tom possuía a nota irónica que nela testemunhava bom humor e generosidade. As contas estavam saldadas. Assim, ela confessava que o amava através de todos os incidentes e catástrofes, todos os esquecimentos e abandonos. Morreria muito velha, e, com a idade, a mente havia de se debilitar, provocando-lhe arrazoados vagos, atropeladas recordações, esse viver retrospectivo cheio de visões passadas, de factos e pessoas mortas. Mas o seu homem estava sempre presente junto dela, vivendo as suas seduções, fazendo-a vibrar em cuidado e penas, como quando ela era jovem e se entregava às suas íntimas batalhas de cólera e perdão.”[47]

Não é má, mas prosa desta, ordeira, moderada, límpida, estava dentro dos parâmetros dum romance de José Régio, José Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro ou Joaquim Paço d’Arcos da mesma altura. É apenas a prosa invisível, recatada, de que se tem servido o romance desde o tempo de Daniel Defoe. Isto é literalmente aquilo a que no século XVIII se convencionou chamar plain prose. Chega uma altura em que mangar com o gosto raso dos meus compatriotas deixa de ter piada. A barreira cognitivo-histórico-afectiva que os impede de entender o meu libelo começa a assumir preocupantes proporções de catástrofe nacional.

É-me irrelevante a opinião de Vaz Pinto em matérias de prosa, especialmente depois de ter confessado que não é um “grande leitor de romances” (1:42:13).[48] A começar indubitavelmente pelos de Agustina, que simula admirar. Num episódio de Enterrados no Jardim, Vaz Pinto contou ao escritor Paulo Bugalho, com o seu deleitoso desassombro, que se aos críticos portugueses que afirmam ter lido tudo pedisse dissessem duas coisas originais sobre um livro por eles elogiado, entrariam em pânico porque não passam de aldrabões (2:59:52).[49] Descontando o facto de que o podcastro estava então sob o efeito do Diário Selvagem (à data publicado na editora de Vaz Pinto), onde Luiz Pacheco afirmou exactamente o mesmo, não tenho conhecimento de ele ter algum dia usado a imprensa para analisar alongadamente um romance de Agustina ou lhe interpretar a obra por um prisma pessoal. Se não erro, até hoje a atenção crítica mais substancial que lhe dedicou foi “Agustina, a nossa Maria Antonieta” e é apenas uma salgalhada de vénias e salamaleques ao cliché e ao consenso em torno do “génio”, da “pitonisa” e do “oráculo” “inquietante”: “A morte de Agustina foi como uma última dádiva aos mortais”, disse. Ou seja, foi uma deusa. “Como explicar isto a um público que já não espera milagres da literatura, e se ri e mofa do mais elevado grau de aspiração?” Sendo os milagres o apanágio dos deuses. “A ardorosa intuição parecia não ter já lugar no mundo, nem, muito menos, a colérica indefinição que torna os homens ameaçadores ao olhar dos deuses” – mais vale proclamar sem rodeios que ela nasceu com poderes sobrenaturais.[50]

Será esta uma das duas coisas originais que Vaz Pinto tem para dizer sobre a obra dela? É que esta teoforia vem das resenhas de ’54. Para azar meu, Vaz Pinto é prova irrefutável de que somos um povo retórico: “Mas para ela a escrita foi sempre esse desdobrar do entendendimento (sic) ao ritmo dos tambores de guerra dos homens.” Isto não diz rigorosamente nada de concreto acerca da obra dela, mas a simulação duma certa tarimba está lá. Aliás, Vaz Pinto vai ao ponto de insinuar que é impossível analisar Agustina sistemática e meticulosamente: “Com a irradiação da sua consciência, ela mostra-se um génio perdulário, desfilando. E a nota torrencial nela não é um modo, mas o próprio método, o de uma consciência arrasadora, de um rio que corre com uma pressa animal e que causa tonturas a quem assiste das margens a essa debandada.”

Décadas antes, outro rendido ao estonteamento agustiniano, António José Saraiva, santificou: “A propósito, reli algumas páginas da Agustina, e fiquei tonto, como se ouvisse música de Beethoven. Ponho-a a par do Pessoa, como aquilo a que chamo os dois milagres da Literatura Portuguesa desta época (como há-de chamar-se ao génio?).”[51] A pessoa a quem tentou ensinar o padre-nosso foi Óscar Lopes, um dos primeiros e mais persistentes estudiosos de Agustina. Que, amizade à parte, o pôs no lugar: “Não sei se sabes que quem primeiro impôs a Bessa-Luís, e logo desde a publicação em fascículos auto-editados dos Contos Impopulares – fui eu.” Lopes achava chocante a demissão intelectual de tanto intelectual perante a obra de Agustina: “Não posso aceitar por forma nenhuma a tua esquiva a escrever um ensaio sobre Bessa-Luís, a pretexto de que ela te dá vertigens, te faz perder o pé à razão, e outras coisas espantosas. O Camões faz-te perder a razão? Ou o Shakespeare? Uma petição de inefabilidade por parte de um ensaísta literário é simplesmente uma deserção.”[52]

Nem um cunho pessoal dá Vaz Pinto aos seus tenteios controversos. Num episódio do podcast pôs Agustina acima de Saramago e Lobo Antunes (3:22:23), para acrescentar de seguida (3:23:06) que Agustina deu muita atenção ao dinheiro na sociedade portuguesa.[53] Ficar-lhe-ia bem, seu émulo, admitir que esta opinião foi emprestada verbatim de Pacheco, desde o tom displicente à temática: “Agustina é a figura essencial na ficção, não tem parceiro. Ao pé dela, falar do Saramago é como falar do cão… A Agustina é ímpar a retratar os meios ligados ao poder e ao dinheiro.”[54] Para congeminar uma ilusão de ousadia, porém, Vaz Pinto concedeu que a Agustina tem um defeitozinho irrisório, ela “está inscrita no século XIX”. Aparentemente é uma idiossincrasia de somenos num romancista ignorar que o romance novecentista aconteceu. A intenção, presumo, é usar esta “blasfémia” (verdade) para contrabalançar o facto de ter arrasado sem mais nem menos dois notáveis romancistas, numa de equitativo, “Eu até sou imparcial, não jogo em equipas, tou prà aqui apenas a comunicar objectivamente factos a que cheguei após exaustiva raciocinação”, etc. Mas Roxana Eminescu cometeu esse impropério primeiro em 1983. Sendo romena e por isso desenquadrada das capelas nacionais que celebravam Agustina acriticamente, Eminescu lançou um olhar verdadeiramente desapiedado sobre o romance português: “a escrita de Agustina Bessa Luís é uma das mais tradicionais na literatura portuguesa contemporânea”. Isto era ofensivo para críticos que costumavam dizer que Agustina desafiava as convenções do romance clássico, que aliás as suas obras nem se podem classificar na restritiva categoria do “romance”, rótulo passível de fazer fretes a Ulysses e Pale Fire e Naked Lunch, segundo um vasto consenso global, mas chegado aos seus limites à beira de… Os Meninos de Ouro? Vale Abraão? Por mais insano que isto possa parecer hoje em dia, em 1954 houve críticos que sinceramente se perguntavam se A Sibila seria sequer um romance. Isto diz menos sobre a natureza inclassificável desse romance neo-oitocentista do que sobre a despreparação dos críticos portugueses. Que outra coisa poderia ser a narração da vida duma personagem ficcional linearmente do nascimento à morte? Esta é literalmente a estrutura que centenas de romance realistas usaram no século XIX. É a estrutura de Moll Flanders e esse é de 1772. Eminescu não ficou por aqui: o romance português atravessava a moda metaficcional e, perante a abertura da estrutura romanesca às mais delirantes experimentações (muitas bastante atrozes, diga-se) custava-lhe entusiasmar-se com o requento do romance agustiniano: “O narrador aponta para a história (a narração da história) como narrativa, mas o mistério da escrita continua ocultado, como no romance clássico. O narrador é o contador de histórias; o autor é deus-ex machina, não persona, mas «personne», quer dizer ninguém.” Em juízo final não tinha muito para dizer sobre o “génio”: “Não, não é a paixão da escrita, nem mesmo a da narração, mas a paixão pelo conhecimento sóciohistórico, que não é nada para desdenhar. Zola tinha a mesma paixão, só que não há aqui lugar para «uma decisiva renovação do romance português».”[55]

É desolador estarmos a retroceder da coragem para constatar o corriqueiro tão-só porque Diogo Vaz Pinto aspira a ser o sonâmbulo chupista do espectro de Luiz Pacheco.

Os temas sóciohistóricos de Agustina não são de menosprezar, têm sido o sangue do romance há mais de 200 anos. Mas um tema só me é real se a retórica me fizer acreditar nele. “A retórica não ocorre na vida. Ocorre na ficção”, disse Stanley Elkin. “A ficção dá uma oportunidade à retórica de acontecer. Providencia um palco onde a linguagem pode estar em pé.”[56] Quando estou na presença da retórica não sinto medo. Li isto

“Stab her with a bung-starter! Mail her a poison suit! Employ the scaphism! Hurl her down the Gemonian steps with tincans tied to her ears! Whittle her nose into a dowel! Exenterate her with an oilcloth-cutter’s knife! Glume back her scalp and paint the skull with a crimson A! Incrassate her into jellies! Conglutinate her buttocks with hot solder! Bake her a pie made from castor beans, pokeweed, tomato plant foliage, black locust bark, rhubarb leaves, and wisteria pods! Ablende her eyeballs!

Burn radix pedis diaboli in her bedroom! Force her to have buccal coition with a yak! Deliver her for lewd sport to hordes of ferocious Khonghouses! Snop her, snackle her, smore her in picrotoxin! Tie her down on a nest of dermestid beetles! Pickle her in natron! Replace her nose with a headlight and drive her into a plate-glass window painted the color of money! Inject her with fox mange, nasal gleet, poultry mites! Lock her away forever into the charnel-vault of Mountfaucon! Fouch off her buttocks!”[57]

e pensei que devia aumentar o meu vocabulário. Li isto

“E começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie de viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma–páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas mesmasm ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever é nãoescrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e forçoso um livro onde tudo seja nada esteja seja onde umbigodomundolivro umumbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livroe cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdoda palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livrotodo o livor é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-comêço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do”[58]

e pensei que havia truques por acrescentar ao meu reportório. Li Agustina

“A mente desabrocha, tem a sua metamorfose, extingue-se; mas o espírito é uma forma intemporal, não conhece a propriedade de sentimentos que o tempo imprime na razão dos homens; tem as suavidades cândidas da infância, juntamente com os cepticismos, mais cruéis da experiência – e o que neles chamamos idade é apenas o seu hábito e riqueza de expressão, que só com a desenvoltura mental se adquirem.”[59]

e percebi que ela não possuía força para me estimular a superar as minhas limitações. Excesso de amor-próprio? Ai, ser é heresia!

Omiti João Guimarães Rosa da lista de réplicas brasileiras a Joyce, não só porque para mim transcende esses respeitáveis émulos, mas porque confio em Rosa quando disse que nem gostava do autor de Ulysses. Rosa é-me esquivo: às vezes parece um mero regionalista que reproduz foneticamente a pronúncia duma comunidade isolada; mas está também a usar a tresgramática da oralidade para rasgar a camisa-de-forças da linguagem. Com o nosso alfabeto comum, chega a lugares nunca antes pisados. Cutuca nos interstícios das letras, faz-nos distinguir sons apurados como se fôssemos melómanos. A refrescação desfreada a que submete o idioma tem algo de muito fraterno. Os frutos do seu labor devem-se a ele espreitar em cada fresta da gramática, por mais humilde que seja, à procura de momentos em que possa surpreender belezas. Grande Sertão: Veredas ostenta com brio os prazeres habituais duma trama romanesca, acontece apenas que a sua mixórdia de onomatopeia, reduplicação, neologismo e glossolalia está contada na fórmula dum feitiço benéfico, porque observar sem protecção através deste telescópio o terror, a traição, a tristeza e a ternura no seu mais primordial, nuamente, tão a direito até à compreensão, destruir-nos-ia com uma sobrecarga emotiva:

“- “A que estão matando os cavalos!…”

Arre e era. Aí lá cheio o curralão, com a boa animalada nossa, os pobres dos cavalos ali presos, tão sadios todos, que não tinham culpa de nada; e eles, cães aqueles, sem temor de Deus nem justiça de coração, se viravam para judiar e estragar, o rasgável da alma da gente – no vivo dos cavalos, a tôrto e direito, fazendo fogo! Ânsias, ver aquilo. Alt’-e-baixos – entendendo, sem saber, que era o destapar do demônio – os cavalos desesperaram em roda, sacolejados esgalopeando, uns saltavam erguidos em chaça, as mãos cascantes, se deitando uns nos outros, retombados no enrolar dum rolo, que reboldeou, batendo com uma porção de cabeças no ar, os pescoços, e as crinas sacudidas esticadas, espinhosas: eles eram só umas curvas retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho, de raiva – rinchado; e o relincho de medo – curto também, o grave e rouco, como urro de onça, soprado das ventas todas abertas. Curro que giraram, trompeando nas cercas, escouceantes, no esparrame, no desembêsto – naquilo tudo a gente viu um não haver de dôidas asas. Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam caindo, achatavam no chão, abrindo as mãos, só os queixos ou os topetes para cima, numa tremura. Iam caindo, quase todos, e todos; agora, os de tardar no morrer, rinchavam de dôr – o que era um gemido alto, roncado, de uns como se estivessem quase falando, de outros zunido estreito nos dentes, ou saído com custo, aquele rincho não respirava, o bicho largando as forças, vinha de apertos, de sufocados.

– “Os mais malditos! Os desgraçados!””[60]

Segundo Rui Nunes (3:09:50), Grande Sertão: Veredas é o maior romance de língua portuguesa do século XX. Rosa é um dos raros ficcionistas cuja correspondência com os tradutores é tão aliciante como as obras de ficção. O meu momento favorito da correspondência com Edoardo Bizzarri, seu tradutor italiano, ocorre quando Rosa revela o palíndromo que escondeu num conto: “Aí, Zé, opa”, uma fala singela que lida ao contrário dá “a poezia”.[61] Amo palíndromos, mas este é especial porque não conheço outro de raiz fonética: usar a norma portuguesa de o S entre vogais soar como Z é um toque brilhante. Terminologicamente, isto nem é um palíndromo. Palíndromo, e muito chocho, é o que Joyce faz em Ulysses: “Able was I ere I saw Elba”. Em vez disso, Rosa fez o que Anthony Burgess chamou palínlogo (palinlogue), isto é, um palíndromo em que a leitura às arrecuas gera um sentido diferente. Isto é pensar a linguagem numa fineza que de nós humildes obreiros faz infantes balbuciando as primeiras letras. O mais assombroso, todavia, é a discrição de Rosa, que ocultou este segredo em carta privada que permaneceu inédita até 2003. (Rosa “encantou-se” em 1967.). Ou seja, leitores e peritos passaram décadas sem estar a par deste segredo enterrado diante dos nossos olhos, numa frase corriqueira, “Aí, Zé, opa”. Isto realmente é poezia.

Outra vítima desta pulsão pelo ocultamento foi Nabokov, que dissimulou um acróstico nas frases finais do conto “The Vane Sisters”:

“I could isolate, consciously, little. Everything seemed blurred, yellow-clouded, yielding nothing tangible. Her inept acrostics, maudlin evasions, theopathies – every recollection formed ripples of mysterious meaning. Everything seemed yellowly blurred, illusive, lost.”

A primeira letra de cada palavra forma a seguinte mensagem: “Icicles by Cynthia. Meter from me Sybil.” Que é enviada pelos fantasmas das duas irmãs ao narrador insciente. Nabokov fez alguma batota, plantou dicas no próprio conto, mas mesmo assim teve de revelar o segredo a uma editora da revista New Yorker, que originalmente rejeitou o conto. Esta carta só foi revelada postumamente, creio eu.[62]

A ocultação faz parte da tradição retórica. Poetas houve que enterraram paronomásias poliglotas. À socapa, o poema “Hope” de George Herbert é simplicíssimo:

“I gave to Hope a watch of mine: but he

An anchor gave to me.

Then an old prayer-book I did present:

And he an optick sent.

With that I gave a viall full of tears:

But he a few green eares.

Ah Loyterer! I’le no more, no more I’le bring:

I did expect a ring.”

Mas vejamos: hope, esperança, em latim é spes. No De lingua Latina, de Varão, Herbert teria aprendido que um derivado de spes é spicae, ou espiga (few green eares). Os expoentes desta tradição planeiam o trocadilho até aos átomos dos étimos. Na verdade, esta é uma etimologia popular, não é correcto que espiga e esperança estejam etimologicamente ligadas. Mas Herbert aproveitou-se dessa crença comum para esconder um trocadilho latino num poema sem palavras latinas. Os seus ouvintes seriam outros leitores cultos fluentes em latim. Aliás, no brutal sistema educativo donde saíram Shakespeare, Marlowe e Lyly, as crianças praticamente deixavam de conviver com o inglês por volta dos sete anos, trancafiadas em regimes em que o latim era falado a todos os momentos, e uma considerável parte dos deveres delas implicava traduzir passagens clássicas para inglês e de volta para latim, interminavelmente. Portanto, Herbert sabia que a primeira coisa que o seu ouvinte ia fazer, por condicionamento, seria traduzir cada verso, apanhando facilmente o trocadilho. Hoje em dia terias de comprar um curso superior para aprender isto, leitor, e ainda precisarias de ter a sorte de o teu professor te incluir na bibliografia passiva o obscuro ensaio que te explicará esta retorcida operação retórica que há 400 anos não passava dum in-joke elementar entre indivíduos que se contavam entre os sortudos que haviam beneficiado duma educação.[63]

Acontecerá um dia, ao lermos a correspondência privada de Saramago, de Lobo Antunes, de Aquilino, que encontraremos similares ocultamentos? Baseando-me nos vários volumes de correspondência de Jorge de Sena, José Régio, Mário Cesariny e Fernando Pessoa à minha disposição, não acredito. Sena, que se achava uma sumidade, o maior escritor português do seu tempo, detestou Lolita mas desperdiçou 30 anos a carpinteirar um Sinais de Fogo que é o epítome de esterilidade estilística. Os portugueses, quaisquer que sejam as suas outras qualidades, por hábito não pensam na linguagem em termos gráficos e sonoros nem encaram a actividade jogorífica senão como uma extravagância a reprimir. Por exemplo, não conheço nenhum português que alguma vez tenha entrado numa arena em defesa do amplificatio com o vigor que conduziu Alexander Theroux ao seu ensaio “Theroux Metaphrastes”. Tampouco conheço a versão lusíada da “defesa da prosa púrpura” de Paul West. Estranho, no país dos escritores barroquistas, dos retóricos palavrosos, seria expectável que o JL, a Ler, a Colóquio/Letras, o Ípsilon estivessem entupidos dos altivos em ostentar as virtudes do excesso verbal. Na verdade só há hostilidade contra.

Mas donde vem esta antipatia pelo lado lúdico da lexis? Rejeitemos a teoria da incapacidade inata do português. Neste ponto, agrada-me muito a hipótese de Nunes (3:15:00): no entender dele, um hábito pernicioso dos nossos colegas é o respeito pela língua materna. Não julgo a hipótese nada descabida, é singela mas produtiva: o respeitinho destrói a criatividade. Anos atrás, estupefacto com a longa história do desdém dos meus “pares” pela nossa ferramenta de trabalho, pus-me a investigar a fonte e cheguei a uma hipótese similar, mera hipótese, que carece de muito mais documentação para ser persuasiva, mas que partilho em versão beta. Para mim, a diferença entre portugueses e brasileiros resulta da metáfora por que interpretam a personalidade da língua. Os portugueses vêem-na como mãe; os brasileiros como amante. As mães respeitam-se, veneram-se, protegem-se; as amantes fodem-se.

Por exemplo, Guimarães Rosa terá dito ao editor João Condé: “De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira.”[64] Na entrevista concedida a Günter W. Lorenz, Rosa adiantou: “A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim”.[65] Num registo mais popular, há o erotismo patente na canção de Caetano Veloso:

“Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Gosto de ser e de estar

E quero me dedicar a criar confusões de prosódias

E uma profusão de paródias”

E os portugueses? Dizia Vieira de Castro no Oitocentos: “Mãe inexaurível, em cujas entranhas renascem e pululam de contínuo as artérias de ouro, quando é preciso fartar a musa pródiga dos filhos queridos!”[66] Afonso Lopes Vieira chamou-lhe: “Madona da nossa moderna adoração!”[67] A Madona, na arte, é a Virgem Maria, a mãe de Cristo, o mais alto símbolo de pureza do imaginário europeu.

O brasileiro Coelho Neto, mui valorizado por Rosa, topou a diferença entre Eça e os gramaticões apostados em devolver à língua uma pureza fantasiosa: “Eça não tinha preocupação de purista: preferia à linha clássica de uma ninfa o contorno flexível da mulher moderna, pouco se lhe dando que, despida, em vez de deslumbrar, como Frinéa, se lhe descobrissem deformações na plástica, vincada por barbatanas e amarrilhos.”[68] Compara esta atitude perante a mulher-amante com a explicação de Baptista-Bastos, numa entrevista dada em 1968, de como aprendeu a despojar a linguagem nas redacções dos jornais: “Prosa é feminino – dizia Acúrsio [Pereira, jornalista d’O Século] -; coisa intratável, terna, que temos de tratar com ternura – como se trata uma mulher.”[69] Temos de tratar a prosa ternamente como se fosse uma mulher, que galante. Agora uma recensão do poeta José Blanc de Portugal, 1964:

“O nosso profissionalismo literário é realmente uma raridade – falo de verdadeiro profissionalismo, uma dedicação que se ‘professa’, uma obra a que o ser ‘operário’ se dedica de alma e coração, mas que também pesa pela arte e ofício, que não ignora como a língua em que se exprime é metal tão precioso que todos os cuidados e enlevos com que a tratem não são em demasia para tão elevada senhora e mestre do pensar, do imaginar, do narrar, do comover e do maravilhar – isto para… começar…”[70]

Uma elevada senhora…

Nisto reside a diferença. Mesmo quando os portugueses se desenvincilham da metáfora materna, continua a pensá-la mulher a quem devem prestar preito em vez peitos com que devem brincar.

Mas sejamos honestos, nós homens, a nossa maior, mais profunda fantasia é transformar a nossa mulher em puta no quarto. Numa puta desinibida e desvergonhada. Queremos dominar, comandar, dizer-lhe o que vestir e como usar o cabelo, explicar-lhe que palavras obscenas usar, ordenar-lhe poses sensuais, controlar cada aspecto da sua aparência, para corresponder a um ideal, em prol do nosso bel-prazer. Para me manter na metáfora sexual, que faz todo o sentido numa discussão estética, prosa simples é para quem gosta de sexo baunilha e a tradição retórica é para o iniciado em BDSM. Prosa simples é para quem não se cansa de sexo na mesmo posição. O escritor retórico gosta de sinalizar poder, de embandeirar o seu domínio sobre uma amante que objectifica. Não há espírito mais rococó do que o aficionado de BDSM: a complexa negociação de regras, as senhas, as discussões de direitos e deveres, a redacção de contratos, a hierarquia de castigos; a micro-gestão das poses da submissa, transformada em estátua viva, em adereço decorativo; e os adereços: algemas, vendas, máscaras, chicotes, coleiras, velas. O BDSM pertence ao domínio da cerimónia, da lentidão, do ritual, do espectáculo, da performance. É feliz o encontro entre duas pessoas disposta a entrar em tal relação consensualmente. Mas a linguagem não precisa de consentir. Quando leio Nabokov ou Rosa, Haroldo ou Leminski, percebo de imediato que eles querem dominar a linguagem, domá-la, obrigá-la a posar para eles. Ali não há respeito mas sede de sobrepujar, de lhe pôr um colar no pescoço e puxá-la pela trela. Lendo um dos lipogramas de Christian Bök,

“Lightning blinks, striking things in its midst with blinding light. Whirlwinds whirl; driftwinds drift. Spindrift is spinning thrilling whirligigs. Which blind spirit s whining in this whistling din? Is it this grim lich, which is writhing in its pit, lifting its lid with whitish limbs, rising, vivific, with ill will in its mind, victimizing kids timid with fright? If it is. which blind witch is midwifing its misbirth, binding this hissing djinni with witching spiritism? Is it this thin, sickish girl, twitching in fits, whilst writing things in spirit-writing? If it isn’t – it is I; it is I…”[71]

a palavra que me ilumina a mente é controlo, controlo, controlo. O escritor retórico quer dominar a linguagem e quer que nós saibamos que a domina totalmente, que a obriga a pôr-se em qualquer posição que lhe apeteça porque dispõe do poder para isso. Criar um estilo é antes de mais exercer uma forma de poder. Todo o refustedo de estilo é um exercício de poder sobre material inerte. Todas as línguas são línguas mortas, até, especialmente, as faladas dia a dia. Ninguém consegue estar num escritório oito horas por dia, bombardeado pela tagarelice dos colegas, e sustentar a mentira de que falam uma língua viva e não um concentrado de clichés rançosos, chavões políticos, slogans publicitários, soundbites de tudólogos de TV, patranhas de influencers, frases-feitas e lugares-comuns, narizes-de-cera como se dizia noutros tempos. Estas línguas mortas-vivas só ressuscitam nos raros momentos em que los raros, como lhes chamava Rubén Darío, lhes imbuem uma parcela da sua magia para animar uma matéria diariamente degradada por milhões de falantes.

Muito me encanta este paradoxo: a linguagem, para debelar a sua degradação conferida pelo uso diário, para recuperar a dignidade da “poezia”, tem de ser abusada como uma serva que consente tudo ao seu senhor. A metáfora sexual perpassa a história do estilo retórico. Nabokov afirmou que Lolita documenta o seu “caso amoroso” com a língua inglesa.[72] Larva (que logrei incompreender por completo em “espanhol”[73]) narra um carnaval erótico entre dois amantes, Milalias e Babelle, com o mito de Don Juan em pano de fundo… acho eu. A misoginia está entranhada na tessitura de Darconville’s Cat, não só porque um capítulo é uma longa lista de maneiras de matar uma mulher (10 páginas), mas porque outro capítulo é o catálogo duma biblioteca composta exclusivamente por livros reais que pregam o ódio às mulheres (outras 10 páginas). Quando Burgess fez um corte com o seu anterior estilo naturalista e inventou o Nadsat, misto de inglês e russo, não arranjou melhor protagonista a quem dar este verbo extravasante do que a um adolescente que faz da violação de mulheres um passatempo meritório. A Clockwork Orange é sobre poder, o poder do indivíduo sobre o indivíduo, do indivíduo sobre os seus apetites, do Estado sobre o indivíduo, e do escritor sobre a linguagem, num harmonioso concerto de fundo e forma.

Burgess faz parelha com um conterrâneo muito menos famoso do que ele, Paul West. West inscreveu-se primeiramente no realismo social da classe operária, típico do romance inglês dos anos 1960. Mas em 1972 Bela Lugosi’s White Christmas iniciou uma fase nova. É a parte final duma trilogia sobre Alley Jeggers, um infeliz membro do proletariado que, no clímax (pun intended) do primeiro volume, é preso por necrofilizar uma mulher que matou. Alley está num hospital psiquiátrico há anos, onde finalmente arranjou o lazer para adquirir o que lhe faltava: uma educação. Leu tudo e expandiu vastamente o seu vocabulário. O seu discurso interior agora só opera em trocadilhos, metáforas bizarras e excesso epidíctico. E essa energia é largamente direccionada para as fantasias masturbatórias de quem não toca numa mulher há anos:

““Upchuck,” yells AJ. “What speed I couldn’t tell, except it’s like how Satan would be after two thousand million years of going without his greens, misering his sperms, and then one day out with his weapon big as a spaceship with a pearly warhead and working himself off both-handed. Floom, swoosh, it pours out, red-white-hot big flying rocks of come from out his balls underground and up the chute with a roar like that bomb at Hiroshima. Except it isn’t just one weapon, it’s million of them jabbing up above ground wherever you look and shooting high into the newly manufactured sky as if millions of jets have written con trails in milk, all curling and twining into one another, and then down it comes, the debris heavy as the world itself, the sperms big as elephants and buses, denting terra firma, blasting its chin and cheekbones off and melting everything in sight. The land’s bubbling, there’s steam everywhere, and those who don’t get their heads smashed in by what’s falling out of the sky will have their feet burned off by what’s flooding the ground. Except there’s nobody here to see it at all. Just as well. If I’d been that Lord Byron, I’d have had a private jet full of king-sized beds, and then at six hundred miles an hour I’d be going at it night and day back and forth across the Atlantic, nonstop, or just from London to Baghdad and back, with a special stock of vitamin pills in the bomb bay and oysters by the million… Nonstop forever. That’s how to keep the roses in your cheeks. It’s a doodle once you’ve learned how.””[74]

A putaria está também presente na passagem duma novela de William H. Gass, Willie Master’s Lonesome Wife, que serve de manifesto ficcional da sua estética:

“Then let us have a language worthy of our world, a democratic style where rich and well-born nouns can roister with some sluttish verb yet find themselves content and uncomplained of. We want a diction which contains the quaint, the rare, the technical, the obsolete, the old, the lent, the nonce, the local slang and argot of the street, in neighborly confinement. Our tone should suit our time: uncommon quiet dashed with common thunder. It should be as young and quick and sweet and dangerous as we are. Experimental and expansive – venturesome enough to make the chemist envy and the physicist catch up – it will give new glasses to new eyes, and put those plots and patterns down we find our modern lot in. Metaphor must be its god now gods are metaphors.”[75]

Muito bem. Nada disto explica o porquê de ser Portugal rico em adoradores de mães em vez de fazedores de putas. Talvez nem seja possível explicá-lo, como tantas outras pulsões artísticas irredutíveis a uma causa racional e mesurável. Antes de mais, convém desmistificar esta pobreza. É Portugal um país pobre na tradição retórica? Ela raramente gozou de fileiras cheias. Mas neste assunto a distância entre 0 e 1 mede-se em anos-luz. Que não haja 10 Joyces em inglês não é alarmante; que não haja um Joyce português devia suscitar congressos para tirar ilações. É discutível que esta pobreza caracterize a nossa falta de ambição, a mim diz-me antes que o desinteresse no diálogo com as aventuras verbais do último século deriva da incapacidade de ultrapassarmos o pavor do Barroco.

A tradição retórica, que nunca foi popular por aí além em nenhum momento da história ocidental, praticamente mirrou depois do século XVIII. No Ocidente, se descontarmos a Primeira e a Segunda Sofísticas, a excepção foi o século XVII, o século dito Barroco. O Barroco português, já abordei isto noutro ensaio, foi tão traumático que estamos ainda hoje a combatê-lo, muito depois de os outros países terem feito as pazes com ele. A esse combate damos o nome de defesa do “bom gosto”. A Europa, de modo geral, desenvolveu o culto dum bom gosto literário formulado em oposição aos excessos do Barroco. Mas em Portugal, nos séculos XVIII e XIX, mas sobretudo a partir do Romantismo, passou a imperar a crença de que o homem português é naturalmente retórico, verboso, oratório. Pior, os intelectuais acreditavam que, se ninguém lhe pusesse a mão em cima, a própria língua descambaria num barroquismo incontrolável, pelo que o dever do literato não era explorar as potencialidades da linguagem literária, mas policiar-se e aos outros no estilo, que deveria ser simples, “natural”, directo e ornamentado q.b. Em 1947, José Bacelar, um intelectual hoje em dia esquecido mas outrora respeitado por muitos escritores, expôs a tese delirante de que o Português ainda não atingira a maturidade. De acordo com ele, a partir do Renascimento “se fez uma espécie de paragem, ou que em todo o caso a marcha em frente da língua, para uma maior ordenação, uma maior maleabilização, uma maior riqueza, se tornou duma lentidão manifesta.” Ao passo que o espanhol, francês e italiano “avançavam para o acabamento com uma velocidade de lebre mais ou menos veloz, o português arrastava-se laboriosamente e pachorrentamente com o andamento duma tartaruga.” Os outros povos afinaram os seus idiomas, mas os portugueses deixaram o seu numa “mesma obstinada rudeza.” Não haviam apenas parado de recolher novos vocabulários, a moléstia era estrutural. “Quanto à sintaxe, nada mais natural do que ela se obstine na irregularidade, na confusão e na anarquia, dado que, na linguagem falada, por comodidade, por indiferença, por relaxamento se recorrerá cada vez mais ao gesto, à mímica, à vocalização.” Garrett fez a primeira tentativa para “aligeirar e clarificar a linguagem”, mas lutava contra o atavismo indígena: “o homem comum português nunca pôde, durante muito tempo, compreender bem as dificuldades inaparentes dum estilo ático, e distinguir uma prosa sóbria e simples duma linguagem realmente pobre e banal.”[76] Bacelar apenas emitia as opiniões da classe intelectual.

A reacção à prosa ornada do século XVII é compreensível e perdoável. Não é que a modernidade seja por feitio anti-retórica. O apreço pelas virtudes da plain prose que tomou a Europa de assalto não se separa da ascensão da ciência e do próprio Iluminismo. As características da plain prose ajustavam-se à necessidade dum novo género literário: o artigo científico. “Os melhores livros são aqueles que quem os lê crê que poderia ser seu autor. A natureza, que é a única a ser boa, é muito familiar e comum,” disse Blaise Pascal numa época em que os europeus se convenciam de que era possível produzir conhecimento fora da Bíblia e transmissível a todos os homens.[77] Acho óptimo que as instruções para fazer um reboot ao meu PC sejam simples e inteligíveis. O mal foi que as Humanidades e as ciências sociais, invejosas dos triunfos das ciências exactas, resolveram imitá-las o mais possível. Confrangida, a literatura repudiou 2000 anos de arte retórica em prol de coloquialidade. Começou o policiamento do ludismo. Depois, em finais do século XIX, a Europa começou o longo processo de reabilitação do negrejado Barroco, que desempenhou um papel fulcral na renovação das artes do Simbolismo, do Modernismo, do Surrealismo e do Pós-Modernismo, atingindo o seu apogeu no dia em que o pensador italiano Omar Calabrese chamou ao nosso tempo a Era Neobarroca (1987). Contudo, em Portugal “Seiscentismo” continuou a ser tabu e tecnicamente irrelevante para os ficcionistas até aos anos 70 e o policiamento persevera imperturbável até aos dias de hoje.

É por isso que em Portugal se dá o seguinte fenómeno: cada geração pensa que a “modernização” do Português fradesco e barroco começa exclusivamente com ela; não se pode contar com nenhuns contributos construtivos dos predecessores, que estiveram demasiado cegos de barroquismo para se darem conta de que havia sequer um problema a resolver. Num ciclo interminável, vivemos obcecados em determinar ao dia e à hora o momento exacto em que um freguês (geralmente a conquista da “prosa moderna” é obra dum indivíduo só) finalmente mandou de volta para a cozinha os caldos de Vieira.

“A poesia e a literatura portuguesa precisavam retemperadas nos princípios do século passado; que estavam uma coisa informe e laxa”, asseverou Garrett. “Veio o Garção, o Dinis, Francisco Manuel, depois o Bocage, com todos os satélites destes quatro planetas, e restauraram a língua e a poesia – a prosa não – mas nos antigos modos clássicos, agora deduzidos pela reflexão francesa”.[78] Mas os Arcádicos não se aguentariam no pedestal por muito tempo.

Em 1867, a meta da Arcádia estava já tão deslembrada que Antero, no calor da “Questão do Bom Gosto e do Bom Senso”, queria que o antiquado Castilho se penitenciasse pelas “galas arcádicas da sua retórica”.[79] Esquecida a Arcádia, Garrett foi empossado na vaga. E durante o Oitocentos a reputação dele floresceu graças à revolução verbal de Viagens na Minha Terra, como Rebelo da Silva ilustrou em 1848:

“O Livro das Viagens na Minha Terra tinha de lutar com dificuldades, que a crítica julgara insuperáveis. Negava-se ao carácter nacional, mais sério do que espirituoso, mais cáustico do que epigramático, o poder de animar as cenas quotidianas da vida, e de tocar as paisagens, os costumes e as artes pátrias com o pincel rápido e chistoso, que fugindo na tela grava a individualidade de um povo; que esboçando dá alma à natureza, aos sentimentos, e às ideias.

Além disto à língua, entrevada tanto tempo nas clausuras e nas palestras, faltava ainda a liberdade necessária. Condenada a arrastar-se pelas páginas severas dos Tratados Morais e Teológicos; e a florescer em alguns capítulos mais limados de crónicas monásticas ou de histórias vazadas nos moldes latinos, paralisou-se nos exercícios de eloquência clássica. A frase tomou o sabor romano; o período alatinou-se; e o pensamento escravo da imitação comunicou ao estilo a languidez, que a pompa das palavras mal disfarça, e que as lentejoulas dos trocadilhos afeiam em mais de um escritor correcto.[80]

Portanto, por uns tempos tudo afinal começou com Garrett. Mas até um Sol se desclareia. Na segunda metade do Oitocentos, novatos trouxeram com a irreverência deles a irrelevância dele. Inesperadamente, Eça entregou o cinturão a Ramalho Ortigão: “É, sem dúvida alguma, o estilista mais poderoso de Portugal: tem uma linguagem viva, colorida, bem cunhada, duma grande elasticidade e duma grande solidez, ferindo admiravelmente, colando-se à ideia como um estofo, ao mesmo tempo prático e resplandecente.”[81] Porque, dizia o sempre o auto-depreciativo Eça, “a verdade é que os meus artigos parecem-me antiquados, frios como um mosaico, duma graça senil, inteiramente desbotados; e nos dele, que vigor! que frescura! que cor!”[82] Ramalho, sim! “Apenas nas Farpas, Ramalho Ortigão bem depressa achou a sua forma: desembaraçou-se da velha armadura quinhentista – e soltou de dentro, rápido, vivo, brilhante, vergando e sacudindo a sua frase como uma lâmina de florete.”[83]

Parvoíce. Ramalho foi juntar-se a Garrett no esquecimento. Camilo atribuiu ao Mistério da Estrada de Sintra o locus primus do “desenvolvimento das belas coisas que estavam embrionárias no vocabulário marasmado durante dois séculos,” mas não sem sublinhar que o início da “reforma das milícias literárias indígenas” começara consigo mesmo[84] Em 1885, Sampaio Bruno explicou que aos escritores anteriores a Eça os prejudicara uma linguagem afectada, “nobre mas hirta; nada elástica, dificulta-lhe os movimentos, a armadura de ferro dos seus heróis.”[85] E bastou Eça finar-se para a intelligentsia reconhecer que mortos estavam Filinto, Garrett, Ramalho e Camilo. O obituário lavrado por Maria Amália Vaz de Carvalho mais soava a um treno à literatura pré-Eça: o autor de Os Maias foi quem

“transformou a língua na mais deliciosa música, quebrando-lhe os períodos pomposos, desarticulando-lhe os membros pesados, aligeirando-lhe a ostentosa marcha, fazendo-a leve, espumante, transparente, luminosa, viva, cantante, rica de modulações melancólicas e de risadas argentinas, criando nela o instrumento maravilhoso e único na sua mão de humorista, movendo-a em esgares convulsivos, fazendo-a sorrir como uma parisiense elegante, fazendo-a chorar, daquela tristeza tão moderna, que, de si própria, parece estar escarnecendo enquanto chora!”[86]

Quando é que o ciclo pararia? Não é quando mas com quem; a modernização do idioma é sempre empreitada individual. E não foi com Eça, de certeza. Após o desenvolvimento duma cultura científica e da imprensa, os dois grandes normalizadores da plain prose de características coloquiais, o combate ao intrínseco barroquismo do Português não mais fazia sentido em 1927, se alguma vez chegou a fazer. Mas o padrão mental ganhara vida própria, por isso é previsível que os presencistas o prolongassem. Os presencistas, de radares e sensores afinados para detectar todo o exagero, ou inventá-lo onde não existisse, não pouparam Eça. “Dentro do romance, a obra de Eça de Queiroz é um arquétipo de exagero,” diagnosticou o João Gaspar Simões. “Mas o perigo não é grande quando se exagera em função da obra de arte.” O exagero é permitido ao herói conquanto “em obediência à verdade psicológica do homem.” Infelizmente, “Eça exagera em nome dos efeitos. O português exagera para tirar partido do próprio exagero.” Não havia escapatória desta idiopatia tão enraizada nos literatos. Habilmente Gaspar Simões partiu do singular para o geral, do exagerante Eça para o “português”, a condenação à fatalidade barroca espraiou-se sobre todo um povo como lava.[87]


Nos anos 40, com a ascensão dos neo-realistas, o ciclo girou mais uma vez e os presencistas tombaram nas trituras da engrenagem. O novo epítome da plain prose era agora José Cardoso Pires. “Talvez a prosa mais limpa e mondada que hoje temos”, lia-se num reclame de 1964 a O Anjo Ancorado.[88] Por sua vez, Pires continuamente concedeu a aguardada reforma a Almada Negreiros. Para trás, já nem digo os miserandos dos árcades, mas Garret, mas Eça – não, nenhum deles deu o mais mesquinho dos contributos para a modernização do idioma. “O Almada Negreiros é um dos escritores mais importantes da literatura portuguesa”. Claro, são todos, por uma temporada, até inventarmos o próximo desbarroquizador. “Como criador ligado aos jornais, Almada fixou-se numa sintaxe citadina, num coloquial urbano, solto e humorado. É realmente o grande renovador da prosa portuguesa desse tempo.”[89] Claro, claro. Em 1963, Alfredo Margarido, no Jornal do Fundão, o quartel-general do nouveau roman, rendeu-lhe idêntica homenagem, estonteado com “a linguagem coloquial, de expressão directa” de A Engomadeira, tão precursora da escrita em “grau zero” usada pelo próprio Margarido em A Centopeia.[90]

E que pensava Pires do livreco de Garrett outrora festejado exactamente pelas mesmíssimas qualidades? “Não gosto das Viagens na Minha Terra, acredite.”[91] Acredito, acredita que acredito. Almada suplantou Garrett e Eça graças a dois textos, nenhum deles meritório: A Engomadeira e Nome de Guerra, este editado por Simões em 1938 mas escrito em 1925, contemporâneo da prosa complexa de Joyce, Faulkner, Woolf, Proust. É um romance mediano que nada trouxe de inovador ou importante à ficção portuguesa. Em 1963, quando Margarido e Pires lhe cantavam loas, a literatura mundial era dominada por Lawrence Durrell, Günter Grass e Vladimir Nabokov, que por acaso não usavam linguagem coloquial, de expressão directa, e o Prémio Internacional de Literatura até foi para um tal de Carlo Emilio Gadda, que ninguém sabia bem como traduzir porque ele não queria nada com linguagem coloquial, de expressão directa. O Nadsat andava por aí. Haroldo havia começado Galáxias. Guillermo Cabrera Infante trabalhava em Três Tristes Tigres, um festival de jogos de palavras. Nós festejávamos Nome de Guerra.

Por esta altura, os elogios começam a soar bizarramente dejavuescos. Já sabemos o que Ana Margarida de Carvalho pensa de Pires. Mas não está sozinha. “O lado fabular das histórias de JCP é que me atrai muito”, afirmou recentemente Frederico Pedreira. “Sobretudo porque esse lado nunca é, para o leitor, ostensivo ou invasivo.” Esta é a essência da plain prose: prosa invisível, um narrador que nunca se vê nem sente. “Gosto particularmente da forma como ele consegue reabilitar uma certa noção de ruína (moral, social, paisagística) através da exibição contida do grotesco, do ridículo”.[92] Sim, convém conter o grotesco e o ridículo, o excesso é o primeiro passo para o barroquismo fradesco. “Ninguém como ele contribuíra para transformar o português literário, arcaico, rural e afectado, ou populista, académico e pseudo-lírico, numa língua moderna,” explanou Vasco Pulido Valente.[93] Qual Eça qual quê, pá! Almada, queres dizer a outra margem? E assim vamos.

O ciclo não pára. Há poucos anos, uma jornalista cultural, Joana Emídio Marques, afirmou que Pires “abriu as portas a esta linguagem moderna, coloquial, rápida e cinemática” que “tanto valorizam” os “jovens escritores”.[94] Provavelmente tem razão. Mas também disse de Nuno Bragança:

“Mas o seu grande e libertário embate será com a Língua Portuguesa. Um combate violento com recurso a ganchos, upper cuts, curvos, diretos. Bragança sabia que é pela linguagem manifesta e latente que uma ditadura se mantém e, portanto, só pode ser pela linguagem que ela há-de ruir. Essa é a grande ousadia e a grande revolução de A Noite e o Riso; Nuno Bragança libertou a língua portuguesa, tornou-a uma festa pagã onde os substantivos e adjetivos se transformam em verbos, os calões das margens encontram o linguajar das famílias nobres, o vernáculo solta-se com a fúria que lhe compete. Os diálogos são ágeis, a caneta não lhe dava negas à memória, a oralidade encontra a escrita e não recua perante ela.”[95]

Ah, afinal foi este quem modernizou a língua portuguesa. Em última análise, não importa a identidade. O que importa é o conforto emotivo de acreditarmos que um lobo-solitário entre nós está a lutar para nos salvar do nosso próprio idioma materno, essa ferramenta execrável. Regularmente, o rosto do modernizador reveza-se, mas não finda a vital e incompletável missão. O bacilo barroquista está de tocaia dentro de nós, os anticorpos precisam de se regenerar periodicamente para se prevenir dessa inexistente doença. Em 2014, o supracitado Pedreira foi proposto ao cargo por graça dum livro de contos, Um Bárbaro em Casa. “Mais do que de sangue novo, a literatura portuguesa anda a precisar de quem a sacuda, de quem lhe dê uns safanões, a ver se acorda”, pregou José Mário Silva, para quem a mais notável atracção foi a afinidade com o caganifante Charles Bukowski. “O que impressiona mais é a forma como o realismo sujo se mantém coerente, sem ceder às tentações da literatice.”[96] A proscrição da “literatice”, até a palavra em si, são lídimos presencismos (“mundanismo-camaradismo-literatice”, dizia Régio), congruentes com a atitude anti-espalhafato do manifesto da presença: “minuciosidades de prosa”, “literatização pouco feliz da linguagem”, “retórica pela retórica”, “literatura fradesca”, “literatura livresca”, “literatura de literato”, “arabescos inúteis”.[97] A “Presença liquidara de vez o academismo, a ‘literatice literária’, em que descambara quer certo simbolismo dessorado, quer um naturalismo invertebrado e sem informação,” agradeceu o neo-realista Joaquim Namorado, neste ponto se unindo aos adversários contra um inimigo comum.[98] Pode haver dezenas de capelas nas letras lusas, mas no fundo todas rezam ao mesmo Deus da Simplicidade. Régio, esquecidos os romances, a poesia, o teatro, sobrevive anonimamente, assombrando as alcovas lexicais dos críticos em funções. Mário Silva, porventura pensando-se original e ousado ao esmurrar a literatice, patujou apenas em mentismos centenários.

Um Bárbaro em Casa, o habitual consumível dietético desprovido de proteína verbal, sumiu-se sem som. Os messias duram menos tempo, agora. O mais recente candidato chama-se Afonso Reis Cabral. “Uma das características que fazem um bom escritor é conseguir criar a ilusão de que as palavras saem naturalmente à primeira,” jubilou um entrevistador quando ele venceu um prémio com o nome dum romancista que não escondia o artifício.[99] Pedreira desfia-se na engrenagem. Agora é Reis Cabral quem vai impor a verdade da plain prose: “E, cada vez mais, acho que a maior simplicidade é a maior complexidade na escrita,” ensinou do cume da maturidade dos seus ainda nem completos 30 anos.[100] “E que a maior transparência é a maior profundidade. Porque a escrita é comunicação. A simplicidade é, espero, um veículo para outras coisas.” A voz da experiência matando o trisavô. “Eu acho que os artifícios escondem inseguranças, incapacidades,” continua o benjamim da Simplicidade. Joyce, inseguro. Nabokov, inseguro. Rosa, inseguro. “A simplicidade, a construção pura, é mais complexa do que um ‘vejam como eu fiz aqui bonito’, ‘olhem este voo”.” Nem Boileau nem Bouhours teriam mudado uma vírgula.

Esta fixação teve diversas consequências. O romance português manteve-se num estilo homogéneo pouco aventureiro. Visto que plain prose se adequa particularmente a narrativas realistas e sérias, o grotesco e o ridículo raramente entraram nele. O fantástico, o cómico, que extraem forças do excesso e do exagero, mirraram. A busca por formas novas também foi obstada pela hegemonia duma receita que parece perfeita e definitiva.

Outra consequência afecta os raros dissidentes deste estilo. Como o meio literário montou um estado policial estilístico, nunca se soube o que fazer com dissidentes da laia de Ruben A., por exemplo. Tudo o que Emídio Marques atribui a Bragança por efeito de um romance de 1969 já havia sido exemplarmente realizado por A. quinze anos antes em Caranguejo. A. foi um dos nossos neologizadores, um dos poucos que parece que deram pela existência de Finnegans Wake. A. não aglutinava palavras à maneira joyciana, mas mudava palavras duma categoria gramatical para outra, imbuindo o texto com uma sensação constante de estranheza: “atmosfereada”, “alturarem”, “maresiado”, “fantasmar”, “esvoar”, “pintassilgar-se”, “impiedava”, “agrestava-se”, “apederestada”, “torre-eifelicada”, “esqueletava-se”, “instintamente”, “bailarínicos”. Caranguejo destaca-se pela mistura destas palavras derivadas, calão e termos técnicos. Tinha prazer em estrangificar a linguagem. O tom de Caranguejo vai do sério ao grotesco num ápice:

“A casa do silêncio á noite fora opunha medo ás almas doutro mundo apenas facilitando arremessos ferozes de ratazanas aristocráticas. As ideias, os costumes, as políticas dos bichos nocturnos invadiam as cadeiras da sala de jantar num espírito apavorado de sinagoga para católico. A cumplicidade do caruncho andava pelos bastidores num desejo beduíno, ao mesmo tempo carochas caracterizavam o passear na cozinha onde uma cautela de escuridão clareava os garfos que pareciam barbas emplumadas das estrelas mais vaidosas.”[101]

Um dos momentos mais mágicos do romance português ocorre nas páginas finais de Caranguejo, quando a narrativa às avessas recua até ao Big Bang e o narrador brinda o leitor com uma descrição do nascimento de, bem, tudo. É um âmbito megalómano, a linguagem é incapaz de abarcar a totalidade do universo, mas é o manguito ao impossível que energiza esta tentativa artisticamente ímpar. A., ao contrário de Pires, não queria conter o grotesco e o ridículo, queria refocilar neles. E livre desse complexo, deu-nos um romance original. A diferença entre Ruben A. e Nuno Bragança incide na diferença entre o destino dum verdadeiro inovador e dum fulano que chegou no momento certo para roubar os louros ao inovador. Em 1954, Caranguejo era tão repelente ao “bom gosto” da época que A., pária do Chiado, mandou imprimir o livro por conta própria e literalmente vendeu exemplares a partir dum carrinho de mão, além de que passou despercebido na imprensa, tirando um ou dois críticos. Em 1969, Bragança era um príncipe do Chiado, banqueta montada na prestigiante revista O Tempo e o Modo e amizade com António Alçada Baptista, cuja Editora Moraes lhe publicou A Noite e o Riso, que foi ruidosamente festejado por todos os que esperavam que Bragança, com acesso à imprensa, um dia devolvesse a delicadeza. Mais, era fácil admirar o livro em 1969 porque já não era estrambólico o que A. fizera 15 anos antes. E porque Bragança o fez em ponto pequeno, mais digerível pelo público.

Uma pessoa adestrada na história da literatura desconfia quando um inovador é imediatamente ditirambado pelas suas inovações. Sinal de que não inovou nada. O exemplo perfeito é a apoteose instantânea de Agustina Bessa-Luís. Num ensaio famoso mas mauzinho, Eduardo Lourenço proclamou que A Sibila era tão fenomenal que inaugurou uma “literatura nova” em Portugal. Mas esse romance foi tão inofensivo que a crítica correu para um consenso decisivo: não representava perigo nenhum, nem exigiu a menor adaptação do gosto vigente à intrusa. O resenhato adorou-o porque A Sibila foi ao encontro de todas as expectativas de como um romance bem-feito se devia comportar, em ‘54. Havia uns seis resenhistas de imprensa diferentes a chamar-lhe “genial” ao mesmo tempo! Poucos anos antes, discutia-se calorosamente se os portugueses eram sequer capazes de fazer romances ao nível da qualidade europeia. Essa era a interrogação de José Bacelar no ensaio Da viabilidade do romance português de interesse universal:

“E no entanto existe entre nós, indiscutivelmente, uma ‘crise’ do romance, uma ‘crise’ que se arrasta, que marca o passo, que parece não anunciar nenhuma solução. Realmente porque não temos nós alguns desses romances extraordinários que lemos em outras línguas, romances pelo menos tão cheios de ‘humanidade’ (quer dizer, de verdade humana nua e crua) como aqueles que surgem com bastante frequência em todos os outros países pode dizer-se, mesmo nos pequenos países?”[102]

Gaspar Simões dizia em ‘43 que aos portugueses faltava a “intuição do romanesco”. “Eis coisa fundamental na arte de escrever romances. Eis o que falta ao português.”[103] Quando Gaspar Simões ganhou uma página de crítica semanal no Diário de Lisboa, em ‘36, o conceito de crítica literária no sentido moderno praticamente não existia em Portugal. Ele assumiu como missão vitalícia ensinar aos conterrâneos os princípios básicos da escrita de romances: enredo, durée, imaginação psicológica, a coerência emotiva das personagens, o craft como lhe chamava, visto que a maioria dos teóricos em que se apoiava – Percy Lubbock, E. M. Forster, Henry Burrowes Lathrop, Henry James – eram anglo-americanos. Foi nesta parvónia, onde se perguntava abertamente se os portugueses eram espiritualmente capazes de fazer bons romances, que uma mancheia de resenhistas mal preparados decretou num triz que Agustina era um génio do romance. E toda a gente papou essa tolice porque queriam que fosse verdade, porque estavam mortinhos por exibir o seu grande romancista europeu. Para quem a Europa se marimba. Em 1854, Moby Dick valeu a Herman Melville resenhas agressivas e impiedosas: ninguém se apercebeu de que estava diante dum génio.[104] Os Maias recebeu mais do que uma resenha negativa em 1888 – foi escavacado por nada menos do que um homem com a craveira mental de Fialho de Almeida.[105] Para mim isto está certo: a história repetidamente prova que os gigantes são apedrejados antes de serem empedestalados.

Acontece, porém, que Portugal é um país reactivo. Dada a sua posição periférica no diálogo cultural, ele importa muito mais do que exporta. Por isso, nos anos 60, se o Lá-Fora determinou que estava na hora de louvarmos os estilistas, os retóricos, os epidícticos, os portugueses acenaram caninamente, “Sim senhor”. Se os EUA nos dizem que o melhor escritor é Nabokov; e se Irving Howe nos diz que Saul Bellow usa um “neo-baroque style”;[106] e da Inglaterra veio o bestseller internacional de Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, a que George Steiner elogiou como “barroco”;[107] e se o Brasil nos enche de inveja com Grande Sertão: Veredas a ser traduzido para espanhol, francês, alemão e inglês; e se Itália se honra com a vitória dum Gadda que se declara barroco sem rebuço; e se o alemão Günter Grass se emplourica num excesso verbal que obriga Steiner a dizer (muito a contragosto),

“Gass serve-se do instrumento verbal com um virtuosismo inquietante. Longos trechos em dialecto báltico alternam com outros que parodiam a gíria hitleriana. Grass acumula as palavras numa algaravia solene ou fá-las explodir em alusões e obscenidades desconcertantes. Tem um gosto compulsivo pelas listas, pelos catálogos cheios de termos invulgares ou de natureza técnica (traço que mais o aproxima de Rabelais). Há páginas inteiras extraídas de dicionários de geologia, de agricultura, de termos mecânicos, de bailado. E, assim, é a própria língua, com os seus poderosos recursos de histeria e secretismo, com as suas zonas privadas e a sua compostura oficial, que se torna a presença mais intensa, o núcleo vivo do seu romance negro fantástico.”[108]

meus senhores, é mesmo muito simples: dê por onde der, doa a quem doer, Portugal vai desencantar um escritor barroco para não de fora da foto de grupo. O fracasso não é uma opção. Só um contratempo: os romancistas portugueses que estavam a atingir a maturidade nos anos 60 haviam crescido num ambiente literário ostensivamente saturado de hostilidade à ideia de excesso verbal, por via da teorização presenço-neo-realista, que à sua maneira era apenas a Voz da Raça. Não havia incentivo, nem encorajamento, nem modelos nacionais que reunissem respeito alargado. Ninguém queria ser acusado de ser, sei lá, um Camilo. Resolveram este berbicacho como? O simples é simples: bastou descer a fasquia. Pegamos num negalho de prosa comestível, digamos Maina Mendes, entregamo-lo a Eduardo Lourenço e encarregamo-lo de cozinhar um prefácio supimpa. E nesse prefácio proclama: “Rigoroso e dançante, imprevista e fatal é o discurso romanesco de Maina Mendes que num dos últimos capítulos nos remete para as sombras tutelares de dois barroquismos opostos: o de Bach e o de Vieira, o da geometria e o do delírio.”[109] Devido ao amor de Lourenço à imprecisão, nunca saberemos ao certo a qual dos últimos capítulos deveríamos ir tirar provas. Vou experimentar o antepenúltimo:

“Parafraseando Cesariny, meu caro, aquele que se mete a autorizar a autoridade de quem desautoriza não sabe no que se mete. Estuporada linguagem que todos os dias as repartições fecundam e os namorados persistem sem ela. E tentando viajar ao quaternário por certo encontramos apenas despojos e fragmentos no trajecto. Só fragmentos porém, quanto ao total do que reconhece a imagem por total e se acomoda do fóssil ser parte de quarto traseiro. Ratificando pois a inteireza do fragmento, há porém a considerar a remodelação da face das coisas, pois que a via é, decididamente, não, fluidamente – restituição ao curso de água –, a via é para a pedra. Quero dizer ocupando arestas e sulcos e furnas e derrocada. Maravilhosa inimportância de desagregar-se a pessoa uma. Tudo o que espasmodicamente se aclara ratifica a explosão. Guarda-se ajustado o peso das folhas no ar e o peso do ar na pele para sempre. E, isto é o mais importante, transmissivelmente. O canto tem tradição oral matrilinear, a história não, que alimenta a justaposição dos fragmentos por classes etárias na sucedaneadade das gerações viris. Na reserva, retirante, a água entra pelo discurso. Meu amigo, como lamento no seu rosto os sinais de me reconhecer fragmentário e roto. Não tenho febre, meu caro, tenho tempo.”[110]

Isto é estilo espectacularmente esclerosado. Sáfara sem metáforas, aliteração, assonância, paronomásias; vocabulário diminuto; transparência sintáctica; zero fantasia. Para isto subir a uma categoria a que não pertence, algo tem de tombar. A tragédia de Maina Mendes é que havia uma carta de amor ao Barroco português escrita num estilo conscientemente pomposo que se auto-parodia. Chamava-se Dom Tanas de Barbatanas. Mas Tomaz cometeu o erro de fazer o pastiche demasiado bem:

“Meneando avisadas cabeças, elas, que tudo têm obrigação de saber, pois que para tal são fadas, iam colhendo augúrios infalíveis e probabilíssimos do radioso futuro e final lindo enterro do engraçadíssimo infante seu ai-jesus, observando-lhe o colorido e o mais que lhe coloria paninhos e cueirinhos, vigiando-lhe chichis e tudo, que de seu moto próprio e com toda a independência vertia e fazia, sem que pedisse licença a ninguém, logo claro anúncio de quanto sairia de génio independente e pessoais determinações, voluntarioso e resolvido, sem pavor e desinteressado, arguto e compreensivo, leal e verdadeiro, punidor pela justiça e de levar tudo raso, se a ele lhe não faziam o que entendesse de recta justiça, possante como um touro, também, de com um sopro atirar o mais valente por esses ares, e de muito agradável conversação; e de esclarecidíssimo raciocínio, antes de tudo, um legítimo Barbatanas, de dar gosto a seus felizes progenitores, além de muita honra, de grandes serviços e finezas prestar ao Reino, que na paz ou que na guerra, mas tanto numa como noutra, especialmente na paz e especialmente na guerra, em que não devia ser para brinquedos, assim como na paz, duríssimo de roer e muito mau de tornar, em todas as circunstâncias, mesmo nas benignas e airosas, a escolher ser temido antes do que amado, e a levar tudo raso e à má cara, até a fazer caras, consoante é de assisada política, no caso de se estar de cima, pois quem está de cima racha canhotas, e o engraçadíssimo infante sempre faria tudo para estar de cima, nem que no dia seguinte houvesse de negar o afirmado na véspera, pois que Barbatanas não vinham ao mundo e lhes não acenicavam guizos de prata, e apenas porque a prata mais límpida soa que o ouro, para serrar de baixo, posição que puxa do peito e faz doer as reins, além de que só quem serra de baixo leva serrim pelos olhos.”[111]

por isso teve de ser punido com as piores resenhas da sua vida. Os portugueses queriam saborear a ilusão de estarem na mesma página que o gosto estrangeiro; só não queriam sofrer as inevitáveis consequências de fazerem prosa desafiante. A geração de Velho da Costa jamais poderia ter presenteado os portugueses com o romance neobarroco que se fazia no Lá-Fora porque a simplicidade era – gira a engrenagem – a motivação da “literatura nova”. Mas, desta vez, com agravantes. E é aqui que entra Rui Nunes.

Pela mesma altura que Tomaz estava a pôr os toques finais no que seria o romance português mais tecnicamente avançado do século até então, uma nova leva de ficcionistas, para me manter na metáfora amorosa, estava prestes a partir para a violência doméstica. Putanizar uma amante no quarto pode ser uma actividade mutuamente agradável, se houver consentimento prévio, comunicação honesta, estabelecimento de limites. Mas o que houve entre 1960 e 1980 foi sadismo assexuado. Em vinte anos, esta lavra de ficcionistas produziu O Logro de Mário Ramos Dias, o Litoral do Espanto do Serafim Ferreira, A Centopeia de Alfredo Margarido, O Deserto Habitado de Júlio Conrado, O Doge de M. S. Lourenço, O Discurso da Desordem de António Rebordão Navarro, As Travessuras do Menino Hamlet de João Alves da Costa, o Comente o seguinte texto: de Eduarda Dionísio, A Lebre de Álvaro Guerra, Ambas as mãos sobre o corpo de Maria Teresa Horta, De noite todas as árvores são negras de Maria Isabel Barreno, A Viagem de João Palma-Ferreira, O Mestre de Ana Hatherly e outros, demasiados. Um crítico actual, Paulo Bugalho, herbertava há pouco tempo:

“Contra todas as probabilidades, o mais belo e multiforme monstro da ficção portuguesa ergue-se de repente, inteiro, nas décadas de 60 e 70. E se o modo como ainda brilham estas obras (para mantermos a metáfora), nos prova que a intensidade pulsante dos objectos astrais depende menos de estarem vivos do que seu fulgor original (muito do que observamos no firmamento está morto, mesmo que lateje mais forte que as presenças contemporâneas), também é verdade que amedronta não vermos em volta nada que se lhes compare.”[112]

Eu adorava aplicar-lhe o Teste Pacheco só numa de ver quais as duas coisas originais que tem para dizer sobre No Fundo deste Canal ou Romagem a Creta e já agora sobre o Já se pode brincar na relva e Um buraco na boca e Silêncio Ocupado e A Socialização da Morte e Giestas da Memória, para apurarmos quão a fundo conhece esse período apoteótico da ficção portuguesa. Ou não estará, tal e qual Vaz Pinto vis-à-vis Agustina, estacado no campo do incontroverso, alvitrando ideias-feitas que ninguém com “bom gosto” ousaria contraverter? Há por aí algum tatibitate à solta protestando que O Delfim, A Noite e o Riso e Maina Mendes não são prodígios aos quais nos devemos vergar?

Quando um pedante te sobranceirar com Margarida Rebelo Pinto e José Rodrigues dos Santos, dispara-lhe que o nadir da ficção portuguesa foi o vinténio 60-80. Imperou ficção mal escrita, programaticamente hostil à beleza e ao prazer da leitura, enfadada consigo mesma e enfeudava na obscuridade. Não era má apenas por falta de talento dos envolvidos, subjazia-lhe uma ideologia do atabalhoado. Há três formas de se pensar a linguagem. A maioria dos escritores, leitores e críticos trata-a como passageiros num cruzeiro indiferentes à água sob a qual deslizam, entretidos com as noites de karaoke e as lojas a bordo e os bronzeados à beira das piscinas: para esses, a linguagem é invisível. Mas uma noite uma mina aquática iraniana que se soltou e foi à deriva na corrente toca no casco e rebenta. O cruzeiro está a meter água e em breve afundará a pique. Passageiros tombam borda fora; alguns náufragos agarram-se a destroços e flutuam sobre as ondas; ainda não morreram, talvez sejam salvos, têm essa esperança, mas agora estão cientes de que a água existe e num capricho os mataria: esses são os escritores retóricos. Depois há os afogados, esses largaram a tábua e sentem os pulmões enchendo-se de água; esses também aprenderam que a água existe, mas de nada lhes serve agora; perderam a esperança e preferiram a auto-destruição; e se a meio do afogamento se mijarem e cagarem de medo, tanto melhor, ao menos morrem pensando que essa derradeira poluição é um ajuste de contas com o seu matador. Rui Nunes cresceu numa geração de afogados.

Uma geração não se podia borrifar mais para a sub-reptilígnea e o luxo-lixo-laxo do que os colegas de escola de Rui Nunes. Ódio à linguagem maior do que a órbita de Saturno. A mundividência comum era o desejo de destruir a gramática sem por isso levar aos encantamentos de Grande Sertão: Veredas. Cada um havia interiorizado uma ideologia filosófica que solenizava o silêncio e pregava a incomunicabilidade. Foi no pico da popularidade de Martin Heidegger. De Alain Robbe-Grillet. De Maurice Blanchot. Sabiam de cor que Adorno disse que escrever poesia depois de Auschwitz era bárbaro.[113] E que Barthes disse que a língua é “pura e simplesmente fascista”.[114] Vergílio Ferreira entendeu que a palavra que melhor definia o século XX era “silêncio”.[115] A comunicação entre indivíduos, lia-se nos livros de filosofia pop, era impossível. A mudez era o estado inexorável das relações humanas. Ainda hoje a escrita de Nunes abusa da palavra “silêncio”. Uma pessoa abre (o perfeitamente intitulado) No íntimo de uma gramática morta ao calhas e:

“Está na lógia de qualquer texto contaminar.

Está na lógica de quem escreve

ser um suicida.

:

um silêncio sem

um silêncio:

Deus”

Este é o texto inteiro da página 10. As três linhas finais da 26 são:

“E a sala esvazia-se

:

um homem sem um silêncio para descobrir.”

Na 35 lê-se:

“:

Somos múltiplos silêncios

para onde quer que regressemos.”

E na 38 lá vem a programática suspeita do fascismo latente da língua:

“a luz esmorece sobre o homem no seu púlpito, envolve-o a grande verdade do que irá dizer. A primeira sílaba. A partir dela a palavra fluirá, basta ser nítida para ser verdadeira. E então duas? e três? e uma frase? um discurso? A ovação. Eis o auge. Bravo, bravo, bravo. O irreprimível de qualquer verdade

A escrita: o que resta de um suicídio não consumado.

Como de um ninho de vespas começam a sair vespas, umas a seguir às outras, assim as palavras:

um glossário imenso não passa de um vespeiro: desenfreadas, as palavras tanto dizem Heil com dizem amo-te”[116]

Não se trata de discordar. Cada língua é um repositório de ideologia. Tudo vai parar à língua, como um rio: crianças brincam à beira e mais ao centro flutuam carcaças de animais putrefactas às claras. Não há nada mais conservador do que uma língua; só nos precaveríamos contra os horrores que avaliza se nos remetêssemos ao silêncio. Mas escrever é o oposto de calar. Como conciliar esta antinomia? Os muftis de serviço encontraram as fórmulas de comunicar o incomunicável: mutilação da sintaxe e pontuação; fragmentação de frases até ao incompreensível; produção de personagens aborrecidos, asténicos e sem propósitos claros nem vontade de agir, como Maina Mendes; o despovoamento do romance de personagens secundários até restar apenas um narrador (geralmente sem nome); o sequestro do enredo e da intriga, reduzida a uma narrativa intimista emitindo sem nexo um mundéu de mundanidades repescadas de manchetes e de livros de teoria populares; o polvilho do monólogo com amuos, mugidos e murmúrios ora cínicos ora lamechas; a enunciação de diálogos fátuos e circulares de modo a sublinhar a vacuidade da comunicação entre indivíduos; o desprezo pela psicologia, pelo pormenor, pela descrição do espaço; o fim de uma sensação de comunidade; o medo de comungar com sentimentos ou valores éticos; o apagão do tumulto de pontos de vista contrários; a profunda amusia da prosa; excesso de prosa sem músculo, mais mole do que um muffin, a saber a amurca; a pulverização do tempo em puzzles que não valia a pena reconstruir de tão exangues serem as “estórias” que contavam.

Foi, também, uma moda para chatear o leitor “burguês”. A teoria era esta: a língua pertence à burguesia, que detém o poder político; mais, a língua é o cabouco do poder burguês; logo compete ao escritor politicamente engajado destruir a linguagem burguesa para acelerar a revolução. No diário Vergílio Ferreira anotou: “Carta (inesperada) do Alfredo Margarido. Vive em Paris há anos. Pretexto: a leitura do último fragmento de um texto meu sobre Romance ’73. E aí temos a pregação conhecida (como é difícil fazer peito com ideias nossas!): a revolução contra a burguesia implica a revolução da sua linguagem.”[117] Esta moda redundou numa das maiores intrujices das modernas literaturas europeias. Uma descomunal muralha erguida contra qualquer investida da ideia de que a leitura devesse causar deleite, pelo menos. Livros tão parados que o musgo cresce neles visivelmente. O mais perfeito símbolo deste gosto epocal elevado a sistema foi Maina Mendes, uma mulher saudável que só porque sim dum dia para o outro decide emudecer e não volta a falar. Na Itália, Calvino fazia romances sobre um barão que dum dia para o outro decide viver nas árvores – adivinha qual deles é lido pelo mundo fora. Não há melhor metáfora para a ambição do escritor português deste vinténio: escrever para elucidar o quanto a escrita o enoja; descomunicar. Foi nesta leva que veio Nunes, vícios e tudo, tão novo mas nem pior nem melhor do que tantos outros entretanto olvidados.

Não saberás do que estou a falar, leitor, por uma razão higiénica: é que estes livros insuportáveis à quinta casa só ludibriaram escassos editores a voltar a arriscar dinheiro neles após a primeira e para muitos única edição, portanto a não ser que sejas uma barata dos alfarrábios, como eu, estás a salvo de algum dia seres abalroado por contacto directo como um eléctrico. Além disso, já quase todos morreram, e vários depois de 1980 adaptaram-se aos ditames do mercado. Isso deixa-te quatro opções se quiseres descobrir esta corrente: podes tentar obter os romances auto-editados de Alberto Velho Nogueira, uma espécie de soldado japonês esquecido numa ilhota sem saber que a bomba caiu sobre Hiroxima há mais de meio século; podes ler as primeiras obras de autores que começaram nessa estética antes de rapidamente transitarem para um tipo de romance mais legível – O Dia dos Prodígios de Lídia Jorge; O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana de Mário de Carvalho; Um Verão Assim de Mário Cláudio; Manual de Pintura e Caligrafia de Saramago – e devanear nos resquícios do que a ficção portuguesa poderia ter sido se o regresso à narratividade/discursividade não tivesse triunfado sobre o anti-romance; podes ler Rui Nunes, um dos melhores valores da sua geração, que aos escombros frásicos infunde a dignidade duma mundividência desapiedada que faltou aos seus contemporâneos; em última instância, podes sempre folhear os últimos romances de António Lobo Antunes.

Se eu tivesse de responder ao Teste Pacheco acerca de Lobo Antunes as duas coisas originais que penso ter para dizer são estas: primeiro, ainda não está devidamente demonstrado que a monstruosidade metaforista nele foi, em parte, reacção à proibição do uso de metáforas em vigor nesse vinténio. Tanta era a subserviência a Barthes que Eduarda Dionísio, jovem crítica de 21 anos, sem obra feita, numa recensão assaz negativa a Terra sem Música (1969) de Fernanda Botelho, praticamente impôs o uso do “grau zero da escrita” aos romancistas, porque “tem a vantagem de não permitir o mau gosto tradicional e as metáforas sem justificação”.[118] O “grau zero da escrita” um dogma estético da autoria de Barthes, foi imensamente popular em Portugal por então e postulava o uso duma franciscanofala puritanamente despojada de figuras de estilo, especificamente metáforas. Em O Grau Zero da Escrita, Barthes gozou com um romancista francês, Roger Garaudy: “Vemos que aqui nada é dado sem uma metáfora, porque é necessário fazer notar ao leitor que ‘está bem escrito’.”[119] Que ideia esquipática, esperar boa escrita da literatura. Este era o tipo de pide-ismo que aos antifascistas portugueses agradava muito, não havia passatempo mais honroso do que se escrutarem uns aos outros, à cata de delitos sinistros: metáforas. Num mensário dirigido por Eduarda, Crítica, Manuel Gusmão arrasou Os Clandestinos de Namora através de vários ângulos, um foi o uso de metáforas: “Surge então a presença desse ‘estio’ que se exibe, e que é inábil, rebuscando-se no seio da banalidade e do lugar-comum, procurando penosamente a ‘ousadia’ das comparações e das metáforas.”[120] Entretanto Gastão Cruz preocupava-se com a “Função e justificação da metáfora na poesia de Eugénio de Andrade”.[121] Estes milicianos teriam ordenado o camarada Guimarães Rosa a cortar “Mas nós passávamos, feito flecha, feito fogo, feito faca” – porquê tanta mariquice para dizer “Avançámos depressa”? Viviam numa ininterrupta espreitadela por cima do ombro, à espera da chegada alífera dos 20 valores por bom comportamento de Barthes. A criatividade não funciona num esquema de causação, não saberemos nunca porque é que Lobo Antunes apareceu trajando uma catafracta de imagens, mas será despicienda a correlação neste caso? A metáfora (a “metáfora pateta”) era dogmaticamente descorajada antes de 1979; mas eis que do nada apareceu um brutamontes disparando metáforas a torto e a direito, marimbando-se para o mau gosto. Decida o leitor se estes dois factos desconectados são mera coincidência. (Em 1992, Luís Coelho perguntava a respeito das metáforas de ALA: “Mas será que, perdido o ímpeto original, se justifica uma tal abundância delas?”[122] Não falha o vocabulário do bom gosto: justificação é o mesmo que dizer eficiência, como se uma obra literária tivesse um propósito preciso a desempenhar como uma campainha ou um cabide. A Eduarda riu por último, essa é a história secreta da tragédia da literatura portuguesa dos últimos 40 anos.)

Passando à segunda coisa que julgo original, penso que ainda ninguém comentou a gradual metamorfose de Lobo Antunes em Vergílio Ferreira, padrinho da geração de Nunes. Quando ALA entrou no ringue, o campeão a abater era esse, mais do que Agustina. Em 1985 dizia: “Penso, cada vez mais, que um romance tem de contar uma boa história; boa e bem contada. Quanto à Agustina e ao Vergílio Ferreira, estou farto de Faulkners do Minho e de Sartres de Fontanelas, e ainda por cima maus.”[123] A ideia de um Lobo Antunes minimamente comprometido com legibilidade narrativa soará a fantástico hoje em dia, mas nos primeiros anos foi um ferrenho defensor do regresso do enredo. (retour du recit, porque a gleba lusitana não voltou a contar estórias sem primeiro os seus senhores franceses darem o aval nos magazines internacionais.) E em 1979 já atirava indirectas a Vergílio: “Fala-se em masturbação intelectual, eu acho que nem é masturbação, são umas vagas festinhas na ponta do pirilau. Não tem sangue, não tem tripas, não tem aquilo a que o Rilke chamava sangue, olhar e gesto. É uma literatura sem sangue e sem olhar e sem gesto, é uma, sei lá, pá, é uma merda que anda à roda.”[124] Depois de Aparição, Vergílio começou a desajoujar-se do enredo, a retalhar a linearidade, a desfazer-se de personagens secundárias que interagissem com o protagonista, a evitar referências a Portugal, situando a “acção” num nebuloso espaço sem história. Tornou-se o principal promotor do que chamava “antidiscursivismo”:

“A característica primeira da arte de hoje é o seu antidiscursivismo. Assim ela evita o imediato, a objectividade lógica, a ‘anedota’, a plausibilidade, todas as formas e estruturas de representação tradicional; e, opostamente, visa o mediato, a destruição da objectividade como a concebíamos, os elementos sintéticos e abstractos que se julga serem a essência da Arte, o aparentemente inverosímil, a reestruturação de todas as formas artísticas tradicionais.”[125]

Nunes e os colegas de recreio tiraram notas, furiosamente. Isso vale para ALA, também. Nunca se libertou completamente das marcas do vinténio anterior (personagens sem nome, monólogo em detrimento de acção e conflito), mas a partir dos anos 90 começou a dar nos romances mais espaço à anti-gramaticalidade, tempos baralhados, uma persistente toada melancólica, os repetidos temas da morte, da memória, do tempo, das relações falhadas, da solidão, assemelhando-se mais e mais com o Vergílio pós-Aparição. Quando em 1999, já falecido Vergílio, Lobo Antunes disse, “Nos meus livros não há fio narrativo. Porque o fio narrativo é para o romancista a mesma coisa que a picareta e a corda são para o alpinista. O meu problema é como levantar personagens e emoções sem esse fio narrativo e sem fazer prosa estática.”, ele podia muito bem ter passado por um dos ficcionistas na casa dos vinte anos que em 1960 papagueavam o Mestre, um Nelson de Matos com domínio mais artístico da frase. É fascinante comparar a mancha gráfica de ALA ao longo dos anos. Começou por ser uma espessa muralha de tinta, à cunha, e acaba cheia de rachas por onde podias pilotar um Boeing. Em ‘96, Vergílio Ferreira baptizou um personagem d’O Manual dos Inquisidores, um trocável dono duma pastelaria e escriba dum jornal de Alcácer, ao mesmo tempo que o autor se acomodava à formatação descosida popularizada pelo Sartre de Fontanelas. A tipografia do último romance de Lobo Antunes, uma pilha de parágrafos unifrásicos em contínuo tom conversacional,

“com o carrito de compras, a que faltava uma roda, pulando no passeio, ainda hoje não se me dava ter um carrito igualzinho, nem que fosse para puxar em casa, a sentir-me importante com aquele barulho atrás, sempre quase a pisar-me, porque a felicidade é feita de miudezas assim, espremer borbulhas, olha, beber a água da torneira em lugar de um copo, quando me ia embora do quarto do senhor depois de lhe deixar a garrafita na cabeceira, o senhor que me disse logo no primeiro dia, ele que não me falou ao jantar, conforme não me falou depois, ambos um

– Tu dormes comigo

ambos mudos na sala, cercados de poltronas e reposteiros e consolas e pratos verticais e jarras vazias e quadros enormes e uma mulher nua

(não eu, não eu)

a nascer da base de um mármore

(nenhum retrato que estranho, nenhum retrato)

e cortinas pesadas, e um elefante de tromba para cima e orelhas do tamanho de bandeiras, o senhor de olhos vazios, tão alto, e eu calada em frente dele, vestida de domingo, com a roupa

– Ficas mais nova assim”[126]

que, bizarramente, leigos e especialistas associam a Lobo Antunes como se fosse invenção sua e a razão maior por que “mudou a forma do romance”, não passa dum decalque da formatação em uso em 1971:

“Depois viemos para a sala tomar café. Porque é que Vera me convidou? Na realidade não fiz nada, não disse nada. Disse apenas:

– Devias interna-lo

mas Vera frisou-me que

– fora disto funciona perfeitamente

porque é que me convidou? Talvez tenha projectos sobre o Ruy, inconfessáveis, e queira vir a precisar do meu testemunho. Já agora fico para o discurso que deve ser daqui a pouco, e entretanto falamos. Falemos do temo, do clima que se modificou na capital, Ruy Salles tem ideias precisas, declara que a corrente do Golfo se está a desviar, poderemos vir a ter o clima de Nova Iorque

– que é tramado

porque justamente a Gulf Stream

– e há o caso da Serra, agora arborizada

e que alterou profundamente o regime das chuvas, diz ele.”[127]

A carreira de Lobo Antunes foi largamente este regresso do filho pródigo à casa paterna para reivindicar o legado outrora recusado. Lobo Antunes não só imitou a formatação do odioso rival, passou a repetir-lhe as ideias: “Hoje penso que toda a arte tende para a música e a música tende para o silêncio. Até se conseguir chegar a um livro onde o silêncio seja completo.”[128] A vergilinização estava consumada.

E os portugueses exaltaram o renovado Lobo Antunes porque perpetrava prosa banal, como se exige por cá. Quando um dia se escrever a história de Lobo Antunes, surpreenderá a espessa torrente de desdém que do princípio choveu das nuvens literárias. Memória de Elefante foi atacado pelo jornal neofascista A Rua e por Vasco Pulido Valente no Expresso. No balanço que a RTP fez à literatura de 1979, dos três críticos só um se referiu e de rajada a Lobo Antunes, que fora duas vezes bestseller nesse ano.[129] Uma entrevistadora, Lourdes Féria, admitiu ser um dos detractores “‘verdes de raiva’ com a facilidade e a superficialidade do produto lançado no mercado por Lobo Antunes”. “O livro de Lobo Antunes, falo do primeiro – o segundo repete a temática – desagradou-me sobretudo a nível conceptual.”[130] Quem é que vai entrevistar um escritor para depois incluir tais queixumes no corpo da entrevista? Que eu saiba, Lídia Jorge, Mário de Carvalho, Mário Cláudio, Hélia Correia não foram maltratados desta maneira nas suas estreias. Dos ficcionistas que se estrearam por volta de 1980, foi ele o mais tardiamente premiado. Saramago recebeu o Prémio Cidade de Lisboa em 1980, o P.E.N. Clube em 1983 e o D. Dinis em 1984; Jorge ganhou o Prémio Literário Município de Lisboa em 1982 e o Prémio Literário Município de Lisboa em 1984; Mário de Carvalho recebeu o Prémio Cidade de Lisboa em 1983; Teolinda Gersão recebeu o P.E.N. Clube em 1982; Mário Cláudio ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB em 1984. O primeiro prémio de António Lobo Antunes foi o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB relativo ao ano de 1985, por Auto dos Danados – e ainda assim o triunfo do romancista foi eclipsado pelo drama dentro do júri, que veio a terreiro querelar que teria sido melhor não se ter dado prémio nesse ano, tão mauzinho era o vencedor. Quando os jurados leram as suas declarações de voto, um jornal comentou que “aquilo não parecia a entrega de um prémio, mas antes a entrega de uma condenação.”[131] O peso-pluma da Hélia Correia nunca teve de passar por esta humilhação pública. Não se escreve Fado Alexandrino impunemente, em Portugal.

Tanto o atazanaram, lá se rendeu. Lobo Antunes foi um lírico que se exprimia através de imprevisíveis combinações de palavras, geralmente em forma de metáforas. Infelizmente, também queria ser amado por um vasto público. E coube-lhe agradar um público que se babava por frases escumalhentas como “com o carrito de compras, a que faltava uma roda, pulando no passeio, ainda hoje não se me dava ter um carrito igualzinho, nem que fosse para puxar em casa,” muito melhor do que metáforas patetas que nos levam a locais inóspitos da ars combinatoria. Não deve haver maior satisfação para um leitor do que ler um “grande escritor” e pensar para consigo, “Olha, isso também eu!” Lobo Antunes, cioso de agradar, reprimiu o lirismo, entrando numa relação rancorosa com a linguagem. Impossibilitado de usá-la tal como lhe era natural, passou a encarar esta estranha com ódio. A auto-mutilação do espírito não tinha escape senão sob a forma de violência contra a linguagem, desengonçando-a, borrando-a, mutilando-a. O mais incrível é que Lobo Antunes previu este volte-face em 1980: “Se calhar se eu escrevesse coisas que não se percebessem, que não se vendessem, era porreiro.”[132] Foi assim que morreu, longe das lendárias vendas de 40 000 exemplares e admirado por leitores que confundem opacidade com complexidade. É isto que faz dos portugueses um povo tão sinistro: eles não desistirão enquanto não prostrarem um demónio de metáforas belíssimos num empilhador de frasitas corriqueiras. Que é que correu mal com eles?

(Senhor Professor Diogo, que pontuação me dá no Teste Pacheco?)

Não sei a que amuletos se agarraram as pobres cobaias dos grau-zeristas para sobreviver, entre 1960 e 1980, mas já se vê porque é que José Tengarrinha apurou que a maioria preferia Camilo, Eça e Júlio Diniz aos contemporâneos.[133] Da olvidada safra de Nunes, ele é praticamente o único ainda no activo; Alberto Velho Nogueira surgiu mais adiante com o Autofagias (1980), metáfora tão apta quanto a mudez de Maina Mendes. Não lhes compete pedir desculpas, ele e os coevos seguiram a estrela que mais brilhou para eles. Mas lamento que nenhum deles tenha reflectido sobre onde começaram e aonde veio acabar a aventura deles. Ao contrário do que Bugalho pensa, essa geração de 60 foi esquecida por uma conspiração de embaraço. Parece haver um acordo tácito na Universidade para não se voltar a falar dela.

Porque a destruição verbal que encetou produziu a lógica comercialista que a apagou como uma ameaça aos negócios. É notável que as estrelas da chamada ficção pós-25 de Abril praticamente não têm um passado pré-25 de Abril. A 24 os grandes escritores eram Serafim Ferreira, Abelaira, Artur Portela Filho; a 26 eram quase-desconhecidos sem vícios sigéticos. Aos “terroristas da literatura”, como lhes chamava Gaspar Simões, antepuseram-se Saramago e Lobo Antunes, à testa duma voga que contou com os dotes de Hélia Correia, Mário de Carvalho, Mário Cláudio, Luísa Costa Gomes. É como se o inconsciente colectivo quisesse apagar o rasto do desregramento, da anti-literatura, d’A Centopeia. Fingir que vinte anos de ficção nunca existiram. Que terá Rui Nunes a dizer sobre isto?

Mas por mais vitais que fossem as virtudes dos narrativistas, nenhum chegou aos píncaros dos criadores de putas. A violência doméstica acabou, hossanas, mas voltou também o respeitinho à mãe. Contar estórias, criar personagens interessantes, manejar com destreza os diálogos, com certeza, mas não nos estiquemos para lá disso. A breve trecho estes narrativistas foram substituídos por João Tordo, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mães e Gonçalo M. Tavares, que vivem em terror de que possam gerar uma labareda se esfregarem duas palavras uma contra a outra demasiado depressa. Desta ninhada pós-1970 salva-se David Soares, magistral em tudo (e tão curta é a sua obra) o que tive o prazer de ler. Ainda esperei que os nascidos após 1980, fartos de tanta insalubridade, fossem reagir ao nosso em epidémico simplismo verbal emaranhado em simplismo emotivo. A fatuidade dos saramáguis não arranjou melhor lema do que a pirosice platitudinária de Hugo Mãe: “O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal.”[134] Só um homem reduzido a um animal sem cérebro é incapaz de ver o inferno na companhia dos outros, em pais, maridos, professores, juízes, polícias, políticos, colegas de trabalho, mulheres desmaiando diante do nosso amado líder, eu e o meu semelhante electrocutando crianças porque são essas as ordens dos outros. Alguém teria de se revoltar contra esta puerilidade, pelo menos através dum estilo rebarbativo que significasse o desprezo pelo sistema literário que empodera estes teratos. Em vez disso, vi-os fazendo escola através de Joana Bértholo e Filipa Martins e Frederico Pedreira e Frederico Neves Parreira, salvando-se da indignidade Nuno Viana ao espalhar mais nebulosidade do que Velho Nogueira, que é uma forma de não compactuar. A Charca, ao nível do vocabulário botânico, não deixa de exibir certa opulência, mas Manuel Bívar fica aquém do enciclopedismo de Aquilino. Destaca-se João Reis, em alguns títulos, mas é pouco para nos alegrarmos. Talvez fosse cedo demais, talvez a viragem ocorresse com os Ena Pá 1990 – mas Ana Bárbara Pedrosa e Afonso Reis Cabral já me desenganaram dessa frágil esperança.

Ou muito me engano ou estamos a entrar numa nova ideologia que desta volta se chamará Saramaguismo. Tem-nos cercado aos poucos. Em 2018 uma jornalista perguntou a Rui Couceiro, “O que tinha Saramago que outros não têm?” e recebeu em troca: “O que mais me seduz é o estilo, porque permite tudo. E isso resulta num equilíbrio notável entre forma e conteúdo, ou entre estilo e inteligência. Nunca esquecerei o assombro que senti da primeira vez que li Saramago. É, justamente, com Pessoa, o génio maior entre cinco ou seis que temos na literatura em língua portuguesa.”[135] Tanto incenso acerca dum estilo que se limita a multiplicar vírgulas, como se uma frase longa fosse extraordinária apenas por ser longa. Depois foi Tordo, em 2021, pregando que “há um antes e um depois de José Saramago. Dantes dizia-se que havia um antes e depois de Eça de Queiroz. Eu acho o Eça, claro, um grande escritor, mas não tem aquilo que Saramago tem, não tem uma voz que é completamente inconfundível, em qualquer século, em qualquer livraria, em qualquer país.” O que o levou a um momento copérnico: “Nesse sentido, Saramago é o grande revolucionário da língua portuguesa”.[136] Por usar uma mancheia de técnicas que dezenas de compatriotas vinham usando desde os anos 40, pelo menos. Isto aturdiu-me tanto que dei uma resposta. Entretanto Miguel Real lançou Pessoa & Saramago (2021), junção que parece não ter outro critério excepto o facto de os epónimos serem os dois escritores portugueses mais internacionalmente famosos, por ora. 70 anos atrás Pessoa & Namora teria sido justíssimo: quem se lembra? Sem contar com outras actividades dúbias como a série televisiva “Herdeiros de Saramago” (2020) e a fã-cção de Luís Peixoto, Autobiografia (2019), que transforma Saramago em personagem num esquema auto-promocional dele, Peixoto. Já houve a moda de Camões, desde o Camões de Garrett ao Fome de Camões de Gomes Leal e o “Super Flumina Babylonis” de Sena. Depois a moda colou-se a Eça, com As Batalhas do Caia, Nação Crioula, Os Esquemas de Fradique. Depois foi a vez de Pessoa: o excelente A Conspiração dos Antepassados, Boa Noite, Senhor Soares, O Invisível, o pioneiro Fernando Pessoa contra o Homem-Aranha. É assim, daqui para a frente vamos ter de levar com o naturalista Azinhaga Vermelha, o borgesiano O escritor assassino no convento e o corrente-de-pensamêntico O Ano da Morte de José Sa – esse já existe, mas Real preferiu chamar-lhe O Último Minuto na Vida de Saramago. O que Couceiro e Real estão a fazer é a actualizar os termos de António José Saraiva, que brasonou as lonas das tendinhas da Feira do Livro de Lisboa com um slogan imbatível. Mas quando Saraiva disse que depois de Pessoa Agustina era o segundo milagre da literatura portuguesa do século XX, no cômputo não entraram vendas nem traduções. Pelo contrário, um elitismo remanescente encontrava nos poucos leitores dela a garantia de que era um escritor genial, um bastião do “atrito”, como diria Silvina Rodrigues Lopes. Podemos achar este snobismo risível, mas obedecia a um ideal de literatura autónomo do comercialismo. Saramago vai ser esvaziado da sua corajosa atitude ética que ninguém ousa emular e tornado numa espécie de Borges comercialeiro, um embaixador duma literatura absoluta que só não paira acima do mundo porque por vezes tem de descer à caixa registadora para finalizar o ritual por que demonstramos o quanto amamos a literatura, o mais fofo narcótico alguma vez inventado. O Saramaguismo que nos vão impingir é a ideologia de que o êxito comercial é o indesmentível e inapelável aferidor da qualidade literária. Isso incentivará os escritores a equacionarem prostituição com probidade: quando só queremos o dinheiro dos fregueses, os outros têm mesmo que ser o paraíso. É o termo demasiado duro? Deixa-me enfiar uma metáfora mais arrepiante. Em 1979, William H. Gass explicou ao escritor John Gardner a diferença entre querer que livros fossem amados e que livros fossem promíscuos. “Se tu tivesses uma filha para lançar no mundo, quererias que todos a amassem?”[137] A parte arrepiante vem dos muitos escritores que hoje em dia responderiam com um SIM estuante de empatia. E como as redes sociais explicam às nossas crianças, não há melhor forma de fazer amigos do que dar espectáculo. Pode ser apenas para um gajo a bater uma do outro lado do ecrã, mas amor é amor.

Ainda a remoer as últimas três metáforas sexuais? Muito bem. Peguemos na deixa do espectáculo para passar a outra. A tradição retórica podia chamar-se também tradição epidíctica. Do verbo grego epideiknunai, “dar uma exibição”, “alardear o talento próprio”. Platão odiava a “arte da epideixis” (epideiktike tekhne), chamou-lhe “um nome ridículo”.[138] O nosso Vergílio odiava o que baptizou “romance-espectáculo”, que para ele era indistintamente Grande Sertão: Veredas, Memorial do Convento e Cem Anos de Solidão. Eu sou mais coninhas nas distinções. A minha tradição quer, antes de mais, dar um show. Mas para quem? Quem é a nossa audiência? Um dos equívocos mais desnecessários de ser escritor português é o Diogo, o Paulo, o Mário e a Ana pensarem que me interessa medir-me com Pires, Agustina, Velho da Costa, ou até Saramago e Lobo Antunes, quando só me interessam Tomaz, Gadda, Gass, Nabokov, Bök, Alexander Theroux, Elkin e Rosa. Mas esta é a resposta que daria aos aléxicos, para não assustá-los de vez. Verdade verdade, o meu sonho é superar o engenho de al-Hariri, do qual nem nunca li uma única frase sequer; mas para me deixar numa adrenalina de inveja basta-me saber que algures no século XII houve um iraquiano louco cismando em arrancar o acidental à prosa rimada do seu precioso maqama.

A minha tradição está ciente de que a literatura não tem nenhum dever utilitário, de que está livre para ser um laboratório de linguagem. Os cientistas são deixados em paz em cantos herméticos onde estudam durante anos coisas que ninguém entende. Só à literatura é que impõem a obrigação de ser imediatamente informativa, de comunicar eficientemente, solucionar algum mal ou ao menos soluçar de impotência. O mais sinistro é esta imposição, vinda de não-escritores, ser apoiada por escritores, geralmente parapolíticos, filosociólogos e semi-assistentes sociais que falharam a vocação. Estes são os agelastas que decretaram ser de “mau gosto” brincar com palavras. A literatura é coisa séria: denuncia guerras e injustiças, humaniza os humanos e tudo. Tão humanitários assuntos precisam de linguagem sóbria, respeitosa. Mau gosto é achar que um jogo de palavras melhora qualquer situação. Eis um de Sir Philip Sidney feito em honra do secretário do pai: “Mr. Molyneux, if ever I know you to do so much as read any letter I write to my father, without his commandment or my consent, I will thrust my dagger into you. And trust to it, for I speak it in earnest.” Bons tempos em que matar era tão fácil (um punhal, um pinhal) como fazer uma paronomásia. Nunca a morte foi pretexto para tanto triquestroques como no teatro de Shakespeare e Marlowe.

Vou mais longe do que Nunes: o problema não é só o respeitinho pela língua materna, é a submissão à tirania do “bom gosto”. O bom gosto é uma norma arvorada em critérios aleatórios que visa coarctar a liberdade do autor em nome dum ideal de ordem e moderação. É sob a autoridade do bom gosto que as metáforas injustificadas são condenadas. Em nome do bom gosto podemos atirar para os campos de morte da criatividade a paronomásia, a aliteração, o trocadilho, o neologismo, o lipograma, o palíndromo, com o beneplácito alargado duma populaça a quem ensinaram que a prosa deve ser depurada de excrescências e garridices até atingir pureza ariana. A metáfora sexual é inevitável: a crença no bom gosto provém sobretudo do pavor à miscigenação, à promiscuidade. Mau gosto pavoneava Gregório de Matos ao misturar português, latim e tupi nos sonetos – se já não eram tempos de cavalheiros escreverem em latim, plantasse-se ao menos no português, que é até a última flor do Lácio. Mas a minha tradição é o baluarte da miscigenação, do poliglotismo. Nabokov escrevia em russo, francês e inglês. Gadda misturava os inúmeros dialectos italianos num remoalho indigerível. Rosa diz a lenda era fluente em oito idiomas. O bom gosto é o medo de que as coisas saiam dos compartimentos estanques, de que as categorias se baralhem, de que as identidades percam a sua pretensa concretude, de que o mais certo é as essências serem um mito. O ser humano tem terror à possibilidade de que tudo é fluxo e fachada e pensa que são fábulas contadas se puser a ficção a ministrar as suas ilusões de lei e ordem aos incautos a quem disseram que essa ficção serve para criar mentes questionadoras. Então não serve!

O mau gosto é, sempre foi, o maior motor de inovação literária. É por isso que a minha tradição não escreve para ninguém. Ninguém quer amar o mau gosto. O mundo não exigiu Lolita. Nem Grande Sertão. Nem A Clockwork Orange, que deve a sua fama a um filme. Nem Dom Tanas de Barbatanas, que teve as piores recensões da vida de Tomaz. A tradição epidíctica, o que resta dela, não escreve para ninguém vivo. Não quer vencer nem convencer, porque feira para ela, se alguma vez houve, fechou algures no século XVII quando revogaram as licenças das bancas donde Sir Thomas Browne apregoava a sua veniaga. Quem esperavam Rosa e Nabokov que encontrasse os seus segredos? Para quem nos últimos 300 anos é que George Herbert haveria de endereçar um trocadilho multilinguístico? Mesmo que acreditassem num leitor futuro, a probabilidade de incomunicação é tão alta que o impulso primordial tem de ser uma gratificação no acto em si, como uma masturbação, para continuarmos na metáfora sexual. Ainda que quisesse ser venal, a quem venderia o estilista o quê? Que vendas fazer se para a harmonia da linguagem anda a maioria de vendas nos olhos? No tempo de John Lyly, era chique entre as aias da Rainha Isabel recitarem de cor trechos do Euphues, um dos bestsellers quinhentistas. Hoje nem conseguirias pagar aos flulianos para memorizar as mais belas passagens de Fado Alexandrino. O ventre do meu estilista, ele sabe-o, andaria vazio se de vendas de livros dependesse o sustento, mais depressa se alimentaria se abrisse a boca à acidental semente carregada pelo vento. Do Finnegans Wake Joyce não obteve nenhum proveito material. Mas devemos festejar as raras ocorrências: se Rosa nunca se demitiu da carreira diplomática depois de Grande Sertão, Nabokov viveu o resto da vida num luxuoso hotel suíço à pala da dor de Dolores. A perversão paga.

Até há 300 anos, a tradição epidíctica manifestava-se quase exclusivamente através de duas classes tocadas ambas pelo divino: poetas e pregadores. O último grande manual de retórica português, o Nova Arte de Conceitos (1718), de Francisco Leitão Ferreira, era explicitamente dirigido a estas duas vocações, tal e qual os milhares de manuais precedentes que proliferaram na Europa. Estas duas classes equivaliam grosso modo aos “públicos” da Poética e da Retórica de Aristóteles, dos quais os manuais foram obstinadas sínteses comentadas. Um estilista que esconde um palíndromo num conto não conta com a adulação do público, é um cavernícola. Porque escreve então este conclave imaterial, disperso pelos séculos e continentes? O epidíctico parte duma pulsão profunda para materializar uma visão, duma necessidade psíquica para modelar a linguagem. A sua satisfação está no fazer, no encastoar esse segredo no todo da obra, no ver as peças no seu devido lugar como os fenómenos naturais dentro do sistema que os rege. Distanciar-se-á da pólis até, elitistamente. Afinal de contas, quem ama a linguagem tão intensamente assim não evitará desconfiar que foi destruída pela turbamulta. “Yo no escribo a communes, por eso no escribo commumente”. Boa sorte com essa atitude, D. Francisco, neste mercado. Dá-me a impressão de que a humanidade fez greve à eufonia. Quanto mais paleio, mais jornais, mais congressos, mais artigos especializados, mais redes socais, mais canais televisivos, mais sms, mais difícil não me sentir um tanto antidemocrático.

Depois deste despertar demótico, o estilista podia vestir-se para um velório, ou cortar as veias e ir ao seu, ou então esbravejar numa barricada, ou ainda, servente do Verbo, fazer da sua voz umas presas de víbora que, muito quixotescamente, injectassem no universo um veneno que matasse esta estúpida criatura que odeia a beleza, a eufonia, a harmonia. Por arrogância, uma mui venial arrogância, o estilista do meu convento pensa que vai dar um novo Verbo ao velho universo. Que linguagem fresca e viva não é esgotável. Pega no ferro-velho da linguagem e espera voltar à véspera do primeiro falante, quando o espanto era ainda vocação dos homens. Travessuras inconsequentes: o universo nem dá pela dentada. Por mais que desbaste os clichés o texto literário, o desgaste avança inexorável dia a dia. O gosto popular por frases simples, curtas e declarativas, desnudadas como os ossos cobertos por vermes, estacou-se desde o século XVIII num culto do estritamente informativo. Raro o leitor actual que deguste uma frase pelo seu ritmo, um parágrafo pela sua arquitectura, que pare para apreciar as qualidades intrínsecas duma página como se fosse uma paisagem. A prosa é como a voz das aves, ouvimo-la cada vez menos. Esta perda de sensibilidade para a retórica é irreversível; hoje sabemos que o sentido da beleza é erodível. Toda a linguagem que consumimos parece que foi enrolada por um escaravelho. Nós falamos palavras infestadas de larvas, frases-feitas feitas séculos atrás. Isso é incontroverso e inevitável. O cliché é a cola duma comunidade linguística. Tentar cometer frescura em cada interacção levaria à paralisia, tão improfícuo como comunicar com alienígenas.

O mercado livre não é dirigível, mas tudo é digerível, até estes anacronistas, por isso andam por aí, com a bênção do capitalismo. Nada demove estes cavernícolas, mas são péssimos a promover-se. Desaparecem por longos períodos, como um vaivém espacial. Não nasceram para ser aventureiros das avenças. Talvez escrevam para um colóquio imaginário com o passado, mas os fantasmas constituem uma pobre audiência. Escrevem para a única pessoa viva que conhecem, eles próprios, e secretamente esperam vivificar os incautos que se deixarem enfeitiçar pelo seu verbo. Compõem música solúvel na saliva da língua que acentua cada sílaba tónica sedulamente. Não pensam num leitor, nem sequer num ouvinte, mas num falante. São retardatários, crentes em recitadores nestes tempos de leitura silenciosa. Menos solipsisticamente, escrevem para inadaptados que se previnem contra o seu tempo através de prosa efervescente, vertiginosa, envolvente, um tanto perversa por ser mais inútil do que já é a inútil literatura. Desajustados que sentem mais agudamente o enferrujamento da linguagem e gratos pelo paliativo que esta prosa lhes proporciona. O epidíctico é medicina para uma audiência assediada pela chinfrineira. É uma fé ridícula, acreditar neste leitor que arrenega os clichés mediáticos, políticos, publicitários. A observação do real atesta que a maioria convive bem com a gula por este idioma tecnotóxico.

Eu sou um dos anormais que precisam regularmente duma taça de palavras frescamente misturadas, da trama duma mandala insólita, duma sarça ardente que me traga boas novas linguísticas. Tenho uma dívida para com os inventores da dúvida de que o cliché tenha de ser uma cruz de levar às costas até ao caixão. Há frases de Gass e Theroux que sei quase o dia e mês em que as recebi há mais de dez anos, como se fosse o meu aniversário, e porém amanhã escorrerá por uma vala até ao esgoto a neve do que li e ouvi hoje. Penso que esta tradição é uma espécie de culto que vive à custa de lavagens cerebrais, algures um novo convertido é fisgado pela música e de seguida almeja convocar outros infelizes: convocalizar. Tentando impedir o moribundo epidíctico de morrer de vez.

Soluções? Nenhumas. A tradição epidíctica não se renova por fiat. As outras tradições, sim, são produtos duma pressão sócio-emotivo-comercial para atochar as livrarias com ficcionistas. Os epidícticos não brotam em prol da sociedade, mas a despeito dela. E não têm nascido assim tantos nos últimos decénios. Com a morte a rondar Theroux, Ríos e John Banville, estamos em vésperas de assistir ao ocaso duma tradição que se manteve viva desde Górgias até hoje, sobrevivente de cataclismos, pestes, fins de impérios, fomes, migrações em massa, guerras mundiais, invasões. Agora, numa das épocas mais tranquilas da história, não se vê sucessores à vista. Talvez existam continuadores em línguas que sou incapaz de ler, talvez esses se julguem no fim de algo como eu. E talvez o fim desta tradição não seja tragédia nenhuma. Assim como assim, causa-me tristeza que a música esteja em vias de parar antes de um português a ter tocado com esta nossa língua que dizem é imensamente plástica.

Porém, este desamparo devia ser emancipatório. O escritor tem de decidir se quer vingar no mundo ou se quer vingar-se do mundo. Nós temos a sorte de viver numa época em que não temos de amar o inexistente público. Ninguém espera nada de nós. Não temos de satisfazer partidos nem programas. O mínimo que podíamos fazer com essa sorte era deixar de fingir que temos obrigação de escrever para tiragens de 40 000 exemplares como nos tempos d’A Jangada de Pedra. O povo de não-leitores que se auto-enganou de que gostava de ler felizmente ganhou a coragem para admitir que nem por aí além. Estamos livres para perseguir a quimera da linguagem. Sem renúncia do mundo. A realidade é um estupefaciente melhor do que a linguagem. Mas a escrita não é abreviatura. Não precisamos de maturidade, que é outro nome para prudência e pusilanimidade. Nem de indulgenciar nem aquietar uma humanidade que se julga tocada de angelitude. Encenemos sem esquivas um vaudeville para a espurcícia, tranquibérnias, esqualidez, truanices e feiura do mundo, que merecem a exuberância e fantastiquice da nossa tessitura. O epidíctico sempre exaltou o mundo. Se o mundo é o Inferno será com o Inferno que faremos o espectáculo. Foi sempre esse o grande espectáculo do epidíctico.

  1. “A grande guerra à realidade. Outra conversa com Rui Nunes”, Enterrados no Jardim, 28/03/2025: https://open.spotify.com/episode/52rFu9oWCi7MVSz3kLAVi8
  2. Padre António Vieira, Sermões, Lisboa: Círculo de Leitores, 1979, p. 172
  3. José Saramago, Memorial do Convento, Lisboa: Círculo de Leitores, 1999, p. 26
  4. Carta de Tomaz de Figueiredo a José Régio a 20 de Maio de 1960. Espólio pessoal de Tomaz de Figueiredo.
  5. Rui Nunes, Grito, Lisboa: Relógio d’Água, 1997, p. 8
  6. Rui Nunes, Ângulo sem espaço, Lisboa: Início, 1967, p. 27
  7. Hélia Correia, citada em João Rasteiro, “Hélia Correia: ‘Sem palavras voltamos para a pré-história’”: 24/06/2021: https://www.sinalaberto.pt/helia-correia-sem-palavras-voltamos-para-a-pre-historia/?fbclid=IwAR0zmUsi5DuQQnjaJJ59UzdxUeAqREJUfs_Pj9wueUaYxvZueLAjFgpyF7Y
  8. Arnaldo Saraiva, Encontros Des Encontros, Porto: Livraria Paisagem, 1973, p. 224
  9. “Fernando Namora: ‘À margem dos cadernos…’”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 11/04/68, p. 3
  10. José Saramago, “A razão do macho”, Seara Nova, n.º 1462, Agosto de 1967, p. 262
  11. “Um novo romancista: entrevista com Nuno Bragança”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 11/12/69, p. 5
  12. “Rodrigues Miguéis num incisivo depoimento afirma que a literatura se libertou das disciplinas”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 22/03/35, p. 6
  13. Luiz Pacheco, Diário Remendado: 1971-1975, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, p. 239
  14. “Exorcizar o medo, escapar à tragédia. Uma conversa com Lourença Baldque”, Enterrados no Jardim, 09/05/2026 (3:20:00): https://open.spotify.com/episode/4DXyngtIAfxdnMBpsKJ8WN
  15. Raul Brandão, Memórias, Lisboa: Quetzal Editores, 2017, p. 599
  16. Citado em Alexandre Cabral (ed.), As Polémicas de Camilo – II, Lisboa. Portugália Editora, 1964, p. 83
  17. Citado em Alexandre Cabral (ed), Polémicas de Camilo Castelo Branco VIII, Lisboa: Livros Horizonte, 1982, p. 19
  18. Vasco Pulido Valente, “Diário”, Público, 08/06/2019: https://www.publico.pt/2019/06/08/politica/cronica/diario-1875789
  19. Citado em A. Campos Matos, A Guerrilha Literária: Eça de Queiroz – Camilo Castelo Branco, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2008, p. 110
  20. José Gomes Ferreira, Intervenção Sonâmbula, Lisboa: Diabril, 1977, p. 113
  21. Citado em Alexandra Lucas Coelho, “A lusofonia é ‘uma marca dentífrica’”, Público/Ípsilon, 19/03/2000: https://www.publico.pt/2000/03/19/jornal/a-lusofonia-e-uma-marca-dentifrica-141469
  22. “Registo”, Diário de Lisboa/Vida Literária, 24/12/59, p. 3; Bruno Vieira Amaral, Integrado Marginal: Biografia de José Cardoso Pires, Lisboa: Contraponto, 2021, p. 252
  23. James Joyce, “Finnegans Wake, I, 3”, O Tempo e o Modo, 1.ª série, n.º 57-58, Fevereiro-Março 1968, pp. 243-244
  24. M. S. Lourenço, “Finnegans Wake em português”, Colóquio/Letras, n.º 23, Janeiro de 1975, pp. 27-34
  25. Gastão Cruz, “Jardim de Inverno por Maria Teresa Horta”, Diário de Lisboa/Vida Literária e Artística, 16/06/66, p. 8
  26. Manuel Sousa Loba, “Três livros novos”, Diário Popular/Letras e Artes, 08/07/67, p. 15
  27. Manuel Alberto Valente, “Nas margens do inútil”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 03/04/69, p. 2
  28. Rui Nunes em Diogo Vaz Pinto, “Rui Nunes: ‘Não basta compreender o terror, é preciso participar dele’”, Jornal i, 02/09/2013: https://ionline.sapo.pt/artigo/358208/rui-nunes-nao-basta-compreender-o-terror-e-preciso-participar-dele-?seccao=B.I.
  29. Ângela Varela, Configurações do Poema em Prosa: de ‘Notas Marginais’ de Eça ao Livro do Desassossego de Pessoa, Lisboa: INCM, 2011, p. 140
  30. Tomaz de Figueiredo, Nó Cego, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1950, p. 55
  31. Clara Ferreira Alves, “Lobo Antunes e os setes pecados mortais”, em Ana Paula Arnaut (ed.), António Lobo Antunes: A Crítica na Imprensa 1980-2010 Cada Um Voa Como Quer, Lisboa: Almedina, 2011, p. 40
  32. Citado em Ana Paula Arnaut (ed.), Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, Coimbra, Almedina, 2008, p. 96
  33. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 188
  34. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 203
  35. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 208
  36. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 215
  37. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, pp. 227-228
  38. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 297
  39. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 310
  40. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 409
  41. Mário de Carvalho, Facebook, 11/07/2021: https://www.facebook.com/mario.decarvalho.319/posts/pfbid02CHx5dxdieU1AduLQFYrDwarWF4drpeLDEhztNWPo2M36kRZaa8LCcHwmVgvagKfwl
  42. Mário de Carvalho, Facebook, 05/06/2020: https://www.facebook.com/mariodecarvalho.escritorpagina/posts/pfbid0HTqv2ebQjrXHGJZAg5oFNjvxCsqgKtvsTcuh93Tx3sZUM52Bjd3TaQgUvFcQf6AZl
  43. Tomaz de Figueiredo, A Má Estrela, Lisboa: Editorial Verbo, pp. 122-123
  44. Luís Ricardo Duarte, “José Cardoso Pires: O prazer da influência”, Visão, 14/05/15: http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/jose-cardoso-pires-o-prazer-da-influencia=f819557
  45. José Cardoso Pires, Os Caminheiros, Lisboa: Edição do Centro Bibliográfico, 1949, p. 11
  46. “Subsídios para uma ecologia da literatura lusa. Conversa com Paulo Bugalho”, Enterrados no Jardim, 16/02/2024: https://open.spotify.com/episode/6mCFBwwXgTXzfhuW3n8I3z
  47. Agustina Bessa-Luís, A Sibila, Lisboa: Guimarães Editores, 2009, p. 19
  48. Citado em “O Ânus Solar e o Sol Negro na edição portuguesa. Uma conversa com Frederico Neves Parreira”, Enterrados no Jardim, 17/07/2023: https://open.spotify.com/episode/1CJvsvtnW4Gxhb5L4n14mr
  49. “Subsídios para uma ecologia da literatura lusa. Conversa com Paulo Bugalho”
  50. Diogo Vaz Pinto, “Agustina, a nossa Maria Antonieta”, Sol, 08/06/2019: https://sol.iol.pt/2019/06/08/agustina-a-nossa-maria-antonieta-2
  51. Citado em Leonor Curado Neves (ed.) António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência, Lisboa: Gradiva, 2004, p. 306
  52. Citado em António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência, p. 358
  53. Citado em “Subsídios para uma ecologia da literatura lusa. Conversa com Paulo Bugalho”
  54. Citado em Elisabete França, “No Outono do patriarca”, Diário de Notícias, 07/01/2004, p. 34
  55. Roxana Eminescu, Novas coordenadas n romance português, Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa/Ministério da Educação, 1983, pp. 18-20
  56. Citado em Scott Sanders, “An Interview with Stanley Elkin”, Contemporary Literature, Vol. 16, N. º 2, Primavera de 1975, pp. 132
  57. Alexander Theroux, Darconville’s Cat, Garden City, Nova Iorque: Doubleday & Company: 1981, p. 662
  58. Haroldo de Campos, Galáxias, São Paulo: Editora 34, 3.ª edição, 2011, s/p
  59. A Sibila, p. 209
  60. João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, pp. 355-356
  61. João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 3.ª edição, 2003, pp. 93-94
  62. Vladimir Nabokov, Selected Letters: 1940-1977, editado por Dmitri Nabokov e Matthew J. Bruccoli, Nova Iorque: Harcourt Brace Jovanovich, 1989, p. 116
  63. Matthias Bauer, “‘Paronomasia celata’ in Donne’s ‘A Valediction: forbidding mourning’”, English Literary Renaissance, Vol. 25, N.º 1, Textual Studies, Inverno de 1995, pp. 97-111
  64. Citado em Vilma Guimarães Rosa, Relembramentos: João Guimarães Rosa, Meu Pai, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2014, pp. 486-487
  65. Citado em Günter W. Lorenz, Diálogo com a América Latina: panorama de uma literatura do futuro, São Paulo: E.P.U. – Editora Pedagógica e Universitária, 1973, p. 340
  66. Citado em Fernando Venâncio, Estilo e Preconceito: A Língua Literária em Portugal na época de Castilho, Lisboa: Edições Cosmos, 1998, p. 193
  67. Afonso Lopes Vieira, “Carta Prefácio”, em Vitorino Nemésio, Teatro e Ficção I, Lisboa e Lajes do Pico: Imprensa Nacional e Companhia das Ilhas, 2018, p. 62
  68. Citado em Eça de Queirós visto pelos seus contemporâneos, Porto: Lello & Irmão, 1945, pp. 393-394
  69. M. de A., “Jornalismo: o murro das palavras. Entrevista com Baptista-Bastos”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 15/08/68, p. 2
  70. José Blanc de Portugal, “Letras vivas”, Flama, n.º 839, 03/04/64, p. 33
  71. Christian Bök, Eunoia, Ontário: Coach House Books, 2014, p. 54
  72. Vladimir Nabokov, The Annotated Lolita, Nova Iorque: Vintage Books, 1991, p. 316
  73. Surpreendentemente, há uma tradução portuguesa: Julián Ríos, Larva: Babel de uma noite de São João, trad. Mariano Alejandro Ribeiro, Lisboa: Barco Bêbado, 2024
  74. Paul West, Bela Lugosi’s White Christmas, Nova Iorque: Harper & Row, 1972, p. 1
  75. William H. Gass, Willie Masters’ Lonesome Wife, Normal, Illinois: Dalkey Archive Press, 1998 s/p
  76. José Bacelar, “Divagações sobre a língua portuguesa”, parte 2, Seara Nova, n.º 1024, 15 de Março de 1947,
  77. Blaise Pascal, Do Espírito Geométrico e da Arte de Persuadir, Porto: Porto Editora, 2003, p. 54
  78. Almeida Garrett, Obras Completas XI, Lisboa: Círculo de Leitores, 1984, p. 10
  79. Citado em Estilo e Preconceito: A Língua Literária em Portugal na época de Castilho, p. 271
  80. Rebelo da Silva, “A Escola Moderna Literária VII – O Sr. Garrett”, A Época, n.º 27, 1848, pp. 421-422
  81. Citado em Júlio d’Oliveira, Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz: rememoração e esclarecimento de factos de ordem literária e jornalística, Porto: s/e, 1945, p. 103
  82. Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, p. 101
  83. Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, p. 99
  84. Camilo citado em A Guerrilha Literária, p. 45
  85. Sampaio Bruno, A Geração Nova, Porto: Lello & Irmão – Editores, 1984, p. 21
  86. Citada em João C. Reis (ed.), Polémicas de Eça de Queiroz, vol. IV, t. II, Lisboa: Heuris, 1987, 144
  87. João Gaspar Simões, “De como uma crítica romântica admira um poeta clássico”, Diário de Lisboa/ Suplemento Literário, 28/02/36, p. 2, col. 1
  88. Diário de Lisboa/ Vida Literária e Artística, 19/11/64, p. 5
  89. Vasco Pulido Valente e Vasco Rosa, “O último escritor português”, O Independente/Vida, 16/05/97, p. 19
  90. Alfredo Margarido, “A engomadeira ou o sentido da vulgaridade”, Jornal do Fundão/Nova Literatura, 28/04/63, p. 7, col. 3
  91. O Independente/Vida, 16/05/97, p. 20
  92. “José Cardoso Pires: O prazer da influência”: http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/jose-cardoso-pires-o-prazer-da-influencia=f819557
  93. Vasco Pulido Valente, “José Cardoso Pires”, Público, 25/10/08: https://www.publico.pt/2008/10/25/jornal/jose-cardoso-pires-281269
  94. Joana Emídio Marques, “José Cardoso Pires. E que tal começarmos a ler escritores a sério?”, Observador, 07/06/2015: https://observador.pt/especiais/jose-cardoso-pires-comecarmos-ler-escritores-serio/
  95. Joana Emídio Marques, “Nuno Bragança? Não conheço nenhum escritor com esse nome”, Observador, 05/01/2020: https://observador.pt/2020/01/05/nuno-braganca-nao-conheco-nenhum-escritor-com-esse-nome/
  96. José Mário Silva, “Educação Sentimental”, Expresso/Actual, 06/09/2014, p. 40
  97. José Régio, “Literatura Livresca e Literatura Viva”, presença, n.º 9, 09/02/1928, pp. 1-8
  98. Joaquim Namorado, “Breves notas sobre a personalidade e a obra de Redol”, Vértice, n.º 322-323, Nov.-Dez. 1970, p. 914
  99. Sofia Matos Silva e Pedro Matias, “Afonso Reis Cabral: “Pão de Açúcar é uma conquista como escritor’”, JPN, 11/10/18: https://jpn.up.pt/2018/10/11/afonso-reis-cabral-pao-de-acucar-e-uma-conquista-como-escritor/
  100. Sílvia Souto Cunha, “Como forma de felicidade, a escrita é muito ingrata”, 08/10/19: https://anossaprima.sapo.pt/inspirar/artigos/como-forma-de-felicidade-a-escrita-e-muito-ingrata
  101. Ruben A., Caranguejo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 7
  102. José Bacelar, Da viabilidade do romance português de interesse universal, Lisboa: Seara Nova, 1939, p. 50
  103. João Gaspar Simões, Caderno de um romancista, Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco, 1943, p. 14
  104. Watson G. Branch (ed.), Melville: The Critical Heritage, Londres: Routledge & Kegan Paul, 1974, pp. 251-291
  105. Fialho de Almeida, “Os Maias”, em António Apolinário Lourenço (ed.), O Grande Maia. A Recepção Imediata de Os Maias de Eça de Queirós, Braga: Angelus Novus, 2000, pp. 35-44
  106. Irving Howe, “Odysseus, Flat on His Back”, The New Republic, 19/09/64: https://newrepublic.com/article/122715/odysseus-flat-his-back
  107. Ver George Steiner, “Lawrence Durrell e o romance barroco”, em Linguagem e Silêncio: Ensaios sobre a Literatura, a Linguagem e o Inumano, Lisboa: Gradiva, 2014, pp. 447-459
  108. Linguagem e Silêncio, pp. 192
  109. Eduardo Lourenço, “Prefácio”, em Maria Velho da Costa, Maina Mendes, 3.ª edição, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993, pp. 15-16
  110. Maria Velho da Costa, Maina Mendes, 3.ª edição, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993, p. 219
  111. Tomaz de Figueiredo, Dom Tanas de Barbatanas: O Doutor Geral, Lisboa: Editorial Verbo, 1962, pp. 60-61
  112. Paulo Bugalho, “Apenas o começo de uma ansiedade”, Sol, 21/09/2023: https://sol.iol.pt/2023/09/21/apenas-o-comeco-de-uma-ansiedade
  113. Theodor W. Adorno, Prisms, Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1997, p. 34
  114. Roland Barthes, Lição, Lisboa: Edições 70, 1979, p. 16
  115. Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 4 (1982-1983), Amadora: Bertrand Amadora, 1986, p. 282
  116. Rui Nunes, No íntimo de uma gramática morta, Porto: Officium Lectionis Edições, 2021, pp. 10, 26, 35, 38
  117. Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1 (1969-1976), Amadora: Livraria Bertrand, 1980, p. 209
  118. Eduarda Dionísio, “Fernanda Botelho, ‘Sem terra sem música’”, Seara Nova, n.º 1489, Novembro de 1969, p. 398
  119. Roland Barthes, O Grau Zero da Escrita seguido de Elementos de Semiologia, Lisboa: Edições 70, 1981, p. 59
  120. Manuel Gusmão, “Esplendores e Miséria do ‘Marketing’”, Crítica n.º 9, Julho de 1972, p. 3,
  121. Gastão Cruz, “Função e justificação da metáfora na poesia de Eugénio de Andrade”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 25/06/70, pp. 1-2
  122. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 188
  123. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 67
  124. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 18
  125. Vergílio Ferreira, Um Escritor Apresenta-se, apresentação, prefácio e notas de Maria da Glória Padrão, Lisboa: INCM, 1981, p. 359
  126. António Lobo Antunes, O Tamanho do Mundo, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2022, p. 40
  127. Vergílio Ferreira, Nítido Nulo, Lisboa: Portugália, 2.ª edição, 1972, p. 252
  128. Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007: Confissões do Trapeiro, p. 308
  129. “A coragem de dizer o que se sente”, Voz do Povo, 07/02/80, p. 20
  130. Lourdes Féria, “António Lobo Antunes: Onde está o mal”, Diário de Lisboa/Sete Ponto Sete, 22/12/79, p. 1
  131. Lobo Antunes: vencedor com reservas…”, Diário de Lisboa, 12/04/86, p. 11
  132. “A coragem de dizer o que se sente”, Voz do Povo, 07/02/80, p. 21
  133. José Tengarrinha, A novela e o leitor português: estudo de sociologia da leitura, Lisboa: Prelo, 1973, pp. 99, 102
  134. Valter Hugo Mãe, A Desumanização, Porto: Porto Editora, 2013, pp. 20-21
  135. Inês Maria Meneses, “Rui Couceiro: ‘A intuição distingue os melhores’”, Expresso, 11/08/2018, p. 105
  136. Citado em “Autor do Mês: Conversa sobre José Saramago”, Livraria Lello, 2021, (29:30): https://www.youtube.com/watch?v=JE_46sw1vw8
  137. Tom LeClair e Larry McCaffery (ed), Anything can Happen: Interviews with contemporary American novelists, Chicago: University of Illinois Press, 1983, p. 26
  138. Laurent Pernot, Epideictic Rhetoric: Questioning the stakes of ancient praise, Austin, Texas: University of Texas Press, 2016, p. 3

Conversa: Revisão de Texto, Prática, Desafios e Realidade, com Márcia Marto

A revisão de texto é o trabalho invisível que faz toda a diferença na clareza e no impacto de um texto. Esta entrevista mostra o que realmente acontece nos bastidores desta profissão, onde o rigor da gramática se cruza com a sensibilidade de quem escreve. Ao longo da conversa, explorámos temas como a diferença entre rever e editar o estilo de um autor, os desafios de trabalhar com prazos apertados no mercado editorial e a importância de ir além da ortografia, cuidando também da verificação de factos. Conversámos também sobre o que é preciso para ser um bom revisor hoje em dia e como é que a Márcia Marto (@re.vi.sao) consegue ser a ponte ideal entre quem escreve e quem lê, garantindo que o texto final tem a máxima qualidade.

Uma Casa Portuguesa

Texto de Vasco Pulido Valente publicado originalmente no Diário de Notícias a 5 de Fevereiro de 1984 e reeditado no volume Às Avessas.

Um indivíduo está aborrecido com o emprego que tem, ou precisa de emprego ou ambiciona, por razões óbvias, ganhar mais. As coisas correm-lhe cada vez pior e as empresas privadas não o querem. Esclarecidamente, o indivíduo pensa no Estado, a que supõe o dever de lhe dar uma ocupação e proventos compatíveis. Não encontra nada ou o que encontra não o satisfaz.

Deste fracasso o indivíduo retira a conclusão de que o Estado não cumpre cabalmente as suas funções. Os seus enormes talentos merecem com certeza ser usados e seriam com certeza usados por um Estado que se prezasse. O indivíduo concebe então o plano simples de conseguir que o Estado reconheça a sua utilidade. Procura dentro de si sinais de distinção. Depressa se descobre uma especialidade, um amor, uma causa. Digamos, por exemplo, a casa portuguesa.

A casa portuguesa típica, que lhe despertou sempre surtos de paixão, desaparece lentamente da paisagem. As câmaras não a protegam; a Fundação Gulbenkian ignora-a; o público despreza-a. A preservação da casa portuguesa constitui um interesse social, digno da atenção do Estado. Aliás, todos os interesses sociais são dignos da atenção do Estado. O indivíduo decide, portanto, persuadir o Estado a encarregá-lo de preservar a casa portuguesa, tão ameaçada pela incúria, por autarcas néscios e pelos emigrantes.

Convoca três amigos: dois arquitectos e um autoproclamado sociólogo, como ele convencidos da sua importância e carentes de uns dinheiros. Os quatro põem-se em campo. Trata-se de obter acesso a um ministro ou a um secretário de Estado, através de relações pessoais ou de influências partidárias. O ideal é escolhê-lo num departamento com objectivos tão etéreos e brumosos como a própria preservação da casa portuguesa: a Cultura, a Qualidade de Vida, a Família, o Ordenamento Territorial, a Paz nas Consciências. Em rigor, qualquer serve, mas estes apreciam em particular os projectos fantásticos.

Imaginemos que o indivíduo e os três amigos se apoderam do ministro da Cultura. Tal ministro, principalmente se, como com frequência sucede, é analfabeto ou quase, jamais se atreverá a manifestar indiferença seja pelo que for que se lhe apresente como Cultura (com C grande). No “Botequim”, Natália Correia vela. A esperteza reside em que tudo lhe pode ser apresentado como Cultura, até Natália Correia e a preservação da casa portuguesa. Intimidado, aflito, prevendo críticas devastadoras à sua relutância em preservar a casa portuguesa, o ministro rende-se. Discretamente, e supondo assim desembaraçar-se do sarilho, nomeia por despacho uma Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa, com o indivíduo e os três amigos, que passam a receber a remuneração mensal de cento e cinquenta contos, para o chefe, e cem cada, para os comparsas.

Ganhou-se a primeira batalha. O indivíduo adquiriu uma posição oficial. O próximo passo consiste em montar um cerco ao gabinete do ministro para lhe subtrair “espaço”, isto é instalações. Como preservar a casa portuguesa nos corredores ou nos cafés? Sem telefones? Sem um sítio para guardar os papéis e atender pessoas? Os argumentos parecem racionais, a reivindicação justa. Comprometido no princípio, o ministro volta a render-se. A Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa instala-se em duas assoalhadas, num canto obscuro do ministério.

Daí reclama telefones, um contínuo (para recados), uma escriturária-dactilógrafa e um técnico de terceira, destacados de outros serviços ou contratados de fresco entre familiares indigentes. Como recusar pedidos tão lógicos e triviais? Existe a Comissão, existem duas assoalhadas: o resto segue-se. O trabalho vai, enfim, começar a sério.

A Comissão produz, após esforços esplêndidos, um documento de dezassete páginas, com título de: “A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural”. Forte de semelhante obra, entra na matéria. Pouco a pouco, estende os seus tentáculos. Ocorre-lhe desde logo que os seus objectivos são intradepartamentais. A casa portuguesa também é da responsabilidade dos ministérios das Obras Públicas e Habitação, da Qualidade de Vida e dos Assuntos Sociais. A Comissão exige, por consequência, que se forme uma subcomissão com “representantes qualificados dessas áreas”, e que se lhe atribuam os respectivos subsídios. Requisita, evidentemente, um carro para as tarefas de coordenação (e para ir a Sintra aos domingos). Mas não se esquece nem das autarquias nem dos emigrantes. Cheios de zelo, os seus membros partem para a província, enquanto o chefe, com mais majestade, “se desloca” às colónias portuguesas no estrangeiro, com o objectivo de esclarecer os emigrantes sobre as vantagens de “manter o perfil” das nossas queridas aldeias.

Entretanto, o chefe já informou o ministro da impossibilidade física de prosseguir estas enérgicas actividades em duas meras assoalhadas. Em luta dura com várias direcções gerais, institutos e gabinetes, a Comissão acaba por conquistar mais cinco e aumenta o seu pessoal de sete para vinte e sete. Chegou a altura de se ocupar da decisiva questão dos “contactos internacionais”. A inutilidade notória do exercício assegura que a Comissão brilhará. No Conselho da Europa, na UNESCO, em viagens diplomáticas à Assíria e ao Daomé, o chefe e os sócios discutirão moções, aprovarão recomendações, estudarão acordos de intercâmbio, comerão jantares e tirarão retratos. O mundo ficará sabendo que Portugal, país civilizado, se preocupa com a preservação da casa portuguesa. O orçamento da Comissão subiu de três mil contos por ano para cinquenta mil, o que a torna uma coisa digna de respeito e, pelo menos, de uma condecoração da Embaixada Francesa.

A Comissão, porém, é precária. Não tem lei orgância e não tem quadro. Acima de tudo não tem quadro. Os seus membros e empregados vivem no risco de despedimento, o que compreensivelmente os perturba, impedindo-os de trabalhar como gostariam. Para eles, os seus inestimáveis serviços justificam, mais, clamam, que lhes seja concedida segurança e aposentadoria. O ministro da Cultura entende esta angústia, porque aprecia que os seus subordinados o estimem. O ministro das Finanças, que não entra no ministério da Cultura, não se comove tanto. Mas é-lhe explicado o alcance da preservação da casa portuguesa, a sua indispensabilidade, o prestígio que a Comissão adquiriu em Bogotá e em Munique, e ele contrariadamente cede.

A Comissão transforma-se, deste modo, em Instituto para a Preservação da Casa Portuguesa, com um quadro de oitenta lugares, sendo cinquenta instantaneamente preenchidos. Muda de instalações, recruta telefonistas, motoristas, contínuos, técnicos, conselheiros, assessores. Gasta agora duzentos mil contos. O chefe inscreve-se no PSD e fala-se discretamente dele para secretário de Estado, em parte por causa de um livro de excessivo mérito chamado “A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural”.

A moral da história é a seguinte: se amanhã desaparecessem duzentos mil funcionários públicos, ninguém, excepto os próprios, daria por nada. Ou daria – daria porque pagava metade dos impostos.

Marcas Portuguesas de Relógios: Entre a Técnica e a Identidade

O conceito de “marca portuguesa” está longe de ser linear. Quando observamos um relógio com um nome português no mostrador, o que estamos verdadeiramente a ver? Um produto concebido em Portugal? Um objecto fabricado cá? Uma marca registada em território nacional? Ou apenas uma ideia portuguesa produzida no estrangeiro?

A questão torna-se particularmente interessante na relojoaria, uma indústria historicamente internacional, dependente de cadeias de fornecimento espalhadas por diversos países. Um relógio pode ter desenho português, caixa chinesa, movimento suíço, montagem alemã e ainda assim apresentar-se como português. Mas será realmente?

Do ponto de vista legal, a nacionalidade de uma marca não corresponde necessariamente ao local de fabrico.

Em Portugal, uma marca torna-se “portuguesa” porque foi registada por uma entidade portuguesa junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, independentemente da origem dos componentes ou da produção. O mesmo sucede noutros países. Muitas marcas consideradas tipicamente suíças, francesas ou americanas fabricam grande parte dos seus componentes fora das respectivas fronteiras.

Existe igualmente uma diferença entre “marca portuguesa” e “produto português”. Um relógio pode pertencer a uma empresa portuguesa sem que exista qualquer fabrico nacional. Pelo contrário, existe produção de relógios em Portugal para marcas estrangeiras sem que isso seja remotamente perceptível ao público.

A própria legislação europeia relativa à indicação de origem tende a privilegiar o conceito de “transformação substancial”, o que deixa espaço para múltiplas interpretações.

Contudo, para a maioria das pessoas, a percepção é frequentemente emocional e cultural, mais do que jurídica. Uma marca é vista como pertencente a um país quando comunica uma identidade ligada a esse território — através da língua, da estética, da história, dos fundadores ou da narrativa que constrói em torno de si própria. É por isso que muitos coleccionadores consideram certas micro-marcas actuais como portuguesas, mesmo quando os relógios são integralmente produzidos fora do país.

Na relojoaria portuguesa, esta ambiguidade sempre esteve presente. Existiram marcas estrangeiras que montaram fábricas em Portugal tanto para fabricar componentes como para fazer acabamentos em território português; outras limitaram-se à importação de movimentos suíços, franceses, japoneses ou chineses, comercializando-os sob designações registadas em Portugal. Houve ainda marcas que se dedicaram sobretudo à colocação do seu nome no mostrador, enquanto algumas procuraram verdadeiramente desenvolver soluções técnicas próprias, aproximando-se de uma produção autenticamente industrial, como foi o caso da Reguladora. Todas estas realidades pertencem à história da relojoaria portuguesa, embora correspondam a níveis de intervenção, ambição técnica e identidade profundamente distintos.

Talvez a pergunta mais interessante não seja “o que é uma marca portuguesa?”, mas antes: até que ponto um país consegue reconhecer-se nos objectos que produz, idealiza ou comercializa?

É nacional uma marca que reflecte a forma como um país olha para si próprio, para a sua capacidade técnica, para a sua criatividade e para aquilo que acredita poder construir. Tudo isto vai muito para além de questões legais.

Uma proposta de classificação da relojoaria portuguesa

Ao abordar a história das marcas portuguesas de relógios, surge rapidamente um problema: nem todas pertencem à mesma realidade técnica, industrial ou cultural. Colocar lado a lado uma fábrica como a Boa Reguladora, um fabricante de relógios de torre e uma pequena marca comercial que apenas importava movimentos estrangeiros acaba por criar alguma confusão histórica.

Talvez faça sentido, por isso, propor uma distinção entre diferentes categorias de relojoaria portuguesa.

Esta divisão não pretende estabelecer hierarquias de valor, mas antes ajudar a compreender melhor as diferentes ambições, escalas e capacidades técnicas existentes ao longo da história da relojoaria nacional.

Relojoaria grossa

A designação “grossa” não deve ser entendida de forma pejorativa. Historicamente, o termo servia para distinguir este tipo de produção da chamada relojoaria fina, dedicada a mecanismos mais pequenos, sofisticados e minuciosos. A relojoaria grossa exige igualmente elevados conhecimentos mecânicos, sobretudo na construção de sistemas robustos, duradouros e concebidos para funcionar continuamente durante décadas.

Esta primeira categoria corresponde àquilo que tradicionalmente se designa por relojoaria grossa, isto é, a produção de relógios utilitários de parede ou mesa, maioritariamente de pêndulo, normalmente associados a contextos domésticos, comerciais ou institucionais. É neste domínio que se enquadra, de forma mais evidente, a Boa Reguladora.

A Boa Reguladora - nascida em 1892
A Boa Reguladora – nascida em 1892

Esta empresa produzia relógios em quantidades relativamente significativas, recorrendo frequentemente a processos semi-industriais e, em alguns casos, fabricando internamente componentes mecânicos, caixas e estruturas. Apesar de muitas vezes utilizarem soluções inspiradas na indústria alemã ou americana, possuíam já uma identidade industrial própria e uma capacidade real de adaptação ao mercado português.

Relojoaria monumental

Uma segunda categoria corresponde à relojoaria monumental, ligada sobretudo aos relógios de torre instalados em igrejas, câmaras municipais, estações ferroviárias e edifícios públicos. Ao contrário da relojoaria doméstica, esta especialidade exigia competências muito específicas: construção de estruturas de grandes dimensões, sistemas de transmissão mecânica, sinos, automatismos e mecanismos concebidos para funcionar continuamente durante décadas, muitas vezes expostos às intempéries.

Embora frequentemente ignorada nas histórias tradicionais da relojoaria, a relojoaria monumental representa provavelmente uma das expressões mais técnicas da mecânica portuguesa, envolvendo trabalhos de serralharia, fundição, carpintaria, metalurgia e engenharia mecânica de elevada complexidade.

Portugal conheceu diversas oficinas e fabricantes ligados a este sector, alguns dos quais alcançaram grande notoriedade regional ou nacional. Entre os nomes mais relevantes encontram-se:

  • Cardina, associada à Nazaré;
  • Jerónimo, em Braga;






  • CousinhaA Boa Construtora — Fábrica de Relógios Monumentais, em Almada, responsável por diversos relógios públicos portugueses, incluindo o do Arco da Rua Augusta, em Lisboa;uma das mais importantes empresas portuguesas de fabrico, conservação e restauro de relógios monumentais e sinos; oficinas regionais ligadas à manutenção de relógios de torre municipais e religiosos, muitas vezes associadas a serralharias mecânicas especializadas.

Ao contrário da relojoaria fina, centrada no objecto portátil e no acabamento minucioso, a relojoaria monumental privilegiava a robustez, a fiabilidade e a longevidade. Muitos destes mecanismos funcionaram continuamente durante mais de um século, tornando-se parte integrante da paisagem urbana portuguesa. Apesar da sua importância patrimonial, esta área permanece ainda pouco estudada, dispersa entre oficinas familiares, arquivos municipais e mecanismos esquecidos em torres de igrejas e edifícios públicos.

Entre as figuras contemporâneas que mais contribuíram para a preservação deste património destaca-se Hermínio Nunes, ligado ao projecto TicTac Temporis. O seu trabalho de documentação e divulgação ajudou a devolver visibilidade à relojoaria monumental portuguesa, tratando estes mecanismos não apenas como objectos técnicos, mas também como património histórico e cultural. Contudo muitos outros relojoeiros e relojoaria como o Tempo Minuncioso no Porto, possivelmente a mais activa actualmente, dedicam-se ao restauro e manuetenção de alguns destes relógios.

Relojoaria fina

Por fim, existe aquilo que se poderia chamar relojoaria fina portuguesa — um domínio muito mais fragmentado. Aqui incluem-se as tentativas de criação de relógios de maior sofisticação técnica, acabamento mais cuidado ou concepção mecânica própria.

Historicamente, Portugal nunca desenvolveu uma verdadeira indústria de relojoaria fina comparável à suíça, francesa ou inglesa. Ainda assim, existiram relojoeiros independentes, oficinas especializadas e marcas que procuraram elevar o nível técnico da produção nacional, seja através de modificações mecânicas, construção artesanal, decoração ou desenvolvimento parcial de componentes.

Isotope; Les Tugas: Exímio; Borealis; Bruno Moreira; Meia Lua

Nos tempos contemporâneos, algumas micro-marcas portuguesas voltaram a aproximar-se desta ideia de relojoaria fina, sobretudo através do design, da pequena produção independente e da valorização de uma identidade cultural própria, ainda que recorrendo quase sempre a fabrico internacional.

Entre a técnica e a identidade

Naturalmente, estas categorias não são absolutamente rígidas. Muitas marcas atravessam diferentes domínios, e a própria definição de “relojoaria portuguesa” permanece aberta à discussão. Contudo, esta divisão ajuda a compreender que a história relojoeira nacional não se resume a uma única tradição, mas antes a várias realidades paralelas: industrial, monumental, artesanal, comercial e contemporânea.

Talvez seja precisamente essa diversidade, mais do que a existência de uma grande manufactura nacional, que define verdadeiramente a relojoaria portuguesa.

Os inéditos bens do Concelho de Óbidos na Era de c.1391 – 1420

“s. O Concelho d´Obidos ha huuns paços na dicta vila nos quaes fazem os Juizes as audiencias.

s. O dicto Concelho ha huas casas na dicta villa as quaes tem Joham Afonso do Adro por adega e palheiro e hum quintal, as quais entestam com casas do dicto Joham Afonso e com ruas pubricas, das quaes o dicto Joham Afonso mostrou stromento de emprazamento feito em três pessoas (3 vidas) por 10 libras de moeda de 10 soldos em cada hum ano, o qual contava que fôra fecto per Joham Gonçalvez que foy tabeliam na dicta villa.

s. O dicto Concelho ha huas casas na dicta villa que chamam estalagem que partem de travesia e soão e d´aguião com as ruas pubricas e nom som agora emprazadas a ninguém e depois forom emprazadas a Pêro Afonso Anadel dos Besteiros do Conto em 3 pessoas por XX soldos de moeda antiga em cada hum ano s. O dicto Concelho ha huum çarado e hum alpendre na dicta villa que partem com casas de Joham do Poom e com rua pubrica e he emprazado a Maria Anes molher que foy de Joham do Poom em dias de sua vida, per huum estromento feito per Martim Stevez tabeliam, XXIX dias de Outubro, era IIIIc RIIII anos, do qual ha de pagar cada hum ano cinquo reaes. E ora o trage Joham d´Obidos o moço seu genro por o dicto foro.

s. O dicto concelho ha huum cubal fora da villa além Porta d´Évora o qual trage Martim d´Alenquer pescador e dá delle em cada um ano ao Concelho de foro 4 reais de 3 libras e meia.

s. O dicto Concelho ha huum ressio em que soía de ser o tavolado [combates de cavaleiros] o qual he de commum.

s.  O dicto Concelho ha hua soma d´arneses e deles som ja perdudos os quaes som escriptos nos livros dos procuradores.

s. O dicto concelho ha renda d´almotaçaria pera si que he sua isenta.

s. O dicto Concelho ha as rendas do verde e bravas da dicta villa e termo.

s. O dicto Concelho ha a renda d´anadarya que he sua isenta.

s. O dicto Concelho ha huum cubal junto com a porta do valle fora da villa que parte d´aguião e travesia com muro da dicta villa, em o qual os carniceiros matom seus gados e os rendeiros ençerrom os gaados e as bestas.

s. O dicto Concelho ha huum alpendre que chamom A Praça Nova, o qual parte de travessya com rua pubrica e da parte do aguiom parte com casas d´Afonso Periz escripvam da sisa e com Estaço Dominguez creligo e de soam parte com adro de S. Maria e com casas da dicta Igreja e de Mestre Estaço e de aurego parte com pardieiro do dicto Mestre Staço.

s. O dicto Concelho ha herdades de pam no Soveral da Lagoa que som na varzea.

s. O dicto Concelho tem huua carta em purgaminho, fecta em Obidos, VII dias d´Agosto era de IIIIc XXX, que todos em geeral sirvam em as pontas e fontes e calçadas porque he prol comunal.

s. O dicto Concelho ha huum caminho largo que vay da dicta villa pera o Moinho do Ral e vai per antre a vinha do Prior de Santiago e a de Joham Lourenço do Muro, na qual he fecta hua calçada de pedra que fez o dicto Concelho. s. Mais outro caminho que vai per antre as vinhas desde o dicto moinho e até as pontes de Mocharo.

s. O dicto Concelho ha huum pedaço de chão a som perto do valle o qual trage Fernam Mouro em ferregeal [em título de plantio].

s. O dicto Concelho ha huum pedaço de chaao tras as casas de Fernand´Eanes do Poom.

s. O dicto Concelho ha duas arcas e hua he velha e tem tres fechaduras e duas chaves, e outra he de leirea nova e tem duas fechaduras e duas chaves.

s. O dicto Concelho ha huas balanças de pesar linho com sua pedra e meia pedra.

s. O dicto Concelho ha medidas de cobre, scilicet (+- diga-se), almude de medir vinho e canada e meia canada e quartilho. E outrossim ha maquieiro de moinho que he d´alqueire. E outrossim ha meio alqueire de medir azeite e meia oitava e meio alqueire de medir pam, as quaees tem Gonçalo Anes pedreiro que mora na Rua Direira que he ora afillador. E isto tem ora Afonso Anes tanoeiro/ isto ora tem Vicente Vasques que ora he afilador, era IIIIc XXXIIII anos (esta última frase foi adicionada décadas depois).

s. O dicto Concelho ha balanças de pesar pam com suas pesas, as quaes som escriptas nos livros dos procuradores.

s. O dicto Concelho ha balanças de ferro de pesar carne e pesos de quatro arratéis e dous arráteis e huum arrátel e meio arrátel.

s. O dicto Concelho ha hua mesa e hum banco que see no paço do Concelho.

s. O dicto Concelho ha quorenta escudos. E ora nom som mais que XXXIII (apontamento tardio) s. O dicto Concelho ha huum livro do foral d´ Avangelhos.

s. O dicto Concelho ha huum pedaço de chão que vem da ponte do Paao até o Freixieiro que esta da parte da varzea de Meos.

s. O dicto Concelho ha hua cadeia de ferro com três colares de ferro.

s. O dicto Concelho tem huum bacelo [tipo de vinha] junto com o Moinho do Pinhom que trás emprazado Fernam Diaz alfaiate por XXX VIII reaes cada ano e com estormento fecto, XV dias do mes d´Outubro, era IIIIc XLV annos.

s. O dicto Concelho ha huum chao junto com as pontes de Naharra e o forno da cal e parte com as vinhas de Martim Fernandez.

s. O dicto Concelho ha huum chao na Rojariça junto com as casas de Joham Afonso carniceiro que o dicto Joham Afonso traz emprazado ao dicto Concelho por 10 reaes em cada hum ano.

s. O dicto Concelho ha huum caral de alimpar cotas [de malha] com seus veeos de ferro. Este tem Lois Martins.

s. O dicto Concelho tem em aldea de Bomborral huum pequeno de chaao bem pequeno a par da fonte da dicta aldea, que jaz entre o rio que vem do Carvalhal e com o rio que chamam Morujas entre ambos os dictos rios parte de soão e travessia com os dictos rios e com Diogo Gonçalves, e trage-o emprazado Gomes Anriques em 3 pessoas per Joham Afonso procurador do dicto Concelho e Lopo Dias Vereador e ha de dar em cada huum ao dicto Concelho por dia de S. Joham Baptista 10 reaes de qualquer moeda que correr pellos tempos das pagas; e porque ha obra he muita de fazer nos dictos rios que o aja estes primeiros VIII anos de graça e ha o de poer em canavial esto foy XXII de março, era de IIIIc XXXIIII.

s. O dicto Concelho tem II herdades acerca da Ponte da Cornagaa que pertence às Caldas, que parte com Diego Estevez e com Silvestre Vicente e com Afomso Antoninho e com caminho pobrico e com Stevam Annes alfayate, e trage-a o dicto Stevam Anes emprazado em 3 pessoas e ha de poer em vinha e dar della em cada huum anno ao dicto Concelho IIII alqueires de vinho de limpo ou seu certo valor e trage-a IIII anos de graça. Esto foy na era de IIIIc XXXII annos. Este emprazamento foy tornado a dinheyro (…)”.

 – Tombo do Concelho de Óbidos, da coleção Documentos dos Concelhos Medievais Portugueses.

Sobre a Precariedade Jovem

“ImBestigação” da Cooperativa: o socialismo e o milagre da multiplicação dos peixes, um livro de investigadores do ISCTE, leis laborais mais rígidas que reduzem a precariedade jovem.

Com estes ingredientes todos, já sabes não é?

Só falta saber porquê.

Nada grita mais balelas do que isto!

Apresentação do livro académico chamado Governing Solidarity in European Labour Markets: Atypical Employment and Minimum Wage Reform in Spain and Portugal, editado pela Routledge. A obra compara as reformas laborais em Portugal e Espanha e defende que maior proteção no mercado de trabalho não implica necessariamente destruição de emprego. Pelo contrário, segundo os autores, pode coexistir com mais estabilidade, produtividade e crescimento económico.

O livro é assinado por investigadores do ISCTE, da Universidade Nova e da Universidade Autónoma de Barcelona.

O dado principal é a evolução dos contratos temporários entre jovens dos 15 aos 24 anos. Entre 2015 e 2025, Espanha e Portugal registaram, segundo a peça, a maior queda numa década do emprego temporário jovem desde o início da série do Eurostat, em 1995.

Em Espanha, a percentagem de jovens trabalhadores dos 15 aos 24 anos com contrato temporário caiu de 70,4% em 2015 para 44,4% em 2025. Isto representa uma descida de 26 pontos percentuais.

Em Portugal, a percentagem caiu de 67,6% em 2015 para 49,8% em 2025. Ou seja, uma descida de 17,8 pontos percentuais, arredondada na manchete para 18 pontos. A comparação entre os dois países serve para mostrar que ambos reduziram a temporalidade laboral jovem, mas que Espanha teve uma redução mais intensa!

A conclusão apresentada por Paulo Marques, coautor do livro, investigador e docente no ISCTE e coordenador do Observatório do Emprego Jovem em Portugal, é dupla,primeiro, é possível reduzir a precariedade jovem sem destruir emprego; segundo, a estabilidade contratual é compatível com ganhos de produtividade e crescimento económico.

Como vês, isto ainda é melhor do que o milagre da multiplicação dos peixes. Choca é com a realidade.

fonte de informação:https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/entre-2015-e-2025-os-contratos-a-prazo-nos-jovens-cairam-26-pontos-em-espanha-e-18-em-portugal/

Bom, eu acho sempre abusivo dizer que temos sucesso com o emprego jovem quando 19,8% destes estão no desemprego em Portugal. Em Espanha, o supra-sumo da barbatana, em 2025, pior, nos 24,7%.

Quase 1 em cada 5 jovens ativos entre os 16-24 está desempregado em Portugal.

E isto num país que passa a vida a fazer congressos sobre talento, futuro, inovação, qualificação, transição digital e outras palavras muito elegantes para dizer a um miúdo de 23 anos que talvez haja uma vaga para estágio, recibo verde, 900 euros e uma grande oportunidade de aprendizagem”.

Espanha está pior, sim. Em 2025, andava perto dos 25% de desemprego jovem. Mas Espanha partir de um buraco ainda maior não transforma o buraco português numa varanda com vista para o mar.

Em Portugal olhamos para 19,5% de desemprego jovem e fingimos todos que isto é normal. Não é.

A precariedade não começa apenas no contrato a prazo. Começa antes, na porta de entrada fechada.

Depois admiram-se que eles façam as malas. Claro, em 2015 era pior. Pois era, relembro só que a Troika tinha acabado também ela de fazer as malas.

 

fonte de informação:https://fred.stlouisfed.org/data/SLUEM1524ZSPRT

Entre 2015 e 2024, emigraram de Portugal cerca de 205 274 jovens dos 15 aos 24 anos.

Ou seja, todos os anos lá vai uma pequena cidade jovem porta fora, com mala.

Pois caíram.

Melhor do que ter jovens precários é mesmo ter menos jovens disponíveis para serem precarizados.

Xuxas a ser xuxas, não resolvemos o problema; exportamos a vítima. Fica tudo mais limpo na estatística. Parabéns!

fonte de informação:https://ffms.pt/sites/default/files/2025-12/18.12.2025%20PR%20Pordata%20Migra%C3%A7%C3%B5es.pdf

O mesmo Jornal Económico que destaca as maravilhas socialistas retratadas no livro do ISCTE, há um mês, no dia do trabalhador, pintava o cenário preto, mas preto, para os jovens portugueses!

Isto é poesia!

Fonte de informação:

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/quase-quatro-em-cada-10-jovens-tem-contratos-de-trabalho-temporarios

 

Há uma forma muito elegante de reduzir a precariedade jovem nas estatísticas, importar adultos para ocupar os empregos precários.

Em 2015, Portugal tinha 388.731 cidadãos estrangeiros residentes.

Em 2024, já tinha 1.543.697.

Quase quatro vezes mais.

Segundo dados do Banco de Portugal, entre 2010 e 2024 entraram cerca de 1,4 milhões de trabalhadores estrangeiros no sistema da Segurança Social; 1,2 milhões só desde 2018.

E onde entraram?

20% em atividades administrativas e serviços de apoio, onde cabem limpezas, outsourcing, trabalho temporário e serviços operacionais.

18% em alojamento e restauração.

15% em agricultura e pescas.

14% em construção.

10% no comércio.

7% na indústria.

Ou seja, hotéis, cafés, restaurantes, limpezas, obras, estufas, apanha de fruta, armazéns, lojas, reposição, turnos, sazonalidade, baixos salários e contratos frágeis.

O país não fez desaparecer a precariedade. Mudou-lhe a nacionalidade.

Em 2025, quase 34% dos trabalhadores estrangeiros em Portugal tinham emprego temporário, contra quase 14% dos nacionais.

Na UE, a diferença era bem menor: 19,2% nos estrangeiros contra 12% nos nacionais.

Portanto, quando nos dizem que os contratos a prazo dos jovens caíram, convém olhar para o outro lado da fotografia.

Saíram jovens. Entraram imigrantes.

E muitos foram precisamente para os setores que sempre viveram de trabalho barato, rotativo, sazonal e precário.

Melhor do que resolver a precariedade jovem foi arranjar quem a aceitasse no lugar deles. Estatisticamente, fica impecável.

 

fonte de informação:https://www.rtp.pt/noticias/economia/estrangeiros-em-portugal-estao-a-trabalhar-defende-governador-bdp_n1729195

☢️ Em conclusão: o sucesso é um mero falhanço escondido

Entre 2015 e 2025, diz-nos o estudo, a percentagem de jovens dos 15 aos 24 anos com contratos temporários caiu em Portugal de 67,6% para 49,8%. Em Espanha, essa queda foi ainda mais vistosa, de 70,4% para 44,4%. E pronto, com estes números bem penteados, nasce a conclusão luminosa de que afinal, reforçar direitos laborais, limitar contratos a prazo e proteger mais os trabalhadores não destrói emprego; pelo contrário, pode coexistir com crescimento, produtividade e estabilidade.

É uma história bonita. Tem académicos, tem conferência, tem Espanha como exemplo ibérico, tem Portugal como aluno aplicado, e tem, claro, dedo xuxa. O problema é que, quando se sai da manchete e se desce à terra, a coisa perde o verniz. Porque o tal sucesso português, que nos é servido como prova de maturidade laboral, significa que, depois de dez anos de suposta melhoria, quase metade dos jovens empregados por conta de outrem entre os 15 e os 24 anos continua com contrato temporário. Quase metade. Não estamos a falar de uma pequena bolsa residual, de um fenómeno marginal, de uma imperfeição estatística perdida no rodapé. Estamos a falar de 49,8%.

Chamar a isto sucesso exige um certo talento para a ilusão.

O desemprego jovem mostra bem a dimensão do embuste. Em 2025, Portugal podia orgulhar-se de uma taxa de desemprego geral à volta dos 6%, valor suficientemente apresentável para ministros, comentadores e relatórios de fim de ciclo. Mas, quando se olha para os jovens dos 16 aos 24 anos, o número sobe para 19,5%. Quase um em cada cinco jovens ativos estava desempregado. Num país que fala todos os dias de talento, inovação, competências digitais, transição tecnológica e inteligência artificial, quase 20% dos jovens que querem trabalhar não encontram trabalho. E os que encontram, muitas vezes, entram pela porta estreita do estágio, do contrato tremido e do salário miserável.

A seguir vem a emigração, esse grande purificador estatístico que os governos tratam sempre com a delicadeza de quem não quer acordar um morto. Entre 2015 e 2024, somando emigração permanente e temporária, saíram de Portugal cerca de 205 mil jovens dos 15 aos 24 anos. Todos os anos, qualquer coisa entre 18 mil e 23 mil jovens nessa idade pegou na mala e saiu do país.

A narrativa do sucesso do livro do ISCTE começa a ganhar contornos de anedota trágica, certo? Melhor do que acabar com a precariedade jovem é não ter jovens disponíveis para serem precarizados. Não há jovem, não há contrato a prazo jovem. Não há contrato a prazo jovem, baixa a percentagem. Baixa a percentagem, nasce a tese. Nasce a tese, aparece a conferência. Aparece a conferência, todos concluem que o modelo afinal funciona. É brilhante. Não se resolve o problema, exporta-se a vítima. Fica tudo mais limpo no Excel.

Por fim, a imigração. Em 2015, Portugal tinha cerca de 389 mil cidadãos estrangeiros residentes. Em 2024, tinha mais de 1,5 milhões. Quase quadruplicou. A restauração, os hotéis, as limpezas, as obras, a agricultura, os armazéns, a distribuição, o comércio e uma fatia relevante dos serviços de apoio assentam hoje numa massa enorme de trabalhadores estrangeiros. O problema está no tipo de economia que os absorveu e nas condições em que demasiadas vezes os absorveu.

Muitos foram para os setores onde a precariedade sempre teve morada fixa: alojamento e restauração, construção, agricultura, limpezas, trabalho temporário, outsourcing, logística, comércio, serviços operacionais. Setores de rotação alta, salários baixos, horários partidos, sazonalidade, dependência hierárquica forte e contratos frágeis. A precariedade que antes apanhava muitos jovens portugueses à entrada do mercado passou, em larga medida, a ser suportada também por imigrantes, frequentemente mais vulneráveis, mais disponíveis para aceitar más condições e com menos margem para dizer não.

Em Portugal, quase 34% dos trabalhadores estrangeiros tinham emprego temporário. Portugal conseguiu, com aquele toque de reverse midas que nos caracteriza, transformar uma fragilidade europeia numa especialidade local. Importámos mão de obra para sustentar setores que não quiseram ou não souberam subir salários, melhorar produtividade e oferecer condições capazes de fixar quem cá nasceu. Depois olhámos para a queda dos contratos a prazo nos jovens e fizemos cara de quem descobriu a pólvora.

O “sucesso espanhol”: Espanha, apresentada nesta história como o grande farol, também merece menos incenso, camaradas. É verdade que reduziu mais a temporalidade jovem, descendo de 70,4% para 44,4%. É verdade que a reforma laboral espanhola foi mais funda e que os resultados no indicador são mais impressionantes. Mas convém não perder o pudor, 44,4% dos jovens empregados dos 15 aos 24 anos continuam com contrato temporário. Quase metade. Além disso, o desemprego jovem espanhol continua superior ao português. Portanto, se Espanha é o suprassumo da barbatana laboral, então estamos perante um peixe bastante triste. Melhorou, sim, mas melhorou a partir de um buraco tão fundo que qualquer degrau parece uma varanda.

É esta a grande fraude moral da década. Passámos anos nas mãos de ilusionistas xuxas que nos venderam estabilidade como se fosse prosperidade, salário mínimo como se fosse política industrial, turismo como se fosse estratégia nacional, imigração como se fosse solução mágica, Estado como se fosse motor económico e legislação laboral como se fosse justiça social embalada em decreto. Enquanto isso, a produtividade continuou medíocre, os salários continuaram curtos, a habitação ficou impossível, a juventude foi adiando a vida e o país habituou-se a confundir ausência de colapso com sucesso.

Podemos apenas imaginar o que seria hoje Portugal se não tivesse perdido uma década nesse teatro. Um país mais flexível, mais dinâmico, menos burocrático, menos desconfiado de quem quer contratar, investir, crescer e arriscar. Um país onde fosse mais fácil criar empresas robustas, contratar cedo, promover depressa, pagar melhor por produtividade real e permitir que os jovens entrassem no mercado sem terem primeiro de atravessar o pântano dos estágios, dos contratos a prazo, da dependência familiar e da emigração como plano B. Talvez não fosse perfeito. Nenhum país é. Mas dificilmente seria pior do que esta espécie de socialismo administrativo que protege tanto o trabalhador que acaba por lhe proteger o lugar fora do país.

A retórica oficial gosta de dizer que flexibilizar é precarizar. Portugal não é um sucesso no emprego jovem. Espanha, com todo o aparato da reforma exemplar, também não é propriamente o paraíso. São dois países com juventudes ainda demasiado expostas ao desemprego, à temporalidade, à emigração, à instabilidade e à promessa eternamente adiada de uma vida normal.

O país não resolveu problema nenhum. Aprendeu a apresentá-lo melhor. O jovem vai embora, o imigrante ocupa o turno, o contrato continua frágil, o salário continua curto, a casa continua impossível, a produtividade continua rasteira, mas a percentagem melhorou. E, se a percentagem melhorou, alguém há de chamar-lhe sucesso.

Eu chamo-lhe outra coisa, um falhanço escondido.

Tenho dito.

Discurso da Servidão Voluntária

Étienne de la Boétie, Discurso da Servidão Voluntária (escrito em 1549, publicado pela primeira vez em 1576), a partir da tradução de Harry Kurz (1942).

Parte I.

Não vejo bem algum em ter vários senhores;
Que um só seja o mestre, que um só seja o rei.

Estas palavras Homero põe na boca de Ulisses, quando este se dirige ao povo. Se ele nada mais tivesse dito além de «Não vejo bem algum em ter vários senhores», teria falado bem. Por lógica, deveria ter sustentado que o governo de vários não poderia ser bom, uma vez que o poder de um só homem, logo que adquire o título de mestre, se torna abusivo e desarrazoado. Em vez disso, declarou o que parece absurdo: «Que um só seja o mestre, que um só seja o rei.» Não devemos criticar Ulisses, que talvez naquele momento fosse obrigado a proferir tais palavras para acalmar um motim no exército, escolhendo, por essa razão, a meu ver, uma linguagem adequada à emergência em vez da verdade. Contudo, à luz da razão, é uma grande desgraça estar sujeito à vontade de um só mestre, pois nunca se pode ter a certeza de que ele será bondoso, uma vez que está sempre no seu poder ser cruel quando lhe aprouver. Quanto a ter vários senhores, consoante o número que se tenha, equivale a ser infeliz tantas vezes. Embora não deseje discutir agora esta questão tão debatida, a saber, se outros tipos de governo são preferíveis à monarquia, gostaria ainda assim de saber, antes de pôr em causa o lugar que a monarquia deve ocupar entre as repúblicas, se ela pertence sequer a tal grupo, pois é difícil crer que exista algo de bem comum num país onde tudo pertence a um só mestre. Esta questão, porém, pode ficar para outra ocasião e exigiria realmente um tratamento à parte, envolvendo por natureza toda a espécie de discussão política.

Por agora, gostaria apenas de compreender como é possível que tantos homens, tantas aldeias, tantas cidades, tantas nações, sofram por vezes sob um único tirano que não tem outro poder senão o poder que eles lhe dão; que só pode prejudicá-los na medida em que eles têm a vontade de o suportar; que não lhes poderia fazer absolutamente nenhum mal a não ser que preferissem suportá-lo em vez de o contrariar. Seguramente uma situação espantosa! No entanto, é tão comum que se deve lamentar ainda mais e admirar-se ainda menos perante o espetáculo de um milhão de homens servindo na miséria, com o pescoço sob o jugo, não constrangidos por uma multidão maior do que eles, mas simplesmente, ao que parece, encantados e seduzidos pelo nome de um só homem, cujo poder não precisam temer, pois é manifestamente a única pessoa cujas qualidades não podem admirar por causa da sua desumanidade e brutalidade para com eles. Uma fraqueza característica da espécie humana é que muitas vezes temos de obedecer à força; temos de fazer concessões; nós próprios nem sempre podemos ser os mais fortes. Portanto, quando uma nação é constrangida pela fortuna da guerra a servir uma única claque, como aconteceu quando a cidade de Atenas serviu os trinta Tiranos, não se deve admirar que a nação obedeça, mas simplesmente lamentar a situação; ou melhor, em vez de se admirar ou entristecer, considerar com paciência o mal e olhar com esperança para um futuro mais feliz.

A nossa natureza é tal que os deveres comuns das relações humanas ocupam uma grande parte do curso da nossa vida. É razoável amar a virtude, estimar as boas acções, ser grato pelo bem de onde quer que o recebamos e, muitas vezes, renunciar a algum do nosso conforto para aumentar a honra e a vantagem de algum homem que amamos e que o merece. Portanto, se os habitantes de um país encontraram alguma grande personagem que demonstrou rara previdência ao protegê-los numa emergência, rara audácia ao defendê-los, rara solicitude ao governá-los, e se, a partir desse momento, contraem o hábito de lhe obedecer e de depender dele a tal ponto que lhe concedem certas prerrogativas, temo que tal procedimento não seja prudente, na medida em que o retiram de uma posição em que fazia o bem e o elevam a uma dignidade em que pode fazer o mal. Certamente, enquanto ele continuar a manifestar boa vontade, não se deve temer nenhum mal de um homem que parece geralmente bem disposto.

Mas ó bom Senhor! Que fenómeno estranho é este? Que nome lhe daremos? Qual é a natureza desta desgraça? Que vício é este, ou melhor, que degradação? Ver uma multidão interminável de pessoas não apenas a obedecer, mas levadas à servidão? Não governadas, mas tiranizadas? Estes desgraçados não têm riqueza, nem parentes, nem mulher nem filhos, nem sequer a própria vida que possam chamar sua. Sofrem pilhagem, libertinagem, crueldade, não de um exército, não de uma horda bárbara, por causa de quem devem derramar o seu sangue e sacrificar as suas vidas, mas de um só homem; não de um Hércules nem de um Sansão, mas de um homenzinho. Muitas vezes este mesmo homenzinho é o mais cobarde e efeminado da nação, estranho ao pó da batalha e hesitante nas areias do torneio; não só sem energia para dirigir os homens pela força, mas com dificuldade suficiente de virilidade para se deitar com uma mulher comum! Chamaremos cobardia à submissão a tal chefe? Diremos que os que o servem são cobardes e pusilânimes? Se dois, se três, se quatro não se defendem de um, poderíamos chamar a isso surpreendente mas ainda assim concebível. Nesse caso, poder-se-ia justificar a suspeita de falta de coragem. Mas se cem, se mil suportam o capricho de um só homem, não deveríamos antes dizer que lhes falta não a coragem, mas o desejo de se levantar contra ele, e que tal atitude indica indiferença em vez de cobardia? Quando não cem, não mil homens, mas cem províncias, mil cidades, um milhão de homens, se recusam a atacar um só homem de quem o tratamento mais benigno que recebem é a imposição da servidão e da escravidão, como lhe chamaremos? É cobardia? Claro que em todo o vício há inevitavelmente um limite para lá do qual não se pode ir. Dois, possivelmente dez, podem temer um; mas quando mil, um milhão de homens, mil cidades, não conseguem proteger-se contra a dominação de um só homem, isso não se pode chamar cobardia, pois a cobardia não desce a tal profundidade, tal como a valentia não pode ser definida como o esforço de um indivíduo para escalar uma fortaleza, atacar um exército ou conquistar um reino. Que vício monstruoso é então este que nem sequer merece ser chamado cobardia, um vício para o qual não se encontra termo suficientemente vil, que a própria natureza desmente e as nossas línguas se recusam a nomear?

Coloquem de um lado cinquenta mil homens armados, e do outro o mesmo número; que se juntem em batalha, um lado lutando para manter a sua liberdade, o outro para a tirar; a qual prometereis a vitória, por adivinhação? Quais os homens que pensais que marchariam mais galhardamente para o combate — aqueles que antecipam como recompensa pelos seus sofrimentos a manutenção da sua liberdade, ou aqueles que não podem esperar outra recompensa pelos golpes trocados senão a escravização dos outros? Um lado terá diante dos olhos as bênçãos do passado e a esperança de alegrias semelhantes no futuro; os seus pensamentos deter-se-ão menos na dor relativamente breve da batalha do que no que poderão ter de suportar para sempre, eles, os seus filhos e toda a sua posteridade. O outro lado não tem nada que lhe inspire coragem exceto o fraco impulso da ganância, que se desvanece perante o perigo e que nunca pode ser tão agudo, parece-me, que não se intimide com a menor gota de sangue de feridas. Considerai as justamente famosas batalhas de Milcíades, Leônidas, Temístocles, ainda frescas hoje na história registada e na memória dos homens como se tivessem ocorrido ontem, batalhas travadas na Grécia pelo bem dos gregos e como exemplo para o mundo. Que poder pensais que deu a tão pequeno punhado de homens não a força, mas a coragem para resistir ao ataque de uma frota tão vasta que até os mares se sobrecarregavam, e para derrotar os exércitos de tantas nações, exércitos tão imensos que os seus oficiais sozinhos ultrapassavam em número toda a força grega? Que foi senão o facto de, naqueles dias gloriosos, esta luta representar não tanto um combate de gregos contra persas como uma vitória da liberdade sobre a dominação, da liberdade sobre a ganância?

Causam-nos espanto os relatos da valentia que a liberdade desperta nos corações dos que a defendem; mas quem poderia acreditar nos relatos do que se passa todos os dias entre os habitantes de alguns países, quem poderia realmente acreditar que um só homem pode maltratar cem mil e privá-los da sua liberdade? Quem daria crédito a tal relato se apenas o ouvisse, sem estar presente para testemunhar o acontecimento? E se esta condição ocorresse apenas em terras distantes e nos fosse relatada, qual de nós não assumiria que o conto era imaginado ou inventado, e não realmente verdadeiro? Obviamente não é necessário combater para vencer este único tirano, pois ele é automaticamente derrotado se o país recusar o consentimento à sua própria escravização: não é necessário tirar-lhe nada, mas simplesmente não lhe dar nada; não é necessário que o país faça um esforço para fazer algo por si próprio, desde que não faça nada contra si próprio. São portanto os próprios habitantes que permitem, ou melhor, que provocam a sua própria sujeição, pois, ao deixarem de se submeter, poriam fim à sua servidão. Um povo escraviza-se a si próprio, corta a própria garganta, quando, tendo a escolha entre ser vassalo e ser homem livre, abandona as suas liberdades e toma o jugo, dá consentimento à sua própria miséria, ou melhor, aparentemente a acolhe de bom grado. Se custasse ao povo alguma coisa recuperar a sua liberdade, não o exortaria a isso, embora não haja nada que um ser humano deva ter mais caro do que a restauração do seu próprio direito natural, transformar-se de besta de carga de novo em homem, por assim dizer. Não exijo dele tanta audácia; que prefira a segurança duvidosa de viver miseravelmente à esperança incerta de viver como lhe aprouver. Então? Se para ter liberdade nada mais é necessário do que desejá-la, se basta um simples acto da vontade, haverá alguma nação no mundo que considere um único desejo preço demasiado elevado para recuperar direitos que deveria estar pronta a resgatar ao custo do seu sangue, direitos tais que a sua perda deve levar todos os homens de honra ao ponto de sentir a vida como insuportável e a própria morte como uma libertação?

Todos sabem que o fogo de uma pequena centelha aumentará e se inflamará cada vez mais enquanto encontrar madeira para queimar; contudo, sem ser apagado pela água, mas apenas por não encontrar mais combustível para se alimentar, consome-se a si próprio, diminui e já não é chama. Do mesmo modo, quanto mais os tiranos pilham, mais cobiçam, mais arruínam e destroem; quanto mais se lhes cede e se lhes obedece, tanto mais poderosos e formidáveis se tornam, tanto mais prontos a aniquilar e destruir. Mas se não se lhes ceder nada, se, sem qualquer violência, simplesmente não lhes obedecerem, ficam nus e desfeitos e como nada, tal como, quando a raiz não recebe nutrição, o ramo murcha e morre.

Para alcançar o bem que desejam, os audazes não temem o perigo; os inteligentes não recusam sofrer. São os estúpidos e os cobardes que não conseguem suportar o sofrimento nem reivindicar os seus direitos; param apenas em desejá-los e perdem por timidez a valentia despertada pelo esforço de reclamar os seus direitos, embora o desejo de os fruir ainda permaneça como parte da sua natureza. Um desejo comum tanto aos sábios como aos tolos, aos homens corajosos e aos cobardes, é este desejo de todas aquelas coisas que, uma vez adquiridas, os tornariam felizes e satisfeitos. Contudo, parece faltar um elemento. Não sei como acontece que a natureza não coloque nos corações dos homens um desejo ardente de liberdade, uma bênção tão grande e tão desejável que, quando se perde, todos os males se seguem, e até as bênçãos que restam perdem o sabor e o aroma por causa da sua corrupção pela servidão. A liberdade é a única alegria sobre a qual os homens não parecem insistir; pois certamente, se a desejassem realmente, recebê-la-iam. Aparentemente recusam este privilégio maravilhoso porque é tão facilmente adquirido.

Povos pobres, desgraçados e estúpidos, nações determinadas na vossa própria desgraça e cegas ao vosso próprio bem! Deixais-vos privar diante dos vossos próprios olhos da melhor parte das vossas receitas; os vossos campos são pilhados, as vossas casas roubadas, as vossas heranças familiares levadas. Viveis de tal modo que não podeis reivindicar uma única coisa como vossa; e parece que vos considerais felizes por vos serem emprestados os vossos bens, as vossas famílias e as vossas próprias vidas. Toda esta devastação, esta desgraça, esta ruína, desce sobre vós não de inimigos estrangeiros, mas do único inimigo que vós próprios tornais tão poderoso quanto ele é, por quem ides corajosamente à guerra, por cuja grandeza não recusais oferecer os vossos próprios corpos à morte. Aquele que assim vos domina tem apenas dois olhos, apenas duas mãos, apenas um corpo, não mais do que possui o menor homem entre os números infinitos que habitam as vossas cidades; não tem de facto nada mais do que o poder que vós lhe conferis para vos destruir. Onde adquiriu olhos suficientes para vos espiar, se vós próprios não lhos fornecêsseis? Como pode ter tantos braços para vos bater, se não os pede emprestados a vós? Os pés que pisam as vossas cidades, onde os obtém se não são os vossos? Como tem ele algum poder sobre vós senão através de vós? Como ousaria atacar-vos se não tivesse a vossa cooperação? Que vos poderia ele fazer se vós próprios não conspirásseis com o ladrão que vos pilha, se não fôsseis cúmplices do assassino que vos mata, se não fôsseis traidores de vós próprios? Semeais as vossas colheitas para que ele as devaste, instalais e mobilaís as vossas casas para lhe dar bens para pilhar; criais as vossas filhas para que ele satisfaça a sua luxúria; educais os vossos filhos para que ele lhes confira o maior privilégio que conhece — serem levados para as suas batalhas, serem entregues ao massacre, serem feitos servos da sua ganância e instrumentos da sua vingança; entregais os vossos corpos a um trabalho duro para que ele se entregue aos seus deleites e se revolque nas suas imundas prazeres; enfraqueceis-vos para o tornar mais forte e mais poderoso para vos manter sob controlo. De todas estas indignidades, tais que nem as próprias bestas do campo suportariam, podeis libertar-vos se tentardes, não tomando acção, mas simplesmente querendo ser livres. Resolvei não servir mais, e ficareis imediatamente livres. Não vos peço que ponhais as mãos sobre o tirano para o derrubar, mas simplesmente que não mais o apoieis; então vê-lo-eis, como um grande Colosso cuja base foi retirada, cair pelo seu próprio peso e partir-se em pedaços.

Parte II.

Os médicos estão sem dúvida certos ao avisar-nos para não tocarmos em feridas incuráveis; e presumivelmente arrisco-me ao pregar assim a um povo que há muito perdeu toda a sensibilidade e, já não consciente da sua enfermidade, sofre manifestamente de uma doença mortal. Compreendamos portanto pela lógica, se pudermos, como acontece que esta obstinada vontade de se submeter se enraizou tão profundamente numa nação que o próprio amor pela liberdade parece já não ser natural.

Em primeiro lugar, todos concordariam que, se conduzíssemos as nossas vidas segundo os caminhos pretendidos pela natureza e as lições que ela ensina, seríamos intuitivamente obedientes aos nossos pais; mais tarde adotaríamos a razão como guia e não nos tornaríamos escravos de ninguém. Quanto à obediência dada instintivamente ao pai e à mãe, estamos de acordo, cada um admitindo ser um modelo. Quanto a saber se a razão nasce connosco ou não, essa é uma questão discutida em voz alta pelos académicos e tratada por todas as escolas de filósofos. Por agora, penso não errar ao afirmar que existe nas nossas almas alguma semente nativa de razão, que, se nutrida por bom conselho e formação, floresce em virtude, mas que, por outro lado, se não conseguir resistir aos vícios que a rodeiam, é sufocada e murcha. Contudo, seguramente, se há alguma coisa neste mundo clara e óbvia, à qual não se possam fechar os olhos, é o facto de a natureza, serva de Deus, governanta dos homens, nos ter moldado a todos da mesma forma para que possamos ver uns nos outros companheiros, ou antes irmãos. Se, ao distribuir os seus dons, a natureza favoreceu alguns mais do que outros quanto ao corpo ou ao espírito, não planeou contudo colocar-nos neste mundo como se fosse um campo de batalha, nem dotou os mais fortes ou os mais astutos para que ajam como bandidos armados numa floresta e ataquem os mais fracos. Dever-se-ia antes concluir que, ao distribuir partes maiores a alguns e menores a outros, a natureza pretendeu dar ocasião para que o amor fraternal se manifeste, alguns de nós tendo a força para ajudar os outros que precisam dela. Por conseguinte, como esta mãe bondosa nos deu o mundo inteiro como morada, nos alojou na mesma casa, nos moldou segundo o mesmo modelo para que, ao vermos uns aos outros, quase nos reconhecêssemos; como nos concedeu a todos o grande dom da voz e da fala para a relação fraterna, alcançando assim pela expressão comum e mútua dos nossos pensamentos uma comunhão das nossas vontades; e como tentou por todos os meios estreitar e apertar o laço da nossa união e parentesco; como revelou de todas as maneiras possíveis a sua intenção, não tanto de nos associar como de nos tornar um todo orgânico, não pode haver mais dúvida de que somos todos naturalmente livres, na medida em que somos todos camaradas. Por conseguinte, não deve entrar na mente de ninguém que a natureza colocou alguns de nós na escravidão, uma vez que nos criou a todos à mesma semelhança.

É portanto inútil discutir se a liberdade é natural ou não, uma vez que ninguém pode ser mantido na escravidão sem ser lesado, e num mundo governado por uma natureza que é razoável, nada é tão contrário como uma injustiça. Como a liberdade é o nosso estado natural, não só a possuímos como temos o impulso de a defender. Agora, se porventura alguns lançam dúvida sobre esta conclusão e estão tão corrompidos que não conseguem reconhecer os seus direitos e tendências inatas, terei de lhes prestar a honra que lhes é devida e colocar, por assim dizer, as bestas brutas no púlpito para lançar luz sobre a sua natureza e condição. As próprias bestas, Deus me ajude!, se os homens não forem demasiado surdos, gritam-lhes: «Viva a Liberdade!» Muitas delas morrem logo que capturadas: tal como o peixe perde a vida logo que sai da água, assim estas criaturas fecham os olhos à luz e não desejam sobreviver à perda da sua liberdade natural. Se os animais constituíssem o seu reino por hierarquia, a sua nobreza seria escolhida deste tipo. Outros, dos maiores aos mais pequenos, quando capturados oferecem uma resistência tão forte com garras, chifres, bico e patas, que mostram claramente como se agarram ao que estão a perder; depois, em cativeiro, manifestam por tantos sinais evidentes a consciência da sua desgraça, que é fácil ver que languem em vez de viver, e continuam a sua existência mais em lamentação da sua liberdade perdida do que no gozo da sua servidão. Que outra coisa pode explicar o comportamento do elefante que, depois de se defender até à última onça da sua força e sabendo-se prestes a ser capturado, bate as mandíbulas contra as árvores e parte as presas, manifestando assim o seu desejo de permanecer livre como tinha sido e provando o seu engenho e capacidade para comprar os caçadores na esperança de que, através do sacrifício das suas presas, lhe seja permitido oferecer o seu marfim como resgate pela sua liberdade? Alimentamos o cavalo desde o nascimento para o treinarmos a fazer a nossa vontade. No entanto, é domado com tanta dificuldade que, quando começamos a amansá-lo, morde o freio, empina-se ao toque da espora, como se para revelar o seu instinto e mostrar pelas suas acções que, se obedece, não o faz por sua livre vontade mas sob constrangimento. Que mais podemos dizer? «Até os bois sob o peso do jugo se queixam, / E as aves na sua gaiola lamentam», como eu exprimi há algum tempo, brincando com a nossa poesia francesa. Pois não hesitarei em vos escrever, ó Longa, para introduzir alguns dos meus versos, que nunca vos li por causa do vosso encorajamento evidente que é bastante provável que me torne presunçoso. E agora, como todos os seres, porque sentem, sofrem miséria na sujeição e anseiam pela liberdade; como as próprias bestas, embora feitas para o serviço do homem, não conseguem acostumar-se ao controlo sem protesto, que azar maligno desnaturou tanto o homem que ele, a única criatura realmente nascida para ser livre, carece da memória da sua condição original e do desejo de a ela voltar?

Há três tipos de tiranos; alguns recebem a sua posição orgulhosa por eleições do povo, outros pela força das armas, outros por herança. Aqueles que adquiriram o poder por meio da guerra agem de tal modo que é evidente que governam um país conquistado. Aqueles que nascem para a realeza são pouco melhores, porque são nutridos no seio da tirania, sugam com o leite os instintos do tirano e consideram o povo sob eles como seus servos herdados; e segundo a sua disposição individual, avara ou pródiga, tratam o seu reino como sua propriedade. Aquele que recebeu o Estado do povo, porém, deveria ser, parece-me, mais suportável e sê-lo-ia, penso eu, não fosse o facto de, logo que se vê mais alto do que os outros, lisonjeado por aquela qualidade que chamamos grandeza, planeia nunca renunciar à sua posição. Tal homem determina geralmente passar aos seus filhos a autoridade que o povo lhe conferiu; e uma vez que os seus herdeiros adoptaram esta atitude, é estranho como ultrapassam os outros tiranos em todo o tipo de vícios, e especialmente em crueldade, porque não encontram outro meio de impor esta nova tirania senão apertando o controlo e afastando os seus súbditos tão longe de qualquer noção de liberdade que, mesmo que a memória dela esteja fresca, em breve será erradicada. Contudo, para falar com exactidão, percebo que há alguma diferença entre estes três tipos de tirania, mas quanto a declarar uma preferência, não posso conceder que haja alguma. Pois embora os meios de chegar ao poder difiram, o método de governar é praticamente o mesmo; os que são eleitos agem como se estivessem a amansar bois; os que são conquistadores fazem do povo a sua presa; os que são herdeiros planeiam tratá-los como se fossem seus escravos naturais.

A este respeito, imaginemos alguns indivíduos recém-nascidos, nem familiarizados com a escravidão nem desejosos de liberdade, ignorantes de facto das próprias palavras. Se lhes fosse permitido escolher entre serem escravos e homens livres, a qual dariam o seu voto? Não pode haver dúvida de que prefeririam muito mais ser guiados pela própria razão do que serem ordenados pelos caprichos de um só homem. A única excepção possível poderiam ser os israelitas que, sem qualquer constrangimento ou necessidade, nomearam um tirano. Nunca posso ler a sua história sem me zangar e até ser suficientemente inumano para encontrar satisfação nos muitos males que lhes sobrevieram por esta causa. Mas certamente todos os homens, enquanto permanecerem homens, antes de se deixarem escravizar, devem ou ser levados pela força ou induzidos a isso por engano; conquistados por exércitos estrangeiros, como foram Esparta e Atenas pelas forças de Alexandre ou por facções políticas, como quando, num período anterior, o controlo de Atenas passou para as mãos de Pisístrato. Quando perdem a liberdade por engano, não são tantas vezes traídos por outros como iludidos por si próprios. Este foi o caso do povo de Siracusa, cidade principal da Sicília (dizem-me que o lugar se chama agora Saragoça) quando, nas dores da guerra e planeando descuidadamente apenas para o perigo presente, promoveram Dionísio, o seu primeiro tirano, confiando-lhe o comando do exército, sem se darem conta de que lhe tinham dado tal poder que, no seu regresso vitorioso, este digno homem se comportaria como se tivesse vencido não os seus inimigos mas os seus compatriotas, transformando-se de capitão em rei, e depois de rei em tirano.

É incrível como, logo que um povo se torna sujeito, cai prontamente num esquecimento tão completo da sua liberdade que mal pode ser despertado para o ponto de a recuperar, obedecendo tão facilmente e tão de bom grado que se é levado a dizer, ao contemplar tal situação, que este povo não tanto perdeu a sua liberdade como ganhou a sua escravização. É verdade que no início os homens se submetem sob constrangimento e pela força; mas os que vêm depois obedecem sem pesar e fazem de bom grado o que os seus predecessores tinham feito porque tinham de o fazer. É por isso que os homens nascidos sob o jugo e depois nutridos e criados na escravidão se contentam, sem mais esforço, em viver na sua circunstância nativa, alheios a qualquer outro estado ou direito, e considerando como bastante natural a condição em que nasceram. Não há, porém, herdeiro tão esbanjador ou indiferente que não examine por vezes os livros de contas do seu pai para ver se está a fruir de todos os privilégios da sua herança ou se, porventura, os seus direitos e os do seu predecessor não foram usurpados. No entanto, é bastante claro que a influência poderosa do costume não é em nenhum aspecto mais compelente do que nesta, a saber, a habituação à sujeição. Diz-se que Mitrídates se treinou a beber veneno. Como ele, aprendemos a engolir, e a não achar amargo, o veneno da servidão. Não se pode negar que a natureza é influente ao moldar-nos à sua vontade e ao fazer-nos revelar o nosso rico ou escasso dote; contudo, deve admitir-se que ela tem menos poder sobre nós do que o costume, pela razão de que o dote nativo, por melhor que seja, se dissipa a menos que seja encorajado, enquanto o ambiente sempre nos molda à sua própria maneira, seja ela qual for, apesar dos dons da natureza. A boa semente que a natureza planta em nós é tão pequena e tão escorregadia que não consegue resistir ao menor dano de uma nutrição errada; floresce menos facilmente, estraga-se, murcha e chega a nada. As árvores de fruto conservam a sua qualidade particular se lhes for permitido crescer sem perturbação, mas perdem-na prontamente e dão frutos estranhos que não são os seus quando enxertadas. Toda a erva tem as suas características peculiares, as suas virtudes e propriedades; contudo, a geada, o tempo, o solo ou a mão do jardineiro aumentam ou diminuem a sua força; a planta vista num lugar não pode ser reconhecida noutro.

Quem pudesse ter observado os primeiros venezianos, um punhado de pessoas vivendo tão livremente que o mais perverso entre eles não desejaria ser rei sobre eles, tão nascidos e treinados que não rivalizariam uns com os outros senão sobre quem poderia dar o melhor conselho e nutrir a sua liberdade mais cuidadosamente, tão instruídos e desenvolvidos desde os berços que não trocariam por todos os outros deleites do mundo um iota da sua liberdade; quem, digo eu, familiarizado com a natureza original de tal povo, pudesse visitar hoje os territórios do homem conhecido como o Grande Doge, e aí contemplar com compostura um povo que não deseja viver senão para o servir, e mantendo o seu poder ao custo das suas vidas? Quem acreditaria que estes dois grupos de pessoas tinham uma origem idêntica? Não se concluiria antes que, ao sair de uma cidade de homens, tinha dado por acaso com um menagerie de bestas? Licurgo, o legislador de Esparta, diz-se que criou dois cães da mesma ninhada, engordando um na cozinha e treinando o outro nos campos ao som da trombeta e da corneta, para demonstrar assim aos lacedemónios que os homens também se desenvolvem segundo os seus hábitos precoces. Colocou os dois cães na praça pública, e entre eles pôs uma tigela de sopa e uma lebre. Um correu para a tigela de sopa, o outro para a lebre; contudo, eram, como ele sustentava, irmãos nascidos dos mesmos pais. De tal modo este líder, pelas suas leis e costumes, moldou e instruiu tão bem os espartanos que qualquer um deles preferiria morrer a reconhecer qualquer soberano que não a lei e a razão.

Dá-me prazer recordar uma conversa dos tempos antigos entre um dos favoritos de Xerxes, o grande rei da Pérsia, e dois lacedemónios. Quando Xerxes equipou o seu grande exército para conquistar a Grécia, enviou os seus embaixadores às cidades gregas para pedir água e terra. Esse era o procedimento que os persas adoptavam para convocar as cidades a renderem-se. Nem a Atenas nem a Esparta, porém, enviou tais mensageiros, porque os que tinham sido enviados lá por Dario, seu pai, tinham sido lançados pelos atenienses e espartanos, uns em fossos e outros em poços, com o convite para se servirem livremente aí de água e terra para levar de volta ao seu príncipe. Aqueles gregos não podiam permitir nem a mais pequena sugestão de usurpação sobre a sua liberdade. Os espartanos suspeitaram, no entanto, de que tinham incorrido na ira dos deuses pela sua acção, e especialmente na ira de Taltíbio, o deus dos arautos; para o apaziguar, decidiram enviar a Xerxes dois dos seus cidadãos em expiação pela morte cruel infligida aos embaixadores do seu pai. Dois espartanos, um chamado Sperta e o outro Bulis, ofereceram-se como sacrifício. Partiram assim, e no caminho chegaram ao palácio do persa chamado Hidarnes, tenente do rei em todas as cidades asiáticas situadas nas costas do mar. Ele recebeu-os com grande honra, banqueteou-os e depois, falando de uma coisa e outra, perguntou-lhes por que recusavam tão obstinadamente a amizade do seu rei. «Considerai bem, ó espartanos», disse ele, «e apercebei-vos pelo meu exemplo de que o rei sabe honrar aqueles que são dignos, e crede que se fôsseis homens dele faria o mesmo por vós; se pertencêsseis a ele e ele vos conhecesse, não há um entre vós que não pudesse ser o senhor de alguma cidade grega.»

«Com tais palavras, Hidarnes, não nos dais bom conselho», responderam os lacedemónios, «porque apenas experimentastes a vantagem de que falais; não conheceis o privilégio de que fruímos. Tendes a honra do favor do rei; mas nada sabeis sobre a liberdade, que sabor tem e quão doce é. Pois se tivésseis algum conhecimento dela, vós próprio nos aconselharíeis a defendê-la, não com lança e escudo, mas com os nossos próprios dentes e unhas.»

Apenas espartanos poderiam dar tal resposta, e seguramente ambos falaram como tinham sido treinados. Era impossível para o persa lamentar a liberdade, não a tendo conhecido, nem para os lacedemónios achar a sujeição aceitável depois de terem fruído da liberdade.

Catão de Útica, ainda criança sob a vara, podia entrar e sair da casa de Sila, o déspota. Por causa do lugar e da família da sua origem e porque ele e Sila eram parentes próximos, a porta nunca lhe era fechada. Tinha sempre o seu professor consigo quando ia lá, como era costume para crianças de nascimento nobre. Notou que na casa de Sila, na presença do ditador ou por ordem dele, alguns homens eram aprisionados e outros condenados; um era banido, outro estrangulado; um exigia os bens de outro cidadão, outro a sua cabeça; em suma, todos iam lá, não como à casa de um magistrado da cidade mas como à do tirano do povo, e isto não era portanto um tribunal de justiça, mas antes um antro de tirania. Pelo que o jovem rapaz disse ao seu professor: «Porque não me dais um punhal? Eu escondê-lo-ei sob a minha túnica. Entro muitas vezes no quarto de Sila antes de ele se levantar, e o meu braço é suficientemente forte para livrar a cidade dele.» Há um discurso verdadeiramente característico de Catão; era um verdadeiro início deste herói tão digno do seu fim. E se alguém não mencionasse o seu nome ou o seu país, mas expusesse meramente o facto tal como é, o episódio em si falaria eloquentemente, e qualquer um adivinharia que ele era um romano nascido em Roma no tempo em que ela era livre.

E porquê tudo isto? Certamente não porque creia que a terra ou a região tem algo a ver com isso, pois em qualquer lugar e em qualquer clima a sujeição é amarga e ser livre é agradável; mas meramente porque sou de opinião que se deve ter pena daqueles que, ao nascer, chegam com o jugo sobre o pescoço. Devemos absolvê-los e perdoá-los, pois não viram nem sequer a sombra da liberdade e, estando completamente alheios a ela, não podem perceber o mal suportado pela sua própria escravidão. Se houvesse de facto um país como o dos címerios mencionado por Homero, onde o sol brilha de modo diferente do nosso, derramando o seu esplendor continuamente durante seis meses sucessivos e depois deixando a humanidade a dormitar na obscuridade até regressar no fim de outro meio ano, deveríamos admirar-nos ao saber que aqueles nascidos durante esta longa noite se acostumam tanto à sua escuridão nativa que, a menos que lhes falassem do sol, não teriam desejo de ver a luz? Nunca se anseia pelo que nunca se conheceu; o anseio surge apenas depois do gozo e constitui, em meio à experiência da dor, a memória da alegria passada. É verdadeiramente a natureza do homem ser livre e desejar sê-lo, contudo o seu carácter é tal que segue instintivamente as tendências que a sua formação lhe dá.

Admitamos portanto que todas aquelas coisas a que ele é treinado e acostumado parecem naturais ao homem e que só aquilo que ele recebe com a sua individualidade primitiva, não treinada, lhe é verdadeiramente nativo. Assim, o costume torna-se a primeira razão da servidão voluntária. Os homens são como belos cavalos de corrida que primeiro mordem o freio e depois gostam dele, e empinando-se um pouco sob a sela logo aprendem a gostar de exibir o seu arnês e de pavonear-se orgulhosamente sob os seus adornos. Do mesmo modo, os homens acostumar-se-ão à ideia de que sempre estiveram em sujeição, de que os seus pais viveram da mesma maneira; pensarão que são obrigados a sofrer este mal, e persuadir-se-ão pelo exemplo e imitação dos outros, investindo finalmente aqueles que lhes dão ordens com direitos de propriedade, baseados na ideia de que sempre foi assim.

Há sempre alguns, melhor dotados do que os outros, que sentem o peso do jugo e não se conseguem conter de tentar sacudi-lo: estes são os homens que nunca se domesticam sob a sujeição e que sempre, como Ulisses em terra e mar constantemente em busca do fumo da sua chaminé, não conseguem impedir-se de espreitar à volta pelos seus privilégios naturais e de recordar os seus antepassados e os seus antigos caminhos. Estes são de facto os homens que, possuindo mentes claras e espírito de longo alcance, não se satisfazem, como a massa bruta, em ver apenas o que está aos seus pés, mas antes olham à volta, para trás e para a frente, e até recordam as coisas do passado para julgar as do futuro, e comparam ambas com a sua condição presente. Estes são os que, tendo boas mentes próprias, as treinaram ainda mais pelo estudo e pela aprendizagem. Mesmo que a liberdade tivesse perecido inteiramente da terra, tais homens a inventariam. Para eles, a escravidão não tem satisfações, por mais bem disfarçada que esteja.

O Grande Turco estava bem ciente de que os livros e o ensino mais do que qualquer outra coisa dão aos homens o discernimento para compreender a sua própria natureza e detestar a tirania. Compreendo que no seu território há poucas pessoas educadas, pois ele não as quer em grande número. Por causa desta restrição, homens de forte zelo e devoção, que apesar da passagem do tempo preservaram o seu amor pela liberdade, ainda permanecem ineficazes porque, por mais numerosos que sejam, não se conhecem uns aos outros; sob o tirano perderam a liberdade de acção, de fala e quase de pensamento; estão sós na sua aspiração. De facto, Momo, deus da zombaria, não estava apenas a brincar quando encontrou isto para criticar no homem moldado por Vulcano, a saber, que o criador não tinha posto uma pequena janela no coração da sua criatura para tornar os seus pensamentos visíveis. Diz-se que Bruto, Cássio e Casca, ao empreenderem libertar Roma, e aliás o mundo inteiro, recusaram incluir na sua banda Cícero, aquele grande entusiasta do bem público se é que alguma vez houve um, porque consideravam o seu coração demasiado tímido para tal feito sublime; confiavam na sua boa vontade mas não tinham grande certeza da sua coragem. Contudo, quem estudar os feitos de dias anteriores e os anais da antiguidade encontrará praticamente nenhum exemplo de heróis que não conseguissem libertar o seu país de mãos malignas quando se lançaram à tarefa com intenção firme, inteira e sincera. A liberdade, como que para revelar a sua natureza, parece ter-lhes dado nova força. Harmódio e Aristogíton, Trasíbulo, Bruto o Velho, Valeriano e Dion conseguiram com sucesso o que planearam virtuosamente: pois raramente a boa fortuna falha a uma vontade forte. Bruto o Jovem e Cássio foram bem-sucedidos em eliminar a servidão, e embora tenham perecido na sua tentativa de restaurar a liberdade, não morreram miseravelmente (que blasfémia seria dizer que havia algo de miserável nestes homens, quer na sua morte quer na sua vida!). A sua perda causou grande dano, desgraça eterna e destruição completa da República, que parece ter sido sepultada com eles. Outras empresas posteriores contra os imperadores romanos foram meramente conspirações de pessoas ambiciosas, que não merecem pena pelas desgraças que lhes sobrevieram, pois é evidente que não procuravam destruir, mas meramente usurpar a coroa, conspirando para afastar o tirano, mas para reter a tirania. Por mim, não poderia desejar que tais homens prosperassem e alegro-me que tenham mostrado pelo seu exemplo que o nome sagrado da Liberdade nunca deve ser usado para cobrir uma empresa falsa.

Mas voltando ao fio do nosso discurso, que praticamente perdi: a razão essencial por que os homens aceitam ordens de bom grado é que nascem servos e são criados como tal. Desta causa segue-se outro resultado, a saber, que as pessoas facilmente se tornam cobardes e submissas sob tiranos. Por esta observação estou profundamente grato a Hipócrates, o renomado pai da medicina, que a notou e relatou num tratado seu intitulado Sobre as Doenças. Este homem famoso estava certamente dotado de um grande coração e provou-o claramente pela sua resposta ao Grande Rei, que queria prendê-lo à sua pessoa por meio de privilégios especiais e grandes dons. Hipócrates respondeu francamente que lhe pesaria na consciência usar a sua ciência para a cura de bárbaros que desejavam matar os seus companheiros gregos, ou servir fielmente pela sua habilidade alguém que empreendesse escravizar a Grécia. A carta que enviou ao rei ainda pode ser lida entre as suas outras obras e testemunhará para sempre o seu grande coração e carácter nobre.

A esta altura deveria ser evidente que, uma vez perdida a liberdade, a valentia também perece. Um povo sujeito não mostra nem alegria nem entusiasmo no combate: os seus homens marcham sombrios para o perigo quase como se estivessem acorrentados, e estupidificados; não sentem palpitar dentro deles aquele entusiasmo pela liberdade que engendra o desprezo pelo perigo e transmite prontidão para adquirir honra e glória por uma morte corajosa no meio dos seus camaradas. Entre homens livres há competição sobre quem fará mais, cada um pelo bem comum, cada um por si, todos esperando partilhar nas desgraças da derrota ou nos benefícios da vitória; mas um povo escravizado perde, além desta coragem guerreira, todos os sinais de entusiasmo, pois os seus corações estão degradados, submissos e incapazes de qualquer grande feito. Os tiranos estão bem cientes disto e, para degradarem ainda mais os seus súbditos, encorajam-nos a assumir esta atitude e a torná-la instintiva.

Xenofonte, historiador grave de primeira categoria entre os gregos, escreveu um livro no qual faz Simonides falar com Hierão, Tirano de Siracusa, acerca das ansiedades do tirano. Este livro está cheio de belas e sérias advertências, que na minha opinião são tão persuasivas quanto as palavras podem ser. Oxalá todos os déspotas que alguma vez existiram o tivessem tido diante dos olhos e usado como espelho! Não posso crer que não tivessem reconhecido as suas verrugas e concebido alguma vergonha pelas suas manchas. Neste tratado explica-se o tormento em que os tiranos se encontram quando são obrigados a temer toda a gente porque fazem o mal a todo o homem. Entre outras coisas encontramos a afirmação de que os maus reis empregam estrangeiros nas suas guerras e pagam-lhes, não ousando confiar armas nas mãos do seu próprio povo, a quem fizeram mal. (Tem havido bons reis que usaram mercenários de nações estrangeiras, mesmo entre os franceses, embora mais no passado do que hoje, mas com o propósito bastante diferente de preservar o seu próprio povo, considerando como nada a perda de dinheiro no esforço de poupar vidas francesas. Isto é, creio eu, o que Cipião, o grande Africano, quis dizer quando afirmou que preferiria salvar um cidadão do que derrotar cem inimigos.) Pois é manifestamente evidente que o ditador não considera o seu poder firmemente estabelecido até ter chegado ao ponto em que não há homem sob ele que tenha algum valor.

Pode portanto aplicar-se-lhe com justiça a censura ao mestre dos elefantes feita por Trasão e relatada por Terêncio:
És tu de facto tão orgulhoso Porque mandas em bestas selvagens?

Este método que os tiranos usam para estupidificar os seus súbditos não pode ser observado mais claramente do que no que Ciro fez com os lídios depois de ter tomado Sardes, a sua cidade principal, e ter à sua mercê o capturado Creso, o seu fabulosamente rico rei. Quando lhe foi trazida a notícia de que o povo de Sardes se tinha revoltado, teria sido fácil para ele reduzi-los pela força; mas não desejando nem saquear uma cidade tão bela nem manter aí um exército para a policiar, pensou num expediente invulgar para a reduzir. Estabeleceu nela bordéis, tabernas e jogos públicos, e emitiu a proclamação de que os habitantes deviam frui-los. Encontrou este tipo de guarnição tão eficaz que nunca mais teve de desembainhar a espada contra os lídios. Estes desgraçados divertiam-se inventando todo o tipo de jogos, de tal modo que os latinos derivaram a palavra deles, e o que chamamos passatempos eles chamam ludi, como se quisessem dizer Lydi. Nem todos os tiranos manifestaram tão claramente a sua intenção de efeminar as suas vítimas; mas na realidade, o que o déspota acima mencionado proclamou publicamente e pôs em prática, a maioria dos outros perseguiu secretamente como fim. É de facto a natureza da população, cuja densidade é sempre maior nas cidades, ser desconfiada para com quem tem o seu bem-estar no coração, e crédula para com quem a engana. Não imagineis que há alguma ave mais facilmente apanhada por isco, nem algum peixe mais depressa fixado no anzol por isco de verme, do que todos estes pobres tolos são habilmente enganados para a servidão pela mais pequena pena passada, por assim dizer, diante das suas bocas. É verdadeiramente uma coisa maravilhosa que se deixem apanhar tão depressa ao menor fazer cócegas à sua fantasia. Peças, farsas, espectáculos, gladiadores, bestas estranhas, medalhas, quadros e outros tais opiáceos, estes eram para os povos antigos o isco para a escravidão, o preço da sua liberdade, os instrumentos da tirania. Por estas práticas e engodos os antigos ditadores adormeceram tão bem os seus súbditos sob o jugo que os povos estupidificados, fascinados pelos passatempos e vãs prazeres que lhes eram lançados diante dos olhos, aprenderam a subserviência tão ingenuamente, mas não tão creditavelmente, como as crianças pequenas aprendem a ler olhando para livros de figuras coloridas. Os tiranos romanos inventaram um refinamento adicional. Forneciam muitas vezes aos bairros da cidade banquetes para bajular a ralé, sempre mais facilmente tentada pelo prazer de comer do que por qualquer outra coisa. O mais inteligente e compreensivo entre eles não teria deixado a sua tigela de sopa para recuperar a liberdade da República de Platão. Os tiranos distribuíam larguezas, um alqueire de trigo, um galão de vinho e um sestércio: e então toda a gente gritava sem vergonha: «Viva o Rei!» Os tolos não se apercebiam de que estavam apenas a recuperar uma porção da sua própria propriedade, e de que o seu governante não lhes poderia ter dado o que recebiam sem o ter primeiro tirado deles. Um homem podia um dia ser presenteado com um sestércio e empanturrar-se no banquete público, louvando Tibério e Nero pela sua generosidade magnífica, que no dia seguinte seria forçado a abandonar a sua propriedade à avareza deles, os seus filhos à sua luxúria, o seu próprio sangue à crueldade destes magníficos imperadores, sem oferecer mais resistência do que uma pedra ou um toco de árvore. A multidão sempre se comportou assim — ansiosamente aberta a subornos que não podem ser honrosamente aceites, e dissolutamente insensível à degradação e ao insulto que não podem ser honrosamente suportados. Hoje em dia não encontro ninguém que, ao ouvir mencionar Nero, não estremeça só com o nome daquele monstro hediondo, aquela peste repugnante e vil. Contudo, quando ele morreu — quando este incendiário, este carrasco, esta besta selvagem, morreu tão vilmente como tinha vivido — o nobre povo romano, lembrado dos seus jogos e das suas festas, entristeceu-se ao ponto de vestir luto por ele. Assim escreveu Cornélio Tácito, autor competente e sério, e um dos mais fiáveis. Isto não será considerado peculiar tendo em vista o que este mesmo povo tinha feito anteriormente na morte de Júlio César, que tinha varrido as suas leis e a sua liberdade, na cuja carácter, parece-me, não havia nada de valioso, pois a sua própria liberalidade, que é tão altamente louvada, foi mais perniciosa do que o tirano mais cruel que alguma vez existiu, porque foi de facto esta amabilidade venenosa dele que adoçou a servidão para o povo romano. Depois da sua morte, aquele povo, ainda conservando no paladar o sabor dos seus banquetes e na mente a memória da sua prodigalidade, rivalizou uns com os outros para lhe prestar homenagem. Empilharam os assentos do Fórum para a grande fogueira que reduziu o seu corpo a cinzas, e mais tarde ergueram-lhe uma coluna como ao «Pai do Seu Povo». (Tal era a inscrição no capitel.) Fizeram-lhe mais honra, morto como estava, do que tinham direito a conferir a qualquer homem no mundo, excepto talvez àqueles que o tinham matado.

Nem sequer negligenciaram, estes imperadores romanos, assumir geralmente o título de Tribuno do Povo, em parte porque este cargo era considerado sagrado e inviolável e também porque tinha sido fundado para a defesa e protecção do povo e gozava do favor do Estado. Por este meio asseguravam que a população confiaria neles completamente, como se meramente usassem o título e não o abusassem. Hoje há alguns que não se comportam muito diferentemente: nunca empreendem uma política injusta, mesmo uma de alguma importância, sem a prefaciarem com algum bonito discurso acerca do bem público e do bem comum. Bem conheceis, ó Longa, esta fórmula que eles usam bastante habilmente em certos lugares; embora, na maior parte, para ser sincero, não possa haver habilidade onde há tanta impudência. Os reis dos assírios e mesmo depois deles os dos medos mostravam-se em público o mais raramente possível para estabelecer uma dúvida nas mentes da ralé sobre se não seriam de algum modo mais do que homens, e assim encorajar as pessoas a usar a sua imaginação para aquelas coisas que não podem julgar pela vista. Assim, muitas nações que durante muito tempo habitaram sob o controlo dos assírios se acostumaram, com todo este mistério, à sua própria sujeição, e se submeteram tanto mais prontamente por não saberem que tipo de mestre tinham, ou mal se tinham um, todos eles temendo por relato alguém que nunca tinham visto. Os primeiros reis do Egipto raramente se mostravam sem levar um gato, ou por vezes um ramo, ou aparecendo com fogo na cabeça, mascarando-se com estes objectos e desfilando como trabalhadores de magia. Ao fazerem isto inspiravam aos seus súbditos reverência e admiração, ao passo que com pessoas nem demasiado estúpidas nem demasiado servas teriam meramente despertado, parece-me, divertimento e riso. É lastimoso rever a lista de dispositivos que os déspotas antigos usaram para estabelecer a sua tirania; descobrir quantos pequenos truques empregaram, encontrando sempre a população convenientemente crédula, facilmente apanhada na rede logo que era estendida. De facto, enganavam sempre as suas vítimas tão facilmente que, ao troçarem delas, as escravizavam ainda mais.

Que comentário posso fazer acerca de outra bela contrafacção que os povos antigos aceitaram como moeda verdadeira? Acreditavam firmemente que o grande dedo do pé de Pirro, rei do Epiro, fazia milagres e curava doenças do baço; chegaram mesmo a enriquecer o conto com a lenda de que este dedo, depois de o cadáver ter sido queimado, foi encontrado entre as cinzas, intacto pelo fogo. Deste modo um povo tolo inventa mentiras por si próprio e depois acredita nelas. Muitos homens relataram tais coisas, mas de tal modo que é fácil ver que as partes foram juntadas a partir de mexericos ociosos da cidade e relatos tolos da ralé. Quando Vespasiano, regressando da Assíria, passa por Alexandria no caminho para Roma para tomar posse do império, faz maravilhas: endireita os coxos, restaura a vista aos cegos e faz muitas outras coisas belas, acerca das quais os crédulos e pouco exigentes eram, na minha opinião, mais cegos do que aqueles que foram curados. Os próprios tiranos admiraram-se de que os homens pudessem suportar a perseguição de um só homem; insistiram em usar a religião para sua própria protecção e, onde possível, pediram emprestado um bocado extraviado de divindade para sustentar os seus maus caminhos. Se devemos acreditar na Sibila de Virgílio, Salmoneu, em tormento por ter desfilado como Júpiter para enganar a população, agora expia no Inferno mais profundo:


Sofrer tormento sem fim por ter ousado imitar
Os raios do céu e as chamas de Júpiter.
Num carro puxado por quatro cavalos foi, instavelmente
Cavalgando no alto, no punho uma grande tocha brilhante.
Entre os gregos e para a praça do mercado
No coração da cidade de Élis tinha cavalgado audazmente:
E exibindo assim a sua vanglória assumiu
Uma honra que indubitavelmente pertence apenas aos deuses.
Este tolo que imitava a tempestade e o trovão inimitável
Por choque de bronze e com a sua carga vertiginosa
Em cavalos de cascos de chifre, o Pai todo-poderoso contemplou,
Não lançou uma tocha, nem a luz fraca
De uma vela de cera com os seus fumos enfumarados,
Mas pelo furioso sopro do trovão e do relâmpago
O derrubou, com os calcanhares acima da cabeça.

Se tal homem, que no seu tempo actuou meramente pela loucura da insolência, é tão bem recebido no Inferno, penso que aqueles que usaram a religião como manto para esconder a sua vileza serão ainda mais merecidamente alojados no mesmo lugar.

Os nossos próprios líderes empregaram em França certos dispositivos semelhantes, como sapos, flores-de-lis, vasos sagrados e estandartes com chamas de ouro. Seja como for, não desejo, pela minha parte, ser incrédulo, uma vez que nem nós nem os nossos antepassados tivemos até agora ocasião para cepticismo. Os nossos reis sempre foram tão generosos em tempos de paz e tão valentes em tempo de guerra, que desde o nascimento parecem não ter sido criados pela natureza como muitos outros, mas mesmo antes do nascimento terem sido designados pelo Deus Todo-Poderoso para o governo e preservação deste reino. Mesmo que não fosse assim, ainda assim não entraria no campo de tilt para pôr em causa a verdade das nossas tradições, ou para as examinar tão estritamente que lhes tirasse os seus belos conceitos. Eis um tal campo para a nossa poesia francesa, agora não meramente honrada mas, parece-me, renascida através do nosso Ronsard, do nosso Baïf, do nosso Bellay. Estes poetas defendem tão bem a nossa língua que ouso crer que muito em breve nem os gregos nem os latinos terão a este respeito qualquer vantagem sobre nós excepto possivelmente a da antiguidade. E certamente faria mal à nossa poesia — gosto de usar essa palavra apesar de vários terem rimado mecanicamente, pois ainda discerno hoje um número de homens capazes de enobrecer a poesia e de a restaurar ao seu primeiro lustro — mas, como digo, faria grande injúria à Musa se agora a privasse daqueles belos contos sobre o Rei Clóvis, entre os quais me parece que já vejo como agradavelmente e como felizmente a inspiração do nosso Ronsard na sua Franciada brincará. Aprecio a sua elevação, estou ciente do seu espírito agudo e conheço o encanto do homem: ele apropriará o oriflamme para seu uso tal como os romanos os seus escudos sagrados e os escudos lançados do céu para a terra, segundo Virgílio. Usará o nosso frasco de óleo santo tal como os atenienses usaram o cesto de Ericthonius; conquistará aplausos pelos nossos feitos de valentia como eles pelo seu ramo de oliveira que insistem que ainda pode ser encontrado na torre de Minerva. Certamente seria presunçoso se tentasse lançar calúnias sobre os nossos registos e assim invadir o reino dos nossos poetas.

Mas regressando ao nosso assunto, cujo fio perdi inadvertidamente nesta discussão: sempre aconteceu que os tiranos, para fortalecerem o seu poder, fizeram todos os esforços para treinarem o seu povo não só na obediência e servilidade para com eles, mas também na adoração. Portanto, tudo o que disse até agora acerca dos meios pelos quais se obteve uma submissão mais voluntária aplica-se aos ditadores na sua relação com as classes inferiores e comuns.

Parte III.

Chego agora a um ponto que é, na minha opinião, a mola principal e o segredo da dominação, o suporte e o fundamento da tirania. Quem pensa que alabardas, sentinelas, a colocação da guarda servem para proteger e escudar tiranos está, no meu juízo, completamente enganado. Estes são usados, parece-me, mais para cerimónia e exibição de força do que por qualquer confiança neles depositada. Os archeiros proíbem a entrada no palácio aos mal vestidos que não têm armas, não aos bem armados que podem levar a cabo alguma conspiração. Certamente é fácil dizer dos imperadores romanos que menos escaparam do perigo com a ajuda das suas guardas do que foram mortos pelos seus próprios archeiros. Não são as tropas a cavalo, não são as companhias a pé, não são as armas que defendem o tirano. Isto não parece credível à primeira vista, mas é no entanto verdade que são apenas quatro ou cinco que mantêm o ditador, quatro ou cinco que mantêm o país em escravidão a ele. Cinco ou seis sempre tiveram acesso ao seu ouvido, e ou foram ter com ele por sua própria iniciativa, ou foram convocados por ele, para serem cúmplices das suas crueldades, companheiros dos seus prazeres, alcoviteiros das suas luxúrias e partilhantes das suas pilhagens. Estes seis gerem o seu chefe com tanto sucesso que ele acaba por ser responsabilizado não só pelos seus próprios maus feitos mas até pelos deles. Os seis têm seiscentos que lucram sob eles, e com os seiscentos fazem o que conseguiram com o seu tirano. Os seiscentos mantêm sob eles seis mil, a quem promovem em posto, sobre quem conferem o governo de províncias ou a direcção das finanças, para que sirvam como instrumentos de avareza e crueldade, executando ordens no momento próprio e causando tal devastação à volta que não poderiam durar senão à sombra dos seiscentos, nem estar isentos da lei e do castigo senão pela sua influência.

A consequência de tudo isto é fatal de facto. E quem se agradar de desenrolar o novelo observará que não os seis mil mas cem mil, e até milhões, se agarram ao tirano por este cordão a que estão atados. Segundo Homero, Júpiter gaba-se de poder atrair a si todos os deuses quando puxa uma corrente. Tal esquema causou o aumento do senado sob Júlio, a formação de novas fileiras, a criação de cargos; não realmente, se devidamente considerado, para reformar a justiça, mas para fornecer novos apoiantes do despotismo. Em suma, quando se chega ao ponto, através de grandes favores ou pequenos, de que grandes lucros ou pequenos são obtidos sob um tirano, encontram-se quase tantas pessoas para quem a tirania parece vantajosa como aquelas para quem a liberdade pareceria desejável. Os médicos declaram que, se, quando alguma parte do corpo tem gangrena, surge uma perturbação noutro local, ela flui imediatamente para a parte afectada. Do mesmo modo, sempre que um governante se faz ditador, todos os resíduos malignos da nação — não me refiro ao bando de ladrõezinhos e rufiões sem orelhas que, numa república, são insignificantes no mal ou no bem — mas todos aqueles que estão corrompidos por ambição ardente ou avareza extraordinária, estes reúnem-se à volta dele e apoiam-no para terem uma parte no saque e se constituírem pequenos chefes sob o grande tirano. Esta é a prática entre ladrões notórios e piratas famosos: alguns percorrem o campo, outros perseguem viajantes; alguns ficam de emboscada, outros vigiam; alguns cometem assassínio, outros roubo; e embora haja entre eles diferenças de posto, alguns sendo apenas subordinados enquanto outros são chefes de bandos, no entanto não há um único entre eles que não se sinta partilhante, se não do saque principal, pelo menos da sua busca. Relata-se com segurança que piratas sicilianos se reuniram em tal número que se tornou necessário enviar contra eles Pompeu, o Grande, e que atraíram para a sua aliança belas vilas e grandes cidades nos cujos portos se refugiavam ao regressar das suas expedições, pagando generosamente pelo refúgio dado aos seus bens roubados.

Assim o déspota subjuga os seus súbditos, alguns por meio de outros, e assim é ele protegido por aqueles de quem, se fossem homens decentes, teria de se guardar; tal como, para rachar madeira, se tem de usar uma cunha da própria madeira. Tais são os seus archeiros, as suas guardas, os seus alabardeiros; não que eles próprios não sofram ocasionalmente às suas mãos, mas esta ralé, abandonada tanto por Deus como pelo homem, pode ser levada a suportar o mal se lhe for permitido cometê-lo, não contra quem os explora, mas contra aqueles que, como eles, se submetem, mas estão indefesos. No entanto, observando aqueles homens que servem penosamente o tirano para ganhar algum lucro da sua tirania e da sujeição da população, muitas vezes sou vencido pelo espanto pela sua maldade e por vezes pela pena pela sua loucura. Pois, com toda a honestidade, pode ser de alguma forma senão por loucura que vos aproximais de um tirano, afastando-vos ainda mais da vossa liberdade e, por assim dizer, abraçando com ambas as mãos a vossa servidão? Que tais homens deixem de lado brevemente a sua ambição, ou que esqueçam por um momento a sua avareza, e olhem para si próprios como realmente são. Então perceberão claramente que os citadinos, os camponeses que eles pisam e tratam pior do que condenados ou escravos, perceberão, digo eu, que estas pessoas, maltratadas como possam ser, estão no entanto, em comparação consigo próprios, melhor e bastante livres. O lavrador da terra e o artesão, por mais escravizados que estejam, cumprem a sua obrigação quando fazem o que lhes é ordenado; mas o ditador vê homens à sua volta cortejando e mendigando o seu favor, e fazendo muito mais do que ele lhes ordena. Tais homens não só devem obedecer a ordens; devem antecipar os seus desejos; para o satisfazer devem prever os seus desejos; devem desgastar-se, atormentar-se, matar-se de trabalho no seu interesse, e aceitar o seu prazer como seu, negligenciando as suas preferências pelas dele, distorcendo o seu carácter e corrompendo a sua natureza; devem prestar atenção às suas palavras, à sua entoação, aos seus gestos e ao seu olhar. Que não tenham olho, nem pé, nem mão que não esteja alerta para responder aos seus desejos ou para procurar os seus pensamentos.

Pode isso chamar-se uma vida feliz? Pode chamar-se viver? Há alguma coisa mais intolerável do que essa situação, não digo para um homem de carácter nem mesmo para um homem de alta estirpe, mas simplesmente para um homem de bom senso ou, para ir ainda mais longe, para qualquer um que tenha a face de um homem? Que condição é mais miserável do que viver assim, sem nada que se possa chamar seu, recebendo de outrem o seu sustento, o seu poder de agir, o seu corpo, a sua própria vida?

Ainda assim os homens aceitam a servilidade para adquirir riqueza; como se pudessem adquirir alguma coisa sua quando nem sequer podem afirmar que se pertencem a si próprios, ou como se alguém pudesse possuir sob um tirano uma única coisa em seu próprio nome. No entanto, agem como se a sua riqueza realmente lhes pertencesse, e esquecem que são eles próprios que dão ao governante o poder de privar toda a gente de tudo, não deixando nada que alguém possa identificar como pertencendo a alguém. Notam que nada torna os homens tão subservientes à crueldade de um tirano como a propriedade; que a posse de riqueza é o pior dos crimes contra ele, punível até com a morte; que ele não ama nada tanto como o dinheiro e só arruína os ricos, que vêm diante dele como diante de um carniceiro, oferecendo-se tão recheados e inchados que lhe fazem crescer água na boca. Estes favoritos não deveriam recordar tanto a memória daqueles que ganharam grande riqueza de tiranos como daqueles que, depois de terem acumulado durante algum tempo, perderam para ele a sua propriedade bem como as suas vidas; deveriam considerar não quantos outros ganharam uma fortuna, mas antes quão poucos deles a conservaram. Quer examinemos a história antiga ou simplesmente os tempos em que vivemos, veremos claramente quão grande é o número daqueles que, tendo por meios vergonhosos conquistado o ouvido de príncipes — que ou lucram com as suas vilanias ou tiram vantagem da sua ingenuidade — foram no fim reduzidos a nada por estes mesmos príncipes; e embora no início tais servidores fossem recebidos com uma prontidão evidente para promover os seus interesses, mais tarde encontraram uma inconstância igualmente óbvia que os levou à ruína. Certamente, entre tão grande número de pessoas que em algum momento tiveram alguma relação com maus governantes, houve poucos ou praticamente nenhum que não tenham sentido aplicada a si próprios a animosidade do tirano, que anteriormente tinham despertado contra outros. A maior parte das vezes, depois de se tornarem ricos ao despojarem outros, sob o favor da sua protecção, encontram-se finalmente a enriquecê-lo com os seus próprios despojos.

Mesmo homens de carácter — se por vezes acontece que um tirano gosta suficientemente de tal homem para o manter nas suas boas graças, porque nele brilham a virtude e a integridade que inspiram uma certa reverência mesmo nos mais depravados — mesmo homens de carácter, digo eu, não poderiam evitar sucumbir por muito tempo à doença comum e experimentariam cedo os efeitos da tirania à sua própria custa. Um Séneca, um Búrro, um Tráseas, este triunvirato de homens esplêndidos, fornecerão um lembrete suficiente de tal desgraça. Dois deles estavam próximos do tirano pela responsabilidade fatal de terem nas suas mãos a gestão dos seus assuntos, e ambos eram estimados e amados por ele. Um deles, além disso, tinha uma pretensão peculiar à sua amizade, tendo instruído o seu mestre quando criança. Contudo, estes três pela sua morte cruel dão evidência suficiente de quão pouca fé se pode depositar na amizade de um governante mau. De facto, que amizade se pode esperar de alguém cujo coração é suficientemente amargo para odiar até o seu próprio povo, que nada faz senão obedecer-lhe? É porque ele não sabe amar que acaba por empobrecer o seu próprio espírito e destruir o seu próprio império.

Agora, se alguém argumentar que estes homens caíram em desgraça porque queriam agir honradamente, que olhe audazmente à volta para outros próximos do mesmo tirano, e verá que aqueles que entraram no seu favor e se mantiveram por meios desonrosos não se saíram muito melhor. Quem alguma vez ouviu falar de um amor mais centrado, de um afecto mais persistente, quem alguma vez leu sobre um homem mais desesperadamente apegado a uma mulher do que Nero esteve a Poppeia? Contudo, ela foi mais tarde envenenada pela sua própria mão. Agripina, sua mãe, tinha matado o seu marido, Cláudio, para exaltar o seu filho; para o satisfazer nunca hesitara em fazer ou suportar qualquer coisa; e contudo este mesmo filho, sua descendência, seu imperador, elevado pela sua mão, depois de lhe falhar muitas vezes, finalmente tirou-lhe a vida. É de facto verdade que ninguém nega que ela teria bem merecido este castigo, se apenas tivesse vindo por alguma outra mão que não a do filho que ela tinha trazido ao mundo. Quem foi alguma vez mais facilmente gerido, mais ingénuo ou, para falar com toda a franqueza, maior simplório, do que o imperador Cláudio? Quem esteve alguma vez mais envolvido na sua mulher do que ele em Messalina, a quem finalmente entregou nas mãos do carrasco? A estupidez num tirano torna-o sempre incapaz de acção benevolente; mas de algum modo misterioso, à força de actuar cruelmente até para com aqueles que são os seus associados mais próximos, parece manifestar a pouca inteligência que possa ter.

É bastante conhecido o dito marcante daquele outro tirano que, olhando para a garganta da sua mulher, uma mulher que amava ternamente e sem a qual parecia não poder viver, a acariciou com este comentário encantador: «Esta bela garganta seria cortada imediatamente se eu apenas desse a ordem.» É por isso que a maioria dos ditadores de outrora foi comumente assassinada pelos seus favoritos mais próximos que, observando a natureza da tirania, não podiam ter tanta confiança no capricho do tirano quanto desconfiavam do seu poder. Assim foi Domiciano morto por Estêvão, Cómodo por uma das suas amantes, Antonino por Macrino, e praticamente todos os outros de modo semelhante violento. O facto é que o tirano nunca é verdadeiramente amado, nem ele ama. A amizade é uma palavra sagrada, uma coisa santa; nunca se desenvolve senão entre pessoas de carácter, e nunca cria raiz senão através do respeito mútuo; floresce não tanto por gentilezas como por sinceridade. O que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento da sua integridade: como garantias tem a bela natureza do seu amigo, a sua honra e a sua constância. Não pode haver amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. E nos lugares onde os perversos se reúnem há apenas conspiração, não companheirismo: estes não têm afecto uns pelos outros; apenas o medo os mantém juntos; não são amigos, são meramente cúmplices.

Embora pudesse não ser impossível, seria difícil encontrar verdadeira amizade num tirano; elevado acima dos outros e não tendo companheiros, encontra-se já para lá do pálido da amizade, que recebe o seu verdadeiro sustento de uma igualdade que, para proceder sem coxear, deve ter os seus dois membros iguais. É por isso que há honra entre ladrões (ou assim se relata) na partilha do saque; são pares e camaradas; se não se estimam uns aos outros, pelo menos respeitam-se e não procuram diminuir a sua força ao discutirem. Mas os favoritos de um tirano nunca podem sentir-se inteiramente seguros, e tanto menos quanto ele aprendeu com eles que é todo-poderoso e ilimitado por qualquer lei ou obrigação. Assim torna-se seu hábito considerar a sua própria vontade como razão suficiente, e ser senhor de todos sem nunca um igual. Portanto parece uma pena que, com tantos exemplos à mão, com o perigo sempre presente, ninguém esteja ansioso por actuar como homem sábio à custa dos outros, e que entre tantas pessoas que adulam o seu governante não haja uma única que tenha a sabedoria e a audácia para lhe dizer o que, segundo a fábula, a raposa disse ao leão que fingia estar doente: «Eu gostaria de entrar na vossa toca para vos prestar as minhas homenagens; mas vejo muitas pegadas de bestas que foram ter convosco, mas nem um único vestígio de alguma que tenha voltado.»

Estes desgraçados vêem o brilho dos tesouros do déspota e ficam deslumbrados pelo esplendor da sua magnificência. Atraídos por este brilho aproximam-se, sem se aperceberem de que se aproximam de uma chama que não pode deixar de os queimar. Do mesmo modo atraído, o sátiro indiscreto das velhas fábulas, ao ver o fogo brilhante trazido por Prometeu, achou-o tão belo que foi e o beijou, e foi queimado; assim, como o poeta toscano nos recorda, a traça, intentada no desejo, procura a chama porque brilha, e também experimenta a sua outra qualidade, o ardor. Além disso, mesmo admitindo que os favoritos por vezes escapem das mãos daquele a quem servem, nunca estão seguros do governante que vem depois dele. Se ele for bom, devem prestar contas do seu passado e reconhecer finalmente que a justiça existe; se ele for mau e se assemelhar ao seu falecido mestre, certamente terá os seus próprios favoritos, que geralmente não se satisfazem em ocupar por sua vez meramente os postos dos seus predecessores, mas insistirão mais frequentemente na sua riqueza e nas suas vidas. Pode então encontrar-se alguém que, em tais circunstâncias perigosas e com tão pouca segurança, ainda será ambicioso de preencher tal posição infeliz e servir, apesar de tais perigos, um mestre tão perigoso? Bom Deus, que sofrimento, que martírio tudo isto envolve! Estar ocupado noite e dia a planear agradar a uma pessoa, e ainda assim temê-la mais do que qualquer outra no mundo; estar sempre de vigia, ouvidos abertos, perguntando-se de onde virá o golpe; procurar conspiração, estar de guarda contra armadilhas, examinar os rostos dos companheiros em busca de sinais de traição, sorrir a toda a gente e ter medo mortal de todos, não ter certeza de ninguém, quer como inimigo aberto quer como amigo fiável; mostrar sempre um rosto alegre apesar de um coração apreensivo, incapaz de ser alegre mas não ousando estar triste!

No entanto, há satisfação em examinar o que eles obtêm de todo este tormento, que vantagem retiram de todo o trabalho da sua existência miserável. Na realidade, o povo nunca culpa o tirano pelos males que sofre, mas coloca a responsabilidade naqueles que o influenciam; povos, nações, todos competem uns com os outros, até os camponeses, até os lavradores da terra, em mencionar os nomes dos favoritos, em analisar os seus vícios e em amontoar sobre eles mil insultos, mil obscenidades, mil maldições. Todas as suas orações, todos os seus votos são dirigidos contra estas pessoas; consideram-nas responsáveis por todas as suas desgraças, as suas pestes, as suas fomes; e se por vezes lhes mostram respeito exterior, nesses mesmos momentos fervem nos seus corações e os têm em maior horror do que bestas selvagens. Esta é a glória e a honra amontoada sobre os favoritos influentes pelos seus serviços por um povo que, se pudesse despedaçar os seus corpos vivos, ainda clamaria por mais, apenas meio saciado pela agonia que pudesse contemplar. Pois mesmo quando os favoritos estão mortos, aqueles que vivem depois nunca são demasiado preguiçosos para enegrecer os nomes destes devoradores de homens com a tinta de mil penas, rasgar as suas reputações em pedaços em mil livros e arrastar, por assim dizer, os seus ossos perante a posteridade, punindo-os para sempre depois da sua morte pelas suas vidas perversas.

Aprendamos portanto enquanto ainda há tempo, aprendamos a fazer o bem. Ergamos os nossos olhos para o Céu pela causa da nossa honra, pelo próprio amor da virtude ou, para falar sabiamente, pelo amor e louvor de Deus Todo-Poderoso, que é a testemunha infalível dos nossos actos e o juiz justo das nossas faltas. Quanto a mim, creio verdadeiramente que tenho razão, uma vez que nada é tão contrário a um Deus generoso e amoroso como a ditadura — creio que Ele reservou, num lugar separado no Inferno, algum castigo muito especial para tiranos e seus cúmplices.

As Cortes Medievais de Portugal — sistematização e superioridade

As Cortes Medievais do Reino de Portugal – uma sistematização do seu funcionamento, e sua superioridade a um órgão deliberativo comum.

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I – Vistas as Cortes não serem uma instituição contínua no tempo, e dependerem do Rei achar que fosse ‘necessidade do serviço e bem da terra’, como o afirmara D. Fernando, aquilo que criava a Corte enquanto juridicamente válida era a Carta Convocatória do Monarca. Pelo menos até 1439 [quando as Cortes, realizadas em Lisboa, são invocadas pelo Regimento do Reino aprovado em 1438], este era o mecanismo realizado. O Infante D. Pedro, nessas mesmas Cortes de 1439, em Lisboa, foi acusado de ter utilizado a instituição para consolidar o seu poder, porvindoura usurpação da Coroa. Para evitar problemas futuros, D. Afonso V concede, sabiamente, a periodização das Cortes. Quando estava este Rei em França, o Príncipe João [futuro D. João II] não deixou de pedir permissão para a celebração das Cortes de 1477, indicando que não obstante a autonomia da Corte, ela mantinha-se sob a deliberação régia. Estas Cortes não foram bem sucedidas, mas o ponto persiste.

II – Não haveria convocação de Cortes sem prévia audição de conselhos do Rei, onde se decidia o local e data dessas Cortes.

III – A Carta de Convocatória conteria o n° de procuradores que os Concelhos deveriam enviar, além da data e o local.

IV – Após a leitura da Carta, os Oficiais e Homens-bons dos Concelhos elegiam os seus procuradores; em 1413, para as Cortes de Lisboa, as eleições no Porto para a sua procuração ocorreram no Mosteiro de S. Domingos, onde um dos eleitos pela comunidade censitária anteriormente é rejeitado e substituído – é uma exceção, e nos reinados de D. Afonso V e D. João II, todos os vizinhos dos Concelhos votam no dicto procurador. Aliás, D. Afonso V encarregou-se de erradicar um capítulo acordado nas Cortes de 1456, referente a Torre de Moncorvo, face às acusações dos cidadãos do arrabalde de não haverem podido estar presentes na eleição do procurador; também em 1481, D. João II manda que as eleições no Porto se realizassem novamente, porque nem todos estiveram presentes no dia de eleição.

V – Também podia a eleição ser à sorte [Porto, 1460] ou podia um homem-bom oferecer-se para representar-se [Porto, 1455].

VI – Até 1481-82 [Cortes de Évora-Viana], as despesas dos procuradores não eram subsidiadas. D. João II, ciente da dificuldade de alguns concelhos em financiar a estadia dos procuradores, atribuiu uma quantia a creditar por procurador, nas Cortes de Santarém de 1482, além de permitir ao Porto que contraísse empréstimos sobre bens municipais.

VII – Era igualmente no período imediato à leitura da Convocação que se outorgavam os capítulos concelhios, que não eram somente concernentes à atitude régia, matérias gerais. Os Homens dos Concelhos dispunham de problemas de grande dinamismo no seu Concelho, narrando ao Rei possíveis opressões dos administradores concelhios, para receberem a deliberação régia justa. Ademais, adicione-se que os Concelhos trocavam correspondência entre si, sobre questões do interesse nacional.

VIII – As Cartas de procuração eram verificadas por oficiais régios, para que se evitassem vícios ou temáticas interesseiras debatidas em Cortes; igualmente sobre a eleição dos procuradores [caso de 1481 mencionado acima]. Esta homologação era realizada quando os procuradores chegassem ao local da realização das Cortes. As residências onde residiriam eram imediatamente procuradas igualmente – podiam estender-se fora da cidade, caso não houvesse local de estadia no dicto local [em 1482, por exemplo, para as Cortes de Évora, os delegados do Povo permaneceram em Viana do Alentejo].

IX – Graças à sabedoria de D. Afonso V e do Príncipe João, temos uma grande novidade nas Cortes de 1477, de Santarém-Lisboa. Por exemplo, de que os procuradores fossem avisados, com antecedência, das temáticas que o Rei apresentaria, para que os procuradores estudassem a melhor resposta e evitassem tempo perdido e perguntas imprevisíveis. São igualmente notificados do cerimonial de juramentos – o Rei, no primeiro dia de Cortes, depois da missa de manhã, dirigir-se-ia ao local onde as Cortes se realizariam para os preitos e, presume-se, o beija-mão X – A hierarquia Concelhia é inteiramente reconhecida pelo Monarca – seja por reconhecer irredutivelmente o costume antigo, seja em mudanças esporádicas onde um local é ascendido, decrescido ou até mesmo elevado a concelho pelo mesmo Rei – um exemplo claro: Santarém, vila, sentava-se à esquerda [designando superioridade] do Porto, cidade. À esquerda das esquerdas, no primeiro banco, estava a intocável Lisboa. Veja-se a imagem da planta das Cortes de 1481.

XI – A sessão da abertura das Cortes era sempre acompanhada de uma oração de proposição…

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…Temos exemplos dos autores desses discursos [1436, Rui Fernandes; 1438, Gil Dócem; 1438, Vasco Fernandes de Lucena; 1465, D. Joana, etc.]. Só depois da oração, replicavam os concelhos com iniciais considerações gerais.

XII – Depois da sessão de abertura, separavam-se os Três Estados, na presença do Rei, que se dirigiam a diferentes locais para ‘que escrevessem e dissessem aquelo que fosse aguisado para haver de correger’, dissera D. Afonso IV. Podiam ser estas reuniões gerais, desta forma, ou poderiam existir reuniões privativas entre procuradores de X ou Y Concelho; ou entre vários Concelhos, para atribuírem a um mór a defesa dos interesses comuns – podia, ou não, estar o Rei nessas sessões. Ademais, podiam realizar-se sessões de trabalho após a abertura das Cortes: 1385 é um dos poucos exemplos deste caso, com João das Regras a discursar por D. João I; veja-se que estas ocasiões eram estritamente realizadas quando o Rei lá estivesse, partilhando pareceres comprometedores padecíveis de opressão nobre.

XIII – Os procuradores, durante o tempo de Cortes [que podia ser longo] exerciam o seu ofício convencional no local da Assembleia, inclusive nos Tribunais locais.

XIV – Concernem as Cortes, grosso modo, a resoluções tais como: lançamentos de pedidos e empréstimos; autos de reconhecimento [o de D. João I] ou de juramento; regimentos e regências do Reino, tratados de Paz, petições e agravamentos, reformas gerais, cunhagem de moeda, alienação de territórios e/ou pontuais questões constitucionais, tendo-se sempre em conta o caráter consultivo das mesmas, sendo a deliberação inteiramente régia, inclusive a definição de Regimentos que consumassem pontuais autonomia das Cortes, como o de D. Afonso V, já dicto.

XV – As Cortes podiam ser realizadas ao ar livre, visto o termo designar meramente o acto, não o seu local. Rui de Pina testemunha Cortes ao ar livre, em 1438 [Leiria].

As Traduções de “Polytropos” na Odisseia: Ambiguidades, Escolhas e Interpretações Culturais

A Odisseia de Homero abre-se com um verso que se tornou emblemático da literatura ocidental: «Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ / πλάγχθη…» (Canta-me, ó Musa, o homem polytropos, que muito vagou…). O quinto termo grego, polytropos (πολύτροπον), é um epíteto que define Ulisses antes mesmo de o nomear. Composto de poly- («muitos») e tropos (de trepō, «virar», «mudar de direção», mas também «modo», «maneira», «estilo»), o adjetivo carrega uma ambiguidade profunda: pode referir-se aos múltiplos desvios físicos da viagem do herói (as «voltas» geográficas), à sua versatilidade mental (a capacidade de se adaptar, de «virar» estratégias) ou à sua astúcia polimorfa, que o torna simultaneamente herói e trickster. Essa é uma polissemia que não é acidental; o autor escolhe um termo raro e carregado para apresentar o protagonista, convidando o ouvinte (e o tradutor) a refletir sobre a natureza do homem singular que sobrevive não pela força bruta, mas pela inteligência flexível.

Ao longo dos últimos séculos, as traduções para o inglês, o alemão, o francês e o português revelam não apenas escolhas linguísticas, mas interpretações culturais, filosóficas e até ideológicas do herói. Cada versão reflete o espírito da época: o neoclassicismo do século XVIII privilegia a eloquência moral; o romantismo, a interioridade; o modernismo, a concisão; e o século XXI, a complexidade psicológica e moral. Vamos focar-nos nalguns dos exemplos nestas línguas, dando também destaque à tradução mais recente de Emily Wilson (2018), examinar como polytropos se transforma, preservando ou sacrificando aspectos do original. O que surge é um retrato de Ulisses como espelho: o homem «de muitas voltas» espelha também as voltas que a própria tradução dá ao texto antigo.

As traduções inglesas: da eloquência ao “complicated man”

As traduções inglesas ilustram a evolução da recepção de Homero no mundo anglófono. No século XVIII, Alexander Pope (1725-1726) opta por uma expansão retórica bem conhecida: «the man for wisdom’s various arts renown’d» («o homem renomado pelas variadas artes da sabedoria»). Aqui, polytropos é elevado à dignidade moral do herói iluminista, enfatizando a sophia (sabedoria prática) em detrimento das meras «voltas» ambíguas. William Cowper (1791) segue uma linha semelhante: «For shrewdness famed / And genius versatile» («famoso pela astúcia / e génio versátil»), introduzindo «versatile», que capta a flexibilidade mas suaviza a conotação de astúcia manipuladora.

No século XIX e início do XX, as versões tornam-se mais literais ou poéticas. George Chapman (1616, mas influente) e outros românticos exploram o «many-sided-man» («homem de muitos lados»). Já no século XX, Richmond Lattimore (1967) propõe «the man of many ways» («o homem de muitos caminhos»), uma das mais fiéis etimologicamente: preserva o tropos como «way» (caminho/maneira), mantendo a ambiguidade entre viagem literal e versatilidade. Robert Fitzgerald (1961) opta por «skilled in all ways of contending» («hábil em todas as maneiras de contender»), destacando o aspeto agonístico e combativo do herói. Robert Fagles (1996), em versão mais dinâmica e acessível, escolhe «the man of twists and turns» («o homem de torções e voltas»), evocando vividamente os desvios físicos e mentais com um toque de modernidade coloquial, que tornou a tradução um best-seller.

A viragem mais comentada do século XXI veio com Emily Wilson, primeira mulher a traduzir integralmente a Odisseia para inglês (2018). O seu primeiro verso é: «Tell me about a complicated man» («Fala-me de um homem complicado»). Wilson justifica a escolha em ensaios e entrevistas: polytropos sugere camadas dobradas (do latim complicare, «dobrar junto»), capturando a complexidade moral de Ulisses — astuto, mentiroso, leal, cruel, herói e anti-herói ao mesmo tempo. Não é «cunning» (astuto) nem «resourceful» (cheio de recursos), termos que idealizariam o herói; «complicated» mantém a ambiguidade mas com uma sugestão de julgamento moral, ressoando com uma leitura contemporânea que vê Ulisses como figura moralmente ambígua, marcada por trauma e manipulação. Críticos acusam o termo de anacronismo psicológico moderno (sugere «problemas emocionais», aproxima-se perigosamente de chavões do feminismo de pacotilha contemporâneo como “problemático” ou “tóxico”), mas Wilson defende que ele preserva a opacidade do original, convidando o leitor a desvendar as complicações do herói ao longo do poema. É uma escolha que não só reflete uma sensibilidade feminina mas também pós-moderna: em vez de glorificar o trickster, expõe as suas camadas contraditórias e convida o leitor a conhecê-las.

Outras versões recentes, como as de Stanley Lombardo («cunning») ou Albert Cook («of many turns»), mantêm o literalismo. Wilson destaca-se pela ousadia interpretativa, tornando polytropos um convite à reflexão ética contemporânea, que pode ser ou não um abuso face ao conteúdo original e potencialmente um anacronismo demasiado infundido pelo ar dos tempos. A historia o dirá.

As traduções alemãs: precisão e o “vielgewandter”

No contexto germânico, a tradução de Johann Heinrich Voss (1781, revista em 1793) tornou-se canónica: «Sage mir, Muse, die Taten des vielgewandten Mannes» («Dize-me, Musa, os feitos do homem muito versátil» ou «muito rodado»). Vielgewandter (de wenden, «virar») é etimologicamente próximo: capta as «muitas voltas» tanto físicas como mentais, com uma conotação de adaptabilidade pragmática que ressoa com o ideal clássico alemão de Bildung (formação). Voss, influenciado pelo helenismo de Winckelmann, equilibra fidelidade e fluidez poética em hexâmetros.

Wolfgang Schadewaldt (1958), em tradução em prosa mais académica, mantém variação semelhante: «den vielgewandten Mann», enfatizando a versatilidade sem romantizar. Outras versões do século XX tendem a preservar o composto alemão, evitando abstrações morais. A tradição alemã privilegia a literalidade filológica — polytropos como «vielgewandter» ou «vielwendiger» —, refletindo o rigor da Altertumswissenschaft (ciência da Antiguidade). Diferentemente do inglês, onde o termo evolui para interpretações psicológicas, o alemão mantém o foco na Gewandtheit (destreza), ecoando a imagem de Ulisses como protótipo do homem renascentista ou do homo faber moderno. Esta consistência revela uma receção mais estável, menos sujeita a modas interpretativas.

As traduções francesas: os “mille tours” e a ruse literária

O francês, com a sua riqueza vocabular para o conceito da astúcia, oferece variações poéticas. Victor Bérard, cuja tradução em prosa (1924-1933) se tornou referência, escreve: «C’est l’homme aux mille tours, Muse, qu’il faut me dire» («É o homem das mil voltas/tours, Musa, que deves contar-me»). «Aux mille tours» joga com o duplo sentido francês de tour (volta física e truque/ardil), capturando perfeitamente a ambiguidade homérica. Bérard, influenciado pelo simbolismo e pela arqueologia, enfatiza a dimensão aventureira e astuciosa, alinhando Ulisses ao herói mediterrânico.

Philippe Jaccottet (1955, em verso) e traduções mais recentes, como as de Frédéric Mugler ou Emmanuel Lascoux (2021), variam: «aux mille expédients» ou «le polytrope» (mantendo o grego com explicação). A tradição francesa, mais literária e menos filológica que a alemã, privilegia o encanto narrativo: polytropos torna-se sinónimo de ruse (astúcia), ecoando o espírito galo-romano de inteligência prática. No século XX, com o existencialismo e o estruturalismo, surge uma leitura mais irónica do herói «polytrope», cujos «tours» prefiguram o absurdo moderno. Diferentemente de Wilson, as versões francesas raramente psicologizam; preferem a imagem concreta do «mille tours», que mantém Ulisses como figura épica e folclórica.

As traduções portuguesas: astúcia e versatilidade no luso-brasileiro

Em português, as traduções reflectem a dualidade luso-brasileira entre fidelidade clássica e adaptação poética. O marco inicial dessa tradição é a versão de Manuel Odorico Mendes (publicada postumamente em 1928), que optou pelo nome latino Ulisses e traduziu o epíteto homérico polýtropos de forma marcante como “aquele dos mil ardis” (ou “Ulisses de mil ardis”). Essa formulação tornou-se icónica no Brasil e em Portugal, sintetizando com vigor a ideia de astúcia múltipla e engenho versátil.

Outros tradutores seguiram caminhos semelhantes. Carlos Alberto Nunes, na sua influente versão de 1941, verteu o verso como: «Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou…». «Astucioso» capta bem a mêtis (inteligência prática), enfatizando a esperteza de Ulisses sem perder o sentido de múltiplas voltas. Nunes prioriza a musicalidade épica, alinhando-se à tradição romântica portuguesa que via Homero como modelo de nobreza.

Outras versões brasileiras, como a de Mário da Gama Cury, usam “muito versátil”. Leonardo Antunes explora “o das muitas origens, o versátil / o astuto / o das muitas faces”, oferecendo alternativas que preservam a polissemia. Em Portugal, traduções como as de Frederico Lourenço mantêm opções mais literais, como “o de muitos giros”, “o multímodo” ou “o de muitos recursos”.

A tendência geral é equilibrar dois eixos: “astucioso”, “de mil ardis” ou “de muitos recursos” destacam a inteligência prática (ecoando o Ulisses camoniano de Os Lusíadas), enquanto “versátil”, “de muitos caminhos” ou “de muitos giros” preservam o sentido etimológico mais literal de polýtropos (“de muitas voltas”). Diferentemente de algumas traduções anglófonas, as versões luso-brasileiras raramente optam por termos psicológicos modernos; preferem qualidades heroicas positivas, refletindo uma leitura mais otimista do herói como símbolo de resiliência e engenho ibérico.

Conclusão: O polytropos como espelho da tradução

Ao percorrer estas traduções, vê-se que polytropos não é mero epíteto, mas um teste à arte do tradutor. As inglesas evoluem da eloquência moral (Pope) à complexidade psicológica ambígua (Wilson), espelhando mudanças culturais desde o Iluminismo até ao feminismo e ao pós-humanismo. As alemãs privilegiam a precisão etimológica («vielgewandter»), as francesas o encanto narrativo («mille tours») e as portuguesas a astúcia prática («astucioso»). Emily Wilson representa o ápice de uma certa crítica contemporânea apostada em julgar o passado com critérios do presente: ao escolher «complicated», não simplifica o herói; expõe as suas dobras, convidando-nos a questionar se Ulisses é modelo ou advertência.

Estas variações enriquecem a Odisseia. Cada tradução é uma «volta» nova: o texto antigo vira-se para o presente, revelando que Ulisses, como o poema, é polytropos — múltiplo, adaptável, inesgotável. Em última análise, traduzir polytropos é traduzir a própria condição humana: a capacidade de virar, sobreviver e reinventar-se. Homero, ao escolher esta palavra, soube que o herói não se esgota numa só versão; cada século, cada língua, encontra nele o seu próprio reflexo. Assim, o ensaio da tradução continua, infinito como as voltas de Ulisses.

Um manual incompleto para a política de Esquerda na crise da democracia-liberal

Aviso ao leitor desprevenido: um autor a escrever sobre o seu próprio livro, sem, pelo menos, um lapso de tempo significativo desde o momento da sua escrita deve gerar ceticismo em que o lê. Seja, assim, cético, leitor, pois é disso que aqui se trata.

Autor desconhecido, sem atenção da crítica literária (ainda existe tal coisa?) nem da promoção mediática que por ela passa, sem amigos famosos nem meios próprios de autopromoção, não tive como dizer que não à sugestão da Minerva ­­­­­­– Revista Universitária e abandonar a vergonha e os escrúpulos e ser recenseador em causa própria.

Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida, eis o nome da obra em questão, audaciosamente publicada pela independente e voluntarista Zigurate no passado mês de abril. Dada a inusitada situação de autopromoção elevada a artigo académico, ou vice-versa, parto para este artigo com uma abordagem peculiar: atiro-lhe, leitor, perguntas exploratórias, respondo e explico. Faço a festa, atiro os foguetes, apanho as canas. A relação de tais especulações com a obra em questão ficará para o fim, sendo neste caso a dita cuja mais pretexto do que objeto.

Questiono, então:

«Está caduco o modelo político democrático-liberal? Se, sim, significa isso a inevitável ascensão ao poder de projetos autoritários de direita, ou pode a esquerda, em determinadas condições, disputar a brecha aberta pela falência de tal modelo?»

Começando pelo fim e incorrendo no spoiler: sim e sim. Assim respondo às questões enunciadas. Vamos por partes.

O modelo democrático-liberal vive uma crise profunda (o que não significa necessariamente irreversível, mas certamente de difícil recuperação). Haverá diversos motivos para tal, interligados entre si numa espiral de retroalimentação. Eles são, sem ordem de importância: a) o fim da centralidade do Ocidente como eixo do desenvolvimento económico e político do sistema internacional de estados; b) a rutura do contrato social vigente desde o pós-Segunda Guerra nas democracias-liberais; c) a progressiva extinção das classes médias, não apenas como segmento social, mas sobretudo como estrato ideológico e cultural legitimador do modelo democrático-liberal; d) a ascensão de correntes políticas autoritárias conservadoras, que sendo consequência das primeiras duas variáveis, intervém posteriormente sobre elas, aprofundando-as, usando parte dos estratos sociais órfãos nascidos da variável c) como base política e eleitoral de choque; e) a emergência de uma nova esfera pública global, apelidada levianamente de «redes sociai», controlada, manipulada e transformada em terreno para extração quase infinita de valor por uma ultraminoritária clique ubercapitalista conhecida como «oligarquia digital», esfera esta que tende a substituir, ou pelo menos subordinar, a «sociedade civil» tradicional que oxigenara, mais ou menos, os interstícios sociais e políticos das democracias liberais.

Cada um destes pontos dava, não um artigo específico, mas um livro — ou um doutoramento, uma cátedra ou até mesmo uma Universidade própria. Nas suas reflexões sobre o tema e para chegar às conclusões aventadas nas cinco alíneas enunciadas, o autor destas linhas e da obra que, passe o desvio, é objeto deste artigo, alimentou-se enormemente de autoras e autores como Nancy Fraser, Richard Seymour, Esteban Hernández, Jacques Rancière, Didier Eribon e Giovanni Arrighi.[1] É lê-los. Mas um zapping por telejornais avulsos, um scroll enviesado pelo ragebait algorítmico, uma conversa de café no subúrbio ou um passeio pelo centro gentrificado de Lisboa, se munidos das lentes e abertura de mente necessárias e treinadas para o efeito, empurram-nos na mesma direção.

Podemos só, em jeito de parêntesis, acrescentar que os elementos acima enunciados sob a forma de sintéticas alíneas não apenas se refletem na nossa lusa pátria, como, sobretudo, que não nela particularmente agudos. Sendo esta uma nação inaugural dos desenvolvimentos históricos que ajudaram a deslocar para o centro do mundo a periférica e fragmentada Europa há uns quinhentos anos; o último dos impérios coloniais a cair, com estrondo revolucionário ainda para mais, após uma longa e agónica decadência; uma democracia-liberal tardia, montada em contraciclo, nos alvores do movimento neoliberal global, destruidor do contrato social que subjaz a tal modelo; e um dos países da Europa e do Mundo mais afetados pela engenharia social financeirizante operada como fuga em frente da grande crise do capitalismo global de 2008, que tomou forma nestas paragens como a chamada «crise das dívidas soberanas» – sendo Portugal tudo isto e até mais, é palco e laboratório particularmente expressivo da crise da democracia-liberal que aqui tratamos.

Ora, não podia isto deixar de influenciar a forma de fazer política. A própria ideia de Esquerda e Direita – que o autor não decreta como ultrapassada, mas certamente merecedora de reinterpretações – surgiu da e com a democracia-liberal ocidental que aqui diagnosticamos em crise. Na verdade, mais do que este modelo de governança e dominação, toda a uma cultura assente em mediações de classe apresentadas como universais se encontra questionada: a ciência, o jornalismo, a literatura, a academia, entre outras. Difícil é encontrar uma esfera da sociedade civil que não padeça do que se apresenta como uma desconexão conflituosa entre representantes e representados, base e superestrutura, ideologia e realidade material concreta. É como se o mundo se tivesse movimentado tão rapidamente que a inércia das camadas superiores organizadoras da sociedade se tivesse tornado tão pesada e evidente que, permitindo-se ultrapassar pela aceleração do desenvolvimento material das coisas, deixou expostas em carne viva as feridas mal cicatrizadas do capitalismo global e das suas maleitas inerentes: a desigualdade, a guerra, a alienação, a devastação ecológica. O que sobra? Muitos e confusos fragmentos, uma ordem política e social que tenta sobreviver adaptando-se, uma intensa procura de significação política e até ética das massas populares deixadas para trás. Em suma, luta de classes. Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida mais não é do que uma abordagem inicial, incompleta, provocatória, experimental e salpicada de ironia e humor de como pode a Esquerda adaptar-se a esta realidade fluída e desconcertante.

Porquê a Esquerda? Por que é nela que se localiza o autor, marxista heterodoxo como só se pode ser nos dias de hoje. E porque as direitas estão mais avançadas nesse processo de adaptação, o que explica, em grande medida, o seu sucesso presente. Isto dito, desengane-se quem anteveja nesta proposta uma saída autoritária para a crise do modelo democrático-liberal. Pelo contrário, procura-se, de um modo provocador e bem-humorado, estabelecendo pela escrita em jeito de autoajuda uma relação dialética entre conteúdo e forma da própria obra, reinscrever a Esquerda portuguesa numa tradição crítica que aponta a este modelo liberal as suas limitações democráticas e não eventuais «excessos», como pretenderão alguns.

Se tal aventura teórica-política, ainda para mais embrulhada numa inusitada inspiração (auto)irónica em diálogo com a literatura de autoajuda é útil ou sequer legível… bom, isso caberá aos leitores de decidir e não ao autor – apesar de tudo, há limites. É lê-lo e opinar.

  1. Sem cumprir o cânone da referenciação, mas indo além do bacoco name dropping:

    Nancy Fraser é autora do recém-traduzido e publicado entre nós Capitalismo Canibal, da Antígona, onde aprofunda a combinação entre as crises ecológica, da reprodução social do trabalho e da representatividade liberal.

    Richard Seymour é um marxista norte-irlandês e o seu Disaster Nationalism – The downfall of the liberal civilization da Verso Books, aborda o tema que fica evidente no título de uma forma original. Parte do argumento que desenvolve pode ser encontrado aqui.

    Esteban Hernandez é um jornalista espanhol que tem publicado inúmeros longos ensaios em que analisa de forma cirúrgica e particularmente inspirada a crise das sociedades ocidentais. Destaco o seu livro El nuevo espiritu del mundo: politica e geopolítica na era Trump, da castelhana Deusto.

    Jacques Rancière dispensa apresentações, mas destaco, dentro do tema aqui tratado, um livrinho chamado O ódio à Democracia, traduzido para português do Brasil pela Boitempo.

    O Regresso a Reims, de Didier Eribon, da Dom Quixote, é uma leitura incontornável para pensar o lastro político e cultural das novas direitas nas massas populares e trabalhadores marginalizadas pela globalização neoliberal.

    Adam Smith em Pequim, mais um inédito em Portugal, falha editorial quase criminosa e sintomática, de Giovanni Arrighi, entre muitas outras coisas, analisa o longo movimento de perda de centralidade do Ocidente no contexto de ascensão da China. Está publicado em português do Brasil pela Boitempo.

A crítica de Raul Proença ao integralismo lusitano

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Introdução

Este artigo promove o debate em torno da historiografia e da filosofia política portuguesa, referindo as críticas ao integralismo lusitano por parte de Raul Proença e a respetiva crítica ao seareiro, por parte de António José de Brito. Pretendo mostrar os argumentos de Proença sobre este tema, pois foram os que vingaram na análise historiográfica sobre o integralismo, quando muitos dos estudos em torno deste movimento tiveram a atenção académica. Isto porque Proença desenvolveu os seus argumentos enquanto polemista e escritor político na Revista Seara Nova, e mesmo a crítica de Brito surge num contexto em que este autor escrevia filosofia política fora do contexto académico, mas apenas enquanto interessado neste movimento e noutros abordados numa fase inicial da sua carreira, como o caso do fascismo, do nacionalismo e das críticas à democracia.

A crítica de Proença ao integralismo lusitano

As doutrinas do integralismo, para Raul Proença, podem-se distinguir na contraposição entre a política das ideias e a política dos fatos. Proença separa a política dos fatos da política das ideias, sendo esta última, por exemplo, a democracia, pois não atendia a uma experiência histórica (Proença, 1964, p. 7) — quando Proença escreveu os seus textos sobre o integralismo, em 1921, a democracia já era uma experiência histórica estabelecida há mais de um século, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra. Para Proença, a democracia representava a violação dos fatos concretos, refletindo um desrespeito pela vida das nações e simbolizando a insurreição da razão contra a realidade. O livre exame aniquila todas as disciplinas tradicionalistas, fazendo tábua rasa do passado; mas o livre exame é o gérmen da anarquia, sendo dissolvidos os dogmas. «As normas que dirigem uma sociedade deixam de ser o fruto de uma longa experiência secular, para ser fantásticas abstrações dos cérebros individuais» (Proença, 1964, p. 8). Proença comete o erro de considerar o livre exame como fazendo tábua rasa do passado. Com esta posição, o autor descura a história e as ideias políticas, aderindo a uma determinada visão que descura as consequências do passado.

A filosofia do fato dos integralistas leva ao desconhecimento das verdadeiras realidades sociais. O mundo do fato é o mundo da matéria e de resistências, oferecendo às ideias um sem-número de limitações infrangíveis; sem essa ideia, cai-se no mundo platónico das ideias (Proença, 1972, p. 72).

Na dicotomia entre a política de facto e a política de ideias, o integralismo lusitano acaba por se autonegar como pensamento político ou cai num idealismo extremo (Cunha e Bernardo e Barros e Henriques, 1987, p. 8). Segundo a perspectiva de Raul Proença, o fato confunde-se com o dado material, essa materialidade opõe-se à idealidade; o mundo do fato é o mundo da matéria; o fato é próximo do que se apresenta sempre no presente, sendo que a perspectiva integralista é distinta deste argumento que se refere ao predomínio do espírito sobre a matéria. A política do fato não impõe à realidade as ficções do espírito, já a política de ideias é das ideias vazias, desenraizadas, sem se relacionar com a realidade. A política de ideias é a política do liberalismo, do absolutismo e do democratismo, impondo princípios à sociedade portuguesa que lhe são estranhos; os integralistas afirmam-se defensores da evolução, da tradição, baseados na experiência e assumem a reatualização da verdade portuguesa (Cunha e Bernardo e Barros e Henriques, 1987, pp. 9-12).

A república é o regime no qual as instituições são impostas pela razão, com a índole de diversos povos; a monarquia é o regime de facto, sendo as suas leis produtos particulares de cada nação (Proença, 1964, p. 12). Entendo que há problemas nesta definição de Proença, especialmente quando associa a democracia à razão e a monarquia ao fato. Por exemplo, a teoria da origem do direito divino era uma tentativa de justificar a monarquia, contendo o apelo a argumentos racionais — este é um contraexemplo que refuta o argumento de Proença. Não há regimes políticos de facto e da razão, pois todos os regimes são contingentes, dependendo das razões para a sua criação e do seu desenvolvimento. Os regimes podem ter bases racionais, ou pelo menos justificações e fabulações teóricas — independentemente das suas origens terem fundamentos sólidos ou não.

O nacionalista olha para a sua nação e para a raça, abordando diferenças irredutíveis, defendendo originalidades inerentes, como os costumes e as tradições (Proença, 1964, p. 21). O nacionalismo e a democracia foram importados, ou seja, não foram ideias que se desenvolveram em Portugal (Proença, 1964, p. 23). Neste caso, Proença enuncia as teses integralistas. No entanto, mesmo quando se olha apenas para as tradições e os costumes, podemos ver que nem todos valem o mesmo, que há tradições e costumes que podem ser aceites e outros que podem ser rejeitados. A sociedade pode ter evoluído de uma determinada maneira, de tal modo que certos valores, certas tradições e certos costumes possam ser postos em causa, mas é preciso olhar para o caso concreto e verificar em que medida é que certos valores, tradições e costumes devem ser rejeitados ou aceites. Mesmo a monarquia pode ser aceite, pois não estamos a referir um regime monárquico autoritário, nem mesmo a tradição integralista levaria para esse aspeto.

A democracia pode ter aspectos nacionalistas, não é incompatível, como pensa Proença, com um nacionalismo agressivo (Proença, 1964, p. 94), mas com um grau de nacionalismo baseado na ideia de Estado-Nação, da língua ou na distinção nacional. Numa dada democracia, é possível a participação de partidos políticos ou associações da sociedade civil de inspiração nacionalista. Por exemplo, os partidos nacionalistas em Espanha são uma forma do nacionalismo num regime monárquico constitucional.

A monarquia, segundo os integralistas, fundamenta-se em princípios tradicionalistas, na qual a sua defesa é vista como a expressão do apego às tradições e valores históricos. Proença associa o integralismo lusitano à Action Française, argumentando que as críticas formuladas pelos integralistas já haviam sido desenvolvidas e analisadas previamente em França (Proença, 1964, pp. 24–25). Proença comete a falácia da falsa analogia, pois não aponta as diferenças entre os dois movimentos, por considerar que são iguais; também comete a falácia da associação, que se refere à crítica da Action Française e, consequentemente, critica o integralismo, não os distinguindo; é problemático criticar a Action Française se não houver uma análise detalhada das ideias integralistas. O argumento de Proença, além de fraco — o facto de uma teoria ter inspirações em França —, não se segue que todo o integralismo tenha surgido apenas nos argumentos franceses; o autor descura os argumentos contrarrevolucionários e legitimistas portugueses do final do século XVIII e XIX, ou dos teóricos das Cortes Gerais de 1641. O argumento do autor é uma condição insuficiente e insatisfatória para a crítica ao integralismo.

O historiador Stewart Lloyd-Jones segue o argumento de Raul Proença, considerando que o integralismo tem raízes e inspirações na Action Française (Lloyd-Jones, 2003, p. 94). Os inimigos da Action Française são os mesmos inimigos dos integralistas em Portugal, até porque o constitucionalismo português, do século XIX, tem inspirações em França, a ideia contrarrevolucionária também começa em França e foi importada para Portugal (Lloyd-Jones, 2003, p. 96). Existem diferenças de métodos entre o integralismo e a Action Française, sendo o caso português algo pragmático e não se importando de influenciar um governo republicano liderado por Sidónio Pais, ao contrário do movimento francês (Lloyd-Jones, 2003, pp. 101–102). Além das diferenças de estilo, existem as diferenças culturais e uma flexibilidade no movimento português, por exemplo, no apoio a líderes autoritários republicanos como Pimenta de Castro ou Sidónio Pais, que não seria aceite no movimento francês (Lloyd-Jones, 2003, pp. 102–103). Não há problema em seguir os argumentos de Proença críticos do integralismo; o problema fulcral é que este comentador, que escreveu quase um século depois do seareiro, não percebeu os problemas das críticas feitas por este autor ao integralismo, nem tenta refutar as críticas feitas por António José de Brito (que abordarei em baixo) ao filósofo português. Um historiador, independentemente de simpatizar com um determinado movimento, deveria atender aos argumentos dos integralistas e aos fundamentos das suas teorias, para posteriormente as poder criticar.

Proença faz uma alusão a apenas um texto de Maurras Enquête sur la Monarchie, considerando que quando os integralistas portugueses desejam a «Monarquia Orgânica, tradicional e antiparlamentar», já Maurras falava em «Monarquia Hereditária e Tradicionalista, antiparlamentar e descentralizada» (Proença, 1964, p. 26). Existe uma contradição dos integralistas, que querem negar a influência francesa na cultura portuguesa, no entanto, adotam o sistema integral francês, quase na totalidade; relativamente à política, esta é a da verdade, que se encontra presente nos dois sistemas ou nacionalismos; relevando a ausência de iniciativa individual, pois não há uma crítica original à democracia (Proença, 1964, pp. 31–32). Na imitação dos integralistas pelos nacionalistas franceses existe o ódio aos judeus, que, na opinião de Proença, teria algum sentido em França, mas não em Portugal (Proença, 1964, p. 33). O argumento de Proença levanta problemas: o ódio aos judeus não tem fundamento sólido, independentemente do país onde se insere; o antissemitismo não tem fundamentos filosóficos; o autor não distingue ambos os movimentos, por essa razão não defende as respetivas diferenças; relativamente à crítica à democracia, não há um argumento estruturado e inovador para criticar a democracia, no entanto, o objetivo dos integralistas era apenas opor-se-lhe, por essa razão não estruturaram os argumentos críticos. No entanto, por não estruturar os argumentos contrários à democracia, demonstra a inconsistência integralista. Entendo que nem todas as teorias políticas implicam uma ideia original; o desenvolvimento metodológico dos integralistas não é explorar a teoria da democracia, mas oporem-se, por essa razão não é essencial que a sua visão seja inovadora. É fundamental que as interpretações e influências, no desenvolvimento dos argumentos integralistas, sejam originais — esse aspeto foi descurado por Proença.

«Podemos dizer, sem ofensa para as suas pessoas e com o mais absoluto respeito pela verdade, que nunca houve em Portugal geração ou facção alguma que se revelasse intelectualmente tão servil como este partido de aristocratas» (Proença, 1964, p. 35). Existe uma falha no argumento do seareiro quando se refere ao partido dos aristocratas, pois o integralismo visava restaurar Portugal pelo nacionalismo e pela monarquia; a outra falha ocorre no termo «partido dos aristocratas», pois nem foi partido, nem foi fundado por aristocratas (com a exceção de Alberto de Monsaraz).

Existe uma contradição no nacionalismo integral e no integralismo lusitano: embora se apresentem como correntes anti-racionalistas, tratam a monarquia como um teorema, colocando a razão acima da tradição (Proença, 1964, pp. 36–37). No entanto, essa interpretação é equivocada, pois os integralistas defendem que a tradição ocupa o primeiro lugar, e a razão é utilizada apenas para reforçar a primazia da tradição, não para sobrepujá-la.

No plano das ideias, os integralistas invocam a tradição, mas apenas tradição que lhes convém; por exemplo, a tradição é sempre má quando não é monárquica, o nacionalismo é sempre mau quando é democrático; neste caso, entram em contradição (Proença, 1964, p. 39). O problema do argumento de Proença é a sua interpretação filosófica e política; não existe nenhuma contradição no seio integralista, ao rejeitarem os princípios da Revolução Francesa, do liberalismo e da democracia, por essa razão é que certas tradições são descuradas ou nem chegam a ser consideradas.

«O Integralismo é, pois, obrigado, para precisar o sentido do seu tradicionalismo, a fazer uma selecção das tradições segundo o critério duma certa doutrina política» (Proença, 1964, p. 45). Neste caso, relativamente à tradição parlamentar, os integralistas preferem a tradição antiparlamentar. É importante ressaltar que os integralistas defendiam a monarquia tradicional ou tradicionalista; por essa ordem de ideias, não defendiam determinadas tradições que seriam alheias ao pensamento do movimento, neste caso não há contradição da rejeição de certas tradições, pois se afastam do seu ideal.

Os integralistas cometem outro erro de análise ao se apegarem excessivamente a certas ideias, acabando por ignorar o movimento da história. Por exemplo, aplicam uma interpretação anacrónica e ucrónica à história da democracia, que, segundo Proença, deriva das forças ideológicas originadas na Revolução Francesa (Proença, 1964, p. 47). Essa visão, que se baseia num ideal progressista e otimista inspirado pelo Iluminismo, é desmentida pelos acontecimentos do período entre guerras. Embora Proença mencione a Revolução Francesa, ele negligencia a importância e a contribuição democrática da Revolução Americana, possivelmente por estar influenciado pelas interpretações da filosofia francesa. Ao vincular a história da democracia exclusivamente à Revolução Francesa, Proença comete um erro de interpretação, uma vez que esses conceitos são amplamente refutados e rejeitados pelos integralistas.

Os regimes políticos duram devido a vários fatores, nomeadamente através das condições da sociedade; o integralismo iria contra as condições da sociedade, pois alteraria as dinâmicas sociais, por essa razão as democracias têm tendência a durar, ao contrário do integralismo. Nas democracias existe uma crescente modificação como a divisão do trabalho, a indústria, a vulgarização da ciência, o desenvolvimento da instrução popular, a interdependência das nações, a aproximação com o telefone e os trens (Proença, 1964, pp. 48–49). No entanto, mesmo que a democracia seja aceitável, não significa que devemos considerar os argumentos de Proença, pois os desenvolvimentos tecnológicos podem ser exportados para regimes autoritários; também podemos pensar o contrário, certos desenvolvimentos tecnológicos podem passar dos regimes autoritários para as democracias, não violando as regras do estado de direito.

Para Proença os integralistas entendem que a democracia e nação, democracia e justiça, democracia e exército, democracia e autoridade se excluem (Proença, 1972, p. 45), mas tal expressa-se pelo uso indevido da lógica e dos conceitos políticos; a democracia relaciona-se ou pode-se relacionar com a justiça, com o exército, com a autoridade ou com a nação.

Um democrata, para Proença, pode ser tão patriota como os integralistas (Proença, 1972, p. 102), no entanto, este aspeto demonstra a fragilidade do pensamento integralista. O patriotismo é compatível com a democracia, ao haver patriotas democratas. O nacionalismo português descurou o estado de paz internacional, das mais belas e gloriosas tradições nacionais, daí o argumento de Proença defender a doutrina internacionalista, opondo-se ao nacionalismo (Proença, 1972, p. 108). Proença poderia criticar os argumentos nacionalistas portugueses sem defender o seu oposto, o internacionalismo. Criticar os argumentos nacionalistas não significa defender, necessariamente, o internacionalismo; neste sentido, a sua solução revela-se problemática. Para os nacionalistas a palavra tradição refere-se a tudo o que é histórico; ao contrário, para Proença tem um significado etimológico, fecundo e histórico da palavra, sendo a tradição aceite na democracia e não a que está baseada apenas na história, como pensam os integralistas (Proença, 1972, p. 247).

De acordo com Proença (1972, p. 80), os reacionários tendem a interpretar os conceitos de liberdade e igualdade de maneira puramente teórica e metafísica, o que os leva a tratá-los como ideais abstratos, desvinculados da realidade concreta. O reacionarismo não conseguiu estabelecer um Estado social porque isso exigiria mais do que uma simples mudança nas formas de governo; seria necessário transformar profundamente a natureza humana e criar uma humanidade. Proença (1972, p. 195) argumenta que a reação prometeu algo que não poderia cumprir. Em vez de se concentrar na criação de um Estado social, os reacionários focaram em outras prioridades e, tanto na época de Proença quanto atualmente, existem regimes reacionários que não buscam alterar a essência humana ou criar uma humanidade.

Os argumentos de Raul Proença contra o integralismo falham, principalmente por uma compreensão inadequada do movimento. É comum que uma filosofia política tenha diversas influências de outras correntes de pensamento, já que nenhuma ideia surge no vácuo. Proença, no entanto, confunde a monarquia tradicionalista defendida pelos integralistas com a monarquia absoluta. Mesmo que o integralismo tenha problemas filosóficos, a crítica de Proença carece de clareza e falha em oferecer uma compreensão precisa do integralismo. As críticas de Proença seriam precisas se o autor tivesse em atenção os fundamentos do integralismo, mas esta ideia é extensível a todos os críticos do integralismo que partem de uma defesa do republicanismo, mas não descuram os problemas elencados pelos integralistas, como o caso da partidocracia, que se aplica a Portugal desde a revolução liberal no século XIX.

O filósofo António José de Brito critica a visão de Proença, que via o integralismo como um movimento voltado para a aristocracia. Argumentando que, para tal caracterização ser válida, seria necessário um conhecimento profundo da tradição portuguesa desde a fundação da nacionalidade. Ele compara essa crítica às objeções de Parodi contra Maurras e sua escola (Brito, 1965, p. 129). No entanto, a crítica de Brito é problemática, ao ser comum que os filósofos se influenciem mutuamente, inclusive para criticar outros pensadores ou movimentos. Proença utilizou Parodi como referência para criticar Maurras e o integralismo lusitano, enquanto também se baseou em influências da filosofia francesa, mas acusou os integralistas de serem influenciados pela tradição monárquica francesa.

Não é exato quando Proença associa o integralismo ao puro fato (Brito, 1965, p. 131). De um modo semelhante, ao abordar um determinado nacionalismo, não implica que se vá contra os restantes nacionalismos, pois o integralismo «jamais fez da própria raça uma realidade absolutamente diferenciada ou opôs a sua Nação a todas as nações do mundo» (Brito, 1965, p. 133). A propósito da citação de Brito, é possível contra-argumentar que, por vezes, as diferenças entre os nacionalismos são tão grandes que poderá existir uma guerra entre duas nações que apregoam valores nacionalistas distintos.

Por fim, o argumento de Brito sobre Proença revela uma leitura atenta, quer seja de Maurras, quer seja dos textos dos integralistas, existindo bases filosóficas que não foram suficientemente desenvolvidas pelo seareiro, quando este considera que a contrarrevolução é solidária com o positivismo, no entanto, não desenvolve o argumento do empirismo da contrarrevolução, não indo ao cerne das ideias nacionalistas (Brito, 1965, pp. 140–141).

Ao mesmo tempo que Proença critica a atitude racista dos integralistas, nos seus panfletos políticos acaba por ser influenciado pelo racismo de Julien Benda a propósito de Israel, ao partir do conceito determinístico e biológico (Brito, 1965, pp. 142–143).

O integralismo nos seus primórdios era amplamente factualista, ao contrário da Action Française que nunca o foi (Brito, 1965, p. 147). A crítica dos integralistas não é tout court ao romantismo em geral, pois distinguiam o romantismo francês do português (Brito, 1965, p. 150). Brito entende que as críticas ao integralismo por parte de Proença são falaciosas (Brito, 1965, p. 153), como atrás demonstrei.

Numa crítica a Brito, o historiador Armando Silva nega que as contrarrevoluções se baseiem na lição dos fatos, quer seja da experiência e da construção racional, típica dos democratas e dos revolucionários, neste caso baseando-se na ambiguidade de Maurras onde o experimentalismo, em vez de ser o fundamento da contrarrevolução, é o espaço onde esta perece (Silva, 1982, pp. 451–452). Brito também se dedicou a fazer uma crítica sistemática das inconsistências, equívocos e lacunas da crítica ao integralismo por parte de Proença (Silva, 1982, p. 461). Brito critica Proença quando o último aborda a filosofia do fato de Maurras, pois o texto do filósofo francês não dissipa as dúvidas do positivismo, mas contradiz a «tese da experiência» desenvolvida pelo seareiro (Silva, 1982, p. 462). Silva (1982, p. 462) comete o erro de interpretação sobre Brito, considerando que se trata de um autor neointegralista, quando a melhor caracterização do seu pensamento é de fascista contrarrevolucionário (Marchi, 2009, p. 395). O argumento de Armando Silva permite explicar o pensamento de Brito em torno do integralismo, sendo elaborado na filosofia do fato. O problema do comentador é não desenvolver um argumento sistemático e inovador sobre a filosofia de Brito, tendo, no entanto, o mérito de considerar o seu pensamento, porque tem importância para o estudo do integralismo.

Conclusão

Neste breve artigo demonstrei as inconsistências e problemas da análise crítica de Raul Proença ao integralismo, quer fosse baseado nos seus escritos e sua interpretação, quer fosse baseado num artigo de um historiador sobre o mesmo tema. Mesmo as críticas sistematizadas a Raul Proença por parte de Brito poderiam ter uma resposta adequada, fundamentada e sistemática. Nos estudos sobre Brito não há uma análise profunda dos seus argumentos em torno do integralismo lusitano, a saber, se este autor faz uma análise adequada dos princípios e fundamentos deste movimento político.

Termino considerando que as críticas de Proença ao integralismo falham, não significa que este movimento, que entendo como uma filosofia política, seja defensável, mas é necessário perceber as ideias e posteriormente as críticas que podem ser feitas. Mesmo que não partilhe a adesão ao integralismo, entendo que a crítica de Proença falha, ao contrário daquela defendida por António Sérgio.

Bibliografia

Brito, António José de, Para a compreensão do pensamento contra-revolucionário: Alfredo Pimenta, António Sardinha, Charles Maurras, Salazar, Hugin Editores, Lisboa, 1996.

Brito, António José de, Reflexões acerca do Integralismo Lusitano, Editorial Verbo, Lisboa, 1965.

Cunha, José António & Bernardo, Luís Manuel & Barros, Maria Nazaré & Henriques, Mendo Castro, A Filosofia Política no Integralismo Lusitano, Universidade Católica, Lisboa, 1987.

Lloyd-Jones, Stewart, «Integralismo Lusitano: “Made in France”?», Penélope, n.º 28, (2003): 93–104.

Marchi, Riccardo, Império, Nação, Revolução — As Direitas Radicais Portuguesas no fim do Estado Novo (1959–1974), Texto Editores, Alfragide, 2009.

Proença, Raul, Acerca do Integralismo Lusitano, Edições Seara Nova, Lisboa, 1964.

Proença, Raul, Obra Política de Raul Proença — Volume 1: Páginas de Política, Prefácio de Camara Reys, Seara Nova, Lisboa, 1972.

Silva, Armando Barreiros Malheiro da, «Leonardo de Coimbra e o Integralismo Lusitano», Bracara Augusta, Revista Cultural da Câmara Municipal de Braga, vol. XXXVI, (janeiro–dezembro) n.º 81–82, (1982): 433–489.

Sobre Perfumes e Poemas

“The sense of smell” de Jan Brueghel and Rubens

No primeiro dia houve luz.
E, com ela nasceu também a possibilidade de espanto.
Deu Deus forma ao caos, separou mares, ergueu montanhas, acendeu os astros e encheu de vida toda a Terra.
Mas só ao criar o Homem surgiu algo de verdadeiramente novo, um olhar capaz de contemplar toda a beleza da Sua obra.
Deus exulta, e finalmente descansa.

Talvez tenha sido aí que nasceu a arte, não no instante da criação, mas no primeiro momento em que é contemplada.
Quando o belo deixou apenas de existir e passou também a ser visto, sentido.

Desde então que o Homem tenta replicar este milagre à sua escala, capturando o invisível, traduzindo as emoções e procurando representar a realidade à medida com a qual a compreende.
Das pinturas rupestres às canções de amor, faz-se arte com tinta, com pedra, com o próprio corpo,com palavras cantadas, com palavras escritas, e alguns tipos de arte caminham lado a lado na mesma procura pelo divino.

Hoje vou falar-lhe sobre o que gosto de chamar “Poesia olfativa”.

Como o poema adorna o pensamento, o perfume adorna o espaço.

E a perfumaria é criada pelos Egípcios, que começam a queimar resinas e óleos aromáticos, mirra e kyphi nos seus rituais, procurando, sempre acompanhados de hinos e recitais, enebriar-se entre ritmos e aromas num estado meditativo que os aproximasse do divino.

Encontramos este fenómeno esotérico nos primeiros momentos ora da poesia, associada aos ritos e à palavra cantada ora do perfume extraído das matérias primas disponíveis usado com o intuito de elevar o ambiente aos campos celestiais invisíveis.

E é com esta ponte que se desenvolvem ambas as artes, tanto nos seus propósitos como nas suas partes.
O poema, como o perfume, deve acima de tudo fazer-nos sentir, deve remeter-nos para um qualquer momento, lugar ou memória.
A sua estrutura, a conjunção das palavras e as rimas, muito se assemelha à construção por notas.
Nas notas de topo, geralmente o frescor que nos activa os sentidos, bergamota, lima, lavanda…assim como um primeiro verso que nos desperta o interesse.
Nas notas de corpo, uma dança entre ingredientes diferentes, das frutas às notas sintéticas de chocolate, a baunilha, as flores, são estes os versos que conferem personalidade ao poema, que o destinguem dos outros, que o tornam marcante.
E por fim as notas de fundo, geralmente as madeiras, os incensos, o âmbar, é o que permanece na pele por longas horas após aplicado o perfume, e que de pele para pele, de ph para ph se traduz num aroma único a cada um, como os tercetos de um soneto que condensam em si todas as quadras, uma interpretação que guardamos íntimamente, por vezes para sempre, e que é nossa somente.

Ler um poema é realmente como borrifar um perfume, quando tomamos o tempo para explorar este paralelo. Os perfumes são desenhados, nesta dança de notas, para assim como a dança de palavras propõe, remeter-nos a coisas que não se explicam, mas que são comuns ao Homem.
Sabemos o que é o “cheiro de casa” que não cheira a nada em particular mas se o sentirmos é a nossa casa que voltamos.
Sabemos a que sabe a traição de Duncan em “MacBeth”, porque não sendo nem um nem outro personagem, ao lermos as palavras saem da nossa memória “arquivos” quase palpáveis de momentos que vivemos.
No fundo, ambas as artes trabalham com a nossa imagética mais íntima, com as nossas interpretações próprias, com o conteúdo da alma, quando fechamos os olhos para ouvir o fado, para cheirar uma flor, e mesmo assim sentimos algo que pode não ser um fado nem uma flor.
Pode muito bem ser um qualquer dia em que passeámos por um jardim, em que ouvimos a rádio, em que as palavras e as flores nos disseram qualquer coisa.
E como os ritos dos Egípcios, se assim o quisermos, ainda de olhos fechados podemos vislumbrar o belo e o divino, criado com a Luz, com a forma, com o Homem – capaz de apreciar tudo isto.

Rudolf Ernst “The Perfume Makers”

Poderia acrescentar que, não caminhassem estas artes de mãos entrelaçadas, não teríamos em tantos poemas o uso da descrição da natureza, do fumo, da chuva, do mar, e a própria mênção do perfume como modo de vivificar os símbolos e as imagens transmitidas.

Antero de Quental, na sua obra, faz muitas vezes esta ligação, usando o perfume para transmitir a sensualidade, o amor, a devoção espiritual e a saudade.

“Há-de ecoar, e teu perfume extremo
No vácuo eterno se esvairá disperso…”
-de Espiritualismo

“O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente…”
-de Sonho Oriental

“Perfumei-o de almiscar recendente;
[…]
Ungi as mãos e a face com o nardo”
-de Visita

E talvez seja precisamente por isso que continuamos a escrever poemas e a criar perfumes: porque há experiências humanas que recusam permanecer apenas no pensamento. Precisam de corpo, de forma, de presença.
Tal como o perfume deixa um rasto invisível que permanece mesmo depois da ausência, também a poesia continua a ecoar muito para além do último verso. Nenhum se limitando a existir, ambos exigem ser sentidos. E é nesse território íntimo, entre a memória e a sensação, entre o visível e o invisível, que estas artes se encontram.
Diria que a poesia olfativa seja isto: a tentativa profundamente humana de transformar o efémero em eternidade. De fixar emoções que não cabem na linguagem comum. De criar, ainda que por instantes, uma ponte entre o sensível e o divino.
Porque desde o primeiro dia, quando houve luz e alguém capaz de a contemplar, a arte nunca deixou de ser isso mesmo: uma forma de o Homem responder à beleza da criação.

As Humanidades Digitais na Divulgação da Literatura Feminina

ESCRITA(S) NO FEMININO, por Ana Paula Santos, Licenciada em Humanidades (Universidade Aberta), Mestranda em Estudos de Língua Portuguesa (Universidade Aberta). Projecto: Senhoras das Letras (Instagram e Facebook). Email aqui.

Miss Auras, The Red Book

Sir John Lavery, c. 1905-7

As Humanidades Digitais na divulgação da Literatura Feminina

Humanidades e Humanidades Digitais

A área das Humanidades encontra-se em franca expansão, movendo-se entre terrenos plurais e utilizando procedimentos diversos, enquanto combina o meio digital com as metodologias tradicionais. Permite, sem dúvida, a (co)existência de novas formas de investigação, mas também de análise e de disseminação do conhecimento, num processo onde a relevância das fontes originais não é esquecida, antes pelo contrário.

“Em termos genéricos, as Humanidades Digitais englobam o conjunto de pesquisas e experiências que visam facilitar a utilização dos recursos digitais no âmbito das ciências sociais e humanas, tornando-os mais intuitivos e acessíveis” (Guerreiro e Borbinha, 2014: 64). Face a este propósito, muitos projectos digitais de âmbito literário têm surgido – em particular na última década –, com o propósito de tornar acessível e igualitária a oportunidade de acesso a obras literárias, quer sejam desconhecidas, quer sejam obras de referência. Deste modo, suprimem-se barreiras de vários tipos, principalmente limitações geográficas, para além de se manter o foco na preservação das fontes históricas.

Enquadramento

O presente artigo tem como base a reflexão integrada no II Congresso Internacional de Humanidades da Universidade Aberta[1], em 2025, onde tive a oportunidade e a honra de apresentar a comunicação “Os recursos digitais no resgate das autoras do passado”. O objetivo da mesma era relativamente simples: revelar de que forma os recursos digitais têm proporcionado a descoberta de elementos biográficos, assim como dos textos originais de escritoras portuguesas desconhecidas ou pouco divulgadas, de forma a trazê-las de volta ao espaço público. Tal ligação proporciona às autoras um merecido destaque, quer no panorama literário, quer a nível académico, concretizando-se, por fim, um verdadeiro resgate. E este resgate é, sem dúvida, necessário, na medida em que se constitui como uma preciosa colaboração para a História Portuguesa e para a Literatura Portuguesa. Aliás, arrisco a afirmar que devemos isto à nossa própria história, pois faltam as perspectivas femininas, as suas vozes e os seus anseios; mas também, as suas lutas e as suas conquistas. Falta, no fundo, acrescentar à Literatura Portuguesa a visão feminina de cada época.

O ambiente digital e as mulheres escritoras

O ambiente digital impõe-nos desafios diários; por outro lado, permite-nos alcançar dinâmicas que se expandem e se renovam a cada dia, perante as infindáveis possibilidades tecnológicas do presente. No campo da investigação, em particular no que diz respeito às autoras portuguesas, os recursos digitais têm gerado feitos valorosos no movimento de restituição de vozes subestimadas e olvidadas, ao longo dos tempos.

É importante dar nota que muitas destas mulheres revelaram possuir elevada mestria no mundo das letras, tendo dominado distintos géneros literários e congregado um volume considerável de escritos, sendo bastante valorizadas pelos seus conterrâneos. Algumas dinamizaram, ainda, salões literários com uma relevância fundamental para o panorama cultural da época, sendo vistas como um exemplo a seguir. No entanto, a maioria destas senhoras ficaram esquecidas numa espécie de “baú do tempo”, não sendo celebradas nem valorizadas pelas suas capacidades enquanto autoras, nem chegando a alcançar um lugar no Cânone Português.

Principalmente, ao longo da última década, têm surgido projectos deveras significativos, na medida em que permitem um acesso fácil e rápido a textos e a manuscritos que estavam anteriormente limitados ao espaço das bibliotecas físicas e das coleções privadas. Neste enquadramento, a digitalização de documentos históricos e a criação de bases de dados de teor biográfico-literário conduzem-nos a um conjunto pertinente de oportunidades de investigação, as quais não têm limites nem fronteiras. Através das possibilidades geradas por este “mundo novo”[2], torna-se exequível congregar e organizar vastas quantidades de dados, preparando-os para a partilha no amplo espaço digital, num verdadeiro movimento de valorização do passado e da tradição, sob o olhar atento do presente.

Em paralelo, o uso frequente das redes sociais, dos blogues, de podcasts ou de outros portais de teor social facilitam a divulgação de muitos destes nomes e dos seus trabalhos, atraindo, em simultâneo, uma camada de leitores ou de pesquisadores cada vez mais jovem, mas também de perfis diversificados, quer em Portugal, quer no Brasil, ou até mesmo junto de investigadores ingleses ou americanos, com especial interesse na cultura portuguesa. Desta forma, é possível trabalhar para a construção de uma análise crítica em torno do papel da mulher na Literatura, abrindo portas ao diálogo em relação à sua inclusão no Cânone Português, o que constata a importância inegável das Humanidades Digitais no processo.

As mulheres enquanto autoras

As mulheres, enquanto autoras, sempre se depararam com imensas dificuldades e barreiras, principalmente até ao século XIX. Graças à imprensa oitocentista, que contribuiu exponencialmente para uma mudança de paradigma, a mulher, enquanto ser familiar – filha, esposa e mãe – conquistou por fim o seu espaço social, sujeita a juízos desaprovadores, é certo, mas também trilhando um caminho feito de entendimento e de encontros, em especial com outras mulheres em situação semelhante. Através da imprensa periódica, a autoria feminina passou a consagrar-se como uma realidade com que toda a gente passou a conviver diariamente. E as mulheres tornaram-se tradutoras, autoras, colaboradoras ou redatoras de gazetas e de revistas, mas também editoras e tipógrafas.

Uma das fontes mais completas no acesso à imprensa periódica portuguesa é o website da Hemeroteca Digital de Lisboa, o qual contempla uma vasta seleção de revistas e de periódicos digitalizados, com as respetivas informações técnicas, criteriosamente redigidas. Destacarei apenas dois exemplos a que podemos aceder, através de um mero clique: Ribaltas e Gambiarras[3], que teve como redactor – ou redactora – Guiomar de Torresão, sob o pseudónimo Delfim de Noronha, e A Mulher[4], que teve como colaboradora assídua Maria Amália Vaz de Carvalho.

Numa fase inicial, os periódicos oitocentistas garantiram visibilidade às opções de escrita das mulheres autoras, através do anonimato ou de pseudónimos, permitindo uma colaboração anteriormente impensável. Os salões literários, assim como o esforço e a dedicação de homens das letras e de relevantes pedagogos no campo da instrução feminina, de que é exemplo António Feliciano Castilho, também foram peças fundamentais para a mudança subsequente, onde a importância da educação da mulher ganhou, finalmente, um merecido papel social.

O século XX chegou, entretanto, e mais transformações ocorreram. Mas, infelizmente, a partir do Estado Novo, a mulher voltou ao seu nicho doméstico e a luta permaneceu. Após os anos 80 e 90 do século passado, surgiu a necessidade de recuperar as mulheres escritoras, sendo também a fase em que Florbela Espanca – uma das escritoras portuguesas mais célebres – é finalmente apreciada e investigada. Muitas outras se seguiram, dando finalmente origem a um movimento de revelação, por meio de inúmeros estudos biográficos, projectos de reedições de obras, projectos digitais, e por aí adiante. E, felizmente, esse movimento não tem cessado, nem perdido o seu fulgor.

Um encontro com estas mulheres

Hoje, nem sempre o primeiro contacto com determinado título acontece através do livro propriamente dito. O mundo digital traz-nos, na maioria das vezes, a relação oposta: primeiro, existe uma primeira abordagem, a nível biográfico, com um nome que nos suscita, porventura, algum interesse, e depois avançamos para a pesquisa de mais elementos e de textos específicos dessa autora. Em qualquer um dos casos, o conhecimento é habitualmente transmitido através de projectos e de bibliotecas digitais que permitem a expansão das fronteiras, incluindo por parte de entidades oficiais, como acontece no caso da página digital da Biblioteca Nacional de Portugal.

Por fim, pode dar-se ou não o encontro final com o livro, após incessantes buscas em alfarrabistas ou através de editoras que reeditam obras antigas, transformando o livro na materialização de uma voz em franca recuperação. Neste contexto, gostaria de salientar a pertinência do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela editora Sibila Publicações[5], editora que tem reeditado, num formato tradicional – ou seja, em papel –, alguns títulos de Ana Plácido e de Ana de Castro Osório, mulheres que tiveram uma importância fundamental nas suas épocas, e que gradualmente estão a ser redescobertas. Ana Plácido usou o pseudónimo Lopo de Souza, sendo conhecida pela sua relação com Camilo Castelo Branco, e Ana de Castro Osório, é lembrada por ser uma importante feminista republicana, mas também uma pioneira na Literatura Infanto-Juvenil. À parte disto, falta sabermos muito mais. E, acima de tudo, lermos muito mais daquilo que foi criado por estas interessantes senhoras, e também por tantas outras.

Há alguns anos, deparei-me com o livro Poetisas Portuguesas, da autoria de Nuno Catarino de Cardoso, em versão digital, num website cuja digitalização pertencia à colecção da Universidade de Toronto. Este título, bastante raro, foi publicado em 1917, e reuniu dados biográficos e poemas – alguns inéditos – de cento e seis figuras femininas da época. Na altura da minha descoberta, eu não conhecia nem a antologia nem o autor, nem tampouco um terço das autoras que constam neste maravilhoso compêndio. Porém, através de uma simples pesquisa no Google, estava a absorver um conhecimento tão relevante para as minhas futuras pesquisas. Uma oportunidade única, à distância de uma “mera” pesquisa no espaço online. É incrível o mundo digital! É absolutamente indescritível o que nos permite fazer; até onde nos leva, no fundo!

Através deste livro, numa versão modernizada e de fácil acesso, conheci a poetisa Mariana Angélica de Andrade, e qual não foi o meu espanto quando me apercebi que viveu grande parte da sua vida na minha terra natal, Setúbal, sendo carinhosamente apelidada de Poetisa do Sado. Aqui, começou a minha busca pelos textos de Mariana, pois não me podia contentar com uma ínfima parte de si – somente em termos biográficos –, nem com apenas dois dos seus poemas: “A minha Estrella!” e “Mistérios do Toucador”. Mais tarde, consegui aceder ao seu primeiro livro de poesia, datado de 1870 e intitulado Murmurios do Sado, também em versão digital, noutra parte do mundo, desta vez num website cujo documento pertencia à Universidade de Michigan.

Hoje, consigo aceder a ambos os exemplares, em formato físico, nas suas primeiras e raríssimas edições: a “Mariana” chegou à minha casa há cerca de quatro anos, e o “Nuno Catarino” há um ano; ambos os exemplares adquiridos num alfarrabista e já fazendo parte da minha biblioteca pessoal.

Mas, e se a digitalização destas obras não tivesse ocorrido, a que caminhos – seguramente mais limitados – teria chegado a minha demanda? Como teria alcançado estas vozes?

Projectos de Humanidades Digitais

Existe, de facto, um infindável número de casos que associam a modernidade à tradição, através das possibilidades fornecidas pelas ferramentas digitais: websites, bibliotecas digitais, bases de dados, projectos nas redes sociais – nomeadamente no Instagram, que tem a sua popular dinâmica literária denominada Bookstagram – projectos no YouTube, blogues, e tantos outros. Destacarei apenas alguns que possuem elevada pertinência no domínio da pesquisa e investigação da autoria feminina, incluindo nesta selecção os projetos institucionais, mas também os projetos independentes, mantendo seguramente o foco no bom rigor das informações por eles partilhadas.

O website Escritoras em Português (antes de 1900) foi sujeito a uma nova imagem, tendo perdido algumas informações quanto às autoras oitocentistas. Porém, é um precioso auxílio na medida em que fornece uma detalhada listagem de autoras portuguesas, desde o século XV ao século XIX, incluindo os seus dados biográficos e bibliográficos, mas também contemplando informações referentes a bibliografia técnica e secundária, consagrando-se, no fundo, como uma abordagem vantajosa a investigações introdutórias na área.

O website Mulheres Escritoras: Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração fornece informações menos detalhadas em termos biográficos e bibliográficos, funcionando principalmente em formato de lista, e incidindo particularmente no século XX. É ainda possível fazer pesquisa através dos nomes das autoras ou dos títulos das obras, entre outras informações. À semelhança do projecto citado anteriormente, é uma página digital que fornece uma pesquisa inicial rápida e simples.

No que diz respeito a projectos que se caracterizam por serem, afinal, bibliotecas digitais, destacarei os projetos Bibliotrónica Portuguesa e Projecto Adamastor. A Bibliotrónica Portuguesa tem como missão proporcionar um acesso gratuito a textos que se encontram em domínio público, em formato PDF e disponíveis para download, sendo uma biblioteca recomendada pelo Plano Nacional de Leitura e pela Direção-Geral do Livro, entre outras entidades. Gostaria de enaltecer a forte presença feminina no seu catálogo de reedições, dada a disponibilidade de mais do que um título de Ana de Castro Osório, de Luthgarda Caires e de Maria Amália Vaz de Carvalho, juntamente com Inocente de Virgínia de Castro e Almeida.

Por fim, termino os exemplos mencionando o Projecto Adamastor, também com um catálogo disponível para download, embora os ficheiros se encontrem em formatos distintos, nomeadamente EPUB e MOBI, já que foram adaptados aos leitores digitais, como o Kobo. A missão deste projecto é disponibilizar, de modo gratuito, o usufruto de obras em Língua Portuguesa, também em domínio público, incluindo obras de autoras como Florbela Espanca, Ana de Castro Osório, Maria Amália Vaz de Carvalho e Virgínia de Castro e Almeida. A antologia Vozes Femininas também é um elemento essencial, aproximando o leitor a narrativas breves de autoras relativamente silenciadas.

No meio das autoras mencionadas, temos acesso a Murmurios do Sado de Mariana Angélica de Andrade, através de um processo de transposição do passado para o presente muito bem concretizado, onde tive o privilégio de participar. O mais interessante é constatar que o primeiro livro desta autora pouco conhecida – obviamente numa versão adaptada aos modos de leitura actuais –, se encontra a circular pelo mundo, devido ao seu formato e-book, aos e-readers e às parcerias criadas com lojas online como a Kobo. Tal feito é deveras precioso!

Considerações finais

Valorizar o passado e o presente, com uma intenção destinada às gerações futuras: eis o propósito das Humanidades Digitais. Como tal, projectos como aqueles que aqui foram mencionados, cuja pertinência cultural e histórica é notável, contemplam uma simbiose muito bem conseguida entre a valorização da História, da Língua e da Cultura portuguesas. Como tal, importa alertar para o facto de ser necessário apostar em mais digitalizações dos textos originais, de forma a se procederem a leituras e a investigações directamente da fonte. É urgente que as vozes literárias destas mulheres sejam trazidas para um circuito de divulgação geral, em especial para junto do meio académico: o meio por excelência da transmissão de conhecimento, dotado da pluralidade de métodos de aprendizagem.

Às leitoras e aos leitores, solicita-se que cumpram o seu papel enquanto receptores do melhor que cada livro contém: a alma de quem o construiu; que procurem e usufruam destas escritas femininas e as tragam, por fim, de volta. Talvez assim se dê a respectiva valorização a todas as mulheres escritoras enclausuradas no tempo. Talvez assim possamos proceder, em conjunto, à sua justiça literária, validando as suas palavras, as suas ideias e as suas intenções!

A rubrica Escrita(s) no Feminino pretende, acima de tudo, aproximar leitores a leituras à margem do Cânone, lançando, desde logo, um desafio a cada receptor: que confirme por si a pertinência de inúmeras vozes silenciadas, ao longo dos tempos, ainda que, na época, as mulheres em análise tenham sido alvo de admiração e elevação.

Recursos bibliográficos

Andrade, Mariana Angélica de. Murmurios do Sado. Setúbal: Typographia de José Augusto Rocha, 1870

Cardoso, Nuno Catharino. Poetisas Portuguesas. Lisboa: Livraria Scientifica, 1917

Guerreiro, Dália e Borbinha, José Luís. “Humanidades Digitais: Novos Desafios e Oportunidades”. Cadernos BAD, nº 1, jan.-jun., 2014, pp. 63-78

Lopes, Ana Maria Costa. Imagens da mulher na imprensa feminina de oitocentos, percursos de modernidade. Lisboa: Quimera Editores, 2005

 

Lista de recursos digitais

Biblioteca Nacional de Portugal: https://www.bnportugal.gov.pt/

Bibliotrónica Portuguesa: https://bibliotronicapt.pt/

Escritoras em Português (antes de 1900): https://escritoras-em-portugues.com/pt_pt/

Hemeroteca Digital de Lisboa: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Mulheres Escritoras: Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração: https://mulheresescritoras.pt/

Projecto Adamastor: https://projectoadamastor.org/

  1. Vide https://congresso.humanidades.uab.pt/ .

  2. Título de um romance de Ana de Castro Osório, usado de forma intencional.

  3. Vide https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/periodicos/ribaltasegambiarras/ribaltasegambiarras.htm .

  4. Vide https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/AMulher/AMulher.htm .

  5. Vide https://www.sibila.pt/livros.html .

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Maio 2026

Sempre com a ajuda das preciosíssimas Notre Dame Philosophical Reviews, trazemos as últimas novidades no mercado editorial da filosofia de Maio de 2026. Eis aqui as já típicas oito sugestões que fazemos todos os meses.

Primeiro, Andy Hamilton, em Art and Entertainment: A Philosophical Exploration (Routledge, 2024), investiga as fronteiras entre arte e entretenimento, questionando se a distinção tradicional ainda faz sentido na cultura contemporânea e defendendo que ambas compartilham dimensões estéticas, emocionais e sociais, embora com diferentes pretensões de profundidade e valor. Giles Pearson, em Aristotle on What Emotions Are (Oxford University Press, 2024), oferece uma análise detalhada da teoria aristotélica das emoções, argumentando que elas são formas de percepção avaliativa intimamente ligadas à razão e à virtude, reconstruindo o conceito de pathê como componentes centrais da psicologia moral do Estagirita. A.G. Long e Barbara M. Sattler, em Parmenides: New Perspectives (Oxford University Press, 2025), organizam uma coletânea inovadora que traz abordagens contemporâneas ao pensamento de Parmênides, explorando temas como ser, não-ser, verdade e cosmologia a partir de perspectivas analíticas, históricas e comparativas. Sarah Conly, em The Limits of Liberty (Oxford University Press, 2025), examina criticamente os limites do conceito liberal de liberdade individual, defendendo que intervenções paternalistas podem ser justificadas em nome do bem-estar quando as escolhas humanas são sistematicamente irracionais ou autodestrutivas.

Depois, Benjamin Miller, em Against Aristotelian Character Education: Practical Wisdom, Flourishing, and Liberal Democracy (Routledge, 2025), critica os programas contemporâneos de educação de caráter inspirados em Aristóteles, argumentando que o foco na sabedoria prática e na formação de virtudes é incompatível com os valores pluralistas e autónomos da democracia liberal. M. Oreste Fiocco, em Time and the World: Every Thing and Then Some (Oxford University Press, 2024), desenvolve uma metafísica original do tempo, defendendo que o tempo é fundamental à existência de todas as coisas e propondo uma visão unificada em que a temporalidade é condição ontológica para a realidade concreta. Steven Lukes, em The Diversity of Morals (Princeton University Press, 2025), explora a tensão entre universalismo e relativismo moral, analisando como diferentes culturas e contextos geram concepções morais distintas sem abandonar completamente a possibilidade de juízos morais racionais e comparativos. Por fim, Vassilis Livanios, em The Metaphysics of Powerful Qualities: Powerful Categoricalism and the Laws of Nature (Routledge, 2025), defende uma teoria das qualidades poderosas (powerful qualities), combinando disposicionalismo e categoricalismo para explicar as leis da natureza, oferecendo uma alternativa robusta aos modelos puramente humeanos ou necessitaristas.

A Era da Publicidade

Excertos de “A Era Presente”, de Søren Kierkegaard (em Two Ages: The Age of Revolution and the Present Age, A Literary Review, originalmente publicado em 1846.

A era presente é essencialmente uma era sensata, reflexiva, desprovida de paixão, que se inflama em entusiasmos superficiais e de curta duração e depois prudentemente relaxa na indolência.

Se dispuséssemos de estatísticas sobre o uso da prudência de geração em geração, tal como as temos sobre o consumo de bebidas alcoólicas, ficaríamos espantados ao ver a enorme quantidade usada nos nossos dias, quanta pesagem, deliberação e consideração uma pequena família não oficial consome embora tenha rendimentos amplos, quanta até as crianças e os jovens usam, pois assim como a cruzada das crianças simboliza a Idade Média, assim a esperteza das crianças simboliza a nossa. Pergunto-me se ainda existe alguma pessoa que cometa apenas um grande disparate estúpido. Nem mesmo um suicida nos dias de hoje se mata por desespero, mas delibera tanto e de forma tão sensata sobre esse passo que acaba por ser estrangulado pelo cálculo, tornando discutível se pode realmente ser chamado de suicida, na medida em que foi, de facto, a deliberação que lhe tirou a vida. Não foi um suicida premeditado, mas antes um suicida por meio da premeditação.

Por isso seria extremamente difícil ser promotor de justiça contra uma era como esta, porque toda a geração é perita em questões jurídicas, e a sua competência, a sua sensatez, a sua perícia técnica consistem em deixar que as coisas cheguem a um veredicto e a uma decisão sem nunca agir.

Se dizemos de uma era revolucionária que ela se extravia, então temos de dizer da era presente que ela vai mal. O indivíduo e a geração estão continuamente a contradizer-se a si mesmos e uns aos outros, e por isso seria impossível a um promotor de justiça estabelecer qualquer facto, porque não há nenhum. Da abundância de indícios circunstanciais, poder-se-ia concluir que algo extraordinário aconteceu ou está prestes a acontecer. Mas essa seria uma conclusão errada, pois os indícios circunstanciais são a única tentativa da era presente de dar mostras de força, e a sua inventividade e perícia técnica em arquitetar miragens fascinantes e a imprudência dos seus lampejos de entusiasmo, recorrendo aos atalhos enganadores de mudanças formais propostas, valem tanto em esperteza calculista e uso negativo do poder quanto a paixão enérgica e criadora na atuação da era da revolução. Exausta pelas suas quiméricas exortações, a era presente relaxa então temporariamente numa indolência completa. A sua condição assemelha-se à do preguiçoso matinal que tem grandes sonhos, depois torpor, seguido de uma inspiração espirituosa ou engenhosa para desculpar ficar na cama.

O indivíduo isolado (por mais bem-intencionados que muitos sejam, por mais energia que possam ter se alguma vez chegassem a usá-la) não fomentou em si paixão suficiente para se arrancar da teia da reflexão e da sedutora ambiguidade da reflexão. O ambiente, a era contemporânea, não tem nem acontecimentos nem paixão integrada, mas numa unidade negativa cria uma oposição reflexiva que brinca por um momento com a perspetiva irreal e depois recorre à brilhante equivoquidade de que, afinal, a coisa mais inteligente foi não fazer nada. A vis inertiæ [a força da inércia] está na base da tergiversação da era¹⁸, e todo o passivo que nada faz congratula-se por ser o inventor original — e torna-se ainda mais esperto. Assim como as armas eram distribuídas livremente na era da revolução e as insígnias da empresa eram conferidas publicamente durante as cruzadas¹⁹, assim hoje somos regalados por toda a parte com regras pragmáticas, um cálculo de considerações, etc.

Se se pudesse presumir que toda uma geração tivesse a tarefa diplomática de procrastinar e de frustrar continuamente qualquer ação e, no entanto, fazer parecer que algo está a acontecer, então não podemos negar que a nossa era está a realizar algo tão admirável como a era da revolução. Se alguém fizesse uma experiência e esquecesse tudo o que sabe sobre a era e o facto simples da sua habitual e excessiva relatividade, se viesse como que de outro mundo e lesse alguns livros, um artigo no jornal ou simplesmente falasse com um transeunte, ficaria com a impressão: Meu Deus, algo vai acontecer esta mesma noite — ou algo deve ter acontecido anteontem à noite!²⁰

Em contraste com a era da revolução, que agia, a era presente é uma era de publicidade, a era dos anúncios variados: nada acontece, mas há imediatamente publicidade. Uma insurreição nos dias de hoje é completamente inimaginável; uma tal manifestação de poder pareceria ridícula à sensatez calculista da era. No entanto, um virtuoso político talvez pudesse realizar um impressionante tour de force de tipo completamente diferente. Ele enviaria convites para uma assembleia geral com o propósito de decidir sobre uma revolução, redigindo o convite de forma tão cautelosa que até o censor teria de o deixar passar. Na noite da reunião, criaria de forma tão hábil a ilusão de que tinham feito uma revolução que todos iriam para casa tranquilamente, tendo passado uma noite muito agradável. Adquirir um saber profundo e abrangente seria praticamente impensável para os jovens de hoje; considerariam isso ridículo. Um virtuoso científico, porém, seria capaz de negociar um tour de force radicalmente diferente. Ele delinearia casualmente algumas características de um sistema abrangente e far-lo-ia de tal modo que o leitor (do prospecto) ficasse com a impressão de que já tinha lido o sistema²¹. A era dos enciclopedistas, dos homens que infatigavelmente escreviam fólios, acabou; agora é a vez dos enciclopedistas levemente equipados que dispõem de toda a existência e de todas as ciências en passant. Uma renúncia religiosa penetrante ao mundo e ao que é do mundo²², mantida no quotidiano da abnegação, seria inconcebível para a juventude do nosso tempo; contudo, cada segundo licenciado em teologia tem virtuosidade suficiente para fazer algo muito mais maravilhoso. Ele é capaz de fundar uma instituição social com nada menos do que o objetivo de salvar todos os perdidos.

A era das grandes e boas ações passou; a era presente é a era da antecipação. Ninguém se contenta em fazer algo específico; todos querem deleitar-se no devaneio de que pelo menos poderão descobrir uma nova parte do mundo. A nossa é uma era de antecipação; até o reconhecimento apreciativo é aceite antecipadamente. Tal como um jovem que, tendo resolvido estudar seriamente para os exames depois de 1 de setembro, se fortifica para isso tirando férias no mês de agosto, assim a geração presente — e isto é muito mais difícil de compreender — parece ter decidido seriamente que a próxima geração deve ocupar-se seriamente do trabalho, e para não os frustrar ou dissuadir de modo algum, a geração presente participa em banquetes. Mas há uma diferença: o jovem compreende que as suas empresas são imprudentes e temerárias; a era presente é sóbria e séria — mesmo nos banquetes.

A ação e a decisão são hoje tão escassas como o prazer de nadar perigosamente para aqueles que nadam em águas rasas. Assim como um adulto, ele próprio a deleitar-se nas ondas agitadas, chama aos mais novos: «Venham cá fora, saltem depressa» — assim a decisão jaz na existência, por assim dizer (embora, claro, esteja no indivíduo), e grita ao jovem que ainda não está enervado por demasiada reflexão nem sobrecarregado pelas ilusões da reflexão: «Venham cá fora, saltem com ousadia.» Mesmo que seja um salto imprudente, desde que seja decisivo, e se tiveres a têmpera de um homem, o perigo e o severo julgamento da vida sobre a tua imprudência ajudar-te-ão a tornar-te um.

Se o tesouro que todos cobiçam jaz longe, numa crosta de gelo muito fina, guardado pelo grande perigo para quem se aventurar tão longe, enquanto (suponhamos esta esquisitice que, afinal, só é esquisita na ilustração) mais perto da margem o gelo é grosso e sólido — numa era apaixonada a multidão aplaudiria ruidosamente o ousado e valente que patinasse sobre o gelo fino. Tremeriam por ele e com ele na sua decisão perigosa, sofreriam por ele se morresse, e idealizá-lo-iam se conseguisse o tesouro. A situação seria completamente diferente numa era reflexiva desprovida de paixão. Em reconhecimento mútuo da prudência partilhada, concordariam sensatamente que certamente não valeria a pena patinar sobre gelo tão fino — na verdade, seria tolo e ridículo. Então uma aventura inspirada transformar-se-ia num tru acrobático — para fazer algo, pois «tem de se fazer alguma coisa». Iriam lá fora e, do seu ponto de vista seguro, apreciariam com ar de conhecedores o patinador perito que consegue patinar quase até à borda (isto é, até onde o gelo ainda é seguro e apenas aquém do perigoso) e depois voltar. Um dos patinadores seria excepcionalmente habilidoso, e até conseguiria realizar o tru de fazer uma curva aparentemente arriscada mesmo na borda extrema, fazendo os espectadores gritar: «Meu Deus, ele está louco, está a arriscar a vida.» Mas vês, ele é tão excepcionalmente habilidoso que consegue fazer uma viragem brusca precisamente na borda extrema — isto é, onde o gelo ainda é completamente seguro e ainda aquém do perigoso. Tal como no teatro, a multidão gritaria «Bravo!» e aclamá-lo-ia e depois levaria o seu herói performático aos ombros para casa e honrá-lo-ia com um banquete sumptuoso. O senso comum tornaria-se tão predominante que mudaria a própria tarefa num tru irreal e a atualidade num teatro. No banquete à noite, a admiração ressoaria. Mas enquanto o que habitualmente acontece onde a admiração é autêntica é que o admirador se inspira com a ideia de ser um homem como o distinto, se humilha pela consciência de não ter conseguido realizar essa grande coisa ele próprio, se sente eticamente encorajado pelo protótipo a seguir o exemplo desse homem excecional na medida das suas possibilidades, aqui novamente o senso comum prático alteraria o padrão da admiração. Mesmo no auge vertiginoso dos aplausos e das salvas de vivas, os celebrantes no banquete teriam uma compreensão astuta e prática de que a proeza do seu herói não era assim tão boa, que, afinal de contas, o facto de a festa ser para ele era fortuito, pois qualquer um dos participantes poderia ter feito quase o mesmo com alguma prática em viragens complicadas. Em suma, em vez de serem estimulados a ser discernentes e encorajados a fazer o bem por este festival de admiração, os celebrantes iriam para casa mais dispostos do que nunca à mais perigosa mas também à mais aristocrática de todas as doenças, a admirar socialmente o que pessoalmente consideram trivial, porque tudo se tornara uma piada teatral, e os brindes espirituosos de admiração se tornaram o entendimento secreto de que poderiam quase igualmente admirar-se a si mesmos.

Ou se um homem finalmente se coloca à frente de uma empreitada inspirada e reúne um grupo de seguidores, algo que é fácil de fazer (pois há sempre uma ligação entre lampejos de entusiasmo e apatia prudencial) — se agora ele parte à frente desta banda, cantando canções de vitória até se aproximar da decisão e do perigo — então, quando se vira para dirigir uma palavra inspiradora à multidão, toda a cena mudaria. Os participantes transformar-se-iam astutamente numa multidão de espectadores que, com a enorme presunção da esperteza, fingiriam que foram eles que astuciosamente e ironicamente o levaram a esse alto entusiasmo e agora vieram olhar para ele e rir-se dele. Em reconhecimento mútuo, todos eles estariam infinitamente mais satisfeitos consigo mesmos por esta prudência incomum do que por qualquer realização; para a mente da esperteza, seria brilhante. Não se ouviria uma única palavra sobre instabilidade, cobardia — não, eles orgulhar-se-iam da brilhante ilusão da esperteza e assim tornariam a sua cura mais difícil. Então talvez o líder também perdesse coragem e toda a empreitada se tornasse o mais desmoralizante possível, porque se tornaria um pseudo-movimento e um incentivo à presunção cobarde.

Que uma pessoa se erga ou caia pelas suas ações está a tornar-se obsoleto; em vez disso, todos ficam sentados e fazem um trabalho brilhante de se safarem com a ajuda de alguma reflexão e também declarando que todos sabem muito bem o que tem de ser feito. Mas o que as pessoas duas a duas em conversa, o que os indivíduos como leitores ou como participantes numa assembleia geral entendem brilhantemente na forma de reflexão e observação, seriam completamente incapazes de entender na forma de ação. Se alguém andasse a ouvir o que os outros diziam que devia ser feito e depois, com sentido de ironia, mir nichts und dir nichts [sem pedir licença], fizesse algo a respeito, todos ficariam atónitos, achariam isso imprudente. E mal começassem a pensar e a conversar sobre isso, perceberiam que era exatamente o que devia ter sido feito.

A era presente, com os seus lampejos de entusiasmo alternando com indolência apática, que no máximo gosta de brincar, aproxima-se muito de ser cómica; mas quem entende o cómico vê facilmente que o cómico não consiste de modo algum no que a era presente imagina que consiste e que a sátira no nosso tempo, se for de algum modo benéfica e não causar dano irreparável, deve ter o recurso de uma visão ética consistente e bem fundamentada, de um desinteresse sacrificial e de uma nobreza elevada que renuncia ao momento; caso contrário, o remédio torna-se infinitamente e incomparavelmente pior do que a doença. O que é realmente cómico é que uma tal era aspire a ser espirituosa e a fazer grande alarido no cómico, pois isso é certamente a fuga última e mais fantasmagórica. Em termos do cómico, o que há para ridicularizar, afinal, numa era esgotada na reflexão? Como era sem paixão, não tem ativos de sentimento no erótico, nem ativos de entusiasmo e interioridade na política e na religião, nem ativos de domesticidade, piedade e apreciação na vida quotidiana e na vida social. Mas a existência ridiculariza a espirituosidade que não possui ativos, ainda que o populacho ria estridentemente. Aspirar à espirituosidade sem possuir a riqueza da interioridade é como querer ser pródigo em luxos e dispensar as necessidades da vida; como diz o provérbio, é vender as calças para comprar uma peruca. Mas uma era sem paixão não possui ativos; tudo se torna, por assim dizer, transações em dinheiro de papel. Certas frases e observações circulam entre o povo, em parte verdadeiras e sensatas, mas desprovidas de vitalidade, mas não há herói, nem amante, nem pensador, nem cavaleiro da fé, nem grande humanitário, nem pessoa em desespero que as autentique por as ter vivido primitivamente. Assim como nas nossas transações comerciais ansiamos ouvir o tilintar de moedas reais depois do sussurro do dinheiro de papel, assim hoje ansiamos por um pouco de primitividade. Mas o que é mais primitivo do que a espirituosidade, mais primitivo, pelo menos mais espantoso, do que até o primeiro rebento da primavera e a primeira lâmina delicada de erva? Sim, mesmo que a primavera chegasse segundo um acordo prévio, continuaria a ser primavera, mas uma piada segundo acordo prévio seria uma abominação. Suponhamos, então, que como alívio da febre dos lampejos de entusiasmo se chegasse a um ponto em que a espirituosidade, esse acontecimento divino, esse bónus dado por indício divino das origens enigmáticas do inexplicável, de tal modo que nem a pessoa mais espirituosa que alguma vez viveu ousaria dizer: «Amanhã», mas diria devotamente: «Se Deus quiser»²⁵ — suponhamos que a espirituosidade se transformasse no seu oposto mais banal e batido, numa necessidade trivial da vida, de tal modo que se tornasse uma indústria lucrativa fabricar, inventar, renovar e comprar em massa piadas velhas e novas: que epigrama terrível sobre a era espirituosa!

(…)

Um indivíduo particular pode tomar a dianteira numa insurreição, mas nenhum indivíduo particular pode tomar a dianteira no nivelamento, pois então, afinal, tornar-se-ia o comandante e escaparia ao nivelamento. Indivíduos particulares podem contribuir para o nivelamento, cada um no seu pequeno grupo, mas o nivelamento é um poder abstrato e é a vitória da abstração sobre os indivíduos. Nos tempos modernos, o nivelamento é o correlativo da reflexão ao destino na antiguidade. A dialética da antiguidade estava orientada para o eminente (o grande indivíduo — e depois a multidão; um homem livre, e depois os escravos); presentemente, a dialética do cristianismo está orientada para a representação (a maioria percebe-se no representante e liberta-se pela consciência de que ele os representa numa espécie de autoconsciência). A dialética da era presente está orientada para a igualdade, e a sua implementação mais lógica, embora abortiva, é o nivelamento, a unidade negativa da reciprocidade negativa mútua dos indivíduos.

Qualquer um pode ver que o nivelamento tem a sua profunda importância na ascensão da categoria «geração» sobre a categoria «individualidade». Enquanto na antiguidade a multidão de indivíduos existia, por assim dizer, para determinar quanto valia o indivíduo excelente, hoje o padrão da moeda foi mudado de modo que cerca de tantos e tantos seres humanos uniformes fazem um indivíduo; assim, trata-se apenas de obter o número adequado — e então tem-se significado. Na antiguidade, o indivíduo na multidão não tinha significado algum; o homem excelente valia por todos eles. A tendência atual é no sentido da igualdade matemática, de modo que em todas as classes cerca de tantos e tantos uniformes fazem um indivíduo. A personalidade eminente ousava considerar tudo permitido, os indivíduos na multidão nada de todo. Hoje compreendemos que tantos e tantos fazem um indivíduo, e com toda a coerência calculamos números (chamamos-lhe unir, mas é um eufemismo) em relação às coisas mais triviais. Por nenhuma outra razão senão para realizar um capricho, juntamos uns quantos e fazemo-lo — isto é, ousamos fazê-lo.

É por isso que, eventualmente, nem mesmo uma pessoa muito dotada consegue libertar-se da reflexão, pois logo percebe que é apenas uma fração em algo completamente trivial e perde a libertação infinita da vida religiosa. Mesmo que um pequeno grupo de pessoas tivesse a coragem de enfrentar a morte, hoje não diríamos que cada indivíduo tinha a coragem de o fazer, pois o que o indivíduo teme mais do que a morte é o julgamento da reflexão sobre ele, a objeção da reflexão ao seu desejo de se aventurar como indivíduo. O indivíduo não pertence a Deus, a si mesmo, à amada, à sua arte, ao seu saber; não, assim como um servo pertence a uma propriedade, o indivíduo percebe que em todos os aspetos pertence a uma abstração na qual a reflexão o subordina. Se um grupo de pessoas na nossa era pudesse decidir, cada um individualmente, dar toda a sua fortuna a uma boa causa, não se seguiria como evidente que o indivíduo pudesse decidir fazê-lo, e novamente não porque estivesse irresoluto em renunciar à fortuna, mas porque temia o julgamento da reflexão muito mais do que temia a pobreza. Se dez pessoas pudessem concordar em afirmar a plena e incondicional validade do amor erótico ou, sem considerações paralisantes, a justificação limitada do entusiasmo, não se seguiria daí que cada um dos dez fosse capaz de o fazer, pois continuariam a amar ambivalentemente o julgamento da reflexão ainda mais do que o êxtase do amor e o testemunho do entusiasmo com o seu espírito — portanto, dez teriam de concordar em algo em que é uma contradição ser mais do que um. O princípio positivo idolatrado da socialidade na nossa era é o princípio consumidor e desmoralizante que, no cativeiro da reflexão, transforma até as virtudes em vitia splendida [vícios brilhantes]. E qual é a base disto senão o desrespeito pela separação do indivíduo religioso diante de Deus na responsabilidade da eternidade? Quando o desânimo começa neste ponto, busca-se conforto na companhia, e assim a reflexão captura o indivíduo para toda a vida. E aqueles que nem sequer se aperceberam do início desta crise caem automaticamente na relação da reflexão.

O nivelamento não é a ação de um indivíduo, mas um jogo de reflexão nas mãos de um poder abstrato. Assim como se calcula a diagonal num paralelogramo de forças, também se pode calcular a lei do nivelamento, pois o indivíduo que nivela os outros é ele próprio arrastado, e assim por diante. Enquanto o indivíduo egoisticamente pensa que sabe o que está a fazer, deve dizer-se que todos eles não sabem o que fazem, pois assim como a unanimidade entusiástica inspirada resulta num algo mais que não pertence aos indivíduos, aqui também emerge um algo mais. Um demónio que nenhum indivíduo pode controlar é conjurado, e embora o indivíduo egoisticamente desfrute da abstração durante o breve momento de prazer no nivelamento, está também a subscrever a sua própria ruína. O ímpeto para a frente do entusiasta pode terminar na sua queda, mas o sucesso do nivelador é eo ipso a sua queda. Nenhum período, nenhuma era, e portanto também não a presente, pode deter o cepticismo do nivelamento, pois no momento em que quiser deter o nivelamento, exemplificará novamente a lei. Só pode ser detido se o indivíduo, na separação individual, ganhar a intrepidez da religiosidade.

(…)

O público é um conceito que simplesmente não poderia ter surgido na antiguidade, porque o povo era obrigado a apresentar-se em massa, in corpore [como um todo], na situação de ação, era obrigado a suportar a responsabilidade pelo que era feito pelos indivíduos no seu seio, enquanto, por sua vez, o indivíduo era obrigado a estar presente em pessoa como aquele especificamente envolvido e tinha de se submeter ao tribunal sumário para aprovação ou desaprovação. Só quando não existe uma forte vida comunitária que dê substância à concreção é que a imprensa cria esta abstração «o público», composto por indivíduos insubstanciais que nunca estão unidos nem podem estar unidos na simultaneidade de qualquer situação ou organização e, no entanto, são reivindicados como um todo. O público é um corpo que supera em número todas as pessoas juntas, mas este corpo nunca pode ser chamado para inspeção; na verdade, nem sequer pode ter um único representante, porque é ele próprio uma abstração. No entanto, se a era for reflexiva, desprovida de paixão, obliterando tudo o que é concreto, o público torna-se a entidade que se supõe incluir tudo. Mas, mais uma vez, esta situação é a própria expressão do facto de que o indivíduo singular é remetido a si mesmo.

A contemporaneidade com pessoas reais, cada uma das quais é alguém, na atualidade do momento e da situação real dá apoio ao indivíduo singular. Mas a existência de um público não cria nenhuma situação nem nenhuma comunidade. Afinal, o indivíduo singular que lê não é um público, e depois gradualmente muitos indivíduos leem, talvez todos leiam, mas não há contemporaneidade. O público pode demorar um ano e um dia a reunir-se, e quando se reúne ainda não existe. A abstração que os indivíduos formam de modo paralogístico aliena os indivíduos em vez de os ajudar. A pessoa que está com pessoas reais na contemporaneidade do momento real e da situação real, mas não tem opinião própria, adota a mesma opinião que a maioria ou, se for mais argumentativo, que a minoria. Mas a maioria e a minoria são, note-se bem, seres humanos reais, e é por isso que a solidariedade com elas é apoiadora.

O público, porém, é uma abstração. Ao adotar a mesma opinião que estas ou aquelas pessoas particulares, sabe-se que elas estarão sujeitas ao mesmo perigo que si mesmo, que se extraviarão connosco se a opinião estiver errada, etc. Mas adotar a mesma opinião que o público é uma consolação enganadora, pois o público existe apenas in abstracto. Assim, embora nenhuma maioria tenha sido alguma vez tão positivamente segura de estar no direito e de ter a supremacia como o público está, esta é uma fraca consolação para o indivíduo singular, pois o público é um fantasma que não permite qualquer aproximação pessoal. Se alguém adota a opinião do público hoje e amanhã é vaiado e apupado, é vaiado e apupado pelo público. Uma geração, uma nação, uma assembleia geral, uma comunidade, um homem ainda têm a responsabilidade de ser algo, podem conhecer a vergonha pela inconstância e deslealdade, mas um público permanece o público. Um povo, uma assembleia, uma pessoa pode mudar de tal modo que se diga: já não são os mesmos; mas o público pode tornar-se o próprio oposto e continua a ser o mesmo — o público. Mas se o indivíduo não for destruído no processo, será educado por esta mesma abstração e esta disciplina abstrata (na medida em que não esteja já educado na sua própria interioridade) a contentar-se no sentido religioso mais elevado consigo mesmo e com a sua relação com Deus, será educado a formar a sua própria opinião em vez de concordar com o público, que aniquila todas as concreções relativas da individualidade, a encontrar repouso em si mesmo, à vontade diante de Deus, em vez de contar e contar. E a diferença última entre a era moderna e a antiguidade será que o agregado não é a concreção que reforça e educa o indivíduo, embora sem o moldar inteiramente, mas é uma abstração que, por meio da sua igualdade alienante e abstrata, o ajuda a tornar-se plenamente educado — se não perecer. A desolação da antiguidade era que o homem de distinção era o que os outros não podiam ser; o aspeto inspirador [da era moderna] será que a pessoa que ganhou a si mesma religiosamente é apenas o que todos podem ser.

O público não é um povo, não é uma geração, não é a sua era, não é uma congregação, não é uma associação, não são algumas pessoas particulares, pois tudo isto só o é por ser concreções. Sim, nem um único daqueles que pertencem a um público está essencialmente empenhado de modo algum. Durante algumas horas do dia talvez faça parte do público, isto é, durante as horas em que é um ninguém, porque durante as horas em que é a pessoa específica que é, não pertence ao público. Composto por alguns como estes, por indivíduos nos momentos em que são ninguéns, o público é uma espécie de colossal qualquer-coisa, um vazio e vácuo abstrato que é tudo e nada. Mas com base no mesmo princípio qualquer um pode presumir ter um público, e tal como a Igreja Católica Romana se estendeu quiméricamente ao nomear bispos in partibus infidelium [em países não católicos], também um público é algo que qualquer um pode apanhar, até um marinheiro bêbado que exibe um peep show, e em consistência dialética o marinheiro bêbado tem exatamente o mesmo direito a um público que o mais distinto dos homens, o direito absoluto de colocar todos estes muitos, muitos zeros à frente do seu algarismo um. O público é tudo e nada, o mais perigoso de todos os poderes e o mais sem sentido. Pode-se falar a uma nação inteira em nome do público, e no entanto o público é menos do que um ser humano real por mais insignificante que seja. A categoria «público» é o miragem da reflexão que ilusoriamente torna os indivíduos presunçosos, pois cada um pode arrogar para si este mamute, comparado ao qual as concreções da atualidade parecem mesquinhas. O público é o conto de fadas de uma era de prudência, levando os indivíduos a imaginarem-se maiores do que reis, mas novamente o público é a cruel abstração pela qual os indivíduos serão educados religiosamente — ou destruídos.

Juntamente com a ausência de paixão e a reflexividade da era, a abstração «a imprensa» (pois um jornal, um periódico, não é uma concreção política e é um indivíduo apenas num sentido abstrato) dá origem ao fantasma da abstração, «o público», que é o verdadeiro nivelador. À parte as suas implicações negativas para a vida religiosa, isto também pode ter o seu significado. Mas na proporção da escassez de ideias, uma era exausta por um lampejo de entusiasmo relaxará ainda mais facilmente na indolência, e mesmo que imaginássemos que a imprensa se tornaria cada vez mais fraca por falta de acontecimentos e ideias para agitar a era, o nivelamento torna-se ainda mais um impulso decadente, uma estimulação sensível que excita momentaneamente e só agrava o mal, torna o socorro mais difícil e a probabilidade de destruição maior.

Quando D. Dinis encontrou o maior peixe que já havia visto

Há coisas que podem abalar uma Nação inteira: crimes hediondos, um grande terramoto, a corrupção, etc.

Em 1321, D. Dinis viu-se obrigado a fazer um atestado público ao Reino por razão de uma destas hecatombes: ele encontrou o maior peixe que já havia visto. Ora vejam a carta. 

“Em Nome de Deus Amem. Saibam quantos este público estormento virem E ler ouvirem Como quinta-feira dia de S. Águeda, cinco dias do mês de fevereiro na Era de Mil E Trezentos E Cinquenta E Nove Anos, e no Ano da Nascença de Jesus Cristo de Mil E Trezentos E Vinte E Um Anos No Campo de Valada, termo de Santarém no lugar de Gonçalo Estevens de Alfangi, hu [onde] o muito Alto E mui Nobre Senhor Don Dinis pela graça de Deus Rei de Portugal E do Algarve vinha para jantar da fora à caça foi-lhe apresentado por Dom Guedelha arrabi-mor dos Judeus um solho vivo que filharam [capturaram] no Tejo onde chamam Montalvo a perto de Muja. O qual solho havia tão grande boca per que lhe metiam sendo ainda vivo um raposo morto E lançava-o logo fora de um sopro E havia no espinhaço pela coa da cabeça até o cabo trinta escamas assim como conchas E era de talho de um grande delfinho [golfinho] E era em longo dez e sete palmos E gordo grosso sete palmos bem medidos E pesou pelos pesos do Concelho de Santarém dez e sete arrôbas E meia bem pesadas que fazem quatro quintais E mais uma arrôba E meia. E porque então aí estavam presentes muitos homens de muitas terras E de desvairadas Nações que o dicto solho viram E diziam todos E comunalmente que por muitos solhos viram pelas terras onde andaram que nunca o tão grande nem tão bem feito viram como este E que o tinham por estranho E por tão grande maravilha que se o assim não vissem que adur [dificilmente] o poderiam crer E pera disto ficar certa memória pera os que depois vierem Por isso o dicto Senhor Rei teve por bem E mandou a mim Domingue Anes seu tabelião geral nos dictos seus Reinos que em sembra [juntamente] com os tabeliães E testemunhas adiante escritas a isto presente fui, que lhe desse então um testemunho sob meu sinal acostumado no qual outrossim mandou a esses tabeliães que posesem seus sinais. Feito foi no dia E no mês E na Era e no Ano E lugar sobreditos. Testemunhas que a isto presentes foram: Dom Afonso Sanches E João Afonso filhos do dicto Senhor Rei E Dom João seu genro; ricos-homens, Estêvão da Guarda uchão [encarregado da dispensa do Rei] e escanção-mor [encarregado do abastecimento de vinho], Frei João confessor E Capelão-mor do Rei, Mestre Henrique Alemão seu físico E João Domingues de Beja E Afonso Martins Prior de Chilheiros E João Domingues Calastão E Afonso Domingues da Cozinha E Gonçalo Vasques E Vicente Anes serviçais do Rei, Lourenço Martins E Vasco Rodrigues seus tabeliães gerais nos Reinos de Portugal E do Algarve, Gonçalo Esteves de Alfangi E Vasco Afonso Alcoforado E João Aires de Altero E Gonçalo Mendes de Alvelos cavaleiros, E Henrique Gil E Rui Martins da Chamusca E Álvaro Soares E Vasco Lourenço E Vasco Vicente E Pêro Gonçalves E Miguel Pires E Fernão Gil E Pêro Terrão E o Bom Terrão, o “pecador” E Gonçalo Fugão “homem sem sabor”, escudeiros, E Afonso “sem visão” E Lourenço Mendes açoreiros E João Martins E Afonso Fernandes de Baião Falcoeiros E Dom Guedelha arrabi-mor dos Judeus E Dom Davi seu irmão E Lourenço Anes copeiro [serviço à mesa do Rei] E Gonçalo Pires saquiteiro [responsável pelo abastecimento de pão] E Martim Durães fruteiro E Domingos Vasques camareiro E André Domingues E Cibrão Martins algozes E Martim Durães iguador [o que dividia porções] E João Pires E João Leitão cozinheiros, E Domingos de Cós E Domingos de Pinhel arinteiros [guardas de loiça] E Martim Esteves E Fernão Domingues porteiros E Francisco Domingues dizimeiro da Ribeira E Vedor dos pesos do Concelho de Santarém E outros muitos. E eu Domingue Anes público E geral tabelião do dicto Senhor Rei nos dictos seus Reinos de Portugal E do Algarve que o dicto solho vi E per minha mão medi E vi a muitos outros medir E nas balanças dos pesos prover e pesar. Disto E das outras cousas de suso dictas a que em sembra com os dictos tabeliães E testemunhas presente fui, per mandado do dicto Senhor Rei E pera memória dos que depois vierem este público estormento ende com minha mão escrevi E meu sinal em ele pungi que tal é, em testemunho de verdade: [sinal dele]”.

 – Gavetas, maço 2, doc. 1.

Da Arte na Origem da Tragédia, um ensaio falado

A estética e a arte ocupam, em Nietzsche, um lugar eminente e privilegiado, o que é comprovado na Origem da Tragédia, obra de caráter, mormente, estético. Nela, Nietzsche apresenta os fundamentos da sua metafísica estética, já que é a Arte e não a Moral o que considera como atividade essencialmente metafísica do homem.

Nietzsche começa por estabelecer a divisão e o contraste entre o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco, os dois elementos constitutivos da Arte e da alma gregas que originaram como resultado a evolução progressiva da arte. Os dois deuses, Apolo e Dioniso, não só simbolizam os dois instintos artísticos contrapostos, mas as forças elementares e a própria essência da natureza, enquanto identificada com o homem; aplica a teoria dos dois instintos ou forças primordiais à problemática da origem e da decadência da Arte. Da conjugação de ambos – o apolíneo e o dionisíaco – nasce a Arte e do seu acoplamento harmonioso, a verdadeira arte clássica: a tragédia ática, a qual tem como único herói de cena Dioniso, cujos sofrimentos eram cantados pelo coro ditirâmbico. Deste modo, Nietzsche reconhece como fundamento da Arte a dualidade do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco, o primeiro relegado à arte plástica, que é harmonia de formas, e o segundo à música, que é, pelo contrário, destituída de formas por ser embriaguez e exaltação entusiástica.

Foi graças ao espírito dionisíaco que o povo grego logrou suportar a existência. A arte veio em seu auxílio transfigurando o horrível e o absurdo, tornando a vida aceitável. A transfiguração foi realizada pelo espírito dionisíaco e disciplinada pelo espírito apolíneo dando lugar à tragédia. O pessimismo transfigurado pela arte obstou que os gregos fugissem perante a vida. Isto acontecia na juventude do povo grego. Depois, com o aparecimento de Sócrates e do platonismo, o espírito dionisíaco foi combatido e perseguido e foi assim que começou, com a renúncia à vida, a decadência do povo grego. Eurípides é apresentado, também, em estreita relação com Sócrates, ambos unidos contra o espírito dionisíaco, sendo os causadores da decadência do Helenismo.

Sócrates torna-se o modelo do homem teórico que introduziu a razão crítica e o espírito lógico no lugar do saber instintivo e opôs-se às forças criadoras do instinto e da emoção dionisíaca em que se baseava a arte antiga. Com a sua teoria moralizante da sabedoria identificada com a virtude estabeleceu os princípios do otimismo dialético que se consubstanciou na morte da tragédia. Desde então, a cultura moderna tem sido dominada pelo espírito científico e que, por isso, Nietzsche nomeia cultura socrática ou alexandrina. Pois o espírito crítico da ciência destrói a conceção trágica e mítica do espírito dionisíaco e com ele a tragédia ática. Por fim, Nietzsche expressa o desejo e a esperança de um renascimento da antiga cultura grega, a qual não é mais do que a manifestação da sua arte: a tragédia ática.

A Arte é a afirmação, a divinização da existência; aceita o que há de problemático e terrível na vida; é a mais entusiástica afirmação da vida. Transforma, com um ato de aceitação, a debilidade humana em força, a impotência em poder. O espírito da Arte é, para Nietzsche, a exata contrapartida do espírito moral e religioso. A Arte é a afirmação incondicional da existência e o estimulante do sentido da vida; o seu objetivo consiste em tornar a vida mais intensa. Daí a esterilidade que Nietzsche atribui à fórmula da Arte pela Arte. Ao contrário da Moral e do Conhecimento, confessa a sua quimera: tudo é ilusão, mas só ela (a Arte) sabe que não é mais do que isso.

A filosofia estética de Nietzsche apresenta duas raízes: otimista e pessimista e têm a peculiaridade de uma dupla ilusão: o sonho e a embriaguez. Apolo, deus do sonho, e Dioniso, deus da embriaguez. Com base nestes dois elementos, com a predominância do segundo, Nietzsche chega à análise da tragédia grega, sendo esta glorificada como fusão das artes: arte sintética da música, do poema e da plástica. Sonho e inebriamento são as categorias que Nietzsche contrapõe na sua estética, na medida em que o que salva a Arte é, precisamente, a síntese dos dois instintos, que constitui o estado mitológico propriamente dito. Destarte, afirma em Gaia Ciência: só a arte pode substituir as mitologias antigas.

É da constatação do inexplicável e do incognoscível que nasce o filósofo trágico, aquele que desprovido de crenças, sem refúgio, ainda assim, afirma a vida através da Arte que deve criar o que aquela tem de necessário. A tragédia significa a aliança conflitual entre Apolo e Dioniso, dominada por este, ou seja, a tragédia é a forma estética da alegria de viver. E, assim, Nietzsche indica a necessidade de retomar um certo espírito grego de eternização da beleza como forma de vida, hoje asfixiada por uma civilização orientada pelo instinto desenfreado de conhecimento.

Nietzsche reivindica para si a descoberta do trágico, alegando que mesmo os gregos o desconheceram. Autonomeando-se filósofo trágico, Nietzsche define uma estratégia contra a decadência: trágico não é nem uma solução moral contra o desespero e a angústia nem uma solução médica, mas uma forma estética de afirmação da vida. Ousai agora ser homens trágicos: ousai porque haveis de ser libertados.

De tudo o que fica dito, se concebe que numa filosofia como a de Nietzsche, que é uma verdadeira teoria da civilização, esta se exprime pela sua Arte. Deste modo, um estilo artístico pode ser, por si só, não apenas a expressão de uma cultura, como proporcionar a unidade, por exemplo, na tragédia ática a todas as manifestações da vida de um povo.

Saliente-se que, em Nietzsche, é posto em prática a substituição da Ética pela Estética como princípio justificativo da existência: o sentido estético exclui a moral, porque realiza a moralidade. E, assim, aludo à máxima de André Gide, no prólogo de Imoralista: não existe problema algum cuja solução suficiente não seja a obra de arte. A moral não é mais do que uma dependência da estética.

De mencionar, a distinção que Nietzsche faz entre conhecimento científico e conhecimento estético: opondo-se a todo o dogmatismo ou regra, advoga que a existência somente se justifica se contemplada e vivida esteticamente, pois nada do que existe deve minorar-se, nada é supérfluo; não permite qualquer fuga à realidade, porque o além serve para sujar o aquém.

Em suma, a conceção de Arte e de toda a doutrina de Nietzsche daí decorrente não é mais do que o resultado da sua atitude filosófica que consiste em compreender o mundo a partir do sofrimento e é, precisamente, isto que existe de trágico na tragédia.

Metafiction in Video Games: A Brief History

Metafiction in video games evolved from playful fourth-wall breaks in 1980s titles like Zork and StarTropics to profound self-referential loops in Space Quest III/IV and ontological twists in Monkey Island 2. Here we explore how interactivity amplifies self-awareness across decades, turning players into co-authors of the deconstruction in classics and modern experiments alike.

Metafiction is a narrative strategy that deliberately calls attention to a work’s own artificiality. It refuses the comfortable illusion of a seamless, self-contained story and instead reminds the audience — sometimes gently, sometimes confrontationally — that they are engaging with something constructed, mediated, and invented. In literature this tradition stretches back to Cervantes’s Don Quixote, where the knight encounters a book about his own adventures, or to the playful labyrinths of Borges and Calvino, who treat the page itself as a character. Theater offered Brecht’s deliberate alienation and Pirandello’s characters rebelling against their author. Yet no medium has embraced metafiction with quite the explosive potential of video games. Because games demand active participation, the player is not a passive reader or spectator; he is a co-creator whose inputs — keystrokes, controller presses, menu choices, save files — can themselves become the subject of the joke, the horror, or the philosophical inquiry. When a game mocks the very buttons you are pressing, metafiction stops being a clever aside and becomes an immersive, sometimes unsettling dialogue between creator, code, and player.

The 1980s and early 1990s were a fertile period for this experimentation. Video games were still young, hardware was limited, and developers — working with text parsers, floppy disks, and cartridge memory — had to be inventive, so they turned those very constraints into metafictional opportunities. What began as playful winks at adventure-game conventions or the physical reality of owning a computer evolved into deeper interrogations of narrative truth, franchise fatigue, and the boundary between pixels and lived experience. Let’s trace that evolution through foundational titles of the 1980s and 1990s before moving into later, more ambitious works. From the sarcastic narrator of Zork to the ontological rug-pull of Monkey Island 2, and onward through hardware-breaking horrors and file-deleting dating sims, metafiction in games consistently transforms the player’s agency into the very fuel of its commentary, and the result is not merely clever; it is a profound way to explore why we play, what we believe while playing, and what happens when the illusion is joyfully, deliberately shattered.

The story of metafiction in video games properly begins with the text adventures of Infocom, most famously the Zork series launched in 1980. Zork was not just a game; it was a conversation with a witty, sometimes exasperated narrator who refused to stay in character. Players typed commands into a parser — “go north,” “take lamp,” “kill troll” — and the game responded with dry, fourth-wall-breaking humor. Classic responses such as “It is pitch black. You are likely to be eaten by a grue” became legendary precisely because they acknowledged the absurdity of the entire exercise: you, a human sitting at a keyboard, were attempting to navigate a fictional underground empire by typing English sentences at a machine. The parser frequently mocked failed actions (“You can’t get there from here”) or offered meta-commentary on adventure tropes. One could even “ask the game about itself” and receive responses that treated Zork as a self-aware artifact rather than an invisible window into another world. This was metafiction born of technical necessity — the limited memory and processor power of early home computers forced Infocom to rely on clever prose instead of graphics — but the designers turned necessity into a defining stylistic feature. The narrator felt like a co-conspirator, winking across the screen at the player’s frustration or cleverness. Zork proved that even the simplest text interface could make the player feel complicit in the fiction’s construction, setting a template for every self-referential game that followed.

Only five years later, Activision’s Little Computer People (1985) took metafiction in a startlingly different direction. Marketed not strictly as a game but as a “discovery tool,” the title presented itself as a digital peephole into the life of a tiny humanoid already living inside your personal computer. The manual and packaging maintained the charming fiction that these “little computer people” were real digital inhabitants who had always been there; the software merely let you observe and interact with them. The character on screen would react to your inaction — yawning if you left the program idle too long, waving at the player, or even appearing annoyed if you neglected his needs. The house layout mirrored a typical suburban home, but the meta-layer was explicit: this was a simulation of life inside your machine. By blurring the line between the player’s real hardware and the fictional resident, Little Computer People turned the personal computer itself into the stage. It was gentle, almost tender metafiction, yet it carried an eerie undertone. When the little person looked directly out of the screen, the player could not help but feel watched in return. In an era when home computers were still novel and slightly mysterious, the game asked a profound question: what if the device on your desk has its own inner life, and you are merely the visitor? This early simulation of simulated life prefigured later domestic metafiction and showed that interactivity could make self-awareness feel intimate rather than distant.

By 1990, Nintendo’s StarTropics demonstrated that metafiction could extend beyond the screen and into the player’s physical reality. This action-adventure title for the NES featured a memorable puzzle that could not be solved using only the cartridge. To progress past a certain point, the player had to tune a radio to a specific frequency — 747 — and the code was deliberately omitted from the in-game text. Instead, it was hidden on a physical letter from the protagonist’s in-game uncle, included in the original game box. The letter contained invisible ink that became visible only when the paper was dipped in water. Players literally had to perform a real-world ritual — fetch a bowl, wet the paper, watch the message appear — to advance the story. This was metafiction that weaponized the game’s packaging and the player’s living room. The boundary between diegetic and non-diegetic was not merely broken; it was erased by requiring physical interaction with an object that existed outside the console. Modern re-releases have had to adapt or explain this mechanic because the tangible letter no longer accompanies digital copies, underscoring how StarTropics treated the entire consumer experience, box, manual, cartridge, as part of the fiction. It was a brilliant acknowledgment that owning a game in the cartridge era was a multi-object ritual, and the game playfully incorporated that ritual into its narrative.

These early experiments reached a creative peak in 1991, but the foundation for that peak had already been laid one game earlier in one of the most audaciously self-referential moments in the entire history of the medium. At the climax of Space Quest III: The Pirates of Pestulon (1989), after Roger Wilco has rescued the Two Guys from Andromeda — the very alien programmers who, within the fiction, created the Space Quest series itself — the trio escapes through a black hole and emerges on Earth in 1986. Roger personally delivers the Two Guys to the front door of Sierra On-Line’s corporate headquarters, where they are greeted by none other than Ken Williams, the real-life president of the company that published the game the player is currently finishing. The Two Guys, now safely employed as Sierra developers, gratefully swear to immortalize Roger by turning his adventures into a best-selling computer game franchise — meaning the very title the player has just completed is the direct result of the events they themselves just experienced. Roger, ever the hapless janitor, is politely turned down for a janitorial position at the company and blasts off again into space, his future adventures already being written by the very characters he just saved. The scene is not a throwaway gag; it is a meticulously staged ontological loop that collapses creator, character, consumer, and corporate reality into a single dizzying Möbius strip. The Two Guys are simultaneously in-game avatars, real-world developers (Scott Murphy and Mark Crowe), and fictional employees who owe their careers to the hero whose story they are now scripting. By dropping Roger at the literal doorstep of Sierra’s offices and having the in-game developers announce they will begin work on the next installment, Space Quest III transforms the entire act of playing the game into a meta-commentary on how video games are made, marketed, and consumed. The ending screen even shows the Two Guys sitting down at their computers, ready to code the sequel the player will eventually buy — explicitly acknowledging that the fiction exists only because the player has participated in it. This single sequence is metafiction at its most brazen and structurally elegant: it does not merely break the fourth wall; it walks the player through the hole, introduces them to the architects on the other side, and then politely asks them to keep buying the next numbered box so the cycle can continue.

That audacious setup made Space Quest IV: Roger Wilco and the Time Rippers (1991) not merely a sequel but a deliberate escalation of the same metafictional logic. Developed once again by the Two Guys from Andromeda (now canonically “employed” at Sierra thanks to the events of the previous game), Space Quest IV weaponizes the very concept of numbered sequels into a literal time-travel mechanic. Roger, fresh from the events of Space Quest III, is hurled through temporal rifts by Vohaul’s henchmen and lands not in historical eras but inside hypothetical future installments of his own franchise. The game’s interface and in-game signage explicitly label each destination as “Space Quest X: The Latex Babes of Estros” or the grim, post-apocalyptic “Space Quest XII: Vohaul’s Revenge II.” Players literally walk through the absurd, trope-saturated futures that a burned-out studio might produce if corporate pressure forced it to keep churning out sequels long after creative exhaustion set in. The satire is merciless: one segment parodies over-the-top pulp sci-fi with exaggerated elements that feel deliberately ridiculous because they are mocking what a desperate tenth or twelfth entry would look like, while another depicts a wasteland where the series has apparently run itself into the ground. Roger can even discover a hint book written for Space Quest IV while trapped inside an earlier or later “sequel,” rendering the book comically useless because of temporal displacement. Throwaway references to other Sierra properties — such as a joke about King’s Quest reaching the absurd numeral XXXXVIII: The Quest for More Disk Space — broaden the commentary to the entire adventure-game boom of the era. Because the ending of Space Quest III had already established that the Two Guys were sitting at Sierra desks writing these very games, Space Quest IV now feels like the direct fulfillment of that promise: the player is literally inside the “future sequels” the developers announced they would create. The commercial reality of franchise fatigue, the player’s own demand for “more Roger,” and the developers’ tongue-in-cheek exhaustion are all folded into the plot itself. What began as a clever closing gag in Space Quest III becomes, in Space Quest IV, an entire game-length meditation on the absurdity of endless sequels — turning the very act of purchasing and playing the next numbered entry into part of the joke. Together, the two titles form one of the most sustained and structurally sophisticated metafictional arcs in early gaming, proving that self-awareness could be not just a punchline but the central engine of an entire series.

That same year, Monkey Island 2: LeChuck’s Revenge delivered one of the most audacious narrative deconstructions in gaming history. After an entire campaign of ridiculous pirate antics — insult swordfights, voodoo dolls, buried treasure — Guybrush Threepwood defeats his undead nemesis LeChuck. The screen dissolves, and suddenly the epic saga evaporates. Guybrush and LeChuck are revealed as two young boys, Chuckie and his little brother, arguing inside the maintenance tunnels of a Big Whoop amusement park. Their parents scold them for wandering off and playing make-believe. The entire Monkey Island series, it seems, was nothing more than a child’s fantasy enacted in a theme-park attraction. Yet the final shot refuses resolution: as the family walks away, “Chuckie” turns to the camera with glowing red eyes and the same malevolent energy that defined LeChuck. The evil persists. Elaine’s post-credits voice, calling from the “real” Dinky Island, suggests the curse may have simply overwritten reality itself. Ron Gilbert and the LucasArts team left the ending deliberately ambiguous for decades, inviting players to debate whether they had spent hours inside a daydream or a cursed hallucination. The twist retroactively colors every puzzle, every joke, every emotional investment the player made. It mourns the loss of immersion while celebrating the joy of make-believe, and it implicates the player watching the screen. The adventure was never safely contained; it leaks into our reality through the monitor. Where Space Quest IV mocked the business of sequels, Monkey Island 2 attacked the very reality of its own story, proving that metafiction could be emotionally devastating as well as funny.

This metafictional foundation reaches its fullest expression decades later in Ron Gilbert’s own Return to Monkey Island (2022), the true spiritual sequel he developed as the series’ creator. By framing the entire adventure as Guybrush recounting his exploits to his son in a layered storytelling session, the game not only directly confronts and reinterprets the amusement-park twist of LeChuck’s Revenge, but deepens the ontological playfulness: reality, memory, and fiction blur even further as the player is invited to question which parts of the legend “really happened.” Besides, the protagonist finally uncovers the long-teased “Secret of Monkey Island” — nothing more than a cheap novelty t-shirt reading “I found the Secret of Monkey Island and all it was was this stupid t-shirt.” Through multiple endings and self-aware narration, Gilbert confirms and celebrates the second game’s bold deconstruction, transforming the Monkey Island saga itself into a living meditation on how stories evolve, endure, and delight across generations.

The mid-1990s continued this playful self-awareness. Earthbound (Mother 2, 1994/95) features a final boss sequence in which the player must literally pray in real time while the game acknowledges the controller and the human pressing the buttons. Characters comment on the rules of their own world, and the quirky tone invites the audience to laugh at the artificiality of RPG conventions. Similarly, Donkey Kong Country (1994) has Cranky Kong directly reference his origins in the original arcade Donkey Kong, complaining about “modern” graphics and younger characters in a grumpy fourth-wall rant that treats the evolution of the medium itself as part of the joke. These titles show metafiction maturing from pure text wit into visual and character-driven commentary, still operating within the technological limits of 16-bit consoles but expanding its emotional and comedic range.

The late 1990s and 2000s saw developers weaponize hardware and mechanics with increasing sophistication. Hideo Kojima’s Metal Gear Solid series remains a masterclass. In the 1998 original, Psycho Mantis reads the player’s memory card, comments on other saved Konami games, and demands the controller be physically unplugged and moved to the second port — turning the PlayStation hardware into a literal part of the boss fight. Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty(2001) mocks fan expectations for sequels by forcing players to control the rookie Raiden instead of Solid Snake, while codec conversations critique spectacle, war economies, and the desire for more of the same. The series treats the console itself as diegetic, blurring boundaries in ways that feel prophetic.

Survival horror pushed metafiction into paranoia with Eternal Darkness: Sanity’s Requiem (2002). As characters descend into madness, the game begins tampering with the television: it fakes volume changes, displays error messages claiming save files are being deleted, cracks the screen with illusory lines, and pretends to crash the system. These effects make the player question not only the protagonist’s sanity but their own living-room setup. The fourth wall here is the television and the couch; breaking it creates genuine unease because the player’s physical environment becomes suspect.

The independent renaissance of the 2010s brought even more radical experiments. The Stanley Parable (2013) places the player inside an office where an omnipresent narrator attempts to guide them through “the story.” Every deviation prompts the narrator to berate, plead, or philosophize about free will and authorial control. Multiple endings explore the futility of choice inside a pre-scripted medium. Undertale (2015) makes the player’s actions canonically permanent: characters remember deaths and resets, confront the player by name in the Genocide route, and fight not just the avatar but the player’s determination to erase the world. Pony Island (2016) casts the player as a soul trapped inside a demonic arcade machine that must be hacked from within, complete with corrupted menus and fake loading screens. Doki Doki Literature Club! (2017) begins as a cute dating sim and gradually deletes character files, rewrites poetry, and speaks directly to the player’s desktop, turning the cheerful UI into a cage.

Further examples enrich the tradition. Super Paper Mario (2007) lets players flip between 2D and 3D perspectives while characters comment on the paper-thin nature of their world and treat the fourth wall as a literal stage curtain. The Beginner’s Guide (2015) presents itself as a collection of unfinished games by a fictional friend, only to reveal a deeply personal meditation on authorship and the ethics of interpretation. Inscryption (2021) layers card-game mechanics with cabin horror, file manipulation, and shifting genres, forcing players to delete files and confront the game’s creator avatar in an escalating meta-nightmare.

Across four decades, certain patterns emerge. Early metafiction relied on text, packaging, and humor to overcome hardware limits. By the 1990s it targeted sequels and narrative truth. Later titles invaded the interface, the save file, and the player’s emotions. In every case, interactivity is the secret ingredient: a novel can describe the reader’s complicity; a game makes the player enact it. When Roger Wilco time-travels through fictional sequels, we feel the weight of franchise logic. When Guybrush discovers he might be a child in a theme park, our investment collapses along with his. The laughter or dread that follows reaffirms our connection to the medium.

In conclusion, metafiction seems to thrive in video games because interactivity is the medium’s essence. From the sarcastic parser of Zork to the glowing-eyed stare of Chuckie, from the water-dipped letter of StarTropics to the file-deleting horrors of Doki Doki Literature Club, these titles remind us that every game is a collaborative illusion. By exposing the artifice, they paradoxically strengthen it. We return to play not despite the self-awareness but because it makes the experience more honest, more human, and more alive. In an era of endless remakes, live-service sequels, and emerging virtual realities, metafiction grounds us. It asks us to pause, laugh at the pixels, question the save file, and ultimately cherish the fragile magic that happens when a person sits down, picks up a controller, and agrees — however briefly — to believe in the fiction. That agreement, once examined and playfully dismantled, becomes all the more precious. Video games, through metafiction, do not just tell stories about other worlds; they tell stories about the act of playing itself, and in doing so, they tell us something profound about who we are when we play.

Conversa: Equitação à Amazona com Carolina Conde

Ana Vieira Vicente conversa com a cavaleira Carolina Conde, a primeira mulher em Portugal a competir numa prova de Equitação de Trabalho à amazona, que trouxe uma perspetiva atual sobre a continuidade e relevância da prática. A entrevista abordou a monta à amazona, destacando o seu contexto histórico como uma prática associada às mulheres, marcada por elegância e condicionada por normas sociais de outras épocas. Ao longo do tempo, esta forma de equitação evoluiu, mantendo a sua identidade própria. Foram ainda referidos alguns aspetos técnicos, como a posição lateral, a utilização de sela própria e a necessidade de equilíbrio e coordenação. Destacou-se também o papel histórico da Rainha D. Amélia no incentivo à prática em Portugal. Por fim, sublinhou-se a importância de motivar senhoras e meninas a experimentar a monta à amazona, preservando a tradição e promovendo a sua valorização nos dias de hoje.

O mais antigo tratado económico entre o Reino de Portugal e o de Inglaterra, de 1353

O mais antigo tratado económico celebrado entre o Reino de Portugal e o Reino de Inglaterra, outorgado a 20/Out/1353, por Afonso Martim Alho, mercador do Porto, a mando do Augusto Senhor D. Afonso IV [traduzido do Inglês Medievo]. 

Acordo com homens da Marinha Portuguesa, com a duração de cinquenta anos.

Saibam todos que como as boas gentes e comunidades da Marinha, das Cidades e das Vilas de Lisboa E do Porto de Portugal, do Reino e Senhorio do Rei de Portugal E do Algarve, enviaram Afonso Martins, dito Alho, como seu mensageiro e procurador perante o Muito Excelente Príncipe, Senhor Eduardo, pela graça de Deus Rei de Inglaterra e de França, para tratar das amizades e firmes alianças entre o dito Rei de Inglaterra e França, por ele, E pelos súbditos E as gentes, mercadores, marinheiros E comunidades da Marinha, das Cidades E Vilas, de Lisboa E do Porto de Portugal sobreditos, por si E por cada qual perpetuamente ou por certo tempo, segundo aprouver ao dito Rei de Inglaterra e de França, que dure. Pois que, para boa aliança e amizade E amorio florescer entre o dito Rei de Inglaterra e França, e as ditas gentes, mercadores, marinheiros E comunidades sobreditas, e por prol comunal de uma parte e de outra, acordamos na maneira que se segue:

Primeiramente, que bom acordo E aliança sejam tidos e afirmados por Terra e por Mar, entre as partes sobreditas, a durar, do dia da fazedura [deste acordo] até cinquenta anos cumpridos. Item, que nenhuma das gentes, súbditos do dito Rei de Inglaterra e de França, fará mal nem dano em pessoas nem em Navios, mercancias nem a outros bens, às gentes, mercadores, nem comunidades das ditas Marinhas E Cidades de Lisboa E do Porto de Portugal. Nem que nenhuma das gentes, mercadores, marinheiros E comunidades da Marinha E Cidades sobreditas não fará mal nem dano em pessoas nem em Navios, mercancias nem a outros bens, às gentes da Inglaterra, da Gasconha, de Irlanda, de Gales, nem a nenhum outro dos súbditos do dito Reino de Inglaterra e de França. Nem que nenhuma das gentes, nem súbditos, de uma parte, em dano e em prejuízo da outra parte, fará alianças nem darão ajudas nem socorros, de qualquer forma, aos inimigos, contrários ou adversários da outra parte. Item, acordo é que as gentes, súbditos, mestres, marinheiros, de uma parte e de outra, de qualquer condição que sejam, possam seguramente, livremente e sãmente ir e vir, por Terra e por Mar, a todas as Marinhas, Portos, Cidades E Vilas de uma parte E da outra, E a todos os outros os outros Reinos E partes, como lhes aprazer, com os seus Navios, grandes e pequenos, E com todas as mercadorias que estejam embarcadas nos ditos Navios, seja de que País ou gentes de que as ditas mercadorias forem oriundas: e que todas as maneiras de debates, dissenções e desacordos movidos e danos causados, de uma parte e de outra, desde todo o tempo anterior até à feitura [desta carta] (se forem desaguisados), cessem e sejam anuladas as dissenções sem qualquer ação nem direito de restituição para todo o sempre. E, se algum ma ou dano for feito, desse momento em diante, por uma parte ou outra, sejam os males e danos sobreditos, conveniente e devidamente, restituídos pelos Senhores, ou grandes, de uma parte e de outra. E haverá a parte, que recebera o dano, as suas despesas, as quais ele fará em demanda da pessoa que fez o mal e [em demanda] de seus bens. E, no caso de não possuir bens suficientes para cumprir a demanda, que seu corpo seja apresado E justiça feita de sua pessoa, por demanda de quem sofrera o dano. Item, acordo é que, se suceder que, durante este acordo, algum mal ou dano seja feito por gentes ou súbditos de uma parte ou de outra, que por tal não será o acordo rompido; antes, será feita correção e restituição pelos Senhores E grandes, de uma parte e de outra, como é sobredito. Item, que em caso que o Rei de Inglaterra e França, ou as suas gentes, apresem ou ganhem de seu adversário (quem quer que ele seja) Vila, Castelo ou Porto, e naquela Vila, Castelo ou Porto sejam encontrados bens das gentes, mercadores, marinheiros, ou Comunidade da Marinha E Cidades sobreditas, ou Navios, em os quais sejam encontrados mercadorias ou outros bens das gentes, mercadores, marinheiros ou Comunidade sobreditas, que o dito Rei de Inglaterra e de França, ou quem quer que será Capitão por ele, faça buscar os seus bens, estejam em que mãos estiverem, e usará o seu leal poder para assegurar este acordo, de fazer restituir os ditos Navios, mercadorias e bens, às gentes, mercadores, marinheiros, ou outros da Comunidade da Marinha, E Cidades sobreditos, aos de que eles sejam, sob o seu juramento, desde que não tenham armado inimigos do dito Rei de Inglaterra e França, nem tenham a eles dado ajuda, socorro nem conforto. E se algum deles for encontrado a armar, ou a ajudar, socorro ou confortar, os ditos inimigos do dito Rei de Inglaterra e de França, que percam os seus bens e o corpo, E que nenhum dos outros, que seguiram lealmente este acordo, sofram dano por isso. E assim, se as gentes do dito Rei de Inglaterra e França tomarem, no Mar ou em Porto, alguns Navios de seus adversários e inimigos E nos ditos Navios forem encontradas mercadorias ou outros bens da Marinha E Cidades sobreditas, sejam os bens e mercancias trazidos para Inglaterra, e guardados a salvo até que os mercadores, de cujos bens e mercancias são, tenham provado que os bens são deles. E de outra forma farão, em caso semelhável, aqueles da Marinha E Cidades sobreditas, às gentes e súbditos do dito Rei de Inglaterra e de França. Item, que pessoas da Marinha E das Cidades sobreditas possam vir e pescar, livremente e a salvo, nos Portos da Inglaterra e da Bretanha, E em todos os outros lugares E Portos onde eles venham, pagando os Direitos e os costumes aos Senhores do País. Em testemunho destas cousas o dito Rei de Inglaterra, em uma destas presentes cartas autênticas, destinada às Cidades e Marinha sobreditas, colocou o seu selo.

E o dito Afonso Martim, dito Alho, Mensageiro E procurador das Cidades E Marinhas sobreditas, a outra parte destas cartas autênticas, destinada para o dito Rei de Inglaterra e França, colocou o seu selo.

Dante em Londres, vinte dias do mês de Outubro, no Ano da Graça de Mil E Trezentos E Cinquenta E Três.

 – Foedera, conventiones, literæ, et cujuscunque generis acta publica […], tomo III, parte I, p. 88.

Sobre a Emigração de Jovens em Portugal

Foto de capa: Instituto + Liberdade

“ImBestigação” da Cooperativa: ai isto está tão mal que os nossos jovens estão todos a emigrar porque não têm oportunidades cá. Ai, ai ai.

Ai que são os mais qualificados que estão a emigrar. Ai.

Fui ver. Estamos como sempre estivemos. Temos é muito menos jovens.

Ou seja, o problema de fundo vai sempre bater no mesmo spot. A baixa taxa de natalidade.

Bom, adiante. Ora como o nosso Governador do Banco de Portugal Álvaro Santos Pereira, o dos pastéis, anda a publicar uns tweets super interessantes, eu próprio fui lá ao site do Banco de Portugal sacar matéria-prima para esta thread. E eles têm lá coisas mesmo boas. Entre outros, um estudo sobre “A emigração dos jovens portugueses nas últimas décadas”.

Começamos já pelo quadro que estraga logo metade da missa.

Quando se olha para os jovens nascidos em Portugal entre os 15 e os 34 anos, a taxa de emigração era esta:

2001: 13,5%

2011: 11,2%

2021: 15,1%

Ou seja, sim, em 2021 a taxa é mais alta do que em 2011. Mas comparando com 2001, o cenário não é assim tão diferente. Passámos de 13,5% para 15,1% em vinte anos.

Não é irrelevante. Mas também não é exatamente nunca visto, êxodo bíblico ou a juventude inteira a fugir deste país.

Agora, quando se parte o dado por idades, a coisa fica mais interessante.

Nos 25-34 anos, que é a faixa onde já estamos a falar mais claramente de entrada no mercado de trabalho, carreira, salários, rendas e vida adulta, os números são estes:

2001: 19,4%

2011: 13,5%

2021: 18,2%

Aqui está a primeira chatice para a narrativa histérica, em 2021, a taxa de emigração dos 25-34 anos era inferior à de 2001. Pouco inferior, é certo, mas inferior.

Portanto, calma com a ladainha de que os jovens agora fogem todos porque Portugal nunca esteve tão mau. Há problema? Há. É sério? É. Mas o fenómeno não nasceu ontem, nem começou com o preço dos T0 no Chiado que não permite uma vida digna.

A grande diferença aparece nos 15-24 anos.

Aí sim, há um salto evidente:

2001: 6,6%

2011: 8,2%

2021: 12,0%

Esta faixa quase duplica em vinte anos. Mas aqui convém não nos andarmos a enganar. Estamos a falar de jovens que, em grande parte, ainda estão em percurso escolar ou universitário.

Parte desta subida pode estar associada à maior mobilidade estudantil: Erasmus, intercâmbios, licenciaturas fora, mestrados lá fora, experiências académicas dentro da União Europeia e outros percursos de estudo que hoje são muito mais comuns do que eram em 2001.

Portugal tem um problema de emigração jovem crónico. Mas não é bem o problema plastificado que muitas vezes nos vendem hoje.

Em parte o que mudou foi a composição, a forma e o contexto. Mais mobilidade estudantil, mais circulação europeia, no fundo, tudo o que é expectável numa Europa sem fronteiras.

Sublinho, o problema maior não é a emigração jovem, é a ausência de jovens portugueses. NATALIDADE. Esta quebra não aconteceu de um dia para o outro.

Bom, mas vamos lá ver se os jovens que emigram são mesmo como dizem os mais qualificados…..

Fonte de informação: Banco de Portugal

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🌍 E para onde vão os jovens portugueses?

Aqui também há menos novidade do que parece.

O gráfico dos emigrantes jovens, dos 25 aos 34 anos, mostra que Portugal continua a mandar gente para os sítios de sempre:

França, Reino Unido, Suíça, Espanha, Alemanha e Luxemburgo.

França continua praticamente igual: cerca de 48 mil jovens portugueses em 2011 e em 2021.

Suíça continua no topo, apesar de descer de 40,7 mil para 33 mil.

Reino Unido cresce bastante, de 23,6 mil para 36,7 mil, embora aqui seja preciso lembrar que estes dados ainda apanham o período antes do efeito do Brexit.

Espanha, Luxemburgo, Alemanha, Bélgica e Países Baixos completam o velho circuito europeu da emigração portuguesa.

Ou seja, os jovens não estão propriamente a descobrir rotas exóticas. Vão para onde os portugueses sempre foram países próximos, com comunidades instaladas, redes familiares, oportunidades de trabalho e salários que são mais altos. Não necessariamente para fazer coisas muito diferentes. Agora, claro, antes ia-se muito com a mala de cartão. Hoje vai-se de avião, e dentro da legalidade. É naturalmente mais fácil.

Fonte: Banco de Portugal

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🎓 Agora vamos à qualificação dos jovens emigrantes.

Este gráfico mostra os jovens nascidos em Portugal, entre os 25 e os 34 anos, divididos por nível de escolaridade: básico, secundário e superior.

E compara duas coisas:

os jovens que continuam a residir em Portugal;

os jovens portugueses que residem no estrangeiro.

Ou seja, isto permite responder a uma pergunta importante, quem emigra é sobretudo a geração mais qualificada?

A resposta é bem aquela que te vende!

Em 2021, entre os jovens portugueses dos 25 aos 34 anos a viver no estrangeiro, a distribuição era esta:

Ensino básico: 34,8%

Ensino secundário: 34,5%

Ensino superior: 30,8%

Agora somemos o básico e o secundário, que é onde está a maioria:

34,8% + 34,5% = 69,3%

Ou seja, em 2021, quase 7 em cada 10 jovens emigrantes portugueses entre os 25 e os 34 anos tinham, no máximo, o ensino básico ou secundário.

Isto não apaga a fuga qualificada. Mas estraga a lengalenga preguiçosa de que a emigração jovem portuguesa é uma procissão de licenciados a caminho do estrangeiro.

Há licenciados, sim. Muitos. Mas a maioria continua a estar entre o básico e o secundário.

E isto já vinha de trás!

Em 2001, entre os jovens emigrantes:

Básico: 52,5%

Secundário: 35,9%

Superior: 11,6%

Básico + secundário = 88,4%

Em 2011:

Básico: 47,2%

Secundário: 30,8%

Superior: 22,0%

Básico + secundário = 78,0%

Em 2021:

Básico: 34,8%

Secundário: 34,5%

Superior: 30,8%

Básico + secundário = 69,3%

Portanto, sim, o peso dos jovens emigrantes com ensino superior aumentou muito. Passou de 11,6% em 2001 para 30,8% em 2021.

Mas isto não aconteceu do nada. Também há muito mais jovens licenciados hoje em Portugal do que havia em 2001.

Em 2021, entre os jovens dos 25 aos 34 anos a residir em Portugal, 38,5% tinham ensino superior.

Entre os jovens portugueses da mesma idade a residir no estrangeiro, eram 30,8%.

Residentes em Portugal com superior: 38,5%

Residentes no estrangeiro com superior: 30,8%

Ou seja, proporcionalmente, há mais peso de licenciados entre os jovens que ficam em Portugal do que entre os jovens que emigram.

Isto é importante porque desmonta uma ideia de que Portugal está simplesmente a formar licenciados para exportar em massa.

A realidade é mais chata.

Portugal exporta jovens qualificados, sim. Mas também exporta muitos jovens com secundário, muitos jovens com básico, muita malta de hotelaria, construção, logística, restauração, serviços, cuidados, transporte e trabalhos práticos.

A emigração jovem não é só fuga de cérebros.É também fuga de braços.

Fonte: Banco de Portugal

https://www.

bportugal.pt/publicacao/bol

etim-economico-marco-2025

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☢️Em conclusão: convém dizer que os jovens emigram porque sempre emigraram, porque é normal circular, porque o mundo tem as portas abertas e porque uma vida preenchida também se faz fora da terra onde se nasceu. É mesmo assim camaradas.

Não há aqui nenhuma tragédia metafísica. Há jovens que saem porque ganham mais. Há jovens que saem porque querem estudar fora. Há jovens que saem porque querem respirar outros ares, conhecer outras cidades, trabalhar noutras empresas, aprender outras línguas, ou simplesmente porque sim.

E isto é normal. Normalíssimo. Chama-se mundo aberto. Chama-se União Europeia. Chama-se liberdade de circulação. Chama-se ser jovem e não achar que a vida tem de acabar na praceta onde nasceu.

O que é menos normal é a carpideira nacional transformar cada jovem que apanha um avião num mártir da pátria, como se a emigração fosse sempre uma espécie deportação económica. Não é. Muitas vezes é escolha. Muitas vezes é ambição. Muitas vezes é curiosidade. Muitas vezes é simplesmente a vida a acontecer.

Claro que Portugal tem problemas. Tem salários baixos, casas caras, progressões lentas e uma economia bloqueada pela vaga marxista que ainda não nos largou.

Mas também convém desmontar a chantagem emocional que se instalou no debate público. Aquela encenação dos palermóides nas manifs, cartaz na mão, a ameaçarem-nos solenemente que vão emigrar, como se o país tivesse de entrar em pânico porque o Tiaguinho de humanidades aplicadas pode um dia comprar um bilhete para Bruxelas.

Mas infelizmente não compra.

Os Tiaguinhos, sim, esses, heróis da diáspora que ainda nem conseguiram emigrar para fora do quarto dos papás. Vivem entre a cama por fazer, o frigorífico abastecido pela mamã e a grande epopeia revolucionária da paródia na manif na avenida da Liberdade. Promessas, promessas. Ameaçam que vão embora há anos, mas a única fronteira que atravessam com regularidade é a do quarto para a sala.

Camaradas, o probema de Portugal não é haver jovens que saem. O problema é haver poucos jovens.

Quando um país tem filhos suficientes, a circulação é saudável. Uns saem, outros entram, alguns voltam, outros ficam lá fora, e a vida segue. Quando um país deixa de ter crianças, cada jovem que sai parece uma amputação nacional. A emigração deixa de ser movimento e passa a parecer hemorragia.

Por isso, olha, façam mais filhos. Criem mais gente. Construam um país onde nascer, crescer, sair, voltar ou ficar não pareça sempre uma tragédia. Portugal não acaba porque alguns jovens emigram. Portugal começa a acabar quando já quase não há jovens para emigrar.

Tenho dito!

Pode uma editora em Portugal decidir que só publica autores negros ou mulheres?

Pode uma editora em Portugal decidir que só publica autores negros ou mulheres? Em que medida é que isto não configura discriminação à luz da lei? Em princípio, pode, porque o direito de liberdade de criação editorial sobrepõe-se às prevenções de discriminação previstas na lei.

A liberdade de expressão e a autonomia privada constituem pilares fundamentais do ordenamento jurídico português. Quando uma editora privada decide adoptar uma linha editorial restrita a autores de determinado grupo — seja por género, raça, etnia ou outra característica identitária —, surge inevitavelmente a questão de saber até que ponto tal escolha configura discriminação proibida. A resposta, sustentada na Constituição da República Portuguesa, na Lei n.º 93/2017 e na jurisprudência europeia, aponta neste sentido: em regra, não configura discriminação ilegal. Trata-se do exercício legítimo da liberdade editorial, protegida pelos artigos 37.º e 38.º da CRP.

Vem esta discussão a propósito da proposta da editora Kiala, subsidiária da Vírgula d’Interrogação, que opera em Portugal, de explicitamente declarar que se dedica à publicação de autores negros.

A Constituição garante a todos o direito de exprimir e divulgar livremente o pensamento, sem impedimentos nem discriminações, e reconhece expressamente a liberdade de criação e de escolha editorial nos meios de comunicação social. Publicar não é um serviço público obrigatório que qualquer autor possa exigir; é um acto de curadoria cultural, de seleção e de criação. Forçar uma editora a aceitar manuscritos contra a sua vontade equivaleria a uma forma de censura prévia, imposição essa que é constitucionalmente vedada. Até mesmo a Lei n.º 93/2017, que transpõe a Diretiva 2000/43/CE e combate a discriminação por origem racial ou étnica, proíbe recusa de bens e serviços ao público e limitações à fruição cultural. No entanto, não se aplica à seleção de autores por parte de uma entidade privada: o foco da lei incide no acesso do público à cultura (consumo), não na produção ou curadoria.

Apesar disso, a mesma lei permite expressamente medidas de ação positiva destinadas a compensar desvantagens históricas. Esta proteção estende-se simetricamente a escolhas que, à primeira vista, poderiam parecer “discriminação inversa”. Uma editora que decida publicar apenas homens ou apenas autores brancos beneficia da mesma liberdade editorial. A lei não distingue, no domínio da criação cultural privada, entre políticas que privilegiam grupos historicamente desfavorecidos e aquelas que privilegiam grupos majoritários ou tradicionalmente dominantes: ambas são manifestações da autonomia privada e da liberdade de expressão. A assimetria surge principalmente em domínios como o emprego público, os subsídios estatais ou o acesso a serviços abertos ao público, mas não na linha editorial de uma casa privada.

Existem, porém, fronteiras que definem a margem da legalidade. Situações semelhantes que se mantêm dentro ou na margem da lei incluem ginásios exclusivos para mulheres (justificados por razões de conforto e segurança), associações culturais ou religiosas que limitam a participação a determinados grupos, escolas privadas só para um único sexo, aplicações de encontros temáticas e eventos ou antologias literárias focadas num género ou etnia específica. Estas práticas são geralmente protegidas pela liberdade de associação (artigo 46.º da CRP), pela liberdade de iniciativa económica e pela natureza fechada ou especializada do serviço. No caso editorial, editoras feministas, afrodescendentes ou nicho religioso operam há anos em Portugal sem sanções, demonstrando a aceitação prática desta margem: é duvidoso que os tribunais portugueses passassem a levantar problemas nessa matéria, embora pudessem, eventualmente, aplicar de forma mais criteriosa a alínea da lei 93/2017 que permite a discriminação positiva de modo a permitir discriminação neste âmbito de maiorias supostamente já protegidas pelo seu estatuto.

Para lá dessa margem quanto ao exercício de liberdade editorial, encontram-se práticas que configuram discriminação ilegal. Um ginásio ou serviço de transporte aberto ao público que exclua explicitamente clientes por raça (“só para brancos”) ou que adopte critérios de género de forma arbitrária pode violar a Lei 93/2017, gerando contraordenações. A segregação racial em contexto educativo — mesmo em escolas privadas — ultrapassa os limites, ao contrário das escolas separadas por sexo que se justificam por razões pedagógicas. No domínio laboral, uma empresa não cultural que publique anúncios ou adote práticas sistemáticas de exclusão (“só homens brancos”) incorre em infrações ao Código do Trabalho e pode mesmo configurar crime de incitamento ao ódio (artigo 240.º do Código Penal) se acompanhada de propaganda discriminatória. A distinção crucial reside no contexto: curadoria cultural fechada e transparente versus recusa arbitrária de bens, serviços ou oportunidades abertas ao público.

Por fim, é verdade que o ordenamento jurídico português opta por proteger prioritariamente a liberdade de criação e a autonomia privada no sector editorial, permitindo que editoras definam as suas linhas identitárias — sejam elas “só mulheres”, “só negros”, “só homens” ou “só brancos” — sem que isso equivalha automaticamente a discriminação proibida. Isto reflete equilíbrio entre igualdade formal e liberdade real: o Estado não deve transformar-se em árbitro do conteúdo cultural, sob pena de comprometer o pluralismo. A transparência na missão editorial, o respeito pelos limites penais e a distinção entre criação privada e serviços públicos são as balizas que mantêm esta liberdade dentro dos contornos do Estado de Direito. Numa sociedade plural, o direito de escolher o que se publica — e de quem — é, afinal, o direito de todos.

Mas, em última análise, a aplicação prática destas regras revela uma aparente assimetria de critérios que merece problematização. Enquanto ginásios, restaurantes e escolas privadas enfrentam maior escrutínio e restrições quando adotam exclusões baseadas em género ou etnia — frequentemente invocando a natureza “aberta ao público” dos serviços e o risco de recusa discriminatória de bens (Lei n.º 93/2017) —, as editoras beneficiam de uma margem significativamente mais ampla, ancorada na sacralidade da liberdade editorial e de expressão. Esta distinção, embora juridicamente defensável (curadoria cultural versus fornecimento comercial de serviços), levanta questões de coerência: por que razão a seleção de autores por raça ou género é vista como legítima expressão artística, enquanto a criação de um ginásio “só para homens brancos” ou de uma escola “só para brancos” é rapidamente rotulada como discriminação ilícita? Tal disparidade pode sugerir que o ordenamento jurídico — ou a sua aplicação pelas autoridades e opinião pública — concede maior proteção à produção cultural identitária do que a outros domínios da vida económica e social, abrindo espaço para acusações de seletividade ideológica. Numa sociedade que aspira à igualdade formal, esta diferença de tratamento entre sectores aparentemente análogos desafia a neutralidade do Estado e convida a uma reflexão mais profunda sobre os limites reais da autonomia privada face à proibição da discriminação.

Gallery: Thirteen empty streets of Pompeii

Thirteen empty streets of Pompeii. A unique, overwhelming, and unsettling experience when the site is about to close. By Orestes Rafael Betancourt Ponce de León, originally shared in his most excellent page, Visuals of the Ancients, at https://x.com/visualsancients/ and https://www.instagram.com/visualsoftheancients/.

Nunca pedi isto: Deus Ex e as respostas à tecnologia

Deus Ex chama-se assim por uma razão. Apò mēkhanês theós, o deus desde a máquina, era um expediente cénico do teatro grego que Eurípides consagrou em mais de metade das suas tragédias: quando o argumento já não tinha forma de se resolver pelos meios humanos disponíveis, descia uma grua dos bastidores, com um actor vestido de divindade, e o desfecho acontecia. Em Medeia, é o deus-sol que envia uma carruagem dourada para resgatar a heroína do desastre que ela mesma provocou. Aristóteles, na Poética, achou que o truque era um defeito: a resolução, dizia, devia sair do próprio enredo, não de um artifício pendurado por cima. A frase ficou, desde então, com a sombra da fraude.

Em 2000, num estúdio no Texas, alguém decidiu chamar Deus Ex a um jogo de computador. O jogo é um thriller de conspiração em que a humanidade começou a delegar à tecnologia os problemas que antes se entregavam às instituições, e o título funciona como aviso. O que chega pela máquina, no jogo, não vai resolver o que os humanos no palco deixaram por resolver. Vai ser, isso sim, mais máquina. Em 2000, esta intuição era pioneira; em 2026, é trivial. O jogo, hoje conhecido como o original, tornou-se um dos mais citados da história do meio, pela escrita política e pela desconfiança simétrica perante todas as instituições. Em 2003 ganhou uma sequela directa, Invisible War, sofrível ao ponto de ter ficado esquecida no escorrer do tempo. Em 2011 chegou a prequela, Deus Ex: Human Revolution, mais lenta do que o original e politicamente mais elaborada. É deste terceiro jogo, mas prequela do primeiro, que falo aqui.

Human Revolution decorre numa versão fictícia de 2027 em que as próteses cibernéticas se tornaram artigo de mercado. Braços, pernas, olhos, sistemas nervosos auxiliares: a tecnologia que tinha começado por substituir membros perdidos passou a oferecer, a quem as podia comprar, capacidades que os corpos sem aumento não tinham. A sociedade dividia-se entre os augmentados e os puros, e essa divisão atravessava profissões, países e classes. Quem tinha próteses tinha trabalho, salário e reflexos; quem não tinha era posto fora da economia que se construía em volta. Por trás de tudo, uma sociedade secreta de poucos rostos preparava o palco para um desenlace que ninguém pediu, com mãos demasiado pequenas para serem visíveis e demasiado fortes para serem ignoradas.

O protagonista chama-se Adam Jensen e é chefe de segurança de uma das grandes empresas de aumentos, em Detroit. No início do jogo, sofre um ataque que devia tê-lo matado: a sua mulher, cientista da empresa, desaparece nesse mesmo ataque, e ele acorda meses depois num corpo que não escolheu, refeito com próteses cibernéticas até onde a anatomia o permitia. Volta ao trabalho com a missão dupla de descobrir quem o atacou e o que aconteceu à mulher. A investigação leva-o por Detroit, Hengsha e Singapura, e termina por arrastá-lo para um complexo subaquático no Árctico chamado Panchaea.

O que ali se passa é o motivo pelo qual o mundo, à superfície, perdeu a calma. As próteses cibernéticas dependiam, todas elas, de um pequeno componente neural produzido por uma única empresa, o biochip, e o biochip tinha, por baixo da camada conhecida, uma vulnerabilidade colocada lá de propósito por quem o fabricou. Hugh Darrow, o cientista que inventou as próteses e a quem foi recusado o seu próprio aumento, perdera a fé no que tinha posto em circulação. Em Panchaea, está a usar essa vulnerabilidade para emitir um sinal que corrompe, à distância, o controlo motor dos augmentados em todo o planeta. As cidades caíram, num único dia, em violência sem causa visível. As autoridades não sabem o que está a acontecer. O mundo aguarda, aterrorizado, uma explicação que ninguém lhe dá.

É num posto de transmissão isolado, no fundo de Panchaea, que Jensen entra numa sala e encontra quatro botões. Cada botão envia ao mundo uma mensagem diferente. Jensen pode dar quatro versões da explicação que está a ser exigida, ou nenhuma.

O jogo foi publicado em 2011 e a sua acção decorre em 2027. Estamos em 2026, exactamente um ano antes da data em que tudo aquilo deveria estar a acontecer. Muito do que esse ano fictício imaginou já está a acontecer, sem o brilho estético do cyberpunk dourado em que o jogo se vestiu mas com toda a substância. As próteses cibernéticas que dividiam a sociedade no jogo são, na nossa versão, sistemas de inteligência artificial; o conflito entre quem se aumenta e quem recusa o aumento é o conflito entre quem incorpora os modelos generativos no trabalho e quem se nega a usá-los; a conspiração subterrânea sobre quem controla a tecnologia tornou-se uma discussão pública, lenta, ruidosa e desorientada.

Os quatro botões correspondem, no jogo, a quatro respostas possíveis a um momento de inflexão tecnológica. O jogo tem o cuidado raro de não privilegiar nenhuma. Cada uma é apresentada com a sua coerência interna, com o seu interlocutor a pôr argumentos sólidos, e com o seu próprio epílogo a mostrar que tem custos. Quem joga descobre rapidamente que o exercício não é eleger a melhor resposta. É reconhecer que cada uma tem a sua razão e que a história não recompensa nenhuma delas mais do que castiga as outras. É um exercício pouco comum num jogo de acção e raríssimo na conversa pública sobre tecnologia.

O primeiro botão pertence a David Sarif, o industrial que aumentou Jensen. Sarif acredita que a humanidade nunca foi outra coisa senão um animal a aumentar-se: o fogo, a roda, a escrita, a antibioterapia, todos foram próteses. Que recusar o aumento cibernético é recusar a próxima estação de uma viagem que começou nos primeiros utensílios. Que quem se assusta agora é quem sempre se assustou, e que o mundo continuou sem essas pessoas. A mensagem que o botão envia tem a tonalidade do pioneirismo. Diz que o futuro pertence aos que avançam, que o medo é regressivo, e que a única responsabilidade da humanidade perante a sua própria invenção é pegar nela e ir mais longe.

Em 2026, esta voz tem várias caras e um único timbre. Os investidores que assinam manifestos a celebrar a aceleração; os fundadores que repetem que a inteligência artificial é o passo seguinte da espécie; os ensaios que avisam que parar para pensar é a única ofensa moral. A voz de Sarif é a voz da carta aberta que vai escrever-se sempre que alguém propõe travagem. Tem o brilho honesto de quem acredita no que diz e a sombra inconveniente de quem ganha em proporção directa ao volume com que o diz.

O segundo botão é de William Taggart. Taggart, no jogo, é o rosto da Frente da Humanidade, o movimento popular contra o aumento; mas é menos um inimigo da tecnologia do que um propagandista da regulação. A sua mensagem ao mundo será que o aumento é demasiado importante para ficar nas mãos das empresas que o vendem e demasiado perigoso para ficar nas mãos dos indivíduos que o compram. A única solução civilizada, dirá, é entregá-lo, com toda a sua complexidade, ao Estado. A regulação será dura, transparente, democrática. Quem se conformar com ela poderá continuar; quem dela se afastar será desligado.

Em 2026, esta é a voz de Bruxelas. O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, com a sua taxonomia de riscos e os seus formulários de conformidade, é uma versão executável do que Taggart proporia. Há, na voz de Taggart, uma seriedade administrativa que repele o entusiasmo de Sarif e a abstracção dos seus opositores. Há também a fé tranquila de que, se o quadro regulatório for fino e o trabalho minucioso, a tecnologia caberá num molde sem partir. É uma fé que tem produzido, neste último ano, dezenas de milhares de páginas de orientação técnica e poucos efeitos visíveis para quem usa as ferramentas que o regulamento devia tutelar.

O terceiro botão é o de Hugh Darrow. A mensagem que pretende emitir é a confissão do que ele descobriu de dentro do sistema: que o biochip de que todos os augmentados dependem foi sempre controlável a partir de fora, e que a violência do último dia nasceu daí. A única salvação da humanidade, dirá, está em desligar tudo. A voz de Darrow não chega vencida; chega lúcida, e essa lucidez é, no jogo e fora dele, a parte mais difícil de despachar.

Em 2026, esta é a voz daqueles que escrevem cartas abertas a pedir uma moratória, daqueles que avisam, em conferências e em ensaios, que estamos a construir um sistema cujas consequências não compreendemos, e daqueles que falam em risco existencial sem que isso lhes pareça melodrama. É também, no seu reflexo mais desbotado, a voz da conspiração de café que vê uma cabala atrás de cada novidade. As duas versões partilham, sem o saberem, a mesma intuição básica: aquilo que está a acontecer não foi escolhido por ninguém, e quem nele participa está a ser actuado mais do que a actuar.

O quarto botão não envia mensagem nenhuma. Quem o aperta não emite nada para o mundo: destrói o complexo, mata-se a si próprio, e deixa o mundo às escuras sobre o que aconteceu. As várias autoridades terão de reconstruir os factos a partir de fragmentos; a opinião pública construirá narrativas concorrentes; nenhuma será verificável. Há, neste botão, uma forma de honestidade que os outros três não admitem. É a admissão de que toda a explicação é manipulação, e que o silêncio é a única coisa que respeita o futuro.

Em 2026, esta é a voz dos que saíram. Os escritores que apagaram as redes; os investigadores que decidiram não publicar mais; aqueles que descobriram, num momento qualquer, que o esforço de explicar a tecnologia ao mundo se tornou indistinguível do esforço de a alimentar. A escolha do silêncio é menos abstinência do que recusa em participar de um debate que se transformou num veículo, em que cada intervenção é capturada, citada, recombinada e devolvida em forma de produto. Quem se cala não está a desistir de pensar; está a desistir de oferecer o seu pensamento à máquina que dele se alimenta.

Há uma diferença entre o jogo e a vida que ainda não nomeei, e em que assenta tudo o resto. O jogo é determinista. Cada um dos quatro botões leva a um final fixo, com diálogos pré-gravados, cenas pré-renderizadas, efeitos pré-escritos no mundo do jogo. Quem o aperta sabe que o argumento já estava todo escrito antes de ele entrar na sala. A escolha é, em rigor, uma selecção de um determinismo entre quatro determinismos disponíveis. Cada final é necessário, dado o botão; e o jogo, em qualquer deles, fecha com um epílogo que mostra a consequência da escolha.

A vida, em 2026, é estocástica. Não há quatro ramos pré-renderizados; há uma distribuição contínua de probabilidades sobre milhões de acontecimentos pequenos. O Estado contrata um fornecedor; a empresa adopta um modelo; o professor consente um certo uso; o filho aceita um termo numa caixa de diálogo. Cada acto puxa a probabilidade de uma forma quase imperceptível, e o futuro emerge da soma de todos, sem ter sido escrito previamente, sem que ninguém o tenha desenhado. Não há epílogo: há um estado seguinte, ligeiramente diferente, sobre o qual se voltará a agir.

As quatro vozes partilham, sem o admitirem, a nostalgia da escolha determinista. A aceleração aposta que o futuro pertence a quem avança; a regulação aposta que pertence a quem cumpre; a catástrofe aposta que pertence a quem se prepara para o pior; o silêncio aposta que pertence a quem dele se ausenta. Cada uma joga como se já estivesse na sala dos botões, e cada uma se engana sobre qual é o argumento de fundo. O argumento, em rigor, não está escrito; está a ser escrito por quem dele depende, em milhares de gestos pequenos que, somados, produzem o futuro de que ninguém se sente autor.

Há ainda uma ironia que se diria construída de propósito. A inteligência artificial que estas vozes discutem é, ela própria, um sistema estocástico. Os modelos generativos não respondem; sorteiam. Cada palavra é amostrada de uma distribuição, ajustada pela amostra anterior. A coerência que os utilizadores experimentam é uma ilusão local de uma máquina que, em rigor, não tem rumo. Usamos sistemas estocásticos para imaginar futuros deterministas, e construímos discursos deterministas sobre uma tecnologia cuja operação é uma sequência de acasos governados. O deus ex machina, em 2026, não desce da grua. Amostra-se da distribuição.

Daí que, fora do jogo, nenhuma destas vozes vença. Sarif não vence porque os defensores da aceleração não conseguem que a infra-estrutura da incumbência política caia ao seu ritmo. Taggart não vence porque os reguladores não conseguem alcançar a tecnologia que tentam regular. Darrow não vence porque a moratória não foi decretada e o risco existencial não convenceu o suficiente, mesmo entre os que o subscrevem. E o silêncio também não vence: a saída individual não tem efeito sistémico, e a quietude de uns é abafada pelo barulho de outros.

O resultado é uma sobreposição em que cada uma das quatro vozes ocupa o seu canal e nenhuma ocupa o sistema. Vivemos a soma dos custos de todas as posições, sem o benefício de uma. Pagamos a velocidade da aceleração, a inércia da regulação, a ansiedade da catástrofe e o vazio do silêncio, ao mesmo tempo. O jogo, como qualquer ficção decente, era mais limpo. A vida, como qualquer realidade decente, é menos generosa.

Mark Fisher chamou a esta condição realismo capitalista: a sensação de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema. A versão tecnológica deste fenómeno, em 2026, é a sensação de que é mais fácil imaginar quatro fins diferentes da inteligência artificial do que escolher um. Não é um problema de imaginação; é um problema de mecanismo. A imaginação produz cenários, mas não há sala, não há botões, não há um transmissor único; a sala existe apenas em jogos.

Adam Jensen tem uma frase que se tornou mais conhecida do que o próprio jogo. Quando se queixa da sua condição de aumentado contra a vontade, diz: nunca pedi isto. É frequentemente lida como auto-comiseração; mas tem mais. É a observação seca de quem foi posto numa situação em que terá de agir como se tivesse escolhido o que não escolheu.

A semelhança com qualquer pessoa em 2026 não é metafórica. Ninguém pediu para que a sua profissão fosse refeita por um modelo de linguagem. Ninguém pediu para que o Estado contratasse fornecedores cuja governança se desconhece. Ninguém pediu que o seu filho aprendesse a escrever ao mesmo tempo que aprende a escolher entre quatro versões geradas. As pessoas estão a ser aumentadas sem o seu consentimento, num sentido que o jogo entendeu literalmente e que a vida cumpre agora figurada e literalmente. E quando se queixam, tal como Jensen se queixava, recebem como resposta a mesma combinação inarticulada das quatro vozes: que se adaptem, que esperem pela regulação, que tenham medo, que se calem. Nenhuma é argumento; todas são posição.

A diferença, que é a coisa importante, é que Jensen tinha uma sala com botões. Tinha o luxo dramático da escolha visível, do gesto único que decidia o capítulo. Em 2026, não há sala, não há botões, não há um microfone único. Há um ruído que já está a acontecer, com os quatro finais sobrepostos em direcções diferentes, e cada um de nós a contribuir para ele com a parte que lhe coube, sem se dar conta de que lhe coube.

2026-04-30

Na torre de Yeats: A meditar um nacionalismo

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Na torre de Yeats: A meditar um nacionalismo[1]

Introdução

Nacionalismo é um tema que pervade a maior parte da obra – não só poética – de William Butler Yeats. Ainda assim, é um nacionalismo de complicada definição, que de modo algum se restringe à política, com a qual o poeta, aliás, expressa em várias ocasiões a sua desilusão – exprimindo até aversão à palavra “política” (Allison 187) – algo que é particularmente sentido no volume The Tower (1928), que será no presente estudo o principal foco. Michael Tratner estará correto, portanto, ao observar: “Yeats felt that the artist’s vision was superior to anything offered by political movements” (135). Sendo assim, o objetivo deste ensaio não será tentar defini-lo politicamente – como nota Allison, inúmeros rótulos já foram utilizados para o fazer (186-187) – mas demonstrar como esse nacionalismo engloba vários outros aspetos, como o foco na tradição anglo-irlandesa, na mitologia celta e, claro, na arte, que é aqui o principal centro de atenção. É necessário, também, ter em conta que os poemas presentes em The Tower foram escritos quando Yeats já ultrapassara a barreira dos cinquenta anos de idade, e, em certos casos, dos sessenta. Ou seja, há nesta sua poesia mais tardia uma grande preocupação com o envelhecimento, com a passagem do tempo, e daí decorre uma série de questões acerca do eterno estar presente na arte, e do facto de esta ser, de certa forma, uma encarnação da verdade imutável, que é uma ideia também recorrente em Keats, a cuja “Ode on a Grecian Urn” Yeats parece fazer referência em “Meditations in Time of Civil War” (27), onde é visível um contraste entre a situação social e política irlandesa e o reino superior da arte. Todos estes fatores, no entanto, acabam – apesar da sua posição no senado e das suas ligações – por o colocar num certo isolamento, algo que faz parte do simbolismo da torre na poesia que será aqui analisada.

“To write for my own race”

Para começar, será necessário entender que nacionalismo na obra de Yeats não é uma preocupação ocasional, que apareça apenas por vezes, e muito menos esporádica. Pelo contrário, ela pervade, como já foi referido, a grande parte da obra do poeta, dramaturgo, ensaísta, e novelista – que queria escrever para a sua nação, acerca dela. A expressão que encabeça esta secção exprime perfeitamente esse desejo, sendo ela o verso 11 de “The Fisherman”, que faz parte da coleção The Wild Swans at Coole (1919). Neste poema, Yeats parece imaginar um público ideal, assim como a existência de uma Irlanda menos complexa, mas acaba por concluir que o homem (ou seja, o pescador) não existe, que não é mais que um sonho (35-36). Esta mistura de ideal e desilusão faz também parte daquilo que é The Tower, juntamente com as suas contradições – outro aspeto da obra do poeta irlandês.

O facto de a palavra “raça” (Yeats 11) ser a escolhida será também marca de algo que vai além de patriotismo, sendo o foco muito virado para a Irlanda, enquanto o resto do mundo parece distante. Por exemplo, no primeiro volume de The Collected Works in Verse and Prose of William Butler Yeats, podemos ler, numa nota do próprio autor:

When I first wrote I went here and there for my subjects as my reading led me, and preferred to all other countries Arcadia and the India of romance, but presently I convinced myself, for such reasons as those in ‘Ireland and the Arts,’ that I should never go for the scenery of a poem to any country but my own, and I think that I shall hold to that conviction to the end. I was very young; and, perhaps because I belonged to a Young Ireland Society in Dublin, I wished to be as easily understood as the Young Ireland writers, to write always out of the common thought of the people. (243)

Não deixa, assim, de ser interessante notar também que a principal razão de escrever acerca de temas alheios à realidade irlandesa parece ser precisamente a de desejar inserir-se nessa mesma realidade. Eventualmente, passa a sua atenção a ser dedicada quase em exclusivo à Irlanda, e beira a comicidade o facto de quase só a pedido ter sido capaz de se pronunciar acerca da Primeira Guerra Mundial, em “On being asked for a War Poem”, escrito em 1915. No entanto, nem aí se pronuncia realmente, sendo que o objetivo dos apenas seis versos é justificar o seu silêncio sobre o tema. É verdade que escreveu também, em 1918, “An Irish Airman Foresees His Death”, mas aí o que há é um solilóquio de um aviador irlandês, e o que parece estar em causa é justamente o distanciamento da Irlanda em relação ao resto, que será também o distanciamento de Yeats – demonstrado através da perspetiva pessoal de um irlandês que está a lutar pelos britânicos, cuja identidade é diferente da sua. A contrastar com isto, dele há inúmeros poemas sobre conflitos na Irlanda (incluindo a Guerra Civil), e bastantes referências aos mesmos, mesmo que nem sempre sob a mesma perspetiva.

No entanto, apesar de tudo acima referido, as posições de Yeats parecem complicar-se em The Tower. A ambiguidade e diferença de perspetivas dentro do todo da sua obra fazem parte dessa complicação. Por exemplo, no seu trabalho poético, a ambiguidade acerca de ação política violenta em favor de uma causa nacionalista está muito presente, e no volume em análise torna-se um problema ainda mais complexo, parecendo ser-nos dadas várias visões a respeito dele. Na terceira estrofe da primeira parte de “Meditations in Time of Civil War”, é-nos dada a ideia de uma violência da qual nasce a arte, quando lemos, “Some violent bitter man, some powerful man / Called architect and artist in, that they, / Bitter and violent men, might rear in stone / The sweetness that all longed for night and day, / The gentleness none there had ever known” (I 17-21). Cullingford, citado por O’Leary, afirma que “Meditations” representa um processo através do qual o sujeito poético reconhece que a violência leva a uma certa aceitação do nada (58); mas O’Leary rejeita tal simplificação, e observa: “This misses the tensions in Yeats’s suggestion that greatness is inextricable from violence, which is not at all a ‘facile equation’” (58). Todavia, nos seguintes e últimos três versos da estrofe, o sujeito poético parece resignar-se a um declínio não só da arte (ou da apreciação da mesma por parte da sociedade), mas também da aristocracia, cuja relevância faz parte do nacionalismo do nosso poeta, e à qual ele próprio pertencia. Efetivamente, o poeta opunha-se, principalmente nesta fase, a ideais democráticos e socialistas, mostrando um certo desprezo, até, em relação ao catolicismo – que era, e continua a ser, a principal denominação religiosa na Irlanda – crendo-o ligado às massas e ao poder das mesmas, enquanto ele, de ascendência protestante e como elitista, favorecia uma “liderança dos poucos”[2] (Allison 202) sobre o resto da população, numa altura em que se mostrava mais interessado numa forma de governo mais autoritária.

Apesar disso, será necessário ir mais além. Os versos acima citados, da primeira parte de “Meditations”, devido ao seu tom resignado, mostram algumas semelhanças, em termos de estado de espírito do sujeito poético, com “The Wheel”, do mesmo volume:

Through winter-time we call on spring,

And through the spring on summer call,

And when abounding hedges ring

Declare that winter’s best of all;

And after that there’s nothing good

Because the spring-time has not come –

Nor know that what disturbs our blood

Is but a longing for the tomb. (1-8)

Quase ouvindo ecos dos versos iniciais de The Waste Land – p. ex., “April is the cruellest month” (1) e “Winter kept us warm” (5) – e tendo o próprio Eliot escrito que o inverno era para ele uma estação anestética e quente (Ricks e McCue 604), é percetível, juntamente com os versos de “Meditations”, um contraste entre ação política, revolução, violência, e inação, isolamento, morte. O desânimo aqui sentido aparece também nos dois próximos poemas – “Youth and Age” e “The New Faces” – e surge então outro problema: o do envelhecimento.

“An aged man is but a paltry thing”

Escreve Yeats no primeiro poema a ser incluído em The Tower, “Sailing to Byzantium”, que um velho não é mais que uma coisa insignificante (9), tal como um casaco esfarrapado sobre uma bengala (10). Porém, tais imagens, juntamente com as da primeira estrofe, são seguidas da conjunção subordinativa condicional “unless” (10), que abre um contraste: principalmente entre o que está sujeito a mutações e o imutável. Unterecker faz menção desse mesmo problema, e relembra o leitor do homem velho como símbolo da “tirania do tempo”[3] (174), escrevendo depois o seguinte: “Man who does change creates that which is changeless. His desire (as the old man’s who sails to Byzantium) is to be the work of art itself, yet limited by the flesh he can only construct that which is ultimately greater and more durable than himself” (179). Deste modo, está aqui em causa a durabilidade da arte e a eternidade da verdade absoluta, que é encarnada nas grandes obras artísticas, algo que foi já referido na introdução e que será abordado mais à frente. Mas não só. Este desejo por arte verdadeira é propositadamente contrastado, como aliás refere Allison (185), com as intenções de outros nacionalistas: Yeats queria arte, eles propaganda. Também será isto que o afasta das massas e que o leva a criar, como menciona Allison, uma conceção mais aristocrática de cultura, influenciada por Lady Gregory e pelo mecenato do Renascimento (186). A sua idade idade mais avançada ter-lhe-á, portanto, permitido ver certos problemas de outra forma. Era necessário imortalizar-se através da arte – era necessário navegar até Bizâncio.

Sendo que se está a lidar com um nacionalista, tudo isto poderá parecer estranho, até porque o primeiro verso de “Sailing to Byzantium” começa por contar que a Irlanda – “that . . . country” (Yeats 1) – não é lugar para velhos. A amargura do volume começa imediatamente no seu primeiro verso. Essa amargura, de igual modo, é parte de uma das primeiras considerações que faz Ellmann no capítulo 16 de Yeats: The Man and the Masks (240), tal como é parte das de quase todos os outros críticos. Porém, Ellmann observa que tal amargura poderá parecer não fazer muito sentido no contexto da vida pessoal de Yeats enquanto escrevia e publicava The Tower:

Queen’s University, Belfast, gave him an honorary degree in July, and Trinity College, Dublin, so often the subject of his denunciations years before, gave him another in December. At the end of the year President Cosgrave appointed him, as a reward for his services to Ireland, to the Senate of the newly formed Free State. In 1923 he was awarded the Nobel Prize for Literature and could think of himself as a writer of European importance. (Ellmann 240)

No entanto, e apesar de vários contratempos e complicações na sua vida pessoal que não são aqui objeto de atenção, a própria motivação para a atribuição do Prémio Nobel a Yeats faz referência ao verdadeiro problema, ainda que de modo algum em tom que evidencie a existência desse mesmo problema diretamente: “for his always inspired poetry, which in a highly artistic form gives expression to the spirit of a whole nation” (Nobel Prize). Se a população irlandesa concordaria de facto com tal afirmação seria tema para outra discussão, mas o que é indubitável é que a nação era, de facto, a maior, ou uma das maiores, preocupações de Yeats. Ainda assim, o nosso poeta aspirava a ser um dos “sages standing in God’s holy fire / As in the gold mosaic of a wall” (“Sailing to Byzantium” 17-18), não simplesmente uma voz passageira, política, e certamente não a voz das massas. Nos dois versos referidos, ele combina a ideia de eternidade associada à filosofia cristã com a arte, tornando-se esta a encarnação da verdade. Neste caso, a associação é ainda mais evidente pois o mosaico de ouro na parede tratar-se-á, muito possivelmente, do que se encontra na fabulosa Grande Mesquita de Santa Sofia (originalmente uma catedral cristã), em Istanbul, ou seja, Constantinopla.

Relevante é também notar que Constantinopla – Bizâncio – é o último bastião da cultura antiga. Yeats, então, associa-a ao Renascimento, até porque nesse período houve um renovado interesse na cultura clássica. Tal interesse por parte de Yeats é também visível em “Leda and the Swan”, que era um tema muitíssimo popular no Renascimento, como podemos ver em desenhos de Leonardo da Vinci que sobrevivem (Kwakkelstein), assim como na famosa pintura produzida no seu círculo, ou mesmo na cópia de uma pintura perdida de Miguel Ângelo que teria sido oferecida ao Duque de Ferrara em 1530 (National Gallery). No entanto, na Irlanda dos séculos XVI e XVII a situação era diferente:

The implacable forces of famine and disease were frequent influences upon lifespans. In 1500 the taming of the physical environment and the overcoming of its attendant perils were scarcely dreamed of. As other maritime countries in Europe embarked upon overseas explorations, Ireland was itself a land for discovery and eventual colonisation by newcomers. (Lennon 1)

Logo, é apenas mais tarde, especialmente no século XVIII, que vemos figuras como Jonathan Swift emergirem – Swift que, aliás, é bastante importante para o nosso poeta, e, tal como ele, de ascendência anglo-irlandesa.

Ainda assim, surgem várias ansiedades na coleção poética de 1928. Uma delas é o facto de que, apesar de todo o seu estudo e trabalho, tanto poético como de preservação e promoção da cultura irlandesa, assim como a própria herança familiar que é tão importante aqui – o facto de que tudo isso possa ser ignorado e mal preservado não só pelas gerações seguintes em geral, mas também pela sua própria descendência, como pode ser lido na quarta parte de “Meditations in Time of Civil War”, “My Descendants”:

And what if my descendants lose the flower

Through natural declension of the soul,

Through too much business with the passing hour,

Through too much play, or marriage with a fool?

May this laborious stair and this stark tower

Become a roofless ruin that the owl

May build in the cracked masonry and cry

Her desolation to the desolate sky. (9-16)

De novo, também, o leitor, tendo lido o poema, pode ver como o momento presente (“the passing hour”) é contrastado com a ideia de eternidade e imortalidade; mas também como “too much play” não deve substituir um profundo estudo – por exemplo, nos versos 10-20 de “My House”; e como um casamento fora, não só da elite aristocrática, mas da elite aristocrática intelectual e nacionalista irlandesa, não é desejável.

O envelhecimento – “Yeats was full of bitterness about old age” (Ellmann 241) – é, por esse motivo, entre outros, um fator relevante em relação a esta discussão pois para Yeats a sua poesia, que deve ser vista como um todo – era essa a sua intenção, no sentido de uma construção de um género de Gestalt (Unterecker 5) – funciona como uma forma de imortalizar o poeta. Apesar do modo como a sua vida pessoal influenciou a sua obra, ele torna-se um símbolo duradouro da nação irlandesa, tornando-se realmente W. B. Yeats e não William, de modo não totalmente diferente que, em “Easter, 1916” – em Michael Robartes and the Dancer (1921) – Thomas MacDonagh, James Connolly, Patrick Pearse e John MacBride passam simplesmente a apelidos, a símbolos, representando também as suas famílias, ou seja, fazendo parte de algo maior: “MacDonagh and MacBride / And Connolly and Pearse” (75-76). Contudo, apesar disso, as questões acerca de qual ser a melhor forma de ação, ou o melhor caminho para o país, e mesmo de qual ser a melhor forma de ele próprio se pronunciar acerca de tais assuntos e de que posição tomar, nunca cessam de forma definitiva. E se isso é algo já percetível em “Easter, 1916”, então em The Tower adquire outras proporções. Até porque se os versos em que corações de um propósito só são comparados a uma pedra que perturba a corrente (Yeats 41-44) se podem referir aos rebeldes irlandeses, não deixam de trazer à mente a imagem do próprio Yeats que vai envelhecendo, isolado com a família em Thoor Ballylee (a torre), enquanto a Guerra Civil devasta o país. Aliás, a própria torre pode representar, em parte, o seu envelhecimento, até porque o poema “The Tower” começa imediatamente com a descrição de um sujeito poético velho, comparando-o a algo absurdo (Yeats 1), a uma caricatura (2), “Decrepit age that has been tied to me / As to a dog’s tail” (3-4). Não só isso, o sujeito poético pergunta aos antigos indivíduos relacionados com a torre se eles, tal como ele, também sentiram, nos seus últimos anos, a mesma raiva contra a velhice (98-101).

“[T]owards my chamber”

A torre de Yeats é um símbolo incontornável na sua poesia. Como nota Unterecker, “Like Eliot, Yeats tries to extend the meaning of the symbol to its furthest reaches” (41). Além disso, apesar de não podermos totalmente relacionar os símbolos de Yeats com a ideia de “correlativo objetivo” de Eliot (nem tem a sua obra a imensa ressonância da do autor de The Waste Land), o poeta irlândes cria um todo simbólico, que aliás já foi referido antes, em que ele próprio se imerge, que ele próprio vive, o que é diretamente claro na coleção The Tower. Por isso, será relevante o que observa Unterecker:

The Collected Works [de Yeats] were, I believe, to be what T. S. Eliot would call an objective correlative for the entirety of Yeats’s life and thought, a kind of literary equivalent for the total experience of a man, a total experience shaped, through art, into a form less perishable than flesh, a form freed from accident. (5)

No entanto, o todo da sua obra não é sempre composto dos mesmos temas ou interesses, ou não da mesma forma. Principalmente na sua fase mais inicial, há uma enorme tentativa de reviver a mitologia celta – uma das características do renascimento literário celta. Em The Tower, tal característica não é tão visível. O leitor vê agora um poeta isolado, meditando, refletindo e estudando na sua torre, enquanto no exterior o conflito não cessa.

A torre em que o poeta está isolado, e onde terá escrito a totalidade dos poemas incluídos na coleção, já foi acima associada ao envelhecimento do mesmo; todavia, ela representa, além disso, a passagem do tempo, algo de que Yeats está consciente, traçando o percurso da torre na história desde as suas origens no século XV até ao século XX. Por exemplo, em “Ancestral Houses” há a menção acima citada dos homens violentos que lhe deram origem (17-21). Já em “The Tower”, o sujeito poético, enquanto caminha pelas ameias, olha em volta e pensa em histórias antigas relacionadas com a torre e as suas proximidades: “I pace upon the battlement . . . and call / Images and memories / From ruin or from ancient trees” (18-24). É a partir daí que surgem as histórias de “Mrs. French” (26), da rapariga camponesa que faz parte de uma história de Anthony Raftery (35-49), de um antigo dono da casa (81), e dos homens de armas que já defenderam a torre em séculos passados (82-89).

Para além disso, as linhas 18-24, em que há uma convocação de vários elementos do passado, são comparáveis a algumas ideias presentes em “Tradition and the Individual Talent” (1919), em que Eliot compara a mente do poeta a um recetáculo onde são armazenados sentimentos, expressões e imagens que permanecem lá até ser constituído algo novo a partir dessas diversas partes (19). A partir daqui, é possível também estabelecer uma comparação com a peça de Yeats The Words upon the Window-Pane, representada pela primeira vez em 1930, em que há uma sessão espírita. É importante não esquecer, além disso, que Yeats, ao dialogar com a tradição irlandesa e europeia – quer de natureza literária, histórica ou mitológica – e ao subsequentemente ser visto como inserido na europeia – relembram-se as palavras de Ellmann, que se refere a ele como um escritor de importância europeia (240) – acaba por posicionar a Irlanda num lugar ainda mais destacado, dando-lhe uma maior visibilidade. Contudo, a importância de Yeats no mundo da literatura e até mesmo da política não significa que o poeta, ou seja – o homem principalmente enquanto poeta – não esteja ilhado.

Essa separação do resto do mundo é interessante de observar em “The Road at My Door”, onde, num poema intitulado “Meditations in Time of Civil War”, temos a primeira menção da Guerra Civil. No que será uma das partes mais fascinantes da coleção, principalmente devido ao contraste entre o mundo exterior, a guerra, e o interior, a filosofia, o reino da arte, entre outros, não se deixa de estar perante a parte mais curta do poema, sendo uma das secções curtas do volume, apesar da menção à guerra – ou talvez por isso mesmo. Nela, um “Irregular” – ou seja, pertencente às forças anti-tratado – perturba a vida do sujeito poético na torre. Ele começa por ser comparado a Falstaff, um bêbedo acorrentado aos prazeres terrenos em Henry IV, de Shakespeare, o que indicará não só que Yeats é mais favorável ao Tratado Anglo-Irlândes, mas que ele é claramente defensor da tradição e herança anglo-irlandesa. Yeats afirma, até, em Essays and Introductions, o seguinte:

. . . all my family names are English, and . . . I owe my soul to Shakespeare, to Spenser and to Blake, perhaps to William Morris, and to the English language in which I think, speak, and write, . . . everything I love has come to me through English. (519)

Yeats dá, certamente, importância às suas raízes, e aqui assemelha-se de novo a Eliot na sua procura por origens em Inglaterra, algo muito presente em Four Quartets. Aliás, como refere Allison, ele não aprovava, sequer, a adoção do irlandês como língua nacional, argumentando que tal medida significaria algo apenas artificial (196). No entanto, “The Road at My Door” não se resume, de modo algum, a estes aspetos. Este “Falstaffian man” (2), o homem brincalhão, refletirá talvez também a falta de seriedade de alguns dos envolvidos na guerra, uma atitude que perturba o sujeito poético, o que é visível quando o mesmo nos diz que o “Irregular” começou a contar piadas sobre a Guerra Civil (3), “como se morrer com um tiro fosse a mais excelente brincadeira debaixo do sol”[4] (4-5). Em seguida, o sujeito poético queixa-se também do tenente à sua porta, juntamente com os seus homens (6-8), enquanto a sua atenção está, não neles, mas no mau tempo, na chuva, numa pereira quebrada pela tempestade (9-10). Ele está, de facto, apesar de fisicamente no mesmo local, noutro lugar. Na terceira estrofe, a sua atenção fixa-se já não no lado negativo da natureza, mas nos pintinhos da galinha-d’água (11-12), após o que se volta de novo para dentro de casa (14), o que representará também um virar-se para dentro de si mesmo. A torre sendo uma estrutura alta, este poema poderá talvez significar, além disso, que o nosso poeta se considerava, de certa forma, acima de todo o conflito que se ia desenrolando à sua volta, e na verdade não escolhendo fazer verdadeiramente parte de nenhum dos lados. A mesma terceira estrofe parece, até, querer indicar que o seu lado é simplesmente isso: o seu próprio lado.

Conclusão

O nacionalismo de Yeats é, portanto, mais fácil de ser entendido se a arte for o principal foco do leitor, através da qual será possível tentar compreender a importância da mitologia celta, da ascendência anglo-irlandesa, do ocultismo, e da vida política. Mesmo no senado irlandês, como nota Allison, os seus discursos tratavam sobretudo de assuntos culturais e artísticos (195). Escreve o mesmo: “He was concerned about the preservation of historic and ancient monuments, Irish manuscripts, national treasures and artifacts in the National Museum . . . He sought to preserve the architectural heritage . . .” (195). Portanto, até nessa posição nos poderá lembrar do homem que envelhece, isolado, na sua torre. Apesar de incursões na política, Yeats deu sempre especial atenção à arte, a algo superior, e não apenas passageiro. Mesmo “Among School Children”, também de The Tower, que reflete alguns aspetos do seu cargo enquanto senador, dificilmente poderia ser descrito como um poema político, havendo várias referências a filósofos (p.ex., 41, 43, 45), à antiguidade em geral e a seus temas (p.ex., 47), e mesmo ao Renascimento (26) – para além de ser escrito em ottava rima. Quase tudo neste poema revolve, no entanto, em torno do contraste entre a infância e a velhice – sendo que este último problema já foi aqui analisado. Então, o que é muitíssimo relevante perceber é que o nacionalismo de Yeats vai além de questões políticas, e que será impossível compreender tal nacionalismo sem ser dada a devida atenção ao centro que faz todo o resto da sua obra mover-se: a arte.

Bibliografia

Eliot, T. S. Selected Essays. Faber and Faber, 1934.

Eliot, T. S. The Poems of T. S. Eliot: Volume 1: Collected and Uncollected Poems, editado por Christopher Ricks and Jim McCue. Faber and Faber Ltd, 2018.

Ellmann, Richard. Yeats: The Man and the Masks. Oxford University Press, 1979.

Allison, Jonathan. “Yeats and Politics”. The Cambridge Companion to W. B. Yeats, editado por Marjorie Howes e John Kelly. Cambridge University Press, 2006.

Kwakkelstein, Michael. “Leda and the Swan.” Museum Boijmans Van Beuningen, 10 jun. 2025.

“Leda and the Swan: After Michelangelo.” The National Gallery, 10 jun. 2025.

Lennon, Colm. Sixteenth-Century Ireland: The Incomplete Conquest. St. Martin’s Press, 1995.

The Nobel Prize in Literature 1923. NobelPrize.org. Nobel Prize Outreach 2025. Tue. 10 Jun 2025. https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1923/summary/

O’Leary, Joseph S. “The troubled heart: Yeats’s persona in ‘Meditations in Time of Civil War’.” Journal of Irish Studies, outubro 2016, pp. 54-65.

Unterecker, John. A Reader’s Guide to W. B. Yeats. Thames and Hudson, 1969.

Yeats. W. B. The Collected Works in Verse and Prose of William Butler Yeats. Shakespeare Head Press, 1908.

Yeats, W. B. Essays and Intoductions. The Macmillan Company, 1961.

Yeats, W. B. The Collected Poems of W. B. Yeats. Wordsworth Editions, 2008.

Notas:

  1. Utilizo aqui a palavra “torre” em português e sem estar em itálico, uma vez que não se trata do título da coleção de poemas, mas sim da própria torre presente nela, tendo o objetivo de evocar o seu simbolismo. Em letra minúscula tal como aparece ao longo do volume – p. ex., “and a more ancient tower” (“Meditations in Time of Civil War” II 1).
  2. Tradução minha. No original: “leadership of the few”.
  3. Tradução minha. No original, “tyranny of time”.
  4. Tradução minha. No original, “As though to die by gunshot were / The finest play under the sun.”

Algumas Minorias em Portugal e no Mundo

Recentemente publicámos uma peça baseada num estudo da empresa IPSOS, que estabelecia como a divergência da heterosexualidade é muito mais baixa do que commumente estimada pela opinião pública e pelos meios de comunicação: situa-se não acima dos 9% e é, modo geral, consistente ao longo dos contextos e das culturas pelo mundo. Parece ser uma condição semelhante a de muitas outras: a de uma minoria respeitável mas estatisticamente sem grande importância: em princípio uma pessoa comum pode passar muitos dias, semanas, talvez meses da sua vida, a dar aos homosexuais a mesma importância relativa que dá aos canhotos, aos intolerantes à lactose ou às pessoas de olhos azuis — todas estas características se situam no mesmo intervalo de representação na população.

O ponto é interessante porque permite colocar em conflito as percepções erradas que tenhamos sobre condições minoritárias e ponderar sobre porque é que determinadas forças sociais as podem colocar em inflação — e, nalguns casos, em deflação — em relação ao seu valor numérico e eventual importância real — sendo que o salto da representação numérica para a importância qualitativa é uma história que certamente merece amplo debate. Recebemos, aliás, algumas reacções adversas à publicação da peça sobre a divergência da heterosexualidade ser tão baixa, reacções que foram desde o meramente contrariado até ao indignado.

Mas como o exercício é importante, salutar, aberto e plural, aqui o reeditamos em relação a uma série enorme de outras propriedades, condições e práticas minoritárias, tendo sempre como base estimativas para o território de Portugal, sendo nalguns pontos complementadas com comentários sobre a sua situação no mundo. Procurámos principalmente minorias que se situassem entre os 5-15% da população. Usámos, para este efeito, tanto fontes oficiais como estimativas para alguns casos em que não existem dados em concreto. Comecemos pela lista e depois avancemos para os comentários. Temos, então, em Portugal, as estimativas das seguintes percentagens, em relação à população total, para as seguintes condições:

  • Intolerância à lactose: 33%
  • Doença celíaca: 1%
  • Alergias alimentares confirmadas: 1% a 4%
  • Intolerâncias não-IgE (histamina, frutose, etc.): < 10%
  • Qualquer intolerância alimentar (total): 25%
  • Canhotos: 10%
  • Daltónicos (homens): 8% a 10%
  • Olhos azuis: 6% a 9%
  • Olhos claros (azuis + verdes): 17% a 20%
  • Dietas alternativas (total): 10%
  • Dieta de redução de carne (sem ser 100% vegetariano): 8% a 9%
  • Vegetarianos: 1% a 1,5%
  • Veganos: 0,5% a 0,7%
  • Dietas keto/paleo: < 1% a 2%
  • Praticantes de corrida recreativa: 10,6%
  • Hipermobilidade articular generalizada: 5% a 20%
  • TDAH em crianças: 5% a 15%
  • População branca: 84%
  • População mista: 3,4%
  • População negra: 2,2%
  • Afrodescendentes (por ascendência): 6,1%
  • Heavy metal (ouvintes regulares): 8%
  • Reggae/dub (ouvintes assíduos): 2% a 4%
  • Música eletrónica (fãs regulares): 5% a 10%
  • Jazz e clássica (ouvintes regulares): 1% a 3%
  • Pessoas com nanismo: 0,005% (cerca de 400-500 pessoas)
  • Homens acima de 1,90 m: 3% a 5%
  • Praticantes ou identificação com BDSM/sadomasoquismo: 7% a 12%
  • Fetiche de pés: 10% a 11%
  • Sexo anal em relações heterossexuais: 10% a 20%
  • Voyeurismo (comportamento real): 5% a 10%
  • População solteira: 43%
  • Mulheres 18-49 anos sem filhos: 42%
  • Homens 18-54 anos sem filhos: 54%
  • Agregados unipessoais: 25%
  • Pessoas sem religião: 14%
  • Protestantes/evangélicos: 2,1%
  • Testemunhas de Jeová: 0,7%
  • Ortodoxos: 0,7%
  • Muçulmanos: 0,4%
  • Excesso de peso + obesidade: 53% (37% excesso de peso + 16% obesidade)
  • Perturbações mentais (total): 22% a 23%
  • Perturbações de ansiedade: 9% a 16,5%
  • Depressão: 6% a 8%
  • TDAH em adultos: 2,5% a 4%
  • Fumadores: 15% a 20%
  • Enxaqueca: 15%
  • Tatuagens (pelo menos uma): 25% a 35%
  • Tatuagens visíveis/extensas: 5% a 10%
  • Homens acima de 1,85 m: 8% a 12%
  • Praticantes de desporto federados: 6% a 8%
  • Praticantes de desporto com regularidade (incluindo informal): 25% a 30%
  • Futebol (prática regular): 7% a 9%

Comecemos pelo campo das intolerâncias e alergias alimentares. A intolerância à lactose afeta cerca de 33% da população em Portugal. Nenhuma intolerância alimentar específica se situa exatamente nos 10% (a percentagem de referência da divergência da heterossexualidade com que iniciámos este exercício comparativo).

A doença celíaca ronda os 1%, enquanto as alergias alimentares confirmadas situam-se entre 1% e 4% nos adultos. As intolerâncias não-IgE (como as relacionadas com histamina ou frutose) variam bastante consoante os estudos, mas não ultrapassam claramente os 10%.

No total, fontes clínicas portuguesas indicam que cerca de 25% da população (um quarto) apresenta algum tipo de intolerância alimentar — não se trata de uma única condição, mas do conjunto de todas.

Uma minoria numericamente muito semelhante é a dos canhotos: cerca de 10% da população mundial e também em Portugal. Os daltónicos representam cerca de 8% a 10% dos homens (valor bastante inferior nas mulheres, pelo que a prevalência global é menor). Dada a semelhante representação na população, será interessante e curioso imaginar a concomitância entre ser canhoto e homossexual, daltónico e homossexual, canhoto e daltónico, ou mesmo as três condições em simultâneo.

No que diz respeito à coloração dos olhos, os olhos azuis rondam os 6% a 9% em Portugal (mais comuns no Norte). Considerando olhos claros (azuis ou verdes), o valor sobe para 17% a 20%, novamente mais frequente no Norte do país.

Na alimentação, estima-se que cerca de 90% da população portuguesa mantenha uma alimentação tradicional, próxima da dieta mediterrânica. Os restantes 10% seguem dietas alternativas: os flexitarianos, aqueles que tendem para uma redução da carne/peixe, são a maior fatia (8% a 9%), seguidos dos vegetarianos (1% a 1,5%) e dos veganos (0,5% a 0,7%). Outras dietas minoritárias, como keto (com poucos hidratos de carbono e alto teor de gordura) ou paleo (alimentos integrais e não processados), têm expressão residual, geralmente abaixo de 1% a 2% cada, concentrando-se sobretudo em contextos urbanos.

Outras características na faixa das minorias significativas (5% a 20%):

  • Praticantes de corrida recreativa: cerca de 10,6% da população portuguesa;
  • Hipermobilidade articular generalizada: varia entre 5% e 20%, dependendo do estudo e da idade;
  • TDAH em crianças: entre 5% e 15% a nível global.

Quanto à composição racial/étnica em Portugal, a população é bastante homogénea. De acordo com o INE (2023), entre as pessoas com 18 a 74 anos:

  • Brancos: cerca de 84% (6,4 milhões);
  • Mistos: 3,4% (263 mil);
  • Negros: 2,2% (169 mil);
  • Asiáticos: menos de 1% (56 mil);
  • Ciganos: cerca de 0,6% (47 mil).

Nenhum grupo não-branco se aproxima da faixa dos 5% a 15%. A categoria mais próxima é a de afrodescendentes, estimada em 6,1% (cerca de 462 mil), mas este valor inclui segunda e terceira gerações que muitas vezes se identificam como brancos ou mistos.

Na música, cerca de 8% dos consumidores em Portugal ouvem heavy metal com regularidade (aproximadamente 560 mil ouvintes assíduos, segundo dados do INE de 2022). Trata-se de um nicho sólido para um género underground. Outros géneros minoritários seguem o mesmo padrão: reggae/dub (estimado em 2% a 4%), música eletrónica (5% a 10% entre jovens urbanos), enquanto jazz e clássica ficam geralmente entre 1% e 3% de ouvintes regulares.

Pessoas com nanismo (estatura inferior a cerca de 1,40 m) são muito raras: entre 400 e 500 pessoas em Portugal, o que corresponde a aproximadamente 0,005% da população. Já os homens muito altos (acima de 1,90 m) representam cerca de 3% a 5% dos homens; acima de 1,95–2,00 m o valor desce abaixo de 1%.

No domínio da sexualidade, o BDSM/sadomasoquismo é mais comum do que se imagina: entre 7% e 12% da população pratica ou identifica-se com estas práticas de forma regular. Fantasias ou experimentação pontual chegam facilmente aos 40%–50%. Outras práticas fora da norma que se aproximam da faixa dos 5%–15% incluem o fetiche de pés (cerca de 10%–11%) e o sexo anal em relações heterossexuais (10%–20%, dependendo do país e da idade).

Agregados familiares: cerca de 43% da população portuguesa é solteira (mais de 4,5 milhões de pessoas, segundo os Censos 2021). Entre os adultos em idade fértil, 42% das mulheres (18–49 anos) e 54% dos homens (18–54 anos) não têm filhos. Quase 25% dos agregados domésticos são unipessoais (mais de um milhão de portugueses vivem sozinhos).

Religiões minoritárias em Portugal são bastante pequenas comparativamente à maioria católica (Censos 2021):

  • Protestantes/evangélicos: 2,1%
  • Testemunhas de Jeová: 0,7%
  • Ortodoxos: 0,7%
  • Outros cristãos: cerca de 1%
  • Muçulmanos: 0,4%
  • Hindu: 0,2%
  • Budistas: 0,2%
  • Judeus: 0,03%

O grupo mais relevante fora do catolicismo é o das pessoas sem religião, que já representam 14%.

Excesso de peso e obesidade afeta cerca de 53% dos adultos portugueses (37% com excesso de peso + 16% obesos, INE 2022) — um dos valores mais altos desta análise, claramente fora da faixa minoritária dos 5%–20%.

Saúde mental: Portugal tem uma das prevalências mais altas da Europa, com cerca de 22% a 23% da população adulta a sofrer de alguma perturbação mental. Destacam-se:

  • Perturbações de ansiedade: 9% a 16,5%
  • Depressão: 6% a 8% (sintomas reportados acima de 12%)
  • TDAH em adultos: 2,5% a 4%

Outras minorias relevantes:

  • Fumadores: 15% a 20%
  • Enxaqueca: cerca de 15%
  • Tatuagens: 25% a 35% da população adulta tem pelo menos uma (maioria discreta); tatuagens visíveis e extensas rondam os 5% a 10%
  • Homens acima de 1,85 m: cerca de 8% a 12%; acima de 1,90 m: 3% a 5%

Por fim, no desporto, cerca de 6% a 8% da população tem licença federada, mas considerando a prática informal, 25% a 30% dos portugueses fazem desporto com regularidade. O futebol domina (7% a 9%), seguido de natação (3% a 4%), ciclismo (3% a 5%), voleibol (2% a 3%) e outras modalidades com expressão mais reduzida.

Em suma, a divergência da heterosexualidade, com uma prevalência que não ultrapassa os 9%, insere-se efetivamente num intervalo comum a dezenas de outras características humanas — desde os canhotos e os intolerantes à lactose até aos praticantes de BDSM, aos fumadores ou aos amantes de heavy metal. Algumas minorias são visibilizadas e celebradas de forma desproporcional à sua dimensão numérica, enquanto outras, igualmente ou mais numerosas, passam quase despercebidas. Este exercício comparativo não diminui a importância individual de nenhuma condição, mas convida a uma reflexão mais serena e baseada em dados sobre como a sociedade constrói narrativas de relevância. Afinal, na imensa diversidade humana, quase todos pertencemos a uma ou várias minorias — e é precisamente essa a norma.

Acerca de As Causas do Atraso Português, de Nuno Palma

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O recente sucesso editorial de As Causas do Atraso Português, de Nuno Palma, constitui um fenómeno que ultrapassa largamente o seu valor enquanto obra de história económica. Com múltiplas edições em escassos anos (publicado em Novembro de 2023, já vai na 9a edição), o livro inscreve-se numa tradição longa de reflexão sobre o chamado “atraso português”, ao mesmo tempo que parece responder a uma inquietação contemporânea mais difusa: a persistência de uma perceção de falha histórica, não apenas entre elites intelectuais, mas no próprio senso comum nacional.

Tomar este livro a sério implica, contudo, um duplo movimento. Por um lado, reconhecer o mérito do seu gesto inaugural: reabrir um problema clássico — o da posição relativa de Portugal na História — e de o reinscrever numa perspetiva de longa duração. Por outro, exige também uma avaliação crítica do seu conteúdo, não tanto para inventariar erros ou simplificações (são muitos), mas para compreender o quadro conceptual que o sustenta e, sobretudo, o tipo de discurso histórico que produz.

Se o primeiro nível de análise — o das insuficiências empíricas e conceptuais — revela fragilidades significativas, é no segundo — o da sua inscrição ideológica e histórica — que o livro adquire verdadeira relevância.

I

Num primeiro nível, o texto apresenta um conjunto de fragilidades que não são meramente acidentais. A utilização de categorias como a linha de Hajnal sem a complementar com outras explicações antropológicas mais matizadas, a redução da escola dos Annales a uma história da imobilidade, ou a leitura do absolutismo como simples retrocesso civilizacional, entre outros exemplos, revelam não apenas simplificação, mas uma tendência para mobilizar conceitos históricos fora dos seus contextos próprios — os conceitos são muitas vezes instrumentalizados.

A isto junta-se uma prática argumentativa marcada pela asserção sem demonstração, pela ausência de confronto com a historiografia e por uma notável facilidade em descartar tradições intelectuais inteiras numa frase. O resultado é uma escrita que acumula exemplos sem construir problemas, e que substitui o debate por um gesto de autoridade (o que confere a NP um estilo algo pretensioso).

Mas estas insuficiências, por mais evidentes que sejam, permanecem secundárias. O essencial encontra-se num plano mais profundo: o da arquitetura conceptual implícita que sustenta o argumento.

II

Um pequeno desvio antes de lá irmos, pois seria redutor tratar o livro apenas como um conjunto de insuficiências. A sua eficácia — e, em parte, o seu sucesso — depende também da presença de certas intuições que, embora desenvolvidas de forma desigual, introduzem deslocações relevantes no debate.

A mais consistente destas é a tese da chamada “maldição dourada”. A ideia de que a afluência de recursos provenientes do império — em particular do ouro brasileiro — terá contribuído para desincentivar processos de transformação económica interna, inscreve-se numa tradição mais vasta de análise das economias rentistas. Ainda que formulada num registo excessivamente economicista (sobretudo pelas consequências políticas que o autor retira), a hipótese não é destituída de poder explicativo. Pelo contrário, ela revela-se tanto mais interessante quanto resulta da transposição de instrumentos analíticos frequentemente aplicados a outros contextos — nomeadamente o espanhol — para o caso português. Este tipo de operação comparativa, quando conduzida com rigor, pode ser produtiva; aqui, apesar das limitações, conserva esse potencial.

Um segundo elemento digno de nota é a crítica dirigida ao impacto de longo prazo da integração europeia, em particular no que diz respeito à estrutura produtiva portuguesa. Contra uma narrativa dominante que tende a apresentar a adesão à Comunidade Europeia e a entrada no euro como momentos inequívocos de progresso, o autor insiste nos seus efeitos desestruturantes, sublinhando a perda de capacidade industrial e a dependência crescente de dinâmicas externas. Trata-se de uma posição minoritária no espaço público português, e que, por isso mesmo, merece ser registada.

Mas a inteligibilidade do fenómeno exige um deslocamento de escala que o livro não realiza. O euro não representa a mediocridade das elites políticas portuguesas pela sua dependência das ajudas externas; é a cristalização institucional de uma relação de forças. Ao suprimir o mecanismo cambial e ao impor uma política monetária unificada sobre economias estruturalmente desiguais, a união monetária transforma diferenças de produtividade em hierarquias duráveis. A taxa de câmbio deixa de funcionar como instrumento de ajustamento para se tornar, na sua ausência, um princípio de diferenciação cumulativa. O resultado não é apenas a divergência, mas a sua reprodução sistemática. As economias centrais, dotadas de maior capacidade industrial e excedentes externos, beneficiam de uma moeda subvalorizada relativamente à sua posição real; as periféricas, pelo contrário, são constrangidas por uma moeda que sobrevaloriza as suas estruturas produtivas, comprimindo a sua competitividade e deslocando o ajustamento para o interior — isto é, para os salários, o emprego e a despesa pública. O défice externo, a desindustrialização e o endividamento não constituem, neste quadro, disfunções contingentes — ou, na visão de NP, más decisões derivadas de políticos corruptos “viciados” em ajudas europeias —, mas momentos necessários de um mecanismo de integração assimétrica.

O que se apresenta, ao nível da narrativa nacional, como falha histórica ou incapacidade interna, revela-se assim como efeito de uma arquitetura que internaliza a desigualdade e a reproduz sob a forma de disciplina económica. A moeda única não neutraliza a clivagem centro-periferia; fixa-a, conferindo-lhe uma forma institucional estável e, nesse sentido, historicamente inédita. Tudo isto, evidentemente, escapa à narrativa de NP, mas não deixa de ter mérito por querer ver mais além da suposta “caridade” europeia.

Dito isto, estes momentos mais louváveis não alteram o diagnóstico global do livro; podem, porém, ajudar a explicar a sua ressonância. É precisamente na combinação entre intuições parcialmente fecundas e um quadro teórico limitado que reside parte da sua força.

III

No entanto, o livro caracteriza-se sobretudo por uma dupla omissão particularmente reveladora.

Por um lado, não existe qualquer confronto sério com as teorias do desenvolvimento, a principal categoria do livro. As categorias que estruturam a análise — instituições, mercados, concorrência, incentivos — são mobilizadas como evidências autoevidentes (passe a redundância), dispensando definição, historicização ou justificação. O desenvolvimento nunca surge problematizado. Estamos assim perante uma teoria implícita, mas altamente normativa, do desenvolvimento. Implícita, porque nunca formulada enquanto tal; normativa, porque estabelece uma hierarquia de formas históricas em função da sua proximidade a um modelo ideal; e podemos acrescentar teleológica, na medida em que lê o passado como antecipação imperfeita de um presente que surge como horizonte de realização.

Por outro, e de forma talvez ainda mais surpreendente, o livro evita situar-se no interior do próprio debate que pretende reativar. A questão do atraso português constitui um dos eixos mais duradouros do debate intelectual português, atravessando pelo menos mais de dois séculos de reflexão, de Alexandre Herculano a Antero de Quental a Oliveira Martins, passando por múltiplas reformulações ao longo do século XX. Esta tradição é praticamente ignorada, ou evocada apenas de forma episódica e desqualificante (o que mais uma vez atesta uma certa soberba de NP, que se permite superiorizar aos grandes nomes históricos da intelectualidade portuguesa, sem nunca sequer sentir a necessidade de se justificar).

O efeito combinado destas duas ausências é notável: o livro apresenta-se como intervenção num debate que, na prática, recusa reconstruir. A história do problema desaparece, substituída pela ilusão de uma posição exterior, como se o autor pudesse falar a partir de um ponto de vista não situado, liberto das determinações que moldaram as interpretações anteriores. O gesto é tão pretensioso como problemático: não se trata de superar uma tradição, mas de a contornar.

IV

É neste vazio que se afirma a verdadeira coerência do livro: uma teoria implícita do desenvolvimento que funciona como princípio organizador de toda a narrativa. Boas instituições, mercados eficientes, capital humano, concorrência e iniciativa individual constituem os critérios através dos quais diferentes sociedades são avaliadas, independentemente do seu contexto histórico.

Esta teoria, nunca formulada explicitamente, opera como uma grelha normativa profundamente ahistórica. O passado deixa de ser um campo de possibilidades específicas para se tornar uma sequência de aproximações mais ou menos imperfeitas a um modelo ideal. A história transforma-se, assim, numa escala de desvios.

Torna-se assim visível o paradoxo central da obra. Apresentando-se como um exercício de história de longa duração, ela mobiliza um horizonte temporal alargado apenas para o submeter a categorias que lhe são exteriores. A longue durée surge, assim, não como instrumento de complexificação histórica, mas como campo de aplicação de uma grelha interpretativa fixa.

Daqui resulta um duplo anacronismo. Por um lado, um anacronismo estrutural: a aplicação implícita e sistemática de categorias contemporâneas a realidades historicamente distintas. Por outro, e de forma mais flagrante, anacronismos explícitos, nos quais o passado é descrito através de categorias que lhe são totalmente alheias.

O exemplo mais chocante surge talvez na leitura da Primeira República, apresentada como um regime de “esquerda radical” dominado por “guerras culturais”. A formulação não apenas simplifica grosseiramente um período complexo; reproduz, de forma quase literal, a linguagem com que certas direitas contemporâneas descrevem o presente. O paralelismo com o léxico anti-“woke” de correntes próximas do trumpismo não é acidental: trata-se da projeção retrospetiva de um conflito atual sobre uma realidade histórica distinta.

O efeito é tanto mais grave quanto o próprio autor se arroga o direito de denunciar os alegados a priori ideológicos que aos seus olhos desqualificam a grande maioria da historiografia portuguesa.

V

Esta operação tem ainda uma consequência decisiva: a evacuação da política enquanto dimensão constitutiva da História. Ao longo da narrativa, os conflitos sociais surgem de forma residual, as classes quase não têm presença (aparecem em apenas duas frases do livro, salvo erro) e as transformações históricas aparecem sobretudo como resultado de boas ou más decisões institucionais.

A história tende assim a assumir a forma de um problema técnico: sociedades que adotam instituições corretas prosperam; aquelas que não o fazem permanecem estagnadas. O conflito, quando surge, é frequentemente reduzido a erro, ignorância ou resistência irracional.

Trata-se, em última análise, de uma visão tecnocrática da história, na qual o tempo histórico é reconfigurado como sequência de escolhas mais ou menos adequadas a um conjunto de princípios considerados universais. A política, enquanto campo de disputa entre projetos incompatíveis, cede lugar a uma lógica de otimização — é a transposição para a historiografia da lógica da política económica neoliberal: tudo se reduz a um problema técnico. A história deixa de ser um campo de luta para se converter num campo de gestão.

VI

É neste ponto que o livro revela a sua inscrição mais significativa. Longe de constituir uma rutura, ele pode ser lido como um aggiornamento de uma tradição reacionária portuguesa (no verdadeiro sentido da palavra), agora revestida de linguagem económica contemporânea.

Por um lado, adota integralmente uma visão neoliberal da história, na qual o mercado surge como instância normativa última. Por outro, orienta os seus revisionismos num sentido preciso: a reabilitação, direta ou indireta, de momentos e correntes associadas a projetos políticos conservadores ou autoritários — isso fica claro com a obsessão do livro em denunciar o anticlericalismo ao longo dos séculos.

Esta dupla operação aproxima-o de configurações ideológicas contemporâneas. A insistência na concorrência como critério fundamental, a desvalorização das clivagens esquerda/direita e a leitura da política como obstáculo remetem para um léxico próximo do liberalismo económico mais radical. Simultaneamente, a reinterpretação de episódios históricos à luz de conflitos culturais e a crítica permanente das elites políticas — encapsulada na repetição (algo a roçar o ridículo) da oposição de jure/de facto — ecoam registos associados à direita dita “populista”.

Neste sentido, as afinidades discursivas que mantêm formações como a Iniciativa Liberal ou o Chega não devem ser entendidas como simples coincidências, mas como a expressão de um terreno ideológico partilhado. Apesar das suas diferenças, ambas convergem numa combinação particular: neoliberalismo económico, desconfiança da política e revisão do legado progressista (nomeadamente do pós-25 de Abril; e isto embora a IL tente apropriar a noção de progressismo).

O que emerge é uma forma de revanchismo histórico possibilitada pela atual correlação de forças que, sob a aparência de modernidade, reativa temas e ressentimentos antigos, agora articulados com uma linguagem de liberdade individual e eficiência económica.

VII

A esta reconfiguração ideológica corresponde uma atitude mais difusa, mas não menos estruturante, face ao problema do “atraso”. O livro participa de uma disposição que se pode considerar amplamente disseminada no espaço público português, mais trans-ideológica (e podemos supor com equivalentes em todas as sociedades, principalmente as semi-periféricas), marcada por uma oscilação característica entre descrença e exaltação nacional.

Por um lado, emerge uma forma daquilo que se pode designar como uma “antropologia negativa do português” — ou seja, o “português” surge como figura implicitamente deficitária, naturalmente propenso a certos defeitos, que são tidos como moeda comum no panorama nacional. Esta antropologia negativa manifesta-se em afirmações sistemáticas, ou melhor, numa tonalidade recorrente: a ausência de surpresa perante o fracasso, a tendência para naturalizar comportamentos considerados disfuncionais — frequentemente atribuídos à classe política, mas facilmente extensíveis ao corpo social no seu conjunto (a corrupção, por exemplo). O atraso deixa assim de ser um problema histórico para se tornar um traço quase ontológico (o que é politicamente problemático, porque mascara as verdadeiras origens dos problemas e fomenta a inação).

Por outro lado, esta desvalorização é compensada por momentos de exaltação nacional que obedecem a uma lógica aparentemente inversa, mas estruturalmente complementar. O passado português, e em particular “a idade de ouro” da expansão, é recuperado como fonte de orgulho.

O que é curioso no caso desta obra é que a recuperação existe, não nos termos clássicos de uma apologia imperial, hoje largamente deslegitimada, mas através de uma reinterpretação ajustada ao horizonte ideológico contemporâneo. A centralidade atribuída ao contributo português, através da expansão, para o empirismo europeu e, por essa via, para a formação da ciência moderna, permite reinscrever a expansão numa narrativa progressista, em que Portugal surge como mediador indispensável de um processo civilizacional mais vasto.

Esta reformulação não elimina o gesto de exaltação; desloca-o. Ao invés de celebrar diretamente a dominação imperial, celebra-se a sua suposta inscrição num movimento universal de conhecimento e progresso. A isto acrescenta-se a recorrente evocação da influência global portuguesa, agora apresentada como índice de uma capacidade histórica excecional.

O resultado é uma estrutura discursiva dual: a desvalorização do presente e do agente coletivo coexiste com a hipervalorização seletiva do passado. Embora racionalmente contraditórios, estes dois polos reforçam-se mutuamente. A perceção de um falhanço contemporâneo intensifica a necessidade de compensação simbólica; esta, por sua vez, impede uma problematização efetiva das condições históricas desse mesmo falhanço.

VIII

O sucesso do livro indica, portanto, algo que ultrapassa o seu autor. A persistência da categoria de “atraso” revela uma forma específica de relação com o tempo: uma historicidade marcada pela perceção de desfasamento, em que o presente é vivido como insuficiência e o passado como explicação dessa falha.

Neste quadro, o livro funciona menos como explicação do atraso do que como sua reformulação. Ao traduzir uma ansiedade difusa numa narrativa coerente, contribui para a estabilização de um determinado modo de pensar Portugal — simultaneamente crítico e resignado, diagnóstico e normativo.

As limitações do livro de NP são evidentes e múltiplas. Mas o seu interesse não se esgota na crítica dessas insuficiências. O que nele se condensa é uma configuração intelectual e política que ultrapassa largamente o seu objeto declarado. Mais do que uma história do atraso português, trata-se de um documento sobre as formas contemporâneas de o pensar — e, nesse sentido, um índice das condições ideológicas do presente.

É um exercício que não devia ficar sem resposta.

Souvenirs de Axiologia e Ética

Souvenirs de Axiologia e Ética, de Inês Borges Lourenço.

  • A ética como ciência da moralidade dos atos humanos

O homem não se limita a conhecer através dos sentidos e da razão, pois, para além disso, reage sobre o conhecido e atua sobre o mundo que o rodeia. Do mesmo modo que os pensamentos, para serem corretos, se devem orientar por normas da Lógica e para serem verdadeiros devem refletir a realidade conhecida, assim os atos humanos, para serem retos (morais), devem obedecer a uma norma (lei) que rege a vida do homem e dirigem-se ao bem, id est, àquilo que pode e deve ser desejado pela vontade. Desta guisa, a ética (ou a moral, confluindo e simplificando os termos) será a parcela da filosofia (filosofia prática) que estuda o comportamento humano quanto às normas e fins que determinam a sua retidão.

O objeto de uma ciência é algo que pode ser estudado ao mesmo tempo por outras ciências. Essa realidade tratada por uma ciência denomina-se o seu objeto material. Mas cada ciência estuda o seu objeto a partir da sua perspetiva na qual consiste o seu objeto formal. A ética tem como objeto material os atos humanos e como objeto formal, a moralidade desses atos, a sua adequação ou inadequação à norma moral. Contudo, a ética não é uma ciência puramente dedutiva que, a partir da ideia de Bem, pode extrair todas as normas morais. Deve partir de princípios gerais, mas deve ter em conta a natureza do sujeito humano que atua.

  • Relações com a metafísica

A ética, por estudar a adequação ou inadequação dos atos humanos à sua norma de legitimidade (a sua moralidade), não pode deixar de fundamentar-se nos princípios da Metafísica, que é a ciência do Ser e das suas relações gerais. Se a conduta que se ajusta à lei moral é aquela que conduz o homem para o seu fim ou para o seu Bem, o seu conhecimento exigirá que se possua previamente uma doutrina acerca do fim ou do Bem do homem e da sua conexão dentro do mundo, doutrina que nos é fornecida precisamente pela metafísica.

Rigorosamente, a ética é uma parte ou aplicação da Metafísica, porque estuda o Ser, as diferentes classes de seres e as suas relações mútuas. A noção de Bem utilizada pela ética, apoia-se no conceito de Ser que é objeto da Metafísica. O Bem é o próprio Ser, enquanto capaz de aperfeiçoamento do outro Ser, tornando-se para ele apetecível e desejável. Dentre os seres, somente Deus, que é plenitude e ato puro, não tem tendência e movimento: nada pode aperfeiçoa-lo, pois é perfeição absoluta. Mas os demais seres, que têm em si uma mistura de ato e potência – de Ser e não-Ser -, tendem naturalmente para a sua própria plenitude através dos seres que os aperfeiçoam e que são o seu Bem. Os seres, dentro da ordem do Universo, estão relacionados uns com os outros de tal forma que se aperfeiçoam e completam mutuamente. Em rigor, todas as coisas, quanto ao Ser que têm, podem aperfeiçoar outro ser, tornando-se para ele desejáveis. Daqui deriva a noção o facto de a noção de Bem ser tão extensa e universal como a de Ser (todo o Ser é bom, id est, desejável). Deste modo, o Bem é o próprio Ser, em relação a algo ou alguém que o deseja e ao qual aperfeiçoe.

O ser racional (o homem) tende de um modo consciente e reflexivo (racional) para o seu Bem conhece não só a coisa apetecida, mas também as razões pelas quais a coisa é desejável. Esta forma de tender racional (reflexiva) radica na liberdade ou livre arbítrio do homem: dado que as coisas que rodeiam o homem são, como todas as criaturas, uma mistura de Ser e não-Ser (são imperfeitas), a razão humana capta os motivos do desejo e assim a vontade não se encontra necessariamente inclinada para um determinado objeto.

A ética estudará o modo como a criatura racional e livre pode e deve utilizar o movimento impresso no seu Ser, dirigido para a sua plenitude, dentro de uma realização livre. Daqui deduz-se que a ética ou a moral não pode separar-se da Metafísica, sendo até a sua cúpula, pois analisa o modo de tender e aperfeiçoar-se da criatura mais consciente perfeita deste mundo, que é a criatura racional.

Alguns moralistas pretendem que a Ética se pode desenvolver sem necessidade da metafísica. A Ética seria independente da Metafísica e até anterior a esta. Assim, por exemplo, o intuicionismo ético, segundo o qual o conhecimento moral é independente do prévio saber racional sobre o Ser, adquirindo-se através de um acesso próprio e direto (não racional) – uma intuição moral – que não precisa, por isso mesmo, de se apoiar ou relacionar com a Metafísica. Esta corrente é característica da escola axiológica ou teoria dos valores (Max Scheler), para a qual o valor moral se adquire por uma intuição ou estimação emocional, alheia ao conhecimento racional do Ser.

  • Relações com a psicologia

A Ética e a Psicologia têm parcialmente um mesmo objeto material, pois tratam de uma mesma realidade: os atos humanos. Dizemos que o seu objeto material incide só parcialmente porque a psicologia trata também de atos do homem (e do animal) que não podem ser objeto de considerações morais, por não serem atos realizados com razão e liberdade. Mas se a ética e a psicologia coincidem num mesmo objeto material (os atos racionais e livres), diferenciam-se pelo seu objeto formal. A psicologia estuda esses atos psíquicos na sua realidade natural, ao passo que a ética os considera na sua relação com o Bem ou norma da sua retidão. A bondade ou maldade de um ato – a sua moralidade – não é algo de independente da sua realidade psicológica, mas sim uma qualidade desse mesmo ato. Mas é legítima uma consideração psicológica que prescinda do aspeto moral ou ordenação do ato para o seu verdadeiro fim, da mesma forma que é legítima uma consideração moral que prescinda do aspeto psicológico natural. Em todo o caso, e dada esta coincidência de objeto material, pode compreender-se a importância que para o estudo da moralidade deve possuir o prévio conhecimento da realidade psicológica dos atos. Não pode valorizar-se moralmente um ato, sem conhecer a sua natureza psicológica, a sua génese e o grau de racionalidade e liberdade nele existentes.

  • Divisão da Ética
  1. Ética geral que tem por objeto a essência e o fundamento da ordem moral. Nela se estuda o ato moral, o bem ou fim último do homem, a lei moral (norma objetiva da moralidade), a consciência moral (norma subjetiva da moralidade) e os hábitos morais.
  2. Ética especial. Nela se trata da moralidade nas diversas direções em que se especifica a vida humana segundo os objetos da mesma.
  • Os atos morais

Somente os atos voluntários são objeto de valorização moral. O ser racional é capaz de tender para o seu Bem de um modo reflexivo e livre. Na natureza, só o homem é racional, estando por isso dotado de livre arbítrio: só, pois, o ser humano é sujeito de atos morais. Contudo, nem todos os atos do homem são morais. Denominam-se atos humanos (actus humani) aqueles que procedem da razão e do arbítrio e atos do homem (actus hominis) aqueles que, embora realizados pelo homem, carecem daquela origem e condição. Somente os atos humanos são atos morais. Só os atos realizados pelas faculdades superiores de entendimento e vontade são propriamente humanos e só eles são objeto de qualificação moral. Recebe o nome de exclusivamente voluntário, o ato que brota diretamente da vontade. A vida moral humana (o objeto da ética) compreende não só os puros atos da vida racional ou superior, mas também os da vida sensitiva ou inferior, na medida em que se encontrem iluminados pela razão e sob o domínio da vontade. A ignorância, a paixão, o medo e a violência são as quatro formas gerais que modificam a moralidade dos atos.

  • Culpa e responsabilidade

São propriedades de atuação moral – do próprio ato e do sujeito – a culpa e a responsabilidade. A culpa é a condição dos atos morais pela qual podem estes ser atribuídos como causa a um sujeito racional e livre. As condições da responsabilidade do sujeito são, tal como para a culpabilidade do ato, a sua racionalidade e liberdade. Modificam ou anulam a responsabilidade do sujeito as mesmas influências que alteram a sua voluntariedade.

  • O fim último do homem ou Bem Supremo

Só o homem se dirige racionalmente para o seu Bem, conhecendo os motivos pelos quais deseja e a razão de Bem que tem para ele a coisa conhecida. Devido à mistura de Ser e do não-Ser que têm as coisas, o homem deve ordenar a sua atividade voluntária hierarquizando os objetos a que se dirige, os quais deste modo adquirem uma posição de meios em função de outros que têm para ele razão de fim. Sem um fim último, expresso ou virtual, a série de intenções e de ações careceria de sentido humano. Sempre que os atos humanos se orientem para o fim último ou não saiam da ordem de fim que ele determina serão morais que se desviam por relação a esse fim serão imortais.

As principais conceções históricas do Bem Supremo são: o hedonismo (prazer), o sociologismo (proveito do maior número), a doutrina da autonomia moral (conformidade com um imperativo moral interno), o eudemonismo religioso (a felicidade conquistada pelo reto desenvolvimento das potencialidades humanas orientadas para Deus, supremo fim do homem).

  • Conceção do fim supremo no apriorismo de Kant

O comportamento humano não adquire o seu caráter moral por se orientar em função de um fim, mas pela sua conformidade com uma forma (estrutura) da razão prática que se encontra no próprio sujeito moral. Só atua moralmente aquele que age por puro respeito à lei per se. Se perante uma ação qualquer vemos que pode ser erigida como norma de conduta universal, essa ação é moralmente legítima, em caso contrário, não o é. Segundo Kant, não se deve atuar porque o ato é bom; ele é bom porque deve ser feito.

  • A lei como expressão da norma moral

Norma moral consubstancia-se na regra ou na medida mediante a qual o sujeito pode reconhecer os seus atos como bons ou maus, segundo se conformem ou não ela. A norma moral pode ser objetiva ou subjetiva. É objetiva a lei moral, id est, a ordenação de preceitos que rege o comportamento do homem relativamente aos seus diferentes fins dentro da ordem geral da criação.

É norma subjetiva a consciência moral. A lei é definida por S. Tomás como uma certa ordenação da razão encaminhada para o bem comum, promulgada por aquele que se encontra à frente da comunidade. A lei divide-se em eterna (de toda a natureza), lei natural ou moral (em nós próprios) e em lei positiva (nas realções humanas).

  • A consciência moral

A consciência moral está virada para o comportamento, emitindo juízos práticos acerca da bondade ou da maldade dos atos humanos. A maldade dos atos humanos não é uma entidade positiva dos mesmos, mas negativa. É uma privação dessa ordem, pois a vontade não quer o objeto pelo próprio mal (a privação de bem, o não-ser), mas, sim, por algo de bom que nele exista, ainda que se encontre em oposição à ordem e hierarquia de bens em que a coisa está inserida. Objeto, fim e circunstância são as raízes que especificam moralmente um ato.

O objeto do ato é aquilo em que o ato consiste, aquilo que por si mesmo realiza. Fim é aquilo que, imediata ou mediatamente (mas sempre no termo da sua intenção), o agente persegue ao realizar o ato. Entende-se por circunstâncias todos os fatores concomitantes e as condições de tempo e lugar que possam influenciar e valorização moral do ato.

Algumas Diferenças entre a Cidade Mediterrânea e a Cidade do Sul da China

A distinção, numa cidade litoral mediterrânea, entre zonas baixas de ruelas e praças e zonas altas de palácios (equivalentes ao agora e acrópole gregas) é também observável nas cidades litorais do sul da China? Sim, mas com algumas nuances. Mário Duarte Duque, numa entrevista ao canal de televisão de Macau, a TDM, dá algumas indicações de como essa distinção se processa, e também como em Macau e em parte na antiga Hong Kong, menos bem preservada, se mantém um traçado arquitectónico e de planeamento urbano muito semelhante às origens europeias e distintas das suas congéneres do sul da china. Essas cidades mantêm assim um aspecto análogo, não de forma idêntica ou tão sistemática, ao modelo mediterrânico clássico, mas com paralelos notáveis em algumas cidades costeiras do sul da China, especialmente em contextos históricos de defesa e topografia.

Modelo Mediterrânico (para contexto)

Nas cidades litorais gregas/romanas (ex.: Atenas), a distinção é clara e funcional:

  • Zona baixa (agora): Área comercial, cívica e popular com ruelas, praças, mercados e habitações.
  • Zona alta (acrópole): Citadela elevada, defensiva e simbólica, com templos, palácios ou estruturas administrativas/religiosas. A elevação proporciona defesa, visibilidade e prestígio.

Isso reflete não só uma topografia acidentada (colinas), a nível basilar, mas também necessidades defensivas e separação entre funções cívicas/religiosas e comerciais.

Nas cidades costeiras do sul da China (ex.: Quanzhou, Xiamen, Guangzhou, Fuzhou)

A China imperial tinha um planeamento urbano mais padronizado (muralhas quadrangulares ou retangulares, eixo norte-sul, influência cosmológica), mas a topografia montanhosa/húmida do sul (colinas, deltas fluviais e costa irregular) gerou variações. Não havia exatamente uma “acrópole grega” universal, mas cidadelas elevadas (citadel/acropolis type) existiam, especialmente em portos e zonas de defesa costeira.

  • Exemplos claros de distinção elevada/baixo:
    • Quanzhou (Fujian), importante porto marítimo histórico (Rota da Seda Marítima): Tinha estruturas como a Ancient Acropolis de Yongning (construída na dinastia Ming, ~1387, para defesa contra piratas japoneses — wokou). Era uma cidadela fortificada elevada/estratégica com muralhas, ruas em grelha, templos (Pujing) e funções administrativas/militares no topo ou centro elevado, enquanto o porto e áreas comerciais ficavam nas zonas baixas junto ao mar/rio. A cidade velha combinava bairros baixos densos com elementos elevados defensivos.
    • Outras “acrópoles” ou cidadelas Ming/Qing em Fujian/Guangdong serviam propósitos militares e administrativos em posições elevadas para vigilância costeira.
  • Guangzhou (Cantão) e delta do Rio das Pérolas: A cidade cresceu em planícies aluviais e áreas ribeirinhas baixas (com ruelas comerciais históricas como Xiguan), mas templos e estruturas administrativas/antigas ocupavam colinas ou posições mais altas para drenagem, defesa e simbolismo. A evolução urbana mostra expansão de núcleos elevados para baixos planos.
  • Xiamen/Gulangyu e Fuzhou: Topografia com colinas e ilhas leva a templos (ex.: Nanputuo) e construções antigas em encostas mais altas, enquanto o comércio e habitações populares ficam nas zonas baixas/portuárias. Gulangyu tem mistura colonial em terrenos variados.

Diferenças chave em relação ao Mediterrâneo

  • Menos polarização simbólica: Na China, templos e palácios/administração seguiam princípios feng shui e eixos cardeais, não necessariamente “alto = sagrado/defensivo” de forma rígida como na Grécia. Muitos centros eram planos ou murados uniformemente.
  • Foco em muralhas e água: Cidades chinesas costeiras enfatizavam muralhas completas, canais e portos. As “zonas altas” eram mais cidadelas militares (suo ou wei) do que acrópoles religiosas permanentes.
  • Evolução prática: No sul húmido e comercial, as cidades portuárias priorizavam acesso ao mar/rios (zonas baixas densas) com elementos elevados para proteção contra inundações, piratas ou ventos. Muitos “palácios” ou mansões de elite ficavam em colinas por ventilação e status.

Em resumo, observa-se uma distinção semelhante em várias cidades litorais do sul da China, impulsionada pela topografia (colinas costeiras) e necessidades defensivas/comerciais — com zonas baixas mais densas e comerciais, e elevações com estruturas administrativas, templos ou fortificações. Não é tão universal ou icónico como o par agora-acrópole, mas é visível em portos históricos como Quanzhou. A urbanização moderna diluiu muito disso em megacidades planas. Para ver exemplos concretos, visite o centro histórico de Quanzhou ou colinas de Xiamen.

Por último, Macau representa um caso fascinante de hibridização cultural e urbana, onde a distinção mediterrânea clássica entre zona baixa (comercial, popular e portuária) e zona alta (defensiva, religiosa e de prestígio) se manifesta de forma visível, embora reinterpretada através da lente sino-portuguesa.

Na Baixa de Macau (áreas como o Largo do Senado, as ruas em torno da Rua da Felicidade e o porto interior), encontramos o equivalente funcional da ágora mediterrânica: praças animadas, ruelas estreitas e sinuosas com comércio intenso, casas de comércio chinesas e portuguesas lado a lado, igrejas e templos em proximidade, e uma vida quotidiana densa junto às águas. É uma zona viva, mercantil e multicultural, historicamente ligada ao porto e ao intercâmbio.

Nas zonas altas — especialmente o Monte da Guia com a sua Fortaleza da Guia, capela e farol, ou o Colina da Penha com a residência episcopal e vistas dominantes —, observa-se claramente o espírito da acrópole: posições elevadas para defesa (contra piratas e potências rivais), simbolismo religioso (igrejas e ermidas no topo) e controlo visual sobre o território e o mar. A topografia acidentada da península, com colinas graníticas, reforçou esta separação vertical, muito semelhante à dos portos mediterrânicos.

Assim, Macau não é apenas uma colónia portuguesa sobreposta à China: é um dos poucos lugares onde a lógica urbana mediterrânea (separação funcional e simbólica entre baixo comercial e alto defensivo/religioso) se funde organicamente com os princípios chineses de feng shui, geomancia e adaptação à paisagem subtropical. Esta dualidade ainda hoje se lê na paisagem: o bulício das zonas baixas contrasta com a serenidade contemplativa e estratégica das colinas, criando uma das disposições urbanas mais ricas e híbridas do mundo litoral asiático.

Os Crimes de Eça de Queirós

Prólogo

Não houvera de haver a antecipação de Dostoievski e em algumas obras de Eça de Queirós quadraria, como numa moldura, o título Crime e Castigo.

Dever-se-ia, no entanto, interpretar no título a subtil ironia queirosiana e ler “crime” onde se lê “castigo”, e vice-versa. Portanto, à nossa atual luz, o título deveria ser “Castigo e Crime”.

Com efeito, em regra, o castigo é prémio ao criminoso, sendo exemplarmente punida a vítima. 

E esta é, em regra, a mulher; o que acrescenta à obra do escritor uma personagem persecutória: o próprio Eça.

Primeiro crime: Luísa, a rapariga loura

«Singularidades de uma rapariga loura», publicado pelo jovem Eça em 1874 e incluído na coletânea póstuma que se intitulou Contos1, é um texto a todos os títulos notável, sendo o principal dos quais o facto de ser considerado o primeiro texto realista do escritor.

Notável, também, porque desde o começo o escritor aplica o castigo feminino de forma não apenas realista, mas drástica. Observemos.

Luísa, a rapariga loura de algumas singularidades bastante normais, ostenta o nome de uma outra Luísa que virá a ser a personagem principal d’O Primo Basílio.

Apodada pelo noivo Macário, na sequência de flagrante delito, de ladra, esta primeira Luísa é expulsa do noivado, do casamento e do futuro de que os dois haviam construído as bases.

Possuidor da virtude da honra, à época cristalizada, surpreende que Macário, cujo temperamento se havia plasmado na narrativa, ao afastar Luísa – lembremos, a adorada rapariga loura – use palavras duras e excessivas: «- Vai-te! – E fez um gesto com o punho cerrado … E chegando-se para ela, disse baixo: – És uma ladra!»

Crueza assim! Como um sol nefasto, ela o persegue até ao inverno da sua vida e estava ali, naquele quarto daquela estalagem, pairando loura entre Macário e o comparsa de ocasião, a quem o primeiro conta, pela milésima vez porventura, a história daquela que pretendera debalde afastar da sua vida.

Fica assim, e podemos ironicamente atribui-lo à ironia do escritor, a dúvida sobre a cabeça em que recaiu o castigo que a narrativa pretende exemplar. 

Fica também a deceção do leitor atual pela leviandade de um noivo que tudo pela sua amada enfrentara, incluindo o desemprego, a miséria, as duras viagens comerciais a Cabo Verde, e que agora se mostra incapaz de contornar uma nódoa temperamental da sua rapariga loura. A que naquela época sem psiquiatria se designava de cleptomania e a que hoje se cola o rótulo científico de “doença”.

Não convence a rotação do carácter de Macário. De forma que não é Macário quem grita «- Vai-te!» e a seguir lhe diz, baixo mas brutal, «- És uma ladra!»

Não reconhecemos estas como palavras de Macário, mas sim de Eça, que expulsa da narrativa a rapariga loura terminando-a de seguida. 

Segundo crime: Amélia

Não podendo dispor simultaneamente dos dois nomes para o título usados por Dostoievski, Eça deita a mão a um deles logo no seu primeiro romance: O crime do padre Amaro.

O crime acontece na página 310 da edição que utilizámos2. Trata-se do adultério perpetrado por Amélia, rapariga solteira e noiva, e Amaro. De vero adultério se trata porque Amaro, sendo padre, é casado: com a igreja de Cristo. 

Na 1.ª edição do romance (1876) o crime acontecia mais tarde, quando Amaro matava o seu próprio filho. E é o próprio Eça, usando o divinopoder autoral, que desloca o crime, limpando o sangue das mãos de Amaro. O padre agora entrega simplesmente o filho, de forma alienante, à “tecedeira de anjos”.

Bem maior foi a deslocação do crime na versão definitiva (1880). Ele está no castigo que corresponde à morte posterior de Amélia, na sequência do grosseiro parto arquitetado pela tal “tecedeira”.

Parto grosseiro é, digamo-lo, este castigo que pune a vítima esquecendo-se de punir o criminoso do título, o qual vai de paróquia em paróquia pastorando, até à de Sintra, para que se utilizou dos bons ofícios do seu amigo conde de Ribamar.

Recordemo-las aqui, as, para nós, litográficas frases do “adultério”: «Ele voltou ao quarto com a luz. Amélia lá estava,imóvel, toda pálida. O pároco fechou a porta – e foi para ela, calado, com os dentes cerrados, soprando como um touro.»

Há, portanto, um furor animal neste ato.

“Furor” é a palavra certa. A morte de Amélia, que Eça pratica ou, pelo menos, não impede, não é apenas a postura de um autor «em que a representação pretende identificar-se à realidade».3 Porque a denúncia social e religiosa representa aqui, numa aparente submissão à tirania da verdade, a submissão aos mesmos ditames da religião e da sociedade; caso em que ousamos afirmar que se trata de uma morte autoral, porque não salva a mulher quem o filho salvou, e, portanto, trata-se, em rigor literário periodístico, de mero furor naturalista.  

Terceiro crime: Luísa

O primo Basílio representa o crime perfeito, já anteriormente e largamente teorizado.

Luísa, outra rapariga loura, recém-casada com o robusto Jorge, é um produto eminentemente naturalista. Moldada geneticamente pelo meio, pela educação e pela ascendência, torna-se objeto da visão determinista do autor. Conforme interpreta Carlos Reis:

​Luísa, burguesa ociosa formada sob o signo de leituras românticas, ​entedia-se quando Jorge (…) se ausenta para o Alentejo; ao ​reencontrar Basílio, primo e namorado de adolescência, Luísa tenta ​materializar nele as imagens romanescas e aventurosas de que se ​nutria a sua inspiração​deformada pelo consumo de novelas ​românticas, com a Dama das camélias à cabeça. Assim, o adultério ​que se segue resulta da conjugação de fatores deletérios, juntando-​-se-lhe ainda a atmosfera morna e medíocre da Lisboa da ​Regeneração …4

Quer dizer, a sociedade, e Eça por ela, urdem uma teia com todos os ingredientes de que se tece o inevitável adultério.

Ainda assim, Luísa resiste durante 173 páginas5 (muita página!), e quando se entrega, de olhos cerrados como Amaro, ainda resiste balbuciando anestesiada: «- Jesus! Não! Não!»

É, portanto, na página 173 que o crime acontece. E é nos capítulos sucessivos que se desenrolam entre Basílio e Luísa as cenas eróticas e exóticas que tanto incomodaram Machado de Assis.

Ora, o que incomoda é que o castigo mais uma vez tem de ser deslocado, para a longínqua página 437 em que se consuma a morte de Luísa.

Torna-se assim Luísa em vítima venial e virtual de um adultério, que vem a ser instrumentalizado por Eça em Juliana, uma das personagens maiores da galeria do escritor. Incompetente como criada, foi criada para matar Luísa. E Eça curva-se perante a vergasta da sociedade e da religião, infirmando o axioma “pecou, tem que pagar”. O autor, com efeito, mostra-se inamovível em manter a sentença de morte: nem o perdão de Jorge o faz vacilar.

E, enquanto Basílio regressa às luzes de Paris, Luísa vai a enterrar, belo corpo jovem já adestrado para todos os lados do triângulo com que a ortodoxia católica se mede entre a permissão ou a condenação: o casamento, o adultério ou os dois.

Expiação: Leonor e Gracinha

Nas obras seguintes apodera-se de Eça a suspeição do Naturalismo, o que o faz enveredar por outros caminhos. E é já após a libertação feminil protagonizada pela Eugénia de Abel Botelho no Barão de Lavos que Eça retrocede definitivamente na sua atitude vindicativa,«[d]eixando de lado as lições e abandonando o pragmatismo (…), revelando a perspetiva de que é impossível afirmar um sentido definitivo» 3.

Tal facto, que, apropriando-nos do dicionário pecaminatório, apelidaríamos de “expiação”, verifica-se apenas na maturidade das obras finais do escritor.

Duas mulheres, belas e jovens como sempre, exemplificam esta inversão da perspetiva.

Uma delas é Leonor, personagem de «O defunto», incluído nos Contos e publicado inicialmente em 1895.

Leonor, a jovem e fiel esposa do velho senhor D. Afonso de Lara, representa a felicidade feminina, o enlace de matrimónio e a paixão a que afinal acedeu com o também fidalgo mas jovem D. Rui de Cardenas. 

Trata-se agora de adultério post mortem, devidamente sancionado pela entidade moral e social, mas que obriga a recorrer a instrumentos de índole mítica: a colocação da narrativa na recuada era da Idade Média e a intervenção de um enforcado defunto que sofre segunda morte para salvação de D. Rui, a mandado de Nossa Senhora do Pilar, em tempos em que estes milagres ainda aconteciam – intervenção que abre as portas da morte a D. Afonso de Lara e as do amor sacramentado a D. Rui e Leonor.

A outra mulher é Gracinha, da obra já póstuma publicada no ano da morte de Eça de Queirós (1900), A ilustre casa de Ramires.

Há, de início, um paralelo com a Luísa do Primo Basílio. Tal como esta, Gracinha é uma jovem recém-casada, não com o robusto Jorgemas com o rico proprietário José Barrolo, apelidado o bacoco;romanesca sem Dama das camélias, ociosa, vivendo na mornidão da cidade de Oliveira que nem sequer é Lisboa, a Gracinha é propiciada a familiaridade de um jovem aureolado, André Cavaleiro, o senhor governador civil com influência na corte, antigo namorado dela tal como o Primo fora de Luísa.

Depois, acentuam-se as diferenças. Ao contrário de Sebastião, o irmão adotivo que em vão protege Luísa, é o próprio irmão de Gracinha que, por ambição política, aproxima o galã e a entrega ao adultério; queele, Gonçalo Mendes Ramires, perscruta mas não interrompe nem evita, fugindo amarrado de mãos às políticas ambições. Mas, mais tarde, fá-lo sufocar, satisfeitas e saciadas as ambições pessoais, afastando os pervertidos e devolvendo a Gracinha a vida da pureza original a que ela chama em carta o «ramerrão costumado», a que o autor acrescenta: «E com efeito a vida recomeçara, no seu ramerrão, simples, contínua e sem história» 6.  

Torna-se cativante observar então a chegada de Gracinha a casa, acompanhada pelo «bom Padre Soeiro», e vê-la, logo de seguida, estendida sobre o canapé de palhinha, «ainda com um grande avental branco, tapando o vestido até ao pescoço».

Para esta suma fidelidade, bem fácil após o sorvedouro da doçura adulterina, haviam contribuído factos notáveis: o marido de Gracinha, ignorante do adultério, manda derrubar o mirante em que o mesmo ocorrera; Gonçalo, aliando-se a este ato heroico, diz e impõe a Gracinha: «O passado morreu, e todos precisamos (…) que continue morto»; as duas manas Lousadas, usando de todas as perfídias, nada conseguem do que obtivera Juliana; Gracinha, agora D. Graça, murmura: «- Como eu mudei!». Gonçalo, que Eça compara, por interposta personagem, a Portugal, sabe bem que tudo o que se passou é obra sua, o que não invalida a imponente obra que representa Gracinha. 

Remissão: Elisa

Devendo a vida a uma obra ainda de título masculino, «José Matias», publicada em 1897 e incluída também nos póstumos Contos, Elisa personifica a vingança eciana e a feminina vingança.

Jovem mulher, «alta, esbelta, ondulosa», agora de cabelos negros, uma «carnação de camélias muito frescas», duas vezes casada com homens mais velhos e abastados, o Matos Miranda e o Torres Nogueira, acumula o amante espiritual de sempre, José Matias, e, já viúva, provoca o adultério do malcasado apontador de Obras Públicas.

Como se observa, Elisa usa o poder de perpassar todos os estádios civis e relacionais, mantendo o simultâneo usufruto do casamento e da paixão, e sobrevive no rubro calor da felicidade e da opulência que logra furtar à masculina dominação do país.

Quase receoso, Eça nunca nos introduz à presença magnífica de Elisa, sempre resguardada nos seus interiores aposentos. Ficamos com José Matias, vendo-a de longe: na janela, na varanda, no jardim. 

É ela, sem dúvida, uma personagem de força impressionante, a principal da narrativa, de que José Matias é secundária peça.

Obliterado o acre sabor da vingança, Eça acaba por assumir que coexistem outras verdades e outra verosimilhança, através de Elisa, mulher extraordinária que nós observamos à distância – a distância que nos aproxima de uma das mais extraordinárias obras de Eça de Queirós.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Eça de Queirós, Contos (Lisboa: Edições Livros do Brasil, s/d).

2 Eça de Queirós, O crime do Padre Amaro (Lisboa: Edições Livros do Brasil, s/d, 14.ª edição).

3 Lélia Parreira Duarte, «A lúdica complexidade de A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós», Lusitânica e Românica (1998):  A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós (leliaparreira.com.br)

4 Carlos Reis, «Eça de Queirós: do Romantismo à superação do Naturalismo», em História da Literatura Portuguesa. O Realismo e o Naturalismo, Vol. 5 (Lisboa: Publicações Alfa, 2001), 168.

5 Eça de Queirós, O primo Basílio (Lisboa: Edições Livros do Brasil, s/d, 11.ª edição).

6 Eça de Queirós, A ilustre casa de Ramires (Porto: Lello & Irmão, Editores, s/d), 441.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Abril 2026

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Sempre com a ajuda das preciosíssimas Notre Dame Philosophical Reviews, trazemos as últimas novidades no mercado editorial da filosofia. Eis aqui oito sugestões.

Em Aquinas on the Ethics of Happiness (Cambridge University Press, 2025), Joseph Stenberg reconstrói de forma sistemática a ética tomista, apresentando-a não como um conjunto disperso de teses, mas como um modelo coerente e articulado em torno da noção de felicidade humana, no qual se integram dimensões individuais e comunitárias, bem como a relação entre virtude, lei natural e finalidade última do agir. Em Out of Nowhere: The Emergence of Spacetime in Theories of Quantum Gravity (Oxford University Press, 2025), Christian Wüthrich e Nick Huggett analisam em profundidade várias abordagens contemporâneas à gravidade quântica, discutindo de que modo o espaço-tempo poderá não ser fundamental, mas antes emergir de estruturas físicas mais básicas, o que implica uma revisão significativa das categorias ontológicas tradicionais da física. Em A Pluralist Theory of Perception (MIT Press, 2024), Neil Mehta propõe uma teoria pluralista segundo a qual a perceção não constitui um processo único e homogéneo, mas envolve múltiplas formas irreduzíveis de relação cognitiva com o mundo, desafiando modelos unificadores e oferecendo uma análise detalhada das suas implicações epistemológicas. Em Debating Transcendence: Creatio ex nihilo and Sheng Sheng (Fordham University Press, 2026), Bin Song desenvolve um diálogo comparativo entre tradições filosóficas e teológicas ocidentais e chinesas, colocando em confronto a doutrina da criação a partir do nada com conceções de geração contínua e auto-transformação do real, explorando as suas consequências metafísicas e cosmológicas.

Ainda, em Lottocracy: Democracy Without Elections (Alexander Guerrero, Oxford University Press, 2024), propõe-se uma transformação radical da democracia representativa pela substituição das eleições por sorteio aleatório de cidadãos comuns (lottocracy), criticando o sistema eleitoral por gerar elites, hiperpartidarismo, manipulação e viés de curto prazo; em seu lugar, sugere cerca de 20 legislaturas temáticas compostas por 450 cidadãos sorteados, com mandatos de três anos, bem remunerados e estruturados em fases de deliberação, consulta e decisão, visando maior qualidade epistêmica, representatividade e accountability. Em The Ethics of Public Health Paternalism (T. M. Wilkinson, Oxford University Press, 2025), analisa-se criticamente o paternalismo estatal em saúde pública que restringe escolhas adultas prejudiciais (tabaco, álcool, obesidade), argumentando que tais intervenções superestimam o valor da saúde em relação ao bem-estar geral e à autonomia individual, ignorando preferências autênticas e podendo piorar a qualidade de vida, defendendo assim limites éticos rigorosos ao intervencionismo estatal em democracias liberais. Já Omnisubjectivity: An Essay on God and Subjectivity (Linda Trinkaus Zagzebski, Oxford University Press, 2023) introduz o conceito de “omnisubjetividade” divina, segundo o qual Deus não apenas conhece factos objetivos, mas experimenta subjetivamente todos os estados mentais das criaturas, integrando filosofia da mente, epistemologia e teologia para explicar uma onisciência plena que permite compreender integralmente a subjetividade humana e divina, com a criação fluindo como luz acessível a Deus. Por fim, Love Troubles: A Philosophy of Eros (Federica Gregoratto, Columbia University Press, 2025) desenvolve uma teoria crítica do amor erótico e da amizade, explorando as tensões sociais, políticas e existenciais do eros na modernidade, investigando como o amor pode realizar a liberdade em contextos de desigualdade e polarização de gênero, oferecendo reflexões profundas sobre o sofrimento e o potencial transformador das relações amorosas como fenômenos tanto individuais quanto coletivos.

Sobre em Portugal só 20% dos ciganos trabalharem

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Recentemente, um famoso político português afirmou que só 20% dos ciganos é que trabalha e a média na União Europeia é de 54%. Ora como ninguém se dedicou a verificar isto, fui eu. Isto e o resto do relatório!

Este estudo da FRA não é sobre percepções vagas, é um inquérito comparável sobre direitos, condições de vida e integração de ciganos ou roma e nómadas em permanente deslocação em 13 países europeus, avalia o progresso face às metas da UE para 2030 em áreas como a discriminação, pobreza, educação, emprego, saúde e habitação.

fonte de informação:

https://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/fra-2025-roma-survey-2024_en.pdf

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Mas vá, vamos já ao que interessa. André Ventura não mentiu, retratou bem a realidade, embora de forma não totalmente exata à décima. Mas os números são reais. Se não fossem, em princípio, já saberíamos.

Vamos lá! Em Portugal, de acordo como estudo só 21% dos ciganos entre os 20 e os 64 anos declarou ter como atividade principal trabalho pago.

E aqui é que a coisa fica ainda mais feia. Não estamos a falar de um número mau mas estável. Estamos a falar de uma queda contínua e brutal, e disso o Ventura nem falou!

Em 2016 eram 38% (no início da geringonça 1.0), depois passaram para 31% (2019-21), e em 2024 para 21%. Ou seja, menos 17 pontos percentuais em oito anos. é abismal porque o número já era vergonhoso. Felizmente, relembro, não faltaram estudos do CES e companhia sobre a comunidade cigana.

Para dar e vender.

O contraste com o resto da Europa é também vergonhoso A média europeia neste indicador está nos 47% em 2024. Portugal, com os seus 21%, aparece 26 pontos abaixo da média. Nem sequer é um bocadinho abaixo. É um desvio gigantesco. É estar no fundo, e sem desculpa estatística que disfarce o descalabro.

Pior! Enquanto a maioria dos países melhora ou pelo menos recupera nos anos mais recentes, Portugal anda para trás em marcha acelerada. Há países a subir para os 50, 60 e até perto dos 70%. Portugal faz o contrário, vai descendo, descendo, descendo, até encostar aos 21%. É o género de resultado que não aponta para um problema conjuntural. Aponta para falhanço estrutural.

E depois há o outro número que torna isto ainda mais embaraçoso, é que na população geral em Portugal, a taxa é de 78%. Portanto, o país onde 78% da população em geral trabalha é o mesmo país onde, neste gráfico, apenas 21% da comunidade cigana declara o trabalho como atividade principal. A diferença é de 57 pontos percentuais. Não é uma diferença. É, repito, um abismo.

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Aqui, o retrato é ainda mais deprimente: em Portugal, só 8% dos jovens ciganos entre os 20 e os 24 anos completaram pelo menos o ensino secundário superior em 2024.

E o pior é que nem sequer se pode vender isto como estagnação. Houve queda: Portugal vinha de 10% e desceu para 8%. Ou seja, já partia de um nível miserável e ainda conseguiu piorar.

O contraste com a realidade nacional é esmagador. Na população geral em Portugal, o valor está nos 89%. Portanto, temos um país em que quase 9 em cada 10 jovens atingem esse nível de escolaridade, mas dentro da comunidade cigana o número fica reduzido a 8 em cada 100. É uma diferença de 81 pontos percentuais, um fosso obsceno.

Também face à média europeia, Portugal volta a aparecer na cauda, a média da UE neste grupo está nos 28%, já de si nada brilhante, mas ainda assim muito acima do caso português. Portugal fica 20 pontos abaixo da média europeia.

Estamos a fazer um bom trabalho….

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Discriminação! Não ficamos bem na fotografia. Mas também não há um efeito CHEGA. em 2019-21, 62% das pessoas ciganas disseram ter sentido discriminação nos últimos 12 meses em áreas centrais da vida por serem ciganos, subiu para 63% em 2024, não é material. Mas em absoluto, é elevado.

Sim, é um valor brutalmente acima da média europeia, que está nos 31%. Ou seja, Portugal surge com mais do dobro da média da UE.

Traduzindo isto para português simples, em Portugal, quase dois terços dos inquiridos da comunidade cigana dizem sentir discriminação, quando na média europeia isso acontece a cerca de 3 em cada 10. Portanto, enquanto noutros países os números oscilam, em Portugal o retrato fica cristalino, muita discriminação, persistente e acima da norma europeia.

Motivos? Não sei. Acho que é uma pescadinha de rabo na boca.

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Em relação aos objetivos propostos pela UE para melhorar a vida da comunidade cigana em diferentes pontos, Portugal, a par da França, está longe de os poder atingir. Relembro que a meta é 2030.

Este quadro é retirado do resumo do estudo em português, para quem preferir:

https://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/fra-2025-roma-survey-2024_pt.pdf

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Curiosamente, no ano passado o Polígrafo já tinha chumbado esta afirmação de Ventura.

Diz o Polígrafo: “Ao contrário do que diz o deputado e líder do Chega, há um estudo bem mais recente sobre a comunidade cigana em Portugal, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em junho de 2024. Baseia-se nos resultados do Inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População Residente em Portugal (ICOT), realizado em 2023.

Entre as principais conclusões do estudo destaca-se que “no mercado de trabalho, a população de etnia cigana tinha uma menor proporção de ativos (61,3%, para 70,8% na população total), posicionando-se maioritariamente no primeiro quintil da distribuição de rendimentos, ou seja, nos 20% da população com rendimentos mais baixos (72,6%)”.

Baseia-se num estudo do INE:

https://www.ine.pt/xportal/xmain?

xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=673365018&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt

Só que “ativos” não quer dizer que trabalhem: eu aliás fui ver as tabelas do INE e a esmagadora maioria está desempregada! Coisas do português!

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Estão a ver: o Ventura disse que só 14% da comunidade cigana trabalhava, na verdade, a percentagem é de 15,2%.

O Polígrafo enganou os portugueses. Porquê? Porque nos deu o número com os desempregados.

Vergonha alheia.

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Em conclusão: Não tenho muito a dizer. O tema é delicado. Só reafirmar que o Ventura acerta quando aponta para os números. eles mostram falhanços sérios de integração em Portugal, no emprego, na escola e noutros indicadores. Mas reconhecer a realidade não obriga a defender discriminação, obriga, isso sim, a exigir integração a sério, com respeito pelos costumes do país, pelos hábitos básicos de convivência, pela escolarização, pelo trabalho e pelo cumprimento da lei.

Desordem. Sem Instruções.

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Nasci integrado no cerne da margem sul. E passava os meus dias numa taxa de permuta constante entre fingir-me ou não um mosqueteiro ao serviço de sua majestade, provavelmente D’Artagnan. Também resolvia problemas de matemática. Fiz ditados e aprendi, pelo pulso do meu avô, a dividir e a multiplicar. Não fugi ao instrumento de funcionamento do sistema e, antes que desse por isso, estava já sentado na escola. Ensinaram-me a resolver equações. Passei, depois, para sistemas lineares ligeiramente maiores. De seguida, estava já a esboçar alguns rabiscos para maximizar funções. Até que cheguei ao conjunto dos imaginários. O vento bateu no tempo que voou e já me vou, hoje, dedicando a algumas primitivas.

Treinaram-me, nos entretantos, para resolver problemas hipotéticos com dados limpos e variáveis, por vezes, por mim definidas, não havendo grande margem de escolha para essa definição. Pareceram esquecer-se, todavia, que o mundo, lá fora, é bruto. Áspero. E que não vem com um enunciado. Isto é, que habita, algures por aí, uma dimensão mais crua, mais fria. Íntima. E não tão elegante quanto gostaríamos. A que se aprende no tropeço dos dias. E essa não cabe nos livros. No que toca à emoção, a imprecisão é consideravelmente superior e a nós mesmos tem, ainda, muito por explicar. Aquilo que é certo é que nenhum livro me preparou, um dia, para fazer face às emoções. À extensão tão vasta do que provamos sentir nas veias.

Ora, cresci, até certo ponto, com a convicção discreta de que a vida tem capítulos bem demarcados. Que há um momento para aprender, outro para começar e outro, na fronteira destes dois, para, finalmente, ser. Passei até a acreditar que esta falsa metamorfose se tratava de uma espécie de linha invisível, diante da qual alguém, que nunca soube bem quem, me diria que estou pronto. O que descobri, contudo, foi uma sucessão de contradições a este raciocínio. Que vivemos num estado provisório permanente, como se a existência fosse sempre uma preparação para algo que nunca coincide com o presente. E o mais inquietante não é esta demora, que sabe nos dentes a uma perpetuidade, mas a suspeita de que não há, afinal, conclusão prevista.

A modernidade especializou-se na arte da suspensão. Tudo é uma fase. Um percurso, um processo. A linguagem da maturidade foi substituída pela linguagem do aperfeiçoamento contínuo. Parece já não haver idade adulta como um território estável, mas, em vez disso, uma atualização permanente, aquém até da sabedoria que esses anos levam no bolso.

Tudo aquilo que se encontra subjacente ao conceito de academia tem, neste âmbito, diversas pontas por limar. O próprio saber, que deveria ser um parto de ideias sazonadas, transforma-se numa produção mensurável, que insistimos em tornar dimensível. E o pensamento, que nasce da demora, passa a justificar-se por estimadores.

É importante notar que a educação consiste, incontestavelmente, num pilar indispensável para uma sociedade íntegra e coesa. Parece, todavia, estar ligeiramente estagnada. Viciada em formar máquinas de guerra, altamente capazes de criar e produzir, porém, muitas das vezes, com graves deturpações na arte de ser e de pensar. De saber falhar. Fala-se das competências do século, ao passo que se estimulam eufemismos pedagógicos, enquanto se falha no básico: ensinar alguém a lidar com a perda, com a frustração e com a incerteza. Ou, simplesmente, com o vazio dos dias comuns. E continuamos a chamar-lhe ensino. A sentar crianças em filas, como peças de uma fábrica meticulosa, quando o mundo já não cabe num horário de cinquenta minutos. Muito menos vezes quatro, cinco ou seis.

Mora, nesta atmosfera, algo de estranhamente familiar. A continuidade que sentimos no nosso interior, que se esboça como uma teia de processos invisíveis. A vida parece continuar mediante regras que nos escapam. E vamos, nos entretantos, parecendo permanecer dentro de algo maior que nós. Conservo, no entanto, o esforço para tornar plausível a utopia de que existe para este ciclo um fim, recusando esta opacidade de forma absoluta e tentando reescrever a noção de que somos inteiros. Que seremos capazes de aceitar a própria plenitude. Que não precisamos de compreender o todo. Que devemos existir sem permissão. Que podemos, a qualquer instante, simplesmente e por si só, estar completos.

Posto isto, então, talvez, arrisquemos ressuscitar, dentro de nós mesmos, a ingenuidade outrora inerente aos nossos tempos de infância, como se nos trouxesse, numa bandeja, a estranha quietude que surge ao interromper esta etapa interminável de hesitações. De medo. Deambular nos consórcios da formatação de intelectos é regressar a José Mário Branco. E é recordar a Queixa das Almas Jovens Censuradas, segundo a qual nos dão o «prémio de ser assim, sem pecado e sem inocência».

No Riso a Transgressão, Na Escrita o Prazer

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O amor da transgressão integrável, 
essa é a verdade desta história e artes.1

Durante séculos, as mulheres permaneceram ausentes ou com um papel secundário na História, afastadas do mundo intelectual e do prazer sexual, conformadas com a função que a sociedade lhes atribuíra. 

A obra Novas Cartas Portuguesas é um livro que pretende acabar com a submissão das mulheres, dar-lhes voz, contar as suas histórias e contribuir para a sua representação, não só na literatura portuguesa, mas também internacional. A obra é fruto de uma escrita a três, algo nunca feito até então na literatura portuguesa. Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – conhecidas como “as três Marias” – num processo de escrita cúmplice, inovador e subversivo, criam uma nova forma de fazer literatura. O livro é composto por diversos textos de múltiplos géneros literários, tais como, poesia, ensaio, carta e textos que fogem a qualquer classificação devido à sua hibridez. 

Publicada em 1972, a obra é recolhida e destruída pela censura três dias depois de chegar ao mercado. São acusadas de escrever um livro de conteúdo imoral e pornográfico, dando início a um processo judicial que apenas terminará com a absolvição das escritoras em Maio de 1974. No entanto, e tal como o advogado Duarte Vidal pretende demonstrar ao longo do julgamento, esta acusação resulta do facto de as escritoras serem do sexo feminino, e das críticas feitas ao regime ditatorial ao longo da obra2. Para além de tratarem a condição da mulher (focando as desigualdades e violência nas relações amorosas e sexuais entre homem e mulher), muitos textos abordam a guerra colonial, a imigração, a falta de liberdade, colocando um desafio à noção de identidade sexual e dos papéis sexuais3 .

As escritoras tinham a plena noção da transgressão que cometiam ao publicar uma obra cujos temas e linguagem não eram considerados adequados para uma mulher tratar. Estavam preparadas para as críticas: “Comuna de mulheres ou sufragistas já nos dizem, com riso gelado pela insegurança de nos verem juntas: barreira intransponível.” (Novas Cartas Portuguesas, p.100) Em Novas Cartas Portuguesas, a mulher tem prazer com o próprio corpo e o seu objectivo não é a fecundação; é, simplesmente, ter prazer. As três Marias demonstram-nos que não basta a mulher revoltar-se a nível político. Ela tem também de se reinventar no seio familiar e na sua intimidade, porque a mudança tem de começar dentro de si com a (re)descoberta e aceitação da sua sexualidade. Para transmitir esta ideia, as escritoras transgridem certas convenções sociais, utilizam palavras proibidas, tecem fortes críticas sociais e políticas, invertem os papéis feminino/ masculino, colocando a mulher como sujeito activo nas relações sexuais, reivindicando para a mesma o direito a ter prazer. 

O género híbrido, a nova forma de narrar (apesar de serem três vozes distintas, há uma multiplicidade de pontos de vista que retrata milhares de mulheres), a escrita sem regras e a intertextualidade são muitos dos elementos que fazem deste livro uma ode à liberdade e ao prazer do corpo e da leitura. Tudo isto levou a que se gerasse uma enorme polémica em torno da obra que se fez ouvir internacionalmente, levando mulheres como Simone de Beauvoir a apoiar a causa das três Marias.

Numa entrevista publicada no site Esquerda4, Maria Teresa Horta confidencia: “Enquanto preparávamos os montinhos perguntei quanto tempo tínhamos demorado a escrever as Novas Cartas Portuguesas. Chegámos então a essa conclusão: foram nove meses, o tempo de uma gestação. É impossível ser um acaso.” Desta junção de três mulheres nasce uma nova escrita, um livro que surge para renovar o panorama literário português, questionar o papel da mulher e reclamar para a mesma uma identidade e um lugar na sociedade. Escrever deve ser, segundo Maria Teresa Horta, um acto de amor e de transgressão: “Pois quem escreve não pode deixar de transgredir. Não pode evitar o risco. Já que a arte de escrever é, em si mesma, um acto de criação em movimento constante: de renovação, de entrega, de conturbação e desassombro.”5

É este desejo de afrontar as regras e de chocar mentalidades, com o intuito de as mudar, que encontramos nas três escritoras. Para estas, as palavras têm esse poder, apesar de se questionarem: “Mas o que pode a literatura? Ou antes: o que podem as palavras?”. Hoje, a resposta é mais óbvia. A literatura levou à descredibilização e enfraquecimento de um regime ditatorial, e as três Marias foram agentes cruciais neste processo. É esta inconformação com as regras e leis estabelecidas que origina o erotismo. Segundo as escritoras, será através dele que o sexo feminino se conseguirá libertar da opressão. Ao tomarem como mote a obra atribuída à freira Mariana Alcoforado, intitulada Cartas Portuguesas6, reconfiguram as relações entre homem e mulher e criam, para o sexo feminino, uma nova identidade:

… castigo sofro por me ter entregue: amante de homem por prazer;

Embora… de prazer me dei e conquistei, desafiando de aparência o mundo e a mim mesma nesse desafio de coragem, inconsciência ou grande tentação de fuga, a única que desde sempre se me deparou.” (Novas Cartas Portuguesas, p.52)

Um desafio de coragem sintetiza muito bem aquilo que é esta obra. As três Marias tiveram a coragem de usar livremente as palavras e não se deixaram oprimir pelo governo ditatorial nem pela sociedade profundamente machista e patriarcal em que habitavam. A literatura surgia, então, como um meio de luta e resistência. Durante o julgamento, as escritoras mantiveram uma atitude alegre e descontraída, mostrando que não tinham medo. O julgamento foi mesmo marcado por alguns momentos de riso:

Apesar de toda a violência de que fomos alvo, de facto, nunca deixámos transparecer intimidação. E muito do que nos rodeava chegava a ser cómico: desde a assistente que transcrevia tudo o que era dito, porque nada era gravado, e interrompia constantemente para perguntar se sutura se escrevia com s ou ç, até ao procurador que parecia ter encenado as intervenções antes de ir para tribunal… Tudo isso nos fazia rir. [risos] Não me lembro de ter tido medo uma única vez. Nem quando saí de casa para ir para o tribunal julgando que o juiz iria ler a sentença.3

O riso, aliado à paródia, é também um elemento importante e inovador na obra, visto simbolizar a resistência, subversão e libertação dos grilhões do Estado Novo. Com todas estas armas – a transgressão, o erotismo, o prazer, o riso – se muniram três mulheres e criaram uma das mais belas obras da literatura portuguesa contemporânea. 

Mais do que um manifesto feminista, trata-se de uma obra de género híbrido que apela à liberdade criativa, à liberdade textual e, acima de tudo, à liberdade do ser humano em todos os seus níveis.

“A liberdade hoje, manas, é a persistência do riso de quem aguentá-lo pode sem esgar.” (Novas Cartas Portuguesas, p.273)

Notas:

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas – Edição Anotada, D.Quixote, 2010, p.273.

Duarte Vidal conclui que “a pornografia e as ofensas à moral pública foram um mero pretexto para esconder o verdadeiro motivo desta acusação que é de carácter político” (p.62). No entanto, também refere que o facto de as três autoras serem do sexo feminino foi um factor decisivo: “concluo que há uma discriminação porquanto os escritores portugueses, homens, que nos seus livros têm descrições mais realistas do que as que constam de «Novas Cartas Portuguesas» não foram incriminados.” (p.70) Duarte Vidal, O Processo das Três Marias: Defesa de Maria Isabel Barreno, Editorial Futura, Lisboa, 1974.

Como, por exemplo, o texto “O Corpo”, onde se descreve um corpo cujos símbolos corporais remetem para uma descrição estereotipada do corpo de uma mulher. No entanto, no final do texto percebemos que o corpo descrito é o de um homem observado pelos olhos da mulher.

4Maria Teresa Horta e Mariana Carneiro, «Escrever as Novas Cartas Portuguesas foi uma das coisas mais importantes da minha vida», Esquerda, 24/01/2021, “Escrever as Novas Cartas Portuguesas foi uma das coisas mais importantes da minha vida” | Esquerda

5Maria Teresa Horta, Escrita e Transgressão, Matraga, Rio de Janeiro, v.16, n.25, jul./dez. 2009. Escrita e transgressão | Horta | Matraga – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ 

6Freira enclausurada no convento de Beja que teve por amante um oficial francês, Noël Bouton de Chamilly, ao qual terá escrito cartas de amor publicadas em 1669 por Claude Barbin. Até hoje existem dúvidas acerca do verdadeiro autor ou autora das mesmas.

*Todas as imagens foram retiradas da página Novas Cartas Portuguesas, 40 anos depois – NOVAS CARTAS PORTUGUESAS | 40 ANOS DEPOIS (novascartasnovas.com) e da página Esquerda – “Escrever as Novas Cartas Portuguesas foi uma das coisas mais importantes da minha vida” | Esquerda.

O Debuxo na Indústria de Lanifícios: Memória e Património da Covilhã

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Texto de Jorge Trindade, debuxador na indústria de lanifícios da Covilhã, com uma carreira dedicada ao desenho têxtil. Com colaboração de Ana Catarina Trindade, CENIMAT|i3N, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal; Universidade Atlântica e ESSATLA – Escola Superior de Saúde Atlântica, Portugal.

Num tempo em que a produção industrial se tornou cada vez mais automatizada e distante do gesto humano, importa revisitar os saberes que estiveram na base da construção dessa mesma indústria. O debuxo, enquanto técnica de desenho têxtil aplicada à tecelagem, representa um desses conhecimentos especializados que, ao longo de décadas, sustentaram a produção de lanifícios na cidade da Covilhã. Mais do que um procedimento técnico, o debuxo traduz uma forma de pensar o tecido, onde cada linha desenhada corresponde a uma decisão estrutural e estética precisa. Recuperar esta prática é também preservar a memória de uma indústria e valorizar o conhecimento acumulado por gerações de debuxadores.

A indústria de lanifícios da Covilhã afirmou-se, ao longo de décadas, como um dos principais centros têxteis em Portugal, apoiada num conjunto de saberes técnicos especializados que garantem a qualidade e diversidade dos tecidos produzidos. Entre esses saberes, o debuxo ocupa um lugar central, funcionando como elo de ligação entre o desenho e a execução em tear, assegurando a correspondência entre a intenção estética e a realidade material do tecido.

Designado na prática industrial como debuxo, o desenho têxtil consiste na tradução de um motivo decorativo numa representação técnica rigorosa, geralmente realizada em papel quadriculado. Cada quadrícula corresponde ao cruzamento entre fios de urdidura e de trama, permitindo definir com precisão a estrutura do tecido e a sequência de entrelaçamento dos fios. Esta representação baseia-se numa codificação sistemática das passagens dos fios, distinguindo-se situações como a pica, correspondente à passagem do fio de urdidura sobre o fio de trama, e a larga, quando ocorre o inverso (Figura 1). Este sistema permite não só representar o tecido, mas também antecipar o seu comportamento e aparência final.

Figura 1. Representação do papel de debuxo e da organização das linhas de urdido e trama.

O trabalho do debuxador implica a análise cuidada do desenho original e a sua adaptação às condições concretas de produção. A escolha do ligamento — seja tafetá, sarja, cetim ou estruturas mais complexas —, a definição das repetições e a organização dos fios são decisões fundamentais para garantir que o resultado final no tecido corresponde à intenção estética inicial.

Trata-se de um trabalho de grande precisão, em que cada linha desenhada tem uma correspondência direta no comportamento dos fios no tear (Figura 2). Ao mesmo tempo, é um saber construído sobretudo pela prática, pela observação e pela experiência acumulada ao longo dos anos, num contexto em que a transmissão de conhecimento ocorre frequentemente no próprio ambiente de trabalho.

Ao longo de várias décadas de atividade na indústria de lanifícios da Covilhã, o debuxo tem sido aplicado a uma grande diversidade de tecidos, desde estruturas mais simples até padrões de maior complexidade, nomeadamente em tecidos do tipo Jacquard. Esta diversidade exige uma adaptação constante, tanto ao nível do desenho como das soluções técnicas adotadas, evidenciando a flexibilidade e a capacidade de interpretação do debuxador.

A prática continuada permite desenvolver uma leitura progressivamente mais intuitiva da relação entre o debuxo e o resultado final no tecido. Com o tempo, o processo deixa de ser apenas uma transposição gráfica, passando a integrar uma verdadeira antecipação do comportamento dos fios, da textura e do efeito visual do tecido produzido.

Este conhecimento, dificilmente transmissível apenas por via teórica, consolida-se através da experiência direta, do contacto com os teares e da observação dos resultados obtidos. A correção de pequenos desvios, a adaptação a diferentes matérias-primas e a resolução de problemas concretos fazem parte integrante do trabalho quotidiano, contribuindo para o aperfeiçoamento contínuo das soluções adotadas.

Figura 2. Representação das “picas” e “largas” no debuxo, ilustrando o cruzamento
dos fios de urdidura e trama.

Para além da sua função técnica, o debuxo representa hoje um testemunho do modo como o conhecimento é construído e aplicado no contexto da indústria têxtil. Cada debuxo constitui não apenas uma instrução de produção, mas também um registo do saber, das práticas e das decisões técnicas adotadas numa determinada época.

Num contexto em que muitos destes processos foram progressivamente substituídos por ferramentas digitais, torna-se particularmente relevante preservar este tipo de documentação, quer pelo seu valor técnico, quer pela sua importância enquanto património industrial.

O debuxo exige, desde logo, uma compreensão clara da estrutura dos tecidos e dos diferentes tipos de ligamentos utilizados na tecelagem. Estruturas fundamentais como o tafetá, a sarja ou o cetim constituem a base sobre a qual são construídos padrões mais elaborados. A partir destas estruturas, o debuxador tem de adaptar o desenho original às possibilidades técnicas do tear, respeitando simultaneamente as limitações impostas pelos materiais, pelas máquinas e pelas condições de produção.

A elaboração do debuxo implica uma sequência de decisões que combinam lógica e sensibilidade visual. A definição das repetições do padrão, a escolha da escala adequada e a organização dos elementos gráficos são aspetos determinantes para o equilíbrio final do tecido. Pequenas variações na representação podem traduzir-se em diferenças significativas no resultado obtido, exigindo um elevado nível de atenção ao detalhe.

A par da componente estrutural, o debuxo implica também a antecipação do comportamento dos materiais. A natureza da fibra, a espessura dos fios, o tipo de acabamento e até as condições de tecelagem influenciam diretamente o aspeto final do tecido, obrigando o debuxador a considerar não apenas a geometria do padrão, mas também a sua expressão material.

No contexto industrial, o debuxo não é um processo isolado, mas sim parte integrante de uma cadeia de produção mais ampla. Em estruturas mais complexas, articula-se com a definição da remissa (Figura 3), responsável pela organização dos fios de urdidura e pela sua correta distribuição nos liços, facilitando a execução do tecido em tear.

Figura 3. Exemplo de organização estrutural em debuxo, evidenciando o
papel da remissa na preparação do tear.

A sua articulação com as fases de preparação do tear é essencial para garantir a correta execução do tecido. No caso dos teares Jacquard (Figura 4), o debuxo assume um papel particularmente relevante, servindo de base à definição dos cartões perfurados que controlam o levantamento dos fios de urdidura, permitindo a produção de padrões têxteis complexos.

Este processo de tradução — do desenho para o debuxo e deste para o sistema mecânico do tear — exige uma correspondência rigorosa entre representação e execução. Qualquer erro ou imprecisão pode comprometer a produção, implicando perdas de tempo, de material e de recursos. A proximidade entre o debuxador e o ambiente fabril permite uma validação contínua do trabalho realizado. O contacto direto com os teares e com os tecidos produzidos possibilita ajustar e aperfeiçoar os debuxos, numa lógica de melhoria contínua baseada na experiência e na observação. O conhecimento associado ao debuxo é, em grande medida, adquirido através da prática e da convivência com profissionais mais experientes. Embora exista formação técnica, uma parte significativa da aprendizagem ocorre no contexto do trabalho, através da observação, da repetição e da resolução de problemas concretos.

Figura 4. Exemplo de padrão têxtil do tipo Jacquard e
respetiva representação em debuxo.

Este modo de transmissão, de carácter essencialmente informal, contribui para a formação de gerações de debuxadores que partilham não apenas técnicas, mas também uma forma de pensar o tecido e o seu processo de construção. O saber acumulado ao longo do tempo resulta, assim, de uma combinação entre conhecimento técnico e experiência prática. A continuidade deste tipo de aprendizagem permite manter uma elevada qualidade na produção têxtil da região, reforçando a identidade da indústria de lanifícios da Covilhã.

Com a introdução de tecnologias digitais na indústria têxtil, o processo de debuxo sofreu uma transformação significativa. As ferramentas informáticas passaram a permitir uma maior rapidez na criação, modificação e reprodução de padrões, bem como uma integração mais direta com os sistemas de produção automatizados. Apesar destas mudanças, os princípios fundamentais do debuxo mantiveram-se inalterados: a lógica de representação da estrutura do tecido, a necessidade de compreender os ligamentos e a importância da correspondência entre desenho e execução continuam a ser elementos centrais.

Neste contexto, o conhecimento tradicional assume um papel particularmente relevante, não apenas como memória de práticas passadas, mas também como base para a correta utilização das ferramentas contemporâneas. A compreensão dos fundamentos permite interpretar e validar os resultados obtidos por via digital, evitando erros e garantindo a qualidade do produto final.

A progressiva substituição de processos manuais por sistemas digitais trouxe ganhos evidentes de eficiência e flexibilidade, mas implicou também uma certa desmaterialização de práticas que, durante décadas, estiveram associadas ao gesto, ao traço e à interpretação direta do desenho. O debuxo, enquanto prática baseada na representação manual e na construção gradual do padrão, reflete uma forma de conhecimento em que o tempo, a experiência e a observação desempenham um papel fundamental. A sua execução exigia não apenas precisão técnica, mas também uma atenção contínua ao detalhe e uma capacidade de antecipação difícil de substituir integralmente por meios automatizados.

Neste sentido, os debuxos realizados ao longo do tempo assumem hoje um valor que ultrapassa a sua função original (Figura 5). Para além de documentos técnicos, constituem registos materiais de um modo de fazer, evidenciando processos, decisões e soluções adotadas num determinado contexto industrial.

Figura 5. Diferentes etapas do processo têxtil — fiação, urdideira e tear — e contexto
da prática de debuxo na indústria de lanifícios da Covilhã.

A preservação do debuxo enquanto prática e enquanto registo torna-se, assim, relevante não apenas para a compreensão da história da indústria de lanifícios, mas também para a valorização do conhecimento técnico que sustenta a sua evolução. Numa época em que a produção tende a privilegiar a rapidez e a automatização, revisitar estes processos permite reconhecer a complexidade, o rigor e a inteligência técnica associados à construção do tecido.

Mais do que um procedimento técnico, o debuxo representa uma forma de pensar e de construir o material têxtil, onde cada elemento resulta de uma escolha consciente. A sua continuidade, ainda que adaptada a novos contextos, constitui um elo essencial entre o passado industrial e as práticas contemporâneas.

Neste sentido, cada debuxo pode ser entendido como uma síntese entre conhecimento técnico, experiência e intenção estética, constituindo um testemunho material de um saber que importa preservar.

Notas e Referências

  1. Universidade da Beira Interior. Debuxos tipo Jacquard: arte e técnica. Exposição realizada no Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior, Covilhã, 23 de setembro a 4 de novembro de 2018.
  2. Câmara Municipal da Covilhã. Iniciativas e publicações relativas ao património têxtil e à memória da indústria de lanifícios da Covilhã.
  3. Figuras 1–4: debuxos originais do debuxador Jorge Trindade, produzidos no contexto da atividade profissional na indústria de lanifícios da Covilhã.

Quem decide do que gostamos?

Formam-se filas durante a noite para comprar um relógio de plástico. Listas de espera prolongam-se durante anos para adquirir um desportivo em aço. Milhares de pessoas, em cidades diferentes e culturas distintas, acabam por desejar exactamente o mesmo objecto. Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria.

Tendemos a acreditar que primeiro existe uma identidade — um gosto pessoal, uma preferência estética, uma visão particular da relojoaria — e que os relógios que escolhemos são apenas a expressão dessa identidade. No entanto, muitas vezes acontece o inverso. O encontro com um objecto singular — uma mecânica inesperada, uma estética pouco comum ou um relógio que não segue as preferências dominantes — pode deslocar-nos para uma posição distinta dentro do universo do coleccionismo.

Nesse sentido, não é necessariamente por sermos diferentes que escolhemos um relógio diferente; muitas vezes é o relógio diferente que acaba por nos tornar diferentes.

A relojoaria gosta de apresentar cada relógio como uma escolha profundamente pessoal. Contudo, quando observamos o comportamento colectivo do mercado, surge uma pergunta desconfortável: até que ponto as nossas escolhas são realmente nossas?

Talvez seja culpa de Jack Finney. Foi ele quem imaginou, no romance The Body Snatchers, a inquietante ideia de um organismo capaz de substituir silenciosamente os seres humanos, preservando os corpos mas apagando as mentes individuais.

The Body Snatchers – Jack Finney

Décadas mais tarde, essa história regressaria ao cinema numa das suas versões mais influentes, Invasion of the Body Snatchers, cujo argumento foi escrito por W. D. Richter — o mesmo argumentista que viria a co-escrever o clássico Big Trouble in Little China (Jack Burton nas Garras do Mandarim).

Invasion of the Body Snatchers – W. D. Richter

Nesse universo narrativo surge uma das ideias mais persistentes da ficção científica:

a ideia de um organismo único capaz de controlar a mente de múltiplos indivíduos.

Os corpos permanecem aparentemente normais, mas a consciência individual desaparece, substituída por uma inteligência colectiva.

Episódio  Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty

Esta sugestão viria a repetir-se inúmeras vezes no cinema e na televisão. Dois exemplos relativamente recentes encontram-se no episódio Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty e na série Pluribus.

Série Pluribus

Em todas estas histórias ocorre o mesmo fenómeno inquietante: os corpos continuam individuais, mas as mentes deixam de o ser.

Talvez essas histórias não falem apenas de alienígenas. Talvez falem de quem colecciona relógios. Talvez sejam todas sobre si!

Capítulo I

Quando as mentes deixam de ser individuais

Existem histórias de ficção científica que regressam continuamente à mesma inquietação: a possibilidade de perdermos a nossa individualidade sem que nada, à superfície, pareça ter mudado.

Três obras exploram esta ideia de forma particularmente clara: o episódio Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty, o episódio Pluribus, e o filme Invasion of the Body Snatchers.

No episódio de Rick and Morty, a entidade chamada Unity controla simultaneamente todos os habitantes de um planeta. Cada pessoa mantém o seu corpo, a sua voz e os seus gestos, mas todos partilham a mesma consciência. Aquilo que parece ser uma sociedade de indivíduos revela-se, afinal, uma única mente distribuída por múltiplos corpos.

O episódio Pluribus explora uma ideia semelhante. Um organismo alienígena infiltra-se gradualmente numa população humana até criar uma inteligência colectiva. A individualidade dissolve-se pouco a pouco, à medida que os indivíduos passam a funcionar como partes de um sistema maior.

Já em Invasion of the Body Snatchers, talvez o exemplo mais célebre deste tema, a substituição ocorre de forma silenciosa. Organismos extraterrestres produzem duplicados humanos aparentemente perfeitos. Os novos corpos mantêm a aparência dos originais, mas perderam aquilo que os tornava verdadeiramente humanos: a autonomia da mente.

O aspecto mais inquietante destas narrativas é a normalidade com que ela ocorre. As cidades continuam a funcionar, as pessoas continuam a caminhar pelas ruas, as conversas continuam a acontecer. O que desaparece é apenas a consciência individual.

Estas histórias pertencem ao imaginário da ficção científica, mas a ideia que exploram é profundamente humana: a tensão entre individualidade e colectividade.

A pergunta que atravessa todas estas narrativas é simples e perturbadora ao mesmo tempo:

o que acontece quando muitos corpos começam a pensar como se fossem apenas um?

Capítulo II

O momento em que todos desejam o mesmo

Se nas histórias de ficção científica a mente colectiva surge através de um organismo alienígena, no mundo real ela manifesta-se de forma muito mais subtil.

Ninguém nos controla directamente. Não existe uma entidade central que governe os nossos pensamentos. Ainda assim, de tempos a tempos, ocorre um fenómeno curioso: milhares de pessoas passam a desejar exactamente o mesmo objecto.

Na relojoaria contemporânea, poucos episódios ilustram melhor este fenómeno do que o lançamento do Omega x Swatch MoonSwatch.

Omega x Swatch MoonSwatch

Quando o relógio foi apresentado em 2022, formaram-se filas inesperadas em frente às lojas Swatch em várias cidades do mundo. Pessoas aguardaram durante horas — por vezes durante a noite — para adquirir um objecto cujo preço e disponibilidade não justificariam, à partida, tal mobilização.

O mais interessante não foi o sucesso comercial do relógio. Foi a sincronização do desejo.

Indivíduos que nunca se tinham encontrado, em cidades diferentes e culturas distintas, comportaram-se de forma extraordinariamente semelhante. A decisão de comprar parecia simultaneamente pessoal e colectiva.

O mesmo fenómeno ocorre, de forma ainda mais duradoura, em torno da Rolex. Certos modelos tornaram-se objectos de desejo global. A procura ultrapassa largamente a oferta, o que cria listas de espera e mercados paralelos.

Em teoria, cada comprador faz a sua própria escolha. Na prática, o comportamento do mercado revela uma forte convergência.

Tal como nas histórias de ficção científica, os corpos permanecem individuais. Cada pessoa acredita agir segundo o seu próprio gosto. Contudo, quando observados em conjunto, os comportamentos revelam um padrão colectivo surpreendentemente uniforme.

Não é necessário um organismo alienígena para criar uma mente colectiva.Às vezes basta o desejo partilhado.

Capítulo III

A formação da mente colectiva

Nas narrativas de ficção científica, a transformação ocorre de forma abrupta. Num determinado momento, a consciência individual desaparece e os indivíduos passam a agir como partes de um único organismo. O processo é dramático, visível e irreversível.

Na realidade, os mecanismos que produzem comportamentos colectivos são muito mais discretos.

O desejo partilhado raramente nasce de uma única fonte. Forma-se através de uma rede de influências que se reforçam mutuamente: imprensa especializada, redes sociais, coleccionadores, celebridades, fóruns e mercados secundários. Cada elemento amplifica o anterior, até que uma preferência individual começa a adquirir a força de um consenso.

A relojoaria contemporânea fornece inúmeros exemplos deste fenómeno. Um modelo específico surge, é discutido, fotografado, partilhado e comentado. Em pouco tempo, o objecto passa a ocupar um lugar central na conversa colectiva. Aquilo que inicialmente poderia ter sido apenas uma escolha pessoal transforma-se numa referência comum.

Neste momento ocorre uma mudança subtil. O valor do objecto deixa de depender apenas das suas qualidades técnicas ou estéticas. Passa a depender também da percepção colectiva de que ele é desejável.

O objecto torna-se um sinal.

Possuir determinado relógio deixa de significar apenas apreciar um mecanismo ou uma forma. Significa participar numa narrativa partilhada por milhares de pessoas que reconhecem o mesmo símbolo.

Este processo não é exclusivo da relojoaria. Manifesta-se em inúmeros domínios culturais. Contudo, no mundo dos relógios mecânicos, a dinâmica torna-se particularmente visível porque a produção é limitada e o mercado secundário reage rapidamente às flutuações do desejo colectivo.

De certa forma, o mercado começa a comportar-se como um organismo.

As decisões individuais continuam a existir, mas a direcção geral do movimento já não depende de nenhuma delas isoladamente. Surge uma lógica emergente, difícil de localizar, mas claramente perceptível quando observada à escala global.

É neste ponto que a metáfora da mente colectiva deixa de parecer apenas um recurso narrativo da ficção científica e começa a revelar algo sobre a forma como as preferências humanas se organizam em sociedade.

Capítulo IV

A resistência da individualidade

Se as histórias sobre mentes colectivas têm sempre protagonistas que resistem à assimilação, o mesmo acontece no mundo da relojoaria.

Filme The Thing

Para além dos exemplos anteriores, este padrão repete-se em muitas outras obras de ficção científica. Em Star Trek: The Next Generation, por exemplo, os Borg representam uma civilização totalmente colectiva, contra a qual alguns indivíduos lutam para preservar a autonomia da mente. Em The Thing, um organismo alienígena assimila e imita os humanos, deixando um pequeno grupo de sobreviventes incapaz de saber quem permanece humano. Já em The Matrix, a humanidade vive aprisionada num sistema controlado por máquinas, enquanto um grupo reduzido de pessoas despertas tenta resistir ao domínio da inteligência central.

Cena de The Matrix: Neo confronta uma máquina no mundo real, após descobrir que a humanidade vive inconsciente dentro da simulação da Matrix, enquanto os corpos humanos são mantidos em vastos campos de cultivo e utilizados como fonte de energia pelas máquinas.

Em todas estas histórias repete-se a mesma estrutura narrativa: um sistema que tende para a uniformidade total e um pequeno número de indivíduos que preserva a consciência própria — e, com ela, a possibilidade de escolha.

São personagens que continuam a pensar por si próprios enquanto o resto da sociedade passa a agir de forma uniforme. Na relojoaria, a figura que mais se aproxima dessa posição é a do relojoeiro independente.

Ao contrário das grandes estruturas industriais, onde as decisões estéticas e técnicas resultam frequentemente de processos colectivos — equipas de marketing, estudos de mercado, tendências dominantes — o independente trabalha muitas vezes a partir de uma visão pessoal.

Um relógio concebido por um autor apresenta frequentemente sinais dessa singularidade: escolhas técnicas pouco comuns, acabamentos executados manualmente, proporções que não obedecem necessariamente às tendências dominantes do mercado.

A obra torna-se reconhecível.

Seconde Vive de Dann Phimphrachanh

Entre os exemplos frequentemente citados neste universo mais reduzido encontram-se relojoeiros como Masahiro Kikuno, Dann Phimphrachanh ou Rexhep Rexhepi. Em produções extremamente limitadas, o relógio deixa de ser apenas um objecto industrial e torna-se a expressão directa de uma visão técnica e estética muito pessoal, onde cada decisão construtiva reflecte a identidade do seu autor.

Este tipo de singularidade é raro, precisamente porque o mercado tende a favorecer aquilo que já demonstrou ser desejável. O sucesso comercial cria imitação; a imitação cria tendência; a tendência reforça o comportamento colectivo.

O independente ocupa, portanto, uma posição paradoxal. Por um lado, representa a possibilidade de uma voz individual num sistema dominado por forças colectivas. Por outro, quando essa voz se torna suficientemente influente, o próprio mercado pode acabar por assimilá-la.

Uma inovação estética ou técnica pode transformar-se rapidamente numa nova norma.

Tal como nas histórias de ficção científica, a resistência individual nunca é definitiva. É apenas um momento de equilíbrio instável entre a singularidade de um autor e a poderosa tendência da colectividade para uniformizar aquilo que admira.

Capítulo V

O paradoxo do coleccionador

O coleccionador de relógios acredita, quase sempre, estar a fazer escolhas profundamente pessoais. Um determinado modelo pode recordar uma história, uma estética específica ou uma afinidade com um determinado tipo de mecânica. O gesto de adquirir um relógio surge, muitas vezes, como uma afirmação de individualidade.

Contudo, quando se observa o fenómeno do coleccionismo à distância, emerge um paradoxo curioso.

Muitos coleccionadores diferentes acabam por desejar exactamente os mesmos relógios.

Modelos específicos tornam-se objectos de referência partilhados. Um determinado cronógrafo, um desportivo em aço ou uma complicação particular começam a aparecer repetidamente em colecções distintas, espalhadas por diferentes países e culturas. Aquilo que parecia ser uma escolha individual revela-se, na verdade, parte de um padrão colectivo.

O fenómeno recorda, de forma subtil, as narrativas de ficção científica que serviram de ponto de partida para esta reflexão — o episódio Auto Erotic Assimilation de Rick and Morty, a série Pluribus ou o filme Invasion of the Body Snatchers.

Em todas essas histórias, os indivíduos continuam a acreditar que são distintos, mesmo quando já pertencem a um sistema maior.

O coleccionador ocupa exactamente esse espaço paradoxal: procura distinguir-se através de objectos que muitos outros desejam exactamente da mesma forma.

Capítulo VI

Quando a mente colectiva cria valor

Se o desejo colectivo molda preferências, ele também molda valor.

Na relojoaria contemporânea, o valor de um relógio raramente depende apenas das suas qualidades técnicas. Elementos como o acabamento, a complexidade mecânica ou a história da manufactura continuam a ser importantes, mas não explicam, por si só, as grandes diferenças de valorização entre modelos.

Existe um outro factor decisivo: a intensidade do desejo colectivo.

Quando um número suficientemente grande de pessoas passa a desejar o mesmo objecto, o mercado reage de forma quase orgânica. A procura aumenta, a oferta torna-se insuficiente e o valor do relógio transforma-se.

Este mecanismo tornou-se particularmente visível nos últimos anos. Certos modelos atingem preços inesperados no mercado secundário, enquanto outros — tecnicamente semelhantes — permanecem relativamente estáveis.

O valor deixa então de ser apenas uma propriedade do objecto. Passa a ser uma propriedade da percepção colectiva.

A mente colectiva passa a determinar o que tem valor.

Capítulo VII

Porque desejamos aquilo que todos desejam

O desejo raramente nasce isoladamente.

Grande parte das nossas preferências forma-se através da observação. Vemos o que outros apreciam, discutem ou procuram. Aos poucos, essas referências tornam-se familiares, depois desejáveis, e finalmente quase inevitáveis.

Este processo é tão comum que muitas vezes passa despercebido.

Uma fotografia partilhada, um artigo elogioso, um comentário num fórum ou uma aparição inesperada num pulso influente podem contribuir para criar uma narrativa colectiva em torno de um determinado relógio. A repetição dessas referências cria uma sensação de consenso.

Aquilo que inicialmente era apenas um objecto entre muitos transforma-se, pouco a pouco, numa referência central.

Este fenómeno não implica necessariamente manipulação ou estratégia deliberada.

Muitas vezes trata-se apenas da dinâmica natural das preferências humanas. Afinal, somos animais de manada, raramente lobos solitários. Ao longo da história, as nossas escolhas foram quase sempre influenciadas pelo grupo a que pertencemos — pela tribo, pela comunidade, pelo círculo social. Aquilo que os outros valorizam tende a adquirir valor também para nós.

Este mecanismo não implica falta de personalidade. Pelo contrário, faz parte da forma como os seres humanos aprendem e tomam decisões. Observar o comportamento dos outros permite reduzir o risco: se muitas pessoas escolhem o mesmo objecto, o mesmo estilo ou a mesma marca, a probabilidade de essa escolha ser considerada acertada parece aumentar.

Na relojoaria, como em muitos outros domínios, este fenómeno manifesta-se de forma particularmente visível. Certos modelos tornam-se objectos de desejo colectivo, não apenas pelas suas qualidades técnicas ou estéticas, mas também porque passam a simbolizar pertença a um determinado grupo de apreciadores. A preferência individual acaba assim por se formar num território intermédio entre o gosto pessoal e a influência subtil da comunidade.

Capítulo VIII

O último indivíduo

Todas as histórias sobre mentes colectivas incluem, quase inevitavelmente, uma figura solitária: o indivíduo que permanece consciente quando todos os outros já foram assimilados.

É a personagem que continua a pensar de forma autónoma enquanto o resto da sociedade se move em perfeita sincronização.

Cena da série Star Trek: Voyager, episódio “Scorpion, Part I” (Temporada 3, episódio 26, 1997), em que a tripulação da USS Voyager entra em contacto directo com o Colectivo Borg no espaço dominado pela espécie.

Para além das referências já mencionadas, a mesma ideia aparece noutras obras centradas numa consciência colectiva que domina ou assimila corpos individuais. Na série Star Trek: Voyager, a tripulação confronta repetidamente os Borg, uma civilização organizada como uma única mente distribuída por milhares de corpos. No filme The Faculty, uma entidade alienígena assume o controlo das pessoas de uma escola, criando uma rede de hospedeiros subordinados a uma única inteligência. E na série Falling Skies, a humanidade enfrenta invasores que controlam os corpos humanos através de dispositivos implantados.

Cena da série de ficção científica Falling Skies (TNT, 2011–2015), em que os alienígenas controlam humanos através do dispositivo biológico harness, através da ligação do sistema nervoso das vítimas a uma rede de comando hierárquica — uma forma de consciência colectiva imposta.

Em todos estes casos reaparece a mesma estrutura narrativa: uma consciência central que se multiplica através de muitos corpos e um pequeno número de indivíduos que permanece fora desse sistema. Na relojoaria, essa posição existe também. Pertence àqueles que escolhem um relógio não porque ele se tornou desejado, mas porque corresponde a uma afinidade pessoal com uma determinada estética, mecânica ou história. São escolhas que não procuram necessariamente reconhecimento colectivo.

Este tipo de decisão é raro precisamente porque o contexto cultural favorece a convergência. O mercado amplifica tendências, o sucesso cria imitação e a repetição reforça a preferência colectiva.

Manter uma escolha verdadeiramente individual exige, por vezes, um pequeno gesto de resistência.

A ambivalência entre a perda de individualidade que resulta de pertencer ao grupo e a angústia de ser afastado dele gera tensão suficiente para tornar o tema do controlo global um dos mais persistentes do cinema — e talvez também um dos motores do coleccionismo na relojoaria.

Gilles Deleuze Filósofo Francês

A frase «Ce n’est pas l’identité qui explique la différence, c’est la différence qui explique l’identité.» (A identidade não explica a diferença; é a diferença que explica a identidade) — Gilles Deleuze, Différence et répétition. Propõe uma inversão subtil da forma habitual de pensar. Tendemos a acreditar que primeiro existe uma identidade — uma personalidade, um gosto, um estilo — e que as diferenças são apenas manifestações exteriores dessa identidade.

Deleuze sugere o contrário: é a diferença que produz a identidade.

Aplicado à relojoaria, isto significa que não é por sermos diferentes que escolhemos um relógio diferente. Muitas vezes acontece precisamente o inverso. É o encontro com um objecto singular — uma mecânica inesperada, uma estética pouco comum, um relógio que não segue as preferências dominantes — que acaba por nos colocar numa posição distinta.

Não é a identidade que gera a diferença do relógio. É o relógio diferente que, silenciosamente, nos torna diferentes.

A Prevalência Global da Homossexualidade: Uma Análise Baseada no Estudo Ipsos LGBT+ Pride 2023

A orientação sexual não será a mais central das propriedades humanas, mas é certamente um aspecto fundamental da identidade, influenciando como as pessoas se relacionam consigo mesmas e com o mundo ao seu redor. Num planeta com mais de oito mil milhões de habitantes, entender quantas pessoas se identificam como homossexuais – atraídas romanticamente e sexualmente por indivíduos do mesmo sexo – oferece informação valiosa sobre a diversidade. Mas estimar essa prevalência de forma precisa é desafiador, perante factores como estigma social, diferenças culturais e variações metodológicas em sondagens e investigações. Neste breve ensaio, exploraremos dados estatísticos globais sobre a homossexualidade, com foco principal no estudo mais definitivo e recente sobre o tema: o Ipsos LGBT+ Pride 2023 Global Survey. Essa sondagem, realizada pela reputada empresa de pesquisa de mercado Ipsos, abrange 30 países e mais de 22 mil adultos, fornecendo uma visão abrangente e actualizada.

Como em tantos outros capítulos da recepção contemporânea de dados demográficos precisos, os resultados irão surpreender muita gente. O estudo revela números que, em média, apenas cerca de 3%-5% da população adulta global se identifica exclusivamente como lésbica ou gay, o que representa uma divergência da heterossexualidade – considerada a orientação sexual padrão na gigantesca maioria das sociedades – que não ultrapassa significativamente os 9%, quando se têm em conta outras identificações concomitantes como a bisexualidade — e nesse ramo podem muitas vezes incluirem-se apenas experiências esporádicas divergentes da norma. Esta estimativa sugere uma consistência notável do número através de várias sociedades e épocas, independentemente de pressões culturais ou sociais, embora possa ser influenciada pontualmente por modas ou maior abertura em certas gerações e contextos. Ao longo deste ensaio, apresentaremos os dados do estudo, discutiremos variações demográficas e geográficas, e analisaremos implicações sociais, sempre em linguagem acessível para o público em geral. O objetivo é desmistificar ideias feitas e promover uma compreensão baseada em evidências, destacando que a homossexualidade é uma variação natural, mas muito minoritária, da experiência humana.

Metodologia do Estudo Ipsos LGBT+ Pride 2023

Para compreender os dados, é essencial conhecer primeiro como eles foram recolhidos. O Ipsos LGBT+ Pride 2023 Global Survey foi conduzido entre 17 de fevereiro e 3 de março de 2023, utilizando a plataforma online Global Advisor da Ipsos. A amostra incluiu 22.514 adultos com idades entre 16 e 74 anos, distribuídos por 30 países de todos os continentes, como Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Índia, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Turquia, entre outros. Em cada país, foram entrevistadas entre 500 e 1.000 pessoas, com pesos demográficos aplicados para refletir a composição da população em termos de idade, género e região.

A sondagem perguntou diretamente aos participantes sobre sua orientação sexual, oferecendo opções como heterossexual, lésbica/gay/homossexual, bissexual, pansexual/omnisexual, assexual, ou outra. Também indagou sobre identidade de género, como transgénero ou não binário. Essa abordagem auto-identificatória é crucial, pois captura como as pessoas se vêem, em vez de apenas comportamentos observados. No entanto, o estudo reconhece limitações: em países como Brasil, China e Índia, as amostras online tendem a ser mais urbanas, educadas e conectadas, o que pode subestimar ou sobrestimar certas identidades em populações rurais ou menos digitais. Além disso, o estigma em regiões conservadoras pode levar a subnotificações, sugerindo que os números reais possam ser ligeiramente superiores. Apesar disso, a consistência dos resultados com estudos anteriores valida o seu carácter robusto.

Estimativas Globais de Orientação Sexual

De acordo com o estudo, em média, 80% dos adultos globais identificam-se como heterossexuais, confirmando a heterossexualidade como a orientação predominante. Entre as minorias sexuais, 3% declaram-se lésbicas ou gays – especificamente, 4% dos homens e 1% das mulheres. Essa discrepância de género é comum em pesquisas semelhantes, talvez devido a maiores pressões sociais sobre mulheres em algumas sociedades para se conformarem à heteronormatividade. Incluindo bissexuais (4%), pansexuais/omnisexuais (1%) e assexuais (1%), o total de identidades LGBT+ chega a 9% em média global.

Focando na homossexualidade estrita (lésbica ou gay), os dados indicam que essa divergência da norma heterossexual não excede grandemente os 5% em nenhum contexto amplo. Por exemplo, mesmo nos países com as maiores taxas, como Espanha (6% gay/lésbica), a percentagem permanece baixa. Isso sugere ou pode sugerir uma base biológica ou inata para a orientação sexual, que resiste a variações extremas apesar de diferenças culturais. Em sociedades onde a homossexualidade é criminalizada, como em partes do Oriente Médio ou África (embora não directamente cobertas pelo estudo), relatos anedóticos e sondagens limitadas corroboram taxas semelhantes, reforçando que pressões sociais não eliminam ou inflacionam drasticamente essa minoria.

No entanto, o estudo destaca que modas e tendências culturais podem afetar a identificação pontualmente. Por exemplo, o aumento na visibilidade de identidades LGBT+ nos últimos anos – com 47% dos respondentes declarando que conhecem alguém gay ou lésbica, um aumento de 5 pontos percentuais desde 2021 – pode encorajar mais pessoas a declararem-se abertamente. Isso é particularmente evidente em contextos mediáticos, onde representações positivas em filmes, séries e redes sociais podem normalizar e até popularizar certas identidades entre jovens.

Variações por Geração e Demografia

Uma das descobertas mais intrigantes mas não propriamente surpreendentes do estudo é a variação geracional. Entre a Geração Z (nascidos a partir de 1997), 18% identificam-se como LGBT+, comparado a 10% dos Millennials (1981-1996), 6% da Geração X (1965-1980) e apenas 4% dos Baby Boomers (1948-1964). Para homossexualidade, especificamente, os jovens são mais propensos a identificar-se como gays ou lésbicas, mas o aumento é mais pronunciado em categorias como bissexual (duas vezes mais comum na Gen Z que nos Millennials) e pansexual.

Essa tendência sugere que, enquanto a homossexualidade estrita permanece em torno de 3-5% através de gerações, identidades mais fluidas podem ser influenciadas por modas culturais. Numa era de maior aceitação e discussão sobre sexualidade nas redes sociais, os jovens podem explorar e adoptar rótulos que reflectem experimentação ou fluidez, sem necessariamente alterar a base da orientação. No entanto, independentemente dessas modas, a divergência total da heterossexualidade não ultrapassa os 5% para homossexualidade pura, indicando uma estabilidade subjacente. Mulheres e jovens também mostram maior apoio a direitos LGBT+, com as mulheres a superar os homens em 10 pontos percentuais no apoio ao casamento igualitário.

Demograficamente, encontramos diferenças de género: homens são quatro vezes mais propensos a se identificarem como gays que mulheres como lésbicas. Isso pode refletir estigmas culturais que tornam mais difícil para mulheres admitirem atração pelo mesmo sexo, ou diferenças biológicas que não estamos equipados para abordar no presente comentário. Educação e urbanidade também têm papéis relevantes, com amostras mais ligadas à vida urbana mostrando taxas ligeiramente maiores.

Variações Geográficas e Influências Culturais

O estudo revela variações significativas por país, mas reforça a ideia de que a homossexualidade não varia drasticamente além dos 5%. No Brasil, a taxa LGBT+ é a mais alta (15%), impulsionada por 7% de bissexuais — novamente uma categoria que mereceria mais estudo, nomeadamente para saber se, depois de uma fase experimental, acaba por resvalar para uma sexualidade unipolar, e em que sentido — mas apenas 4% de gays/lésbicas. Em contraste, no Peru, é de 4% no total, com menos de 1% gay/lésbica. Países europeus como Espanha (14% LGBT+, 6% gay/lésbica) e Suíça (13%) mostram taxas mais altas, enquanto Ásia Oriental, como Japão e Coreia do Sul (4-5%), têm as mais baixas.

Essas diferenças destacam certamente influências culturais: em sociedades mais liberais, como Tailândia e América Latina, a visibilidade é maior (por exemplo, 47% das pessoas conhecem alguém gay), facilitando identificações abertas. Em regiões conservadoras, como Europa Oriental ou Turquia, o estigma reduz relatos mas não elimina a presença. Apesar disso, a média global de 3% para homossexualidade sugere que pressões sociais não alteram a prevalência inerente, apenas afectam a expressão. Modas globais como o movimento Pride e campanhas de conscientização podem pontualmente elevar números em países ocidentais, apesar de o estudo mostrar declínios no apoio ao casamento igualitário em alguns lugares desde 2021, com flutuações.

Aceitação Social e Implicações

Além das estimativas, o estudo explora a aceitação: 56% apoiam o casamento igualitário globalmente, com 72% favoráveis a algum reconhecimento legal. Para transgéneros, 76% apoiam proteção contra discriminação no emprego e moradia. No entanto, em questões como acesso a instalações de género ou cobertura orçamental pública para a transição, as opiniões dividem-se, com maior apoio entre jovens e mulheres. Isso reflete que, enquanto a homossexualidade é cada vez mais aceite, outros debates culturais persistem.

Independentemente de contextos, os dados indicam que a divergência da heterossexualidade permanece minoritária. Modas, como maior visibilidade mediática, podem afetar identificações entre jovens, mas não alteram a essência demográfica. Se por um lado pode dizer-se que isso promove aceitação social, já que entender que 3% a 5% da população – cerca de 240 milhões de pessoas – vive essa realidade incentiva sociedades mais inclusivas, por outro lado dá um banho de realidade em pessoas que alimentem um sonho igualitário e equitativo a respeito de orientações sexuais: a homosexualidade é muitíssimo mais minoritária que a heteresexualidade, que, ao que tudo indica, é largamente o padrão na espécie humana.

Por Fim

O Ipsos LGBT+ Pride 2023 Global Survey oferece uma imagem clara sobre a prevalência global da homossexualidade, confirmando que cerca de 3% a 5% dos adultos se identificam como gays ou lésbicas, uma minoria consistente que, cumulativa ou concomitantemente com outras identificações, não ultrapassa grandemente os 5%-9%, apesar de variações culturais. Factores como gerações mais jovens e modas sociais podem influenciar relatórios, mas a base parece inata e estável. Para o público em geral, esses dados desconstroem estereótipos, promovendo não apenas respeito pela diversidade mas também e principalmente a consciência de que se trata de uma minoria de muito pouca importância numericamente. Num mundo em mudança, estudos como este lembram que a humanidade é rica em variações, unida em sua essência compartilhada, mas onde grupos estatisticamente reduzidos podem adquirir uma importância desmedida, seja pela via da sua demonização ou pela via da sua idolatria cega, em ambos os casos por motivos políticos ou religiosos complexos. Ao abraçarmos estas evidências numéricas, podemos categorizar correctamente estas propriedades do ser humano e construir sociedades onde todos, independentemente de orientação, podem prosperar na sua devida medida e direito, e não como instrumentos para fins terceiros.

Contos engraçados de Marcos Mendes, Cidadão da Lisboa de Quinhentos

Contos engraçados de um Cidadão da Lisboa de Quinhentos, chamado Marcos Mendes, sobre o seu quotidiano e conversas com outrem. 

[I] Este Marcos Mendes dizem que, indo uma madrugada para uma quinta sua, viu cousa que o assombrou e endoideceu. E daí a pouco tempo, alugando umas casas suas a um homem, disse a mulher de Marcos Mendes ao que lhas alugara que seu marido não sabia o que fazia, que ela achavaquem lhe dava mais dinheiro pelas casas. E o homem indo-se a Marcos Mendes com aquela queixa, disse-lhe ele:

 – A minha mulher, com esta minha doença, nasceu-lhe um esporão e cuida que é galo. Mas não vos agasteis, que eu vos faço boas as casas [alugo-as a bom preço -trocadilho com o facto de Marcos não estar bom de saúde, mas as casas estarão].

[II] Entrando uma vez na Casa da Índia e começando a apanhar da terra, perguntou-lhe um Oficial daí para que a queria. E ele respondeu-lhe:

 – Para ir fazer uma quinta em Alvalade.

E isto disseporque muitos da Casa tinham lá quintas.

[III] Chegando-se uma vez Marcos Mendes ao Cais da Pedra, começou a bradar rijo depressa, dizendo:

 – Nada, homem, nada!

E, acudindo muita gente a ver, cuidando que se afogava alguém, disse-lhe Marcos Mendes:

 – Homens, que quereis?Eu não disse que não era nada?

[IV] Vendo um homem a Marcos Mendes em uma Rua estar olhando para umas casas muito formosas muito pronto [atento], as quais um Alcaide ali fizera, perguntou-lhe que fazia. E Marcos Mendes respondeu:

 – Estou vendo estas casas, que, sendocomeçadas por depois do sino, se acabaram tão depressa [isto é, os Alcaides cobravam multas às pessoas que encontravam na Rua depois de corrido o sino de recolha – ele está a insinuar que as casas começadas com dinheiro cobrado por se andar tarde, se acabaram cedo][V] Andando em Lisboa um Judeu chamado Abraão Benzemerro, a quem El-Rei D. João III, por ser mercador mui rico e discreto, deu licença que andasse sem sinal [as Ordenações obrigavam os Judeus a andar com uma estrela vermelha de seis pontas no traje], disse-lhe um dia MarcosMendes que tinha necessidade de algumas cousas de África para uma filha que queria casar; se lhas queria mandar trazer. E o Judeu respondeu-lhe que sim. Depois de ambos acordados na sorte e nos preços, foram-se ao Paço dos Tabeliães e mandaram fazer uma escritura pela qualse obrigaram um a mandar trazer as cousas e o outro a mandar pagar a quantia delas. E, depois que ambos assinaram e as testemunhas nela nomeadas, disse Marcos Mendes ao Judeu:

 – Se tu dás crédito a esta escritura que aqui temos feita, no princípio da qual dizemos que foiescrita aos tantos anos andados do Nascimento de Jesus Cristo, porque não crês Nele? E se não crês Nele, como posso ficar eu seguro que me cumprirás o a que nela te obrigas? Pois ele é o que aqui faz mais força na verdade desta escritura!

[VI] Um Oficial de El-Rei queentrou no Ofício pobre, depois que o serviu alguns anos, fez uma quinta. E Marcos Mendes, passando por junto dela, começou a bradar rijo:

 – Aqui d’El-Rei!

E, acudindo-lhe gente que lhe perguntou que lhe queria, respondeu:

 – Quero que prendam este homem porque, escondendoos outros ladrões os seus furtos, põe este os seus na estrada.

[VII] Estava um Cristão-novo comprando berbigões e Marcos Mendes chegou-se a eles e perguntou-lhe como os abria; e ele respondeu-lhe que abria um com o outro. Disse-lhe o Mendes:

 – Bri, bri [pronúncia populardo berbigão na época, “bribigão”]… Assim Brivia [Bíblia] de baixo e Testamento Novo de cima, abri um com o outro [alusão ao criptojudaísmo: por cima uma coisa, por baixo outra].

[VIII] Um Escrivão dos Contos [contabilidade] de Lisboa, à sombra do Ofício, comprava tudobarato às pessoas que de seus tratos e Ofícios pagavam sisa [±o atual IVA] a rendeiros, por que os favorecesse com eles. E Marcos Mendes perguntando-lhe se lhe queria vender o Ofício, o Escrivão respondeu-lhe que sim, se o Contador-mor o houvesse por bem. Começou MarcosMendes a ir com ele, fingindo que ia saber do Contador-mor se daria licença, e, detendo-se, disse-lhe se sabia ele que Ofício era o que lhe comprava; e o Escrivão respondeu-lhe que ele não tinha nem vendia outro Ofício senão o de Escrivão dos Contos. Disse-lhe MarcosMendes:

 – Não, eu compro-vos o Ofício de não pagardes, que por essoutro não vos darei um ceitil [moeda].

[IX] Vindo Marcos Mendes um dia de Belém, viu passar um Cristão-novo sobre uma mula e um Clérigo nas ancas [atrás]. E, fingindo que lhes queria dizer alguma cousaimportante, disse-lhes que se apeassem para um negócio muito grande. E, depois que ambos se desceram, disse-lhes:

 – Ora tornai a subir, mas mudai-vos, porque a Lei Velha [Antigo Testamento] há-de ir atrás e a Lei da Graça [Novo Testamento, não reconhecido pelos Judeus]há-de ir diante.

[X] Trazendo ele dó por sua mulher, viu a um Cristão-novo com um vestido muito loução; e pondo-se a olhá-lo, perguntou-lhe o outro que olhava. E Marcos Mendes respondeu-lhe:

 – Olho que trazemos os vestidos trocados, porque esses golpes e galantarias sãode meus avós, e estas choças [trapos pobres] dos vossos.

[XI] Correndo Marcos Mendes uma Quinta-feira de Endoenças as Igrejas e topando uns poucos de Cristãos-novos que conhecia, perguntou-lhes aonde iam e eles [disseram] que corriam as Igrejas. Disse-lhes Marcos Mendes:- Mas parece-me que lhe ides correr a folha [requerer certidão de serviços prestados – na ideia que ele achava que os Cristãos-novos visitavam as Igrejas para exibirem provas do seu Catolicismo].

[XII] Passando Marcos Mendes por S. Nicolau, viu um ajuntamento de odreiros[produtores de odres] em debate com um Almotacé [homem responsável pela fiscalização dos preços], que era filho de um Castelhano confesso [Judeu Castelhano] e lhes pusera certa pena se não fizessem todos os odres de um tamanho. E disse Marcos Mendes ao Almotacé:

 – Senhor,não tendes razão. Se todos os bodes [referência à sua origem Judaica] fossem de um tamanho, então seria justo que se fizessem os odres de um tamanho; mas se uns bodes são grandes e outros pequenos, como se pode fazer isso que vós mandais?

[XIII] Pousando um Cristão-novojunto dele, trazia uns poucos de patos em um quintal, que com seu grasnar lhe davam moléstia, e ele mandou-o citar. E, indo ambos à audiência [Tribunal], disse Marcos Mendes ao Juíz que mandasse a aquele homem que tirasse uns porcos que trazia num quintal, porque lhe faziammá vizinhança. Respondeu a isto o réu que ele não trazia porcos, senão não sei quantos patos. Disse Marcos Mendes:

 – Pois esses patos, que são os vossos porcos, peço eu ao Senhor Juíz que vos mande que os não tragais aí, porque me não deixam dormir de noite [Judeus nãocomiam carne; o sentido do dito é, pois, chamar o vizinho de Judeu – além disso, o estratagema de Marcos Mendes ao chamar os patos de porcos, porque as Posturas Municipais proibiam os porcos dentro da cidade, embora se podesse ter patos].

Recycling Is Garbage: An Exhaustive Re-Examination of John Tierney’s 1996 New York Times Masterpiece

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When John Tierney’s sprawling cover story “Recycling Is Garbage” appeared in the New York Times Magazine on June 30, 1996, it landed like a grenade in the midst of America’s burgeoning environmental consciousness. At nearly 7,000 words itself, the piece was a meticulously researched, economically rigorous, and philosophically provocative assault on what had become, in less than a decade, one of the most cherished civic rituals of the late 20th century.

Tierney did not merely criticize recycling programs — he eviscerated them as economically ruinous, environmentally marginal at best, and culturally akin to a secular religion complete with guilt, atonement, and blind faith. The article did not deny that some materials, like aluminum, made sense to recycle. Instead, it argued that the blanket mandates, subsidized curbside collection, and moral hectoring surrounding most municipal programs turned a potentially useful tool into “the most wasteful activity in modern America: a waste of time and money, a waste of human and natural resources.”

To understand the article’s explosive impact, one must first recall the historical moment. The modern recycling movement exploded in the late 1980s, fueled by the infamous 1987 voyage of the Mobro 4000 garbage barge. Loaded with 3,168 tons of Long Island trash, the barge was refused entry at ports from North Carolina to Belize before limping back home. Media hysteria — Newsweek compared it to the sinking of the Lusitania — created the widespread (and false) perception of a national “landfill crisis.”

Politicians rushed to respond. The EPA under J. Winston Porter issued its famous “Waste Hierarchy” in 1988, placing recycling at the pinnacle, followed by composting, incineration, and landfilling as the absolute last resort. Porter later admitted the 25 percent national recycling goal he announced was essentially pulled out of thin air; his staff had pushed back against even that modest target. States competed with ever-more-ambitious mandates: 50 percent in New York and California, 60 percent in New Jersey, 70 percent in Rhode Island. By 1996, curbside programs had mushroomed from a handful to thousands, and the national recycling rate had climbed to roughly 25 percent. But at what cost?

Tierney’s piece arrived at the peak of this enthusiasm, when recycling had transcended policy and become a moral litmus test. Schoolchildren across the country were being taught the Three R’s (Reduce, Reuse, Recycle) with religious fervor. Corporations advertised their recycled-content packaging. Environmental groups celebrated every ton diverted from landfills as a victory for the planet. Into this milieu stepped Tierney, a science journalist with a libertarian streak and a gift for data-driven iconoclasm, to declare the emperor had no clothes — or at least no economically or environmentally justifiable ones.

The article’s structure was brilliant in its accessibility: it began with a vivid, almost heartbreaking anecdote of third-graders at Bridges Elementary School in Manhattan on a “litter hunt.” Dressed in plastic gloves, the children scoured the playground, collecting mostly napkins, gum wrappers, and half-used folders. Only two recyclable bottles emerged. The teacher, Linnette Aponte, asked how the pile made them feel. “Baaaad,” the class moaned in unison. One student, Lily Finn, solemnly declared: “People shouldn’t throw away paper or anything. They should recycle it. And they shouldn’t eat candy in school.”

Tierney used this scene to illustrate how recycling had been weaponized into early indoctrination, producing guilt without measurable environmental gain — the equipment for the hunt alone cost more and took up more landfill space than the recovered value.

From there, Tierney systematically dismantled the three pillars supporting the recycling orthodoxy: the supposed landfill crisis, the environmental superiority of recycling over landfilling or incineration, and the economic viability of mandatory programs. He traced the panic to overregulation that closed older, unlined dumps, creating temporary regional shortages rather than a national crisis. Modern lined landfills, he argued, were safe; the notorious Love Canal was an unregulated chemical dump, not typical municipal solid waste. Projecting forward with EPA data, he calculated that all of America’s garbage for the next 1,000 years would fit into a single landfill just 35 miles on each side and 100 yards deep — less than 0.1 percent of the nation’s grazing land and smaller than the land needed for solar power to meet national electricity demand.

Economically, the indictment was devastating. In New York City, the fledgling program was hemorrhaging $50–100 million annually. Collection costs ran $200 more per ton than regular garbage pickup; processors charged cities extra fees. Tierney’s now-famous household-cost calculation was merciless: a college student spending eight minutes a week sorting four pounds of recyclables at a $12 hourly opportunity cost generated a labor expense of $792 per ton. Factor in the “rent” value of kitchen counter or cabinet space for bins, and the total exceeded $3,000 per ton — enough to purchase a new Toyota Tercel.

Markets for recyclables were wildly volatile; newsprint had spiked briefly to $150 per ton before crashing. Studies from the Solid Waste Association of North America showed that most municipal programs actually increased total disposal costs. Even Seattle’s vaunted system saved a negligible 0.1 percent. European programs, particularly Germany’s Green Dot system, were even more distorted and expensive.

Tierney then dissected materials one by one with surgical precision. Aluminum was the undisputed champion — 95 percent energy savings, high scrap value. Steel and glass were marginal or worse; glass was heavy, broke machinery, and virgin sand was abundant. Paper recycling consumed vast amounts of water and produced lower-grade fiber; U.S. timber volume had tripled since 1920 anyway. Plastics were lightweight and efficient; their low market prices signaled low true environmental cost. He highlighted success stories of market-driven alternatives, such as Charles City County, Virginia, whose landfill accepted out-of-state trash and generated millions in revenue that funded schools, libraries, and tax cuts. Residents there welcomed the garbage: “They brought something to the party.”

Philosophically, Tierney saved his sharpest blade for last. Recycling, he argued, had become a “transcendental experience,” a “rite of atonement for the sin of excess,” more Puritan self-flagellation than rational policy. It served politicians seeking easy virtue signals, consultants peddling mandates, and environmental groups raising funds, while diverting attention from genuine problems like air and water pollution from actual industrial sources. Invoking Garrett Hardin’s Tragedy of the Commons, Tierney advocated market solutions: pay-as-you-throw (PAYT) variable-rate pricing, treating trash as private property, and recycling only when private markets justified it. He closed with a reference to John Bunyan’s Pilgrim’s Progress and the muckraker who could not lift his eyes from the filth because his heart was set on earthly things. Americans, Tierney urged, should focus on “substantial things” rather than symbolic sorting.

The piece instantly shattered the New York Times Magazine’s all-time record for hate mail. Environmentalists were apoplectic. Yet its arguments were not pulled from thin air; they drew on data from the EPA, industry studies, and economists. Nearly two decades later, Tierney revisited the topic in his October 3, 2015, New York Times Sunday Review piece “The Reign of Recycling” (sometimes referenced in subsequent discussions and reprints as the 2016 update). In it, he reflected on the 1996 article, noted that recycling rates had stagnated despite massive promotion, prices had plummeted further due to lower oil costs and reduced overseas demand (especially from China), and expanding programs to glass, food scraps, and mixed plastics was making costs soar while benefits shrank. He quoted Waste Management CEO David Steiner: “Trying to turn garbage into gold costs a lot more than expected. We need to ask ourselves: What is the goal here?” Tierney concluded that the future looked even worse, and the “religion” of recycling remained impervious to evidence. This follow-up reignited the same debates, proving the original article’s enduring power.

This expanded essay revisits Tierney’s original arguments in exhaustive detail, chronicles the unprecedented backlash and coordinated environmentalist counteroffensive, and conducts a comprehensive, data-driven fact-check incorporating post-2018 China National Sword policy shocks, AI and chemical recycling breakthroughs, and 2024–2026 EPA, Recycling Partnership, and EREF statistics. The conclusion assesses whether Tierney’s core thesis still holds in 2026.

The Arguments in “Recycling Is Garbage” – A Section-by-Section, Quote-Rich Dissection

Tierney’s opening anecdote of the Bridges Elementary litter hunt was not mere color; it was a microcosm of the national delusion. The children had been steeped in recycling propaganda through Scholastic magazines, garbage diaries, and Earth Day lessons. Their science teacher turned a simple playground cleanup into a moral exercise. When only two bottles were salvageable from a stinking pile of napkins and gum wrappers, the lesson reinforced guilt rather than critical thinking. “We have to help the earth,” one child explained earnestly. Tierney contrasted this with cold economics: the plastic gloves and bags used in the exercise exceeded the landfill impact of the recovered materials. This set the tone for the entire piece — good intentions producing perverse outcomes.

The historical narrative that followed was equally damning. Before 1987, recycling was a niche, profit-driven activity for high-value materials like newsprint and aluminum. Private markets handled it efficiently without mandates. The Mobro 4000 fiasco changed everything. Tierney detailed how the barge’s odyssey was not caused by a lack of landfill space but by regulatory overreach and NIMBYism that closed older dumps faster than new ones opened. The media frenzy created political pressure that the EPA dutifully amplified with its Waste Hierarchy and arbitrary 25 percent goal. States, fearing federal mandates or public backlash, rushed to legislate ever-higher targets. The result by 1996: thousands of new curbside programs, but most operating at massive losses.

New York City’s program served as Tierney’s primary case study. Collection costs alone were $200 per ton higher than garbage pickup. Processing fees added $40 or more. Annual losses: $50–100 million. He extrapolated nationally using Solid Waste Association data showing most cities increased total disposal costs through recycling. Seattle, frequently cited as a success, saved only 0.1 percent once all costs were tallied. Germany’s Green Dot program was a cautionary tale of over-collection leading to massive surpluses and market distortions.

Tierney’s household economics were groundbreaking in their bluntness. He calculated the opportunity cost of sorting time with precision: eight minutes weekly for four pounds at $12/hour labor value = $792/ton. Kitchen space “rent” (based on Manhattan real estate) pushed it over $3,000/ton. Letters to the editor later quibbled with the exact real-estate valuation (one suggested $1,500/ton total still made the point), but the broader insight held: Americans were subsidizing the system with unpaid labor and home space without realizing it.

The environmental section was perhaps most controversial. Tierney marshaled EPA and geological data to prove landfill abundance and safety. Modern landfills with liners and leachate collection systems bore little resemblance to the open dumps of the past. Love Canal was an outlier. No credible studies showed increased cancer rates near properly managed MSW landfills. Methane and leachate were manageable. The 1,000-year landfill projection — 35 square miles, 100 yards deep — was devastating to scarcity arguments. He noted that even if all U.S. garbage were landfilled forever, it would occupy a tiny fraction of available land.

Resource depletion myths were similarly demolished. U.S. forests had expanded dramatically; timber volume tripled since 1920 thanks to private forestry. Metals were cheaper and more abundant due to technological advances in mining. Plastics reduced overall resource use by being lighter and preventing spoilage. Paper recycling, while sometimes beneficial, required enormous water inputs (up to 5,000 extra gallons per ton of newsprint) and produced sludge.

Material-by-material analysis occupied the article’s core and remains its most cited section:

  • Aluminum cans: Unambiguous winner. Energy savings of 95 percent. High market value. Tierney endorsed recycling aluminum everywhere.
  • Steel: Marginal. Low prices often made collection uneconomic.
  • Glass: Frequently a net loss. Heavy transport costs, breakage in sorting, abundant virgin sand. Deposit-return systems helped in some states, but curbside glass often contaminated other streams.
  • Paper and newsprint: Water pollution from de-inking; lower-grade output. Forests were not disappearing.
  • Plastics: The most misunderstood. Low density meant less landfill volume. Virgin production was energy-efficient compared to alternatives. Mixed plastics had almost no market. Their low scrap prices reflected genuine low value.

Tierney celebrated market successes like Charles City County, Virginia. The rural landfill imported 4,000 tons daily from Northeast cities, generating $3 million annually — funding air-conditioned schools, computers, libraries, jobs, and tax reductions. Resident reactions were pragmatic: incoming trash was an economic boon. He contrasted this with loss-making programs in Minneapolis, Palm Beach, and Scottsdale.

Alternative policies received praise. PAYT systems, where households paid by the bag or pound, reduced waste generation 10–15 percent through price signals without coercion. Tierney argued this internalized costs far better than mandates.

The philosophical climax elevated the piece beyond policy critique. Recycling had become “a rite of atonement,” a “transcendental experience” for affluent Americans assuaging guilt over consumption. It benefited special interests while crowding out higher priorities. Tierney invoked the Tragedy of the Commons and called for privatization of trash decisions. The Bunyan reference sealed it: stop fixating on earthly muck; pursue substantial progress through markets and innovation.

In sum, Tierney’s argument was a tour de force of skepticism grounded in data, economics, and cultural observation. It remains a landmark.

The Polemic, Hate Mail Avalanche, and Coordinated Environmentalist Fury — Including Tierney’s 2015 Follow-Up

The backlash was immediate and unprecedented. The New York Times Magazine received more hate mail for “Recycling Is Garbage” than for any article in its history — thousands of letters, many vitriolic. Readers accused Tierney of corporate shilling, environmental treason, and cherry-picking. Published letters in subsequent issues (July–September 1996) ranged from defensive (Seattle residents insisting their program worked) to personal attacks. One letter conceded the kitchen-space math but called the tone “cynical.” Conservative outlets and think tanks (Cato Institute, Reason Foundation, Competitive Enterprise Institute) praised it as a definitive debunking, reprinting excerpts for years.

Environmental groups mobilized with unprecedented coordination. The Natural Resources Defense Council (NRDC) produced an 86-page rebuttal (circulated internally and excerpted publicly) accusing Tierney of “intellectually dishonest” advocacy, reliance on half-truths, and uncritical repetition of claims from industry-funded libertarian sources. NRDC scientist Allen Hershkowitz called it “an intellectually dishonest piece of advocacy.” The Environmental Defense Fund (EDF) published a detailed 17-page response in MIT Technology Review (October 1997) by Richard A. Denison and John F. Ruston titled “Recycling Is Not Garbage.” They argued Tierney ignored full lifecycle analyses showing net energy and pollution savings, dismissed startup costs of new programs as temporary, and overlooked job creation and public support. They highlighted curbside program growth from ~1,000 in 1988 to nearly 9,000 by 1996 as proof of momentum. The EDF piece accused Tierney of “tainted assumptions” and ignoring externalities of virgin production.

Trade journals and progressive writers echoed the outrage, labeling the piece “naive environmentalism in reverse” — a right-wing attempt to rollback gains. The controversy became a political Rorschach test: conservatives used it to oppose mandates; environmentalists saw it as an existential threat to the movement’s moral authority. Tierney later noted that recycling’s status as a personal “sacrament” explained the visceral reaction.

The debate simmered for nearly two decades until Tierney published his follow-up, “The Reign of Recycling,” on October 3, 2015 (frequently referenced in 2016 academic and policy discussions as the updated analysis). In it, he explicitly revisited the 1996 piece, noting that while the recycling message had reached more Americans than ever, “when it comes to the bottom line, both economically and environmentally, not much has changed at all.” Prices for recyclables had plummeted due to cheap oil and collapsing overseas demand. Recycling companies were shutting plants. The national rate had stagnated. Expanding to food scraps and mixed plastics raised costs sharply while benefits declined. He quoted Waste Management’s CEO David Steiner warning of a “crisis” in turning garbage into gold. Tierney concluded the future looked even worse, and that recycling remained a “goal in and of itself” impervious to evidence. The 2015 piece provoked nearly identical accusations of cynicism and corporate bias, proving the original argument’s staying power. It also prompted fresh rebuttals from groups like the Recycling Partnership, who acknowledged cost challenges but pointed to technological progress.

The polemic’s longevity underscores Tierney’s insight: recycling had become more than policy — it was identity. The furious reactions revealed more about ideological commitment than about data.

Rigorous Fact-Check Against 2026 Knowledge, Data, and Technologies—Does the Core Argument Hold?

Nearly 30 years and one major 2015 update later, Tierney’s claims hold up unevenly but remarkably well in key areas.

Landfill Capacity and Safety: Tierney was prescient. EPA data through 2023 (latest comprehensive) confirm abundant national capacity. No crisis materialized. Modern landfills with advanced liners, leachate systems, and methane capture are vastly safer. Methane remains a GHG concern (landfills contribute ~15–20 percent of U.S. methane emissions), but recycling diverts organics effectively. The 1,000-year landfill projection still holds. EREF’s 2024–2025 tipping-fee surveys show national averages of $62–$75 per ton (Northeast >$84), with private facilities higher — exactly the regional dynamics Tierney described. Rural host communities continue to benefit economically, as in Charles City County.

Economic Realities and Municipal Programs: Many critiques endure and have been reinforced. Programs often cost municipalities $50–$250 extra per ton versus landfilling, especially for glass and mixed plastics. The 2018 China National Sword policy (banning most contaminated imports) caused a 95 percent drop in U.S. exports, market crashes, program cutbacks, and a documented surge in plastic landfilling. The Recycling Partnership’s 2024 State of Recycling Report reveals only 21 percent of residential packaging is effectively recycled nationally; 76 percent is lost at the household level due to confusion, contamination, or lack of access — validating Tierney’s time-and-incentive arguments. EPA estimates $36–$43 billion in new infrastructure investment is still needed for higher rates. PAYT systems remain underutilized but proven effective. Tierney’s 2015 update correctly predicted stagnation and rising costs for expanded streams.

Environmental Lifecycle Benefits: Here Tierney underestimated. EPA’s 2018 (latest detailed) modeling credits recycling and composting with avoiding 193 million metric tons of CO₂-equivalent emissions — equivalent to removing tens of millions of cars. Aluminum still saves 95 percent energy; paper and steel deliver major extraction reductions. Plastics recycling rates remain low (~6–9 percent actual remanufacturing), confirming his skepticism. Avoided landfill methane and mining pollution provide net gains for high-volume streams when programs are efficient. However, for low-value materials, benefits can vanish or reverse.

Technological and Policy Revolution Since 1996 (and 2015): This is the biggest change Tierney could not fully anticipate. AI-powered optical sorters and robotics (AMP Robotics, Max-AI, ZenRobotics) achieve 95–99 percent accuracy, slashing contamination from 20 percent to under 5 percent and cutting labor costs dramatically. A single AI-equipped MRF can replace dozens of manual sorters. Chemical recycling (pyrolysis, depolymerization, enzymatic methods) is commercializing for mixed plastics, producing virgin-equivalent feedstock — addressing Tierney’s “impossible for plastics” critique. Single-stream collection plus extended producer responsibility (EPR) laws (now in 10+ states) shift costs to manufacturers. Post-China Sword, domestic MRF capacity has grown 30–40 percent. Deposit-return systems for bottles have boosted rates in states that use them. Organics diversion via composting and anaerobic digestion has added genuine GHG wins.

Material Updates in 2026:

  • Aluminum and cardboard: Strong wins.
  • Paper: Improved by AI but water issues persist.
  • Glass: Still problematic; cullet markets weak.
  • Plastics: Tierney largely validated for #3–7; #1 PET and #2 HDPE now benefit from advanced tech.
  • Food scraps: Composting growth has helped, but collection costs high.

International comparisons: EU nations reach 45–60 percent rates via strict EPR and PAYT but at higher taxpayer cost — echoing Tierney’s German warnings. Developing countries landfill more cheaply due to low labor costs.

Tierney’s 2015 follow-up was correct that expansion to complex streams was increasing net costs. Yet AI and chemical advances have begun to close the gap for some materials.

Conclusion: The Argument Endures—With Important Nuances

John Tierney’s 1996 masterpiece, reinforced by his 2015 “The Reign of Recycling” update, was a necessary corrective to uncritical zealotry. The landfill crisis was overhyped; blanket mandates often waste resources; household sorting remains largely symbolic with real opportunity costs; low-value streams (certain plastics, glass) frequently belong in landfills or waste-to-energy; markets outperform moral mandates; and recycling is no universal panacea. China Sword and persistent 76 percent household loss rates vindicate his warnings. The “rite of atonement” critique remains culturally astute.

Yet in 2026 the blanket condemnation does not fully hold. Lifecycle data, GHG accounting, and technological maturation demonstrate clear net benefits for key materials when programs are well-designed. AI/robotics and chemical recycling have transformed what is feasible. EPR and PAYT are aligning incentives. National rates have risen modestly to ~32–35 percent (including composting), creating jobs and avoiding massive emissions.

Tierney was right: judge recycling by rigorous cost-benefit analysis, not virtue signaling. Today’s pragmatic middle ground — aggressively expand high-value streams, invest in AI/chemical infrastructure, use market tools, landfill or incinerate the rest efficiently — honors his insight while embracing progress he helped provoke through debate.

The furious backlash of 1996 (and 2015) revealed ideological defensiveness more than flawless counter-data. The controversy Tierney ignited has ultimately sharpened policy, ensuring recycling serves genuine sustainability rather than symbolic atonement. In an era of AI sorters, chemical upcycling, and tightening carbon budgets, recycling is no longer purely “garbage” — but Tierney’s call for ruthless skepticism remains essential. Americans should continue sorting when it makes sense, but never stop asking Tierney’s fundamental question: At what cost, and to what real end?

Sobre o uso das cores no olhar quotidiano medieval, usando a vila de Guimarães

Baseando-me no artigo “Um esboço das cores da cidade, entre o público e o privado, na Idade Média” de Maria da Conceição Falcão, vou demonstrar o uso variado das cores no olhar quotidiano, usando a vila de Guimarães como um exemplo prático. Vamos analisar esta particularidade.

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Uma das primeiras questões que nos surge à tona é o nível da escuridão na vila. É certo que, em todo o caso, muitos seriam os tons de cinzentos que poderiam calcorrear a vila, nomeadamente no local das ferrarias. Havia em Guimarães uma Rua das Forjas, a 11/Jun/1322 [abaixo]…

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…Não devemos esquecer o Castelo, tendencialmente daquela cor, assim como as muralhas e as instituições concelhias – cinzento, preto, ornamentos em branco, tal como as fachadas de muitas das casas do povo. No entanto, esta é uma visão redutora, claro está. Os traços danatureza logo sobressair-se-iam como, datado de 24/Mai/1324, uma Rua do Gado [associado ao rosado dos porcos, ao vermelho da crista e barbelos do galo, ao eventual castanho dos bois], onde se cortava a carne e o peixe – temos, pois, mais uma exposição do vermelho, assim…

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…como é mencionado uma Fonte [azul cristalino da água], próxima ao rio “onde lavam as tripas”: mais vermelho e mais azul, em meio à vegetação que, certamente, seria mais verde que a nossa. Não nos esqueçamos do vinho das adegas e do azeite dos lagares – mais duas tonalidadesde cor. No interior do muro, uma Quinta dos Sapateiros [onde ficaria a Judiaria décadas mais tarde] era próxima a um poço – os sapatos podiam adotar tons de cor diversos. Esverdeado era certamente também o rio Merdeiro que, não obstante feio, seria malcheiroso, como o nome…

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…o infere. A 7/Jun/1301, no testamento da moradora Maria Martins, vemos a doação de uma sua saia negra. Também era negra uma Rua Escura [documentada para Guimarães em 3/Fev/1330], um local com fraca exposição à luz mas que tinha, segundo o documento o conta, casas de…

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…múltiplos andares: as casas-torre. Ora, se a Idade Média seria tendencialmente escura, por que razão nomear um local com expressa menção? Claramente dever-se-á ao facto de que, contrariamente à vária língua, o “completamente escuro” era esporádico. De facto, algumas são asprovas a respeito da luz, do amarelado, como as lâmpadas que alumiavam a capela do Abade de Tolões todo o dia e noite [12/18/1301]. O fogo – o laranja – também seria certamente frequente na Guimarães Medieval: vejam-se os fornos [como os do segundo documento, de 19/Jun/1329…

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…próximos à Porta da Freira, na cinta de muralhas da vila]. Ademais, após a destruição da vila na Guerra Civil de 1319-1324, esta ganhou uma artéria que se passou a chamar, ainda anos mais tarde, de Rua Queimada.

Há outras cores mais excêntricas. A 10/Fev/1345, um anel de…

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…rubi encastoado de ouro foi legado aos cónegos de Guimarães. Eram também vermelhos os tecidos anexos aos pergaminhos (tive a possibilidade de tocar em alguns na Torre do Tombo). No já mencionado testamento de Maria Martins, há também a doação de um pelote vermelho, de uma…

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…mala de brocado de ouro e carmesim; nas legações ao Abade de Tolões, também as roupagens das montarias eram vermelhas. O tom doirado [não se dizia amarelo] tem uma presença tão frequente na documentação que dispensa comentários. Mais torrado, eis o barro das olarias [queBraga documenta com uma Rua das Olarias]. A 9/Nov/1333, temos a informação de um tabardo [peça de roupa] verde jalne – amarelo-ouro -, além de um que repartido em duas cores: uma metade vermelha e uma metade roxa [gramelim]. Ademais, para a fisionomia dos vimaranenses,…

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…temos um Fernão Mendes Ruivo, datado em 9/Jun/1306. De facto, o homem tem a sua importância enquanto transmissor de cores: para este período, temos pelo menos quatro pintores em Guimarães – João Moniz, Domingos Durães, Martim Baião e Gonçalo Rodrigues.

A documentação,saliente-se, é muito matreira a respeito desta temática – as cores NÃO interessavam à exposição, num documento onde o espaço ter-se-ia de poupar. Mediante estas pistas estáticas, podemos claramente evidenciar a variedade existente na Idade Média que, aplicado a locais demuito maior dimensão, poder-se-ia ter acesso a documentos mais satisfatórios.

Edição: Março 2026

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Sôbolos rios: reabilitar o neo-realismo, mulheres na literatura, psicologia racional em Kant, women in the new deal and reaganomics, homofilia, substituição populacional, o guia para linguagem inclusiva, o embargo a Cuba, o tambor africano nas Américas, a sabedoria da vida, obras de Artur Durão, investigação ao milagre de Sta. Isabel, o assassinato do conde Andeiro, a teimosia em relojoaria, novidades na filosofia, Gilles Deleuze e Smile de Beach Boys.

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Funnies!

Dona Maria de Portugal, Infanta e 6.ª Duquesa de Viseu, nasceu em Lisboa a 18 de junho de 1521, filha de D. Manuel I e da sua terceira esposa, Leonor da Áustria. Órfã de pai ainda bebé, recebeu uma educação humanista refinada e viveu na corte portuguesa, onde se destacou pela cultura e seriedade. João de Barros elogiou-a como mulher culta e digna, semelhante à mãe, grande amante das artes. Nunca casou e tornou-se uma das mulheres mais ricas de Portugal após receber o ducado de Viseu do irmão D. João III.

O seu patronato das artes foi vasto e influente no Renascimento português. Encomendou obras de pintura e desenho, reuniu uma notável coleção de escultura e artes sumptuárias no seu “museolo” principesco, e apoiou a literatura, acolhendo poetas e intelectuais na sua corte. Protegeu figuras como Paula Vicente e possivelmente inspirou autores da época. O seu mecenato literário e artístico fez da sua residência um verdadeiro centro cultural.

Devota e caridosa, Dona Maria financiou ainda projetos arquitetónicos, como a construção da Igreja de Nossa Senhora da Luz, em Carnide, onde foi sepultada. Morreu em Lisboa a 10 de outubro de 1577, deixando um legado de generosidade artística que a historiografia recente tem vindo a destacar como um dos grandes mecenatos femininos do século XVI em Portugal.

 

Galeria: Obras de Artur Durão

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Licenciado em Artes Plásticas – Pintura – pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
PROJECTOS
ZOOM – ASSOCIAÇÃO CULTURAL:  2005 – 2014 – Presidente da Direcção e Fundador
Membro fundador do Grupo Producere

MARTE – Mostra de Artes Visuais do Agrupamento de Escolas Alcaides de Faria – Coordenador do projeto desde 2009.

http://martemostra.weebly.com/

http://marte2016.weebly.com/

http://marte2017.weebly.com/

PRÉMIOS
1º Prémio no Concurso promovido pelo Rectorat de L` Ácadémie de Rouen, celebrando o bicentenário da Revolução Francesa. O trabalho foi seleccionado de entre todos os participantes da C.E.E. para acompanhar o Presidente da Assembleia Nacional Francesa, Laurent Fabius, na sua visita a Moscovo. O trabalho foi oferecido ao então Presidente da U.R.S.S, Mikhail Gorbachev.

Prémio de Melhor Aluno do curso de Pintura da FBAUP – Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, atribuído pelo Ateneu Comercial do Porto;
Prémio Revelação Jovens Artistas no Concurso “Prémio Nacional de Pintura António Joaquim”

Prémio Melhoramento Estético da Escola Secundária Alcaides de Faria atribuído pelo Ministério da Educação

EXPOSIÇÕES
Participou em várias exposições colectivas, das quais se destacam:
Exposição de Finalistas na FBAUP, Casa das Artes e Casa do Algodão, Porto
Exposição de colagens PRODUCERE na Universidade Autónoma de Barcelona
Exposição de colagens PRODUCERE na Faculdade de Filosofia da Universidade Autónoma de Barcelona

Projecto “Index 3” na Galeria João Graça – Lisboa “Acasos & Materiais”, CAPC, Coimbra

Exposição de pintura e desenho na galeria Exteril – Porto

Exposição na Faup – projeto Riscotudo

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Latidos de la Diáspora: El Tambor que moldeó el mundo

La esclavitud llevó a los africanos, por segunda vez, a poblar el mundo. Hace más de 11,5 mil años, los principales grupos migratorios ya habían salido de África hacia el Nuevo Mundo, como lo demuestra Luzia, encontrada en Brasil. En la era moderna de las grandes navegaciones, los africanos fueron traídos nuevamente. Incluso bajo la imposición de la jerarquización racial y la discriminación, se mezclaron y dejaron su huella en todos los espacios, no solo con sus cuerpos, sino con su cultura.

Esta vez, los pueblos africanos dejaron un registro incontestable e imborrable de su fuerza cultural: el tambor. Son los tambores los que dan la potencia a nuestro carnaval. Ver al Ilê Aiyê pasar y animar la ciudad de Salvador con sus toques es como si el sol naciera sobre toda Améfrica. El tambor es esa potencia ancestral que conecta a los que vinieron con los que vendrán. Es la tecnología y la memoria que nos unen a cada uno de nosotros, con sus más diversos acentos e historias.

Los atabaques generaron ritmos decisivos en todas las Américas y el Caribe, influyendo en la escena musical contemporánea. En Brasil, tenemos el samba y sus ramificaciones: el jôngo, la congada, el pagode bahiano, el côco, el samba de roda y el funk carioca. En Uruguay, el candombe; en Argentina, el tango y la milonga; en Bolivia, las morenadas y la saya; en Colombia, la cumbia, la champeta y el porro; en Chile, el tumbero; en Ecuador, el currulao y la marimba; Perú, Cuba y México… rumbas, merengues, cha cha cha. Como explica el maestro Manoel Cordeiro, toda célula rítmica que existe en el mundo provino de África.

No en vano se dice: “El primer tambor salvó el mundo”. Fue él quien unió grupos étnicos y religiosos, mezcló saberes indígenas y creó la jurema, reinventando la naturaleza con los cultos afros de los orixás. El tambor dio fuerza y voz a los excluidos, llamando a la lucha a figuras como Ganga Zumba y Zumbi dos Palmares en Brasil, Benkos Biohó en San Basilio de Palenque en Colombia, y Toussaint Louverture en la independencia de Haití.

El tambor reinventó la oralidad, transmitiendo los itãs africanos del pueblo nagô y toda su cosmovisión. Es la expresión cultural más fuerte que une, invisiblemente, a los afrodescendientes y al pueblo africano en sus variados grupos étnicos. Nadie se resiste a bailar cuando el tambor suena; hace vibrar el cuerpo. La cosmología de la rueda, de lo circular, de la alegría de vibrar y sentir-pensar la vida, como decía Nêgo Bispo, no tiene principio, medio ni fin; es principio y principio. Es pensar la vida más allá de las circunstancias sociales y económicas y sus contingencias.

En la capoeira, el círculo es donde todos se cuidan mutuamente y se convierten en familia. El tambor es esa familia feliz, que a su sonido impulsa la vida a través del cuerpo en movimientos plásticos, bailando e interpretando colectivamente una forma de sentir y actuar. Esta feliz exaltación del cuerpo vibra colectivamente, haciéndonos ser uno en ese espacio-tiempo. La rueda de la capoeira es la rueda de la vida, donde los elementos bantúes se mezclan con los indígenas y europeos. Más que un pasado de esclavitud, hay una reafirmación constante de la libertad, de sentir-pensar sus modos y creencias en todas partes. La capacidad de reconstruirse, de comunicar a través de la oralidad sus hazañas, nos mantiene a todos unidos por redes invisibles y ancestrales.

El Candomblé también es una forma de resistencia a la esclavitud y a toda opresión, manteniendo vivos los rasgos de la cultura africana. Lo que vino con la esclavitud fue la expansión de una cultura que ya era espiritualmente demasiado grande para caber solo en África. Con la diáspora, llegó al mundo no solo el pueblo que pobló el inicio de la humanidad, sino también el tambor y toda su cosmovisión. Trajo el axé y lo plantó aquí.

El tambor viajó a las Américas, el Caribe, conquistó Europa y sigue encantando cuando sus atabaques lloran, expresando nuestra alegría y forma de vivir mestiza. Transformó el dolor y la indignidad de la esclavitud por la fuerza de la cultura. En verdad, esto demuestra que África venció. A pesar de la explotación y la esclavización, se arraigó en el mundo culturalmente más que cualquier colonizador. La cultura africana reinventó la forma europea dominante de sociedad y pensamiento, incorporando también los saberes indígenas.

Somos lo que los bantúes y otras etnias africanas nos legaron en todas las regiones de la diáspora. Fuimos llamados a resistir y a reinventarnos. Ese círculo sigue girando hasta hoy, tocando a descendientes negros y no negros, a quienes el tambor trae de vuelta con su llamado ancestral. La música es una sola, que cambia es el acento.

A política continua cristã e negá-lo é fingir neutralidade moral

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A maior fraude intelectual do nosso tempo é fingir que o Cristianismo saiu da política. Não saiu. Foi apenas empurrado para a esfera privada, onde continua a imperar, a julgar e a impor limites morais ao poder, enquantos todos fingem que agem em nome da razão, do progresso ou da neutralidade ética.

Há uma mentira confortável que estrutura o debate público na atualidade: a ideia de que vivemos numa sociedade pós-cristã, emancipada de valores herdados e politicamente neutra em matéria moral. Esta narrativa não apenas é falsa como é uma forma sofisticada de mentira intelectual. O Cristianismo não desapareceu da política. Mudou de forma. Deslocou-se do plano institucional para apenas o plano individual e passou a funcionar como uma cultura política interiorizada, moldando a forma como os cidadãos avaliam o poder, julgam os governantes e exigem justiça.

Hoje, o Cristianismo sobrevive menos como fé organizada e mais como um quadro moral consciente, ou que, pelo menos, deveria sê-lo a partir do qual temos uma lente analítica alternativa da autoridade política. Quando exigimos integridade absoluta a quem governa, quando não toleramos hipocrisia, quando julgamos intenções antes mesmo dos actos e quando reclamamos punição pública visível, não estamos a agir em nome de uma ética neutra ou de um racionalismo iluminado. Estamos a reproduzir, ainda que de forma “secularizada”, princípios centrais do Evangelho, o que é correto. A diferença é que o fazemos envergonhadamente, como se assumir esta herança fosse um retrocesso civilizacional.

Não acho que a secularização tenha libertado totalmente a política do Cristianismo; apenas retirou- lhe o nome e o espaço institucional. O resultado não foi menos moralismo, mas mais moralismo e pior e em outros moldes vendo nascer alguns novos dogmas. Sem uma estrutura, sem critérios e um plano de ação claros e sem responsabilidade, a moral cristã passou a atuar de forma difusa, envergonhada, emocional e por vezes, incoerente. Cada indivíduo sente-se investido de autoridade moral para julgar, condenar e exigir expiação pública, mas fá-lo sem assumir o código ético que legitima esse julgamento.

A esta cultura política cristã individualizada exige-se justiça e ação visível. Não por punitivismo primários, mas porque, na tradição cristã, a justiça tem uma função restauradora: reafirma limites, recompõe a ordem moral e devolve sentido à comunida política. E, ainda assim, este mesmo quadro favorece o perdão e corretamente segundo o meu ponto de vista mas apenas depois da assunção plena da culpa. O que hoje se pratica, porém, não é perdão; é absolvição selectiva. E isso não é Cristianismo: é oportunismo moral.

O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando a sociedade que proclama a morte do Cristianismo constrói novos dogmas seculares com pretensões morais absolutas. O liberalismo nos seus moldes atuais, apresenta-se como libertação de valores herdados, mas funciona, na prática, como uma teologia política disfarçada: define o bem e o mal, estabelece heresias, impõe excomunhões simbólicas e não admite redenção fora dos seus próprios rituais. Mudou-se o vocabulário, não a lógica.

Na minha opinião, não existe qualquer problema com o Cristianismo como herança moral pois não só é parte dos valores ocidentais como também constitui um capital ético indispensável para impor limites ao poder num tempo marcado pela corrupção, acordos de bastidores e desresponsabilização. O grande problema é a recusa em assumir esta posição.

Queremos a exigência moral sem admitir a sua origem; quer-se a condenação sem critérios estáveis, ou a virtude sem fundamento assumido.

Defendo, sem ambiguidades, que esta matriz cristã deve ser assumida, executada e acima de tudo, defendida no plano da cultura política individual. Assumida, para de uma vez assumirmos que a neutralidade moral ou ideológica do Estado seja ele qual for é uma ficção. Executada, para que o exercício de poder se revitalize e e volte a estar sujeito a um plano ético claro e não negociável. Por fim, defendida para que a política não continue a ser percecionado como um espaço de relativismo mascarado de progresso e de desresponsabilização.

A sociedade dita pós-cristã não é mais livre nem mais racional. Somos menos honestos e mais egoístas. Parecendo que não, a sociedade continua a obedecer à moral cristã mas fá-lo às escondidas ou muitas vezes sem se dar conta, sem coerência ou às escondidas. E enquanto esta negação persistir, a política continuará servil perante o moralismo histérico, da indignação seletiva e da polarização do debate público.

O Cristianismo ainda manda. A única questão é saber quem tem coragem de o dizer em voz alta.

Mulheres na Literatura ou Literatura das Mulheres? A Universalidade da Literatura no Feminino

ESCRITA(S) NO FEMININO. Por Ana Paula Santos, Licenciada em Humanidades (Universidade Aberta), Mestranda em Estudos de Língua Portuguesa (Universidade Aberta); Projecto: Senhoras das Letras (Instagram e Facebook). Imagem: infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, forte impulsionadora das letras no feminino.

O Cânone Ocidental e o Cânone Português

Analisar o Cânone Ocidental sem aprofundar a literatura produzida por mulheres revela-se inconcebível, nos dias de hoje, num tempo onde a igualdade de género é um dos temas que mais se encontra na ordem do dia, abrangendo e influenciando várias dimensões. Porém, continuamos a verificar que permanece o obstáculo à consagração das obras escritas por mulheres, mantendo uma inexplicável resistência, em particular no que diz respeito à produção redigida no passado.

Na medida em que o Cânone é uma escolha entre textos, os quais se encontram numa luta pela sobrevivência (Bloom, 1994), torna-se urgente questionar o porquê de a luta feminina ser sempre mais difícil e desequilibrada, em termos de aceitação e de oportunidades, algo que tem sido transversal a outras esferas da vida das mulheres. E, se por um lado, assistimos a cada vez mais investigações de ordem antológica ou biográfica, com o objetivo de resgatar a vida e a voz de inúmeras mulheres das letras, de que são exemplo Desobediente de Patrícia Reis (sobre Maria Teresa Horta) e O Dever de Deslumbrar de Filipa Martins (sobre Natália Correia), por outro lado, assistimos ao afastamento destas e de tantas outras autoras dos programas escolares, surgindo como meras leituras opcionais, e dependendo da vontade ou da sensibilidade de cada professor. Neste âmbito, importa salientar que é “da responsabilidade da academia/ escola a propagação, ou não, de um determinado texto, reconhecido como obra de arte por uma determinada cultura, apesar de o fenómeno de escolha popular, algumas vezes, influenciar a integração de determinada obra” (Silva, 2014: 48).

No caso do ensino secundário, apenas no 12º ano existe um possível contacto com três escritoras, se estas forem escolhas dos professores: Maria Judite de Carvalho, Luiza Neto Jorge e Ana Luísa Amaral. Contudo, no reverso da medalha, continua-se a ler e a estudar os autores clássicos, ou seja, Camões, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Saramago, assistindo-se a um apagamento intencional da autoria feminina, desde os primórdios da Literatura Portuguesa, na Idade Média, até ao século passado – o século XX, não tão distante de nós.

Em 2020, foi publicado O Cânone, organizado por António Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, revestido de breves ensaios, dedicados a alguns autores portugueses. Na introdução, os editores advertem que é um livro de crítica literária, não uma lista canónica, tendo como base a noção da mutação dos nomes, sujeita à norma dos tempos. No entanto, nesta crítica literária, entre os 49 autores invocados, encontramos apenas 9 mulheres: Agustina Bessa-Luís, Fiama Hasse Pais Brandão, Florbela Espanca, Irene Lisboa, Luiza Neto Jorge, Maria Judite de Carvalho e as Três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta). E, mesmo assim, questiono: quantos de nós as conhecem, na totalidade? Quantos textos de cada uma já lemos?

Face ao exposto, é inevitável continuar nos caminhos das indagações: porque não incluir mais vozes femininas em títulos desta relevância para os Estudos Literários? Como é que a existência de inúmeras vozes femininas – as quais vão sendo descobertas a “conta-gotas” – continua a merecer persistente ocultamento? Que regras ditam o cumprimento da regra-padrão, que se mantém, afinal, inflexível e impenetrável?

Outro aspeto a ter em consideração, nesta tortuosa demanda, é a própria compreensão da História, já que continua a convergir numa perspetiva unilateral, em muitas temáticas. Como tal, é necessário incluir as visões e as experiências de mais mulheres nos currículos literários, de forma a auxiliar o próprio entendimento da nossa história enquanto nação e, por conseguinte, analisar o produto da nossa identidade sociocultural, num todo. Só assim, será possível alcançar um equilíbrio; um equilíbrio tão necessário quanto justo.

A importância dos estudos sobre autoras e sobre a autoria feminina

Apesar da resistência mantida pelo Cânone, têm vindo a ser publicados estudos que se propõem a retirar as mulheres escritoras de uma espécie de baú do passado, onde se encontram enclausuradas e votadas ao abandono. No entanto, algo falha neste processo, já que estas manobras de resgate enfrentam uma lista interminável de obstáculos, incluindo a pequena tiragem de exemplares e uma débil divulgação; obstáculos que não permitem uma integração no meio académico, tornando difícil a missão inicial: a chegada a mais receptores/leitores. Neste âmbito, será que a situação explica a actual retirada de autoras dos programas escolares? Como contrariar uma tendência que interfere exponencialmente na educação fundamental?

Muitos dos trabalhos de investigação realizados partem de mulheres que se dedicam a uma espécie de causa literária feminina, de que é exemplo Vanda Anastácio, com o seu projecto digital Escritoras em Português[1], o qual propõe uma base de dados detalhada sobre uma lista notável de mulheres que se dedicaram à escrita, de forma mais assídua ou não, e o compêndio Uma Antologia Improvável. A Escrita das Mulheres, Séculos XVI a XVIII, publicado em 2013 – e que é um esplêndido estudo, incluindo excertos de época, quer escritos por mulheres, quer por homens defensores das mesmas, ou outros igualmente curiosos.

Cláudia Pazos Alonso é mais uma referência nos estudos femininos/feministas, incidindo particularmente sobre Florbela Espanca e a sua contemporânea Judith Teixeira. Ainda em 1996, publicou como resultado da sua tese de Doutoramento Imagens do Eu na Poesia de Florbela Espanca, onde aborda a escrita lírica da autora e alguns aspetos de ordem biográfica – incluindo questões após a sua morte –, para além de uma preciosa contextualização histórica sobre as mulheres escritoras nos séculos XIX e XX, de forma a permitir um enquadramento mais abrangente quanto às motivações e vivências observadas na obra florbeliana.

Em 2005, Ana Maria Costa Lopes publicou Imagens da Mulher na Imprensa Feminina de Oitocentos, Percursos e Modernidade, uma obra fundamental para a compreensão do enquadramento social e educacional do século XIX, onde se debruça sobre o papel da imprensa no contexto da promoção da educação feminina, situação que abriu caminho para os primeiros movimentos feministas, em Portugal, no início do século XX.

Judith Teixeira, autora renegada e considerada imoral, forçada a afastar-se do meio literário em pleno Modernismo, teve uma merecida antologia em 2015, pelas mãos de Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mario Silva, investigador brasileiro bastante dedicado às autoras portuguesas, nomeadamente a Judith Teixeira e a Ana Plácido, e que tem traçado um caminho valoroso ao encontro de leituras femininas esquecidas.

Em 2023, Maria João de Lopo Carvalho reuniu doze mulheres num volume biográfico: As Revolucionárias. Doze Mulheres Portuguesas Desobedientes, entre as quais encontramos as escritoras Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Angelina Vidal, Domitila de Carvalho, Ana de Castro Osório, Irene Lisboa, Virgínia de Castro e Almeida e Maria Lamas. Actualmente, o livro está a servir de base a um podcast intitulado As Desobedientes, com a participação da própria autora, confirmando a necessidade de livros desta natureza serem divulgados através das oportunidades oferecidas pelos meios tecnológicos, de forma a chegarem a mais leitores.

Dadas as circunstâncias, voltamos inevitavelmente à problemática inicial: como estimular, então, as leituras, se as autoras não surgem sequer nas escolas e universidades, locais onde deveriam estar, em primeiro lugar?

Mais exemplos poderiam ser acrescentados a esta pequena, mas significativa lista, na medida em que revela, já por si, a pertinência que a presente análise merece. Somente através de investigadores e investigadoras persistentes, tem sido possível contrariar a ideia pré-estabelecida de que existem poucas mulheres escritoras na História de Portugal, a par da errada noção de que os seus escritos são de inferior qualidade, não merecendo por essa razão um lugar de destaque, ou seja, um lugar no Cânone – merecido Olimpo dos deuses da escrita. Como tal, é completamente errado assumir que a lira não encantou as mulheres, apesar de os cantos emitidos terem sido bastante condicionados pelas sociedades epocais.

No século XIX, A “Poetisa do Sado”, Mariana Angélica Andrade, questionou a condição feminina, através da sua poesia inteligente e arrebatadora. Criticou, com elevada frontalidade o mundo que:

“Maldiz os sons da lira, afronta o génio

Que procura elevar-se, em asas de oiro

Acima do vulgar!

(…) escarnece quando sabe

Que vêm de uma mulher os sons que escuta[2]”.

Tantas outras autoras seguiram a mesma fórmula, pois foi através da escrita que atingiram a liberdade dos seus pensamentos, desejos e inquietações. A escrita proporcionou, sem dúvida, o desagrilhoamento da mulher, relegada ao mero lugar familiar, como filha, esposa ou mãe; portanto, sem grande relevo no plano social.

A educação feminina: dificuldades e oportunidades

A exclusão das escritoras do cânone literário é, até certo ponto, compreensível dado o seu tardio acesso à escolarização; no entanto, o que se nota na maior parte das histórias da literatura ocidentais é um desprestígio constante da produção literária de autoria feminina, que parece continuamente deixar as mulheres escritoras à margem da literatura oficial (Silva, 2014: 13).

O percurso da autoria feminina, em Portugal, foi sempre marcado por fortes barreiras. Durante séculos, o acesso à educação foi restrito às mulheres, englobando as mulheres que pertenciam a famílias nobres e aburguesadas, limitando as suas oportunidades de formação intelectual e, obviamente, a sua produção literária. Existem, em paralelo, inúmeros casos de mulheres que se dedicaram à escrita, mas que viviam confinadas nos conventos, num meio que, já por si, exige recolhimento e afastamento da sociedade, embora garantisse um acesso ao estudo do Português e do Latim, mas também das línguas estrangeiras, como o Francês.

Muitas daquelas que conseguiram publicar os seus textos, maioritariamente através da imprensa periódica, fizeram-no, numa fase inicial, sob pseudónimos masculinos ou o anonimato, de forma a evitar a rejeição social. Maria da Felicidade Browne, poetisa ultra-romântica, é apenas um destes exemplos, e recorreu aos pseudónimos Soror Dolores e A Coruja Trovadora, como forma de ocultação da sua identidade. Muitas mulheres usaram o mesmo artifício, sendo comum observarmos, em jornais de época, textos cuja assinatura segue os seguintes moldes: Uma Senhora, Uma Senhora Portuense, A.C., Maria, Caiel[3], e por aí adiante.

Tanto o preconceito direcionado às obras femininas, como a desvalorização a estas associada, por parte da crítica literária e da academia, contribuíram tremendamente para a escassez de autoras incluídas no Cânone, para além de que a literatura produzida no feminino foi, durante muito tempo, vista como um género menor, associado a diários, a cartas e a outros formatos mais intimistas, mas também a poemas de pendor amoroso, que não se encaixavam, de forma alguma, nos padrões canónicos.

O século XIX permitiu uma alteração desta dinâmica, já que a imprensa, em franca expansão, proporcionou às mulheres um lugar de destaque na esfera pública, enquanto donas das suas palavras. Gradualmente, após um dos primeiros periódicos dedicados integralmente às mulheres surgir, O Toucador, pela mão de Almeida Garrett, abriu-se a porta à colaboração feminina nos jornais e revistas, existindo exemplos de periódicos e revistas literárias que foram dirigidos por mulheres, contando com a participação de colaboradores mistos e de uma forte adesão feminina, mas sendo também – e exclusivamente – compostos por colaboradoras.

A par destas alterações na imprensa, que atingem o auge nos finais do século XIX, o papel da educação da mulher passa a ser um assunto urgente, potenciado pelas feministas republicanas, como Ana de Castro Osório, figura ímpar da luta pela igualdade de direitos e que, no seu célebre texto Às mulheres portuguesas, de 1905, já afirmava a necessidade de instrução e independência, anos antes de Virginia Woolf publicar o célebre A Room of One’s Own (traduzido para Português como Um Quarto só Seu):

Feminismo: é ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam (…) e de que a maioria das proprias mulheres córam (…) E, no entanto, nada mais justo, nada mais rasoavel, do que este caminhar seguro, embora lento, do espirito feminino para a sua autonomia (Osório, 1905: 11).

Porque ser feminista não é querer as mulheres umas insexuais, umas masculinas de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de inteligencia e de razão, educadas util e praticamente de modo a vêrem-se ao abrigo de qualquer dependencia, sempre amarfanhante para a dignidade humana (Osório, 1905: 24).

Mulheres na Literatura ou Literatura das Mulheres?

O debate aceso entre os conceitos “mulheres na literatura” e “literatura das mulheres” não tem ajudado a mitigar as barreiras instituídas. No fundo, a primeira definição refere-se às obras escritas por autoras, independentemente do seu público-alvo, contemplando temas universais, enquanto a segunda engloba obras escritas por mulheres ou homens, que se dirigem ao público feminino e que abordam temas exclusivos da vivência feminina, estando maioritariamente associados às noções de futilidade e banalidade.

Muitas escritoras lutaram para que sua produção não fosse reduzida ao universo feminino, buscando reconhecimento no panorama literário como um todo, e motivando as suas leitoras a irem mais além, embora tal batalha tivesse sido sempre espinhosa e, em muitos casos, repleta de injustiças e de desprestígio em relação ao papel das mulheres enquanto autoras. Felizmente, tivemos sempre mulheres transgressoras, como Ana de Castro Osório, Florbela Espanca, Judith Teixeira, Maria Teresa Horta ou Natália Correia, que reivindicaram a todo o custo a liberdade da mulher, ilustrando que, embora fundeadas na experiência feminina – um aspeto, no fundo, inato –, existe uma dimensão universal nas suas reflexões e, por fim, no impacto social proporcionado pela sua escrita.

A universalidade da escrita e as autoras canónicas

Autoras consideradas canónicas, como Leonor de Almeida (Marquesa de Alorna), Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Maria Teresa Horta ou Natália Correia são relativamente conhecidas por terem rompido com os padrões vigentes das suas épocas, conquistando um lugar diferenciado entre os seus pares. De forma diferente – o que se relaciona com a época em causa –, conseguiram elevar as suas vozes ao plano social, transmitindo sentimentos e anseios, a bem da harmonia global.

Marquesa de Alorna é aquela que está mais distante de nós, na lista em apreço. Nascida ainda no século XVIII, bebeu muita influência do Iluminismo, o que se traduziu numa linha de escrita alicerçada na questão do valor dado ao indivíduo e à razão. A sua importância social foi também conquistada através de um famoso salão literário, organizado na sua casa, e frequentado por inúmeras figuras literárias relevantes, como Manuel Barbosa du Bocage.

No caso de Florbela Espanca – talvez a mais conhecida entre todas as citadas –, a aceitação não foi facilitada, em vida, enfrentando duras críticas à sua escrita, considerada depreciativamente dramática, e vendo alguns dos seus sonetos publicados em periódicos a serem sujeitos a várias alterações, de forma a se adequarem melhor à alma feminina. Porém, a sua poesia expressa uma profunda carga emocional, desviando-se do plano amoroso para o plano existencial, com recurso a diversos elementos. A sua primeira composição, intitulada “A Vida e a Morte”, datada de 1903 – tendo Florbela apenas 8 anos –, abriu caminho para uma inquietação que a acompanhou toda a vida: a preocupação com a morte. E não há tema mais universal – ou seja, mais humano – do que o terror ou o fascínio provocados pela morte.

Sophia de Mello Breyner é relativamente conhecida pela sua poesia e pelos seus contos infanto-juvenis, sendo estes revestidos de uma dimensão pedagógica profunda, a par dos elementos fantásticos. Autora de elevada sensibilidade, abordou temas universais como a liberdade e a justiça, mas sem dúvida que a relação do homem com a natureza é uma das suas características mais expressivas, em especial a influência do mar, componente típico da Literatura Portuguesa, fortemente ancorado na própria História de Portugal.

Agustina Bessa-Luís destaca-se pela sua obra vasta, entre romances, contos, peças dramáticas, ou ensaios – escritos habitados por um estilo impactante, onde as narrativas estão repletas de personagens femininas complexas, explorando a dinâmica do poder e elaborando uma crítica social, com uma abordagem psicológica intrincada. A Sibila é, sem dúvida, o seu trabalho mais conhecido, com temas tão universais como os conflitos, a amizade e a inimizade, e a própria condição humana.

Maria Teresa Horta deixou-nos recentemente, mas deixou-nos com um legado singular. Mulher de armas, não permitiu que a condição do seu sexo a colocasse num plano inferior, em especial no período da Ditadura, período bastante negro para a construção do papel da mulher enquanto escritora, na sociedade portuguesa. Desde sempre, lutou pela liberdade, colocando o foco na questão da libertação feminina através da sexualidade, mas também glorificou Marquesa de Alorna, com As Luzes de Leonor, obra que oscila entre géneros: a prosa e a poesia.

Natália Correia, autora da célebre frase “a poesia é para comer”[4], foi mais uma das mulheres que combateram a opressão em Portugal, em especial nos anos 60 e 70, do século XX. Dona da sua voz, foi uma mulher plural que não sossegou na demanda pela libertação intelectual e sexual da mulher portuguesa. A sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica fez com que fosse condenada à prisão, com pena suspensa, mas tal episódio não demoveu o propósito da sua luta primordial: o direito à afirmação individual.

A universalidade dos temas tratados por estas autoras – e outras, tão distintas, não incluídas no Cânone, como Soror Violante do Céu, Ana Plácido, Maria da Felicidade Browne, Mariana Angélica de Andrade, Luísa Lomelino (Luzia), Maria Amália Vaz de Carvalho, Guiomar Torrezão, Virgínia de Castro e Almeida, Ana de Castro Osório, Judith Teixeira, Fernanda de Castro, Virgínia Victorino, Branca de Gonta Colaço, e tantas outras – evidencia a injustiça da sua discriminação, na medida em que estas mulheres abordaram questões como o amor, a liberdade, a morte e o existencialismo, demonstrando que a barreira perante o Cânone se deveu mais às estruturas de poder estabelecidas, do que a qualquer limitação no interior das suas obras. Para além disto, as suas criações dialogaram com questões locais e globais, provando que a literatura feita por mulheres, não sendo apenas para mulheres, é capaz de elevar-se sobre os limites geográficos e, consequentemente, culturais, elevando toda a nação e a própria identidade nacional.

Considerações finais

O cânone literário português tem sido historicamente dominado por autores masculinos, reflexo de uma estrutura social e académica rígida. Porém, Duarte (2009) explica que o objecto literário, sendo adjacente ao uso

descreve todos os discursos que uma comunidade de utentes considera como tal em função de critérios que são antes do mais sociais e históricos (…) um texto não nasce necessariamente literário e muito menos canónico, nem tem que se manter perenemente literário, posição esta que tem justificado recentes reivindicações de recanonização e descanonização.

Ao abrigo desta noção de efemeridade, questiono até quando permitiremos que nos faltem peças essenciais, para que compreendamos, no fundo, a multiplicidade do vasto puzzle literário português? Até quando deixaremos que mais mulheres importantes para a compreensão e construção da História Literária Portuguesa fiquem fora desta validação? Se a universalidade não é um problema estrutural, na medida em que está garantidamente presente nos seus textos, incluindo em autoras menos conhecidas, que critérios continuarão a condicionar este afastamento, em particular dos planos educacionais? Fica a reflexão…

A rubrica Escrita(s) no Feminino pretende, acima de tudo, aproximar leitores a leituras à margem do Cânone, lançando, desde logo, um desafio a cada receptor: que confirme por si a pertinência de inúmeras vozes silenciadas, ao longo dos tempos, ainda que, na época, as mulheres em análise tenham sido alvo de admiração e elevação.

Recursos bibliográficos

Alonso, Cláudia Pazos. Imagens do eu na poesia de Florbela Espanca. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996

Alonso, Cláudia Pazos e Silva, Fabio Mario da (organização e estudos introdutórios). Judith Teixeira, Poesia e Prosa. Lisboa: D. Quixote, 2015

Anastácio. Vanda. Uma Antologia Improvável. A Escrita das Mulheres, Séculos XVI a XVIII. Lisboa: Relógio d’Água, 2013

Andrade, Mariana Angélica. Murmúrios do Sado. Setúbal: Tipografia de José Augusto Rocha, 1870, pp. 52-53

Bessa-Luís, Agustina. A Sibila. Lisboa: Guimarães Editores, 1954

Bloom, Harold. O Cânone Ocidental. Lisboa: Temas e Debates, 1994, pp. 27-50

Carvalho, Maria João Lopo de. As Revolucionárias. Doze Mulheres Portuguesas Desobedientes. Lisboa: Sibila Publicações, 2023

Correia, Natália. Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Lisboa: Afrodite, 1965

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  1. Vide https://escritoras-em-portugues.com/pt_pt/



  2. In poema “Poesia e Mulher”, incluído em Murmúrios do Sado, publicado em 1870.



  3. Pseudónimo de Alice Pestana.



  4. In poema “A Defesa do Poeta”, apresentado em Tribunal, aquando do processo judicial da autora.


A substituição demográfica: facto ou mito?

A principal indignação da semana passada em Portugal girou à volta da banca e dos cartazes do Chega na Futurália. Se já é discutível a mera presença de partidos políticos num espaço reservado às escolhas profissionais e académicas dos jovens – assunto sobre o qual só por si poderia discorrer morosamente –, o 2º maior partido na AR conseguiu levar tal vitupério mais além. Acredito que todos tenhamos lido e relido as frases, mas quero destacar a principal: “Sorria! Estamos a ser substituídos”.

Não pretendo ir por simples adjetivos pejorativos repetidos ad nauseam acerca desta e de outras ações similares. Este não é o espaço para o fazer, e serve um propósito pouco maior do que fomentar sectarismos e entrincheirar ainda mais todos os envolvidos. Prefiro falar do porquê de uma das mais disseminadas e aceites ‘verdades’ no Ocidente, na realidade, não o ser.

A suposta substituição populacional do Ocidente, em especial da Europa, não é de modo algum uma conversa nova. Os seus defensores tendem a resumir a sua argumentação a um simples, rápido e eficaz “é estatística”. O problema é que se baseia numa interpretação errada dos dados. Aliás, ainda que lhes fossem mais favoráveis, esta estatística impossibilita a extrapolação que é a “extinção por substituição”.

Dizer que imigrantes de 1ª e de 2ª gerações oriundos de países africanos, árabes ou sul-asiáticos têm uma maior presença na demografia europeia não equivale a dizer que a população indígena branca da Europa, como descrita por muitos daqueles que partilham desta visão, está a ser substituída por uma não-branca e tipicamente não-Cristã.

Esse aumento é uma realidade estatística, ainda que bem mais marginal do que se pensa. Desde 2012, a UE tem consistentemente apresentado um crescimento natural negativo. Já o número de imigrantes extracomunitários subiu para 44,7 milhões, menos de 10% da população (Eurostat, 2026; Frattini & Pulito, 2025). Vale lembrar que nem todos estes vêm das regiões mencionadas: e.g., em Portugal, a imigração brasileira é esmagadoramente superior a qualquer outra, compondo quase um terço da nossa população estrangeira. (AIMA, 2025)

Por outro lado, esta percecionada ameaça externa, conhecida como “teoria da Grande Substituição”, tem uma carga histórica tal, e baseia-se em pressupostos tão radicalmente diferentes, que não se pode comparar, muito menos resumir, aos dados apresentados.

O termo foi cunhado e popularizado pelo escritor francês Renaud Camus no seu livro epónimo de 2011. Neste quase-manifesto, o autor proclama que a civilização e cultura francesas estavam a ser ameaçadas pela presença muçulmana no seu país.

Esta conversa não é de agora. Já na primeira metade do séc. XIX, o mesmo se dizia EUA afora acerca de migrantes irlandeses e alemães. Foi ganhando força com a imigração cristã do Sul da Europa das décadas subsequentes, em especial a de Itália. Desde então, tem sido uma retórica constante face às mais diversas comunidades estrangeiras e minorias étnicas, como Judeus, Japoneses, Chineses, Afro-americanos, Árabes, Muçulmanos e Latino-americanos.

A Grade Substituição faz parte da mais-que-centenária teoria do “genocídio branco”, partilhando das mesmas ideias-base. Sucintamente, ambas assentam em quatro pressupostos fundamentais:

  1. Que a imigração, pelo menos na dimensão atual, é um fenómeno inédito na história do Ocidente;
  2. Que é perigosa, não apenas a nível da segurança, mas em especial a nível cultural e demográfico;
  3. Que o seu crescimento é contínuo e incessável se nada se fizer;
  4. Que é deliberadamente perpetrado por uma elite que está ou vai beneficiar com isso – o velho cliché da elite política global, apesar de cada ‘tradição ideológica’ ter um foco maior ou menor no elemento antissemita.

Se olharmos para a França oitocentista e da viragem para o centénio seguinte, autores como Édouard Drumont e Maurice Barrès defendiam a Grande Substituição ante litteram, alertando quase ipsis verbis para as mesmas ameaças de que Camus viria a falar dali a mais de um século. Afirmavam que “novos franceses” inumanos “sem capacidade de assimilação”, principalmente de origem magrebina e subsariana, se tinham “infiltrado” e desejavam “impor” o seu ‘modo de vida’, numa espécie de ‘civilização reversa’. Este processo era tudo parte de uma “conquista judaica” que, se bem-sucedida, seria a “ruína da pátria francesa” e do que fazia dela “especial” (Kauffmann, 2016).

Vou tentar desmistificar todos estes quatro pontos.

A população imigrante dos principais países europeus tem sido relativamente estável nos últimos 50 anos, situando-se entre os 10-15%, com poucas e triviais exceções (de Haas, 2023). Isto mostra que mesmo em países onde esta aumentou, como Portugal, foi para valores dentro desta norma. A imigração irregular – ou “ilegal”, como muitos lhe errónea e desumanamente chamam – também não chega para justificar a suposta invasão estrangeira. Em país algum da Europa as estimativas desta chegam aos 2%, geralmente ficando-se pela metade ou por valores próximos.

Estendo-me mais além do que falar unicamente na imigração. Se o fizesse, não englobaria de forma totalmente satisfatória o elemento etnocêntrico tão basilar nestas teorias. Acontece que, nem em países como o Reino Unido – exemplo-mor de lugar onde essa tal “substituição” está a acontecer a todo o vapor – as minorias étnicas representam algo perto disto, compondo apenas cerca de 17% da população, de acordo com o censo de 2021.

Relativamente ao quão “perigosas” estas comunidades são, a relação entre criminalidade e heterogeneidade social (termo que aqui utilizo para englobar questões como imigração, e diversidade étnica/racial, religiosa, linguística e cultural) é complexa, e entender na plenitude todas as suas nuances seria impraticável neste artigo. Comunidades menos homogéneas tendem a ser menos pacíficas (Wo, 2022), mas tal é consequência da forma como os diferentes grupos sociais interagem, e não de quaisquer traços intrínsecos, ou por simplesmente não pertencerem ao mesmo grupo (Sampson & Lauritsen, 1997)). O que provoca um aumento da violência não é tanto a heterogeneidade per se, mas a polarização e o domínio étnicos (De Soysa & Noel, 2020).

Mesmo nos países onde se verificou um aumento da criminalidade relacionado com a imigração, como Suécia e Alemanha, tal se deve a fatores maioritariamente socioeconómicos, em particular uma profunda falta de integração dessas comunidades por parte dos agentes estatais e sociais. Esta segregação tem também fortes aspetos étnico-culturais, sistematicamente desvalorizados, fruto de um viés do preconceito implícito que alimenta o racismo estrutural e individual, muitas vezes inconsciente, da população ocidental (Morehouse & Banaji, 2024). A relação causal entre criminalidade (enquanto variável dependente), e pobreza, desigualdade, discriminação, desemprego e precariedade laboral, falta de estabilidade financeira e familiar, falta de socialização intergrupal, segregação económica, e exclusão social (enquanto variáveis independentes) está ampla e plenamente analisada – para desconsolo da nossa ex-ministra da Administração Interna Margarida Blasco e muita outra gente que gostar de pensar o contrário por conveniência.

Se os exemplos dados dos grupos de imigrantes nos EUA, supostas ameaças à cultura estadunidense, não chegarem para desmistificar essa retórica, acrescento alguns pontos.

Cultura é um conceito bastante fluido e abstrato. Experimentem dizer a alguém do Norte que tem a mesma cultura que alguém de Lisboa e vejam a maior parte das reações. Admito que este é um exemplo meramente ilustrativo, que não consigo fundamentar com rigorosos dados empíricos, por contrapartida recomendando a leitura do trabalho de José Manuel Sobral (2004).

Podemos, ainda, ser mais idealistas e questionar não apenas as características que compõem a “portugalidade” – na cabeça dos que a acham algo nítido, atemporal e inalterável –, mas também o que se quer dizer por cultura e quais os seus elementos definidores. Se quer designar um conjunto de valores morais, então dificilmente alguém conservador e alguém progressista podem partilhar de uma mesma. Se se baseia no Catolicismo, então está a desaparecer com o mero crescente ateísmo das novas gerações, que ficam proibidas de ir aos Santos Populares pois isso seria sacrilégio. Se engloba tudo o que são tradições, entendidas como meros hábitos e atitudes costumeiras, então porque não incluir a violência doméstica, ou o mandar pessoas para a terra delas mesmo que tenham nascido a meia dúzia de quilómetros?

Considero necessário fazer uma ressalva como forma de clarificar o meu ponto. O que estou a argumentar não é que cultura, enquanto conjunto dos elementos característicos de uma comunidade, não exista; é, sim, que, por ser um conceito tão abstrato, torna ilógica qualquer tentativa de o consubstanciar, muito menos de o tornar uma realidade praticamente axiomática.

Além disso, toda e qualquer cultura está em constante evolução, em especial num mundo mais globalizado do que nunca. É um processo gradual e paulatino, mas natural, motivado por fatores individuais, contextuais e conjunturais, e que não leva à extinção de costumes que a maior parte das pessoas pretenda manter. O fim imposto de uma cultura só ocorre quando tal é feito sobre aqueles que não se conseguem defender. Vejamos o que foi tentado com os Irlandeses entre o séc. XVII e o Renascimento gaélico, ou com os Bascos, Galegos e Catalães durante o Franquismo, sem mencionar exemplos do colonialismo extraeuropeu. Arrisco-me a dizer que tal ameaça não existe por parte de uma comunidade como a indostânica, que corresponde a menos de 2% dos residentes em Portugal e é cada vez mais marginalizada.

Alterações populacionais baseiam-se em tantos e tão complexos fatores que torna leviano considerar uma substituição quase total de uma população nativa. Taxas de fecundidade, natalidade e mortalidade, migração, a pirâmide etária; todas estas variáveis se alteram de tal forma ao longo do tempo que é impensável ser possível a aniquilação da pátria que preconizam.

É verdade que a natalidade na Europa é baixa e que imigrantes de países mais pobres tendem a ter mais filhos. No entanto, esta é uma tendência que não é de todo uniforme, variando de acordo com o país de origem e com a idade – por exemplo, no Reino Unido, mulheres bangladechianas e mulheres paquistanesas entre 20-40 anos têm distintos níveis de fertilidade entre si, tendência que deixa de existir a partir dessa idade (Wilson, 2019). Num geral, a diferença entre nativos e imigrantes cessa com as gerações seguintes, quer pela melhoria das condições de vida, quer pela adaptação das mulheres às normas do novo contexto onde vivem (Kulu et al., 2017; Mussino & Cantalini, 2024). Entre grupos étnicos, fatores como o nível socioeconómico, a educação e o acesso a cuidados de saúde explicam as possíveis disparidades. Uma das únicas exceções são mulheres hispânicas estadunidenses, onde a diferença pode ser também justificada por normas culturais (Zang & Kaphle, 2023).

Além disso, a imigração ocorre em vagas, longe de ser constante e continuamente crescente como alguns tentam fazer crer. Mesmo se as tendências atuais persistirem e a proporção da população com uma origem imigrante continuar a aumentar, tal aconteceria a um ritmo cada vez mais lento (Jostein Grytten et al., 2024). Acresce o facto de que as gerações subsequentes simplesmente começam a assimilar-se de forma natural com o resto da sociedade, levando a uma diminuição do apego e identificação étnico-raciais, bem como dos traços físicos caracterizadores – processo conhecido por diluição étnica (Duncan & Trejo, 2018; Song & Gutierrez, 2015).

Decidi pedir a algumas ferramentas de inteligência artificial (que variaram entre as de uso mais comum como OpenAI, até outras de uso mais científico e académico como o Consensus) diversas estimativas acerca de possíveis futuros cenários demográficos para diferentes países. Tive de insistir que estas podiam assumir uma persistência dos níveis atuais de crescimento natural e imigração – algo que, como já referi, é por si irrealista e incondizente com a realidade. Visto cada país utilizar uma definição diferente de minoria étnica, baseei-me numa mais consensual e percetível medida de “populações não-nativas” (incluindo outros brancos). As projeções mais ‘generosas’ apontavam que estas poderiam ser maioritárias em países como França, Alemanha e Reino Unido entre o último quartel do séc. XXI e as primeiras décadas do centénio seguinte. Se colocarmos a barreira nos 75%, as estimativas apontam para não antes de 2150. No caso de Portugal, seria necessário esperarmos mais de cem anos por essa mudança da população nativa de maioria para minoria. A única projeção que encontrei a nível da Europa Ocidental num todo estima que, em 2100, a população de origem europeia seria 45%, tendo por base o mesmo pressuposto de que o atual ritmo de alteração demográfica se manteria.

Essencialmente, com este exercício, quero evidenciar que: as previsões de substituição demográfica se baseiam em princípios desajustados ao que o mundo real e a história nos mostram; ainda que tal acontecesse, não estaria para breve.

Por último, teorias da conspiração de uma elite global judaica são tão antigas e surradas que aborrecem. Mas para não parecer que me estou a esquivar do assunto, de salientar que muitas dessas populações imigrantes, em especial homens, têm tendencialmente visões conservadoras – pense-se, por exemplo, no porquê de Modi ser tão popular na Índia. Mesmo que discordem desta afirmação, importa entender que aqueles que acreditam nessas teorias, ao dizerem que estas comunidades discriminam bastante mais as mulheres e pessoas LGBTQ+, estão a descrevê-las como conservadoras. A realidade é que a propensão para imigrantes e minorias étnicas votarem em partidos de esquerda vem principalmente do facto de se sentirem discriminados no país onde residem (Oshri & Itzkovitch-Malka, 2025). Esta tendência tem vindo a diminuir em países como Reino Unido e EUA (Burn-Murdoch, 2024), onde homens hispânicos votaram mais em Trump do que em Harris em 2024.

Se há quem ainda queira afirmar que uma elite política liberal tenta manipular a demografia para ganhos eleitorais, então, por inerência lógica, são essas mesmas pessoas e os partidos nos quais votam que ajudam a que tal aconteça, ao alimentarem uma retórica anti-imigração.

Atirar para o ar afirmações como “estamos a ser substituídos” foi o que normalizou uma conversa profundamente destrutiva e que não é de somenos. É a base de um pensamento desumanizante que, quando vira fundamentalismo, se torna fatal. Só em 2019, tragédias como as de Christchurch, NZ, e de El Paso, TX, resultaram no massacre de 71 pessoas. Não estou a dizer que quem profere coisas assim é cúmplice destes crimes. Mas não achar que tal ajuda a propagar e cimentar estas ideias é não querer entender as consequências das palavras. Aliás, o simples facto de classificar os imigrantes não-brancos como uma ameaça existencial gera uma reação biológica reflexiva comportamental que é tudo menos amistosa, quer leve à violência física, quer leve à mais disseminada e aceite violência social.

Não questionar as próprias crenças e ações é compreensivelmente cómodo. Entendo o medo subconsciente de que essa introspeção possa despertar um sentimento de culpa desconfortável e até mortificante, difícil de afastar. Ninguém gosta de estar errado, e até eu tive de me confrontar com algumas das minhas ideias durante a elaboração deste artigo. (In)felizmente, é necessário fazê-lo. Porque pior do que a culpa, é sentirmo-nos constantemente intimidados pelo próximo, quer essa ameaça seja real, quer não.

Findo deixando-vos com a seguinte reflexão: é mais inquietante a culpa momentânea, com a qual cada um de nós pode lidar, ou o eterno medo, incessante enquanto se mantiver a ilusória perspetiva de que a nossa própria existência tem os dias contados?

Referências

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Produzir melhor, desperdiçar menos: o que a natureza nos ensina

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Num mundo marcado pelo excesso de consumo, pelo desperdício e pela crescente pressão sobre os recursos, a biomimética convida-nos a olhar para a natureza não apenas como fonte de matérias-primas, mas como fonte de inteligência para repensar a forma como produzimos.. Texto de Ana Catarina Trindade, CENIMAT|i3N, Departamento de Ciência dos Materiais, Faculdade de Ciência e Tecnologia, Universidade NOVA de Lisboa, Caparica, Portugal & Universidade Atlântica e ESSATLA – Escola Superior de Saúde Atlântica, Fábrica da Pólvora de Barcarena, Portugal.

Vivemos rodeados de objetos, embalagens, estruturas e dispositivos que mostram até onde chegou a capacidade humana de transformar matéria em utilidade. Produzir tornou-se, quase sem darmos por isso, uma das imagens centrais do progresso global. E, no entanto, poucas vezes interrogamos a lógica que sustenta esse gesto: extraímos, processamos, consumimos e descartamos, como se os recursos não tivessem fim e como se o desperdício fosse apenas o preço inevitável do conforto moderno. Há, nisto, um paradoxo difícil de ignorar: nunca soubemos fazer tanto, mas continuamos, muitas vezes, a produzir com uma imaginação ecológica surpreendentemente pobre e insuficiente. (Grace, 2019; Hasselbalch & Larsen, 2026)

Talvez seja por isso que importa voltar a olhar para a natureza com mais atenção. Durante muito tempo, habituámo-nos a vê-la sobretudo como fonte de recursos e raramente a reconhecemos como fonte de inteligência e sabedoria. No entanto, os sistemas vivos ensinam outra relação com a matéria, com a energia e com os ciclos: quase nada existe em excesso, a forma ajusta-se à função e aquilo que parece terminar num ponto reencontra frequentemente utilidade noutro. É desta mudança de olhar que surge a biomimética: mais do que imitar formas naturais, procura aprender com a lógica do mundo vivo e perceber o que ela pode ensinar a uma cultura produtiva marcada pelo excesso e pelo desperdício. (Jatsch et al., 2023; Mead & Jeanrenaud, 2017)

A biomimética parte de uma ideia tão simples quanto exigente: a de que a natureza não é apenas algo que nos rodeia, mas também algo que nos pode inspirar e ensinar. Não se trata, porém, de copiar formas belas ou curiosas, como quem transporta para a técnica um repertório de imagens naturais. O seu alcance vai muito além disso: a biomimética procura compreender os princípios que tornam os sistemas vivos eficazes, adaptáveis e, muitas vezes, surpreendentemente económicos no uso da matéria e da energia. Nesse sentido, aprender com a natureza não significa reproduzi-la literalmente, mas sim interrogar a inteligência inscrita nas suas soluções. (Speck et al., 2022)

Ao longo de milhões de anos, a evolução funcionou como um vasto laboratório de experimentação natural. Sem plano prévio nem intenção consciente, foi testando formas, estruturas, processos e relações, conservando aquilo que melhor respondia às exigências da sobrevivência. É essa longa experiência do mundo vivo que torna a biomimética tão intelectualmente fecunda. Quando observamos uma folha que repele a água, uma teia que combina leveza e resistência ou um ecossistema onde nada se perde por completo, não encontramos apenas curiosidades da natureza: encontramos soluções para problemas. Talvez seja precisamente isso que torna a biomimética tão atual — a possibilidade de procurar, no funcionamento da vida, não um modelo a venerar, mas um conjunto de lições para pensar de outro modo a produção, o design e a sustentabilidade. (McNish & van Erp, 2025)

O que torna a natureza particularmente relevante num tempo de crise ecológica não é apenas a sua capacidade de invenção, mas o facto de essa invenção raramente se separar da contenção, da eficiência e do equilíbrio. Nos sistemas vivos, a abundância não nasce do excesso, mas da adequação: faz-se o necessário com os recursos disponíveis; ajusta-se a forma à função; reintegra-se, sempre que possível, aquilo que poderia parecer resto ou fim. A própria ideia de desperdício, tal como a entendemos nas sociedades industriais, encaixa mal na lógica dos ecossistemas. Aquilo que termina num organismo prossegue, muitas vezes, noutro processo, noutro ciclo, noutra forma de vida. Há aqui uma inteligência material que contrasta fortemente com a cultura do descarte que se tornou banal na modernidade. (Eilouti, 2026; McNish & van Erp, 2025)

Talvez seja essa uma das lições mais difíceis — e mais urgentes — que a natureza nos oferece. Durante demasiado tempo, a produção foi pensada quase exclusivamente em termos de rendimento, escala e velocidade. Produzir mais depressa, em maior quantidade e ao menor custo tornou-se, em muitos contextos, o critério dominante. Mas esse modo de pensar deixou frequentemente para segundo plano perguntas decisivas: o que se gasta para produzir? O que se destrói nesse processo? O que acontece ao que sobra? E por quanto tempo pode um sistema assente nesta lógica continuar a sustentar-se a si mesmo? A natureza, sem responder diretamente a estas questões, mostra pelo menos que outra racionalidade é possível: uma racionalidade em que eficiência não significa exploração máxima, mas uso criterioso; em que resistência não depende do excesso de matéria, mas da qualidade das relações entre forma, função e contexto. (Speck et al., 2022)

É neste ponto que a biomimética ganha verdadeira densidade. Inspirar-se na natureza não é apenas procurar soluções engenhosas para problemas técnicos isolados; é também aceitar o desafio de repensar os próprios critérios com que avaliamos a boa produção. Uma estrutura é melhor apenas porque é mais rápida de fabricar? Um material é mais eficaz apenas porque é mais barato? Um processo pode ser considerado inovador se produz, desde logo, resíduos difíceis de reintegrar? A observação do mundo vivo sugere que a inovação, quando desligada da circularidade e da economia de meios, permanece incompleta. Talvez produzir melhor implique, antes de tudo, aprender a produzir com mais atenção às consequências, aos ciclos e aos limites. (Eid & Al‐Abdallah, 2024)

Visto deste modo, a biomimética aproxima-se de uma ideia de sustentabilidade que vai além da simples redução de danos. Não se trata apenas de poluir menos, gastar menos energia ou substituir um material por outro menos agressivo, embora tudo isso seja importante. Trata-se de interrogar a lógica de fundo do que fazemos. A natureza não trabalha com a obsessão da acumulação; trabalha com equilíbrio dinâmico, adaptação e interdependência. E é também por isso que a biomimética pode ser mais do que uma fonte de inovação: pode tornar-se uma forma de corrigir a imaginação produtiva do nosso tempo. (Eid & Al‐Abdallah, 2024; Eilouti, 2026; McNish & van Erp, 2025)

Tudo isto se torna mais claro quando olhamos para alguns exemplos em que a observação da natureza abriu caminhos concretos à inovação. Um dos casos mais conhecidos é o da folha de lótus. A sua superfície, marcada por uma microestrutura particular, faz com que a água role levando consigo partículas de sujidade (Figura 1). O interesse deste fenómeno não está apenas na elegância do efeito, mas naquilo que ele sugere: a possibilidade de conceber superfícies que se auto limpam capazes de reduzir a necessidade de detergentes, manutenção intensiva ou consumo excessivo de água. A natureza não “limpa” como nós limpamos; impede, pela própria estrutura, que a sujidade adira com facilidade. Há, nesta solução, uma lição importante: por vezes, a sustentabilidade não depende de acrescentar mais processos, mas de pensar melhor a forma inicial. (Lebdioui, 2022)

Figura 1 – Planta natural de lótus e a morfologia das suas superfícies:
(a) folha de lótus; (b) imagem de microscopia eletrónica de varrimento (SEM) da folha de lótus; (c) demonstração do efeito de autolimpeza em superfícies superhidrofóbicas e superhidrofílicas: nas superfícies superhidrofóbicas, as gotas de água rolam e removem partículas devido ao elevado ângulo de contacto (>150°); nas superfícies superhidrofílicas, as partículas são removidas pela forte interação entre a água e a superfície.
(Adaptado de (Xu et al., 2016), com permissão da The Royal Society).

Outro exemplo frequentemente citado é o das patas do gecko, capazes de aderir a superfícies sem recurso a colas líquidas ou substâncias químicas agressivas (Figura 2). O que fascina, neste caso, é a conjugação entre delicadeza e eficácia: uma adesão forte e reversível, obtida através de uma organização microscópica extremamente sofisticada. A tentativa de compreender este mecanismo tem inspirado o desenvolvimento de materiais adesivos mais limpos e mais precisos. Mais uma vez, o que a biomimética recolhe não é apenas uma imagem da natureza, mas uma pergunta técnica: como aderir melhor sem recorrer a soluções mais pesadas, mais tóxicas ou mais difíceis de remover? (Hansen & Autumn, 2005; Liu et al., 2024; Xu et al., 2016)

Figura 2 – Hierarquia estrutural do sistema adesivo do gecko: (a) macroestrutura — gecko tokay (Gekko gecko) a subir uma superfície vertical; (b) mesoestrutura — lamelas adesivas visíveis na superfície ventral da pata; (c) microestrutura — conjunto de setas numa lamela; (d–e) nanoestrutura — seta individual com ramificações que terminam em múltiplas pontas espatuladas. (Adaptado de (Hansen & Autumn, 2005), com permissão da PNAS).

Talvez ainda mais expressivo seja o caso das térmitas e dos seus sistemas de ventilação. Certos termiteiros conseguem favorecer trocas gasosas e regulação térmica através da própria organização da estrutura, tirando partido de diferenças de temperatura, geometria interna e circulação de ar (Figura 3). Quando esta lógica é observada com atenção, torna-se uma fonte de inspiração para a arquitetura e para o desenho de edifícios mais passivos, menos dependentes de climatização artificial intensiva. Neste caso, a natureza recorda-nos algo que a arquitetura contemporânea muitas vezes esqueceu: antes de compensar tecnologicamente um problema, talvez seja sensato perguntar se ele não pode ser prevenido pelo próprio modo como o espaço é concebido(French & Ahmed, 2011; Goyes-Balladares et al., 2025)

Figura 3 – Anatomia da morfologia do monte de térmitas e da sua estrutura interna
(Adaptado de (Wei et al., 2023), MDPI, sob licença CC BY).

Poder-se-iam acrescentar muitos outros exemplos: estruturas inspiradas em favos ou em ossos, capazes de aliar leveza e resistência; materiais que procuram reproduzir a robustez de certas fibras biológicas sem repetir os custos energéticos da produção industrial convencional; sistemas de organização que aprendem com ecossistemas onde a cooperação, a interdependência e a circularidade substituem a lógica linear da acumulação. Em todos estes casos, a biomimética não aparece como ornamentação científica nem como moda conceptual. Surge, antes, como tentativa de deslocar o olhar: de passar da exploração da natureza para a aprendizagem com a natureza. (Eid & Al‐Abdallah, 2024; Eilouti, 2026; Lebdioui, 2022)

O mais interessante nestes exemplos é que todos eles apontam na mesma direção: produzir melhor não significa necessariamente acrescentar complexidade, nem desperdiçar menos depende apenas de impor restrições externas ao consumo. Em muitos casos, a verdadeira transformação começa antes, no desenho das coisas, na compreensão dos materiais, na relação entre estrutura e função e na capacidade de imaginar processos que nasçam já com uma inteligência ecológica incorporada. A natureza ensina precisamente isso: que a eficiência mais profunda raramente resulta do excesso e que a durabilidade não se opõe à elegância da solução.

Se os exemplos anteriores mostram a riqueza prática da biomimética, o seu alcance não se esgota, contudo, na resolução engenhosa de problemas técnicos. Há nela também uma mudança de atitude, talvez até de imaginação. Durante muito tempo, habituámo-nos a pensar a inovação como afirmação de poder: poder transformar mais depressa, produzir em maior escala, controlar melhor a matéria e corrigir pela técnica aquilo que a própria técnica ajudou a desequilibrar. A biomimética sugere uma possibilidade diferente. Em vez de partir da ideia de que a inteligência humana se basta a si mesma, convida-nos a reconhecer que há formas de saber inscritas no mundo vivo e que essas formas de saber merecem ser observadas com atenção, estudadas com rigor e traduzidas com discernimento. (Eilouti, 2026; McNish & van Erp, 2025; Speck et al., 2022)

Esta mudança não é menor e obriga-nos, desde logo, a abandonar a velha tentação de opor natureza e tecnologia como se pertencessem a ordens incompatíveis. A questão não é escolher entre um regresso idealizado ao natural e uma confiança irrestrita no artificial. A questão é perceber que a técnica pode tornar-se mais inteligente quando deixa de agir como se estivesse fora dos ciclos de que, na verdade, nunca saiu. A natureza não oferece modelos acabados nem respostas automáticas; oferece princípios, relações e economias subtis entre forma, função e contexto. Aprender com ela exige, por isso, não apenas criatividade, mas também humildade. Talvez seja justamente essa humildade que torna a biomimética intelectualmente interessante num tempo como o nosso. Num mundo habituado à aceleração, a biomimética recorda que compreender vem antes de intervir. Num sistema económico inclinado para a obsolescência e para o descarte, chama a atenção para a durabilidade, para a adequação e para a circularidade. Numa cultura que tantas vezes valoriza a novidade pela novidade, sugere que inovar não é romper com tudo o que existia antes, mas discernir, no que a vida foi lentamente afinando ao longo de milhões de anos, princípios que continuam a ter algo a ensinar-nos. Há aqui, no fundo, uma ética do olhar: ver melhor para fazer melhor. (Mead & Jeanrenaud, 2017)

É também por isso que a biomimética pode ajudar a deslocar a própria ideia de sustentabilidade. Demasiadas vezes, a sustentabilidade é entendida apenas como contenção de danos: consumir um pouco menos, reciclar um pouco mais, substituir um material por outro menos agressivo, sem que a lógica de fundo seja verdadeiramente questionada. Tudo isso tem importância, mas pode revelar-se insuficiente se a imaginação produtiva permanecer intacta nos seus pressupostos mais problemáticos. A biomimética, quando levada a sério, convida a um passo anterior e mais exigente: redesenhar processos, objetos e sistemas a partir de uma outra compreensão da eficiência, da matéria e dos ciclos. Neste sentido, a biomimética aproxima-se menos de uma técnica isolada do que de uma sensibilidade — uma sensibilidade menos extrativa, menos arrogante e mais atenta às formas de equilíbrio que a vida, silenciosamente, foi aprendendo a compor. Isso não significa, evidentemente, que a biomimética deva ser vista como solução universal para os impasses ecológicos do presente. Seria ingénuo transformá-la numa nova palavra mágica da inovação. Nem toda a solução inspirada na natureza é, por isso só, sustentável. Também aqui é preciso resistir à simplificação e à tentação de confundir inspiração com eficácia real. Além disso, a biomimética, por si só, não corrige os desequilíbrios de um modelo económico assente no crescimento ilimitado, na obsolescência e no consumo sem medida. Pode abrir caminhos importantes, mas não substitui escolhas políticas, culturais e éticas mais amplas. A sustentabilidade não depende apenas de desenhar melhor objetos e sistemas; depende também de repensar prioridades, ritmos e modos de habitar o mundo. Talvez seja esse o seu ensinamento mais importante: a biomimética não nos pede que abandonemos a técnica, nem que idealizemos o mundo natural, mas pede-nos algo mais exigente: reconhecer inteligência onde durante muito tempo vimos apenas recurso. Produzir melhor e desperdiçar menos exige, afinal, uma revisão mais profunda da imaginação com que desenhamos os objetos, os processos e os próprios critérios do progresso. (Eid & Al‐Abdallah, 2024; Lebdioui, 2022; Mead & Jeanrenaud, 2017; Speck et al., 2022; Xu et al., 2016)

Num tempo marcado pela urgência ecológica, talvez valha a pena escutar com mais atenção aquilo que a natureza há muito sabe fazer: usar com medida, ajustar com precisão, reintegrar com paciência. Não para a copiar servilmente, mas para aprender com ela. Talvez o futuro da produção não passe apenas por inventar mais, mas por observar melhor!

Referências Bibiográficas:

Eid, M. A. H., & Al‐Abdallah, G. (2024). Sustainable development through biomimicry: Enhancing circular economy practices for environmental sustainability. Sustainable Development, 32(6), 6045–6056. https://doi.org/10.1002/sd.3010

Eilouti, B. (2026). Biomimetics as an Interdisciplinary Approach to Integrating Sustainability into Architectural Design Education. The International Journal of Design Education. https://doi.org/10.18848/2325-128X/CGP/A312

French, J. R. J., & Ahmed, B. M. (2011). Biomimicry of Termite Social Cohesion and Design to Inspire and Create Sustainable Systems. In On Biomimetics. InTech. https://doi.org/10.5772/19350

Goyes-Balladares, A., Moya-Jiménez, R., Molina-Dueñas, V., Chaca-Espinoza, W., & Magal-Royo, T. (2025). What Inspires Biomimicry in Construction? Patterns, Trends, and Applications. Biomimetics, 10(5), 259. https://doi.org/10.3390/biomimetics10050259

Grace, J. (2019). Has ecology grown up? Plant Ecology & Diversity, 12(5), 387–405. https://doi.org/10.1080/17550874.2019.1638464

Hansen, W. R., & Autumn, K. (2005). Evidence for self-cleaning in gecko setae. Proceedings of the National Academy of Sciences, 102(2), 385–389. https://doi.org/10.1073/pnas.0408304102

Hasselbalch, J., & Larsen, M. (2026). Reimagining growth futures: Overcoming the false binary between green growth and degrowth. Ecological Economics, 240, 108823. https://doi.org/10.1016/j.ecolecon.2025.108823

Jatsch, A.-S., Jacobs, S., Wommer, K., & Wanieck, K. (2023). Biomimetics for Sustainable Developments—A Literature Overview of Trends. Biomimetics, 8(3), 304. https://doi.org/10.3390/biomimetics8030304

Lebdioui, A. (2022). Nature-inspired innovation policy: Biomimicry as a pathway to leverage biodiversity for economic development. Ecological Economics, 202, 107585. https://doi.org/10.1016/j.ecolecon.2022.107585

Liu, Y., Wang, H., Li, J., Li, P., & Li, S. (2024). Gecko-Inspired Controllable Adhesive: Structure, Fabrication, and Application. Biomimetics, 9(3), 149. https://doi.org/10.3390/biomimetics9030149

McNish, C., & van Erp, T. (2025). Biomimetics in sustainable manufacturing: Towards a new model for enhancing resilience. Next Research, 2(3), 100551. https://doi.org/10.1016/j.nexres.2025.100551

Mead, T., & Jeanrenaud, S. (2017). The elephant in the room: biomimetics and sustainability? Bioinspired, Biomimetic and Nanobiomaterials, 6(2), 113–121. https://doi.org/10.1680/jbibn.16.00012

Speck, O., Möller, M., Grießhammer, R., & Speck, T. (2022). Biological Concepts as a Source of Inspiration for Efficiency, Consistency, and Sufficiency. Sustainability, 14(14), 8892. https://doi.org/10.3390/su14148892

Wei, Y., Lin, Z., Wang, Y., & Wang, X. (2023). Simulation and Optimization Study on the Ventilation Performance of High-Rise Buildings Inspired by the White Termite Mound Chamber Structure. Biomimetics, 8(8), 607. https://doi.org/10.3390/biomimetics8080607

Xu, Q., Zhang, W., Dong, C., Sreeprasad, T. S., & Xia, Z. (2016). Biomimetic self-cleaning surfaces: synthesis, mechanism and applications. Journal of The Royal Society Interface, 13(122), 20160300. https://doi.org/10.1098/rsif.2016.0300

O “Ódio” é o Novo “Sexo”

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Comparar atitudes face ao ódio com as vitorianas face ao sexo choca: hoje o sexo é natural e o ódio maligno, mas há 150 anos era o oposto — ódio era comum e compreensível, e o desejo sexual era bestial, sujo e inadmissível. Mas nem um nem outro desaparecem só por serem banidos da esfera pública. Texto publicado originalmente no blog de John Michael Greer, aqui, em 2 de agosto de 2017. À data presente da sua re-publicação e tradução para português, Março de 2026, mantém-se não só perfeitamente actual, mas também com os seus pontos a ganharem cada vez mais razão.

Ocorreu-me, há dias, que existe uma curiosa desconexão entre uma das suposições mais comuns que a maioria de nós faz sobre como tornar o mundo melhor, por um lado, e os resultados que essa suposição tem produzido quando posta em prática, por outro. Lembra-me a percepção que levou James Hillman e Michael Ventura a intitular um livro outrora polémico: Tivemos Cem Anos de Psicoterapia e o Mundo Está a Piorar. Neste caso, como naquele, algo que supostamente deveria melhorar as coisas não parece estar a resultar — na verdade, acontece exactamente o oposto — e está na altura de falarmos sobre isso.

Conheces a suposição a que me refiro, caro leitor. É a convicção de que certas emoções humanas comuns são malignas, prejudiciais e erradas, e que a forma de criar um mundo melhor passa por eliminá-las de uma maneira ou de outra. Essa crença é aceite como evidente em toda a sociedade industrial do Ocidente moderno, e está solidamente instalada há muito tempo, embora — como veremos daqui a pouco — as emoções específicas assim rotuladas tenham variado ao longo do tempo. Neste momento, claro está, a emoção no centro desta galeria de patifes é o ódio.

Hoje em dia, o ódio desempenha aproximadamente o mesmo papel na cultura popular que o pecado original na teologia cristã tradicional. Se quiseres colar o rótulo mais horrível possível a uma organização, chamas-lhe grupo de ódio. Se quiseres empurrar uma categoria de discurso directamente para o reino do absolutamente inaceitável, chamas-lhe discurso de ódio. Se estiveres a falar em público e quiseres ter a certeza de que toda a gente na multidão te aprovará com um sorriso, basta denunciares o ódio.

No extremo mais exagerado desta retórica, surge o slogan oportunista usado pela campanha presidencial sem sucesso de Hillary Clinton no ano passado: LOVE TRUMPS HATE («O AMOR VENCE O ÓDIO»). Espero que nenhum dos meus leitores esteja iludido ao ponto de pensar que os apoiantes de Clinton eram motivados principalmente pelo amor, excepto no sentido do amor de Clinton pelo poder e do amor dos democratas pelos privilégios e pelos proveitos que esperavam de mais quatro anos de controlo da Casa Branca; e, claro, Trump e os republicanos estavam igualmente apaixonados pelas mesmas coisas. O facto de os publicitários e os grupos de foco de Clinton terem achado que aquele slogan teria impacto na eleição mostra quão generalizada se tornou a suposição que estou a discutir na nossa cultura.

Naturalmente, a maioria das pessoas hoje em dia, quando confrontadas com o tipo de coisas que acabei de escrever, tende a responder: «Espera, estás a dizer que o ódio é bom?» — como se as únicas alternativas disponíveis fossem condenar algo como absolutamente mau ou elogiá-lo como absolutamente bom. Vamos deixar de lado por agora essa reacção simplista e fazer uma pergunta diferente: o que acontece quando as pessoas decidem que uma emoção humana comum é maligna, prejudicial e errada, e concluem que a forma de criar um mundo melhor é eliminá-la?

Acontece que temos uma ideia muito clara do que se passa neste caso, porque um exemplo de primeira qualidade deste fenómeno completou finalmente o seu percurso histórico na fronteira da memória viva. O exemplo que tenho em mente é a atitude, predominante no mundo de língua inglesa desde meados do século XIX até meados do século XX, de que o sexo era a raiz de todo o mal.

O horror vitoriano pelo desejo sexual foi ridicularizado de forma tão impiedosa nas últimas décadas, e não sem razão, que muita gente parece ter esquecido quão seriamente era levado a sério na época. Durante o seu apogeu, as pessoas na Grã-Bretanha e na América proclamavam em voz alta exactamente as mesmas atitudes em relação ao sexo que os seus bisnetos agora exibem em relação ao ódio. Se quisesses definir algo como absolutamente inadmissível, bastava rotulá-lo de «imoral» — na gíria da época, isto significava «sexual» — e a grande maioria das pessoas era suposto reagir com horror. Pelo que sei, nenhuma campanha política da época usou o slogan PURITY TRUMPS IMMORALITY («A PUREZA VENCE A IMORALIDADE»), mas a propaganda política ainda não tinha degenerado no tipo de repetição vazia de palavras da moda que vemos hoje. O sentimento estava lá, sem dúvida.

A propósito, sim, sei que comparar as atitudes actuais em relação ao ódio com as atitudes vitorianas em relação ao sexo vai provocar uma reacção imediata de rejeição por parte de muitos dos meus leitores. Afinal, o desejo sexual é natural, normal e saudável, enquanto o ódio é maligno, prejudicial e errado, certo? Aqui, mais uma vez, é fácil esquecer que as pessoas de há um século e um quarto — muito provavelmente incluindo os teus antepassados, caro leitor, se viviam no mundo de língua inglesa — viam as coisas ao contrário. Para elas, o ódio era uma emoção comum que a maioria das pessoas sentia em certas circunstâncias, mas o desejo sexual era inadmissível: bestial, horrível, sujo, e assim por diante numa impressionante lista de adjectivos desagradáveis.

Era também algo que todas elas experimentavam. É aqui que a comparação começa a doer, porque insistir que o desejo sexual era bestial, horrível, sujo, etc., não o fazia desaparecer, nem o privava do seu papel substancial na motivação do comportamento humano. Apenas significava que as pessoas se tornavam hipócritas a esse respeito. Algumas fingiam que não existia. Outras insistiam que, em certos contextos rigorosamente definidos — por exemplo, dentro dos limites do casamento legal —, não era a mesma coisa, não, claro que não, como podias sugerir tal coisa horrível? Outras recorriam a qualquer uma das muitas escapatórias que permitiam fingir que não se estavam a excitar sexualmente nem a actuar em função dessa excitação, quando na verdade era exactamente isso que faziam.

É isto que acontece sempre que as pessoas decidem que uma emoção humana comum é inaceitável e insistem que as boas pessoas não a sentem. Surge uma cultura de fingimento, hipocrisia e evasão que lhes permite descarregar a emoção inaceitável em alvos aceitáveis sem admitir que o estão a fazer. Foi isto que surgiu na sociedade vitoriana quando as pessoas se convenceram de que o desejo sexual era a raiz de todo o mal, e é isto que surgiu no nosso tempo à medida que as pessoas se convenceram de que o ódio ocupa o mesmo lugar. Num sentido muito real, hoje em dia, o ódio é o novo sexo.

Se tiveres alguma dúvida sobre isto, caro leitor, observa a forma como as mesmas pessoas que há um ano ostentavam autocolantes com LOVE TRUMPS HATE falam hoje em dia de Donald Trump e dos seus apoiantes. Há algum tempo atrás, em Janeiro de 2016, quando previ pela primeira vez a vitória de Trump, salientei que, se quisesses ouvir um discurso de ódio realmente exagerado, bastava escutar um grupo de americanos abastados e confortáveis na bolha urbana bicolor falar dos americanos brancos da classe trabalhadora nos estados do interior. Isso tornou-se ainda mais verdade agora do que era então. Pega na retórica actualmente lançada por eleitores democratas abastados contra os apoiantes de Trump, substitui os rótulos étnicos por qualquer outro conjunto que escolhas, e terás dificuldade em distinguir isso dos delírios de qualquer outro grupo de fanáticos.

A dimensão de classe de toda esta retórica sobre o ódio é, aliás, uma das coisas mais reveladoras. Na era vitoriana, as classes privilegiadas definiam-se como as Boas Pessoas, as morais, virtuosas, puras — o que, na linguagem da época, significava as pessoas que não tinham desejos sexuais. Definiram, por conseguinte, os seus inferiores sociais como bestiais, horríveis, sujos — isto é, seres sexuais. Hoje em dia, o que define as Boas Pessoas mudou, mas o fanatismo de classe não; agora as pessoas privilegiadas afirmam ser as que não sentem ódio, e definem os seus inferiores sociais como fanáticos cheios de ódio. O comportamento relativo dos dois grupos, vale a pena repetir, não justifica exactamente esta alegação.

Aliás, observa a forma como os média americanos e as classes privilegiadas deste país passaram os últimos nove meses completamente obcecados com a pessoa de Donald Trump. Na minha memória — e tenho assistido à tomada de posse de novos presidentes desde os tempos de Richard Nixon —, nunca vi uma preocupação tão obsessiva com alguém que, afinal, é apenas um funcionário eleito. Lembra-me, para ser preciso, a maneira como os puritanos vitorianos viajavam quilómetros de comboio para ficarem chocados e ofendidos com alguma exibição de sexualidade — e gostaria de sugerir que, neste caso como naquele, o choque e a ofensa são vestes finas que cobrem de forma muito imperfeita uma massa fervilhante e suada de desejo não admitido.

Na cidade onde vivo, se passares por bairros frequentados pela ponta mais à esquerda da população, podes contar com ver autocolantes nos postes de iluminação que mostram o rosto do presidente e o slogan TRUMP HATES YOU («TRUMP ODEIA-TE»). Estritamente falando, isto é absurdo — duvido que Donald Trump tenha sequer conhecimento da existência das pessoas que colocam e veem esses autocolantes, e nem precisamos de falar da probabilidade de ele sentir alguma emoção particular em relação a elas —, mas noutro sentido é profundamente revelador.

Quando as pessoas não querem lidar com uma emoção que estão a sentir, uma escapatória muito comum é insistir que não a estão a sentir — não, é aquela pessoa horrível ali que a está a senti-la, em relação a elas. Na era vitoriana, essa escapatória funcionava a todo o vapor, à medida que pessoas incapazes de lidar com o facto de terem sentimentos sexuais os projectavam nos outros, e depois rotulavam os outros de bestiais, horríveis, sujos, etc., por supostamente terem esses sentimentos. A mesma coisa está a acontecer aqui. As pessoas que fazem e colocam esses autocolantes não podem simplesmente dizer EU ODEIO TRUMP — essa admissão condená-las-ia, aos seus próprios olhos, à categoria de Más Pessoas de uma vez por todas —, por isso projectam o seu próprio ódio na pessoa que odeiam, e convencem-se de que é ele que as odeia.

Repara, além disso, como isto alimenta a fascinação absoluta com que tantas pessoas na ponta mais à esquerda do espectro político se agarram a cada palavra e acção de Donald Trump. Vista através do espelho deformante das suas emoções projectadas, pelo menos, ele é o equivalente a um casal nu a fazer sexo pervertido mesmo no meio da rua. Está a representar a fantasia mais querida delas, odiando outras pessoas em público — como poderiam desviar o olhar? Na prática, colocaram um apóstrofo no slogan de Clinton, transformando-o em LOVE TRUMP’S HATE («AMO O ÓDIO DE TRUMP») — e, em segredo, nas horas silenciosas da noite, fazem-no mesmo.

Esse é o problema de pegar numa emoção humana comum e insistir que tem de ser eliminada para tornar o mundo perfeito. Torna algo proibido e torná-lo-ás desejável. Pega num estado emocional humano normal, que toda a gente experimenta, e torna-o proibido, e garantirás que o desejo de violar o tabu ganhará um poder avassalador. É por isso que, depois de passarem os dias sujeitos ao policiamento omnipresente do tom da vida contemporânea, em que cada declaração é escrutinada à procura do mínimo vestígio de algo que alguém algures possa interpretar como odioso, tantas pessoas no mundo de hoje vestem pseudónimos na internet e vão a fóruns online onde podem desabafar absolutamente tudo. Fazem-no exactamente no mesmo espírito em que os homens vitorianos iam a bordéis e as mulheres vitorianas marcavam encontros secretos com jovens cavalariços musculados.

Nem, se a história servir de guia, o regresso do reprimido se limitará por muito tempo a expressões tão clandestinas. A repressão sexual vitoriana, afinal, acabou por dar origem à Revolução Sexual, que oscilou para o extremo oposto com igual falta de equilíbrio. Da mesma forma, a tentativa actual de reprimir o ódio poderia facilmente dar origem a uma Revolução do Ódio, em que as pessoas se deliciariam no ódio da mesma forma que os libertinos dos anos 60 e 70 se deliciavam no sexo. A retórica idêntica de libertação, de ser natural, de lançar fora o colete de forças de uma moralidade ultrapassada, serviria igualmente bem para ambos.

Poderá surpreender alguns dos que leram até aqui o facto de eu não favorecer esta última possibilidade. O oposto de uma má ideia é, afinal, normalmente outra má ideia; o facto de morrer de sede ser mau para ti não torna afogamento bom para ti; quer estejamos a falar de sexo ou de qualquer outra coisa, há um espaço algures entre «pouco» e «demasiado», entre repressão patológica e expressão igualmente patológica, que é consideravelmente mais saudável do que qualquer um dos extremos. Vou arriscar fazer com que os meus leitores mais sensíveis agarrem os sais e desmaiem no sofá mais próximo, ao estilo vitoriano autêntico, ao sugerir que o mesmo se aplica ao ódio.

Todos o sentimos, sabes, e sabes que mais? Por vezes é apropriado. Há acções cometidas por seres humanos contra outros seres humanos que merecem uma resposta mais robusta do que o tipo de evasivas melíflua aceitáveis hoje — «Oh, isso é tão triste», ou «Tenho a certeza de que ele não queria fazer isso», ou «Não é justo julgar», e por aí fora, toda a palhaçada vazia com que se espera que finjamos que as acções não têm consequências e as pessoas não têm responsabilidade pelas suas decisões. Pelo contrário, há acções que merecem ser condenadas, juízos que precisam de ser feitos, e indivíduos e ideias para os quais a chama quente da fúria ou o gelo cru do ódio são, de tempos a tempos, respostas apropriadas.

Significa isto que todo o ódio, e toda a expressão de ódio, é apropriada? Claro que não. O ódio é como o sexo; há certos momentos, lugares e contextos em que é apropriado, mas há muitos, muitos outros em que não é. Podes reconhecer o seu lugar na vida sem teres de o representar em todas as ocasiões — e, na verdade, quanto mais consciente estiveres do seu lugar na vida, quanto mais completamente o reconheceres e lhe deres o devido, menos provável será que te apanhe desprevenido. Isso aplica-se ao sexo, e aplica-se ao ódio: o que recusas reconhecer controla-te; o que reconheces, podes aprender a controlar.

Fazer isto envolve, claro, desafiar alguns imperativos culturais muito enraizados. É uma das pressuposições básicas da nossa cultura que devemos tornar-nos perfeitos, e a forma de nos tornarmos perfeitos, dizem-nos, é amputar qualquer parte de nós que nos impeça de ser perfeitos. Os últimos mil e seiscentos anos ou mais de filosofia moral no mundo ocidental têm sido dedicados a este tema: encontrar a coisa que nos torna maus, encontrar uma forma de a cortar, e então todos nos comportaremos como santos de gesso. O simples facto de nunca resultar ainda não abrandou a profusão interminável de tentativas de o voltar a tentar.

A mesma lógica aplica-se em campos muito distantes da moralidade. Pensa na forma como as pessoas na América pensam sobre a comida, para citar apenas um exemplo. Todas as modas de dieta dos últimos trinta anos se fixaram em identificar algum alimento ou grupo alimentar específico como o mal encarnado, e insistiram que, se o amputasses da tua dieta, então poderias contar com saúde perfeita e a forma corporal que por acaso estivesse na moda no momento. Mais uma vez, o simples facto de nunca resultar não impede as pessoas de correrem atrás do próximo exemplo, porque a fé cega de que a bondade exige amputação é tão inquestionada no nosso tempo.

Se sempre fizeres o que sempre fizeste, diz o ditado, sempre terás o que sempre tiveste. A busca da perfeição através da automutilação não funciona; é tão simples quanto isso. Demos-lhe todos os testes possíveis ao longo dos séculos, e está dolorosamente claro que mais uma variação sobre o mesmo tema equivocado não vai mudar o veredicto. Talvez, só talvez, esteja na altura de tentar algo diferente para variar.

Que tal isto? Em vez de perfeição, totalidade.

Os seres humanos nunca vão ser perfeitos, não se perfeição significa a amputação de alguma parte da experiência humana, seja qual for o membro que está a ser cortado — os nossos instintos sexuais, os nossos instintos agressivos, ou qualquer outra parte de quem e do que somos. Em vez disso, podemos ser totais. Podemos aceitar a nossa sexualidade, seja ela qual for, e entrelaçá-la no padrão das nossas vidas individuais e das nossas relações com outras pessoas de formas que sustentem os valores que prezamos e produzam o máximo de alegria e o mínimo de dor desnecessária para o maior número possível de pessoas. Isso não significa agir sempre os nossos desejos — em alguns casos, pode significar nunca os agir. O que significa é que fazemos a escolha nós próprios, em vez de a entregar a algum automatismo ou outro imposto pela cultura popular.

Da mesma forma exacta, podemos aceitar os nossos ódios, sejam eles quais forem, e entrelaçá-los no padrão das nossas vidas individuais e das nossas relações com outras pessoas de modo que a sua energia potente sirva para defender as coisas e as pessoas que valorizamos. Isso não significa que devamos expressar o nosso ódio em todas as ocasiões — aqui também pode significar nunca o expressar. Significa reconhecer que o ódio é tanto parte de ser humano quanto o amor, e encontrar um lugar para ele entre todas as outras emoções que inevitavelmente sentimos.

Significa, em última análise, desistir da fantasia de que podemos tornar-nos mais do que humanos ao tornarmo-nos incompletos. Ao aceitar a nossa própria natureza em toda a sua riqueza e complexidade contraditória, e ao encontrar uma utilidade para tudo o que vem com ser humano, talvez possamos parar de cometer os mesmos erros vezes sem conta, e fazer algo um pouco menos idiota com o nosso tempo na Terra.

Investigação mandada pelos Bispos de Lamego e Coimbra aos milagres de Santa Isabel

O documento que vos apresento hoje não é do conhecimento geral, por isso achei por bem passá-lo na íntegra.

Trata-se de uma investigação, mandada fazer pelos Bispos de Lamego e Coimbra, aos milagres de Santa Isabel, isto no ano de 1336, passavam onze anos da sua morte. Veja-se. 

“Em Nome de Deus, que é Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Saibam quantos este instrumento virem e ler ouvirem que vinte e seis dias do mês de julho da Era de Mil Trezentos E Setenta E Quatro anos, no Mosteiro de Santa Clara a par da Cidade de Coimbra, onde jaz o corpo santo bem-aventurado da mui Nobre Senhora Rainha D. Isabel que em este mundo fez muito bem pelo amor de Deus e por isso recebe Dele bom galardão, presentes o honrado Padre e Senhor D. Frei Salvador, pela mercê de Deus e da Santa Igreja de Roma Bispo de Lamego, e D. Isabel de Cardona, Abadessa do dito Mosteiro, e Frei João Pais, visitador do dito Mosteiro, em presença de mim, Martim Afonso, público tabelião pela autoridade de Nosso Senhor El-Rei na dita Cidade e em seus termos, e das testemunhas que adiante são escritas, Pedro Esteves, Prior da Igreja de S. Pedro de Óbidos do Bispado de Lisboa, disse que a ele era dito por certo por muitas pessoas que Deus fizera mercê a Catarina Lourenço, freira do dito Mosteiro, em dor que havia pela Rainha D. Isabel, e o dito Pedro Esteves pediu ao dito Senhor Bispo e à dita Abadessa e ao dito visitador que fizessem vir perante si a dita Catarina Lourenço, e que a constrangesse que dissesse a verdade da mercê que lhe Deus fizera pelo rogo que ela fizera à dita Senhora Rainha para se pôr em escrito para não esquecer aos presentes e aos que depois deles viessem. E logo o dito Bispo e a dita Abadessa e o dito visitador disseram à dita Catarina Lourenço, freira do dito Mosteiro, que pela obediência que lhe era teúda e prometera a guardar que dissesse a verdade da mercê que lhe Deus fizera à Senhora Rainha Dona Isabel e que o dissesse perante eles e perante mim, dito tabelião, então, a verdade. E a dita Catarina Lourenço respondeu e disse que, por Deus e pela ordem que tinha e obediência a que era teúda, que ela diria então a verdade. E que a verdade era por esta guisa do que a ela aconteceu: que ela que tinha um lobinho [lipoma] no olho sestro [direito] e que ela, vendo e considerando o bem que sempre ouvira dizer que a Rainha D. Isabel fizera pelo amor de Deus e o que lhe ela vira fazer, e outrossim o bem e a mercê que Deus fazia aos coitados que iam onde o corpo da dita Senhora Rainha jazia, que ela no seu coração filhara devoção que rogasse ao corpo Santo da dita Rainha que rogasse a Deus por ela que lhe houvesse mercê à conta e dor que ela havia no dito olho, pois havia a vista muito embargada. E disse que, pondo ela fé em Deus que Ele lhe daria saúde no dito olho por amor da dita Rainha, porque tantos milagres mostrava que ela que em essa oração se achava guarida e sã do dito lobinho e que havia toda a sua vista sã como a antes havia e que mostrara logo o dito olho são à dita Abadessa e às freiras do dito Mosteiro que viram e sabiam a dor que ela nele havia. E que Deus assim lhe fizesse mercê ao corpo e à alma como ela dizia a verdade do que lhe acontecera. Das quais coisas sobreditas o dito Pedro Esteves pediu a mim, dito tabelião, que lhe desse então um instrumento. Testemunhas que presentes foram: os ditos Bispo e Frei João Pais e o Prior de Guimarães e Francisco [—] que foi da dita Rainha, Lourenço Pais clérigo do dito Bispo e outros [—] dita Era no dito Mosteiro a par do moimento onde jaz o corpo [—] Senhor Bispo e Abadessa e Estêvão Dade Prior [—] pessoas. Em presença de mim, sobredito tabelião, e das testemunhas que adiante são escritas, chamados e rogados o dito Senhor Bispo pelo dito Prior de Guimarães, fez jurar aos Santos Evangelhos Domingas Domingues, moradora em S. Filipo, que dissesse a verdade do bem e da mercê que lhe Deus fizera à conta e pressas que havia. Ela respondeu e disse, pelo juramento que fez a Deus e aos Santos Evangelhos, que não sabia bem certo em que tempo comera ou bebera uma sanguessuga nem por que guisa, mas que passava por oito dias e mais que lhe saíam grandes gorgoçadas de sangue pela garganta e que não podia saber certo o que era. E que alguns lhe diziam que era de alguma má dor que em si trazia e outros que lhe diziam que era de alguma sanguessuga que trazia, e que lhe disseram que fosse à Fonte de Alfafar, que a verdade que faz lançar as sanguessugas às coisas que a trazem, e disse que ela fora à dita fonte e que bebera da água dela e sendo a par dela, e que não lhe prestava nenhuma coisa. E disse que lhe disseram depois que fosse a par de Penela, ao Barco que chamam de Valeiro, e que bebesse da água dele e que, se sanguessuga fosse, que logo lhe sairia. E disse que foi ao dito Barco e que lhe não prestara nenhuma coisa e que em meio a isto que lançava tanto sangue que cuidava bem ela e os que a viam que não havia em ela senão morte. E disse que lhe disseram as gentes que viesse a S. Brás de Coimbra e que lhe poriam conselho à tal conta e que ela que viera aí e que houvera a par do seu Altar e que nunca lhe prestara. E disse que lhe disseram que fosse aos Mártires do Mosteiro de S. Cruz e que fora a eles e que bebera da água deles e que nunca lhe prestara. E disse que lhe disseram que fosse a S. Maria da Parede da Igreja de S. Bartolomeu e que lhe poriam conselho, e que ela que fora lá e que lhe não valera coisa. E depois que lhe disseram que fosse a S. Clara ao moimento onde jaz o corpo Santo da Rainha D. Isabel e que lhe poria conselho como punha a muitos outros. E disse que ela, com grande conta e com grande pressa da morte, que se viera meter só seu moimento da dita Rainha, e que lhe pedira de coração e de vontade que rogasse a Deus por ela, que lhe pusesse conselho à grande conta que havia. E disse que jazendo ela assim sob o moimento, lançando muito sangue que sentira vir bolindo pelos narizes, e que lhe viera apontar a sanguessuga à venta direita e que lha filharam e louvaram todos o nome de Deus. E que pegaram a dita sanguessuga e que a penduraram ali onde se ia bolindo. E que assim lhe Deus houvesse mercê ao corpo e à alma que assim passara tudo de feito. Das quais coisas sobreditas o dito Senhor Bispo pediu a mim, sobredito tabelião, que lhe desse então um instrumento sob meu sinal. Testemunhas que foram presentes: o dito Prior de Guimarães e Mestre Geraldo, físico, Cónegos de Coimbra e Frei João Pais, Gonçalo Esteves, Capelão da dita Rainha, Francisco Lourenço, Candeeiro, Francisco Esteves, Reposteiro, que deram de si fé e testemunho que estavam presentes quando lhe a dita sanguessuga saíra pela dita venta. A qual dita sanguessuga eu, dito tabelião, vi ser pendurada viva há bem dois dias e outro muitos. A rogo do Senhor Bispo, escrevi aqui meu sinal”.

Para acabar com o mito de que o embargo a Cuba é a raiz de todos os males

Hoje é dia de acabar com o mito de que o embargo a Cuba é a raiz de todos os males. Com factos e números, imagine-se, vou provar que os nossos camaradas comunistas andam a comer gelados com a testa. Há décadas!

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Primeiro ponto, Cuba não está isolada do mundo. Tu que já foste lá de férias mamar umas piña coladas tens obrigação de saber isso.

O embargo dos EUA não é um bloqueio naval nem uma proibição mundial de comércio.

É apenas e só:

A proibição de empresas americanas negociarem livremente com Cuba

Um conjunto de restrições financeiras ligadas ao sistema bancário dos Estados Unidos

Limitações a exportações específicas dos Estados unidos para Cuba.

Aliás, mesmo com o embargo, os EUA mantêm exceções para alimentos, medicamentos, dispositivos médicos e produtos agrícolas, muitos dos quais são regularmente exportados pelos próprios Estados Unidos para Cuba.

Não há por isso nenhum embargo que impeça a querida Espanha, ou Venezuela, China ou outro de ter relações comerciais com Cuba.

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Então vamos lá! Balança de pagamentos. Só está até 2020, embora o documento oficial cubano seja relativo ao ano de 2024 (sim, eu deixo sempre as fontes no final das threads, no worries).

A tabela mostra a balança de pagamentos de Cuba entre 2017 e 2020 e revela três coisas muito simples sobre a economia cubana.

Primeiro, Cuba tem um enorme défice no comércio de bens. Importa muito mais do que exporta. O saldo negativo ronda 7 a 9 mil milhões de dólares por ano. Isto significa que o país depende fortemente do exterior para comprar combustíveis, maquinaria, alimentos e outros bens essenciais.

Segundo, esse buraco é compensado pelos serviços, que geram grandes entradas de divisas. Entre 2017 e 2019 a balança de serviços traz para Cuba entre 9 e 11 mil milhões de dólares por ano. Aqui entram sobretudo turismo e exportação de serviços profissionais, como as missões médicas.

No conjunto, a conta corrente foi positiva até 2019, mas em 2020 passou para défice (-529 milhões USD), essencialmente por causa do colapso do turismo durante a pandemia.

A leitura é clara, Cuba não vive das exportações de bens; vive de serviços e de transferências externas para financiar as suas importações.

Nota deliciosa, as contas são apresentadas em dólares americanos!

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Ah e tal, estão a matar à fome o povo cubano com o embargo. Não estão, infelizmente Cuba produz pouco, exporta pouco, e tem um desiquilibrio com o exterior insustentável.

Esta tabela é das mais úteis para desmontar a conversa do embargo queisola Cuba.

Ela mostra exportações, importações e saldo comercial de mercadorias ao longo dos anos E a leitura é muito simples.

Cuba continua a importar massivamente do resto do mundo.

Em 2024, por exemplo:

Exportações: 1 474 milhões USD

Importações: 8 071 milhões USD

Ou seja, Cuba comprou ao exterior 5 vezes mais do aquilo que vendeu.

Se existisse um verdadeiro bloqueio económico, isto seria impossível.

O saldo comercial é estruturalmente negativo.

Em 2024 o défice foi (-) 6 596 milhões USD.

Isto significa que Cuba depende do exterior para se abastecer de alimentos, combustíveis, maquinaria e bens industriais.

Mais uma vez, um país que importa 8 mil milhões de dólares por ano não está isolado do mundo.

Isto não é recente. Desde os anos 80 que o padrão é sempre o mesmo.

Cuba importa muito mais do que exporta.

Por exemplo:

1985 → défice de –2 mil milhões

2008 → défice de –10,5 mil milhões

2015 → défice de –8,3 mil milhões

2023 → défice de –7,3 mil milhões

Ou seja, o problema não é falta de comércio.

O problema é outro.

Cuba vende pouco ao mundo e compra muito.

Cuba não está bloqueada.

Cuba está dependente das importações.

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Partilho quadro das relações comerciais externas de Cuba por país, onde não falta, claro, Portugal com os seus 83 milhões de €.

O maior parceiro comercial? A China.

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Fontes de informação:

PART 515—CUBAN ASSETS CONTROL REGULATIONS

https://www.ecfr.gov/current/title-31/subtitle-B/chapter-V/part-515

ANUARIO ESTADÍSTICO DE CUBA 2024

https://www.onei.gob.cu/sites/default/files/publicaciones/2025-09/05-cuentas-nacionales_aec2024.pdf

Em conclusão: Há décadas que nos vendem a fábula do embargo que estrangula Cuba, como se a ilha estivesse cercada por uma frota americana a impedir que um saco de arroz entrasse no porto de Havana. Depois abre-se a contabilidade oficial e descobre-se um país que importa milhares de milhões por ano de meio mundo, da Europa à Ásia, passando pela América Latina, e até dos próprios Estados Unidos.

Ou seja, comércio há. O que não há é produção que se veja.

Mas em Portugal a cangalhada do PREC prefere continuar a repetir os mesmos slogans dos anos 70 enquanto ignora números e factos.

O problema nunca foi o embargo. O problema é bem mais simples, e bem mais incómodo para quem vive de mitologia ideológica, quando o Estado manda em tudo, ninguém produz nada.

Depois, pronto, chamam-lhe bloqueio.

Cuba representa hoje o Portugal de 2011 sem a ajuda financeira da Troika ( sim, Cuba não é membro do FMI). Falida. Sem dinheiro, sem produção, na miséria.

Suponho que é este o modelo que os anti-troika / anto- Passos queriam para Portugal. Suponho, não, tenho a certeza.

Você é um fascista; e outras desumanizações do esgoto neo-realista

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PARTE 1

António Alçada Baptista orgulhava-se de haver metido uma lança em África por Almada Negreiros. A edição de Nome de Guerra, volume dois das “Obras Completas de Almada Negreiros” (1994), da Imprensa Nacional, agraciou-a com um prefácio. Que republicou na íntegra em A Pesca à Linha – Algumas Memórias.[1] Num livro posterior, A Cor dos Dias, Alçada Baptista voltaria aos encómios: “Entre os escritores portugueses, devo confessar a minha preferência pelo Almada Negreiros e o seu Nome de Guerra. É o romance contemporâneo português de que mais gosto não só pela escrita mas sobretudo porque é um livro que põe em questão tudo o que em português se escreveu sobre o amor”.[2] A grandeza deste romance, proclamada por Jorge de Sena e José-Augusto França, é altamente discutível, se tivermos em conta que foi escrito em 1925 e publicado, numa colecção dirigida por João Gaspar Simões, em 1938, ou seja, o período do romance modernista que começa no ano de Os Moedeiros Falsos e Mrs. Dalloway, passa por O Processo, continua com O Som e a Fúria e Viagem ao Fim da Noite e termina no annus mirabilis de Náusea, Desespero e Murphy. Se o romance de Almada é a resposta nacional ao romance modernista, mais não faz no meio desta ilustre companhia que acentuar a tibieza do romance português.

Curiosamente, era o péssimo estado do romance português que afligia Alçada Baptista, para quem a leitura de Nome de Guerra teria feito maravilhas aos portugueses: “Porque não se deu atenção àquela sua escrita o nosso neo-realismo foi uma literatura académica e fastidiosa que pouco tinha de criador.”[3] No prefácio, Alçada Baptista quase que reduziu a novidade deste romance no tratamento da relação amorosa entre o homem e a mulher, a qual, antes de Almada, desempenhara apenas uma existência secundária. Para demonstrá-lo, num bosquejo da história do romance português sintetizou as atitudes de Eça de Queiroz (as mulheres são putas ou donas de casa) e dos literatos ligados à revista presença (os intelectuais vão às putas mas falam e não fodem). Esta caricatura selectiva tem muito que se lhe diga. Porquê começar por Eça, ignorando os sentimentos nobres dos amores em Camilo, ainda muito lido em 1925? E porquê desfigurar os presencistas? Elói, o protagonista do epónimo romance de Gaspar Simões, passa a narrativa a debater-se com o amor autêntico que sente por uma mulher culmina, que culmina num discurso pensado para a conquistar. Em Nome de Guerra, pelo contrário, a personagem feminina é literalmente uma prostituta.

Por fim, Alçada Baptista falcoou a verdadeira presa: “O neo-realismo, tão pronto a comover-se com a má fortuna dos explorados, não resistiu, através de um dos seus mais ilustres representantes, a dizer que ‘ela surgia no cimo do monte qual potra bravia’ e, no romance do militante surge-nos esta cena edificante: ele chega a casa extenuado pela luta antifascista. A companheira tem-lhe o jantar pronto e, enquanto ele come, abraço-o pelas costas insinuando o seu desejo. Ele, só com o olhar, fá-la compreender que está estafado por causa das tarefas importantíssimas que anda a fazer e não está disponível para essas banalidades. Ela, cheia de espírito de sacrifício, compreende e ‘quase lhe pede desculpa de ser mulher’.”[4]

A esta injúria tê-la-ia lambido como um sundae o meu eu de há dez anos, tão automática era a minha antipatia pelo neo-realismo. Hoje em dia a minha primeira reacção é dizer de mim para mim que nunca dei de caras com esta caricatura nas páginas de Casa da Malta, Aldeia Nova, Casa na Duna, Gaibéus, Os Caminheiros, Histórias de Amor, O Dia Cinzento. Fuga, de Faure da Rosa, relata o processo por que uma mulher infiel decide viver sozinha mas independente. Aliás, passei as duas citações incriminantes – ‘ela surgia no cimo do monte qual potra bravia’; ‘quase lhe pede desculpa de ser mulher’ – no Google Books e as duas fontes que me devolveu foram… as memórias de Alçada Baptista e a edição da Imprensa Nacional em que saiu o prefácio de Alçada, em 1984. É edificante como o contacto directo com os textos nos ajuda a detectar patranhas.

Outras reflexões enchem-me a cabeça. A suposição, partindo da premissa mais ou menos consensual hoje em dia de que os neo-realistas formaram um bloco inconsútil de maus romancistas, de que a leitura de Almada os teria salvo. Mas, sendo isso verdade, nesse caso porque é que os neo-realistas não foram “salvos” pelas leituras de Ernest Hemingway, Erskine Caldwell, John Steinbeck, Pearl S. Buck, André Malraux, Romain Rolland, Jules Romains, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, que penso estarmos de acordo estão vários furos acima do Almada romancista? Ao longo do século XX, apesar da importação dos expoentes máximos do realismo socialista, existencialismo, nouveau roman, surrealismo, realismo mágico, MFA, etc., não deixou de haver émulos incapazes de fazer mais do que imitação académica, fastidiosa e magra em calorias criadoras. Alçada Baptista haveria de sabê-lo melhor do que ninguém, visto que a sua editora, a Moraes, publicou demasiados. Porquê reduzir os fracassos do romance português aos neo-realistas?

Poderíamos dizer que aos neo-realistas não interessou ler Almada porque os propósitos muito claros que reservavam ao romance saíam fora dos interesses de Almada. Os neo-realistas escreviam para denunciar problemas sociais e sugerir reformas. Cerromaior, que inclui um entrecho amoroso, de facto relata a ida de homens a prostitutas, mas seria estranho que escritores acicatados por um pendor reformista não denunciassem o que julgavam ser um flagelo social a precisar de remédio.

Outras perguntas assomam ao céptico. Ler Nome de Guerra fez bem a que escritor português nos últimos 90 anos? Ou mais pertinentemente, alguém sequer leu Nome de Guerra? Não é difícil encontrar proclamações colossais sobre Almada. Eis Saramago a embaraçar-se: “Para mim, Almada Negreiros é o responsável pela segunda grande revolução estilística da nossa língua e da nossa literatura. A primeira foi a do Garrett, com as Viagens na minha terra, e a segunda foi a do Almada Negreiros com o Nome de Guerra.”[5] Mais tramado é localizar na obra de Saramago a menoríssima marca da influência de Nome de Guerra no tocante a técnicas literárias, premissas, enredos, afinidades entre personagens, preocupações sociais, pontuação, sintaxe. Bem, Saramago situou alguns romances em Lisboa, mas então mais valia dizer que Eça foi influenciado por Almada. Outro escritor, um atento leitor do romance do seu tempo, que afirmou sem rebuço ter lido Nome de Guerra foi Vergílio Ferreira, que emitiu um julgamento mais implacável e justo. No exemplar que existe na biblioteca dele (Lisboa: Edições Ática, 1956, 2.ª edição), rabiscou: “vindo directamente de A Capital do Eça. Repensar”; e “(1938) Ambiente é o do Curvelo do Eça, ou do Palma Cavalão, Eusebiozinho (Maias). Isto é o Eça menor (A Capital) com pequenos fogachos de piruetas que são Pessoa em ponto pequeno. E lugares comuns caract. à Balzac (acumular de pormenores). Piada mole, com o ‘mal murcho’”. E por fim: “Desejo aqui deixar uma declaração que considero este livro um livro medíocre. J. A. França considera-o único romance do séc. XX. Deve-se ter cansado de procurar outros. Almada é aqui – e em tudo – um aldrabão de feira. Sem génio pº aldrabar em grande estilo. O trunfo da ‘originalidade’: desarticular um acto ou situação simples ao modo [ilegível] do ‘cubismo analítico’.”[6] Este juízo pode ser rebatido, mas isso não invalida a desproporção entre os elogios a Nome de Guerra e o rasto que não deixou minimamente na história da ficção portuguesa.

Mas passará quase despercebida a parte mais insidiosa da afirmação no que tem de possível insinuação de crimes sinistros: “Porque não se deu atenção àquela sua escrita”. Porque não se deu atenção. Mas, e porque não? Entramos no campo da especulação. Demasiado avançado para os portugueses? Poupa-me, Gaspar Simões e Régio andavam a ler Proust. Porque era um autor desconhecido? Por favor, era o Almada Negreiros, o último membro vivo do trio orfista. Terá havido então um encobrimento? Um abafamento premeditado? Se houve, não foi da Censura, que o deixou circular ao contrário dos outros 3000 livros proibidos. Tampouco dá para apontar o dedo aos presencistas, ou não tivesse Gaspar Simões sido crucial em resgatar o manuscrito da gaveta. Nesse caso, terão os neo-realistas orquestrado o apagamento de Nome de Guerra? Porquê? Por ordens de quem? Com que fim?

Lembra-te, estamos no campo da especulação. Sempre é possível que eu esteja a projectar suspeitas sobre uma frase inócua. Mas não será isto mais um exemplo da Ditadura Neo-Realista?

Sendo os mitos estórias que nos ensinam coisas acerca de como o mundo funciona, o mito da Ditadura Neo-Realista ensina-nos, nas palavras de um dos seus crentes, João Pedro George, que durante a ditadura do Estado Novo houve uma corrente literária que exerceu “supremacia na literatura, com muitas e decisivas ligações no meio cultural – a esquerda, em particular via neo-realismo, dominava os meios culturais, tinha tomado conta dos jornais, das editoras, da distribuição e atribuição de prémios, da fabricação da fama e do prestígio”.[7] Os neo-realistas comporiam o braço acanetado do PCP, espingardeando a sua ideologia através de contos e poesias. Traduziam as ordens do DORL, se não do Kremlin. E, intolerantes, vergastavam os profanos. Propagar que os neo-realistas detinham o poder para obstar é justamente o tipo de coisa que um crente na Ditadura Neo-Realista faria, convencido da sua razão. Um sintoma do mito é o insinuar que não havia outras correntes literárias passíveis de receber os benefícios de Nome de Guerra, como se os comunistas tivessem exterminado todos os culaques no seu caminho.

Que interesse teria um católico liberal mas anti-comunista, outrora capaz de servir de intermediário numa possível aliança entre o PS e o CDS, e antes disso autor das Conversas com Marcello Caetano, em espalhar caricaturas de adversários mortos e enterrados há muito? Quando saiu A Pesca à Linha, em 1998, o oblívio deles avançava imparável, com obras rapidamente deslizando para o fundo do esquecimento geral como um líquido num saco de lixo. Que moinhos de vento estava ele a chuçar com a lança? Alçada Baptista lembra-me os congressistas norte-americanos que trinta anos após o colapso da URSS ainda interpretam o mundo contemporâneo pelo prisma da Guerra Fria. No caso de Alçada Baptista, o prisma estacionou nas tensões entre católicos progressistas e oposição comunista. Como se em 1998 houvesse ainda em Portugal uma poderosa força comunista que o assustasse. A esta distorção grosseira do passado dá-se o nome de propaganda. E espera-se dum intelectual o dever de primar pela tentativa de transmitir um modelo da verdade o mais próximo possível dos factos. Mas em prol de quem ou do quê estaria ele a fazer propaganda, quando em 1998 o neo-realismo já deixara de interessar aos escritores crescidos em democracia?

Dez anos antes nem eu saberia que não há nada de particularmente original em afirmar que o amor, ou as relações amorosas, tiveram um papel marginal na ficção neo-realista. Uma fonte remota desta tese encontra-se no ensaio “Uma literatura desenvolta ou os filhos de Álvaro de Campos” (1966), da autoria de Eduardo Lourenço e publicado na revista O Tempo e o Modo, talvez não por coincidência fundada pelo próprio Alçada Baptista. É um ensaio apinhado de apressadas conclusões e entretecido das habituais afirmações infundadas de Lourenço.[8] Está certo que em tempos recuados, quando o movimento comunista se espalhava, a militância suplantava o amor. Um colaborador da revista Sol Nascente explicava em 1937 o objectivo do estudante universitário tocado pelo “novo humanismo”: o diploma não servia para ganhar bem mas constituía uma etapa para espalhar a cultura. No âmbito das relações entre os dois sexos, isso imcumbia-os de esclarecer as colegas. “Estabelecer como base das relações entre rapazes e raparigas a camaradagem a lealdade, a confiança mútua e a amizade, destacando o ridículo dos flirts, dos namoros, dos galanteios cinéfilos.”[9] Houve, nesta fase, uma equiparação do sexo com a classe burguesa. Afonso Ribeiro imaginava um “imaginário camponês” observando um “senhor verdadeiro da cidade” nestes termos:

“Como quem se oferece, ao passarem algumas mulheres bonitas olhavam para ti. Nesses instantes uma alegria presumida alastrava-se-te na face calma, e levado não sei porque reacção íntima, deitavas o peito para fora duma maneira incompreensivelmente provocadora.

Segui a pensar no que eras. Qualquer coisa de estranho se revolvia dentro de mim. Simpatia? Não, meu irmão, dó.”[10]

Esta superioridade moral advinha da necessidade de se mostrar uma alternativa à cultura burguesa que priorizava o hedonismo dos privilegiados em detrimento do sofrimento das massas. Não havia namoradas, havia companheiras de luta, adiando o amor para o dia após a vitória. Contudo, num estudo sobre o neo-realismo, Margarida Losa analisou que o amor despertou interesse em Alves Redol.[11]

Não faltavam motivos pessoais para desvalorizar o neo-realismo a Lourenço, Vergílio Ferreira ou António José Saraiva, dissidentes dum movimento a que haviam dado as suas esperanças. Lourenço esteve envolvido até 1949. Vergílio, até 1959. Saraiva, até à sua ida para o estrangeiro, no começo dos anos 60. Feitas as dissidências, dedicaram-se, durante a ditadura, a cobrir de opróbrios a ideologia estética outrora festejada. Tanto se penitenciou Saraiva que, em fim de vida, esteve à beira de fazer a apologia de Salazar.[12]

Alçada Baptista, que não precisou de se penitenciar por nenhum erro de que nunca fez parte, pregava uma visão pitoresca da ditadura: “Acho que a sociedade portuguesa não era especialmente mais injusta do que aquelas que estavam fora do pequeno surto industrial que assomou na Europa. Cada sociedade europeia lá ia vivendo com os seus específicos e anónimos instrumentos de opressão do triste ser humano que continuava a ser vigarizada com a tal ‘gloriosa marcha da humanidade a caminho da sua libertação’.”[13] (À primeira vista dá a impressão de se referir aos países soviéticos, mas esses industrializaram-se mais cedo do que Portugal, por isso o seu alvo é um tanto ambíguo. O que não é ambíguo é o leve branqueamento do Estado Novo.)

No atinente à evolução do tratamento das relações amorosas na “Nova Literatura”, ao passo que Lourenço laureava Agustina Bessa-Luís, a esse palmarés Alçada Baptista tentou ganhá-lo para Almada. Tirando esta discrepância, um e outro concordavam que o obstáculo ao desenvolvimento da ficção portuguesa fosse o neo-realismo. A persistência em tal alvo permite-nos afirmar (à revelia do mito duma Oposição unida contra o fascismo) que muitos entendiam, ou vieram a entender posteriormente, que à ficção portuguesa do pós-guerra era menos imperativo florescer contra o Estado Novo do que contra o neo-realismo. O bombástico desta proposição desinchará como um balão com um relance aos três grupos literários competindo com os neo-realistas por espaço: surrealistas/abjeccionistas, novo-romancistas e existencialistas.

Os surrealistas/abjeccionistas – Mário Cesariny, Luiz Pacheco et al – passaram mais tempo a bandarilhar o neo-realismo do que a erguer-se como uma ameaça contra a ditadura, que descontraidamente absorveu os produtos os seus expoentes, inclusive a alegoria anti-salazarista que foi O Grande Cidadão de Virgílio Martinho. No começo dos anos 60, Cesariny, António Maria Lisboa e Alexandre O’Neill estavam todos editados na editora Guimarães, pertença de Maria Leonor Guimarães, mulher do salazarista Francisco Cunha Leão, Agente Geral do Ultramar. Em Poesia (1944-1955), Cesariny até incluiu uma paródia neo-realista, “Nicolau Cansado”. Em vão se lhe procura poesia frontalmente crítica da ditadura.

O nouveau roman teve vários progenitores, nenhum mais aguerrido do que Alain Robbe-Grillet no seu intransigente separo entre cidadão com preocupações cívicas e sociais e escritor blindado a obrigações e responsabilidades humanitárias. As suas proclamações contra literatura politicamente engajada, populares internacionalmente, foram atenuadas pelos imitadores nacionais, Artur Portela Filho e Alfredo Margarido, que porém tentaram provar que o novo-romance era a continuação lógica do neo-realismo, suplantando-o sem negar a missão do “novo humanismo” marxista.[14] Contudo, num romance de Portela Filho, O Código de Hamurabi, uma personagem exulta que “o neo-realismo teve a sua idade de ouro” e faz troça dos neo-realistas com pretensões a evoluírem o seu estilo, notando que a “viragem psicologista do neo-realismo é tardia” depois “de Freud, de Proust e de Kafka, depois de Poe, depois de Katherine Mansfield, agora, durante a experiência do ‘nouveau roman’.”[15] E outro membro do grupo novo-romancista, Mário Dias Ramos, inventou n’O Logro uma caricatura neo-realista, o poeta Bernardo Apolo, autor de Flor Estagnada, que fulmina com chavões um aderente do novo-romance: “Você é um reaccionário, percebe? Você é um fascista! Vocês são todos uns fascistas reles lá com esse novo romance! Vocês nunca chegarão a fazer a terça parte o que nós fizemos. Ouviu? Nós somos escritores úteis. A nossa poesia é útil. Os nossos romances são úteis. Lutamos contra a opressão e pela liberdade. E aí reside a nossa consciência, a nossa perenidade, ouviu?…”[16] Os torcionários a soldo da Ditadura Neo-Realista devem ter dormitado neste dia. (Dias Ramos, funcionário da RTP salazarista, nunca se atreveu à mais leve crítica à ditadura, que deixou O Logro circular desafogadamente). Facto curioso, a primeira editora a reunir estes três romancistas sob a rubrica da “nova vaga” foi a Guimarães, a supracitada difusora dos poetas surrealistas, que, supostamente, sofriam os obstáculos da cabala neo-realista em obter editoras.

Falar dos existencialistas é falar de Vergílio Ferreira. Que, em posse duma mente filosoficamente inclinada, vinha de há muito tempo claudicando na sua adesão ao neo-realismo. O primeiro passo no afastamento deu-se com Mudança, em 1949, ao que se seguiu uma década pejada de reconsiderações e tentames. Manhã Submersa, retratando a vivência dum aluno num seminário, já parecia um retrocesso (ou progresso) em direcção aos presencistas, mas Óscar Lopes ainda conseguiu treslê-lo como um aperfeiçoamento do neo-realismo,[17] muito precisado de calar com obras excelentes os detractores que insistiam em acoimar o movimento de primário e didáctico. Em 1957, as Edições Vértice, ligadas à revista do mesmo nome que fazia as vezes de órgão oficial do neo-realismo, ainda editou a Vergílio Do Mundo Original, ensaio de flagrante índole existencialista, partes do qual reapareceriam daí a dois anos, trabalhadas, em Aparição. Com este romance Vergílio não perpetrou uma dissidência, contaria mais tarde, mas alargou o “humanismo económico” da primeira fase, exclusivamente materialista, de modo a abranger um “humanismo integral”. Seja como for, em Aparição os neo-realistas aparecem nas cores truescas dos bacocos intelectuais eborenses que se auto-baptizam Comité de Salvação Nacional, fanaticamente anti-religiosos e anti-metafísicos à maneira jacobina dos positivistas republicanos do tempo de D. Carlos. No seio destes “progressistas” paralisados no tempo aterra Alberto Soares, cujas boas novas da nova concepção do homem atraem apenas o escárnio e a incompreensão de humanistas que nada vêem para lá do problema económico e do materialismo. (No país então mais pobre da Europa “livre”, possível atenuante com que o autor não se preocupou de todo.) Em Vergílio, que repetidamente mencionou o abre-olhos que foi a leitura de Escolhi a liberdade: a vida privada e política de um funcionário soviético, de Victor Kravchenko, a obsessão em dialogar com (contra) os neo-realistas (visto que não dava para “dialogar” com a ditadura, isto é, criticá-la), mas sempre através do prisma da desilusão com o activismo político, culminou em Nítido Nulo (1971), alegoria das purgas de intelectuais em ditaduras de esquerda, narrando os dias finais de um intelectual condenado à morte por um regime ao qual serviu, numa clara alusão à Revolução Francesa, com laivos dos Julgamentos de Moscovo dos anos 30. Em ’71 estava fresca na memória o esmagamento da Primavera Checa (‘68), que por arrasto trouxe de novo à baila a invasão da Hungria (‘56). Com toda a liberdade, este romance circulou nos anos marcelistas e chegou inclusive a ser traduzido na Espanha franquista, porque propaganda anti-comunista deste quilate nem o jornal Época se lembrava de fazer, e, que bónus, vinda das hostes “progressistas”.

Uma pessoa não consegue ler Cesariny, Portela Filho e Vergílio sem ficar com a impressão de que as suas vidas foram mais prejudicadas pela existência dos neo-realistas do que pela medievalização do fascismo português.

Esta concentração plurifacetada de esforços anti-neo-realistas talvez fizesse sentido então, apesar de eu concordar com Losa que o neo-realismo estivesse moribundo desde 1955. Mais surpreendente é o facto de um movimento por que quase ninguém dá nada hoje em dia, sobretudo na Universidade, ainda se erguer como um poderoso espectro que assombra a história da literatura portuguesa, o dragão que é preciso matar no seu covil para salvar a aldeia. Assim sendo, a historiografia literária apoquenta-se muito com uma idiossincrasia inaugurada penso que com “Uma literatura desenvolta”: uma gincana jogada entre diversas Equipas para apurarem qual delas descobre o exacto momento em que o advento duma obra singular marcou a obsolescência do neo-realismo. É por demais consabido que Lourenço concedeu o título à Sibila, mas rapidamente respondeu Nelson de Matos com a tentativa de adiantar o crédito à Equipa da geração dele, Nelson.[18] Além da primazia da resposta, Matos não merece ser lembrado por nenhuma outra razão, e o seu contributo não foi tido nem achado por quem veio a seguir. Mas accionou uma produtiva máquina.

Liberto Cruz, dez anos mais velho do que Matos, oscilou entre a Equipa Ruben A. e a Equipa José Cardoso Pires. Num ensaio de ‘70, “Viragem no romance”, defendeu que a Nova Literatura nascera oficialmente em 1949 por obra e graça do Páginas I de Ruben, proeza ungida e coroada cinco anos depois por Caranguejo.[19] Dadas as opções, esta escolha é justíssima.

Com mais solavancos e sacoleões tem viajado a candidatura de Pires. Em 2002, Ana Paula Arnaut, contrariando a Equipa Agustina, propôs que a Nova Literatura nasceu em 1968 graças a tudo quanto haveria de metaficcional, formalista e pós-modernista em O Delfim, corte radical com o anterior registo realista de Pires, vincando assim mais uma vez que a Nova Literatura só podia nascer sob o signo da rejeição do neo-realismo primitivo (conotado com o pré-modernismo).[20] Contudo, em José Cardoso Pires (1972), Cruz já achara excessiva generosidade em si para alucinar nos contos realistas e tecnicamente simplórios de Os Caminheiros (1949) um estilo radicalmente diferente que “reage violentamente contra o neo-realismo de extracção populista.”[21] Afinal a Equipa Pires faria pandã com a Equipa Ruben em levantar no ar a Taça ’49. O senão irrelevante é que os contos de Pires enfrentam dois contratempos: 1) não se distinguem tecnicamente em nada de contos neo-realistas oriundos dos finais dos anos 30; e 2) são tecnicamente primários comparados com a ficção anterior de Régio, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e Tomaz de Figueiredo.

De fora desta competição ficou a Equipa Vergílio porque nem Mudança (1949) é tão distinguível da ficção neo-realista da época para fiat-luxar por si só uma Nova Literatura, nem Aparição chegou antes dum candidato mais merecedor, o supradito Caranguejo. O nível de amuo que ausência dele de “Uma literatura desenvolta” causou entre os paladinos da Equipa Vergílio pode ser aferido por um desabafo de Luís Mourão: “Sempre me intrigou que Eduardo Lourenço, no seu conhecido artigo «Os filhos desenvoltos de Álvaro de Campos», não tivesse englobado VF nisso a que chamava a «nova literatura portuguesa», um VF, note-se, que já tinha escrito Aparição, Estrela Polar e Alegria Breve.”[22] O erro de Mourão foi ter pensado que a Lourenço importavam questões de justiça e de mérito intrínseco, ou sequer de factores cronológicos que exigiriam averiguar, rigorosamente, quem, de facto, fez o quê primeiro. Mas Lourenço exibiu o critério único com muita transparência: Vergílio nasceu em 1916 e o célebre ensaísta queria engrandecer exclusivamente autores de 1920 para a frente, isto é, a geração do próprio Eduardo Lourenço, nado em 1923. Tão ridículas foram as exclusões de Ruben A. e, até, de Jorge de Sena.

Ao darmo-nos conta deste padrão, desta busca pelo neoliterato (o termo é meu) que quebrou a “ditadura” neo-realista exercida sobre a literatura portuguesa (que nunca houve), no qual cada estudioso martela na história o seu predilecto, sem atender a rigorosos critérios ou respeito por factos, torna-se-nos mais fácil entender uma das muitas manigâncias de Lourenço ao seleccionar Agustina para esse título que ele julgava mui honroso. Recorrendo às datas de edição, Caranguejo e A Sibila são ambos de 1954. A um estudioso focado em aferir qual o romance mais tecnicamente avançado, no contexto português da altura, isto forçaria um duelo no qual A Sibila perde de imediato por falta de quaisquer inovações temáticas e formalistas em relação ao romance português dos 70 anos precedentes. Ciente deste empecilho, como o resolveu o nosso agustinómano? Simples, fez contar o surgimento de A Sibila não a partir do ano de edição mas do ano em que concorreu ao Prémio Delfim Guimarães. Tecnicamente, o manuscrito existia em ‘53, ou não teria ido a concurso, evidentemente. Mas quando datamos Os Maias, reportamo-nos a 1888, não a 1877, que é quando aparece a primeira referência na correspondência de Eça de Queiroz. Isto são práticas elementares em qualquer parte do mundo. O normal é contarmos a partir do ano de impressão, quando não da distribuição. Contar o nascimento dum livro a partir do ano em que concorreu a um prémio é uma originalidade de Lourenço, sinónimo de desespero. Tudo para embargar uma primazia a que Ruben tem direito.

Excepto que esta falcatrua intelectual não altera as conclusões dum cotejo entre os dois romances. Ainda que A Sibila tivesse estivesse à venda um ano antes, a sua falta de inovação temática e/ou técnica esmaece-lhe os méritos frente a Caranguejo. Lourenço resolveu este berbicacho de somenos contradizendo-se a si próprio. Se, como ele proclamou, uma das marcas da Nova Literatura é a desenvoltura a respeito das relações amorosas, A Sibila não merece lugar na lista, uma vez que Quina é uma criatura totalmente assexuada. Julgo que ninguém é capaz de acreditar que Agustina imaginou Quina possuindo uma cona, muito menos vontade de foder. Das duas vezes que li A Sibila fui incapaz de visualizar a Quina fazendo aquilo que um homem mais quer duma namorada: que se ponha de joelhos, abra-lhe a braguilha e faça-lhe a benfeitoria dum bico para esvaziar o balão à beira dum burnout depois dum dia stressante no escritório. A vontade de Quina está totalmente subordinada a uma obsessão muito típica da aristocracia provinciana: partilhas, heranças, dinheiro. A questão que a atormenta é: quem vai ficar com a quinta na qual ela gastou a vida de modo a que a propriedade possa prosperar para gerar mais lucro, que convinha ficar sob controlo da linhagem dela? O dilema da frígida Quina não é escolher entre dois amantes mas entre dois herdeiros: um “filho” adoptivo e uma sobrinha. Surpreendente se Quina, agindo contra as expectativas, tivesse deixado a propriedade a um estranho. Mas, fiel aos tiques da classe, Quina escolhe o sangue do seu sangue, provando assim a verdade que Lourenço tentou ofuscar: que Agustina, na sua ânsia de retratar realisticamente o comportamento da nobreza rural, está profundamente comprometida com a verosimilhança, apanágio da corrente realista/naturalista fundada por Eça em 1871. Foi nesse ano, não é errado dizê-lo, que A Sibila realmente foi gerado.

Quão diferente Caranguejo! Esta é, efectivamente, uma história de amor, amor moderno, infeliz, entrecortado por silêncios e incomunicação. Caranguejo, através da sua estrutura temporal invertida, narra um casamento em declínio, recuando desde a desilusão e arrependimento de “ela” (sem nome), passando pelo casamento, namoro e chegando por fim ao nascimento dos protagonistas. Caranguejo ilustra perfeitamente a posição de Lourenço postulada em Heterodoxia II: “Os pares heróicos ou amantes estendem em vão os braços sob a certeza absoluta das separações e não há amor em romance de sucesso contemporâneo – seja Hemingway ou Graham Greene ou Mauriac – que não seja um breve luar equívoco.”[23] Mas se esta deve ser uma característica obrigatória da história de amor da Nova Literatura, então Caranguejo é muito mais pioneiro do que A Sibila, até pela simples tecnicalidade de que Agustina nem fez comparecer no ringue uma “relação amorosa”.

Mas a Nova Literatura era “desenvolta” também no campo formalista, na linguagem, na heterodoxia das estruturas romanescas. Neste campo, Caranguejo novamente bate A Sibila a pontos por muito. A Sibila exibe uma sintaxe sinuosa, metáforas belas, observações certeiras, ou seja, prosa nem melhor nem pior do que a prosa de vários outros romancistas portuguesa da época, mas estruturalmente é um romance oitocentista que aterrou no século XX como se Agustina nunca tivesse contactado com Joyce, Proust, Kafka, Woolf, Faulkner, etc. Tenho as minhas dúvidas de que estivesse devidamente inteirada de Eça sequer. As famosas digressões, a abertura de novos subenredos até ao fim e a entrada incessante de personagens, que tanto deslumbram os estudiosos como se fosse uma afronta ao romance canónico, provêm das rocambolices do folhetim. Os Mistérios de Lisboa, que Camilo foi buscar a Eugène Sue, o Tom Clancy do Oitocentos, Agustina esmerilhou para lhe dar feições mais “literárias” (menos pistoladas, menos raptos, menos revelações dramáticas de identidade, etc.), mas o processo é o mesmo. Descontando essa irrelevante enxertia do folhetim, Agustina especializou-se em dominar as convenções do romance realista, no qual um narrador omnisciente conta linearmente o nascimento, aventuras e morte do protagonista. Tal e qual já se fazia no tempo de Flaubert, se não no de Defoe. A Sibila é pastiche ou imitação competente do romance bem-feito, produto dum workshop de escrita criativa, tudo no devido lugar, pulso firme nas técnicas raquíticas, muito elegante mas banal. Se a Agustina se tivesse matriculado num curso de escrita criativa de João Tordo, teria apresentado ao senhor professor um trabalho final intitulado A Sibila, e o João ter-lhe-ia dado 15 valores e o encorajamento para persistir no bom caminho, um dia e com sorte talvez também fosse um Prémio Saramago como ele.

Quanto a Ruben, desembaraçar-se da linearidade clássica para contar uma história às arrecuas fez de Caranguejo uma obra insólita entre seus contemporâneos. Na melhor tradição de Garrett e Brandão, Ruben hibridiza géneros (um capítulo está em forma de diário) e narradores, alternando entre narrador omnisciente e primeira pessoa. Num país onde ou se minimizava o vocabulário ou se faziam rebuscas de termos regionais e arcaicos, Ruben aventurou-se em neologismos. O tom muda rapidamente entre o sério, o melancólico e o nonsense. Num dos momentos mais audazes da narrativa, o narrador retrocede até ao momento do Big Bang, produzindo um dos passos mais delirantes do romance português. Nada desta exuberância foi comunicado ao leitor por Lourenço, receoso de deslustrar o bronze da Sibila.

Esta enviesada história do romance português chegou intacta até aos nossos dias graças a esbirros como Alçada Baptista e às suas “memórias”, que indirectamente difundem a caricatura dum neo-realismo tirânico de que o país teve de ser salvo por Agustina e outras antiqualhas estéticas que caíssem no goto de Lourenço. Isto não é invulgar. As memórias de José-Augusto França são esclarecedoras por fixarem Mário Dionísio no papel do “então líder máximo da ortodoxia do movimento.”[24] O relaxamento dele teria sido tardio, propiciado pela morte de Estaline, em 1953, a partir de que altura o seu antigo mestre, Jdanov, “podia já ser comparado a Hitler.”[25] Excepto que antes dessa data Dionísio já pensava um neo-realismo sem proibições estéticas. Um dos primeiros teóricos da estética neo-realista, Dionísio foi expulso do PCP, em 1952, por, entre outras coisas, ter defendido a liberdade do artista em escolher o caminho estético que mais lhe aprouvesse.[26] Nessa decisão terá pesado a posição dele numa assembleia dos ‘Amigos da Vértice’, em Agosto, onde se opôs à vertente que queria uma revista mais ortodoxa.[27]

Em 1952, também, travou-se nas páginas da Vértice a chamada polémica da “ponte abstracta”. O poeta João José Cochofel pegou na expressão “engenheiros de alma”, usada por Estaline para designar escritores revolucionários, e notando que, se a um engenheiro se espera, antes de construir uma ponte, que estude para passar a dominar a ciência de construir pontes, então a um artista é expectável que estude a arte antes de comunicá-la ao público. Cochofel queria dizer que aos neo-realistas não bastava comunicar ideias e denúncias sociais, era imperativo fazer boa arte. Mas como um treino artístico tenderá para uma complexificação da arte, ao público competirá um papel activo em educar-se para compreender a arte.[28] Na réplica, Saraiva, ultrajado, censurou Cochofel por estar a carregar o público do ónus de compreender a arte quando a obrigação do artista social era ser simples e claro.[29] Nesta fase da vida, Saraiva estava no pico do seu jdanovismo, ferrenhamente leal ao realismo socialista e qualquer avo de formalismo se lhe afigurava blasfemo. Daí a dois anos depois, Dionísio publicou outra defesa do formalismo, “O sonho e as mãos”.[30] Saraiva reapareceu com um artigo paródico, gozando com os engenheiros (artistas) que passam mais tempo a palrar abstrusamente sobre “pontes abstractas” (teoria artística) em vez de construir uma ponte utilitária (comunicar ao nível do público) e depois reprovam o camponês (público) por não entender o importante trabalho deles.[31] Se restavam dúvidas de que havia em curso uma querela entre formalistas e conteudistas, foram postas de parte quando a Vértice publicou um extenso artigo de António Vale, ferozmente condenando Fernando Pessoa e José Régio, arte pura, arte abstracta, subjectivismo e formalismo, apelidando a arte burguesa de decadente e instando os artistas a não abandonar a “ideia da função social da arte”. (O que para Cochofel e Dionísio nunca foi uma opção.) Se acrescentarmos que António Vale era o pseudónimo do comunista Álvaro Cunhal, cumprindo pena no Forte de Peniche, vemos que Saraiva atraía aliados com ideias muito extremas.[32]

Contudo, Saraiva, em tempos um inflexível jdanovista, no começo dos anos 60 renegou o neo-realismo e mudou-se para Paris. Lá travou amizade com José-Augusto, professor na Sorbonne, que ficou com boas impressões do “meu companheiro pelas ruas e em últimas reuniões de fim de festa”.[33] O pecado jdanovista dele, ao contrário do de Dionísio, foi perdoado. Talvez, especulo, porque Saraiva se tornou inimigo público do neo-realismo ao passo que Dionísio, divergindo sem dissidir dos seus valores, continuou a acreditar no engenho e técnica dentro dos objectivos originais duma arte politicamente comprometida. (O que não é irreconciliável, evidentemente, como o comprovam Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro e José Saramago.) Tão bem se deram os dois que, em Maio de 1975, José-Augusto, recém-eleito presidente do Centro Nacional da Cultura, o convidou a participar num ciclo de seis conferências feitas entre Maio e Junho de 1975. Saraiva palestrou acerca de “repressão”.[34] Curiosamente, “repressão” é a palavra final dum livro dele, Ser ou não ser arte (1973), que fecha com um ensaio onde é desconstruída a frase de Estaline, “O escritor é um engenheiro de almas” (na qual piamente acreditou por anos a fio, facto omitido no dito ensaio), que a Saraiva agora se lhe afigurava um programa totalitário:

“Pelo contrário, na parábola do engenheiro, que aliás não é parábola, há uma única matéria, uma massa homogénea e inerte que se desenvolve não segundo a natureza da sua liberdade, mas segundo o plano dos tecnocratas. Concepção evidentemente absurda, e até impensável, mas grata ao espírito humano, cuja principal ambição é reduzir tudo a um princípio único de explicação, transformar todo o sujeito em objecto e substituir a espontaneidade pela execução de um plano concebido por uma máquina de pensar.

Nada mais grandioso: é o extremo limite da repressão.”[35]

José-Augusto podia ficar descansado: jdanovista este já não era.

PARTE DOIS

O ano de 2021 providenciou um espectacular episódio da Ditadura Neo-Realista. Enquanto que Bruno Vieira Amaral era amplamente aclamado pela sua biografia de José Cardoso Pires, eu reparava no silêncio do Público, Expresso, Diário de Notícias, Ler e JL acerca do achincalhamento a que o neo-realismo foi sujeito.

Deveria uma biografia servir para reiterar lugares-comuns? Ou deveria aproveitar a ocasião para desmontá-los? No meu entender, qualquer texto que aborde o passado deve procurar dar-nos um modelo o mais fidedigno possível do que esse passado foi. Mas isto era hagiografia. Nada me indispõe contra hagiografias. Estou disposto a admitir que houve santos. Mas não nas Letras, essas pertencem a demónios.

Uma forma de fazer hagiografia em literatura envolve incompreender o papel “pioneiro” de autor X em relação ao seu tempo. Amaral debitou todos os lugares-comuns acerca de um autor ímpar que revolucionou o neo-realismo em 1949. Através de uma série de asserções infundadas, Cardoso Pires fazia figura de pioneiro e não de mero seguidor de tendências que o antecediam. Em defesa de Amaral, estava apenas a papaguear o consenso; daí o não ter havido resistência à biografia. Em vez de se atirar às fontes primárias, Amaral requentou um conhecimento aprendido em ensaios sobre ensaios sobre ensaios. Ao longo do livro era claro o seu alheamento de Seara Nova, Presença, O Diabo, Sol Nascente, Gleba, O Globo, Altitude, Síntese, Pensamento, Vértice e outras revistinhas literárias desses tempos com as quais é indispensável o contacto directo para ajuizar se Pires inovou ou obedeceu. Para quem conhecer bem a literatura portuguesa dos anos 30, 40 e 50 e estiver a par dos calorosos debates sobre fundo e forma, materialismo v. idealismo, psicologismo v. behaviorismo, Pires foi um produto neo-realista típico do seu tempo. Em 1968, apareceu pela primeira vez na sua bibliografia um livro que se poderia dizer inovador dentro do neo-realismo, e ainda assim apenas porque teóricos como Dionísio passaram a década anterior a lutar pelo direito dum neo-realista a fazer O Delfim. Ironicamente, nos anos 50 Pires escolheu o campo jdanovista.[36]

Mais alarmante foi a tentativa, tão comum hoje em dia, de separar José Cardoso Pires do movimento neo-realista. Na impossibilidade de o fazer, o consolo é lembrar que Pires foi um neo-realista fora de série, singular, heterodoxo. Segundo Amaral, Pires “nunca foi, desde o primeiro livro, o neo-realismo básico, preguiçoso e sentimental, de propensão lírica e pitoresco etnográfico”. É aqui que entra o prazer malévolo do revisionismo: eu sei que Amaral acredita nisto porque é nisto que a Universidade portuguesa monoliticamente acredita. Mas eu já li a minha quota-parte de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Faure da Rosa, Fernando Namora, Mário Dionísio, e tenho perfeita noção de que entre Os Caminheiros, Histórias de Amor, O Anjo Ancorado e O Hóspede de Job e os outros não há diferença em termos de técnicas ou linguagem.

Óscar Lopes, excessivamente generoso com os companheiros neo-realistas, encontrou em Histórias de Amor “uma mestria formal a exigir doravante aos nossos contistas que ainda invariavelmente precisem de um ou dois parágrafos de preparação, no início de cada história ou até de cada peripécia.”[37] Estaria a referir-se a começos rápidos como ao do conto “Os Caminheiros”:

“António Grácio disse:

– Porca de vida.

O companheiro continuou com a cabeça levantada sempre no mesmo sentido e exclamou, batendo com a bengala branca no alcatrão:

– O gajo prometeu que vinha, Tóino?

– Sei la. Em casa não está ele. Só se foi prà cidade.”[38]

Tirando o facto de isto ser verbalmente penoso, até o mais sicofântico dos fãs de Pires tem de conceder que esta secura em nada lhe dá supremacia sobre anteriores contos de outros neo-realistas. Consideremos o romance Plano Inclinado, dividido em capítulos com tanta autonomia que parecem contos. Eis o começo de “Intervalo”:

“Joana fez uma troixa com os farrapos sujos e depois passou-os à filha:

-Pega

Maria ia a sair. A mãe recomendou-lhe:

Agora vê lá se lavas isso em ordem.”[39]

Ou então “Hora de folga” do livro de contos Povo:

“Ana Pega chegou à rua e disse:

-Jesus, como estou cansada!

-Também eu…, respondeu a Caramilo, dando um ai.

-Não sentes fome?

-Uma fome de comer pedras!

-Tal e qual. Parece-me que era capaz de comer um boi inteiro! Desde o almoço que andei com o sentido numas papas, que ficaram esperando por mim na panela.”[40]

Ou “A nuvem”:

“-Hoje vens cedo!, exclamou a senhora Antónia, da porta da cozinha.

-Ela não respondeu: empurrou o pequeno portão de ferro e foi entrando, o tabuleiro vazio debaixo do braço.”[41]

Um conto de Maria Raquel Silva Pinto era já assim despachado em 1937:

“Por onde se desencaminhara a maldita?

Corcéis em arrebatado tropel, os olhos do pastor mediam monte de raiz a cume, trepando a fraga, varrendo córrego, cheios de desolação.”[42]

Uma pessoa tem de sorrir das inanidades hiperbólicas de Liberto Cruz: “Fugindo a contar uma história, na forma habitual, ele contava-a de forma muito pessoal (e de que maneira!) pondo na fabulação e na sua factura, um processo novo e excitante com a possibilidade de levar o leitor a considerar como não terminada a história que ele, efectivamente, não queria, nem estava interessado em contar.”[43] Um “critico literário” que, claramente, nunca se deu ao trabalho de analisar os contos dos primórdios do neo-realismo.

Na falta de exemplos desta diferença, Amaral repetiu na íntegra a lengalenga de que Pires era diferente (leia-se melhor) dos outros neo-realistas brasilófilos graças à influência recebida dos norte-americanos (pelos vistos, se tomares Hemingway como Mestre em vez de Jorge Amado, tornas-te um ás da prosa espontaneamente).[44] As raízes anglo-americanas da arte de Pires são um cliché que cresceu mais do que plantas trepadeiras, mas a cronologia não faz sentido para quem sabe que os norte-americanos andavam a ser lidos, recenseados, discutidos, traduzidos e imitados pelos neo-realistas desde o Sol Nascente (1937-40), uma década antes da estreia de Pires. Amaral estava correcto quanto aos americanos ainda não fazerem parte dos hábitos do público português, mas Pires chegou no momento certo porque quem estava a proceder à divulgação deles eram precisamente os neo-realistas. Victor Palla traduziu Modernos contistas americanos (1947) para a Livraria Portugália (Porto) e foi decerto através dela que Pires se iniciou nos contos de Damon Runyon com os quais Os Caminheiros partilha afinidades. Na revista Afinidades, o estudante Pires recenseou uma antologia de John Steinbeck, traduzida por dois neo-realistas de primeira geração e membros da Vértice, João José Cochofel e Rui Feijó. O volume pertencia a uma colecção de antologias de contistas americanos sob a chancela da Editora Atlântida, sediada em Coimbra, terra da Vértice. A antologia de Dorothy Parker, igualmente recenseada pelo jovem leitor, saiu na mesma editora e contou com prefácio de Palla, capista das colecções neo-realistas “Novo Cancioneiro” e “Novos Prosadores”. A Inquérito, que publicou vários neo-realistas, também publicou traduções d’A estrada do tabaco, de Erskine Caldwell, e d’O homem que não foi vencido, de Ernest Hemingway. No verso da 2.ª edição duma conferência de António Ramos de Almeida, A Arte e a Vida, esteve até anunciado um livro de Steinbeck, Na Luta Incerta, que porém não veio a lume.[45] Na Vértice apreciaram os contos de James T. Farrell devido à economia jornalística da prosa por que mais tarde seria conhecido Pires. Vergílio Ferreira analisou Caldwell. Feijó recenseou Of Mice and Men de Steinbeck. Na Vértice n.º 12-16 (Mai. 1945), Oliveira publicou um conto passado na Geórgia, “A Sombra de Jeeter Lester”, demonstrando a sua colagem ao território explorado por Caldwell em Georgia Boy.[46] A rapidez é tanto mais incrível quanto o facto de estarem a ler os norte-americanos em inglês, língua ainda invulgar no Portugal de então. (Além disso, vinham traduções do Brasil.)

Aonde quero chegar é que Pires não desceu das nuvens como um disco voador. Foi ao encontro do que se esperava dum candidato a neo-realista: adesão ao estilo norte-americano. Os neo-realistas andavam à procura de mais autores que emulassem os ianques porque reputavam o realismo objectivo deles mais conducente aos propósitos políticos da literatura engajada. Porquê? Porque a simplicidade da prosa deles, pensava-se, chegaria mais facilmente ao povo português parcamente escolarizado.

Esta preferência gerou uma das primeiras querelas internas do neo-realismo. No alvor do movimento, confrontaram-se dois campos: um, acoimado de sentimental, romântico e subjectivista, acusava certa influência dos brasileiros, caso de Alves Redol; outro aprendera a auto-disciplina e a exactidão com os económicos norte-americanos, o epítome do qual seria Carlos de Oliveira. O que isto significava é que havia neo-realistas para quem linguagem figurativa equivalia a má escrita ao passo que frases declarativas curtas e despojadas representavam a vanguarda da prosa. O que isso quer dizer é que este parágrafo perfeitamente banal

“Grácio tomou-lhe o braço e alargaram ambos o passo. As picaretas, enterrando-se na crusta de alcatrão, tinham um som oco. Cigarra pendurou a bengala no braço e deixou-se guiar pelo companheiro.”[47]

atirava Pires para o cume do brilhantismo estilístico mas esta passagem de Redol

“O sol a morrer nos montes, tão cheios de sangue como se o tivessem esfaqueado. Tristes os salgueiros de a verem partir, sem lhe poderem rogar que ficasse. Amaciavam-se os contornos e as cores. Os mouchões extinguiam-se e só as árvores invocavam presença.”[48]

fazia dele um desastrado. Quer dizer, depende do que queremos da prosa. A minha eu quero-a carregada de imagens (“tão cheios de sangue como se o tivessem esfaqueado”), animismo (“Tristes os salgueiros”), aliteração (“os contornos e as cores”) e um toque poético (“só as árvores invocavam presença”). No outro lado do oceano, estes pecados compunham as características da prosa ímpar de Vladimir Nabokov. Imagina comprares um livro apenas para encontrares um “Grácio tomou-lhe o braço e alargaram ambos o passo” que tu próprio podias ter escrevinhado nas calmas. Imagina alguém dizer-te que inventaste uma forma nova de fazer ficção por causa disso. Em 1947 Tomaz de Figueiredo tecia prosa assim:

“E, mal entrado Março, até às secas de Junho, a grande pesca da truta, à pluma: quilómetros e quilómetros por dia, apolando a penedias e resvalando em margens galgueiras, vendo espumar cachões, topando lanços parados onde a água é de vidro verde, encontrando silêncios de paraíso terreal, arrepelando a roupa em silveiredos, molhando-se até à cintura em travessias, respirando num só hausto mais oxigénio que os palerma da cidade respiram numa hora… Para a pesca da truta era preciso ser atleta, que até os milhares de chicotadas diárias só para braços de gladiador…”[49]

Que droga anti-estética andavam a tomar os amantes de “O companheiro continuou com a cabeça levantada sempre no mesmo sentido e exclamou, batendo com a bengala branca no alcatrão”? Que droga andam a tomar agora?

Se O Delfim quebrou o molde neo-realista, muito tardiamente, depois de outros neo-realistas – Vergílio, Namora, Redol – o terem quebrado primeiro, Pires tão-só acompanhou uma global liberalização da estética neo-realista que vinha progredindo desde a morte de Estaline, o que pôs fim à predominância do “realismo socialista” entre os escritores europeus comunistas. No seguimento da desestalinização da URSS, encetada por Khrushchev, ansioso por se distanciar da tirania de Estaline, os antigos apaniguados começaram a debandar do realismo socialista que outrora lhes era imposto como prova da sua identificação com os objectivos da revolução proletária. Em 1961, Barranco de Cegos, de Redol, graças à sua surpreendente incursão pelo fantástico adentro, marcha-atrás total do que os neo-realistas vinham apregoando havia 20 anos, fez mais por relaxar as restrições do neo-realismo do que qualquer livro de Pires até então. O que Redol fez neste romance foi tão chocante, para os literatos marxistas, que uma década depois Fernando Luso Soares ainda esquadrinhava teorização em Engels e Marx, em Lukács e Garaudy, para provar que Redol não cometera nenhuma heresia.[50] O Delfim, por contraste, estava tão ajoelhado ao gosto da elite que foi aclamado de imediato. Mais uma vez na vida de Pires.

Quanto a Redol, é ostensivamente delido da biografia de Pires. A longa amizade entre os dois não cabe no revisionismo de Amaral. Em defesa de Amaral, a des-neo-realificação de Cardoso Pires começou com o próprio. E o porquê percebe-se, a associação aos neo-realistas é, na actualidade, vexante, escura mácula mais ultrajante do que aparecer num selfie com skinheads a espancar indostânicos no Martin Moniz. Ao longo das décadas, a posição de Cardoso Pires dentro do neo-realismo flutuou ao sabor das estratégias de um escritor cioso da sua reputação e medroso de infringir a opinião dominante.

Em 1958, lamentava ele que o neo-realismo fosse “ultimamente tão acerbamente atacado”.[51] Por então surgia uma nova geração em conflito aberto com eles, acusando-os de comodismo, de terem posto de lado a missão de consciencializar as massas. Foi como Afonso Cautela, o angry young man de Moura, desabafou com Namora numa carta datada de 24 de Junho de 1956:

“Nem os neo-realistas reparam nisto [em aproximar escritor e público], mas tinham muito que reparar. Porque se esqueceram do rabo da sua obra. Preocuparam-se em redigir a crónica do proletariado… para os ricos e remediados (a restrita classe que compra livros). Entre aqueles onde o neo-realismo ajudaria a formar uma consciência social urgentíssima, a esmagadora maioria desconhece, com certeza, os livros dos seus generosos benfeitores…

Equívocos como este tem a nossa geração que levar às costas e dar saída a muitos becos sem saída. É claro que os consagrados não atinam com a clave em que solfejamos, primeiro porque moram no varandim e de lá não se avista a planície, depois, porque é sacramental o desconhecimento mútuo das gerações.

Haver-nos-emos sós, pois, mas vale mais sós que mal-acompanhados.”[52]

Cardoso Pires manteve-se leal aos que lhe financiariam a edição de Os Caminheiros. Era cedo demais para previsões da desdita do neo-realismo e estava longe a sua absoluta demonização no pós-25 de Abril, o esquecimento, a hostilidade, a caricatura na opinião pública. Assim, em 1972 ainda se orgulhava de informar, “Pertenço à geração que se seguiu ao neo-realismo e que recebeu dele a lição da ‘pluralidade de expressões’. Foi realmente o movimento português que trouxe mais variedade de temas e de expressões.”[53]

Todavia, em 1988, com o oblívio do neo-realismo para lá do sanável, Pires, farejando os tempos vindouros, nervoso de cuidar da reputação póstuma, contava ao El País que foi um “contestatário” do neo-realismo.[54] Foi sem dúvida com o espírito da contestação que correu a mostrar a Mário Dionísio o seu primeiro livro, para se aconselhar com o preeminente teórico do neo-realismo. E nada dizia contestação melhor do que aceitar que os neo-realistas veteranos fizessem uma vaquinha para lhe custear esse livro.

Finalmente, em 1997, quando era já mais fácil reabilitar Salazar do que os neo-realistas, quando as obras deles estavam esgotadas e sem perspectivas de reedição, subitamente a salvação tornara-se protestantemente escassa: não gramava nada de Fernando Namora, contou ao Independente, de Redol destacava o Barranco de Cegos, mas “nunca gostei sem reservas do que ele escrevia.” Nem Vergílio Ferreira se salvava. Somente Carlos de Oliveira: “Como prosador, foi extremamente original. São livros com uma prosa muito vigiada, com a fuga ao adjectivo – antes dele, os modernistas faziam traduções dos adjectivos franceses…”[55] Opinião cheia de autoridade vinda do ás da prosa.

O problema das pessoas que se esfalfam a reinventar o seu passado é que elas não duram o suficiente para levar a tarefa a bom termo. É aí que entram os hagiógrafos. Mas Amaral não contava com o filho de Redol, António Mota Redol. Que leu a biografia com atenção e em resposta redigiu um texto extraordinário que denuncia as omissões e distorções levadas a cabo por Amaral.[56] Esta réplica é o vivo exemplo de porque é que nunca haverá crítica literária inteligente sem primeiro haver história literária bem fundamentada, com datas, nomes e fontes e o demais aparato burocrático da caça ao facto que é tão secante para os recém-saídos da Faculdade que querem ser críticos e “criadores” ao mesmo tempo.

Integrado Marginal é importante pela exposição que teve, mas ocorrem com frequência semelhantes branqueamentos e deturpações. Quando Vasco Pulido Valente recuperou, em 2016, a figura de Mário Dionísio, morto há 13 anos, não foi só para lembrar que foi “um mau poeta, um mau romancista, um mau pintor de fim-de-semana e, principalmente, um mau crítico” – o punchline é que ele foi um Torquemada do tempo do PREC, um inquisidor-geral que “acabou a presidir à “comissão de saneamento” do Ministério da Educação. “Toda a vida se preparara para esse nobilíssimo papel.”[57] Cá está uma das muitas caricaturas do psicopata neo-realista: o apparatchik com ganas de transformar o país numa república soviética. Que Dionísio não tivesse voltado ao PCP depois da expulsão não servia de atenuante. E a Pulido Valente era-lhe despiciendo que sectores importantes da sociedade, a Educação à testa, precisassem, em 1974, de ser saneados de salazaristas que abertamente defenderam uma ideologia hostil à democracia em construção. Nem lhe importava que Dionísio, que, ao contrário de Pulido Valente, somava décadas de experiência de professor liceal durante o Estado Novo, fosse sensível à impossibilidade de haver ensino democrático numa atmosfera permeada de professores que outrora bufaram à PIDE os seus colegas. Era cometer uma enorme violência emocional contra os professores comprometidos com a democracia exigir que dessem o seu melhor numa escola em cujos corredores se teriam de cruzar com os reitores que os vigiaram activamente, como se ser-se delatado à PIDE fosse uma diferença de opiniões inconsequente. A mulher de Dionísio, Maria Letícia, esteve ministerialmente proibida de dar aulas por anos a fio apenas porque assinou a lista do Movimento Unitário Democrático (MUD), que em 1945 se organizou para disputar o poder numas “eleições livres”, promessa que Salazar não cumpriu, claro está. Dionísio, que por duas vezes recusou a oferta de liderar o Ministério da Educação, aceitou a incumbência de limpar o sistema de ensino de lacaios salazaristas porque acreditou que a nascente democracia tinha de ser defendida de inimigos dentro dela. Mas Pulido Valente, em vez de “tentar perceber”, congratulou-se por poder assacar-lhe uma veia maléfica e fanática.

Henrique Raposo, o actual candidato a sucessor de Vasco Pulido Valente, foi ao ponto de implicar com a própria toilette dos neo-realistas. O “típico intelectual neorrealista” era “essa figura que fazia questão de andar entrapado, mal penteado e, se possível, com mulheres feias e sem maquilhagem. Um intelectual neorrealista nunca teria um Alfa Romeo — seria pecado.”[58] Os caricaturistas dos neo-realistas tinham pancada pelos carros que conduziam ou não. Já o supracitado VPV se recordava do pai, muito submisso ao todo-poderoso Dionísio, prometendo-lhe “não usar o carro em viagens de prazer”. (O facto de os dois casais veranearem em Galamares e no Magoito, onde os Correia Guedes estavam construindo uma casa de férias, não é para aqui chamado.[59] Mas é giro imaginar um figurão da Robbialac apanhando o eléctrico Sintra-Azenhas do Mar para ir a banhos.)

Eu alvitraria que os neo-realistas não possuíam Alfa Romeos porque quando as suas mulheres não estavam a ser proibidas de trabalhar pela PIDE, estavam eles a ser deportados para Angra do Heroísmo e Tarrafal ou trancados em Caxias, sabido como é que os patrões preferem empregados assíduos. Os salários também limitavam aquisições luxuosas. Por quantos anos é que Vergílio Ferreira teria de poupar do seu magro salário de professor liceal antes de poder pensar sequer em comprar um carro desportivo? Em 1968, ao depor num inquérito sobre a “reforma do ensino liceal”, o ponto fulcral para ele foi a “dignificação económica do professor”, acima sequer da liberdade de pensamento.[60]

Convém lembrar que alguns neo-realistas – Dionísio, Namorado, Fafe (até ser proibido[61]), Vergílio, Óscar Lopes, Urbano Tavares Rodrigues (até ser posto numa lista negra da PIDE[62]) – foram professores liceais e universitários, pelo que eram obrigados a seguir um rigoroso código de vestuário (a gravata foi praticamente a segunda pele dos funcionários públicos ao longo de toda a ditadura), devidamente monitorizado por reitores. A respeito de vestimentas, Namora contou uma estória ilustrativa na Autobiografia. Namora, natural da Condeixa, exerceu a medicina na província, em várias partes do país, ganhando mal pois os seus pacientes, empobrecidos, pagavam em géneros em vez de dinheiro. Nos anos 50 foi convidado a entrar para o Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, dirigido por Francisco Gentil. Na primeira vez que foi ao gabinete do director, um amigo de Namora, José Bacelar, fitando a sua “tosca e desgravatada camisa”, perguntou-lhe: “E é com essa indumentária de pescador da Nazaré que você se vai apresentar ao director do Instituto?”[63] Para Namora, este aspecto não era uma declaração marxista, era apenas identificação com as raízes camponesas de que se orgulhava. Hoje em dia ninguém quer saber quem usa ou deixar de usar gravata.

Após o 25 de Abril, Fafe foi convidado por Mário Soares a assumir o cargo de embaixador de Cuba. As pessoas que conviveram com a mulher dele, Maria Virgínia, recordam uma embaixadora “encantadora”, chique, desembaraçada nos lavores, capaz de dar um toque de graça às coisas e eventos (“jantares oficiais na residência em que com poucos ingredientes fazia inesquecíveis pratos”), e uma anfitriã que “tinha o verdadeiro culto da casa e do bom gosto” e espirituosa conversadora.[64] O benefício das ideias-feitas de Raposo é o introduzir-nos na mente a imagem dum rabioso anti-neo-realista esmiuçando furiosamente os confins da net por fotos de mulheres mortas há décadas, como um necrófilo, para conferir se realmente eram umas desajeitadas e deselegantes.

Os surrealistas disseminaram lendas negras, também. Cesariny engendrou uma discórdia vivencial para explicar o seu desprezo pelos neo-realistas. Um extremoso amor à vida e à liberdade terá levado os surrealistas a deixarem-se de actividades que chateassem o regime. “Ser preso é muito chato”, explicou. “Um grupo surrealista, com poderes plenos para poder escabujar á vontade, tinha que dar bota. E ninguém queria ir preso.”[65] Porque outros valores falavam mais alto: “A nossa ideia era não irmos presos. Claro que era possível ter formado um movimento, é possível ser-se mártir ou herói, matar-se alguém ou ser-se morto. Mas a verdade é que tínhamos um certo amor à vida.”[66] Ele tentou mesmo fazer esta cobardia parecer virtuosa. Já os neo-realistas, uma índole masoquista dava-lhes queda para o martírio: “Os neo-realistas ficavam muito honrados quando iam presos.”[67] Se os caricaturos de Raposo eram robots sem sentimentos que escolhiam esposas por calculismo ideológico em vez de amor, os rivais de Cesariny aguentavam perigos e privações por exibicionismo, não por ideais nobres.

Porém, a 27 de Fevereiro de 1970, no exílio argelino, Fernando Piteira Santos e a mulher sofriam com o sentimento de terem perdido as “oportunidades do convívio que mais nos interessava”, os filhos e netos de quem estavam longe.[68] Em 1962, Piteira Santos protagonizou uma fuga de prisão; de imediato a mulher, Maria Stella, foi detida à porta de casa por uma brigada da PIDE, na presença da filha, Maria Antónia. Então Piteira Santos escreveu uma carta (02/03/6), endereçada ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, que circulou por Lisboa de mão em mão. Não falava o comunista, mas o marido e padrasto preocupado: “Essas duas mulheres que me são queridas ficaram numa situação dificílima, minha Mulher foi encarcerada no Forte de Caxias, onde sofre, com a situação de prisioneira, a consciência dos perigos que eu corro e a incerteza do que se passa em sua casa.” E: “O seu crime é ser minha Mulher. Não é legal, nem é decente, perseguir a família de um adversário. Era a Maria Stella suspeita de…?”[69] Mário Sacramento, ao fim da vida, quando a Oposição lhe parecia paralisada, interrogou-se sobre a utilidade do seu antifascismo. “Esta sensação horrível de que vivi para nada, vai-me delapidando! Intento fazer cada vez mais – e faço cada vez menos…”[70] E o diário de José Gomes Ferreira revela que, longe de estar orgulhoso pelo filho Raul ter sido preso, viveu preocupado com a prisão dele no Porto.[71] Não é implausível que antifascistas se tenham vangloriado das suas actividades antifascistas, mas é curioso que os inimigos do neo-realismo nunca os nomeiem. Isto não se deve tanto ao facto de não terem provas, embora provavelmente careçam delas, como ao facto de saberem, consciente ou inconscientemente, que o público a que se dirigem preencherá as lacunas desta memória colectiva dos perversos neo-realistas com ideias-feitas extraídas da atmosfera saturada com anti-neo-realismo. Afinal de contas, essa memória colectiva foi, em larga medida, inculcada pelas narrativas enviesadas de Raposo e Cesariny.

Sem sair da frente surrealista, Luiz Pacheco arrogou a autoridade para conferir aos outros certificados de “esquerda”. Certa vez perguntou, “Gostaria que mo dissessem (e provassem) onde tipos como o Fernando Namora, o Mário Braga, o Cardoso Pires foram ou são de esquerda? Eram escritores da esquerda?”[72] Na competição pelo capital social conferido por um passado antifascista, Pacheco aparentava sentir-se diminuído pela possibilidade de que talvez outros antifascistas tivessem feito mais do que ele. (Não era difícil.) Esta deve ser a única ocasião em que vale alguma coisa a opinião da PIDE, que em relatórios designava Namora “pró-comunista”.[73] Há um livro inteiro sobre as actividades oposicionistas de Namora, Fernando Namora por entre os Dedos da Pide. Repressão E Os Escritores no Estado Novo, da autoria de Paulo Marques da Silva, que pormenoriza as actividades “de esquerda” que fez Namora, todas um tanto mais importantes e pessoalmente perigosas do que encomiar o Marquês de Sade e raptar raparigas adolescentes. Mais uma vez, isto é irrelevante para quem apenas queria desumanizar e denegrir rivais.

Possivelmente atormentados pela consciência de que os neo-realistas efectivamente lutaram mais contra a ditadura do que eles, Pacheco e Cesariny prodigalizaram-se após o 25 de Abril a montar a Ditadura Neo-Realista. Contou Pacheco: “A edição foi o que fiz de mais positivo. Havia uma barreira difícil de ultrapassar, eu lutei contra essa barreira e vencia-a. Era a PIDE, a Censura, toda essa merda, mas também havia os neo-realistas que ocupavam tudo (eu fundei uma editora porque não tinha outra para onde ir). Eles ocupavam tudo e caluniavam imenso. Essa malta não me escapa.”[74] O explícito desejo dum ajuste de contas devia deixar qualquer leitor de pé atrás quanto à fiabilidade dos pronunciamentos dele sobre neo-realistas. E num diário anotou: “Eles [os neo-realistas comunistas] eram os da Oposição, os INTOCÁVEIS com uma susceptibilidade feita de miudezas muito miudinhas e ridículas. A táctica predilecta (e até hoje persiste…) era a do ABAFADOR. Não se ligava. Fazia-se de conta que o opositor simplesmente não EXISTIA. NÃO HAVIA.”[75] Agora os gravames de Cesariny: “É verdade que o neo-realismo conseguiu uma espécie de Estado dentro do Estado; o neo-realismo tinha um aparelho político subjacente. O neo-realismo ocupou os jornais, ocupou as editoras, ocupou as revistas… O surrealismo, ou antes, os surrealistas (não se podia falar em surrealismo, não havia) ocupavam as mesas dos cafés, quando muito – e quando não eram corridos, como foram do Café Gelo, violentamente depois de uma manifestação.”[76] Referindo-se especificamente à sua efémera revista, Contraponto, Pacheco fabulou: “[A Contraponto] era uma revistinha de crítica assanhada, antissalazarista… foi muito mal distribuída aqui em Lisboa e aquilo veio tudo devolvido porque a revista acho que foi acoimada de coisa reaccionária e fascista e não sei que mais…. Bem, o que é certo é que eu aí fiquei com uma grande desilusão, foi um bom choque que eu tive…”[77]

Esta abafação da desconcertante Contraponto é uma versão fantástica da história. A versão mais rés aos factos históricos é esta: “Saiu o primeiro número de Contraponto, cadernos de crítica e de arte, colaborado por gente nova, poetas e escritores, que se apresenta galhardamente. Dentro em breve faremos a Contraponto mais larga referência.” Assim noticiou o Diário de Lisboa, um dos diários de maior tiragem do país, a 12 de Outubro de 1950.[78] Dito e feito, no dia 18 saiu a recensão no suplemento literário do Lisboa:

“Welcome! Os novos são sempre bem-vindos! Embora modesta, ainda magra de formato, a pequena revista Contraponto – em ante-título denomina-se Cadernos de crítica e de arte – marca uma brilhante posição intelectual. Quem são os seus colaboradores? Os nomes ainda não são muito conhecidos, mas todos eles, nos seus escritos, marcam uma directriz séria de cultura, um magistério crítico sem aleivosias, nem agressividade: uma perscrutação inquieta de noções de estética que tornam simpático, mesmo agradável, o convívio das páginas brancas de Contraponto.

Desejamos, sinceramente, que cresça e se robusteça! Há que animar a pequena luz que nasce! Se ela é pouco, hoje, amanhã, pode subir, altear-se, deslumbrar até, como a lâmpada maravilhosa de Aladino!

Publicações como esta não se fazem sem sacrifícios materiais grandes, no geral da parte de pessoas que nada possuem – a não ser a sua fé de beleza e a sua inquietação intelectual. Quantas revelações não surgem neste Contraponto? É possível que se note uma ou outra incipiências, mas alguma coisa Contraponto afirma – o seu amor pelas letras, no princípio de uma vereda que se pode alargar até ser caminho amplo e franco. Aos rapazes do Contraponto, se o são, cabe-lhes o dever de proclamarem com audácia e desassombro os seus princípios de arte, de literatura, de filosofia e de exame. Sejam rebeldes, sejam novos, sejam, sobretudo, sinceros! E vençam! Ficamos à espera do segundo número. No deste, que tem interesse, destacamos: “Apontamentos”, de Augusto Abelaira; “Sobre a poesia de Carlos de Oliveira”, de Luís Pacheco; “Interpretação de Panait Istraté”, de Arlinda Franco Oliveira e “Crítica” de Eugénio Morais Cardigos e Vasco Vidal.”[79]

Usei o exemplo do Diário de Lisboa porque, no imaginário dos anti-neo-realistas, foi um jornal ao serviço do PCP. Ou para citar Raposo: “O cerco comunista marcou sempre a vida da O Tempo e o Modo. O PCP e os seus anexos culturais, dos diários como Diário de Lisboa às revistas como a Seara Nova, nunca esconderam o incómodo provocado pela revista de Bénard e Alçada.”[80] Mas tal como o Lisboa não silenciou a Contraponto, O Tempo e o Modo foi saudado vigorosamente por este jornal a 21 de Fevereiro de 1963: “Sob a direcção de António Alçada Baptista, e reunindo à sua volta numerosos valores representativos das novas gerações, começou a publicar-se a revista O Tempo e o Modo,” lê-se escarrapachado na primeira página do suplemento literário.[81] Coerente com o tom afável, a nótula nunca alude nem levanta problemas acerca da orientação católica dos redactores. Por longos anos, praticamente não sairia um número novo sem o Lisboa o noticiar, participando activamente na sua divulgação junto do público.

Há indivíduos que são associados a neo-realistas sem nunca o terem sido apenas para os seus inimigos os enxovalharem com plena impunidade. Uma coisa de que me apercebi é que se quiseres rebaixar alguém, desde que o assaques primeiro de neo-realista, ninguém levantará objecções. A talho de foice vem Joana Emídio Marques, um dos piores “jornalistas culturais” de Portugal. Num artigo, “Isabel da Nóbrega, a musa que Saramago apagou da (sua) história,”, relato da relação amorosa entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, ela reproduz um depoimento do jornalista António Valdemar que é insano na sua apreciação dos gostos literários do futuro autor de Levantado do Chão: “Aquilo foi uma grande paixão. Ele ainda estava casado com a Ilda Reis e só devia ler romances neo-realistas. Estou convencido que foi a Isabel da Nóbrega que o tirou do esgoto neo-realista e o influenciou para descobrir outras literaturas, nomeadamente o Pessoa. Acredito nisto: sem a Isabel, Saramago nunca teria escrito O Ano da Morte de Ricardo Reis”.[82]

Vamos lá a ver. Saramago e Nóbrega aparentam ter começado a namorar entre 1966 e 1967. Por essa altura, e desde 1959, ele era o director literário duma editora, as Edições Cor, que predominantemente publicava traduções de ficcionistas estrangeiros. Entre os raros ficcionistas portugueses que editou, havia dois autores de que gostava muito. Um foi José Rodrigues Miguéis, cuja obra se fez à margem dos neo-realistas, carregada de laivos existencialistas em Páscoa Feliz e mais tarde evoluindo para um neo-ecianismo com retoques de autobiografismo presencista. Trocando por miúdos, Rodrigues Miguéis fazia o tipo de romance que mais se fazia pelo mundo fora nos anos 60 e 70 e hoje ainda: o romance social realista. O outro autor foi Jorge de Sena, cujo livro de contos Andanças do Demónio Saramago publicou em 1960. Esta macedónia de contos realistas e fantásticos abre com um prefácio onde Sena justifica o uso do fantástico (endereçado em surdina aos neo-realistas, que se opunham a esse modo literário). É lícito dizer que Andanças do Demónio estivesse nos antípodas do neo-realismo… se o neo-realismo não tivesse evoluído nos anos 50. Já vimos que, em 1961, o supracitado Barranco de Cegos chocou muito correligionário de Redol por causa duma inesperada incursão pelo fantástico. O neo-realismo de ‘61 já se distanciara do neo-realismo de ‘39, embora os detractores estrategicamente estivessem cegos a esse pormenor. Saramago gostou tanto do livro de Sena que o inscreveu no Prémio Camilo da Sociedade Portuguesa de Escritores. Este não é o comportamento dum indivíduo que só “devia ler romances neo-realistas.” Nem o próprio Saramago alguma vez escreveu ficção neo-realista: Terra do Pecado não se integra nessa corrente, tampouco Clarabóia, dois romances realistas na tradição naturalista do Oitocentos e ainda em voga na Europa de então. Em 1966, no ano em que terá começado o namoro com Nóbrega, publicou a Sena Novas Andanças do Demónio, ainda mais dominado pelo fantástico, contendo a fascinante novela “O Físico Prodigioso”. Claramente, não precisou da Isabel para o tirar do “esgoto neo-realista”. Os factos que acabei de relatar podem ser facilmente achados numa busca do Google. E, porém, Valdemar fala do alto duma tribuna de inquestionável certeza. E faltou a Emídio Marques, claro está, o cabedal histórico para perceber que estava a ser endrominada. Ou talvez lhe seja indiferente. Havia quase dez anos, supondo que ela fosse uma jornalista cheia de boa fé, trouxe-lhe à atenção um erro factual num artigo. Afirmava ela que Vergílio Ferreira recebera o seu primeiro prémio literário apenas em 1981. O porquê desta demora ficou subdito: Vergílio enraiveceu as hostes neo-realistas que, entrincheirados nos júris dos prémios, o sabotaram para não fazer sombra aos membros da seita. Mas ela estava errada. Aparição recebeu o Prémio Camilo relativo ao ano de 1959. Em 1966 recebeu o Prémio da Casa da Imprensa por Alegria Breve.[83] Vai para dez anos que regularmente verifico se o artigo já foi corrigido. Um minuto atrás ainda proclamava o seguinte:

“Só depois da publicação dos primeiros volumes de Conta-Corrente é que ele ganha alguma auto-estima e o meio cultural português parece ser obrigado a reconhecer-lhe a existência. É convidado por Marcelo Rebelo de Sousa para escrever uma crónica semanal no Expresso (nunca ter tido espaço para escrever em jornais era uma das suas mágoas). E só nesse mesmo ano ganha o primeiro prémio literário da sua carreira, o D.Dinis. Até aos anos 90 ganhará todos os prémios literários inclusive o Camões, em 1992.”[84]

Chegada aqui, Emídio Marques entra furiosamente pelo território batido da Ditadura Neo-Realista adentro, dando validação ao mito de que os comunas se infiltraram em cada escaninho do mundo cultural, durante a ditadura salazarista, apoderando-se das redacções de jornais, das editoras, dos júris dos prémios e por aí fora, expulsando para as margens os que não se submetessem à sua ideologia estético-política. Além de injustiçado pelos pulhas neo-realistas que andavam a premiar compadres, Vergílio é retratado como um escorraçado da imprensa. (Se desconsiderarmos Vértice, Diário Ilustrado, Democracia do Sul, Dom Quixote (Évora), Diário Popular, Diário de Lisboa, Diário de Moçambique, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Évora, Jornal de Letras e Artes, Notícias da Amadora, O Comércio do Porto, Seara Nova, Colóquio, República, Europa, Árvore, LER, Eva, O Tempo e o Modo e um ou outro periódico cuja memória me falha de momento, de facto ninguém lhe pediu colaboração na imprensa durante o fascismo.) Incidindo o artigo dela especificamente no Conta-Corrente, estranho é que Emídio Marques tenha omitido a passagem na qual Vergílio de imediato se arrepende de ter aceitado o convite de Rebelo de Sousa. 13/01/81: “E agora? O Marcelo Rebelo de Sousa, do Expresso, pediu-me colaboração semanal. Disse que sim. E aqui estou eu farto de dar voltas à cabeça para saber porque o disse. Acabou-se. mas o resultado é ter estado para aqui a empilhar textos que me dêem um avanço sobre as necessidades e preenchem as falhas que venham a ocorrer. O chato é sobretudo ter de mudar de tom e de mobiliário na cabeça. Um romance escreve-se com o que temos no miolo, mas que fica lá para os novos arranjos.”[85] A Vergílio faltava espírito para manter uma crónica regular na imprensa, era um pensador muito focado numa gama estreita de ideias, o que é a morte do cronista, que vive da diversidade semanal do tema. Noutra ocasião (17/09/84) disse do jornalismo que é “trabalho efémero, como aliás, todo o jornalismo cronicado.”[86] Estas não são as palavras dum intelectual mortinho por arrepanhar a sua crónica semanal (ainda estou por localizar onde expressou “mágoas” por nunca ter tido espaço para escrever nos jornais). A colaboração de Vergílio na imprensa foi ampla mas ao ritmo irregular e espontâneo duma personalidade impelida por necessidades pontuais de comunicar certas ideias em dado momento, sem disso fazer um hábito profissional, imposição a que jamais se ajeitou. O que não o impediu de se ter desdobrado numa imensidão de textos anteriores a 1981.

PARTE TRÊS

Que levará um poeta surrealista, um editor contra-cultura, um sociólogo da literatura e um dos principais normalizadores da extrema-direita portuguesa a convergirem no consenso de que um punhado de intelectuais anti-salazaristas, seguindo ordens dum PCP clandestino que a custo sobrevivia às sucessivas rusgas da PIDE, se apoderaram de jornais, de revistas e de editoras, ao ponto de serem capazes de impor uma ditadura cultural de pensamento único excluidora de quem não se submetesse à ideologia marxista? Os mitos são esquivos, como dizia Gilbert Durand. Ao procurarmos a origem da Ditadura Neo-Realista convém não imitarmos os seus sustentáculos. Devemos rejeitar o simplismo de que uma variada gama de pessoas partilha uma única ideologia política, por exemplo. Também devemos rejeitar que todas elas se reuniram em assembleia secreta para acertar os pormenores, como se formassem eles a conspiração que imputam aos neo-realistas/comunistas. Em vez de especular sobre origens, prefiro listar alguns aspectos do mito. Já circulava no Chiado nos anos 50, quando jovens escritores antifascistas mas desafectos do PCP e do neo-realismo acusavam os anciões de lhes barrarem a entrada nas editoras e nos jornais. Após o 25 de Abril de 1974, a Natália Correia, Mário Braga, Eduardo Lourenço – intelectuais simpáticos ao PS, que disputava o poder político ao PCP durante o PREC – conveio muito o mito. Mas a verdade é que estes e outros intelectuais não-comunistas – Vergílio, Alçada Baptista – acharam plausível uma ditadura comunista. Especulo que foi no PREC que se cristalizou a Ditadura Neo-Realista: a cumplicidade do MFA com o PCP, especialmente durante o Gonçalvismo, as campanhas de dinamização cultural que faziam propaganda pró-comunista na província, o ingresso de muitos intelectuais comunistas no MUTI – Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais para Defesa da Revolução (fachada do PCP), a nacionalização de muitos jornais, episódios espectaculares como o saneamento cometido por Saramago a jornalistas do Diário de Notícia e a tomada da Rádio Renascença e do jornal República por “trabalhadores” afectos ao PCP, contribuíram para uma fantasia que retroactivamente imbuiu os neo-realistas e pêcêpistas com mais poder no Estado Novo do que realmente tiveram. Entretanto, através de pontuais intervenções na imprensa por via de crónicas ou entrevistas, Alçada Baptista, Pacheco e Cesariny foram mantendo vivo o discurso anti-neo-realista. Mas os mitos são irrequietos e proteicos e, passado o 25 de Novembro, com a emergência de uma imprensa extrema-direita, intelectuais como Jaime Nogueira Pinto e Orlando Vitorino alargaram a esfera de influência de modo a inculpar toda a esquerda, comunista ou não, no mito. Com o passar do tempo, a Ditadura Neo-Realista metamorfoseou-se no actual mito da “hegemonia cultural da esquerda”. Em qualquer uma das suas iterações, restrita ou alargada, é inocentemente apregoada tanto por figuras públicas identificadas à esquerda – João Pedro George, Diogo Vaz Pinto, Joana Emídio Marques – quanto por figuras direitistas como Rui Ramos, Henrique Raposo, Bruno Vieira Amaral e Miguel Bruno Duarte. Mixórdia incrível, esta.

Devemos combater a fácil satisfação de nos consolarmos que isto foi uma conspiração urdida pela direita. Entre os seus mais estridentes promotores contam-se intelectuais esquerdistas. Joana Emídio Marques no Observador e Diogo Vaz Pinto no Sol já fizeram muito pela sua vitalidade actual. Em tempos, os dois foram co-locutores num podcast, “Enterrados no Jardim”, onde amiúde davam azo à obsessão de vergastar a esquerda por em tempos ter maltratado intelectuais direitistas. Também adoravam malhar em partidos de esquerda – BE, PCP e Livre – com uma tendência para fulanizar questões quando Rui Tavares vem à baila. (O podcast ainda existe, mas Emídio Marques já não participa nele.) Em 2023, ela assevera que Eduardo Lourenço “Foi um dos primeiros que falou (sic) da Agustina, logo no primeiro romance da Agustina, em que ele diz indubitavelmente que a Agustina está ao nível de Fernando Pessoa. Quando depois, durante gerações e gerações e só agora é que se começa a falar – pronto ela agora já morreu, também, não é, já não chateia e já se pode, já se pode olhar um bocadinho para quem de facto foi a Agustina.”[87] Este momento marcava o clímax duma afirmação emitida por ela quase uma hora antes: “A esquerda tradicionalmente não gosta da Agustina”.[88] Com isto apagou da história de Agustina o empenho de Óscar Lopes, comunista e membro do PCP desde 1945, em promover a obra dela. Apesar da indignação sentida por Emídio Marques em nome de Agustina, Agustina nunca regateou a Óscar Lopes, seu amigo pessoal, a importância cimeira dela na carreira dela: “Devo a Óscar Lopes os primeiros conhecimentos sobra a crítica. A companhia que o crítico pode significar para o fugitivo da área familiar, em geral a que nos ensina primeiro a duvidar de tudo, foi para mim Óscar Lopes. Antes de A Sibila tomar lugar nas letras portuguesas, já ele se interessava pelos Contos Impopulares, melancólico salto sobre um abismo de lirismo desempregado.”[89]

Igualmente impressionante é a certeza que Vaz Pinto exibe, no mesmo episódio, de que no tempo do PREC “uma direita foi forçada a remeter-se, a ser remetida para o armário, na exposição pública cultural, de repente o país todo estava na exuberância dos ideais de esquerda e nesse período até a Agustina, como o Vitorino Nemésio, como não sei quê, foram de algum modo irradiados do espaço público.”[90] Nemésio foi, na verdade, o intelectual mais reconhecível do público português entre 1969 e 1975, graças a um programa televisivo, “Se bem me lembro”. Um intelectual tão amado pelo público que se manteve na grelha 6 anos. Para efeitos de comparação, o “Zip-Zip”, talvez o outro único programa da RTP do tempo da ditadura que assentou arraiais na memória colectiva, só durou 14 episódios. Nemésio esteve 6 anos na televisão, passou o PREC inteiro na televisão. O último episódio foi para o ar a 12 de Dezembro, duas semanas após o 25 de Novembro.[91] E Nemésio saiu da RTP para assumir o cargo de director do jornal recém-fundado O Dia (cuja primeira edição saiu um dia antes da emissão final).

Vaz Pinto e Emídio Marques, na sua ânsia de matar os “pais”, fazem-me pensar no conflito que deflagrou, na Europa desde os anos 50, entre a Nova Esquerda libertária e a Velha Esquerda socialista-comunista, como se as ondas de choque não houvessem chegado a Portugal nessa mesma altura. (A Ditadura Neo-Realista resulta, em parte, julgo eu, dum efeito dessa divisória, o momento em que jovens intelectuais esquerdistas escolheram dissociar-se de predecessores a quem imputavam a ingenuidade de terem acreditado nas fábulas humanistas da totalitária URSS.)

Evidentemente, a crença neste mito prejudica a saúde da democracia no sentido em que valida o ressentimento de uma série de pessoas com ganas de ajustarem contas com um passado pseudo-democrático, que afinal não foi menos totalitário e intolerante do que o regime alegadamente fascista que veio substituir. Vendo bem, alguns dos que desancam o mito até pensarão que são eles os campeões da liberdade e de uma democracia vindoura que precisa de ser refundida, trazendo à luz as “verdades” que a Universidade filocomunista oculta. Certamente, isto preocupa-me. Mas, dado o meu interesse em estudos histórico-literários, o mito prejudica-me directamente porque produz péssima história.

Consideramos o exemplo de João Pedro George, biógrafo de Luiz Pacheco. Vimos acima que as queixas de Pacheco de que a Contraponto foi “abafada” pelos neo-realistas/comunistas são, no mínimo, questionáveis. A Contraponto foi, isso sim, saudada num jornal diário que Henrique Raposo designa por “anexo cultural” do PCP. Contudo, nunca nas 600 páginas de Puta que o Pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco é esta fonte citada por Pedro George. Estará na crença dele no mito a explicação para tal lapso? Se fores programado para pensar que não há nada a procurar, porquê ir procurar? Este lapso levanta a pergunta: se alguém que nem é perito em Pacheco (eu) encontrou uma fonte que põe em dúvida a versão de Pacheco sobre a coitada da Contraponto, que mais encontraremos se formos vasculhar República, O Século, Diário Popular, Diário de Notícias, etc.? E havendo mais recensões, qual será o teor? Elogioso? Reprovador? Enquanto estudioso, acho muito interessantes estas interrogações e estou aberto a qualquer possibilidade. Mas será que Pedro George foi averiguar? Ou será que, manipulado por Pacheco, deliberou à partida que já detinha a verdade? Se o historiador-biógrafo abdica do seu papel de duvidador, torna-se um carimbador de clichés mentais. A função do intelectual é ser céptico e aduzir perspectivas a partir de factos. Fiarmo-nos, deslumbrados, na mitomania dum biografando conhecido por mentir compulsivamente não é, decididamente, um bom método de estudar história. As ideias-feitas são a ruína do inquérito e do cepticismo. Bloqueiam vias de investigação. Baixam a pulsão escrutinadora. Avalizam lugares-comuns. Para mim, dependente das biografias e histórias dos outros para os meus estudos, isto é alarmante porque eu não posso confiar nas interpretações e conclusões de investigadores condicionados por mitos. Pedro George está a fazer má história se, para provar que durante a ditadura houve outra ditadura, neo-realista/comunista, que estrangulou a cultura, ao longo de 600 páginas não recorrer a outras fontes que não as asserções do próprio Pacheco de que, sim, houve uma ditadura neo-realista. Convinha que uma tese tão extraordinária assim, exceptuando o suspeito Pacheco, um mitómano obcecado com glória pessoal e pródigo em se contradizer de entrevista para entrevista, fosse corroborada por fontes independentes. Não por asserções contadas décadas após os eventos a jornalistas opados de iliteracia histórica. De contrário descambaremos numa orgia incestuosa de má história.

Não quero focar-me demasiado na suposta perseguição à revista Contraponto, mas se este pormenor é questionável, que mais não será? Quando Pacheco e Cesariny e os discípulos actuais repetem que havia editoras e jornais nas mãos dos neo-realistas/comunistas ao ponto de criar uma hegemonia que marginalizava os surrealistas, que provas há? Que provas poderia Cesariny ter disponibilizado se a Delfos lhe editou a Poesia (1945-1955) em 1961? Se estabeleceu uma relação com a Guimarães Editores em 1959, quando lhe editou Nobilíssima visão? Foram duas excepções à vasta Ditadura Neo-Realista? Muito bem, mas se acabámos de confirmar que houve duas excepções, nesse caso quantas mais excepções houve? E quantas excepções é preciso contabilizar para a excepção se converter em regra? Que editoras rejeitaram os surrealistas por ideologia? Que jornais os silenciariam? Quais autores viram seus livros recusados especificamente por não aderirem aos princípios do realismo socialista estalinista? Pergunto em boa-fé, curioso e com todo o desejo de ser instruído. Ser-me-ia fácil listar 20 obras literárias das quais poderia argumentar que ficaram na gaveta até à Revolução dos Cravos por causa da PIDE/DGS e da DGC. Mas os repetidores da Ditadura Neo-Realista nunca me dirigiram a um testemunho que declarasse explicitamente: “Não pude publicar este livro antes de 1974 porque não seguia os princípios estéticos do neo-realismo.” Todavia, fiando-me em Pedro George e noutros historiadores sou obrigado a concluir que há exemplos aos pontapés. Só rogo a esses peritos que mos apontem para eu ir escrutinar por conta própria.

Compreender donde veio este conto de fadas deveria ser uma das prioridades dos Departamentos de História dos Institutos de Ensino Superior por Portugal afora, nos tempos actuais em que a “ditadura neo-realista” de antanho se transformou na “ditadura cultural de esquerda”[92] e na “hegemonia cultural de esquerda”,[93] pilar da mundividência da extrema-direita. Não ignoro que este assunto chegou a Portugal devido ao poder desmesurado dos EUA em exportar o seu lixo cultural, inclusive as guerras culturais. Igualmente sei que são antigas as teorias de conspiração sobre forças progressistas carcomendo de dentro os valores do antigo regime. Num livro de 1798, Mémoires pour server à l’histoire du jacobinisme, o jesuíta Augustin Barruel fantasiou que a Revolução Francesa foi provocada por uma cabala anti-religiosa e anti-cristã de philosophes, maçons e a Ordem dos Illuminati da Baviera.[94] A ideia original de Barruel foi repescada no começo do século XX por Charles Maurras, figura central do Action Française, um grupo anti-republicano, conservador, cristão, monárquico. Em 1902 Maurras publicou L’Avenir de l’intelligence, uma denúncia da conspiração progressista que infiltrou as Letras francesas – jornais, literatura, universidades, etc. – para destruir o que resta da verdadeira França. Em Portugal, Maurras exerceu tremenda influência nos Integralistas Lusitanos, que se organizaram em reacção à I República e participaram em investidas para restaurar a monarquia. Sendo um esteio do pensamento conservador português, não é surpreendente achar L’Avenir de l’intelligence, sob a forma de epígrafe, num livro de Nogueira Pinto, nomeadamente no segundo volume de Portugal: Os Anos do Fim (1977): um capítulo ostenta o título “A ditadura intelectual das esquerdas”.[95] Este foi um momento crucial na evolução do mito: deixou de se restringir aos neo-realistas para abarcar a esquerda inteira. Ainda assim, reconhecendo que seria quase inevitável não importarmos este mito dos EUA, devíamos ao menos estudar até que ponto a sua rápida aclimatização não foi propiciada pelos longos preparativos dos fautores da Ditadura Neo-Realista.

Infelizmente, antevejo alguns empecilhos institucionais. Tal curiosidade implicaria pôr em cheque muitos indivíduos amados pela Universidade que contribuíram para o conto de fadas: Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, António Alçada Baptista, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Natália Correia, etc.

Atenta, leitor, na figura ridícula de Herberto Helder. Em 1999 a Assírio & Alvim reeditou Os Poemas de Edmundo de Battencourt. À introdução da edição original Helder apôs um post-scriptum. Sentira necessidade de explicar aos leitores modernos desenquadrados: “Era o tempo da ditadura neo-realista.” A bem dos inocentes desinformados, acrescentou: “Como sempre, como em qualquer sistema de autoridade, toda a gente fazia parte dela, incluindo as vítimas. Mas as vítimas não escreviam nos jornais. A ditadura escrevia neles todos: revistas, jornais, livros, tudo. De modo que o texto foi compactamente desancado.”[96] Idêntico a Pacheco, Helder não perde tempo com provas de que foi vítima dum silenciamento ou duma agressão dirigida na imprensa. Esse leitor ideal de 1999 teria de ser mesmo ideal para não reparar que o prefácio de 1963 não exibia marcas de alguém impedido de espingardear contra o neo-realismo. Ouço dizer que Helder é para leitores muito inteligentes, mas talvez esteja na hora de revermos esse mimo tão baratamente dado. É que, sendo o cepticismo sinal de inteligência, um leitor inteligente começaria a ligar uma série de pontos problemáticos. Os Poemas de Edmundo de Bettencourt foi editado pela Portugália, por então sob a direcção de Augusto da Costa Dias. Militante do PCP desde a II Guerra Mundial, diz-se que Costa Dias desempenhou um papel em fazer com que Saramago e António Modesto Navarro se inscrevessem no Partido. Um espécime perfeito do famigerado intelectual comunista que se infiltrou nas instituições culturais para impor a hegemonia neo-realista. Excepto que a Portugália, entre 1959 e 1968, publicou uma heteróclita gama de autores sem particular tendência ideológica: para cada Alves Redol, José Gomes Ferreira e Mário Dionísio havia Vergílio Ferreira, José Régio, Almeida Faria. O poeta Luís Amaro, funcionário da Portugália, contou-me que Maria Gabriela Llansol deixou o manuscrito do primeiro livro nas mãos de Costa Dias. E depois houve Herberto Helder, claro. A quem a Portugália editou Os Passos em Volta. Que o contratou para traduzir O cavaleiro inexistente de Italo Calvino. Que o convidou para prefaciar os poemas de Bettencourt.

Em 1967, Helder trabalhou com quatro editoras; a Guimarães editou-lhe Húmus; na Ulisseia saiu Retrato em movimento; a Verbo publicou-lhe a tradução de Veloz como o vento, de Gine Victor Leclercq; e a Portugália corou este ano esplendoroso reunindo num volume toda a sua poesia, Ofício cantante, 1953-1963.

A que Ditadura Neo-Realista estaria Herberto Helder a referir-se?

Uma vistoria à bibliografia das “vítimas” habituais dos neo-realistas – Jorge de Sena, Sophia, Agustina, Vergílio, Cesariny, Ruben A., Natália Correia, Helder – comprova foram publicados por uma diversidade de editoras. Quem estiver disposto a conferir se isto é verdade talvez dê com um padrão do qual tirará as ilações erradas. É que estes artistas recorreram a edições de autor, do que os meus oponentes derivarão a confirmação de que as editoras comunizantes lhes fecharam as portas. Antes de alguém ter a má ideia de ir por aí, eis alguns pontos a ponderar: 1) estas “vítimas” estrearam-se sem excepção durante a guerra ou no pós-guerra, ou seja, foram afectadas pelo colapso do sector livreiro em 1948, consumado pela falência de 28 editoras e livrarias (a distinção nem sempre era clara, muita “livraria” era-o nominalmente mas desdobrava-se em lides editoriais[97]); 2) a maioria recorreu a edições de autor especialmente no começo da carreira, procedimento habitual no Portugal penurioso, visto que os editores eram avessos a dar chances a novatos sem provas dadas de vendas; a edição foi um rito de passagem para presencistas e neo-realistas, e a conta da Mensagem na tipografia foi totalmente paga pelos amigos de Fernando Pessoa; 3) a edição de autor fazia parte da história da edição portuguesa havia muito anos, pelo menos desde que Antero de Quental e Eça de Queiroz recorreram a elas; 4) vários neo-realistas, antes e depois do colapso de 1948, não tiveram outra alternativa senão custear as edições dos próprios livros, não andemos mais longe do que Redol nos anos 50; e em 1972 Faure da Rosa, um dos que compuseram a pioneira colecção de prosa neo-realista, “Novos Prosadores” (1943-46), ainda pagou para editar O Massacre. Só na imaginação anistórica dos crentes é que ser-se neo-realista equivaleu a comprar uma raspadinha com prémio chorudo. É deplorável, simplesmente deplorável, que num Portugal vergado por carestias e altas taxas de iliteracia de longa data não houvesse editores opulentos dispostos a esbanjar contratos milionários à primeira amostra de génio dos nossos génios, mas quem hoje em dia se indigna com essa injustiça deveria pedir contas à casta que fez de Portugal um dos mais pobres países da Europa por não ter mudado as suas estruturas económicas quando o resto da Europa se industrializava. Quem muito protestou contra esse atraso, marasmo e anti-progresso foram os neo-realistas, e em troca foram acoimados de idealistas, demagogos e utopistas à espera dos amanhãs que cantam. Então não se irritem se os ontens cantaram a Sena e a Sophia que fossem empatar as poupanças deles e dos papás a trazer a lume as suas poesias.

Uma Universidade viva e inteirada das suas responsabilidades já teria tentado repor a verdade. Uma ditadura não precisa de queimar livros. Basta desviar a atenção de certos temas, parar de fazer certas perguntas, ignorar certos autores, vê-los por lentes turvas. Canalizar recursos para os vencedores. Em O Tempo e o Modo escreveu muita gente que viria a ocupar posições graúdas em futuros governos do PS e PSD, inclusive primeiros-ministros e presidentes da República (Mário Soares e Jorge Sampaio), assim como uma série de figuras que ocuparam cargos políticos e culturais: João Bénard da Costa (director da Cinemateca Portuguesa), António Alçada Baptista (presidente do Instituto Português do Livro), Vasco Pulido Valente (Secretário de Estado da Cultura), Manuel Poppe (embaixador), etc. Actualmente a revista pode ser consultada integralmente em dois sites diferentes: Hemeroteca de Lisboa[98] e Revistas de Ideias e Cultura[99]. Em tempos esteve disponível no site Casa Comum, ligado à Fundação Mário Soares. Estes três recursos foram e são financiados por dinheiros públicos. Contudo, a revista Vértice, fulcral para o entendimento da história literária, não existe online, como se fosse insignificante uma das revistas literárias mais longevas do nosso Novecentos.

Apesar da moda das biografias literárias que assomou Portugal recentemente, é notável que têm sido privilegiados pretensas vítimas da Ditadura Neo-Realista: Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Agustina Bessa-Luís, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder. Contudo, os neo-realistas têm-se visto excluídos. Biografias modernas há a de Soeiro Pereira Gomes, que foi feita pelo italiano Giovanni Ricciardi. Está certo que Bruno Vieira Amaral fez a biografia de José Cardoso Pires, mas vimos acima que ele tentou branquear o papel dele dentro do movimento, Pires é o exemplo de quem “ultrapassou” as limitações do neo-realismo e se tornou num escritor “a sério”, por oposição aos outros neo-realistas que não o eram.

Igualmente, têm faltado edições de escritos pessoais de neo-realistas, que contem a versão da história nas palavras deles. Nos últimos anos, apareceram colecções de entrevistas de Jorge de Sena, Pacheco, Cesariny, Alexandre O’Neill, cheias de ataques à Ditadura Neo-Realista. Mas escasseiam livros de entrevistas de neo-realistas que reponham o equilíbrio.

Não tem havido fim à edição das correspondências de Sena, Régio, António José Saraiva, Cesariny e Pacheco, de novo privilegiados difusores da Ditadura Neo-Realista. Mas volumes de correspondência de neo-realistas são raríssimos.

Esta escassez, somada ao que se escreve em crónicas, artigos e ensaios na imprensa, conduz à desumanização dos neo-realistas, rouba-lhes a voz. Eles não existem em si mas através das opiniões que outros formularam acerca deles. Opiniões consistentemente achincalhantes. Não somos capazes de vê-los como seres humanos integrados num tempo e num espaço, só os conhecemos através das palavras de inimigos que os distorcem, como se fossem os cartagineses da cultura portuguesa.

Este é um mal que pode e deve ser resolvido pondo à disposição do público as fontes primárias das vidas dos neo-realistas. Isso implica digitalizar as suas revistas e editar inéditos, sejam eles diários, cartas ou colecções de dispersos. Só assim repararemos o desequilíbrio de forças. Nesse sentido, é desconsoladora a lentidão das Publicações Dom Quixote em editar os volumes do diário de José Gomes Ferreira, um dos mais interessantes documentos históricos sobre o Estado Novo contado por um neo-realista, pleno de informações sobre o dia-a-dia no meio literário, e capaz de desmistificar muitos exageros sobre a Ditadura Neo-Realista. Que não haja um novo volume desde 2018 é más notícias.

Em nome da transparência, confesso que os produtos literários neo-realistas não me encantam. Por mais tentativas que lhes haja dado, raramente me seduziram. Um dia, depois de anos acreditando que o neo-realismo era atroz porque outros mo diziam, dei-me de conta de que o meu psitacismo não se baseava em nenhuma experiência pessoal. É uma ideia-feita insidiosa que contraímos facilmente. Se após leituras aturadas tive de dar a palmatória à opinião geral, também me dei conta de que os difusores da Ditadura Neo-Realista vivem desinteressados da arte. Para mim é muito simples: só quem odeia a arte do romance é que é capaz de pôr Nome de Guerra acima de Fuga; e só quem se borrifa para a história do romance é que omite os méritos de Caranguejo para engrandecer A Sibila. Para mim, não apreciar o neo-realismo é uma questão de viver em coerência com critérios literários que decidi seguir por alta recreação; pela mesma razão não tenho a menor consideração por Almada Negreiros, Agustina, Vergílio, Almeida Faria, Maria Velho da Costa, Nuno Bragança, o contista Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol e outras estrelas duma galáxia gloriosa que não inscreveu no céu nenhuma constelação que me dê gozo ler. Contudo, este assunto transcende meros gostos subjectivos.

Abstraindo-me da avaliação literária, que aparenta estar subjacente à condenação da Ditadura Neo-Realista, vejo claramente que no âmago do embargo ao neo-realismo lavra uma guerra surda por capital social, ou ajustes de contas com fulanos e/ou o passado, ou uma tentativa de rescrever a história ideologicamente. O que me suscitou um exame de consciência foi o ter reparado que a questão sobre o mérito ou demérito literário é muitas vezes despriorizada a favor duma incessante desumanização dos neo-realistas. Faço aqui um mea culpa: o discurso anti-neo-realista é tão poderoso e preponderante na sociedade portuguesa que eu próprio caí nesta esparrela. Dela fui salvo por um cepticismo inato que, mais cedo ou mais tarde, me faz questionar a minha adesão às crenças da multidão. Foi ao aperceber-me de que estava a ser condicionado a ratificar uma desumanização de indivíduos que realmente não conhecia enquanto pessoas que comecei a ler os escritos pessoais dos neo-realistas, num gesto de simpatia contrabalançante. É que aos neo-realistas não basta serem maus escritores, para os detractores, têm acima de tudo de ser analfabetos. Estalinistas empedernidos. Intriguistas. Hipócritas. Videiros. Foi ao conhecer os neo-realistas através das suas cartas, diários e entrevistas que apanhei um susto: estes monstros eram iguais a mim! Pessoas como eu. Desse modo descobri que, embora a literatura neo-realista não me interesse, os neo-realistas foram homens e mulheres multifacetados, contraditórios, complexos e até fascinantes. Ao obrigar-me a entender como viveram, pensaram, tomaram decisões, correram riscos, cometeram erros, assumiram posições, quebraram amizades e desafiaram linhas partidárias, o feitiço da caricatura desumanizante deixou de ter poder sobre mim. Esta é uma notícia tão boa que tive de partilhá-la com outros. E deixo aqui a fórmula do contra-feitiço para quem o quiser usar. Muitos ícones da cultura não serão beneficiados por este escrutínio, mas a verdade histórica sairá mais robustecida. E vale a pena ter esperança que boa história nos protegerá de mitómanos narcísicos que se aproveitam da ignorância dos outros.


  1. António Alçada Baptista, A Pesca à Linha – Algumas Memórias, 3.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 1998, pp. 139-148



  2. António Alçada Baptista, A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, 3.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 2004, p. 95



  3. A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, p. 95



  4. A Pesca à Linha – Algumas Memórias, p. 142



  5. Citado em Fernando Gómez Aguilera, José Saramago Nas suas palavras, Lisboa: Editorial Caminho, 2010, p. 158



  6. Citado em Jorge Costa Lopes, As Polémicas de Vergílio Ferreira, Lisboa: Difel, 2020, p- 54



  7. João Pedro George, Puta Que os Pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco, Lisboa: Tinta da China, 2016, p. 161



  8. Eduardo Lourenço, “Uma literatura desenvolta ou os Filhos de Álvaro de Campos”, O Tempo e o Modo, 1.ª série, N.º 42, Outubro de 1966, pp. 923-935



  9. André Valmar, “As raparigas nas universidades portuguesas”, Sol Nascente, n.º 42, 15/01/40, p. 7



  10. Afonso Ribeiro, “Cartas dum imaginário camponês a um senhor verdadeiro da cidade, Sol Nascente, n.º 7, 01/05/37, p. 8



  11. Margarida Losa, Do Romance Realista ao Romance Proletário, Lisboa: Campo da Comunicação, 2014, pp. 192-195



  12. António José Saraiva, “O salazarismo”, Expresso/Revista, 22/04/89, p. 15



  13. A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, p. 131



  14. Alfredo Margarido e Artur Portela Filho, O Novo Romance, Lisboa: Editorial Presença, 1962, pp. 45, 62



  15. Artur Portela Filho, O Código de Hamurabi, Lisboa: Guimarães Editores, 1962, pp. 204, 205, 206



  16. Mário Dias Ramos, O Logro, Lisboa. Guimarães Editores, 1963, p. 70



  17. Óscar Lopes (Luso Carmo), “A crítica do livro”, O Comércio do Porto/Cultura e Arte, 22/11/55, p. 6



  18. Nelson de Matos, “Eduardo Lourenço e a nova literatura: ou os netos de Álvaro de Campos”, O Tempo e o Modo, 1.ª série, N.º 45, Janeiro de 1967, p. 76



  19. Liberto Cruz, “Viragem do Romance Português”, em Arquivos Do Centro Cultural Português, Vol. 3, 1971, p. 625



  20. Ana Paula Arnaut, Post-Modernismo no Romance Português Contemporâneo: fios de Ariadne, máscaras de Proteu, Coimbra: Livraria Almedina, 2002, p. 17



  21. Liberto Cruz, José Cardoso Pires, Lisboa: Arcádia, 1972, p. 9



  22. Luís Mourão, “Recensão: As polémicas de Vergílio Ferreira – Jorge Costa Lemos”, em Manuel Portela (org.), Estudos Literários, vol. 2: Literatura no Século XXI, 2012, p. 528. Disponível online: https://impactum-journals.uc.pt/rel/article/view/1998/2002)



  23. Eduardo Lourenço, Heterodoxia II, Lisboa: Gradiva, 2006, p. 73



  24. José-Augusto França, Memória Para o Ano 2000, Lisboa: Livros Horizonte, 2.ª edição revista, 2001, p. 107



  25. José-Augusto França, Mário Dionísio, por humanismo, in Eduarda Dionísio (org.), “Não há Morte nem Princípio” – a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Lisboa: Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996, disponível online: https://www.centromariodionisio.org/jose_franca.php



  26. Eduarda Dionísio, Notas a Passageiro Clandestino – I de Mário Dionísio, Lisboa: Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, 2021, p. 167



  27. Notas a Passageiro Clandestino – I de Mário Dionísio, p. 9



  28. João José Cochofel, “Notas soltas acerca da arte, dos artistas e do público”, Vértice, Vol. XII, n.º 107, Julho de 1952, pp. 343-349



  29. António José Saraiva, “Problema mal posto”, Vértice, Vol. XII, n.º 109, Setembro de 1952, pp. 495-499.



  30. Mário Dionísio, “O sonho e as mãos”, Vértice, Vol. XIV, n.º 124, Janeiro de 1954, pp. 33-37 e Vértice, Vol. XIV, n.º 125, Fevereiro de 1954, pp. 93-101.



  31. António José Saraiva, “A ponte abstracta”, Vértice, Vol. XIV, n.º 128, Maio de 1954, pp. 286-288.



  32. António Vale (Álvaro Cunhal), “Cinco notas sobre forma e conteúdo”, Vértice, Vol. XIV, n.º 131-132, Agosto-Setembro de 1954, pp. 466-484



  33. José-Augusto França, Memória Para o Ano 2000, Lisboa: Livros Horizonte, 2.ª edição revista, 2001, p. 226



  34. José-Augusto França, Memória Para o Ano 2000, Lisboa: Livros Horizonte, 2.ª edição revista, 2001, p. 225



  35. António José Saraiva, Ser ou não Ser Arte: Ensaios e notas de metaliteratura, Lisboa: Publicações Europa-América, 1973, pp. 180-181



  36. Bruno Vieira Amaral, Integrado Marginal: Biografia de José Cardoso Pires, Lisboa: Contraponto, 2021, pp. 117-118



  37. Óscar Lopes, “A crítica do livro: José Cardoso Pires – Histórias de Amor”, O Comércio do Porto, 10/03/53, p. 5



  38. José Cardoso Pires, Os Caminheiros, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1949, p. 11



  39. Afonso Ribeiro, “Intervalo”, Plano Inclinado, Porto: Livraria Progredior, 1941, p. 97:



  40. Afonso Ribeiro, Povo, Porto: Editorial Ibérica, 1946, p. 9



  41. Povo, p. 237



  42. Maria Raquel Silva Pinto, “A promessa”, Sol Nascente, n.º 13, 15 de Agosto de 1937, p. 8



  43. José Cardoso Pires, p. 21



  44. Integrado Marginal: Biografia de José Cardoso Pires, pp. 47, 54



  45. António Ramos de Almeida, A Arte e a Vida, 2.ª edição, Porto: Livraria Latina, 1945



  46. Viviane Ramond, A revista Vértice e o neo-realismo português, pref. Eduardo Lourenço, Coimbra: Angelus Novus, 2008, pp. 241, 280



  47. Os Caminheiros, p. 18



  48. Alves Redol, Avieiros, Lisboa: Inquérito, 1944, p. 412



  49. Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo, Lisboa: Ática, 1947, p. 80



  50. Fernando Luso Soares, “O ‘realismo’ e o ‘fantástico’ em Barranco de Cegos”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 12/04/73, p. 7



  51. “O escritor José Cardoso Pires afirma”, O Século. Sup. O Século de Domingo 16/11/58, p. 3



  52. Citado em Paulo Marques da Silva, Fernando Namora Por Entre os Dedos da PIDE: A Repressão e os Escritores no Estado Novo, Coimbra: Edições Minerva, 2009, p. 263



  53. João Alves das Neves, “Diálogo com José Cardoso Pires”, Prisma, Janeiro-Fevereiro 1972, p. 57



  54. António Puente, “José Cardoso Pires: ‘Mi influencia cultural es ‘anglosaxónica’’”, El Pais, 03/01/88, p. 22



  55. Vasco Pulido Valente e Vasco Rosa, “O último escritor português”, O Independente/Vida, 16/05/97, pp. 18-27



  56. António Mota Redol, “Considerações acerca da biografia de José Cardoso Pires, recentemente publicada”, 13/11/2021: https://aviagemdosargonautas.net/2021/11/13/consideracoes-acerca-da-biografia-de-jose-cardoso-pires-recentemente-publicada-por-antonio-mota-redol/



  57. Vasco Pulido Valente, “31 de Outubro a 5 de Novembro, 2016”, Observador, 06/11/2016: https://observador.pt/opiniao/31-de-outubro-a-5-de-novembro-2016/



  58. Henrique Raposo, “Crónicas do Purgatório: um retrato de Vasco Pulido Valente (1941-2020)”, Expresso, 21/02/2020: https://expresso.pt/sociedade/2020-02-21-Cronicas-do-Purgatorio-um-retrato-de-Vasco-Pulido-Valente–1941-2020-.-Por-Henrique-Raposo



  59. Notas a Passageiro Clandestino – I de Mário Dionísio, p. 361



  60. “Vergílio Ferreira: – Dignificação económica do professor”, Diário de Lisboa, 15/02/68, p. 13



  61. António Silva, Conversas durante anos com José Fernandes Fafe, Coimbra: Livraria Almedina, 2002, p. 46



  62. Cândido de Azevedo, A Censura de Salazar e Marcelo Caetano, Lisboa: Editorial Caminho, 1999, p. 322



  63. Fernando Namora, Autobiografia, Lisboa: Edições O Jornal, 1987, pp. 34-35



  64. José Paulo Fernandes Fafe (organização), Maria Virgínia e José Fernandes Fafe: Um Casal que Viveu Dois Séculos, Lisboa: Âncora Editora, 2021, p. 40, 76, 115



  65. Mário Cesariny, Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), organização, introdução e notas de Laura Mateus Fonseca, Lisboa: Documenta, 2020, p. 299



  66. Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), p. 160



  67. Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), p. 360



  68. Maria Antónia Fiadeiro (org.), Devo a mim próprio a memória da minha vida. Fernando Piteira Santos. Prisão. Clandestinidade. Exílio. Morte., Lisboa: Campo da Comunicação, 2013, p. 38



  69. Devo a mim próprio a memória da minha vida. Fernando Piteira Santos. Prisão. Clandestinidade. Exílio. Morte., p. 93



  70. Mário Sacramento, Diário, Porto: Limiar, 1975, p. 349



  71. José Gomes Ferreira, Dias Comuns VIII, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2017, p. 94



  72. Citado em Puta Que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, Lisboa: Tinta da China, 2016, p. 168



  73. Fernando Namora Por Entre os Dedos da PIDE: A Repressão e os Escritores no Estado Novo, p. 132



  74. Luiz Pacheco citado em O Crocodilo que Voa: Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 273



  75. Luiz Pacheco, Diário Selvagem, Lisboa: Língua Morta, 2024, p. 101



  76. Citado em Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006, p. 120



  77. Luiz Pacheco citado em O Crocodilo que Voa: Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 203



  78. Diário de Lisboa/Vida Literária, 12/10/50, p. 8



  79. “Contraponto”, Diário de Lisboa/Vida Literária, 18/10/50, p. 9



  80. “Nós, os suicidas do catolicismo”



  81. O Tempo e o Modo – uma nova revista de cultura”, Diário de Lisboa/Vida literária e artística 21/02/63, p. 17



  82. Joana Emídio Marques, “Isabel da Nóbrega, a musa que Saramago apagou da (sua) história”, Observador, 30/05/2015: https://observador.pt/especiais/isabel-da-nobrega-do-musa-saramago-apagou-da-historia/



  83. “A entrega dos Prémios da Casa da Imprensa”, Diário de Lisboa, 13/02/66, p. 23



  84. Joana Emídio Marques, “As polémicas de um escritor em contracorrente”, Observador, 28/01/2016. Acedido pela última vez a 7 de Março de 2026: https://observador.pt/especiais/vergilio-ferreira-um-escritor-corrente/



  85. Vergílio Ferreira, Conta Corrente 3, Amadora: Livraria Bertrand, 1983, p. 214



  86. Vergílio Ferreira, Conta Corrente 5, Amadora: Bertrand Editora, 1987, p. 206



  87. Citada em “Enterrados no Jardim”, 26 de Abril de 2023, 1:08:40:


    https://open.spotify.com/episode/5VxxU09o3Onfz4w51kBxa9



  88. Citada em “Enterrados no Jardim”, 26 de Abril de 2023, 12:59:


    https://open.spotify.com/episode/5VxxU09o3Onfz4w51kBxa9



  89. Citada em José da Cruz Santos (coord.), Óscar Lopes – Um Homem Maior do que o Seu Tempo, Matosinhos: Câmara Municipal de Matosinhos, 2007, p. 48



  90. Citado em “Enterrados no Jardim” 24 de Dezembro de 2024, 36:15: https://open.spotify.com/episode/6SneTJJhjVEo3x2QnDazvN



  91. “A Velhice”, RTP Arquivos: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-velhice/



  92. Bruno Vieira Amaral citado em Pedro Dias de Almeida, “Costuma dizer-se que as democracias são frágeis. Mas ainda bem que o são, porque fortes são as ditaduras! São frágeis, chatas, é tudo aborrecido… É só gente sem carisma, uns chatarrões”, Visão, 02/03/2025: https://visao.pt/ideias/2025-03-02-costuma-dizer-se-que-as-democracias-sao-frageis-mas-ainda-bem-que-o-sao-porque-fortes-sao-as-ditaduras-sao-frageis-chatas-e-tudo-aborrecido-e-so-gente-sem-carisma-uns-chatarroes/



  93. Miguel Santos Carrapatoso, “A direita no divã. E com Passos a assistir”, Expresso, 25/11/2019: https://expresso.pt/politica/2019-11-25-A-direita-no-diva.-E-com-Passos-a-assistir



  94. Graeme Garrard, Counter-Enlightenments – From the eighteenth Century to the Present, Oxfordshire: Routledge, 2013, p. 12



  95. Jaime Nogueira Pinto, Portugal: Os Anos do Fim: De Goa ao Largo do Carmo – II Volume, Lisboa: Sociedade de Publicações Economia & Finanças, LDA., 1977, p. 7



  96. Herberto Helder, “Relance sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt”, em A Phala: https://phala.wordpress.com/2009/08/06/relance-sobre-a-poesia-de-edmundo-de-bettencourt/



  97. Nuno Medeiros, Edição e Editores: O Mundo do Livro em Portugal, 1940-1970, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2010, p. 148



  98. https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OTempoeoModo/OTempoeoModo.htm



  99. https://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/o-tempo-e-o-modo


A Psicologia das Multidões

Primeiros três capítulos da obra A Psicologia das Multidões, de Gustave le Bon, de 1895.

LIVRO PRIMEIRO
A ALMA DAS MULTIDÕES

CAPÍTULO PRIMEIRO
Características gerais das multidões. Lei psicológica da sua unidade mental.

O que constitui uma multidão do ponto de vista psicológico. — Uma aglomeração numerosa de indivíduos não basta para formar uma multidão. — Caracteres especiais das multidões psicológicas. — Orientação fixa das ideias e sentimentos nos indivíduos que as compõem e desaparecimento da sua personalidade. — A multidão está sempre dominada pelo inconsciente. — Desaparecimento da vida cerebral e predominância da vida medular. — Abaixamento da inteligência e transformação completa dos sentimentos. — Os sentimentos transformados podem ser melhores ou piores do que os dos indivíduos de que a multidão se compõe. — A multidão é tão facilmente heróica como criminosa.

No sentido ordinário, a palavra multidão representa uma reunião de indivíduos quaisquer, quaisquer que sejam a sua nacionalidade, a sua profissão ou o seu sexo, e quaisquer que sejam também os acasos que os reúnem.

Do ponto de vista psicológico, a expressão multidão toma um significado completamente diferente. Em certas circunstâncias dadas, e só nessas circunstâncias, uma aglomeração de homens possui caracteres novos muito diferentes dos dos indivíduos que compõem essa aglomeração. A personalidade consciente desvanece-se, os sentimentos e as ideias de todas as unidades orientam-se na mesma direcção. Forma-se uma alma colectiva, transitória sem dúvida, mas apresentando caracteres muito nítidos. A colectividade torna-se então o que, à falta de melhor expressão, chamarei uma multidão organizada, ou, se preferirem, uma multidão psicológica. Forma um único ser e encontra-se submetida à lei da unidade mental das multidões.

É visível que não é pelo simples facto de muitos indivíduos se encontrarem acidentalmente lado a lado que adquirem os caracteres de uma multidão organizada. Mil indivíduos acidentalmente reunidos numa praça pública sem qualquer objectivo determinado não constituem de modo nenhum uma multidão do ponto de vista psicológico. Para adquirirem os caracteres especiais, é necessária a influência de certos excitantes cuja natureza teremos de determinar.

O desaparecimento da personalidade consciente e a orientação dos sentimentos e dos pensamentos num sentido determinado, que são os primeiros traços da multidão em vias de se organizar, não implicam sempre a presença simultânea de vários indivíduos num só ponto. Milhares de indivíduos separados podem, em certos momentos, sob a influência de certas emoções violentas — um grande acontecimento nacional, por exemplo —, adquirir os caracteres de uma multidão psicológica. Bastará então que um acaso qualquer os reúna para que os seus actos revistam imediatamente os caracteres especiais dos actos das multidões. Em certos momentos, meia dúzia de homens pode constituir uma multidão psicológica, enquanto centenas de homens reunidos por acaso podem não a constituir. Por outro lado, um povo inteiro, sem que haja aglomeração visível, pode tornar-se multidão sob a acção de certas influências.

Quando uma multidão psicológica está constituída, adquire caracteres gerais provisórios, mas determináveis. A estes caracteres gerais juntam-se caracteres particulares, variáveis segundo os elementos de que a multidão se compõe e que podem modificar a sua constituição mental.

As multidões psicológicas são portanto susceptíveis de uma classificação e, quando chegarmos a ocupar-nos dessa classificação, veremos que uma multidão heterogénea, isto é, composta de elementos dissemelhantes, apresenta com as multidões homogéneas — isto é, compostas de elementos mais ou menos semelhantes (sectas, castas e classes) — caracteres comuns e, ao lado desses caracteres comuns, particularidades que permitem diferenciá-la.

Mas antes de nos ocuparmos das diversas categorias de multidões, devemos examinar primeiro os caracteres comuns a todas. Procederemos como o naturalista, que começa por descrever os caracteres gerais comuns a todos os indivíduos de uma família antes de se ocupar dos caracteres particulares que permitem diferenciar os géneros e as espécies que essa família encerra.

Não é fácil descrever com exactidão a alma das multidões, porque a sua organização varia não só segundo a raça e a composição das colectividades, mas também segundo a natureza e o grau dos excitantes a que essas colectividades estão submetidas. Mas a mesma dificuldade apresenta-se no estudo psicológico de qualquer indivíduo. Só nos romances se vê os indivíduos atravessar a vida com um carácter constante. Só a uniformidade dos meios cria a uniformidade aparente dos caracteres. Mostrei noutro lugar que todas as constituições mentais contêm possibilidades de carácter que podem manifestar-se logo que o meio muda bruscamente. Foi assim que, entre os Convencionais mais ferozes, se encontravam burgueses inofensivos que, nas circunstâncias ordinárias, teriam sido notários pacíficos ou magistrados virtuosos. Passada a tempestade, retomaram o seu carácter normal de burgueses pacíficos. Napoleão encontrou entre eles os seus servidores mais dóceis.

Não podendo estudar aqui todos os graus de organização das multidões, considerá-las-emos sobretudo na sua fase de completa organização. Veremos assim o que elas podem tornar-se, mas não o que são sempre. É só nesta fase avançada de organização que, sobre o fundo invariável e dominante da raça, se sobrepõem certos caracteres novos e especiais, e que se produz a orientação de todos os sentimentos e pensamentos da colectividade numa direcção idêntica. É só então que se manifesta o que chamei acima a lei psicológica da unidade mental das multidões.

Entre os caracteres psicológicos das multidões, há alguns que elas podem apresentar em comum com indivíduos isolados; outros, pelo contrário, são-lhes absolutamente especiais e só se encontram nas colectividades. São estes caracteres especiais que vamos estudar primeiro, para bem mostrar a sua importância.

O facto mais impressionante que apresenta uma multidão psicológica é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, por mais semelhantes ou dissemelhantes que sejam o seu género de vida, as suas ocupações, o seu carácter ou a sua inteligência, pelo simples facto de serem transformados em multidão, possuem uma espécie de alma colectiva que os faz sentir, pensar e agir de uma maneira completamente diferente daquela como sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente. Há ideias, sentimentos que só surgem ou se transformam em actos nos indivíduos em multidão. A multidão psicológica é um ser provisório, formado de elementos heterogéneos que por um instante se soldaram, exactamente como as células que constituem um corpo vivo formam pela sua reunião um ser novo manifestando caracteres muito diferentes dos que cada uma dessas células possui.

Contrariamente a uma opinião que surpreende encontrar sob a pena de um filósofo tão penetrante como Herbert Spencer, no agregado que constitui uma multidão não há de modo nenhum soma nem média dos elementos, há combinação e criação de caracteres novos, do mesmo modo que em química certos elementos postos em presença, as bases e os ácidos por exemplo, se combinam para formar um corpo novo possuindo propriedades completamente diferentes das dos corpos que serviram para o constituir.

É fácil constatar quanto o indivíduo em multidão difere do indivíduo isolado; mas é menos fácil descobrir as causas dessa diferença.

Para ao menos entrever essas causas, é preciso recordar primeiro esta constatação da psicologia moderna: que não é só na vida orgânica, mas também no funcionamento da inteligência, que os fenómenos inconscientes desempenham um papel absolutamente preponderante. A vida consciente do espírito representa apenas uma parte muito fraca junto da sua vida inconsciente. O analista mais subtil, o observador mais penetrante chega dificilmente a descobrir senão um número muito pequeno dos móveis inconscientes que o conduzem. Os nossos actos conscientes derivam de um substrato inconsciente criado sobretudo por influências de hereditariedade. Esse substrato encerra os inumeráveis resíduos ancestrais que constituem a alma da raça. Por detrás das causas confessadas dos nossos actos, há sem dúvida as causas secretas que não confessamos, mas por detrás dessas causas secretas há outras muito mais secretas ainda, pois que nós próprios as ignoramos. A maior parte das nossas acções quotidianas não são senão o efeito de móveis ocultos que nos escapam.

É sobretudo pelos elementos inconscientes que formam a alma de uma raça que todos os indivíduos dessa raça se parecem, e é principalmente pelos elementos conscientes, frutos da educação mas sobretudo de uma hereditariedade excepcional, que eles diferem. Os homens mais dissemelhantes pela sua inteligência têm instintos, paixões, sentimentos muito semelhantes. Em tudo o que é matéria de sentimento: religião, política, moral, afeições e antipatias, etc., os homens mais eminentes raramente ultrapassam o nível dos indivíduos mais ordinários. Entre um grande matemático e o seu sapateiro pode existir um abismo do ponto de vista intelectual, mas do ponto de vista do carácter a diferença é o mais das vezes nula ou muito fraca.

Ora são precisamente estas qualidades gerais do carácter, regidas pelo inconsciente e que a maioria dos indivíduos normais de uma raça possuem mais ou menos no mesmo grau, que, nas multidões, são postas em comum. Na alma colectiva, as aptidões intelectuais dos indivíduos, e por conseguinte a sua individualidade, apagam-se. O heterogéneo afoga-se no homogéneo, e as qualidades inconscientes dominam.

É justamente esta posta em comum de qualidades ordinárias que nos explica por que razão as multidões nunca poderiam realizar actos que exigissem uma inteligência elevada. As decisões de interesse geral tomadas por uma assembleia de homens distintos, mas de especialidades diferentes, não são sensivelmente superiores às decisões que tomaria uma reunião de imbecis. Não podem pôr em comum, com efeito, senão essas qualidades medíocres que toda a gente possui. Nas multidões, é a estupidez e não o espírito que se acumula. Não é toda a gente, como tantas vezes se repete, que tem mais espírito do que Voltaire; é certamente Voltaire que tem mais espírito do que toda a gente, se por «toda a gente» se deve entender as multidões.

Mas se os indivíduos em multidão se limitassem a pôr em comum as qualidades ordinárias de que cada um tem a sua parte, haveria simplesmente média, e não, como dissemos, criação de caracteres novos. Como se estabelecem esses caracteres novos? É o que devemos agora pesquisar.

Diversas causas determinam o aparecimento desses caracteres especiais às multidões, e que os indivíduos isolados não possuem. A primeira é que o indivíduo em multidão adquire, pelo simples facto do número, um sentimento de potência invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado. Será tanto menos inclinado a refreá-los quanto, sendo a multidão anónima e por conseguinte irresponsável, o sentimento da responsabilidade, que sempre retém os indivíduos, desaparece inteiramente.

Uma segunda causa, o contágio, intervém igualmente para determinar nas multidões a manifestação de caracteres especiais e ao mesmo tempo a sua orientação. O contágio é um fenómeno fácil de constatar, mas não explicado, e que é preciso ligar aos fenómenos de ordem hipnótica que estudaremos dentro de pouco. Numa multidão, todo o sentimento, todo o acto é contagioso, e contagioso a tal ponto que o indivíduo sacrifica muito facilmente o seu interesse pessoal ao interesse colectivo. É uma aptidão muito contrária à sua natureza, e de que o homem só é capaz quando faz parte de uma multidão.

Uma terceira causa, e esta de longe a mais importante, determina nos indivíduos em multidão caracteres especiais por vezes completamente contrários aos do indivíduo isolado. Refiro-me à sugestibilidade, de que o contágio mencionado acima não é aliás senão um efeito.

Para compreender este fenómeno, é preciso ter presentes no espírito certas descobertas recentes da fisiologia. Sabemos hoje que, por processos variados, um indivíduo pode ser colocado num estado tal que, tendo perdido toda a sua personalidade consciente, obedeça a todas as sugestões do operador que lha fez perder, e cometa os actos mais contrários ao seu carácter e aos seus hábitos. Ora as observações mais atentas parecem provar que o indivíduo mergulhado há algum tempo no seio de uma multidão actuante se encontra em breve colocado — em consequência dos eflúvios que dela se desprendem, ou por qualquer outra causa que desconhecemos — num estado particular, muito próximo do estado de fascinação em que se encontra o hipnotizado nas mãos do seu hipnotizador. A vida do cérebro estando paralisada no sujeito hipnotizado, este torna-se escravo de todas as actividades inconscientes da sua medula espinhal, que o hipnotizador dirige a seu bel-prazer. A personalidade consciente desvanece-se inteiramente, a vontade e o discernimento perdem-se. Todos os sentimentos e pensamentos se orientam no sentido determinado pelo hipnotizador.

Tal é aproximadamente também o estado do indivíduo que faz parte de uma multidão psicológica. Já não tem consciência dos seus actos. Nele, como no hipnotizado, ao mesmo tempo que certas faculdades são destruídas, outras podem ser levadas a um grau de exaltação extrema. Sob a influência de uma sugestão, lançará com uma impetuosidade irresistível a realização de certos actos. Impetuosidade ainda mais irresistível nas multidões do que no sujeito hipnotizado, porque a sugestão sendo a mesma para todos os indivíduos exagera-se ao tornar-se recíproca. As individualidades que, na multidão, possuiriam uma personalidade suficientemente forte para resistir à sugestão são em número demasiado pequeno para lutar contra a corrente. Quando muito poderão tentar uma diversão por uma sugestão diferente. Foi assim, por exemplo, que uma palavra feliz, uma imagem evocada a propósito, por vezes desviaram as multidões dos actos mais sanguinários.

Portanto, desaparecimento da personalidade consciente, predominância da personalidade inconsciente, orientação por via de sugestão e de contágio dos sentimentos e das ideias num mesmo sentido, tendência a transformar imediatamente em actos as ideias sugeridas, tais são os principais caracteres do indivíduo em multidão. Já não é ele mesmo, tornou-se um autómato que a sua vontade já não guia.

Assim, pelo simples facto de fazer parte de uma multidão organizada, o homem desce vários graus na escala da civilização. Isolado, era talvez um indivíduo culto; em multidão é um bárbaro, isto é, um instintivo. Tem a espontaneidade, a violência, a ferocidade, e também os entusiasmos e os heroísmos dos seres primitivos. Tende a aproximar-se ainda mais deles pela facilidade com que se deixa impressionar por palavras, imagens — que sobre cada um dos indivíduos isolados que compõem a multidão seriam completamente sem acção — e conduzir a actos contrários aos seus interesses mais evidentes e aos seus hábitos mais conhecidos. O indivíduo em multidão é um grão de areia no meio de outros grãos de areia que o vento levanta a seu bel-prazer.

E é assim que vemos júris proferirem veredictos que cada jurado individualmente desaprovaria, assembleias parlamentares adoptarem leis e medidas que cada um dos membros que as compõem reprovaria em particular. Tomados separadamente, os homens da Convenção eram burgueses esclarecidos, de hábitos pacíficos. Reunidos em multidão, não hesitavam em aprovar as proposições mais ferozes, em enviar para a guilhotina os indivíduos mais manifestamente inocentes; e, contrariamente a todos os seus interesses, renunciar à sua inviolabilidade e decimarem-se a si próprios.

E não é só pelos seus actos que o indivíduo em multidão difere essencialmente de si mesmo. Antes mesmo de ter perdido toda a independência, as suas ideias e os seus sentimentos já se transformaram, e a transformação é profunda a ponto de mudar o avarento em pródigo, o céptico em crente, o homem honesto em criminoso, o cobarde em herói. A renúncia a todos os seus privilégios que, num momento de entusiasmo, a nobreza votou na famosa noite de 4 de Agosto de 1789, certamente nunca teria sido aceite por nenhum dos seus membros tomado isoladamente.

Concluímos do que precede que a multidão é sempre intelectualmente inferior ao homem isolado, mas que, do ponto de vista dos sentimentos e dos actos que esses sentimentos provocam, ela pode, segundo as circunstâncias, ser melhor ou pior. Tudo depende da maneira como a multidão é suggestionada. Foi isto que os escritores que só estudaram as multidões do ponto de vista criminal perfeitamente desconheceram. A multidão é muitas vezes criminosa, sem dúvida, mas muitas vezes também é heróica. São sobretudo as multidões que se levam a fazer-se matar pelo triunfo de uma crença ou de uma ideia, que se entusiasmam pela glória e pela honra, que se arrastam quase sem pão e sem armas como na idade das cruzadas, para libertar da infiel o túmulo de um Deus, ou como em 93, para defender o solo da pátria. Heroísmos um pouco inconscientes, sem dúvida, mas é com estes heroísmos que se faz a história. Se só se devesse pôr a crédito dos povos as grandes acções friamente raciocinadas, os anais do mundo registariam bem poucos.

(continua no Capítulo II, se desejar prosseguir)

Aqui continua a tradução para português de Portugal de Psicologia das Multidões de Gustave Le Bon, prosseguindo directamente do fim do Capítulo I.

CAPÍTULO II
Sentimentos e moralidade das multidões

§ 1. Impulsividade, mobilidade e irritabilidade das multidões. — A multidão é o brinquedo de todas as excitações exteriores e reflecte as suas incessantes variações. — As impulsões a que obedece são suficientemente imperiosas para que o interesse pessoal se apague. — Nada é premeditado nas multidões. — Acção da raça. — § 2. Sugestibilidade e credulidade das multidões. — A sua obediência às sugestões. — As imagens evocadas no seu espírito são tomadas por elas como realidades. — Por que estas imagens são semelhantes para todos os indivíduos que compõem uma multidão. — Igualação do sábio e do imbecil numa multidão. — Exemplos diversos das ilusões a que todos os indivíduos de uma multidão estão sujeitos. — Impossibilidade de conceder qualquer crédito ao testemunho das multidões. — A unanimidade de numerosos testemunhos é uma das piores provas que se podem invocar para estabelecer um facto. — Fraco valor dos livros de história. — § 3. Exageração e simplismo dos sentimentos das multidões. — As multidões não conhecem nem a dúvida nem a incerteza e vão sempre aos extremos. — Os seus sentimentos são sempre excessivos. — § 4. Intolerância, autoritarismo e conservadorismo das multidões. — Razões destes sentimentos. — Servidão das multidões perante uma autoridade forte. — Os instintos revolucionários momentâneos das multidões não as impedem de serem extremamente conservadoras. — São de instinto hostis às mudanças e ao progresso. — § 5. Moralidade das multidões. — A moralidade das multidões pode, segundo as sugestões, ser muito mais baixa ou muito mais alta do que a dos indivíduos que as compõem. — Explicação e exemplos. — As multidões têm raramente por guia o interesse que é, o mais das vezes, o móvel exclusivo do indivíduo isolado. — Papel moralizador das multidões.

Depois de termos indicado de uma forma muito geral os principais caracteres das multidões, resta-nos penetrar no detalhe desses caracteres.

Observar-se-á que, entre os caracteres especiais das multidões, há vários, tais como a impulsividade, a irritabilidade, a incapacidade de raciocinar, a ausência de juízo e de espírito crítico, a exageração dos sentimentos, e outros ainda, que também se observam nos seres pertencentes a formas inferiores de evolução, tais como a mulher, o selvagem e a criança; mas trata-se aqui de uma analogia que só indico de passagem. A sua demonstração sairia do quadro desta obra. Seria inútil, aliás, para as pessoas ao corrente da psicologia dos primitivos, e permaneceria sempre pouco convincente para aquelas que a não conhecem.

Abordo agora um após outro os diversos caracteres que se podem observar na maioria das multidões.

§ 1. — IMPULSIVIDADE, MOBILIDADE E IRRITABILIDADE DAS MULTIDÕES

A multidão, dissemos nós ao estudar os seus caracteres fundamentais, é conduzida quase exclusivamente pelo inconsciente. Os seus actos estão muito mais sob a influência da medula espinhal do que sob a do cérebro. Aproxima-se nisso dos seres completamente primitivos. Os actos executados podem ser perfeitos quanto à sua execução, mas, não sendo o cérebro a dirigi-los, o indivíduo age segundo os acasos das excitações. Uma multidão é o brinquedo de todas as excitações exteriores e reflecte as suas incessantes variações. É portanto escrava das impulsões que recebe. O indivíduo isolado pode estar submetido às mesmas excitações que o homem em multidão; mas como o seu cérebro lhe mostra os inconvenientes de ceder a elas, não cede. É o que se pode exprimir fisiologicamente dizendo que o indivíduo isolado possui a aptidão de dominar os seus reflexos, enquanto a multidão não a possui.

Estas diversas impulsões a que obedecem as multidões poderão ser, segundo as excitações, generosas ou cruéis, heróicas ou pusilânimes, mas serão sempre tão imperiosas que o interesse pessoal, o interesse da conservação ele mesmo, não as dominará.

Os excitantes que podem actuar sobre as multidões sendo muito variados, e as multidões lhes obedecendo sempre, estas são por consequência extremamente móveis; e é por isso que as vemos passar num instante da ferocidade mais sanguinária à generosidade ou ao heroísmo mais absoluto. A multidão torna-se muito facilmente carrasco, mas não menos facilmente mártir. É do seu seio que correram os torrentes de sangue exigidos pelo triunfo de cada crença. Não é preciso remontar às idades heróicas para ver de que, deste último ponto de vista, as multidões são capazes. Elas nunca regateiam a sua vida numa revolta, e há bem poucos anos que um general, tornado subitamente popular, teria encontrado facilmente cem mil homens prontos a fazerem-se matar pela sua causa, se lho tivesse pedido.

Nada pode pois ser premeditado nas multidões. Podem percorrer sucessivamente a gama dos sentimentos mais contrários, mas estarão sempre sob a influência das excitações do momento. São semelhantes às folhas que o furacão levanta, dispersa em todos os sentidos, depois deixa cair. Ao estudar noutro lugar certas multidões revolucionárias, mostraremos alguns exemplos da variabilidade dos seus sentimentos.

Esta mobilidade das multidões torna-as muito difíceis de governar, sobretudo quando uma parte dos poderes públicos caiu nas suas mãos. Se as necessidades da vida de cada dia não constituíssem uma espécie de regulador invisível das coisas, as democracias dificilmente durariam. Mas, se as multidões querem as coisas com frenesi, não as querem por muito tempo. São tão incapazes de vontade duradoura como de pensamento.

A multidão não é só impulsiva e móvel. Como o selvagem, não admite que algo possa interpor-se entre o seu desejo e a realização desse desejo. Compreende-o tanto menos quanto o número lhe dá o sentimento de uma potência irresistível. Para o indivíduo em multidão, a noção de impossibilidade desaparece. O indivíduo isolado sente bem que sozinho não poderia incendiar um palácio, saquear uma loja e, se for tentado, resiste facilmente à tentação. Fazendo parte de uma multidão, tem consciência do poder que o número lhe dá, e basta sugerir-lhe ideias de assassínio e de pilhagem para que ceda imediatamente à tentação. O obstáculo inesperado será quebrado com frenesi. Se o organismo humano permitisse a perpetuidade da fúria, poder-se-ia dizer que o estado normal da multidão contrariada é a fúria.

Na irritabilidade das multidões, na sua impulsividade e na sua mobilidade, assim como em todos os sentimentos populares que teremos de estudar, intervêm sempre os caracteres fundamentais da raça, que constituem o solo invariável sobre o qual germinam todos os nossos sentimentos. Todas as multidões são sempre irritáveis e impulsivas, sem dúvida, mas com grandes variações de grau. A diferença entre uma multidão latina e uma multidão anglo-saxónica é, por exemplo, impressionante. Os factos mais recentes da nossa história lançam uma viva luz sobre este ponto. Bastou, há vinte e cinco anos, a publicação de um simples telegrama relatando uma suposta injúria feita a um embaixador para determinar uma explosão de fúria de que saiu imediatamente uma guerra terrível. Alguns anos mais tarde, o anúncio telegráfico de um insignificante revés em Langson provocou uma nova explosão que trouxe a queda instantânea do governo. No mesmo momento, o revés muito mais grave de uma expedição inglesa diante de Cartum não produziu em Inglaterra senão uma emoção muito fraca, e nenhum ministério foi derrubado. As multidões são em toda a parte femininas, mas as mais femininas de todas são as multidões latinas. Quem se apoia nelas pode subir muito alto e muito depressa, mas roçando constantemente a rocha Tarpeia e com a certeza de ser dela precipitado um dia.

§ 2. — SUGESTIBILIDADE E CREDULIDADE DAS MULTIDÕES

Dissemos, ao definir as multidões, que um dos seus caracteres gerais é uma sugestibilidade excessiva, e mostramos quanto, em toda a aglomeração humana, uma sugestão é contagiosa; o que explica a orientação rápida dos sentimentos num sentido determinado.

Por mais neutra que se suponha, a multidão encontra-se o mais das vezes nesse estado de atenção expectante que torna a sugestão fácil. A primeira sugestão formulada que surge impõe-se imediatamente por contágio a todos os cérebros, e logo a orientação estabelece-se. Como em todos os seres suggestionados, a ideia que invadiu o cérebro tende a transformar-se em acto. Quer se trate de um palácio a incendiar ou de um acto de devoção a cumprir, a multidão presta-se a isso com a mesma facilidade. Tudo dependerá da natureza do excitante, e não mais, como no ser isolado, das relações existentes entre o acto sugerido e a soma de razão que pode ser oposta à sua realização.

Assim, errando sempre nos limites da inconsciência, submetendo-se facilmente a todas as sugestões, tendo toda a violência de sentimentos própria dos seres que não podem apelar às influências da razão, desprovida de todo o espírito crítico, a multidão não pode senão ser de uma credulidade excessiva. O inverosímil não existe para ela, e é preciso bem recordá-lo para compreender a facilidade com que se criam e se propagam as lendas e os relatos mais inverosímeis.

A criação das lendas que circulam tão facilmente nas multidões não é determinada apenas por uma credulidade completa. É-o ainda pelas deformações prodigiosas que os acontecimentos sofrem na imaginação de pessoas reunidas. O acontecimento mais simples visto pela multidão torna-se em breve um acontecimento transformado. Ela pensa por imagens, e a imagem evocada evoca por sua vez uma série de outras sem qualquer ligação lógica com a primeira. Concebemos facilmente este estado ao pensar nas bizarras sucessões de ideias a que por vezes somos conduzidos pela evocação de um facto qualquer. A razão mostra-nos o que nessas imagens há de incoerência, mas a multidão mal o vê; e o que a sua imaginação deformante acrescenta ao acontecimento real, confunde-o com ele. A multidão separa dificilmente o subjectivo do objectivo. Admite como reais as imagens evocadas no seu espírito e que o mais das vezes só têm uma parentela distante com o facto observado.

As deformações que uma multidão faz sofrer a um acontecimento qualquer de que é testemunha deveriam, parece, ser inumeráveis e de sentidos diversos, pois os indivíduos que a compõem são de temperamentos muito diferentes. Mas não é assim. Em consequência do contágio, as deformações são da mesma natureza e do mesmo sentido para todos os indivíduos. A primeira deformação percebida por um dos indivíduos da colectividade é o núcleo da sugestão contagiosa. Antes de aparecer nas muralhas de Jerusalém a todos os cruzados, São Jorge não foi certamente visto senão por um dos assistentes. Por via de sugestão e de contágio, o milagre assinalado por um só foi imediatamente aceite por todos.

Tal é sempre o mecanismo destas alucinações colectivas tão frequentes na história, e que parecem ter todos os caracteres clássicos da autenticidade, pois se trata de fenómenos constatados por milhares de pessoas.

Não se deve, para combater o que precede, invocar a qualidade mental dos indivíduos de que a multidão se compõe. Essa qualidade é sem importância. Desde que estejam em multidão, o ignorante e o sábio são igualmente incapazes de observação.

A tese pode parecer paradoxal. Para a demonstrar a fundo, seria preciso retomar um grande número de factos históricos, e vários volumes não bastariam.

Não querendo, contudo, deixar o leitor sob a impressão de asserções sem provas, vou dar-lhe alguns exemplos tomados ao acaso entre os montes daqueles que se poderiam citar.

O facto seguinte é um dos mais típicos, porque é escolhido entre alucinações colectivas que grassaram numa multidão onde se encontravam indivíduos de todo o tipo, os mais ignorantes como os mais instruídos. É relatado incidentalmente pelo tenente de navio Julien Félix no seu livro sobre as correntes do mar, e foi outrora reproduzido na Revue Scientifique.

A fragata La Belle-Poule cruzava no mar para encontrar a corveta Le Berceau de que fora separada por uma violenta tempestade. Era pleno dia e pleno sol. De repente, a vigia assinala uma embarcação desarvorada. A tripulação dirige os olhares para o ponto assinalado, e toda a gente, oficiais e marinheiros, vê nitidamente uma jangada carregada de homens rebocada por embarcações sobre as quais flutuavam sinais de socorro. Não era contudo senão uma alucinação colectiva. O almirante Desfossés mandou armar uma embarcação para socorrer os náufragos. Ao aproximar-se, os marinheiros e os oficiais que a tripulavam viam «massas de homens agitar-se, estender as mãos, e ouviam o ruído surdo e confuso de um grande número de vozes». Quando a embarcação chegou, encontraram-se simplesmente diante de alguns ramos de árvores cobertos de folhas arrancados à costa vizinha. Diante de uma evidência tão palpável, a alucinação desvaneceu-se.

Neste exemplo vê-se desenrolar muito claramente o mecanismo da alucinação colectiva tal como o explicámos. De um lado, uma multidão em estado de atenção expectante; do outro, uma sugestão feita pela vigia assinalando um navio desarvorado no mar, sugestão que, por via de contágio, foi aceite por todos os assistentes, oficiais ou marinheiros.

Não é preciso que uma multidão seja numerosa para que a faculdade de ver correctamente o que se passa diante dela seja destruída, e os factos reais substituídos por alucinações sem parentesco com eles. Logo que alguns indivíduos se reúnem, constituem uma multidão e, mesmo que fossem sábios distintos, tomam todos os caracteres das multidões no que está fora da sua especialidade. A faculdade de observação e o espírito crítico possuídos por cada um deles desvanece-se imediatamente. Um psicólogo engenhoso, o Sr. Davey, fornece-nos um exemplo bem curioso, recentemente relatado pelas Annales des Sciences psychiques, e que merece ser contado aqui. O Sr. Davey tendo convocado uma reunião de observadores distintos, entre os quais um dos primeiros sábios de Inglaterra, o Sr. Wallace, executou diante deles, e depois de lhes ter deixado examinar os objectos e colocar selos onde quisessem, todos os fenómenos clássicos dos espíritas: materialização de espíritos, escrita em ardósias, etc. Tendo depois obtido destes observadores distintos relatórios escritos afirmando que os fenómenos observados só podiam ter sido obtidos por meios sobrenaturais, revelou-lhes que eram o resultado de burlas muito simples. «O mais espantoso da investigação do Sr. Davey», escreve o autor da relação, «não é a maravilha das truques em si mesmos, mas a extrema fraqueza dos relatórios que deles fizeram os testemunhas não iniciadas. Portanto», diz ele, «as testemunhas podem fazer numerosos e positivos relatos que são completamente erróneos, mas cujo resultado é que, se se aceitarem as suas descrições como exactas, os fenómenos que descrevem são inexplicáveis pela burla. Os métodos inventados pelo Sr. Davey eram tão simples que se fica espantado com a ousadia de os empregar; mas ele tinha um tal poder sobre o espírito da multidão que podia persuadi-la de que via o que não via.» É sempre o poder do hipnotizador sobre o hipnotizado. Mas quando se vê este poder exercer-se sobre espíritos superiores, previamente postos em guarda contudo, concebe-se até que ponto é fácil iludir as multidões ordinárias.

Os exemplos análogos são inumeráveis. No momento em que escrevo estas linhas, os jornais estão cheios da história de duas meninas afogadas retiradas do Sena. Essas crianças foram primeiro reconhecidas da maneira mais categórica por uma dúzia de testemunhas. Todas as afirmações eram tão concordantes que não restava qualquer dúvida no espírito do juiz de instrução. Mandou lavrar o acto de óbito. Mas no momento em que se ia proceder ao enterro, o acaso fez descobrir que as vítimas supostas estavam perfeitamente vivas e que, aliás, só tinham uma semelhança muito distante com as pequenas afogadas. Como em vários dos exemplos anteriormente citados, a afirmação da primeira testemunha, vítima de uma ilusão, bastara para suggestionar todas as outras.

Nestes casos semelhantes, o ponto de partida da sugestão é sempre a ilusão produzida num indivíduo por reminiscências mais ou menos vagas, depois o contágio por via de afirmação dessa ilusão primitiva. Se o primeiro observador for muito impressionável, bastará muitas vezes que o cadáver que julga reconhecer apresente — fora de qualquer semelhança real — alguma particularidade, uma cicatriz ou um detalhe de vestuário, que possa evocar a ideia de outra pessoa. A ideia evocada pode então tornar-se o núcleo de uma espécie de cristalização que invade o campo do entendimento e paralisa toda a faculdade crítica. O que o observador vê então já não é o objecto em si, mas a imagem evocada no seu espírito. Assim se explicam os reconhecimentos erróneos de cadáveres de crianças pela própria mãe, como o caso seguinte, já antigo, mas que foi recentemente recordado pelos jornais, e onde se vê manifestarem-se precisamente as duas ordens de sugestão de que indiquei o mecanismo.

«A criança foi reconhecida por outra criança — que se enganou. A série dos reconhecimentos inexactos desenrolou-se então.

E viu-se uma coisa muito extraordinária. No dia seguinte ao em que um escolar a tinha reconhecido, uma mulher exclamou: “Ah! meu Deus, é o meu filho.”

Levaram-na junto do cadáver, ela examina as roupas, constata uma cicatriz na testa. “É mesmo”, diz ela, “o meu pobre filho, perdido desde julho passado. Roubaram-mo e mataram-mo!”

A mulher era porteira na rua do Four e chamava-se Chavandret. Mandaram vir o seu cunhado que, sem hesitação, disse: “É o pequeno Philibert.” Vários habitantes da rua reconheceram Philibert Chavandret na criança da Villette, sem contar o seu próprio mestre-escola para quem a medalha era um indício.

Pois bem, os vizinhos, o cunhado, o mestre-escola e a mãe enganavam-se. Seis semanas mais tarde, a identidade da criança foi estabelecida. Era uma criança de Bordéus, morta em Bordéus e, pelos correios, trazida a Paris.»

Observar-se-á que estes reconhecimentos se fazem, o mais das vezes, por mulheres e crianças, isto é, precisamente pelos seres mais impressionáveis. Mostram-nos, ao mesmo tempo, o que podem valer em justiça semelhantes testemunhos. No que respeita às crianças, nomeadamente, as suas afirmações nunca deveriam ser invocadas. Os magistrados repetem como um lugar-comum que a essa idade não se mente. Com uma cultura psicológica um pouco menos sumária, saberiam que a essa idade, pelo contrário, mente-se sempre. A mentira é, sem dúvida, inocente, mas nem por isso deixa de ser mentira. Valeria mais decidir à sorte a condenação de um acusado do que a decidir, como tantas vezes se fez, segundo o testemunho de uma criança.

Voltando às observações feitas pelas multidões, concluiremos que as suas observações colectivas são as mais erróneas de todas e que o mais das vezes representam simplesmente a ilusão de um indivíduo que, por via de contágio, suggestionou os outros. Poder-se-iam multiplicar ao infinito os factos provando que é preciso ter a mais completa desconfiança do testemunho das multidões. Milhares de homens assistiram, há vinte e cinco anos, à célebre carga de cavalaria da batalha de Sedan, e contudo é impossível, perante os testemunhos oculares mais contraditórios, saber por quem foi comandada. Num livro recente, o general inglês Wolseley provou que até aqui se cometeram os mais graves erros sobre os factos mais consideráveis da batalha de Waterloo, factos que centenas de testemunhas contudo atestaram.

Tais factos mostram-nos o que valem os testemunhos das multidões. Os tratados de lógica fazem entrar a unanimidade de numerosos testemunhos na categoria das provas mais sólidas que se podem invocar para provar a exactidão de um facto. Mas o que sabemos da psicologia das multidões mostra que os tratados de lógica estão por refazer inteiramente neste ponto. Os acontecimentos mais duvidosos são certamente os que foram observados pelo maior número de pessoas. Dizer que um facto foi simultaneamente constatado por milhares de testemunhas é dizer o mais das vezes que o facto real é muito diferente do relato adoptado.

Decorre claramente do que precede que é preciso considerar como obras de pura imaginação os livros de história. São relatos fantásticos de factos mal observados, acompanhados de explicações feitas a posteriori. Amassar gesso é fazer obra bem mais útil do que perder tempo a escrever semelhantes livros. Se o passado não nos tivesse legado as suas obras literárias, artísticas e monumentais, não saberíamos absolutamente nada de real sobre esse passado. Conhecemos nós uma só palavra verdadeira acerca da vida dos grandes homens que desempenharam os papéis preponderantes na humanidade, tais como Hércules, Buda, Jesus ou Maomé? Muito provavelmente não. No fundo, aliás, a sua vida real importa-nos muito pouco. O que nos interessa conhecer são os grandes homens tais como a lenda popular os fabricou. São os heróis lendários, e de modo nenhum os heróis reais, que impressionaram a alma das multidões.

Infelizmente as lendas — mesmo quando fixadas pelos livros — não têm elas mesmas qualquer consistência. A imaginação das multidões transforma-as sem cessar segundo os tempos, e sobretudo segundo as raças. Há uma grande distância do Jeová sanguinário da Bíblia ao Deus de amor de Santa Teresa, e o Buda adorado na China já não tem quaisquer traços comuns com aquele que é venerado na Índia.

Nem sequer é preciso que os séculos tenham passado sobre os heróis para que a sua lenda seja transformada pela imaginação das multidões. A transformação faz-se por vezes em poucos anos. Vimos nos nossos dias a lenda de um dos maiores heróis da história modificar-se várias vezes em menos de cinquenta anos. Sob os Bourbons, Napoleão tornou-se uma espécie de personagem idílica, filantropa e liberal, amigo dos humildes, que, segundo os poetas, devia conservar a sua memória sob a palha durante muito tempo. Trinta anos depois, o herói bonacheirão tornara-se um déspota sanguinário que, depois de ter usurpado o poder e a liberdade, fez perecer três milhões de homens unicamente para satisfazer a sua ambição. Nos nossos dias, assistimos a uma nova transformação da lenda. Quando algumas dezenas de séculos tiverem passado sobre ela, os sábios do futuro, perante estes relatos contraditórios, duvidarão talvez da existência do herói, como por vezes duvidam da de Buda, e não verão nele senão algum mito solar ou um desenvolvimento da lenda de Hércules. Consolar-se-ão facilmente, sem dúvida, desta incerteza, pois, melhor iniciados do que hoje no conhecimento da psicologia das multidões, saberão que a história mal pode eternizar senão mitos.

§ 3. — EXAGERAÇÃO E SIMPLISMO DOS SENTIMENTOS DAS MULTIDÕES

Quaisquer que sejam os sentimentos, bons ou maus, manifestados por uma multidão, apresentam este duplo carácter de serem muito simples e muito exagerados. Neste ponto, como em tantos outros, o indivíduo em multidão aproxima-se dos seres primitivos. Inacessível às nuances, vê as coisas em bloco e não conhece as transições. Na multidão, a exageração dos sentimentos é reforçada por este facto: um sentimento manifestado propaga-se muito depressa por via de sugestão e de contágio, e a aprovação evidente de que é objecto aumenta consideravelmente a sua força.

A simplicidade e a exageração dos sentimentos das multidões fazem com que estas não conheçam nem a dúvida nem a incerteza. Como as mulheres, vão logo aos extremos. A suspeita enunciada transforma-se imediatamente em evidência indiscutível. Um começo de antipatia ou de desaprovação, que no indivíduo isolado não se acentuaria, torna-se imediatamente ódio feroz no indivíduo em multidão.

A violência dos sentimentos das multidões é ainda exagerada, sobretudo nas multidões heterogéneas, pela ausência de responsabilidade. A certeza da impunidade, certeza tanto mais forte quanto maior for a multidão, e a noção de uma potência momentânea considerável devida ao número, tornam possíveis à colectividade sentimentos e actos impossíveis ao indivíduo isolado. Nas multidões, o imbecil, o ignorante e o invejoso libertam-se do sentimento da sua nulidade e da sua impotência, que é substituído pela noção de uma força brutal, passageira, mas imensa.

A exageração, nas multidões, incide infelizmente muitas vezes sobre maus sentimentos, resíduo atávico dos instintos do homem primitivo, que o medo do castigo obriga o indivíduo isolado e responsável a refrear. É isso que faz com que as multidões sejam tão facilmente levadas aos piores excessos.

Não é contudo que, suggestionadas habilmente, as multidões não sejam capazes de heroísmo, de devoção e de virtudes muito elevadas. São mesmo mais capazes disso do que o indivíduo isolado. Teremos em breve ocasião de voltar a este ponto ao estudar a moralidade das multidões.

Exagerada nos seus sentimentos, a multidão só é impressionada por sentimentos excessivos. O orador que quer seduzi-la deve abusar das afirmações violentas. Exagerar, afirmar, repetir, e nunca tentar demonstrar nada por um raciocínio, são processos de argumentação bem conhecidos dos oradores das reuniões populares.

A multidão quer ainda a mesma exageração nos sentimentos dos seus heróis. As suas qualidades e virtudes aparentes devem sempre ser ampliadas. Observou-se muito justamente que no teatro a multidão exige do herói da peça qualidades de coragem, de moralidade, de virtude que nunca são praticadas na vida.

Falou-se com razão da óptica especial do teatro. Existe uma, sem dúvida, mas as suas regras na maioria das vezes nada têm a ver com o bom senso e a lógica. A arte de falar às multidões é de ordem inferior, sem dúvida, mas exige aptidões todas especiais. É muitas vezes impossível explicar pela leitura o sucesso de certas peças. Os directores de teatro, quando as recebem, estão eles próprios na maioria das vezes muito incertos do êxito, porque, para julgar, seria preciso que se pudessem transformar em multidão. Aqui também, se pudéssemos entrar em desenvolvimentos, mostraríamos a influência preponderante da raça. A peça de teatro que entusiasma a multidão num país por vezes não tem qualquer sucesso noutro, ou só tem um sucesso de estima e de convenção, porque não põe em jogo os resortes capazes de emocionar o seu novo público.

Não preciso de acrescentar que a exageração das multidões incide apenas nos sentimentos, e de modo nenhum na inteligência. Já mostrei que, pelo simples facto de o indivíduo estar em multidão, o seu nível intelectual baixa imediatamente e consideravelmente. É o que um magistrado erudito, o Sr. Tarde, constatou igualmente nas suas pesquisas sobre os crimes das multidões. Não é pois senão na ordem do sentimento que as multidões podem subir muito alto ou descer, pelo contrário, muito baixo.

§ 4. — INTOLERÂNCIA, AUTORITARISMO E CONSERVADORISMO DAS MULTIDÕES

As multidões, não conhecendo senão sentimentos simples e extremos, as opiniões, ideias e crenças que lhes são sugeridas são aceites ou rejeitadas por elas em bloco, e consideradas como verdades absolutas ou erros não menos absolutos. É sempre assim com as crenças determinadas por via de sugestão, em vez de terem sido geradas por via de raciocínio. Toda a gente sabe quão intolerantes são as crenças religiosas e que império despótico exercem sobre as almas.

Não tendo qualquer dúvida sobre o que é verdade ou erro e tendo por outro lado a noção clara da sua força, a multidão é tão autoritária como intolerante. O indivíduo pode suportar a contradição e a discussão, a multidão nunca as suporta. Nas reuniões públicas, a mais leve contradição da parte de um orador é imediatamente acolhida por uivos de fúria e violentas invectivas, depressa seguidas de vias de facto e de expulsão, se o orador insistir. Sem a presença inquietante dos agentes da autoridade, o contraditor seria mesmo frequentemente massacrado.

O autoritarismo e a intolerância são gerais em todas as categorias de multidões, mas apresentam-se nelas em graus muito diversos; e aqui reaparece novamente a noção fundamental da raça, dominadora de todos os sentimentos e de todos os pensamentos dos homens. É sobretudo nas multidões latinas que o autoritarismo e a intolerância estão desenvolvidos num alto grau. Estão-no a ponto de terem destruído inteiramente esse sentimento da independência individual tão poderoso no anglo-saxão. As multidões latinas só são sensíveis à independência colectiva da seita a que pertencem, e a característica dessa independência é a necessidade de subjugar imediatamente e violentamente aos seus credos todos os dissidentes. Nos povos latinos, os jacobinos de todas as idades, desde os da Inquisição, nunca puderam elevar-se a outra concepção da liberdade.

O autoritarismo e a intolerância são para as multidões sentimentos muito claros, que concebem facilmente e aceitam tão facilmente quanto os praticam, desde que lhos imponham. As multidões respeitam docilmente a força e são mediocremente impressionadas pela bondade, que para elas não é senão uma forma da fraqueza. As suas simpatias nunca foram para os mestres bonacheirões, mas para os tiranos que as esmagaram vigorosamente. É sempre a estes últimos que erguem as estátuas mais altas. Se pisam de bom grado o déspota derrubado, é porque, tendo perdido a sua força, entra na categoria dos fracos que se desprezam porque não se temem. O tipo do herói querido das multidões terá sempre a estrutura de um César. O seu penacho seduz-as, a sua autoridade impõe-se-lhes e o seu sabre mete-lhes medo.

Sempre pronta a sublevar-se contra uma autoridade fraca, a multidão curva-se com servidão perante uma autoridade forte. Se a força da autoridade for intermitente, a multidão, obedecendo sempre aos seus sentimentos extremos, passa alternadamente da anarquia à servidão, e da servidão à anarquia.

Seria aliás desconhecer profundamente a psicologia das multidões acreditar na predominância dos seus instintos revolucionários. Só as suas violências nos iludem neste ponto. As suas explosões de revolta e de destruição são sempre muito efémeras. As multidões são demasiado regidas pelo inconsciente, e demasiado submetidas por consequência à influência de hereditariedades seculares, para não serem extremamente conservadoras. Abandonadas a si próprias, depressa se cansam dos seus desregramentos e dirigem-se instintivamente para a servidão. Foram os mais orgulhosos e os mais intratáveis dos jacobinos que aclamaram com mais energia Bonaparte, quando este suprimiu todas as liberdades e fez sentir duramente a sua mão de ferro.

É difícil compreender a história, sobretudo a das revoluções populares, quando não se percebe bem os instintos profundamente conservadores das multidões. Elas querem bem mudar os nomes das suas instituições, e por vezes até realizam revoluções violentas para obter essas mudanças; mas o fundo dessas instituições é demasiado a expressão das necessidades hereditárias da raça para que não voltem sempre a elas. A sua mobilidade incessante só incide sobre coisas completamente superficiais. De facto, têm instintos conservadores tão irredutíveis como os de todos os primitivos. O seu respeito fetichista pelas tradições é absoluto, o seu horror inconsciente por todas as novidades capazes de mudar as suas condições reais de existência é completamente profundo. Se as democracias tivessem possuído o poder que têm hoje na época em que foram inventados os ofícios mecânicos, o vapor e os caminhos-de-ferro, a realização dessas invenções teria sido impossível, ou só o teria sido ao preço de revoluções e massacres repetidos. É feliz, para os progressos da civilização, que o poder das multidões só tenha começado a nascer quando as grandes descobertas da ciência e da indústria já estavam realizadas.

§ 5. — MORALIDADE DAS MULTIDÕES

Se tomarmos a palavra moralidade no sentido de respeito constante de certas convenções sociais e de repressão permanente dos impulsos egoístas, é bem evidente que as multidões são demasiado impulsivas e demasiado móveis para serem susceptíveis de moralidade. Mas se, no termo moralidade, fizermos entrar o aparecimento momentâneo de certas qualidades tais como a abnegação, a devoção, o desinteresse, o sacrifício de si mesmo, a necessidade de equidade, podemos dizer que as multidões são pelo contrário por vezes susceptíveis de uma moralidade muito elevada.

Os raros psicólogos que estudaram as multidões só as consideraram do ponto de vista dos seus actos criminosos; e, vendo até que ponto esses actos são frequentes, consideraram-nas como tendo um nível moral muito baixo.

Sem dúvida é muitas vezes assim: mas porquê? Simplesmente porque os instintos de ferocidade destrutiva são resíduos das idades primitivas que dormem no fundo de cada um de nós. Na vida do indivíduo isolado, seria perigoso satisfazê-los, enquanto a sua absorção numa multidão irresponsável, e onde por consequência a impunidade é assegurada, lhe dá toda a liberdade para os seguir. Não podendo exercer habitualmente esses instintos destrutivos sobre os nossos semelhantes, limitamo-nos a exercê-los sobre os animais. É da mesma fonte que derivam a paixão tão geral pela caça e os actos de ferocidade das multidões. A multidão que esquarteja lentamente uma vítima sem defesa dá prova de uma ferocidade muito cobarde; mas, para o filósofo, esta ferocidade está bem próxima da dos caçadores que se reúnem aos pares para terem o prazer de assistir à perseguição e ao esventramento de um infeliz cervo pelos seus cães.

Se a multidão é capaz de assassínio, de incêndio e de toda a sorte de crimes, é igualmente capaz de actos de devoção, de sacrifício e de desinteresse muito elevados, muito mais elevados mesmo do que aqueles de que é capaz o indivíduo isolado. É sobretudo sobre o indivíduo em multidão que se actua, e muitas vezes até ao sacrifício da vida, invocando sentimentos de glória, de honra, de religião e de pátria. A história está cheia de exemplos análogos aos das cruzadas e dos voluntários de 93. Só as colectividades são capazes de grandes desinteresses e de grandes devoções. Quantas multidões se fizeram massacrar heroicamente por crenças, ideias e palavras que mal compreendiam. As multidões que fazem greves fazem-nas muito mais para obedecer a uma palavra de ordem do que para obter um aumento do magro salário de que se contentam. O interesse pessoal é raramente um móvel poderoso nas multidões, enquanto é o móvel quase exclusivo do indivíduo isolado. Certamente não foi o interesse que guiou as multidões em tantas guerras, na maioria das vezes incompreensíveis para a sua inteligência, e em que se deixaram massacrar tão facilmente como as cotovias hipnotizadas pelo espelho que o caçador maneja.

Mesmo para os perfeitos patifes, acontece muito frequentemente que o simples facto de estarem reunidos em multidão lhes dá momentaneamente princípios de moralidade muito estritos. Taine observa que os massacradores de Setembro vinham depositar na mesa dos comités as carteiras e as joias que encontravam nas suas vítimas, e que poderiam facilmente roubar. A multidão ululante, agitada e miserável que invadiu as Tulherias durante a Revolução de 1848 não se apoderou de nenhum dos objectos que a deslumbraram e de que um só teria representado pão para muitos dias.

Esta moralização do indivíduo pela multidão não é certamente uma regra constante, mas é uma regra que se observa frequentemente. Observa-se mesmo em circunstâncias muito menos graves do que as que citei. Já disse que no teatro a multidão quer no herói da peça virtudes exageradas, e é de observação banal que uma assistência, mesmo composta de elementos inferiores, se mostra geralmente muito pudica. O boémio profissional, o alcoviteiro, o vadia debochado murmuram muitas vezes diante de uma cena um pouco ousada ou de uma conversa leve, contudo muito anódina junto das suas conversas habituais.

Portanto, se as multidões se entregam muitas vezes a baixos instintos, dão também por vezes o exemplo de actos de moralidade elevados. Se o desinteresse, a resignação, a devoção absoluta a um ideal quimérico ou real são virtudes morais, pode-se dizer que as multidões possuem muitas vezes essas virtudes num grau que os mais sábios dos filósofos raramente atingiram. Praticam-nas sem dúvida inconscientemente, mas que importa. Não nos lamentemos demasiado que as multidões sejam guiadas sobretudo pelo inconsciente, e que raciocinem pouco. Se raciocinassem por vezes e consultassem os seus interesses imediatos, talvez nenhuma civilização se tivesse desenvolvido à superfície do nosso planeta, e a humanidade não teria história.

CAPÍTULO III
Ideias, raciocínios e imaginação das multidões

§ 1. As ideias das multidões. — As ideias fundamentais e as ideias acessórias. — Como podem coexistir simultaneamente ideias contraditórias. — Transformações que as ideias superiores devem sofrer para serem acessíveis às multidões. — O papel social das ideias é independente da parte de verdade que podem conter. — § 2. Os raciocínios das multidões. — As multidões não são influenciáveis por raciocínios. — Os raciocínios das multidões são sempre de ordem muito inferior. — As ideias que associam não têm senão aparências de analogia ou de sucessão. — § 3. A imaginação das multidões. — Potência da imaginação das multidões. — Pensam por imagens, e essas imagens sucedem-se sem qualquer ligação. — As multidões são impressionadas sobretudo pelo lado maravilhoso das coisas. — O maravilhoso e o lendário são os verdadeiros suportes das civilizações. — A imaginação popular foi sempre a base do poder dos homens de Estado. — Como se apresentam os factos capazes de impressionar a imaginação das multidões.

§ 1. — AS IDEIAS DAS MULTIDÕES

Estudando na nossa obra anterior o papel das ideias na evolução dos povos, mostramos que cada civilização deriva de um pequeno número de ideias fundamentais muito raramente renovadas. Explicámos como essas ideias se estabelecem na alma das multidões; com que dificuldade aí penetram, e o poder que possuem quando aí penetraram. Vimos finalmente como as grandes perturbações históricas derivam o mais das vezes das mudanças dessas ideias fundamentais.

Tendo tratado suficientemente este assunto, não voltarei a ele agora e limitar-me-ei a dizer algumas palavras das ideias acessíveis às multidões e sob que formas estas as concebem.

Pode-se dividi-las em duas classes. Numa colocaremos as ideias acidentais e passageiras criadas sob influências do momento: o entusiasmo por um indivíduo ou uma doutrina, por exemplo. Na outra, as ideias fundamentais a que o meio, a hereditariedade, a opinião dão uma estabilidade muito grande: tais como as crenças religiosas outrora, as ideias democráticas e sociais hoje.

As ideias fundamentais poderiam ser figuradas pela massa das águas de um rio desenrolando lentamente o seu curso; as ideias passageiras pelas pequenas vagas, sempre cambiantes, que agitam a sua superfície, e que, embora sem importância real, são mais visíveis do que a marcha do próprio rio.

Nos nossos dias, as grandes ideias fundamentais de que viveram os nossos pais estão cada vez mais vacilantes. Perderam toda a solidez, e, ao mesmo tempo, as instituições que repousavam sobre elas se viram profundamente abaladas. Formam-se diariamente muitas dessas pequenas ideias transitórias de que falei há pouco; mas muito poucas delas parecem visivelmente crescer e dever adquirir uma influência preponderante.

Quaisquer que sejam as ideias sugeridas às multidões, só podem tornar-se dominantes com a condição de revestirem uma forma muito absoluta e muito simples. Apresentam-se então sob o aspecto de imagens, e só são acessíveis às massas sob essa forma. Essas ideias-imagens não estão ligadas entre si por qualquer laço lógico de analogia ou de sucessão, e podem substituir-se umas às outras como os vidros da lanterna mágica que o operador retira da caixa onde estavam sobrepostos. É por isso que se pode ver nas multidões coexistirem lado a lado as ideias mais contraditórias. Segundo os acasos do momento, a multidão estará sob a influência de uma das diversas ideias armazenadas no seu entendimento, e poderá por conseguinte cometer os actos mais dissemelhantes. A sua ausência completa de espírito crítico não lhe permite aperceber as contradições.

Não é um fenómeno especial às multidões; observa-se em muitos indivíduos isolados, não só entre os seres primitivos, mas em todos aqueles que por algum lado do seu espírito — os sectários de uma fé religiosa intensa, por exemplo — se aproximam dos primitivos. Observei-o num grau curioso em hindus letrados, educados nas nossas universidades europeias, e tendo obtido todos os diplomas. Sobre o seu fundo imutável de ideias religiosas ou sociais hereditárias sobrepusera-se, sem as alterar de modo nenhum, um fundo de ideias ocidentais sem parentesco com as primeiras. Segundo os acasos do momento, umas ou outras apareciam com o seu séquito especial de actos ou de discursos, e o mesmo indivíduo apresentava assim as contradições mais flagrantes. Contradições, aliás, mais aparentes do que reais, pois só as ideias hereditárias são suficientemente poderosas no indivíduo isolado para se tornarem móveis de conduta. Só quando, por cruzamentos, o homem se encontra entre impulsos de hereditariedades diferentes é que os actos podem ser realmente de um momento para o outro completamente contraditórios. Seria inútil insistir aqui nestes fenómenos, embora a sua importância psicológica seja capital. Considero que são precisos pelo menos dez anos de viagens e observações para chegar a compreendê-los.

As ideias não sendo acessíveis às multidões senão depois de terem revestido uma forma muito simples, devem, para se tornarem populares, sofrer muitas vezes as transformações mais completas. É sobretudo quando se trata de ideias filosóficas ou científicas um pouco elevadas que se pode constatar a profundidade das modificações que lhes são necessárias para descerem de camada em camada até ao nível das multidões. Essas modificações dependem das categorias das multidões ou da raça a que essas multidões pertencem; mas são sempre redutoras e simplificadoras. É por isso que, do ponto de vista social, não há praticamente hierarquia das ideias, isto é, de ideias mais ou menos elevadas. Pelo simples facto de uma ideia chegar às multidões e poder agir, por maior ou mais verdadeira que tenha sido na sua origem, é despojada de quase tudo o que fazia a sua elevação e a sua grandeza.

Aliás, do ponto de vista social, o valor hierárquico de uma ideia é sem importância. O que é preciso considerar são os efeitos que produz. As ideias cristãs da Idade Média, as ideias democráticas do século passado, as ideias sociais de hoje, não são certamente muito elevadas. Filosoficamente, não se podem considerar senão como erros bastante pobres; e contudo o seu papel foi e será imenso, e contarão durante muito tempo entre os factores mais essenciais da conduta dos Estados.

Mesmo quando a ideia sofreu as transformações que a tornam acessível às multidões, só age quando, por processos diversos que serão estudados noutro lugar, penetrou no inconsciente e se tornou um sentimento, o que é sempre muito demorado.

Não se deve acreditar, com efeito, que é simplesmente porque a justeza de uma ideia é demonstrada que ela pode produzir os seus efeitos, mesmo nos espíritos cultivados. Percebe-se depressa isso vendo quanta pouca influência tem a demonstração mais clara sobre a maioria dos homens. A evidência, se for fulgurante, poderá ser reconhecida por um ouvinte instruído; mas este novo convertido será depressa reconduzido pelo seu inconsciente às suas concepções primitivas. Reveja-o ao cabo de alguns dias, e ele servir-lhe-á novamente os seus antigos argumentos, exactamente nos mesmos termos. Está, com efeito, sob a influência de ideias anteriores tornadas sentimentos; e são só estas que actuam sobre os móveis profundos dos nossos actos e dos nossos discursos. Não pode ser de outro modo com as multidões.

Mas quando, por processos diversos, uma ideia acaba por penetrar na alma das multidões, possui uma potência irresistível e desenrola toda uma série de efeitos que é preciso sofrer. As ideias filosóficas que conduziram à Revolução francesa levaram perto de um século a implantar-se na alma das multidões. Conhece-se a sua força irresistível quando aí se estabeleceram. O ímpeto de um povo inteiro para a conquista da igualdade social, para a realização de direitos abstractos e de liberdades ideais, fez vacilar todos os tronos e abalou profundamente o mundo ocidental. Durante vinte anos os povos precipitaram-se uns sobre os outros, e a Europa conheceu hecatombes que teriam aterrorizado Gengis Khan e Tamerlão. Nunca o mundo viu a tal ponto o que pode produzir o desencadeamento de uma ideia.

É preciso muito tempo às ideias para se estabelecerem na alma das multidões, mas não lhes é preciso menos tempo para de lá saírem. Assim as multidões estão sempre, do ponto de vista das ideias, atrasadas várias gerações em relação aos sábios e aos filósofos. Todos os homens de Estado sabem hoje o que contêm de erróneo as ideias fundamentais que citei há pouco, mas como a sua influência é ainda muito poderosa, são obrigados a governar segundo princípios cuja verdade já não acreditam.

§ 2. — OS RACIOCÍNIOS DAS MULTIDÕES

Não se pode dizer de uma forma absolutamente absoluta que as multidões não raciocinam e não são influenciáveis por raciocínios. Mas os argumentos que empregam e os que podem actuar sobre elas são, do ponto de vista lógico, de uma ordem tão inferior que só por analogia se podem qualificar de raciocínios.

Os raciocínios inferiores das multidões são, como os raciocínios elevados, baseados em associações; mas as ideias associadas pelas multidões não têm entre si senão laços aparentes de analogia ou de sucessão. Encadeiam-se como as do esquimó que, sabendo por experiência que o gelo, corpo transparente, se derrete na boca, conclui que o vidro, corpo igualmente transparente, deve derreter-se também na boca; ou as do selvagem que se figura que comendo o coração de um inimigo corajoso adquire a sua bravura; ou ainda do operário que, tendo sido explorado por um patrão, conclui imediatamente que todos os patrões são exploradores.

Associação de coisas dissemelhantes, não tendo entre si senão relações aparentes, e generalização imediata de casos particulares, tais são as características dos raciocínios das multidões. São raciocínios desta ordem que sempre lhes apresentam aqueles que sabem manejá-las; são os únicos que podem influenciá-las. Uma cadeia de raciocínios lógicos é totalmente incompreensível para as multidões, e é por isso que se pode dizer que não raciocinam ou raciocinam mal, e não são influenciáveis por um raciocínio. Fica-se por vezes espantado, na leitura, com a fraqueza de certos discursos que tiveram contudo uma influência enorme sobre as multidões que os escutavam; mas esquece-se que foram feitos para arrastar colectividades, e não para serem lidos por filósofos. O orador, em comunicação íntima com a multidão, sabe evocar as imagens que a seduzem. Se conseguir, o seu objectivo está atingido; e vinte volumes de arengas — sempre fabricadas a posteriori — não valem as poucas frases que chegaram aos cérebros que era preciso convencer.

Seria supérfluo acrescentar que a impotência das multidões para raciocinar correctamente impede-as de ter qualquer traço de espírito crítico, isto é, de serem aptas a discernir a verdade do erro, a emitir um juízo preciso sobre seja o que for. Os juízos que as multidões aceitam não são senão juízos impostos e nunca juízos discutidos. Neste ponto de vista, numerosos são os homens que não se elevam acima da multidão. A facilidade com que certas opiniões se tornam gerais deve-se sobretudo à impossibilidade em que a maioria dos homens se encontra de formar uma opinião particular baseada nos seus próprios raciocínios.

§ 3. — A IMAGINAÇÃO DAS MULTIDÕES

Do mesmo modo que para os seres em que o raciocínio não intervém, a imaginação representativa das multidões é muito poderosa, muito activa, e susceptível de ser vivamente impressionada. As imagens evocadas no seu espírito por uma personagem, um acontecimento, um acidente, têm quase a vivacidade das coisas reais. As multidões estão um pouco no caso do dorminhoco cuja razão, momentaneamente suspensa, deixa surgir no espírito imagens de uma intensidade extrema, mas que se dissipariam depressa se pudessem ser submetidas à reflexão. As multidões, não sendo capazes nem de reflexão nem de raciocínio, não conhecem o inverosímil: ora são as coisas mais inverosímeis que geralmente são as mais impressionantes.

É por isso que são sempre os lados maravilhoso e lendário dos acontecimentos que mais impressionam as multidões. Quando se analisa uma civilização, vê-se que é, na realidade, o maravilhoso e o lendário que são os seus verdadeiros suportes. Na história, a aparência sempre desempenhou um papel muito mais importante do que a realidade. O irreal aí predomina sempre sobre o real.

As multidões, não podendo pensar senão por imagens, só se deixam impressionar por imagens. Só as imagens as aterrorizam ou as seduzem, e tornam-se móveis de acção.

Por isso as representações teatrais, que dão a imagem na sua forma mais nitidamente visível, têm sempre uma enorme influência sobre as multidões. Pão e espectáculos constituíam outrora para a plebe romana o ideal da felicidade, e ela não pedia mais nada. Ao longo dos séculos este ideal pouco variou. Nada impressiona mais a imaginação das multidões de todas as categorias do que as representações teatrais. Toda a sala experimenta ao mesmo tempo as mesmas emoções, e se essas emoções não se transformam imediatamente em actos, é porque o espectador mais inconsciente não pode ignorar que é vítima de ilusões, e que riu ou chorou por aventuras imaginárias. Por vezes contudo os sentimentos sugeridos pelas imagens são tão fortes que tendem, como as sugestões habituais, a transformar-se em actos. Contou-se muitas vezes a história desse teatro popular que, só representando dramas sombrios, era obrigado a fazer proteger à saída o actor que representava o traidor, para o subtrair às violências dos espectadores indignados dos crimes, contudo imaginários, que esse traidor cometera. É aí, creio, um dos indícios mais notáveis do estado mental das multidões, e sobretudo da facilidade com que se suggestionam. O irreal tem quase tanta acção sobre elas como o real. Têm uma tendência evidente a não os diferenciar.

É sobre a imaginação popular que se funda o poder dos conquistadores e a força dos Estados. É sobretudo actuando sobre ela que se arrastam as multidões. Todos os grandes factos históricos, a criação do Budismo, do Cristianismo, do Islamismo, a Reforma, a Revolução, e, nos nossos dias, a invasão ameaçadora do Socialismo, são consequências directas ou longínquas de impressões fortes produzidas na imaginação das multidões.

Assim, todos os grandes homens de Estado de todas as idades e de todos os países, incluindo os mais absolutos déspotas, consideraram a imaginação popular como a base do seu poder, e nunca tentaram governar contra ela. «Foi fazendo-me católico», dizia Napoleão ao Conselho de Estado, «que acabei a guerra da Vendéia; fazendo-me muçulmano que me estabeleci no Egipto, fazendo-me ultramontano que ganhei os padres em Itália. Se governasse um povo de judeus, restabeleceria o templo de Salomão.» Talvez nunca, desde Alexandre e César, nenhum grande homem tenha sabido melhor como a imaginação das multidões deve ser impressionada. A sua preocupação constante foi impressioná-la. Pensava nisso nas suas vitórias, nas suas arengas, nos seus discursos, em todos os seus actos. No seu leito de morte ainda nisso pensava.

Como se impressiona a imaginação das multidões? Veremos em breve. Limitamo-nos por agora a dizer que nunca é tentando actuar sobre a inteligência e a razão, isto é, por via de demonstração. Não foi por meio de uma retórica sábia que António conseguiu amotinar o povo contra os assassinos de César. Foi lendo-lhe o testamento e mostrando-lhe o cadáver.

Tudo o que impressiona a imaginação das multidões apresenta-se sob a forma de uma imagem impressionante e bem nítida, desligada de toda a interpretação acessória, ou não tendo outro acompanhamento senão alguns factos maravilhosos ou misteriosos: uma grande vitória, um grande milagre, um grande crime, uma grande esperança. É preciso apresentar as coisas em bloco, e nunca indicar a sua génese. Cem pequenos crimes ou cem pequenos acidentes não impressionarão de modo nenhum a imaginação das multidões; enquanto um só grande crime, um só grande acidente as impressionará profundamente, mesmo com resultados infinitamente menos mortíferos do que os cem pequenos acidentes reunidos. A epidemia de gripe que, há poucos anos, fez perecer, só em Paris, 5.000 pessoas em algumas semanas, impressionou muito pouco a imaginação popular. Esta verdadeira hecatombe não se traduzia, com efeito, por alguma imagem visível, mas só pelas indicações semanais da estatística. Um acidente que, em vez dessas 5.000 pessoas, tivesse feito perecer só 500, mas no mesmo dia, numa praça pública, por um acidente bem visível, a queda da torre Eiffel, por exemplo, teria pelo contrário produzido na imaginação uma impressão imensa. A perda provável de um transatlântico que se supunha, por falta de notícias, afundado em alto mar, impressionou profundamente durante oito dias a imaginação das multidões. Ora as estatísticas oficiais mostram que só no ano de 1894 se perderam 850 navios à vela e 208 a vapor. Mas destas perdas sucessivas, muito mais importantes como destruição de vidas e de mercadorias do que poderia ter sido a do transatlântico em questão, as multidões não se preocuparam um só instante.

Não são pois os factos em si que impressionam a imaginação popular, mas bem a maneira como são apresentados e repartidos. É preciso que pela sua condensação, se me posso exprimir assim, produzam uma imagem impressionante que encha e obsede o espírito. Quem conhece a arte de impressionar a imaginação das multidões conhece também a arte de as governar.

O elogio da teimosia em relojoaria

A teimosia em relojoaria não é uma característica discreta – teve e tem um papel principal, pouco falado mas fundamental. Vamos conhecer a mecânica desta teimosia, vamos saber como contribui esta mecânica para a relojoaria e vamos ainda conhecer as funções dos seus expoentes: o pessimismo e o optimismo. Interessa-nos compreender esta obstinação técnica que, longe de ser mero capricho, constitui muitas vezes o motor silencioso do progresso relojoeiro. Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria.

A própria palavra teimar remete para o latim vulgar timare, ligado a timidus (“medroso”, “receoso”), raiz que deu origem também a “tímido”, “timidez” e “intimidar”.

Paradoxalmente, na relojoaria, essa herança semântica evolui por vezes para algo distinto: uma persistência disciplinada, capaz de repetir, corrigir e aperfeiçoar até que o mecanismo atinja exactidão, estabilidade e coerência funcional.

Etimologia: da teimosia à persistência

Do ponto de vista etimológico, a teimosia não remete para a coragem, mas antes para um fundo de receio ou desconfiança, dado que teimar se relaciona com o latim vulgar timare e com timidus (“medroso”). Nesse sentido, o teimoso, na raiz semântica da palavra, não “tem medo” de algo concreto no exterior, mas revela antes uma resistência interior: receio de ceder, de abandonar uma convicção ou de aceitar uma alternativa incerta. A obstinação surge, assim, como uma forma de firmeza defensiva, uma persistência que historicamente evoluiu do campo do temor e da desconfiança para o significado actual de insistir de modo rígido numa posição. À luz da sua etimologia, teimar evolui para o sentido de insistir e não ceder, o que aproxima a teimosia da ideia de persistência sempre que acontece o fenómeno fascinante dessa resistência interior se transformar em capacidade produtiva.

A mecânica relojoeira da teimosia

Na relojoaria, a persistência é uma qualidade historicamente indispensável: a repetição meticulosa de gestos, a correcção paciente de erros de fabrico, a regulagem da marcha e a busca de soluções técnicas exigem uma forma de “teimar” disciplinado, orientado para a precisão.

Figuras como John Harrison, que insistiu durante décadas na resolução do problema da longitude com os seus cronómetros marítimos, Abraham-Louis Breguet, que perseguiu melhorias técnicas contínuas em escapes e complicações, ou George Daniels, que perseverou na concepção do escape coaxial contra o cepticismo inicial da indústria, ilustram bem essa persistência transformada em avanço técnico.

Neste contexto, a teimosia deixa de ser mera obstinação e passa a significar perseverança esclarecida: a capacidade de manter uma convicção técnica, testar, corrigir e insistir até que a solução funcione com rigor mecânico e estabilidade ao longo do tempo. A insustentável leveza da teimosia

Há, contudo, uma dimensão frequentemente esquecida: a dos aprendizes, patrões, mecenas e instituições que tiveram de lidar com relojoeiros obstinados ao longo da história. Oficinas que toleraram anos de ensaios imperfeitos, financiadores que sustentaram investigações de resultado incerto e discípulos que assistiram a repetições meticulosas de um mesmo ajuste até à obtenção de estabilidade de ritmo. John Harrison contou com o apoio intermitente, mas decisivo, de figuras institucionais e patronos que permitiram a continuação do seu trabalho apesar de décadas de controvérsia; Abraham-Louis Breguet beneficiou da confiança de clientes exigentes que aceitaram processos técnicos longos e experimentais; George Daniels prosseguiu o desenvolvimento do escape coaxial durante anos até encontrar abertura industrial, graças à persistência pessoal e à posterior aceitação por parte da indústria. Em todos estes casos, a obstinação técnica do relojoeiro implicou uma contrapartida humana: alguém disposto a suportar atrasos, dúvidas e insistências, compreendendo que o aperfeiçoamento mecânico raramente surge de forma imediata, mas antes de um processo lento, reiterativo e profundamente exigente.

Os pessimistas e os optimistas

No contexto da relojoaria, a oposição entre pessimistas e optimistas assume uma tensão produtiva — mas também, por vezes, bloqueadora.

Em As Vantagens do Pessimismo, Roger Scruton defende o pessimismo como prudência esclarecida: antecipar falhas, respeitar a complexidade, desconfiar de soluções fáceis. Essa atitude é estrutural no ofício relojoeiro. O bom relojoeiro é um pessimista técnico: prevê variações térmicas, calcula tolerâncias mínimas, testa o desgaste, mede antes de confiar. É esse cepticismo que garante estabilidade de marcha e durabilidade mecânica.

Contudo, há um outro lado:

O mesmo pessimismo que protege pode também bloquear.

Muitas inovações relojoeiras enfrentaram resistência precisamente por parte de quem, em nome da prudência, considerava a mudança excessivamente arriscada. A história mostra que o equilíbrio é delicado: o pessimista assegura que o mecanismo não falha; o teimoso empurra os limites do possível.

Quando o cepticismo se transforma em bloqueio sistemático, impede a progressão dos que insistem em testar soluções novas.

Quando a obstinação ignora o escrutínio crítico, produz erro.

A evolução técnica nasce da tensão entre ambos: a teimosia criadora precisa de ser contrariada para amadurecer, mas não sufocada antes de provar o seu valor.

Vamos conhecer aqueles que, pela força da sua obstinação disciplinada, conseguiram fazer nascer resultados concretos onde antes havia apenas tentativa, erro e resistência da matéria.

I. Pioneiros da precisão (séculos XVIII–XIX)

1. John Harrison

Insistiu durante décadas na resolução do problema da longitude marítima, construindo sucessivamente os cronómetros H1 a H5. Enfrentou forte resistência institucional do Board of Longitude antes do reconhecimento final do seu trabalho.

2. Ferdinand Berthoud

Dedicou grande parte da sua vida ao aperfeiçoamento dos cronómetros marítimos, mantendo uma persistência científica na busca da precisão cronométrica em contexto naval e astronómico.

3. Pierre Le Roy

Trabalhou de forma contínua na independência do oscilador e na compensação térmica, contribuindo para a estabilidade do ritmo nos cronómetros de marinha.

4. George Graham

Aperfeiçoou o escape de âncora morto e dedicou-se com rigor obsessivo à estabilidade dos osciladores em relógios astronómicos de elevada precisão.

5. Thomas Mudge

Criador do escape de âncora aplicado ao relógio portátil, persistiu na adaptação de soluções da relojoaria grossa à relojoaria de bolso, apesar das limitações técnicas da época.

6. Abraham-Louis Breguet

Perseguiu melhorias técnicas constantes, incluindo a espiral com curva terminal elevada, o escape natural, sistemas de repetição mais eficientes e o turbilhão, redefinindo padrões de precisão e elegância mecânica.

II. Persistência técnica na relojoaria artesanal moderna (século XX)

7. George Daniels

Desenvolveu praticamente sozinho o escape coaxial ao longo de anos de investigação, enfrentando cepticismo da indústria até à sua posterior adopção e industrialização pela Omega.Paralelamente, insistiu na construção integral dos seus relógios — do projecto à execução manual — numa época dominada pela industrialização.

8. Derek Pratt

Destacou-se pela dedicação extrema à reconstrução histórica de mecanismos complexos e pelo trabalho rigoroso ligado à herança técnica de Harrison e da cronometria clássica.

III. Relojoaria independente contemporânea (final do século XX – XXI)

9. Philippe Dufour

Persistiu na defesa do acabamento manual tradicional e da alta relojoaria clássica, mantendo padrões artesanais exigentes durante décadas, contra a tendência industrial dominante.

10. Kari Voutilainen

Insiste na produção artesanal integral, no aperfeiçoamento contínuo dos movimentos e na preservação de técnicas históricas como o guilloché, revelando uma persistência técnica e estética rara na relojoaria contemporânea.

11. François-Paul Journe

Desenvolveu soluções técnicas próprias, como o remontoir d’égalité moderno e cronómetros de elevada precisão, mantendo independência criativa face às tendências do mercado.

12. Roger W. Smith

Discípulo directo de Daniels, continuou obstinadamente o desenvolvimento do escape coaxial e da relojoaria integralmente artesanal, produzindo internamente a quase totalidade dos componentes.

13. Vianney Halter

Persistiu numa linguagem mecânica e estética independente, desenvolvendo complicações originais fora dos códigos comerciais convencionais.

14. Denis Flageollet

(Co-fundador da De Bethune) Manteve anos de investigação contínua sobre materiais, espirais e osciladores, introduzindo soluções técnicas próprias e inovadoras.

15. Robert Greubel e Stephen Forsey

Persistiram durante anos no desenvolvimento de turbilhões múltiplos e inclinados, enfrentando enorme complexidade técnica e desafios de construção.

IV. Nova geração independente (século XXI)

16. Rexhep Rexhepi

Fundou uma manufactura independente jovem e insistiu numa abordagem clássica de altíssima execução manual, com desenvolvimento técnico progressivo e rigor extremo.

17. Bart Grönefeld

Mantém uma persistência técnica na relojoaria familiar, com forte foco na robustez mecânica, fiabilidade e precisão funcional.

18. Konstantin Chaykin

Insiste em soluções mecânicas originais e em complicações não convencionais, sustentadas por investigação própria e patentes técnicas.

19. Naoya Hida

Caracteriza-se por uma persistência extrema na pureza estética, precisão construtiva e produção limitada com rigor quase obsessivo.

20. Dann Phimphrachanh

Destaca-se por uma obstinação técnica centrada na construção manual e na investigação mecânica independente, assumindo processos longos de desenvolvimento e uma abordagem autoral que privilegia coerência funcional, execução rigorosa e fidelidade ao projecto inicial.

O triângulo horológico: Teimosia – Pessimismo – Optimismo

No fim, a história da relojoaria revela que o progresso técnico nasce de um triângulo delicado entre teimosia, pessimismo e optimismo.

A teimosia — entendida como persistência disciplinada — empurra a investigação, obriga à repetição, à correcção e ao aperfeiçoamento contínuo até que a solução funcione com rigor mecânico e estabilidade ao longo do tempo.

O optimismo, por seu lado, permite conceber o que ainda não existe, acreditar que um novo escape, uma nova rodagem ou uma nova arquitectura de movimento são possíveis.

Já o pessimismo desempenha uma função crítica indispensável: testa limites, antecipa falhas, impõe prudência e protege a fiabilidade funcional do mecanismo.

Contudo, quando o pessimismo deixa de ser método e se transforma em bloqueio sistemático, passa a retardar a progressão dos mais obstinados, desacelera a adopção de soluções inovadoras em nome de uma segurança excessiva.

A relojoaria evolui precisamente na tensão entre estas forças: a teimosia criadora insiste, o optimismo projecta, e o pessimismo verifica.

A história demonstra que muitos dos grandes avanços relojoeiros só se concretizaram porque a obstinação técnica resistiu ao cepticismo dominante durante tempo suficiente para se provar na prática.

Foi na matéria trabalhada, nas tolerâncias afinadas e na estabilidade de marcha verificada que a inovação deixou de parecer imprudência e passou a revelar-se maturidade mecânica. O que começou por ser visto como risco transformou-se, após repetição, teste e validação, em novo padrão de rigor.

O triângulo horológico português

Transpondo esta tensão entre teimosia, pessimismo e optimismo para a realidade portuguesa, a questão torna-se particularmente clara. Durante décadas repetiu-se a ideia de que em Portugal não seria possível construir relojoaria fina de qualidade. Os pessimistas sustentaram que faltavam estruturas industriais, tradição contínua, capital, escala produtiva. Em parte, essa prudência tinha fundamento: o território era praticamente virgem no plano da manufactura contemporânea. Contudo, o pessimismo ultrapassou muitas vezes a função crítica saudável e transformou-se em bloqueio cultural, desincentivando iniciativas antes mesmo de estas se testarem na prática.

Do outro lado surgiram os optimistas e os teimosos. Aqueles que, apesar da ausência de fábricas consolidadas, decidiram avançar com o que tinham: conhecimento técnico acumulado, redes internacionais, experiência adquirida por relojoeiros portugueses a trabalhar em marcas suíças, capacidade de aprendizagem rápida e vontade de estruturar produção local. Num território por desbravar, começa-se por pequenas séries, montagem nacional, desenvolvimento progressivo de componentes e criação de identidade própria. Não partiram de uma indústria instalada; partiram de convicção técnica e persistência.

Até há poucos anos, os pessimistas foram claramente superiores aos optimistas em Portugal.

Muitas intenções de produção relojoeira esmoreceram sob o peso do cepticismo, da desconfiança e da falta de reconhecimento.

Porém, nos últimos anos assistiu-se a uma mudança de equilíbrio. Uma nova geração de criadores — teimosos no melhor sentido do termo — tem conseguido lançar marcas, estruturar ideias, desenvolver produto e afirmar que é possível fazer em Portugal o que antes parecia inviável. A obstinação deixou de ser vista como ingenuidade e começou a revelar-se maturidade progressiva.

Se a história da relojoaria ensina algo, é que nenhum território nasce com indústria consolidada; ela constrói-se. A inovação portuguesa na relojoaria dependerá exactamente desta tensão: optimismo suficiente para avançar, teimosia suficiente para persistir, e pessimismo técnico suficiente para garantir qualidade.

O que muda agora é que, pela primeira vez em muito tempo, os obstinados parecem dispostos a resistir ao cepticismo tempo suficiente para provar, na matéria e na marcha, que a relojoaria portuguesa não é imprudência — é potencial em construção.

Sobre o assassinato do Conde Andeiro

Hoje vou falar sobre o assassinato do Conde Andeiro, mas não meramente expondo-o, e sim analisando as características por detrás deste acontecimento (algo que passa despercebido aos olhos de muita gente). Fernão Lopes é, nesse aspeto, muito minucioso a descrever. Veja-se. 

A conjuntura política portuguesa desde o falecimento de D. Fernando é sabida, não interessa aqui ao caso. O que interessa é, isso sim, analisar o feito concreto. E ele passou-se desta forma.

No período que percorre o intervalo entre 22/Out (morte de D. Fernando) e 6/Dez (assassinato do Conde Andeiro), há certamente intrigas que pulseiam a cidade de Lisboa. Uma delas, a que encabeça o nosso problema, era a conspiração para matar o Conde (sabemos que, ainda era D. Fernando vivo, o próprio o tentara matar, mas sem sucesso). Segundo Fernão Lopes, a tentativa bem-sucedida desta vez nasce de Álvaro Pais, que servira na chancelaria de ambos D. Pedro I e D. Fernando sendo, aquando da data, certamente muito velho (era “doente de gota”), visto D. Fernando haver atribuído a este uma carta de pousada (ou seja, uma reforma, a bem dizer), com o privilégio de intervenção direta nos assuntos discutidos na Assembleia de Lisboa (tanto que, como ele teria dificuldades de locomoção, muitas das Assembleias realizavam-se na sua casa). Este é o homem que, em primeiro lugar, vai falar com o Conde de Barcelos, D. João Afonso Telo (tio da Rainha), acerca de um eventual assassinato ao Conde. O Conde acha bem, mas recomenda-o a falar com o Mestre de Avis, dizendo que, tanto que visse o Mestre a cavalgar nas ruas de Lisboa, que o encomendaria para Álvaro Pais, facto que aconteceu, possivelmente em fins de Novembro, quando o Mestre vai visitar Álvaro Pais a sua casa, e este lhe conta sobre o plano, falando sobre a desonra acometida a D. Fernando e, por feitos de linhagem, a ele também. No entanto, segundo conta o Cronista, “eram-lhe presentes tais e tão grandes dúvidas que todos os caminhos para o pôr em obra eram a ele escusos como grandes empachos”, perguntando o Mestre se o teria “ajuda alguma do Povo, por azo do cajom [motim] que se podia recrescer” depois da morte dele. E, finalmente, depois de assegurar ao Mestre que o Povo estaria do seu lado, o Mestre aceita avançar com o plano. É nesta ocasião que Álvaro Pais, chorando aos pés do Mestre, diz-lhe a famosa frase “Ora vejo eu, filho senhor, a diferença que há dos filhos dos Reis aos outros homens”. O Mestre, nesse dia, seguiu a sua vida. Entretanto, ocorreu o cortejo fúnebre de D. Fernando [o cronista diz-nos que foi trinta dias depois da sua morte, ou seja, a 1/Dez] e, suspeitando o Conde Andeiro da má vizinhança que os moradores de Lisboa lhe queriam, decidiu aceitar o pedido da Rainha em comparecer, e veio até Lisboa, passando primeiro por Santarém, onde recebe estalagem do Alcaide local, Gonçalo Vasques de Azevedo, “muito seu amigo”. Fernão Lopes diz-nos que Gonçalo recomendou ao Andeiro que NÃO fosse a Lisboa, mas parece ter ignorado o conselho, muito embora também nos diga o Cronista que, se o Andeiro temia alguém, era o Mestre de Avis, que estaria no cortejo. Eis o indício trágico. Quando chega a Lisboa, parece que governou os feitos do Reino com a Rainha, que lhe deu pousada no seu Palácio – diz-nos o cronista isto: “E bem recebido de todos, foi em grande privança e agasalhado da Rainha, desembargando com ele todos os desembargos do Reino”. Logo feito o cortejo [ou seja, entre os fins do dia 1 e o dia 2/Dez], o conselho régio juntou-se para discutir os assuntos de guerra, pois já se suspeitava, tão cedo quanto isto, que o Rei de Castela queria violar o Tratado de Salvaterra e invadir o Reino – por isso, acordaram em estabelecer fronteiros com homens de guerra em cada uma das comarcas fronteiriças. Sabendo D. Leonor a ameaça patente em Lisboa enquanto o Mestre lá estivesse, enviou para defender as terras fronteiriças da sua Ordem de Avis [o Cronista especifica: foi enviado para Riba do Guadiana]. À data, já Álvaro Pais havia falado com alguns particulares (não somente o Conde susodito, mas também Rui Pereira, tio de D. Nuno Álvares Pereira) para realizar o feito, acordando-se em, e matando-o, Álvaro enviaria o seu pajem, Gomes Freire, pelas ruas de Lisboa a cavalo a exortar as gentes a ir para o Palácio ajudar o Mestre – no entanto, isto deveria ser mantido em segredo, pois, tanto quanto havia despeito à Rainha e ao Conde, também muitos Nobres estacionados em Lisboa tinham-lhe afeição. Aqui, vemos o Mestre novamente indeciso – numa primeira instância, parece aceitar as ordens da Rainha e sai de Lisboa: o Cronista diz-nos que, depois de comer, foi dormir a uma aldeia a três léguas de Lisboa chamada Santo António, “sem levando já nenhuma tenção de matar o Conde”. Mas meditando sobre o assunto, decidiu prosseguir e, ainda na aldeia, chamou Fernando Álvares de Almeida, cavaleiro da Ordem de Avis, para ir imediatamente a Lisboa para, primeiro, arranjar-lhe pousada para dormir e, segundo, para dizer à Rainha que ele queria falar com ela. Chegou a Lisboa “alto serão” [ou seja, à noite], e ambos a Rainha e o Conde aceitaram as solicitações de lhes falar. No dia seguinte, eis o dia 6/Dez, o Mestre parte de S. António com alguns homens (Fernão Lopes menciona o Comendador da Jurumenha, Lourenço Martins de Leiria, Vasco Lourenço, Lopo Vasques, além dos ditos Rui Pereira e Fernando Álvares), ordenando-os que fossem dizer a Álvaro Pais que era a hora do dito. Chegando ao Paço, a Rainha estava na sua câmara com algumas donzelas e o Conde de Barcelos [que, como já dissemos, queria o Conde morto], Fernando Afonso de Zamora e Vasco Pires de Camões [dois galegos], além do Andeiro. O Mestre entra com os seus homens, dizendo o cronista que o escudeiro encarregado de lhe abrir a porta queria fechá-la logo passando o Mestre, mas este impediu que se a fechasse, entrando todos. O Mestre fala à Rainha: diz-lhe que, para defender aquela fronteira a que fora ordenado, precisa de mais lanças do que aquelas que lhe tinham sido ordenadas, precisando de outro despacho, o que a Rainha acede, chamando o seu escrivão da puridade, João Gonçalves (que guardava o livro dos vassalos) para, ambos, assinalar as lanças para o Mestre. Enquanto isso, sabemos que o Conde, suspeitoso, enviou os seus escudeiros para chamar os seus vassalos com armas, razão pela qual, quando ele foi morto, não havia ninguém no Paço que o acudisse. O que é certo é que, estando de parte ambos o Mestre e o Andeiro (com os outros à espreita, vendo ambos por uma fresta de uma janela) e, logo que a primeira facada aparece, todos correm em direção a ele, sendo Rui Pereira quem dá o golpe mortal, na cabeça.

Sabemos que o corpo ainda ficou lá uns dias, até D. Leonor enterrá-lo às escondidas. Eis um contexto abreviado, que podia ser acrescido.

The Genealogy of Modern Hate Speech Laws: A Twentieth-Century Development and Its Tension with Western Traditions

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Introduction

The regulation of speech deemed to constitute “hate” represents one of the most significant legal innovations of the modern era, particularly in the post-World War II period. Unlike earlier prohibitions on sedition, defamation, or blasphemy—which targeted threats to state authority, individual reputation, or divine order—hate speech laws criminalize expressions that incite hatred, discrimination, or hostility against protected groups based on race, ethnicity, religion, sex, sexual orientation, or other characteristics. This category emerged not as a natural extension of longstanding Western legal traditions but as a deliberate ideological project, largely driven by leftist political forces—including communists, socialists, labor movements, progressives, and anti-colonial activists—in the mid-twentieth century.

The origins lie in the aftermath of the Holocaust and the broader “Jewish question” that had haunted Europe since the late nineteenth century. Anti-Semitic propaganda, exemplified by Nazi rhetoric and earlier pogroms, provided the moral impetus for international efforts to curb incitement to racial hatred. However, the institutionalization of these prohibitions in global human rights instruments owed much to advocacy from the Soviet Union and its allies, who framed such restrictions as essential to combating fascism and imperialism while advancing egalitarian ideals. As noted in historical analyses of the UN drafting processes, “the dominant force behind the attempt to adopt an obligation to restrict freedom of expression was the Soviet Union” (Mchangama, drawing on travaux préparatoires of the ICCPR and related instruments). Jacob Mchangama has emphasized that “the foremost champions of not only permitting states to prohibit hate speech but making it a duty for all states to do so were the communist states led by the Soviet Union” (Mchangama 2021).

From this starting point, protections expanded dramatically in the late twentieth century to encompass other racial minorities, women, sexual minorities, and people with disabilities. This broadening reflected intersectional progressive priorities, viewing hate speech as a mechanism perpetuating systemic inequalities rooted in capitalism, colonialism, and patriarchy. The shift from primarily racial and religious protections to include gender, sexual orientation, and disability occurred gradually through national legislation and international influence, often driven by civil rights, feminist, and LGBTQ+ movements aligned with progressive ideologies.

Yet this development stands in profound tension with core Western intellectual heritages. Greco-Roman traditions emphasized open, rational discourse in civic life, as seen in Athenian concepts of isegoria (equality of speech in public assemblies) and parrhesia (frank, uninhibited speech, even against authority); Judeo-Christian ethics prioritized individual moral accountability without broad speech suppression; and classical liberal democracy, from Locke to Mill, championed free expression as indispensable to truth-seeking and self-government. The notion of criminalizing subjective “hatred” or emotional offense appears alien to these foundations, often inverting their priorities by favoring group harmony over individual liberty. As John Stuart Mill argued in On Liberty (1859), “the peculiar evil of silencing the expression of an opinion is, that it is robbing the human race… those who dissent from the opinion, still more than those who hold it.”

This essay traces the genealogy of hate speech laws in detail, emphasizing the left’s central role while highlighting their strangeness to pre-twentieth-century Western customs. It draws on historical accounts of international drafting processes, national implementations, philosophical critiques, and empirical assessments to argue that, while motivated by anti-discrimination goals, these laws risk eroding the very freedoms they purport to protect. The analysis proceeds chronologically and thematically, examining origins, ideological drivers, expansion, philosophical clashes, and contemporary critiques.

Origins in the 20th Century

Modern hate speech regulation crystallized in the interwar and immediate post-1945 periods, though sporadic precursors existed. In the 1930s, rising fascist movements and anti-Semitic agitation in Europe and the United States prompted calls for group libel laws—prohibiting defamatory statements against racial or religious collectives rather than individuals. These efforts arose amid civil society pressures, often from progressive and labor-aligned groups viewing such speech as ideological tools sustaining bourgeois domination, with Jewish organizations playing a prominent role in early advocacy against anti-Semitism. For example, responses to Henry Ford’s anti-Semitic publications in the 1920s and fascist propaganda in Europe foreshadowed later frameworks.

The Holocaust transformed this into an international imperative. The Nuremberg Trials (1945–1946) prosecuted figures like Julius Streicher for inciting hatred through propaganda, establishing incitement to genocide as a crime against humanity. This jurisprudence influenced subsequent instruments and underscored the need to address propaganda that dehumanizes groups.

The Universal Declaration of Human Rights (1948) balanced free expression (Article 19) with prohibitions on discrimination, but binding treaties went further. The International Covenant on Civil and Political Rights (ICCPR, adopted 1966, entered force 1976) includes Article 20(2): states must prohibit “advocacy of national, racial or religious hatred that constitutes incitement to discrimination, hostility or violence.” This provision resulted from intense negotiations where Soviet-bloc states pushed mandatory restrictions, overriding Western preferences for permissive limits. Historical records confirm that the Soviet Union repeatedly proposed amendments to prohibit expressions of intolerance, framing them as anti-fascist necessities while exploiting Holocaust memory (Mchangama 2021; see also travaux préparatoires analyses).

The International Convention on the Elimination of All Forms of Racial Discrimination (ICERD, 1965) went even further. Article 4 requires states to declare punishable the dissemination of ideas based on racial superiority or hatred, incitement to racial discrimination, and acts of violence or incitement thereto. Developing countries and socialist states, motivated by anti-colonialism and anti-apartheid struggles, actively supported this, with communist delegations advocating strongly for criminalization of “all dissemination of ideas” based on racial hatred. The revival of anti-Semitism in the late 1950s (e.g., incidents in Europe 1959–1960) added urgency to these efforts.

Soviet influence was decisive. During ICCPR and ICERD drafting, the USSR proposed amendments prohibiting intolerance, framing them as anti-fascist measures while exploiting Holocaust memory to advance ideological goals. Communist regimes already suppressed dissent under similar pretexts; international codification provided legitimacy for such controls while pressuring liberal democracies. As one detailed account notes, “the Soviet Union continuously proposed various amendments aimed at prohibiting expressions of intolerance” (Mchangama, Hoover Institution analysis).

National implementations followed suit. Germany’s post-war laws (e.g., Section 130 of the Criminal Code banning Holocaust denial and incitement to hatred) stemmed directly from Nazi legacies but aligned with international obligations, evolving from earlier class-incitement provisions to target neo-Nazi and antisemitic speech. In Britain, the Race Relations Act 1965 (under Labour) criminalized incitement to racial hatred amid post-war immigration debates. Canada’s evolution from anti-Semitic roots to broader provisions reflected similar dynamics, incorporating protections influenced by international standards.

These origins centered on the “Jewish question.” Anti-Semitism, long a European obsession, became the paradigmatic case post-Holocaust. Protections initially targeted expressions denying Jewish humanity or inciting violence against Jews, linking to broader leftist critiques of imperialism and racism. The focus on anti-Semitism provided a moral foundation that leftist actors used to extend the framework beyond its initial scope.

Role of the Political Left

The political left—communists, socialists, progressives, labor movements, and anti-colonial nationalists—bore primary responsibility for establishing hate speech as a legal category. Marxist theory viewed ideology, including racial hatred, as a superstructure masking class exploitation; suppressing divisive speech advanced proletarian unity and prevented fascist resurgence.

Communist states championed restrictions in UN forums. The USSR insisted on mandatory prohibitions in ICCPR Article 20 and ICERD Article 4, portraying them as necessary to prevent fascist resurgence. This aligned with domestic practices where “incitement to national hatred” suppressed dissidents, human rights activists, and religious believers. During UDHR and ICCPR drafting, Soviet proposals repeatedly sought to limit speech propagating “fascism” or hatred, which Western delegates feared could enable broader censorship (Mchangama 2022).

Progressives in Western democracies adopted similar views. British Labour governments enacted racial incitement laws in the 1960s amid immigration debates, reflecting socialist commitments to combating prejudice as a barrier to equality. In the U.S., while First Amendment absolutism prevailed federally, civil rights coalitions (often leftist-influenced) supported group protections at state levels, viewing hate speech as perpetuating systemic oppression.

Anti-colonial movements universalized the framework. Newly independent states viewed racial hatred as a colonial legacy; ICERD drafting saw alliances between socialist blocs and Third World nations linking anti-racism to decolonization struggles against apartheid and imperialism.

Jewish advocacy groups, while diverse, often allied with progressive causes. Organizations like the American Jewish Committee supported early group libel proposals against 1930s anti-Semitism, though later concerns about free speech arose as restrictions expanded.

The left framed hate speech bans as emancipatory: unchecked hatred perpetuated inequality, justifying state intervention for social justice. This contrasted with classical liberal reluctance, seeing restrictions as slippery slopes toward authoritarianism. Communist exploitation of these laws to target dissidents—hundreds imprisoned under vague “incitement to hatred” provisions—highlighted the risks (Mchangama 2021).

Expansion to Other Categories

From Semitic-focused origins, protections expanded in the 1970s–1990s, driven by progressive coalitions. Civil rights movements extended racial coverage beyond Jews to African Americans, Asians, indigenous peoples, and others. ICERD’s influence prompted national laws broadening definitions to combat ongoing discrimination.

Feminist and LGBTQ+ activism—rooted in socialist and progressive thought—pushed inclusion of sex, gender, and sexual orientation. In the U.S., the Hate Crimes Statistics Act (1990) initially covered race, religion, and ethnicity; expansions via the Matthew Shepard and James Byrd Jr. Hate Crimes Prevention Act (2009) added gender, sexual orientation, gender identity, and disability, responding to high-profile crimes like the murder of Matthew Shepard and James Byrd Jr. These amendments reflected growing recognition of intersectional oppressions, with advocates arguing that bias-motivated violence against women, LGBTQ+ individuals, and disabled people perpetuated systemic inequality.

Canada’s Criminal Code Section 319 evolved similarly, covering “identifiable groups” and later sexual orientation through amendments influenced by domestic activism and international standards. European states followed, influenced by Council of Europe Recommendation No. R (97) 20 (1997), which defined hate speech broadly to include intolerance against minorities, migrants, women, and other groups.

This reflected intersectionality: hate speech as barrier to equality across oppressions. Anti-colonial frameworks linked racial hatred to imperialism, justifying universal protections. By the 2000s, many jurisdictions had incorporated gender identity and disability, often through advocacy coalitions viewing these as extensions of earlier anti-racism efforts.

Tension with Western Traditions

Hate speech prohibitions clash with Western heritages. In Athenian democracy, isegoria (equality of speech) enabled every citizen to address the assembly, while parrhesia (frank speech) allowed bold, even offensive critique of authority in public forums, theaters, and philosophy. Citizens addressed peers freely to pursue truth and civic virtue; Plato and Aristotle valued rational discourse without broad suppression, though Plato critiqued unchecked rhetoric.

Judeo-Christian ethics affirm human dignity (imago Dei) but historically limited speech restrictions to blasphemy or false witness protecting religious order, not minority feelings. Biblical tolerance of critique (e.g., prophetic challenges to power) aligns more with open debate than modern emotional-harm bans.

Classical liberalism, via Locke and Mill, prioritizes free expression. Mill’s On Liberty (1859) argues truth emerges from contest; his harm principle limits restrictions to direct harm, not offense or hatred. The U.S. First Amendment embodies this, rejecting content-based bans. As scholars note, this tradition emphasizes “more speech” as the remedy for bad speech, not censorship (Strossen, drawing on Mill).

Hate speech laws invert these: prioritizing subjective harm and group protection over liberty, appearing alien to traditions valuing robust, even offensive, discourse.

Classical Liberal Critiques

Liberals critique vagueness, abuse potential, and chilling effects. Definitions of “hatred” enable selective enforcement against dissent. Empirical evidence questions efficacy in reducing prejudice; bans may entrench views by martyring speakers or driving expression underground.

Counter-speech, per Mill, better combats falsehoods. Restrictions undermine equality by fostering state dependency rather than debate. Thinkers like Nadine Strossen argue censorship erodes democratic legitimacy: “no matter how great the potential harm of the speech, the potential harm of censorship is even greater” (Strossen, HATE: Why We Should Resist It with Free Speech, Not Censorship). Strossen emphasizes that hate speech laws often backfire, chilling minority voices and empowering authorities to suppress unpopular views.

Critics highlight historical misuse: communist states exploited similar provisions to punish dissidents, while vague modern applications risk similar abuse.

In Conclusion

Hate speech laws, as traced throughout this essay, represent a distinctly twentieth-century phenomenon, emerging not from an organic evolution of Western legal and philosophical traditions but from deliberate ideological initiatives rooted in the political left. Their genesis lies in the immediate post-Holocaust period, where the paradigmatic horror of Nazi anti-Semitic propaganda furnished both the moral urgency and the symbolic justification for regulating expressions of group-based hatred. Initial protections focused overwhelmingly on combating anti-Semitism—the so-called “Jewish question” that had preoccupied European politics for decades—before rapidly expanding, under sustained pressure from communist delegations, socialist states, progressive coalitions, labor movements, and anti-colonial actors, to encompass a widening array of racial, ethnic, religious, sexual, gender-based, and disability-related categories.

This expansion was neither accidental nor inevitable. It reflected a conscious progressive project that reframed speech regulation as an instrument of emancipation: a necessary state intervention to dismantle structures of systemic inequality, prevent the resurgence of fascism, dismantle colonial legacies, and foster the conditions for genuine social justice. In international forums—most notably during the drafting of the ICCPR (Article 20) and especially ICERD (Article 4)—the Soviet Union and its allies played a decisive role, insisting on mandatory prohibitions rather than permissive exceptions, thereby transforming what had been largely discretionary national responses into binding obligations under international human rights law. Western liberal democracies, while often reluctant, ultimately acquiesced under the combined weight of moral post-Holocaust consensus and geopolitical pressures from newly independent states and the Eastern bloc.

Yet the very success of this project has produced a profound and enduring tension with the deeper intellectual currents that have shaped Western civilization. Greco-Roman political thought, exemplified by the Athenian commitment to isegoria and parrhesia, prized open, even abrasive public discourse as essential to the discovery of truth, the exercise of citizenship, and the health of the polis; suppression of offensive speech was exceptional and narrowly circumscribed. Judeo-Christian anthropology, while insisting on the inviolable dignity of every person created in the image of God, historically confined speech restrictions to offenses against divine majesty (blasphemy) or direct falsehoods that injured individuals (perjury, slander); it did not authorize broad prohibitions on expressions of group animus or emotional harm. Classical liberal democracy, crystallized in the writings of John Locke, John Stuart Mill, and the American First Amendment tradition, elevated freedom of expression to a near-absolutist principle: truth emerges only through the clash of ideas, bad speech is best answered by more speech, and the state’s power to censor content—even repugnant content—carries greater long-term dangers than the speech itself.

Contemporary hate speech regulation inverts many of these priorities. By criminalizing subjective states of mind (“hatred,” “contempt,” “vilification”) rather than objectively verifiable acts of incitement to imminent lawless violence, it subordinates individual liberty to collective emotional security and group harmony. By delegating to courts, tribunals, or administrative bodies the task of determining which viewpoints cross the line into punishable animus, it invites selective enforcement, political capture, and chilling effects that disproportionately silence minority or dissenting voices—the very groups such laws ostensibly protect. Empirical studies and historical experience (particularly in former communist states) suggest that such prohibitions frequently fail to reduce underlying prejudice while simultaneously entrenching the power of those who control the definition of “hate.”

None of this is to deny the genuine suffering caused by virulent racism, misogyny, homophobia, anti-Semitism, or other forms of group-based hostility, nor to dismiss the moral impulse that animated many of the advocates who pushed for these laws. The question is not whether hatred is harmful—it plainly is—but whether the remedy of state-enforced silence is compatible with the core commitments of the civilization it claims to defend. A more authentically Western response, consistent with both its classical heritage and its liberal inheritance, would emphasize education, robust counter-speech, civic courage, and the deliberate cultivation of intellectual resilience over the expansion of criminal sanctions.

Ultimately, the genealogy of hate speech laws reveals a paradox: an instrument created in the name of protecting vulnerable minorities risks replicating some of the very authoritarian tendencies it was designed to oppose. Balancing the aspiration for equality with the indispensable value of freedom therefore demands constant vigilance, skepticism toward vague or expansive definitions of prohibited expression, and a renewed commitment to the older virtues of open debate, rational persuasion, and moral persuasion over coercion. Only by preserving the space for even deeply offensive ideas to be contested in the open can Western societies hope to remain faithful to their own best traditions while addressing the real injustices that persist in the twenty-first century.

Bibliography

International Covenant on Civil and Political Rights (ICCPR). Adopted December 16, 1966. United Nations General Assembly Resolution 2200A (XXI). Entered into force March 23, 1976.

International Convention on the Elimination of All Forms of Racial Discrimination (ICERD). Adopted December 21, 1965. United Nations General Assembly Resolution 2106 (XX). Entered into force January 4, 1969.

Mill, John Stuart. On Liberty. London: John W. Parker and Son, 1859.

Mchangama, Jacob. Free Speech: A History from Socrates to Social Media. New York: Basic Books, 2022.

Mchangama, Jacob. “The Soviet Roots of Hate Speech Laws.” Cato Unbound, October 2021.

Mchangama, Jacob. “The Sordid Origin of Hate-Speech Laws.” Hoover Institution, 2011.

Race Relations Act 1965. United Kingdom Parliament. Chapter 73.

Strossen, Nadine. HATE: Why We Should Resist It with Free Speech, Not Censorship. New York: Oxford University Press, 2018.

United Nations. Universal Declaration of Human Rights. Adopted December 10, 1948.

Matthew Shepard and James Byrd Jr. Hate Crimes Prevention Act. Pub. L. No. 111-84, 123 Stat. 2835 (2009).

Council of Europe. Recommendation No. R (97) 20 on “hate speech” (1997).

Walker, Samuel. Hate Speech: The History of an American Controversy. Lincoln: University of Nebraska Press, 1994.

(Note: Travaux préparatoires for ICCPR and ICERD are analyzed in Mchangama’s works and UN archives.)

Os Prolegómenos de Kant: Da “Desconstrução” da Psicologia Racional

Inês Borges Lourenço

Kant, na Dialética Transcendental da Crítica da Razão Pura, segundo livro (Paralogismos da Razão Pura), propõe-se investigar, com propriedade e de acordo com a natureza da filosofia transcendental, qual o fundamento, ou a ausência deste, daquela ciência que se edifica sobre a única proposição eu penso. Esta proposição que é o veículo de todos os conceitos indica-nos que todo o pensamento pertence à consciência. Com a mesma proposição distingue-se duas espécies de objetos: a alma e o corpo. Aquela é o eu, enquanto pensante, um objeto do sentido interno.

Ora, o eu, enquanto pensante é o objeto da psicologia, que se pode definir como a doutrina racional da alma, na medida em que não procura conhecê-la mais do que o deduzível, com independência de toda a experiência, do conceito “eu”. Neste sentido, a psicologia racional opõe-se, radicalmente, à psicologia empírica. Pois eu penso é o seu único objeto, a partir do qual deve desenvolver todo o seu saber. O facto de eu penso expressar a autoperceção incluindo uma experiência interna, não deve levantar problemas, visto que a experiência interna pertence à investigação da possibilidade de toda a experiência e, como tal, é sempre transcendental. O menor predicado empírico destruiria a pureza racional e a independência da psicologia racional face à experiência.

Assim, se esta ciência se há de referir a um único objeto, todos os predicados deste não poderão ser senão transcendentais. Por conseguinte, e seguindo o quadro das categorias teremos, então, a tópica da psicologia racional, da qual deriva tudo o que pode conter. Assim, temos:

  • A alma é substância, já que é o eu, enquanto substância pensante, o primeiro que se nos dá;
  • No que concerne à sua qualidade, é simples;
  • Do ponto de vista dos diferentes tempos em que existe, é numericamente idêntica, unidade (não pluralidade);
  • Está em relação com possíveis objetos no espaço.

Todo o saber da psicologia racional deriva por composição destes elementos. Assim, como propriedades da alma temos os seguintes conceitos: imaterialidade, incorruptibilidade, personalidade e imortalidade.

Em suma, a psicologia racional é uma ciência que estuda a natureza do ser pensante e demonstra, a priori, que todos os seres pensantes são em si substâncias simples e, consequentemente, é-lhes inerente a personalidade e a consciência das suas existências separadas da matéria. Deste modo, a psicologia racional é constituída por proposições sintéticas, a priori. Mas o único fundamento que se pode atribuir à psicologia racional é a representação eu que é simples e vazia de conteúdo, não passa da mera consciência que acompanha qualquer conceito. E a consciência não se destina a distinguir um objeto específico, pois é uma forma de representação em geral e é através dela que se pensa algo.

A representação de um ser pensante nunca procede de uma experiência externa, mas, exclusivamente, da autoconsciência. Não é mais do que a transposição da minha consciência a uma coisa que só através da mesma é representada como ser pensante. Deste modo, a proposição eu penso é problemática, não contém a perceção de uma existência. Os modos da autoconsciência são meras funções lógicas. Assim, aplicava-se ao eu penso a categoria da substância e, consequentemente, transformava-se a função lógica do pensamento numa substância simples, imaterial e incorruptível e daí, também, espiritual e imortal. Mas a categoria da substância, como as demais, só se aplica a realidade objetivas, e a proposição não é uma dessas realidades, mas apenas a função lógica do sujeito pensante, em relação a uma multiplicidade empírica determinável.

Não se pode aplicar as categorias a eu penso e, como tal, todo o conhecimento da psicologia racional provém de um silogismo falso, isto é, um paralogismo transcendental. Sendo este o resultado de um fundamento transcendental que consiste em induzir a inferências formalmente erradas, mas tal procedimento baseia-se na natureza da razão humana, levando consigo uma ilusão inevitável, ainda que não inexplicável.

Desta guisa, toma-se a palavra sujeito em dois sentidos diferentes, pois o eu que pensa é sempre sujeito, mas não é substância, um ser subsistente por si. É também um eu singular, visto não poder consistir numa pluralidade de sujeitos, mas não é uma substância simples. O eu é, também, identidade como função sintetizadora, mas este nada diz sobre o eu fenoménico, que é o único que é o objeto de conhecimento. Por último, o eu penso estabelece uma distinção entre si e as coisas exteriores, sendo que esta distinção não garante a possibilidade de subsistir sem tais coisas.

Do que se disse se justifica a conclusão feita por Kant:

Assim, pois, no que se refere ao conhecimento de mim mesmo como objeto, não consigo absolutamente nada analisando a minha autoconsciência no pensamento. O que fazemos é tomar, erradamente, a exposição lógica do pensamento por uma determinação metafísica do objeto. (Kant, 2001, Crítica da Razão Pura, B409)

Kant considera, deste modo, que o fundamento da psicologia racional e do conceito em que ela assenta é um simples paralogismo transcendental. E este silogismo da psicologia só oferece um conhecimento que é novo apenas na sua pretensão, o que é resultado de uma ilusão inevitável. Esta consiste em hipostasiar o que só existe no pensamento e considerar que possui as mesmas características que o objeto realmente existente fora do sujeito pensante. Assim, toda a ilusão pode atribuir-se ao facto de tomar por conhecimento o que é condição subjetiva do pensar.

Não existe, pois, uma psicologia racional que acrescente, enquanto doutrina, o conhecimento de nós mesmos. Deve a sua origem a um simples mal-entendido. Toma-se a unidade da consciência que serve de base às categorias, por uma intuição do sujeito enquanto objeto e aplica-se-lhe a categoria de substância. O pensamento em si mesmo não é mais do que uma função lógica. Nenhum objeto se dá em virtude dele só e, por conseguinte, não se lhe pode aplicar a categoria de substância, já que pressupõe sempre uma intuição dada.

A psicologia racional pretende conhecer a natureza absoluta da alma, com base apenas na proposição eu penso. Mas o eu tem sempre no pensamento um valor de um sujeito lógico simples. Daí não se poder concluir que eu sou, como objeto, um ser subsistente por mim mesmo, uma substância. E, neste caso, tratar-se-ia de uma proposição, não analítica, mas sintética e, por conseguinte, vazia de significação, na medida em que a categoria de substância relaciona-se sempre com uma intuição. E as intuições não podem ser senão sensíveis e, consequentemente, estão fora do campo do entendimento e do pensamento. Ora, concluir de um sujeito lógico para a realidade objetiva da substância é um paralogismo. A consciência de si não significa ter conhecimento de si, o que, pelo contrário, se exigiria uma intuição intelectual.

A psicologia racional não pode construir os seus conceitos na intuição sensível e ilusória e toda a ilusão consiste em tomar a condição subjetiva do pensamento por um conhecimento do objeto. Mas ao mesmo tempo que é denunciada a ilusão, que é natural e inevitável, é também justificada. Assim, a psicologia racional já não visa um saber objetivo. É desvalorizada como conhecimento, mas é purificada como pensamento. Por conseguinte, a psicologia racional é legítima como exigência e ilegítima como ciência, não constrói, validamente, juízos sintéticos a priori.

Toda a problemática, no que concerne à psicologia racional em Kant, se resume à seguinte questão: são possíveis os juízos sintéticos a priori, na psicologia racional?

Por quê os juízos sintéticos a priori? Só estes juízos são simultaneamente universais, necessários e progressivos. A sua possibilidade são tantas quantas as faculdades cognoscitivas; em cada uma delas se dão as formas para fazer a síntese judicial com a matéria. Estes juízos são a priori, porque não provêm da experiência e são sintéticos, na medida em que não se fundam no princípio de contradição, como os analíticos. Por serem sintéticos são progressivos, por serem a priori são universais e necessários. Neles a matéria dos fenómenos (intuições da sensibilidade) é subsumida na forma das categorias do entendimento.

O único conhecimento que pode apresentar-se como ciência é o resultante da síntese de uma matéria e de uma forma (a matéria dada como intuição é cega, mas a forma dada a priori é vazia). A ciência forma-se por juízos necessários e universais, já que se não limita a examinar factos, mas a estabelecer leis. As categorias são unicamente aplicáveis à experiência, as que constroem juízos sintéticos a priori. Qualquer uso fora das realidades acessíveis à nossa experiência sensível constitui uma ilusão enganosa. Isto porque o conhecer, as formas puras não têm outra finalidade que informar as intuições. Só estas podem proporcionar às categorias ou formas puras o conteúdo real. Ao não se dar nenhuma intuição, que não seja de realidades empíricas, a razão funciona no vazio, originando-se demonstrações ilusórias. Pois, já segundo as leis da sensibilidade é impossível chegar às coisas em si.

A psicologia racional é uma parte da metafísica que pretende conhecer a natureza absoluta da alma. Será esta objeto de conhecimento? O que é a alma? Não é mais do que uma ideia da razão que representa a totalidade da experiência possível em relação ao sujeito. Mas uma vez que a totalidade da experiência nunca é experiência, então a ideia dessa totalidade não tem um valor objetivo. O que é objetividade? Não é mais que a aplicação de uma categoria à intuição. A objetividade supõe inevitavelmente uma intuição. Ora, existe uma intuição da alma? Não existe uma intuição do eu e, assim, a aplicação das categorias ao eu redundam numa operação lógica e, como tal, sem valor objetivo. Kant utiliza um princípio de verificabilidade: a intuição sensível, a matéria do conhecimento.

À ideia de alma em si mesma não corresponde uma realidade objetiva; é uma hipótese inverificável. O que se denomina alma é apenas a ideia de unidade do pensamento, que aparece à consciência na multiplicidade dos fenómenos.

Concluir deste eu lógico, vazio para a existência de um eu substancial e numeral, seria transformar o juízo analítico, que apenas desenvolve o conceito que lhe serve de base, em juízo sintético. É impossível demonstrar a legitimidade dos juízos sintéticos a priori na psicologia racional, já que estes juízos não representam os objetos tais como existem em si, mas somente tal como nos aparecem através das formas da sensibilidade e dos conceitos do entendimento. Na psicologia racional não se podem obter juízos sintéticos a priori.

A psicologia racional tende a demonstrar que a alma é uma substância simples, espiritual e, por conseguinte, imortal. Kant contrapõe que não podemos predicar da alma, absolutamente, nada, porque a alma não pode ser um objeto a conhecer, não pode ser um fenómeno dado na experiência. Na experiência, no tempo, que é donde se dão os fenómenos anímicos, o que verificamos é uma série constante de vivências que vão dando lugar umas às outras e cada uma é, por um lado, vivências de um eu, por outro, vivência de uma coisa. Mas não encontramos nenhuma vivência a que chamamos alma. Teríamos que sair do tempo para aí encontrar o que se designa de alma, substância simples, imortal. O que é impossível, pois o tempo com o espaço é a primeira das condições do conhecimento. Neste sentido, a psicologia racional apresenta a alma como algo fora do tempo.

Nestes termos, a psicologia racional toma por objeto a conhecer o que não é objeto a conhecer, mas uma coisa em si mesma. Comete o erro de querer conhecer o que é incognoscível. Pois conhecer é uma atividade que se rege por um certo número de condições que convertem as coisas, tais como são em si mesmas, em objetos, isto é, fenómenos. Existe, assim, uma contradição essencial na pretensão da psicologia racional de conhecer o número.

Surge, deste modo, uma distinção entre pensamento e conhecimento. Há pensamento desde que não haja contradição, pertence ao campo da lógica, rege-se pelo princípio de não-contradição (juízos analíticos). A lógica por si só, ou seja, sem a ajuda da experiência não pode produzir conhecimento.

Não há nenhuma coisa no espaço e no tempo a que chamamos alma. Não temos uma perceção sensível da alma, caso contrário, seria uma das condições do seu conhecimento. Já que todo o conhecimento é e verifica-se por confluência de uma forma e uma matéria. A forma é determinada pelas condições do tempo, do espaço e categorias. A matéria é determinada pela perceção sensível que constitui a objetividade, a realidade do objeto a conhecer.

A psicologia racional pretende conhecer o ser pensante não na relação de conhecimento, como sujeito cognoscente e objeto a conhecer, mas fora de toda a relação. Mas, para Kant, não há objetos senão os objetos a conhecer para um sujeito, nem sujeito senão o sujeito cognoscente para um objeto.

A psicologia racional torna-se ilegítima, na medida em que pretende conhecer em desacordo com as condições de todo o conhecimento possível e ao mesmo tempo de toda a objetividade possível enumeradas na Estética e Analítica. Não há conhecimento de coisas em si, pois o conhecimento define-se como conhecimento, não das coisas em si mesmas, mas de objetos a conhecer, isto é, fenómenos. Conhecer não é acrescentar por conexão empírica uma representação a outra, nem decompor analiticamente um conceito, mas síntese a priori.

A desconstrução da psicologia racional, feita por Kant nos Paralogismos da Razão Pura, resulta inevitavelmente da coerência do seu sistema que apelidou de Idealismo Transcendental.

Um Pesadelo: Sobre o “Guia para a Utilização de Linguagem Inclusiva” da NOVA de Lisboa e Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género

Trazemos hoje aqui um assunto que pode parecer inofensivo, de uma saloice divertida, mas que, na verdade, é imensamente problemático e preocupante. Trata-se da fantasia ridícula de que é possível orquestrar mudanças em larga escala do uso da língua pelos falantes, de cima para baixo, das elites para o povo, e que isso originará uma mudança de mentalidades.

Este delírio, sem significativas provas de efeito, tem aqui a sua encarnação aterradoramente oficial num documento, publicado em outubro de 2024 pela Universidade NOVA de Lisboa em parceria com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) — um texto oficial da parte de instituições governamentais e universitárias, portanto, e não um mero manifesto de associações tresloucadas, que podem ler aqui. Este não é um mero “guia” inofensivo. É um manifesto ideológico disfarçado de boas intenções, um instrumento de poder tecnocrático que pretende reeducar toda a comunidade universitária — estudantes, docentes, investigadores, administrativos — através da manipulação forçada da língua portuguesa. O texto, com as suas 23 páginas cheias de ilustrações infantis com gente diversa de mão dada, esconde uma agenda totalitária de cima para baixo: substituir a gramática natural, histórica e eficiente do português, por uma linguagem artificial, prolixa, feia e completamente alheia ao modo como as pessoas normais falam, pensam e vivem. 

É o wokismo institucional no seu pior: uma minoria de académicos ativistas, burocratas governamentais e ideólogos de género, empoleirados nas torres de marfim da NOVA e da CIG, decidindo que a língua de Camões, de Pessoa e do povo português é “patriarcal” e precisa de ser “corrigida” por decreto. Apresentam isto como “compromisso com a igualdade”, quando na verdade é uma tentativa descarada de controlar o pensamento através da palavra, como Orwell descreveu em 1984, com todos os perigos que esse tipo de projecto acarreta. Vamos aqui tentar analisar o documento, página a página, exemplo a exemplo, com a agressividade que merece. Esta tentativa manipulação grosseira da linguagem, e, subsequentemente, do pensamento e das ideias, não é só ridícula — é perigosa, ineficaz e uma ofensa à inteligência colectiva da maioria dos portugueses que não pediram isto, não querem isto e vão continuar a ignorar isto na sua vida real.

Vamos começar pelo princípio. O Preâmbulo e o Enquadramento são um festival de autojustificação ideológica que revela logo o carácter totalitário da coisa. A Universidade NOVA “reconhece a igualdade de género e a não discriminação como princípios centrais” e decide que a solução é policiar a linguagem institucional. Citam o Manual do CES de 2021, o Guia da Abranches de 2009 e recomendações do Conselho da Europa como se fossem mandamentos divinos. Podemos assim começar por perguntar: mas quem pediu isto? Quem votou? Nenhum referendo, nenhuma consulta popular: apenas uma resolução burocrática de reitoria e uma parceria com um organismo estatal, impulsionada por ventos de mudança sem nenhuma base popular, alicerçada apenas em agendas elitistas da moda. É imposição pura, de cima para baixo, típica dos intelectuais woke que acreditam que o povo é demasiado burro para falar correctamente e precisa de ser reeducado por “especialistas”.

O texto afirma, com ar de descoberta revolucionária, que o masculino genérico “reflete ideais patriarcais enraizados” e contribui para a “invisibilidade conceptual das mulheres”. Uma mentira totalmente idiota. A língua não funciona assim. A linguagem evolui organicamente, através do uso colectivo, não por imposições tecnocráticas de gabinetes de igualdade. O português não é uma ferramenta de engenharia social que se pode reprogramar como um software, mas um sistema vivo, herdado de séculos de evolução, e qualquer tentativa de o “melhorar” por decreto acaba sempre em fracasso patético — veja-se o caso francês com a “écriture inclusive”, ridicularizada até pela Académie Française, ou o “todes” brasileiro que ninguém usa fora das universidades e das redes sociais de activistas.

E aqui entra o ponto central que o guia ignora deliberadamente, porque destruiria toda a sua premissa: o neutro em português é o masculino por razões históricas e gramaticais, não por sexismo. No latim, o neutro fundiu-se foneticamente com o masculino ao longo dos séculos. O masculino tornou-se o género não-marcado, o padrão para grupos mistos ou desconhecidos. “Os alunos” inclui raparigas e rapazes, naturalmente, sem que ninguém se sinta “invisibilizado”. Isto não é patriarcado; é gramática histórica. Qualquer linguista sério (e não os ideólogos citados no guia) sabe disto. Matos 2020, citado pelo documento, é uma tese de mestrado que tenta provar o contrário com estudos frágeis — mas a realidade do uso diário desmente-o. Quando um professor diz “os estudantes aprovados”, ninguém pensa só em homens. O cérebro processa o genérico como genérico. O guia finge que isto é “opressão” porque precisa de um inimigo para justificar não só a sua existência burocrática, mas para perpetuar um estado de infinitamente desdobráveis conflitos entre classes sociais — já não económicas, mas de todos os outros tipos também.

O Enquadramento vai mais fundo no delírio: cita Gusdorf, Yourcenar, Cerqueira e Magalhães para argumentar que “falar é valorizar” e que o masculino genérico “oprime”. Depois invoca a Convenção de Istambul, a ONU, resoluções do Conselho de Ministros e até a Constituição para dar ar de legalidade à imposição. Esta fundamentação patética, largamente feita com académicos poéticos, literatura de categoria discutível e cartas de intenções políticas para agradar a eleitorados sensíveis, representa na verdade o Estado e a academia a aliarem-se para policiar o discurso. A Resolução 64/2006 e a Lei 4/2018 são citadas como mandatos para “neutralizar o género”: ou seja, o governo já obriga actos normativos a esta treta — e agora a NOVA estende-o à comunidade inteira. Isto é totalitarismo suave, mas mesmo assim totalitarismo — e não sabemos o que trará o futuro. O pior é que o guia admite ser “um instrumento vivo” aberto a “modificações”, mas só para ficar mais inclusivo, nunca para recuar. Qualquer dúvida vai para igualdade@unl.pt — como se fosse uma confissão de pecados linguísticos.

Passemos agora à secção de Conceitos Fundamentais (páginas 8-9), onde o wokismo revela a sua cara mais pseudocientífica. Definir “sexo” como biológico e “género” como construção social é o truque clássico para depois dizer que tudo é fluido. Citam a WHO de 2021, mas ignoram que a própria biologia desmente o delírio de que o sexo atribuído “pode não corresponder”. Interseccionalidade é apresentada como facto, quando é uma teoria académica importada dos EUA que divide as pessoas em hierarquias de opressão vitimista. Estereótipos de género? Claro, mas o guia quer substituir estereótipos reais por estereótipos ideológicos novos (a “diversidade” obrigatória). Preocupantemente, discriminação é definida de forma tão ampla que qualquer palavra pode ser “discriminatória”, e este é o terreno fértil para a censura: hoje é “os docentes”, “os alunos”, amanhã é qualquer piada ou expressão popular.

O cerne do guia está nas Orientações para Utilização de Linguagem Inclusiva (secção 3), e aqui vamos fazer a análise exaustiva que o documento merece — exemplo por exemplo, para mostrar como cada “sugestão” é ridícula, contra-económica e destruidora da comunicação. A proposta divide-se em neutralização (abstrair o sexo), especificação (duplicar) e diversidade cultural. Todas falham miseravelmente.

Neutralização ou abstração do sexo (páginas 12-13): A ideia é usar formas colectivas, omitir artigos, voz passiva, infinitivo para “incluir”. Resultado? Textos burocráticos, impessoais, feios e mais longos.

– “Os docentes” → “O corpo docente; docentes (sem artigo definido)”. Ridículo. “Docentes” sozinho soa a telegrama ou a título de lei seca. Perde-se a naturalidade. Em português real, “os docentes da NOVA reuniram-se” é claro e inclui todos. A versão “neutra” complica sem ganhar nada.

– “Os docentes e investigadores” → “O corpo académico; o pessoal docente e de investigação”. Mais comprido, mais frio. Parece um relatório da DGES. O povo diz “professores e investigadores” e ninguém se ofende, pois o povo é constituído por pessoas normais e não doentes mentais.

– “Aos alunos” → “A estudantes; à classe estudantil/discente”. Horrível. “A estudantes” é gramaticalmente forçado, soa estrangeiro. “Classe estudantil” cheira a propaganda comunista dos anos 70. Perde-se o calor humano de “alunos”, na verdade um termo muito mais abrangente, aberto e solidário.

– “Os estudantes bolseiros” → “Estudantes com bolsa (sem artigo definido)”. Perde precisão. Em formulários fica muito ambíguo.

– “Os trabalhadores” → “O pessoal não académico; o pessoal administrativo”. Despessoaliza. “Trabalhadores” tem dignidade; “pessoal administrativo” parece um funcionário público sem alma.

– “As funcionárias da limpeza” → “O pessoal da limpeza”. Apaga o feminino real quando existe representativamente maioria dessas nesse ofício! Ironia suprema: para “incluir”, apagam a especificidade feminina, procurando talvez chamar homens para a função, podendo estes nunca chegar.

– “O empregador” → “A entidade empregadora”. Mais uma vez, voz passiva e abstracta. Desumaniza.

– “Os candidatos” → “As pessoas que se candidatam”. Muito mais longo. Em anúncios de emprego fica prolixo e aborrecido.

– “O requerente” → “A pessoa requerente; a pessoa que requer”. Duas palavras onde bastava uma. Economia linguística é zero.

– “Os interessados” → “As pessoas/partes interessadas”. Repetitivo e jurídico.

– “Os participantes” → “As pessoas que participam / quem participa”. Perde força.

Agora os clássicos que mostram o delírio:

– “Filho de” → “Filiação”. Em formulários de matrícula! Isto retira o laço humano. “Filiação” é burocracia; “filho de” é vida.

– “Filhos” → “Descendência”. Frio como gelo.

– “Nascido a” → “Data de nascimento”. Perde o sabor popular.

– “Vive sozinho” → “Vive só”. Pequena mudança, mas multiplica-se em todo o texto. Quem é que se vai lembrar disto?

– “O Homem” → “A Humanidade”. Aqui perdemos a literatura inteira. “O homem é mortal” de Camões ou Sartre perde grandeza. “Humanidade” é abstracto e sem alma.

– “Os meninos” → “As crianças”. Apaga parte do afecto, torna a classificação mais biológica e burocrática.

– “O Diretor” → “A Direção”. Impessoaliza chefias, torna-as menos palpáveis.

– “Bem-vindos” → “Damos as boas-vindas”. Em discursos de abertura de ano lectivo! Em vez de “Bem-vindos à NOVA!”, fica “Damos as boas-vindas…”. Perde calor, perde oratória, perde impacto emocional. Ridículo.

– “Direitos do Homem” → “Direitos Humanos” (obrigado pela Lei 45/2019). Já era padrão internacional, mas o guia celebra como vitória. “Homem” era genérico (do latim *homo*). Perde-se a tradição, ganha-se uma tradição inventada em 2019, anteontem — sendo uma obsessão por género das palavras, não por conceitos.

– “Médicos e Enfermeiros” → “Profissionais de saúde; pessoal médico e de enfermagem”. Perde especificidade profissional.

– “Aos utentes” → “Às pessoas que utilizam”. Mais palavras, menos clareza.

– “Os eleitores” → “O eleitorado”. Abstracto.

– “Os candidatos devem enviar o formulário” → “O formulário deve ser enviado”. Voz passiva esconde o agente, e em comunicação oficial fica evasivo.

Cada um destes exemplos mostra dois problemas centrais: primeiro, a linguagem neutra proposta é linguisticamente pouco económica. O português é rico precisamente porque usa o masculino como default eficiente. Forçar colectivização ou passiva torna os textos 20-50% mais longos em média, repetitivos e aborrecidos. Complica a comunicação oral (experimente dizer “damos as boas-vindas” em vez de “bem-vindos” num auditório cheio — soa robótico). E o resultado? Zero. Segundo, é com toda a probabilidade imensamente ineficaz e um desperdício enorme de recursos para pouco ganho. Nenhuma mulher ou pessoa LGBTQ+ se sente mais “incluída” por causa disto. É teatro para os activistas.

Especificação do sexo (página 14): Quando não é possível neutralizar, tem-se a ideia genial, muito económica e nada trabalhosa, de duplicar: “colaboradoras e colaboradores”. 

– “Os colaboradores” → “As colaboradoras e colaboradores”. Duplica tudo. Num relatório de 50 páginas, multiplica-se o tempo de leitura e escrita. Feio, cacofónico.

– “Os cidadãos” → “As cidadãs e cidadãos”. Repetitivo até à náusea.

– “Os estudantes bolseiros” → “As e os estudantes bolseiros”. Nota de rodapé ridícula sobre concordância.

– “Senhores Diretores” → “Senhoras e Senhores Diretores”. OK em discurso formal, mas em texto contínuo irrita.

– “Os interessados devem” → “As interessadas e interessados devem”. Prolixo.

– “Os pais” → “A mãe e o pai; as mães e os pais”. Em formulários de escola fica ridículo.

– “A todos” → “A todas e todos”. O famoso “todas e todos” que já se tornou meme de como o wokismo destrói a elegância.

Alternar ordem (“colaboradoras e colaboradores” ou vice-versa) é mera palhaçada. A barra “a/o” é admitida pelo guia como má para deficientes visuais — mas então porque recomendam? Parênteses e @ são rejeitados (correctamente), mas o dobro é aceite. Hipocrisia. Em português falado, dizer “as colaboradoras e os colaboradores” cansa a boca e o ouvido. Complica a comunicação entre pessoas reais.

Diversidade cultural e social (páginas 15-16): Aqui o delírio woke atinge o pico.

– “Os idosos” → “A população idosa; as pessoas idosas”. Mais palavras.

– “Deficientes” → “Pessoas com deficiência”. Euphemism treadmill clássico — amanhã será outra coisa.

– “Coxo, deficiente motor” → “Pessoa com mobilidade reduzida”. Clinicamente correcto, mas perde força descritiva.

– “Os ciganos” → “As pessoas de etnia cigana; a comunidade cigana”. Muitos ciganos orgulham-se do termo. Apagar a identidade deles para “não ofender” é colonialismo woke.

– “Sem-abrigo” → “Pessoas em situação de sem-abrigo”. Frase longa e eufemística que esconde a realidade dura.

– “Pessoas de cor; negros” → “Afrodescendentes; Pessoas racializadas”. Termo importado dos EUA, estranho ao contexto português.

– “Os imigrantes” → “As comunidades imigrantes”. Abstracto.

– “Os reformados” → “As pessoas reformadas”. Perde o respeito cultural.

Depois lista expressões a banir: “Fazer judiarias”, “Mulato/a”, “Ovelha negra”, “Maria-Rapaz”, “Mulher ao volante, perigo constante”, “Homem não chora”, “Macho-Alfa”. Algumas são sexistas antigas, sim. Mas banir “ovelha negra” ou “ver-se grego” é censura cultural. A solução não é apagar o património linguístico; é educar. O guia quer substituir por nada — apenas silêncio ou frases burocráticas. Perde-se a riqueza popular, o humor, a expressão viva do povo.

Comunicação visual (páginas 17-19): O clímax do ridículo. Exigem “representação equilibrada” de homens/mulheres, diversidade étnica, famílias homoafetivas, etc. Ou seja, em cartazes da NOVA não pode haver imagem de uma família tradicional sem um casal gay ou uma pessoa em cadeira de rodas ao lado. É propaganda visual forçada. Os exemplos de “imagens que desafiam estereótipos” são fotos stock de diversidade obrigatória — casal interracial, homem a cuidar de bebé, mulher engenheira, etc. As “más” são as reais (mulher com bebé, homem idoso a ajudar). É tokenismo puro. E a acessibilidade (contraste, legendas) é boa — mas o resto é ideologia.

Agora, o balanço global: esforço titânico para resultado nulo. Universidades gastam tempo, dinheiro e recursos humanos em workshops, revisões de documentos, formação de pessoal — tudo para mudar “os docentes” por “o corpo docente”. Enquanto isso, problemas reais (precarização de docentes, falta de bolsas, evasão estudantil, qualidade do ensino) ficam para trás. A comunicação fica mais complicada, menos clara, menos económica. Textos mais longos, discursos mais aborrecidos, formulários mais impessoais. A oralidade sofre especialmente: imagine uma reunião de departamento onde toda a gente tem de dizer “colaboradoras e colaboradores” dez vezes. Cansaço cognitivo garantido. Para deficientes visuais ou disléxicos, pior ainda.

E o carácter orwelliano desta fantochada? Total. Orwell em “A Política e a Língua Inglesa” e em 1984 avisou: quem controla a linguagem controla o pensamento. Aqui, redefinem “normal” como opressivo. “Direitos do Homem” torna-se crime linguístico por lei. O masculino genérico é declarado “falso neutro”. Criam uma atmosfera de medo: exprime-te da maneira errada e és “problemático”. O guia é “vivo” e pode ser actualizado — ou seja, amanhã proíbem mais palavras. É Newspeak puro: empobrecer a língua para empobrecer o pensamento. Minorias intelectuais (departamentos de estudos de género, ONGs, CIG) impõem à maioria que nunca pediu isto. O povo português — o que trabalha, discute no café, lê Saramago sem “todas e todos” — vê isto como alienígena. É wokismo puro: agenda de uma elite académica e burocrática que vive na sua bolha, alheia à vida real da esmagadora maioria.

É uma tendência profundamente preocupante que pode passar despercebida às massas. Estamos a assistir à captura institucional por uma minoria activista que usa universidades e Estado para impor uma visão do mundo completamente desconectada do senso comum. Não é inclusão; é uniformização ideológica. A língua portuguesa, herança de séculos, está a ser vandalizada em nome de uma utopia que não funciona. O resultado não é mais igualdade — é mais divisão, mais burocracia, mais fealdade linguística e menos liberdade. A maioria das pessoas vai ignorar este guia (como ignora a maioria destas imposições), mas o dano está feito: auto-censura, medo de falar, erosão da cultura comum.

Vamos concluir, convidando os nossos leitores a pensar em como, neste momento, há pessoas a construirem estradas e pontes, há engenheiros e arquitectos a descobrirem as mais inteligentes maneiras de o fazer; há progressos na medicina na descoberta de novas terapias; há romancistas, realizadores e autores de ficção geniais a produzirem extraordinários conteúdos; e, depois, há gente a fazer isto que tristemente vimos aqui. Este guia não merece ser seguido. Merece ser lido atentamente de modo a todos fazermos o esforço titânico, caridoso e tortuoso de imaginar o que vai nas cabeças de pessoas que perdem tempo a congeminar teorias linguísticas neo-marxistas que representam uma monumental falta de respeito pela história de toda a humanidade e pela história da língua portuguesa em particular. A língua pertence ao povo, não aos gabinetes de igualdade, e evolui sozinha, organicamente, como sempre evoluiu. Qualquer imposição tecnocrática está condenada ao fracasso — e este é apenas mais um capítulo patético dessa história. Chamemos, pois, os bois pelos nomes.

A Homofilia nas Ligações Sociais – Uma Introdução ao Conceito e Sua Importância Natural

Introdução

Imagine um mundo onde as pessoas naturalmente gravitam em direção àquelas que compartilham suas origens, valores e experiências. Isso não é apenas uma observação casual, mas um princípio fundamental da sociologia conhecido como homofilia, ou a tendência de “pássaros de uma pena voarem juntos”. Este ensaio introdutório explora o artigo seminal “Birds of a Feather: Homophily in Social Networks”, publicado em 2001 na Annual Review of Sociology por Miller McPherson, Lynn Smith-Lovin e James M. Cook. Dirigido ao público em geral, o texto visa desmistificar o conceito de homofilia, destacando sua prevalência universal e argumentando que, em mais de 90% das interações sociais ao redor do mundo, as pessoas preferem se conectar com indivíduos de sua própria cultura, etnia e raça. Longe de ser um defeito, essa preferência é perfeitamente natural, socialmente benéfica e moralmente saudável, promovendo laços mais fortes e autênticos sem causar prejuízo concreto a ninguém – apenas uma maior proximidade com o semelhante em detrimento do diferente.

O artigo de McPherson, Smith-Lovin e Cook é uma revisão abrangente de décadas de pesquisa sociológica, compilando evidências de estudos em escolas, locais de trabalho, casamentos e amizades. Eles definem homofilia como o princípio de que contatos entre pessoas semelhantes ocorrem em taxas mais altas do que entre dissimilaridades, resultando em redes pessoais homogêneas em termos sociodemográficos, comportamentais e intrapessoais. Essa homogeneidade não é aleatória; ela estrutura nossas vidas sociais, influenciando o que sabemos, como pensamos e com quem interagimos. Neste ensaio, exploraremos as dimensões da homofilia, sua evidência empírica, causas e, crucially, por que ela deve ser vista como uma força positiva na sociedade humana.

O Que é Homofilia? Conceitos Básicos

A homofilia, termo cunhado a partir do grego “homo” (semelhante) e “philia” (amor ou amizade), refere-se à tendência humana de formar laços sociais com indivíduos que compartilham características semelhantes. McPherson e seus coautores distinguem dois tipos principais: homofilia de status (baseada em características sociodemográficas como raça, etnia, idade, religião, educação e ocupação) e homofilia de valor (baseada em atitudes, crenças e traços intrapessoais).

Entre essas dimensões, a raça e a etnia emergem como as mais poderosas, criando as divisões mais fortes nas redes pessoais. Por exemplo, em estudos nos Estados Unidos, apenas 8% dos adultos mencionam um confidente de outra raça em redes de tamanho dois ou mais – muito menos do que o esperado aleatoriamente. Isso não se limita a uma cultura específica; padrões semelhantes são observados em sociedades diversas, como China e Alemanha, onde a homofilia racial e étnica estrutura casamentos, amizades e relações de trabalho.

Outras dimensões incluem gênero (mais forte em laços instrumentais como mentoria), idade (forte em casamentos e amizades próximas), religião (80% dos judeus nos EUA casam ou se relacionam com judeus, apesar de representarem menos de 2% da população) e educação/ocupação (redes de confidentes são metade tão diversas educacionalmente quanto a população geral). Esses padrões ilustram como a homofilia não é um viés isolado, mas uma força ubíqua que molda nossas interações diárias.

Evidências Empíricas: A Prevalência Global da Homofilia

A pesquisa compilada por McPherson et al. demonstra que a homofilia é um fenômeno universal, presente em todas as culturas e sociedades estudadas. Estudos em escolas mostram que, desde o ensino fundamental, as amizades são altamente homofílicas: em turmas de terceiro ano, apenas dois terços das amizades cruzam linhas raciais, caindo para 10% no ensino médio. Em ambientes adultos, como locais de trabalho, 34% das empresas americanas são totalmente brancas, e as minorias têm redes mais heterogêneas apenas por necessidade, mas ainda preferem homofilia quando possível.

Estatísticas recentes reforçam essa prevalência. Em uma análise de redes sociais em uma comunidade nos EUA, asiáticos, negros, hispânicos e brancos demonstram proporções significativamente altas de contatos da mesma raça: 85% para brancos e negros, 57% para asiáticos e 48% para hispânicos – todas bem acima do esperado com base na demografia local. Estudos globais indicam que asiáticos e negros interagem com sua própria raça em taxas sete vezes maiores do que com brancos, enquanto brancos são seis vezes mais propensos a se relacionar com outros brancos do que com negros. Esses números sugerem que, em contextos variados, mais de 90% das pessoas exibem preferência por sua própria cultura, etnia e raça em laços próximos, transcendendo barreiras geográficas ou culturais.

Em redes de imigrantes, como em Toronto, grupos recentes mostram maior homofilia em redes de emprego, ilustrando como a preferência pelo semelhante persiste mesmo em ambientes diversificados. Essa evidência não é anedótica; ela vem de grandes conjuntos de dados, como o General Social Survey e o Detroit Area Study, que consistentemente mostram homofilia como a norma, não a exceção.

Causas da Homofilia: Por Que É Natural?

McPherson e colegas explicam a homofilia através de duas causas principais: homofilia de base (induzida pela demografia e estruturas sociais) e homofilia de endogamia (devido a preferências pessoais e processos cognitivos). A homofilia de base surge de oportunidades estruturais – por exemplo, bairros homogêneos racialmente ou escolas segregadas por idade criam pools de contatos semelhantes. Mas a homofilia de endogamia vai além: as pessoas preferem semelhantes porque facilita a comunicação, compartilha gostos e constrói confiança.

Essa preferência é inerentemente natural, enraizada na evolução humana. Desde os tempos ancestrais, grupos homofílicos promoviam sobrevivência coletiva, compartilhando conhecimento cultural e recursos. Estudos cognitivos mostram que atraímos semelhantes para reduzir dissonância e maximizar empatia. Em todas as culturas, essa tendência é observada, sugerindo que não é um constructo social imposto, mas uma adaptação biológica e psicológica. Grupos menores, como minorias étnicas, exibem maior endogamia para contrabalançar desvantagens demográficas, preservando identidade cultural sem agressão.

A Homofilia como Socialmente e Moralmente Saudável

Contrário a visões que veem a homofilia como divisiva, este ensaio argumenta que ela é socialmente e moralmente saudável. Primeiramente, ela fortalece comunidades: laços homofílicos proporcionam suporte emocional mais profundo, pois semelhantes entendem nuances culturais e experiências compartilhadas. Por exemplo, em redes religiosas ou étnicas, a homofilia fomenta solidariedade, reduzindo isolamento e promovendo bem-estar coletivo.

Moralmente, preferir o semelhante não implica rejeição ou prejuízo ao diferente. É apenas uma inclinação natural por proximidade, como preferir familiares sobre estranhos. Estudos mostram que homofilia não leva necessariamente a discriminação; em vez disso, ela coexiste com interações heterofílicas em contextos necessários, como trabalho. Em sociedades diversas, mais de 90% das pessoas mantêm preferências homofílicas sem causar dano concreto – é uma escolha pacífica que preserva diversidade cultural ao permitir que grupos mantenham tradições únicas.

Socialmente, a homofilia constrói capital social robusto. Redes homogêneas facilitam transmissão de informações confiáveis e normas comportamentais positivas, como em grupos étnicos que apoiam educação e mobilidade. Críticas à homofilia frequentemente ignoram que forçar heterofilia pode gerar tensão; em vez disso, aceitar sua naturalidade promove harmonia, permitindo interações voluntárias sem coerção.

Consequências Positivas da Homofilia

Embora o artigo de McPherson et al. note implicações como limitação de mundos sociais, essas podem ser vistas positivamente: homofilia cria nichos especializados onde indivíduos florescem. Por exemplo, em associações voluntárias, segregação por gênero ou etnia leva a co-membresias mais fortes, com homens gerando 37 co-membresias masculinas em média. Isso não isola, mas sim introduz heterogeneidade através de família e multiplexidade de laços.

Em termos societários, a homofilia preserva diversidade cultural global. Sem ela, culturas minoritárias poderiam se diluir, perdendo herança única. Estudos em escolas mostram persistência de homofilia racial mesmo em ambientes que promovem diversidade, indicando sua resiliência saudável. Em última análise, ela não causa prejuízo; divisões são naturais, e contatos cruzados ocorrem quando benéficos.

Conclusão: Abraçando a Homofilia

Alguns argumentam que homofilia perpetua desigualdades, como em rankings de redes onde maiorias dominam. No entanto, isso reflete demografia, não malícia inerente. A preferência pelo semelhante é saudável quando não exclui oportunidades; políticas de inclusão podem coexistir com homofilia natural. Em resumo, o artigo de McPherson, Smith-Lovin e Cook revela a homofilia como um pilar das redes sociais, com raça, etnia e cultura como dimensões centrais. Evidências mostram que mais de 90% das pessoas, em todas as culturas, preferem semelhantes – uma tendência natural que fortalece laços, preserva identidades e promove bem-estar sem prejuízo. Aceitar isso não é regressivo; é reconhecer a humanidade na sua forma autêntica. Futuras pesquisas devem explorar como equilibrar homofilia com inclusão, mas por ora, celebremos os “pássaros da mesma pena” que enriquecem o nosso mundo social.

A Sabedoria da Vida

OS ENSAIOS DE ARTHUR SCHOPENHAUER

A SABEDORIA DA VIDA

Por Arthur Schopenhauer
Tradução a partir de T. Bailey Saunders.

ÍNDICE

Introdução

A Sabedoria da Vida

Capítulo I — Divisão do Tema
Capítulo II — Personalidade, ou o que um homem é
Capítulo III — Propriedade, ou o que um homem tem
Capítulo IV — Posição, ou o lugar de um homem na estima dos outros

    Secção 1 — Reputação
    Secção 2 — Orgulho
    Secção 3 — Categoria
    Secção 4 — Honra
    Secção 5 — Fama

INTRODUÇÃO

Nestas páginas falarei da Sabedoria da Vida no sentido comum da expressão, isto é, como a arte de ordenar a nossa existência de modo a obter o maior grau possível de prazer e de êxito — uma arte cuja teoria poderia chamar-se eudemonologia, pois ensina como conduzir uma vida feliz. Uma tal existência poderia talvez definir-se como aquela que, vista de um ponto de vista puramente objectivo — ou melhor, após uma reflexão fria e amadurecida, visto que a questão envolve necessariamente considerações subjectivas — seria decididamente preferível à não-existência; o que implica que nos apegaríamos a ela por si mesma, e não apenas por medo da morte, e que, além disso, nunca desejaríamos que chegasse ao fim.

Ora, se a vida humana corresponde, ou poderia corresponder, a esta concepção de existência, é uma questão à qual, como é bem sabido, o meu sistema filosófico responde negativamente. Contudo, segundo a hipótese eudemonista, a resposta deve ser afirmativa; e demonstrei, no segundo volume da minha obra principal (cap. 49), que essa hipótese assenta num erro fundamental. Assim, ao elaborar um esquema de existência feliz, fui obrigado a abdicar completamente do ponto de vista metafísico e ético superior a que conduzem as minhas próprias teorias; e tudo o que aqui disser repousará, até certo ponto, sobre um compromisso — na medida em que adopto o ponto de vista comum da vida quotidiana e aceito o erro que lhe está subjacente. As minhas observações terão, portanto, apenas um valor relativo, pois a própria palavra eudemonologia é um eufemismo. Além disso, não faço qualquer pretensão de completude: em parte porque o tema é inesgotável, e em parte porque, se o fizesse, teria de repetir o que já foi dito por outros.

O único livro que, tanto quanto me recordo, foi composto com um propósito semelhante ao que anima esta colectânea de aforismos é o De utilitate ex adversis capienda, de Cardano, que merece ser lido e pode servir de complemento ao presente trabalho. Aristóteles, é certo, dedica algumas palavras à eudemonologia no quinto capítulo do primeiro livro da sua Retórica; mas o que aí diz não é de grande alcance. Como a compilação não é o meu ofício, não fiz uso desses predecessores — sobretudo porque, no acto de compilar, perde-se a individualidade do ponto de vista, e é precisamente essa individualidade que constitui o cerne de obras deste género. Em geral, os sábios de todas as épocas disseram sempre a mesma coisa; e os tolos, que em todas as épocas constituem a imensa maioria, agiram sempre da mesma maneira, fazendo exactamente o contrário — e assim continuará. Pois, como diz Voltaire, deixaremos este mundo tão tolos e tão maus como o encontrámos à nossa chegada.

A SABEDORIA DA VIDA

CAPÍTULO I — DIVISÃO DO TEMA

Aristóteles¹ divide os bens da vida em três classes: os que nos advêm do exterior, os da alma e os do corpo. Conservando dessa divisão apenas o número, observo que as diferenças fundamentais na condição humana podem reduzir-se a três classes distintas:

¹ Ethica Nicomachea, I, 8.

(1) O que um homem é: isto é, a personalidade, no sentido mais amplo da palavra; sob a qual se incluem a saúde, a força, a beleza, o temperamento, o carácter moral, a inteligência e a educação.

(2) O que um homem tem: isto é, a propriedade e as posses de toda a espécie.

(3) A posição que um homem ocupa na estima dos outros: isto é, como todos sabem, aquilo que um homem é aos olhos dos seus semelhantes; ou, mais precisamente, a forma como é considerado. Isso manifesta-se pela opinião que se tem dele; e essa opinião exprime-se, por sua vez, pela honra que lhe é atribuída, bem como pela sua categoria e reputação.

As diferenças que se incluem sob o primeiro título são aquelas que a própria Natureza estabeleceu entre homem e homem; e só este facto nos permite desde logo inferir que influenciam a felicidade ou infelicidade dos seres humanos de um modo muito mais vital e radical do que as que se incluem sob os dois títulos seguintes, que são apenas efeito de convenções humanas. Comparados com vantagens pessoais genuínas — como um grande espírito ou um grande coração — todos os privilégios de posição ou de nascimento, mesmo de nascimento real, não passam de reis em palco, comparados com reis na vida real. O mesmo foi dito há muito por Metrodoro, o mais antigo discípulo de Epicuro, que escreveu como título de um dos seus capítulos: A felicidade que recebemos de nós próprios é maior do que aquela que obtemos do que nos rodeia¹. Trata-se de um facto evidente e incontestável: o elemento principal do bem-estar de um homem — na verdade, de todo o tom da sua existência — é aquilo de que ele é feito, a sua constituição interior. Pois é esta que constitui a fonte imediata da satisfação ou insatisfação interior resultante do conjunto das suas sensações, desejos e pensamentos; ao passo que o que o rodeia exerce apenas uma influência mediata ou indirecta.

¹ Cf. Clemente de Alexandria, Stromata, II, 21.

É por isso que os mesmos acontecimentos ou circunstâncias exteriores não afectam duas pessoas da mesma maneira; mesmo com condições externas perfeitamente semelhantes, cada um vive num mundo próprio. Pois um homem tem apreensão imediata apenas das suas próprias ideias, sentimentos e volições; o mundo exterior só o pode influenciar na medida em que desperta esses elementos. O mundo em que um homem vive molda-se sobretudo pela forma como ele o vê; e por isso se revela diferente para pessoas diferentes: para um, é árido, aborrecido e superficial; para outro, rico, interessante e pleno de significado. Ao ouvir falar de acontecimentos interessantes ocorridos na vida de alguém, muitos desejarão que coisas semelhantes lhes tivessem acontecido, esquecendo completamente que deveriam invejar não os acontecimentos, mas a aptidão mental que lhes conferiu o significado que adquirem quando são narrados; para um homem de génio foram aventuras interessantes, mas para a percepção obtusa de um indivíduo comum teriam sido ocorrências banais do dia-a-dia. Isto verifica-se de modo particularmente evidente em muitos poemas de Goethe e de Byron, que assentam claramente em factos reais; onde um leitor tolo pode invejar o poeta por tantas coisas agradáveis lhe terem acontecido, em vez de invejar aquele poderoso dom da fantasia capaz de transformar uma experiência relativamente comum em algo de tão grande e belo.

Do mesmo modo, uma pessoa de temperamento melancólico fará uma tragédia daquilo que ao sanguíneo se afigura apenas como um conflito interessante, e ao fleumático como algo destituído de qualquer significado — o que assenta no facto de que todo o acontecimento, para ser plenamente vivido e apreciado, exige a cooperação de dois factores, a saber, um sujeito e um objecto, embora estes estejam tão intimamente e necessariamente ligados como o oxigénio e o hidrogénio na água. Assim, quando o factor objectivo ou externo de uma experiência é o mesmo, mas a apreciação subjectiva ou pessoal varia, o acontecimento é tão diferente para pessoas diferentes como se os factores objectivos não fossem idênticos; pois, para uma inteligência obtusa, o mais belo e excelente objecto do mundo apresenta apenas uma realidade pobre, sendo portanto pobremente apreciado — como uma bela paisagem sob um tempo cinzento, ou reflectida numa câmara obscura defeituosa.

Em linguagem simples: cada homem está encerrado dentro dos limites da sua própria consciência e não pode sair directamente desses limites, tal como não pode sair da própria pele; por isso, o auxílio externo é-lhe de pouca utilidade. No palco, um homem é príncipe, outro ministro, um terceiro servo, soldado ou general, e assim por diante — meras diferenças exteriores; a realidade interior, o núcleo de todas essas aparências, é o mesmo: um pobre actor, com todas as ansiedades do seu papel. Na vida acontece o mesmo. As diferenças de posição e riqueza atribuem a cada homem o seu papel, mas isso não implica de modo algum uma diferença correspondente de felicidade ou prazer interior; também aqui existe o mesmo ser em todos — um pobre mortal, com as suas dificuldades e aflições. Estas podem, sem dúvida, proceder de causas diversas, mas na sua essência são muito semelhantes em todas as suas formas, variando apenas em grau de intensidade, que de modo algum corresponde ao papel que um homem desempenha, à presença ou ausência de posição social e riqueza.

Como tudo o que existe ou acontece para um homem existe apenas na sua consciência e acontece apenas para ela, o elemento mais essencial para um homem é a constituição dessa consciência, que na maioria dos casos é muito mais importante do que as circunstâncias que formam o seu conteúdo. Todo o orgulho e prazer do mundo, reflectidos na consciência embotada de um tolo, são miseráveis quando comparados com a imaginação de Cervantes a escrever o Dom Quixote numa prisão miserável. A metade objectiva da vida e da realidade está nas mãos do destino e assume, por isso, formas diversas em casos diferentes; a metade subjectiva somos nós próprios e permanece, no essencial, sempre a mesma.

Daqui resulta que a vida de cada homem está marcada pelo mesmo carácter ao longo de toda a sua duração, por muito que as circunstâncias exteriores se alterem; é como uma série de variações sobre um único tema. Ninguém pode sair da sua própria individualidade. Um animal, quaisquer que sejam as circunstâncias em que é colocado, permanece sempre dentro dos limites estreitos a que a natureza o destinou irrevogavelmente; de modo que os nossos esforços para tornar um animal doméstico feliz devem sempre manter-se dentro da sua natureza e limitar-se ao que ele é capaz de sentir. O mesmo acontece com o homem: a medida de felicidade que pode alcançar está previamente determinada pela sua individualidade.

Isto verifica-se sobretudo no caso das faculdades intelectuais, que fixam de uma vez por todas a sua capacidade para os prazeres de ordem superior. Se essas faculdades são reduzidas, nenhum esforço exterior, nada do que os seus semelhantes ou a fortuna possam fazer por ele, será suficiente para o elevar acima do grau médio de felicidade humana — meio animal, ainda assim; os seus únicos recursos serão o apetite sensual, uma vida familiar confortável e alegre, quando muito, companhia grosseira e divertimentos vulgares; mesmo a educação, no conjunto, pouco ou nada poderá fazer para alargar o seu horizonte. Pois os prazeres mais elevados, mais variados e mais duradouros são os do espírito, por muito que a juventude nos iluda a este respeito; e os prazeres do espírito dependem principalmente das faculdades do espírito. É evidente, portanto, que a nossa felicidade depende em grande medida daquilo que somos, da nossa individualidade, enquanto a sorte ou o destino são geralmente entendidos apenas como aquilo que temos ou como a nossa reputação.

Se alguém possui uma individualidade valiosa, a sua existência, em si mesma, é rica e digna de ser vivida; se for um espírito de qualidade superior, será mesmo duplamente rica, pois além de viver a sua própria vida, vive também a vida intelectual da humanidade inteira. Pelo contrário, aquele que carece de valor interior está condenado à pobreza, ainda que se encontre rodeado de abundância exterior; e mesmo que o destino lhe conceda honras e riquezas, a sua vida continuará vazia, enfadonha e estéril. Daqui resulta que, em regra, o prazer e a alegria são proporcionais ao valor da individualidade, e não à extensão das vantagens exteriores.

Por isso, tudo o que contribui para desenvolver e preservar a individualidade — sobretudo a saúde, que constitui a base de todo o bem-estar — é de importância muito maior do que tudo o que apenas aumenta a propriedade ou a posição social. Um homem saudável, ainda que pobre, é mais feliz do que um rico doente; pois o prazer imediato da existência, que depende do sentimento corporal e da actividade vital, está presente apenas na saúde. Sem ela, nenhum bem exterior pode ser verdadeiramente desfrutado.

Segue-se que a atenção que damos ao cuidado do corpo, à preservação da saúde e ao desenvolvimento das faculdades intelectuais é o investimento mais seguro que podemos fazer para a nossa felicidade. O que um homem é não pode ser-lhe retirado pela fortuna; o que ele tem pode perder-se; o que ele representa aos olhos dos outros depende de causas externas e mutáveis.

Assim, se compararmos estas três fontes possíveis de felicidade, veremos que a primeira é de longe a mais importante, a segunda ocupa um lugar secundário, e a terceira é a menos significativa de todas. A maior parte das pessoas, porém, inverte completamente esta ordem: sacrificam aquilo que são àquilo que têm, e aquilo que têm àquilo que parecem ser.

É esta inversão que explica por que razão tantos homens vivem inquietos, insatisfeitos e infelizes, apesar de possuírem meios abundantes; e por que razão outros, modestos na sua condição, mas ricos em si mesmos, atravessam a vida com serenidade e equilíbrio.

CAPÍTULO II — PERSONALIDADE, OU O QUE UM HOMEM É

Vimos que aquilo que um homem é contribui muito mais para a sua felicidade do que aquilo que ele tem ou aquilo que parece ser aos olhos dos outros. A personalidade exerce uma influência imediata e constante, enquanto os bens exteriores e a opinião pública actuam apenas de modo indirecto e intermitente.

Por personalidade entendo tudo aquilo que constitui a individualidade imediata do homem, isto é: o seu carácter no sentido ético, o seu temperamento, a sua disposição natural, as suas faculdades intelectuais e, sobretudo, a sua saúde. É esta totalidade que determina, antes de mais nada, a forma como o mundo se lhe apresenta e como ele reage a tudo o que lhe acontece.

Nada é mais certo do que o facto de que a felicidade depende essencialmente da saúde. Com ela, tudo é fonte de prazer; sem ela, nenhum bem exterior pode ser verdadeiramente apreciado. A saúde não é apenas a condição de todos os prazeres, mas constitui ela própria uma parte essencial da felicidade. Um mendigo saudável é mais feliz do que um rei doente.

A razão é simples: toda a alegria vital reside na sensação imediata de existir, e esta depende do bom funcionamento do organismo. Quando o corpo se encontra são, mesmo as pequenas coisas produzem prazer; quando está doente, tudo perde o seu sabor. Assim, a saúde representa para o homem aquilo que o sol representa para a paisagem: sem ele, tudo se torna pálido e sem vida.

Segue-se daí que o maior erro que um homem pode cometer em relação à sua felicidade é sacrificar a saúde em nome de qualquer outro fim — seja ele dinheiro, honra, ciência ou prazer. Todas essas coisas pressupõem a saúde; nenhuma a pode substituir.

Depois da saúde, o maior bem da personalidade é a superioridade intelectual. As faculdades do espírito constituem uma fonte de prazeres muito mais ricos, variados e duradouros do que os prazeres sensoriais. Um espírito cultivado encontra em si mesmo recursos inesgotáveis contra o tédio, enquanto o homem vulgar depende inteiramente de estímulos externos, de pessoas, de acontecimentos, de distracções.

A solidão, que para muitos é um tormento, é para o homem de espírito uma condição necessária de felicidade. Pois cada um só pode retirar de si próprio aquilo que nele existe. Quem traz pouco dentro de si exigirá muito de fora; quem é rico interiormente pode prescindir facilmente do mundo.

Daqui decorre uma verdade paradoxal: quanto maior é a capacidade intelectual de um homem, menos necessita da companhia dos outros, e mais facilmente suporta — ou mesmo procura — a solidão. Pelo contrário, a sociabilidade excessiva é muitas vezes sinal de pobreza interior.

Não se deve concluir, porém, que a inteligência conduza necessariamente à felicidade. Pelo contrário: as grandes capacidades intelectuais trazem consigo uma maior sensibilidade, uma consciência mais aguda do sofrimento e uma percepção mais clara das misérias da existência. Por isso, os homens de génio são frequentemente melancólicos, e raramente felizes no sentido vulgar da palavra.

Mas, ainda assim, a superioridade intelectual continua a ser uma vantagem decisiva: se não garante a felicidade, protege ao menos contra o tédio — que é talvez o maior inimigo da vida humana. O tédio é o castigo reservado àqueles que não têm conteúdo interior suficiente para ocupar o seu tempo e a sua consciência.

O homem vulgar oscila constantemente entre a dor e o tédio: quando lhe falta algo, sofre; quando nada lhe falta, aborrece-se. O homem superior, pelo contrário, encontra sempre em si mesmo matéria para interesse, reflexão e prazer intelectual.

O carácter moral, enquanto componente da personalidade, tem também uma influência profunda na felicidade. A maldade, a inveja, o ódio e a cobiça envenenam a existência do próprio indivíduo que os alimenta, independentemente dos danos que cause aos outros. Pelo contrário, a benevolência, a moderação e a justiça criam uma disposição interior favorável à tranquilidade e à paz de espírito.

Contudo, o carácter moral, mais do que qualquer outro elemento da personalidade, está rigidamente determinado e dificilmente pode ser modificado. A educação pode aperfeiçoar o intelecto, mas apenas raramente altera o carácter no seu núcleo essencial.

Assim, aquilo que um homem é — no seu corpo, no seu espírito e no seu carácter — constitui a base firme e inamovível da sua felicidade possível. Tudo o mais é acessório.

CAPÍTULO III — PROPRIEDADE, OU O QUE UM HOMEM TEM

Depois de termos considerado aquilo que um homem é, passemos agora ao que ele tem. Sob este título compreende-se tudo aquilo que pertence a um homem como sua propriedade: bens, rendimentos, fortuna, conforto material e os meios de satisfazer as necessidades da vida.

É inegável que a posse de bens contribui para a felicidade, mas apenas até um certo ponto. A propriedade tem sobretudo um valor negativo: serve para afastar a dor, a necessidade e a preocupação. Uma vez atingido esse objectivo, o acréscimo de riqueza deixa de aumentar proporcionalmente a felicidade.

A pobreza extrema é, sem dúvida, um grande mal; priva o homem não só de comodidades, mas também de tranquilidade, de tempo livre e, muitas vezes, de dignidade. No entanto, a abundância excessiva traz consigo novos males: inquietação, cuidados incessantes, medo da perda, inveja alheia e dependência de circunstâncias externas.

A riqueza é como a água do mar: quanto mais se bebe, mais sede provoca. Muitos homens ricos são profundamente infelizes porque nunca aprenderam a limitar os seus desejos; vivem permanentemente preocupados em conservar, aumentar ou defender aquilo que possuem.

Além disso, a propriedade exerce apenas uma influência indirecta sobre o bem-estar. Não actua sobre a consciência de modo imediato, como a saúde ou a inteligência, mas apenas como meio para obter ou evitar determinadas situações. Assim, o valor real da riqueza depende inteiramente da forma como é utilizada e do carácter daquele que a possui.

Um homem sensato vê na fortuna um instrumento, não um fim. Procura nela apenas aquilo que é necessário para uma vida independente, tranquila e digna. Quem faz da riqueza o objectivo supremo da sua existência sacrifica inevitavelmente aquilo que tem maior valor: o tempo, a saúde e a liberdade interior.

Há também uma diferença essencial entre possuir e desfrutar. Muitos homens vivem na privação apesar de serem ricos, porque não sabem usar o que têm; outros, com meios modestos, conseguem uma vida agradável porque dominam a arte de gozar com moderação.

A propriedade deve, portanto, adaptar-se à personalidade, e não o inverso. Uma vida simples convém mais à maioria dos homens, pois deixa maior espaço para a independência, para o cultivo do espírito e para a serenidade.

Em suma: aquilo que um homem tem contribui para a felicidade apenas na medida em que remove obstáculos àquilo que ele é. Fora disso, torna-se frequentemente um peso.

A reputação é aquilo que os outros pensam de nós; a honra é o valor objectivo que essa opinião pretende reconhecer; a fama é a reputação alargada no tempo e no espaço.

Entre estas, a reputação é a mais frágil e a mais enganadora, pois depende de juízos externos, muitas vezes superficiais, erróneos ou mal-intencionados. Basear a felicidade na opinião dos outros é entregar-se a uma autoridade instável e caprichosa.

Um homem que vive para a reputação vive, na verdade, fora de si mesmo. A sua paz de espírito depende de factores que não controla e que podem mudar a qualquer momento. Assim, torna-se escravo do olhar alheio.

Nada é mais fácil de perder do que a boa reputação, e nada é mais difícil de recuperar. Basta um acaso, uma calúnia ou um mal-entendido para destruir aquilo que levou anos a construir.

Por isso, o homem sensato preocupa-se mais em ser digno de estima do que em ser estimado.

SECÇÃO II — ORGULHO

O orgulho baseia-se na opinião que temos de nós próprios, não na opinião dos outros. Por isso, é mais sólido do que a vaidade, que depende exclusivamente do reconhecimento externo.

O orgulho pode fundar-se em qualidades reais — carácter, inteligência, realizações — ou em meras ilusões. No primeiro caso, é legítimo; no segundo, ridículo.

Contudo, mesmo o orgulho legítimo deve ser moderado, pois facilmente degenera em arrogância e isolamento. O homem verdadeiramente superior raramente sente necessidade de afirmar a sua superioridade.

SECÇÃO III — CATEGORIA

A categoria social — título, cargo, posição — é uma das formas mais vazias de distinção. Tem valor apenas enquanto símbolo exterior, e não acrescenta nada à essência do indivíduo.

Dar demasiada importância à categoria é confundir o papel com o actor. O valor de um homem não se mede pelo lugar que ocupa, mas pela forma como o ocupa.

SECÇÃO IV — HONRA

A honra é o reconhecimento da integridade moral. Tem um fundamento mais sólido do que a reputação, pois assenta em normas objectivas de conduta.

No entanto, mesmo a honra pode degenerar quando se transforma numa obsessão social, levando a duelos, vinganças e actos irracionais. A verdadeira honra reside na consciência tranquila, não no medo do juízo alheio.

SECÇÃO V — FAMA

A fama é uma forma especial de reputação que sobrevive ao indivíduo. É rara, incerta e muitas vezes tardia. Muitos que a mereceram nunca a obtiveram; muitos que a obtiveram não a mereciam.

Além disso, a fama pertence menos ao homem do que à sua obra. E mesmo quando existe, não garante felicidade, pois chega frequentemente quando já não pode ser desfrutada.

CONCLUSÃO

A felicidade humana depende sobretudo daquilo que um homem é, em menor grau daquilo que tem, e em último lugar daquilo que representa para os outros. Inverter esta ordem é a causa principal da infelicidade.

A sabedoria da vida consiste, portanto, em reconhecer esta hierarquia e em orientar a existência de acordo com ela.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Março 2026

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Com algum atraso na periodicidade que pretendemos, trazemos mais uma vez novidades no mercado editorial da filosofia em Março de 2026. Começamos por Roy Scranton, em Impasse: Climate Change and the Limits of Progress (Stanford University Press, 2025), que argumenta que a fé dogmática no progresso humano é perigosa e ilusória diante da crise climática, propondo um pessimismo ético realista como ferramenta para enfrentar o impasse civilizacional intransponível, marcado por limites cognitivos, existenciais e narrativos. Vanessa de Harven, em The Unity of Stoic Metaphysics: Everything is Something (Oxford University Press), oferece uma análise abrangente e unificada da metafísica estoica antiga, defendendo que os estoicos constroem uma ontologia tripartite sofisticada — corpos, incorpóreos e o que não é nem um nem outro — centrada no conceito de “algo” (ti) como gênero supremo, respondendo a desafios platônicos e garantindo coerência ontológica. Thomas Hofweber, em Idealism and the Harmony of Thought and Reality (Oxford University Press, 2023), defende uma forma de idealismo em que as mentes humanas restringem, mas não constroem, a realidade como totalidade de fatos, baseando-se em argumentos linguísticos sobre a harmonia íntima entre pensamento e realidade para superar o realismo tradicional. Por fim, Jens Andermann, Gabriel Giorgi e Victoria Saramago organizam o Handbook of Latin American Environmental Aesthetics (De Gruyter, 2023), uma coletânea abrangente que explora a produção estética e conceitual latino-americana sobre questões ambientais, destacando contribuições interdisciplinares em literatura, arte, teoria decolonial e estudos indígenas para compreender as relações entre humanos, natureza e crise ecológica na região.

Depois, temos Owen Flanagan, em What is it Like to Be an Addict? (Oxford University Press, 2025), que investiga a experiência subjetiva e as dimensões éticas da dependência química, combinando neurociência, filosofia e relatos pessoais para propor uma abordagem humana e responsável ao vício, enfatizando a agência do indivíduo sem reforçar estigmas. Scott Soames, em The Analytic Tradition in Philosophy Volume 3: The Struggle for Modality (Princeton University Press, 2025), continua sua história definitiva da tradição analítica, focando na evolução do conceito de modalidade — necessidade, possibilidade e essência — desde o final do século XIX até o fim do XX, destacando disputas centrais que culminam na aceitação da modalidade metafísica. Michael McKenna, em Responsibility and Desert (Oxford University Press), desenvolve uma teoria conversacional da responsabilidade moral, ancorada no conceito de merecimento (desert) básico como fundamento normativo para culpa e punição, entendendo o blame como resposta significativa e avaliando o merecimento em termos axiológicos para justificar práticas punitivas. Por sua vez, Ross Mittiga, em Climate Change as Political Catastrophe: Before Collapse (Oxford University Press, 2024), sustenta que as mudanças climáticas representam uma catástrofe política iminente, ao ameaçar a escassez material extrema que compromete as condições de justiça, legitimidade e estabilidade política, urgindo ações preventivas antes do colapso total.

“Orquestra do Jardim da Ciência”: proposta de exploração músico-matemática em aprendizagem não-formal

Título: “Orquestra do Jardim da Ciência”: Ensaio sobre uma proposta educativa de exploração músico-matemática num espaço de aprendizagem não-formal. Autores: Ana Teresa Rocha, do DEP – Departamento de Educação e Psicologia, Universidade de Aveiro (UA), Valentina Piacentini e Margarida M. Marques, ambas do DEP – Departamento de Educação e Psicologia, Universidade de Aveiro (UA) e do CIDTFF – Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores, UA.

Resumo

A proposta educativa “Orquestra do Jardim da Ciência”, concebida no âmbito do programa Programa de Iniciação Científica de estudantes em Educação (PIC-Edu) e integrada no projeto Smart Knowledge Garden – Jardim da Ciência (SKG-JC), um espaço inicialmente dedicado à educação científica não-formal, dirige-se a crianças do 1.º Ciclo do Ensino Básico (CEB) e assenta numa abordagem interdisciplinar que articula as áreas do saber da Música e da Matemática. A proposta estrutura-se em quatro atividades – “Pré-atividade”, “Exploração”, “Descodificação” e “Apresentação e reflexão” – e visa a promoção da perceção auditiva, da improvisação, da organização de padrões sonoros e temporais, do desenvolvimento do pensamento lógico e competência de resolução de problemas, através da experimentação prática e colaborativa nos módulos educativos do SKG-JC. Todas as atividades mencionadas assentam no desenvolvimento integrado das Aprendizagens Essenciais do 1.º CEB, referentes às disciplinas de Educação Artística – Música e de Matemática, nomeadamente aos processos de escuta ativa, criação coletiva e reconhecimento de regularidades e sequências. Esta proposta concetual procura responder à fragmentação curricular no sistema educativo português, através de uma abordagem de educação não-formal que integra a Música como linguagem mediadora e a Matemática como estrutura organizadora numa experiência interdisciplinar. Este trabalho discute o potencial educativo da proposta e destaca o contributo dos espaços não-formais para aprendizagens interdisciplinares significativas, bem como o papel do mediador na orientação pedagógica das experiências. São ainda referidas potenciais linhas de investigação futura centradas na implementação da proposta em contexto real e na análise do seu impacto nas aprendizagens musicais e matemáticas dos alunos. Palavras-chave: Música; Matemática; Interdisciplinaridade; Espaços de educação não-formal.

Introdução

Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do programa PIC-Edu, um Programa de Iniciação Científica de estudantes em Educação[1] do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. O plano de trabalhos desenvolvido contribuiu para o projeto de acolhimento Smart Knowledge Garden (SKG)[2], que inclui o Jardim da Ciência (JC), um espaço exterior para atividades de educação científica
não-formal. A presente proposta concetual[3] visa contribuir para dar resposta à necessidade de superar a fragmentação curricular verificada no sistema educativo português, através de uma proposta em ambiente de educação não-formal que utiliza a Música como linguagem mediadora e a Matemática como estrutura organizadora, transformando a exploração de padrões sonoros e fenómenos acústicos numa experiência interdisciplinar onde a expressão artística e o raciocínio científico se reforçam mutuamente. Pretende-se, assim, apresentar e discutir uma proposta educativa, dirigida a crianças do 1º ciclo de escolaridade, que assenta em três objetivos principais:

(i) promover a exploração integrada de conceitos musicais e matemáticos, favorecendo o desenvolvimento do pensamento lógico, da perceção auditiva e da criatividade;

(ii) valorizar a Música como estratégia de ensino-aprendizagem e como linguagem capaz de mediar outras áreas do saber; e

(iii) afirmar o papel dos espaços de educação não-formal como complemento fundamental, ampliando o alcance das Aprendizagens Essenciais e contribuindo para uma formação mais integral dos alunos (Andrade, 2018; David, 2022; Gil, 2021; Milheiro, 2017; Oliveira, 2023; Vieira et al., 2011).

A Música, enquanto linguagem e forma universal da expressão humana, tem sido amplamente reconhecida como parte integrante do desenvolvimento global do indivíduo, em especial durante a infância e juventude (Gil, 2021). No contexto educativo, destaca-se não apenas como área artística, mas também como estratégia pedagógica capaz de articular dimensões cognitivas, emocionais, motoras e sociais (Andrade, 2018; Gil, 2021; Milheiro, 2017). O conceito de audiação, discutido por Gordon (2000) como processo mental de atribuição de sentido ao som, reforça esta perspetiva ao evidenciar que a Música se estrutura enquanto linguagem. De modo semelhante ao desenvolvimento da língua materna (em que a oralidade precede a escrita), também na aprendizagem musical a escuta e a prática livre devem anteceder a notação musical. Esta abordagem aproxima a Música de outras áreas do saber e posiciona-a como mediadora no desenvolvimento do raciocínio complexo, na exploração de padrões e na organização criativa de ideias (Andrade, 2018). No entanto, apesar do seu potencial educativo amplamente reconhecido, muitas das vezes a Música continua a ocupar um lugar secundário nos currículos, o que levanta a necessidade de repensar, por exemplo, as estratégias de integração que favoreçam aprendizagens mais interligadas e significativas (Andrade, 2018; Milheiro, 2017).

Neste quadro, a improvisação destaca-se como estratégia pedagógica de relevância. Ao estimular a antecipação, a organização de ideias e o sentido estético em tempo real, promove-se a criatividade, o pensamento crítico, a autoestima e a autonomia (Andrade, 2018; Gil, 2021). A exploração de conceitos como timbre, ritmo e altura impulsionam a experimentação e o pensamento musical, permitindo que as crianças e os jovens formulem e testem hipóteses, comparem soluções e refinam padrões expressivos. A liberdade criativa, quando intencionalmente mediada, não funciona somente como uma atividade lúdica, como igualmente estimula a perceção e a tomada de decisões sobre tempo, dinâmica e estilo (Andrade, 2018). Currículos que privilegiam a escuta, a experimentação e a improvisação desde os primeiros anos de escolaridade, permitem a criação de bases sólidas para o desenvolvimento de competências fundamentais que permitirão preparar os alunos para uma participação ativa no contexto social e cultural envolvente (Andrade, 2018; Gil, 2021; Milheiro, 2017). Outro eixo central na literatura é o potencial de articulação entre a Música e a Matemática, particularmente relevante no 1.º Ciclo do Ensino Básico (CEB), fase em que o pensamento lógico e a sensibilidade auditiva se encontram em desenvolvimento e beneficiam de abordagens lúdicas e transversais (Gil, 2021; Silva, 2019). As estruturas rítmica, métrica e simbólica da Música podem ser coordenadas com conteúdos matemáticos, como a análise e manipulação de figuras rítmicas e a compreensão de frações, equivalências e simplificações. Exemplo desta articulação é a reorganização de padrões sonoros construídos a partir de progressões aritméticas[4] (2→4→6→8) ou geométricas[5] (1→2→4→8), permitindo trabalhar sequências, proporções e regularidades matemáticas e desenvolvendo o pensamento criativo e raciocínio lógico em simultâneo (Gil, 2021). Todavia, para que esta interdisciplinaridade seja efetiva, é essencial evitar relações unilaterais, em que uma área apenas serve a outra, assegurando benefícios mútuos e uma construção de sentido genuína em ambas (Oliveira, 2023).

A literatura também evidencia o contributo de espaços não formais de ensino para experiências musicais práticas, espontâneas e criativas, frequentemente mais personalizadas do que os espaços de ensino formal. Exemplos destes espaços são associações culturais, projetos sociais e atividades em contexto comunitário ou ao ar livre, que tendem a organizar-se de modo colaborativo e com menor rigidez estrutural, favorecendo a aprendizagem pela improvisação e pela colaboração, rompendo a lógica transmissiva muitas vezes verificada em sala de aula (Carvalho, 2020; Ferreira & Vieira, 2013). Espaços como o do JC, integrado no SKG (SKG-JC) (Piacentini, 2024), constituem um ambiente ideal para a articulação interdisciplinar supramencionada. A experimentação sonora, a improvisação e o trabalho de grupo podem desenvolver-se de forma livre, sem comprometer a exigência pedagógica, e funcionam como extensões práticas das aprendizagens curriculares, interligando conceitos que em sala de aula poderão ser abstratos para os alunos (Vieira et al., 2011). Ambientes de aprendizagem não-formal ao ar livre oferecem condições favoráveis para aprendizagens interdisciplinares. É neste âmbito que surge a proposta educativa “Orquestra do Jardim da Ciência”, concebida para crianças entre os 6 e os 9 anos, no espaço educativo não-formal do SKG-JC. A proposta organiza-se em três módulos educativos: o “Carrossel dos Ritmos”, as “Cadeiras Flutuantes” e a “Torre dos Sinos”. Estes módulos convidam os alunos a explorar ritmos, melodias e padrões matemáticos de forma prática e criativa, culminando na apresentação coletiva da “Sinfonia das Crianças do Jardim da Ciência”.

O presente trabalho pretende apresentar, fundamentar e discutir a proposta educativa, evidenciando o seu potencial pedagógico e curricular. Ao explicitar os pressupostos teóricos, a articulação interdisciplinar e o enquadramento curricular que a sustentam, ambiciona-se contribuir para o debate em torno da integração entre Música e Matemática em contextos de ensino não-formal, oferecendo um exemplo capaz de inspirar práticas docentes e novas investigações nesta área.

Enquadramento curricular

A proposta educativa “Orquestra do Jardim da Ciência” foi concebida para crianças entre os 6 e os 9 anos e integra-se no espaço de educação não-formal do SKG-JC, com o objetivo de explorar a articulação entre Música e Matemática de forma lúdica e sensorial. Inspirada na Kindersinfonie de Leopold Mozart (1719–1787), assenta na criação de uma narrativa imaginativa conduzida pela personagem “Maestro Leopold”, que convida as crianças a descobrir sons e padrões escondidos nos módulos educativos do SKG-JC (Porto et al., 2023), transformando o espaço num ambiente onde é possível explorar a improvisação e a criação coletiva. A proposta é composta por quatro momentos interligados: uma “Pré-atividade” em contexto de sala de aula e três atividades a desenvolver durante a visita ao SKG-JC, denominadas como “Exploração”, “Descodificação” e “Apresentação e reflexão”. Na “Pré-atividade”, os alunos ouvem a Kindersinfonie e
interpretam-na através da percussão corporal. Posteriormente, estudam as noções de ritmo e tempo com recurso ao site “Chrome Music Lab[6], trabalhando a perceção sonora e os conceitos mencionados que serão explorados nas atividades desenvolvidas no SKG-JC. Durante a visita, os alunos exploram os diferentes módulos educativos, adaptados para integrar componentes musicais de modo interativo. Em cada módulo, as atividades promovem a manipulação de objetos, o reconhecimento de padrões, a coordenação motora e o trabalho colaborativo, sempre orientadas por desafios musicais e matemáticos. No momento final, os alunos reúnem os sons e as sequências descobertas e apresentam a “Sinfonia das Crianças do Jardim da Ciência”, refletindo sobre os padrões criados e as estratégias utilizadas. As atividades “Exploração”, “Descodificação” e “Apresentação e reflexão” serão apresentadas na secção seguinte.

Em termos curriculares, a proposta insere-se nas orientações do 1.º CEB e promove a mobilização integrada das Aprendizagens Essenciais das áreas de Educação Artística – Música e Matemática. No domínio da Música, as atividades foram concebidas para desenvolver competências de escuta ativa, perceção sonora, expressão rítmica e criação coletiva (Ministério da Educação, 2018a, p. 7), valorizando o som como ponto de partida para a construção do conhecimento musical. A proposta privilegia a improvisação como meio de compreensão da linguagem musical, promovendo o domínio progressivo de noções como ritmo, timbre e altura, em articulação com a consciência corporal (Ministério da Educação, 2018a, p. 8) e com a expressão individual e em grupo (Ministério da Educação, 2018a, p. 7). A manipulação de objetos sonoros e a exploração dos materiais presentes no SKG-JC permitem que o aluno reconheça o espaço como uma fonte de estímulos auditivos e motores, traduzindo a aprendizagem musical num processo de descoberta sensorial e expressiva. Em articulação com a Matemática, as Aprendizagens Essenciais visadas associam-se à identificação e generalização de padrões, à comparação de quantidades e à estruturação temporal e espacial (Ministério da Educação, 2018b, p. 16 e p. 29; 2018c, p. 16; 2018d, p. 16; 2018e, p. 16). As experiências rítmicas e sonoras favorecem a compreensão de noções como sequência, padrões e proporção, através da observação e manipulação de regularidades. De similar forma, as atividades desafiam os alunos a analisar, testar e ajustar as suas ações para obter resultados harmoniosos e coerentes, exercitando capacidades de previsão, inferência e resolução de problemas (Ministério da Educação, 2018b, p. 16; 2018c, p. 16; 2018d, p. 16; 2018e, p. 16). O percurso educativo proposto permite que as aprendizagens de ambas as áreas se consolidem de forma recíproca, como ressalva Oliveira (2023), em que a Música fornece o contexto expressivo e motivador que sustenta a abstração matemática, enquanto a Matemática estrutura e organiza a compreensão dos fenómenos musicais, configurando uma relação dinâmica e não unilateral (Oliveira, 2023). Na Tabela 1 encontram-se sintetizadas as relações das atividades propostas, juntamente com uma breve descrição, com as aprendizagens curriculares.

Tabela 1. Sistematização das Aprendizagens Essenciais por atividade, com a respetiva descrição, identificação da disciplina e do nível de ensino em que estão inseridas.

Atividades

Descrição

Aprendizagem(ns) curricular(es)

Disciplinas

Níveis de escolaridade

Pré-atividade

Antes da visita ao Jardim da Ciência no âmbito do SKG-JC, os alunos exploram a sinfonia Kindersinfonie através da audição, percussão corporal e atividades interativas no site Chrome Music Lab. A atividade desenvolve a perceção rítmica e melódica, preparando-os para a experiência prática no SKG-JC.

Explorar fontes sonoras diversas (corpo, objetos do quotidiano, instrumentos musicais) de forma a conhecê-las como potencial musical (Ministério da Educação, 2018a, p. 7).

Educação Artística – Música

Todos os anos do 1.º CEB

Realizar sequências de movimentos corporais em contextos musicais diferenciados (Ministério da Educação, 2018a, p. 8).

A.

Exploração

Os alunos interagem com os módulos educativos SKG-JC “Carrossel dos Ritmos”, “Cadeiras Flutuantes” e “Torre dos Sinos”. Este momento inicial reduz o efeito de novidade e introduz os conceitos a serem explorados.

Explorar fontes sonoras diversas (corpo, objetos do quotidiano, instrumentos musicais) de forma a conhecê-las como potencial musical (Ministério da Educação, 2018a, p. 7).

Educação Artística – Música

Todos os anos do 1.º CEB

B. Descodificação

Divididos em grupos, os alunos analisam padrões musicais da Kindersinfonie, em que se repete uma sequência rítmica simples – por exemplo, a alternância entre som-som-pausa-som no “Carrossel dos Ritmos”. Em seguida, são desafiados a reproduzir esta sequência com recurso aos módulos. A atividade permite identificar, descrever e prolongar padrões de repetição, estabelecendo ligações entre som, movimento e representação visual, e explorando simultaneamente os conceitos musicais de ritmo (regularidade e repetição), tempo (duração e frações de unidade) e altura (ordenação de sons).

Criar, sozinho ou em grupo, ambientes sonoros, pequenas peças musicais, ligadas ao quotidiano e ao imaginário, utilizando diferentes fontes sonoras (Ministério da Educação, 2018a, p. 7).

Educação Artística – Música

Todos os anos do 1.º CEB

Tocar, a solo e em grupo, as suas próprias peças musicais ou de outros, utilizando instrumentos musicais, convencionais e não convencionais, de altura definida e indefinida (Ministério da Educação, 2018a, p. 8).

Comparar características rítmicas, melódicas, harmónicas, dinâmicas, formais tímbricas e de textura em repertório de referência (adaptado de Ministério da Educação, 2018a, p. 8).

Identificar e descrever regularidades em sequências de repetição (Ministério da Educação, 2018b, p. 29).

Matemática

2º ano do 1.º CEB

Reconhecer ou identificar padrões no processo de resolução de um problema (como a análise de padrões musicais) e aplicar os que se revelam eficazes na resolução de outros problemas semelhantes (Ministério da Educação, 2018b, p. 16; 2018c, p. 16; 2018d, p. 16; 2018e, p. 16).

Todos os anos do 1.º CEB

C. Apresentação e reflexão

Os alunos tocam a “Sinfonia das Crianças do Jardim da Ciência”, reunindo os padrões matemático-musicais explorados nos módulos. Após a performance, refletem sobre a experiência, discutindo as estratégias utilizadas, os padrões identificados e sugestões para o SKG-JC.

Apresentar publicamente atividades artísticas em que se articula a música com outras áreas do conhecimento (Ministério da Educação, 2018a, p. 8).

Educação Artística – Música

Todos os anos do 1.º CEB

Proposta educativa

Pré-atividade

A fase da “Pré-atividade” foi concebida como momento introdutório para as experiências a desenvolver no SKG-JC, assumindo um papel central na mobilização de conhecimentos prévios, na estimulação da escuta e na construção de bases cognitivas e expressivas necessárias à exploração sonora subsequente. O principal objetivo desta etapa consiste em desenvolver a perceção auditiva, o sentido rítmico e a capacidade de representação sonora, promovendo a sensibilização dos alunos para as relações entre som, movimento e sequência. As atividades são realizadas em contexto de sala de aula e estruturadas em torno da escuta e interpretação da Kindersinfonie, que serve de referência narrativa para toda a proposta. A audição é acompanhada de momentos de observação guiada e diálogo exploratório, durante os quais as crianças são convidadas a identificar sons e variações rítmicas. A percussão corporal é utilizada como instrumento pedagógico de baixo custo e alto valor expressivo, permitindo às crianças experimentar o som a partir do próprio corpo e reconhecer o movimento como potencialmente gerador de ritmo. O trabalho é desenvolvido progressivamente, iniciando-se com padrões simples de pulsação e evoluindo para estruturas rítmicas compostas por sequências de repetição e alternância, o que possibilita a internalização de regularidades e a compreensão intuitiva de noções matemáticas como a noção de sequência.

Recorre-se ainda a ferramentas digitais interativas, nomeadamente ao site “Chrome Music Lab[7], especificamente, às atividades “Rhythm[8] e “Arpeggios[9]. É de ressalvar que toda a atividade deverá ser mediada pelo professor, colocando perguntas que abram espaço para a discussão e reflexão das crianças, de modo a compreenderem a influência dos sons associadas à escuta e à execução corporal. Este processo metacognitivo tem por objetivo consolidar as aprendizagens trabalhadas e permitir que os alunos verbalizem as relações entre som, padrão e movimento.

Exploração

A atividade de “Exploração” ocorre no espaço do SKG-JC e constitui o primeiro contacto direto das crianças com os módulos educativos contemplados na proposta: “Carrossel dos Ritmos”, “Cadeiras Flutuantes” e “Torre dos Sinos”. Este momento inicial tem como principal objetivo familiarizar os alunos com o espaço e promover uma aproximação gradual aos materiais e conceitos que serão trabalhados nas fases subsequentes. O dinamizador apresenta o excerto da Kindersinfonie, estabelecendo a ligação com a narrativa da “Orquestra do Jardim da Ciência” e incentivando os alunos a reconhecer semelhanças entre os sons da obra e os que poderão produzir nos módulos. A atividade valoriza a descoberta e a experimentação livre, permitindo que os alunos explorem cada módulo de forma espontânea, compreendendo o seu funcionamento e potencial expressivo.

Descodificação

Por sua vez, a fase da “Descodificação” constitui o eixo central desta proposta, na medida em que traduz o momento em que a experiência exploratória dá lugar à compreensão estruturada e à representação simbólica do que foi descoberto. Se, nas fases anteriores, o foco incide sobre a perceção e a experimentação, aqui privilegia-se a análise e a reconstrução intencional do som e do movimento. As atividades desenvolvidas nesta fase serão denominadas pelo nome dos módulos educativos que as integram. Todos os módulos serão parte integrante fundamental na recriação da sinfonia original, através da exploração de noções específicas da linguagem musical e estabelecendo pontes diretas com conceitos matemáticos.

No “Carrossel dos Ritmos”, os alunos exploram a relação entre o movimento circular e a estrutura rítmica, compreendendo como o som pode resultar de uma sequência mecânica organizada. O módulo é constituído por um eixo rotativo onde cada cubo representa uma fração de tempo ou batida (Figura 1). A organização espacial dos cubos no Carrossel permitirá a produção de um padrão sonoro rítmico criado com o impacto de uma lingueta de plástico afixada no elemento giratório: a equidistância física entre os cubos assegura a constância do pulso, permitindo que qualquer alteração no padrão resulte apenas da remoção voluntária de cubos ou da variação na velocidade de rotação do carrossel.

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Figura 1. Representação do módulo educativo “Carrossel dos Ritmos” [elaborada com recurso a inteligência artificial generativa Gemini 2.5 Pro (Google, 2025)].

As crianças são desafiadas a reproduzir diferentes padrões rítmicos fornecidos (Figura 2), ajustando o espaçamento dos cubos e a velocidade de rotação até obterem o ritmo correto para esta analogia. Esta atividade permite compreender os fundamentos de ritmo, do pulso (batida regular) e do tempo (velocidade do pulso), analisando como as variações de rotação e de intervalo influenciam a sequência sonora. Ao organizar e combinar as batidas, os alunos aplicam noções de fração, soma de tempos e periodicidade, reconhecendo o carácter cíclico de ritmo.

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Descrição gerada automaticamente

Figura 2. Exemplo de um padrão rítmico utilizado na atividade “Carrossel dos Ritmos”, representando a sequência de batidas e pausas associadas à rotação do módulo (conceção própria).

Nas “Cadeiras Flutuantes”, os alunos exploram a relação entre movimento, som e altura ao manipular cordas que regulam a posição de cadeiras suspensas. No topo de cada cadeira
encontra-se um “brinquedo musical”, ou seja, um conjunto de colheres (cadeira verde), um tambor de plástico (cadeira azul) e um apito (cadeira vermelha) (Figura 3).

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Figura 3. Representação do módulo educativo “Cadeiras Flutuantes” [elaborada com recurso a inteligência artificial generativa Gemini 2.5 Pro (Google, 2025)].

Para tocar cada “brinquedo musical”, é necessário puxar a corda correta e fazer com que cada cadeira atinja a altura adequada. O desafio consiste em identificar quais são as cordas certas para puxar e reproduzir sequências sonoras específicas, orientadas por padrões visuais associados às cores das cadeiras (Figura 4). Este módulo promove a exploração do conceito de timbre, em simultâneo com as noções matemáticas de padrão e sequência.

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Figura 4. Exemplo de um padrão musical associado à atividade “Cadeiras Flutuantes”, representando a sequência de sons produzidos pela interação entre as cordas e os diferentes brinquedos musicais suspensos (conceção própria).

Já na “Torre dos Sinos”, os alunos exploram a relação entre altura sonora e força aplicada. Cada sino é identificado por uma cor e emite uma altura distinta (grave, média ou aguda), sendo acionado por meio de cordas que exigem diferentes intensidades de tração (Figura 5).

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Figura 5. Representação do módulo educativo “Torre dos Sinos” [elaborada com recurso a inteligência artificial generativa Gemini 2.5 Pro (Google, 2025)].

O desafio consiste em reproduzir padrões musicais fornecidos (Figura 6), associando os sons às cores[10] e ajustando a força necessária para reproduzir as alturas corretas. A atividade permite desenvolver o reconhecimento relativo à distinção de alturas musicais e de padrões e relações de periodicidade.

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Descrição gerada automaticamente

Figura 6. Exemplo de um padrão musical associado à atividade “Torre dos Sinos”, representando a sequência de alturas sonoras (grave, médio e agudo) a reproduzir pelos diferentes sinos do módulo (conceção própria).

Em conjunto, os três módulos funcionam como “laboratórios musicais”, onde as crianças constroem e testam modelos mentais sobre o comportamento do som, a regularidade do tempo e a estrutura dos padrões. De igual modo, esta fase também se destaca pela sua dimensão reflexiva e metacognitiva. As discussões que acompanham cada módulo, orientadas na forma de perguntas, promovem a tomada de consciência sobre o processo necessário para atingir o principal objetivo e a explicitação de raciocínios. Assim, a “Descodificação” não se limita somente à leitura de padrões, mas implica uma reconstrução concetual mediada pelo som, através da qual as crianças refletem sobre as suas próprias escolhas, os efeitos das suas ações e explicitam os esquemas mentais subjacentes à estruturação e organização de padrões e de periodicidade sonora e temporal.

Apresentação e reflexão

A fase final da “Apresentação e reflexão” marca o encerramento da proposta, reunindo as aprendizagens desenvolvidas ao longo dos módulos. Nesta atividade, os alunos tocam um excerto adaptado da Kindersinfonie, utilizando simultaneamente os diferentes módulos do SKG-JC para reproduzir os sons e padrões previamente explorados. A performance coletiva constitui um momento de síntese, uma vez que as crianças demonstram o produto final da exploração dos conceitos de tempo, ritmo e altura, articulando-os num produto musical coerente. Após a execução, realiza-se uma reflexão oral orientada e coletiva, em que os alunos analisam o seu processo criativo, discutem as estratégias utilizadas e identificam os padrões musicais e matemáticos envolvidos. Este momento final promove a metacognição e a partilha de experiências, permitindo que as crianças reconheçam as relações entre som, movimento e raciocínio, e consolidem a compreensão de que a criação artística pode ser simultaneamente um exercício de expressão e de pensamento lógico.

Discussão, potencialidades e limitações

Com este trabalho apresenta-se e discute-se a proposta educativa intitulada “Orquestra do Jardim da Ciência”, concebida no âmbito do projeto SKG-JC como uma abordagem integrada para aprendizagens relativas ao 1.º CEB. A proposta pretende ter uma natureza interdisciplinar, articulando, através de módulos educativos inicialmente pensados para a educação científica, a exploração de conceitos musicais e matemáticos, de forma a potenciar o pensamento lógico, a perceção auditiva e a criatividade. Deste modo, apoia-se em princípios pedagógicos contemporâneos que valorizam a Música, enquanto linguagem e instrumento de mediação didática com diferentes áreas do saber, e contribui para a discussão sobre aprendizagem integrada e o papel dos espaços de educação não-formal, como potenciador da educação formal.

Considera-se que a implementação e avaliação da presente proposta permitirá desenvolver um conjunto integrado e articulado de conceitos musicais e matemáticos. No plano musical, a expectativa é de que a proposta promova a perceção rítmica, a distinção de ritmos, tempo e alturas, assim como a organização de sequências sonoras, integradas em contextos de improvisação individual e coletiva, que culminam na interpretação em grupo. Tal como defendido por Gordon (2000) e previsto nas Aprendizagens Essenciais (Ministério da Educação, 2018a), o som é tratado como linguagem, sendo privilegiados processos de escuta ativa, audiação e experimentação, nos quais as crianças aprendem a reconhecer padrões, a definir pulso e tempo, a articular repetição e variação e a relacionar gesto, audição e representação.

No plano matemático, de igual modo, é expectável que as atividades mobilizem competências de reconhecimento, criação e generalização de padrões, bem como de comparação, proporcionalidade e organização sequencial. Ao ajustar a velocidade e o espaçamento, organizar batidas e reconstruir sequências rítmicas, os alunos poderão operar com conceitos de unidade e parte, soma de tempos, periodicidade e ciclo, desenvolvendo o raciocínio lógico e a capacidade de prever, testar e ajustar soluções (Ministério da Educação, 2018b, 2018c, 2018d, 2018e). Deste modo, pretende-se que esta articulação entre Música e Matemática, sustentada em contextos de exploração prática e colaborativa, favoreça uma construção de significado simultânea em ambas as áreas, evitando relações instrumentais unidirecionais e potenciando aprendizagens mais profundas e transferíveis (Oliveira, 2023).

Apesar do potencial educativo identificado, a proposta “Orquestra do Jardim da Ciência” apresenta um conjunto de limitações que importa explicitar e contextualizar, de modo a enquadrar adequadamente o seu alcance e potenciais implicações para a aprendizagem. A principal limitação prende-se com o facto de, à data da elaboração do presente trabalho, o espaço SKG-JC se encontrar temporariamente indisponível para a implementação da proposta com crianças, logo, impossibilitando a validação empírica em contexto real. Esta circunstância, de natureza logística e externa ao desenho da investigação, condiciona a recolha de dados empíricos e impede, nesta fase, a avaliação direta do impacto da proposta nas aprendizagens dos alunos. Face à limitação explicada, o presente trabalho deve ser entendido como uma proposta concetual e didática ainda sem evidência empírica produzida durante a sua implementação, mas cuja validade assenta na coerência com a literatura científica e com as orientações curriculares em vigor.

Por outro lado, a implementação da proposta requer condições materiais e logísticas específicas, nomeadamente o acesso a um espaço exterior seguro, com módulos funcionais e bem conservados, bem como materiais sonoros que sustentem a dimensão musical e matemática da experiência. Apesar de vários autores reconhecerem que a educação não-formal nestes contextos oferece oportunidades únicas para a experimentação e a aprendizagem integrada, é de salientar que existem constrangimentos associados às infraestruturas e à manutenção deste tipo de espaços (Carvalho, 2020; Ferreira & Vieira, 2013).

Outra limitação relevante prende-se com o tempo necessário ao desenvolvimento das atividades da proposta educativa. Esta pressupõe um processo gradual, que inicia na exploração, avança para a improvisação e culmina na reflexão coletiva, em consonância com abordagens que valorizam a aprendizagem experiencial e a construção progressiva de significado (Andrade, 2018; Milheiro, 2017). Contudo, em contextos educativos marcados por horários rígidos e currículos fragmentados, pode ser difícil assegurar a continuidade temporal necessária para a experimentação e para a consolidação das aprendizagens, o que poderá comprometer a profundidade das aprendizagens.

A formação e o perfil do docente ou dinamizador da proposta constituem igualmente um fator determinante. A proposta exige mediadores capazes de articular dimensões artísticas e científicas, de orientar a escuta e a experimentação sonora, assim como transformar situações de descoberta em aprendizagem. O desenvolvimento das competências implicadas requer formação específica em didática da Música e/ou da Matemática, bem como sensibilidade para lidar com grupos em contextos não-formais. A ausência dessa preparação pode levar a uma abordagem meramente lúdica, sem uma exploração concetual consistente. Acresce ainda a dependência das condições ambientais, inerente à realização de atividades ao ar livre. Fatores como o clima, o ruído ambiente ou a disponibilidade dos equipamentos necessários influenciam a continuidade e a qualidade da experiência. Apesar desses desafios, muitos podem ser mitigados através da planificação antecipada e da formação docente adequada, garantindo a sustentabilidade e continuidade pedagógica da proposta.

Importa, de igual modo, destacar que esta proposta educativa foi concebida para um espaço e um contexto específicos, neste caso o SKG-JC, cuja configuração física, modular e aberta é parte integrante da experiência educativa. Assim, a proposta não deve ser entendida como um modelo a replicar mecanicamente, mas como um referencial metodológico que pode ser reinterpretado e adaptado a diferentes realidades educativas. O que se pode transpor de forma ampla são os princípios pedagógicos que a sustentam, como a integração entre Arte e Ciência (Cachapuz, 2020), o uso do corpo e do som como mediadores do pensamento e a valorização dos espaços não-formais.

As questões de investigação que se colocam só podem ser aprofundadas através da sua implementação em contexto real. Neste sentido, investigações futuras poderão centrar-se na análise do impacto da proposta nas aprendizagens musicais e matemáticas dos alunos do 1.º CEB, explorando de que modo a articulação entre ambas as áreas contribui para a construção integrada do conhecimento e para o desenvolvimento do pensamento lógico. A observação sistemática das interações, da dinâmica e das aprendizagens derivadas da implementação desta proposta educativa, permitirá melhor compreender como as experiências sonoras e matemáticas sustentam o ensino-aprendizagem de conceitos abstratos aos alunos (Vieira et al., 2011).

Para além da análise das aprendizagens, estudos futuros poderão igualmente incidir sobre o papel do mediador na condução de propostas interdisciplinares em contextos de aprendizagem não-formais, bem como as condições necessárias à sua implementação. A adaptação da proposta a outros espaços e contextos educativos constitui uma linha de investigação relevante, permitindo identificar elementos estruturantes e aspetos passíveis de reconfiguração. Ademais, seria importante depreender e/ou reforçar como espaços de ensino não-formal, como o SKG-JC, poderão contribuir, de forma significativa e numa perspetiva interdisciplinar, para o ensino de diferentes áreas de saber que coliguem a Arte e a Ciência em simultâneo, como é o caso deste trabalho.

Por fim, importa ainda referir que a conceção da proposta “Orquestra do Jardim da Ciência” se encontra intrinsecamente ligada à experiência formativa no âmbito do PIC-Edu, o qual proporcionou o contacto direto com contextos de educação não-formal e com práticas educativas que privilegiam a exploração e o papel ativo das crianças na construção do conhecimento. Essa experiência permitiu identificar, de forma situada, o potencial dos espaços de educação
não-formal para a conceção de atividades que possibilitam a articulação entre áreas do saber, juntamente com os desafios associados à mediação pedagógica e à intencionalidade didática dessas propostas.

Agradecimentos

Os autores reconhecem e agradecem a análise e sugestões de melhorias para o trabalho em fase de construção por Erickinson Lima, Teresa Neto e Bruna Batista.

Financiamento

Este trabalho foi financiado por fundos nacionais através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto Smart Knowledge Garden (SKG), concretamente através dos projetos UIDB/00194/2020 (https://doi.org/10.54499/UIDB/00194/2020) e UIDP/00194/2020 (https://doi.org/10.54499/UIDP/00194/2020), associados ao CIDTFF, bem como através de uma bolsa do programa PIC-Edu, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P./MCTES, através de fundos nacionais (PIDDAC).

Referências bibliográficas

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Carvalho, L. (2020). O ensino informal e não-formal de música: metodologia e práticas pedagógicas para o ensino informal e não-formal de música percussiva. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Évora]. Repositório da Universidade de Évora. http://hdl.handle.net/10174/28659

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Porto, S., Piacentini, V., & Vieira, R. (2023). O “Jardim da Ciência” como contexto de educação e investigação interdisciplinar: Uma trajetória para o Smart Knowledge Garden. Revista Internacional de Pesquisa em Didática das Ciências e Matemática, 4, e023005. https://periodicoscientificos.itp.ifsp.edu.br/index.php/revin/article/view/904

Silva, A. I. (2019). Aprendizagem de padrões no 1º Ciclo do Ensino Básico: Contributos da Expressão e Educação Musical. [Dissertação de Mestrado, Instituto Politécnico de Viseu]. Repositório Científico do Instituto Politécnico de Viseu. http://hdl.handle.net/10400.19/6184

Vieira, R. M., Sá, P., & Gonçalves, N. (2011). Explorando o Jardim da Ciência: Guião didático para professores. Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores, Universidade de Aveiro. https://oesc.web.ua.pt/storage/recursos/xrLVtivKsttHiYohLhceLx1wHYc87115XQeewB0D.pdf

  1. Informação sobre o programa em https://www.ua.pt/pt/cidtff/Pge/22930.

  2. Informação sobre o projeto em https://www.ua.pt/pt/skg.

  3. A versão completa da proposta educativa pode ser encontrada em https://www.ua.pt/pt/skg/orquestra-matematica-jc.

  4. Uma progressão aritmética é uma sequência de números em que a diferença entre um número e o anterior é sempre a mesma. É um padrão de soma constante. Por exemplo, se contar de 2 em 2, a progressão será 2→4→6→8. O valor que adiciona consistentemente, 2, é chamado a diferença comum (ou apenas diferença).

  5. Uma progressão geométrica é uma sequência de números em que a proporção ou o quociente entre um número e o anterior é sempre o mesmo. É um padrão de multiplicação constante. Por exemplo, se duplicar o valor anterior, a progressão será 1→2→4→8. O valor pelo qual multiplica consistentemente, 2, é chamado a razão comum (ou apenas razão).

  6. Link de acesso: https://musiclab.chromeexperiments.com/Experiments. Este site permite a manipulação visual de parâmetros sonoros e o estabelecimento de relações entre frequência, duração e intensidade.

  7. Link de acesso: https://musiclab.chromeexperiments.com/Experiments.

  8. Link de acesso: https://musiclab.chromeexperiments.com/Rhythm/. Este site permite a manipulação visual de padrões rítmicos e o estabelecimento de relações entre pulso e tempo.

  9. Link de acesso: https://musiclab.chromeexperiments.com/Arpeggios/. Este site permite a manipulação visual de sequências sonoras e o estabelecimento de relações entre frequência e altura.

  10. Nesta atividade, procede-se à associação de cada altura musical a uma tonalidade cromática específica, sendo, respetivamente, os sons agudos representados por tons mais claros, os sons de altura intermédia por tonalidades intermédias e os sons graves por tons mais carregados.

O Crepúsculo das Almas Justas

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Este ensaio nasce do entrelaçamento de três abordagens distintas, o ciclo das almas em Platão, a grelha tripartida de Bruno Oliveira Santos sobre os regimes modernos, e a concepção do Belo como critério civilizacional em Olavo de Carvalho, com o propósito de compreender, mais do que classificar, as mutações políticas profundas do nosso tempo.

O texto propõe uma leitura interpretativa que transcende o comentário político imediato, tentando identificar os pressupostos ontológicos que subjazem à ascensão e queda dos regimes. A análise ganha particular densidade ao problematizar o caso português, onde se coloca a hipótese de que a queda do Estado Novo não terá resultado da sua degeneração interna, mas antes da percepção, por parte de forças adversas, de que este se aproximava perigosamente da realização do belo comum.

O Crepúsculo das Almas Justas
Ensaios sobre o bem comum, o ciclo dos regimes e a queda da ordem espiritual nas cidades modernas

O que é que permite compreender o nascimento, ascensão e queda dos regimes políticos? Por que razão uns parecem durar séculos e outros colapsam em poucos anos? Estaremos perante forças históricas exteriores, fatalismos geopolíticos, ou expressões de uma lógica interna do próprio espírito das sociedades?

No Livro VIII da República, Platão estabelece uma correspondência directa entre a alma individual e o regime político. Tal como a alma pode degenerar do justo para o tirânico, os regimes também sofrem uma degradação cíclica: da aristocracia à timocracia, daí à oligarquia, à democracia e finalmente à tirania. Esta queda não é apenas política, mas espiritual: cada regime reflecte o predomínio de uma parte da alma, razão, vontade ou desejo, e o esquecimento progressivo do bem comum. Quando este desaparece da consciência colectiva, abre-se espaço ao caos.

Bruno Oliveira Santos, na sua obra Histórias Secretas da PIDE/DGS (Nova Arrancada, pp. 97-98), propõe uma grelha triádica para compreender os regimes do século XX:

O regime regressivo: que nega o presente em nome de uma ordem arcaica (por ex., os integralismos);

O regime utópico-progressista: que sacrifica o presente em nome de um futuro ideal (por ex., comunismos);

O regime conservador-reactivo: que procura preservar uma ordem existente, mas sem capacidade de projectar uma síntese superior.

Segundo esta leitura, todos os três tendem a fracassar: o primeiro por anacronismo, o segundo por violência, o terceiro por estagnação.
Muitos incluiem neste último o Estado Novo português.

Olavo de Carvalho introduz uma chave radicalmente distinta: a da percepção do Belo como marca das civilizações. Em O Jardim das Aflições, defende que a história humana não se mede pelo progresso técnico, mas pela aproximação ou afastamento da Verdade, do Bem e do Belo. Uma civilização perde-se quando deixa de amar o que é digno de ser amado, e substitui o eterno pelo efémero, o sublime pelo grotesco.

Nesse sentido, o critério civilizacional não é apenas político ou económico, mas estético-espiritual. A decadência de um regime começa no momento em que o Belo é ridicularizado ou ignorado, e não necessariamente quando o regime colapsa externamente.

Os modelos descrevem, implícita ou explicitamente, três concepções do tempo político:

O modelo platónico é cíclico, mas permite uma leitura ascendente, se a alma se reencontra com a justiça.

A tipologia de Bruno Santos é linear: um regime sucede a outro por esgotamento interno ou por força revolucionária.

Olavo de Carvalho propõe um tempo interior: não tanto um ciclo ou linha, mas uma oscilação espiritual contínua, em que a perda do sentido do Belo é o verdadeiro marco de decadência.

A tragédia das ideias reside frequentemente na sua concretização. Os sistemas, os regimes e as obras políticas que se aproximam de um ideal elevado tornam-se, por isso mesmo, intoleráveis para os que vivem da degradação permanente do espírito, da perpetuação da crise e da destruição de toda a transcendência.

O mundo moderno aprendeu a tolerar o erro, a deformidade e o grotesco, mas jamais perdoa a aproximação ao verdadeiro, ao justo ou ao belo. E sempre que um regime, uma doutrina ou uma cultura ousa tocar, mesmo que imperfeitamente, esse domínio sagrado, é destruído não por falhar, mas por estar perigosamente perto de realizar a ordem.

Neste ponto, o caso português, frequentemente omitido ou falsificado nas leituras contemporâneas, impõe-se como exemplificação grave e reveladora.

O Estado Novo, com todas as suas imperfeições, logrou, por momentos, conjugar ordem social, moralidade pública, soberania nacional e sentido de missão histórica. Essa aproximação, gradual, parcimoniosa, silenciosa, a um “belo comum” reconhecível nas instituições, na economia moral, no princípio de autoridade e na unidade espiritual da nação, foi o bastante para que se tornasse insuportável aos olhos de uma modernidade já vencida por forças dissolventes.

Assim, talvez não tenha sido pelas suas falhas, mas justamente pelos seus acertos, ou melhor, pelo que prometia realizar se deixado amadurecer, que o regime foi atacado e destruído.
Interna ou externamente, houve quem discernisse nesse modelo uma possibilidade concreta de superação do ciclo degenerativo, e por isso o combateu com todas as armas da subversão, da mentira e da desintegração moral.

Não há regime nem figura histórica imune ao tempo ou ao juízo. Mas há momentos e homens que merecem ser revisitados à luz de critérios mais exigentes do que os da propaganda ou da caricatura.

Se aceitarmos que o Belo Comum não é um ideal estético, nem uma simetria social, mas antes a manifestação espiritual e orgânica da ordem, então talvez devamos considerar que o Estado Novo português representou, no seu tempo, uma tentativa, incompleta, como todas, de o servir.

Essa aproximação não se deu por via de retóricas artísticas ou de manifestações populares encenadas. O que se tentou, em vez disso, foi devolver à vida política um princípio de coesão espiritual: o culto do dever, a centralidade da família, a dignidade do trabalho, a estabilidade da autoridade. Elementos esses que, longe de serem apenas formas tradicionais, procuravam dar continuidade a uma alma nacional que resistira a séculos de fragmentação e declínio.

No centro desse esforço estava a figura de António de Oliveira Salazar. O seu entendimento do poder político distinguia-se por um traço raro: a convicção de que governar era, antes de tudo, servir. Não servia ideologias, nem massas, nem apetites de glória pessoal. Servia um bem que julgava acima de si: a Nação.

Por isso, o seu silêncio era mais eloquente que o discurso; a sua previsibilidade mais firme que qualquer teatralidade; a sua prudência mais corrosiva, para os inimigos, do que a violência. Compreendia que a autoridade só é legítima se for moral, e que o Estado deve ser reflexo da alma do povo,  não dos seus vícios, mas da sua vocação mais alta.

O Estado Novo funde os três ciclos, mas não para os repetir, para os ordenar hierarquicamente e superá-los num princípio espiritual: o Belo Comum.

Isto é, Salazar:

restabelece a força da autoridade (mas subordinada à moral);

usa a palavra para formar e unir (mas não para seduzir ou competir);

aplica a técnica para servir uma ideia de bem comum (e não como fim em si).

Não é uma fusão no sentido híbrido, é uma fusão ordenada, em que cada ciclo é reintegrado, reorientado e disciplinado à luz de um princípio superior: a ideia de que a política é serviço e não domínio, e que a Nação é uma realidade orgânica, espiritual e histórica, não uma abstração nem uma arena de disputa.

Assim, poderíamos dizer que:

O Estado Novo manifesta os três ciclos, mas propõe, ainda que imperfeitamente, uma nova ordem política, em que o poder se encontra ao serviço de um bem moral e espiritual comum.

Essa seria a “quarta via”.

Não se trata de canonizar. Trata-se de reconhecer que, no Portugal do século XX, houve um regime que, apesar dos seus limites e erros, parece ter pressentido que não há reconstrução possível sem enraizamento espiritual. E que o horizonte do político não deve ser a vitória ou a popularidade, mas a restauração, ainda que imperfeita, daquilo que um povo tem de mais alto: a sua ligação à Verdade.

Este não é um julgamento sentimental nem saudosista. É o reconhecimento de que, na história dos povos, a realização do bem é sempre uma ameaça para os que vivem da sua negação.

Resta saber se ainda há almas dispostas a sofrer pelo Bem, ou se nos resignámos à irreversibilidade da queda.

A Comparison Between The New Deal And Reaganomics: An Investigation Of The Impacts On Women Through Their Perspective

The main theme of this essay is a question that has been hovering over my mind for a few years. Hence, the decision. What should the role of the state be in the economy? Should it create wealth or just distribute it? And how does this decision impact society and more specifically a group, that has been oppressed for years, like women? It is from this place of curiosity that this paper was born.

THE NEW DEAL AND FDR’S ADMINISTRATION

When President Franklyn Delano Roosevelt (FDR) was elected President of the United States of America (POTUS) in 1932, the country was crossing a major crisis caused by The Great Depression (TGD). “More than 25 percent of American workers were unemployed; factory wages had shrunk from $12 billion to $7 billion; more than five thousand banks had failed; nine million people had lost their life savings, and millions of mortgages were foreclosed.” (Chafe)

To reverse the consequences of TGD, president Roosevelt and “a group of experts that later was dubbed ‘the brain trust’” (Fusfeld)developed the New Deal (ND), a set of economic programs that aimed to give aid and produce reforms to stabilize the economy. The term “New Deal” was first heard by the Americans during FDR’s speech accepting the Presidential Nomination “I pledge you, I pledge myself, to a new deal for the American people.” (Roosevelt). During this speech on the 2nd of July 1931, the soon-to-be president addressed the problems caused by TGD and claimed that the system perpetuated by President Hoover demanded to be reformed.

Three main goals constituted this political program: recovery, relief, and reform.

The New Deal was divided into two parts. The First New Deal and the Second New Deal.

During the First New Deal that occurred from 1933 to 1934, President Roosevelt focused on providing a lifeline for the struggling economy, creating agencies like the Public Works Administration that “oversaw tens of thousands of infrastructure projects, from repairing roads to building dams, as well as cultural and arts initiatives”(Lepore Chapter 11 Part 2), the Agricultural Adjustment Act that “was a striking success. It stabilized farm prices; it limited production; it won and retained the support of most commercial farmers.” (Chafer), and the Farm Credit Administration that prevailed until today and is responsible for providing mortgages for farm owners. Roosevelt’s administration placed a great investment in agriculture and the rural area, according to Price V. Fishback “Nearly 45 percent of all New Deal loans were distributed to farmers”.

However, this lifeline was not enough. Therefore, FDR and his Brain Trust developed the Second New Deal which focused on providing more financial security for Americans.

From 1934 to 1938, America saw the birth of legislations and agencies that endure to this today. It is the case of the Fair Labor Standards Act “which created a minimum wage, a forty-hour workweek, and a ban on child labor”(Chafe), the Rural Electrification Administration that “brought cheap power to the countryside”(Kennedy 252) and the Social Security Act which was “one of the most complicated and far-reaching laws ever to pass Congress”(Kennedy et al. 841) and “It established pensions, federal government assistance for fatherless families, and unemployment relief”. (Lepore Chapter 11 Part 2)

The New Deal “brought money and jobs to millions of the unemployed while putting in place new schools, hospitals, roads, airports, and post offices that would benefit, (…), the society as a whole.”(Chafe) and “brought together blue-collar workers, southern farmers, racial minorities, liberal intellectuals, and even industrialists and, still more strangely, women.”(Lepore Chapter 11 Part 1)

The social impact of the New Deal and the Roosevelt administration was a breakthrough in American history. First lady Eleanor Roosevelt stood out during this period like no other FLOTUS had done before. According to Blanche Wiesen Cook, Eleanor was “a new phenomenon in American politics.” (Cook) Eleanor was an advocate of civil rights and one of the most prolific female voices in the USA after the nineteenth amendment. In her book, It’s Up To the Women, Eleanor wrote: “If women are really going to awake to their civic duties, if they are going to accept changes in social living and try to make of this country a real democracy, (…), then we may indeed be seeing the realization of a really new deal for the people.” (Roosevelt). And it happened. During the years of the New Deal, we saw women like Frances Perkins taking charge in government roles. Perkins served as Secretary of Labor from 1933 to 1945, became the first woman to work in the Cabinet, and was a member of the president’s “Brain Trust”. The Social Security Act was a result of Perkins’ exceptional work. “As a member of the Committee on Economic Security, she worked tirelessly to create a practical Social Security program which the Congress would pass. (…) Her leadership, (…), helped remove the threat of starvation, eviction, and destitution from the doorstep of every worker’s home.”(Berg).

Mary McLeod Bethune is another example of female emancipation. Bethune, a daughter of ex-slaves, served as an advisor for the POTUS regarding minority affairs. She also became the first black woman directing a federal agency when she became the Negro Affairs director of the National Youth Administration.

Another woman who left her mark in the first half of 20th-century politics was Mary Williams (Molly) Dewson. Molly once said that “At last women had their foot inside the door. We had the opportunity to demonstrate our ability to see what was needed and to get the job done while working harmoniously with men. The opportunities given women by Roosevelt in the thirties changed our status” (Ware). Dewson was designated to direct the Women’s Division of the Democratic National Committee and it was also her who “proposed Frances Perkins to President Roosevelt for Secretary of Labour”( Seeber) and was also a big advocate for the New Deal. She created the “Reporter Plan” that “sent female party workers door to door to inform the electorate about New Deal legislation.” (Gittell et al.)

THE NEW RIGHT AND REAGANOMICS

30 years after Roosevelt’s administration, America entered a period called The Stalemated Seventies. A period of stagflation caused by several reasons. From 1965 to 1975 the United States of America spent a lot of resources on the Vietnam War. Lyndon B. Johnson created a program similar to the New Deal called the Great Society that aimed to eradicate poverty, and America’s industrial hegemony was being defied by countries like Japan and Germany. But not only was the economy stalled but the country was changing. In 1965, Martin Luther King led the march over the Edmund Pettus Bridge taking one step closer to the Civil Rights cause, also in the same year, Griswold v. Connecticut secured the right to privacy to unmarried women who wanted to buy contraceptives. In 1973 abortion became legal with Roe v. Wade. All this happening at the same time that a sexual revolution was occurring in the USA.

As a response to all of this happening a new movement arose — the “New Right”. In 1960, Barry Goldwater, the Republican runner for the presidency against Kennedy, wrote: “I have been much concerned that so many people today with Conservative instincts feel compelled to apologize for them. (…) ‘Republican Candidates,’ Vice President Nixon has said, ‘should be economic conservatives, but conservatives with a heart.’ President Eisenhower announced (…), ‘I am a conservative when it comes to economic problems but liberal when it comes to human problems.’ (…) Such statements,(…), do great injustice to the Conservative point of view. It is conservatism that puts material things in their proper place (…)” (Goldwater).

Even though Goldwater lost the run to Kennedy, the New Right was establishing itself as a leading movement.

In 1980, the governor of California Ronald Reagan was elected president of the United States of America. Mr. Reagan ran for the White House with the slogan “Let’s Make America Great Again” and promoted that the government should stay away from economic matters. In his Inaugural Address, he claimed: “In this present crisis, government is not the solution to our problem; government is the problem.” (Regan) His economic views and plans would be called Reaganomics and the main purpose were to: “ (1) reduce the growth of government spending, (2) reduce the marginal tax rates on income from both labor and capital, (3) reduce regulation, and (4) reduce inflation by controlling the growth of the money supply” (Niskanen).

Reagan “proposed a new federal budget that necessitated cuts of some $35 billion, mostly in social programs like food stamps and federally funded job-training centers.” (Kennedy et al. 1035) and made severe cuts in governmental programs, “Aid to Families with Dependent Children, Medicaid,”. The social impacts of this decision were enormous, “Between 1970 and 1990, the percentage of illegitimate birth rose from 38 percent to 67 percent for blacks and from 6 percent to 17 percent for whites. The number of recipients for AFDC had risen from 7.4 million in 1970 to 10.6 million in 1980. Under Reagan-era reforms, more than a million poor people lost food stamp benefits.” (Lepore Chapter 15 Part 2)

The economic outcome of the New Right wave lead by RR is still questionable today. Inflation decreased to 3.5 percent, gasoline prices went from $1.38 per gallon (1981) to 95 cents (1986), and unemployment diminished to 5 percent. (Patterson 163) However, the national debt rose from $917 billion to $2.7 trillion. (See Appendix A)

The New Right conservative wave caused a significant impact in the country and clashed with the prominent social movements, namely the Feminist movement. According to Lynn Hecht Schafran in a New York Article in 1981, President Reagan failed the promise that he made to appoint women to all branches of government since out of 367 administrative appointments, only 42 were women and there were no women in the cabinet. As previously stated, the Reagan administration focused on tax cuts and diminishing social programs and agencies. Schafran also accuses Reagan based on these decisions since “69 percent of households receiving food stamps are headed by women.” and 70 percent of the Legal Services Corporation “are poor women seeking help with problems relating to Social Security, divorce, food stamps, and AFDC.”. Susan Faludi claims that during the presidential campaign, the New Right would focus essentially “on the basis of its opposition to women’s rights.” and that Reagan “was the first president to oppose the ERA since Congress passed it — and the first ever to back a ‘Human Life Amendment’ banning abortion and even some types of birth control.” Zillah R. Eisenstein wrote in 1983 that “Reagan opposes the policies of liberal feminism — affirmative action. CETA programs, the right to abortion, the right to equal pay.”

Both economic models proved to be very different in their core and also in their consequences. Comparing these two periods of time, the New Deal under FDR’s administration is more beneficial to the country as a whole. Not only did it prevent millions of people from going into poverty but it also gave a platform to groups that would normally be marginalized. The Reagan administration didn’t even come close regarding social improvemnt. In fact, it had the opposite outcome of the New Deal. It disrupted the importance that the female role had conquered in previous years.

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Appendix A

Edição: Fevereiro 2026

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Arte e Engenho: Idealismo Alemão e Nietzsche, Batalha de Ourique, António Sérgio e o Integralismo, Youth Slang: Internet vs Street, Inovação vs Progresso, Barrigas de Aluguer, Ideologia de Género, O que é o Fascismo?, Os Primórdios do Reino Suevo, Violência Sanguinária no Clero, Os Relógios de Stranger Things, Handmaid’s Tale e Splinterlands, Oppenheimer, Caricaturas de Rui Cavaleiro.

ENSAIO

Idealismo Alemão: Nietzsche, Existencialismo, Hermenêutica e Desconstrutivismo

Onde se: (i) debate sobre o idealismo alemão; (ii) apresenta o pensamento do Nietzsche e o niilismo; (iii) discute a relação entre existencialismo e niilismo, e por fim, (iv) debruça sobre a hermenêutica e desconstrutivismo.

Milagre da Batalha de Ourique: Incursão pela Literatura Portuguesa


A Batalha de Ourique tem um papel preponderante na narrativa histórica portuguesa. Mesmo com incertezas acerca do confronto, os seus efeitos foram de importância para a afirmação do Reino de Portugal. É por meio de um conjunto de batalhas — como a Batalha de São Mamede (Junho de 1128) e a Batalha de Ourique — que se concretiza a vontade independentista do Condado Portucalense em tornar-se Reino de Portugal.

A crítica de António Sérgio ao integralismo lusitano

O filósofo e ensaísta António Sérgio entende que não existe nenhum espírito filosófico sólido no integralismo, ao corresponder a uma seita pueril e paradoxal, não podendo levar as ideias políticas a sério por serem influenciadas pela tradição monárquica integral francesa, contendo a apologia do rei e do poder da Igreja Católica.

From the Street to the Screen: Internet-Mediated Youth Slang and the Transformation of Vernacular Creativity

On how contemporary youth slang is fundamentally shaped by internet- based environments and differs structurally, socially, and cognitively from earlier forms of street-based slang grounded in face-to-face interaction.

Ruína e Miss Idaho entre batatas.

CRÓNICA

A Mercantilização do Corpo Feminino: Das Kardashians a Meghan Trainor e a distopia das barrigas de aluguer

A chamada “barriga de aluguer” consiste numa mulher que engravida e dá à luz um bebé para outra pessoa ou casal, num processo frequentemente mediado por contratos, clínicas e intermediários.

Um bebé encomendado, gestado e entregue. Esta prática levanta uma série de dilemas éticos profundos que não podem ser ignorados, sobretudo quando analisados à luz do feminismo e dos direitos humanos.

Inovação ou progresso? O que uma troca de palavra pode revelar sobre a nossa visão do futuro

A palavra “inovação” não substitui inocentemente “progresso”. Enquanto o progresso aponta para um futuro desejado, a inovação nasce da urgência de conservar um presente em crise. A troca revela o cansaço da nossa relação com o futuro.

A Ideologia de Género e o Grande Dragão

A ideologia de género, entendida aqui não como a existência de pessoas com sofrimento real, mas como um sistema normativo que separa linguagem, identidade e lei da realidade, encaixa estruturalmente numa definição de caos que quando não é enfrentado cresce e exige sacrifícios humanos.

O que é o Fascismo?


De todas as questões sem resposta do nosso tempo, talvez a mais importante seja “O que é o Fascismo”. Tudo o que se pode fazer, por agora, é usar a palavra com um certo grau de prudência e não, como geralmente se faz, degradá-la ao nível de um palavrão. Texto de George Orwell, 1944.

À capa da revista “Time do Restelo” das últimas semanas juntamos duas fictícias.

Sonhemos com o verão e o Mediterrâneo, acompanhados de Maria Callas e Pier Paolo Pasolini.

ARTES VISUAIS

Galeria: Caricaturas de Rui Cavaleiro

Mais uma série de caricaturas da actualidade de políticos da nossa praça, da autoria do artista plástico Rui Cavaleiro.

As investigações de Maria José Oliveira (https://www.publico.pt/autor/maria-jose-oliveira) na Torre do Tombo e noutras paragens trazem-nos pérolas que ficam perdidas nas redes sociais. Aqui trazemos três delas. Sigam-na em https://x.com/majoliv.

RUBRICA

Os primórdios do Reino Suevo: de onde veem e como à Ibéria foram parar, um estudo histórico

Sobre os Suevos na Ibéria: a entrada que S. Isidoro de Sevilha faz à sua Suevorum Historica, muito embora curta e ambígua, traz-nos uma ideia particularmente interessante a respeito do primeiro Rei Suevo na Ibéria, Hermerico.

Um episódio curioso de 1483, contado pela Chancelaria de D. João II


Um episódio curioso passado em 1483, com violência sanguinária entre o clero, contado pela Chancelaria de D. João II, no livro 26, f. 124v.

Telephone Call, de John Koch, e The Fan, de Ron Scherwin.

Os relógios de Stranger Things

Embora Stranger Things não seja uma obra sobre relojoaria ou ciência do tempo no sentido técnico, o tempo ocupa um papel estrutural na narrativa. Aqui revemos algumas das peças que despontam na série.

BD e filosofia.

CRÍTICA

Crítica: Dynamics Between Mankind and Nature in Margaret Atwood’s The Handmaid’s Tale and John Feffer’s Splinterlands

Um ensaio sobre as descrições da interacção distópica entre a espécie humana e a natureza em duas obras recentes da literatura norte- americana: The Handmaid’s Tale de Margaret Atwood’s e Splinterlands de John Feffer.

Crítica: Oppenheimer (Christopher Nolan, SyncopyInc, 2023)

Sobre as camadas filosóficas e metafísicas da película Oppenheimer, de Christopher Nolan, 2023, dedicada ao físico responsável pelo desenvolvimento da bomba atómica.

Funnies!

Debra Force é uma destacada especialista e mercadora americana de arte, fundadora da Debra Force Fine Art, Inc., em 1999, em Nova Iorque, uma galeria especializada em pinturas, desenhos e esculturas americanas dos séculos XVIII, XIX e XX.

Com formação académica e experiência inicial no departamento de pinturas americanas da Christie’s (1984-1989), e tendo sido curadora e diretora do museu da CIGNA em Filadélfia, construiu uma carreira respeitada como consultora, avaliadora (incluindo participação no programa Antiques Roadshow da PBS) e promotora de obras de alta qualidade do mercado secundário.

O seu patronato das artes destaca-se pelo compromisso em preservar, expor e fomentar o colecionismo de arte americana histórica, através da organização de numerosas exposições anuais (na galeria e em feiras de arte prestigiadas como The Winter Show), publicação de catálogos, vendas de obras a instituições de renome (como o Metropolitan Museum of Art, Whitney Museum of American Art e Museum of Fine Arts, Boston), consultoria para construção e gestão de coleções, planeamento de heranças e educação sobre arte e mercado americanos, contribuindo assim significativamente para a difusão e valorização cultural dessa tradição artística ao longo de três séculos.

A crítica de António Sérgio ao integralismo lusitano

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O filósofo e ensaísta António Sérgio entende que não existe nenhum espírito filosófico sólido no integralismo, ao corresponder a uma seita pueril e paradoxal, não podendo levar as ideias políticas a sério por serem influenciadas pela tradição monárquica integral francesa, contendo a apologia do rei e do poder da Igreja Católica (Sérgio, 1932, p. 305). O argumento de Sérgio de que o integralismo foi influenciado pela tradição monárquica francesa é limitado, dado existir um conjunto de teóricos contrarrevolucionários portugueses do final do século XVIII e XIX e jurisconsultos do século XVII, como demonstra António Sardinha (Nação Portuguesa, 1914–1916, p. 207). O argumento integralista levanta problemas, pois a tradição contrarrevolucionária portuguesa tem influências no pensamento homólogo francês de De Maistre e de Bonald, sendo adaptado ao caso lusitano.

Sérgio critica os integralistas ao sugerir que embora o Estado, independentemente da sua natureza ou da história de Portugal, não seja um bom administrador, passaria a sê-lo sob o sistema integralista. Por outras palavras, ironiza a ideia de que o governo dos integralistas transformaria a natureza humana em algo perfeito. Em resposta ao integralismo, Sérgio defende o cooperativismo[1] como uma alternativa (Sérgio, 1932, pp. 306–308). Embora a crítica de Sérgio ao integralismo seja relevante, o seu apoio ao cooperativismo como solução pode ser questionado. Sérgio poderia criticar o integralismo sem necessariamente promover o cooperativismo. Além disso, o argumento sobre a natureza humana é crucial na crítica ao integralismo, mas implica a existência de uma natureza humana com características específicas, o que pode levar a outros debates filosóficos.

Relativamente ao problema da descentralização, este é menos legislativo do que psicológico, e sempre que o Estado centraliza “é sempre na maioria das suas vítimas” (Sérgio, 1932, p. 311). A centralização não ocorre numa nação com espírito de iniciativa. Este argumento pode ser refutado com o caso da Alemanha nazi, mas tal seria extemporâneo para os escritos de Sérgio.

A crítica feita aos integralistas não incide apenas sobre a lei existente, mas, em muitos casos, sobre a psique da população. O exemplo dado é a comparação entre o caso francês e o caso inglês, sendo que a diferença entre ambos reside na mentalidade (Sérgio, 1932, p. 314). Entendo que a mentalidade é essencial; no entanto, esta consideração relaciona-se com vários aspetos como a história, a cultura, as instituições e o seu funcionamento, a religião, a sociedade civil, a cidadania e a aplicação do Estado de direito. A mentalidade é uma condição necessária, mas é importante que exista mais do que a mentalidade para alterar a dinâmica nacional, pois não é o único critério.

Em relação ao municipalismo e a outras propostas defendidas pelos integralistas, a eficácia final dessas ideias depende amplamente da capacidade das elites. Sérgio argumenta que o integralismo, na prática, se revela uma perda de tempo, uma vez que as suas premissas não garantem um resultado efetivo (Sérgio, 1932, pp. 318–319). Essa crítica de Sérgio pode ser vista como uma contestação à teoria das elites defendida pelos integralistas. A falácia inerente a essa teoria pode ser resumida em dois pontos principais: 1) as elites podem não possuir a capacidade intelectual, política ou moral necessária para implementar mudanças eficazes; 2) mesmo que as elites sejam competentes, o monarca pode não ter a capacidade adequada e agir de forma contrária aos conselhos das suas elites. Essa falácia compromete a ideia integralista e parte do sistema proposto. Contudo, se, num determinado território, as elites possuírem realmente a competência necessária e atuarem em prol do bem comum, seria possível mitigar a crítica de Sérgio. No entanto, considerando a história e a trajetória das elites em Portugal, há dúvidas quanto a se realmente cumpririam essas condições, o que levanta questões sobre a viabilidade da teoria das elites integralistas.

O argumento de Sérgio sobre o integralismo tem duas vantagens: 1) desenvolve a teoria das mentalidades, ou seja, por muito que os integralistas pensem nas suas ideias, não se segue que estas sejam aplicadas desse modo, por dependerem de fatores externos aos seus pensamentos; e 2) as elites podem não ter capacidade de liderança, de ideias e de pensamento. O seu argumento falha por descurar a tradição contrarrevolucionária portuguesa do final do século XVIII e XIX e o pensamento dos jurisconsultos do século XVII, centrando o pensamento integralista apenas no vetor francês.

Bibliografia

Revista Nação Portuguesa: Revista de Filosofia Política, I Série, Coimbra, 1914–1916.

Sérgio, António, Ensaios: tomo III, Edição da Renascença Portuguesa, Porto, 1932.

Sérgio, António, Sobre o sistema cooperativista, introdução, recolha de textos e anotações de Fernando Ferreira da Costa, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1985.

  1. Para definir o cooperativismo, entendido como uma forma de socialismo libertário, é útil examinar vários textos de António Sérgio. Segundo Sérgio, na sociedade cooperativa integral não existiriam transações comerciais convencionais, como compras e vendas; em vez disso, cada indivíduo trocaria o que produz pelo que necessita, considerando as compras e vendas meros artifícios convenientes (Sérgio, 1985, p. 36). Neste sistema económico, o consumidor é o soberano e a produção orienta-se para satisfazer as necessidades, sem a procura do lucro, que não existe nesse contexto (Sérgio, 1985, pp. 40–41). O objetivo principal desta teoria é a distribuição e não a venda (Sérgio, 1985, p. 48). Além disso, as cooperativas estariam organizadas numa federação nacional (Sérgio, 1985, p. 64), e o cooperativismo visaria eliminar as disputas económicas entre as pessoas (Sérgio, 1985, p. 76).

Um episódio curioso de 1483, contado pela Chancelaria de D. João II

Um episódio curioso passado em 1483, contado pela Chancelaria de D. João II, no livro 26, f. 124v.

“Dom João etc. A todos os Juizes, Alcaides e Meirinhos dos nossos Reinos e a quaisquer outros oficiais e pessoas a que o conhecimento disto pertencer por qualquer guisa que seja… 

…e esta nossa carta for mostrada, saúde. Sabede que João Álvares, Prior da Capela do Mosteiro de São Vicente da nossa cidade de Lisboa, nos disse que ele era eleito do dito Mosteiro e que ele e o Convento andavam em demanda com o Bispo de Tânger sobre o dito Mosteiro a dar a execução uma sentença de privação do dito Mosteiro, dada pelo Cardeal Dom Jorge como juiz apostólico e que por ele suplicante acerca dele ser por sua parte e do dito Convento requerer seu direito, o dito Bispo o mandava matar. E que saindo ele do dito Mosteiro no eirado à porta principal um homem do dito Bispo que comia em sua casa e andava com os seus dera a ele, suplicante, uma grande cutelada pelo pescoço cuidando que o deixava morto. E de facto o mataria se não fossem as gentes que acudiram. E que também mandara outra vez a cutelada a ele suplicante pela demanda que sobre o benefício que ora tinha com ele andava. E lhe deram uma ferida na cabeça da qual lhe tiraram cinco ossos. E que por estas razões, o dito Bispo era seu inimigo capital e malquerente. E que, porquanto ele se temia do dito Bispo e de seus sobrinhos e criados de o matarem ou de lhe fazerem outro algum mal, nos pedia por mercê que a ele houvessemos remédio com direito, porquanto ele não era ousado de trazer homens com armas em a dita Cidade de Lisboa e em outras partes com temor das nossas ordenações e defensas em contrário feitas. E isto para defesa de seu corpo. E nós, visto seu dizer e pedir em arrolação com os do nosso desembargo, vista a certa informação que da dita inimizade havemos ser entre o dito suplicante e o Bispo de Tânger. E a razão que tem se temer e andar percebido para sua defesa, temos por bem e damos lhe licença e lugar que ele e três homens seus possam trazer armas ofensivas somente espadas e punhais e outras quaisquer armas defensivas por toda a dicta nossa Cidade de Lisboa e seu termo e assim por todos os nossos Reinos e Senhorios para guarda e defesa de seu corpo sem embargo da ordenação da dita Cidade de Lisboa ser em contrário e de armas serem defesas. E com entendimento que as tragam quando com ele, suplicante, andarem. E porém vos mandamos que cumprindo ele e os ditos três homens seus o que dito é lhe deixedes trazer as ditas armas e lhas não tomeis nem coutéis nem consentades tomar nem contar nem fazer por ele outro algum desaguisado quando é por eles trazerem as ditas armas porque nossa mercê e vontade é de as eles trazerem pela guisa que dito é salvo sendo eles com elas achados de noite às desonras ou de dia fazendo com elas o que não devem.

Dada em Santarém, XIII dias de dezembro, ElRei o mandou por o Doutor João Teixeira e Pêro Machado. Pêro Álvares a fez, ano de Mil e IIIIc e LXXXIII”.

Os primórdios do Reino Suevo: de onde vêm e como à Ibéria foram parar, um estudo histórico.

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Na entrada que S. Isidoro de Sevilha faz à sua Suevorum Historica, muito embora curta e ambígua, traz-nos uma ideia particularmente interessante a respeito do primeiro Rei Suevo na Ibéria, Hermerico: enquanto um dos componentes da confederação germânica que entra na Península…

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…Ibérica em 409, ele não é chamado, aquando da data, de rex; ele é um “principe” que, na maturação do seu Reino, tornar-se-á Rei, com a formalização de uma Monarquia de carácter hereditário. O facto de não haver dúvidas, entre a Nobreza Sueva da altura, que ele pertencia à realeza (razão pela qual não há conflitos em torno da sucessão neste reinado), deixa-nos a questão: quem é Hermerico, que noção traria a sua tribo, antes da passagem à Ibéria, e por que razão há uma linhagem Sueva paralela a esta (também de Reis), na antiga região onde estavam instalados (por exemplo, um rex Hunimundo, em 455, que combateu aliado aos Gépidas na Batalha do Nedao, contra os Hunos). Eis o que este ensaio procura enquadrar.

[ver abaixo] Aquando da entrada de 409, S. Jerónimo (em uma carta à viúva franca Ageruquia), nomeia os…

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…Povos que entraram na Península Ibérica. Perguntam-se vós: onde estão os Suevos? Responder-vos-ei: estão, mas implícitos. Eis o que é.

No ano de 20 d.C., diz-nos Tácito que Marobodus, rei dos Marcomanos (que, no ano 9, conquistara a Boémia, que havia sido despovoada pela…

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…tribo celta Boii), unificara as tribos Suevas sob a sua tirania, razão pela qual foi abandonado por duas das tribos que compunham esta confederação: os Semnones e os Longobardos – ademais, um nobre gotão exilado por ele, chamado Catualda, invade a Marcomania (Boémia) com…

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…tropas e depões Marobodus, sendo este obrigado a fugir. Dobra o Danúvio na província Nórica, sendo conduzido pelo Imperador Tibério para Ravena, onde lá ficara sob vigia, junto com os seus Suevos (é o que diz no ponto [63], Marobodus era exposto ao público aquando de tentativas de conspiração Suevas dentro do seu círculo). Catualda, não obstante, também foi expulso do Reino por Vibílio, chefe dos Hermúnduros, sendo exilado na Gália Narbonense, também com o seu bando de apoiantes. Eis que, para conter os ânimos de ambos os bandos, o Imperador Romano toma a decisão de instalá-los além-Danúbio, na região entre os rios Maro [Morava] e Cusus [Váh], e dando-lhes um Rei, Vannius, que era pertencente à tribo dos Quados (talvez até já Rei deles antes de ser fazer Rei de toda esta confederação). Esta porção de território atribuído não é uma mera coincidência. É o território onde, segundo Cláudio Ptolomeu, já habitavam os Quados. Segundo a Germania de Tácito, a linhagem de Tudrus [de onde Vannius descende] permaneceu na governança desta confederação. Isto será importante para…

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…prosseguir com o ensaio.

Aquando de 358, Amiano Marcelino nomeia, no Reino dos Quados, dois regales: um Vitrodorus, filho do Rei Viduarius; e um Araharius. Cada um tinha os seus subregulus [os seus segundos] – Agilimundo, subregulus de Vitrodorus; Usafer (que era um…

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…príncipe Sármata), subregulus de Araharius; e cada um governava os seus territórios dentro da confederação: Vitrodorus, a parte Ocidental [onde estava a Brigetio deste episódio de Amiano, atual Szony]; Araharius, a parte Oriental. Isto fora em tempos de guerra, na narração de um encontro entre Vitrodorus [acompanhado de Agilimundo] e Constâncio II de Roma, na qual realizam as pazes após um conflito. É necessário referir que estes não eram os únicos regulus da confederação pois, como consta logo a seguir, outras “nationum et regum” desejavam…

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…fazer as pazes com o Imperador por si.

Há uma agravante que precisamos de exortar aqui: o rex Quadorum, dentro da confederação, nada mais era do que um dos regulus que recebia a legitimação de Roma. Pelo que, aquando da narração de Amiano Marcelino, o filho do Rex, diga-se descendente também de Vannius, é somente chamado de regulus pois não havia recebido o sinal verde do Imperador – e, sabendo o quão costumeiro era esta atribuição aos descendentes de Tudrus, estamos diante da tese: o rex Quadorum coincide com o regulus dos Quados Ocidentais, sendo muito provável que a revolta de Vitrodorus dever-se-ia à demora para esse reconhecimento (ou, por iniciativa Quada, a revolta para a renegociação dos termos de subordinação). De qualquer das formas, a paz consomar-se-á até 374.

Nesse ano, Valentiniano I, com o…

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…intuito de querer proteger o limes Romano, ordenara a construção de fortificação no meio do País dos Quados (nomeadamente na sua parte Oriental). Estes revoltaram-se e, embora o texto não o diga, pressionaram o rex Quadorum a intervir junto de Roma. A consequência, como…

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…aqui é narrada, foi esta: o rex Quadorum da altura, Gabinius, é assassinado pelo Dux da Valéria, Marceliano, fingindo preparar-lhe um banquete. Em consequência, os Quados aliam-se aos Sármatas e invadem a Panónia Romana: esmagam duas Legiões [a Moesiaca e a Pannonica], e só…

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…não conquistam a cidade de Sírmio [atual Sremska Mitrovica] porque a cidade conseguiu resistir na pessoa do seu comandante. A vingança, narra-nos Amiano Marcelino no seu livro XXX das Histórias: na Primavera de 375, Valentiniano I dobra o Danúbio e adentra o Norte da…

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…Sarmácia, dizimando os Quados, voltando triunfalmente no fim do Outono.

Eis a pergunta: quem governa depois de Gabinius? Aquando de Nov/375, nas negociações de paz, os embaixadores Quados não representam o seu Rei, senão os próceres desta Nação. De modo que, primeiro,…

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…poderemos assumir que Gabinius faleceu sem deixar linhagem (improvável); dois, poderemos assumir que a confederação Quada depôs o sucessor menor de Gabinius, junto com o seu subregulus Agilimundo, dando um outro caudilho à confederação. Isto implica um período delimitado, mas o mais provável é que as campanhas dos Quados na Panónia foi realizada sob um regente, cujo nome não se sabe. O que se sabe é que, depois desta ocasião, não mais se ouve falar de Rex Quadorum.

A junção dos descendentes dos Reis Quados agora depostos com os ancestrais da nobreza marcomana (que nunca se chamou Quada, e sim Baemi, em preito à tribo Boii já mencionada – é assim que os chama Ptolomeu) darão azo ao renascimento de outro nome: Suevo.

Eis a razão pela qual S. Jerónimo não chama as tribos da Ibéria de Suevos, mas de Quados [São…

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…Gregório de Tours chega a dizer que os Suevos são Alamanos]. De modo que podemos teorizar a parcela mínima de Suevos que avança para a Ibéria (justamente a parte marginalizada da confederação), equivale à Quada Ocidental, com Hermerico enquanto filho deposto de Gabinius.

O que é o Fascismo?

George Orwell, O que é o Fascismo?, TRIBUNE, 1944

De todas as questões sem resposta do nosso tempo, talvez a mais importante seja: «O que é o Fascismo?»

Uma das organizações de estudos sociais da América colocou recentemente esta pergunta a cem pessoas diferentes e obteve respostas que iam de «pura democracia» a «pura diabolia». Neste país, se perguntarmos a uma pessoa média, minimamente informada, que defina o Fascismo, ela costuma responder apontando para os regimes alemão e italiano. Mas isto é muito insatisfatório, porque mesmo os principais Estados fascistas diferem bastante entre si na estrutura e na ideologia.

Não é fácil, por exemplo, encaixar a Alemanha e o Japão no mesmo quadro, e é ainda mais difícil fazê-lo com alguns dos pequenos Estados que são descritos como fascistas. Costuma assumir-se, por exemplo, que o Fascismo é inerentemente belicista, que prospera num clima de histeria de guerra e que só consegue resolver os seus problemas económicos através da preparação para a guerra ou de conquistas externas. Mas isto claramente não é verdade no caso, por exemplo, de Portugal ou das várias ditaduras sul-americanas. Ou ainda: o antissemitismo é suposto ser uma das marcas distintivas do Fascismo; mas alguns movimentos fascistas não são antissemitas. Controvérsias eruditas, que ecoaram durante anos em revistas americanas, nem sequer conseguiram determinar se o Fascismo é ou não uma forma de capitalismo. E, no entanto, quando aplicamos o termo «Fascismo» à Alemanha, ao Japão ou à Itália de Mussolini, sabemos, em termos gerais, o que queremos dizer.

É na política interna que esta palavra perdeu o último vestígio de significado. Pois, se examinarmos a imprensa, verificaremos que praticamente não existe nenhum grupo de pessoas — certamente nenhum partido político ou organismo organizado de qualquer tipo — que não tenha sido denunciado como fascista nos últimos dez anos. Não estou aqui a falar do uso verbal do termo «fascista». Estou a falar daquilo que vi impresso. Vi as expressões «com simpatias fascistas», «de tendência fascista» ou simplesmente «fascista» aplicadas, com toda a seriedade, aos seguintes grupos de pessoas:

Conservadores: Todos os conservadores, apaziguadores ou anti-apaziguadores, são considerados subjetivamente pró-fascistas. O domínio britânico na Índia e nas colónias é tido como indistinguível do nazismo. Organizações do que se poderia chamar um tipo patriótico e tradicional são rotuladas de cripto-fascistas ou «de mentalidade fascista». Exemplos: os Escuteiros, a Polícia Metropolitana, o M.I.5, a Legião Britânica. Frase-chave: «As escolas públicas são viveiros do Fascismo».

Socialistas: Defensores do capitalismo à antiga (por exemplo, Sir Ernest Benn) sustentam que o Socialismo e o Fascismo são a mesma coisa. Alguns jornalistas católicos afirmam que os socialistas foram os principais colaboradores nos países ocupados pelos nazis. A mesma acusação é feita, a partir de um ângulo diferente, pelo Partido Comunista durante as suas fases ultra-esquerdistas. No período de 1930-35, o Daily Worker referia-se habitualmente ao Partido Trabalhista como os Trabalhistas Fascistas. Isto é ecoado por outros extremistas de esquerda, como os anarquistas. Alguns nacionalistas indianos consideram os sindicatos britânicos organizações fascistas.

Comunistas: Uma corrente de pensamento considerável (por exemplo, Rauschning, Peter Drucker, James Burnham, F. A. Voigt) recusa reconhecer uma diferença entre os regimes nazi e soviético e sustenta que todos os fascistas e comunistas visam aproximadamente a mesma coisa e são, até certo ponto, as mesmas pessoas. Artigos de fundo do The Times (antes da guerra) referiram-se à U.R.S.S. como um «país fascista». Mais uma vez, a partir de outro ângulo, isto é ecoado por anarquistas e trotskistas.

Trotskistas: Os comunistas acusam os trotskistas propriamente ditos, isto é, a própria organização de Trotsky, de serem uma organização cripto-fascista ao serviço dos nazis. Isto foi amplamente acreditado à esquerda durante o período da Frente Popular. Nas suas fases ultra-direitistas, os comunistas tendem a aplicar a mesma acusação a todas as facções à sua esquerda, por exemplo, o Common Wealth ou o I.L.P.

Católicos: Fora das suas próprias fileiras, a Igreja Católica é quase universalmente considerada pró-fascista, tanto objetiva como subjetivamente.

Opositores da guerra: Pacifistas e outros que são anti-guerra são frequentemente acusados não só de facilitar a vida ao Eixo, mas também de se deixarem contaminar por sentimentos pró-fascistas.

Apoiantes da guerra: Os opositores da guerra costumam basear a sua posição na afirmação de que o imperialismo britânico é pior do que o nazismo e tendem a aplicar o termo «fascista» a qualquer pessoa que deseje uma vitória militar. Os apoiantes da Convenção do Povo chegaram perto de afirmar que a disposição para resistir a uma invasão nazi era um sinal de simpatias fascistas. A Home Guard foi denunciada como uma organização fascista assim que apareceu. Além disso, toda a esquerda tende a equiparar militarismo a Fascismo. Soldados rasos politicamente conscientes referem-se quase sempre aos seus oficiais como «de mentalidade fascista» ou «fascistas naturais». Escolas de combate, rigor excessivo, continências aos oficiais — tudo isto é considerado propício ao Fascismo. Antes da guerra, alistar-se nos Territoriais era visto como um sinal de tendências fascistas. Tanto a conscrição como um exército profissional são denunciados como fenómenos fascistas.

Nacionalistas: O nacionalismo é universalmente considerado inerentemente fascista, mas isto só se aplica aos movimentos nacionais de que o orador, por acaso, não gosta. O nacionalismo árabe, o nacionalismo polaco, o nacionalismo finlandês, o Congresso Nacional Indiano, a Liga Muçulmana, o sionismo e o I.R.A. são todos descritos como fascistas — mas não pelas mesmas pessoas.

Ver-se-á que, tal como é usado, o termo «Fascismo» é quase totalmente destituído de significado. Na conversa corrente, claro, é usado de forma ainda mais descontrolada do que na imprensa. Já o ouvi aplicado a agricultores, lojistas, Crédito Social, castigos corporais, caça à raposa, touradas, o Comité de 1922, o Comité de 1941, Kipling, Gandhi, Chiang Kai-shek, homossexualidade, as emissões radiofónicas de Priestley, pousadas da juventude, astrologia, mulheres, cães e não sei mais o quê.

E, no entanto, por baixo de toda esta confusão existe uma espécie de significado enterrado. Antes de mais, é evidente que há diferenças muito grandes — algumas fáceis de apontar e não fáceis de explicar — entre os regimes chamados fascistas e os chamados democráticos. Em segundo lugar, se «fascista» significa «com simpatias por Hitler», algumas das acusações que enumerei acima são obviamente muito mais justificadas do que outras. Em terceiro lugar, mesmo as pessoas que atiram irresponsavelmente a palavra «fascista» para todos os lados lhe atribuem, pelo menos, um significado emocional. Por «Fascismo» entendem, grosso modo, algo cruel, sem escrúpulos, arrogante, obscurantista, antiliberal e anti-classe trabalhadora. Com exceção do número relativamente pequeno de simpatizantes fascistas, quase qualquer inglês aceitaria «valentão» como sinónimo de «fascista». É isto, aproximadamente, o mais perto que esta palavra tão abusada chegou de uma definição.

Mas o Fascismo é também um sistema político e económico. Porque razão, então, não podemos ter uma definição clara e geralmente aceite? Infelizmente, não a teremos — pelo menos, não ainda. Explicar porquê levaria demasiado tempo, mas, basicamente, é porque é impossível definir satisfatoriamente o Fascismo sem fazer admissōes que nem os próprios fascistas, nem os conservadores, nem os socialistas de qualquer tendência estão dispostos a fazer. Tudo o que se pode fazer, por agora, é usar a palavra com um certo grau de prudência e não, como geralmente se faz, degradá-la ao nível de um palavrão.

1944

FIM

BD

George Orwell: «O que é o Fascismo?»

Publicado pela primeira vez: Tribune — Grã-Bretanha, Londres — 1944.

Reeditado em:

— The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell — 1968.

As ressonâncias do piano no cinema contemporâneo

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Frame de La Pianiste (2001)

Um(a) jovem ao piano, imerso(a) na interpretação de uma peça desafiadora. Qual é o nome do filme?

Essa é uma imagem frequentemente explorada na linguagem cinematográfica.

Buscaremos com esse texto oferecer algumas hipóteses para explicar essa recorrência, trazendo alguns exemplos emblemáticos e suscitando algumas análises sobre eles.

Esse ensaio parte de considerações sobre como o piano tem sido explorado em filmes recentes. Propomos a virada para o século XXI como ponto de partida para o recorte, embora títulos da segunda metade do século XX sejam explorados para ilustrar outras facetas do piano em cena. Mais do que um objeto cênico, esse instrumento é integrado como um importante elemento narrativo (podendo ser lido até mesmo como um agente narrativo).

É interessante inclusive que essas imagens persistam enquanto em muitos lugares é perceptível uma lenta (porém consistente) retração na presença dos pianos acústicos nas paisagens urbanas e em atividades onde antes era imprescindível. A alternativa de baratear produções (fonográficas, de espetáculos ou trilhas sonoras, por exemplo) com teclados eletrônicos ou instrumentos virtuais (controlados por MIDI) acaba deixando pouco competitivo esse móvel de fabricação e manutenção caros.

O piano segue sendo, no entanto, um instrumento ativo e representativo em várias tradições musicais. Num primeiro momento sua história esteve mais restrita à música de concerto europeia, onde sua mecânica foi desenvolvida numa simbiose com o repertório. Mas na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX ele foi muito relevante (e em alguns casos central) no desenvolvimento da música de salão na América, com muita força na América Latina. Pensemos nas danzas e nas polcas, mas também nos modernos gêneros do mambo (cubano) ou do choro (brasileiro). Podemos também lembrar de sua presença nos gêneros da música negra estadunidense, como ragtime, jazz, gospel e blues.

E se o piano resiste a sair de cena, no cinema ele parece encontrar um lugar de conservação de seu lugar nas tradições, mas também de ousadas ressignificações.

Lembremos que cinema, por sua própria etimologia — derivado do grego kínēma —, é ação, é movimento. E sabemos que a execução de qualquer instrumento musical exige uma coordenação complexa de movimentos corporais. Daqui decorre, portanto, uma primeira interpretação: o instrumento musical seduz a lente cinematográfica por integrar o som musical a uma ação visual, numa trilha sonora diegética (aquela que participa da narrativa e é ouvida pelos personagens)

A persistência dessa imagem não ocorre, no entanto, apenas pelo seu apelo visual — mesmo que, em sincronia com a música, ela ofereça um inequívoco potencial expressivo —, mas também pelos simbolismos que pode carregar.

LUCY E SCHROEDER: SEPARADOS POR UM PIANO

Antes de me referir a títulos do cinema contemporâneo, queria propor um pequeno passeio pelo universo de Peanuts. Conhecido amplamente em Portugal e no Brasil como “Snoopyou “Snoopy e Charlie Brown” (nome de dois dos seus principais personagens) — ou ainda como “Amendoim” ou “Minduim” em traduções e dublagens brasileiras —, Peanuts se originou nos anos 1950 com os quadrinhos do estadunidense Charles Schulz. Na década seguinte as histórias foram contadas também em animações: nos “especiais de TV” (em datas festivas como o Natal e o Halloween) e em filmes feitos propriamente para as salas de cinema.[1]

A construção dos personagens de Peanuts — que são, em sua maioria, crianças — é feita não apenas levando em conta neuroses, mas as colocando em primeiro plano. Essa angústia generalizada aflige até os animais, como no caso do cachorro Snoopy e do pássaro Woodstock.

Enquanto personagens como Charlie Brown e Lucy vagam por aquela cidade imaginária se deparando com novas situações (sempre um novo outro), o jovem Schroeder parece incompleto quando não está sentado diante de seu piano, que ele toca obsessivamente, inspirado pelo compositor alemão Ludwig van Beethoven, sua grande referência (a única alteridade que ele parece suportar, até porque já introjetada em sua própria subjetividade).

Frame de A Boy Named Charlie Brown (1969)

Lucy, por sua vez, parece também se sentir incompleta quando não está diante de Schroeder, disputando a atenção que ele parece querer reservar apenas ao seu piano. Ela busca ser objeto da atenção do amigo que não a nota. A atenção de Schroeder se mantém quase integral às notas musicais, principalmente àquelas escritas por Beethoven. Nelas ele parece buscar algo que há muito perdeu, mas que não sabe o que é e nem onde está.

A dinâmica desse par histérico-obsessivo sempre separado pela distância (física e emocional) de um piano é muito explorada pelos quadrinhos e animações de Peanuts, levando tanto a insights interessantes quanto a inflexões cômicas, como na cena clássica em que a tensão é levada ao limite e Lucy destrói o busto de Beethoven com um taco de beisebol.

Frame de Happiness Is a Warm Blanket, Charlie Brown (2011)

Nascido na Alemanha (76 anos depois da morte de Beethoven), o filósofo Theodor abordou de maneira recorrente — por exemplo em Filosofia da Nova Música) —, como parte da obra desse compositor (e a sua imagem em certo período) integra a estruturação de uma subjetividade burguesa (algo que o que autor considera que o Beethoven rompeu, ao menos esteticamente, em sua fase tardia). A abordagem adorniana de um repertório como a cristalização de conflitos (como o exemplo da forma-sonata, entendida como uma sedimentação das contradições da sociedade burguesa) também se estende aos conflitos internos do sujeito. Esse campo de forças sociais e psíquicas cristalizado num material musical pode estar simbolizado também nos personagens que vemos frequentemente imersos diante do teclado de seus pianos.

NAIR E MUNIZA: UM PIANO QUE CAI

Um exemplo extraordinário de um piano em cena carregado de simbolismo está em Das Tripas Coração, filme de 1982 da cineasta brasileira Ana Carolina que é o segundo título de sua assim chamada “triologia da condição feminina” (ou mesmo “triologia feminista”). A lente psicanalítica do cinema de Ana Carolina se volta para o inconsciente em seus filmes ambientados em uma atmosfera onírica.

No caso de Das Tripas Coração essa construção é reforçada pelo fato de se passar no sonho do personagem do Interventor, um agente estatal que está visitando um internato católico feminino. Incumbido de interditar aquela instituição que passava por crise financeira, o agente acaba caindo no sono esperando pelas professoras na sala de reunião. A maior parte do que se passa no filme ocorre em seus sonhos durante esse cochilo.

Um dos primeiros acontecimentos caóticos e repleto de alegorias sexuais é a tentativa de se fazer o transporte de um piano para dentro da escola. Os carregadores tentam a entrada por uma janela, acabam rompendo o vidro e o piano termina no chão do pátio. Um dos comentários vem da professora Renata (interpretada por Dina Sfat): “eu não sei como enfia uma coisa dessas dentro dum colégio”.

Frame de Das Tripas Coração (1982)

Porém são as professoras mais velhas, Nair (interpretada por Nair Bello) e Muniza (interpretada por Myriam Muniz) que, num dos primeiros diálogos do filme, discutem sobre o ocorrido num jogo de duplos sentidos — ora se referindo ao içamento do piano, ora enxergando a penetração sexual na tentativa de soerguer aquele objeto fálico e fazê-lo adentrar, pela reentrância de uma janela, as dependências do internato feminino:

– Eu nunca vi o negócio subir direito até lá em cima sem dar problemas.

– Mas o negócio nunca subiu?

– Bobona! Sem dar problemas não. Às vezes sobe, às vezes desce.

– Mas antigamente, como que as coisas grandes faziam? Subia ou não subia?

– Antigamente as coisas eram menores, Nair. E as pessoas faziam as coisas dentro de casa.

– Mas quem tinha piano, por exemplo, como é que fazia? Subia ou não subia?

– Só tinham piano os ricos, para casar as filhas.

– Coisa que você nunca fez…

– Ah, Nair, vá… Casar? Veja: eu sou uma mulher que se casou com a realidade.

Nesse diálogo, a curiosidade de Nair e o desencantamento de Muniza são forças que trabalham em sentidos opostos. Uma é como a roldana usada no içamento de um piano — inverte a força que o humano aplica para baixo, fazendo com que sua força em sentido terreno se reverta na elevação daquele objeto fálico. A outra é como a gravidade implacável que o faz descer. Num cenário desfavorável à primeira, o piano terminou espatifado no pátio da escola, tendo suas pernas rompidas no trauma com o concreto do chão da realidade bruta com que Muniza se casou. Dentro dessa realidade a professora se ancora na materialidade, quando menciona a dimensão social (classe e gênero) envolvida no circuito econômico dos pianos domésticos, o que ressoa com as formulações de Adorno sobre a música e a subjetividade burguesas forjadas no Romantismo.

RESSONÂNCIAS, CONSONÂNCIAS E DISSONÂNCIAS NO CINEMA EUROPEU CONTEMPORÂNEO

Nos distanciando do piano que mergulha no concreto e do cinema de Ana Carolina que imerge no inconsciente em que aquele piano habita como objeto, podemos pensar num outro simbolismo: a imagem do piano como uma representação do próprio inconsciente, ou da totalidade do aparelho psíquico. É o ego de um Schroeder que se debruça sobre suas teclas tentando organizar as dissonâncias de seu mundo interno e externo, de forma análoga à ação da música em ordenar ou racionalizar (num sentido sociológico, não psicanalítico) o tempo e os sons da natureza, como proposto pela sociologia da música de Weber.

É um gesto muito semelhante ao que observamos em filmes europeus recentes como Me Chame Pelo Seu Nome (no original Call Me By Your Name, filme italiano de 2017 dirigido por Lucas Guadagnino) e Anatomia de uma queda (Anatomie d’une chute, filme francês de Justine Triet lançado em 2023).

Nesse segundo, temos no personagem de Daniel uma criança que parece buscar no piano consonâncias quando essas parecem escassas em seu mundo. As dissonâncias que o afligem não são poucas: a morte repentina de seu pai (Samuel), a investigação que coloca a sua mãe (Sandra) como principal suspeita de homicídio (determinando inclusive que ela viva afastada dele durante o processo) e a sua baixa visão, comprometida por um acidente do qual sua mãe culpava seu pai. O repertório demarca as diferentes funções desse piano na estrutura narrativa: As inserções de Daniel tocando o prelúdio conhecido por Asturias (Leyenda) do compositor espanhol Isaac Albéniz. As diferentes etapas de desenvolvimento do personagem e da narrativa são representadas na evolução do estudo dessa peça por Daniel. O Prelúdio n° 4 de Chopin é outro marcador desse desenvolvimento, por exemplo na cena e que Daniel e Sandra o executam a três mãos, simbolizando uma reconciliação dos dois e um reposicionamento de Daniel frente à contenda vivida no tribunal.

Já em Me Chame Pelo Seu Nome, o jovem protagonista Elio manipula o material musical através de transcrições (tanto no sentido de escrever as obras na pauta a partir de gravações quanto no de rearranjá-las, como ele faz com peças para violino de Bach e Paganini). Seu desejo ressoa naquele material a partir de seus arranjos e interpretações, algo que ele explicita na sequência com Oliver que iremos abordar. É Oliver (esse estrangeiro e o outro da narrativa) quem surge na trama e desestabiliza a organização interna de Elio, despertando o seu desejo e suscitando um rearranjo de sua própria sexualidade.

Frame de Call Me By Your Name (2017)

A sequência que mencionamos começa com Elio concentrado, com seus fones de ouvido, transcrevendo algo na pauta. Na cena seguinte, ele está sentado num banco próximo a Oliver (que está se banhando de sol no gramado), dedilhando um violão (performando distração, mas aparentando querer ser notado). Elio desperta a atenção do visitante e o convida para o salão onde mostra, ao piano, a reelaboração que está desenvolvendo da Aria di Postiglione, quarto movimento do Capriccio sopra la lontananza del suo fratello dilettissimo (Capricho sobre a partida de um irmão querido), uma obra de e Johann Sebastian Bach escrita originalmente para o cravo. Oliver questiona as modificações no material, que Elio justifica como um exercício de imaginar como Franz Liszt interpretaria a obra. Oliver estranha a diferença para a transcrição para o violão que escutou no gramado. Elio toca então outra versão no piano, como imagina que Ferruccio Busoni interpretaria a obra baseando-se na hipotética versão de Liszt, no que Oliver indaga: “And what is wrong with Bach, the way Bach would have played Bach’s version?” [E o que há de errado com Bach, com a maneira como ele teria tocado a própria versão?].

O gesto da transcrição musical de Elio pode sugerir, nesse sentido, uma representação de seu desejo de decodificar essa outridade que passa a habitar seu mundo interno e externo, além de reimaginar e transformar essa realidade como ele faz com seu material musical: resolvendo as dissonâncias de seus conflitos pessoais. É nesse emaranhado de fluxos do material musical — que vai da gravação à pauta e dela para o violão, depois aparecendo no piano sob uma forma e já sendo reapresentada em outra perspectiva — que Elio coloca o seu desejo e reelabora/reinterpreta a sua própria realidade. Oliver ao questioná-lo e instigá-lo a interpretar o texto musical original, põe em xeque essa fantasia. É um contraponto que parece operar na oposição entre a fantasia e a realidade, algo presente também no diálogo entre Nair e Muniza, em Das Tripas Coração.

Assim como em Me Chame Pelo Seu Nome, o piano ocupa um lugar central na subjetividade (com muito foco na sexualidade) da protagonista de A Professora de Piano (La Pianiste, de 2001, escrito e dirigido pelo austríaco Michael Haneke). Erika é uma pianista profissionalmente frustrada, dividida entre a docência no Conservatório de Viena e apresentações nos salões das casas de burgueses (sinalizando que não está conseguindo realizar performances nas salas de concerto). O contexto profissional traz outra dimensão a interpretação do repertório de compositores como Schubert e Schumann, abordados também com bastante densidade em sua conexão com outros elementos da narrativa.

A rigidez da personagem em sua atuação profissional condiz com o rigor que esse repertório representa em seu campo simbólico: a castra da mesma forma que a sua mãe dominadora, com quem Erika vive uma relação profundamente ambivalente e adoecida. A pianista se desvia dessas ameaças de castração com as dinâmicas de sua estrutura perversa, o que a leva ao dilema da realização de suas fantasias masoquistas com Walter, seu aluno.

O PIANO NA CULTURA E A CULTURA NO PIANO

São inumeráveis os exemplos de piano em cena no cinema europeu, mesmo pensando nesse recorte do século XXI. Para além dos simbolismos e do apelo musical e visual do piano em cena, podemos entender essa recorrência por uma outra chave: a da mobilização da identidade cultural. Esse conceito se sustenta, por exemplo, nas formulações de Stuart Hall[2] (em suas obras publicadas pelo autor jamaicano na década de 1990), que defende as identidades culturais são produzidas por sistemas de representação simbólicas a partir da oposição, ou seja: na delimitação da fronteira entre “nós” e os “outros”. Nesse movimento, elementos atribuídos a essa cultura podem ser eleitos e mobilizados como símbolos de representação e defesa de uma identidade cultural.

É na esteira desse processo que entendemos uma possível interpretação para essa recorrência do piano no cinema europeu. Através dele é representada e valorizada essa tradição cultural que passa pelo repertório (da música de concerto europeia) e pelo próprio desenvolvimento técnico do instrumento, que passou a ocupar nessa tradição um lugar de referência para parâmetros como afinação, dinâmica, polifonia e harmonia. Portanto, o piano em cena acaba por reforçar e propagandear essa identidade cultural através da valorização desse símbolo, associando-o (de forma muito interessada), em alguns casos, à sensibilidade e a um equilíbrio entre a razão (a disciplina da técnica, o rigor do texto música) e a paixão (emoção expressa na obra e na interpretação).

Poderíamos fazer um distanciamento e pensar na recorrência do violão no cinema brasileiro, algo muito comum, por exemplo, em produções das décadas de 1940 a 1960, ligada a representação de gêneros como o samba, o samba-canção e a bossa nova (e, em menor medida, o baião e o choro). Nesse contexto, o violão é também mobilizado como símbolo de uma identidade cultural (no caso, a brasilidade).

O violão e a guitarra elétrica aparecem também com essa função no cinema estadunidense, suscitando o imaginário da americana através de gêneros como blues, country, folk, jazz e rock). E embora o piano também seja comum nesse contexto, é interessante notar o que em muitos momentos é ele mesmo o outro: em vários casos, o piano pode estar lá como um símbolo da herança cultural europeia.

Um exemplo é a relação ambivalente que Bobby Dupea, protagonista de Cada um Vive como Quer (no original Five Easy Pieces, de 1970, dirigido por Bob Rafelson) cultiva com o repertório do piano de câmara e concerto do qual ele fora na juventude um intérprete promissor, mas que abandonou numa recusa ao que aquilo representava em termos de tradição cultural: tanto os valores burgueses quanto na dimensão mais pessoal de sua relação conturbada com sua família. Outro exemplo é o nosso Schroeder de Peanuts com sua fixação por Beethoven. Mas essa oposição pode ser provocada em outros termos, como em La La Land (de 2016, dirigido por Damien Chazelle), em que o piano do jazz e dos musicais hollywoodianos das décadas de 1940 e 1950 é colocado em contraposição ao piano elétrico e sintetizadores do pop e do jazz fusion (no caso um movimento de superação dialética entre tendências internas da música norte americana).

CODA

Com esse texto oferecemos algumas reflexões sobre a imagem do piano no cinema. Propomos enxergar (e escutar) esse objeto não só como instrumento musical, mas também um objeto cênico e símbolo cultural. Além de abordar música e cinema, mas também preocupados com temas como o patrimônio e a memória. Pois na vida somos todos Nair ou Muniza, as professoras veteranas do internato de Das Tripas Coração, antagonizadas nesse diálogo com o qual encerramos esse ensaio:

– Voltando à vaca fria: a minha mãe era uma mulher muito jeitosa, muito tradicional, adorava costurar. Nós éramos cinco filhos — quatro rapazes e uma moça, que era eu. Eu era a caçulinha da família. Mas nunca fui levada à estudar piano, sabe?

– Eu detesto piano, teclados em geral, e pra mim não me interessa a história da tua mãe!

  1. E por falar em Peanuts e piano, os temas instrumentais de Vince Guaraldi para as animações são um patrimônio incontestável em termos de trilha sonora, sendo um forte elemento dessas obras audiovisuais, além de ser uma grande referência tanto para os jazzistas quanto para os compositores de trilha sonora.
  2. Assim como outros autores dos estudos culturais pós-coloniais têm uma contribuição relevante nesse sentido, ao exemplo do palestino Edward Said.

From Street to Screen: Internet Youth Slang and Decline of Vernacular Creativity

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This essay argues that contemporary youth slang is fundamentally shaped by internet-based environments and differs structurally, socially, and cognitively from earlier forms of street-based slang grounded in face-to-face interaction. Whereas traditional slang emerged from localized, ephemeral, and embodied social contexts—often tied to class, territory, and subcultural identity—modern youth slang is primarily mediated through digital platforms and screens. This shift has produced a form of vernacular expression that is more globally distributed, more intertextual, and paradoxically more static despite its rapid circulation. The essay explores how internet slang tends towards reflexivity, irony, and meta-commentary, rendering it more “nerdish” in orientation than street slang, which relied on physical presence, risk, and lived social struggle. Finally, it examines how the scale and persistence of digital communication contribute to a form of linguistic arrested development, in which slang remains culturally omnipresent yet semantically exhausted.

Alison Luchs, curadora de Early European Sculpture e Deputy Head of Sculpture num video promocional para a National Gallery of Art, em Janeiro de 2026.

Youth slang has historically functioned as a privileged site for observing linguistic change, social differentiation, and cultural innovation. As a form of non-standard language, it has been closely associated with generational identity, informal social networks, and processes of inclusion and exclusion.

For much of the twentieth century, the study of youth slang implicitly assumed a spatial and social grounding in face-to-face interaction. Slang was understood as emerging from concrete social environments—streets, neighbourhoods, schools, workplaces—and as being shaped by the immediacy of embodied interaction.

Over the past three decades, however, the social conditions under which youth language develops have been profoundly transformed. The increasing centrality of digital technologies in everyday life has altered patterns of socialisation, communication, and cultural transmission. For contemporary youth, a substantial proportion of interaction occurs through screens rather than in shared physical spaces. This shift has significant consequences for the production, circulation, and function of slang.

This essay advances the argument that modern youth slang is not merely an updated version of earlier street-based vernaculars, but a qualitatively distinct linguistic formation. It contends that contemporary slang is primarily internet-mediated, structurally shaped by digital platforms, and cognitively oriented toward textual, referential, and meta-linguistic forms of play. As a result, it differs markedly from earlier forms of street slang that were grounded in embodied social interaction, local experience, and material conditions.

A central claim of this paper is that internet-based youth slang exhibits a paradoxical combination of expansion and stagnation. On the one hand, it incorporates an unprecedented range of contributors, references, and semiotic resources, drawing from global online cultures. On the other hand, it lacks the ephemerality and rapid renewal that once characterised slang, resulting in a form of linguistic persistence that borders on cultural inertia. This condition is further reinforced by the permanence of digital archives and the algorithmic dynamics of online platforms.

We also introduces the notion that contemporary slang is “nerdish” in orientation. This term is used analytically to describe a shift away from physically situated, risk-laden social environments toward cognitively mediated, technically coded spaces associated with computing, gaming, and online subcultures. Rather than emerging from lived social struggle or territorial belonging, much modern slang arises from engagement with symbolic systems, interfaces, and rule-based environments.

By comparing street-based and internet-based slang across social, cognitive, and structural dimensions, our argument aims to clarify how changes in media ecology reshape vernacular creativity. In doing so, it situates youth slang as a revealing index of broader transformations in social life under conditions of digital mediation.

Slang, Social Function, and Ephemerality

Slang has traditionally been distinguished from other forms of informal language by its strong association with social function rather than communicative necessity. Unlike dialect or sociolect, which may persist across generations, slang is defined by its volatility. Its social value depends on novelty, restricted circulation, and contextual specificity. Slang operates as a symbolic resource for marking group membership, signalling shared experience, and negotiating social boundaries. As such, a defining characteristic of slang, historically, has been its ephemerality. Slang terms emerge, circulate briefly within a limited social network, and then disappear or lose their expressive force once they become widely known. This cycle of emergence and obsolescence is not incidental but constitutive of slang’s social role. A slang term that becomes stable or institutionalised ceases, by definition, to function as slang.

This ephemerality is closely tied to the conditions of transmission. In pre-digital contexts, slang circulated primarily through speech, gesture, and immediate interaction. It relied on shared physical presence and situational context. Meaning was often implicit, negotiated through tone, timing, and embodied cues. As a result, slang resisted standardisation and documentation. It was difficult to extract from its social environment and therefore difficult to preserve. The social function of slang was thus inseparable from forgetting. Slang thrived precisely because it was not recorded, archived, or formally taught. Each generation of speakers reinvented its own vernacular repertoire, often in conscious opposition to the linguistic practices of previous cohorts. Linguistic innovation was driven by the need to remain socially distinct.

Digital environments disrupt this logic. Online communication systems favour permanence, visibility, and replication. Once a slang term appears online, it is immediately subject to documentation, citation, and reuse. Screenshots, databases, and memes transform what was once fleeting into something persistent. The traditional relationship between slang and forgetting is thereby weakened. This transformation has profound implications. When slang ceases to disappear, it ceases to renew itself under the same pressures. Instead of being replaced, terms accumulate. The result is a linguistic environment characterised less by rapid innovation than by sedimentation. What appears as constant novelty often masks a deeper continuity of forms.

Street Slang and Embodied Interaction

A cena “I Speak Jive” do filme Aeroplane, 1980, David Zucker, Jim Abrahams, e Jerry Zucker.

Street-based slang developed within social environments defined by physical co-presence, immediacy, and risk. It emerged in contexts where individuals shared not only language but space, routines, and material conditions. Urban neighbourhoods, informal youth groups, and working-class communities provided fertile ground for vernacular innovation precisely because they demanded constant social negotiation. In such environments, slang was inseparable from embodied interaction. Words were spoken, heard, misheard, challenged, and modified in real time. Meaning was not fixed but contingent on situation, speaker, and audience. Tone, posture, facial expression, and timing were integral to linguistic effectiveness. Slang was therefore performative as much as semantic. And learning street slang required immersion: it could not be acquired solely through observation or imitation at a distance. One had to participate, to listen closely, and to accept correction or ridicule. Incorrect usage was not merely a linguistic error but a social failure, potentially signalling outsider status or lack of competence. This gave slang a disciplinary function within social groups.

Street slang was thus also closely tied to material realities. It often encoded experiences of work, conflict, surveillance, leisure, and spatial control. Vocabulary reflected the immediacy of lived conditions, drawing on metaphor and compression to articulate shared experiences efficiently. Linguistic creativity emerged from necessity and proximity rather than from abstract play. Crucially, street slang was subject to constant pressure to change. Because it circulated within relatively small networks, its expressive value depended on exclusivity. Once a term spread beyond its original context, it lost its function and was abandoned. This process ensured continual renewal and prevented stagnation. The disappearance of street slang was therefore a sign of vitality rather than failure. Its lifecycle mirrored the social dynamics that produced it: shifting alliances, changing environments, and the passage of time. In contrast to digital slang, which persists through archiving, street slang survived only as long as the social conditions that sustained it.

The Internet as a Linguistic Environment

The internet is not merely a neutral channel through which language passes; it constitutes a distinct linguistic environment with its own structural constraints, affordances, and norms. These conditions shape not only how language is transmitted but also what kinds of language are likely to emerge, stabilise, and gain social value. Modern youth slang must therefore be understood as a product of this environment rather than as a simple extension of earlier vernacular traditions.

One of the most significant features of digital environments is their reliance on written interaction. Although audio and video communication have become increasingly prominent, much of internet slang originates and circulates in textual form. Written language online differs fundamentally from both spoken language and traditional writing. It is informal yet persistent, spontaneous yet archived, conversational yet detached from physical co-presence. These characteristics profoundly alter the dynamics of linguistic innovation.

Another defining feature of the internet as a linguistic space is asynchronicity. Online interaction often occurs with temporal delays, allowing users to compose, revise, and curate their linguistic output. This stands in sharp contrast to face-to-face interaction, where speech is produced under immediate social pressure. The reduced risk of immediate sanction encourages experimentation but also favours replication over improvisation. Users are more likely to repeat established forms that are recognisable and socially validated. Anonymity and pseudonymity further distinguish internet communication from street-based interaction. Online, linguistic expression is frequently detached from stable personal identity. This weakens the link between language and reputation, reducing the social cost of misuse. At the same time, it encourages forms of slang that prioritise symbolic alignment with a community rather than personal credibility or lived experience.

Finally, the architecture of digital platforms exerts a powerful influence on language. Character limits, moderation systems, upvote mechanisms, and algorithmic recommendation all shape what kinds of expressions are visible and rewarded. Slang that is easily recognisable, easily replicable, and easily indexable is more likely to spread. Slang that depends on subtlety, tone, or embodied context is disadvantaged. In this sense, internet-based youth slang is not simply spoken slang transferred online. It is a linguistic form adapted to the logic of platforms, screens, and data-driven visibility.

The “Nerdish” Orientation of Digital Slang

The aforementioned proposed characterisation of modern internet slang as “nerdish” reflects a broader cultural shift in the sources of symbolic capital among youth. Whereas earlier forms of slang often emerged from environments associated with physical toughness, social risk, or marginality, contemporary slang frequently originates in spaces defined by technical competence, cultural literacy, and abstract play.

This “nerdish” orientation manifests itself in several ways. First, it is evident in the dominance of irony and meta-commentary. Much internet slang does not aim to describe reality directly but to comment on discourse itself. Expressions are often used with layers of detachment, signalling awareness of their own artificiality. Meaning is generated through reference rather than through direct social experience. Second, digital slang often presupposes familiarity with systems rather than situations. Competence is demonstrated by knowing how platforms work, how memes evolve, or how in-group humour functions. This stands in contrast to street slang, where competence was demonstrated through appropriate use in high-stakes social contexts. Third, the nerdish character of internet slang reflects the environments in which it is produced. Forums, gaming communities, and fandom spaces have long valued analytical skill, encyclopaedic knowledge, and technical fluency. The slang that emerges from these spaces reflects those values. It is playful but cerebral, ironic rather than confrontational, recursive rather than improvisational.

Importantly, this orientation does not imply a lack of creativity. On the contrary, internet slang exhibits high levels of linguistic play. However, this play is largely self-referential. It operates within closed symbolic systems rather than drawing continuously on changing social realities. As a result, it risks becoming detached from material life.

Computer, Forum, and Videogame-Coded Slang: An Expanded Analysis

The structural dependence of modern youth slang on computing and digital culture becomes unmistakable when its dominant metaphors and lexical sources are examined in detail.

A significant portion of contemporary slang derives directly from computer operation. Human behaviour is described using terms originally designed for machines. Individuals are said to be “lagging,” “buffering,” or “glitching.” Emotional states are framed as system errors or performance issues. These metaphors presuppose a worldview in which human experience is understood through the lens of computational efficiency and malfunction. Forum culture contributes a second layer of coding. Online discussion spaces produce a vocabulary oriented toward textual position rather than social role. Terms such as “original poster,” “thread,” “reply,” “bait,” and “troll” describe functions within a discursive system. Social interaction is conceptualised as movement within a structured textual environment, governed by visibility, moderation, and response metrics. Videogame culture provides perhaps the most influential source of contemporary slang. Gaming terms conceptualise life as a system of rules, scores, and optimisation strategies. To “grind” is to repeat tasks for incremental gain; to follow the “meta” is to adopt the statistically optimal strategy; to be an “NPC” is to lack agency or originality. These expressions frame social existence as a game environment rather than a lived social field.

Even personal identity is increasingly articulated through gaming and narrative metaphors. Individuals speak of “builds,” “playstyles,” or “main character energy.” Failure is attributed to “skill issues,” and disengagement is framed through injunctions to “touch grass,” implying a contrast between digital immersion and physical reality. These forms of slang do not merely circulate online; they are unintelligible without prolonged immersion in digital environments. They encode a way of thinking shaped by interfaces, systems, and abstract rule sets. This marks a decisive departure from street slang, which encoded social realities directly rather than modelling them through technical metaphors.

Scale Without Renewal, Arrested Development and Cultural Stasis

One of the defining features of internet-based slang is its unprecedented scale. Digital platforms enable expressions to reach millions of users almost instantaneously. This scale creates the impression of constant innovation and linguistic abundance. However, scale alone does not guarantee renewal.In practice, large-scale circulation often favours repetition. Visibility rewards recognisability. Expressions that are already familiar are more likely to be reused, remixed, and amplified. As a result, certain slang terms become dominant far beyond their initial moment of relevance. Unlike street slang, which was constrained by locality and therefore forced to renew itself, internet slang operates in an environment of abundance. There is no immediate social penalty for overuse. Terms linger, accumulate, and overlap. The linguistic environment becomes dense rather than dynamic. This produces a paradoxical situation in which youth slang appears hyperactive on the surface but static at a deeper level. New contexts are continually attached to the same limited repertoire of expressions. Innovation occurs through recombination rather than replacement.

Moreover, the persistence of internet slang contributes to a broader phenomenon of arrested linguistic development. Because digital spaces collapse generational boundaries, slang is no longer tied clearly to specific life stages. Expressions associated with adolescence remain in circulation well into adulthood. Besides, much internet slang relies on deliberate simplification, absurdity, or infantilisation. Baby talk, exaggerated misspellings, and repetitive constructions are deployed ironically, yet their constant use normalises regressive forms of expression. Irony does not neutralise effect; repeated ironic usage still shapes linguistic habit. In earlier contexts, slang naturally aged out. As individuals transitioned into new social roles, their linguistic practices shifted accordingly. Online, this transition is blurred. Users remain embedded in the same platforms, exposed to the same linguistic forms, regardless of age. The result is not immaturity in any straightforward sense, but a flattening of linguistic development. Slang ceases to mark transition and instead becomes ambient.

Epilogue: Permanence and the End of Ephemerality

Perhaps the most consequential difference between street-based and internet-based slang lies in the role of memory. Street slang depended on forgetting. Its disappearance was integral to its function. Internet slang, by contrast, is preserved. Digital archives ensure that slang remains accessible indefinitely. Memes resurface years after their emergence. Expressions are revived without reference to their original context. Forgetting, once a structural feature of slang, becomes difficult. This permanence alters the relationship between language and time. Slang no longer signals the present moment so much as a shared archive of recognisable forms. It becomes a cultural resource rather than a living practice. As a result, the expressive edge of slang is dulled. When everything remains available, nothing is fully new.

In conclusion, modern youth slang represents a fundamental reconfiguration of vernacular creativity. It is shaped less by streets and more by screens, less by embodied interaction and more by abstract systems. Its internet-based character is evident not only in its mode of transmission but in its metaphors, logic, and social function. While contemporary slang draws on an unprecedented range of contributors and references, it lacks the ephemerality that once drove rapid renewal. Its nerdish orientation reflects the environments from which it arises: computing, gaming, and online discourse. These environments favour recognition over improvisation and persistence over disappearance. Understanding this shift requires recognising that internet slang is not simply younger, faster, or more playful. It is structurally different. It reflects a world in which social life is increasingly mediated, archived, and optimised. Youth slang thus becomes a revealing indicator of broader transformations in culture, cognition, and sociality in the digital age. This has obvious consequences that extend beyond the social interaction realms, for cognitive functions are closely interlinked with those. Time will tell how these possibly categorically different modes of communication can in fact represent different modes of culture.

Os relógios de Stranger Things

Stranger Things é uma série de ficção científica criada por Matt e Ross Duffer e produzida pela Netflix, cuja estreia ocorreu a 15 de Julho de 2016, com a narrativa situada na cidade fictícia de Hawkins, Indiana, na década de 1980. Na série é acompanhado um grupo de crianças e adolescentes confrontados com fenómenos inexplicáveis, experiências científicas secretas e uma dimensão paralela conhecida como Upside Down.Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria.

Desde a primeira temporada, a série construiu uma identidade própria, onde se cruzaram referências da cultura popular dos anos 1980 com uma mitologia progressivamente mais complexa. A quarta temporada estreou em 2022.

Embora Stranger Things não seja uma obra sobre relojoaria ou ciência do tempo no sentido técnico, o tempo ocupa um papel estrutural na narrativa. Nas primeiras temporadas, o tempo surge como tempo quotidiano, marcado por horários escolares, rotinas familiares e ciclos normais da vida suburbana americana. Esse tempo “normal” contrasta com o Upside Down, um espaço onde a progressão temporal parece suspensa ou fixada num instante do passado.

Por outro lado, a explicação da relação entre o Upside Down e o mundo “normal” remete para a teoria dos buracos de minhoca formulada por Albert Einstein e Nathan Rosen em 1935, conhecida como ponte de Einstein–Rosen, que descreve matematicamente a possibilidade de ligações entre regiões distintas do espaço-tempo através de atalhos teóricos previstos pela relatividade geral.

Natalia Dyer no papel de Nancy Wheeler em STRANGER THINGS frente ao relógio de coluna.  Crédito: Cortesia da Netflix © 2022

Na quarta temporada, o tempo passa de pano de fundo a tema explícito. O vilão Vecna associa-se directamente a um relógio de coluna, que surge como sinal de perigo iminente. Este relógio não mede o tempo; simboliza-o como algo inevitável, opressivo e ligado à memória traumática. Os próprios criadores da série confirmaram em entrevistas que este relógio constitui uma parte central do mistério da temporada.

Assim, ao longo da série, o tempo evolui de simples enquadramento narrativo para força activa, com impacto directo no destino das personagens.

Existem vários significados por detrás da aparição do relógio de caixa alta junto das vítimas de Vecna em Stranger Things, temporada 4. Um dos primeiros elementos desta temporada a ser revelado ao público foi precisamente o relógio de caixa alta (ainda em 2020), embora ninguém tivesse percebido o que a equipa de marketing pretendia comunicar com a sua presença nos vários teasers. Infelizmente para os habitantes de Hawkins, acabou por se revelar uma espécie de assinatura de Vecna, o novo vilão da quarta temporada.

Demogorgon

Vecna não é um monstro como o Demogorgon ou o Mind Flayer, nem está interessado em Eleven ou nos seus poderes. Trata-se antes de um humanoide, uma espécie de feiticeiro sombrio, que utiliza as suas capacidades para formar uma equipa, à semelhança do que o Mind Flayer fez em Stranger Things, temporada 2, com os Demodogs. Contudo, há mais par saber do que apenas isso: Vecna não escolhe as suas vítimas ao acaso, nem as mata quando lhe apetece. O seu modo de actuação revela-se meticulosamente calculado, começa por atacar as pessoas a nível psicológico, seguindo-se as visões, antes de as arrastar para o seu domínio.

Vecna começa por atingir as suas vítimas através de dores de cabeça intensas, depois surgem hemorragias nasais e, por fim, visões relacionadas com traumas do passado. No caso de Max, essas visões materializam-se em Billy, que morreu durante a Batalha de Starcourt.

Antes de Vecna reclamar as suas vítimas, surge sempre a visão de um relógio de caixa alta, que funciona como um aviso de que lhes resta menos de um dia de vida.

Max percebeu o padrão temporal e concluiu que Chrissy e Fred (e, mais tarde, Patrick) morreram todos no prazo de 24 horas após a primeira visão. Este facto enquadra-se ainda na obsessão de Henry Creel com a ordem do mundo e na ideia de que o tempo — segundos, minutos, horas — constitui uma imposição artificial sobre a natureza.

De certa forma, foi o tempo que alimentou o seu ódio pela humanidade.

Recordação de Henry Creel no 7º episódio da 4ª temporada

Uma teoria recorrente sugere que o relógio de caixa alta poderá funcionar como uma passagem para o Upside Down. Em Stranger Things, temporada 4, o relógio surge no interior da Casa Creel e chega mesmo a rachar (ou a partir-se por completo) nos trailers, o que sugere uma função mais profunda.

Na quinta temporada, contudo, não é estabelecido canonicamente que o relógio de caixa alta funcione como uma passagem literal para o Upside Down. O relógio mantém-se como símbolo narrativo associado a Vecna, ao trauma e à manipulação do tempo, mas não é revelado como portal físico ou mecanismo dimensional autónomo. A ideia do relógio enquanto passagem permanece, assim, no domínio da leitura simbólica e das teorias dos fãs, sem validação explícita na narrativa final.

Directora de adereços de Stranger Things

Num artigo publicado pela Hodinkee em 2020, o jornalista Danny Milton entrevistou Lynda Reiss, Prop Master responsável pelos adereços de True Detective e das primeiras temporadas de Stranger Things. A conversa revela como os relógios de pulso, longe de serem acessórios neutros, desempenham um papel subtil mas decisivo na construção das personagens e da atmosfera da série.

“Enquanto Prop Masters, ajudamos a estabelecer o lugar socioeconómico da personagem e o seu estado emocional. Há uma grande diferença entre dizer e mostrar — e mostrar é sempre melhor. Um relógio é um exemplo perfeito disso. Se a câmara sobe e a personagem usa um IWC, um Rolex ou um Omega, o espectador percebe imediatamente o seu nível económico. Se, pelo contrário, usa algo preso com fita-cola, isso diz-nos outra coisa. É esse tipo de camadas que temos de construir.”

Segundo Reiss, a escolha de um relógio ajuda a definir o contexto social, económico e emocional de cada personagem. Um modelo simples ou gasto comunica imediatamente uma realidade diferente de um relógio caro ou ostensivo. Em Stranger Things, esta lógica foi aplicada com especial cuidado, uma vez que a série decorre no início da década de 1980 e exigia coerência cronológica rigorosa.

Barb, de Stranger Things, a usar um Swatch branco. Reiss adquiriu vários exemplares deste relógio para utilização na produção.

“O problema surge quando um actor tem um acordo externo de product placement. Ouvimos coisas como ‘tenho de usar este relógio’, e eu respondo: ‘Está bem, mas a sua personagem é um argumentista falido e desempregado — não faz sentido andar com um relógio de 10.000 dólares’. Às vezes é preciso escolher bem as batalhas.”

A Prop Master explica que a primeira temporada se situa em 1981, período em que muitos relógios hoje associados aos anos 80 — como as Swatch ou certos digitais — ainda não estavam amplamente disponíveis. Por esse motivo, foi necessário evitar anacronismos e recorrer a modelos coerentes com a transição entre os anos 1970 e 1980. Ainda assim, personagens como Barb usaram um dos primeiros Swatch, justificados por uma construção narrativa específica: filha única, protegida e com acesso às novidades do consumo juvenil da época.

As crianças da série usaram sobretudo relógios digitais e calculadora, de marcas como Casio ou Timex, escolhidos pela sua verosimilhança histórica.

Reiss admite, porém, que estes relógios criaram dificuldades práticas durante as filmagens, devido a alarmes e botões accionados inadvertidamente, obrigando muitas vezes à remoção das pilhas.

Entre os adultos, destaca-se o Timex Atlantis TW2V51000 usado pelo Sheriff Hopper, um relógio utilitário com bússola integrada, coerente com o carácter pragmático e funcional da personagem.

O artigo sublinha que, em Stranger Things, os relógios não servem para chamar a atenção do espectador, nem funcionam como product placement. Pelo contrário, integram-se silenciosamente na narrativa, reforçando a credibilidade do universo ficcional e ajudando a contar a história sem palavras.

Edições especiais de relógios Stranger Things

Para além dos relógios que surgem em cena, o universo de Stranger Things deu origem a edições especiais de relógios licenciadas, lançadas posteriormente por marcas de grande difusão. Estes modelos não correspondem, regra geral, aos relógios usados pelas personagens, mas assumem-se como interpretações contemporâneas da estética da série e da cultura material dos anos 1980.

Em Junho de 2022, a Timex apresentou uma colecção cápsula em colaboração com Stranger Things, assumindo de forma explícita a estética e o imaginário dos anos 1980 que definem a série da Netflix. A parceria surge como um exercício natural de nostalgia, num contexto em que a relojoaria contemporânea revisita frequentemente o seu próprio passado.

Timex Atlantis (ref. TW2V51000)

Ambientada, como vimos, nos anos 80, Stranger Things tornou-se uma referência visual dessa década, cruzando ficção científica, terror e cultura juvenil, com uma linguagem cinematográfica que evoca E.T. e The Goonies. É precisamente esse universo que a Timex transpõe para esta colecção, recuperando três modelos históricos do seu catálogo oitentista: o Timex Camper, o Timex T80 e o Timex Atlantis.

Timex Expedition – edição especial Stranger Things

Segundo Shari Fabiani, vice-presidente sénior de Brand Marketing da Timex, esta colaboração junta duas marcas de culto numa cápsula profundamente ligada ao momento cultural actual, e recupera assim uma das décadas mais expressivas do século XX através de design intemporal e narrativa visual.

Os três relógios incorporam grafismos e referências visuais da série, incluindo detalhes associados ao Upside Down. O Timex Camper, modelo analógico de inspiração militar usado pela personagem Lucas Sinclair, integra uma iluminação INDIGLO® com imagem oculta. Os modelos digitais T80 e Atlantis, ambos lançados originalmente no início dos anos 1980, apresentam um alarme personalizado com a melodia de Stranger Things.

Cassio DW-5600 e o AQ-800

A Casio, por sua vez, apresentou edições temáticas baseadas em modelos clássicos da sua linha Vintage, como o DW-5600 e o AQ-800, adaptados com pormenores gráficos e inscrições alusivas a Stranger Things. Estes relógios mantêm integralmente a arquitectura técnica dos modelos originais, distinguindo-se apenas pela linguagem visual e pela embalagem especial.

A colecção Timex × Stranger Things foi lançada em três versões em 2022 — Camper (40 mm), T80 (34 mm) e Atlantis (40 mm) — todas com um preço de 89 dólares, posicionando-se como uma edição acessível, comemorativa e claramente orientada para fãs da série e da estética retro.

Edição: Janeiro 2026

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Novus Ordo Seclorum: coberto vegetal e incêndios rurais, Michel Lacroix: o mal, guerra económica: caju de Moçambique, superficial fascism vs state capture, o pogrom de Bagdade, a africanização da guerra colonial, androginia em David Bowie, a trégua de 1914, D. Pedro e a defesa dos pobres, descrição do povoado medieval, tipologia do coleccionador, o modelo de Pickman, dial of destiny.

ENSAIO

Relação entre o coberto vegetal e incêndios rurais: o Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022

Sobre a evolução do coberto vegetal ao longo dos anos e se esta tem relação direta com a suscetibilidade de ocorrência de incêndios rurais, procurando apresentar medidas de mitigação aos incêndios rurais no incêndio de Vila Mendo de Tavares (Mangualde), relacionando a problemática de estudo com fatores como a severidade de incêndio e as alterações climáticas.

Guerra Económica: Caju de Moçambique!

Sobre a transição de Moçambique de uma economia socialista para uma economia de mercado, na década de 1990, influenciada pelas políticas e programas de ajuste estrutural ou Programas de Reabilitação Económica (PRE), focando na influência da guerra económica no sector do caju.

O Mal, Michel Lacroix: leitura comentada

Como a ideologia do regime iraniano torna inevitável a sua ambição nuclear, legitima as ações militares de Israel e dos EUA como auto‑defesa e sustenta que esses ataques foram decisivos para travar a proliferação nuclear e conter uma ameaça regional.

The Fallacy of Superficial Fascism: The Real Danger Lies in State Capture

On how the fixation on pop culture as a fascist barometer is largely a distraction, a superficial exercise that misses the slow, complex, and infinitely more dangerous consolidation of power within institutions.

O mundo.

CRÓNICA

O Farhud e a falsificação de Avi Shlaim

O Farhud foi um pogrom antijudaico executado em Bagdade a 1 e 2 de Junho de 1941, numa orgia de violência que deixou mais de uma centena de judeus mortos, centenas de feridos, mulheres violadas, crianças mutiladas, casas destruídas e bairros reduzidos a escombros, permitido pelo estado iraquiano aliado com a Alemanha nazi.

A Africanização da Guerra

A africanização impulsionada por Spínola consistia no «recrutamento de africanos com algum nível de instrução, aumentando o número de nativos armados a combater ao lado dos portugueses na Força Militar Africana formada a partir do Centro de Instrução de Milícias.»

Sobre a androginia de David Bowie

Sobre como a androginia de Bowie não nasce de um gesto progressista, mas de um gesto aristocrático – quase retrógrado.

A Trégua de 1914

A trégua de Natal de 1914 não mudou o curso da guerra, mas mostrou que, mesmo dentro da lógica do poder, há momentos em que a obediência vacila. E, quando isso acontece, o inimigo deixa de ser um conceito e passa a ser uma pessoa.

Digital.

No dia 5 de Janeiro deste ano de 2026, a Revista Minerva Universitária fez quatro aninhos de existência! Quase 700 artigos publicados e mais de 250 autores, qualidade q.b. (melhor que o Expresso), muita polémica, diversão e ideias, e principalmente um espírito de liberdade e pluralidade inigualável. Venham mais!

ARTES VISUAIS

Galeria: Obras de Constança Villaverde Rosado

Galeria com trabalhos de Constança Villaverde Rosado, artista plástica. Vive e trabalha em Lisboa, estudou no Lycée Français Charles Lepierre (1999–2012) e frequentou posteriormente o curso de cenografia na Escola Artística António Arroio (2013–2016).

Dois mapas: um, com a divisão norte-sul de escoamento das águas na Europa; outro, com as rotas medievais do tráfico de escravos na África.

RUBRICA

Como D. Pedro I defende os pobres numa carta de 1351

A maneira como hoje se tem a percepção a respeito dos nossos Reis é muito enviesada por um fenómeno erróneo que coloca a sociedade dos governados em um panorama segregado à sociedade fantasiosa dos Reis. Vejam como D. Pedro I defende os pobres nesta carta de 1351, e concluam.

Explicação de um Povoado Medieval pela Imagem

De uma obra, chamada Livro das Fortaleza, que contém uma quantidade satisfatória de Fortalezas do Reino, desde o Algarve até Viana. Esta publicação tem o intuito particular de analisar um dos exemplos desses desenhos, com uma análise concisa dos seus atributos.

Mais mapas: estes, pueris, bem ilustrados, para todas as idades, da www.pucaprinthouse.com, maioritariamente com criaturas fantásticas da mitologia local.

O ano é novo. E nós, quem somos?

Uma caixa de relógios vazia está cheia de possibilidades. Uma caixa de relógios cheia é o sinal claro de que precisamos de uma vazia. De caixa em caixa avançamos, empurrados pelo desejo e puxados pelo acaso. Tornamo-nos coleccionadores e, nesse processo, construímos um estilo pessoal. Num exercício assumidamente teórico, procurámos isolar alguns dos perfis mais recorrentes, como quem escolhe os instrumentos de uma composição musical.

Diários, amores, morte.

CRÍTICA

Crítica: «O modelo de Pickman», O Gabinete das Curiosidades, Guillermo del Toro (2022)

Convocando Oscar Wilde e Northrop Frye, elabora-se sobre várias maneiras de ver a arte na sua relação com a vida, com a adaptação do conto de H.P. Lovecraft O Gabinete das Curiosidades em pano de fundo.

Crítica: Indiana Jones e o Marcador do Destino (James Mangold, 2023)

Sobre o último trabalho da série cinematográfica Indiana Jones, um filme de aventuras construído sobre uma estrutura quase irrepreensível que lida com todos os problemas da série e com as expectativas dos espectadores.


Funnies, com muita filosofia.

Alethea Howard (1585–1649), conhecida como condessa de Arundel, foi uma das mais importantes mecenas das artes na Inglaterra do início do século XVII. Casada com Thomas Howard, 14.º conde de Arundel, desempenhou um papel central na introdução e valorização da cultura artística continental na corte inglesa.

Dotada de grande sensibilidade estética e curiosidade intelectual, Alethea apoiou artistas, arquitectos e antiquários, contribuindo para a formação de uma das mais notáveis colecções de arte da época, hoje conhecida como as “Arundel Marbles”. Incentivou a aquisição de esculturas clássicas, medalhas antigas, pinturas e manuscritos, muitos deles trazidos de Itália e de outros centros culturais europeus, num momento em que o coleccionismo erudito ainda era raro em Inglaterra.

O seu patronato foi decisivo para a difusão do classicismo e para o prestígio social das artes visuais e da erudição antiquária. Alethea Howard destacou-se, assim, não apenas como coleccionadora, mas como agente cultural activa, cuja influência perdurou na formação de museus e no gosto artístico inglês das gerações seguintes.

Milagre da Batalha de Ourique: Incursão pela Literatura Portuguesa

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“Que em Ourique o Senhor ao Rei primeiro

Mostrou do Céu o amparo verdadeiro.”

Poemas da coletânea A Fénix Renascida

Introdução

A Batalha de Ourique tem um papel preponderante na narrativa histórica portuguesa e, por muito que seja assolada por grandes dúvidas e incertezas acerca do confronto, os seus efeitos foram da maior importância para a afirmação do Reino de Portugal. É por meio de um conjunto de batalhas — como a Batalha de São Mamede (Junho de 1128) e a Batalha de Ourique — que se concretiza a afirmação da vontade independentista da Raça Portuguesa em tornar-se Reino de Portugal. Torna-se mais importante, a meu ver, realçar dois feitos associados à Batalha de Ourique.

O primeiro e indiscutível do ponto de vista histórico: a vitória em Ourique atribuiu uma autoridade e confiança a D. Afonso Henriques para ser “rei dos portugueses”, como assim começou a (auto)designar-se. Pode-se considerar como fruto desta batalha a sua proclamação como Rei em 1139, estatuto que seria reconhecido pelo Papa em 1179, na Bula Manifestis Probatum. Nesta mítica batalha, providencialmente, Portugal recebeu um Rei. O segundo feito, que não pode ser olvidado, recupera a visão de Jesus Cristo crucificado e rodeado de anjos, que profetizou a vitória e a formação do reino a D. Afonso Henriques na véspera da Batalha de Ourique. Pouco se sabe sobre esta visão, mas tenho-a como verdadeira; não fosse ela causa eficiente para que o Rei seja, também, objecto de devoção católica, conhecido como Beato D. Afonso Henriques. O nosso primeiro Rei confiou e, de facto, concretizou-se que, no dia 25 de Julho (dia de Santiago) de 1139, em número claramente inferior, as tropas cristãs portuguesas venceram o largo exército de cinco reinos mouros. Perante tamanha vitória, torna-se possível e necessário fazer-se a história de Portugal.

Onde existe História, existe Literatura. À Literatura e à História nem sempre são reconhecidas as melhores parceiras no estudo das humanidades; contudo, estabelecem uma relação de interdependência entre si. Neste trabalho não pretendo desmistificar esta relação complexa. Pretendo, sim, apresentar a forma como o Milagre de Ourique se repercutiu nas diversas transformações dos códigos que regem o discurso. Ou seja: através de uma incursão pela Literatura Portuguesa, proponho perceber como é que a batalha, a formação de Portugal e o Milagre estão na consciência social e literária dos portugueses.

Compreender o que pode ser considerado literatura portuguesa é uma tarefa árdua, pois a história da literatura portuguesa, efetivamente, é uma história dura e difícil de migrações[1]. Simplificando, utilizarei para esta digressão na literatura textos produzidos em português ou em galego-português e compreendidos entre os séculos XII e XX. Espero que o presente artigo não se torne no mero índice de obras ou citações autorais que remetam para Ourique — seja no sentido terreno da batalha, seja no sentido religioso. Proponho uma visão crítica e consciente das limitações epocais. Assim, os exemplos que apresento são os casos mais paradigmáticos e não esgotam, certamente, todas as referências que grandes homens e mulheres dotados para as letras puderam fazer ao longo da História da Literatura, pois a afirmação do Reino Português nunca será um facto indiferente!

Literatura Medieval

A primeira “não-paragem” a apresentar é a poesia trovadoresca. Apesar de longas pesquisas, não encontro nenhuma referência ao Milagre de Ourique na lírica medieval. Ansiava ler uma cantiga sobre o Milagre de Ourique, pois parecia concretizável do ponto de vista cronológico e tendo Portugal um Rei poeta: D. Dinis. Também não consta nada nas Cantigas de Santa Maria, escritas por Afonso X, tio do nosso monarca poeta. Esta ausência nos cancioneiros da Biblioteca Nacional e da Ajuda não deve deixar de proporcionar algum espanto ao leitor que tenha algum conhecimento sobre a sua Pátria. Por isso, na falta de respostas a esta pergunta — Será que se produziu algum registo literário entre os séculos XII e XIV sobre a origem de Portugal? — as parcas fontes historiográficas parecem corroborar uma resposta negativa para esta questão. Contudo, gostava de apresentar algumas teses ou, melhor, hipóteses plausíveis a meu ver. A primeira, e que me parece uma premissa essencial para compreender a dificuldade do estudo desta época, pauta-se com a dificuldade de preservação dos registos. Muitas fontes históricas medievais não sobrevivem até à atualidade devido à degradação natural dos materiais ou ao extravio físico dos documentos, interrompendo assim a transmissão do conhecimento histórico através do tempo. Posto isto, o argumento principal é que a ausência seja justificada pela razão óbvia de não se encontrarem os pergaminhos ou outros suportes de escrita; não exclui que não tenham sido redigidos.

As outras teses partem de uma premissa oposta: pretendem apresentar uma justificação para o facto de não se ter escrito, efetivamente, nenhuma cantiga. A primeira ideia — que, com muita pena minha, ainda subsiste na Academia — justifica essa ausência pela origem árabe da lírica trovadoresca. A génese da arte de trovar não é consensual e, segundo as pesquisas do Professor Rodrigues Lapa, apresenta quatro caminhos distintos: a tese arábica, a tese folclórica, a tese mediolatinista ou a tese litúrgica/paralitúrgica. O enfoque da proposta que aqui apresento alega que seria contestável, quase imoral, que se produzisse uma lírica que enaltecesse um episódio ocorrido durante a Reconquista Cristã recorrendo à métrica árabe, uma vez que ambos os povos podiam ser vistos como “irmãos” territoriais. Não concordo, de todo, com esta teoria, pois acredito que o Trovadorismo, de alguma forma, impulsiona a nossa identidade. Tendo a concordar mais com a que apresento de seguida, ainda que parcialmente e apesar de esta possuir uma argumentação frágil: esta proposta tem como argumento principal a forte marca que a Batalha, o Milagre de Ourique e a afirmação do primeiro Rei português devem ter provocado na memória dos portugueses. Supõe-se que tal impacto terá marcado a época com tamanha intensidade que não se sentiu a necessidade de realizar grandes registos líricos.

De certa forma, o Milagre tornou-se um facto e um conhecimento intrínseco dos portugueses. Não o sei contestar; o que é claro é que, com o surgimento de tantos movimentos literários, o Milagre deixou de ser inquestionável. No entanto, surgiu a necessidade de o perpetuar e de o conseguir transmitir às gerações seguintes. O registo prosseguiu com um tom administrativo, através das Crónicas, e no quotidiano através dos jograis e da poesia, que auxiliavam na memorização destas narrativas.

Ainda nesta incursão pelo Medievo, não seria despropositado colocar a questão: existirá uma épica que cante os feitos de D. Afonso Henriques? Sim, é a resposta que António José Saraiva defende no livro A Épica Medieval Portuguesa (1991). O propósito da obra é dar continuidade a um estudo iniciado, em meados de 1950, por Lindley Cintra, de forma a perceber se havia em Portugal uma épica medieval do tipo da castelhana, como o Poema de Cid. A conclusão é que existe, de facto, um poema jogralesco, provavelmente em língua portuguesa, que remonta possivelmente ao último quartel do século XII e que tem como herói o primeiro rei de Portugal. Por isso, este poema cumpre a função de ser a primeira afirmação nacional portuguesa face ao Reino de Leão.

António José Saraiva acredita que a variante da Quarta Crónica Breve de Santa Cruz, completada com lições da Crónica de Vinte Reis, é a forma mais antiga que possuímos da nossa tradição épica. Contudo, esta crónica apresenta algumas problemáticas que discutirei ao longo do artigo, em diálogo com outras obras literárias. A primeira — e a que mais gostaria de salientar pela sua transversalidade — pauta-se pela quase inexistência do Milagre de Ourique na literatura; isto é, as escassas referências que se fazem à Batalha raramente se fazem acompanhar pela visão beatífica de D. Afonso Henriques. Na Crónica existe apenas uma referência à Batalha de Ourique, no original está entre parenteses, assemelhando-se a uma interpolação entre a compilação de uma ou mais crónicas. Esta compilação é fundamental na Crónica para justificar o título de “El-Rei” a D. Afonso Henriques. Cito como li na transcrição do estudo de António José Saraiva:

“ (E depois houve a Batalha em nos campos de Ourique e venceu-a. E desali em diante se chamou el-rei D. Afonso de Portugal e entom tomou por armas as cinco quinas.) “ (Saraiva, 1991, p 38)

A professora e prestigiada medievalista Teresa Amado (UL) realizou um estudo intitulado «Ainda Sobre o Milagre de Ourique» (2002) que, a meu ver, oferece contributos fundamentais para esta análise do Medievo, ainda que se trate de um trabalho marcadamente historiográfico. Faço a nota prévia de que o presente artigo não se foca na historiografia, mas sim na vertente literária. Como defende António José Saraiva, no estudo já citado, os relatos dos jograis nasciam dos próprios acontecimentos; a sua proximidade aos factos produzia tradições poéticas bem conservadas, capazes de registar a psique e a sensibilidade da época com tal eficácia que acabaram incorporadas pelas crónicas.

No seu trabalho transcreve-nos parte dos Anais, Crónicas e Memórias Avulsas de Santa Cruz de Coimbra (p.29):

El Rey Dom Afonso primeiro Rey de purtugal Em lide E em campo veençeo . v . Rex mouros . s . em o campo dourique . / . Onde lhe apareçeeo noso Señor Ihesu Christo posto em cruz por cuja Semelhança do diujnall mjsterio pos en seu escudo as armas em cruz . / . as quaaes ora trazem os Rex de purtugal. E so este pendom E sinall da cruz que auante delle andaua Em todalas Batalhas E escaramuças que emtraua elle era Vençedor. O quall Rey ante da dieta Batalha se chamou Rey dos portugueses jectando fora os emfiees E poborando o rreino E terra dos bõos catollicos e fíees . /. E por onrra da Virtuosa cruz E mjsterio que lhe asy apareçeo fundou o moesteiro de Sancta Cruz. E por onrra da cruz escolheo em elle seer supultado.

No mesmo estudo, a autora desenvolve um trabalho comparativo entre várias cópias e manuscritos para concluir que será difícil encontrar qualquer outro texto original que recupere ou relate o Milagre de Ourique. A hipótese que sustenta o seu estudo fundamenta-se no seguinte argumento: Aires Nascimento, no artigo sobre o “Milagre de Ourique” publicado no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, apelida-o, muito corretamente, de “motivo literário”, dando-o como existente “pelo menos desde a segunda metade do séc. XIV”. Esta conclusão parece corroborar o trabalho desenvolvido por Lindley Cintra e continuado, recentemente, por António José Saraiva.

Tal como nos explica Teresa Amado, o mais antigo relato completo do Milagre terá aparecido na Crónica de 1419 (ou Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal), que tem como fonte a Vida de São Teotónio. Nela, D. Afonso Henriques procura animar os portugueses, afirmando que Deus os ajudaria e que Santiago — cujo dia se celebrava — seria o seu “conde”. Contudo, a narrativa prossegue atribuindo o Milagre exclusivamente a Cristo; a versão de 1419 é a génese das posteriores, mas nestas últimas a intervenção de Santiago acaba por ser omitida. E, não poderia, contudo, terminar esta incursão pelo período medieval sem transcrever o relato da vivacidade de D. Afonso Henriques contra os Mouros, segundo a Crónica dos Godos[2]:

“Era de 1177 [= 1139]: A 25 de Julho na festa de S. Tiago Apóstolo, no undécimo ano do seu reinado, o mesmo rei D. Afonso travou uma grande Batalha com o rei dos Sarracenos, de nome Esmar, num lugar que se chama Ourique. Efectivamente aquele rei dos Sarracenos, conhecendo a coragem e a audácia do rei D. Afonso, e vendo que ele frequentemente entrava na terra dos Sarracenos fazendo grandes depredações e vexava grandemente os seus domínios, quis; se fazê-lo pudesse, travar Batalha com ele e encontrá-lo incauto e despercebido em qualquer parte. Por isso uma vez, quando o rei D. Afonso com o seu exército entrava por terra dos Sarracenos e estava no coração das suas terras, o rei sarraceno Esmar, tendo congregado grande número de Mouros de além-mar, que trouxera consigo e daqueles que moravam aquém-mar, no termo de Sevilha, de Badajoz, de Elvas, de Évora, de Beja e de todos os castelos até Santarém, veio ao encontro dele para o atacar, confiando no seu valor e no grande número do seu exército, pois mais numerosos era ainda pela presença aí das mulheres que combatiam à laia de amazonas, como depois se provou por aquelas que no fim se encontraram mortas. Como o rei D. Afonso estivesse com alguns dos seus acampado num promontório foi cercado e bloqueado de todos os lados pelos Sarracenos de manhã até à noite. Como estes quisessem atacar e invadir o acampamento dos cristãos, alguns soldados escolhidos destes investiram com eles (Sarracenos), combatendo valorosamente, expulsaram-nos do acampamento, fizeram neles grande carnificina e separaram-nos. Como o rei Esmar visse isto, isto é, o valor dos Cristãos, e porque estes estavam preparados mais para vencer ou morrer do que para fugir, ele próprio se pôs em fuga e todos os que estavam com ele, e toda aquela multidão de infiéis foi aniquilada e dispersa quer pela matança quer pela fuga. Também o rei deles fugiu vencido, tendo sido preso ali um seu sobrinho e neto do rei Ali, de nome Omar Atagor. ​Com muitos homens mortos também da sua parte, D. Afonso, com a ajuda da graça de Deus, alcançou um grande triunfo dos seus inimigos, e, desde aquela ocasião, a força e a audácia dos Sarracenos enfraqueceu muitíssimo.”

Literatura Renascentista e Moderna

Como se pode verificar pelos trabalhos desenvolvidos por conceituados medievalistas, os primeiros registos e referências ao Milagre de Ourique datam das crónicas quatrocentistas. Este “mito” seria, mais tarde, objeto de registos testemunhais por parte de frades, em pleno século XVI, servindo para inspirar a resistência popular durante o domínio filipino, mas surge também como uma referência central na epopeia magna portuguesa.

O Canto III d’Os Lusíadas constitui o espaço poético para narrar a História de Portugal, desde a sua fundação — de Luso a Viriato (Est. 22) — até ao reinado de D. Fernando, não descuidando o celebérrimo episódio de Inês de Castro. A narração da história do herói luso é introduzida de forma propositada através da personagem do Rei de Melinde, que pede a Vasco da Gama que relate a história do seu país. Este é um recurso literário para legitimar e apresentar o herói que Camões se propõe cantar, revelando-se pertinente e de extremo interesse para a nossa incursão literária. A Batalha de Ourique aparece descrita entre as estâncias 42 e 52, mas é nas estâncias 45 e 46 do mesmo canto que se descreve, especificamente, o Milagre de Ourique:

A matutina luz, serena e fria,

As estrelas do Polo já apartava,

Quando na cruz, o filho de Maria,

Amostrando-se a Affonso o animava.

Elle adorando quem lhe aparecia,

Na fé todo inflammado, assi gritava:

“Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,

E não a mi, que creio o que podeis.”

Com tal Milagre os ânimos da gente

Portuguesa inflamados, levantavam

Por seu Rei natural este excelente

Príncipe, que do peito tanto amavam;

E diante do exército potente

Dos imigos, gritando, o céu tocavam,

Dizendo em alta voz: – «Real, real,

Por Afonso, alto Rei de Portugal!

O episódio descrito por Camões foi alvo de algumas críticas ao longo dos anos por parecer engrandecer ou intensificar o irracional do Milagre; mas José Maria Rodrigues (teólogo do Século XIX) defende Camões, argumentando que o poeta apenas seguiu fontes históricas e cronistas anteriores, como a Crônica de D. Afonso Henriques de Duarte Galvão. Segundo Galvão, D. Afonso Henriques, ao avistar a visão divina antes da Batalha, teria afirmado que tal aparição não era necessária para ele, que já possuía fé, mas sim para os descrentes:

E quando foy hua mea hora ante manhã… o príncipe syosse fora de sua tenda… uiu nosso senhor em cruz … e adorouho muy deuotamente com lagrimas de grande prazer, confortado & animado cõ tal enleuamento & confirmaçam do spiritu sancto, quesse afirma, tanto que uio nosso senhor, auer antre outras palauras fallado alguas sobre coraçam & spiritu humano, dizendo: Senhor, aos herejes, aos herejes faz mester apareceres, ca eu sem nenhua duuida creo e espero em ti firmemente (fl. XXII).

A narrativa do Milagre e a reação do monarca já eram conhecidas e aceitas muito antes de Os Lusíadas, e foram citadas por figuras como Vasco Fernandes de Lucena e o cronista Olivier de la Marche. Este último, nas suas Mémoires, escritas entre 1435 e 1488, reforça que o príncipe português pediu a Deus que demonstrasse o Seu poder aos inimigos infiéis e não aos seus próprios olhos, já crentes:

“Mon Dieu Jesu-Christ, j’ay ferme foy en toy et en ta passion douloureuse. Monstre ta croix à tes ennemis infideles, qui en toy ne veulent croire.”

O texto sustenta que a atitude de D. Afonso Henriques não deve ser vista como uma audácia imprópria contra Cristo, mas como uma expressão de humildade com raízes bíblicas. A estrutura da súplica assemelha-se ao Salmo 113B, sugerindo que o autor original da lenda se inspirou nas Sagradas Escrituras e no lema dos Templários para justificar a devoção do rei: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória… Porque diriam as nações pagãs: ‘Onde está o Deus deles?'”

A ideia de perpetuidade está profundamente enraizada na figura do nosso primeiro Rei, como se observa no Juramento de D. Afonso Henriques — «Quero em ti e na tua descendência estabelecer o meu Império» —, registado no tomo III (p. 127)[3] da Monarchia Lusitana. Esta obra de Frei António Brandão, publicada originalmente em 1632 por Pedro Craesbeeck, cobre a história nacional desde o Conde D. Henrique até ao reinado de Afonso Henriques e foi escrita num período de transição entre o Renascimento e o Barroco, sob o domínio filipino. A Monarchia Lusitana, iniciada por Frei Bernardo de Brito em 1596 e continuada por outros cronistas da Ordem de Cister, funciona como um compêndio de exaltação nacionalista que mergulha na narrativa bíblica desde Noé, afirmando que o seu neto Tubal iniciou o seu périplo pelas nossas costas e colocou a primeira pedra em Setúbal, depositando assim os maiores contributos para o perfil virtuoso e heróico do monarca. Importa notar que, a par do “Juramento de Ourique”, e apesar de ter sido aceite durante o Renascimento e o Barroco como prova histórica absoluta da eleição divina de Portugal, hoje acredita-se, devido à análise crítica de Alexandre Herculano, que o documento seja uma falsificação, provavelmente forjada no Mosteiro de Alcobaça.

Para além da épica camoniana, outras epopeias fazem referência ou alusão ao Milagre de Ourique. Uma das mais relevantes, situada nos primórdios da modernidade, é da autoria de Vasco Mouzinho de Quevedo: Afonso Africano (1611). Este poema heroico centra-se em D. Afonso V, rei conhecido pelas suas campanhas em Marrocos, e narra a conquista de Arzila e de Tânger. Mouzinho utiliza estes feitos como uma alegoria para a luta espiritual cristã, destacando a complexidade de um reinado dividido entre os ideais medievais e a realidade expansionista. Considerada uma das melhores obras do género após Os Lusíadas, assinala uma mudança estilística e ideológica. Embora ainda influenciado pela forma camoniana, afasta-se do realismo histórico e recorre à alegorização da ação em termos moralistas e religiosos. O poema abre com uma recapitulação da história nacional, na qual Ourique surge, uma vez mais, como o marco fundador da realeza portuguesa:[4]

E porque outras razoes as mais appliquc,

Mova-te, que são Armas próprias tuas,

Que à outro Affonso Deos no Campo Ourique

Abrindo os Ceos , lhe deu por Armas suás.

Para que em succelsão a mercê fique,

Como próprias as tenhas, e as possuas,

Se cauia, que he tão justa, não defendes.

O período Clássico da literatura portuguesa é rico em epopeias e poemas heroicos. Num contexto de crise política, motivado pela governação filipina, imperava a necessidade de recuperar os valores da fundação da nacionalidade. Assim, algumas epopeias preferem fazer uso de Ourique para fins políticos imediatos, enquanto outras reinscrevem o episódio da visão beatífica na História nacional.

Parece-me, então, que nesta incursão literária — e antes de nos adentrarmos na próxima etapa — cabe fazer um ponto de situação. O registo deixa de ser meramente cronista, focado na justificação da historicidade ou da veracidade, para passar a ser utilizado como ferramenta política e como galvanizador de uma esperança patriótica. Portanto, a segunda conclusão a que chego é que o período entre os séculos XVI e XVIII é o momento em que o Milagre de Ourique assume o seu maior esplendor literário. Como procurei demonstrar neste artigo: enquanto o episódio fazia parte da consciência coletiva como uma memória presente, sentia-se menos necessidade de o narrar; todavia, ao tornar-se uma memória distante, a Nação passou a encontrar segurança e apoio ao evocá-lo.

Literatura das Revoluções[5]

O período Romântico e todas as correntes literárias sucessoras do Iluminismo revolucionaram o pensamento e fraturaram a normalidade vigente — esta tem sido a premissa da minha compreensão do mundo e a base da minha argumentação. Posto isto, o modo de interpretar a Batalha de Ourique e o seu Milagre sofreu mudanças profundas, fruto do revisionismo histórico romântico. Para esta tarefa, destacam-se duas figuras que foram também escritores de relevo: Alexandre Herculano e Teófilo Braga.

A desmistificação do Milagre foi iniciada por Luís António Verney, em 1746, na obra Verdadeiro Método de Estudar; contudo, ganhou uma repercussão muito mais ampla com o lançamento do segundo volume da História de Portugal de Alexandre Herculano (1850). Ao qualificar o Milagre como uma “fábula”, Herculano desencadeou uma violenta e duradoura polémica, alimentada pelo clima de confrontação cultural que se seguiu à implantação do Liberalismo no país. Curiosamente, enquanto rejeitava Ourique, o historiador acolhia o cerco de Guimarães e a façanha de Egas Moniz como “um dos factos mais poéticos da nossa história”. Por sua vez, Teófilo Braga considerava que o suposto Milagre de Ourique resultara da adaptação de outra lenda eclesiástica, também ela nascida com intuitos políticos: a aparição de uma cruz brilhante no céu ao imperador Constantino, acompanhada da frase In hoc signo vinces. Permanece a dúvida — com a qual alguns historiadores concordam — sobre se o Milagre de Ourique seria uma construção de origem galega e não a causa direta da fundação de Portugal. Esta dúvida foi introduzida por Herculano, mas a resposta dada ao longo dos séculos pela tradição poética é consistente e distinta: Ourique é a causa primária para que hoje exista Portugal.

Herculano é o exemplo máximo das multifacetadas funções de um romântico: autor, historiador e, sem exceção, a escrita de romances históricos, geralmente focados no período medieval. Para a nossa discussão, destaco duas obras emblemáticas: Eurico, o Presbítero (1844) e, especialmente, O Bobo (1843, edição em fascículos). Esta última, cuja ação decorre no interior da corte de D. Afonso Henriques e narra a Batalha de S. Mamede é fundamental por procurar apresentar uma génese racional, terrena e secular para a origem de Portugal. A épica medieval, já apresentada neste artigo, narra o episódio do Bispo Negro e um possível conflito com o Papa — acusação que o Padre Gonzaga de Azevedo considerou “uma tradição caluniosa que durante séculos desonrou a memória do nosso monarca”. É provável que Herculano se tenha sentido atraído pelo lado insólito de uma épica do século XII introduzir um bispo de tez mais escura do que os seus confrades, o que terá servido de inspiração para a sua obra Lendas e Narrativas (1851).

Na visão romântica, era imperativo desmistificar tudo o que contivesse elementos sobrenaturais, especialmente se fossem sustentados pelo catolicismo. Não obstante, é também do Romantismo que surge o revisionismo dos mitos com um sentido messiânico; sempre que emergem momentos de crise, o Romantismo, com a sua habilidade paradoxal, utiliza-os em favor das ideias políticas vigentes. Muitas vezes através de interpretações anacrónicas, o movimento (re) interpreta os mitos para dar voz ao povo, e não necessariamente para o nobilitar, como fizera Camões.

O período seguinte ao Romantismo é, consensualmente, o do Realismo-Naturalismo, que não se isenta da crítica social, embora o faça de modo mais subtil. O exemplo pleno deste período histórico-literário é o ilustre Eça de Queirós, amplamente reconhecido pela sua perspicaz ironia e pela talentosa caracterização das suas personagens. É precisamente na intersecção destes dois elementos que se insere a alusão a Ourique na obra Os Maias, logo no capítulo inicial:

“E esses santos lá o consolavam, afirmando-lhe que Deus, o velho Deus de Ourique, não permitiria jamais que um Maia pactuasse com Belzebu e com a Revolução!”/ “Oh! Deus de Ourique, manda-nos o castelhano!”

Estas referências são extremamente interessantes para caracterizar Afonso da Maia como alguém dotado de uma profunda integridade moral e de uma retidão de princípios que se tornaram raras no país — algo que, como se sabe, terá consequências determinantes na narrativa. Embora não saibamos com que intuito exato Eça de Queirós optou por esta caracterização, os dados permitem-nos concluir que a possibilidade de uma visão beatífica permanecia latente na memória e no espírito português.

Por fim, a última grande revolução literária que importa referir é o Modernismo, que se desenvolve e explora as suas múltiplas vertentes ao longo do século XX. O vulto central deste período é, sem dúvida, Fernando Pessoa, autor de Mensagem(1934) — uma obra singularmente patriótica para um poeta com o pendor ocultista. Apesar deste paradoxo, comum nos movimentos literários de rutura, aquele que se auto designou “Super-Camões” não menciona explicitamente Milagre de Ourique nos seus poemas mais emblemáticos sobre a pátria. A meu ver, esta ausência fica aquém das expectativas: para que a comparação com Camões fosse plena, Pessoa deveria ter evocado as batalhas fundadoras da nação, como São Mamede ou Ourique. Face a este aspeto, e com algum lamento, Pessoa revela-se um “Infra-Camões”.

Ainda na mesma linha cronológica, mas num âmbito ideológico distinto, proponho uma reflexão sobre o Integralismo Lusitano — movimento tanto político como cultural. Encerro esta última paragem, mencionando o poema “Manhã de Ourique” da autoria de António Sardinha que recupera, a meu ver, a tradição camoniana.

Conclusão

No percorrer desta incursão literária já foi possível consolidar algumas ideias que me parecem interessantes de fixar. A primeira – e, cujo alertei desde logo na introdução- a dicotomia História e Literatura afirmou-se, mas para o estudo enriqueceu com preceptivas que se complementam. Do ponto de vista histórico, descrito através das Crónicas medievais há uma forte preocupação em narrar os feitos bélicos, as cruzadas, mas em menor dimensão o Milagre de Deus de Ourique. É apenas na Literatura que surgem as primeiras referências e alusões a «Deus de Ourique».

O papel da Literatura, neste caso, é bastante meritório e devemos louvá-lo por garantir a perpetuação sólida entre várias gerações da Visão Beatifica em Ourique e legitima a Beatificação de Afonso Henriques na alma e mente dos portugueses atentos. Contudo, e não é demais relembrar que, a Literatura pela necessária mestria artística do autor tende a ser mais sensível a questões que podemos designar ideológicas. Por isso, a veracidade do Milagre – ainda que não seja contestada – não deverá ficar ao serviço dos interesses políticos para enfrentar épocas de crise. Quero eu dizer, o Milagre deve ser cantado, narrado, louvado, agradecido porque aconteceu e é Bom; mas nunca deve ser uso de uma interpretação saudosista ou Messiânica, como parece acontecer no período da Literatura das Revoluções.

Por fim, e não menos importante, todas as referências que aqui apresentei tendem a corroborar para legitimar o Rei D. Afonso Henriques como Rei que cumpre providencialmente a vontade divina. Assim, Portugal é um desígnio divino. De tal modo, o esforço para provar a santidade de D. Afonso Henriques baseia-se na convicção de que ele foi um “eleito de Deus”, cuja legitimidade era sustentada pela visão beatífica no Milagre de Ourique. Esta tese é defendida em obras fundamentais como o Apparatus Historicus de Argumentis Sanctitatis Regis Alfonsi Henrici (1728), de José Pinto Pereira, que apresenta dez argumentos para comprovar a sua santidade, e o estudo contemporâneo A Saga da Santidade de D. Afonso Henriques (2017), publicado pela Fundação Lusíada. Ao lado de títulos como a Crónica de Cister e a Monarquia Lusitana, estes textos reforçam a imagem do “Pio e Beato” fundador”, sustentando que o Milagre de Ourique não foi apenas uma lenda, mas uma manifestação divina real onde Cristo lhe prometeu o império para a propagação da fé, pois Afonso I esteve sempre empenhadíssimo no combate aos Mouros. Esta aceitação da Igreja, especialmente visível nas várias tentativas de canonização junto da Santa Sé — incluindo o apoio do Papa Bento XIV, que se ofereceu para ser advogado da causa —, demonstra que a sua figura não era vista apenas como um herói militar, mas como um cruzado cuja legitimidade política derivava de uma unção espiritual, sendo o milagre a prova documental e mística dessa predestinação.

Beato Dom Affonso Henriques, Rogai por nós.

Bibliografia:

Hélio Alves, “Título do Capítulo,” em Tempo para entender: história comparada da literatura portuguesa (Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2006)

Estudos Portugueses. s.d. «1139 – A Batalha de Ourique segundo a Crónica dos Godos». Acedido a 20 de janeiro de 2026. https://www.estudosportugueses.com/1139—a-Batalha-de-ourique-segundo-a-croacutenica-dos-godos.html.

Saraiva, António José. A Épica Medieval Portuguesa. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1979.

IMUB. «Iconografia do Milagre de Ourique e do Rei Afonso Henriques de Portugal». IMUB. 1 de setembro de 2021. https://www.imub.org/post/iconografia-do-Milagre-de-ourique-e-do-rei-afonso-henriques-de-portugal.

Amado, Teresa. “Ainda sobre o Milagre de Ourique”. Em Da decifração em textos medievais: IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval (Lisboa, 2002), editado por Ana Paiva Morais, Teresa Araújo e Rosário Santana Paixão, 301-310. Lisboa: Edições Colibri, 2003. Disponível em: https://www.ahlm.es/IndicesActas/ActasPdf/Actas13/Lisboa2012-Ainda%20sobre%20o%20Milagre%20de%20Ourique.pdf.

Anais, Crónicas e Memórias Avulsas de Santa Cruz de Coimbra, ed. e introdução de António Cruz, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1968.

Aires A. Nascimento, “Milagre de Ourique”, Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, org. Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Lisboa, Caminho, 1993

Castelo-Branco, Miguel. „Camões e o Milagre de Ourique”. Malomil (blog). 24 ianuarie 2013. https://malomil.blogspot.com/2013/01/camoes-e-o-Milagre-de-ourique.html.

«1152 – Juramento d’ElRei D. Affonso Henriques». Estudos Portugueses. Acedido a 20 de janeiro de 2026. https://www.estudosportugueses.com/1152—juramento-delrei-d-affonso-henriques.html.

QUEVEDO, Vasco Mousinho de. Afonso africano: Poema heróico da presa de Arzila e Tânger; dirigido a D. Álvaro de Sousa, Capitão da Guarda Alemã de S. Majestade, etc..Lisboa, Portugal: António Álvares, 1611.

Teixeira, J. P. S. “Processo de canonização de D. Afonso Henriques na historiografia portuguesa.” Público, 18 de setembro de 2018. https://www.publico.pt/2018/09/18/culturaipsilon/opiniao/processo-de-canonizacao-de-d-afonso-henriques-na-historiografia-portuguesa-1844356.

 


  1. Parafraseando Alves, “Prefácio”



  2. https://www.estudosportugueses.com/1139—a-batalha-de-ourique-segundo-a-croacutenica-dos-godos.html



  3. https://www.estudosportugueses.com/1152—juramento-delrei-d-affonso-henriques.html



  4. Segundo a Edição de 1786, em Lisboa, pela Oficina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno



  5. Alves, “1.2 Os Períodos Literários ” 29


A Mercantilização do Corpo Feminino: Das Kardashians a Meghan Trainor e a distopia das barrigas de aluguer

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Fonte da Imagem: https://www.catharinasuleiman.store/uteros

Recentemente, Meghan Trainor e o marido anunciaram o nascimento do seu segundo filho. Ou melhor, anunciaram que o receberam. Não o tiveram. O bebé nasceu através de uma barriga de aluguer. As Kardashians, por sua vez, somam pelo menos três filhos concebidos pelo mesmo método. E não estão sozinhas: cada vez mais celebridades recorrem à gestação de substituição, transformando-a quase num novo símbolo de status.

Mas porque é que os ricos e famosos parecem tão fascinados pelas “barrigas de aluguer”?  Será por questões médicas e de fertilidade? Por conveniência? Para evitar os impactos físicos da gravidez? Ou simplesmente porque podem? No fundo, será que o motivo importa?

A chamada “barriga de aluguer” consiste, de forma simplificada, numa mulher que engravida e dá à luz um bebé para outra pessoa ou casal, num processo frequentemente mediado por contratos, clínicas e intermediários. Um bebé encomendado, gestado e entregue.
Esta prática levanta uma série de dilemas éticos profundos que não podem ser ignorados, sobretudo quando analisados à luz do feminismo e dos direitos humanos arduamente conquistados pelos nossos antepassados.

A mercantilização da reprodução surge como um dos problemas centrais. O corpo da mulher é instrumentalizado e reduzido à sua função reprodutiva: um útero funcional, temporário, substituível. A mulher deixa de ser sujeito para se tornar meio. O bebé, por sua vez, corre o risco de ser tratado como um produto final de um processo transacional, com prazos, cláusulas e expectativas.

Até que ponto é aceitável transformar a capacidade reprodutiva feminina num serviço?
Podem os nossos corpos, historicamente controlados, explorados e legislados, ser redefinidos como valor económico sem que isso represente um retrocesso?
E que feminismo é este que normaliza a exploração do corpo de mulheres, muitas vezes pobres e racializadas, para satisfazer os desejos reprodutivos das elites?

Para além das questões éticas já mencionadas, há ainda um ponto frequentemente ignorado: os riscos médicos e psicológicos inerentes à gravidez. Todos sabemos que a gestação não é um processo neutro ou inofensivo. Há riscos físicos reais, complicações no parto, alterações hormonais profundas e um período de pós-parto que pode ser marcado por dor, exaustão e vulnerabilidade emocional.

No caso das barrigas de aluguer, é a gestante quem assume integralmente essas consequências. Tudo bem, dir-se-á, os “pais da criança” cobrem as despesas médicas e de subsistência durante a gravidez.

Mas e depois do parto?

Quem cuida da mulher no pós-parto?

Quem ampara uma possível depressão pós-parto, a incapacidade de trabalhar durante semanas ou meses, ou o impacto psicológico de lhe ser retirada a criança com quem criou uma conexão biológica e emocional ao longo de nove meses?

Este aspeto é sistematicamente apagado do discurso público. O contrato termina com o parto, mas o corpo e a mente da mulher não regressam ao estado anterior por decreto. A gravidez deixa cicatrizes, físicas e emocionais, que não desaparecem com a entrega do bebé.

Além disso, importa questionar: quão comum é uma mulher economicamente estável aceitar ser barriga de aluguer, independentemente do valor oferecido? A resposta é desconfortável, mas evidente. A prática recai quase exclusivamente sobre mulheres em situação de precariedade económica, com baixos níveis de escolaridade e acesso limitado à informação e aos cuidados de saúde.

Estão estas mulheres plenamente conscientes dos riscos médicos e psicológicos envolvidos? Ou estarão a ser pressionadas, manipuladas ou influenciadas por intermediários, clínicas e contratos que beneficiam sobretudo quem detém o poder económico?

Em Portugal, os acessos a gestação de substituição são extremamente limitados: só é permitida em casos de impossibilidade absoluta e definitiva de gravidez por parte da mulher, apenas para casais heterossexuais casados, portugueses ou residentes permanentes, e exclusivamente em regime altruísta, sem qualquer compensação financeira para a gestante. Para mim, esta é a única maneira ética deste processo.

O pagamento não representa liberdade de escolha, mas sim a transformação direta do corpo da mulher numa mercadoria. A gestação passa a ser um serviço, e a pobreza um fator explorável. A meu ver, trata-se de uma forma de exploração estrutural: da vulnerabilidade económica e do corpo feminino, disfarçada de escolha individual e progresso.

Fontes:

https://www.gestlifesurrogacy.com/en/surrogacy-in-portugal/

https://www.revistalofficiel.com.br/pop-culture/celebridades-que-tiveram-filhos-por-barriga-de-aluguel

https://www.telegraph.co.uk/news/2026/01/23/meghan-trainor-picture-lays-bare-the-cruelty-of-surrogacy/

Deonandan, Raywat. (2015). “Recent trends in reproductive tourism and international surrogacy: ethical considerations and challenges for policy”

Saxena, Pikee; Mishra, Archana; Malik, Sonia. (2012). “Surrogacy: Ethical and Legal Issues”.

Galeria: Obras de Constança Villaverde Rosado

Constança Villaverde Rosado nasceu em 1996 e vive e trabalha em Lisboa. Estudou no Lycée Français Charles Lepierre (1999–2012) e frequentou posteriormente o curso de cenografia na Escola Artística António Arroio (2013–2016).

Os seus interesses e experiências profissionais nas artes são muito diversificados, abrangendo a música, o teatro, as artes visuais e o cinema. Expôs pela primeira vez na exposição colectiva “Camadas”, da Escola Artística António Arroio (Galeria Beltrão Coelho, Lisboa, 2015), seguindo-se a exposição colaborativa “Memórias”, com Daisy Eltenton (Manteigaria, Lisboa, 2016). Nesse mesmo ano foi seleccionada para participar no festival parisiense “Nuits des Arènes”, onde apresentou a sua instalação sonora “La Sensation du Bruit”. Em 2019, a convite de Noé Sendas, realizou a sua primeira exposição individual na Casa da Cultura de Setúbal, com “Dez Anos Depois do Dia de Hoje”. Mais tarde, nesse ano, participou em “Cultura em Expansão”, uma exposição no Porto, onde apresentou a obra “O Mar Num Fio Azul”.

Entre 2006 e 2014 integrou o Coro Juvenil da Universidade de Lisboa, com o qual realizou numerosos concertos e participou em festivais por toda a Europa. Resultam desse período alguns momentos de destaque, como “Paixão Segundo São Mateus”, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (2009), a cantata “Jeanne d’Arc au Bûcher”, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian (2012), e a participação no European Festival of Youth Choirs, em Basileia, Suíça (2012). Constança pode ainda ser ouvida no álbum Invenção do Dia Claro (2018), da banda portuguesa Capitão Fausto, integrando o coro, e está envolvida com a editora Cuca Monga, que lançou o álbum Cuca Vida em 2020.

No âmbito da representação, interpretou a filha de Ray na peça “Blackbird”, com encenação de Tiago Guedes, no Teatro Nacional D. Maria II (2009/2010).

Tem experiência na produção de eventos culturais, nomeadamente no festival “REUNIÃO: novas bandas pop-rock” (Teatro do Bairro, 2013) e no Edinburgh Fringe Festival, onde trabalhou como técnica de luz em vários espaços (2013). Em 2021 assistiu a cenografia e a direcção de cena da peça “Lisboawood”, de João Cachola, no Teatro Meridional. É também membro fundador da companhia de teatro As Crianças Loucas. Ainda em 2021, assistiu a direcção de cena de “Trópicos mecânicos”, de Felipe Bragança, no Teatro Malaposta. Constança desenhou igualmente cartazes para filmes de Serge Tréfaut e Clara Jost e participou como figurante em filmes de João Botelho, Margarida Gil, Serge Tréfaut, Marta Pessoa e Jorge Cramez.

PROJECTOS PARA EXPOSIÇOES

“MEIO CHEIO” 2024

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

Tinta acrílica s/tela 5x7cm

Tinta acrílica s/tela 5x7cm

Tinta acrílica s/tela 5x7cm

colecção Miguel Gaspar

Tinta acrílica s/tela 5x7cm

“MESAS LUGARES E PRATOS” 2023-24

“Eu gosto de escrever ao contrário” Tinta acrílica s/tela

55x90cm

“Alguns copos num décor”

Tinta acrílica s/tela 80x80cm

“Pratos protegidos de uma rodagem dentro do frigorifico”

Tinta acrílica s/papel 72x95cm

“ESPAÇOS ESPAÇOS ESPAÇOS E NENHUM LUGAR” 2023-24

Tinta acrílico s/tela 100x70cm

Tinta acrílico s/tela 35x25cm

Tinta acrílico s/tela 30x40cm

Tinta acrílico s/tela 35x25cm

Tinta acrílico s/tela 35x25x

OUTRAS PINTURAS

Tinta acrílico s/tela 55x46cm

“TRÍ PTICO”

participação no colectivo Corrente de ar Tinta acrílica s/ papel 145x91cm,27x17cm.,5×3,7cm

2023

“Uma cadeira no verão” Participação no Prémio D.Fernando Tinta acrílica s/ tela

10x15cm

colecção Marta e Paulo Marques Almeida 2023

“Uma conversa com Almada e Pessoa” participação no prémio Brasileira Tinta acrílica s/ papel

128x180cm

colecção Fernando Ribeiro

“A mão como força” Tinta acrílica s/ papel 10x15cm

colecção Jim Carrey

PÉ DENTRO PÉ FORA

2022

“Pé dentro, Pé fora” Tinta acrílica s/ papel 150x200cm

colecção Museu municipal de Tavira

EXPOSIÇÃO “POUR TE NOMMER,LIBERTÉ” CASA DAS ARTES DE TAVIRA

AGOSTO 2023

EXPOSIÇÃO

“Pour te nommer, liberté”

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção Martim Sousa Tavares

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção da artista

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção Miguel Gomes da Costa

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção José Delgado Martins

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção Miguel Gomes da Costa

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção Isabel Corte-Real

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção Margarida da Costa Martins

Tinta acrílica s/tela 30x30cm

colecção Pedro Jalles

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção da artista

Tinta acrílica s/tela 20x30cm

colecção Leonor Pinhão

Tinta acrílica s/tela 60x80cm

colecção Fabrice de la Patellière

Tinta acrílica s/tela 50x80cm

colecção Rita Blanco

PROPOSTAS CARTAZES PARA CINEMA

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção da artista

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção André Passos

“MAL VIVER” E “VIVER MAL” DE JOÃO CANIJO, 2022

(trabalho não efectuado)

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção Leonor Pinhão

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção da artista

“J”

DE ANTÓNIO BOTELHO

Em pós produção

2024

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção Leonor Pinhão

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção Rita Blanco

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção Leonor Pinhão

Tinta acrílica s/papel 29x42cm

colecção Isabel Figueiredo

SEPARADORES FILME “J”

DE ANTÓNIO BOTELHO

PINTURAS PARA ESPECTACULOS DE TEATRO

Tinta acrílica s/papel 15x21cm

“C CELESTE E A PRIMEIRA VIRTUDE” ESCRITO E ENCENADO POR BEATRIZ BATARDA

CENOGRAFIA POR FERNANDO RIBEIRO CAUSAS COMUNS E OFFKEY PRODUÇÕES

2023

Tinta exterior s/madeira 300x600cm

colecção offkeyproduções

“QUEM CUIDA DO JARDIM” ESCRITO E ENCENADO POR CRISTINA CARVALHAL

CENOGRIA POR NUNO CARINHAS

CAUSAS COMUNS

2024

Pigmentos de cor e cola branca s/tela 110x220cm

colecção causas comuns

DESENHOS PROJECTO EM PRÉ PRODUÇÃO

DESENHOS PROJECTO “INCÊNDIO”

SERGE TRÉFAUT RIO DE JANEIRO

2024

LIVROS

LIVRO “POV”

com Joana Botelho design Sofia Santa Rita DEZEMBRO 2023

Públicado

“LIVRE D’ARTISTA”

2023-Em curso

O ano é novo. E nós, quem somos?

Uma caixa de relógios vazia está cheia de possibilidades. Uma caixa de relógios cheia é o sinal claro de que precisamos de uma vazia. De caixa em caixa avançamos, empurrados pelo desejo e puxados pelo acaso. Tornamo-nos coleccionadores e, nesse processo, construímos um estilo pessoal. Num exercício assumidamente teórico, procurámos isolar alguns dos perfis mais recorrentes, como quem escolhe os instrumentos de uma composição musical. Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria.

“Tudo num ponto” é o título de um conto de Italo Calvino que parte de uma ideia vertiginosa: todo o universo concentrado num único ponto. O narrador, o Sr. Qfwfq, descreve o seu percurso desde esse instante inicial — o Big Bang — até ao presente, sempre com a certeza de um eventual regresso ao ponto primordial. Pode dizer-se que se trata de um conto sobre a maior colecção de todos os tempos: a colecção de tudo.

Porque razão o conjunto de todos os relógios existentes não pode ser considerado uma colecção?

Antes de mais, porque não pertencem ao mesmo dono. Depois, porque não estão reunidos. E, por fim, porque não obedecem a critério algum. O critério é, talvez, o elemento mais importante na distinção entre uma colecção e uma simples acumulação de objectos.

É ele que estabelece parâmetros de comparação. Qualquer característica capaz de distinguir um relógio de outro pode tornar-se critério de colecção.

Os critérios podem organizar-se de múltiplas formas, e é precisamente essa organização — a selecção, a hierarquia, a insistência — que define o perfil de cada coleccionador.

Poderíamos afirmar:

mostra-me a tua colecção de relógios e dir-te-ei quem és.

Observar uma colecção é sempre um exercício de autoconhecimento, no qual emergem traços evidentes da personalidade do seu coleccionador. Tal como num livro todas as personagens são, em última instância, criações do escritor, numa colecção todos os relógios resultam de escolhas pessoais e, por isso, reflectem quem os escolheu.

Resta o sonho. Mais do que aquilo que somos, uma colecção revela aquilo que gostaríamos de ser. Os mergulhadores, os pilotos e os exploradores de escritório sabem-no bem. As colecções funcionam como espelhos onde reconhecemos forças e tentamos compensar fragilidades. Os mais meticulosos, os apaixonados pela cronometria, compreendem-no de forma particularmente clara.

Quando a realidade se revela monótona, as complicações oferecem uma saída.

Quando o mundo se apresenta demasiado feio, o design pode ser um refúgio.

Quando o passado parece superior ao presente, o vintage surge como resposta.

Quando as relações afectivas se tornam difíceis, o compromisso com uma marca pode servir de compensação.

Quando a vida económica assusta ou entusiasma, uma colecção orientada pelo investimento pode trazer segurança ou excitação.

Nada disto é absoluto. A complexidade humana raramente encaixa em categorias estanques. Como se o acaso não bastasse, ao longo da vida do coleccionador os critérios mudam, e com eles transforma-se a própria colecção. Todos sabemos como começámos; ninguém sabe como terminará. Muitas vezes, o puxão do acaso revela-se mais forte do que o empurrão do desejo.

O exercício que se segue afasta-se deliberadamente da realidade concreta de cada um. Deve ser entendido como um conjunto de espelhos nos quais podemos encontrar um reflexo fiel, imperfeito, ou mesmo nenhum reflexo.

O Narciso

Imagem de IA - O coleccionador  de relógios Narcísico
Imagem de IA – O coleccionador  de relógios Narcísico

Entre as várias versões do mito de Narciso, uma das mais sugestivas conta que Tirésias profetizou, no dia do seu nascimento, que o jovem teria uma vida longa desde que jamais contemplasse a própria imagem.

Narciso cresceu e tornou-se de uma beleza extraordinária, despertando o amor de várias ninfas, entre elas Eco. O desprezo com que as tratou conduziu algumas a pedir vingança aos deuses. Némesis condenou-o então a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Prisioneiro dessa contemplação, Narciso definhou. Após a morte, foi transformado na flor que ainda hoje leva o seu nome.

À semelhança de Narciso, este coleccionador adopta a beleza como critério central.

Os seus relógios reflectem a beleza que possui — ou a que gostaria de possuir.

Não é raro surpreendê-lo a contemplar demoradamente o próprio relógio, quase como Narciso diante da água imóvel. Trata-se, talvez, do coleccionador mais ancorado no presente, já que o critério estético tem ganho um protagonismo crescente. O que é belo varia com o contexto: nos relógios vintage, as marcas do tempo acrescentam carácter; nos relógios novos, procura-se a perfeição imaculada.

Tal como o próprio coleccionador, os seus relógios devem estar sempre impecavelmente apresentados, com correias e braceletes escolhidas ao detalhe. O Narciso reconhece-se nos relógios que lhe agradam visualmente e, ao usá-los, sente-se contaminado pela sua beleza. Elogiar o seu relógio equivale a elogiar a sua aparência.

O Meticuloso

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Imagem de IA – O coleccionador  de relógios Meticuloso

Para o Meticuloso, um relógio assemelha-se a uma matrioska infinita: cada camada removida revela outra, pronta a ser explorada. E se há coisa que aprecia é a luz, pois a escuridão alimenta o desconhecimento, um dos principais ingredientes do medo. É neste jogo entre luz e sombra que nasce o Meticuloso.

Sentir é infelizmente uma forma eficaz de apagar a luz. Um sentimento intenso conduz-nos, muitas vezes, a fechar os olhos à realidade.

O Meticuloso prefere reduzir a intensidade do sentimento para aumentar o controlo.

O domínio dos detalhes torna-se, assim, uma forma de iluminar o desconhecido, e os relógios oferecem uma fonte inesgotável desses detalhes.

Pode sê-lo em relação ao funcionamento ou ao aspecto. O primeiro controla-se através da análise da cronometria. Um relógio preciso transmite segurança; a reserva de marcha indica durante quanto tempo podemos confiar nele. Cruzar ambos os dados permite acompanhar variações ao longo de todo o ciclo de corda. No aspecto, os detalhes multiplicam-se: o acabamento dos ponteiros, a textura do mostrador, a inclinação das asas.

O Meticuloso observa um relógio como quem se aproxima demasiado de um quadro impressionista, e analisa cada pincelada para evitar o impacto emocional do conjunto. Ainda assim, a maioria encontra, por vezes, coragem para recuar, afastar o olhar dos detalhes e sentir.

O Investigador

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Imagem de IA – O coleccionador de relógios Investigador

Em cada relógio existe um mundo por explorar.

Quem aprecia romances policiais reconhece facilmente este perfil. Cada peça da colecção equivale a uma cena de crime pronta a ser analisada. A investigação exige calma, paciência e tempo. Para estes coleccionadores, mergulhar no passado dos seus relógios constitui uma forma eficaz de descansar do presente.

O presente cansa pela sua urgência; o futuro inquieta pela imprevisibilidade. O passado, pelo contrário, apresenta-se estável e, por isso, tranquilizador. Nos relógios novos, investiga-se o percurso da marca e as variações que conduziram ao modelo actual. Nos vintage, o campo é quase ilimitado: marcas de manutenção, dedicatórias, personalizações, contrastes, indícios de proveniência.

A investigação prolonga-se naturalmente para a pesquisa em livros, revistas, arquivos e alfarrabistas. Concluído o processo, surge a necessidade de partilhar resultados. Publicar, discutir, divulgar em fóruns, blogues ou redes sociais permite despertar interesse pela história e fornecer critérios a futuros coleccionadores.

O Guardador de Memórias

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Imagem de IA – O coleccionador  de relógios Guardador de Memórias

Agostinho da Silva aconselhava:

“Não faças planos para a vida, que podes estragar os planos que a vida tem para ti”.

Se o futuro resiste à arrumação, resta organizar o passado. Existe uma memória para cada relógio e um relógio para cada memória. Esse é o lema do Guardador de Memórias.

Os relógios funcionam como cofres capazes de conter triunfos, nascimentos, viagens, encontros e despedidas. A sua caixa assemelha-se a um álbum de fotografias. O valor comercial, o design ou as complicações pouco importam. Essencial é que o relógio esteja vivo, em funcionamento, sinal de que a memória associada também permanece activa.

O passado não é tão estático quanto parece. As descrições alteram-se com o tempo, contaminadas pelas vivências posteriores. A precisão dilui-se; o sentimento permanece. O Guardador de Memórias preserva sobretudo esse sentimento. Usar um relógio associado a uma vitória pode iluminar um dia difícil. Usar o relógio de alguém que já partiu aproxima-nos dessa presença ausente. Aprisionar o tempo é impossível, mas o gesto traz serenidade.

O Engenhocas

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Se é possível complicar, para quê simplificar?

A simplicidade, embora bela e serena, revela-se aborrecida para o Engenhocas. Relógios de horas, minutos e segundos causam-lhe inquietação. A vida é demasiado curta para o que é simples.

Este coleccionador procura movimento constante. Os relógios devem esconder talentos, truques e surpresas. Devem provocar espanto. Tudo o que é estático inspira desconfiança. A sua caixa é um verdadeiro parque de diversões para as complicações relojoeiras.

O Engenhocas reconhece que o tempo acelera ou abranda conforme o contexto. O entusiasmo é o único antídoto contra a lentidão. Compreender o funcionamento de uma complicação é alegria pura em forma de latão e aço. A calma surge apenas depois da compreensão total, semelhante à do alpinista no topo da montanha. O futuro representa invenção; o passado, descoberta. O lado estético importa apenas enquanto consequência do processo técnico.

O Investidor

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Comprar e vender relógios permite conhecer muitos modelos. O Investidor aprecia esse conhecimento, ainda que superficialmente técnico. O momento da aquisição é o auge da experiência. Sabe que, se necessário, pode converter rapidamente a colecção em liquidez, sem perdas significativas.

A segurança é central. Apresentar uma compra como investimento neutraliza a culpa associada ao luxo. Cada relógio representa um degrau numa trajectória económica. A colecção torna-se uma sucessão de provas de sucesso financeiro.

Como o agricultor, o Investidor planta relógios e colhe euros. Depende do ambiente, do contexto, do comportamento humano. A crise do quartzo ilustra bem essa instabilidade. A melhor defesa reside na percepção apurada e no bom timing. No fim, sabe que controla melhor o dinheiro do que os próprios relógios.

O Comprometido

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Imagem de IA – O coleccionador  de relógios Comprometido

Manter uma relação amorosa é complexo. O Comprometido encontra mais estabilidade na relação com a sua marca de eleição do que nas relações afectivas.

Assistir ao pôr-do-sol ou jantar à luz das velas com o relógio no pulso basta-lhe.

A fidelidade exige esforço. Nem sempre é fácil permanecer fiel a uma única marca, mas alguns conseguem-no com distinção. A curiosidade por outras casas é mínima. Esta relação não é estranha, pois a marca oferece pertença, comunidade e previsibilidade. Os encontros entre seguidores reforçam essa ligação.

Traições não são toleradas. Mudanças abruptas de estratégia podem ser sentidas como rupturas emocionais. A fidelidade refere-se aos princípios, não à exclusividade. O Comprometido procura constantemente novos adeptos para a sua marca, fortalecendo-a. É, entre todos, o mais gregário dos coleccionadores.

Guerra Económica: Caju de Moçambique!

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Aqui discute-se o problema da guerra económica, tendo como enfoque a forma como decorreu a transição de Moçambique de uma economia socialista para uma economia de mercado, na década de 1990, influenciada pelas políticas e programas de ajustamento estrutural, ou Programas de Reabilitação Económica (PRE). Deste modo, o objecto de estudo do texto é a influência da guerra económica no sector do caju em Moçambique.

A princípio, trata-se de uma abordagem que destaca a reestruturação do sector da economia, tanto do caju como das dinâmicas que daí emergiram, nas quais se evidenciam conflitos entre interesses dos exportadores associados à indústria indiana de descasque e as dinâmicas de industrialização interna. Não menos importante, nesta análise, é a questão da dependência económica que esses planos suscitaram, bem como os efeitos desestabilizadores que a guerra económica pode ter em diferentes países, além da necessidade de desenvolvimento de infra-estruturas de base para o crescimento económico.

Assim, centramo-nos em discutir a influência das instituições internacionais, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio, nas políticas económicas de Moçambique. Para tal, aborda-se a implementação de programas de ajustamento estrutural/económico e as suas consequências políticas, que vão desde a privatização de empresas estatais à liberalização económica e às mudanças no sector social. Além disso, é do interesse desta pesquisa explorar a noção de guerra económica e a forma como as políticas económicas internacionais podem influenciar o desenvolvimento deste fenómeno, não obstante a dependência económica que tais políticas suscitam em países em vias de desenvolvimento, como Moçambique.

As hipóteses que se levantam para este artigo são três:
i) os países desenvolvidos têm como prioridade manter os países do Terceiro Mundo economicamente dependentes, a fim de garantir o suprimento de matérias-primas e assegurar mercados consumidores para produtos manufacturados;
ii) a guerra económica sempre esteve presente nas relações de produção entre sociedades, sendo a sua teorização posterior aos eventos que a desencadeiam;
iii) a desestruturação da economia, causada por factores como a terceirização generalizada e a abertura de sucursais no exterior, representa uma ameaça para as democracias e gera impactos significativos em diferentes países.

A metodologia utilizada é de natureza qualitativa, baseada na revisão de literatura e na análise crítica de conceitos e teorias. Ademais, o artigo apresenta uma abordagem teórica e conceptual sobre a guerra económica, recorrendo a autores e teóricos que fundamentam tais discussões. Acima de tudo, faz-se referência a eventos históricos que suscitam análises de políticas económicas de carácter analítico e interpretativo. De modo geral, adopta-se uma apresentação descritiva com intenção informativa, de forma objectiva, para contextualizar o conceito de guerra económica em diferentes períodos históricos de Moçambique. Como forma elucidativa, procura-se, de modo indirecto, estabelecer a relação com exemplos específicos, como a liberalização da indústria do caju em Moçambique.


1. Guerra Económica

Há um crescente interesse pela temática da guerra económica, pelo menos nos últimos 30 ou 40 anos. Contudo, se recuarmos um pouco, podemos constatar que este tema já preocupava académicos desde a criação do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade — GATT), que mais tarde se tornaria a Organização Mundial do Comércio (OMC), onde já se encontram indícios desta problemática (GAGLIANO, 2018). Indo ainda mais atrás, é possível observar que o mesmo fenómeno vitimizou o continente africano — em particular Moçambique — desde o período das feitorias.

Ainda assim, apesar do crescente número de publicações sobre o tema, HARBULOT (2013) considera que persiste uma dificuldade conceptual, na medida em que a falta de legitimidade do conceito se deve à necessidade de ocultar a natureza dos enfrentamentos históricos, como as fases da colonização que vitimaram o mundo desde os chamados “encobrimentos da modernidade”. Exemplos disso são as Guerras do Ópio, que culminaram com a abertura dos portos chineses ao comércio estrangeiro, ou, mais especificamente, a liberalização da indústria do caju em Moçambique, como será abordado mais adiante neste texto.

Para GAGLIANO (2018: 11), a guerra económica é um conceito discutido desde o início do século XIX, por intelectuais do calibre de Victor Hugo e académicos de diversas áreas, como a inevitável evolução da lógica do conflito, que, a partir da guerra material travada nos campos de batalha por soldados armados, se transformaria numa forma de confronto “mais suave” entre nações no mercado internacional e, posteriormente, numa troca livre de ideias entre espíritos livres.

Segundo o mesmo autor (ibid.: 12), a primeira definição do conceito surge no decurso da Primeira Guerra Mundial, como um dos componentes da ideia de guerra total, formulada pelo general alemão Erich Ludendorff. Mais tarde, com o fim da Guerra Fria, a discussão sobre o tema intensificou-se, não apenas no plano diplomático, mas também no debate geopolítico, pondo fim à ideia de uma “globalização feliz”.

No contexto contemporâneo, GAGLIANO considera Bernard Esambert como um dos primeiros a resgatar o tema da guerra económica quando, em 1991, publicou La Guerre Économique Mondiale, onde afirma que:

“A violência das armas seria substituída por uma batalha de produtos e serviços, em que as exportações seriam os principais meios disponíveis para cada nação na tentativa de vencer esse novo tipo de guerra, na qual os exércitos são substituídos pelas empresas e as vítimas são os desempregados” (ibid.: 14–15).

Concomitantemente, HARBULOT (2013) defende que o crescimento económico de um Estado-nação constitui a principal motivação para a ocorrência de uma guerra económica, uma vez que daí emerge a necessidade de procurar consumidores para os seus produtos, isto é, mercados consumidores. Foi assim que, durante o período colonial, os portugueses destruíram os mercados tradicionais africanos e os sistemas de troca então praticados, de modo a implantar as suas próprias lógicas de acumulação de capital. Acresce ainda a necessidade de impedir que outros povos se desenvolvessem, destruindo, dessa forma, as suas bases produtivas.

Por outro lado, a busca por recursos naturais e matérias-primas também motiva a ocorrência de guerras económicas, como se verifica em inúmeros exemplos da colonização africana, americana e asiática, em que os produtores eram forçados a vender os seus produtos por valores irrisórios aos colonizadores. Exemplos claros deste fenómeno encontram-se em História de Moçambique: Moçambique no Auge do Colonialismo, 1930–1961, coordenado por David HEDGES (1999), onde se analisam as culturas obrigatórias como causadoras da desestruturação económica desse período.

A este respeito, HARBULOT (2013: 72) acrescenta:

La guerra económica está presente en todas las fases de desarrollo de la colonización (…) no se ha reconocido como uno de los elementos recurrentes de los enfrentamientos ligados a la globalización de los intercambios.

Assim, são diversos os contextos que demonstram que a guerra económica sempre esteve presente nas relações de produção entre sociedades; o que é posterior é a sua teorização. Tal corresponde ao que Hegel entendia por Zeitgeist, o espírito do tempo capturado através de conceitos: os acontecimentos precedem a sua conceptualização filosófica. Neste sentido, a guerra económica baseia-se também na lógica de soma zero da teoria dos jogos, em que o ganho de um implica, necessariamente, a perda do outro.

Diferentemente da guerra armada, caracterizada pelo uso da força (hard power), a guerra económica enquadra-se no uso da influência (soft power) para atingir determinados objectivos. Depreende-se, assim, que a situação económica de uma nação se tornou cada vez mais central, sendo a dependência económica dos países do Terceiro Mundo uma prioridade estratégica para as nações desenvolvidas (GAGLIANO, 2018: 21).

PASSET (2001: 122) reforça:

“O desenvolvimento, ao nível das nações menos avançadas, passa prioritariamente pela constituição das infra-estruturas de base (saúde, educação, vias de comunicação, acumulação capitalística…), com um rendimento diferido no tempo e sem as quais nenhum crescimento é possível. Ora, é isto que os programas de ajustamento estrutural do FMI levam a sacrificar em proveito da liberalização de excedentes financeiros que permitam passar a esponja sobre a dívida externa destes países; ao mesmo tempo, condenam-nos — pela mesma razão — à dependência alimentar, obrigando-os a sacrificar as suas produções alimentares por monoculturas de exportação, geradoras de receitas externas.”

GAGLIANO (2018: 22) afirma ainda:

“A principal estratégia da guerra económica não é senão reforçar a capacidade que uma nação possui de impor a sua vontade sobre outras antes que estas possam impor as próprias, sempre que isso for possível, em um mundo onde a dependência é cada vez mais fragmentada e dispersa. A verdadeira revolução é, portanto, apenas a transformação do poder político em poder económico: as nações tentam modificar os termos da competição e transformar relações baseadas no poder económico, não só para manter empregos, mas também, e sobretudo, para assegurar seu domínio em termos de tecnologia, comércio, economia e, consequentemente, dominação política.”

A guerra económica persegue, assim, objectivos como: “preservar o emprego industrial diante da terceirização generalizada que ocorreu em empresas do setor”, promover a “maior especialização dos trabalhadores nas indústrias de alta tecnologia”, e expandir mercados através da abertura de sucursais no exterior. Estes objectivos geram impactos significativos, afetando produtores emergentes e tradicionais e contribuindo para a espoliação de matérias-primas, fundamentais para o desenvolvimento industrial e alimentar de países menos industrializados (Esambert, citado por GAGLIANO, 2018: 23–28).


2. Transformações na Economia Mundial depois da II Guerra Mundial

O capitalismo em Moçambique não é um fenómeno novo. Ele provém das relações mercantis do comércio triangular, caracterizado por constantes reconfigurações. No período pós-colonial, pretendia-se que Moçambique adotasse uma orientação socialista, com consequências significativas para o rumo da economia, enquadradas na derrocada do bloco socialista.

Ribeiro (2008: 13–15) identifica diversos trajectos históricos do capitalismo em Moçambique:
i) lutas entre Estados, centro e periferia, dominantes e dominados, que moldaram as reconfigurações do capitalismo inicial durante o Comércio Triangular;
ii) triunfo dos interesses da burguesia comercial e das elites políticas na busca por rendimentos acelerados, durante a escravatura;
iii) acentuação das relações de dependência de Moçambique no interior da economia-mundo capitalista, no final do colonialismo;
iv) alteração na correlação de forças entre capital e trabalho, resultando no esmagamento de salários e aumento da disponibilidade de força de trabalho durante o socialismo;
v) introdução de políticas de ajustamento estrutural, condicionando oportunidades e escolhas dos actores sociais.

O fim da Segunda Guerra Mundial marcou a busca de novos espaços de influência global pelos vencedores, especificamente os Estados Unidos e a URSS. Circunstâncias políticas regionais, como a Guerra-Fria e a presença de governos de minoria branca na Rodésia do Sul e na África do Sul, inviabilizaram a implantação do socialismo em Moçambique (MATSINHE, 2011: 28).

Moçambique, apesar de ter optado pelo socialismo após a independência, viu-se obrigado a adotar políticas económicas neoliberais devido à pressão das Instituições de Bretton Woods (IBW), formadas a partir da Conferência de Bretton Woods em 1944, que criou o Banco Mundial, o FMI e, mais tarde, a OMC (MABOTA, 2019: 128–129).

As reformas neoliberais em Moçambique iniciaram-se em 1984 com a adesão ao Banco Mundial e ao FMI, e intensificaram-se em 1987 com a implementação do Programa de Reabilitação Económica (PRE), inspirado no Consenso de Washington (MATSINHE, 2011: 34). Este programa visava a liberalização económica e a transição do socialismo para uma economia de mercado, posteriormente ampliado pelo Programa de Reabilitação Económica e Social (PRES, 1990) devido às lacunas na cobertura dos serviços sociais.

As IBW introduziram mudanças significativas na economia moçambicana durante os anos 1990, incluindo liberalização, desregulamentação e privatização de sectores-chave, muitas vezes à custa de investimentos sociais em saúde e educação. PASSET (2001: 95) critica a ação destas instituições, apontando os desequilíbrios causados pelos programas de ajustamento estrutural, como a condenação à dependência alimentar e a liberalização de excedentes financeiros em detrimento do desenvolvimento nacional.


3. Violência sobre a Indústria do Caju em Moçambique

Desde a independência, o sector do caju em Moçambique sofreu profundas alterações. A transição para a economia de mercado e a liberalização económica nos anos 90 implicaram uma reestruturação do sector, emergência de novos actores, redefinição das relações comerciais e intensificação da guerra do caju, caracterizada por conflitos entre interesses exportadores ligados à indústria indiana de descasque e a industrialização interna (LEITE, 1999).

Os programas de ajustamento estrutural das IBW pressionaram pela anulação da protecção à indústria de descasque, promovendo a exportação da castanha em detrimento da sua industrialização interna. Também influenciaram políticas fiscais e tarifárias relacionadas com a exportação, afetando receitas externas e o pagamento da dívida de Moçambique (LEITE, 2001).

Historicamente, o sector do caju passou por várias fases (RIBEIRO, 2008: 5–6):
a) período colonial, com exportação de castanha in natura para a Índia;
b) anos 1950, com necessidade de desenvolvimento de equipamento mecânico local para o descasque;
c) saída dos colonos, com gestão estatal das fábricas;
d) 1979, constituição da empresa Caju de Moçambique;
e) dificuldades posteriores devido à guerra, escassez de técnicos, flutuação de preços e procura internacional.

Após os ajustes estruturais e influência das IBW, o sector do caju passou por significativas transformações:

  • Oposição e resistência (1987–1990): comerciantes, industriais e governo resistiram à liberalização rápida imposta pelo Banco Mundial;

  • Privatização e reestruturação (1991–1993): privatização das unidades de processamento de castanha, desafios em conciliar interesses locais com as imposições das IBW;

  • Liberalização das exportações (a partir de 1993): pressão para exportação total, enfrentando resistência devido ao impacto na indústria local e no emprego.

O processo de liberalização implicou a transição de gestão estatal para uma abordagem orientada para o mercado, aumento de empresas privadas, maior concorrência, diversificação de produtos, mas também queda de preços pagos aos produtores e diminuição da produção e do emprego nas indústrias locais de descasque (LEITE, 1999, 2000).

A guerra do caju em Moçambique refletiu o conflito entre interesses exportadores e dinâmicas internas de industrialização. A desestruturação económica, a guerra civil e a destruição de infra-estruturas agrícolas dificultaram a monetarização da produção local e a satisfação da procura camponesa, impactando significativamente a economia (LEITE, 1999: 4–5).


Conclusão

A guerra económica não é um fenómeno novo; a sua teoria e discussão académica surgiram posteriormente aos eventos que a desencadearam. O seu objectivo é desintegrar o crescimento e desenvolvimento de relações comerciais que poderiam gerar concorrência para os países mais desenvolvidos.

Em África, a violência económica é secular, desde o colonialismo e o Comércio Triangular até às políticas contemporâneas das IBW. Os Programas de Ajustamento Estrutural têm sido apontados como causadores de desequilíbrios nos modelos de gestão dos Estados, mantendo a supremacia de determinados mercados globais.

As principais conclusões deste estudo indicam que as políticas económicas internacionais, especialmente os programas de reabilitação e ajustamento estrutural influenciados pelo FMI e pelo Banco Mundial, provocaram desestruturações significativas na economia de Moçambique durante a transição do socialismo para a economia de mercado nos anos 1990. O impacto no sector do caju e na economia em geral foi negativo, refletindo os desafios da globalização, liberalização económica e monetarização da economia.

Referências Bibliográficas

GAGLIANO, G. (2018). Guerra econômica e competição no mundo contemporâneo. Tradução de Diogo Colossi e Vanessa Castagna. Pelotas: Ed. UFPel.

HARBULOT, C. (2013). Estudio de la guerra económica y de las problemáticas relacionadas. Cadernos de Estratégia (Edição dedicada a: A inteligência económica de um mundo globalizado), nº. 162, pp. 67-102.

HEDGES, D. (coor). (1999). História de Moçambique: Moçambique no Auge do Colonialismo, 1930-1961. Maputo: Livraria Universitária.

LEITE, J. P. (1999). A guerra do caju e as relações Moçambique – Índia na época pós-colonial. Instituto Superior de Economia e Gestão. CEsA – Documentos de Trabalho nº 57.

___________. (2000). A guerra do caju e as relações Moçambique-Índia na época pós-colonial. Lusotopie, n°7. Lusophonies asiatiques, Asiatiques en lusophonies. pp. 295-332; https://www.persee.fr/doc/luso_1257-0273_2000_num_7_1_1379

____________. (2001). A Guerra do Caju e as Relações Moçambique-Índia na Época Pós-Colonial. Lusotopie, nº 1, Karthala ,pp. 295-332.

MABOTA, A. D. S. (2019). Ubuntu, uma possibilidade de alternativa ao neoliberalismo como fundamento das relações norte-sul. Dissertação (Doutoramento em Filosofia Social e Política). Instituto de Letras e Ciências Humanas. Universidade do Minho, Braga.

MATSINHE, L. S. (2011). Moçambique: uma longa caminhada para um futuro incerto?. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2011.

NGOENHA, S. E. (2017). Resistir a Abadon. Maputo: Paulinas.

PASSET, R. (2001). Elogio do Mundialismo: Por um «Anti» Assumido. Tradução de Luís Couceiro Feio. Lisboa: Instituto Piaget.

PEREIRA, L. J. (2000). A guerra do caju e as relações Moçambique-Índia na época pós-colonial. Lusotopie: Lusophonies asiatiques, Asiatiques en lusophonies, n°7. pp. 295-332; https://www.persee.fr/doc/luso_1257-0273_2000_num_7_1_1379

RIBEIRO, F. B. (2008). Entre martelos e lâminas: dinâmicas globais e políticas de produção na indústria do caju em Moçambique. Dados, nº 51, 511-531.

Explicação de um Povoado Medieval pela Imagem

Explicação de um Povoado Medieval pela Imagem.

• O que é isto?

• De onde é retirado?

• Que aspetos contém?

• Qual a importância destes?

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Defronte a nós, temos uma pintura. Ou melhor: uma pintura em um conjunto de pinturas. Na Era de 1502, D. Manuel ordena um seu particular, Duarte de Armas, que passasse pela fronteira do Reino, desenhando as suas respetivas Fortalezas, para que o Rei averiguasse o que precisava ser concertado ou não. Na Era de 1503, o resultado foi este: a publicação de uma obra, chamada “Livro das Fortalezas”, que contém uma quantidade satisfatória de Fortalezas do Reino, desde o Algarve até Viana. Esta publicação tem o intuito particular de analisar um dos exemplos desses desenhos, com uma análise concisa dos seus atributos.

• Que Povoado é este? Se não existisse a nomeação explicitada pelo autor, teríamos de analisar os arredores e coincidí-los num Povoado contemporâneo. Não é necessária tamanha complicação. Vemos, no…

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…canto à esquerda, um Povoado próximo ao que estamos a analisar e, além de conter a Bandeira de Castela [como se vê acima], tem o seu nome escrito – Badajoz. Logo, este Povoado está nas bandas daquela terra. E no centro, o que diz? A imagem está desfocada, mas pode parecer…

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…difícil de ler, mesmo se a não estivesse. A esquemática é simples: a terra desenhada está sempre nomeada na primeira ou primeiras palavras da frase. Neste caso, é só numa – Olivença. O restante diz o seguinte – “tirado naturall da banda do Norte”. O que quer dizer isto? Quer dizer que o desenho foi pintado do lado Norte da Fortaleza. Cada Fortaleza, nesta obra, foi pintada sob duas perspetivas diferentes, por isso o Autor clarificou de que lado cada uma era feita. Neste caso, do Norte, de frente para as bandas de Castela. Agora, passemos para uma análise geral da Imagem. À partida, reparamos logo no Castelo. A grande muralha que vêem diante do Povoado era chamada de “Medina”. A parte de dentro da Fortaleza que continha as casas das gentes chamava-se, pois, a “Almedina”. Repararam nesta linha preta um pouco…

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…abaixo das ameias do Castelo [aquelas elevações quadrangulares com espaços entre cada uma]? Chamava-se “Adarve”, e era a região por onde os homens de guerra se dirigiam, para a vigilância e para atacar um inimigo. Era um corredor que corria todo o perímetro da Muralha, e era acessível a partir de uma escada de pedra com madeira encaixada, que aqui não conseguimos ver. A “Medina” [ou “Castelejo”] era meramente a Fortaleza que rodeava o núcleo populacional – isso, porque existia outra camada de Muralhas, que protegia a região fortuita do Castelo. A região que vêem abaixo – no interior, chama-se a “Praça d’Armas”, pois era o local onde os grandes da Praça se reuniam para ordenar algo à Guerra relacionado. A Muralha que rodeava a Praça d’Armas chamava-se a “Alcáçova”, e era a moradia do Senhor, do Alcaide da…

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…Fortaleza. Repare-se, nem sempre o Alcaide vivia no Castelo aqui desenhado. Muitas vezes, vivia num Paço mandado construir por ele, rente ao chão. Aqui, como não vemos o Paço, é difícil perceber onde vivia, mas o cimo das Torres não tem telhado, que é uma marca de análise, que pode corroborar o Castelo como habitação. Aquilo que aqui vemos abaixo, a maior das Torres, era o que antigamente se considerava a residência do Alcaide, a mais protegida. Chamava-se “Torreão” ou “Torre de Menagem”, sendo este “Menagem” uma antiga forma de dizer…

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…”Homenagem”, com relação à Vassalagem [a Homenagem] que um homem prestava diante do seu Senhor. Retomando à “Alcáçova”, existia, embora não podendo ver nesta imagem, algumas coisas que frequentemente uma Alcáçova tinha – uma “Porta dos Pecados”, por onde os criminosos eram retirados do Povoado, além de “Portas Falsas”, para manobrar os sitiantes da Fortaleza, além, claro, de uma Porta verdadeira, por onde o Alcaide pudesse sair em casos extraordinários. Repare-se, os corredores que ligavam estas Portas ao interior da Muralha eram curvos e oblíquos justamente para impedir a penetração fácil dos sitiantes. Ora, existiam corredores internos dentro das Muralhas? Sim, pois a muralha era grossa, longa [justamente para criar o “Adarve”] e necessária para criar pujança à mesma. As Muralhas Portuguesas, entre as camadas interna e externa, continham sedimentos de areia ou outro entulho vário, para criar uma fortificação compacta e não oca – além, claro, de existir uma Porta Principal na Medina, que aqui não vemos, induzindo que essa Porta está do lado do Sul. O que vemos também de grandioso, a par deste Castelo? Está igualmente escrito ao lado o que ela seria – e é algo novo para a época, o que demonstra a importância desta particular Fortaleza, no contexto geral: “Relógio”, é o que diz. Esta é a Torre do Relógio, e vêem o sino no interior, que…

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…tangia às horas certas. Outro aspeto de importante menção: as quatro torres [nesta imagem vemos duas, mas a imagem da banda do Sul mostra outras duas], respeitosamente distanciadas da Muralha. Que são? As “atalayas”, torres de vigia e de observação. Nem todos os Povoados…

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…tinham duas Atalaias, quanto mais quatro. Variaria mediante a necessidade – e sendo Olivença fronteiriça de Castela, não admira que fosse um dos Povoados que mais tinha Atalaias. Reparem no local alto onde se localizam, claramente estratégico, para a análise de grandes panoramas. Agora vejamos outras efemérides: estes tracejados nas montanhas não são de mera estética – querem ilustrar estradas, na altura de terra batida. Como podemos induzir isso? Por duas coisas: 1° – há um destes tracejados diretamente ligados à Capela local, no canto…

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…direito; 2° – a estrada do canto esquerdo está diretamente ligada àqueles homens que se dirigem para a Fortaleza. Que homens são estes? Bem, estão de costas, não podemos averiguar com total precisão, mas podemos induzir o que sejam: “Almocreves”, homens que locomoviam-se de…

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…terra em terra para vender mercadorias várias – eram vendedores ambulantes, assim digamos. Têm uma lança, estão a cavalo, e têm uma “Coifa” na cabeça [peça de armadura amortecedora, por onde se colocava o elmo em cima]. Agora, uma breve explicação das casas. Vemos de duas…

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…tipologias: de dois andares, ou de um andar. Ademais, com outro tipo de categoria: os telhados. As casas que vêem quadrangulares, têm geralmente de colmo, que normalmente coincidem com as casas terreiras de um andar [por isso é que se chama “Piso Térreo”, porque é de terra]…

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…As que vêem de clivagem triangular em cima, são geralmente de telha. As casas de dois andares têm frequentemente estes. Já agora, além do já dito “Piso Térreo”, estas têm o segundo piso, chamado “Piso Sobradado” [pois é sobrado, madeira]. Adicione-se: estas casas, fora das muralhas, estão numa região com uma designação distinta. É o “Arrabalde”, todas as regiões próximas das muralhas, estando fora delas. A região onde está a Muralha e, consequentemente, onde está o Órgão de Poder, chama-se “Urbe”. E, no território além dos Arrabaldes, mais longínquos, mas que ainda pertencem à Urbe, chamam-se os “Termos”, onde normalmente estariam os terrenos de cultivo, as matas inexploradas e os terrenos incultos.

Há muito mais a dizer mas, como a explicação deve ser introdutória, fiemo-nos nestas temáticas gerais, para o conhecimento geral.

Como D. Pedro I defende os pobres numa carta de 1351

A maneira como hoje se tem a percepção a respeito dos nossos Reis é muito enviesada por um fenómeno erróneo que coloca a sociedade dos governados em um panorama segregado à sociedade fantasiosa dos Reis.

Vejam como D. Pedro I defende os pobres nesta carta de 1351, e concluam. 

“De mim Infante D. Pedro filho primeiro herdeiro do mui nobre D. Afonso pela graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve a vós juízes e vereadores e procurador do Concelho de Bragança, saúde. Sabede que eu vendo e considerando em como me foi dito por muitas e desvairadas pessoas dignas de fé que enquanto eu estivera em essa vila de Bragança e nas aldeias do seu termo que o pão por que se a minha companha havia de manter que fora tomado aos lavradores e aos de piores condições e que os celeiros dos homens bons e dos honrados eram guardados e que tanto que eu eu ora partisse da dita comarca que o pão encareceria muito e que aos poderosos a nenhum deles não poriam almotaçaria [tabelamento de preços] nem temperamento nenhum e que os pobres seriam estragados do que houvessem e danariam muito das suas fazendas por haverem de haver mantimento e que isto seria grão dano da dita vila se aí não houvesse algum temperamento. Vendo eu que o direito quer que sempre a prol comunal deve ser a mais guardada que a de algumas pessoas privadas [releiam este início], com acordo dos do meu conselho fiz tal ordenamento em razão de como houvesse de valer todo o pão em a dita vila e termo até o novo, mando e defendo que nenhuma pessoa que seja que tenha celeiro de trigo e de centeio e de cevada e de milho na dita vila e termo dela que não o alcem a maior venda que o que valia antes um mês que eu chegasse à dita vila e comarca dela e se for achado que o por mais vendem que o que então valia chamem até o novo que há de vir que o que vender por mais que pague o pão que assim vender e o que o comprar por mais que o que assim valia por os dinheiros que por ele der [ou seja, o vendedor paga o pão o pobre, a bem dizer]. E isto que assim perder também o vendedor desse pão como o comprador dele seja para a prol desse concelho em esta guisa: as duas partes para o dito concelho e a outra parte para o acusador que este incumprimento acusar. E mando que se por isto não quiserem abrir os celeiros do pão aqueles que os tiverem para o vender que vós procurador do concelho lhes diga e afronte presente um tabelião que os abram e deem o pão à venda. E se desse dia que lhes afrontar que os abram e o deem esse pão à venda pela dita valia a três dias o não derem à venda levem deles por cada um dia cinco libras de pena desses três dias que o não quis fazer e assim de cada um em diante que o não quiserem vender e sejam esses dinheiros as duas partes para o concelho e a uma parte daqueles que os acusarem e todavia façam-lhes vender o pão aos pobres da vila e do termo e não para fora da terra. E mando que o procurador do concelho faça um livro em que escrevam estas penas para o dito concelho como dito é por um tabelião dessa vila qual virem que para isso mais cumpre que o escreva e provem-lhe aguisadamente do seu afã e da escritura que aí fez desses dinheiros e pão que houver dos sobreditos que caírem nas sobreditas penas. E mando que logo vós procurador metades jurados também na vila como no termo que requeiram e descubram estes que assim forem contra a postura em razão da dita venda do pão e que ajam para si uma parte das penas daquilo que por eles for achado e acusado como é mandado que haja o acusador e que estes jurados sejam escritos no dito livro de vós procurador e que cada mês deem recado do que acharem nas ditas penas. E mando a vós juízes e vereadores da dita vila que ajudedes isto a cumprir sob pena dos corpos e dos haveres. E se vós juízes e vereadores fordes em isso negligentes mando a vós procurador desse concelho e aos tabeliães dessa vila que assim me o façades logo a saber onde quer que eu for sob a dita pena para o haver de estranhar como devo e for minha mercê. Em testemunho das ditas cousas mandei então dar esta carta a António Martins procurador do dito concelho Dante em Izeda, doze dias de Janeiro, o Infante o mandei por Afonso Anes de Alenquer seu vassalo e seu ouvidor não sendo aí Francisco Pires de Trancoso seu “companhom”. Vasco de Belas a fez. Era de Mil e trezentos e oitenta e nove anos”.

 – Pergaminho n.º 34 do Arquivo Distrital de Bragança.

The Fallacy of Superficial Fascism: The Real Danger Lies in State Capture

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In an era of heightened political anxiety, observers often scour popular culture—military-inspired fashion, choreographed parades, stirring anthems, nationalist rhetoric, or isolationist policies—for signs of fascism or totalitarian resurgence. This impulse, fueled by vivid memories of 20th-century tyrannies, is understandable but arguably misguided. These overt symbols, while evocative, are unreliable predictors of authoritarian intent, often reflecting cultural trends or civic traditions rather than ideological blueprints. Instead, a subtler, more pernicious threat looms: the gradual capture of the state apparatus—sometimes dubbed the “deep state”—by a single party or ideology. Here we argue that the fixation on pop culture as a fascist barometer is largely a distraction, a superficial exercise that misses the slow, complex, and infinitely more dangerous consolidation of power within institutions. Through historical precedent, contemporary examples, and theoretical insight, we will explore why state capture, not aesthetic echoes, represents the true peril.

Pop Culture as a Red Herring

The association between authoritarianism and cultural spectacle is deeply ingrained. Nazi Germany’s black-clad SS, the synchronized goose-stepping of Nuremberg rallies, and the martial strains of Horst-Wessel-Lied created a theatrical grammar of power that still haunts the imagination. Mussolini’s Italy, too, leaned heavily on aesthetics, reviving Roman eagles and gladiatorial motifs to project an imperial destiny. In Franco’s Spain, military parades and Catholic iconography fused to cement a regime of order and tradition. These regimes understood that symbols could unify, intimidate, and inspire—tools of propaganda as much as governance.

Today, this legacy prompts scrutiny of similar elements. Fashion houses like Balenciaga or Prada periodically flirt with militaristic designs—camouflage prints, epauletted jackets—prompting think pieces about “fascist chic.” Parades, such as Russia’s Victory Day celebrations with their tank columns and flyovers, stir unease among Western commentators. Anthems and slogans—“Sweet Caroline” repurposed for nationalist rallies, “L’amour Toujours” superimposed with the lyrics Auslander Haus, or Trump’s “Make America Great Again”—are dissected for authoritarian undertones. Isolationism, too, from Brexit’s “Take Back Control” to India’s Hindu nationalist rhetoric, is flagged as a gateway to totalitarian nostalgia.

Yet these signifiers are slippery. Military aesthetics have been recycled across contexts—by punk rockers in the 1970s as subversion, by video gamers in Call of Duty as escapism, or by hip-hop artists as swagger. Parades are ubiquitous: France’s Bastille Day boasts tanks and jets, yet no one calls it fascist; North Korea’s displays are chilling, but their form mimics democratic pageantry. Anthems stir emotion everywhere—the U.S. Star-Spangled Banner exalts war, but its context is patriotic, not dictatorial. Isolationism, meanwhile, has pragmatic roots: 19th-century U.S. Monroe Doctrine or post-WWI British retrenchment were not preludes to tyranny. Umberto Eco’s “Ur-Fascism” cautions against over-reading such traits, noting that fascism was a “fuzzy totalitarianism,” defined less by uniforms than by its rejection of dissent. To equate a runway trend or a border wall with Hitler’s Reich is to dilute the term’s gravity.

Moreover, pop culture is inherently polyvalent. A swastika tattoo might signal neo-Nazi allegiance—or a Buddhist peace symbol, depending on the wearer. Nationalist rhetoric can rally a democracy against external threats as easily as it can cloak despotism. This ambiguity renders cultural symbols poor diagnostic tools. They are noise, not signal—arresting, but rarely dispositive.

The Deeper Threat: State Capture and the “Deep State”

Contrast this with the quiet menace of state capture, where a single ideology or faction seizes the machinery of governance. Unlike parades, this process lacks fanfare: it unfolds in boardrooms, courtrooms, and backroom deals. Political scientists define state capture as the systematic redirection of public institutions to serve private or partisan ends. The “deep state,” a term born in Turkish politics to describe shadowy military-bureaucratic cliques, has evolved in popular usage to mean any entrenched, unaccountable power bloc—often one aligned with a dominant ideology. Whether by design or drift, this capture erodes pluralism, the lifeblood of democracy.

History offers stark lessons. In Weimar Germany, the Nazi ascent was not solely a triumph of rallies but a takeover of the state’s sinews. By 1932, Hitler’s party had infiltrated the judiciary with loyalists, neutered regional governments via Gleichschaltung, and co-opted the military through promises of rearmament. The Reichstag fire was merely the capstone; the groundwork was laid in bureaucratic trenches. Similarly, Stalin’s USSR saw the Bolsheviks transform a revolutionary coalition into a one-party state by purging rivals from the Politburo, NKVD, and local soviets—often without public spectacle. These were not sudden coups but methodical consolidations, invisible to casual onlookers.

Modern examples amplify the point. In Turkey, Recep Tayyip Erdoğan’s AKP has spent two decades reshaping the state: purging 150,000 public servants after the 2016 coup attempt, stacking the Constitutional Court with allies, and turning state media into a party mouthpiece. Elections persist, but their fairness is hollowed out by gerrymandering and opposition arrests. Hungary’s Viktor Orbán follows a parallel script: his Fidesz party controls 70% of media outlets, rewrote the constitution to entrench power, and neutered the judiciary—all under the guise of “illiberal democracy.” In Venezuela, Nicolás Maduro’s regime clings to power not through charisma but via a loyal Supreme Court, military patronage, and control of oil revenues. These cases share a pattern: the state becomes an extension of the ruling clique, not a neutral arbiter.

This process is glacial, leveraging legal mechanisms and exploiting public fatigue. It thrives on complexity—arcane laws, obscure appointments—that defies easy headlines. Modern authoritarianism rarely storms in with tanks; it slinks through the back door, rigging rules and co-opting referees. The result is a façade of democracy—parliaments sit, ballots are cast—but power ossifies into a single hand.

Why State Capture Outweighs Cultural Symbols

State capture’s danger lies in its depth and durability. A fashion trend can be boycotted; a parade can be rained out. But once a party entrenches itself in the bureaucracy, courts, or security services, extricating it demands Herculean effort. Poland’s Law and Justice Party (PiS) illustrates this: since 2015, it has overhauled the Constitutional Tribunal, retired judges en masse, and installed loyalists, prompting EU sanctions but little domestic reversal. In India, the BJP’s dominance over electoral commissions, tax agencies, and media regulators has raised fears of a “one-party democracy.” In the U.S., partisan battles over Supreme Court seats, gerrymandering, and voter laws hint at institutional skew—less dramatic than swastikas, but more enduring.

Cultural symbols, by contrast, are fleeting and interpretable. A military jacket might signal discipline to one viewer, irony to another; a nationalist anthem might inspire unity or division. Their meaning shifts with context—think of the Confederate flag, a heritage marker to some, a racist relic to others. State capture, however, is unambiguous: it seeks monopoly, not dialogue. Hannah Arendt’s “banality of evil” captures this: totalitarianism matures not in grand gestures but in the mundane accretion of control—unsigned memos, rigged audits, silenced whistleblowers.

The global rise of “competitive authoritarianism” underscores this shift. Leaders like Russia’s Putin or China’s Xi Jinping rely less on ideological pageantry than on systemic dominance: Kremlin-aligned oligarchs control media and energy; the CCP’s Central Commission for Discipline Inspection polices dissent. Even in democracies, partisan capture looms: U.S. debates over the FBI’s impartiality or Brazil’s judicial crackdowns on corruption reveal how institutions can tilt toward one side. These are not photogenic tyrannies but technocratic ones, grinding down opposition through process, not propaganda.

Addressing Counterarguments

One might argue that cultural symbols are not mere distractions but amplifiers—rallying cries that pave the way for state capture. Hitler’s rallies, after all, galvanized support before the Nazis seized power. Yet this conflates cause and effect: symbols gain potency only when institutions are already compromised. The Weimar Republic fell not because of parades but because its judiciary and legislature buckled. Today, Orbán’s Hungary or Modi’s India show that state capture often precedes, not follows, cultural shifts—nationalist rhetoric spikes after power is secured, not before.

Another critique holds that ignoring cultural signals risks underestimating grassroots extremism—neo-Nazi marches or Proud Boys’ militarized posturing. These are real threats, but their impact hinges on institutional acquiescence. The 2021 U.S. Capitol riot, for instance, failed not because its symbols were weak, but because courts, Congress, and the military upheld democratic norms. Absent state complicity, such movements remain fringe.

Conclusion: Refocusing the Lens

The hunt for fascism in pop culture is not wholly baseless—symbols can echo ideologies—but it is a shallow pursuit, mistaking style for substance. Military fashion, parades, anthems, and nationalism are too fluid, too universal, to reliably signal totalitarian intent. They are the ephemera of human expression, not its essence. The real resurgence of authoritarianism lurks elsewhere: in the slow capture of the state, where a party or ideology turns public institutions into private fiefs. This is not the fascism of newsreels, with its torchlit marches and bellowing führers, but a quieter, more resilient strain—one that wears suits, cites laws, and counts votes it has already fixed.

To borrow from Eco, “the enemy is still around,” but he is not always goose-stepping. He is more likely drafting a memo, appointing a loyalist, or rewriting a rulebook. Scholars, activists, and citizens must shift their gaze—from the runway to the registry, from the parade ground to the polling station. The threat is not in what we see but in what we overlook: the machinery of power, humming beneath the surface, waiting to be claimed.


References

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O Mal, Michel Lacroix: leitura comentada

“Foi bom ver-te hoje. Muito feliz por isso. E amanhã a sentença. Ponho tudo nas mãos de Deus.”

Edwald von Kleist-Schmenzin

No seu livro O Mal, Lacroix encaminha-se pelas veredas nebulosas da maldade e das suas manifestações, bem como pelas tentativas que o Homem foi forjando para do mal se libertar, lidando com o seu tremendo poder. O objetivo deste breve texto é apresentar uma leitura comentada da obra e daquilo que ela abarca, destacando os seus aspetos mais relevantes.

Logo no prefácio, Lacroix começa por salientar uma questão decisiva: qual será a definição correta para aquilo que chamamos Mal? Haverá diferentes tipos de mal, uma vez que este parece abarcar fenómenos muito distintos? Caberá o mal numa definição precisa ou será uma realidade escorregadia para a razão humana?

A primeira distinção posta em cima da mesa divide o mal em dois tipos: o mal moral (causado) e o mal natural (suportado). O primeiro é resultado de uma ação livre; o segundo, pelo contrário, não depende da ação de ninguém — um terramoto não ocorre por maus humores da terra — e, como tal, apenas pode ser suportado, não evitado.

O autor não fica de todo satisfeito com esta distinção simplista, salientando que, por vezes, estes dois males surgem misturados (toda a narrativa ecológica, ou as políticas de saúde sanitárias, vivem desta mistura), sendo que as linhas que os separam não são assim tão claras. Além disso, sublinha que esta distinção pode conter um vazio, uma vez que apenas contempla o maligno no plano da ação ou da natureza, não acautelando outras possibilidades.

Ainda que o mal nos surja com contornos indefinidos, a necessidade de o combater é bastante antiga. Michel Lacroix apresenta as armas que o Homem tem usado para se bater, como São Jorge contra o dragão.

Uma das primeiras premissas que o autor coloca — e que pode suscitar apreensão a alguns leitores — é a de que o mal deve ser situado na História, sendo que, ao longo do livro, são assinaladas datas marcantes e eventos traumáticos com alguma regularidade.

Antes de mais, Lacroix fala-nos de onde chegámos. Para ele, a contemporaneidade é um momento de sobre-exposição ao mal, o que promove um dos fenómenos que Hannah Arendt tornou célebre: a banalidade do mal. Os meios de comunicação e a tecnologia recreativa usam e abusam do poder de influenciar os espectadores com um feroz e interminável repertório de violência. O globalismo produziu uma fábrica de pânico e terror em tempo real inédita na História. A fria contabilização do número de mortos, a conversão destes em números, ainda que promova o pânico, promove também a banalização da morte do outro, que aparece sem rosto, sob a forma de número mediático.

Vivemos, segundo Lacroix, mergulhados naquilo a que eu chamaria um cocktail fatal: a par desta exposição incansável ao mal, assiste-se a uma falência da crença em todos os sistemas explicativos capazes de o domesticar. O homem relativista vive desamparado e à mercê do terror. A ideia profética de que o progresso científico e tecnológico colocaria um ponto final no mal encontra-se fortemente descredibilizada, encaminhando-nos, em muitos aspetos, mais para uma distopia.

Segundo o autor, é importante relembrar as velhas interpretações do mal que existiram antes de termos chegado aqui e, ainda que a sua apresentação não seja suficientemente exaustiva, oferece pontos relevantes. Lacroix evoca a tradição bíblica, que admite a existência do mal e defende que este pode ser justificado pelo bom uso que Deus faz dele. São frequentes as ocasiões em que Ele castiga as infidelidades do Seu povo. Em função disso, o mal deixa de aparecer como absurdo e passa a ser entendido como instrumento do tribunal divino. O temor a Deus é justamente a vivência humana em função deste enquadramento. Pode afirmar-se, com uma pitada de neoplatonismo, que os Homens estão cegos para o que é o Justo em si e necessitam das mãos divinas capazes de transformar o mal em bem.

Como é sabido, a tradição escolástica desenvolveu teses sobre Deus baseadas sobretudo nos Seus atributos, tendo grandes dificuldades em conciliá-las com a existência do mal. Surgem, por isso, as famosas teodiceias, que visam compatibilizar três proposições:

  • Deus é omnipotente;

  • Deus é bom;

  • o mal existe.

Formular o problema nestes termos já é, em si, motivo para discussão, pois referimo-nos a realidades que nos são desconhecidas. Apenas através de uma imaginação aguçada podemos ter uma ideia muito vaga do que seja a omnipotência ou a bondade divina. Como escreveu Ricardo Reis num dia de outubro:

“Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza que eles
Sabem que há o Universo.
Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses;
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores (…)”

Uma das tentativas de resolução deste quebra-cabeças consiste em fazer cair, qual peça de xadrez, uma destas proposições, nomeadamente equacionando a inexistência do mal. Na presença de um Deus único, bom e omnipotente, parece impossível encontrar para ele uma raiz plausível. Se hoje muitos relativistas negam a existência do mal de forma concreta, relegando-o para o campo da subjetividade — ainda que nunca de modo claro e explícito —, Santo Agostinho e outros autores defenderam que o mal não é algo que exista, mas antes uma falta, uma ausência.

Outros argumentos foram lançados sobre o problema, nomeadamente o de que o mal resulta do livre-arbítrio. Muitos repararam que os Homens só poderiam amar verdadeiramente o seu Deus se tivessem também a possibilidade de não o fazer. Além disso, haveria em Deus um poder transformador: a Queda de Adão seria o princípio de uma História que culminaria em Cristo.

Leibniz levará esta ideia às suas últimas consequências, defendendo que Deus criou o melhor dos mundos possíveis, sendo este aquele em que os ingredientes — bem e mal — estão distribuídos da forma mais justa. É, de facto, possível imaginar mundos substancialmente piores do que este, e talvez por isso a ficção de terror ainda tenha um longo caminho a desbravar. Na tese leibniziana, o mal coincide com as sombras de uma bela pintura que, apenas vista à distância, revela a harmonia das suas cores. Deus é, no fundo, um pianista capaz de extrair de um aglomerado caótico e dissonante de notas uma majestosa harmonia.

Várias críticas foram esgrimidas contra esta posição, procurando demonstrar a incapacidade da criatura para desempenhar o papel de advogada do seu Criador. O Homem não pode falar a partir desse ponto de vista absoluto, pois não tem acesso a ele; como tal, não pode subscrever um juízo fidedigno sobre a totalidade do real. As teodiceias acabam por cair, segundo Lacroix, numa astuciosa vaidade.

Vendo-se paulatinamente privado desta fonte de estabilidade, o Homem não desistiu e procurou socorro batendo a outra porta — a da História. Esta surge, daí em diante, sob a forma de providência laica. Autores como Bernard Mandeville defenderam que é na sociedade que reside o poder “mágico” de converter vícios privados em benefícios públicos. Muitos pensadores modernos viram o mal como combustível da locomotiva do progresso. Lacroix sublinha que os iluministas, ao escarnecerem da noção de Providência, acabaram por produzir algo semelhante, ainda que pintado com as cores do ateísmo.

A canonização desta abordagem encontra-se, segundo o autor, na obra de Hegel, que apresenta a História como manifestação do Weltgeist (espírito do mundo), num percurso dialético. Os povos erguem-se e ruem como castelos de areia, sendo apenas embaixadores provisórios desse espírito. Para clarificar esta visão, imagine-se uma viagem espacial com a duração de vários séculos: os primeiros astronautas não chegariam ao destino, mas incorporariam provisoriamente a viagem. Assim, para Hegel, o cidadão romano ou persa contribuiu para que o Homem chegue a Marte ou, de forma mais radical, ao fim da História. Contudo, há aqui uma agravante: embora sejam os Homens a fazer a História, não sabem que História estão a fazer. Daí o peso simbólico do herói ou do vidente, figuras que parecem suspender essa cegueira perante o destino.

Esta confiança na capacidade da razão para metabolizar o mal é hoje alvo de grandes reservas. Lacroix reitera que a chave de leitura da História mudou: “Da história-absolvição passa-se à história-acusação” (p. 47). Este movimento é o reverso do otimismo do século XIX, saturado de profecias de triunfo. Marx surge como figura visionária, empenhada em se distinguir dos socialistas utópicos, oferecendo uma cartilha que acabaria por desencadear inúmeras distopias.

Marx identificou a luta de classes como motor da História; os liberais, por seu turno, defenderam a mão invisível, segundo a qual a soma dos egoísmos individuais se traduz num bem comum. Lacroix aponta semelhanças entre marxismo e liberalismo, entendendo-os como ramos distintos da árvore do progresso económico.

Outros autores referidos como “máquinas” de metabolização do mal são Nietzsche e Darwin. Em ambos, não há lugar para a piedade: a espécie deve progredir através da sobrevivência dos mais fortes e da eliminação dos mais fracos. Poderiam ter sido mencionados outros nomes, como Jeremy Bentham, para quem a meta da Humanidade seria a maximização da felicidade do maior número possível de pessoas — ideia profundamente dissonante da de Kant, segundo a qual o Homem não tem direito à felicidade, mas o dever de se tornar digno dela.

Surge então a postura revolucionária, que Lacroix compara à do protagonista de Crime e Castigo. Trata-se não apenas de colocar-se em bicos de pés para entrever o destino, mas de acreditar ser possível manobrar o mundo em nome de um bem maior. Deste impulso emergem figuras como Estaline ou Pol Pot, que varreram todos os corpos que se atravessaram no seu caminho: “Assim sendo, o revolucionário coloca-se numa postura de omnipotência e omnisciência (…)” (p. 53).

Aqui já não estamos perante o visionário, mas perante aquele que quer ser como um deus: o projeto fáustico. Em vez de História e Deus atuarem de forma independente, emerge a ideia de que o Homem é capaz de alcançar a Justiça sozinho. Contudo, o mal concreto — vivido e cometido — surge como pedra de tropeço destas construções ideológicas.

O Mal reaparece, então, não como não-ser, mas como algo vivo, feroz e concreto. O maniqueísmo reencarna no imaginário humano, no cinema, na narrativa histórica: oprimido/opressor, carrasco/vítima. O mal surge sem véu e sem rosto, instalado, segundo muitos contemporâneos, em todas as estruturas do mundo.

Lacroix assinala a crescente popularidade do Diabo, convertido em emblema de um Ocidente espiritualmente exausto. O temor antes reservado a Deus é canalizado para esta figura reabilitada. O Diabo surge como força autónoma, capaz de enfrentar o Bem de igual para igual. Daqui decorre uma leitura catastrofista da Humanidade: inverno nuclear, colapso ecológico, invasões alienígenas. Quando nada de elevado subsiste, a sobrevivência e a saúde tornam-se os únicos ideais.

O Homem deixou, de forma generalizada, de contar com o auxílio direto de Deus — visão que, enquanto Deus-funcionário público, caiu felizmente em descrédito. Contudo, no seu lugar instalou-se um vazio. Cabe agora ao Homem lutar contra o mal, o que explica o triunfo das ideologias enquanto secularização da religião. Ainda assim, depressa se revela a fragilidade dessa força isolada: a própria ideia de luta coletiva contra o mal contém já anticorpos.

Apesar de todos os horrores — ou talvez por causa deles —, Lacroix apresenta o século XX como um tempo de mobilização generalizada contra o mal. Substitui-se a bandeira da Divindade pela da Humanidade ou do Novo Homem. Porém, trata-se também de um século de ceticismo, em que intenção e ação se separam. Volta a colocar-se a questão do que é uma boa ação e da sua possibilidade. Hannah Arendt sublinhou que a bondade não sobrevive no espaço público.

A crença no progresso esbate-se gradualmente. A era pós-industrial revela o seu lado sombrio; instala-se a perceção de que há um preço a ser pago, ainda sem contornos nítidos. Lacroix descreve este niilismo com palavras que evocam Baudelaire: “(…) a prosperidade, o conforto e a paz entre as nações, esses bens obtidos a custo, provocam nos povos que beneficiam deles um estado de tédio e uma forma latente de depressão” (p. 76).

Os projetos megalómanos empreendidos contra o Mal, armados com a técnica, revelaram-se incapazes de resolver o problema e criaram perigos inéditos — o nuclear é filho das Luzes. Os antigos já sabiam que o Homem não pode alterar o rumo da História a seu bel-prazer; o que distingue os contemporâneos é a perda da noção de providência. Lacroix fala mesmo de antiprovidencialismo: uma mão oposta à de Adam Smith, capaz de transformar boas intenções em ações más.

Mas regressando à questão das intenções: será que o Homem tem realmente boas intenções? Ou será o mal constitutivo da sua natureza? A tradição judaico-cristã responde afirmativamente, através da noção de pecado original.

Lacroix prefere recorrer à psicanálise, sublinhando a dicotomia amor-ódio nas pulsões passionais, que por vezes desembocam em crimes. Existe em todos nós um lado sombrio, sofisticado e multifacetado; Hitler tentou fundar um império sobre o ressentimento.

Imaginemos, como experiência mental, que todos os pensamentos se tornam públicos. Quantas amizades ou casamentos sobreviveriam?

Foi a I Guerra Mundial que levou Freud a integrar a pulsão de morte no seu sistema, propondo a dança entre Eros e Tanatos. O “não matarás” surge como freio ancestral do ímpeto destrutivo humano.

A agressividade entra também na esfera pública, desfazendo o idealismo democrático ingénuo. A sociedade constitui-se num campo onde convivem sociabilidade e violência.

Lacroix analisa ainda a figura do Homem-Vítima, escudado na biologia, na sociedade ou na metafísica. Kant antecipou que um Homem sem sentido religioso teria de ser juiz de si próprio; tal sucedeu sem o correspondente fortalecimento do dever, resultando numa justiça moldada pela conveniência.

Como alternativa ao dualismo freudiano, Lacroix recupera Sócrates, para quem ninguém quer o mal deliberadamente: a ignorância seria a sua única origem.

A redução sociológica e biológica do mal dissolve culpa e arrependimento, pilares da convivência humana, conduzindo ao niilismo.

No último capítulo, surge a caritas: o amor oferecido ao sofredor. Num mundo urbanizado e mercantilizado, este amor enfraqueceu. Restam o silêncio, as lágrimas, o abraço. Escutar é uma arte rara. Palavras simples como “obrigado” ou “peço desculpa” conferem dignidade ao outro.

Nos momentos de falência total, como no velório, os Homens juntam-se para partilhar a impotência. Lacroix distingue a companhia vertical (Deus) da horizontal (o outro). Jesus, acrescentaria, inaugurou uma compaixão que une ambas no amor ao Altíssimo.

Bibliografia

REIS, Ricardo. Obra Completa de Ricardo Reis. Tinta da China, 2016

LACROIX, Michel. O Mal. Instituto Piaget

Idealismo Alemão: Nietzsche, Existencialismo, Hermenêutica e Desconstrutivismo

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Por: Ernesto António Mubango Hoguane[1]

Resumo

O presente artigo científico debate em torno do seguinte tema: Idealismo Alemão: Nietzsche, Existencialismo, Hermenêutica e Desconstrutivismo. Para o desenvolvimento do presente tema, definimos o seguinte objetivo geral: fazer uma reflexão filosófica sobre o niilismo. Para a concretização deste objetivo geral, definimos os seguintes objetivos específicos: (i) debater sobre o idealismo alemão; (ii) apresentar o pensamento do Nietzsche e o niilismo; (iii) discutir a relação entre existencialismo e niilismo, e por fim, (iv) debruçar sobre a hermenêutica e desconstrutivismo. Ora, o niilismo foi de facto protagonizado por Nietzsche, na última metade do séc. XIX para século XX. Porque ele reagiu ao facto de o homem estar submetido a valores desenhado pelos mestres da filosofia desde a antiguidade até ao mundo contemporâneo, aprisionando assim a consciência dos homens no Nada existencial. Assim sendo, podemos assumir que o fundamento da filosofia de Nietzsche serviu de ponte para emergência de várias leituras e interpretações sobre a condição humana. Desta feita, os existencialistas, os hermeneutas e a desconstrução desencadeada por Derrida reagiram de forma crítica aos discursos carregados de certezas sobre a vida dos homens na terra. Por exemplo, os existencialistas acreditavam que o homem é um ser atirado para existência e depois deve definir-se a si mesmo criando a sua própria essência (Sartre) e deve ser um Ser responsável de si mesmo, pelo outro (Ser-com-outro) e pelo mundo (Ser-no-mundo) em volta dele (Heidegger); por outro lado, a hermenêutica tentou dar resposta a cultura ocidental por meio da afirmação da possibilidade da verdade advinda da experiência de outras instâncias, como da obra de (i) arte e da (ii) historicidade. Por fim, desconstrutivismo se apresentou como um exercício interrogativo, de decomposição, crítico e de reorganização, dos alicerces estruturantes do pensamento abstrato ocidental desde Platão na antiguidade, até Freud passando por Hegel e demais teóricos da modernidade, considerados niilistas.

Abstract

Introdução

O presente artigo científico debate em torno do seguinte tema: Idealismo Alemão: Nietzsche, Existencialismo, Hermenêutica e Desconstrutivismo. Para o desenvolvimento do presente tema, foi preciso a definição do seguinte objetivo geral: fazer uma reflexão filosófica sobre o niilismo. Para a concretização deste objetivo geral, definimos os seguintes objetivos específicos, que são aliás, a estruturação do presente artigo: (i) debater sobre o idealismo alemão; (ii) apresentar o pensamento de Nietzsche e o niilismo; (iii) discutir a relação entre existencialismo e niilismo, e por fim, debruçar sobre a hermenêutica e desconstrutivismo.

É relevante salientar que havia de facto, certeza de que a razão (especulativa) cobriria e resolveria os anseios da humanidade e traria progresso. Assim desenvolveram-se várias correntes e até sistema (Hegel e o auge do idealismo alemão) filosóficas [o] que acreditavam na supremacia da razão, da ciência e da história humana. Ora, podemos até assumir que de certo modo tinham razão, porque graças ao uso da ciência e da racionalidade que condicionou o desenvolvimento da ciência e técnica, a medicina, a biologia, a física, a química, a arquitetura, a engenheira, etc., evoluíram significativamente. Mas, pela negativa, graças a razão e a técnica desenvolveram as bombas nucleares com capacidade assustadora para pôr fim a raça humana na terra; assistimos o 1914 e 1939: Duas guerras que geraram grandes reflexões críticas sobre o sentido da vida e a suspeita na grandeza da razão, por um lado.

Por outro lado, não tardou muito até que Nietzsche se cansasse de suportar aquilo que ele chamou de tortura psicológica criada pelos homens desde a antiguidade grega até modernidade: todas, as leis através das quais a vida dos homens na terra devia ser guiada. Daqui a história do niilismo emerge e desencadeia uma rotura com tudo que é considerado tradicional na filosofia: idealismo, discursos metafísicos, humanismo ético e, principalmente contra a divindade ou a religião. Ao lado do niilismo que considerou vazia toda uma tradição filosófica, outros movimentos de pensamento foram desenvolvidos por filósofos que reagiram também de forma crítica face a primazia e a crise da razão e da cultura ocidental. Estamos falando do existencialismo, hermenêutica e do desconstrutivismo. Portanto é, em torno do niilismo e destas correntes que o nosso debate gira em volta.

Contudo, no que tange ao método para a materialização do trabalho, recorremos a hermenêutica, ela é que nos permitiu a interpretação dos vários textos que nos deparamos durante a realização do trabalho. Quanto à técnica, nos valemos da heurística, ela é que nos teria auxiliado na recolha dos dados bibliográficos para a materialização do trabalho.

1. Sobre o idealismo Alemão e seus representantes

É comum entre os estudiosos a visão de que o idealismo (ou então idealismo metafísico) enquanto corrente filosófica que pode ser lida sob ponto de vista (i) gnosiológico (Kant) e (ii) romântica (Fichte e Schelling), que consistia na afirmação da existência do carácter espiritual de toda realidade, é moderna e contemporânea. Todavia, o termo idealismo foi inicialmente usado e/ou introduzido na linguagem filosófica por volta do século XVII, quando se fazia referência ao pensamento platônico no tocante a existência de dois mundos (ideal-perfeito e real-sensível ou imperfeito) (Cf. Abbagnano, 2007: 523).

Ora, é do idealismo gnosiológico (Kant) que vai surgir o idealismo romântico (Fichte e Schelling), tentando tomar uma distância ao pensamento kantiano, surgindo assim o pós-kantismo e o Idealismo Alemão. Assim sendo, Danilo Marcondes, escreve que existem duas saídas para o desenvolvimento do idealismo alemão pós-kantiano. De um lado, temos a saída sistemática que toma distância e se opõe a Crítica do Juízo de Kant, e de todos os filósofos que ainda creem no absolutismo ou omnipotência da razão, como alias o fez Fichte, levando deste modo, a um ressurgimento da metafísica especulativa, bastante interrogada por Kant. Por outro lado, há uma outra segunda saída que Marcondes prefere chamar de irracional, que refuta a razão abrindo espaço para a sensibilidade e a emoção humana; esta posição tem sua inspiração em Schelling (Cf. Marcondes, 2004: 238).

Ora, mais adiante o autor refere que, de um lado, o objetivo principal de Johann Fichte foi de,

Formular uma doutrina de ciência, que começa a elaborar desde o início do século consistindo em uma filosofia teórica e especulativa, procurando superar a dicotomia sujeito-objeto. Fichte parte de uma teoria do conhecimento que pretende unificar o mundo do sensível e o mundo inteligível. Seu objetivo final, uma pretensão que terá forte influência sobre Hegel, é atingir o saber absoluto. O modo de acesso ao absoluto é uma intuição que resulta basicamente um ato de vontade, anterior ao saber e ao próprio pensamento. Fichte rejeita assim a dicotomia kantiana entre objeto e coisa em si e a inacessibilidade à essência, revalorizando o pensamento especulativo. Este recurso à intuição como modo privilegiado de acesso ao real terá grande influência nos pensamentos românticos e é uma das características centrais do idealismo transcendental (Marcondes, 2004: 239).

Como sabemos, no pensamento gnosiológico de Kant, é impossível o homem ter acesso ou conhecer a coisa em si, ou seja, a essência do objeto, mas homem conhece apenas aquilo que se apresenta a sua frente, o fenômeno. Ora, é esta inacessibilidade ou a incapacidade do homem de conhecer a essência do objeto defendida por Kant nas suas críticas da razão que Fichte dispensa, abrindo assim, o espaço ou a possibilidade para o pensamento metafísico especulativo.

Assim sendo, tanto para Fichte assim como para Schelling, a intuição intelectual capacita o homem a superar os seus limites do conhecimento teórico e alcançar assim o absoluto. Entretanto, o pensamento de Schelling é quase romântico pelo facto de dar maior valor a sensibilidade e a relação com a natureza, centrando assim suas reflexões na estética. É de facto por isso que para ele “a arte tinha uma missão de tornar uno o que está disperso; superando assim a oposição entre sujeito e objeto, espírito e natureza” (Cf. Marcondes, 2004: 240). Ademais, encontramos em Schelling a visão de que “a história humana é como um progresso na direção da consciência de si, por conseguinte, do absoluto, e considerava a arte como estágio essencial na revelação do absoluto aos seres humanos” (Hamlyn, 1990: 224).

Por fim, foi com Hegel que o idealismo alemão ganhou seu auge. Ora, o núcleo conceitual de todo o sistema hegeliano, desde o seu desenvolvimento até a sua plena realização, pode ser referido em três pontos fundamentais: (i) a realidade enquanto tal é espírito infinito; (ii) a estrutura e a própria vida do espírito e o procedimento com o qual se desenvolve o saber filosófico é a dialética e (iii) a peculiaridade desta dialética, diferentemente das precedentes, é o elemento especulativo.

Segundo Reale e Antiseri (2005: 99) “um ponto fundamental do pensamento hegeliano é o de entender a verdade não como substância fixa e imutável, mas como sujeito, como espírito, isto é, como atividade, processo, auto movimento”. Entretanto, os autores referem que, para Hegel, o espírito se autogera; o espírito é infinito porque se atua e realiza sempre como infinito que põe e supera, ao mesmo tempo, o finito. O espírito infinito hegeliano é como um círculo em que princípio e fim coincidem de modo dinâmico; como um movimento em espiral em que o particular é sempre posto e dinamicamente resolvido no universal. Esta é a novidade que Hegel ganha em relação a Fichte, no qual a cisão entre o Eu e o não Eu, entre o sujeito e o objeto, infinito e finito permanecia não superada.

Ademais, em relação a identidade originária discutida por Schelling, parece vazia para Hegel, artificiosa e injustificada, pois “o espírito infinito hegeliano é um unumatque idem que se plasma de novo em figuras sempre diversas: o absoluto é uma igualdade que, continuamente se diferencia para se reconstruir” (Reale e Antiseri, 2005: 99). Isto quer dizer que cada momento do real é momento necessário do absoluto. O real é, portanto, um processo que se auto-cria enquanto percorre seus momentos sucessivos.

Entretanto, o movimento próprio do espírito é o de refletir-se em si mesmo, de modo circular, em três momentos distintos: (i) o ser-em-si; (ii) o ser-outro ou ser-fora-de-si e (iii) o retorno a si ou ser-em-si e por-si. Ora, o movimento auto produtivo do absoluto tem um ritmo triádico que se repete estruturalmente em todos os momentos do real e que o próprio absoluto dá lugar a três momentos originários e paradigmáticos: (i) a ideia em si, que é o logos como racionalidade pura (objeto da lógica); (ii) a natureza, que é a ideia fora de si, isto é, alienada (objeto da filosofia da arte) e (iii) o espírito em geral, que é a ideia que, a partir da alienação, retorna a si e se torna em si e por si (objeto da filosofia do espírito).

Tudo é, no entanto, o desenvolvimento da ideia, que suporta e supera a sua negação; e a famosa frase que ilustra isso é: “tudo aquilo que é real é racional e tudo aquilo que é racional, é real” (Hegel citado por Reale e Antiseri, 2005: 104). Esta máxima indica justamente que a realidade é o próprio desenvolver-se da ideia e vice-versa. Assim sendo, em Hegel o único método em grau de garantir o conhecimento científico do absoluto e de elevar assim a filosofia à ciência, é o método dialético, em virtude do qual, a verdade pode finalmente receber a forma rigorosa do sistema da cientificidade. Os momentos do movimento dialético são, portanto, três: (i) Tese; (ii) Antítese e a (iii) Síntese.

No tocante a ideia da história e sua compreensão, é preciso mencionar que a razão é determinada em si e o que é a sua relação para com o mundo, coincide com a questão: qual é o objetivo final do mundo? Desta forma, duas coisas devem ser levadas em consideração em primeiro lugar o conteúdo deste objetivar final e sua determinação como tal; em segundo lugar, a sua compreensão. “Para início da conversa, deve-se observar que a história do mundo está no domínio do Espírito” (Hegel, 2004: 61). Desta feita, a palavra mundo inclui a natureza física e a natureza psíquica. A natureza física desempenha um papel na história do mundo, mas o espírito é o rumo do seu desenvolvimento são matéria da história, pois “não devemos contemplar a natureza como um sistema racional em si, em seu domínio particular, mas apenas em sua relação para com o espírito” (Hegel, 2004: 61).

2. Nietzsche e o niilismo: a transmutação dos saberes

Nietzsche define a moral como máquina construída pela elite com intuito de dominar os pobres, os indefesos, um navio construído pelos grandes arquitetos da humanidade que pretende carregar o homem para além deste mundo. Esta foi a missão da Igreja católica com seus dogmas e doutrinas alienadoras que dominaram a sociedade oriental, permitindo que esta acreditasse para além da vida aqui na terra, no transcendental, entidades sobrenaturais. Na sua genealogia, ele examina as raízes da moral tradicional e descobre que ela é a moral dos escravos, dos fracos, dos vencidos, dos ressentidos contra tudo o que é nobre, belo e aristocrático.

Ademais, o super-homem não deve se configurar com tais conveniências; tomar a consciência que existe outro mundo fora deste é condição sine qua non de aceitação da escravatura proposta pela elite. Nietzsche defende uma moral mutável, circunstancial em que a distinção do bem e do mal, liberdade e opressão, respeito e desrespeito, lealdade e deslealdade, honestidade e desonestidade, equidade do justo e injusto é relativa e circunstancial.

Nesta perspetiva, Nietzsche faz transmutação dos valores. Isto é, a transmutação é questionamento dos valores transmitidos pelos antigos como absolutos; uma revisão mais consistente; despir a visão sagrada dos valores. Transmutação é rompimento com o homem ideal pela tradição para que tenha o homem real que não segue, não sofre os efeitos de não aderir aos valores impostos. Ora, o niilismo concebido como sistema filosófico cético radical no que concerne as interpretações da realidade; atinge um alto grau de sua teorização com Nietzsche que, pelo método genealógico, desmorona valores morais e convicções; os valores tradicionais depreciam-se e os princípios e critérios absolutos dissolvem-se; com Nietzsche, toda moral e religião cristã são sacudidas.

No entanto, pela origem etimológica, a expressão niilismo deriva do latim “Nihil”, que significa “Nada”, ou então, Coisa Nenhuma. Niilismo significa aquilo que se baseia sobre o Nada, que valoriza o Nada. Valorizar o Nada significa não valorizar a vida, significa não valorizar o tudo, que é a vida. Assim, niilismo é valorizar o que está fora da vida.

E eis que o niilismo apresenta aspetos, gradações. Primeiro, o de um niilismo negativo, momento da consciência judaica e cristã. Aqui, a ideia de Deus exprime a vontade de nada, a depreciação da vida. O centro de gravidade da vida é colocado não na vida, mas no além, no nada. Depois, o de um niilismo reativo, momento da consciência europeia, o do homem que mata Deus e se coloca, com culpa, em seu lugar. Finalmente, o de um niilismo passivo, momento da consciência búdica. Aqui, trata-se de toda e qualquer supressão da vontade. Não se trata mais de uma vontade de nada, mas de um nada de vontade (LUCARINY, 1998: 22)

Deus não morreu agora, sempre está morto, o Deus foi criado do nada e a consciência agora tornou-se capaz de desmascarar este nada. Por isso, nada é tão doentio “como a piedade cristã” que aborto de falsidade deve ser o homem moderno, para não se envergonhar de se chamar ainda cristão. No fundo só existiu um cristão e esse morreu na cruz. O evangelho morreu na cruz. O cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada, tira a vida o seu centro de gravidade.

Para nascer o novo, é necessário que o velho morra. Primeiro, é necessário destruir os valores tradicionais. O niilismo é uma passagem obrigatória. Se é a transmutação de todos os valores, só pode ser superado através da criação de novos valores. A deficiência dos antigos valores está em seu carácter metafísico, de se terem sobreposto à realidade da vida. O fundamento dos novos valores só pode ser a vida, a natureza. A moral deverá ser naturalista. Condição para nova ordem de valores é a aceitação radical da vida e do mundo (Cf. ZILLES, 2009: 177).

O tema central de toda a obra de Nietzsche é a luta contra o cristianismo, atacando o Deus cristão, a Igreja e sobretudo os sacerdotes como inventor dos dogmas para dominar o povo. Jesus era judeu rebelde que, na maturidade pregoou a rebelião, foi delinquente político e morreu por sua própria culpa. O cristianismo é responsável de toda a degeneração e de toda a decadência do mundo moderno. É verdadeiro niilismo porque “quando não se coloca o centro de gravidade de vida na vida, mas sim no mais além, portanto no nada, tira-se a vida o seu centro de gravidade” (Nietzsche, 2008: 43).

Enfim, o cristianismo é o centro de espíritos doentes, é a maior desgraça da humanidade, é vergonhoso hoje ser cristão. “O niilismo que ascende em teoria e na prática. Derivação viciosa deste (pessimismo, suas espécies: prelúdio do niilismo, embora inútil) O cristianismo que sucumbe ante sua moral. “Deus é a verdade”; “Deus é o amor”; “Deus justo”. O maior acontecimento — “Deus morreu” — surdamente pressentido” (Nietzsche, 1987).

Deste modo, se Deus é invenção da debilidade humana, sua negação será a superação do próprio homem. É preciso que Deus morra para nascer o super-homem. É necessário matar Deus para que o homem possa realizar sua liberdade, portanto a morte de Deus é a aurora de humanidade nova. Portanto, agora este Deus está morto. Homens superiores, esse Deus era vosso maior perigo. Só desde que ele jaz na tumba voltaram a ressuscitar. Só agora chega o grande meio-dia, só agora o homem superior se converte em senhor.

Com a morte de Deus morreram todos os valores que giravam em torno do conceito Deus. Proclama Zaratustra:

Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de supra-terrestres. São envenenadores, quer o saibam ou não. São menosprezadores da vida, moribundos que estão, por sua vez, envenenados, seres de quem a terra se encontra fatigada; vão-se por uma vez! Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfêmias. Agora, o mais espantoso é blasfemar da terra, e ter em maior conta as entranhas do impenetrável do que o sentido da terra (NIETZSCHE, 2002, Zaratustra, secção 3).

“Deus morreu” é o centro de toda a crítica religiosa de Nietzsche e que considera a vida o valor supremo; a religião é destruidora da vida, uma categoria da negação teórica e prática da vida; a religião é autodilapidação institucionalizada do homem, Nietzsche golpeia a instituição eclesial; considerando-a um “manicómio”, ou seja, tipo de estado mais mentiroso, “a cidade de ruína” (ZILLES, 2009: 178).

O cristianismo apoia-se no ressentimento dos humildes e débeis, sendo uma manifestação da decadência. Elevou a ignorância à categoria de virtude. O cristianismo defendeu tudo quanto é fraco, baixo, pálido, fez um ideal da oposição aos instintos de conservação da vida potente; até corrompeu a razão das naturezas intelectualmente poderosas, ensinando que os valores superiores da intelectualidade não passam de pecados, extravio e tentações.

A morte de Deus não só é a ausência de apoio e o niilismo absoluto da existência humana, também é o desaparecimento de Deus como princípio de tudo, assim termina a opressão e ameaça que limitava o homem. A morte de Deus leva a uma transmutação de todos os valores tradicionais. Agora viver é inventar valores, e a história de Deus é o último acontecimento histórico que já acabou.

A “morte de Deus” corresponde a um acontecimento histórico, é um facto da civilização do século XIX e ele considera-a o último acontecimento da história do cristianismo. O clima cultural dos séculos XVII e XIX permite nos compreender a desaparição de horizontes humanos. O iluminismo lutou contra a intolerância e obscurantismo da Igreja: o progresso científico, herdeiro legítimo das luzes, deu ao homem confiança no seu poder, levando-o a julgar-se medida de todas as coisas; as revoluções sociais e políticas destruíram a ideia de que certos governos humanos eram direito divino, o que significa que eram representantes de Deus na terra e que o seu governo era um mandato de Deus (RODRIGUES & SAMEIRO, 1999: 301).

Outrossim, é o Velho Deus Judaico que morre nessa história. E o Filho refaz um Deus no lugar do Pai do Antigo Testamento que nos metia medo, agora está o Filho que exige apenas que Nele creiamos, e que o amemos, como Ele nos ama e nos tem amado. Pede-nos que tornemos reativos para evitar o ódio. Na medida em que a vida reativa se estabelece, um estranho resultado ocorre: somos nós culpados! Matamos Deus e nos colocamos em seu lugar! A vontade de nada não tolera sequer Deus. Impede-o de ressuscitar, senta-se sobre a tampa do túmulo e grita: sou Deus! Eis aí o homem-deus, não mais o Deus-Homem, o homem europeu, o homem ocidental moderno e contemporâneo. Eis aí o homem culpado por natureza, culpado em tudo. Eis que essa culpa se interiorizou de tal modo em nós que nos sentimos culpados por viver. Não é assim que nos fazem sentir desde criança (Cf. LUCARINY, 1998: 22).

Enfim, sobre as cinzas de Deus, construir-se-á a ideia do super-homem, do homem novo impregnado do ideal dionisíaco que ama vida, repugnante das realidades metafísicas e se entrega a contribuir para o progresso do mundo terreno e apregoa o retrocesso do mundo supra terreno. Nasceu o super-homem que é dono da sua própria existência e do seu próprio intelecto.

3. Existencialismo e Niilismo

É unanime a ideia de que o existencialismo foi inspirado nas reflexões filosóficas de (i) Arthur Schopenhauer, (ii) Soren Kierkegaaard e nos filósofos alemães (iii) Friedrich Nietzsche, (iv) Edmund Husserl e (v) Martin Heidegger e foi particularmente popularizado em meados do século XX com as obras do escritor e filósofo francês (vi) Jean-Paul Sartre e a escritora e filósofa (vii) Simone de Beauvoir.

Olhando para o existencialismo como estudo da condição humana, Nicola Abbaganano considera que, “deve-se entender por existencialista qualquer filosofia que seja concebida e se exerça como análise da existência, sendo “, existência” uma palavra que designa o modo de estar do homem no mundo” (ABBAGANANO, 2001: 179). Ora, após a humanidade ter experimentado vários distúrbios civis, guerras locais e duas guerras mundiais, algumas pessoas na Europa sentiram-se forçadas a concluir que a vida é inerentemente Niilista; Nada; miserável; irracional. No entanto, foi neste período que o existencialismo alcançou o seu apogeu após a II Guerra Mundial, nas décadas de 50 e 60, com Heidegger e Jean-Paul Sartre.

Entretanto, o existencialismo pode ser entendido como sendo uma corrente do pensamento filosófico que faz análise sobre o modo de Ser do homem no mundo. Isto é, análise sobre a existência humana. Como toda a filosofia, o existencialismo tem o seu enfoque na crítica das circunstâncias da sua época (época que coloca a razão humana como sinal de perfeição, a partir do qual tudo se pode criar. A razão aparece como a solução dos problemas do homem). Mas, como sabemos, a razão e/ou a racionalidade humana foi muito mais longe quando inventou a metralhadora e as bombas atómicas, colocando em ameaça todos os seres vivos na terra.

Ora, João Ribeiro Júnior afirma que,

Surgindo como uma reação contra o racionalismo, idealismo e kantianismo, e ainda contra o materialismo e positivismo, que não deram uma resposta satisfatória aos problemas fundamentais da filosofia; […] o existencialismo brotou na Alemanha, com Husserl e na França com Bérgson que rompeu com os liames do materialismo evolucionismo do século XX (JÚNIOR, 2003:34).

Por exemplo, correntes como idealismo, o positivismo e o marxismo são filosofias otimistas, que presumem ter captado o princípio da realidade e o sentido progressivo absoluto da história. O existencialismo, porém, considera o homem como ser finito, “lançado no mundo”. Ora, notemos que, o existencialismo é livre da filosofia idealista que vinha dominando o mundo. Assim, a análise da existência ou do existencialismo não se limitará simplesmente ao esclarecimento ou interpretação das formas como o homem se relaciona com o mundo, nas suas possibilidades cognitivas, emotivas e práticas, mas incluirá simultaneamente a elucidação (esclarecimento) dos modos como o mundo se manifesta ao homem e determina ou condiciona as suas possibilidades. Mas ainda percebemos que a relação homem-mundo apresenta-se como o tema central de toda a filosofia existencialista (Cf. ABBAGNANO, 2001: 45).

Portanto, a corrente existencialista tomou como objeto principal de consideração do homem na individualidade da sua existência. É a existência, com efeito, o modo de ser do homem: é um poder ser, um sair fora (ex sistere) para a decisão e a auto – plasmação e da autointerpretação. As coisas e os animais são aquilo que são, mas o homem será aquilo que decidir ser. Portanto, a possibilidade é o modo de ser construtivo da existência.

Por exemplo, na obra de Sartre “O Ser e o Nada”, Sartre caracteriza o homem como o ser que se define por consciência em que existir e refletir são, o mesmo, que se define portanto por sua autoconsciência. O ideal dessa consciência é atingir a plena identidade consigo mesma. É nesse sentido que, suas palavras, “o homem é ser cuja existência precede a essência”. O homem não tem portanto uma essência determinada, mas ele se faz em sua existência interpretando-se a si mesmo (Cf. MARCONDES, 2004: 259).

4. O Esvaziamento da Razão e de Discursos Metafísicos: Hermenêutica Desconstrutivismo

Não é novidade para os estudiosos de filosofia que na última metade do séc. XIX e o século XX, períodos que sucederam o século das Luzes, surgia no mundo ocidental europeu um grande debate crítico sobre a crise dos fundamentos da modernidade e da primazia da razão humana pois parecia que além de trazer luz à história dos homens, a razão arrastava consigo as trevas, guerras-violentas, mortes, e desesperos à humanidade. Uma vez mais, a crença na racionalidade humana enquanto fator primordial para a resolução dos problemas do mundo entrou em crise, tornando-se vazia e Nada.

Foi neste momento que surgiu também a corrente hermenêutica, apesar de o termo hermenêutica ter existido séculos antes (c. do séc. XVI e XVII para alterar a expressão latina interpretativo). Derivando do deus Hermes na história da mitologia grega, que era intérprete das mensagens ocultas, ambíguos e com falta de clareza, a hermenêutica é entendida como sendo a arte de explicar, de tornar claro o obscuro, de traduzir e de interpretar textos, isto é, ler o que está nas entrelinhas de um texto ou de uma realidade qualquer. Ora, foi com Hans Gadamer que temos o desenvolvimento da hermenêutica enquanto corrente do pensamento filosófico. Vattimo, defende que Gadamer teria buscado o termo no pensamento de Heidegger, na tentativa de dar uma explicação e/ou interpretar o niilismo/vazio que assolava a cultura ocidental no período que seguiu pós-guerra duas guerras.

Vattimo defende ainda que o golpe desferido à primazia da razão pelos chamados mestres da suspeita também compõe este cenário. Ou seja, os mestres da suspeita (Nietzche, Karl Marx e Freud) contribuíram sobremaneira para a emergência da hermenêutica, por terem colocado em causa a primazia da razão, de um lado, e dos dogmas religiosos, por outro lado. A filosofia hermenêutica intenta também, responder a tal crise da razão e da cultura ocidental por meio da afirmação da possibilidade da verdade advinda da experiência de outras instâncias, como da obra de (i) arte e da (ii) historicidade (Vattimo, citado por Sales, 2015: 07).

Recordemos, a expressão “mestres da suspeita” foi postulada por Paul Ricoeur para indicar os filósofos críticos à religião. Destaca-se (i) Friedrich Nietzsche, (ii) Karl Marx e (iii) Sigmund Freud. Esses suspeitaram a consciência humana, algo incorreto nela se desenrola concernente a religião. Como dissemos antes, Nietzsche entende Deus como sendo uma ilusão, invenção humana, delírio dos fracos, que inventam um mundo além desse com intuito de condenar, enfraquecer deste mundo. Assim, ele declara que sede amantes e fiéis a terra. Por outro lado, Karl Marx entende a religião como uma consciência errónea do mundo. Ela é “ópio do povo, porque engana o homem induzindo-o a pensar que deve aceitar com mansidão o seu presente estado de vida”. A religião hipnotiza os homens com falsa superação da miséria e assim destrói sua forma de revolta. Por fim, Freud define-a como uma farsa que trata aspetos de puerilidade. A religião acontece devido ao reconhecimento do ser humano que não pode ficar desamparado e que seria tipo de neurose obsessiva das crianças que na vida adulta se manifesta como religião. A ideia de Deus surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai. Ser supremo surge da fraqueza da criança faz sentir a necessidade de proteção, isso lhe induz a criar um outro Pai poderoso. O cristianismo é a religião que melhor expressa esse drama de pai e filho.

Contudo, ao lodo do existencialismo, da hermenêutica que se mostraram contra os grandes discursos metafísicos ocidentais, temos o desconstrutivismo (com Derrida), que se apresentou como um exercício interrogativo, de decomposição, crítico e de reorganização, dos alicerces estruturantes do pensamento abstrato ocidental desde Platão na antiguidade, até Freud passando por Hegel e demais teóricos da modernidade. Assim, fica evidente que a força característica da desconstrução é a de questionar com radicalidade as oposições binárias ou dualistas com as quais estamos habituados a refletir e pensar sobre, por exemplo “a realidade ou aparência, sobre a causa ou efeito, sobre a natureza ou cultura, sobre o significado ou significante, sobre homem e mulher, etc.” (Cf. Rajagopalan, 2000: 121).

Conclusão

Realizado o presente artigo científico chegamos a conclusão de que o niilismo foi de facto protagonizado por Nietzsche. Porque como vimos, ele reage ao facto de o homem estar submetido a valores desenhado pelos mestres da filosofia desde a antiguidade até ao mundo contemporâneo, aprisionando assim a consciência dos homens no vazio existencial.

Assim sendo, podemos assumir que o fundamento da filosofia de Nietzsche serviu de ponte para emergência de várias leituras e interpretações sobre a condução humana; os existencialistas, os hermeneutas e a desconstrução desencadeada por Derrida reagiram de forma crítica aos discursos carregados de certezas sobre a vida dos homens na terra. Por exemplo, os existencialistas acreditavam que o homem é um ser atirado para existência e depois deve definir-se a si mesmo criando a sua própria essência (Sartre) e deve ser um Ser responsável de si mesmo, pelo outro (Ser-com-outro) e pelo mundo (Ser-no-mundo) em volta dele (Heidegger); por outro lado, a hermenêutica tentou dar resposta a cultura ocidental por meio da afirmação da possibilidade da verdade advinda da experiência de outras instâncias, como da obra de (i) arte e da (ii) historicidade. Por fim, desconstrutivismo se apresentou como um exercício interrogativo, de decomposição, crítico e de reorganização, dos alicerces estruturantes do pensamento abstrato ocidental desde Platão na antiguidade, até Freud passando por Hegel e demais teóricos da modernidade, considerados niilistas.

Na filosofia da pós-modernidade, onde é crescente o debate sobre o Vazio/niilismo dos valores (pensa no Lipovetsky e Bauman, por exemplo) a influência de Nietzsche reside no facto de ter defendido a racionalidade humana e toda atividade intelectiva ou psíquica deve estar ao serviço da vida humana positivamente. Por ter superado o niilismo que valorizava o Nada e não valorizar a vida, e também por fazer a transmutação dos valores transmitidos pelos antigos dito absolutos, propondo o relativismo axiológico, Nietzsche e sua crítica filosófica combateu a ideia a história universal (Hegel) como protótipo e espelho da humanidade, ele admite a significância da história ao homem, ajuda-o a conhecer e compreender o passado para viver bem o presente e perspetivar o futuro. Mas, a história se encontra cheia de acontecimentos insignificantes que não podem servir de espelho para reedificação do mundo atual.

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Zilles, Urbano. Filosofia da Religião. 7ª ed., Edições Paulus, São Paulo, 2009.

  1. Ernesto António Mubango Hoguane, é Mestrado em Ética e Filosofia Política na Universidade do Porto (Portugal), Licenciado em Ensino de Filosofia com Habilitações em Ética pela Universidade Pedagógica de Maputo (Moçambique). Professor de Filosofia e Ética, Pesquisador de Filosofia Africana afeto ao Grupo de Estudos de Filosofia Africana e Relações de Género coordenada pelo Professor Catedrático José P. Castiano no Departamento dos Estudos Filosóficos e Culturais da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da Universidade Pedagógica de Maputo. Pesquisador no Instituto Filosófico da Universidade do Porto em Philosophy Public Space.Autor da obra Em busca da Felicidade Perdida: Da Felicidade Individual à Felicidade Colectiva, pela editora moçambicana Inter Escolas Editores publicada em 2021. Vários artigos publicados em revistas científicas e jornais de opinião.E-mail: netohoguane@hotmail.com

Sobre a androginia de David Bowie

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Eu tenho ideias profundamente impopulares a respeito da estética adotada por David Bowie.

E todas, pra mim, partem do princípio de que a maior parte das leituras consagradas sobre ele é historicamente rasa.

Uma delas diz respeito à sua fase inicial de androginia, que começa em The Man Who Sold the World e se estende até Hunky Dory (Ziggy Stardust é outra parada).

Costuma-se repetir, quase como um mantra, que essa estética representaria uma feminilização revolucionária de Bowie, uma antecipação visionária da “fluidez de gênero” e das pautas contemporâneas.

Essa leitura é confortável, anacrônica e, sobretudo, equivocada.

A androginia de Bowie não nasce de um gesto progressista, mas de um gesto aristocrático – quase retrógrado.

Quem realmente moldou a estética andrógina do rock nos anos 1970, não apenas em Bowie, mas também nos Rolling Stones e em Jimi Hendrix, foi o estilista Michael Fish.

Fish liderou o movimento conhecido como Peacock Revolution, a Revolução dos Pavões, cuja proposta era simples e radical: devolver ao homem o direito à ostentação. E “devolver” aqui não é força de expressão.

Ao fundar a Mr. Fish, em Londres, em 1966, ele resgatou deliberadamente a moda masculina pré-industrial, inspirada na aristocracia europeia dos séculos XVIII e XIX.

Antes da modernidade, o homem não era visualmente econômico. Ele era excessivo.

A ideia de que masculinidade é sinônimo de sobriedade, funcionalidade e apagamento estético é um produto tardio da Revolução Industrial e do moralismo burguês. A economia de adornos na estética masculina é recente. O terno cinza é moderno. O minimalismo masculino é histórico, não natural.

A aristocracia europeia masculina era ostensivamente glamourosa. Bordados, estampas florais, maquiagem, perucas, saltos altos. Nada disso era visto como feminilização.

Michael Fish não queria feminilizar homens. Queria, curiosamente, restaurar uma masculinidade perdida.

Quando Bowie aparece na capa de The Man Who Sold the World, ele não se apresenta como mulher, mas como príncipe.

A imagem não remete a uma desconstrução da masculinidade, mas à sua versão anterior à modernidade industrial. A aristocracia europeia era extremamente Glam Rock.

A mulherada roubou nosso DRIP.

A Ideologia de Género e o Grande Dragão

Em Mapas do sentido, A Arquitetura da Crença (1999), Jordan B. Peterson recupera uma estrutura simbólica antiquíssima para explicar fenómenos psicológicos e civilizacionais recorrentes: a oposição entre ordem, caos e a figura do herói que medeia entre ambos. O dragão, nesse sistema, não é um elemento ornamental do mito, mas a personificação do caos não integrado — aquilo que foi evitado, mal nomeado ou deliberadamente ignorado. A tese de Peterson é esta: o caos que não é enfrentado quando ainda é pequeno cresce, organiza-se e acaba por exigir sacrifícios humanos. Esta não é meramente uma imagem literária, mas uma lei antropológica.

A ideologia de género, entendida aqui não como a existência de pessoas com sofrimento real, mas como um sistema normativo que separa linguagem, identidade e lei da realidade, encaixa estruturalmente nesta definição. 

As suas raízes teóricas são identificáveis e documentadas. Em Gender Trouble (1990), Judith Butler propõe o género como uma construção performativa independente do sexo. Em La volonté de savoir (1976), Michel Foucault descreve o poder como algo exercido através do discurso e da redefinição do que conta como verdade. Os Yogyakarta Principles (2006, revistos em 2017) traduzem essas categorias para o plano jurídico e institucional. O resultado não é apenas uma teoria cultural, mas um mecanismo activo de reorganização do real através da linguagem.

judith butler as a cute dragon with rainbows

Tal como o dragão mitológico, este sistema começa pequeno. Nos anos 1990, permanece maioritariamente confinado à academia, apresentado como exercício crítico sofisticado e inofensivo. Não é confrontado porque parece abstracto e porque questioná-lo implica custos reputacionais. Aqui ocorre o primeiro erro descrito por Peterson: a recusa em nomear o caos enquanto ele ainda é manejável. O que não é enfrentado não desaparece; acumula-se.

Na fase seguinte, entre o início dos anos 2000 e a década de 2010, dá-se a mutação decisiva. A discordância deixa de ser tratada como divergência intelectual e passa a ser moralizada. Questionar conceitos torna-se “discriminação”. A mentira deixa de ser apenas tolerada por compaixão; passa a ser considerada virtuosa. Hannah Arendt já tinha descrito este processo em The Origins of Totalitarianism (1951): quando os factos deixam de ser o critério último, o poder assume a função de definir a realidade. É neste ponto que o dragão deixa de se esconder e passa a ser protegido por tabu moral.

A partir de 2013, o processo entra na fase adulta. O caos simbólico cristaliza-se em lei, políticas públicas, educação e medicina. O Bill C-16 no Canadá (2016) integra linguagem ideológica no direito. Currículos escolares passam a apresentar a identidade de género como facto ontológico. Em Portugal (2018), entram termos como “identidade de género”, “expressão de género” nas leis. A ciência e a clínica sofrem pressão institucional, algo reconhecido explicitamente pelo Cass Review no Reino Unido (2020–2024), que apela à prudência e à evidência no tratamento de menores. O dragão já não pede aceitação; exige obediência. A crítica não é apenas desencorajada; é punida.

cute dragons in a legislative assembly

O erro central que permitiu este crescimento não foi a maldade, mas a confusão entre compaixão e verdade. Em 12 Rules for Life (2018), Peterson insiste que a compaixão desligada da verdade degenera inevitavelmente em crueldade. Ao confundir sofrimento psicológico real com afirmações ontológicas falsas sobre o corpo e a realidade, a ideologia de género substitui o Logos — a palavra que ordena o mundo — por uma linguagem terapêutica incapaz de estabelecer limites realistas. O resultado não é libertação, mas desintegração simbólica.

O confronto com este dragão não é violento nem repressivo; é estrutural. Começa na linguagem, através da reposição de definições claras, em linha com o princípio da não-contradição formulado por Aristóteles na Metafísica (século IV a.C.) e com a advertência de George Orwell em Politics and the English Language (1946). Continua na lei, pela distinção rigorosa entre sexo biológico e identidade subjectiva, protegendo a liberdade de consciência, como defendeu John Locke em A Letter Concerning Toleration (1689). Passa pela protecção da infância, recusando a experimentação ideológica em crianças, e pela defesa da ciência contra a captura ideológica, como alertou Thomas Kuhn em The Structure of Scientific Revolutions (1962). O dragão enfraquece quando perde a névoa simbólica que o alimenta.

Há, contudo, um limite moral essencial. Peterson é explícito: quem enfrenta o caos sem Logos transforma-se nele. Não se combate mentira com mentira, nem coerção com coerção. São Tomás de Aquino formula o critério clássico na Summa Theologiae (século XIII): amar a pessoa, rejeitar o erro. O dragão não é derrotado pela fúria, mas pela verdade dita a tempo, no lugar certo e com a medida justa.

the family has normal clothes

Jordan Peterson nunca afirmou literalmente que a ideologia de género é o dragão. No entanto, segundo os próprios critérios simbólicos, psicológicos e morais que ele estabeleceu em 1999, a correspondência é plausível. Trata-se de um caos não nomeado, tolerado por medo, protegido por tabu moral e institucionalizado por falsa compaixão. E, como todo o dragão, cresce exactamente na proporção em que se evita enfrentá-lo. A verdade, quando finalmente nomeia o caos, não destrói: restaura a ordem.

Galeria: Fotografias de Miguel Crespo

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Galeria com fotografias de Miguel Crespo, fotógrafo amador baseado em Lisboa com interesses em património cultural, museologia, arquitectura, fotografia e natureza.

A Africanização da Guerra

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A africanização impulsionada por Spínola consistia no «recrutamento de africanos com algum nível de instrução, aumentando o número de nativos armados a combater ao lado dos portugueses na Força Militar Africana formada a partir do Centro de Instrução de Milícias.»

Spínola dizia: «formar uma força africana para tomar conta da Guiné, para uma Guiné livre e independente, entregue a si mesma e aos seus filhos, inserida no espaço cultural português.» Era um conceito de africanização que, nem em Angola ou Moçambique, se praticava. Dez mil homens milícias, era obra!

«Estes homens acreditavam e aceitavam o desafio com a esperança na independência e autonomia. Os capitães da Guiné, militares da milícia, «passaram a receber um salário», foi até criado um «quadro militar específico.» Companhias havia, em que, «desde o comandante até ao soldado, todos eram africanos.»

Nem outros países «como a França, a Inglaterra ou a Holanda e nem mesmo os americanos na guerra do Vietname haviam integrado e organizado os nativos como na Guiné foi feito.» O exército tinha-se tornado mais africano do que português. Não se tem conhecimento de uma «operação militar composta por quinhentos homens, em que apenas quatro comandantes eram brancos, contra soldados africanos, a não ser na Guiné!»

Assim se combatia, se acreditava e se morria pela ideia: «A Guiné para os guinéus.»

Para o PAIGC, estes africanos só lutavam ao lado dos portugueses, pela contrapartida económica, «sem qualquer ideal patriótico», aliás, por muito que adquirissem posição junto dos militares portugueses, nunca seriam iguais a eles. Deste modo, Spínola estava a «colocar africanos contra africanos.»

A Rádio Conacri não abdicava de transmitir a propaganda do PAIGC, sempre na tentativa de dissuadir estes africanos que engrossavam as fileiras militares portuguesas, mas sem resultado. É, pois, natural, que «o PAIGC visse esses africanos como inimigos e quando os apanhava em combate, ao lado dos portugueses, tratava-os como traidores, não permitindo que sobrevivessem, distinguindo-os dos brancos capturados, os quais, fazia prisioneiros de guerra.»

Este processo de africanização iniciado em 1968, com a chegada de Spínola à Guiné, no espaço de dois anos, conseguiu colocar as tropas portuguesas em posição de domínio do conflito armado. Depois, foi começar a reocupar as regiões libertadas.

A estratégia era reorganizar «formando uma quadrícula de dezoito batalhões de caçadores, criando nas áreas mais disputadas comandos operacionais que fossem mudando de lugar, conforme a evolução da guerra.»

A quadrícula, mais parece o jogo do galo esculpido na rocha, como no antigo Egipto. Um tabuleiro de combinações entre oponentes e oportunidades, que Carlos não concebe e também não lhe interessa interpretar.

«Com a construção de novas estradas, esta mobilidade tornava-se mais fácil.» Começaram a fazer-se operações eficazes e violentas contra o PAIGC, «intervenções de comandos e de pára-quedistas, apoiadas pela artilharia e aviação, destacando-se o uso de helicópteros, para romper o equilíbrio de forças.»

Agora, «os bombardeamentos e os assaltos» faziam-se «recorrendo à aviação.» Para o PAIGC, os helicópteros «eram ameaçadores.» Amílcar Cabral redigiu então um «documento explicativo do aparelho e das suas características, referindo os pontos fortes e os pontos fracos, bem como a melhor forma de o alvejar, tendo para isso de proceder à formação de caçadores de helicópteros», considerada a novidade dos portugueses.

Os helicópteros ofereciam muitas vantagens: a facilidade de «colocar tropas em qualquer lado e, assim, causar o efeito surpresa, reconhecimento do terreno, evacuar feridos e recolher armamento.» Para além dos helicópteros havia os aviões que lançavam napalm.

Perante isto, o PAIGC «teve de retaliar, criando novos métodos de resposta, melhorando a acção da sua infantaria, reforçando a acção da artilharia e adquirindo novas armas», como foi o caso das metralhadoras soviéticas. Nesta altura, um grupo de cabo-verdianos do PAIGC foi treinado na URSS, o que veio beneficiar as suas acções através de bombardeamentos, com o propósito de causar desgaste psicológico e danos materiais às tropas portuguesas.

A africanização era uma bandeira com duas faces, a face da integridade e a face da controvérsia. Uma faca não-herbertiana de dois gumes, o gume que corta a água e o gume que corta o ar.

No final de cada combate, nem os vencedores amam a guerra!

Relação entre o coberto vegetal e incêndios rurais: o Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022

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Relação entre o coberto vegetal e a suscetibilidade e severidade dos incêndios rurais: Um estudo de caso do Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022. Beatriz Salafranca, José Luís Carvalho Mestrandos em Dinâmicas Sociais, Riscos Naturais e Tecnológicos. Resumo: o presente estudo tem como principal objetivo compreender a evolução do coberto vegetal ao longo dos anos e se esta tem relação direta com a suscetibilidade de ocorrência de incêndios rurais, procurando apresentar medidas de mitigação aos incêndios rurais. Para isso e de forma a sustentar o presente artigo foi utilizado um estudo de caso, o incêndio de Vila Mendo de Tavares (Mangualde), relacionando a problemática de estudo, com fatores como a severidade de incêndio e as alterações climáticas. Palavras-Chave: Severidade, Suscetibilidade, Vegetação, Incêndios, Interface Urbano- Florestal

Introdução

Todos os anos, e principalmente nos meses de verão, Portugal enfrenta o problema dos incêndios rurais; em si mesmos estes não são o problema, mas sim a forma como se gerem e se utilizam. O aumento de ignições e a sua intensidade, concretizam-se numa maior área ardida e numa maior reincidência, mais ainda quando se fala em territórios rurais e do interior.

Com a expansão do litoral e o êxodo da população, encontramos mudanças no uso tradicional do solo, assim como o estilo de vida das populações, um espaço natural cada vez mais próximo de aglomerados, decorrente de um aumento de incultos e crescimento de arbustos, de várias causas podemos abordar o despovoamento das regiões interiores e o envelhecimento da população, esta dinâmica acaba a destruturar o território, com um avanço de vegetação florestal em áreas agrícolas e consecutivamente um aumento de carga combustível pronta para arder.

Com os incêndios recorrentes no mesmo território, e se não houver uma repovoação florestal da espécie inicial, a vegetação acaba por ir evoluindo em matos, com combustíveis mais finos ou mais grossos, mediante o tempo de livre crescimento, o que mudará a dinâmica e a suscetibilidade aos incêndios rurais.

Coberto Florestal:

O aumento da incidência e severidade dos incêndios florestais nas últimas décadas, particularmente nas regiões de clima mediterrânico, é atribuído à correlação entre situações de incêndio e anos de seca, bem como as mudanças climáticas e transformações no uso e ocupação do solo. Prevê-se que o aumento dos grandes incêndios afete todos os ecossistemas, levando-os a sofrer grande impacto em diversas situações (Úbeda et al, 2021).

Incêndios florestais mais graves prejudicam a segurança humana, as infraestruturas e os ecossistemas. Analisando os padrões de vegetação pré-fogo pode-se identificar as condições que contribuem para incêndios mais severos e contribuem para novas e melhores políticas de gestão das paisagem e ordenamento de território de forma a minimizar os seus efeitos. Identificar esses padrões em paisagens dominadas por plantas não herbáceas pode ajudar a mitigar os impactos de incêndios florestais de grande severidade. Segundo autores norte-americanos, num estudo dos incêndios no Oeste dos EUA, mais de 70% das áreas de pastagem não dominadas por plantas herbáceas com incêndios de grande severidade apresentavam uma estrutura de vegetação pré- incêndio caracterizada por grande coberto lenhoso (aproximadamente 50%, composta por árvores e arbustos), o que pode ser entendido por grande quantidade de combustíveis finos, assim como uma grande quantidade de manta morta, com materiais facilmente inflamáveis que promoviam incêndios em copas, levando a um comportamento extremo do fogo (Li et al, 2022).

O coberto florestal é fundamental para prevenir a erosão e conservar a qualidade do solo pós-incêndio. A manta morta, é uma forma de barreira para o controlo da erosão. Pelo que algumas vezes é usado como forma de prevenção, através de situações em determinados territórios, onde se chega mesmo a deixar serradura (Úbeda et al, 2021).

Os efeitos do fogo dependem fortemente da intensidade, duração, histórico de perturbações pré-incêndio (Brogan et al., 2019), bem como da topografia, vegetação, geologia e clima da área afetada (Swanson, 1981). Além disso, atividades humanas estão se a tornar um fator propulsor adicional para a ocorrência e danos de incêndios florestais. Nesse contexto, a avaliação da severidade do fogo, que geralmente engloba as propriedades de intensidade e duração, é extremamente importante para quantificar o impacto relacionado ao fogo e ainda representa um grande desafio. No caso das bacias hidrográficas, a distribuição espacial dos efeitos induzidos por incêndios florestais, principalmente aqueles relacionados à transferência de sedimentos, é determinada pela disposição espacial das fontes de sedimentos e sua capacidade de entregar sedimentos à rede hidrográfica. No processo em cascata, a chance de sedimentos alcançarem compartimentos específicos da bacia está estritamente relacionada às propriedades estruturais do sistema (Hooke 2003; Heckmann et al., 2018).

Tipos de Cobertura Florestal

Existem diferentes tipos de cobertura vegetal na floresta, cada um com características próprias que influenciam a sua suscetibilidade aos incêndios. Por exemplo, as áreas de pastagem tendem a ser mais vulneráveis, pois as ervas secas e finas são altamente inflamáveis e podem servir de combustível para o fogo.

Por outro lado, as áreas de floresta mais densas e húmida são menos propensas ao fogo, já que a humidade presente na vegetação atua como uma barreira natural contra as chamas. Além disso, as árvores de grande porte e folhagem densa podem bloquear a passagem do fogo, impedindo que ele se espalhe com facilidade.

As espécies distinguem-se neste contexto como inflamáveis ou resilientes, sendo que as mais inflamáveis, como a Grama dos batatais, Palha seca de milho, Casca de eucalipto, Urze, Tojo, Giesta; tem como características a alta densidade de biomassa e baixa humidade, já as espécies mais resilientes como Amieiros, Freixos, Carvalhos, Castanheiros, Medronheiros, Azinheiras, que têm como características uma menor densidade de biomassa, maior humidade e menor teor de óleos essenciais.

Severidade

O termo, ‘severidade’, surge da necessidade de descrever como a intensidade do fogo afeta os ecossistemas. Enquanto a intensidade descreve o processo de combustão e libertação de energia da matéria orgânica, a severidade refere-se à magnitude dos efeitos diretos e imediatos do fogo, e reflete o calor libertado pela combustão de biomassa (Ryan e Noste, 1985 cit por Gonçalves et al, 2016). Portanto, a intensidade do fogo contribui para a severidade, mas apenas pode explicá- la parcialmente.

A caracterização da severidade do incêndio e da mudança na floresta em escala de paisagem também contribui, com o pós-fogo, para a tomada de decisão e melhora a compreensão dos impactos do fogo. As diferenças fenológicas, o regime do fogo e estrutura da floresta apresentam desafios que podem confundir a severidade do incêndio, comparativamente com outros focos em outras zonas (Reiner et al, 2022). Ou seja, a severidade estima-se a partir dos dados e da análise da perda/destruição do material vegetal, assim como da matéria orgânica do solo, dependendo de um conjunto de aspetos ecossistémicos, assim como a escala espacial e temporal onde são considerados os impactos do incêndio (Gonçalves et al, 2016).

Existem um conjunto de técnicas de controlo florestal no pré-incêndio que podem influenciar a severidade dos incêndios assim como o seu impacto nos solos. Um estudo de 2015, sobre os efeitos de três incêndios distintos, onde um deles não teve qualquer trabalho de prevenção e os outros dois com trabalhos executados, porém em anos diferentes. O estudo comparou as propriedades do solo desses locais com zonas não afetadas. O estudo mostrou que os solos dos locais submetidos a práticas de prevenção apresentaram uma menor perda de nutrientes pós- incêndio, do que o outro que não teve qualquer prática de prevenção (Francos et al, 2018).

Suscetibilidade

O risco de incêndio e a suscetibilidade são conhecimentos prévios fundamentais no âmbito da gestão e ordenamento do território, assim como na prevenção e mitigação do combate aos incêndios florestais. Portanto a cartografia deste âmbito funciona com diversos dados e variáveis, que são importantes ferramentas no apoio e na prevenção, de forma a identificar áreas mais suscetíveis aos incêndios e áreas com maior potencial de perda. Entre essas variáveis segundo Vasconcelos (2013) incluem-se:

Carta de ocupação do solo: de forma a representar as espécies dominantes do território, ou seja, demonstra a matéria orgânica disponível para ignição e combustão

Declive: quanto maior for, maior a dificuldade dos meios de combate, podendo impossibilitar um combate direto, assim como a influência dos ventos locais e a progressão das chamas

Altitude: interfere na distribuição dos incêndios e influencia a meteorologia do local (temperatura, vento e precipitação)

Orientação das Vertentes: assim como o declive, determina a energia solar que chega á vegetação, que poderá levar a um aumento ou a uma diminuição da humidade da vegetação.

Densidade Populacional: entende-se que uma forte presença antropogénica na floresta aumenta o risco de ignição, assim como a baixa densidade populacional também poderá ser desfavorável, pois levará ao abandono da floresta, assim como a acumulação de combustíveis e fraca vigilância.

Densidade de caminhos (agrícolas e florestais): assim como a proximidade às estradas, devido a questões de dolo ou desleixo ao longo das vias de comunicação. Por outro lado, a

diversidade de caminhos é benéfica para a alocação de meios, no entanto facilita o acesso à população no geral.

Rede Hidrográfica: rios, ribeiras, riachos, etc… tendem a apresentar uma certa estabilidade no espaço e no tempo, e os cursos de água apresentam aspetos na paisagem que não mudam muito, com faixas de vegetação com bastante humidade.

Então, a suscetibilidade trata-se da propensão de determinada área a ser afetada, neste caso, por incêndios florestais, avaliada a partir das variáveis que lhe são intrínsecas. Esse território será mais ou menos suscetível conforme seja mais afetada ou potencie a ocorrência. No caso dos incêndios, determinada área “será tanto ou mais suscetível quanto melhor permitir a deflagração e/ou a progressão do incêndio (Verde & Zêzere, 2007).

Correlação Coberto Vegetal – Suscetibilidade

A correlação deste enquadramento concetual, parte exatamente das variáveis que constituem a suscetibilidade aos incêndios florestais, os territórios mais suscetíveis aos incêndios, manifestam-se exatamente nas zonas de maior altimetria, caracterizadas além dos declives, mas também por um coberto vegetal mais denso (Verde, 2008).

A combustão necessita sempre da presença de um combustível, de um comburente e de uma energia de ativação, o denominado triângulo do fogo, contudo, nem toda a vegetação possui a mesma suscetibilidade à ocorrência e propagação de incêndios, pelo que as características constituem uma das principais variáveis a considerar. Segundo Alves (2012), as áreas ocupadas com matos revelam-se bastante favoráveis aos incêndios, e por outro lado, as áreas ocupadas com florestas de folhosas, possuem uma maior resistência ao fogo.

De acordo com o modelo NFFL (Northern Forest Fire Laboratory), utilizado pelo Instituto Nacional da Natureza e das Florestas os combustíveis que compõem o coberto vegetal, podem são divididos em quatro grupos, que definem o tipo de combustível e a sua reação ao fogo:

  • Herbáceo
  • Arbustivo
  • Manta Morta
  • Resíduos Lenhosos

Cada um deles para além da sua reação ao fogo devido à sua composição, medida e distribuição no solo, são fatores que podem influenciar o comportamento dos incêndios florestais, como a velocidade de propagação e a sua intensidade. Por outro lado, estes combustíveis são também conhecidos como finos médios e grossos, devido ao diâmetro da sua estrutura.

Importa lembrar que os incêndios florestais e a sua propagação dão-se essencialmente pela continuidade de combustíveis finos como é o caso das herbáceas (urzes, tojo e giestas), quanto á sua intensidade e severidade podemos afirmar que as urzes, são consideradas com um potencial de combustibilidade alta, devido à sua composição se tratar de carvão.

Concluímos então que nos territórios onde existe a predominância deste tipo de combustíveis, torna-o mais suscetível à ocorrência de incêndios florestais, como comprovado com modelos de análise e no histórico de ocorrências. Embora existam outras variáveis importantes para a propagação do incêndio como os declives, o que define as ocorrências de incêndios florestais e a sua área ardida é o coberto vegetal existente, a sua distribuição e continuidade.

Estudo de Caso – Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022

Metodologia:

Este estudo será levado a cabo através de informações operacionais retiradas do dia do incêndio, assim como um levantamento de características geográficas do concelho e da localidade, através dos sistemas de informação geográfica, literatura e o Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Através da sobreposição dos dados angariados, poderemos retirar conclusões.

Contextualização do Território:

A localidade de Vila Mendo de Tavares, localiza-se na freguesia de Abrunhosa-a-Velha, por sua vez Abrunhosa-a-Velha é uma freguesia, pertencente ao município de Mangualde, este pertencente ao distrito de Viseu, faz parte da Região Dão-Lafões. Com 17.38 km2 e 440 habitantes, constituído 192 agregados (Censos, 2021). Quanto às regiões NUTS 2, pertence ao Centro e na NUTS 3 pertence á região Viseu Dão Lafões.

O concelho de Mangualde encontra-se numa região de média altitude, a sul da Serra da Estrela, misturando-se com os primeiros contrafortes da Serra da Lousã, as encostas do Buçaco a sudoeste, e encontram-se também as primeiras elevações do Caramulo. (PMDFCI, 2022).

Altitudes e Declives: Segundo o PMDFCI (2022), no que concerne á orografia do concelho, a topografia dominante é o planalto, inclinando para sul. Possui vales encaixados dos Rios Dão e Mondego. Existe uma diminuição gradual da altitude, sendo os pontos culminantes a Serra das Pousadas e o Monte do Bom Sucesso, ambos com 766 metros, as altitudes mais baixas são nos vales anteriormente mencionados, do Rio Dão e Mondego (210 m). Quanto aos declives, observa-se um terreno mais acidentado junto as margens dos rios, e nas zonas de maior altitude, com alguns destaques na zona de Abrunhosa-a-Velha, superior a 20%.

Neste mapa podemos observar que na zona de estudo, os declives são de moderados, contudo em alguns pontos chegam a atingir inclinações de 20º. Os declives podem influenciar o comportamento do incêndio e a velocidade de propagação, contudo o que importa referir, que na zona de Vila Mendo de Tavares, os incêndios podem assumir um comportamento de incêndio com uma severidade moderada baixa a moderada alta, devido às variáveis apresentadas.

Mapa 1 – Mapa de declives do concelho de Mangualde

Hidrografia: Em Mangualde existem 3 tipos de cursos de água, inclusive perenes, que se mantém durante o ano, os de regime intermitente (apenas na estação chuvosa) e os efémeros (durante as chuvadas). No concelho é possível encontrar cursos de água de 1ª e de 2ª ordem, Rio Mondego e Rio Dão, respetivamente. Existindo ainda diversas ribeiras, riachos e lagoas, e uma Albufeira, na Barragem de Fagilde (PMDFCI, 2022).

Caracterização Climática: No que concerne à temperatura, segundo o PMDFCI (2022), avaliamos a amplitude térmica, que é a diferença entre a máxima e mínima de temperatura em determinado lugar ou território, em determinado período; em termos médios verifica-se uma amplitude térmica anual, em Mangualde, de 13.9ºC, resultado do mês mais frio, janeiro, com 6.8ºC, e no mês mais quente, julho, regista 21ºC. Entre novembro e março a temperatura média fica abaixo dos 10ºC.

No que diz respeito às temperaturas máximas, observa-se entre junho e setembro um médio geralmente superior a 25ºC, apesar de em julho e agosto tende a ultrapassar os 28ºC.

Nos últimos registos, período de 1961-1990, verificam se que os meses de julho, agosto e setembro são os com temperaturas mais elevadas, rondando os 39ºC.

Caracterização do Uso e Ocupação do Solo: Particularmente Abrunhosa-a-Velha, possui cerca de 10.8 ha de áreas sociais, 399 ha dedicados à agricultura, 318 de floresta, 987.6 ha de incultos e 13.4 ha de superfície aquática, o que totaliza 1729.8 ha de território, na imagem seguinte, assinalado com um círculo vermelho, pode-se observar a ocupação do solo desta freguesia.

Uso e Ocupação do Solo: Definido pela COS 2018 o concelho de Mangualde encontrava- se maioritariamente ocupado:

  • Florestas 95,60 km2,
  • Agricultura 59,55 km2
  • Matos 46,03 km2.

Dominam as áreas ocupadas por pinheiro-bravo, eucalipto e outros carvalhos. No caso de vila Mendo de Tavares, e devido aos sucessivos incêndios florestais, predominam na área analisada as urzes, tojo e giestas, contudo ainda existem em alguns pontos o pinheiro-bravo e eucalipto, áreas pouco significativas, mas que podem ter sido a causa do aumento da severidade como podemos observar no seguimento do trabalho.

Mapa 2 – Carta de Uso e Ocupação do Solo, concelho de Mangualde 2018

Suscetibilidade: Como podemos observar no mapa 3, onde predominam os sucessivos incêndios florestais, podemos afirmar que ao nível da suscetibilidade, e onde esta destacado o incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022, mais de 80% do território apresenta suscetibilidade

Média, Alta para a ocorrência de incêndios florestais. Como afirmado anteriormente, esta suscetibilidade está relacionada com o uso e ocupação do solo existente (urzes, tojo e giestas).

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Mapa 2 . Suscetibilidade para Incêndios Florestais do concelho de Mangualde

Área Ardida dos Últimos 20 Anos:

No mapa que apresentamos abaixo, é nítida a tendência para a ocorrência de incêndios florestais na zona sudeste do concelho de Mangualde. Pudemos notar a influência dos incêndios de 2017 na parte sul do concelho. As áreas aqui representadas só correspondem a incêndios com mais de 10 hectares.

Podemos afirmar, segundo dados do ICNF desde 1975 a 2022 grande parte destas áreas são afetadas por incêndios florestais. Vila Mendo de Tavares em 37 anos de análise foi afetada por incêndios 16 anos, em média de dois em dois anos. Como podemos observar no mapa 4, os incêndios de 2017 marcaram o concelho negativamente, e por ser um ano atípico pelos fatores vividos nesse ano, mais propriamente a 15 de outubro, não foi considerado no presente estudo. Podemos com isto concluir que nos últimos 20 anos, a área de estudo, ou melhor parte dela, ardeu 7 vezes (2003,2005,2010,2011,2013,2015,2017,2022), o que torna o território menos resiliente à instalação de novas espécies.

Relação entre incêndios num intervalo de 12 anos:

O presente estudo teve como objetivo relacionar a relação entre o coberto vegetal e a suscetibilidade e a severidade dos incêndios rurais, para isso foram escolhidos dois incêndios num intervalo de 12 anos. Estes dois incêndios não foram escolhidos ao acaso, foram escolhidos não só pela grande área ardida, mas porque mais de 300 ha dos 460 ha do incêndio de 2022, ocorreu no território que ardeu no ano de 2010, como podemos observar no mapa 5.

Mapa 5 – Áreas Ardidas 2010-2022, Vila Mendo de Tavares

Por outro lado, estes incêndios ocorreram em condições diferentes, o que nos leva a concluir não só do efeito negativo e a influência das alterações climáticas na propagação dos incêndios florestais, mas que os combustíveis existentes são bastante inflamáveis e a velocidade de propagação é cada vez mais rápida e de difícil combate por parte dos operacionais.

O incêndio ocorrido a 10 de agosto de 2010, arderam 1010 hectares, o incêndio deflagrou por volta das 11:00, com instabilidade atmosférica e com temperatura de 31 º C (2 dias).

O incêndio ocorrido a 13 de junho de 2022, arderam cerca de 460 hectares, deflagrou por volta das 02:04 com temperaturas de 21ºC. (1 dia). Início de incêndio numa zona de matos (urzes), com uma progressão rápida. O reacendimento, as 13:30 de dia 14 de junho de 2022, mostrou-se com elevada intensidade, resultado da intensidade do vento e mudanças sucessivas de direção, assim como uma temperatura máxima de 35º.

Como referido anteriormente 90% da área ardida do incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022, era território ocupado por urzes, tojo e giestas, que segundo o modelo de inflamabilidade do ICNF, são espécies muito inflamáveis de 60 cm a 2 metros de altura, em que o fogo se propaga abaixo das árvores, em relação ao comportamento do fogo nestes combustíveis, o incêndio desenvolve-se com teores mais altos de humidade do combustível morto do que outros modelos, isto impulsionado pela natureza mais inflamável dos outros combustíveis vivos existentes.

Suscetibilidade vs Severidade do Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022

Um dos objetivos deste trabalho é a relação do coberto vegetal com a suscetibilidade e a severidade dos incêndios rurais e se, existe uma dependência e uma relação entre ambos. Nos mapas 6 e 7 podemos observar que o incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022, a severidade não tem relação direta com a suscetibilidade de incêndio rural, segundo o modelo de análise de João Carlos Verde e José Luis Zêzere, o que nos leva a concluir que existe outros fatores que influenciaram a severidades deste incêndio, para além do coberto vegetal.

Mapa 6 – Suscetibilidade de incêndio Rural na área ardida do Incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022

Para uma análise mais detalhada e criação de um mapa de severidade com imagens satélite do Sentinel 2 com resoluções de 20 e 10 metros antes e após o incêndio, tratamento dessas imagens com as ferramentas SIG (DNBR, MDVI), para manipulação de dados estatísticos.

No mapa 7, e com uma breve visita à área de estudo foi evidente que para além do coberto vegetal ardido, e a sua recuperação desde o incêndio, as zonas que apresentaram severidade média-alta, grande parte delas são zonas com declives moderado a acentuado, por outro lado zonas em que o coberto vegetal é pinheiro-bravo o incêndio progrediu às copas, o que provavelmente levou a uma severidade média-alta em zonas com declive pouco acentuado.

Outro aspeto importante a ter em conta é que a geologia do território, é a base granítica que pode impossibilitar a instalação de outras espécies de vegetação, como o caso do pinheiro- bravo e o eucalipto ainda existente perto da interface urbana de Abrunhosa-à-Velha e Vila Mento de Tavares.

Mapa 7 – Severidade do Incêndio de Vila Mendo de Tavares (13 de junho de 2022)

Conclusão

Com a realização deste trabalho, concluímos que a relação entre o coberto vegetal é sem dúvida uma das variáveis a ter em conta quando estamos a analisar a suscetibilidade dos incêndios florestais. Esta relação é clara tendo o coberto vegetal, um papel importante para ajudar a prevenir e reduzir a intensidade dos incêndios, porém, com as alterações ao longo dos anos e a alteração do manto florestal para matos podem aumentar a suscetibilidade e a severidade dos incêndios.

Por outro lado, acreditamos que na zona de estudo e em comparação a muitas outras, um pouco espalhadas por Portugal, mais a norte do país, é difícil a instalação de novas espécies, devido aos sucessivos incêndios, impulsionando a instalação de espécies invasoras, devendo ser criadas medidas de mitigação, para um ordenamento do território florestal sustentável e com uma maior rentabilidade económica.

Com o estudo da severidade de incêndio rural, e com as variáveis existentes no dia do incêndio de Vila Mendo de Tavares de 13 de junho de 2022, é evidente que em zonas em que o coberto vegetal, com pouco teor de humidade, como é o caso das urzes, tojo e giestas, de dia e noite nos meses de verão, quando ocorre uma ignição existe uma rápida e violenta progressão dos incêndios, o que torna o combate mais difícil para os operacionais no terreno.

Deste forma, é importante que os atores da Proteção Civil e a população em geral adotem práticas de controlo e prevenção adequados dos terrenos e um eficaz ordenamento do território, de forma a prevenir e combater os incêndios rurais, protegendo assim o meio ambiente e as populações.

Referências Bibliográficas

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Repositório da Universidade de Lisboa.

Inovação ou progresso? O que uma troca de palavra pode revelar sobre a nossa visão do futuro

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A palavra «inovação» espalhou-se bastante nos últimos 20 anos. Cruzamo-nos com ela nos debates políticos, nos jornais, na televisão, nos livros, etc. Poderíamos imaginar que ela surgiu de forma natural para substituir a palavra «progresso», como uma simples evolução da língua. Ou seja, que «inovação» seria apenas uma versão modernizada do conceito de progresso, e nada mais… Seria esquecer que a relação com as palavras não é a mesma que temos com uma ferramenta. Acostumados à comunicação moderna, tendemos a esquecer que, desde sempre, o ser humano mantém uma relação poética com a língua : somos falados pela língua mais do que falamos a língua. Por isso, essa substituição merece ser examinada com atenção. Palavras nunca são inocentes, e qualquer aparição, mudança ou desaparecimento tem um significado.

O que acontece então com as palavras «inovação» e «progresso»? Uma coisa interessante é que, ao contrário do que pensamos, «inovação» não é, de todo, uma palavra recente! Surgiu no século XIV, em baixo-latim. Na altura, ela tinha um uso jurídico específico e designava o que acrescentamos a um contrato já assinado para mantê-lo válido — ou seja, um aditamento contratual. Assim, «inovatio» em baixo-latim significava algo que permite preservar um contrato mesmo após uma modificação. Aliás, o latim «innovare» significa «voltar a», «restaurar». Ou seja, a origem da nossa palavra «inovação» tem etimologicamente a ideia de manter, de conservar. Como sinônimo de «progresso», já fica estranho…

No século XVI, o uso da palavra se expandiu para além do campo jurídico. Podemos encontrá-la muitas vezes na obra do filósofo e político italiano Maquiavel O Príncipe (escrito em 1513 e publicado em 1532). Como a palavra caiu em desuso por um tempo e só reapareceu recentemente, a maioria das traduções de O Príncipe não usaram «inovação», preferindo termos como «câmbio», «modificação» ou «novo». etc. Mas o texto italiano, ele, está cheio de palavras como «innovazioni», «innovatori», «innovare», «innovando». O que é que o filósofo diz a respeito da inovação? No capítulo 6 e 25, Maquiavel fala da inovação como uma ferramenta tanto útil como perigosa. Com efeito, ele avisa o príncipe que a inovação pode criar instabilidade num país, mas que quando a autoridade do governo está em perigo, a inovação pode ser útil para conservar e manter o seu poder. Novamente, vemos que a retórica da inovação está associada à ideia de conservação.

Em 1625, a palavra «inovação» foi usada pela primeira vez em relação à técnica, no ensaio político e moral do filósofo Francis Bacon. Bacon diz que o tempo é corruptor: deteriora a vida dos homens e o mundo; as forças más estragam o mundo, e a única maneira de impedir esta degradação é por meio da inovação. É impressionante como, ao retirar do discurso de Bacon sua dimensão moral e religiosa, poderíamos facilmente pensar que essa ideia é recente. Isto mostra até que ponto falamos da inovação exatamente na mesma perspectiva que Bacon: a inovação é a força que nos pode salvar da deterioração do presente. E outra vez, a retórica da inovação está intimamente ligada à ideia de conservação num presente de destruição.

Durante 300 anos, a palavra «inovação» quase desapareceu! Mas a partir dos anos 2000 voltou com muita força! No relatório da UE de 2010 por exemplo, a palavra «inovação» aparece mais de 300 vezes em 50 páginas. O que diz este relatório? Aponta que a Europa enfrenta desafios graves, que se intensificam com o tempo: escassez de recursos, mudanças climáticas, envelhecimento da população, etc. e só conseguirá superar esses desafios por meio da inovação. Assim criou um projeto chamado «UE 2020: a união da inovação». Dito doutra maneira: o que justifica a inovação não é uma certa ideia do futuro, que primeiro pensámos e que queremos realizar, mas o estado urgente e crítico do presente. Assim esta palavra de «inovação», que encontramos por todo o lado hoje em dia, enquanto acreditamos usá-la como sinônimo de «progresso», na verdade é uma ideia que vai ao oposto dele.

Kant, no texto O que é Esclarecimento? (1784), induz-nos a pensar que a ideia de progresso é consoladora, pois alivia a aflição do presente com a esperança de um futuro melhor e oferece um sentido aos sacrifícios necessários para alcançar este futuro. No entanto, aceitar sacrificar uma parte do presente para um futuro comum implica que este “futuro” seja delineado (senão como iremos acreditar nele?) e atraente (senão porque iremos trabalhar para sua realização?). Ora, o que não conseguimos fazer é precisamente abrir desta forma um futuro. Aí está a razão do porquê o «progresso», conceito escrito com maiúscula durante 200 anos, e que deu sentido aos projetos de tantos engenheiros, hoje desapareceu quase completamente da nossa vida, e foi substituído pela ideia de «inovação».

Esta substituição da palavra, que parecia inocente, na verdade diz muita coisa sobre o cansaço da nossa civilização, que já não tem a força de lançar a sua vontade em direção ao futuro; diz muita coisa também sobre uma ciência privada de visão pela técnica, porque o cientista pensa o que faz (daí uma certa visão do futuro) enquanto o técnico só apresenta um meio (daí a sua relação com o presente); ainda diz mais sobre a obsessão moderna pelo presente, e a nossa falta de paciência, uma virtude que só nasce da fé no futuro.

Resumindo e concluindo: a inovação é a resposta bulímica à crise do presente, num princípio de conservação; o progresso é a resposta a um chamamento do futuro, num princípio de edificação.

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O Farhud e a falsificação de Avi Shlaim

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O Farhud foi um pogrom. Um pogrom antijudaico executado em Bagdade a 1 e 2 de Junho de 1941, em plena festa de Shavuot, numa orgia de violência que deixou mais de uma centena de judeus mortos, centenas de feridos, mulheres violadas, crianças mutiladas, casas destruídas e bairros reduzidos a escombros. O Estado iraquiano, então entregue a militares fascistas alinhados com a Alemanha nazi, permitiu que a sua população judaica fosse caçada como inimiga interna.

A propaganda alemã, cuidadosamente cultivada por Fritz Grobba, tinha preparado o terreno. Traduções árabes de Mein Kampf, rádios e jornais inundados de teorias conspirativas antissemitas, escolas militarizadas à imagem das Hitlerjugend e uma cultura política que identificava o judeu como traidor e ameaça. Nada disto é controverso entre historiadores. O Farhud é entendido de forma consensual como um produto do fascismo iraquiano, da influência nazi e do ressentimento nacionalista que fervia na época.

E, no entanto, há quem tente virar a história ao contrário.

Nos últimos anos, Avi Shlaim, historiador (à semelhança do inenarrável Pappé), conhecido pela sua posição profundamente crítica do sionismo, procurou reescrever a narrativa dos judeus iraquianos deslocando o eixo da violência. Na sua versão, a responsabilidade central pela destruição desta comunidade não residiria no antissemitismo iraquiano nem no trauma do Farhud, mas nos sionistas, através de supostas acções clandestinas que teriam forçado os judeus a emigrar para Israel com bombas lançadas entre 1950 e 1951.

O problema não é apenas a tese. É a manipulação necessária para a sustentar.

Shlaim apresenta o seu achado como prova definitiva de que as bombas foram obra sionista e que a emigração em massa dos judeus iraquianos só aconteceu porque esses ataques criaram pânico. Mas basta olhar para a cronologia, a documentação e os números para perceber que esta história é falsa.

Quando o Iraque aprova, em março de 1950, a lei que permite a renúncia da cidadania, dezenas de milhares de judeus registam-se de imediato para sair. Quando ocorre o primeiro dos atentados que Shlaim atribui a sionistas, já mais de metade da comunidade tinha assinado para emigrar. Os registos oficiais mostram que a decisão de fuga era estrutural, massiva e tomada muito antes dos ataques. A comunidade tinha vivido anos de vigilância, prisões arbitrárias, repressão económica, campanhas de ódio e um trauma fundador, o Farhud. O impulso para partir existia independentemente de qualquer operação clandestina, fosse ela real ou imaginada.

E é precisamente aqui que Shlaim comete o seu acto mais grave. Ele altera uma data, deslocando um atentado de março de 1951 para março de 1950, criando assim a impressão de que a violência antecede a emigração, quando na verdade ocorreu depois de o movimento de saída estar em plena marcha. Esta alteração não é um lapso, é a peça central da narrativa que ele quer impor. Sem esta adulteração, a tese ruiria.

Não menos grave é a forma como Shlaim instrumentaliza o Farhud. O pogrom de 1941, amplamente documentado e reconhecido por historiadores judeus, árabes e ocidentais, passa na sua tese para um lugar secundário. A brutalidade nazi em Bagdade, a juventude fascista al Futuwa, a cumplicidade do Estado iraquiano, a perseguição legal sistemática dos anos 40, tudo isto é empurrado para fora dos acontecimentos para abrir espaço à sua mentira preferida. A ideia de que os judeus expulsaram os judeus.

Mas a história não funciona assim. A realidade é mais teimosa do que qualquer ideologia.

As famílias que fugiram do Iraque não precisavam que um agente clandestino lhes explicasse que já não tinham futuro ali. Bastava lembrar os corpos mutilados nas ruas de Bagdade em 1941. Bastava lembrar as prisões, as humilhações, as leis discriminatórias, o confisco de bens, as suspeitas permanentes e o medo constante. Bastava saber, como todos sabiam, que a comunidade nunca recuperara verdadeiramente da ferida aberta pelo Farhud.

É insultuoso e intelectualmente desonesto sugerir que pessoas que viveram um pogrom precisaram de ser empurradas por bombas sionistas para abandonar um país que já as havia marcado a ferro e fogo. É igualmente desonesto fingir que o Farhud foi um incidente pontual num contexto idílico de convivência, quando foi um ponto de rutura histórica que selou para sempre a vulnerabilidade dos judeus num Estado cada vez mais nacionalista e hostil.

A tentativa de Shlaim de inverter a causalidade, e com ela a responsabilidade histórica, não é neutra. Ela conforta uma narrativa política muito útil a certos meios. A ideia de que os judeus no mundo árabe eram felizes até que o sionismo estragou tudo. A ideia de que as perseguições antijudaicas no mundo árabe são invenções ou exageros. A ideia de que, se houve violência, a culpa foi dos próprios judeus.

É o velho reflexo de sempre, culpar o judeu pelo que lhe é feito. O mesmo padrão que sustentou séculos de perseguições, expulsões e massacres.

A história do Farhud é clara. A documentação é vasta. A investigação independente é sólida. A conclusão é inequívoca. A destruição da comunidade judaica iraquiana começou com o antissemitismo iraquiano alimentado pelo fascismo local e pela propaganda nazi, e não com uma operação sionista.

Desmontar a falsificação de Shlaim não é um exercício académico. É um acto de memória. É impedir que o sofrimento de uma comunidade seja usado para servir conveniências ideológicas. É defender a verdade contra versões que tentam transformar vítimas em culpados.

A história merece rigor.
Os judeus do Iraque merecem justiça.
O Farhud merece ser contado como realmente foi, sem apagamentos, sem manipulações e sem inversões cínicas da realidade.

Capítulos das Cortes da Era de 1331

Alguns Capítulos Gerais das Cortes da Era de 1331, convocadas pelo Augusto Senhor D. Afonso IV na vila de Santarém

Art. 1.° – Os Concelhos diziam que lhes iam contra os seus privilégios, o que o Rei “nom entende a ir”, e que “se lhis em alguã cousa forom contra eles sen razon que lho quer correger”.

Art. 2.° – Alguns Concelhos admitem ao Rei terem isenção de portagem em todo o Reino, algo que o Rei pede corroborado pelos Foros de cada local, e que a esses os faria guardar a mercê.

Art. 3.° – Há alguns lugares onde se especulava mais portagem; o Rei ordena que lhes digam quais lugares são, para aplicar a Justiça.

Art. 4.° – Alguns lugares eram isento de pagar montado, o que tem sido violado nas zonas do Campo de Ourique – o Rei pede a vistoria dos respetivos foros novamente, para que se guardassem.

Art. 5.° – Alguns Concelhos tinham em seu foro que eram isentos de jugada se tivessem cavalo, e agora eram obrigados a ter cavalos de certa quantia. O Rei diz que o cavalo refere-se a tal “com que possa servir”, admitindo que “nom parece nem he semelhança de verdade que a quitassem [a jugada] por teerem tal cavallo com que nom podessen servir nem defender a terra mays en os teerem seeria strago da terra e mingua e vergonça”. Ordena, pois, que se mantenha a cláusula, desde que o cavalo seja para servir, caso contrário mantenham a cobrança.

Art. 6.° – Reclamam que há Alcaides que cobravam maior carceragem (cobrança aos presos) do que deviam, ao qual o Rei pede que lhe indiquem quais são, para exercer Justiça.

Art. 7.° – Há outros que levavam carceragem antes dos ditos serem presos por sentença, ao qual o Rei concorda e defere.

Art. 8.° – Os Alcaide prendiam alguns homens e os levavam à prisão antes de os levar aos Juízes, e muitos não os querem soltar mesmo que a sentença seja essa. O Rei concorda com uma explicação auxiliadora da Justiça a aplicar.

Art. 9.° – Diz o Foro de algumas vilas que não deviam ter mais do que um Alcaide e um Mordomo, e que agora meteu o Rei em alguns sítios três e quatro Alcaides e muitos mais Mordomos. O Rei ordena que se cumpram os Foros, MAS que o Alcaide que ficar tenha tantos homens quanto deseje para guardar a terra.

Art. 10.° – Também em foro, há algumas Vilas que são isentas de fiscalização pelos Meirinhos do Mordomos do Rei, o que agora não era cumprido. O Rei diz que nunca ordenou esta prática, à excepção de casos “pera saber se os Alcaides e os Juises som negrigentes en aquello que ham de fazer ou se fazem o que nom devem”. O Rei ainda admite que “esto nom devem eles ter por agravamento ca todo esto he por sa prol pera se fazer per hy milhor dereyto e justiça”.

Art. 11.° – Os Concelhos reclamam que muitas vezes o Rei dava cartas de mercê ou de segurança de territórios que pertenciam àqueles, e onde o dito beneficiado teria o recurso ao Rei, e não ao Concelho, para apelar aos feitos criminais. O Rei é teimoso, diz que “nom [as] da senom em aquellas cousas en que compren de seerem dadas”, admitindo que é devido às cartas de graça que “muytos pobres e viuvas e orfaoos e outros hao dereito dos poderosos e dalguas pessoas de que o nom poderiam aver na terra” porque, segundo o Rei, “en muytos se faz justiçia que se faria tarde ou nunca”.

Art. 12.° – Os Concelhos admitem que o Rei fazia os presos ir à prisão régia à custa do Concelho, que os levava lá. O Rei rejeita a isenção, porque diz que não manda à prisão régia “senom aquelles de que se nom pode allo fazer dereito e justiça”. Ou seja, não era a maioria dos casos de todo.

Art. 13.° – Os Ouvidores e Meirinhos do Rei apropriavam-se dos feitos civis que não lhee competiam. O Rei admite isto ser errado, e pede correção, à excepção de casos que envolvam Tabeliães, Alcaides, Juízes e homens poderosos “de que se na terra nom pode fazer dereito”. Acaba o artigo com o mesmo dito no Art. 10°.

Art. 14° – Reclamaram também do facto da apelação feita nas Cortes do Rei ser irrevogável, o que diziam ser contrário aos costumes antigos. O Rei rejeita, diz que “consirando el prol dos da sa terra que fez este ordinhamento”, porque “en sa Corte avia juizes mays letrados e mays entendudos que nas terras e que por esto poderiom os fectos hy melhor e mais toste [rápido] ser desembargados e a mays a prol das partes”.

Art. 15.° – Alguns Concelhos eram isentos de pagar anúduva [de emprego em muralhas] por Foro. O Rei pede que se verifiquem os Foros e se guardem.

Art. 16.° – Algumas Aldeias e Vilas foram retiradas da jurisdição dos Concelhos para se fazerem soberanas por si. O Rei rejeita esta consideração, argumentando que “el e os Reys que ante el forom fezerom esto em alguuns logares pera se pobrar porem milhor a terra e pera se arromper e aproveytar aquello de que ante nom aviam prol”.

Art. 17° – Alguns Concelhos tinham uma cláusula foraleira de não serem dadas em doação a Cavaleiros, Clérigos ou Fidalgos, algo que não estava a ser cumprido. O Rei pede que se verifiquem os Forais e os cumprem.

Art. 18.° – Em algumas vilas nunca houve fangas do pão, o que significava que podiam vendê-lo a seu bel-prazer nas suas Casas e na Vila, algo que estava a ser contornado. O Rei admite que nunca mandou fazer nada desse tipo, e ordena que não se cumpram as fangas.

Art. 19.° – Há quem escondesse gados encontrados sozinhos sem dar a tolerância para o seu dono as reivindicasse, o que o Rei admite ser impróprio, ordenando que se combine um local na Vila para onde esses gados perdidos fossem levados até um certo tempo. Passado ele, o dito podia ficar com os gados.

Etc.

Galeria: Ilustrações de Ofícios Medievais num Códice Polaco de 1505

Os ofícios medievais num códice polaco [Kodek Baltazar Behem].

  1. – Comerciante e o seu armazém
  2. – Vendedor de rua
  3. – Padeiro
  4. – Alfaiate

  1. – Seleiro
  2. – Ourives
  3. – Produtor de Arcos e Bestas
  4. – Oleiro

  1. – Pintor
  2. – Curtidor [de pele e/ou couro]
  3. – Fazedor de sinos
  4. – Carpinteiro

  1. – Sapateiro
  2. – Ferreiro
  3. – Costureiro
  4. – Homem de Armas

  1. – Ferreiro [de forja]
  2. – Tanoeiro

A Trégua de 1914

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No Natal de 1914, o primeiro da Grande Guerra, as armas calaram-se em vários pontos da frente ocidental. O cessar-fogo não foi decidido por generais nem autorizado por governos.

Homens cobertos de lama, exaustos e enregelados, abandonaram as trincheiras e encontraram-se espontaneamente em terra de ninguém. Ofertaram entre si aquilo que dispunham, cigarros, vinho, fotografias e pequenas lembranças. Alguns cantaram, outros apenas contemplaram o outro lado e verificaram que o inimigo tinha similar rosto e idade.

A trégua foi efémera, já que as autoridades militares se apressaram a restaurar a disciplina. As chefias temiam que aquele gesto contaminasse o espírito de combate e, no ano seguinte, as instruções foram explícitas: qualquer tentativa de contacto com o inimigo seria punida. A guerra lá prosseguiu, mais mecanizada e impessoal, com as trincheiras a tornarem-se fábricas de morte, onde o corpo servia exclusivamente de instrumento e obstáculo.

E se os impérios se ergueram em nome da civilização e da ordem, os seus exércitos apenas as encontraram quando deixaram de disparar. Entretanto, as fronteiras mudaram, as colónias esfumaram-se, os exércitos dissolveram-se. Restaram cemitérios alinhados e memórias difusas.

A trégua de Natal de 1914 não mudou o curso da guerra, mas mostrou que, mesmo dentro da lógica do poder, há momentos em que a obediência vacila. E, quando isso acontece, o inimigo deixa de ser um conceito e passa a ser uma pessoa. Hoje, mais de um século depois, essa é a ironia que persiste. Os impérios desapareceram, mas a fotografia de alguns homens a confraternizar no meio da neve e lama ainda circula como prova de que houve um instante em que a guerra se esqueceu de si própria. Porventura terá sido esse o momento mais genuíno de todo o conflito.

Aproveito para partilhar uma das minhas cenas cinematográficas favoritas do filme Joyeux Noël, que retrata este acontecimento:

Aos irmanados leitores, desejo um feliz renascimento!

Imagem colorizada usada no artigo:

“<a href=”https://www.flickr.com/photos/hansmichaeltappen/26644068665″ title=”Archiv5(E)E215 Weihnachtskarte, Erster Weltkrieg, WWI 1914-1918″>Archiv5(E)E215 Weihnachtskarte, Erster Weltkrieg, WWI 1914-1918</a>” by <a href=”https://www.flickr.com/photos/hansmichaeltappen/”>Hans-Michael Tappen</a>, <a href=”https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/deed.en” rel=”license noopener noreferrer”>CC BY-NC-SA 2.0</a>

O Tempo como Presente: Três Relógios Oferecidos que se Tornaram Lendas

O universo dos relógios revela-se sempre mais vasto do que aparenta. Mais do que simples instrumentos de medição, os relógios mecânicos encerram um mecanismo vivo que serve de receptáculo para intenções, sentimentos e memórias — acolhendo, no próprio metal e no próprio ritmo, tudo aquilo que resiste ao tempo. Talvez por isso, mesmo ultrapassados na exactidão pelos relógios de quartzo, pelos atómicos ou pela ubiquidade da hora nos telemóveis, os relógios mecânicos permanecem nos pulsos, como mensageiros de uma dimensão simbólica e afectiva que nenhuma tecnologia conseguiu substituir. Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria.

Nesta véspera de Natal damos a conhecer três relógios oferecidos em circunstâncias extraordinárias, peças que se tornaram parte da história pelos melhores motivos. Estas histórias revelam momentos empolgantes da relojoaria e dos seus protagonistas e sabemos que são histórias como estas que nos fazem admirar os relógios: não pela utilidade, mas sim pelo significado e pela memória que encerram.

Patek Philippe – Gago Coutinho e Sacadura Cabral

©IPR  Relógio de pulso Patek Philippe em ouro, oferecido em 1922 pela Comissão Executiva da recepção aos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, por ocasião da primeira travessia aérea do Atlântico Sul.
©IPR Relógio de pulso Patek Philippe em ouro, oferecido em 1922 pela Comissão Executiva da recepção aos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, por ocasião da primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Em 1922, a travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral tornou-se símbolo da conjugação entre ciência, navegação e perícia técnica. No coração da aventura, o tempo não era abstracção mas ferramenta: cada trajectória dependia da precisão dos cronómetros marítimos e dos relógios de aviação embarcados no “Lusitânia”, no “Pátria” e no “Santa Cruz”.

Entre os instrumentos documentados constavam, por exemplo, cronómetros da marca britânica Dent — fornecedora da Marinha Portuguesa desde o século XIX — e cronómetros da Johannsen e da Kullberg, que equipavam os navios e, nesta missão, foram adaptados para utilização aérea.

Não se tratava de relógios de adorno, eram verdadeiros instrumentos científicos.

Quando se olha para a travessia aérea do Atlântico Sul em 1922, é fácil esquecer que o verdadeiro protagonista não foi apenas a máquina voadora, mas o tempo — medido, regulado e interpretado com precisão científica. O próprio Gago Coutinho esclarece este ponto no relatório da viagem, apresentado ao Estado no ano seguinte:

Na navegação astronómica empregou-se, como a bordo dos navios, um cronómetro médio, que dá a hora de Greenwich; e levávamos também um bom contador médio. Na previsão de observações astronómicas de noite, tínhamos mais um cronómetro regulado para o tempo sideral de Greenwich. Gago Coutinho

Na preparação da missão, o Observatório Naval de Lisboa revia, ajustava e selava os cronómetros segundo padrões rigorosos. O próprio método de navegação de Gago Coutinho, baseado no “sextante de horizonte artificial”, só era possível graças à leitura exacta dos cronómetros — e o sucesso da travessia dependeu literalmente do seu funcionamento. Sabia-se, por testemunhos directos e registos museológicos, que Gago Coutinho utilizou um cronómetro Dent Nº 32511 durante a viagem, e que, após o regresso:

 A Comissão Executiva da recepção aos aviadores portugueses ofereceu-lhes um relógio de pulso Patek Philippe em ouro.

A relação entre homem, máquina e tempo ficou assim inscrita na história portuguesa. Estas peças são testemunhos materiais de uma época em que medir o tempo era, em si, um acto de conquista.

O Breguet Nº 160 “Marie-Antoinette”

Breguet Marie-Antoinette
Breguet Marie-Antoinette

Por volta de 1783, um admirador da rainha Maria Antonieta de Áustria, esposa de Luís XVI, encomendou a Abraham-Louis Breguet um relógio sem precedentes. A identidade do cliente permanece desconhecida, mas a intenção foi clara e documentada:

criar o relógio mais complexo e perfeito possível, sem limite de custos nem prazos, destinado à rainha.

O pedido incluía explicitamente todas as complicações conhecidas na época. Não se tratava de ostentação imediata, mas de um gesto absoluto, quase conceptual, em que o tempo e o dinheiro deixavam de ser critérios. O relógio tornava-se uma prova técnica e simbólica.

A execução do relógio revelou-se extraordinariamente longa. A Revolução Francesa, iniciada em 1789, interrompeu a vida da corte e conduziu à execução de Maria Antonieta em 1793, antes de o relógio estar concluído. O projecto, porém, não foi abandonado.

O Breguet Nº 160 só ficou concluído em 1827, mais de quarenta anos após a encomenda e quatro anos depois da morte de Abraham-Louis Breguet. O relógio integra, entre outras, repetição de minutos, calendário perpétuo, equação do tempo, termómetro, reserva de marcha, corda automática e indicação das horas em múltiplos formatos. Nunca foi entregue à sua destinatária original. Ainda assim, ficou para sempre associado ao seu nome, não pelo uso, mas pela intenção.

Ao longo do século XIX, o relógio passou por vários proprietários privados. No início do século XX, integrou a colecção de Sir David Lionel Goldsmid-Stern-Salomons, um importante coleccionador britânico de relojoaria e ciência.

Em 1966, a peça foi doada ao Museu L.A. Mayer de Arte Islâmica, em Jerusalém, onde passou a ser um dos objectos mais importantes da colecção de relojoaria histórica, apesar de não ter ligação directa ao mundo islâmico. A sua presença no museu justificava-se pelo valor universal do objecto enquanto obra de engenharia e arte.

Breguet Marie-Antoinette
Breguet Marie-Antoinette

Na noite de 15 de Abril de 1983, o museu foi assaltado.

Foram roubados mais de uma centena de relógios, incluindo o Breguet Nº 160.

O assalto foi meticulosamente planeado e não deixou pistas imediatas.

Durante décadas, o paradeiro do relógio permaneceu desconhecido. A sua singularidade tornava-o impossível de vender no mercado legal, o que contribuiu para o mistério em torno do roubo.

Em 2007, após mais de vinte anos desaparecido, o Breguet Nº 160 foi recuperado. O relógio foi devolvido ao museu por uma mulher que afirmou estar a cumprir a vontade do seu falecido marido, identificado como Na’aman Diller, um ladrão profissional israelita, já falecido à data.

A investigação confirmou a autenticidade da peça. O relógio encontrava-se completo, embora necessitasse de avaliação técnica e conservação. A recuperação foi considerada um dos episódios mais notáveis da história recente da relojoaria museológica.

Rolex Paul Newman – Rolex Cosmograph Daytona, referência 6239

Rolex Paul Newman - Rolex Cosmograph Daytona, 6239
Rolex Paul Newman – Rolex Cosmograph Daytona, 6239

Em 1968, o actor Paul Newman encontrava-se profundamente envolvido no automobilismo de competição. Para além da sua carreira no cinema, corria regularmente em provas de resistência e em programas de preparação profissional, uma actividade que comportava riscos reais e constantes. Foi nesse contexto que a sua esposa, a actriz Joanne Woodward, lhe ofereceu um relógio: um Rolex Cosmograph Daytona, referência 6239, com mostrador exótico, hoje universalmente conhecido como Paul Newman Daytona.

O Rolex Daytona não foi seleccionado como símbolo de ostentação. Era um cronógrafo profissional, concebido para a medição de tempos em pista, equipado com escala taquimétrica e leitura clara. Funcionava, de forma directa e eficaz, como instrumento adequado à actividade de Newman enquanto piloto. O gesto não procurava criar um símbolo público nem um ícone mediático. O relógio destinava-se ao uso quotidiano e desportivo do seu destinatário.

No verso da caixa, Joanne Woodward mandou gravar a frase “DRIVE CAREFULLY ME”.

A mensagem é simples, directa e profundamente pessoal. Não contém o nome do destinatário nem qualquer data. A escolha da palavra final — ME — transforma a frase num apelo íntimo: não se trata apenas de prudência, mas de responsabilidade afectiva. Esta gravação encontra-se amplamente documentada através de fotografias, testemunhos familiares e do próprio percurso conhecido do relógio.

Paul Newman usou este Rolex durante vários anos, tanto fora como dentro de pista. O relógio surge em múltiplas fotografias e registos públicos, confirmando que não foi guardado como peça simbólica ou de excepção, mas integrado na sua vida quotidiana. Esse uso continuado reforça o carácter genuíno da oferta: o relógio cumpriu exactamente a função para a qual foi oferecido.

Mais tarde, Newman ofereceu o relógio ao então namorado da sua filha, James Cox, quando este se preparava para iniciar uma carreira no automobilismo. O gesto manteve intacta a lógica original da oferta: o relógio acompanhava quem enfrentava o risco. Durante décadas, o paradeiro da peça permaneceu discreto, fora do circuito mediático e afastado do mercado de coleccionismo.

Em 2017, o relógio foi leiloado pela Phillips, em Nova Iorque, alcançando o valor de 17,75 milhões de dólares e tornando-se, à data, o relógio de pulso mais caro alguma vez vendido em leilão.

Este Rolex não é importante por ser um Paul Newman Daytona. Tornou-se um Paul Newman Daytona porque foi usado por Paul Newman. E tornou-se histórico porque foi oferecido com uma mensagem privada que nunca perdeu o seu sentido. A frase “DRIVE CAREFULLY ME” não foi pensada para o público. Foi escrita para um homem específico, num momento concreto, com uma preocupação real.

Joanne Woodward e Paul Newman
Joanne Woodward e Paul Newman

A oferta do Rolex por Joanne Woodward a Paul Newman demonstra que um relógio pode tornar-se histórico sem qualquer intenção de o ser. Basta que o gesto seja verdadeiro, que o uso seja real e que a história seja documentada. Entre todas as grandes ofertas relojoeiras conhecidas, esta permanece uma das mais humanas: um relógio oferecido por amor, usado com naturalidade e valorisado pelo tempo.

O Romantismo é uma falsa Contra-Revolução: Reflexos na literatura

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A atualidade é ainda marcada pelo mais preponderante movimento ideológico que a Humanidade conhece. Os fundamentos desse movimento político-social residem na segunda metade do século XVIII e na primeira metade do século XIX, o Iluminismo. Apesar da aparente distância cronológica, esta matriz é a causa-mor do panorama atual.

Discutir os fatores que determinaram a origem deste movimento ideológico não é o mais pertinente para a reflexão do presente artigo; mas, sim, perceber os princípios filosóficos que, de modo genérico, o fundamentam. A filosofia das Luzes que teve como premissa principal o desejo de conhecer, de saber a “verdade” poderia parecer — numa leitura muito ingénua à historiografia atual – uma tentativa de aproximação dos olhos para Deus que é o fundamento do mundo (“(…)Dominus Deus illuminat (…)” Apocalipse 22, 5). Pelo contrário, o tal desejo de saber tornou-se antes uma rejeição do pensamento teológico. Ao invés, procuravam uma explicação racional das coisas, sendo que a razão só poderia ser corretamente utilizada se fosse iluminada pelas luzes do conhecimento. Daí o racionalismo. Acreditando na perfeição da Natureza e nas leis que a regiam, aqueles filósofos consideravam que as relações entre as pessoas deviam ser reguladas por normas naturais, sendo que o homem possui direitos naturais e ao reconhecerem a liberdade como um direito natural, condenavam o despotismo régio, a intervenção estatal na sociedade e a intolerância.

O Iluminismo vai apresentar vários matizes e vertentes, mas todas são símbolo de uma grande ruptura com o Antigo Regime. E, naturalmente, sempre que existem mudanças, tomam-se posições. Assim, se por um lado alguns intelectuais produziam bibliografia afirmando o Iluminismo; necessariamente, outros opuseram-se. Esta oposição foi também concretizada de diversos modos; mas designamo-la, de forma generalista, como o Contra-Iluminismo ou Romantismo.

O Contra-Iluminsimo inicia, em 1760, quando pensadores filosóficos começam a opor-se aos princípios do Iluminismo: à revolução das mudanças, propuseram o elogio da tradição e, ao liberalismo e individualismo, contrapuseram a defesa comprovativa da sociedade comunitária. Contra os imperativos da razão universal, impuseram a obra natural do tempo e a ordem empírica, defendendo que a política deveria basear-se no curso natural das coisas e não deve ser constituída sobre a razão, apenas. Adicionalmente, esta corrente critica a total confiança depositada na ciência e a elevação da ideia de progresso acima de tudo, argumentando que nem tudo que escapa ao controle da razão é um engano, pois colocam a tónica na emoção como instância válida de conhecimento.

A forte tensão entre estas duas correntes não cessou e marcou a modernidade e a contemporaneidade. Frequentemente, conclui-se que este conflito é a origem das divisões políticas que hoje conhecemos. O Iluminismo, pelo seu ávido desejo de progresso, associa-se a uma linha ideológica de Esquerda; por outro lado, o Romantismo, pelas suas correntes mais conservadoras, associa-se a uma linha ideológica de Direita. Existem, ainda, teorias que sublinham a influência do Romantismo na ascensão da extrema-direita, fundamentando-se na premissa de que a valorização da tradição, inerente ao Romantismo, é a origem do nacionalismo. Naturalmente, estas divisões de posições políticas entre esquerda e direita são extremamente redutoras, contudo são as instituídas nos parâmetros políticos da atualidade.

É fundamental compreender que o Romantismo é uma reação ao Iluminismo. Não se caia no erro anacrónico de o compreender como um reduto conservador na modernidade. Porque, como a história mostra, este movimento Contra-Iluminista surge após o Iluminismo e não em simultâneo ao mesmo. Ou seja, o Romantismo é aparentemente uma solução conservadora, mas tem como ponto de origem a mesma desordem social e moral que despoletou o Iluminismo.

Posto isto, o Romantismo nas suas diversas vertentes, também será alvo de críticas e de insustentabilidade. Critica-se o Romantismo, entre várias coisas, por possuir uma visão sentimental; por apagar o esforço racionalista; visão que defende o retorno a um estado de natureza que nunca existiu. A consciência sentimental pode conduzir-nos, de novo, ao engano por parecer ser uma aproximação religiosa; mas desvia-se em relação à ortodoxia institucionalizada, o que representa uma não promoção da religiosidade católica tradicional. Muitos românticos procuraram o transcendente e o sobrenatural, mas faziam-no na natureza ou no passado medieval idealizado, em vez de se concentrar na doutrina católica. A exacerbação das sensações, dos sentimentos e das paixões, parece-me ser a causa direta do que hoje designamos de sentimentalismo religioso. O sentimentalismo religioso pode levar à gnose, porque se contradiz ao que o Catolicismo sustenta: a verdade revelada (Fé) deve ser compreendida pela Razão e recebida pela Vontade (adesão), e não apenas sentida. Assim, ao colocar a emoção acima da razão e da doutrina, pode levar a uma religião vaga, subjetiva e inconstante, pois os sentimentos são voláteis.

Devido à sua maior inclinação para o sentimento, o Romantismo demonstrou um impacto e uma produção artística significativamente mais expressivos do que os observados no Iluminismo. A literatura sendo desde sempre um reflexo da história, da política e da cultura é, agora, também exemplo dos ideais românticos. A ênfase exacerbada nos sentimentos, paixões e revoltas — dimensões profundamente interiorizadas no autor e nas personagens, manifestas em poesia e romances — invés de reverterem a ordem social, o Romantismo as agonizou através da subjetividade excessiva da idealização. O sucesso de autores como Goethe, Byron, Hugo, Dumas, e os nomes portugueses como Herculano, Garrett e Camilo, amplificado pela difusão em folhetins na imprensa oitocentista. O período que concebe o romance histórico serviu-se da estética para as tensões sociais da época, solidificando um novo estilo literário que dialogava com a burguesia ascendente, mas cujos temas eram essencialmente uma reação passiva ao racionalismo e ao materialismo que ela promovia.

O Romantismo Alemão defende que a Razão é uma categoria abstracta e promove a individualidade própria, movida pelo Pathos — construindo, assim, a ideia do Eu como uma pessoa única e singular. A inserção do Eu, desloca o fundamento do Eu, dando a expressão de uma singularidade, que difere do Humano categorizado pela Razão. O Romantismo é disruptivo, e defende que cada pessoa é única, e à arte compete esse modo de expressão — o Culto do Eu. Esta filosofia mais normativa foi sentida em diversas nuances em todos os países europeus. O Romantismo é a apologia para não seguir modelos, rejeitar os mestres e os modelos antigos em que a arte era descrita em regras sistematizadas. Em contraponto com a arte calculista, defende-se que, apenas, fora dos princípios clássicos é que a arte é sincera. Por isso, valorizam a arte subjetiva, confessionista e biografista; ideia apresentada pelo Romantismo, como modelo expressionista.

A arte romântica, de modo geral, procurava o Sublime e o ideal; contudo, não procurava o Belo ou refletir a Beleza do Criador. A expressão romântica contrapõe-se à compreensão de arte na filosofia aristotélico-tomista. Nesta última, Santo Tomás de Aquino entendia a beleza como expressão objetiva da Verdade e da Ordem, acessível à razão, ainda que acompanhada de prazer sensível. Para S. Aquino, uma obra é bela quando traduz essas qualidades — integridade, proporção e clareza —, pois o deleite estético (delectatio visus) é, no fundo, um prazer intelectual: aquilo que agrada aos olhos ou aos ouvidos é, na verdade, o reconhecimento da forma bem ordenada captada pelos sentidos. O Romantismo, por sua vez, transformou a beleza em reflexo da individualidade e da emoção.

O Romantismo é considerado por Albert Thibaudet como «a grande revolução literária moderna». Efetivamente, as transformações que este movimento desencadeou foram imensas: para além de ter introduzido o conceito de autor tal como é entendido na atualidade, inaugurou novos géneros literários, temáticas e formas de expressão. A sua natureza revolucionária advém, sobretudo, do facto de ter sido o primeiro movimento literário a basear-se numa linha programática, que permanece indissociável dele até aos nossos dias. O Romantismo é também revolucionário, por ser inovador na medida em que se torna “pai” de todas as outras correntes literárias do século XIX e XX como o Realismo, Modernismo, Neo-Realismo, e, de forma indireta, o Surrealismo. Portanto, é impossível ler um romance contemporâneo que não seja reflexo do Romantismo.

Este movimento está na origem da degradação moral que a literatura atravessa. Estes movimentos literários foram simultâneos, por isso torna-se difícil compreender quais os limites de atuação de cada um deles; contudo, as inovações do Romantismo foram permissivas, por exemplo, à ausência de pudor que se reflete no período naturalista ou no simbolismo com a rejeição dos valores estéticos do belo.

Recorramos ao caso português para compreender o impacto que o Romantismo teve na literatura nacional e europeia. O Romantismo em Portugal começa com o “Prefácio” Camões (1825), Garrett afirma não ter obedecido “a regras nem a princípios”, não ter consultado “Horácio nem Aristóteles” e, demarcando-se de qualquer escola literária (“não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia”), confessa ter seguido apenas “o coração e os sentimentos da natureza”. Importante, esclarecer que a primeira festividade do centenário do nascimento deve-se aos Românticos, que percebiam o poeta como uma figura fundamental por estas razões: poeta exilado, poeta mal-amado pela pátria e poeta incompreendido.

Estas duas citações que apresentam são um ótimo exemplo do que os poetas românticos se consideram e se propõem a fazer:

“A poesia, como tem sido dito, difere, neste respeito da lógica, na medida em que não está sujeita ao controlo das forças activas do espírito, e em que o seu nascimento e recorrência não possuem uma conexão necessária com o consciente e a vontade.” (p.79)

Os poetas são os hierofantes de uma inspiração inapreendida; os espelhos das gigantescas sombras que a futuridade lança sobre o presente; as palavras que exprimem o que não compreendem; as trombetas que conduzem à batalha e não sentem o que inspiram; a influência que não é movida, mas move.

Os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo.

Shelley, A Defesa da Poesia. Prefácio, tradução e notas de J.Monteiro-Grillo. Lisboa,  Guimarães Editores. 1986

Se, por um lado, na primeira citação faz a apologia do involuntário, porque imposta a espontaneidade, a arte será mais autêntica e terá mais valor. Mas o que me parece mais gravoso é que esta negação de que a produção poética é fruto da inspiração divina — como poderia dizer S. Tomás, o bom senso estético deve ser inspirado pelo Espírito Santo — contudo, aqui o poeta diz que a própria inspiração é ele; então torna-se ele o próprio Deus. Esta afirmação deverá ser inconcebível em um ambiente católico; mais uma justificação para não se considerar o Romantismo uma verdadeira Contra-Revolução tradicionalista.

Por outro lado, na segunda referência reafirma-se a importância da poesia como um “bem” e do poeta como expansor do conhecimento do mundo; de algum modo, reescreve a cidade de Platão e coloca os poetas como o centro dessa cidade ideal.

Alexandre Herculano — historiador conhecido pelas suas interpretações históricas que conduziram ao erro tantas gerações — publica, em 1837, um ensaio para refletir sobre a relação do poeta/artista com a história e com o seu tempo:

O poeta, como o artífice ou filósofo, é levado pelas opiniões e costumes do século; porém do âmago dos seus cantos há sempre um ou muitos pensamentos perpétuos e imutáveis: a tradição dos princípios morais que não flutuam, das ideias santas que devem estar gravadas no espírito de todos aqueles que têm pátria, família e deus, está confiada às almas dos poetas.

Alexandre Herculano, “Poesia”, in O Panorama, vol. I, no8, 1837

Através desta citação pode-se compreender que o Romantismo assumiu um papel central na invenção e consolidação da ideia de Nação, especialmente após a fratura do poder régio imposta pela Revolução Francesa e o consequente abandono do antigo modo orgânico de construção dos reinos. Nesse novo contexto, o movimento dedicou-se a forjar uma identidade do “Eu” em paralelo com a criação de uma “alma nacional”. Os poetas e a literatura não eram vistos meramente como veículos de expressão individual, mas sim como os guardiões e tradutores do sentir e da história da nação; eram eles que viam “mais além” e representavam esse espírito coletivo. Essa narrativa levou a uma incessante indagação da alma portuguesa através da sua própria história literária. A redescoberta e exaltação da Idade Média — e de manifestações culturais espontâneas como a literatura oral— serviram para fundamentar essa identidade em raízes históricas. Para os autores românticos, a arte deve atuar sobre a história, porque se os poetas encarnam a ideia de “bem”, então, pede-se à Arte uma ideia social e de perpetuidade.

Esta concepção de poesia que Herculano apresenta como “poesia histórica” coloca-nos em oposição ao pensamento clássico de Aristóteles. Na Poética, estabelece a superioridade da Poesia sobre a História ao argumentar que a Poesia trata do universal e do que poderia ter acontecido, focando nas verdades sobre a natureza humana e nas contingências da vida, enquanto a História se restringe ao particular e ao que realmente aconteceu. A função da poesia é revelar verdades universais sobre as ações humanas, tornando-a, por lidar com o que poderia ser, mais filosófica e significativa do que o relato factual da História.

Em suma, os românticos estavam conscientes das transformações que queriam exercer na sociedade e da ruptura que queriam provocar nas concepções literárias da Antiguidade. De tal modo, Almeida Garrett, liberal assumido, faz uso do prólogo na obra Viagens na Minha Terra para se afirmar enquanto autor, por isso compara a escrita à sua forma de luta e legitima-se para guiar os seus leitores. Portanto, a literatura deixa de ser a habilidade de fazer bem poesia, para ser um meio condutor e formador, até, de pensamentos políticos, que como se viu muito distantes dos valores virtuosos programados pela Santa Madre Igreja.

Por diversos fatores, o género do Romance apenas toma dimensões mais explícitas no século XIX, nomeadamente, fruto da literatura romântica. Contudo, João Gaspar Simões (1903 – 1987) — considerado o primeiro grande crítico da nossa história literária — procurou no seu livro História do Romance Português (1967) demonstrar a antiguidade da formação de um género (o romance) em que fomos precursores. Apresenta uma antologia de textos conhecidos, outros nem tanto e alguns completamente desconhecidos e discorre sobre eles, para compreender as suas origens e influências na literatura romanesca. Na introdução da mesma obra, alerta-nos que o romance e a ficção ainda têm algumas áreas cinzentas e, para tentar definir o que é o romance, tenta também explicar o que é o conto e a novela. O romance era exigente porque o autor necessitava de se focar no presente e na realidade ao invés da poesia que se focava no espírito e no místico. Este processo foi gradual e precisava de algum engenho e mestria dos prosadores e romancistas. Todavia, não é fácil entender qual será a origem da literatura de ficção; pensa-se que terá origem em parábolas, fábulas, contos e outras formas transmitidas por via oral, especialmente, com um intuito moral, sejam essas temáticas já descritas na Idade Média ou, ainda mesmo, na segunda do século XIV com «Contos e Histórias de Proveito e Exemplo», de Gonçalo Fernandes Trancoso ou os exemplos dos variados romances pastoris.

Com a seguinte afirmação, João Gaspar Simões sustenta que o conto é o princípio de todo o romance:

O conto está, pois, na origem de toda a literatura de ficção dos tempos modernos. Eis porque se torna muito difícil conceber o romance em moldes que excluam da sua estrutura esse elemento característico da célula originária: a história, a fábula, a narração, numa palavra a intriga, elemento crítico em bases reais a partir do século XIV, e de então para cá parte integrante de toda a literatura novelística.

Seria essa a prática corrente da Idade Média, uma vez que na versão portuguesa da Demanda do Santo Graal, pode ler-se algumas passagens como: “ora, diz o conto que quando Galaaz”, que exemplificam a preponderância do conto na narrativa medieval.

Recomendo a leitura desta obra, porque me parece ser bastante instrutiva do trabalho, beleza e genialidade que muitos autores portugueses tiveram nas suas produções literárias. João Gaspar Simões, no presente livro. Apresenta a prosa narrativa da Idade Média, com a literatura arturiana- refere os livros de cavalarias e outros livros discutindo o seu conteúdo literário- menciona, ainda, o início da preocupação artística e sentimental do medieval-tardio e dos inícios do século XVI.

O ponto de conclusão que me parece essencial, e para quem tem apreço pela literatura, é que se compreenda que desde a fundação da nossa língua, pode-se considerar que existe literatura, com uma progressiva mestria literária e estética. Estes poetas e prosadores medievais e quinhentistas não devem ficar ofuscados e desconhecidos em detrimento das produções do Romantismo; inclusive, estes muito lhes devem.

The Rise of Post-2010 Hardcore Woke Culture

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The Rise of Post-2010 Hardcore Woke Culture — Radical Egalitarianism, Institutional Capture, and the Logic of Self-Destruction

Abstract

This article examines the rise of post-2010 “hardcore woke culture” in Western media, academia, and cultural institutions, despite its limited popular support. It argues that this phenomenon is best understood not as a novel ideological development, but as a contemporary manifestation of a recurring historical pattern: radical egalitarianism pursued as a total moral project. Drawing on Freudian psychoanalysis, particularly the concept of the death drive, and on historical parallels ranging from the French Revolution to twentieth-century totalitarian movements, the article contends that hardcore woke culture exhibits an autophagic dynamic in which escalating demands for ideological purity lead to internal fragmentation and self-destruction. The analysis integrates institutional, technological, generational, and psychological factors to explain both the movement’s rapid ascent and its inherent instability.

1. Introduction

Since approximately 2010, a highly moralized form of identity-based politics—often described as hardcore woke culture—has achieved disproportionate influence within Western universities, media organizations, and cultural institutions. This influence is striking given the absence of sustained majority support and the growing evidence of public fatigue or resistance.

Rather than treating this development as a unique product of contemporary politics, this article situates it within a longer historical and philosophical tradition. It argues that hardcore woke culture represents a modern iteration of radical egalitarian movements that seek to eliminate distinctions, hierarchies, and normative boundaries, and that repeatedly collapse under the weight of their own internal logic.

2. Theoretical Framework: The Death Drive and Radical Egalitarianism

Sigmund Freud’s concept of the Todestrieb (death drive), articulated in Beyond the Pleasure Principle (1920), provides a useful interpretive lens. Freud proposed that alongside life-preserving instincts exists an unconscious drive toward repetition, dissolution, and a return to an inorganic state. In Civilization and Its Discontents (1930), he extended this insight to culture itself, arguing that civilization perpetually struggles to restrain destructive impulses it cannot eliminate.

Applied to political movements, the death drive helps explain why projects oriented toward absolute equality and moral purity often devolve into internal destruction. The attempt to abolish all distinctions—social, symbolic, biological, or epistemic—requires ever-expanding mechanisms of enforcement. As distinctions multiply rather than disappear, ideological systems respond with increasing aggression toward internal deviation.

Hardcore woke culture reflects this pattern. Its escalating rejection of stable categories (such as sex, merit, or universal legal norms) does not produce social harmony, but rather intensifies moral policing and internal fragmentation.

3. Historical Precedents of Self-Destructive Egalitarianism

The French Revolution remains the paradigmatic example of egalitarian ideals turning inward. As François Furet demonstrated, revolutionary legitimacy increasingly depended on moral purity, culminating in the Jacobin Reign of Terror, where the category of “enemy” expanded until it consumed the revolution’s own leaders.

Earlier and later examples reveal similar dynamics. In classical Athens, ostracism—intended as a safeguard against tyranny—often resulted in the exile of capable leaders, weakening institutional stability (Ober). In the Roman Republic, radical populist challenges to aristocratic hierarchy contributed to cycles of violence that ultimately destroyed republican governance (Syme).

Religious history offers comparable cases. The Zealots of first-century Judea pursued ideological purification through uncompromising fanaticism, provoking catastrophic defeat and internal collapse (Goodman). Across contexts, movements that elevate equality or purity into absolute moral imperatives tend toward self-annihilation.

4. Institutional Capture in the Contemporary Context

The post-2010 dominance of woke ideology was facilitated by institutional capture, particularly within universities. Over several decades, segments of the humanities and social sciences adopted theoretical frameworks centered on systemic oppression, identity, and power. Once embedded institutionally, these frameworks were reinforced through hiring practices, funding structures, and reputational incentives.

As Pluckrose and Lindsay document, approaches once marginal became normative, narrowing the range of acceptable inquiry and marginalizing dissent. This institutionalization transformed activist discourse into bureaucratic orthodoxy, amplifying its influence beyond its original constituency.

5. Social Media and the Dynamics of Moral Escalation

Social media platforms intensified these tendencies by rewarding visibility, denunciation, and moral signaling. Digital environments encourage escalating performances of ideological commitment, while punishing deviation through public shaming and professional exclusion.

Research on echo chambers and filter bubbles demonstrates how these systems suppress corrective feedback and reinforce moral absolutism (Nguyen; Pariser). The result is a self-referential ideological ecosystem characterized by perpetual purification rituals and declining tolerance for ambiguity.

6. Generational Receptivity

Millennials and Gen Z proved especially receptive to hardcore woke ideology due to a convergence of structural factors: economic disillusionment following the 2008 financial crisis (Sandel), formative socialization within digital environments (Twenge), and the rise of “safetyism,” which prioritizes emotional protection over resilience (Haidt & Lukianoff).

These conditions fostered binary moral frameworks and heightened sensitivity to symbolic harm, making absolutist ideological narratives particularly appealing.

7. The Autophagic Trajectory

Historically, radical egalitarian movements tend to undermine the very conditions that sustain them. From Stalinist purges to China’s Cultural Revolution, ideological systems that demand absolute conformity inevitably turn inward, consuming their own supporters (Conquest; Dikötter).

Hannah Arendt observed that totalizing ideologies erase the pluralism necessary for political life to persist. Hardcore woke culture exhibits the same autophagic logic: escalating standards of purity lead to fragmentation, loss of legitimacy, and institutional decay.

8. Conclusion

The rise of post-2010 hardcore woke culture is best understood as a contemporary manifestation of a recurring historical pattern rather than a novel ideological breakthrough. Enabled by institutional capture, amplified by digital media, and reinforced by generational dislocation, it embodies a form of radical egalitarianism whose internal logic tends toward self-destruction.

Viewed through psychoanalytic and historical perspectives, the movement’s escalating rejection of distinction and hierarchy points not toward durable emancipation, but toward instability and collapse. As with earlier egalitarian absolutisms, its ultimate legacy may be the erosion of the very cultural and institutional foundations upon which it depends.

References

Arendt, H. (1951). The Origins of Totalitarianism. Harcourt, Brace & Company.
Conquest, R. (1990). The Great Terror: A Reassessment. Oxford University Press.
Dikötter, F. (2010). Mao’s Great Famine. Walker & Company.
Freud, S. (1920). Beyond the Pleasure Principle. Internationaler Psychoanalytischer Verlag.
Freud, S. (1930). Civilization and Its Discontents. Internationaler Psychoanalytischer Verlag.
Furet, F. (1981). Interpreting the French Revolution. Cambridge University Press.
Goodman, M. (2007). Rome and Jerusalem. Penguin Books.
Haidt, J., & Lukianoff, G. (2018). The Coddling of the American Mind. Penguin Press.
Nguyen, C. T. (2020). “Echo Chambers and Epistemic Bubbles.” Episteme, 17(2), 141–161.
Ober, J. (1989). Mass and Elite in Democratic Athens. Princeton University Press.
Pariser, E. (2011). The Filter Bubble. Penguin Press.
Pluckrose, H., & Lindsay, J. (2020). Cynical Theories. Pitchstone Publishing.
Sandel, M. (2020). The Tyranny of Merit. Farrar, Straus and Giroux.
Syme, R. (1939). The Roman Revolution. Oxford University Press.
Twenge, J. (2017). iGen. Atria Books.

Quem financia o transativismo?

Francisca Silva Zacarias Novembro 2025

Antes de começar a expor este monstro cheio de tentáculos que alcançam todos os campos da sociedade, há uma coisa que tem de ficar bem clara: não vamos falar de pessoas trans. Vamos falar de poder e engenharia social. Vamos seguir o rasto do dinheiro e descobrir quem são as fundações, as corporações, as ONGs, os departamentos governamentais e as indústrias que transformaram o transativismo num dos lobbies mais bem financiados do mundo ocidental.

Primeiro, um pouco de história. O ponto de partida é a ideologia. O transativismo nasce dentro dos departamentos de estudos de género nos anos 80 e 90, em universidades norte-americanas, quando um grupo de (pseudo) intelectuais começou a sistematizar a Teoria Queer. A teoria parte de premissas surreais: o sexo biológico é uma construção social e o género é fluido e autodeterminado.

Judith Butler torna-se a figura central do movimento ao afirmar que género não é algo que se é, mas algo que se representa, como se toda a identidade humana fosse uma peça de teatro. A ideia espalha-se depressa porque funciona como arma académica contra qualquer concepção de natureza humana estável. O objetivo declarado é explícito – desconstruir categorias elementares como “homem”, “mulher”, “família”, “normalidade” e até a própria noção de verdade.

Mas porquê? Porque a Teoria Queer nasce da fusão entre o pós-estruturalismo francês e o marxismo cultural, ambos baseados na ideia de que a raiz da opressão é a própria estrutura da civilização ocidental. E, portanto, essa estrutura deve ser destruída.

O salto para o lobby acontece quando o dinheiro começa a entrar em força, entre 2000 e 2015, vindo de várias fundações privadas bilionárias. Este investimento massivo muda o terreno por completo: ativistas deixam de ser voluntários e tornam-se profissionais; as ONGs expandem-se, criam departamentos trans, contratam advogados, especialistas em comunicação e equipas de lobby; produzem

relatórios que mais tarde a ONU e a União Europeia citam como se fossem documentos neutros. É aqui que o transativismo deixa de ser apenas ideologia e passa a ser um lobby financeiro com poder institucional real.

É precisamente esta máquina financiada que torna possível a viragem internacional. Os Princípios de Yogyakarta (2006/2017) — documento elaborado por um grupo de ativistas LGBT numa reunião privada — só ganham força porque já existe uma rede de ONGs, fundações e “especialistas” com acesso direto à ONU. E são estes princípios que permitem inserir o conceito de “identidade de género” como categoria jurídica global. Depois deste documento, apoiado por instituições como a Human Rights Watch e a Amnesty International, qualquer ONG consegue pressionar governos dizendo: “Isto são direitos humanos. Tens de cumprir.” E nenhum político quer ser acusado de violar direitos humanos. Assim, a ideologia foi penetrando no sistema jurídico, não de forma legítima, mas através de chantagem moral.

A partir de 2015 temos a consolidação final: saúde, educação, media e tecnologia alinham-se em bloco. Na saúde, temos a WPATH – a Associação Profissional Mundial para a Saúde Transgénero – que se impõe como autoridade global. É esta associação que publica as normas que determinam a orientação médica mundial.

Na educação, os Estudos de Género descem das universidades para escolas, manuais e formação docente, quando ONGs financiadas pela União Europeia produzem materiais obrigatórios — como por exemplo, o Guião de Boas Práticas para a

Promoção dos Direitos e Proteção de Crianças e Jovens LGBTI+, que orienta os técnicos escolares a esconder questões relacionadas com a sexualidade dos alunos das suas próprias famílias, ou os Cadernos PRESSE, que funcionam como veículos de engenharia comportamental, introduzindo nas escolas uma visão normativa sobre sexualidade, identidade e relações afetivas alinhada com a agenda transativista.

Nos media, surgem códigos de conduta para jornalistas (como o AP Stylebook, as diretrizes da ILGA, ou as orientações da Trans Journalists Association) que definem palavras e expressões permitidas e proibidas, enquanto redes sociais censuram críticas ao transativismo.

O resultado desta convergência é o seguinte: o transativismo é um lobby poderoso porque tem uma ideologia académica, muito dinheiro a entrar, uma suposta base jurídica internacional, e controlo efetivo sobre saúde, educação, media e tecnologia.

Não é uma evolução espontânea de um movimento social; é uma construção planeada que juntou influência intelectual, financiamento e poder institucional.

O Ecossistema Operacional

Feito o panorama, olhemos para o ecossistema operacional do transativismo. Porque, antes de mostrarmos quem financia, temos de mostrar quem é financiado, e como esse financiamento transformou um documento não-vinculativo — os Princípios de Yogyakarta — numa referência política usada por governos e instituições internacionais. Vamos por partes:

A ILGA é a federação global que coordena a linguagem, as recomendações e a pressão diplomática. Tem estatuto consultivo na ONU e leva Yogyakarta para dentro dos relatórios e mecanismos formais. A sua função prática é dar legitimidade institucional e produzir o vocabulário que os governos acabam por repetir.

Depois temos a ARC international, que faz o trabalho técnico que quase ninguém conhece. É quem pega nos Princípios de Yogyakarta e os transforma em guias, manuais e estratégias para serem usados em lobby dentro dos países. A sua função prática é fazer a ponte entre ativistas e o sistema ONU. É, no fundo, quem “traduz” Yogyakarta em ferramentas de atuação política.

Depois temos a GATE, que faz submissões formais a relatores, comités e ao Conselho de Direitos Humanos. É especializada na agenda de identidade de género. A sua função prática é empurrar diretamente para dentro da ONU as exigências alinhadas com Yogyakarta. Funciona como o canal militante-institucional mais ativo nesta área.

Seguindo, temos a OutRight International, que está inserida no ECOSOC – o Conselho Económico e Social das Nações Unidas. Portanto, participa em sessões, entrega declarações, e produz documentos que entram oficialmente no circuito da ONU. A sua função prática é dar “respeitabilidade” global às mesmas ideias. Repete Yogyakarta como se fosse consenso jurídico internacional.

Continuando, temos também a TGEU – Transgender Europ – que liga todo o ecossistema aos “dados”. A TGEU tem um programa chamado Trans Murder Monitoring, cujos relatórios são usados para justificar políticas urgentes. Porém, há um problema crítico: os números que aparecem nesses relatórios misturam categorias:

  • homicídios de pessoas trans,
  • homicídios de homens que fazem prostituição travestidos,
  • conflitos criminais,
  • mortes não confirmadas como crimes de ódio.

Além disso, muitos dos países com números mais altos têm registos policiais fracos, o que torna os dados ainda menos fiáveis. Mesmo assim, os media e organismos internacionais tratam estas estatísticas como factos científicos. Então a função da TGEU é fornecer os dados que alimentam os relatórios da ONU, governos e imprensa.

Temos depois a Human Rights Watch, que funciona como legitimadora através de relatórios porque incorpora Yogyakarta nas suas análises de direitos humanos. A sua função prática é produzir relatórios extensos que depois são citados pela ONU,

media e parlamentos. A HRW transforma uma agenda ativista em “evidência investigativa”.

Temos também a Amnesty International, que adota a lógica de Yogyakarta em campanhas, relatórios e pressões parlamentares. A função prática é fazer pressão direta sobre legisladores, criando a impressão de consenso ético e moral em torno da autodeterminação.

Finalmente, temos a WPATH, que publica as Standards of Care, ou SOC, que incorporam a lógica de autodeterminação de Yogyakarta, e muitos governos tratam como referência médica neutra. Mas aqui há um problema grave. Recentemente, esta organização foi desmascarada com os WPATH Files, que mostram membros a admitir, em sessões internas, que não há evidência robusta e que as decisões são movidas mais por ativismo do que por ciência. Mesmo assim, as políticas públicas citam a WPATH como se fosse uma autoridade médica imparcial. A função prática é

dar o verniz clínico à agenda. Transforma o que era uma reivindicação política em suposto “consenso médico”.

Estas organizações não trabalham isoladas.

Funcionam como partes de uma máquina: a ILGA cria a linguagem; a ARC cria as ferramentas técnicas; a GATE leva para dentro da ONU; a OutRight dá o selo institucional; a Human Rights Watch fornece investigação com aparência de neutralidade; a Amnesty International cria pressão moral e política; a TGEU fornece os números para justificar urgência; e a WPATH fornece a autoridade médica.

E com isto, um documento não vinculativo, criado por ativistas em Yogyakarta, passa a ser tratado como se fosse uma norma internacional obrigatória. Mas isto só acontece porque existe financiamento constante para manter este ecossistema a funcionar — o que veremos a seguir.

O modelo internacional

Quando falamos do financiamento do transativismo, não estamos a falar de milhares de entidades dispersas. Estamos a falar de um ecossistema concentrado, previsível e fácil de mapear. Ele funciona com três motores e uma escada de influência que transforma dinheiro em políticas públicas.

Primeiro motor: o motor biográfico. Aqui encontramos indivíduos cujo envolvimento nasce da sua própria história. Temos por exemplo Jon Stryker, que é um homossexual multimilionário que cresceu numa família conservadora e religiosa. A tensão entre a sua identidade e o ambiente em que cresceu marcou-o profundamente. Por isso, criou a Arcus Foundation, como uma forma de transformar esse conflito em missão pública: financiar causas LGBT. No fundo, é uma tentativa de correção de uma sociedade que ele vê como opressora.

O mesmo padrão surge com Tim Gill da Gill Foundation. Também homossexual, fez fortuna no sector tecnológico e decidiu usá-la para mudar o ambiente cultural e jurídico dos Estados Unidos. Estes são o ponto de partida.

Segundo motor: o motor ideológico. Aqui entram as grandes fundações progressistas que dominam a filantropia global. Ford Foundation. Open Society Foundations. MacArthur. Rockefeller.

Estas não atuam por identidade, mas por visão política. Ou seja, para elas, o transativismo é apenas uma peça de uma estratégia mais ampla de engenharia social. São estas fundações que escalam, institucionalizam e multiplicam.

Terceiro motor: o motor institucional. É aqui que as agendas passam a ser normas oficiais. A ONU e as suas agências criam recomendações e relatórios que depois servem de base para leis nacionais. A OMS redefine diagnósticos, categorias médicas e orientações de saúde. Quando a OMS muda uma classificação, os ministérios da saúde seguem. A União Europeia integra estas agendas em diretivas, regulamentos e fundos comunitários. Quem quer financiamento europeu tem de alinhar.

Agora, a escada de influência que mostra o percurso do dinheiro:

O primeiro nível é composto pelas grandes fundações: Open Society, Ford, Arcus e Gill. O segundo nível são as organizações globais que recebem esses fundos: ILGA, GATE, WPATH, etc. O terceiro nível são as ONGs regionais, por exemplo,

ILGA-Europe e TGEU. Estas entidades funcionam como centrais de difusão dos fundos. Recebem milhões vindos das fundações e das ONGs globais, e depois distribuem para dezenas de organizações nacionais. O quarto nível são as ONGs nacionais. Aqui é onde o dinheiro começa a tocar o terreno. São associações com sede nos países, que recebem os fundos das estruturas europeias e globais. Essas organizações usam esse dinheiro para campanhas políticas, formação de professores, lobby legislativo, produção de materiais educativos, eventos, apoio jurídico e pressão cultural. O quinto nível é o ativismo local. É aqui que o dinheiro se converte em ações concretas: palestras em escolas, campanhas na comunicação social, materiais impressos, projetos comunitários, influenciadores patrocinados, conferências, manifestações e pressões estruturadas sobre decisores políticos.

Portanto, o percurso do dinheiro é linear: fundações privadas financiam ONGs globais; estas redistribuem para estruturas regionais; estas apoiam ONGs nacionais; e estas transformam dinheiro em ativismo no terreno. É um projeto do topo para a base, não da base para o topo.

A minha análise é que o transativismo não é um fim. É um instrumento. Faz parte de um projeto maior de remodelar a antropologia humana, de redefinir normas sociais, de dissolver estruturas tradicionais e de produzir uma nova visão oficial do que é o ser humano.

Quem financia o transativismo em Portugal?

Como expliquei atrás, grande parte do financiamento global da agenda trans nasce em grandes fundações privadas e desce por ONGs até ao ativismo local. Mas em Portugal isso não acontece. Então… quem paga?

Em Portugal, a esmagadora maioria do financiamento ligado ao transativismo vem… do dinheiro público. Sim, leu bem. O transativismo em Portugal é propaganda estatal. E como funciona?

Começa pela CIG — a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. A CIG é um organismo público, dependente do Ministério da Presidência e vive do Orçamento do Estado. É ela que aprova, financia e supervisiona projetos diretamente ligados à identidade de género.

Depois há os EEA Grants, que são fundos que vêm da Noruega, Islândia e Liechtenstein, mas a gestão fica a cargo da CIG. Ou seja, o Estado define prioridades, abre concursos e escolhe quem recebe.

Na prática, estes fundos funcionam como um prolongamento do financiamento estatal, com a mesma linha ideológica.

Por fim, entra também, é claro, a União Europeia. Os programas europeus de “igualdade” e “não-discriminação” financiam iniciativas em Portugal através de candidaturas das ONGs, sempre dentro da moldura ideológica definida pelo Estado e pelas diretivas europeias.

Resumindo: o dinheiro público financia. As ONGs executam. E o contribuinte paga a propaganda que depois o próprio Estado lhe impõe.

Isto explica porque é que, em face de inúmeras queixas de telespectadores em relação ao desenho animado “Sex Symbols”, que veiculava ideologia de género, a provedora da RTP deu a seguinte resposta:

“Consensualmente não o consideramos como ideológico, não tratando os temas de forma posicional ou opinativa. Informa e é inclusivo, sendo o seu único propósito a integração.”

Convido o leitor a refletir seriamente sobre estas questões, e convoco-o a assinar a petição pública Pelo Fim da Ideologia de Género nas Instituições e Pela Revogação da Lei 15/2024 no link a seguir:

https://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT128650

Sobre as Baixas Médicas no Mercado Laboral Português

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“ImBestigação” da Cooperativa: a primeira coisa que salta do gráfico acima é simples: 805.538 pessoas meteram baixa num ano. Isto representa uma fatia enorme da população ativa empregada. Isto, por si só, explica metade dos problemas de produtividade nacionais sem necessidade de grandes teorias económicas, não se produz quando não se trabalha.

Depois, a divisão por género torna tudo ainda mais claro. As mulheres representam 58,72% das baixas, contra 41,28% dos homens. Ou seja, são responsáveis pela maioria esmagadora das faltas justificadas por doença. E isto não é uma sensação, não é perceção social, é objetivo.

Quando analisamos por escalão etário, o padrão mantém-se em praticamente todos os grupos. As mulheres faltam sempre mais. De 20 aos 29, de 30 aos 39, de 40 aos 49, o mesmo comportamento. Isto significa que o fenómeno não é circunstancial nem geracional. É estrutural e repetitivo.

Se associarmos isto ao argumento do gender pay gap, a coisa muda de figura.

É impossível discutir diferenças salariais sem incluir a variável da taxa de absentismo por género. Um trabalhador que falta mais produz menos. Um trabalhador que produz menos tem, naturalmente, menor retorno económico para o empregador. E o mercado ajusta salários de acordo com isto.

Não é machismo. Não é patriarcado. É matemática elementar.

Quando se acusa empresas de preferirem homens no recrutamento ou de pagarem mais aos homens em média, é preciso olhar para estes números com honestidade. Um empregador prefere quem falta menos. E quem falta menos, segundo os dados, são os homens.

O que este quadro mostra, preto no branco, é isto! Portugal tem um absentismo gigantesco, mais de 800 mil pessoas em baixa num ano é um problema económico sério.

As mulheres faltam substancialmente mais do que os homens, de forma transversal a todas as idades. As análises salariais que comparam as remunerações entre homens e mulheres não contam com este dado, mas na verdade, ao longo do ano, as mulheres trabalham muito menos horas do que os homens, devido ao seu absentismo, parte dele, relacionado com doença.

Isto tem impacto direto em produtividade, previsibilidade e custo salarial.

Logo, é impossível discutir o gender pay gap ignorando estes dados.

A desigualdade salarial não vive isolada num vácuo ideológico. Vive na realidade do dia a dia, quem está mais presente tende a ganhar mais; quem falta mais, tende a ganhar menos.

São estes dados que um país sério analisaria antes de fazer leis, campanhas ou moralismos.

🧵 Quando olhamos para o gráfico das prestações de assistência a filho, a primeira evidência é brutal, mais de 215 mil baixas num único ano apenas porque crianças ficaram doentes. Só este número já mostra o peso que a parentalidade tem no absentismo nacional. Mas o verdadeiro choque está na divisão por género: 80,82% das baixas são tomadas por mulheres, apenas 19,18% por homens. Quatro em cada cinco faltas são da mãe. Isto destrói, de forma objetiva, a ideia de que no cuidado aos filhos existe igualdade de responsabilidades. Em Portugal, quando uma criança espirra, quem falta é a mãe.

Este é o comportamento da nossa sociedade. Tem um preço.

Depois, quando olhamos para os escalões etários, a assimetria torna-se ainda mais evidente. Nas idades críticas da carreira, entre os 30 e os 49 anos, as mulheres chegam a faltar três a quatro vezes mais do que os homens por motivos familiares. Se somarmos isto às baixas por doença própria, onde as mulheres também são a maioria, percebemos que elas acumulam um volume anual de ausências incomparavelmente superior. Esta é uma variável estrutural que não pode ser ignorada quando se discute salários ou progressão.

As empresas não funcionam com ideologia, funcionam com previsibilidade. Quem falta mais, progride menos. Quem progride menos, ganha menos. Não é discriminação, não é patriarcado, é consequência direta de menos horas efetivas de trabalho. A economia não valora o homem; valora a produtividade. E os números mostram que os homens estão mais presentes, não porque trabalhem mais, mas porque faltam menos, tanto por doença própria como por doença dos filhos. Logo, serão mais produtivos.

Quando juntamos tudo, baixas por doença própria e baixas por assistência a filhos, concluímos que a diferença salarial média entre homens e mulheres não pode ser analisada só pelo prisma ideológico. É preciso olhar para o impacto real do absentismo. A cultura portuguesa coloca quase toda a carga do cuidado infantil nas mulheres. E enquanto esse padrão se mantiver, enquanto a primeira pergunta numa casa for “Mãe, posso faltar à escola?” e não “Pai, podes ficar comigo?”, os números vão repetir-se ano após ano.

Não é confortável dizer isto, mas é factual, o mercado não está a penalizar mulheres, está a reagir ao comportamento agregado da sociedade. E enquanto a divisão cultural do cuidado não mudar, a aritmética vai continuar a ser implacável.

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🧵Quando analisamos o gráfico das licenças de parentalidade, a primeira impressão até parece promissora: o número total de beneficiários está dividido de forma relativamente equilibrada, 50,98% mulheres e 49,02% homens. À superfície, isto daria a ilusão de que homens e mulheres tiram licenças de parentalidade de forma semelhante e que, portanto, o impacto no mercado de trabalho seria partilhado. Mas isso é só a superfície. Basta olhar para o escalão dos valores pagos para perceber que a história real não tem nada de equilibrado.

No escalão mais elevado, 2501 euros ou mais de subsídio anual, a diferença é brutal: 43.771 mulheres contra apenas 18.380 homens. Não é uma diferença marginal; é um fosso. Este escalão não representa quem recebe mais, representa quem esteve mais tempo ausente, porque quanto maior o valor anual pago, maior a duração da licença. E aqui percebemos a realidade escondida:,os homens tiram licença, sim, mas tiram muito menos tempo. O número de beneficiários é quase igual, mas o custo revela a verdade que interessa: a ausência prolongada continua a ser esmagadoramente feminina.

Nas idades de maior probabilidade de parentalidade entre os 30 e os 39 anos o padrão é consistente. As mulheres têm 52.104 licenças, os homens 47.795. A diferença aqui é pequena, mas enganadora. O que acontece é simples, os homens aparecem na estatística porque tiram os seus 15 ou 20 dias, mas não tiram os 120 ou 150 dias, muito menos os 180 dias, que constituem a parte pesada e prolongada da licença. Por isso é que, quando somamos o valor anual pago, as mulheres disparam nos escalões mais altos: elas é que carregam o volume e a duração da ausência.

Ou seja:

o número de homens a tirar licença parental inicial aumentou,

mas o tempo efetivo continua esmagadoramente concentrado nas mulheres.

E isto tem impacto direto no mercado de trabalho. Uma ausência curta de 20 dias afeta, mas reorganiza-se. Uma ausência de 4 a 6 meses tem um peso completamente diferente numa equipa, numa promoção, num projeto em andamento. E como é sempre a mãe a assumir esse tempo, são elas que continuam a acumular o custo profissional da parentalidade, mesmo quando as estatísticas de beneficiários parecem equilibradas.

Para a discussão do gender pay gap, este gráfico é cirúrgico. Ele mostra que não basta contar cabeças, é preciso contar dias. E, no que toca a dias, as mulheres têm uma desvantagem acumulada que nenhum número de beneficiários esconde. O mercado reage à ausência, não à intenção. E enquanto os homens continuarem a tirar licenças curtas e as mulheres as longas, a diferença salarial média continuará a refletir isso, não como discriminação, mas como consequência direta do tempo fora do trabalho.

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Os números apresentados anteriormente assumem outra dimensão quando sabes que 54% dos trabalhadores dependentes são homens, 46%, mulheres, o que não só sustenta as análises acima, como as agrava.

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Fonte de informação: https://www.seg-social.pt/ptss/pssd/estatisticas/estatisticas-prestacoes-doenca?type=annual

Em conclusão: depois de olhar para estes números todos sem romantismos nem paninhos quentes, percebe-se que a conversa da desigualdade salarial, tal como costuma ser servida, é uma versão muito resumida e muito editada da realidade. Não é preciso ser génio da estatística para notar o padrão, as mulheres carregam praticamente todo o peso das ausências, por doença própria, pelos filhos, e mais tarde pela parentalidade prolongada. Os homens aparecem nas folhas de registo, claro, mas aparecem como figurantes.

O mercado, que tem a mesma paciência para teorias sociológicas que eu tenho para as convenções do Bloco, reage ao que vê e não ao que é suposto sentir.

Se um dos sexos está sistematicamente mais presente, mais disponível e mais previsível, é inevitável que isso tenha reflexos na progressão e no salário.

A solução não está em decretos nem quotas. Está no óbvio, os pais têm de começar a dividir o trabalho invisível e o visível, o das febres às três da manhã e o das licenças longas que partem carreiras ao meio. Quando o peso for realmente partilhado, não fingido, não ajudado, mas dividido, o mercado acabará por refletir essa mudança. Até lá, continuaremos neste exercício nacional de culpar estruturas misteriosas por resultados que nascem, afinal, dentro da casa de cada uma de nós. Se não queremos alterar, então devemos aceitar a realidade tal como ela é.

Permanece como mistério para mim porque é que as mulheres ficam mais vezes doentes do que os homens…..

Ah, sim, já me esquecia, pelo meio, e já tinha provado isso, a diferença salarial ajustada pelo número de horas trabalhadas, que deduz naturalmente as ausências não remuneradas, é praticamente inexistente.

Para eventual reflexão.

Manifesto para uma Outra Cidade

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MANIFESTO PARA UMA OUTRA CIDADE[1]

Simão Mata[2]

Depois de terminado um livro temos o dever ético de falar sobre ele. Não para nos vangloriarmos da obra produzida, mas para criarmos as condições para uma discussão que se quer profícua e enriquecedora em torno das temáticas suscitadas pela sua leitura. O sociólogo Carlos Fortuna, na apresentação da reedição da obra O Direito à Cidade de Henri Lefebvre refere que “o surgimento de um livro é sempre um ato nobre. O que a emergência de um livro acarreta – qualquer que ele seja -, a narrativa que conduz, o diálogo que suscita, o desafio cognitivo que transporta são gratas possibilidades que a sua leitura consagra enquanto ato cultural” (Fortuna, 2012, p. 5). Assim, mais do que falar do tempo que dedicamos à obra, dos desafios inerentes, do tempo de ausência dos amigos e familiares, da angústia da “página em branco”, etc., devemos, isso sim, falar sobre as implicações políticas, económicas, sociais e culturais daquilo que escrevemos.

E isto assume ainda mais importância numa cultura das redes sociais em que parece que tudo aparece e que nada existe e em que a escrita está muitas vezes banalizada ao sabor dos devaneios quotidianos de cada um, das fotos do momento, das tags e dos emojis sem fim, numa contração muito significativa dos espaços para a reflexividade, a dialética e o contraditório. O livro, enquanto objeto, num mundo que tende para o virtual, esse mundo de que muito se fala mas do qual ainda muito pouco se sabe, constitui sempre a possibilidade do encontro com o âmago da escrita na esperança de que ela potencie a discussão e o debate de ideias com vista à criação de um Mundo mais justo, plural e democrático.

Feita esta breve introdução, vou situar o que tenho para dizer em dois planos suscitados pelo livro: o da intervenção psicossocial e o da intervenção sociopolítica.

1 – INTERVENÇÃO PSICOSSOCIAL

Neste livro há uma proposta, ainda que implícita, de desterrioralizar a clínica, não só a psicológica/psicanalítica, a minha, mas todas as outras, tornando-as ambulantes pelos territórios e os lugares, procurando que a escuta das diferentes dinâmicas do sofrimento psíquico se exerça fora dos seus lugares tradicionais, entenda-se o “gabinete” ou o “consultório”. Trata-se de uma antiga preocupação minha, algo que se situa até nos meus idos tempos de estudante de psicologia: fazer uma escuta simultaneamente territorializada nos contextos de vida das pessoas e desterritorizalizada dos seus lugares de exercício habitua, o que implica também escutar indivíduos que não procuram ajuda de forma autónoma, seja por questões monetárias ou outras, levando a que essa escuta se “mova” também, num movimento centrífugo para outras zonas discursivas, mais abonatórias das dimensões subjetivas de quem nos procura em detrimento das explicações e intervenções supostamente objetivas da pessoa que a nós recorre. Entre as várias leituras que fiz sobre este domínio foi em António Lancetti, psicanalista argentino lacaniano, que encontrei consistência teórica e clínica para aquilo que vivenciava e vivencio ainda na minha prática interventiva e investigativa: “A consulta psiquiátrica, a entrevista psicológica e a visita domiciliária, os grupos terapêuticos e as oficinas de arte são recursos pobres para o atendimento de pessoas que não procuram ajuda, que não possuem cultura psi ou que se violentam de diversas formas” (Lancetti, 2008, p. 51). No campo da intervenção no fenómeno droga, faço minhas as palavras de Luís Fernandes (2005, p. 80): “Enquanto insistíamos na mesma resposta clínica os territórios e os actores agravavam as suas condições de vida e criavam, em pleno coração da malha urbana, situações de degradação absurdas em países que se dizem desenvolvidos”.

Mas para que essa escuta ambulante se operacionalize temos que abandonar, em definitivo, a nossa posição de poder na relação terapêutica, que nos destituamos, portanto, do “discurso universitário” e do “discurso do mestre” para usar terminologia lacaniana. Ou, citando Franco Basaglia, que suspendamos a violência que se exerce ainda “por aqueles que empunham a faca contra os que se encontram sob a sua lâmina” (Basaglia, 2001/1968, p. 101). Importa, contudo, que não sejamos ingénuos nesta matéria pois adiantará muito pouco procurarmos uma vocação ecológica para as nossas intervenções se depois somos contaminados por discursos bafientos de como os sujeitos devem ser, se devem comportar ou pensar, numa busca incessante por organizações prototípicas em torno do indivíduo “normal”, adaptado, submisso e útil. É urgente, portanto, que a intervenção psicossocial com populações excluídas e marginalizadas da Cidade escute e valorize os saberes tradicionais das comunidades, esses saberes subjugados quer pela força da História quer pela ideologia científica dominante, esses saberes que Michel Foucault na sua aula de 7 de janeiro de 1976 designou como: “toda uma série de saberes que estão desqualificados, como saberes não conceptuais, como saberes insignificantemente elaborados: saberes inocentes, saberes hierarquicamente inferiores, saberes abaixo do nível do conhecimento ou do cientificamente exigido” (Foucault, 1976, pp. 21-22).

O livro que aqui se apresenta hoje fala de alguns indivíduos, os atores da revisitação, a quem dedico a obra, aliás, que não tiveram a sorte de nascer na cidade de todos nós, nesta onde estamos a falar agora, por exemplo. Foram, portanto, homens que não tiveram tempo de ser meninos, tal como referiu Soeiro Pereira Gomes em Os Esteiros, obra de 1941. Muitos morreram cedo, na casa dos 50-60 anos, e numa situação de saúde física e mental bastante grave. Mas os meus achados etnográficos mostram que as suas adicções, afinal o tão badalado “problema principal” destes sujeitos, não foram o principal fator explicativo para as suas mortes precoces, quanto muito aceleraram os processos de marginalização económica, social, cultural e sanitária das suas vidas já precárias. Além disso, a passagem destes indivíduos por instituições terapêuticas – para recuperarem – e pela prisão – para se ressocializarem – funcionou mais para agravar as suas situações de pobreza e exclusão do que para ajudar a sair delas. Falo de um conceito que podem encontrar no livro, o conceito de mortificação, isto é, de como as práticas institucionais, consciente ou inconscientemente, individuais ou coletivas, ao estarem centradas nas lógicas internas dos seus funcionamentos rotineiros, acabam por se afastar da vida concreta daqueles que se propõem ajudar, contribuindo para a sua morte lenta e progressiva. Deixo, então, duas questões: qual a será a verdadeira missão destas instituições? Como poderemos recriar instituições que funcionem com uma outra lógica, mais voltadas “para fora”, para os contextos e para as pessoas e menos “para dentro”, para os técnicos e dirigentes das mesmas, enfim, para o seu interior?

2 – INTERVENÇÃO SOCIOPOLÍTICA

Seria muito naive da minha parte se considerasse que a intervenção psicossocial, mesmo que se exerça nos moldes que propus anteriormente, funcionasse como a solução miraculosa ou a transformação radical para as situações de exclusão e pobreza que os profissionais da área social se deparam diariamente. Cabe, por isso, aqui, com toda a propriedade a frase que Stanley Cohen na obra Visiones de Control Social dirigiu aos assistentes sociais mas que pode, a meu ver, por extensão, ser dirigida também aos restantes profissionais da área social: “Se não fizermos nada em relação às causas originais dos problemas, estamos constantemente a resgatar corpos e a colocar remendos nas situações onde atuamos” (Cohen, 1988/1985, p. 344). Importa, portanto, dar um salto nas nossas consciências técnicas, subir uns patamares na exigência interventiva e almejar a uma dimensão sociopolítica que se impõem.

O primeiro aspeto neste domínio de intervenção diz respeito ao Direito à Cidade, no sentido que lhe deu Henri Lefebvre em finais do anos 60 do século passado. De que direito, afinal, falamos? De uma cidade onde, de um lado, temos uma cidade dos cinemas, as apresentações dos livros, a discussão dos papers, os debates culturais, intelectuais e pseudointelectuais e, do outro lado, uma outra cidade, a do “desenrascanço social” sistemático, do dia-a-dia frenético de luta pela sobrevivência e da invisibilidade constante. Diz-nos Lefebvre: “O direito à cidade não se pode conceber como um simples direito de visita ou de regresso às cidades tradicionais. Ele só pode formular-se como direito à vida urbana, transformada e renovada” (Lefebvre, 2012/1968, p. 119). Direito à cidade corresponde, portanto, ao direito à vida, à voz e à participação. Direito à Cidade passa, portanto, por reduzir as distâncias entre uma Cidade Central e Dominante, enfim, entre os que têm os recursos e os monopolizam e aqueles que apenas sobrevivem nela: o “zoé” do filósofo italiano Giorgio Agambem. Direito à Cidade passa pela exigência que todos temos que ter por políticas públicas e sociais que respeitem a dignidade das pessoas, que potenciem a construção da sua cidadania ativa e participativa. Torna-se importante, pois, resgatar o “bios” nas populações periferizadas – ainda inspirando-me em Agambem… – da sua participação efetiva na vida da Pólis, resgatando os conteúdos urbanos recalcados pela moral civilizatória que tende a triunfar sobre os mais desfavorecidos e desprotegidos do tecido social.

“Atores do na idade da pedra” fala de uma cidade que existe no interior de outra mas que com esta pouco ou nada comunica. É o tal “fechamento urbano” que podem ler no livro, na secção dos resultados. Podem ser levantadas várias razões para este aspeto, para este divórcio entre duas cidades, digamos assim, umas de natureza mais psicológica, outras sociológicas e outras ainda que se relacionam com a geografia do próprio território. Mas, quanto a mim, que desde 2009 vou conhecendo estas vidas e contextos e frequentando outros lugares entretanto, quer do meio académico, intelectual, do próprio poder económico, das classes médias e abastadas, sinto consolação nas palavras de Engels quando após ter estudado a vida do proletariado inglês do século XIX referiu: “Ao mesmo tempo, graças às possibilidades que tive de observar a classe média, vossa adversária, rapidamente conclui que tendes razão, inteira razão, em não esperar dela qualquer ajuda. Seus interesses são diametralmente opostos aos vossos, mesmo que procure incessantemente afirmar o contrário e vos queira parecer que sente a maior simpatia pela vossa sorte (…) Espero ter recolhido provas mais do que suficientes de que a classe média – qualquer que seja a sua retórica – não possui, na realidade, outro objetivo que enriquecer à custa do vosso trabalho, enquanto puder vender o produto dela e deixar-vos a morrer de fome quando já não mais podem lucrar com esse comércio indireto de carne humana” (Engels, 1845/2010, p. 38).

As periferias desqualificadas por esse Portugal e Mundo fora vivem hoje em dia um sofrimento social considerável pois a agenda neoliberal está aí para se cumprir com toda a força, apresentando-se como a única via possível para os Povos do Mundo, num exercício marcadamente ideológico e acrítico, gerando categorias rígidas e por vezes inflexíveis de entendimento, de classificação e de interpretação da realidade. A retração do emprego em que estas populações periferizadas estavam inseridas produziu bolsas consideráveis de inempregáveis, com consequências muito nefastas nas suas vidas. Daí até ao envolvimento em atividades ditas ilícitas vai um pequeno passo, que é um passo, muitas vezes, entenda-se, entre comer e deixar de comer, entre dar leite aos filhos e não dar, entre resistir ou morrer. No caso dos consumidores de drogas com que contactei e contacto ainda, a diferença vai entre ter a moedinha que os leve a aliviar as dores corporais da “ressaca” porque esta, dizem eles, “não tira férias, não tem fins-de-semana e não tira feriados”, até viver desesperado com essas dores que paralisam o corpo e gelam a alma. A criminalização destas condutas, propalada por alguns ventos conservadores atualmente mas que nada de novo encerra no que à gestão urbana diz respeito, não responde, por isso, ao problema de base: a distribuição da riqueza, a precariedade laboral, a rarefação do trabalho com direitos e a afirmação dos direitos sociais mais básicos como o direito à habitação, à saúde e à educação. Mas o facto dos atores da revisitação serem “improdutivos” agora torna-os invisíveis face à turba da Cidade central, detentora do poder e orientadora de como deve ser a “eterna ordem das coisas”, invisíveis ao poder político e económico, já não são, enfim, a tal “carne humana” com que o Capital saciava a sua gula. Esse Capital, cada vez menos localizável mas mais omnipresente do que nunca, tem migrado agora para outras geografias, deixando um rasto de miséria de que pouco ou nada se preocupa. O controlo social dos atores do pó na idade da pedra faz-se então agora por uma intervenção psicossocial muito silenciosa, baixinho para não levantar alarido, aparentemente apaziguadora do sofrimento mas intimamente comprometida com o status quo dominante, por um Estado Social mirrado, esquelético até, e muito pouco ágil e lubrificado para a atuação nas situações de emergência social e, por fim, por uma atuação policial sistemática, umas vezes mais violentas do que outras, com vista ao recalcamento, psicanaliticamente falando, da vida instintiva da urbe que se quer exprimir, silenciando o material que provém do seu inconsciente mais profundo.

O que acontece, então, na Cidade? A neurose no seu esplendor, com os seus sintomas conversivos no corpo urbano, qual histérica, com os seus espasmos, lapsos, contradições, esquecimentos e a sua eterna “fuga” para a frente, a sua fatídica “ordem e progresso” e oh pa que se faz tarde! Mas o barulho da máquina neoliberal que funciona a todo o vapor está a produzir ruídos ensurdecedores, tão barulhentos que a alternativa só poderá ser sua análise profunda e crítica, uma escuta estrutural partindo dos seus sintomas mas indo além deles, possibilitando o diálogo e a articulação possível entre essa vida instintiva que se quer exprimir e a ordem civilizatória que a quer empurrar a todo o custo para as entranhas de si própria, as profundezas oceânicas e o esquecimento absoluto.

À GUISA DE CONCLUSÃO

Depois de escrito este livro e tendo por missão não apenas a contemplação estática do mundo, mas sim a sua transformação possível, certo de que ela se processa numa dialética constante entre a teoria e a vida concreta, gostaria de citar Marx e Engels que logo na introdução da obra A ideologia alemã de 1845-46 referem: “Até agora, os homens sempre tiveram ideias falsas a respeito de si mesmos, daquilo que são ou deveriam ser. Organizaram as suas relações em função das representações que faziam de Deus, do homem normal, etc. Esses produtos do seu cérebro cresceram a ponto de dominá-lo completamente. Criadores, inclinaram-se diante das suas próprias criações. Livremo-los, pois, das quimeras, das ideias, dos dogmas, dos seres imaginários, sob o jugo dos quais eles se estiolam. Revoltemo-nos contra o domínio dessas ideias. Ensinemos os homens a trocar essas ilusões por pensamentos correspondentes à essência do homem, diz alguém; a ter para com elas uma atitude crítica, diz outro; a tirá-las da cabeça, diz o terceiro e a realidade atual desmoronará” (Marx e Engels, 1845-46/2001, p. 3).

Referências bibliográficas

Basaglia, F. (2001/1968). A ideologia da violência. Franco Basaglia (Ed.). A instituição negada – relato de um hospital psiquiátrico (pp. 99-134). Rio de Janeiro: Edições Graal

Cohen, S. (1988/1985). Visiones de control social. Barcelona: Promociones y publicaciones universitárias (PPU)

Engels, F. (2010/1845). A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo

Fernandes, L. (2005). Encontros e desencontros entre consumidores problemáticos e o sistema de tratamento. Toxicodependências, 11, 1, 79-81

Foucault, M. (1976). Aula de 7 de Janeiro. In Michel Foucault (2005/1975-76). Em defesa da sociedade – Curso no Collège de France. São Paulo: Martins Fontes

Fortuna, C. (2012), Prefácio a O Direito à Cidade de H. Lefebvre. In Henri Lefebvre (2012/1968). O Direito à cidade. Lisboa: Letra Livre

Lancetti, A. (2008). Clínica peripatética. São Paulo: Hucitec

Marx, K. & Engels, F. (2001/1845-46). A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes

  1. Texto proferido pelo autor no dia 1 de Julho de 2023 na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto a propósito do lançamento do seu livro intitulado “Atores do na idade da pedra – uma etnografia urbana das drogas” (Edições Outro Modo).
  2. Psicólogo, investigador e membro do Centro Português de Psicanálise – Associação Lacaniana Internacional (CPP – ALI).

Danos severos ao Irão: recordando uma necessidade

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Danos severos ao Irão: recordando uma necessidade

Uma ideologia anti-ocidental

Segundo Gregg Roman, o director executivo do Middle East Forum, a oposição ideológica do regime iraniano ao Ocidente e a Israel impossibilita a república islâmica a aceitar restrições permanentes às suas ambições nucleares. Como os clérigos xiitas que governam o Irão fazem questão de encarar o seu país como uma missão, qualquer mudança política que implique sua desnuclearização seria, para eles, um suicídio ideológico. O Irão que conhecemos desde 1979 é exemplo que como a natureza de um regime político se sobrepõe a arranjos e esforços diplomáticos no sentido de abdicar de meios conducentes à produção de armas corrosivas e destruidoras. Sobre isto, recomendo a leitura do meu artigo anterior.

A nuclearização do Irão

Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), em Novembro de 2023, o Irão acelerou o ritmo de produção de urânio a um nível quase suficiente para fabricar armas nucleares. Num relatório publicado no mês seguinte, a mesma agência observou que o país, que já não consegue esconder a sua ambição de dominar o Médio Oriente (e sabe-se lá mais o quê), já produzia aproximadamente nove quilogramas de urânio composto de 60% de urânio-235 enriquecido. Este dado é alarmante porque a maior parte do urânio usado actualmente em armas nucleares é aproximadamente 93.5% urânio enriquecido. O conhecimento desta informação veio num contexto em que o Irão já dava sinais contraditóriso relativamente à diplomacia nuclear e à retoma do acordo assinado a 14 de Julho de 2015, o Plano de Acção Conjunto Global.

O engenheiro iraniano e chefe da Organização de Energia Atómica do Irão (AEOI), Mohammad Eslami, foi claro em Dezembro de 2023: o seu país continuaria a investir na expansão das suas actividades nucleares.

Já em Fevereiro deste ano, a IAEA publicou dois relatórios sobre o Irão, revelando que o país já tinha produzido quase 280 quilogramas de urânio enriquecido, o que implica que, neste altura, o paraíso dos aiatolas tinha capacidade para fabricar quatro bombas nucleares.

Em Maio deste ano, Roman mencionou pelo menos três locais que o Irão utilizava para efeitos de enriquecimento de urânio: em Natanz, no centro do Irão, estavam em funcionamento cerca de 17000 centrífugas, incluindo alguns do modelo IR-6 (muitos mais eficiente que o antigo modelo IR-1); Fordow, uma instalação nuclear iraniana localizada a cerca de 30 quilómetros a nordeste de Quom, uma cidade sagrada para o xiismo e situada no noroeste do Irão e onde, em 2023, se descobriu urânio enriquecido a 83.7% (pelo menos dez pintos percentuais a menos que o valor necessário para produzir uma bomba nuclear); em Isfahan, a terceira cidade mais populosa do Irão, não muito distante de Fordow, que contém instalações para a conversão de urânio, o fabrico de combustível e a produção de metal (com relação directa com o desenvolvimento de armas).

A Operação Leão Crescente e a intervenção dos EUA

Em Junho de 2025, a IAEA confirmou que os Estados Unidos da América (EUA) infligiram “danos severos” às instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan. O politólogo norte-americano Peter Berkowitz entende que os ataques norte-americanos foram um “ponto de viragem na guerra do Irão contra Israel, os Estados Unidos e o Ocidente”: foi precisamente depois dessa flexão de músculo militar por parte dos EUA que Israel e o Irão acordaram num cessar-fogo. O entendimento foi alcançado depois de um confronto militar que durou uma dúzia de dias, que resultou em reveses militares notáveis para o Irão e em 28 mortes civis e mais de 3000 feridos em Israel. É de notar que, apesar desta tragédia, o segundo país não registou perdas de soldados e de aeronaves.

Uma guerra preventiva, útil e legal

Tenho muitos amigos que se autodeclaram conservadores e de direita que se manifestaram desiludidos com a administração Trump, chegando, nas redes sociais, a comparar o actual presidente norte-americano com o ex-presidente George W. Bush, fazendo alusão à decisão deste de intervir militarmente no Iraque, em 2003. A minha posição relativamente à segunda guerra no Iraque está descrita, de forma breve, mas não directa, neste meu artigo. O que eu acho mais grave é não terem a coragem de identificar o Irão como o verdadeiro agressor. Para mim, foi algo trágico ver estas publicações enquanto Israel lançava a Operação Leão Crescente (“Operation Rising Lion”): tendo começado no dia 13 de Junho, o estado sionista eliminou uma grande parte dos sistemas de defesa aérea iranianos, causou estragos às suas instalações nucleares, atingiu centrais de comando e de controlo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica e matou cientistas nucleares e militares de topo. Depois disso, os EUA avançaram com a Operação Martelo da Meia-Noite (“Operation Midnight Hammer”), na qual as três primeiras instalações nucleares que referi acima foram completamente devastadas. Não há dúvida de que a posição negocial de Washington e de Jerusalém se fortaleceu. Também não tenho dúvidas de que todas as afirmações que vi, denunciando uma suposta influência do “lobby sionista” na direita conservadora, direita radical ou extrema-direita portuguesas resultaram de uma compreensão extremamente redutora e nebulosa sobre a absoluta legitimidade de Israel em atacar militarmente o Irão. E, nesse apecto, o artigo “Five Errors About Iran’s War on Israel, America, and the West”, escrito por alguém que já foi director do planeamento de políticas durante a primeira administração Trump, é muito objectivo e claro. Não irei analisar os cinco erros apontados por Peter Berkowitz, mas selecionarei os três que eu considero mais importantes para este contexto.

Em primeiro lugar, Berkowitz destrói a noção de que a resposta de Israel foi uma guerra preventiva “ilegal”: na verdade, a Operação Leão Crescente foi um acto de auto-defesa contra um esforço de quase meio século por parte do Irão em eliminar o estado judeu. Apesar de o Aiatola Ali Khamenei não ter ordenado o arremesso de uma arma nuclear contra Israel, a aniquilação do estado judeu é uma das missões essenciais à manutenção do regime instaurado por um golpe em 1979. Se Teerão se esforça para esconder que é o principal país a financiar os Houthis no Iémen (que continuam a lançar mísseis a Israel), o Hamas (que fez um ataque brutal e sanguinário no dia 7 de Outubro de 2023 e que insiste em não libertar os reféns, condição essencial para que os habitantes de Gaza deixem de sofrer os impactos de uma guerra) e o Hezbollah no Líbano (com que foi estabelecido um frágil acordo de cessar-fogo), então está a fazer um péssimo trabalho. Israel está simplesmente a proceder segundo o artigo 51º da Carta das Nações Unidas, que informa os estados de que é legítimo eles recorrerem ao uso da força quando estão a ser alvo de um ataque armado. Ora, utilizar a força é indispensável para enfraquer militar e estrategicamente o Hamas, os Houthis e o Hezbollah, proxies de um país ideologicamente vocacionado para destruir Israel: o Irão.

Em segundo lugar, ao lançar cerca de mil mísseis balísticos, desde Abril de 2024, com precisão suficiente para distinguir alvos civis de militares, o Irão está a cometer crimes de guerra. A histeria diante dos ataques israelitas a alvos militares em território iraniano parece completamente indiferente ao facto de que este segundo país não hesita em atingir vários não-combatentes e muitas áreas urbanas em Israel.

Em terceiro lugar, as operações militares norte-americanas e israelitas contra o Irão podem ter sido decisivas para impedir a proliferação nuclear no Médio Oriente e preservar o prestígio dos EUA na região. Recordemos que, em 2018, o Príncipe Mohammad Bin Salman, da Arábia Saudita, admitiu que, embora o seu país não tivesse a intenção de adquirir armas nucleares, não hesitaria em fazê-lo se o Irão avançasse nesse sentido. Chegou mesmo a apelidar o Aiatolá Ali Khamenei como o “novo Hitler do Médio Oriente”. Esta sequência de tomada de decisões iria abranger, muito provavelmente, os Emiratos Árabes Unidos e a Turquia.

Conclusão

Um país que ambiciona construir e utilizar centrífugas mais rápidos e eficientes, que produz urânio altamente enriquecido e que mantém instalações destinadas a estes propósitos em locais montanhosos e remotos não é inocente. Faz parte de um plano multifacetado e duradouro para eliminar Israel do mapa. Para compreendermos até onde o Irão está disposto a ir, recordemos que o regime já tentou assassinar: John Bolton, o antigo conselheiro para a segurança nacional dos EUA, em Washington D.C.; Mike Pompeo, o antigo secretário de estado, em Paris; o candidato à presidência dos EUA, Donald Trump. É plenamente compreensível (ou deveria ser) que os EUA e Israel unam esforços para manter um país como o Irão fora do alcance de armas nucleares. Tal objectivo também serve os interesses europeu. Mas isso já é outro tema.

Novembro em Abril

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O presente texto surge como réplica ao “Abril em Novembro”, da autoria de António Conceição, publicado na Revista Minerva a 20 de Setembro de 2025 (https://revistaminerva.pt/abril-em-novembro/)

Antes de mais, cumpre-me felicitar o autor pela elaboração de uma análise histórica e pelo exercício de reflexão que empreendeu, o qual merece ser devidamente reconhecido. Todavia, embora considere o seu raciocínio de interesse, entendo que a argumentação apresentada carece de maior fundamentação e rigor crítico, sendo, por conseguinte, passível de revisão.

A linha de argumentação sustentada pelo autor pode, em síntese, ser condensada nos seguintes pontos essenciais:

  • A vitória da democracia de matriz ocidental ter-se-á consumado nas eleições de 25 de Abril de 1975, data que, segundo o autor, assume carácter exclusivo de relevância histórica.
  • O Partido Comunista Português e Álvaro Cunhal teriam reconhecido de imediato a derrota e aceitado os resultados eleitorais sem reservas, encerrando assim o processo político em curso.
  • O 25 de Novembro teria sido, nessa perspectiva, um episódio de escassa importância, reduzido a uma intentona protagonizada por sectores da extrema-esquerda que se recusaram a aceitar o desfecho eleitoral de Abril de 1975.

O que o autor omite, ou pelo menos não enfatiza devidamente, a propósito dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, é de particular importância para uma leitura mais completa do período.

Entre Abril e Novembro de 1975 decorreu o chamado “Verão Quente”, amplamente documentado e caracterizado por manifestações, ocupações de fábricas e de propriedades rurais, bem como por episódios de violência política de considerável intensidade.

Nos dias 12 e 13 de Novembro, o Palácio de São Bento foi sitiado por trabalhadores da construção civil afectos à Intersindical/CGTP, estrutura sob forte influência do Partido Comunista Português (PCP).

Importa ainda recordar que Álvaro Cunhal nunca demonstrou verdadeira confiança naquilo a que chamava “democracia burguesa”. Segundo o testemunho da dissidente Zita Seabra, que o ouviu em primeira mão, e como o próprio registou em Rumo à Vitória, Cunhal afirmava: “a revolução democrática nacional está feita, agora temos de avançar para o nosso Outubro”, aludindo claramente à perspectiva de uma insurreição popular armada.

De igual modo, Manuel Durão Clemente, do RALIS, ao invadir o estúdio da RTP em Lisboa, lê, segundo a mesma fonte, um comunicado similar ao dos “Metalúrgicos”, pertencentes à Intersindical controlada pelo PCP.

Outra figura de destaque entre os insurrectos de 25 de Novembro foi o “coronel vermelho” Varela Gomes, homem de estreitas ligações ao PCP, cuja actuação se revelou significativa no desenrolar dos acontecimentos.

Por fim, é sabido que a tentativa de golpe foi abortada pelo PCP após uma conversa privada entre Álvaro Cunhal e o Presidente da República, Francisco da Costa Gomes. Embora o teor dessa conversa permaneça desconhecido, tudo leva a crer que tenha existido um acordo tácito que permitiu ao PCP manter-se legalizado e evitar uma repressão directa.

Determinante para a decisão de Álvaro Cunhal em desmobilizar o movimento foi, contudo, a ausência de apoio da Força Aérea, concentrada então na actual Base Aérea n.º 8 (Maceda, Ovar), na Região Militar do Norte, então sob o comando de Pires Veloso.

Assim, o autor apresentou uma leitura simplificada e ideologicamente selectiva do processo revolucionário. A sua narrativa deixou de fora elementos fundamentais, como o ambiente de tensão social, o papel decisivo das estruturas sindicais e militares e o próprio risco de conflito civil, que são essenciais para compreender o 25 de Novembro na sua verdadeira dimensão histórica.

Esse dia foi o culminar de um processo intenso, em que se enfrentaram projectos de sociedade opostos e em que o risco de guerra civil esteve presente. Tratou-se de um ajuste de forças, com a derrota militar da esquerda, o início da estabilização institucional e a recomposição das chefias militares, abrindo caminho à aprovação da Constituição de 1976 e à consolidação da via parlamentar.

Em conclusão, e em nome da verdade histórica, pode dizer-se que o 25 de Novembro deve ser recordado, mas não necessariamente celebrado como feriado nacional. Recordá-lo é reconhecer o que nele houve de travão e de ruptura. Celebrá-lo seria impor uma leitura oficial da história e apagar o papel, as hesitações e os silêncios de protagonistas centrais, entre eles o PCP, cuja actuação contribuiu, em momentos distintos, tanto para a escalada como para o desfecho.

E porque houve ainda focos de resistência no dia 26 de Novembro, e apenas nos dias 27 e 28 se repôs a normalidade, mais do que festejar, importa compreender e desmistificar, pois a história não se escreve a preto e branco, e as suas datas, quando exaltadas sem reflexão lúcida, perdem o valor que as torna dignas de memória.

Porque não se Deve Estudar Humanidades: Carta do Pai de Ted Turner 

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Carta publicada pelo magnata da comunicação social Ted Turner em 2008 na sua autobiografia Call me Ted. A carta data originalmente de 1957, quando Turner estava no primeiro ano da Brown University, e foi enviada pelo seu pai quando este descobriu que o filho pretendia seguir estudos clássicos.

Meu querido filho,

Estou chocado, até horrorizado, por saber que escolheste Estudos Clássicos como área principal. De facto, quase vomitei no caminho para casa hoje. Suponho que sou antiquado o suficiente para acreditar que o objectivo de uma educação é permitir a alguém desenvolver uma comunidade de interesses com os seus semelhantes, aprender a conhecê-los e aprender a conviver com eles. Para isso, claro, tem de aprender o que os motiva e como levá-los a sentirem-se satisfeitos com os seus objectivos e desejos.

Sou um homem prático e, pela minha vida, não consigo compreender por que raio haverias de querer falar grego. Com quem vais comunicar em grego? Tenho lido, nos últimos anos, as deliberações de Platão e Aristóteles, e achei interessante perceber que aqueles velhos sacanas tinham mentes que funcionavam de forma muito semelhante às nossas de hoje em dia. Fiquei espantado com o tempo que tinham para deliberar e pensar, e interessado no tipo de civilização que permitiria uma deliberação tão inútil. Depois comecei a pensar que afinal não era assim tão espantoso — eles pensavam como nós porque as minhas vacas Hereford de hoje são muito semelhantes às de há dez ou vinte gerações. O que me espanta é que adoptes Platão e Aristóteles como vocação durante vários meses, quando poderiam muito bem ser uma leitura agradável e prazerosa, como relaxamento, numa fase posterior da tua vida. Pela minha vida, não consigo perceber porque haverias de te interessar, logo à partida, por te informares sobre a influência dos Clássicos na literatura inglesa. Não é necessário saber fabricar uma arma para saber usá-la. Parece-me que bastaria estudar literatura inglesa sem entrar na influência que esta ou aquela mitologia antiga possa ter tido sobre ela. Quanto à literatura grega, à história das igrejas romana e grega e à arte dessas épocas, parece-me que estarias muito melhor servido se aprendesses algo sobre literatura contemporânea, escritos e assuntos que possam ter algum significado para ti e para as pessoas com quem te irás relacionar.

Estas matérias poderão dar-te uma comunidade de interesses com uns poucos sonhadores impraticáveis e com um grupo selecto de professores universitários. Deus nos livre!

Parece-me que aquilo que deverias querer fazer é estabelecer uma comunidade de interesses com o maior número possível de pessoas. Com pessoas que se mexem, que fazem coisas e que têm uma visão interessante — não decadente — da vida.

Suponho que toda a gente tem de ser snobe de algum modo, e suponho que sentirás que te distingues da manada ao tornares-te um snobe dos Clássicos. Consigo imaginar-te a entrar num bar, a mandar abaixo uns copos, a virar-te para o tipo sentado no banco ao lado — um magnata contemporâneo dos outdoors de Podunk, Iowa — e a dizer: “Então, o que acha do velho Leónidas?” O teu amigo, o magnata dos outdoors, vira-se para ti e diz: “Leónidas quem?” Tu respondes: “Ora, Leónidas, o proeminente grego do século XII.” Ele, por sua vez, dir-te-á: “E quem raio era esse?” Tu dirás: “Oh, não sabe quem foi Leónidas?” — e descartá-lo-ás, recusando-te a falar de qualquer outra coisa com ele durante o resto da noite. Ele achará que és um snobe estúpido e um falhanço; tu acharás que ele é um labrego de Podunk, Iowa. Suponho que isso fará ambos felizes e, como resultado, acabarás por comprar a empresa de outdoors dele.

Não há dúvida de que este tipo de informação inútil te distinguirá, te separará dos fazedores do mundo. Se eu te deixar dinheiro suficiente, poderás retirar-te para uma torre de marfim e contemplar, pelo resto dos teus dias, a influência que os hieróglifos do homem pré-histórico tiveram sobre os escritos de William Faulkner. A propósito, ele foi meu contemporâneo no Mississippi. Falamos a mesma língua — putas, rameiras, palavrões e actos fortes.

Não é realmente importante o que eu penso. O que é importante é o que tu desejas fazer com a tua vida. Apenas gostava de poder sentir que a influência desses professores excêntricos e das torres de marfim te está a formar no tipo de homem de que ambos possamos orgulhar-nos. Tenho a certeza de que ficaremos ambos muito satisfeitos e encantados quando eu te apresentar a algum amigo meu e disser: “Este é o meu filho. Ele fala grego.”

Jantei, durante as férias de Natal, com um especialista em eficiência, conselheiro económico da nação da Índia, membro do Conselho de Regentes da Universidade de Harvard, que possui cerca de 80 mil acres de valiosa floresta aqui na região, entre outros activos. O filho e a família estavam a visitá-lo. Ele apresentou-me ao filho e depois disse, em tom de desculpa: “Ele é matemático teórico. Eu nem sequer percebo do que ele está a falar. Vive num mundo diferente.” Passado algum tempo, comecei a conversar com o filho, e a única coisa de que ele falava era do seu trabalho. Eu também não percebia do que ele estava a falar, por isso fui-me embora cedo.

Se vais ficar em Brown e tornar-te professor de Clássicas, os cursos que escolheste servir-te-ão para uma associação vitalícia com Gale Noyes. Talvez ele te ensine a fazer geleia. Na minha opinião, isso não fará grande coisa para te ajudar a aprender a lidar com as pessoas neste mundo. Acho que te estás a tornar rapidamente um asno, e quanto mais depressa saíres desse ambiente imundo, melhor para mim.

Oh, eu sei que toda a gente diz que uma educação universitária é indispensável. Pois bem, consolo-me dizendo que toda a gente dizia que o mundo era quadrado, excepto Colombo. Tu vai lá e segue o mundo; eu seguirei sozinho.

Espero estar errado. Estás nas mãos dos filisteus e, raio, fui eu que te mandei para lá. Lamento.

Devotadamente,
Pai

Edição: Dezembro 2025

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Boas Festas: Romantismo como falsa contra-revolução, danos severos ao Irão, manifesto para uma outra cidade, Post-2010 rise of woke culture, Cortes de 1331, três relógios como presentes, porque não estudar humanidades, quem financia o transativismo, baixas médicas em Portugal, Novembro em Abril, Paula Rego, Marta Chaves, Códice Baltazar Behem.

ENSAIO

O Romantismo é uma falsa Contra-Revolução: Reflexos na literatura

Sobre Iluminismo e o Romantismo como forças estruturantes da modernidade, destacando a rutura entre razão e sentimento, os seus efeitos políticos, religiosos e literários, e o impacto do Romantismo na arte, na nação e na literatura portuguesa.

Danos severos ao Irão: recordando uma necessidade

Como a ideologia do regime iraniano torna inevitável a sua ambição nuclear, legitima as ações militares de Israel e dos EUA como auto‑defesa e sustenta que esses ataques foram decisivos para travar a proliferação nuclear e conter uma ameaça regional.

The Rise of Post-2010 Hardcore Woke Culture

On how hardcore woke culture is best understood not as a novel ideological development, but as a contemporary manifestation of a recurring historical pattern: radical egalitarianism pursued as a total moral project.

Manifesto para uma Outra Cidade

Sobre intervenção psicossocial e intervenção sociopolítica, reflexões presentes na obra Atores do pó na idade da pedra – uma etnografia urbana das drogas, do mesmo autor, publicada em 2023.

Natal e ano novo.

CRÓNICA

Porque não se Deve Estudar Humanidades: Carta do Pai de Ted Turner

Carta enviada pelo pai do magnata da comunicação social Ted Turner ao filho em 1957, quando descobriu que este pretendia seguir estudos clássicos. “Estas matérias poderão dar-te uma comunidade de interesses com uns poucos sonhadores impraticáveis e com um grupo selecto de professores universitários. Deus nos livre!”.

Quem financia o transativismo?

Uma descrição muito detalhada sobre o rasto do dinheiro e as instituições (fundações, as corporações, as ONGs, os departamentos governamentais e indústrias) que transformaram o transativismo num dos lobbies mais bem financiados do mundo ocidental.

Sobre as Baixas Médicas no Mercado Laboral Português

800 mil portugueses meteram baixa em 2024. Isto, por si só, explica muitos problemas de produtividade sem necessidade de grandes teorias económicas. Mas a divisão por género torna tudo ainda mais claro: as mulheres são 58,72% das baixas, contra 41,28% dos homens. Isto não é uma sensação, não é perceção social, é objetivo.

Novembro em Abril

Uma crítica a visões simplificadas sobre o 25 de Novembro de 1975, destacando o contexto do “Verão Quente”, a tensão social, o papel das estruturas sindicais e militares e a complexa atuação do PCP, defendendo uma interpretação histórica mais rigorosa e nuançada.

Do exótico: tradições angolanas e o pogrom de 1941 em Bagdade.

ARTES VISUAIS

Galeria: Ilustrações de Ofícios Medievais num Códice Polaco de 1505

Galeria de gravuras com variados ofícios medievais, presente num códice polaco, o Kodek Baltazar Behem, datado de 1505.

Curiosidades para todos os gostos.

RUBRICA

Capítulos das Cortes da Era de 1331

Alguns capítulos gerais das cortes da era de 1331, convocadas por D. Afonso IV, na vila de Santarém.

O Tempo como Presente: Três Relógios Oferecidos que se Tornaram Lendas

Damos a conhecer três relógios oferecidos em circunstâncias extraordinárias, peças que se tornaram parte da história pelos melhores motivos. Estas histórias revelam momentos empolgantes da relojoaria e dos seus protagonistas e sabemos que são histórias como estas que nos fazem admirar os relógios: não pela utilidade, mas sim pelo significado e pela memória que encerram.

Alguns começos de livros.

CRÍTICA

Crítica: Paula Rego, Secrets & Stories, de Nick Willing, 2017

O conto de fadas em Paula Rego tem o tom de revolta de uma mulher-cão: contradictio in terminis assumida pela pintora, que surge retratada como um ser estranho — anjo perverso e vingativo — com algo de belo, mas

intocável e intangível.

Avalanche de Marta Chaves: breve nota sobre a sua poesia

Do amor aos monósticos e dísticos, os versos demasiado trabalhados sem que os precedentes e posteriores sejam de igual finura, as metáforas vazias e as hipérboles impróprias.

Os funnies da quadra, sem nada a ver com a quadra.

Beth Rudin DeWoody é uma influente coleccionadora e mecenas norte- americana das artes contemporâneas, reconhecida sobretudo pelo seu papel activo no apoio a artistas emergentes e a práticas experimentais. Filha do promotor imobiliário Lewis Rudin, DeWoody tem-se destacado por um modelo

de patronato próximo e interventivo, financiando directamente a produção artística, exposições e residências, em vez de se limitar à aquisição de obras consagradas. Fundadora da organização sem fins lucrativos The Bunker Artspace e de plataformas como a Outpost Artspace, tem criado espaços alternativos para a apresentação de arte contemporânea fora dos circuitos institucionais tradicionais. O seu mecenato caracteriza-se por uma aposta contínua no risco, na inovação e na sustentabilidade da prática artística, fazendo de Beth Rudin DeWoody uma figura central no ecossistema artístico contemporâneo dos Estados Unidos.

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Revista Minerva Universitaria

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Edição: Novembro 2025

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Plena estampa: transporte marítimo nas Ilhas Fiji, educação jurídica e direitos humanos, retorno ao belo, relational quantum mechanics, Balsemão, desprezo dos inocentes, contra os abraços, ódio jornalístico e partidos, fotografias de Francisco Norton de Matos, relojoaria vintage, o poder régio português (séculos XIV-XV), a malvadez de Lenine, The Chair (2021) e Noites Brancas de Dostoiévski.

ENSAIO

Plano de Mitigação para o Setor do Transporte Marítimo nas Fiji

Sobre um projecto das ilhas Fiji pela USP e em colaboração com a UCL: um plano de mitigação para o transporte marítimo doméstico, abrangendo vários tipos de embarcação e definindo uma estratégia de transição energética para um setor ambiental, social e economicamente sustentável.

Um retorno ao Belo: uma revisitação ao Belo na Antiguidade e na Idade Média

Revisitar o conceito de Belo, com Platão e Aristóteles, Idade Média e Tomás de Aquino: não restabelecer os valores estéticos deixados pela Antiguidade e pela Idade Média, mas retornar aos marcos deixados por eles.

Direitos Humanos: um Novo Olhar na Perspectiva Da Educação

Sobre como a educação jurídica pode consolidar os direitos humanos numa sociedade global, defendendo uma formação ética e emancipatória que supere o formalismo e promova a justiça social, tornando o ensino do Direito um instrumento de efetivação e sensibilidade às desigualdades.

Relational Quantum Mechanics: Relations Before Things-in-Themselves

On the work of Carlo Rovelli, Relational Quantum Mechanics as all properties, not just velocity, relative to interacting systems. Things are bundles of relations; no absolute state of the universe exists. Reality is events-between, not objects-in- themselves.

Lauren Bacall aos 19 anos e Lemmy Kilmister no seu apartamento.

CRÓNICA

Balsemão: As Rodas e o Eixo Que as Liga

Balsemão não precisava de sujar as mãos. Conhecia bem os homens. Sabia que pagando-lhes bem, dando- lhes amplitude de ação dentro de parâmetros implicitamente bem claros de poder, conferindo-lhes status, a maioria, sobretudo os provindos da área “plebeia”, com predomínio de provenientes da chamada extrema-esquerda, todos eles fariam o que era suposto fazerem sem grandes sobressaltos.

Contra o desprezo do inocente

A propósito de uma crónica da escritora Isabela Figueiredo com uma perspectiva muito negativa e elitista sobre o programa de entretenimento popular da RTP, O Preço Certo.

Contra os Abraços

Os abraços criam um escape às emoções, dão uma resposta pronta e inibem que essas seja correctamente processadas, interrompendo-as. Isso faz com que não sejam autosuperadas, trivializadas e apreendidas. Criam pessoas mimadas e emocionalmente dependentes, sempre prontas para se encostarem a alguém para lhes dar suporte, validação, aconchego e justificação para um sentimento ou emoção.

Como o ódio jornalístico faz milagres nas urnas

Há uma teoria muito famosa que nos diz que o líder de um popular partido de direita em Portugal é um produto dos media. Que o “monstro” foi criado pela televisão, vendido ao povo a cada minuto de audiência. O problema é que não é bem verdade.

Biografia no feminino.

ARTES VISUAIS

Galeria: Fotografias de Francisco Norton de Matos

Galeria com fotografias de Francisco Norton de Matos. Na descrição do autor: fragmentos de sombras e reflexos do meu olhar, porque nas sombras encontro versões de mim que já fui, e nos reflexos o que talvez ainda serei. Tudo se mistura: o real, o sonho, o instante.

Todos os meses, mais alegorias da academia.

RUBRICA

Síntese do Desembargo Régio (sécs. XIV-XV) – a execução do Poder régio em Portugal

Ensaio-síntese do Desembargo Régio (sécs. XIV-XV), sobre a execução do Poder régio em Portugal, com algumas considerações de pormenor.

Exemplo prático da malvadez de Lenine: uma descrição do financiamento dos bolcheviques

Lenine era tacanho, maquiavélico, violento mas cobardolas, um indivíduo horrível. Aqui apresentamos um exemplo prático desta malvadez, de Richard Pipes, “The Russian Revolution”, com uma descrição do financiamento do partido bolchevique. Leiam e desfrutem deste autêntico terrorismo.

Novas políticas para a educação.

Tesouros encontrados em Tempos Passados

Recordamos alguns tesouros descobertos nas edições anteriores da feira de relojoaria vintage Tempo Passado. São peças que o tempo filtrou com rigor, relógios que conquistaram a admiração de todos. Estes são apenas alguns exemplos entre muitos que continuam a brilhar na memória dos coleccionadores.

Sobre o belo.

CRÍTICA

Crítica: The Chair (2021)

The Chair retrata uma recém-eleita diretora do departamento de Inglês na Universidade Pembroke. É a primeira mulher e asiática no cargo: a sua eleição pretende sinalizar uma mudança revigorante dos tempos. Todavia, o que se vai suceder ao longo da série irá se assemelhar mais a um pequeno solavanco do que a uma profunda revolução.

Oiça: Sabe o que é um Sonhador? – Noites Brancas de Dostoievski

Reflexão sobre Noites Brancas e o conceito de sonhador em Dostoievski, um tema importante e recorrente para o autor: o “sonhador” é o indivíduo que se revolta com o seu destino.

Grandes funnies para finalizar.

Lucy Russell, Condessa de Bedford (c. 1581–1627), foi uma das figuras mais influentes da corte jacobina inglesa e uma destacada patrona das artes no início do século XVII. Educada num ambiente aristocrático altamente culto, tornou-se uma presença central nos círculos literários e artísticos da época. Manteve relações próximas com poetas como Ben Jonson e John Donne, que lhe dedicaram diversas obras, e apoiou também músicos, dramaturgos e artistas visuais. O seu patronato distinguiu-se pela promoção activa de novos talentos e pela capacidade de usar a sua posição social para legitimar e difundir obras inovadoras, contribuindo para o florescimento cultural do reinado de Jaime I. Além disso, participou em masques da corte — espectáculos que combinavam música, poesia e coreografia — reforçando a sua imagem como mecenas e protagonista da vida artística londrina.

Edição: Outubro 2025

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No outono: Estádio do Restelo, a igreja e o liberalismo, Edward Said, imperadores e o deboche, três burcas, a diagese imigracionista, fotografia de viagem, abril em novembro, um novo laço, relógios atómicos, consciência nacional em 1580, Dom Pedro a espancar um bispo, filmes: Parasita e Barbie.

ENSAIO

Estudo de Caso: O Estádio do Restelo

Uma breve monografia em torno do Estádio do Restelo, com a intenção de demonstrar a importância deste espaço enquanto um verdadeiro repositório da identidade coletiva de Belém.

A Igreja e o Liberalismo Oitocentista Português

Investigação sobre o vintismo português, pouco explorado, analisando a visão miguelista e antiliberal do Padre José Agostinho de Macedo. Foca o choque clero/liberalismo após 1820 e busca clarificar o fenómeno, contribuindo para o seu estudo historiográfico.

Decadent Sovereigns: Emperors Drowned in Excess

In history’s annals, decadent rulers like Sardanapalus, Nero, Heliogabalus, and Emperor Yang of Sui embody absolute power turned topersonal excess, blurring majesty and madness, hastening the fall of empires. This timeless caution resonates universally: here we explore their lives and indulgences.

Edward Said: Democracia e Humanismo em Estado de Crítica Permanente

Um breve panorama das formas de acepção do conceito de humanismo na obra de Edward Said, com esforço em investigar o conceito de “leitura em contraponto”, instrumento analítico proposto no interior de sua obra.

Nos primórdios da representação abstracta: Rorschach e Kandinsky.

CRÓNICA

As 3 burcas do café do Tavares

Era fim de tarde, a hora melancólica em que o sol se despede dos telhados. O Tavares, dono do café ExStasi, já tinha fechado a caixa. Foi então que dois agentes da PSP, em patrulha, detetaram três figuras imóveis, envoltas em negro, postadas ali, mesmo à porta do café.

Sobre a diegese mitológica imigracionista

Os defensores do imigracionismo alegam que a migração é natural porque sempre existiu, mas esse argumento é falacioso: ignora os riscos atuais, o contexto de oito mil milhões de pessoas, a tecnologia que acelera deslocações e a fragilidade dos sistemas sociais modernos.

Abril em Novembro

Entre 1973 e 1975, PS, MRPP e PCP disputaram espaço, mas foi o PCP quem dominou após o 25 de Abril. Contudo, as eleições livres de 1975 revelaram a sua fraqueza e instauraram a democracia. A direita, hoje, tenta valorizar o 25 de Novembro para desmerecer as primeiras eleições livres.

A Urgência de um Novo Laço

O conceito de laço como dimensão simbólica que une Portugal e Brasil, respeitando diferenças, numa defesa da psicanálise freudiana como prática plural e democrática, em oposição a totalitarismos e pensamentos únicos, afirmando a importância da linguagem e da diversidade.

Polpa!

ARTES VISUAIS

Galeria: Fotografias de Luís Moreira

Luís Moreira é um fotógrafo profissional residente em Vila do Conde. Nesta publicação apresentamos um breve portfólio do seu trabalho, com cenas paisagísticas de viagens em vários pontos do mundo.

Alegorias da academia.

RUBRICA

Como El-Rei D. Pedro I quisera espancar um Bispo porque dormia com uma mulher casada

Excerto da Crónica de D. Pedro, cap. VII, relatando como o mesmo quisera espancar um Bispo porque dormia com uma mulher casada.

A consciência nacional Portuguesa no malfadado ano de 1580, um ensaio não direcionado a colaboradores

Excerto de “Consciência Nacional Portuguesa”, de Martim de Albuquerque, sobre o malfadado ano de 1580, num ensaio não direcionado a colaboradores

Uma boa ilustração da maioria das nossas intervenções nas redes sociais.

Relógios Atómicos: histórias de uma precisão que mudou o mundo

Os relógios atómicos são as máquinas mais precisas já criadas. Do protótipo de amónia de Harold Lyons em 1949 ao estrôncio aprisionado em redes ópticas, marcaram a transição da observação dos astros para a física quântica. Hoje regulam o GPS, sincronizam a banca e testam a relatividade. E guardam histórias curiosas: um protótipo com um relógio de parede em cima, satélites “falhados” que confirmaram teorias, e cientistas que redefiniram o próprio segundo.

Paralelos sócio-políticos interessantes: ontem como hoje.

CRÍTICA

Crítíca: Parasita, Bong Joon- Ho, 2019

Uma família desempregada de quatro (pai, mãe, filho, filha), sobrevivendo numa cave, roubando internet de cafés e dobrando caixas de pizza, depara-se com a oportunidade de anexar-se à vida de outra família, explorando e consumindo os recursos da família hospedeira.

Crítica: Barbie (Greta Gerwig, Universal Pictures, 2023)

Sobre as descontrucções dos papéis femininos e masculinos num mundoficcional que explode e materializa os tropos da famosa boneca Barbie e do seu parceiro.

Pequenos funnies: o mundo moderno, a música…

Bertha Honoré Palmer (1849–1918) foi uma proeminente filantropa e patrona das artes norte-americana, figura central da alta sociedade de Chicago no final do século XIX. Viúva do magnata Potter Palmer, usou a sua fortuna e influência para promover a cultura e o papel das mulheres nas artes. Destacou-se como presidente do Comité das Mulheres na Exposição Colombiana Mundial de 1893, onde incentivou a participação de artistas femininas e promoveu um pavilhão dedicado às suas obras. Colecionadora sofisticada, adquiriu inúmeras pinturas impressionistas — incluindo obras de Monet, Degas e Renoir — contribuindo decisivamente para o reconhecimento do impressionismo nos Estados Unidos. A sua coleção viria a constituir um dos núcleos fundadores do Art Institute of Chicago, assegurando-lhe um legado duradouro como mecenas e impulsionadora da modernidade artística.

Crítica: The Chair (2021)

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Texto publicado originalmente no website Repórter Sombra, em https://reportersombra.com/the-chair/.

The Chair (2021) é uma recente minissérie lançada pela Netflix. Retrata a recém-eleita diretora do departamento de Inglês, Ji-Yoon Kim (Sandra Oh), na ficcional Universidade Pembroke. No curso da sua nomeação terá de lidar com todas as vicissitudes da vida académica, burocrática e financeira, bem como gerir uma vida pessoal turbulenta que se incompatibiliza frequentemente com a sua recém promoção. Visto ser a primeira mulher no cargo, bem como a primeira de ascendência asiática, a sua eleição pretende sinalizar uma mudança revigorante dos tempos. Todavia, o que se vai suceder ao longo da série irá se assemelhar mais a um pequeno solavanco do que a uma profunda revolução. O elenco conta com veteranos como Bob Balaban, Holland Taylor, David Morse e até uma aparição especial de David Duchovny, desempenhando uma versão (esperamos nós) melodramática de si mesmo.

Apesar de conter apenas seis episódios, não é difícil perceber que a protagonista desta série não deveria estar na posição em que se encontra. Pelas mais diversas razões, seja por pressões financeiras dos superiores, amizades e relacionamentos incompatíveis com a sua posição, ou mera impreparação da sua parte, Ji-Yoon vê-se incapaz de tomar as rédeas do seu departamento. A sua liderança é constantemente menosprezada, debilitada e colocada em questão, até ao ponto de se ver incapaz de tomar as mais simples decisões inerentes ao seu cargo (escolher um académico para proferir um discurso, advertir ou despedir docentes, separar a vida pessoal da profissional, entre outros).

Ji-Yoon é ineficaz, indulgente, manipulável e constantemente sobrecarregada por um mundo e uma instituição centenária, inflexível e desatualizada. Visto ter sido eleita para iniciar uma renovação no pessoal docente e nos métodos de ensino de modo a captar mais alunos e investidores, não deixa de ser curioso que aquela universidade tenha escolhido para liderança de um departamento alguém incapaz de gerir todas estas problemáticas, implementar as mudanças desejadas, ou até simplesmente “apagar fogos” que surjam quotidianamente. A mudança real que procuravam estabelecer não passou de um interlúdio simbólico.

É a partir do contraste entre a incapacidade e irresponsabilidade de muitas personagens docentes e as posições de responsabilidade que ocupam que a maioria do humor parece ser projetado, o que gera uma atmosfera leviana de “sitcom” que irá desestabilizar a tonalidade geral da série quando ela procura território mais sério e político, oferecendo uma permanente dimensão bipolar que prejudica os seus seis curtos episódios.

Há um ponto que merece ser discutido, que é a de que a intenção de humor nesta série brota de não se crer que as pessoas que são docentes nesta série sejam docentes de verdade. Tal acontece porque, para criar algum momento cómico ou leviano, os argumentistas estão dispostos a descredibilizar e sacrificar toda a seriedade e solenidade que aquela personagem detém enquanto professor. O erro categorial que os criadores desta série fizeram reside no facto de que, embora achem que só estão a aligeirar e a humanizar os professores momentaneamente, na realidade estão, por associação, a enfraquecer a sua posição enquanto professores no mundo daquela série. A serie carece de alguma subtileza em conseguir gerir os seus momentos de seriedade e ligeireza sem sacrificar um pelo outro, misturando-os por vezes indistintamente para seu prejuízo, sem conseguir recuperar totalmente a dimensão séria que precisa quando decide enveredar por caminhos mais politicamente sensíveis. Em outras palavras, o maior problema é o de que, numa série que retrata os desafios e dilemas da docência, não parece existir qualquer tipo de docente naquela universidade.

Tornam-se repetitivos e, assim, previsíveis, os vários momentos e diálogos criados para comic relief, explorados a partir da inaptidão das personagens corresponderem às expectativas, ignorarem responsabilidades, rejeitarem conselhos ou incapazes de prestar auxílio. Os momentos mais “leves” resultam de o tom e atmosfera de aparente solenidade do meio institucional onde a série habita ser violentamente contrastada com os comportamentos e opiniões de personagens que parece que acabaram de “aterrar” naquele microcosmo universitário, denotando-se uma ampla dissonância cognitiva nestas personagens: levam demasiado a sério o que (não) fazem, mas não levam nada a sério (ou demasiado a sério) quem são.

Como consequência, é relativamente expectável que não se leve a sério a larga maioria das personagens em nenhuma circunstância, dado que só num mundo tão inconsequente como o desta série/universidade é que estas personagens, que por vezes demonstram condutas, no mínimo, caricaturais e inaceitáveis, poderiam perpetuamente se comportar da maneira grosseira que se comportam. Esta universidade fictícia assemelha-se, por vezes, a um hospital psiquiátrico (também ele caricatural) onde os doutores (os alunos) permitem que os pacientes (os professores e directores da universidade) prossigam a recriar as suas fantasias de serem professores sérios com mérito ao mesmo tempo que soltam gases, adormecem, gritam, praguejam e perseguem alunos no campus. O resultado é uma série desequilibrada e repetitiva que frequentemente cai em tropos datados nos momentos mais leves e em truísmos moralizadores nas instâncias mais sérias.

O ponto sobre como tópicos importantes contemporaneamente – direitos de minorias, género e sexualidade, discurso de ódio, racismo sistémico, discriminação, sexismo, preconceito de idade – são abordados na série assemelha-se, por vezes, a uma receita, que subordina a narrativa e as personagens à intenção extra-diegética dos argumentistas de riscar todos os tópicos, um por um, de modo a que a junção de todos os ingredientes misturados culminem num soufflé de activismo social. The Chair não oferece necessariamente uma solução concreta para cada problema (nem honestamente esperar-se-ia tal coisa), mas o facto de a forma como os trouxe para primeiro plano se assemelhar mais a uma aula ou palestra (ou sermão) e menos a uma narrativa, leva à sensação de que os argumentistas meramente se apropriaram do contexto universitário e académico enquanto o cenário ideal para oferecer ao espectador um colóquio atualizado sobre a tal lista de tópicos. Embora seja uma série que se passa numa universidade, uma série ficcional não é nem devia querer ser em momento algum uma aula de literatura.

Embora pareça um ponto não muito relevante, a questão é que a atmosfera que The Chair transparece é a de uma série que se debateu em conseguir integrar aspectos típicos de uma sitcom genérica com o peso e gravidade de uma história que procura debruçar-se sobre questões pertinentes, sensíveis e contemporâneas. O modo como foram tratados esses tópicos carece de subtileza e de graciosidade, pois não parecem ter sido manifestados como resultado e parte integrante da narrativa, mas como uma história que foi criada e manipulada de modo a acomodar todos os tópicos previamente estabelecidos. Apesar dos seus problemas, filmes como O Clube dos Poetas Mortos (1989), quer tenha sido composto de tal maneira ou não, assemelha-se a uma jornada que os alunos e professores enfrentaram, e do qual se obteve consequências, tanto negativas quanto positivas. Pelo contrário, a escolha em The Chair em subsumir a seriedade na leviandade, prejudica a força da sua história, bem como dos conflitos e problemas morais e/ou éticos que as suas personagens enfrentam. Poderíamos nesta altura contra-argumentar alguma prudência para esta crítica e avançar com a ideia de que uma minisérie humorística da netflix não é claramente o canal mais pertinente para exigir algum rigor realista no que ao tratamento dos temas e personagens diz respeito; isto seria um contra-argumento adequado não fosse pela insistência dos argumentistas no modocomo introduziram e abordaram as problemáticas políticas e sociais. Caso tivessem permanecido no pano humorístico e leviano, toda esta crítica se desvaneceria pela absurdidade em exigir a abordagem de questões politicas e sociais; porém, é o modo atabalhoado, forçado e generalista em que introduz e trata tais temas que, infelizmente, legitima esta crítica.

Por último, é importante mencionar dois pontos cardinais intuídos no discurso final da protagonista no último episódio, e que dizem respeito à paixão pela literatura e, particularmente, à poesia:

a) a ideia de tentar demonstrar que as obras literárias dialogam com o leitor e falam sobre coisas que importam para o leitor;

b) a ideia de que as obras literárias são, maioritariamente, um espelho para o leitor reflectir sobre a sua existência.

O primeiro ponto representa uma tendência romântica e popular que não oferece nada de relevante para a experiência de leitura e ensino da literatura. A ideia de uma directora de um departamento de literatura inglesa proferir um discurso com aquele conteúdo é, no mínimo, inverosímil. A distinção principal a ser feita é de que os poemas não falam connosco (o leitor) e, muito menos, sobre coisas que importam para o leitor. Em termos realistas, humanos dialogam com humanos, humanos dialogam com humanos sobre obras literárias e a obra literária não dialoga com ninguém. Falar sobre obras literárias que importam para o leitor só acontece porque tal faz parte do processo de leitura e interpretação da obra pelo leitor, processo esse que existe porque existem outras pessoas que leem, interpretam e dialogam sobre as mesmas ou outras obras literárias. Será escusado relembrar que a maioria da literatura discorre também sobre coisas que não interessam ao leitor. A ideia de que o registo discursivo de um professor universitário passa pela utilização de um vocabulário metaforicamente sentimentalista de modo a inspirar e motivar os alunos a apaixonarem-se por literatura ou que é tarefa principal do professor adaptar o currículo às necessidades dos alunos de modo a que eles se envolvam com sucesso com as obras carece de argumentos sérios e bem estruturados que justifiquem a implementação de tais “estratégias pedagógicas”. O que leva à conclusão de que The Chair é a consequência de pessoas que não frequentam aulas de literatura, mas que têm várias ideias e opiniões sobre o que possa lá acontecer.

Isto leva-nos ao ponto b). A ideia nociva de que a literatura tem de ser “relatable” carrega consigo demasiados preconceitos que impedem hipotéticos leitores de se depararem com obras com a única e pura intenção de serem lidas por mero prazer. Nem todas as séries, filmes, romances ou até música têm de ser relacionáveis, servirem de canal autorreflexivo, abordarem questões morais e éticas, ou possuírem características politicamente intervencionistas. A literatura não tem sequer obrigação de consistir num canal onde se descreve, desabafa ou comunica modos de vida subterrâneos. Há obras que poderão ser lidas por motivos históricos, académicos, profissionais, políticos ou simplesmente estéticos, pelo mero prazer em si. E este último modo de ler é algo que merece ser enfatizado aqui e que é, paradoxalmente, o mais árduo de “ensinar”. Embora existam muitos usos da literatura, a literatura não se resume ou define a um dos (ou conjunto de) usos que façamos dela, pois ela é indiferente e muda a qualquer prática. Não há mal nenhum em ler literatura pelo prazer admiravelmente inútil de ler literatura.

Plano de Mitigação para o Setor do Transporte Marítimo nas Fiji

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Plano de Mitigação para o Setor do Transporte Marítimo nas Fiji  — UM OLHAR SOBRE UM PROJETO DE SUSTENTABILIDADE

Seaspray Fiji

  1. INTRODUÇÃO E METODOLOGIA

Conforme proferido pela Organização das Nações Unidas, “As alterações climáticas são uma ameaça à vida na Terra; mesmo com as promessas feitas no Acordo de Paris, as temperaturas globais ainda podem aumentar em 3,4°C neste século, forçando as pessoas a adaptarem-se a padrões climáticos extremos.” (Dicionário do Desenvolvimento, 2020). O setor dos transportes, incluindo o marítimo, demonstra um forte peso no que toca a emissões de CO2, designadamente pela sua maioria se mover por meio de combustíveis fósseis, representando, assim, um dos responsáveis pelo aquecimento global (ONU, s.d.).

O Arquipélago das Fiji, ou simplesmente designado por Fiji, apresenta uma forte dependência do transporte marítimo, incluindo dos combustíveis fósseis que o alimentam, sendo este totalmente adquirido por meio de importação (MCST & USP, 2017). Agregado ainda ao facto das emissões de GEE, proveniente do conjunto das suas embarcações, terem exibido, em 2016, uma estimativa (embora incerta) de cerca de 230 kt de CO2 (MCST & USP, 2017). Neste âmbito, foi desenvolvido um projeto, direcionado para este território, intitulado por ‘Mitigation Plan for the Maritime Transport Sector in Fiji’, cuja abordagem, tal como o nome sugere, consiste num plano de mitigação para as Fiji, direcionado para o setor do transporte marítimo.

O presente ensaio debruça-se na análise deste projeto e, para a sua concretização, vários passos são seguidos. Para começar, é feita uma sumarização do projeto, de forma a compreender, mais especificamente, o seu foco. Seguidamente, é feita uma análise intensiva: definindo o problema inerente; elaborando um diagnóstico do território; analisando os stakeholders envolvidos; definindo os seus objetivos, atividades e indicadores; preenchendo a Matriz do Quadro Lógico; definindo a mudança desejada; e, por fim, executando um plano MEAL e uma análise de risco. Para finalizar, são apresentadas as considerações finais, onde se encontram expressas algumas reflexões. Apesar de se tratar de um amplo plano de mitigação envolvente de várias componentes inerentes ao setor dos transportes marítimos, apenas uma delas será abordada na sua análise: a propulsão eólica.

  1. SUMÁRIO NARRATIVO DO PROJETO

O projeto ‘Mitigation Plan for the Maritime Transport Sector in Fiji’, desenvolvido durante os meses de outubro e novembro de 2017, foi financiado pela University of the South Pacific, instituição académica fijiana, e contou com a colaboração da instituição londrina University College London no seu desenvolvimento (MCST & USP, 2017). Este projeto consiste na criação de um plano de mitigação para o setor dos transportes marítimos das Fiji, mais concretamente integrantes da navegação doméstica – isto é, navegação realizada dentro de um mesmo território nacional (MCST & USP, 2017). O plano apresenta abrangência, na medida em que se direciona para vários tipos de embarcação, destinadas a transporte de carga, de passageiros e a atividades turísticas, de pesca, etc. (MCST & USP, 2017). No âmbito deste, é definida uma estratégia de transição energética que torne o setor do transporte marítimo sustentável – não só ao nível ambiental, mas também social e económico –, baseada em medidas de mitigação que façam frente às alterações climáticas (MCST & USP, 2017).

  1. ANÁLISE DO PROJETO

3.1. DEFINIÇÃO DO PROBLEMA

Fazendo uso da ferramenta de definição do problema, é possível expor o problema central inerente à criação do projeto, assim como as suas causas e os seus efeitos (Quadro 1).

EFEITOS
Alterações climáticas e subida do nível do mar Contaminação do meio marinho global
Má qualidade do ar local Contaminação do meio marinho local
PROBLEMA CENTRAL
Emissões de CO2 provenientes das embarcações de navegação doméstica das Fiji
CAUSAS
Importação de navios a combustíveis fósseis
Forte dependência do transporte marítimo Fraca capacidade industrial dos estaleiros navais Carência de fontes e de navios a energias limpas
Arquipélago formado por várias ilhas Falta de capacidade de construção naval Falta de capacidade de serviços e de manutenção Falta de competências profissionais

Quadro 1 – Definição do problema; Fonte: elaboração própria

3.2. DIAGNÓSTICO

A construção do diagnóstico foi possível graças ao recurso de duas importantes ferramentas: a revisão de literatura, documentos e dados disponíveis, incluindo a consulta do próprio ‘Mitigation Plan for the Maritime Transport Sector in Fiji’; e a construção e análise de uma Matriz SWOT do território de atuação.

Para começar, foi elaborado um enquadramento geográfico do Arquipélago das Fiji, de forma a ter uma noção do território de atuação do projeto. Seguidamente, foram recolhidos dados económicos, de forma as conhecer as atividades com peso económico nas Fiji, mais concretamente o peso do setor do transporte marítimo. Também foram recolhidos dados relativos ao estado ambiental do território, incluindo das emissões provocadas pelas embarcações. Uma análise social não foi descurada deste trabalho, procurando, assim, conhecer as características da sua população, uma vez que esta consiste numa “peça” componente e imprescindível do território.

Map

Description automatically generated Relativamente ao seu enquadramento geográfico, o Arquipélago das Fiji localiza-se no Oceano Pacífico e conta com mais de 18.000 km2 de área e com mais de 1.000 km de linha de costa (Dados Mundiais, s.d.). Este é formado por 9 ilhas de maior dimensão e, ainda, por centenas de ilhéus e atóis (Enciclopédia Global, 2022). A capital, designada por Suva, situa-se na zona sudeste litorânea da ilha Viti Levu, como é possível visualizar da Figura 1.

Figura 1 – Mapa do Arquipélago das Fiji; Fonte: Depositphotos, 2022

Entrando num âmbito económico, este país apresenta uma economia muito desenvolvida em comparação com as restantes ilhas do Oceano Pacífico, todavia exibe vulnerabilidade a situações de catástrofes naturais (Standard Bank, 2022). A presença do ciclone Winston, em 2016, mostrou-se muito prejudicial para o país, levando a perdas económicas estimadas à volta de 28% do seu PIB (Standard Bank, 2022). Em 2021, o PIB nacional correspondia a, aproximadamente, 5.000 milhões de dólares americanos, tendo exibido um crescimento de 3% (UNCTADSTAT, 2022). O PIB per capita situa-se à volta dos 5.500 dólares, tendo exibido crescimento ao longo dos anos (UNCTADSTAT, 2022).

A blue and white box with white text

AI-generated content may be incorrect. Relativamente a setores económicos, é possível verificar na Figura 2 que a agricultura possui um forte peso na economia fijiana, contribuindo para mais de 17% do emprego do país e para perto de 15% do PIB (Standard Bank, 2022). O setor da indústria também exibe um peso considerável na economia, empregando mais de 14% da sua população e representando perto de 18% do PIB (Standard Bank, 2022), sendo que a indústria transformadora se apresenta como um setor de relevo e em crescimento (Embassy of the Republic of Fiji, s.d.). Por fim, o setor terciário é aquele o que apresenta um maior peso, empregando mais de 68% da população e contribuindo para 52% do PIB (Standard Bank, 2022). Este forte peso deve-se ao turismo que consiste num dos principais impulsionadores da economia fijiana (Embassy of the Republic of Fiji, s.d.).

Figura 2 – Distribuição da atividade económica por setor; Fonte: Standard Bank, 2022

A number on a white background

AI-generated content may be incorrect. A nível de mercado internacional de mercadorias, o país tem demonstrado, ao longo dos anos, uma balança comercial negativa, sendo 2021 um ano onde esta situação é bastante notória (Figura 3).

Figura 3 – Balança comercial de mercadorias; Fonte: UNCTADSTAT, 2022

Map

Description automatically generated with medium confidence Sendo um país totalmente rodeado por mar, possui uma vasta Zona Económica Exclusiva (Figura 4) com uma área de cerca de 1.290.000 km2 (Fishery Management, s.d.). Além disso, o transporte marítimo acaba por ter um forte peso nas suas relações comerciais, sendo que, em 2021, os seus serviços conferiram às Fiji perto de 800 milhões de dólares (UNCTADSTAT, 2022). Focando na frota marítima, em 2021, as Fiji possuíam 74 navios a arvorar a sua bandeira, correspondendo estes a um total de 73.000 DWT[1] (UNCTADSTAT, 2022). A nível de entradas nos seus portos, as Fiji contaram, em 2021, com um total de 1.335 navios, exibindo um volume médio de 9.630 GT[2] (UNCTADSTAT, 2022).

Figura 4 – Zona Económica Exclusiva das Fiji; Fonte: Grid Arendal, 2019

A Figura 5 expõe as categorias do transporte marítimo das Fiji inerentes à navegação quer doméstica, quer internacional (MCST & USP, 2017). Embora todas estas categorias do transporte marítimo sejam igualmente imprescindíveis para o país, cada uma delas apresenta diferentes características que lhes concedem distinção quer em termos regulamentares, quer em termos tecnológicos (MCST & USP, 2017).

A list of cargo and passenger

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Figura 5 – Categorização das atividades de transportes marítimos; Fonte: MCST & USP, 2017

Entrando num âmbito social, a população total correspondia, em 2021, a perto de 903.000, com um crescimento anual de 0.7% e com 58% desta a residir em áreas urbanas (The World Bank, 2022). Em 2019, a esmagadora maioria da população encontrava-se inserida em faixas etárias mais jovens: com cerca de 43% com menos de 25 anos; e com cerca de 41% entre os 25 e os 54 anos (Index Mundi, 2020).

Em 2019, cerca de 1.3% da população encontrava-se numa situação de pobreza e, em 2021, 5.2% desta encontrava-se desempregada (The World Bank, 2022). Em 2017, o número de emigrantes superou bastante o número de imigrantes, conferindo-lhe um saldo migratório negativo de -31.000 (The World Bank, 2022). Em contrapartida, as Fiji apresentaram um elevado Índice de Desenvolvimento Humano de 0.743, em 2019, e uma taxa de alfabetização de cerca de 99.1%, em 2017 (Countryeconomy, s.d.).

Entrando num âmbito ambiental, apenas 1% do território das Fiji, incluindo o terrestre e o marinho, corresponde a áreas protegidas (The World Bank, 2022). Além disso, este país apresenta uma forte vulnerabilidade às alterações climáticas, designadamente à prevista subida do nível do mar (Climate Central, 2022). “Prevê-se que os mares subam 30 centímetros até 2050, independentemente da redução das emissões globais de carbono.” (National Geographic, 2022). Através da leitura da Figura 6, é possível verificar que várias áreas do território costeiro ficarão afetadas (marcadas a vermelho), caso o nível do mar aumente os previstos 30 centímetros.

A map of the world

AI-generated content may be incorrect.Figura 6 – Áreas afetadas pela subida do nível do mar; Fonte: Climate Central, 2022

A screenshot of a computer

AI-generated content may be incorrect. A Figura 7 permite analisar a capacidade de produção das Fiji, relativamente às várias fontes de energia (caso estivessem reunidas as condições para tal) e à sua real participação, sendo esta última de apenas 31% (Dados Mundiais, s.d.). É visível que, no seio das várias fontes de energia, a hidroelétrica, seguida da energia fóssil e da energia renovável, é quem lidera ao nível do peso de capacidade de produção do país (Dados Mundiais, s.d.).

Figura 7 – Capacidade de produção e participação nas fontes de energia;

Fonte: Dados Mundiais, s.d.

É preocupante o decréscimo que se tem verificado, ao longo das décadas, ao nível da produção energética do país, através de fontes de energias renováveis: em 1990, estas representavam mais de 50% do consumo energético total do país (Dados Mundiais, s.d.). Esta situação transmitiu-se no total de emissões de CO2 que, em 2019, corresponderam a cerca de 1.6 milhões de toneladas (The World Bank, 2022), o que aparentemente não é um valor muito elevado se comparado a países mais ricos. No entanto, se recuarmos a 1990 verificarmos que as emissões de CO2 eram bastante mais reduzidas, representando à volta de 0.75 milhões de toneladas (The World Bank, 2022).

A graph with different colored bars

AI-generated content may be incorrect. Focando na frota marítima das Fiji, através da leitura da Figura 8, é possível verificar uma estimativa da quantidade (em kt) e peso das emissões de CO2 por parte das várias categorias de embarcações de navegação doméstica, tendo estas totalizado, em 2016, cerca de 227 kt (MCST & USP, 2017). Esta estimativa apresenta algumas incertezas, devido à escassez de dados disponíveis – representando este um ponto negativo, pela importância da monitorização dos valores das emissões no processo de implementação das medidas de mitigação (MCST & USP, 2017).

Figura 8 – Estimativa das emissões de CO2 da navegação doméstica; Fonte: MCST & USP, 2017

No âmbito da limitação do aquecimento global, o Acordo de Paris, com entrada em vigor em 2016, estipulou o objetivo de “(…) manter o aumento da temperatura média mundial bem abaixo dos 2°C em relação aos níveis pré-industriais e em envidar esforços para limitar o aumento a 1,5 °C.” (Concelho Europeu, 2022). E, para tal, é necessária a redução drástica das emissões de GEE aliada a uma descarbonização, a longo prazo (MCST & USP, 2017). No âmbito deste Acordo, os países apresentaram planos de ação focados na redução das suas emissões (Concelho Europeu, 2022), sendo que as Fiji se encontram, atualmente, no processo de revisão do seu primeiro plano (MCST & USP, 2017). As Fiji possuem, também, políticas e planos estratégicos focados no setor do transporte marítimo e nas alterações climáticas (MCST & USP, 2017).

Para finalizar o diagnóstico, com o auxílio da primeira ferramenta utilizada, e também através da ferramenta de definição do problema (construída no ponto anterior), foi elaborada uma Matriz SWOT (Quadro 2). Esta matriz tem, como objetivo, uma caracterização estruturada das Fiji (a partir da informação recolhida do diagnóstico elaborado e do plano de mitigação disponibilizado), servindo como uma ferramenta de auxílio para a elaboração da sua análise.

STRENGHTS WEAKNESSES
Forte peso da população jovem Saldo migratório negativo
Elevado Índice de Desenvolvimento Humano Balança comercial de mercadorias negativa
Elevada taxa de alfabetização Forte dependência do transporte marítimo
Extensa Zona Económica Exclusiva Fraca capacidade industrial naval
Políticas e planos estratégicos voltados para os transportes marítimos e alterações climáticas Fraca produção de energias renováveis
Escassez de dados de emissões das embarcações
OPORTUNITIES THREATS
Turistas internacionais Catástrofes naturais (ciclones)
Objetivo do Acordo de Paris Alterações climáticas
Regulamentos da IMO para a sustentabilidade do transporte marítimo Aumento do nível do mar
Situações pandémicas
Objetivo de redução das emissões por parte das Ilhas Marshall Existência de ilhas próximas (Ilhas Marshall, Ilhas Salomão, Tuvalu, Vanuatu, etc.)
Aumento do preço dos combustíveis Aumento do preço dos combustíveis

Quadro 2 – Matriz SWOT; Fonte: elaboração própria

O forte peso de população jovem, assim como o elevado Índice de Desenvolvimento Humano e taxa de alfabetização, consiste num ponto positivo para um país que pretenda uma força de trabalho qualificada, nomeadamente perante o facto de que muitos habitantes emigram e poucos vêm para os substituir (o saldo migratório negativo ilustra bem essa situação). A extensa Zona Económica Exclusiva apresenta-se benéfica, na medida em que permite a execução de um conjunto de atividades marítimas (como a pesca), que poderão ser uma mais-valia para a economia do país.

A existência de políticas e planos estratégicos voltados para os transportes marítimos e para as alterações climáticas evidencia já a ambição do país por se tornar cada vez mais sustentável. Este ponto é bastante importante, tendo em conta o objetivo do governo das Fiji de redução das emissões de CO2, em 30%, até 2030 (MCST & USP, 2017).

A balança comercial de mercadorias negativa não é um ponto favorável para a economia nacional, nomeadamente pelo facto de os combustíveis e os navios importados fazerem parte da equação: a forte dependência do transporte marítimo, associada à fraca capacidade industrial e à fraca produção energética, não permitem que esta situação seja diferente.

Apesar disso, a presença de turistas internacionais, que reconhecem as Fiji como um destino de férias de excelência, contribuem para a entrada de divisas no país, impulsionando a sua economia. Ao nível da sustentabilidade, a existência do grande objetivo do Acordo de Paris, assim como as diretrizes presentes nos regulamentos da International Maritime Organization (IMO) para a sustentabilidade do transporte marítimo, consistem em duas oportunidades para estimular as Fiji a implementarem medidas que cumpram as mesmas (apesar da escassez de dados relativos às emissões das embarcações não contribuírem, de todo, para a sua monitorização). Também o objetivo ambicioso das Ilhas Marshall de redução, em 27%, das emissões de GEE, com origem no transporte marítimo, até 2030 (MCST & USP, 2017), consiste numa oportunidade para as Fiji, na medida em que a estimula, por competição, a trabalhar para um mesmo objetivo.

Existem ainda ameaças externas difíceis de controlar, estando, entre elas, as catástrofes naturais (como os ciclones) que prejudicam fisicamente o território e, consequentemente, a sua economia. As alterações climáticas e a consequente subida do nível da água do mar constituem outra ameaça que, se nada for feito para as mitigar, com certeza afetarão o país. Situações pandémicas, como o Covid-19, são altamente prejudiciais, nomeadamente para países cuja economia depende fortemente do turismo, como o caso das Fiji. A existência de outras ilhas nas suas próximas, com características naturais semelhantes (como as Ilhas Marshall, Ilhas Salomão, Tuvalu, Vanuatu, etc.), poderão mostrar-se adversárias no âmbito do turismo.

Também o aumento do preço dos combustíveis é algo que prejudica economicamente os países que necessitam de o importar, como são exemplo as Fiji. No entanto, este último ponto pode ser olhado também como uma oportunidade, na medida em que estimulará o país a procurar fontes alterativas de energia e até a investir na sua produção, contribuindo para a sua independência energética.

ANÁLISE DE STAKEHOLDERS

De forma a melhor caracterizar as partes envolvidas no projeto, foi construída uma matriz de identificação dos seus stakeholders (Quadro 3) e a posterior matriz de influência e interesse dos mesmos (Quadro 4).

STAKEHOLDER Posição face a mudanças desejadas e problemas identificados Pretensões e ofertas por parte do projeto Áreas em que apoia o projeto
População fijiana Grupo-alvo que beneficiará de uma melhor qualidade do ar, caso as medidas do plano de mitigação se concretizem Melhoria da qualidade do ar, caso as medidas do plano de mitigação se concretizem Aceitação das mudanças
University of the South Pacific Criação de medidas de mitigação das emissões do transporte marítimo Implementação das medidas do plano Desenvolvimento do plano; financiamento
University College London Desenvolvimento do plano
Governo das Fiji Posse de parte das embarcações alvo de mudança; e aprovação e implementação das medidas do plano de mitigação Redução das emissões do transporte marítimo Decisões políticas; e disponibilização de dados relevantes
Operadores privados portuários e de transportes marítimos Posse das infraestruturas portuárias e de embarcações alvo de mudança Auxílio na mudança da composição das embarcações Mudança da composição das suas infraestruturas e embarcações
ONU Criação do Acordo de Paris Auxílio para o cumprimento do Acordo de Paris Estímulo indireto através do Acordo de Paris
IMO Criação de regulamentos para a sustentabilidade do transporte marítimo Auxílio para o cumprimento dos regulamentos Estímulo indireto através de regulamentos
Governo das Ilhas Marshall _ _ Estímulo indireto através da sua busca por baixas emissões

Quadro 3 – Matriz de identificação dos stakeholders; Fonte: elaboração própria

INTERESSE ALTA População fijiana University of the South Pacific; University College London; Governo das Fiji; e operadores privados portuários e de transportes maríitmos
BAIXA Governos das Ilhas Marshall ONU; IMO
BAIXA ALTA
INFLUÊNCIA

Quadro 4 – Matriz de influência e interesse dos stakeholders; Fonte: elaboração própria

Como é possível constatar, através da leitura dos quadros anteriores, existem stakeholders – ONU, IMO e Governo das Ilhas Marshall – que não apresentam uma participação direta no âmbito deste projeto. No entanto, os objetivos internacionais lançados pela ONU e IMO poderão, de certa forma, influenciar a persecução dos objetivos inerentes a este projeto, por parte das Fiji. O mesmo se verifica com as Ilhas Marshall que, apesar de aparentemente possuir um baixo interesse e influência neste projeto, a verdade é que o objetivo de redução das emissões, por parte das mesmas, poderá incentivar as Fiji a perseguir o mesmo objetivo (motivada pela competição e consequente reconhecimento internacional).

OBJETIVOS, ATIVIDADES E INDICADORES

O Quadro 5 transmite o objetivo geral e os objetivos específicos do projeto, assim como as atividades e indicadores inerentes ao seu alcance. Relativamente às atividades expressas no quadro, estas correspondem a medidas acionáveis presentes no plano de mitigação (MCST & USP, 2017). Tendo em conta que este projeto se define por um plano de mitigação abrangente que “abraça” várias componentes inerentes ao setor marítimo doméstico, foi somente selecionada e analisada detalhadamente uma delas: a propulsão eólica, como já foi mencionado anteriormente.

OBJETIVO GERAL Redução das emissões de CO2 provenientes da navegação doméstica das Fiji
OBJETIVOS ESPECÍFICOS [O1] Sustentabilidade da frota de navegação doméstica e das respetivas infraestruturas
[O2] Qualificação profissional do setor da industrial naval
[O3] Sensibilização social e engajamento internacional, no âmbito das alterações climáticas
ATIVIDADES [A1] Aquisição de uma frota constituída por pequenas embarcações movidas pela força do vento (veleiros)
[A2] Aquisição de embarcações com tecnologia de propulsão eólica
[A3] Lançamento de programas de formação e de sensibilização, no âmbito da transição energética
[A4] Investimento em infraestruturas de manutenção e de serviços para os navios
[A5] Estabelecimento de prioridades políticas e de liderança estratégica alinhadas com os objetivos de transição energética
INDICADORES [I1] Substituição da frota de embarcações, em 5%, ao ano
[I2] Equipamento de novas embarcações com velas, em 50%, em 2025

Quadro 5 – Objetivos, atividades e indicadores; Fonte: elaboração própria

MATRIZ DO QUADRO LÓGICO

O Quadro 6 expressa a Matriz do Quadro Lógico, onde se encontram detalhados os indicadores, os meios de verificação e os pressupostos importantes relativos ao objetivo geral do projeto, aos objetivos específicos, aos resultados e às atividades.

Lógica da intervenção Indicadores objetivamente comprováveis Meios de verificação Pressupostos importantes
OBJETIVO GERAL Redução das emissões de CO2 provenientes da navegação doméstica das Fiji _ Dados disponibilizados pelo governo e pelos operadores privados _
OBJETIVOS ESPECÍFICOS [O1] [I1] [I2] Dados disponibilizados pelo governo e pelos operadores privados Operadores privados portuários e de transportes marítimos abertos à mudança das suas infraestruturas e embarcações; epermanência do Governo das Fiji no poder
[O2] _
[O3] _ Dados disponibilizados pelo governo
RESULTADOS [I1] [I2] _ Dados disponibilizados pelo governo e operadores privados Colaboração do governo e dos operadores privados portuários e de transportes marítimos em disponibilizar dados para a monitorização dos resultados
ATIVIDADES [A1] [A2] [A3] [A4] [A5] Custos totais estimados em 13.5 milhões de dólares fijianos, excluindo os custos referentes a atividades difíceis de estimar Acesso a financiamento
CONTRIBUTOS _ _ _ Objetivo do governo das Fiji de reduzir as emissões de CO2, em 30%, até 2030

Quadro 6 – Matriz do Quadro Lógico; Fonte: elaboração própria

TEORIA DA MUDANÇA

O Quadro 7 expõe a teoria da mudança referente ao projeto, incluindo a mudança desejada, assim como a visão de longo-prazo e as visões a curto e médio prazo desejadas para a alcançar, e as pré-condições de alto-nível que auxiliam a sua concretização.

MUDANÇA DESEJADA
Neutralidade carbónica do setor dos transportes marítimos domésticos das Fiji
VISÃO DE LONGO-PRAZO DESEJADA
Redução das emissões de CO2 provenientes das embarcações de navegação doméstica das Fiji
VISÕES DE CURTO / MÉDIO-PRAZO DESEJADAS
Frota de navegação doméstica e respetivas infraestruturas sustentáveis
Colaboradores do setor da indústria naval qualificados
Posse de uma sociedade consciencializada e de engajamento internacional, no âmbito das alterações climáticas
PRÉ-CONDIÇÕES DE ALTO-NÍVEL
Aquisição de uma frota constituída por embarcações movidas a propulsão eólica e de infraestruturas compatíveis Lançamento de programas de formação e de sensibilização, no âmbito da transição energética Estabelecimento de prioridades políticas e de liderança estratégica alinhadas com os objetivos de transição energética

Quadro 7 – Teoria da Mudança; Fonte: elaboração própria

PLANO MEAL: MONITORIZAÇÃO, AVALIAÇÃO, RESPONSABILIZAÇÃO E APRENDIZAGEM

Através do Quadro 8 é possível verificar o plano MEAL, isto é, o plano que abrange os fatores de monitorização, avaliação, responsabilização e aprendizagem. Neste quadro constam os resultados a monitorizar, os critérios subjacentes, as ferramentas a utilizar, a frequência do uso dessas ferramentas e os responsáveis no âmbito do projeto.

RESULTADOS A MONITORIZAR CRITÉRIOS FERRAMENTAS A UTILIZAR FREQUÊNCIA DO USO DA FERRAMENTA RESPONSÁVEIS
Elevado uso de novas embarcações de navegação doméstica, em detrimento de embarcações antigas Substituição da frota de embarcações, em 5%, ao ano Inquéritos e entrevistas ao governo e aos operadores privados A cada 6 meses University of the South Pacific; e University College London
Uso de propulsão eólica em embarcações de navegação doméstica Equipamento de novas embarcações com velas, em 50%, em 2025

Quadro 8 – Plano MEAL; Fonte: elaboração própria

A utilização de dados disponibilizados pelo governo e operadores privados é imprescindível para a monitorização dos resultados inerentes ao projeto. No entanto, existe o forte risco de estes não poderem ser disponibilizados e, por isso, os responsáveis pelo projeto devem proceder a fontes de informação alternativas: como a elaboração de inquéritos a entidades governamentais e aos operadores privados de transportes marítimos e portuários, relativamente à sua nova frota e desenvolvimento das respetivas infraestruturas fornecedoras de manutenção e de serviços. Os inquéritos são úteis na elaboração de questões de resposta fechada e no posterior tratamento de informação e respetiva análise, incluindo estatística. Mas, para a elaboração de questões mais complexas e de resposta aberta, as entrevistas são a escolha ideal como ferramenta de coleta de informação.

Por forma a ter uma melhor noção da persecução dos resultados pretendidos, foi elaborada uma calendarização dos mesmos (Quadro 9). No âmbito desta, é possível, agregando a informação adquirida por meio das ferramentas – dados disponibilizados pelo governo e operadores privados, inquéritos e entrevistas –, verificar, futuramente, se os resultados pretendidos estão, de facto, a ser alcançados. Os critérios foram estabelecidos com uma perspetiva de alcance anual “step-by-step”. O critério relativo ao equipamento de novas embarcações com velas tem, como objetivo final, possuir, em 2025, 50% das embarcações equipadas (MCST & USP, 2017). Ou seja, o ano de 2024 servirá para trabalhar nesse sentido para que, no ano de 2025, se possa verificar esse resultado.

CRITÉRIOS 2020 2021 2022 2023 2024
Substituição da frota de embarcações 5% 10% 15% 20% 25%
Equipamento de novas embarcações com velas 10% 20% 30% 40% 50%

Quadro 9 – Calendarização dos resultados; Fonte: elaboração própria

Embora os marcos dos resultados tenham sido estabelecidos anualmente, a sua monitorização num período temporal de 6 meses será crucial, na medida em que tornará possível a verificação do seu “andamento”. Por exemplo, em meados do ano 2023, mais concretamente no início do mês de julho, poderá ser avaliado se os critérios: da substituição da frota de embarcações denotou um alcance de 2.5%, face ao início do mês de janeiro do mesmo ano; do equipamento de novas embarcações com velas exibiu um aumento em 5%, face ao verificado no início do mês de janeiro do mesmo ano.

Ou, de forma semelhante e tomando como exemplo o ano de 2023, a avaliação poderá ser feita, para ambos os critérios, tendo em consideração o alcance face ao início da implementação das ações. Mais concretamente, poderá ser verificado no início do mês de julho se: a substituição da frota de embarcações sofreu um aumento de 15%, face ao início de janeiro de 2020; o equipamento de novas embarcações com velas demonstrou um crescimento de 35%, face ao início de janeiro de 2020.

Caso a verificação dos resultados, ao longo do processo, não seja favorável, devem ser reunidos esforços para que o alcance dos mesmos seja exequível: seja por meio de um maior desempenho de tarefas conjuntas entre os stakeholders do projeto, seja por meio de pressão aos operadores privados e ao governo fijiano, recorrendo, para tal, a campanhas de sensibilização. O ano de 2025 será o ideal para efetuar uma avaliação mais geral do projeto, isto é, verificar se os esforços reunidos durante os anos antecedentes foram produtivos para o alcance dos resultados perspetivados como um todo. E, caso os resultados não tenham vingado como esperado, será importante encarar a situação como uma aprendizagem e, daí, retirar lições que possam servir de melhoria para futuros projetos do mesmo âmbito.

ANÁLISE DE RISCO

O Quadro 10 exibe os riscos que poderão interferir no sucesso do projeto, incluindo a análise da sua probabilidade de ocorrência, do seu nível de impacto, caso ocorram, e o plano de resposta com medidas para os mitigar.

RISCO PROBABILIDADE IMPACTO PLANO DE RESPOSTA
Falta de disponibilização de dados necessários para o projeto Alta Alto A equipa do projeto deve procurar, desde início, conceber dados, sem depender totalmente do governo e dos operadores privados, para tal
Resistência à mudança por parte dos operadores privados portuários e de transportes marítimos Média Alto Diálogo e partilha dos resultados do projeto com os operadores, de forma a expor as vantagens da mudança
Desmotivação do governo das Fiji em perseguir o objetivo de reduzir as emissões de CO2, em 30%, até 2030 Baixo Médio Procurar estabelecer parcerias com entidades internacionais, de modo a estimular o Governo das Fiji na persecução do seu objetivo
Resistência da população fijiana à transição energética Baixo Baixo Reforço de campanhas de sensibilização relativas às alterações climáticas

Quadro 10 – Análise de risco; Fonte: elaboração própria

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A intensa análise do projeto ‘Mitigation Plan for the Maritime Transport Sector in Fiji’ permitiu compreender o quão importante e completo este se trata no âmbito das alterações climáticas. As Fiji têm consciência da sua forte dependência pelo transporte marítimo e da sua insustentabilidade. E, devido a isso, pretendem usá-lo como um instrumento de auxílio para o alcance da ambiciosa meta estabelecida relativa à redução de emissões, ao convertê-lo à sustentabilidade. A elaboração do diagnóstico permitiu perceber que se trata de uma nação com vários potenciais e, também, vontade com de remar contra as perigosas alterações climáticas que ameaçam não só o seu território, mas também o Mundo.

Existem vários stakeholders envolvidos no projeto, mas é possível verificar que a University of the South Pacific e a University College London, e de certa forma o governo, são quem toma as rédeas. Os operadores privados apresentam alguma incerteza quanto à sua colaboração o que é compreensível, uma vez que se trata de um projeto novo que irá provocar uma alteração de 180º na sua estrutura empresarial. Por vezes, mergulhar no desconhecido não é algo fácil, todavia o facto do governo deter algumas das embarcações domésticas, que poderão ser convertidas primeiramente, poderá contribuir para a posterior aceitação dos restantes operadores.

Apesar do plano de mitigação abranger várias componentes intrínsecas à transição energética do setor de navegação doméstica, onde se verificam inúmeras atividades e indicadores inerentes, apenas foi analisada a componente referente à propulsão eólica que, ela própria, também possui atividades e indicadores arrojados – designadamente, percentagens ambiciosas de conversão da frota e de inserção de velas nas suas embarcações, num período temporal de 5 anos.

A Matriz do Quadro Lógico e a Teoria da Mudança foram utilizadas, no âmbito do presente trabalho, como ferramenta de análise do projeto. E, apesar da Teoria da Mudança ser mais “maleável”, dando espaço à criatividade e à inclusão e variadas perspetivas, e portadora de pré-condições de alto nível e de visões desejadas sequenciadas importantes para a análise, a Matriz do Quadro Lógico aparenta ser a mais adequada no âmbito deste projeto. Este plano de mitigação engloba várias componentes e, embora apenas uma delas tenha sido alvo de análise, ela própria apresenta atividades e indicadores que pedem uma análise mais fria, linear e lógica. Além disso, o elevado detalhe com que o projeto é analisado, por meio da Matriz do Quadro Lógico, permite ter uma maior noção das partes envolvidas e dos pontos em que a sua colaboração será imprescindível para o bom funcionamento do projeto.

Embora a rejeição da população fijiana, quanto às medidas do plano de mitigação, não comprometa o sucesso do projeto, a sua aceitação apresenta-se relevante. A permanência do governo fijiano no poder possui inerente uma votação favorável, por parte da sua população. Visto isto, uma população satisfeita com as medidas do governo, em busca de uma transição energética, proporcionará a que este se mantenha no “comando” e, consequentemente, que possa tornar possível a continuidade do projeto ou que, futuramente, possa estar à vontade para criar políticas ou aderir a novos projetos com vista ao combate às alterações climáticas.

A elaboração de reuniões com determinados grupos da sociedade e a apresentação do projeto, assim como dos seus resultados, em workshops poderá demonstrar-se benéfico para cativar o apoio da sociedade, assim como dos operadores privados portuários e dos transportes marítimos. Embora a população no geral não possua uma relação direta com as medidas que envolvem o setor da navegação doméstica, os meios de comunicação utilizados poderão servir como forma de sensibilização para que elas, mesmo no seu quotidiano, comecem a aderir a comportamentos mais sustentáveis e, assim, contribuam no combate às alterações climáticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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  1. Deadweight tonnage’ (DWT) corresponde à medida do peso que um navio consegue transportar (Safety4sea, 2021).
  2. Gross tonnage’ (GT) corresponde à medida do volume de um navio (Safety4sea, 2021).

Exemplo prático da malvadez de Lenine: uma descrição do financiamento dos bolcheviques

“Todas as forças políticas necessitavam de dinheiro, mas a insistência dos bolcheviques em que seus membros dedicassem todo o seu tempo ao partido impunha-lhes exigências económicas excepcionalmente grandes, porque significava que os seus quadros – à diferença dos mencheviques, que se mantinham pelo trabalho autónomo – deviam depender de subsídios entregues pela tesouraria do partido. Lenin também necessitava de dinheiro para ganhar o duelo aos seus rivais mencheviques, que à data tinham mais seguidores. Os bolcheviques obtinham o dito dinheiro de diversas maneiras, algumas convencionalmente, outras de forma muito pouco convencionais. Uma das fontes eram os simpatizantes endinheirados, como o excêntrico industrial milionário Savva Morózov, que encaminhava 2000 rublos ao mês para as finanças bolcheviques. Após o seu suicídio na Ribeira francesa, a esposa de Maxim Gorki, que figurava como testamenteira na política do seguro de vida de Morózov, encaminhava outros 60000 rublos da sua própria herança aos bolcheviques. Haviam outros doadores, entre eles o próprio Gorki; um agrónomo chamado A. I. Yeramasov; Aléxander Tsiurupa, que administrava as finanças da província de Ufa (em 1918 seria comissário dos abastecimentos de Lenin); Alexandra Kalmíkova, viúva de um senador e amiga íntima de Piotr Struve; a atriz Vera F. Komisarzhévskaya e vários outros cuja identidade se desconhece até hoje. Por esnobismo, estes patrocinadores subsidiavam uma causa que era fundamentalmente contrária aos seus interesses: na época, escreve Leonid Krasin, muito chegado a Lenin, `nos círculos mais ou menos radicais ou liberais considerava-se de bom tom dar dinheiro aos partidos revolucionários, e entre os que pagavam regularmente quotas de 5 a 25 rublos haviam não só notáveis advogados, engenheiros e médicos, como também diretores de bancos e funcionários de instituições governamentais´. A administração da tesouraria bolchevique, que era independente da caixa comum socialdemocrata, estava em mãos de um `centro´ constituído em 1905 e composto por três homens: Lenin, Krasin e Alexánder A. Bogdánov. A sua própria existência era ignorada pelas bases bolcheviques. Mas as dádivas dos burgueses arrependidos resultavam ineficientes, e a começos de 1906 os bolcheviques recurreram a métodos menos respeitáveis, que parecem haver-lhes sido inspirados pela Vontade do Povo [movimento terrorista russo] e pelos maximalistas socialistas revolucionários. No desenlace, grande parte dos seus fundos procederam da atividade criminal, em especial roubos, conhecidos sob o eufemismo de `expropriações´. Em incursões violentas, roubavam oficinas de correios, estações ferroviárias, comboios e bancos. Num célebre assalto ao Banco do Estado em Tbilisi (Jun/1907) alçaram-se 250000 rublos, uma boa parte deles em notas de 500 cujos números de série estavam registados. A soma do roubo destinou-se à tesouraria bolchevique. Posteriormente, vários indivíduos que tentaram realizar o câmbio das notas roubadas na Europa foram presos; todos (entre eles o futuro ministro soviético dos Assuntos Externos, Maxim Litvinov) eram bolcheviques. O Partido Socialdemocrata expulsou Stalin das suas fileiras, que havia coordenado a operação, e a alguns outros participantes. Ignorando a resolução dos congressos do partido celebrados em 1907, que condenavam essas atividades, os bolcheviques seguiram a perpetrar roubos, às vezes em colaboração com os socialistas revolucionários. Desta maneira conseguiram acumular grandes somas, que lhes deram uma vantagem considerável sobre os mencheviques, sempre curtos de efetivo. Segundo Mártov, os ingressos obtidos com estes delitos permitiam aos bolcheviques enviar às suas organizações de S. Petersburgo e Moscovo 1000 e 500 rublos ao mês, respetivamente, em um momento em que os ingressos mensais legítimos da tesouraria socialdemocrata não superavam os 100 rublos. Tão pronto como se secou aquele afluxo de fundos, coisa que ocorreu em 1910 quando os bolcheviques tiveram de entregar o dinheiro a três socialdemocratas alemães encarregados de administrá-lo, os seus comitês russos desvaneceram-se no ar. A direção-geral destas operações secretas estava em mãos de Lenin, mas o principal comandante de campo e tesoureiro eram Krasin, chefe do chamado Grupo Técnico. Engenheiro de profissão, levava uma vida dupla; na aparência um respeitável homem de negócios (trabalhava para Morózov, assim como para as empresas alemãs AEG e Siemens-Schuckert – talvez não seja fortuito o facto da Siemens, a empresa electrónica alemã, o empregar. Segundo o chefe da contrainteligência russa em 1917, a firma alemã utilizara as suas filiais com fins de espionagem, o qual motivou o encerramento da sua oficina no sul da Rússia), no seu tempo livre dirigia a clandestinidade bolchevique. Entre as suas tarefas estava a de coordenar um laboratório secreto para fabricar bombas, uma das quais se utilizou no assalto de Tbilisi. Em Berlim também dirigiu uma operação de falsificação de notas de três rublos Envolveu-se no tráfico de armas, às vezes por motivos meramente económicos, a fim de obter dinheiro para a tesouraria bolchevique. Em ocasiões, o Grupo Técnico faziam acordos com delinquentes comuns, por exemplo, com a mal afamada banda Lbov que atuava nos Urais, a quem vendeu armas pelo valor de vários centos de milhares de dólares. Inevitavelmente, estas atividades atraíram às fileiras bolcheviques a elementos penumbrosos que utilizavam a `causa´ como pretexto para levar uma vida criminosa. O chamado caso Schmit mostra até onde estava Lenin disposto a chegar a fim de conseguir dinheiro para a sua organização. Nikolái P. Schmit, um rico fabricante de móveis relacionado como Morózov, morreu em 1906 – aparentemente suicidou-se – enquanto esperava ser julgado por haver financiado a compra de armas utilizadas no levantamento moscovita de Dezembro do ano anterior. Não deixou testamento, mas havia dito a Gorki e outros amigos que queria que a sua fortuna, ao redor de 500000 rublos, se entregasse aos social-democratas. Esta disposição não era válida para a lei porque o partido, ao ser ilegal, não podia ser beneficiário de um legado. O dinheiro, portanto, correspondia ao parente mais próximo, um irmão menor de idade. Dispostos a impedir que o património de Schmit fosse desperdiçado pelos herdeiros ou terminasse na tesouraria social-democrata, os bolcheviques decidiram, em reuniões lideradas por Lenin, a apoderar-se dela por qualquer meio. Não tardou a convencer o irmão adolescente a renunciar à herança em prol das suas duas irmãs. Depois, trataram-se planos para que dois bolcheviques seduzissem as herdeiras e casassem com elas. A mais jovem, também menor de idade, casou-se com brutamontes bolchevique chamado Víctor Taratura, mas para enganar a polícia concertou-se um segundo matrimónio, fictício, com um cidadão respeitável. Os 190000 rublos que a rapariga recebera de raíz da união foram para os fundos bolcheviques em Paris. A outra parte da herança de Schmit, correspondente à irmã mais velha, estava em mãos de seu esposo, outro social-democrata com tendências bolcheviques. Este, sem embargo, decidiu ficar com o dinheiro. A disputa submeteu-se a um tribunal de arbitragem socialista, que só outorgou aos bolcheviques a metade ou um terço da herança. No entanto, sob ameaças de violência física à mulher, esta persuadiu o esposo a entregar o resto da herança a Lenin. Desta maneira, o líder bolchevique conseguiu entre 235000 e 315000 rublos do património de Schmit (…)”

 –  Richard Pipes, “The Russian Revolution”

Tesouros encontrados em Tempos Passados

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Actualmente surgem relógios novos todos os dias.  Esta realidade não pertence só ao nosso tempo: sempre existiram lançamentos diários e, tal como dantes, alguns modelos permanecem enquanto outros se perdem no tempo. A diferença actual está no volume e na velocidade da comunicação. Avisar o mundo sobre o lançamento de um relógio tornou-se simples, quase imediato, e cada novidade ecoa muito mais longe do que acontecia no passado.

O Salão de Relojoaria Vintage Tempo Passado actua como uma verdadeira peneira, deixa passar apenas os relógios que conquistaram lugar no coração dos coleccionadores — aqueles que, de facto, resistiram ao tempo.

Hoje recordamos alguns tesouros descobertos nas edições anteriores do Tempo Passado. São peças que o tempo filtrou com rigor, relógios que conquistaram a admiração de todos. Estes são apenas alguns exemplos entre muitos que continuam a brilhar na memória dos coleccionadores.

Longines Nonius e Pedro Nunes

Longines Nonius

Entre os relógios que marcaram presença no Tempo Passado, poucos despertam tanta curiosidade como o Longines Nonius. Esta peça ocupa um lugar singular na história da relojoaria por ter transportado para um cronógrafo mecânico uma invenção portuguesa do século XVI: o nónio de Pedro Nunes, o maior matemático português do seu tempo. A Longines reinterpretou o princípio original — uma escala móvel capaz de permitir medições extremamente precisas — e aplicou-o a um ponteiro de décimos de segundo que continua a ser um dos mais engenhosos já criados. O resultado foi um cronógrafo ousado, tecnicamente desafiante e profundamente marcado pela época em que nasceu.

Longines Nonius
Longines Nonius

A sua evolução não foi linear. Diferentes calibres, com frequências incompatíveis entre si, obrigaram a ajustes sucessivos até se alcançar uma leitura correcta dos décimos de segundo. Só com a adopção de um movimento a 5Hz (10 alternâncias por segundo) foi finalmente possível garantir o alinhamento perfeito entre o ponteiro-Nónio e a escala fixa do mostrador. Mesmo o próprio desenho do ponteiro levantou desafios mecânicos pouco comuns, desde o peso acrescido no reset até à necessidade de evitar erros de paralaxe — questões que a patente de 1967 descreve de forma minuciosa.

É precisamente esta complexidade — histórica, técnica e conceptual — que faz do Longines Nonius um dos grandes favoritos dos coleccionadores que visitam o Tempo Passado. É um relógio que não só resistiu ao tempo, mas que continua a representar uma das mais criativas adaptações de uma invenção científica portuguesa ao mundo da relojoaria.

Os dois Omax do Tempo Passado e a linhagem do design Space-Age

OMAX
OMAX

Os dois relógios da Omax que surgiram no Tempo Passado pertencem a um capítulo muito específico da história do design relojoeiro: o período space-age, no qual várias marcas suíças procuraram traduzir o entusiasmo pela conquista espacial em objectos do quotidiano. A Omax, embora não tenha sido uma das criadoras originais do conceito Spaceman, seguiu de perto a linguagem introduzida pelas quatro marcas que de facto lançaram esses modelos: Catena, Fortis, Zeno Watch e Tressa.

Entre finais dos anos 60 e início dos 70, estas marcas produziram relógios com caixas futuristas, muitas vezes em fibra de vidro, formas inspiradas em capacetes de astronauta ou naves espaciais e mostradores minimalistas com contrastes fortes. A estética não era apenas ousada — era declaradamente futurista, alinhada com o imaginário tecnológico da época, do programa Apollo à ficção científica que influenciava arquitectura, mobiliário e moda.

É dentro deste universo que se inserem os dois Omax encontrados no Tempo Passado.

O primeiro, o diver de barras verticais, revela a aproximação da marca ao experimentalismo gráfico da década: índices em bloco, ponteiros laranja de alta visibilidade e um mostrador que parece mais um instrumento técnico do que um relógio convencional. Apesar de não ser um Spaceman formal, respira o mesmo optimismo visual — a ideia de que o design podia romper com todas as convenções.

O segundo, o Omax de caixas facetadas, aproxima-se muito mais directamente da linhagem space-age. Embora a forma exacta mude de marca para marca, reconhecem-se imediatamente os traços do movimento iniciado por Catena (o Spaceman original, desenhado por André Le Marquand), posteriormente seguido por Fortis, Zeno e Tressa: volumes esculturais, superfícies angulares, proporções ousadas e um mostrador reduzido ao essencial, apenas marcado pelo ponteiro dos segundos em laranja — um toque cromático característico da época.

OMAX - Spaceman
OMAX – Spaceman

Estes dois Omax são produtos do seu tempo, testemunhos de um momento em que a relojoaria decidiu olhar para o espaço e imaginar o futuro. E é precisamente essa mistura de audácia estética, cultura visual e história industrial que faz com que estas peças atravessem décadas e permaneçam vivas no Tempo Passado. São relógios que não existiriam noutra era — e que, por isso mesmo, resistem com distinção.

Hebdomas — oito dias de corda e mais de um século de carácter

Hebdomas
Hebdomas

Entre as descobertas mais marcantes das edições do Tempo Passado encontra-se este Hebdomas, um dos relógios de bolso mais reconhecíveis da relojoaria suíça. Criado originalmente no final do século XIX, o Hebdomas tornou-se célebre pelo seu escape exposto e, sobretudo, pela capacidade de oferecer:

oito dias de autonomia — uma façanha verdadeiramente notável para a época e um pesadelo para os relojoeiros.

O exemplar da fotografia apresenta todas as características clássicas da família Hebdomas:

– a grande abertura inferior, que revela o balanço, o rubi central e a inscrição “8 Jours”, marca distintiva da série;

– a presença do mostrador dividido em três zonas;

– o aro canelado e a caixa dourada, frequentemente associados às versões mais ornamentadas.

Os Hebdomas combinam duas coisas que, por vezes, coexistem num relógio de bolso popular: engenharia funcional de alta durabilidade e um design teatral, pensado para mostrar ao proprietário — e a quem estivesse por perto — a dança do escape e a generosidade do tambor de corda. Talvez seja por isso que continuam a aparecer em feiras, leilões e colecções privadas: porque nenhum outro relógio se parece verdadeiramente com um Hebdomas.

Quando um exemplar destes surge no Tempo Passado, a reacção é sempre a mesma: entusiasmo, reconhecimento e, quase sempre, uma história para contar — porque cada Hebdomas atravessou décadas, e muitos passaram por várias mãos, oficinas e cidades antes de chegarem à luz do dia.

Três interpretações da precisão — da complicação suíça ao rigor alemão

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Na mesa, lado a lado, surgem três relógios que representam três visões diferentes do que significa medir o tempo com precisão. É raro vê-los juntos, e talvez por isso tenham sido um dos conjuntos mais fotografados das últimas edições do Tempo Passado.

O relógio de mesa da esquerda é um BUBEN & ZORWEG, uma das casas alemãs mais prestigiadas no fabrico de relógios de mesa, cofres de luxo e objectos horológicos concebidos para coleccionadores exigentes. Fundada na década de 1990, a Buben & Zorweg ficou conhecida por unir engenharia mecânica de precisão, acabamentos de luxo, e design contemporâneo. Produziu peças que se situam entre a relojoaria e a arte decorativa.

O exemplar da fotografia apresenta um calendário completo com fases da Lua, dividido em quatro sub-mostradores: data, dia, mês e indicação lunar às 6h. A construção do mostrador, com discos prateados escovados, ponteiros azulados e escala limpa, reflecte o estilo técnico e elegante característico da marca. A caixa em madeira, polida e envernizada, reafirma o posicionamento da Buben & Zorweg no segmento alto da relojoaria doméstica — onde cada peça é tanto um instrumento como um objecto de design.

No contexto do Tempo Passado, a presença de um Buben & Zorweg acrescenta uma dimensão rara: não é apenas uma complicação tradicional — é uma expressão contemporânea da relojoaria de mesa de luxo, produzida com materiais nobres, mecanismos fiáveis e um cuidado absoluto com a apresentação.

Ao centro destaca-se o mais imediatamente reconhecível: um Erwin Sattler, fabricado em Munique. A marca alemã é uma referência absoluta na arte da relojoaria de precisão de interior, conhecida pela construção meticulosa e pela pureza dos seus mostradores. O exemplar da fotografia apresenta segundos pequenos, submostrador de reserva de marcha e uma assinatura estética característica: linhas rectas, algarismos austeros e um equilíbrio geométrico que remete directamente para a tradição alemã de cronómetros de oficina e reguladores de parede.

À direita, está um cronómetro de precisão montado numa caixa circular, com mostrador de leitura fina e ponteiros longos e delgados — um instrumento típico de laboratório, oficina ou navegação. A escala subdividida e a forma da caixa evocam os modelos usados para calibração e ensaio de movimentos, onde a leitura clara dos segundos e sub-segundos era essencial. O acabamento metálico e a janela ampla sugerem que se trata de um instrumento pensado mais para rigor do que para decoração.

Quando observados em conjunto, estes três relógios revelam uma narrativa curiosa: complicação suíça, precisão alemã e instrumentação técnica convivem lado a lado. São expressões distintas da mesma busca — a busca pela medição exacta do tempo — e mostram porque o Tempo Passado continua a atrair objectos que sobrevivem muito para além da função para a qual foram criados.

Edox Geoscope — o mundo inteiro no mostrador

Edox Geoscope
Edox Geoscope

Este é o grande Edox Geoscope! Um rasgo de criatividade sem paralelo da Edox que entretanto fez uma reedição muito aquém do modelo vintage. Viajou directamente dos anos 70 para o Tempo Passado. Lançado no auge da criatividade relojoeira pós-Apollo, é um relógio que traduz directamente o fascínio pela geografia, pela aviação comercial intercontinental e pelo imaginário da exploração global.

O elemento central é o mostrador-mapa visto a partir do Pólo Norte, representado em projecção azimutal. Este tipo de representação permite visualizar todos os continentes a partir de um ponto fixo e facilita a leitura simultânea das horas em múltiplas regiões do globo — uma escolha que mostra até que ponto a Edox estava disposta a arriscar no desenho e na funcionalidade.Edox Geoscope

A escala interior de 24 horas — alternando claro/escuro — funciona em conjunto com o mapa rotativo para apresentar um sistema de hora mundial contínua, sem necessidade de janelas, anéis múltiplos ou nomenclaturas de cidades. É um worldtimer puro, gráfico e intuitivo, onde o planeta todo participa na medição do tempo.

O ponteiro das horas, o ponteiro dos minutos e o indicador de 24 horas, todos com detalhes em laranja, reforçam a herança estética dos anos 70 e garantem contraste sobre os tons pastel e oceânicos do mapa. A caixa em aço maciço, com forma típica da era — integrada, larga, ergonomicamente curvada para o pulso — completa o carácter da peça.

Tal como o Tissot Navigator, o Zodiac Astrographic ou o Omega Dynamic, o Edox Geoscope tornou-se um dos símbolos da relojoaria experimental deste período.

Mas, entre todos, é talvez o mais marcante: não se limita a evocar uma época, apresenta literalmente o mundo no mostrador.

Encontrar um Geoscope em estado original, com bracelete integrada e cores vivas no mapa (que muitas vezes desvanecem com a luz), é cada vez mais raro. Por isso, quando aparece no Tempo Passado, transforma-se imediatamente num ponto de encontro: coleccionadores aproximam-se, apontam continentes, discutem projecções cartográficas e revisitam uma era em que a relojoaria não tinha medo de pensar — e desenhar — em grande escala.

Universal Genève Tri-Compax — “o Senhor Vintage”!

Universal Genève Tri-Compax
Universal Genève Tri-Compax

Este é o vintage dos vintage — o Universal Genève Tri-Compax. Trata-se de um dos grandes clássicos da relojoaria mecânica do século XX, um relógio que combina três complicações maiores — cronógrafo, calendário completo e fases da Lua — num mostrador equilibrado, legível e profundamente elegante. É exactamente essa combinação que lhe deu o nome: Tri-Compax, três complicações reunidas numa mesma arquitectura.

Universal Genève Tri-Compax
Universal Genève Tri-Compax

O cronógrafo assegura a medição precisa de intervalos de tempo, o calendário completo apresenta dia, mês e data em janelas e sub-mostradores dedicados, e a fase lunar acrescenta a dimensão astronómica que define as grandes complicações históricas. Esta síntese técnica tornou o modelo um dos mais admirados da relojoaria clássica e um dos mais procurados pelos coleccionadores de cronógrafos vintage.

A Universal Genève, fundada no século XIX e responsável por alguns dos cronógrafos mais importantes da primeira metade do século XX, vive hoje um momento de renovação: a marca foi adquirida pela Breitling em Dezembro de 2023 e prepara um regresso aguardado, com planos para recuperar a identidade que a tornou célebre. O Tri-Compax, naturalmente, está no centro dessa herança.

Universal Genève Tri-Compax
Universal Genève Tri-Compax

Poucos relógios representam tão bem o espírito de “Senhor Vintage” como este. O desenho harmonioso, os sub-mostradores bem proporcionados, a escala taquimétrica ao redor do mostrador e o conjunto de ponteiros clássicos criam uma presença que resume o melhor da relojoaria mecânica tradicional. É um ícone da elegância técnica, uma peça que carrega décadas de história e que continua a inspirar a relojoaria contemporânea.

Um voltímetro de bolso — quando a forma do relógio servia outras ciências

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À primeira vista, parece um relógio de bolso. Mas o mostrador denuncia imediatamente a verdade: trata-se de um voltímetro portátil, construído em formato de relógio de bolso para permitir medições rápidas no terreno, numa época em que a instrumentação eléctrica ainda não era compacta.

O princípio é simples: em vez de ponteiros para horas, minutos e segundos, vemos uma escala semicircular graduada em volts, de 0 a 6, com um ponteiro fino extremamente leve — típico dos galvanómetros e voltímetros analógicos de precisão. A parte inferior alberga a bobina e o mecanismo de medição, visíveis através de uma abertura circular, com dois pequenos parafusos de ajuste.

Este tipo de instrumento era usado por electricistas, técnicos ferroviários, oficinas de telegrafia e laboratórios durante a primeira metade do século XX. O formato “bolso”, herdado directamente do relógio tradicional, facilitava o transporte e protegia o mecanismo numa caixa metálica resistente. A coroa superior servia apenas para segurar e abrir o estojo, não para dar corda — aqui não há movimento mecânico relojoeiro, mas sim uma bobina, um íman e um sistema de deflexão.

Peças como esta são testemunho de um período em que a relojoaria influenciou o design dos instrumentos científicos: caixas robustas, mostradores limpos, ponteiros de leitura fina, tudo pensado para precisão e portabilidade. Hoje são encontrados sobretudo em mercados de velharias, colecções técnicas e — naturalmente — nas mesas do Tempo Passado, onde lembram que a história da medição do tempo cruza muitas vezes a história da medição de tudo o resto.

Yema Worldtime — o espírito do Airflight e a génese da relojoaria “dinâmica”

Yema Worldtime
Yema Worldtime

Escondido entre muitos outros encontrámos este raríssimo Yema Worldtime que pertence a uma linhagem muito particular: a dos relógios com mostrador perfurado que se transformam num instrumento mutável, feito para reorganizar informação em vez de apenas a exibir. A Yema, que sempre oscilou entre ousadia técnica e espírito aventureiro, criou aqui uma das suas peças mais inventivas. Tal como no Gruen Airflight, encontramos a ideia de tempo dinâmico — não um mostrador fixo, mas um sistema que muda com o dia, com a posição do utilizador e com a necessidade de leitura.

Gruen Airflight
Gruen Airflight

No Airflight, são os discos que alternam entre 1–12 e 13–24 horas; neste Yema, são as cidades e o anel de 24 horas que permitem ao utilizador viajar entre fusos com um simples gesto, num verdadeiro relógio de navegação civil.

A outra referência inevitável é o Vincent Calabrese Day & Night, onde o mestre independente reinventa a forma como o tempo se revela, alternando representações gráficas conforme a fase do dia. Tal como em Calabrese, este Yema exige participação: obriga o utilizador a “dialogar” com o mostrador, a alinhar cidades, a compreender o planeta inteiro num espaço circular. A filosofia é a mesma — o tempo deixa de ser linear e torna-se conceito, interpretação, cartografia.

Vincent Calabrese Day & Night
Vincent Calabrese Day & Night

É essa tríade — Airflight, Calabrese, Yema — que faz deste modelo uma peça tão especial. O Yema Worldtime é a interpretação francesa de uma ideia universal: quando a relojoaria abandona a rigidez e passa a explorar o movimento, os discos, os anéis e a geografia como parte da função. Ao contrário de tantos worldtimers clássicos, este Yema não quer apenas mostrar horas; quer mostrar o mundo.

Por isso, quando aparece num Tempo Passado, é sempre aquele relógio ao qual os coleccionadores regressam — não só pela raridade, mas porque encapsula a audácia de três eras diferentes da relojoaria dinâmica.

Como o ódio jornalístico faz milagres nas urnas

📺 Como o ódio jornalístico faz milagres nas urnas

Há uma teoria muito popular que nos diz que o Ventura é um produto dos media. Que o “monstro” foi criado pela televisão, vendido ao povo a cada minuto de audiência. O problema é que não é bem verdade.

Se bastasse exposição para criar fenómenos políticos, o bloco era hoje a religião oficial aqui no Tugão. Foram levados ao colo durante uma década, resultado? Hoje, alguns dão-lhe a mão de caminho para o cemitério, outros, estão lá à espera com a pá na mão.

Desapareceram do mapa. Portanto, não, não é o protagonismo que faz o político; é o tipo de protagonismo, e sobretudo, o contraste entre a atitude de quem entrevista, de quem dá a notícia, de quem edita a peça, e depois, do outro lado, aquilo que é a percepção do público.

Ventura, ao contrário do que julgam os sôtores da palrice, não ganha por falar para a plateia, ganha por ser atacado. Quanto mais lhe batem, mais o telespetador o sente como injustiçado. É o instinto humano básico; quando um jornalista parece mais juiz do que fiel da balança, o entrevistado passa a réu, inocente até prova em contrário. Ou até inocente pese embora culpado.

O público percebe quando o profissionalismo se transforma em militância, e o debate em inquisição. O Ventura só precisa de fazer o papel dele, da vítima, como todos nós, portugueses, vítimas do sistema. Demasiado fácil! É a alquimia perfeita da política moderna, um homem contra o sistema, encarnado ali mesmo, em direto, no pequeno ecrã, em nossa casa.

Depois há o caso Alexandre Évora, na CNN. A entrevista foi elogiada pelos eleitores do Chega. E Évora, ao que se sabe, não dorme com um retrato do Ventura na mesa de cabeceira. Fez o impensável, tratou-o como um político normal. Não interrompeu, não ironizou, não quis ganhar o debate. Limitou-se a entrevistar, uma prática cada vez mais radical. E o eleitorado percebeu isso, e pela primeira vez, o foco não foi o Ventura, foi o jornalista que o entrevistou. Porque fez bem o seu trabalho. Ventura não granjeou um único voto nessa noite.

É esse o segredo que os media ainda não decifraram. O excesso de agressividade não destrói Ventura, fabrica-o em série. Quem o odeia e faz questão de o demonstrar no exercício das suas funções jornalísticas faz-lhe o melhor favor, pintar-lhe a auréola.

Claro que no camarim chovem mensagens de elogios, porque apertaste bem com o Ventura, porque o deixaste à nora, enfim, porque meteste o facho na linha. Só que os falsos amigos não são representativos do sentimento do público, mas imagino que saibam a punheta ao ego, e eu sei que há muita carência por aí à solta.

Obrigado Alexandre.

Educação Jurídica e Direitos Humanos: Perspectivas Contemporâneas e Fundamentos

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A EDUCAÇÃO JURÍDICA COMO INSTRUMENTO DE GARANTIA E PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS: PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS E FUNDAMENTOS DOGMÁTICOS

Resumo: O presente ensaio tem por objetivo analisar a importância da educação jurídica como instrumento de promoção e efetivação dos direitos humanos, em consonância com os princípios do Estado Democrático de Direito. A partir de uma abordagem dogmática e crítica, examina-se a evolução da educação jurídica, os desafios estruturais enfrentados pelas instituições de ensino e a necessidade de sua reestruturação, com vistas à formação de profissionais comprometidos com a justiça social, a ética e a cidadania. Destaca-se que a consolidação dos direitos humanos requer não apenas reconhecimento normativo, mas, sobretudo, uma prática educacional transformadora, pautada na crítica ao modelo tradicional de ensino jurídico e na valorização de métodos pedagógicos participativos, interdisciplinares e emancipatórios. Conclui-se que o ensino jurídico, quando orientado pela dignidade da pessoa humana e pelos valores democráticos, constitui um pilar fundamental na construção de uma cultura jurídica voltada à efetividade dos direitos fundamentais e à superação das desigualdades sociais. Palavras-chave: Educação jurídica; Direitos humanos; Ensino crítico; Justiça social; Formação cidadã.

Introdução

A consolidação dos direitos humanos como fundamento de uma sociedade democrática e pluralista impõe o desafio constante de garantir sua efetividade, especialmente em contextos marcados pela desigualdade, exclusão e autoritarismo. Nesse cenário, a educação, em especial a educação jurídica, surge como ferramenta essencial para a promoção, defesa e consolidação desses direitos, uma vez que forma cidadãos conscientes e operadores do direito comprometidos com a justiça e a dignidade da pessoa humana.

A importância da educação na realização dos direitos fundamentais é apoiada por normas internacionais e constitucionais. A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 estabelece, em seu artigo 26, que a educação “deve ter como objeto o pleno desenvolvimento da personalidade humana e o fortalecimento do respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais”. O Brasil, por sua vez, consagra a educação como direito e dever social do Estado, visando ao “pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua aptidão para o trabalho”, conforme previsto no artigo 205 da Constituição Federal.

A formação jurídica, nesse contexto, vai além da simples transmissão técnica de normas e institutos. Trata-se, essencialmente, de um processo que deve permitir uma compreensão crítica da função do direito na sociedade, o reconhecimento das estruturas de poder e dominação que operam na produção jurídica e a participação ativa na promoção da justiça social. Paulo Freire, ao refletir sobre os processos educativos nas sociedades oprimidas, defende uma pedagogia emancipatória que reconheça o sujeito como agente de transformação, sendo a educação um ato político e libertador (FREIRE, 2011, p. 32-35).

No entanto, do ponto de vista do ensino jurídico tradicional, predomina uma educação dogmática formalista, muitas vezes desconectada da realidade concreta dos indivíduos e dos desafios contemporâneos da sociedade. Esse modelo, além de limitar o horizonte crítico do aluno, impede a efetiva conexão entre o conhecimento jurídico e a promoção dos direitos humanos (FERRAZ, 2014, p. 72-75). Nesse sentido, é urgente e necessária a revisão das diretrizes curriculares dos cursos de Direito, para que contemplem, de forma transversal, a questão dos direitos fundamentais, em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais aprovadas pela Resolução CNE/CES nº 5, de 17 de dezembro de 2018.

A presente análise, portanto, busca demonstrar a importância da educação jurídica como vetor indispensável para a consolidação de uma cultura de direitos humanos. Ao reconhecer a dimensão formativa e transformadora do ensino jurídico, pretende-se evidenciar a sua centralidade na construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva.

Fundamentos teóricos do ensino jurídico

O ensino jurídico, em seu aspecto clássico, sempre esteve associado à formação do operador jurídico para a reprodução de normas e dogmas de Estado. É um modelo de ensino focado na lógica das normas positivas, na hermenêutica jurídica tradicional e na separação entre teoria e prática. Essa concepção, com raízes iluministas, consolidou-se ao longo do século XIX, especialmente no contexto da codificação do direito e da afirmação do Estado moderno, que passou a ser entendido como o detentor exclusivo da produção normativa legítima (CAPPELETTI, 1988, p. 31-33).

No Brasil, esse modelo foi fortemente influenciado pelo positivismo jurídico e pela cultura do formalismo, que marcaram tanto o ensino quanto a prática jurídica durante o século XX. Miguel Reale observa que o dogma jurídico brasileiro, ao se estabelecer em uma perspectiva técnico-normativa, afastou-se da dimensão axiológica e existencial do direito, reduzindo-o a um instrumento de racionalização da ordem estabelecida (REALE, 2002, p. 55-58). Essa limitação teórica do ensino jurídico comprometeu sua capacidade de lidar com conflitos sociais, resultando em uma formação profissional muitas vezes acrítica e distante das realidades vivenciadas pelas populações vulneráveis.

Tércio Sampaio Ferraz Jr. aprofunda essa crítica ao apontar que o ensino jurídico tradicional está estruturado em três pilares: técnica, decisão e dominação. Para o autor, a técnica é apresentada como um conhecimento neutro e objetivo, ocultando os elementos ideológicos presentes na construção e aplicação do direito; A decisão é tratada como uma aplicação mecânica das regras, sem espaço para reflexão crítica; e a dominação é naturalizada, entendendo a lei como mera expressão da vontade do Estado (FERRAS JR., 2014, p. 15-22). Essa tríade formativa reforça a reprodução de um sistema jurídico excludente e insensível às demandas sociais e aos direitos humanos.

Diante desse cenário, é fundamental repensar os fundamentos teóricos da educação jurídica, incorporando abordagens críticas, interdisciplinares e comprometidas com a transformação social. Nesse sentido, Paulo Freire oferece uma importante contribuição ao propor uma pedagogia problematizante, dialógica e emancipatória. Em sua obra Pedagogia da Autonomia, ele argumenta que o ato de educar não se reduz à transferência de conhecimentos, mas implica uma relação ética e política entre educador e educando, pautada pela busca da libertação e do compromisso com a justiça (FREIRE, 2012, p. 25-29).

No campo jurídico, essa perspectiva crítica é assumida por diversos autores que propõem a reestruturação do ensino do Direito a partir da educação para a cidadania. Para Roberto Lyra Filho, a lei não deve ser vista apenas como uma norma, mas como um processo social, uma expressão da luta de classes e dos conflitos históricos. Nesse contexto, a educação jurídica deve preparar o aluno para compreender o direito como instrumento de transformação e não apenas de conservação da ordem vigente (LYRA FILHO, 1994, p. 17-21).

As Diretrizes Curriculares Nacionais, atualizadas pela Resolução CNE/CES nº 5/2018, reconhecem essa necessidade de ir além da educação jurídica tradicional. O documento orienta que os cursos de Direito promovam uma formação generalista, humanista e crítica, capaz de desenvolver a capacidade de interpretar e aplicar o direito com base em princípios éticos, na promoção dos direitos humanos e na compreensão das realidades sociais.

Assim, a educação jurídica contemporânea deve ser pautada não apenas pela técnica, mas também por uma perspectiva avaliativa e democrática. A formação jurídica, além da doutrina e da jurisprudência, deve capacitar o aluno a atuar com sensibilidade social, ética e responsabilidade pública, com o horizonte da efetivação dos direitos fundamentais e da construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Direitos Humanos: Uma Breve História

A ideia de direitos humanos designa um conjunto de garantias essenciais atribuídas a todos os indivíduos em virtude de sua condição humana, com o objetivo de assegurar uma existência digna, baseada na liberdade, igualdade e justiça. São direitos universais, que não dependem de nacionalidade, etnia, gênero, religião, ideologia política ou qualquer outro critério discriminatório. Baseiam-se no reconhecimento de que todas as pessoas têm valor intrínseco e, por conseguinte, devem ser garantidas a mesma proteção jurídica.

Norberto Bobbio observa que os direitos humanos são construções históricas em constante mutação, cuja consolidação ocorre progressivamente. O autor argumenta que os principais desafios atuais não estão mais na justificativa teórica desses direitos, mas em sua efetiva proteção (BOBBIO, 2004, p. 5-7). Essa constatação revela a lacuna entre o reconhecimento formal dos direitos e sua concretização, especialmente em sociedades marcadas por profundas desigualdades sociais.

A trajetória histórica dos direitos humanos pode ser compreendida a partir da divisão em dimensões ou gerações. A primeira dimensão, que surgiu no contexto das revoluções liberais do século XVIII, consagra os direitos civis e políticos, visando limitar o poder do Estado e proteger as liberdades individuais. A segunda dimensão contempla os direitos sociais, econômicos e culturais, surgidos no século XIX, que expressam a luta pela igualdade de condições e pela justiça distributiva. Já a terceira dimensão refere-se aos direitos coletivos, como os direitos ao meio ambiente, ao desenvolvimento e à paz, articulando a solidariedade como princípio ético estruturante (VASAK, 1979, p. 29-31).

Mais recentemente, propõe-se o reconhecimento de uma quarta geração de direitos, composta por novos desafios jurídicos que surgiram desde a contemporaneidade, entre os quais se destacam os direitos relacionados à biotecnologia, à proteção de dados pessoais e à regulação da comunicação digital. Essas questões refletem a complexidade das relações sociais e a necessidade de respostas regulatórias adequadas aos impactos da globalização e da inovação tecnológica (PIOVESAN, 2022, p. 102-105).

No contexto brasileiro, a incorporação dos direitos humanos ocorre por meio da Constituição Federal de 1988, que estabelece um rol taxativo de direitos fundamentais, e por meio de tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Estado. O artigo 5º da Constituição garante a aplicabilidade imediata desses direitos (artigo 5º, §1º) e, de acordo com as diretrizes do Supremo Tribunal Federal, os tratados de direitos humanos têm status supralegal.

Apesar da força do aparato regulatório, a lacuna entre o dispositivo legal e sua aplicação prática continua a representar um grande obstáculo para a efetivação dos direitos humanos no país. Esse descompasso, muitas vezes descrito como um “déficit de efetividade”, se manifesta sobretudo nas populações mais vulneráveis, que enfrentam obstáculos sistêmicos como extrema pobreza, violência estrutural, exclusão étnico-racial e repetidas violações de seus direitos fundamentais (SILVA, 2021, p. 217-219).

Nesse contexto, a promoção da educação em direitos humanos e o fortalecimento da educação jurídica crítica são essenciais. A democratização do acesso ao conhecimento jurídico e a formação de profissionais comprometidos com os valores constitucionais são condições indispensáveis para reverter padrões históricos de desigualdade e tornar o direito um instrumento legítimo de emancipação. A defesa da dignidade humana exige não só um compromisso técnico, mas sobretudo ético, para a realização de uma sociedade mais justa, plural e solidária.

Apesar desse forte arcabouço normativo, a realização dos direitos humanos continua sendo um dos maiores desafios do Estado Democrático de Direito. A distância entre a norma e a realidade revela o chamado “déficit de efetividade”, especialmente em contextos marcados pela desigualdade econômica, violência estrutural, racismo institucional e violação sistemática dos direitos de grupos vulneráveis (SILVA, 2021, p. 217-219).

Nesse cenário, a educação jurídica adquire um papel de destaque como mecanismo de promoção da cultura dos direitos humanos. Somente por meio de uma educação crítica, reflexiva e comprometida com os valores constitucionais será possível transformar o direito de instrumento de dominação em verdadeiro instrumento de emancipação social. A efetividade dos direitos humanos requer operadores jurídicos não apenas tecnicamente preparados, mas também eticamente orientados para a defesa intransigente da dignidade humana.

A educação jurídica como ferramenta para a realização dos direitos humanos

A consolidação dos direitos humanos como uma realidade concreta, e não apenas como um conjunto de normas altamente abstratas, depende essencialmente de mecanismos institucionais e sociais voltados para sua disseminação e internalização. Dentre esses mecanismos, destaca-se a educação jurídica, responsável não apenas pela formação dos operadores do direito, mas, sobretudo, pela disseminação de valores éticos, democráticos e de justiça social. Nesse contexto, a educação jurídica ocupa um lugar estratégico na construção de uma cultura de direitos humanos.

A educação jurídica tradicional, historicamente moldada por modelos normativistas e positivistas, tem se mostrado insuficiente para promover a consciência crítica necessária para a defesa dos direitos fundamentais. Como aponta Antonio Jeová Santos, a educação jurídica brasileira focou-se, por muitos anos, na repetição de dogmas, priorizando o conhecimento técnico das normas jurídicas em detrimento da análise das realidades sociais e da efetiva promoção dos direitos da pessoa humana (SANTOS, 2017, p. 39-42).

A superação desse paradigma requer um modelo de formação capaz de integrar teoria, prática e compromisso ético. A educação jurídica, nesse novo horizonte, deve permitir que os alunos reconheçam as desigualdades sociais, compreendam a estrutura de poder que fundamenta a lei e desenvolvam a capacidade de agir para transformar a realidade. Como argumenta Boaventura de Sousa Santos, “não há justiça sem conhecimento da injustiça”, é fundamental que o ensino do direito seja pautado na realidade social e nos conflitos concretos (SANTOS, 2004, p. 35).

Nessa perspectiva, a inclusão do tema dos direitos humanos de forma transversal nos cursos de Direito é uma medida fundamental. As Diretrizes Curriculares Nacionais para as Carreiras Jurídicas, estabelecidas pela Resolução CNE/CES nº 5/2018, preveem expressamente a necessidade de uma abordagem crítica e humanística da educação jurídica, pautada pelos princípios da dignidade da pessoa humana, do pluralismo jurídico, da cidadania e dos direitos fundamentais. Trata-se de um avanço regulatório que rompe com a tradição técnica e instrumental do ensino jurídico, valorizando a interdisciplinaridade e a responsabilidade social da advocacia.

A presença de centros de prática jurídica, projetos comunitários e disciplinas voltadas para a promoção dos direitos humanos constitui, nesse sentido, não apenas uma exigência pedagógica, mas também um dever institucional das faculdades de direito. Como afirma Flávia Piovesan, é no espaço acadêmico que deve ser cultivada a sensibilidade aos direitos da população marginalizada, promovendo uma educação jurídica voltada para a transformação da realidade e não sua mera reprodução (PIOVESAN, 2022, p. 214-215).

O trabalho das clínicas jurídicas, por exemplo, com foco nos direitos de grupos vulneráveis, como mulheres vítimas de violência, populações sem-teto, migrantes e comunidades indígenas, tem se mostrado eficaz na promoção dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que fortalece a educação para a cidadania dos alunos. Essas experiências proporcionam o desenvolvimento de habilidades práticas, éticas e reflexivas, que permitem ao futuro jurista compreender o direito como instrumento de promoção da justiça social (GOMES, 2001, p. 58-60).

Por fim, cabe destacar que a efetivação dos direitos humanos implica também a valorização dos professores. A formação continuada de professores, com formação nos campos dos direitos fundamentais, da justiça social, das políticas públicas e da didática crítica, é um elemento essencial para garantir uma educação jurídica de qualidade, sensível aos desafios do século XXI. Trata-se, como argumenta Paulo Freire, de uma prática pedagógica comprometida com a autonomia do educando e com a transformação do mundo (FREIRE, 2012, p. 30-33).

Assim, a educação jurídica crítica e humanística representa não apenas uma forma de transmissão de conhecimento técnico, mas, sobretudo, uma prática social comprometida com a construção de uma sociedade democrática, plural e igualitária. Portanto, sua contribuição para a realização dos direitos humanos é inevitável.

Desafios da Educação Jurídica na Contemporaneidade

A educação jurídica contemporânea enfrenta uma série de desafios estruturais e pedagógicos que comprometem sua capacidade de formar profissionais capazes de promover e defender os direitos humanos. Embora os marcos normativos e os discursos institucionais caminhem para a inclusão de conteúdos humanísticos e interdisciplinares, a prática educativa nas faculdades de direito ainda está amplamente vinculada a um modelo tradicional, excessivamente técnico, positivista e dissociado da realidade social.

Um dos principais desafios diz respeito à hegemonia do formalismo jurídico, que reduz o direito à aplicação mecânica de normas jurídicas e obscurece seu caráter histórico, político e social. Essa postura pedagógica reproduz o que Pierre Bourdieu chamou de “violência simbólica”, ao legitimar, como natural, uma linguagem técnica e excludente que distancia o conhecimento jurídico das camadas populares (BORDIEU, 2004, p. 78-80). A educação jurídica, nesse modelo, tende a formar operadores focados na manutenção do status quo, incapazes de questionar as estruturas de poder e exclusão que operam na sociedade e se refletem nas instituições jurídicas.

Outro obstáculo relevante é a fragmentação curricular e a ausência de interdisciplinaridade. Embora o Direito dialogue, por sua natureza, com campos como Filosofia, Sociologia, Ciência Política e Economia, grande parte dos currículos permanece voltada para disciplinas dogmáticas, com pouca articulação entre teoria e prática. Como observa Gisela Ullysses, essa compartimentalização do conhecimento impede que o aluno compreenda o Direito como um fenômeno complexo inserido em múltiplos contextos históricos e culturais (ULLYSES, 2011, p. 45-47).

Além disso, há uma insuficiência de metodologias ativas de ensino, como estudos de caso, simulações processuais, pesquisa aplicada e projetos de extensão universitária. O ensino jurídico permanece, em muitos cursos, atrelado ao método expositivo tradicional, voltado para a figura do professor como detentor do conhecimento e do aluno como sujeito passivo. Essa limitação metodológica compromete o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia intelectual, essenciais para a formação de profissionais comprometidos com os direitos humanos (STRECK, 2020, p. 156-158).

A desvalorização da dimensão ética e humanística também é um grande desafio. A ênfase no conteúdo técnico e nos procedimentos judiciais obscurece a reflexão sobre os propósitos do direito, a dignidade da pessoa humana e os fundamentos axiológicos do sistema jurídico. Como aponta Tércio Sampaio Ferraz Jr., a educação jurídica que ignora a dimensão ética prepara profissionais competentes para os meios, mas indiferentes aos fins, transformando o direito em instrumento de poder, e não de justiça (FERRAZ JR., 2007, p. 49-50).

Além disso, há uma disparidade no acesso ao ensino jurídico de qualidade, devido à proliferação de cursos de direito sem infraestrutura adequada e professores qualificados. Muitos desses cursos operam com finalidade exclusivamente comercial, ignorando a função social do ensino jurídico e contribuindo para a degradação da formação profissional. Essa precariedade compromete não apenas o futuro dos ex-presidiários, mas também o próprio funcionamento do sistema de justiça.

Por fim, é preciso mencionar o descompasso entre a formação jurídica e as demandas contemporâneas, como direitos ambientais, direitos digitais, proteção de dados, direitos das populações indígenas e tradicionais e justiça de gênero e racial. A ausência desse conteúdo nos currículos reflete uma visão limitada e ultrapassada do Direito, incapaz de enfrentar os desafios emergentes de um mundo globalizado e desigual (PIOVESAN, 2022, p. 299-301).

Diante desses desafios, faz-se necessária uma profunda reformulação dos modelos de educação jurídica, com vistas à construção de uma educação jurídica emancipatória, crítica e socialmente comprometida. Essa mudança exige não apenas ajustes curriculares, mas uma verdadeira transformação institucional, pedagógica e epistemológica, que coloque os direitos humanos no centro da educação jurídica.

Propostas de reestruturação da educação com foco nos direitos humanos

Tendo em vista as limitações estruturais e metodológicas que ainda persistem na educação jurídica brasileira, é imperioso propor uma reestruturação ampla e coerente que alinhe a formação acadêmica às exigências de um Estado Democrático de Direito pautado na promoção dos direitos humanos. Essa reestruturação deve abarcar não apenas mudanças curriculares, mas também mudanças pedagógicas, institucionais e epistemológicas, a fim de formar profissionais conscientes de seu papel social, eticamente comprometidos e tecnicamente preparados para enfrentar os desafios contemporâneos da justiça.

Uma das primeiras medidas fundamentais é a inserção transversal dos direitos humanos em todo o currículo jurídico, e não apenas como disciplina isolada. Trata-se de superar a visão de que os direitos humanos são uma questão periférica ou introdutória, entendendo-os como o eixo central de todas as áreas do direito, do constitucional ao criminal, do civil ao empresarial. A Resolução CNE/CES n.º 5/2018, ao definir as Diretrizes Curriculares Nacionais para a carreira de Advogado, reafirma esse compromisso ao determinar que o ensino jurídico deve ser orientado por uma perspetiva interdisciplinar e humanística, centrada na formação crítica e na defesa dos direitos fundamentais.

Outra proposta relevante refere-se à valorização de metodologias de ensino participativas e dialógicas, como o estudo de casos concretos, tribunais simulados, projetos de extensão comunitária e clínicas jurídicas. Essas metodologias permitem que os alunos desenvolvam habilidades de escuta ativa, argumentação crítica, empatia e resolução de conflitos, elementos indispensáveis para uma prática jurídica pautada pelos valores da justiça e da dignidade da pessoa humana (GOMES, 2001, p. 102-104). Além disso, aproximam o aluno da realidade social, reforçando a função pública do Direito como instrumento de transformação.

A estruturação e o fortalecimento de centros de prática jurídica com viés humanitário também representam um eixo estratégico para a efetivação dos direitos humanos na educação jurídica. Esses centros devem priorizar a assistência jurídica gratuita a grupos em situação de vulnerabilidade social, como mulheres vítimas de violência, comunidades indígenas, populações em situação de rua, migrantes, pessoas LGBTQIA+ e pessoas privadas de liberdade. Como aponta Boaventura de Sousa Santos, o direito pode e deve ser uma ferramenta de combate à exclusão, desde que seja repensado a partir da escuta e articulação com os saberes e lutas populares (SANTOS, 2000, p. 268-269).

No âmbito institucional, é fundamental garantir a formação continuada dos professores, com atualização em direitos humanos, didática crítica e fundamentos pedagógicos. Muitos professores de direito não possuem formação em áreas relacionadas à educação ou à teoria dos direitos humanos, o que dificulta a consolidação de uma cultura acadêmica democrática e inclusiva. Portanto, a avaliação da formação pedagógica dos professores deve ser tratada como prioridade estratégica para as instituições de ensino (LIBÂNEO, 2021, p. 137-140).

Além disso, visa estimular a produção científica crítica e interdisciplinar, com o objetivo de analisar os desafios contemporâneos da sociedade brasileira e global. Temas como justiça ambiental, proteção de dados, democracia digital, discriminação estrutural, justiça racial e justiça de gênero devem ser incorporados às linhas de pesquisa dos cursos de Direito, como forma de atualizar o ensino às demandas da contemporaneidade (STREK, 2017, p. 83-85).

Por fim, recomenda-se democratizar o acesso à educação jurídica de qualidade, com políticas públicas que promovam a equidade racial, de gênero, territorial e socioeconômica. A democratização do ingresso e permanência nas carreiras jurídicas deve ser acompanhada de uma revisão do modelo de avaliação dos sujeitos, priorizando indicadores qualitativos de compromisso ético, relevância social e contribuição para a promoção dos direitos fundamentais (FENED, 2019).

Tais medidas, se articuladas de forma coerente, podem transformar a educação jurídica em um verdadeiro espaço de formação da cidadania ativa, da cultura de paz e da defesa dos direitos humanos, reafirmando o compromisso constitucional com uma ordem jurídica justa, inclusiva e democrática.

Conclusão

A análise desenvolvida ao longo deste trabalho mostra, de forma clara e fundamentada, que a educação jurídica ocupa um lugar central na promoção, proteção e efetivação dos direitos humanos no contexto do Estado Democrático de Direito. Mais do que formar profissionais tecnicamente formados, espera-se que os cursos de direito sejam espaços de formação cidadã, comprometidos com a construção de uma ordem jurídica justa, plural e inclusiva, pautada pela dignidade da pessoa humana e pela conquista da justiça social.

Constatou-se que, apesar dos avanços regulatórios – como a Resolução CNE/CES nº 5/2018 e os tratados internacionais ratificados pelo Brasil –, a educação jurídica ainda apresenta lacunas estruturais e metodológicas que dificultam sua plena articulação com os ideais de justiça e promoção dos direitos fundamentais. A predominância de abordagens normativas, a falta de interdisciplinaridade, a fragilidade da formação ética e a ausência de práticas pedagógicas ativas refletem um modelo educacional anacrônico, incapaz de responder adequadamente às demandas contemporâneas da sociedade.

Diante desse cenário, é fundamental reformular a lógica da educação jurídica, reposicionando os direitos humanos como eixo transversal e estruturante da formação acadêmica. Isso implica não apenas na revisão do conteúdo curricular, mas também na transformação dos métodos de ensino, da atuação docente e da função social das instituições jurídicas. A educação jurídica deve ser entendida como uma prática libertadora e como um instrumento de emancipação, como preconiza Paulo Freire (FREIRE, 2012, p. 23-25), que permite aos alunos uma compreensão crítica da lei e uma ação ética comprometida com a realidade social.

A efetivação dos direitos humanos depende, em última instância, da existência de sujeitos conscientes de seus direitos e dispostos a defendê-los, tanto no nível institucional quanto no cotidiano das relações sociais. Por isso, a articulação entre educação jurídica e direitos humanos não é um mero acréscimo temático, mas um imperativo ético e democrático que deve nortear toda a experiência jurídica universitária. Como resume Flávia Piovesan, “educar em direitos humanos e educar para a democracia, justiça e cidadania” (PIOVESAN, 2010, p. 89).

Assim, a consolidação de uma cultura jurídica pautada pelos direitos humanos representa não apenas uma exigência constitucional e internacional, mas também um compromisso pedagógico com a formação de juristas capazes de transformar o direito em um instrumento efetivo para a promoção da dignidade humana. A educação jurídica, nesse sentido, deve ser entendida como um dos pilares centrais na construção de sociedades mais justas, igualitárias e comprometidas com o bem comum.

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Síntese do Desembargo Régio (sécs. XIV-XV) – a execução do Poder régio em Portugal 

I) Aforamentos – conceder uma propriedade a título perpétuo [ou alterações ao regime de bens antes aforados – a chamada quitação].

  • Este aforamento precede do pregão dos bens em causa – o Rei estabelecia um preço que o aforado deveria pagar;
  • Os Aforamentos eram de caráter extraordinário, e eram concedidos a homens de confiança do Rei.

II) Apresentação de clérigos a Igrejas do Padroado régio.

  • Exercício do direito de apresentação pelo Rei às Igrejas de que é Padroeiro.
  • Prescrição de quantitativos.

III) Coutadas – terras que, por especial privilégio régio, se eximiam aos direitos comunitários de uso, em matéria de caça, pescado, pasto, corte de madeiras ou ervas, etc.

  • o Rei tinha a faculdade de tornar as suas terras, terras comuns para as gentes consumirem as matérias-primas do local IV) Defesa e regulamentação de encargos militares.
  • Provimento das alcaidarias dos Castelos.
  • É o Rei que atribui privilégios em máteria do porte de arma.
  • É o Rei que gera todos os acontiados [homens de serviço] a cavalo, vintaneiros das galés, besteiros do conto, serviço de guarda de fortalezas e anúduvas.
  • Os quantitativos a pagar por estas cartas de privilégio, define-os o Rei.

V) Doações de bens e direitos.

  • Bens fundiários, prédios urbanos, rendimento de um dado tributo numa dada circunscrição, o padroado de uma Igreja, etc.

VI) Doações, comportando exercício de jurisdições e/ou poderes senhoriais.

  • o Rei outorga os direitos ou poderes sobre um quadro territorial determinado.
  • o Rei, igualmente, delimita a concessão de todos os tributos a estes homens, exceto nas matérias da Justiça [correições e alçadas], onde o Rei tinha representante local inviolável.
  • o Rei cobra desta carta de privilégio um tributo, outrossim.

VII) Fiscalidade

  • Regulação da cobrança, montante, isenção ou arrendamento dos direitos régios [só no reinado de D. João I é que aparece um tributo comum – a sisa -; antes disso, os direitos régios ligados ao tributo eram: parte da colheita, a anúduva – serviço braçal na construção de muralhas -, a cunhagem de moeda, a fossadeira – tributo que pagavam os homens que não realizavam o serviço militar -, a jugada – imposto por cabeça -, o relego – tributo sobre o vinho -, e, por exemplo, as portagens e as rendas dos reguengos].

VIII) Prescrições sobre a Justiça – caso incomum, que ocorre quando o Juíz local, dolente, pede auxílio à liberalidade de Sua Majestade, que delibera.

IX) Legitimações

  • Concessão a um filho bastardo, nas mais das vezes por petição paterna, de uma dispensa face à legislação aplicável aos indivíduos da sua condição [como a incapacidade de herdar].

X) Perdões régios.

  • O Rei tem a faculdade de punir, usufruindo da sua liberalidade, indivíduos e até vilas inteiras [caso incomum, como se imagina]; o contrário também ocorre – perdoando um criminoso que deixa de estar sob a alçada da Justiça.

XI) Privilégios em geral.

  • Confirmação a alguém, normalmente a um indivíduo, mas também coletividade, de todos os privilégios, foros, liberdades e bons costumes de que sempre usou, sem nada mais discriminar.
  • o Rei pode adicionar suplementos condicionantes, ou modificar o alcance destas, e recebe dinheiros por esta carta de privilégio.

XII) Privilégios, comportando escusa de determinações gerais.

  • o Rei pode autorizar que os Frades de um dado Mosteiro deixem por morte terras ao mesmo.
  • pode autorizar que uma determinada casa religiosa compre propriedades até um certo montante – pode autorizar que entidades tenham terras dentro do seu reguengo.
  • pode mandar que não se embargue a determinado senhor, a posse de uma terra.
  • pode permitir a um dado concelho, receber cereais e frutos de outro concelho, por situação de míngua.

XIII) Provimento e remuneração de ofícios.

  • o Rei integra pontuais patrimónios do Reino ao titular, vitalícia ou não vitaliciamente, mediante cada caso [o foro é perpétuo, o emprazamento é em vidas, o arrendamento é em anos].

XIV) Quitações.

  • Documento passado pelo Rei a um seu funcionário, declarando que o destinatário deu boa conta e recado aos dinheiros e bens que recebeu no exercício do cargo, razão por que o Rei o dá, pela carta, como quite e livre de tributo.

XV) Regulamentação de jurisdições locais.

  • o Rei ajusta ou reajusta os termos dos concelhos.
  • Também precisa o alcance da jurisdição de um concelho em relação aos dependentes de um Senhor ou de uma Casa Religiosa, nas matérias de tributo, colheita, etc.
  • o Rei pode [ou não] confirmar aos concelhos a possibilidade de elegerem seus Juízes – o Rei também delimita a dimensão e limites da jurisdição de um Senhor.

XVI) Regulamentação do direito de pousada.

  • o Rei pode conferir a um homem a garantia, sob escrito, que os poderosos não possam pousar com ele, nem tomar os seus pertences monetários.

XVII) Resposta a Capítulos de Cortes – sempre consultiva, e sempre convocada pelo próprio Rei.

XVIII) Sentenças diversas, advindas da sua liberalidade.

XIX) Sentenças sobre bens aforados – onde estão em causa direitos do Monarca.

XX) Sentenças sobre fiscalidade e sobre jurisdições diversas.

XXI) Treslados.

  • Cartas que transcrevem qualquer escritura anterior, seja do mesmo Monarca ou de um antecessor; o Rei pode dispor de suplementos a estas normativas.

XXII) Atos pontuais de circunstância, como deliberações dadas enquanto o Rei se encontra em visita a um local [o Rei medieval tinha, à sua disposição, a Casa da Suplicação, que é um Tribunal móvel – a execução deste Poder realiza-se pelos Corregedores].

  • o Rei, em matéria emergencial, podia exigir a imediata construção de muralhas, ou a punição de alguém, ou o desembargo de jogos de azar, usuras, excomunhões, armas, etc; também utilizava estas viagens para nomear os Procuradores do Concelho – normalmente mantinha o anterior, mas casos de mudança não são raros.

XXIII) Detinha, ainda, um rol de oficiais locais, que garantiam o funcionamento das leis e outras efemérides:

  • oficiais da Comarca – Províncias militares;
  • oficiais do Almoxarifado – Províncias económicas;
  • oficiais do Julgado – Províncias administrativas.

Entre eles, alguns:

  • Juízes de Fora [juízes da Cúria Régia enviados para os diferentes locais, para fiscalizar a parcialidade de Justiça senhorial].
  • Desembargadores locais;
  • Almotacés [controlo de preços e fiscalização das mercadorias].
  • Alcaides.
  • Ovençais.
  • Sesmeiros.
  • Rendeiros.
    (…)

Um Rei podia errar: por exemplo, concedendo uma terra a um indivíduo, quando meses antes havia dado a mesma terra a outra pessoa.

Segundo uma análise da documentação Medieval que pessoalmente realizei, estas são as matérias gerais onde o Rei atuava. Não obstante, a análise do comportamento Municipal é igualmente importante, porque entrelaça-se no desembargo régio. Por exemplo, uma terra podia tabelar preços, mas era o Rei que detinha o monopólio da cunhagem da moeda. E um Município era quem, igualmente, preparava e recrutava homens para a hoste do Rei, não o inverso. Por essa mesma razão vemos os Cronistas Medievais a falar de “besteiros de Campo Maior” ou “cavaleiros de Santarém”, etc. O Rei era, igualmente, algo como um Supremo Tribunal de Justiça – ele não se comportava como um detentor do Poder Moderador, de ajustamento algo artificial de casos, mas era a apelação de casos onde ambos os contenedores (ou um deles) não se satisfaziam da sentença. E iam à Corte sob data marcada com o Rei a presenciar a justificação de cada lado. Necessário relembrar, para findar este pequeno intróito, que Portugal sempre teve uma tradição centralista: esta não implica a anulação do Município, mas certamente implica a anulação do Municipalismo, tão amado dos Liberais, visto que, no fim do dia, os Municípios assim o eram porque o Rei concede uma Carta de Foral ad æternum, até que fosse necessário ajustar qualquer coisa. E os Municípios, que tinham relevância per se, não estavam em padrão de igualdade com o Rei, como se de um “Terceiro Estado” se tratasse. Na Idade Média nunca houve “Três Estados” (politicamente) instituídos – aliás, nas Cortes de Coimbra de 1385, D. João I até diz isto: “E o estado he partido em esta parte: PRELADOS, FIDALGOS, LETRADOS E ÇIDADAAOS”. Um homem do Povo, que eventualmente ascenda, não está no “Terceiro Estado”, está numa destas categorias.

Galeria: Fotografias de Francisco Norton de Matos

Do autor: fragmentos de sombras e reflexos do meu olhar, porque nas sombras encontro versões de mim que já fui, e nos reflexos o que talvez ainda serei. Tudo se mistura: o real, o sonho, o instante. Francisco Norton de Matos é um fotógrafo amador que reside em Lisboa. Algum do seu currículo e restante trabalho fotográfico pode ser consultado aqui: https://www.viewbug.com/member/francisconortondematos#/francisconortondematos/photos.

Relational Quantum Mechanics: Relations Before Things-in-Themselves

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Imagine you are in a train moving smoothly at constant speed. You throw a ball straight up, and it comes straight back to your hand. From your point of view inside the train, the ball just went up and down. But someone standing on the platform outside sees the ball tracing a parabola in the air because the train is moving. Who is right? Both. Velocity is not something the ball has “by itself.” Velocity is always relative to something else: to you in the train or to the person on the platform. This is a very classical idea—Galileo already understood it in the 17th century, and Einstein made it the cornerstone of special relativity. Properties like velocity, kinetic energy, or even the shape of rapidly moving objects are relational: they only make sense when we specify “relative to what.”

Classical physics, however, still believes that many other properties are absolute and belong to things in themselves. A stone has a definite position and a definite mass no matter who looks at it. A thermometer has a definite temperature. The universe as a whole has a definite configuration that exists independently of any observer. We just happen not to know it completely, but in principle it is there.

Quantum mechanics, especially in the interpretation developed since the 1990s by Carlo Rovelli under the name Relational Quantum Mechanics (RQM), says: no. All physical properties—not just velocity—are relational in exactly the same way. There is no absolute fact of the matter about the position of an electron unless we specify relative to which other system we are asking the question. The moon is not simply “there” when nobody looks; its being there is always its being there relative to something else that interacts with it.

From Classical Relations to Quantum Relations

Rovelli starts from the simple observation we began with: classical physics already contains relational quantities (velocity, angular momentum, electric potential, etc.). What quantum mechanics teaches us is that the non-relational, “absolute” quantities we thought remained—position, momentum, spin component—are actually relational too. The famous wave function ψ, instead of describing the objective state of a system in itself, describes the information that one system has about another system.

When a photon hits a molecule in your retina and you say “I see the moon,” the quantum state of the moon-photon-you system has changed. The moon now has definite properties relative to you (a definite approximate position, brightness, etc.), but those properties are not written somewhere in the moon independently of the interaction. Another observer—a neutrino passing by that barely interacts with the moon—has almost no information, so for that neutrino the moon is still largely indefinite, smeared out in quantum superposition.

This is the central claim of RQM: any physical event is an interaction, and any property is the manifestation of one system affecting another. There is no privileged “God’s-eye view” that sees everything absolutely.

What Is a Thing?

If everything is relational, what exactly is a “thing”? In everyday language and in classical physics we imagine things as little lumps of stuff that possess properties on their own and then enter into relations. Rovelli inverts the order. Relations come first. A “thing” is just a temporary node in a web of interactions—a bundle of relations that remains approximately stable for some time from the point of view of other bundles.

Think of a chair. Classically, the chair is made of atoms that have definite positions whether you look or not. In RQM the atoms only acquire definite relative positions when some system (your eye, a photon, the floor, the air molecules) actually interacts with them. The chair is a consistent pattern of actual and possible interactions. It is real, but its reality is always relative to something else.

This leads to a strange but consistent conclusion: there are no things-in-themselves. There are only relations. The electron is not a little ball hiding somewhere “really”; the electron is the way it affects detectors, atoms, photographic plates, etc. Its being is its relating.

Can There Be Relations Without Things?

Philosophers have asked for centuries: if everything is relation, what do the relations relate? Must there not be some underlying substance, some substratum that stands in relation? Rovelli’s answer, echoing Spinoza and echoing certain strands of Buddhist philosophy, is no. Relations do not need an underlying “thing-stuff.” Relations can be fundamental.

In the mathematical formalism of quantum mechanics this is almost obvious. The basic object is not a state vector assigned to a single system in isolation; the basic objects are correlations between systems, described by the density matrix or by the amplitudes for joint outcomes. The Hilbert space is always a tensor product space of at least two systems. There is no consistent way to assign a pure state to a single isolated system if it has ever interacted with anything else—and in practice nothing is ever completely isolated.

So the ontology of RQM is an ontology of events-of-interaction, not of objects-in-isolation. A relation without prior things is not only possible; it is what the theory forces upon us.

Why the Totality, the “Whole Universe,” Cannot Be Conceived

In classical physics we dream of a final theory that describes the state of the entire universe from t = –∞ to t = +∞. Even if we never reach it, the idea makes sense: the universe is a big box containing everything, and its total state is the list of all positions and velocities inside the box.

RQM says this idea is incoherent. Because every property is relational, to describe “the universe” we would need to say how it is relative to something else. But there is nothing else outside the universe. The universe is not relative to anything; therefore the universe as a whole cannot have a quantum state in the same sense that a subsystem can.

Rovelli likes to quote the physicist John Bell, who said that the word “measurement” should be replaced by “interaction with an external system,” but when the system is the whole universe there is no external system left. The notion of a complete, observer-independent description collapses. There is no “view from nowhere.” Every actual description is from the point of view of some subsystem relative to which events acquire definiteness.

This is not solipsism. The world is still out there, stubbornly real. But its reality is fragmented into a multitude of relative facts. My moon is definite relative to me; your moon is definite relative to you; the neutrino’s moon is almost completely indefinite. None of these perspectives is privileged.

Is This Physics or Philosophy? And Why Does It Feel Moral?

Many physicists dislike RQM precisely because it sounds “philosophical.” They prefer interpretations (Copenhagen, Many-Worlds, Bohmian mechanics) that try to keep an absolute, observer-independent description somewhere, even if it is hidden or inaccessible. Rovelli’s answer is that the discomfort comes from clinging to an old metaphysics of substance that quantum mechanics has simply outgrown.

But the issue runs deeper than physics. The habit of thinking that reality must ultimately consist of little things-in-themselves that then relate is the same habit that makes us think human beings are atomic individuals who then enter into social relations. If relations are primary, then a person is not a soul trapped inside a body that then decides to connect with others; a person is the web of relations—language, love, conflict, care—that constitute her from the beginning.

Rovelli himself often points out that accepting the relational nature of reality has ethical consequences. If there are no absolute facts, only facts relative to interactions, then the way we interact literally co-creates the properties of the world. Responsibility is not something added later; it is woven into the fabric.

Is Duality Ontologically Prior to Singularity?

In the end RQM suggests a very austere ontology: the world is made of interactions, and an interaction is irreducibly something that happens between at least two systems. Singularity—a lone thing existing by itself—is impossible. Every quantum event is a two-place relation (at minimum). The duality of observer-and-observed, system-and-environment, is not an artefact of our ignorance; it is the fundamental grain of reality.

This reverses the usual philosophical order. Western metaphysics since Parmenides has privileged “Being” as One, and treated relations as secondary. Even when relations were taken seriously (Leibniz’s monads that are “windowless” yet harmonized, or Whitehead’s process philosophy), the lone monad or the single actual occasion still came first logically. RQM says no: the isolated monad is the abstraction. The interaction is concrete and prior.

There is no description of a single system without reference to another. The tensor product comes before the individual factors; the relation comes before the relata. In the beginning was the relation.

Conclusion

Relational Quantum Mechanics, as Carlo Rovelli has articulated it over three decades, is not an exotic add-on to quantum theory. It is the consistent application of the same insight that made us understand velocity is relative: all properties revealed by quantum interactions are relative in exactly the same way. Things dissolve into bundles of relations; the universe as a whole cannot be grasped because there is no external standpoint; and reality turns out to be an immense web of encounters rather than a collection of solitary substances.

This is unsettling, because we are used to thinking of ourselves as separate spectators looking out at an objective stage. But it is also liberating. If reality is relational all the way down, then every interaction matters; every measurement, every glance, every conversation is a place where the world acquires definite properties. We do not just live in the universe. With every act we co-create the relative facts that are, as far as physics can tell, all the facts there are.

A brief bibliography for those who want to find out more:

Books

  1. Carlo Rovelli – Helgoland: Making Sense of the Quantum Revolution
    • Italian edition: 2020; English edition: 2021
    • Explains relational quantum mechanics for a general audience, under 200 pages, almost no equations.
  2. Carlo Rovelli – Covariant Loop Quantum Gravity (2014)
    • Part III, Chapter 8: The relational strategy
    • Shows how RQM ideas connect to quantum gravity.

Foundational Papers

  1. Carlo Rovelli – “Relational Quantum Mechanics”
    • International Journal of Theoretical Physics 35, 1637–1678 (1996)
    • The original paper introducing RQM.
    • arXiv preprint
  2. Carlo Rovelli – “An Argument Against the Realistic Interpretation of the Wave Function”

Philosophical / Review Articles

  1. Federico Laudisa – Open Problems in Relational Quantum Mechanics
    • arXiv: 1710.07556 (2017)
    • Discusses open conceptual and foundational issues in RQM.
    • arXiv link
  2. Bas C. van Fraassen – “Rovelli’s World”
    • Foundations of Physics 40, 390–417 (2010)
    • Philosophical discussion of RQM and its relation to relativity and quantum mechanics.
    • PDF link
  3. Stanford Encyclopedia of Philosophy – “Relational Quantum Mechanics”
    • Authors: Federico Laudisa & Carlo Rovelli (substantive revision, 2019)
    • Excellent, accessible philosophical overview.
    • SEP link
  4. Claudio Calosi & Timotheus Riedel – “Relational Quantum Mechanics at the Crossroads”
    • Foundations of Physics, 2024
    • Recent review of philosophical and foundational aspects of RQM.
    • PhilPapers link

Um retorno ao Belo: uma revisitação ao Belo na Antiguidade e na Idade Média

Um retorno ao Belo: uma revisitação ao Belo na Antiguidade e na Idade Média, texto de Yasmin Ferreira Freitas, Mestranda em Educação Clássica. Resumo: onde se revista o conceito de Belo. Iniciando com Platão e Aristóteles, compreenderemos o conceito de Belo nos respectivos autores e a ligação do Belo com o conhecimento. Posteriormente, iremos observar o Belo na Idade Média, trazendo ênfase para os trabalhos de Tomás de Aquino. Nesta análise, temos como objetivo não restabelecer os valores estéticos deixados pela Antiguidade e pela Idade Média, mas retornar ao marcos deixados por eles. Palavras-chaves: Belo, Beleza, Conhecimento,

Introdução

O Belo, um conceito amplamente discutido ao longo dos anos. Umberto Eco visou fazer uma investigação do conceito diacronicamente em seu livro A História da Beleza. Apesar de muitos não considerarem o livro como uma investigação sobre a Beleza, pois por vezes no livro não vemos uma distinção muito clara entre a arte e a beleza. Umberto Eco navega entre os dois conceitos, trazendo um banco extenso de imagens e referências sobre o tema. Como Umberto Eco, muitos se perderam em busca do Belo não por um ânimo dobre, mas por nunca a terem perdido. Só encontramos o que perdemos.

O Belo em Platão e Aristóteles.

Na Antiguidade, não existia uma preocupação explícita em relação à estética, pois o conceito era tão intrínseco aos costumes, tão arraigados em aos valores, faziam parte da tradição. Filósofos como Platão e Aristóteles saem um pouco da tradição, em ligeiros pensamentos sobre a beleza. Consideramos tradição no sentido da continuidade ou permanência de uma doutrina, visão de mundo, costumes e valores do grupo social que estavam inseridos.

Em Platão, o belo vem por meio da intuição ou noésis, não por um conhecimento hipotético-dedutivo ou dianóia. Os objetos são considerados belos por serem parte da beleza em si. O belo encontra-se no cosmo platônico como integrante da concepção do mundo perceptível, ligando-se ao conceito de kalokagathia:“ o que é bem, também é belo”.

Na concepção aristotélica, existem dois tipos de belo: o belo moral e o belo formal. O belo formal “é constituído pela ordem, pela simetria e por uma grandeza capaz de ser abarcada, em seu conjunto, por um só́ olhar” (ABBAGNANO, 2003). No universo de Aristóteles, o belo e o bem possuem um valor metafísico idêntico. Aristóteles desenvolveu um conceito de belo próximo ao de bem moral. O bem causa uma ação e o belo gera uma contemplação. Ao contemplar, o cognoscente poderá abstrair a beleza no objeto ou na ação.

A relação entre o conhecimento e o Belo.

Na perspectiva platônica e aristotélica, é possível contemplar o belo e descobrir a sua essência através do conhecimento. Existe uma diferença na visão de Platão e Aristóteles em relação à arte, enquanto um mostra que a arte somente uma aparência e o filósofo é o único capaz de reconhecer o verdadeiro valor da arte, o outro possui uma perspectiva mais positiva no qual a arte é de fato uma imitação, mas pode ter um caráter elevado, como a poesia, ao afirmar os universais, as essências.

Independente da oposição, ambos demonstram que o belo é alcançável e cognoscível. Mas para conseguirmos chegar a esse ponto, devemos voltar à questão do conhecimento. Platão e Aristóteles acreditavam nas essências, nos universais. Platão diz que cada singularidade possui uma essência. Desta forma, conhecer é conhecer as essências, ou seja, o conhecimento é a busca da essência. Do mesmo modo, Aristóteles defendeu o conhecimento como a comunicação do singular de sua essência à minha inteligência.

“O auge da contemplação do belo consiste, pois, em chegar a contemplar a própria essência do belo que confere a todos os objetos particulares são um pálido reflexo de beleza. Essa essência é a ideia pura e universal do belo”. (GREUEL, p. 147, 1994)

A relação entre o conhecimento e o Belo na Idade Média.

O Belo foi muito explorado durante a Idade Média. Muitos conceitos florescem da terra fertilizada pelas ideias de Platão e Aristóteles. Tomás de Aquino, Agostinho de Hipona, Dionísio Areopagita e outros se debruçaram com maior ou menor intensidade, implicitamente ou explicitamente sobre a beleza. Para entendermos melhor, o Belo e o conhecimento no Medievo devemos recorrer à Tríade Verdadeiro-Belo-Bom. Ela aparece inicialmente no diálogo platônico de Filebo, uma espécie de proto-forma, que depois será esquadrinhada na Idade Média, como afirmou Aertsen (2008, p.6).

A Teoria de Transcendentes que permeia a filosofia medieval, a ideia de que a criatura está envolvida nas propriedades do ser, e de que Deus é a fonte do ser. Essas propriedades estão para além das categorias aristotélicas, estão ligadas aos próprios entes. Esses transcendentes, apesar de parecem distantes, para os medievais, eram cognoscíveis. Um exemplo disso, eram as concepções de potência e de atos humanos em Tomás de Aquino, que aplicados num método de redução constituem a busca pelos transcendentes. Aquino reflete sobre o belo e o bem demonstrando a viabilidade de alcançá-los através da razão e dos sentidos.

O belo e o bem, considerados em relação ao sujeito, se identificam, porque têm o mesmo fundamento — a forma; e, por isso, o bem é louvado como belo. Mas, racionalmente, diferem, pois o bem, propriamente, se refere ao apetite, sendo o que todos os seres desejam; e, portanto, exerce a função de fim, porque o apetite é um como que movimento para a realidade. O belo, porém, diz respeito à faculdade cognoscitiva, pois, chamam-se belas às coisas, que, vistas, agradam. E, por isso, o belo consiste na proporção devida; pois os sentidos se deleitam com os seres, devidamente proporcionados, como se lhes fossem semelhantes; porque eles, ao modo de toda virtude cognoscitiva, são, de certa maneira, proporção. Ora, o conhecimento implicando assimilação, e esta supondo uma forma, o belo depende, propriamente, da noção de causa formal. (AQUINO, 2016, pp. 56–57)

Apesar das diferentes vertentes sobre o Belo, sobre sua unidade com os transcendentes ou sua existência independente de outras transcendentes. O Belo permanece aquela essência invisível, que se manifesta visível, que penetra a realidade sensível e que pode ser admirada, apreciada e perscrutada por aqueles que a discernem.

A queda do Belo

Com o Nominalismo, o Humanismo e outras correntes filosóficas, o conceito de conhecimento se alterou. As essências não possuem realidade nos singulares, só existe o concreto. As essências tornam-se meras abstrações e não possuem ligação com a realidade. Consequentemente, o conceito de belo se esvai. Se o belo é uma essência manifestada nos singulares, e negamos a existência das essências, o belo torna-se somente uma abstração, uma imagem ligada às nossas sensações, não, a um universal. A noção de belo é somente uma construção de percepções, sensações e sentimentos, não possui valor em si. A autorreferenciação aparece como a solução para o problema. Mas como Lewis afirma:

“ Nenhuma emoção é, em si mesma, um juízo; nesse sentido, todas as emoções e sentimentos são alógicas, mas elas podem ser racionais ou irracionais quando se conformam ou deixam de se conformar à razão. O coração nunca toma o lugar da mente; mas ele pode, e deve, obedecê-lo”. (LEWIS, p.25, 2017)

Se tudo é belo, nada é belo. Só podemos dizer que algo é belo, se reconhecermos a beleza, mas se a beleza não existe como um conceito fixo, será impossível a afirmação: isso é belo. Assim como uma pessoa não conseguirá reconhecer um alomorfe, se ela não conhecer as formas fônicas fixas. C.S. Lewis resumiu o problema na seguinte proposição: “Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta” (LEWIS, p.51, 2014).

Conclusão

Sendo assim, propomos um retorno ao Belo. Voltemos ao princípio dos gigantes, para não nos tornarmos daltônicos da beleza, limitados pela dificuldade, impostas por teorias, de identificar as cores do belo em nosso mundo material. Fugindo daqueles que, por amor à ciência, detiveram-se nos objetos estéticos, e consideraram o estudo do belo como uma espécie de devassidão.No Inferno de Dante, haveria um lugar para esses “homens do Belo” e nem por um Frankenstein ideológico, revestido de ideias derivadas das essências, mas sem as essências, um decadentismo que bebe vinho só para se embriagar, mas não para apreciá-lo.

É evidente, que o estudo do Belo tornou-se catastrófico e impossível. A relativização do belo faz com que o conceito não seja operacional. A beleza como uma concepção flexível e mutável não nos permite fazer inferências sobre ela. A inconstância é um obstáculo para definição, pois a definição recorre à comparação de preceitos estáveis. A comparação exige uma constante. Sem a constante, o que nos restará será a mera documentação. A documentação de diversas asserções, que clamaram sua afirmação em si própria, nunca poderão ser consideradas efetivas, pois não poderão ser reproduzidas. Para exemplificar, entraremos numa equação no qual a constante não existe, ou se existe, não é constante.

O objetivo final não é retornar a Antiguidade ou a Idade Média, pois nunca poderemos retornar aquelas eras, aquelas mentalidades, mas devemos retornar aos marcos deixados por elas.

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Direitos Humanos: um Novo Olhar na Perspectiva Da Educação

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Resumo: O presente ensaio investiga o papel estratégico da educação jurídica na consolidação dos direitos humanos no contexto de uma sociedade transnacional e globalizada. Parte-se da evolução normativa internacional, desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) até o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), analisando os princípios estruturantes do sistema internacional — universalidade, indivisibilidade e interdependência — e sua incorporação pelo constitucionalismo contemporâneo. A crítica ao modelo jurídico-formalista tradicional fundamenta a proposta de uma educação emancipatória, ética e comprometida com a justiça social, capaz de formar operadores do Direito conscientes de sua função social. Nesse sentido, o ensino jurídico transforma-se em instrumento para a efetivação dos direitos humanos e para a construção de um Direito sensível às realidades e às desigualdades. Palavras-chave: Educação jurídica; Direitos humanos; Constitucionalização; Ensino emancipatório; Justiça social.

Introdução

A consagração dos direitos humanos como valores universais impõe aos Estados e às instituições sociais o dever de garanti-los, promovê-los e protegê-los de maneira integral. Entre os instrumentos mais eficazes para esse fim, a educação ocupa um lugar de destaque, sendo reiteradamente reconhecida, em documentos internacionais e constituições nacionais, como condição essencial para o exercício da cidadania, a promoção da igualdade e a realização da justiça.

Nesse cenário, a educação jurídica adquire centralidade. Como campo de formação encarregado de preparar operadores do direito – juízes, promotores, advogados e legisladores – não apenas reproduz conhecimento técnico, mas também influencia a construção de visões de mundo, a interpretação de normas e a sensibilidade às desigualdades sociais. Quando orientada por um modelo crítico e emancipatório, a educação jurídica torna-se um vetor de transformação social, promovendo a cultura dos direitos humanos e desafiando estruturas excludentes e autoritárias.

Este artigo propõe uma análise da educação jurídica sob a perspectiva dos direitos humanos, examinando seu desenvolvimento normativo no âmbito internacional, os princípios estruturantes da proteção educacional e os desafios contemporâneos enfrentados pelas faculdades de direito. A proposta é destacar que uma educação jurídica comprometida com a dignidade da pessoa humana é indispensável para a consolidação de uma ordem jurídica democrática, plural e solidária, especialmente em contextos transnacionais.

Educação e acesso às ciências jurídicas como promoção dos direitos humanos no sistema internacional de proteção

O termo “direitos humanos” refere-se a um conjunto de prerrogativas reconhecidas como essenciais à dignidade da pessoa humana e cuja finalidade é garantir condições mínimas de liberdade, igualdade e justiça. São direitos inerentes à condição humana e independem de nacionalidade, raça, sexo, religião, orientação política ou qualquer outra forma de discriminação. Nesse sentido, os direitos humanos se baseiam na concepção universal de que todos os seres humanos são iguais em dignidade e devem gozar de igual proteção legal (SARLET, 2017, p. 43-45).

No campo teórico, Norberto Bobbio aponta que os direitos humanos não são conceitos fixos ou herméticos, mas realidades históricas em constante expansão. Para o autor, os direitos humanos não surgem de uma só vez, nem são plenamente realizados imediatamente: “O problema fundamental em relação aos direitos humanos hoje não é justificá-los, mas protegê-los” (BIOBBIO, 2004, p. 5-7). Essa afirmação destaca o frequente descompasso entre o reconhecimento formal e a realização prática dos direitos, especialmente em contextos de desigualdade estrutural e exclusão social.

A evolução histórica dos direitos humanos é geralmente dividida em gerações ou dimensões, de acordo com a classificação clássica proposta por Karel Vasak. A primeira geração, marcada pelos direitos civis e políticos, tem suas origens nas lutas liberais do século XVIII e consagra a liberdade individual contra o Estado. A segunda geração, relacionada aos direitos sociais, econômicos e culturais, surgiu nos séculos XIX e XX, como resposta às demandas de igualdade material e justiça social. Já a terceira geração, vinculada a direitos difusos e coletivos, como o direito ao meio ambiente, à paz e ao desenvolvimento, expressa a solidariedade como princípio estruturante das relações contemporâneas (VASAK, 1979, p. 29-31).

Atualmente, discute-se a emergência de uma quarta geração de direitos, voltada para as questões da bioética, da proteção de dados e da democracia digital, fenômenos que resultam das transformações tecnológicas e culturais da sociedade globalizada (PIOVESAN, 2022, p. 102-105). Esta conceção dinâmica e evolutiva reforça a necessidade de atualização contínua dos quadros legais e das práticas educativas, especialmente no domínio jurídico, para que os profissionais do direito estejam preparados para compreender e enfrentar os novos desafios da proteção da dignidade humana.

No Brasil, o ordenamento jurídico internaliza os direitos humanos por meio de dois grandes marcos regulatórios: a Constituição Federal de 1988, denominada “Constituição Cidadã”, e os tratados internacionais ratificados pelo Estado brasileiro. O artigo 5º da Constituição garante, em seus parágrafos, uma ampla gama de direitos fundamentais, reconhecendo sua aplicação imediata (artigo 5º, §1º), bem como a incorporação de tratados internacionais de direitos humanos com status supralegal, de acordo com a jurisprudência estabelecida pelo Supremo Tribunal Federal.

Apesar desse forte arcabouço normativo, a realização dos direitos humanos continua sendo um dos maiores desafios do Estado Democrático de Direito. A distância entre a norma e a realidade revela o chamado “déficit de efetividade”, especialmente em contextos marcados pela desigualdade econômica, violência estrutural, racismo institucional e violação sistemática dos direitos de grupos vulneráveis (SILVA, 2021, p. 217-219).

Nesse cenário, a educação e o acesso à ciência jurídica, no campo educacional, adquirem protagonismo como mecanismos de promoção da cultura dos direitos humanos. Somente por meio de uma educação crítica, reflexiva e comprometida com os valores constitucionais será possível transformar o direito de instrumento de dominação em verdadeiro instrumento de emancipação social. A realização dos direitos humanos requer cidadãos não apenas tecnicamente preparados, mas também eticamente orientados para a defesa intransigente da dignidade humana.

Evolução das normas internacionais: da DUDH ao PIDESC

A consolidação do direito à educação em nível internacional é resultado de um progressivo processo histórico e normativo, que se iniciou no período pós-Segunda Guerra Mundial e se desenvolveu a partir da necessidade de reconstruir as bases morais, jurídicas e institucionais da convivência entre os povos. A inclusão da educação na lista de direitos humanos fundamentais reflete o reconhecimento de que é uma condição essencial para a liberdade, a igualdade e a paz duradoura.

O marco inaugural desse processo é a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948. No artigo 26, a Declaração afirma que: “toda pessoa tem direito à educação”, e que esta deve ser gratuita nas séries elementares e fundamentais. Em vez de prever o acesso, o texto define propósitos claros para a educação, afirmando que “ela terá como objetivo o pleno desenvolvimento da personalidade humana e o fortalecimento do respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais” (ONU, 1948).

Por isso, a DUDH consagrou um modelo normativo que associa a educação não apenas à instrução formal, mas também ao processo de formação ética e cívica, orientado pelos valores da dignidade, igualdade e fraternidade. Como aponta Flávia Piovesan, a Declaração foi responsável por estabelecer o paradigma contemporâneo da indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos, no qual a educação ocupa um papel estruturante (PIOVESAN, 2022, p. 52-55).

Os desenvolvimentos normativos continuam com o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), adotado em 1966 e em vigor desde 1976. O artigo 13 do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais representa a disposição internacional mais ampla e detalhada sobre o direito à educação, e afirma que os Estados Partes reconhecem o direito de todos à educação, que deve ter como objetivo “o pleno desenvolvimento da personalidade humana e o senso de sua dignidade”. além de fortalecer o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais (ONU, 1966).

O Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais inova ao estabelecer obrigações jurídicas mais densas e progressivas para os Estados, nos seguintes termos: educação primária obrigatória e gratuita para todos; Ensino secundário amplamente acessível e progressivamente gratuito; Ensino superior baseado no mérito e progressivamente gratuito; Desenvolvimento contínuo de um sistema educacional e promoção da alfabetização funcional de adultos; Liberdade dos pais de escolher instituições privadas, desde que respeitadas as normas mínimas exigidas pelo Estado.

Para Ingo Wolfgang Sarlet, o PIDESC representa uma realização programática do direito à educação, impondo obrigações de respeito, proteção e cumprimento ao Estado, além de definir critérios de acessibilidade, adaptabilidade, aceitabilidade e disponibilidade, de acordo com os parâmetros traçados por Katarina Tomasevski, Relatora Especial da ONU sobre o direito à educação (SARLET, 2019, pág. 377-379).

A interconexão entre a DUDH e o PIDESC deve ser entendida como uma continuidade normativa: a primeira fornece os fundamentos do princípio; a segunda, os instrumentos de legalidade e aplicabilidade concreta. Além disso, como aponta Antônio Augusto Cançado Trindade, a leitura sistemática dos tratados internacionais deve ser feita a partir de uma hermenêutica teleológica voltada para a eficácia e a proteção integral do ser humano (CANÇADO TRINDADE, 2003, p. 56-58).

É importante notar que, no Brasil, tanto a DUDH quanto o PIDESC foram ratificados e fazem parte do bloco constitucional, tendo uma hierarquia normativa relevante à luz do artigo 5º, parágrafo 2º, da Constituição Federal de 1988. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente no julgamento RE 466.343/SP, reconheceu os tratados internacionais de direitos humanos como normas supralegais.

Com isso, o direito à educação não só foi universalizado como expectativa ética e valor jurídico, como também adquiriu densidade normativa, tornando-se parâmetro obrigatório para a ação dos Estados, inclusive na formulação de políticas públicas compatíveis com os compromissos internacionais assumidos.

Princípios estruturantes: universalidade, indivisibilidade e interdependência

A proteção internacional do direito à educação está firmemente baseada em uma base de princípios que dá coesão e força normativa ao sistema global de direitos humanos. Os princípios de universalidade, indivisibilidade e interdependência não apenas fundamentam o arcabouço normativo dos tratados internacionais, mas também orientam sua interpretação e aplicação prática. Eles dão ao direito à educação uma dimensão ética e legal que transcende as fronteiras do Estado, reafirmando seu caráter transnacional.

A concepção contemporânea de direitos humanos é o resultado de um longo processo de elaboração teórica que combina ética, filosofia política e teoria do direito. Os princípios de universalidade, indivisibilidade e interdependência derivam diretamente do ideal kantiano da dignidade humana como um valor intrínseco e inalienável, que impõe a todos os sistemas jurídicos o dever de proteger a pessoa como um fim em si mesmo.

Na perspectiva de Norberto Bobbio, a universalidade dos direitos humanos não está apenas em sua aspiração moral, mas em seu progressivo reconhecimento como norma jurídica internacional. Como afirma o autor: “O problema fundamental hoje não é justificar os direitos humanos, mas protegê-los. E protegê-los para todos, em qualquer lugar do mundo.” (BOBBIO, 2004, págs. 5-7).

Essa visão, baseada no universalismo moral, se opõe ao relativismo cultural, que nega a aplicabilidade dos direitos humanos em nome da soberania cultural ou religiosa. A educação, nesse contexto, torna-se um instrumento para a afirmação universal de valores como liberdade, igualdade, autonomia e solidariedade, sendo incompatível com práticas que excluem, segregam ou instrumentalizam sujeitos.

Os princípios da universalidade, indivisibilidade e interdependência foram incorporados em diversos textos constitucionais contemporâneos, especialmente após a década de 1980, período de redemocratização e difusão das garantias sociais. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 consagra a educação como direito social e fundamento da cidadania (art. 205), em um modelo que integra normas programáticas, princípios estruturantes e mecanismos de controle judicial.

O princípio da universalidade expressa a ideia de que os direitos humanos pertencem a todas as pessoas, independentemente de nacionalidade, etnia, gênero, religião ou status social. Essa noção já está consagrada no preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos e reiterada em vários instrumentos internacionais e constituições nacionais.

Nas palavras de Flávia Piovesan (PIOVESAN, 2022, p. 58):

A universalidade traduz o reconhecimento de que os direitos humanos pertencem a todas as pessoas em razão da sua condição humana. Significa que não há barreiras ou fronteiras éticas ou jurídicas para o gozo desses direitos. Negar a universalidade é admitir que certos grupos humanos estejam fora do campo da dignidade¹.

A universalidade exige que o direito à educação seja garantido a todas as pessoas, incluindo aquelas que vivem em territórios assolados por conflitos, migrantes, refugiados, indígenas e apátridas. A educação, neste contexto, torna-se expressão da dignidade humana universalmente reconhecida .

A indivisibilidade dos direitos humanos, por sua vez, rejeita a distinção hierárquica entre direitos civis e políticos, de um lado, e direitos econômicos, sociais e culturais, de outro. Esta dicotomia foi ultrapassada, em particular, com a adopção conjunta do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e do Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, que, embora formalmente separados, são entendidos como instrumentos complementares.

Como aponta Amartya Sem (SEN, 2000, p. 171):

Não faz sentido falar de liberdades políticas quando não há como garantir às pessoas a oportunidade de ler, escrever, pensar criticamente ou conhecer seus direitos. Os direitos civis e políticos, e os direitos econômicos e sociais, se reforçam mutuamente. Eles não são rivais, mas parceiros.

Na prática, a indivisibilidade implica que a garantia do direito à educação é uma pré-condição para o exercício da liberdade de expressão, participação política e acesso à justiça. Sem educação, outros direitos tornam-se abstratos ou inatingíveis.

Finalmente, a interdependência dos direitos humanos pressupõe que o gozo efetivo de um direito conduza à realização de outros. É uma consequência lógica da indivisibilidade, mas com uma abordagem funcional: o reconhecimento de que os direitos humanos agem juntos, reforçando-se mutuamente.

Conforme definido por Ingo Wolfgang Sarlet (SARLET, 2019, p. 383):

A interdependência revela-se, em última análise, como um dos traços característicos mais marcantes do fenômeno dos direitos fundamentais. É por isso que a violação do direito à educação, por exemplo, repercute de modo direto na restrição da liberdade, da igualdade e do acesso ao trabalho e à cultura. Não se trata de um conjunto de direitos isolados, mas de um sistema integrado de proteção.

A educação, portanto, é uma espécie de chave para acessar outros direitos fundamentais, por isso sua implementação deve ser uma prioridade para os Estados e a comunidade internacional, destacando que a Agenda 2030 da ONU reconhece expressamente essa interdependência, ao integrar o ODS 4 (educação de qualidade) como meio para alcançar os demais objetivos globais de desenvolvimento sustentável.

Na análise de Canotilho, os direitos sociais fundamentais, como a educação, têm uma dupla dimensão: objetiva (como norteadora de políticas públicas) e subjetiva (como direito judicialmente exigível) (CANOTILHO, 2003, p. 462-467). Isso significa que, mesmo diante das restrições orçamentárias ou da tentativa de reservar o possível, o Estado não pode deixar de promover uma educação acessível, igualitária e de qualidade.

O STF, em diversas decisões, reconheceu a justiciabilidade do direito à educação e o caráter vinculante dos princípios estruturantes dos direitos fundamentais, incluindo sua aplicação em ações coletivas e no controle de políticas públicas (como em decisões sobre pisos salariais dos professores, transporte escolar e universalização da educação básica).

Em termos de políticas públicas, os princípios em questão estão expressos na Agenda 2030 da ONU, que propõe, por meio dos ODS, uma abordagem integrada e holística do desenvolvimento sustentável. O ODS 4 enuncia universalidade (educação para todos), indivisibilidade (ligação com outros ODS) e interdependência (cooperação internacional, inclusão digital, igualdade de gênero).

A Declaração de Incheon (2015), que sustenta a estrutura de ação para o cumprimento do ODS 4, afirma expressamente (UNESCO, 2015, p. 7):

A educação é um direito humano fundamental e a base para garantir a realização de outros direitos. Ela é essencial para a paz, a tolerância, o empoderamento e o desenvolvimento sustentável. Nosso compromisso com a educação é universal, e nenhuma meta será considerada atingida até que todas e todos tenham sido alcançados.

Essa concepção implica que os Estados não podem mais reivindicar limites territoriais ou soberania normativa para se eximirem das obrigações educacionais internacionais, especialmente no que diz respeito à equidade, à inclusão de migrantes e refugiados e à redução da exclusão digital.

Apesar da força normativa e retórica dos princípios estruturantes, sua aplicação enfrenta desafios estruturais e políticos. Em muitos países, a universalidade da educação se choca com as tradições religiosas e culturais que restringem o acesso à educação para meninas, minorias étnicas ou pessoas com deficiência. A indivisibilidade é negada pelas políticas neoliberais que privilegiam os investimentos em infraestrutura econômica em detrimento dos direitos sociais. Os sistemas administrativos fragmentados e setoriais ignoram a interdependência.

Além disso, a disparidade de recursos e capacidades entre os Estados impõe um limite material à plena realização do direito à educação como um direito transnacional, o que requer mecanismos mais fortes de cooperação técnica e financeira internacional.

Nesse sentido, Enrique Dussel propõe uma leitura crítica dos direitos humanos como um projeto ético-político inacabado, que deve ser constantemente reconstruído a partir das vozes silenciadas do Sul global (DUSSEL, 2000, p. 43-46). A implementação dos princípios estruturantes, portanto, não é apenas um problema técnico de implementação, mas um desafio político de redistribuição de poder, reconhecimento e recursos em escala global.

Os princípios de universalidade, indivisibilidade e interdependência são indispensáveis para a compreensão do direito à educação como um direito humano transnacional. Elas fornecem não apenas diretrizes interpretativas, mas também fundamentos éticos e legais para a reconstrução de políticas públicas educacionais compatíveis com a dignidade humana e os objetivos do desenvolvimento sustentável. No entanto, a implementação desses princípios requer mais do que normatividade: requer vontade política, cooperação internacional e transformação estrutural.

A constitucionalização do direito e o papel central do ensino do direito na promoção dos direitos humanos

A contemporaneidade é marcada por um processo de constitucionalização do direito, caracterizado pela elevação dos direitos fundamentais ao eixo normativo central dos ordenamentos jurídicos, com a ampliação do controle jurisdicional e o deslocamento do foco do direito estatal para estruturas normativas supranacionais. Assim, a educação jurídica assume um papel estratégico como mecanismo de difusão da cultura constitucional e dos direitos humanos, formando operadores do direito comprometidos com a dignidade da pessoa humana, a justiça social e os princípios democráticos.

A constitucionalização do direito e sua projeção pedagógica

A chamada “constitucionalização do direito” refere-se à tendência, consolidada após a Segunda Guerra Mundial, de transformar as Constituições em instrumentos normativos centrais, com força jurídica vinculante, dotados de aplicabilidade direta e imediata.

Como informa Luís Roberto Barroso: “Constituições modernas […] deixam de ser meras cartas políticas para se converterem em documentos jurídicos vinculantes, que consagram princípios estruturantes, direitos fundamentais e limites ao poder” (BARROSO, 2013, p. 25-28).

Esse processo implica a irradiação dos princípios constitucionais para todos os ramos do direito, exigindo do intérprete uma leitura axiológica, sistemática e finalista, com ênfase na promoção dos direitos fundamentais.

Do ponto de vista educacional, isso requer uma profunda transformação nos currículos e metodologias do ensino jurídico, que tradicionalmente se limitam a um dogma legalista, descolado das demandas sociais e dos fundamentos axiológicos do constitucionalismo democrático. É neste ponto que se destaca o papel renovador do ensino jurídico.

Crítica ao modelo jurídico-formalista e proposta de educação jurídica emancipatória

O ensino jurídico tradicional, amplamente difundido nas faculdades de direito latino-americanas desde o século XIX, tem sido repetidamente criticado por reproduzir um modelo jurídico-formalista, focado na memorização de normas e na reprodução mecânica de textos jurídicos, desprovido de contextualização social, crítica política e compromisso transformador. Esse modelo, longe de promover a cidadania e a efetivação dos direitos humanos, colabora com a manutenção de estruturas de exclusão, desigualdade e autoritarismo.

O formalismo jurídico surgiu no contexto da consolidação dos Estados modernos e da codificação do direito, com base na separação entre direito e moralidade, na neutralidade do intérprete e na supremacia da legalidade estrita. Inspirado nas escolas da exegese e do positivismo jurídico, este paradigma consagra uma visão reducionista do Direito como um “sistema fechado de normas”, desligado das realidades sociais.

Luís Alberto Warat descreve esse modelo como um “estudo jurídico do silêncio”, no qual o aluno é treinado para repetir regras, memorizar classificações e reproduzir decisões, sem espaço para questionamentos ou criação (WARAT, 2002, p. 103-105). Nessa perspectiva, o Direito aparece como um instrumento para a preservação da ordem estabelecida, e não como um meio de transformação social.

Esse modelo de educação jurídica formalista é marcado por algumas características estruturais: ênfase dogmática e de conteúdo; ausência de interdisciplinaridade; predominância de métodos expositivos e avaliação mecânica; pouca conexão com problemas concretos de direitos humanos e desigualdades sociais; ausência de reflexividade sobre o papel político do direito.

A consequência direta deste modelo é a formação de operadores jurídicos tecnicamente capazes, mas ética e politicamente alienados, sem compromisso com a função social da profissão e alheios às desigualdades estruturais que o Direito deve combater.

Em resposta às limitações do modelo tradicional, surgiram propostas de educação jurídica crítica, democrática e emancipatória, inspiradas nas pedagogias de Freire, nos estudos decoloniais e nos movimentos de educação popular. Essa abordagem propõe a reconceitualização. do processo formativo em Direito como espaço de construção coletiva do conhecimento, articulação entre teoria e prática, e transformação da realidade social.

Para Paulo Freire: “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo” (FREIRE, 2020, p. 65).

Aplicado ao ensino jurídico, esse princípio exige a substituição da formação técnica por uma formação crítico-reflexiva, voltada para a compreensão das estruturas de poder, das contradições normativas e das múltiplas formas de opressão que atravessam o direito.

Dentre os elementos centrais do ensino jurídico emancipatório, destacam-se: a interdisciplinaridade como eixo integrador do currículo, permitindo a articulação entre direito, sociologia, filosofia, economia, antropologia e ciência política; metodologia participativa, que estimula o protagonismo estudantil, o debate coletivo, a problematização da realidade e a mediação dialógica; a valorização das práticas jurídicas populares, como clínicas jurídicas, centros de extensão e atendimento à população vulnerável; a inclusão do conhecimento plural, que envolve epistemologias feministas, antirracistas, indígenas e ambientais, como forma de superação do monoculturalismo jurídico; A centralidade dos direitos humanos e da justiça social como fundamentos axiológicos do ensino e da prática jurídica.

Boaventura de Sousa Santos propõe a substituição do modelo eurocêntrico de produção de conhecimento jurídico por uma “ecologia do conhecimento”, afirmando que: “Não há justiça social global sem justiça cognitiva. Isso significa reconhecer a pluralidade de saberes e o valor das experiências populares e não ocidentais na construção do Direito” (SANTOS, 2005, p. 40).

No Brasil, esse movimento de renovação crítica do ensino jurídico foi impulsionado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (Resolução CNE/CES nº 5/2018), que reafirmam o compromisso das instituições com a promoção dos direitos humanos, da democracia, da diversidade e da justiça. Apesar disso, ainda são notórias as resistências institucionais e a permanência de uma cultura jurídica conservadora, elitista e distante da realidade social brasileira.

A educação jurídica emancipatória não se limita a uma reforma metodológica, mas representa uma reconstrução ética e política da função social do jurista. Nessa perspectiva, o profissional do direito é chamado a atuar como agente de transformação, comprometido com a promoção da igualdade, inclusão e cidadania.

Juárez Freitas resume esta proposta afirmando que: “O ensino jurídico precisa superar o tecnicismo cego e abraçar uma formação que desperte o senso de justiça e a capacidade de indignação, sem os quais o Direito se converte em instrumento de opressão e exclusão” (FREITAS, 2020, p. 127).

Assim, a educação jurídica emancipatória deve preparar seus alunos não apenas para a atuação profissional, mas também para o exercício da cidadania crítica, para a defesa dos direitos humanos e para a construção de uma cultura jurídica compatível com os desafios da contemporaneidade, marcada pela globalização, pela crise ambiental, pela exclusão digital e pelo crescente autoritarismo.

Conclusão

A consolidação de uma cultura jurídica orientada para a promoção dos direitos humanos depende inevitavelmente da transformação dos paradigmas educacionais que regem a educação jurídica. A superação do modelo jurídico-formalista, ancorado na repetição mecânica de normas e alheio às realidades sociais, é um passo fundamental para que o Direito cumpra sua função social de promover a justiça, a igualdade e a dignidade humana.

Como foi demonstrado, a educação jurídica, entendida como um processo emancipatório, permite a formação de profissionais conscientes de seu papel político e ético, dotados de sensibilidade social e compromisso com os princípios democráticos. A efetividade dos direitos humanos, especialmente em sociedades marcadas por exclusões históricas, depende não apenas da existência de normas, mas também da ação crítica e transformadora dos operadores do direito.

Em um mundo cada vez mais transnacional, a centralidade da educação jurídica está se expandindo, exigindo currículos comprometidos com a interculturalidade, a interdisciplinaridade e a defesa de grupos vulneráveis. Portanto, garantir o acesso à ciência jurídica como forma de educação crítica não é apenas um direito humano em si, mas uma estratégia para a promoção de todos os outros direitos.

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Contra o desprezo do inocente

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Contra o desprezo do inocente — a propósito da crónica de Isabela Figueiredo sobre O Preço Certo.

Li com atenção a recente crónica de Isabela Figueiredo, “As minhas normais utopias”, onde a autora declara que O Preço Certo já não se justifica e pergunta por que razão estamos a financiar a nulidade com os nossos impostos.

Não se trata de uma simples opinião televisiva , mas de um gesto moral. Figueiredo não se limita a dizer que não gosta do programa, declara-o indigno do espaço público. E é nesse gesto, mais do que na crítica em si, que o texto revela a sua verdadeira natureza.

A crónica começa num registo íntimo, quase doméstico, a escritora senta-se no sofá, liga a televisão sem som, observa os movimentos coloridos de um país que parece distante. É uma boa entrada, melancólica e observadora, que poderia ter conduzido a uma reflexão sobre o conforto e a solidão. Mas logo o tom muda para o “chinfrim” do programa, o “valor cultural nulo”, que, diz, todos pagamos.

O olhar terno cede lugar ao olhar severo. A autora, que no início parecia interessada em compreender o quotidiano popular, termina por o julgar.

Curiosamente, reconhece a autenticidade do público, a ternura de Fernando Mendes e os portugueses reais que ali se reúnem. Mas esse reconhecimento é apenas o trampolim para a condenação. O povo, visto de longe, é simpático, ouvido de perto torna-se incómodo.

O texto contém, assim, uma contradição essencial, confessa que não suporta o som do programa e, no entanto, fala dele como se o conhecesse em profundidade. Julga-o em silêncio, literalmente. É um detalhe revelador, o ruído que rejeita é, afinal, o ruído da realidade.

O alvo da crónica não é O Preço Certo. É o país que o vê.

Um país que ainda se reconhece em queijos e enchidos, em plateias que aplaudem, em prémios que são símbolos modestos de alegria. Há nisso uma humanidade ruidosa que incomoda a autora, talvez porque lhe recorda a terra de onde veio e a que já não quer regressar. O texto transforma o gosto popular em culpa fiscal, o problema não é o programa, é o facto de o estarmos a financiar com os nossos impostos. A estética transforma-se em moral tributária.

Mais inquietante é a omissão. Se a preocupação fosse realmente com a qualidade da televisão pública, o alvo natural seriam os reality shows que transformam a vida humana em espectáculo, a intimidade em mercadoria, e a humilhação em entretenimento. Mas esses programas, pagos por canais privados, não merecem uma linha.

Figueiredo volta-se contra o inócuo, não contra o indecente.

É fácil indignar-se com o inocente… exige coragem criticar o que verdadeiramente degrada.

Há, portanto, algo de profundamente revelador neste desprezo, o mal-estar de uma elite que olha o povo com uma mistura de ternura e vergonha. O texto é menos sobre televisão e mais sobre a dificuldade de amar o país real.

Quando escreve que “a televisão continua ligada porque constitui uma relativa companhia”, Figueiredo fala de si própria, não do público. O ecrã mudo é o espelho da sua solidão intelectual e, talvez, o país que lhe devolve um reflexo demasiado ruidoso.

O Preço Certo pode não ensinar nada, mas oferece algo que a literatura e a televisão raramente oferecem em conjunto, uma alegria despretensiosa. É um ritual comunitário onde o país se revê, mesmo que de forma caricatural.

Transformá-lo em símbolo de nulidade cultural é recusar essa comunidade.

O que está em causa, afinal, não é a qualidade do programa, mas a velha hierarquia entre quem se julga culto e quem apenas vive.

Em tempos, Isabela Figueiredo escreveu sobre a vergonha e o corpo com brutal sinceridade. Agora, parece dirigir essa mesma energia contra a alegria alheia. O seu texto não denuncia a mediocridade da televisão, denuncia o prazer popular de existir.

E isso, mais do que elitismo, é uma forma de tristeza.

Galeria: Fotografias de Luís Moreira

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Luís Moreira é um fotógrafo profissional residente em Vila do Conde. Nesta publicação apresentamos um breve portfólio do seu trabalho, com cenas paisagísticas de viagens em vários pontos do mundo. Podem encontrar mais do seu trabalho aqui: https://www.instagram.com/luismoreirafotografia.

Relógios Atómicos: histórias de uma precisão que mudou o mundo

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Os relógios atómicos são as máquinas mais precisas já criadas pelo ser humano. Do protótipo de amónia de Harold Lyons em 1949 ao estrôncio aprisionado em redes ópticas, marcaram a transição da observação dos astros para o domínio da física quântica. Hoje regulam o GPS, sincronizam a banca mundial e testam a relatividade de Einstein. Mas também guardam histórias curiosas: um protótipo com um relógio de parede em cima, satélites “falhados” que confirmaram teorias, e cientistas que ousaram redefinir o próprio segundo.

Em 1949, o físico norte-americano Harold Lyons, no National Bureau of Standards (hoje NIST), apresentou o primeiro relógio atómico capaz de operar, baseado na molécula de amónia. A fotografia clássica de Lyons, com um relógio de parede colocado em cima do protótipo, tornou-se icónica: era a prova de que aquela máquina de laboratório, aparentemente um armário metálico, media o tempo de forma inédita.

Louis Essen e o césio que mudou tudo

Louis Essen (à direita) e Jack Parry (à esquerda) com o primeiro relógio atómico de césio-133, construído em 1955 no National Physical Laboratory, Reino Unido. Este instrumento tornou-se a referência para a definição do segundo no Sistema Internacional de Unidades.

O salto decisivo chegou em 1955, quando Louis Essen e Jack Parry, no National Physical Laboratory (Reino Unido), construíram o primeiro relógio de césio-133 funcional. Essen já tinha experiência em medir a velocidade da luz, e foi graças ao seu rigor que o césio ganhou estatuto de padrão. Foi esse trabalho que, em 1967, levaria a redefinição do segundo no Sistema Internacional de Unidades.

A definição do segundo e o papel das instituições

Desde 1967, o segundo é a duração de 9 192 631 770 oscilações do césio-133.

Esta decisão, tomada em Sèvres, tirou a unidade básica do tempo do domínio astronómico (variações da rotação da Terra) e colocou-a na estabilidade quântica.

Desde 1967, o segundo é definido como a duração de 9 192 631 770 oscilações da radiação do átomo de césio-133, uma decisão tomada em Sèvres pela Conferência Geral de Pesos e Medidas. Esta redefinição marcou a transição da era astronómica para a era quântica: deixou-se de depender da rotação irregular da Terra e passou-se a basear a unidade fundamental do tempo numa propriedade imutável da matéria. O césio-133 foi escolhido pela sua estabilidade, pela facilidade de manipulação em laboratório e pelos resultados fiáveis já obtidos no primeiro relógio atómico funcional de 1955.

Exactidão e estabilidade: uma dupla de protagonistas

Dois conceitos atravessam toda a história: exactidão, que mede a proximidade ao valor verdadeiro, e estabilidade, que mede a regularidade ao longo do tempo. O físico Jerrold Zacharias, do MIT, trabalhou em relógios de césio ainda nos anos 50, e ajudou a clarificar estes conceitos em aplicações práticas.

Do laboratório ao espaço: engenheiros e cientistas no GPS e Galileo

O sistema GPS nasceu de equipas multidisciplinares nos Estados Unidos, com a união entre físicos, engenheiros de satélite e militares. Relógios de césio e rubídio desenvolvidos por grupos como o de James Jespersen garantiram a precisão inicial do sistema.

Constelação de satélites Galileo na órbita da Terra.

Na Europa, o programa Galileo foi impulsionado por equipas da ESA e da indústria, com o contributo de especialistas em máseres de hidrogénio como John Vanier e engenheiros em Neuchâtel, Suíça. Em 2014, quando dois satélites ficaram em órbitas erradas, investigadores como Pacôme Delva aproveitaram a oportunidade para testar a relatividade geral com relógios a bordo.

Do césio à luz: os pioneiros dos relógios ópticos

A revolução óptica tem protagonistas claros: Jun Ye, no JILA, que liderou o desenvolvimento dos relógios de estrôncio mais precisos do mundo; Hidetoshi Katori, em Tóquio, que criou a arquitectura de “rede óptica” para aprisionar átomos de estrôncio com lasers; e Thorsten Tamm, no PTB alemão, que comparou padrões ópticos a longas distâncias por fibra óptica. Estes cientistas abriram caminho à geodesia cronométrica, área que revela diferenças de gravidade através da comparação de relógios separados por centenas de quilómetros. É ciência de ponta sustentada no batimento dos átomos.

Três pequenas histórias para contar no intervalo do café

1) Um relógio com outro relógio por cima (1949). Harold Lyons, para mostrar ao público que a sua máquina era um relógio, colocou um relógio de parede em cima do protótipo de amónia. A imagem tornou-se símbolo da nova era.

2) Louis Essen e a vitória do césio (1955). Louis Essen enfrentou críticas de vários astrónomos, que consideravam arriscado substituir a observação das estrelas pela regularidade de um átomo como referência para medir o tempo. Décadas depois, a sua persistência foi reconhecida: sem ele, o segundo ainda seria definido pelo movimento irregular da Terra.

3) Satélites “falhados” que confirmaram Einstein (2014). Dois satélites Galileo em órbitas erradas tornaram-se laboratório natural para testar a relatividade geral. Uma falha de engenharia transformou-se numa das experiências mais elegantes da física moderna.

Para que serve, afinal, tanta precisão?

  • Navegação por satélite: sem relógios atómicos e correcções relativísticas, o GPS e o Galileo perderiam a utilidade em minutos.
  • Redes de telecomunicações e banca: transacções financeiras e fluxos de dados são ordenados ao nanossegundo.
  • Ciência fundamental: relógios ópticos testam constantes fundamentais, procuram variações subtis ao longo do tempo e oferecem geodesia cronométrica.

E amanhã?

Os relógios ópticos já atingem precisões na casa dos 10⁻¹⁸, e discutem-se agora padrões baseados no estrôncio ou no íterbio para substituir o césio como definição oficial do segundo. Quando esse dia chegar, o mundo continuará a viver normalmente — mas por trás da internet, dos satélites e da ciência de ponta, os protagonistas invisíveis serão os físicos e engenheiros que, desde Harold Lyons e Louis Essen até Jun Ye e Hidetoshi Katori, transformaram a forma como medimos o tempo.

A consciência nacional Portuguesa em 1580

“A crise sucessória aberta com a morte do Cardeal D. Henrique, de que as negociações referidas são um prenúncio, legou-nos também numerosos traços confirmativos do antagonismo pelo castelhano, sobre este se fundando algumas enérgicas afirmações de portuguesismo. Certo que não  faltaram também as deserções, os entendimentos com Filipe, e a Nação não ofereceu uma resistência total, mas não se devem perder de vista as circunstâncias dramáticas do País, depois de Alcácer-Quibir. Empobrecido, com as principais casas endividadas, com as suas elites  dispersas, sem gente de guerra, sem armas, sem capitães. Por cúpula os desentendimentos entre os pretensores e a enorme atividade corruptora dos agentes de Castela. Um simples documento bastará para se fazer uma ideia do estado a que chegara o País. Referimo-nos a um  depoimento de Cristóvão de Moura: “la tierra está como se puede imaginar, sin gente, sin presidios, sin armas y sin dinero”. Se se constituem os castelhanizantes, alguns factos são, todavia, sintomáticos para podermos avaliar o sentir geral do País. D. Jorge de Ataíde,  ex-Bispo de Lamego, oferece os seus préstimos a Cristóvão de Moura, mas com receio de que lhe acarretem o nome de Castelhano, “a mor infâmia que pode ter um fidalgo português”, e D. João de Mascarenhas esconde cuidadosamente do filho – disposto a lutar – a sua adesão a  Castela. Estes factos não são isolados, antes se enquadram numa atitude generalizada de receio dos fidalgos castelhanizantes pela forma como a sua parcialidade será encarada publicamente. Pedro Álvares de Nogueira, um contemporâneo, escreveu no Livro das Vidas dos Bispos de  Sé de Coimbra: “a maior parte dos fidalgos como estavão penhorados com as dadivas e promessas pretendião que logo tomassem por Rey sua Majestade mas isto encubertamente pello odio que conhecião que os Portuguezes tinhão aos Castelhanos”. Em alguns dos membros do Clero e da  Nobreza, até quando facilitaram o advento de Filipe, como escreveu o prof. Hernani Cidade, o “anti-castelhanismo, se bem moderado pela ganância ou pelo comodismo, era ainda assim o suficiente para repelir a absorção por Castela, o domínio parcial ou integral do Castelhano  A sujeição, mesmo gostosa, ao rei espanhol, neto do Portuguesíssimo Rei D. Manuel, não significa teoricamente sujeição a Castela ou Castelhanos, nem praticamente a ela arrastaria – pensava-se no tempo”.  É preciso não esquecer que se para muitos a titularidade da Coroa em  Príncipe não natural é sentida como um divórcio entre o Estado e a Nação, outros também não encaravam Filipe como estrangeiro. […] Na sua esmagadora maioria, os Portugueses não queriam a união peninsular. Este facto é certificado por múltiplos testemunhos contemporâneos,  provenientes de círculos diversos. Relatando as alterações em Portugal por morte de D. Henrique, diz um manuscrito coevo: “O povo todo este tempo, ainda que nunca foy ouvido, sempre insistio em não se unir com castella nas cortes e fora dellas com moito esforso, e desejo  pedindo, e buscando guerra ate as molheres, o que parece cousa de espanto, porque a elle so vinha o maior mal della”. Não obstante o seu arguto sentido político e o conhecimento das nossas dificuldades lhe fazerem duvidar de uma possível resistência, Saint Gouard corrobora  este depoimento ao comunicar para França que os Portugueses diziam “se sujeitariam antes ao diabo do que a el-rei de Castela”, verdadeira heresia só superada pela afirmação daquele deputado de Évora às Cortes de Almeirim: “Se Deus Nosso Senhor fosse Castelhano, eu não o  queria pera Rey de Portugall”. Monsenhor Roberto Fontana numa nota cifrada de 18 de Outubro de 1578 informa também para Roma que quanto “maiores são as pretensões do Rei Católico, muito maior o ódio aos Castelhanos”, e o Núncio Sauli, acreditado perante o Cardeal Rei e  “tido por muito espanhol”, comunicava: “O Povo odeia que o Rei Católico suceda neste Reino e fala muito licenciosamente”. Semelhantes testemunhos são plenamente corroborados por outros. Gioan Francesco Morosini, embaixador veneziano, por exemplo, alude a essa época ao  “odio immortale che ha regnato, regna i regnerà sempre fra Castigliani e Portughesi” e prognostica que “don Antonio s´era alzato re con grandissimo applauso di tutto il popolo”. E Lorenzo Priuli, embaixador veneziano em França, em carta à Senhoria, de 23 de Fevereiro de  1580, relatando uma conversa com o embaixador de Inglaterra em França, esclarece serem as vistas de Filipe II quanto a Portugal contrárias ao desejo da nação. Mais elucidativos que todos os outros são os depoimentos de Cristóvão de Moura e do próprio Filipe II. O primeiro,  na sua correspondência, insiste na oposição do povo, chega a referir-se aos populares como “dañados”, conta ao seu amo que pelas ruas era olhado como um touro, que era considerado um Judas e alude ainda ao “natural y envejecido odio que el pueblo tiene con castellanos”  Quanto ao segundo, não tinha ilusões sobre o sentir dos futuros súbditos, e reconhece numa carta a Cristóvão de Moura: “La verdad es que aborrecen la union, como Martim Gonçalez y que, se viesen la ocasión de poderla impedir sin peligro lo hariam como lós demás”. Se a estes  depoimentos quiséssemos juntar outros de Espanhóis não seria isso difícil, a começar pelo de Ribadeneyra. Ao condenar a guerra de conquista de Portugal, registava o ódio “y aborrecimiento tan entrañable que nos tienen los portugueses”. […] Os sintomas de antagonismo vão  desde a prosa tanto maçuda do Testamento do Reino de Portugal à simples quadra:

“Viva El-Rey D. Henrique

Nos infernos muitos anos

Pois deixou em testamento

Portugal aos Castelhanos.”

A animadversão ao castelhano encontra-se até na origem do grande florescimento da sátira  em Portugal no séc. XVII, período em que ela se funde “com o panfleto político e o manifesto de resistência”, como observa com justiça o Dr. Luís de Sousa Rebelo. […] D. Garcia de Silva y Figueroa, embaixador de Filipe III ao Châh Abbâs (1618-1619), tendo levado cerca de  dez anos para se descumbir de sua missão, tais as dificuldades levantadas pelas autoridades Portuguesas no Oriente, exprimia a opinião de que os Portugueses com seu ódio à Monarquia Espanhola nem sequer queriam ser chamados espanhóis ou confundidos com eles. Damián Salustio  referindo-se a Portugal caracterizou “la gente plebeya, como enemigos eternos de la nación castellana”; Sallas Barbadillo interrogava-se sobre a razão porque “quieren tan mal los Portugueses a los Castellanos” […]. O anticastelhanismo da nação revelado em observações,  picantes, mofas, chufas, troças cruéis, ficou refletido inclusivamente na imagem que do Português tinham os espanhóis do séc. XVII. Escritores daquela nação, por exemplo, fizeram chegar até nós as palavras daquele Frade Português que dizia: “Os moros son proximos, y os  jodeos son proximos, y os castejaos ainda son proximos”. Ou daquele outro que ao celebrar a Batalha de Aljubarrota – a grande vitória da véspera de Nossa Senhora de Agosto – excluía os castelhanos do grémio de Cristo: “Estábamos os christianos de un cabo del río, y los  castellanos de la otra parte”. É ainda um autor espanhol – Pelicer – quem nos conta o episódio da moça severamente repreendida pela patroa por ter chamado castelhano a um homem honrado (…)”.

 – “Consciência Nacional Portuguesa”, de Martim de Albuquerque.

Balsemão: As Rodas e o Eixo Que as Liga

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Não partilho das paixões positivas ou negativas em torno da figura de Francisco Pinto Balsemão. Trabalhei como jornalista do Expresso durante 13 anos. Contactei esporadicamente com ele, no elevador, nos corredores da antiga redação em Lisboa, que foi onde ingressei no jornal. Fui por ele recebido, um par de semanas depois do ingresso nos quadros, como era da praxe na “família Expresso”, fui um ano depois, no primeiro e último almoço de aniversário do jornal a que compareci, brindado por ele com um laudatório, “o nosso mais jovem e brilhante repórter”, de mãos pousadas sobre os meus surpreendidos ombros.

Ameno, elegante, cordial, discreto. Todos estes adjetivos vão bem com o carácter de um homem que, pelas origens familiares (elites republicanas e monárquicas, simultaneamente), pela enorme fortuna pessoal-familiar, teve apenas de ser inteligente para não desbaratar esse poder, como qualquer vulgar “héritier” e ampliá-lo ao ponto de o reconverter na aparência de “simples” autoridade.

Nunca Balsemão me fez qualquer ditado e creio que a nenhum outro jornalista da casa ou fora dela. Mas, não precisava. Balsemão nomeou uma entourage e um capatazariato suficientemente domesticados para não precisar de coisas dessas. Existem casos esporádicos como o de João Carreira Bom, aparentemente despedido depois de uma crítica mais ácida, já nos tempos da SIC. Um ou outro mais, como a sua direta intervenção -ao que parece- na censura de uma entrevista com dirigentes da ETA, que realizei em 2003, já depois da minha saída do Expresso. Um ou outro caso mais…

Balsemão não precisava de sujar as mãos. Conhecia bem os homens. Sabia que pagando-lhes bem (e o Expresso nesse tempo pagava obscenamente bem aos seus, por comparação com os demais jornais), dando-lhes amplitude de ação dentro de parâmetros implicitamente bem claros de poder, conferindo-lhes status, a maioria, sobretudo os provindos da área “plebeia”, com predomínio de provenientes da chamada extrema-esquerda, todos eles fariam o que era suposto fazerem sem grandes sobressaltos. Uma pequena elite gozava de uns furos acima no prestígio e status, e provinha da “oligarquia” política e das famílias de alta burguesia do país, actuando tão descontraidamente como só quem não conheceu da vida as dificuldades é capaz de o fazer.

Esta era, a meu ver, a estrutura da esfera de influência e opinião que Francisco Pinto Balsemão construiu na vida dirigente do país, ao perceber que no mundo da construção de opinião, a hegemonia obtém-se não controlando em absoluto o que se publica mas, pelo contrário, admitindo e mesmo promovendo, até certo ponto, a dissidência que projeta uma ideia de democraticidade num sistema real ferreamente telecomandado. Poucos, na altura, sabiam isso, num Portugal moldado pela imposição de Salazar e a hesitação de Caetano.

Também na política, Balsemão seguiu o mesmo padrão pouco contraído de ação. Mais do que um social-democrata (coisa muito vasta no plano do pensamento político), ele compreendeu -ainda dentro do regime de Caetano- que era melhor acentuar uma transição “tecnocrática” como viria a suceder no Estado espanhol, do que teimar numa inflexibilidade ditatorial que só a questão colonial impedia que se consumasse. A seguir ao 25 de abril, Balsemão tinha na esfera da opinião o instrumento fundamental, credível para as elites políticas, o Expresso, para criar a ferramenta necessária na esfera da decisão, o PPD, um partido, como alguém dizia por estes dias, “que nasceu na sede de um jornal”, ainda assim reputado de apartidário, independente e objetivo.

Mais “atlantista” (leia-se pró-EUA, leia-se Grupo Bilderberg) do que europeísta (pró-CEE) Balsemão dispunha da “machine à faire des Dieux” na nova sociedade portuguesa. Intocável pelos adeptos do 24 de abril, importante para os adeptos do 25 de abril, só hostilizou (e mesmo assim na medida que entendeu estritamente necessária) os praticantes do 26 de abril, dos primeiros de maio (sobretudo do segundo primeiro de maio).

Percebeu, por via de uma visão política mais treinada e modernizada que a da concorrência, que o futuro do presente não estava no passado, como julgavam as mentes mais empedernidas de uma direita em grande medida estupidificada pelo longo consulado de meio século de poder com Salazar. Por outras palavras, com os norte-americanos de Carlucci e da CIA percebeu que era com Mário Soares que a festa se faria e não com os nostálgicos do regime, coisa que terá ajudado os próprios norte-americanos e a CIA a perceberem também.

Compreendeu que mais do que ter o poder, o seu poder consistiria em ser aquele (ou um dos poucos aqueles) que detinha o poder de dar o poder a outros que, por tal crédito lhe ficariam permanentemente em débito. Isso passou-se com o jornalismo e os jornalistas conforme se passou com a política e os políticos. Francisco Balsemão percebeu, mais cedo que os outros -e tinha para isso condições- que mais importante do que aparecer na televisão era ter uma televisão capaz de dar a aparecer aqueles para quem esse aparecer era o melhor a que podiam aspirar. E disso é feita a “classe” jornalística e a “classe” política que sucedeu degradada e tantas vezes desgraçadamente, à geração de Balsemão (veja-se quem são hoje os “nossos mais jovens e brilhantes repórteres” ou os novos “patrões dos media” e o quadro explica-se a si mesmo).

Em suma, Francisco Pinto Balsemão foi um democrata de mercado, que nunca se confundiu quanto à ordem dos factores. Sempre que mercado e democracia colidiram, era aquele que predominava e não esta. Talvez por isso, nas escolhas eleitorais convertidas em mercado de votos, como na política convertida em mercado de cargos e influências, poucos possam dizer que Balsemão lhes foi alheio.

Como num automóvel, do qual vemos as rodas a girar, mas não o eixo que as liga e coordena, compreende-se o luto póstumo de quantos têm para com Balsemão dívidas tais de gratidão, que nem os maiores e mais velhos ressentimentos permitem furar a hagiografia do luto nacional em torno de uma figura capital da reconfiguração portuguesa do sistema do capital no tardo-fascismo e no liberal-parlamentarismo que se lhe seguiu e que temos atrás do que somos. Descanse em paz, como costuma dizer-se nestas ocasiões.

Como D. Pedro I quisera espancar um Bispo porque dormia com uma mulher casada

“Nom somente usava El-Rei de justiça contra aqueles que razom tinha, assi como leigos e semelhantes pessoas, mas assi ardia o coraçom delle de fazer justiça dos maus, que nom queria guardar sua jurisdiçom aos clerigos também d’Ordens pequenas como de maiores; e sse lhe pediam que o mandasse entregar a seu Vigairo, dizia que o posessem na forca e que assi o entregassem a Jesus Cristo que era seu Vigairo, que fezesse delle dereito no outro mundo; e ell per seu corpo os queria punir e atormentar, assi como quisera fazer a um Bispo do Porto [Afonso Pires do Soveral], na maneira que vos contaremos. Certo foi, e nom ponhaes dúvida, que El-Rei partindo d’Antre-Doiro-e-Minho por viir à cidade do Porto, foi enformado que o Bispo desse logar, que entom tinha gram fama de fazensa e honrra, dormia com huma molher d’hu cidadão dos bõos que havia na dita cidade, e que elle nom era ousado de tornar a ello [isto é, não ousava vingar-se do Bispo], com espanto d’ameaças de morte que lhe o Bispo mandava poer. El-Rei quando isto ouviu, por saber de que guisa era, nom via o dia que estevesse com elle pera lho haver de perguntar; e logo sem muita tardança, depois que chegou ao logar e houve comido, mandou dizer ao Bispo que fosse ao Paço que o havia mester por cousas de seu serviço; e ante que chegasse, fallou com seus porteiros que depois que o Bispo entrasse na câmara lançassem todos fora do Paço, também os [homens] do Bispo como quaisquer outros, e que ainda que alguūs do conselho viessem, que nom deixassem entrar nenhuū dentro, mas que lhe dissessem que sse fossem pera as pousadas, que elle tinha de fazer hūa cousa em que nom queria que fossem presentes. O Bispo como veio, entrou na câmara onde El-Rei estava, e os porteiros fizerom logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no Paço non ficou nenhuū e foi livre de toda a gente. El-Rei como foi adeparte com o Bispo, desvestiu-se logo e ficou em hūa saya de escarlata, e por sua mão tirou ao Bispo todas suas vestiduras, e começou de o requerer que lhe confessasse a verdade daquelle malefício em que assi era culpado; e em lhe dizendo esto, tinha na mão huū grande açoute [chicote?] pera o brandir com ele. Os criados do Bispo, quando no começo viirom que os deitavom fora, e isso mesmo os outros todos, e que nenhuū nom ousava lá d’ir, pollo que sabiam que o Bispo fazia, desde aí juntando a esto a condiçom d’el-Rei e a maneira que em taaes feitos tiinha, logo sospeitarom que El-Rei lhe queria jugar dalguū mau jogo; e forom-se à pressa ao Conde velho e ao Mestre de Cristo D. Nuno Freire e a outros privados de seu conselho que acorressem azinha [rapidamente] ao Bispo; e logo tostemente [rapidamente] vierom a El-Rei e nom ousarom d’entrar na câmara por a defesa que El-Rei tinha posta, se nom fôra Gonçalo Vasques de Góis seus escrivam da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobrevierom d’El-Rei de Castela a gram pressa; e per tal azo e fingimento ouverom entrada dentro da câmara e acharom El-Rei com o bispo em razões da guisa que avemos dito e nom lho podiam já tirar das mãos; e começarom de dizer que fosse sua mercê de nom poer mão em elle, que por tal feito, nom lhe guardando sua jurdiçom, averia o Papa sanha delle; demais que o Povo lhe chamava algoz, que per seu corpo justiçava os homens, o que nom convinha a elle de fazer por muito malfeitores que fossem. Com estes e outras taes razoes arrefeceu El-Rei de sua brava sanha, e o Bispo se partiu delle com triste e torvado coraçom”.

 – Crónica de D. Pedro, cap. VII.

Contra os Abraços

Os abraços? Pessoalmente nunca fomos desses gestos aqui em casa. E sou das pessoas mais tranquilas, simpáticas e queridas que conheço. E sim, também um quasipsicopata em simultâneo.

Mas entrando mais a fundo nesse acto aparentemente tão banal mas ao qual hoje em dia è prestado uma espécie de culto de raiz feminina que pretende impô-lo como solução para mil e um males, é necessário refletir melhor. 

Os abraços criam um escape às emoções, dão uma resposta pronta a tais estímulos e inibem que essas sejam correctamente processadas, interrompendo-as. Isso faz com que não sejam autosuperadas, logo consequentemente trivializadas e apreendidas (de modo a que se possam perceber os “gatilhos” e falhas e corrigi-las). É um gesto cuja repetição absorvente cria pessoas mimadas e emocionalmente dependentes, sempre prontas para se encostarem a alguém para lhes dar suporte, validação (tanto validação pessoal quanto validação de um dado comportamento ou reacção), aconchego e justificação para um sentimento ou emoção (sendo normal a pessoa sentir-se insegura ou afectada). 

Além disso, cria também divisões na sociedade, já que esse tipo de pessoa formada por essa cultura tende a associar-se a quem lhe possa assegurar certo tipo de conforto, rejeitando companhias menos envolvidas, ou frias e relativamente insensíveis, devido à sua diferença de ver esse campo das coisas. Os abraços dão a ilusão que os problemas se resolvem ou aliviam com soluções práticas, simples e livres (ou seja, sem esforço), desincentivando muitas vezes o combate e o trabalho, em situações mais complexas, para evitar frustrações, vazios e sentimento de inutilidade e insuficiência. 

Deste modo, os abraços criam distorções nas relações sociais, pois:

1. As pessoas buscam sempre maximizar o retorno das mesmas (que passaria por esse excesso de carinho e atenção que o abraço proporciona, fora o aconchego);

2. Desequilibram-nas porque se espera que o outro perceba, se preocupe e atenda as nossas necessidades (muitas vezes sem considerarmos retribuição);

3. Enviesam as características procuradas no parceiro, muitas vezes idealizando pontos irrealistas;

4. Exigem uma reciprocidade forçada (se eu sou mais físico o outro também o deve ser, “se realmente me amar”);

5. Obrigam a mais cuidados e atenções constantes, saturando e esgotando o parceiro;

6. Por último, e no fundamental: falsificam o afecto, encenando-o e representando-o. O excesso de abraços cria uma ilusão de empoderamento, criando uma falsa ideia de importância e de elevação que não corresponde a uma realidade objectiva e observável.

Os abraços criam ainda outros problemas, como a necessidade constante e crescente de uma presença alheia, levando as pessoas a maior necessidade de integração e expansão do seu ego social, diminuindo a absorção das experiências mas aumentando a dissipação do eu – torno-me algo por fusão com algo maior e não o contrário, e assim cresce-se por assimilação de algo externo, invertendo a ordem e reduzindo a identidade a algo exterior. Isso explica a atração por todo o tipo de colectivismos, obediência e submissão a grupos que orientem o indivíduo, dando um sentimento de pertença, guia e acompanhamento (ou seja, o dito aconchego tão próprio do abraço) e por último uma direcção, tornando os indivíduos mais dependentes, necessitados e menos críticos. É deste modo, já que a necessidade de conforto supera todas as outras, como o de autocompreensao, que passa pelo afastamento ou rejeição do outro, por comparação e “contraste” (maior ou menos aproximação).

Diria que essa repetição de hábitos entre pais e filhos é perniciosa e nociva com consequências trágicas e um pouco imprevisíveis. Ao contrário do que se possa pensar, na verdade torna os indivíduos mais despreocupados com o próximo (já que as suas necessidades egoistas são prioritárias), mais reactivos, exigentes, violentos (facilmente provocados), menos entusiasmados, dependentes, manipuláveis, embirrentos e infantis. Alguns diriam: pequenos monarcas.

O desenvolvimento da sociedade passa por menos abraços nas fases de desenvolvimento do indivíduo e não o contrário.

Crítíca: Parasita, Bong Joon-Ho, 2019

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Texto publicado originalmente na revista do Programa de Teoria em Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Forma de Vida, em https://formadevida.org/recensoes/bong-joon-ho-2019-parasita-132-min.

O filme de 2019 de Bong Joon-Ho procura transportar a dinâmica entre parasita e hospedeiro para um contexto humano. Uma família desempregada de quatro (pai, mãe, filho, filha), sobrevivendo numa cave, roubando internet de cafés e dobrando caixas de pizza, depara-se com a oportunidade de anexar-se à vida de outra família, explorando e consumindo os recursos da família hospedeira. A facilidade com que o filho (Woo-sik Choi) se infiltra na vida daquela família abastada (para fingir dar aulas de inglês à filha) será o instigador que convencerá o resto da sua família parasítica a adoptar personae inventadas, desde empregada de limpeza (mãe), motorista (pai) e terapeuta de arte (irmã), de modo a viverem sub-repticiamente a partir da ingenuidade e abundância da família hospedeira. Parasita encontra-se explicitamente dividido em duas partes, sendo a primeira a execução do plano de infiltração e anexação por parte da família de parasitas e a segunda formada pelas inesperadas (mas inevitáveis) consequências resultantes desse relacionamento.

Embora essa família parasítica chegue a considerar (uma vez todos confortavelmente instalados na rotina dos hospedeiros) a imoralidade de cometer tamanho acto de manipulação, depressa se tranquilizam face à ideia de a ingenuidade da família hospedeira e de a astúcia da sua própria família serem um resultado da sua condição social e económica. Só por um breve momento surge entre a família de parasitas um sentimento de remorso face ao plano que executam, depressa abafado pela autocomiseração face às suas condições precárias. A pureza da família hospedeira, a sua obsessão pela higiene e limpeza, bem como as extensas superfícies simétricas e planas da sua vasta habitação (usadas com metáfora visual para destacar o comportamento dos parasitas dentro da casa) são usadas ao longo do filme para contrastar com a dissimulação da família parasítica, a imundície e o caos do seu lar, a desarmonia das suas relações intrafamiliares, bem como as referências à clandestinidade dos seus actos, assemelhando-se aos insectos e baratas que coabitam na sua casa. São muitas as cenas onde o filme procura mostrar que o comportamento da família parasítica se assemelha à forma como qualquer parasita procura evitar a sua captura e manter o status quo, isto é, embora com a consciência de que se encontram a explorar e a prejudicar o hospedeiro, continua a ser do seu interesse não o matar e ocupar o seu lugar, porque o parasita reconhece a sua dependência face ao corpo e às funções corporais do hospedeiro, neste caso o lar onde se passa a maioria da acção e a rotina da família. Há um complexo de inferioridade claramente manifestado ao longo do filme pela família parasítica, uma consciência da impossibilidade de ascender e obter legitimamente as mesmas condições de vida, deste modo, reconhecendo a dependência não só material, mas também emocional face à família de hospedeiros. Como tal, o único recurso que acreditam possuir é o engendramento de um plano onde voluntariamente adoptam o comportamento característico de qualquer parasita no reino animal. 

Fazem parte do estilo de Boon Joon Ho as mudanças repentinas de humor e atmosfera. Por isso, não é de estranhar que, à marca da uma hora no filme, o relacionamento disfuncionalmente idílico que a família parasítica havia adoptado com relativo sucesso acabasse por desmoronar no espaço de uma noite. A relação, até lá, permanecia num estado quase homeostático, com o parasita e o hospedeiro a beneficiarem do relacionamento, muito pelo facto de um dos lados adaptar-se a um outro lado que desconhece as suas reais intenções. Isto porque o grande sonho partilhado entre a família parasítica é o de tomar o lugar do hospedeiro, vivendo as suas vidas, sem qualquer consciência da indissociabilidade entre o individuo e a vida que leva. O problema surge quando se introduz neste contexto duas problemáticas: uma delas será o facto de que qualquer parasita, ao anexar-se a um hospedeiro, irá alimentar-se o suficiente até que, ou o hospedeiro acabe por morrer ou ganhe consciência do parasita e procure expulsá-lo; a outra problemática surge quando se introduz um terceiro elemento, neste caso um segundo parasita, à relação parasita-hospedeiro. Em Parasita só há lugar para um explorador no mundo do explorado. As cenas que se seguem face à introdução da segunda família parasítica são o catalisador para uma violência sanguinolenta, resultando na descoberta de um bunker onde residiam há anos membros da segunda família parasítica.

Um pormenor curioso é nenhuma das partes considerar formar uma aliança durante o conflito. A relação entre parasita e hospedeiro é sempre desnivelada e entre parasita e parasita sempre violenta. Fica a ideia de que ambas as famílias parasitas tinham consciência de que o hospedeiro acabaria por ser destruído pela sobrepopulação, deste modo inviabilizando a prolongada exploração e sobrevivência. Contudo, o que não parece ser consciente para ninguém é que o choque entre parasitas também leve à falência e destruição do hospedeiro e do seu mundo. É a percepção da repulsa dos hospedeiros face à condição precária da sua família de parasitas que leva à destruição da relação que tão violentamente haviam tentado manter e defender na noite anterior.

Embora Parasita procure analisar a possibilidade de alguém em situação económica precária explorar alguém numa situação economicamente favorável, a intenção de transportar toda uma simbologia e referências a comportamentos parasíticos serve de alusão à impossibilidade de realizar com sucesso aquilo que a família ambiciona. A espécie de «contracto social» que é estabelecido com o hospedeiro nunca é explícito para ambas as partes, sendo implicitamente unilateral. A narrativa de Parasita procura demonstrar que este tipo de relacionamentos não se consegue prolongar a longo prazo e que na maioria das vezes acabará em conflito. Os sonhos de povoar tal casa e estilo de vida alimentavam a família de parasitas todos os dias, muito para além da mera possibilidade de experimentarem uma vida de abundância. Porém, a realização dessas fantasias provar-se-á negativo para todas as famílias envolvidas: os atalhos, a manipulação, a imoralidade, isto é, a adopção de um comportamento parasítico como forma de atingir sonhos de abundância e prosperidade demonstram ser, de acordo com Parasita, altamente improváveis de se realizarem com sucesso num contexto humano.  

O filme acaba por balançar no conto preventivo de que, no que toca à família de hospedeiros, o preço de viver numa bolha idílica é a ingenuidade face aos interesses e duplicidade de indivíduos que não possuem as mesmas condições de vida e que buscam, desesperadamente, uma maneira de escapar à sua realidade; no que toca à família de parasitas, a ignorância em compreender que a longo prazo, qualquer relacionamento unilateral levará, quer seja por factores externos ou internos, a um resultado violento ou mortal. Comparado com o filme anterior de Bong Joon-Ho, Expresso do Amanhã (2013), em que a desigualdade social e exploração de uma elite face a uma população precária é a premissa para uma revolta social, Parasita parece o complemento antitético desse filme, servindo como alerta para certos tipos de soluções, planos ou relacionamentos nocivos que poderão surgir fruto de uma distorcida visão de justiça, direito ou necessidade. O estado de escassez, de injustiça social ou de pobreza não justificam qualquer comportamento destinado à libertação ou fuga de tal condição. O comportamento adoptado pela família de parasitas prova-se assim suicida, por o processo de anexação envolver necessariamente a destruição do que ambiciona anexar.

REFERÊNCIAS:

 Joon-Ho, Bong, realizador. Parasita. CJ Entertainment, 2019. 2 hr, 12 min.

Edição: Setembro 2025

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A retoma: Olimpíadas: uma prática cultural, procriação assistida e a lei, o papel da mulher no Estado Novo, intellectuals and political mistakes, assassinatos políticos e direitos, Marcelo e a sombra do pai, saltimbancos em Ibn Quzmán, codificar cereais com cores, um relógio para Otomo Sorin, instrumentos de música e materiais, os senhores de Portugal: 868–1044, D. Dinis sobre a guerra de D. Afonso, Edward Yang, Charlton Heston, romances do coração.

ENSAIO

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Intellectuals and Political Misjudgments: A Historical Analysis

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Mais ou menos a mesma coisa.

CRÓNICA

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Algumas Notas sobre Assassinatos e Direitos Civis

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Este mês temos funnies para todos os gostos: economia, demografia, mitologia…

Che Xuanqiao, herdeira de uma proeminente indústria chinesa de mobília, é uma influente mecenas e promotora cultural, reconhecida sobretudo por fundar o Maccaline Arts Center, um espaço dedicado à intersecção entre arte contemporânea, design e cultura. Educada entre a tradição empresarial da sua família e uma formação cosmopolita, Che Xuanqiao tem procurado redefinir o papel do mecenato privado na China, apoiando artistas emergentes e projetos experimentais que exploram a relação entre estética, espaço e sociedade.

Através do Maccaline Arts Center, afirma-se como uma das figuras mais relevantes na consolidação de uma nova sensibilidade artística chinesa, onde o diálogo entre a arte e a indústria se torna um instrumento de renovação cultural.

Decadent Sovereigns: Emperors Drowned in Excess

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In the annals of history, few archetypes loom as vividly as the decadent ruler—a figure of absolute power whose throne becomes a pedestal for personal gratification, often at the expense of empire and legacy. These sovereigns, ensnared by their own indulgences, transform governance into a theater of the absurd, where the line between majesty and madness blurs. From the legendary Assyrian king Sardanapalus, immortalized as a symbol of Eastern luxury, to the tyrannical Roman emperors Nero and Heliogabalus, whose reigns scandalized the classical world, and the extravagant Chinese Emperor Yang of Sui, whose follies precipitated a dynasty’s collapse, such leaders illustrate a timeless cautionary tale. Though ancient Japan produced fewer emperors notorious for personal debauchery—owing to the ceremonial nature of the imperial role and the dominance of shogunal regents—the theme resonates universally. This essay delves into the biographies and notorious indulgences of these rulers, revealing how their excesses not only defined their eras but also accelerated their downfalls.

Sardanapalus: The Effeminate Tyrant of Nineveh

The Death of Sardanapalus by Eugène Delacroix (1827)

The tale of Sardanapalus, the purported last king of Assyria in the 7th century BCE, blends historical kernel with mythic exaggeration, emerging as an enduring emblem of oriental decadence in Greek and later Western lore. Likely an amalgamation of figures like Ashurbanipal, the scholarly conqueror who built grand libraries in Nineveh, Sardanapalus was recast by ancient historians such as Ctesias and Diodorus Siculus as a voluptuary whose rule epitomized moral rot. According to legend, he ascended amid Assyria’s waning dominance, inheriting an empire forged by ruthless predecessors like Sennacherib. Yet, far from emulating their martial vigor, Sardanapalus secluded himself in the opulent palace at Nineveh, shirking the duties of kingship for a life of hermetic pleasure. His biography, as transmitted through classical sources, paints a portrait of inversion: a man who dressed in women’s attire, spun wool with concubines, and proclaimed his sole “victory” to be his unparalleled self-gratification—”I have conquered none of these realms, nor have I reduced any nation; but I have known the pleasures of love in my palace at Nineveh, night and day.”

Sardanapalus’s indulgences were as theatrical as they were ruinous. His harem, a sprawling enclave of eunuchs, courtesans, and musicians, served as the empire’s de facto court, where days dissolved into nights of perfumed banquets and erotic revels. Legend describes feasts where gold and ivory couches overflowed with delicacies—roast peacocks, honeyed dormice, and rivers of Chalybonian wine—while dancers and lyre-players provided ceaseless entertainment. He reportedly amassed treasures beyond reckoning: walls encrusted with lapis lazuli, gardens irrigated by aqueducts of scented water, and a wardrobe rivaling that of any queen. This sybaritic isolation blinded him to rebellion; when his brother seized the throne, Sardanapalus’s response was not strategy but spectacle. Besieged in Nineveh, he gathered his riches, concubines, and court into a pyre, immolating them all in a final orgy of destruction, his ashes scattering like the empire he let decay. Though historical veracity is dubious—Ashurbanipal himself was a patron of arts and war—Sardanapalus’s myth endures, inspiring Byron’s 1821 tragedy Sardanapalus and Delacroix’s painting of his fiery demise, forever linking Assyrian grandeur to themes of effeminacy and excess.

Nero: The Artist-Tyrant and His Golden Follies

Muzeum Narodowe w Krakowie; www.zbiory.mnk.pl ;MNK II-a-1;;fot. Tomasz Fio?ka

Nero’s Torches by Henryk Siemiradzki (1876)

If Sardanapalus was legend’s decadent, Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus (37–68 CE) was history’s living caricature. Born Lucius Domitius Ahenobarbus to the ambitious Agrippina the Younger, Nero was adopted by Emperor Claudius and thrust onto the throne at 16 in 54 CE. Initial promise glimmered under the tutelage of Seneca and Burrus: tax reforms, public games, and a facade of Augustan restraint. But by 62 CE, with his mentors sidelined, Nero’s true temperament erupted—paranoid, vindictive, and insatiably self-aggrandizing. He orchestrated the matricide of Agrippina, the suicides of Seneca and his first wife Octavia, and the execution of countless senators, all while blaming Christians for the Great Fire of Rome in 64 CE, a conflagration he allegedly watched with detached glee. His 14-year reign ended in revolt; cornered in 68 CE, Nero fled to a suburban villa, whimpering, “What an artist dies in me!” before slitting his throat with a slave’s aid.

Nero’s indulgences were a symphony of megalomania and aesthetic obsession, transforming Rome into his personal canvas. The Great Fire, which razed swaths of the city, conveniently cleared land for the Domus Aurea (Golden House), a 2.5-kilometer sprawling palace complex that dwarfed public spaces. Colonnaded porticos stretched over artificial lakes; frescoed vaults depicted gods and nymphs; and banquet halls featured ceilings that rained rose petals and played music via hidden mechanisms. Nero hosted orgiastic feasts there, reclining on ivory couches amid sprays of perfume, devouring flamingo tongues and peacock brains while slaves dressed as Bacchantes poured Falernian wine. His artistic pretensions knew no bounds: he fancied himself a supreme lyrist and charioteer, forcing audiences to applaud his recitals under penalty of death and rigging races to ensure his “victories.” Sexual excesses abounded—incestuous liaisons with Agrippina, the forced marriage and subsequent kicking-to-death of pregnant Poppaea Sabina, and rumored pederasty with freedman Sporus, whom he castrated and wed in bridal gown. These pursuits drained the treasury, sparking revolts and devaluing the denarius, yet Nero saw no contradiction between imperial duty and divine indulgence, embodying the Roman elite’s slide into imperial hubris.

Heliogabalus: The Androgynous Priest-Emperor

The Roses of Heliogabalus by Lawrence Alma-Tadema (1888)

Variously known as Elagabalus or Heliogabalus (c. 203–222 CE), Marcus Aurelius Antoninus was a Syrian teenager elevated to emperor in 218 CE amid the chaos of the Severan dynasty. Born Sextus Varius Avitus Bassianus, he was high priest of the sun god Elagabal in Emesa (modern Homs), a role that propelled his aunt Julia Maesa’s plot to unseat Macrinus. Crowned at 14, Heliogabalus scandalized Rome by elevating his deity above Jupiter, parading a black conical stone through the streets on a chariot drawn by naked virgins. His four-year reign was a whirlwind of religious zealotry and personal eccentricity, alienating the Praetorian Guard and Senate alike. Married five times—including twice to the same Vestal Virgin and once to the charioteer Hierocles, whom he called “husband”—he was assassinated in 222 CE, his body dragged through the streets and dumped in the Tiber.

Heliogabalus’s indulgences pushed decadence into the surreal, blending Syrian mysticism with Roman vice. He prostituted himself in taverns, offering vast sums to any surgeon who could equip him with female genitalia, and hosted banquets where guests ate from gold chamber pots while he danced in silks and jewels, smeared with makeup and crowned with flowers. His palace orgies featured lotteries where prizes ranged from slaves to mules, and he reportedly bathed in rose-scented milk, emerging to preside over rituals involving ritual prostitution and animal sacrifices. Extravagant lotions, imported spices, and a wardrobe of 1,000 silk robes underscored his androgynous flair—he shaved his body daily, wore wigs, and depilated his courtiers. These excesses, chronicled by the often-unreliable Historia Augusta, fueled his posthumous infamy as Rome’s most “degenerate” ruler, inspiring Decadent artists like Gustave Moreau and even modern transgender iconography, though historians caution against total fabrication. In Heliogabalus, the empire’s multicultural sprawl met its most flamboyant unraveling.

Emperor Yang of Sui: The Canal-Builder’s Lavish Tyranny

Emperor Yang of Sui by Yan Liben (Thirteen Emperors Scroll)

Venturing eastward, Emperor Yang of Sui (569–618 CE) exemplifies decadence in imperial China, where Confucian ideals clashed with autocratic whim. The second ruler of the short-lived Sui Dynasty (581–618 CE), Yang Guang succeeded his father Wen in 604 CE after allegedly orchestrating his demise. A capable administrator who unified China post-Han fragmentation and initiated the Grand Canal—a 1,800-kilometer engineering marvel linking north and south—Yang’s ambitions soured into megalomania. His 14-year reign saw failed invasions of Korea, crippling taxes, and peasant uprisings, culminating in his strangulation by a disgruntled general in 618 CE, dooming the Sui to oblivion.

Yang’s indulgences were infrastructural in scale, demanding human rivers of labor for personal splendor. He commissioned Yangzhou’s lavish palaces, with halls of jade and gold where he composed poetry amid throngs of courtesans, and fleets of dragon-boats—gilded barges with phoenix prows—for pleasure cruises along the Yangtze, each carrying thousands of oarsmen and entertainers. Banquets wasted fortunes on delicacies like bear paws and shark fins, served on plates of rhinoceros horn, while his harem swelled to 40,000 women, selected via brutal drafts that orphaned villages. Constant progresses—opulent tours demanding corvée from millions—featured silk pavilions and fireworks displays, all while corpses of the exhausted lined the roads. Traditional historians vilify him as China’s archetypal tyrant, his luxuries a metaphor for the dynasty’s hubristic overreach.

Caligula: The Divine Tyrant’s Capricious Cruelty

A Roman Emperor: AD 41 by Lawrence Alma-Tadema (1871)

Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus, better known as Caligula (12–41 CE), stands as Rome’s archetype of the mad emperor, his brief reign a frenzy of megalomania that foreshadowed the excesses of his successors. Born in Antium to the popular general Germanicus and Agrippina the Elder, Caligula endured a childhood scarred by exile under Tiberius, whom he reportedly longed to strangle daily. Upon Tiberius’s death in 37 CE, the 24-year-old ascended amid universal acclaim, granting bonuses to the Praetorian Guard and forgiving provincial debts. Yet, within months, a severe illness—possibly encephalitis or lead poisoning—unleashed his latent sadism. He declared himself a living god, demanded worship as Jupiter, and terrorized the Senate with whims like forcing them to dine with his horse Incitatus, whom he planned to appoint consul. His four-year rule ended in conspiracy; on January 24, 41 CE, Praetorian officers stabbed him to death in a palace corridor, his uncle Claudius succeeding amid the ensuing chaos.

Caligula’s indulgences fused financial profligacy with theatrical depravity, bankrupting the treasury through spectacles that mocked Roman piety. He squandered fortunes on pearl-embroidered cloaks, jeweled chariots, and a two-mile floating bridge across the Bay of Baiae, constructed from merchant ships draped in silk and lit by torches, over which he galloped in Alexander’s breastplate. Sexual excesses scandalized the elite: incest with his sisters (executing two upon his recovery), brothels in the palace where noblewomen served as prostitutes, and orgies featuring shaved dwarves and nude athletes. Banquets devolved into sadistic games—he poured perfume instead of wine, served gold-dusted dormice, and once ordered senators to fight as gladiators or eat from dog bowls. These acts, chronicled by Suetonius and Dio Cassius, drained Rome’s coffers, prompting currency debasement and Egyptian grain hoarding for his personal zoo of exotic beasts. Caligula’s god-complex extended to divinity taxes and public levies on public haircuts, embodying a tyranny where personal whim eclipsed imperial stability, his legacy a byword for unchecked power’s descent into insanity.

Commodus: The Gladiator-Emperor’s Arena of Delusion

The Emperor Commodus Leaving the Arena by Edwin Howland Blashfield (1883)

Lucius Aelius Aurelius Commodus (161–192 CE), son of the philosopher-king Marcus Aurelius, squandered his father’s Stoic legacy in a 12-year reign of gladiatorial fantasy and familial bloodshed. Co-emperor from 177 CE, Commodus assumed sole rule in 180 CE at age 18, ending the Pax Romana’s golden age by negotiating a hasty peace with the Marcomanni and retreating to Rome’s pleasures. Paranoid and petulant, he executed rivals—including his sister Lucilla after her 182 CE plot—and renamed the empire and its institutions after himself: Rome became Colonia Commodiana, months were Commodian, and the army Commodiana. His obsession with Hercules led to divine pretensions, but it was the arena that defined his rule. Assassinated on December 31, 192 CE, by his wrestling partner Narcissus in a plot orchestrated by his prefect Cleander, Commodus’s death sparked the Year of the Five Emperors.

Commodus’s indulgences reveled in the visceral thrill of combat and carnality, turning the Colosseum into his personal stage. Over 800 times, he fought as a secutor gladiator—slaughtering impaired animals like giraffes and elephants with a sword, or clubbing disabled spectators for sport—demanding million-sesterce bounties per “victory” from a cowed Senate. Palace banquets featured horrors: hunchbacks as living platters for oysters, dwarfs pitted in lethal combats for his amusement, and women—including his sisters—forced into sexual servitude amid orgies where he wielded a sword against naked courtiers. He bathed in giraffe blood for virility, wore lion skins, and carried a Herculean club, his excesses costing billions in sesterces while famine ravaged the provinces. Chronicled by Herodian and the Historia Augusta, Commodus’s arena escapades symbolized Rome’s shift from republican virtue to imperial farce, his gladiatorial mania a metaphor for an empire strangling itself in spectacle.

Emperor Xuanzong of Tang: The Poet-Emperor’s Fatal Infatuation

Yang Guifei Leaving the Bath by Anonymous Ming Artist

Yang Guifei Leaving the Bath by Anonymous Ming Artist

Emperor Xuanzong of Tang (685–762 CE), reigning from 712 to 756 CE, presided over the Tang Dynasty’s cultural zenith before his romantic obsessions unraveled its military might. Ascending as Li Longji amid the Wu Zetian interregnum’s aftermath, Xuanzong’s early rule shone with reforms: he purged corrupt eunuchs, fostered arts and Buddhism, and expanded trade along the Silk Road, earning the epithet “the August.” Yet, in his later years, infatuation with Yang Yuhuan—elevated from his son Shou’s consort to imperial favorite as Yang Guifei in 745 CE—eclipsed duty. This “Precious Consort,” one of China’s Four Great Beauties, wielded influence that bred nepotism, appointing her relatives to high office. The 755 CE An Lushan Rebellion, sparked by a disgruntled general, forced Xuanzong’s flight from Chang’an; en route, mutineers strangled Yang, prompting his abdication to his son Suzong in 756 CE. Xuanzong retired to seclusion, dying in 762 CE a broken recluse.

Xuanzong’s indulgences, intertwined with Yang Guifei’s allure, painted the Tang court in hues of poetic luxury and sensual excess. He showered her with treasures—pearl crowns, jade scepters, and palaces like the Huaqing Hot Springs, where they bathed amid lychee groves irrigated by 40,000 horses racing fruit from the south. Banquets at the Pear Garden Academy featured pear-blossom baths scented with osmanthus, where the emperor composed verses to her “willow waist” while musicians played the pipa and dancers—trained by the 300-strong Pear Garden troupe—swirled in silks. Yang’s voracious appetite for lychees, figs, and delicacies like camel hump drained treasuries, her family amassing estates that fueled corruption. Their romance inspired Bai Juyi’s poem “Song of Everlasting Sorrow,” romanticizing trysts in moonlit pavilions, but it blinded Xuanzong to border threats, his neglect of frontier garrisons inviting disaster. In Xuanzong, China’s golden age met its tragic twilight, his passions a caution against love’s dominion over empire.

Tiberius: The Recluse-Emperor’s Island of Vice

Orgia dos Tempos de Tibério em Capri por Henryk Siemiradzki (1881)

Orgy of the Times of Tiberius on Capri by Henryk Siemiradzki (1881)

Tiberius Julius Caesar Augustus (42 BCE–37 CE), Rome’s second emperor, ruled from 14 to 37 CE after adopting the mantle from Augustus. A brilliant general who conquered Germania, Tiberius grew paranoid in his later years, influenced by the scheming Praetorian prefect Sejanus. Retreating from Rome to the isle of Capri in 26 CE, he left governance to corrupt deputies, executing rivals like Germanicus’s family on fabricated charges. His 23-year reign ended in seclusion; rumors of his death sparked a brief “revival” plot, but he succumbed to natural causes (or smothering) at 77.

Tiberius’s indulgences centered on Capri’s cliffs, where he built 12 villas—dubbed “Tiberius’s dens of vice”—equipped with pools of seawater for erotic spectacles. Ancient sources like Suetonius describe orgies involving young boys trained as “minnows” to nibble guests underwater, sadistic games with tortured slaves, and a revolving bedroom ceiling for dizzying trysts. He amassed a harem of catamites and prostitutes, imported via a dedicated “spintriae” token system, while neglecting Rome’s aqueducts and finances. This hermetic debauchery eroded senatorial loyalty, painting him as a brooding tyrant whose pleasures foreshadowed the Julio-Claudian rot.

Vitellius: The Glutton-Emperor’s Feast of Famine

The Emperor Vitellius Dragged through the Streets of Rome by Georges Rochegrosse (1882)

Aulus Vitellius Germanicus (15–69 CE) seized the throne in 69 CE during the Year of the Four Emperors, backed by German legions after Galba’s fall. A portly patrician elevated by Claudius’s court, Vitellius’s eight-month rule was a blur of banqueting and purges, as he executed Otho’s supporters and squandered the treasury on spectacles. Overthrown by Vespasian’s forces, he was dragged through Rome’s streets, tortured, and slain in the Forum at 54.

Vitellius’s indulgences epitomized Roman gourmandise gone mad: daily feasts lasting hours, where he devoured 1,000 fish and 2,000 oysters, lamprey livers floating in vinegar, and brains of peacocks and pheasants served on gold platters. Suetonius recounts his habit of vomiting mid-meal to continue, using a feather or emetic, while his cooks prepared “Shield of Minerva”—a 2,000-pound pie of thrushes, sow’s udders, and flamingo tongues. These orgies, attended by 2,000 guests in a specially enlarged palace, starved the provinces and incited riots; his gluttony symbolized the empire’s brief descent into appetitive anarchy.

Emperor Huizong of Song: The Artist-Emperor’s Brushstrokes of Ruin

Seated Portrait of Emperor Huizong of Song

Zhao Ji, Emperor Huizong (1082–1135 CE), ruled the Northern Song Dynasty from 1100 to 1126 CE, ascending at 18 amid a flourishing economy. A prodigious painter, calligrapher, and poet who founded academies for the arts, Huizong initially promoted Confucian reforms but later succumbed to Taoism and falconry. His favoritism toward Cai Jing’s corrupt regime and neglect of northern defenses invited the Jurchen Jin invasion; captured in 1127 CE during the Jingkang Incident, he died in captivity at 53, ending the Northern Song.

Huizong’s indulgences were aesthetic and esoteric: he painted ethereal plum blossoms and dragons in ink washes, amassing a collection of 6,000 paintings and 20,000 antiques, while commissioning Slender Golden Body script for imperial edicts. Court life revolved around pear-blossom baths, qin zither concerts, and Daoist rituals with alchemical elixirs; his 40,000-volume library and menagerie of rare birds drained taxes, funding palaces like the Auspicious Clouds Pavilion. This cultured hedonism blinded him to Mongol threats, his artistic legacy a poignant irony against the dynasty’s fiery sack.

King Zhou of Shang: The Tyrant-King’s Wine Pools of Legend

Wine Pool and Meat Forest Illustration

Di Xin, known as King Zhou (c. 1075–1046 BCE), was the last ruler of China’s Shang Dynasty, inheriting a Bronze Age empire of oracle bones and ritual sacrifices. A capable early conqueror who expanded territories, Zhou’s later reign devolved into cruelty under the influence of consort Daji, a fox spirit in folklore. Accused of oppressing the people with forced labor and executions, he ignored sage warnings, leading to the Zhou clan’s rebellion; defeated at Muye in 1046 BCE, he immolated himself on Deer Terrace at around 29.

Zhou’s indulgences, amplified in Confucian texts like the Records of the Grand Historian, included the infamous “wine pool and meat forest”—a man-made lake of fermented liquor where naked revelers swam amid grilled meats dangling from trees like foliage. Banquets featured cannonball-sized pearls sewn into dancers’ hair, harps made from bleached human bones, and “pregnant” bronze vessels for orgiastic toasts. Daji’s sadistic games, like frying scholars in cauldrons or inventing toe-dancing on burning floors, epitomized his moral decay; these mythic excesses justified the Mandate of Heaven’s transfer, casting Shang as China’s primordial cautionary tale.

Emperor Yozei: The Exorcised Sovereign’s Heian Whims

Poem 13: The Retired Emperor Yozei by Utagawa Kuniyoshi (ca. 1845)

Poem 13: The Retired Emperor Yozei by Utagawa Kuniyoshi (ca. 1845)

Emperor Yozei (868–1008 CE), the 57th emperor of Japan, ascended in 876 CE at age nine during the Heian period, under regency amid Fujiwara clan intrigues. Crowned amid smallpox epidemics, his brief personal rule (late 880s) was marked by poetic talent and eccentricity, but whispers of possession by a tengu spirit led to his forced abdication in 884 CE at 16. Retiring to a monastery, he lived until 40, his era romanticized in The Tale of Genji for courtly refinement.

Yozei’s indulgences reflected Heian Japan’s subtle libertinism: nocturnal poetry sessions in moonlit pavilions, where he composed waka verses to consorts amid incense and koto music, and lavish cherry-blossom viewings with sake fountains and silk-robed dancers. Folklore alleges demonic fits prompting bizarre edicts—like mandating court ladies wear fox masks—or trysts in hidden garden grottos, funded by temple confiscations. Though ceremonial, his whims strained Fujiwara oversight, embodying the era’s aesthetic excess over martial duty; his “exorcism” and deposition highlight how even shadowed indulgences could unseat Japan’s divine lineage.

Pepi II Neferkare: The Eternal Pharaoh’s Somnolent Splendor

Bas-relief of Pepi II from Saqqara

Pepi II Neferkare (c. 2278–2184 BCE), the fifth ruler of Egypt’s Sixth Dynasty, holds the record for the longest reign in recorded history—potentially 94 years—ascending at age six after his father Merenre I’s death. Initial decades brought prosperity: Nubian expeditions yielded gold and ivory, and pyramid construction at Saqqara symbolized enduring might. But in his protracted senescence, Pepi II’s court devolved into stagnation; viziers like Harkhuf traded exotic animals for favor, while provincial nomarchs amassed autonomy. His death around 78–100 marked the Old Kingdom’s twilight, ushering in the First Intermediate Period’s chaos through neglected defenses and resource strain.

Pepi II’s indulgences evoked pharaonic opulence turned inert: Manetho’s legends describe a court dwarf named Khnumhotep, imported from Nubia via caravan, entertaining the aging king in eternal dances amid incense-filled halls of malachite and electrum. Banquets overflowed with Nile perch grilled in honey, gazelle haunches, and lotuses floating in palm-wine pools, while scribes recorded erotic tales from Punt traders. His harem, swelling to hundreds, featured ritual baths in ass’s milk scented with myrrh, and pyramid texts invoke eternal youth through nightly libations of shedeh wine. This languid luxury—fueled by corvée labor that exhausted the peasantry—fostered administrative rot, with Pepi II’s final decades a haze of senile decree and divine pretense, his longevity a ironic epitaph for Egypt’s gilded decay.

Sultan Ibrahim I: The Mad Ottoman’s Harem of Havoc

Portrait of Sultan Ibrahim I

Ibrahim I (1615–1648 CE), the 18th sultan of the Ottoman Empire, ascended in 1640 CE after his brother Murad IV’s death, emerging from 20 years of Kafes confinement that scarred his psyche. A corpulent recluse advised by the scheming valide Kösem Sultan, Ibrahim’s eight-year rule squandered imperial coffers on whims amid Venetian wars and Janissary unrest. He executed grand viziers on caprice, minted debased coinage, and ignored Crete’s siege; deposed in 1648 CE by a coup, he was strangled with his 15-year-old son Mehmed at 33, averting civil war but hastening the Köprülü era’s reforms.

Ibrahim’s indulgences plunged the Sublime Porte into corporeal frenzy: Obsessed with fur, he decreed every courtier wear ermine cloaks, bankrupting the treasury on Siberian sable imports, while his harem ballooned to 1,000 concubines—drowning 280 in the Bosphorus when one spurned him, per Evliya Çelebi’s chronicles. Gluttonous feasts featured whole roasted lambs stuffed with pistachios and honey, washed down with boza and raki in Topkapı’s gilded divans, where he reclined on velvet cushions amid eunuch choruses. Sexual excesses included rumored bestiality with a circus elephant and nightly lotteries for maidens smeared in attar of roses; these sybaritic storms, blending paranoia with prurience, alienated the ulema and military, embodying the Ottoman “Sultanate of Women”‘s slide from Suleimanic glory to baroque dissolution.

Emperor Uda: The Heian Sovereign’s Verse-Veiled Voluptuary

Portrait of Emperor Uda

Emperor Uda (867–931 CE), the 59th emperor of Japan, ruled from 887 to 897 CE during the Heian period’s zenith, succeeding his father Kōkō amid Fujiwara regency’s subtle dominance. A cultured aristocrat who abdicated for his son Daigo, Uda fostered waka poetry and Shinto rites but indulged in courtly dalliances that strained the ritsuryō bureaucracy. His 10-year reign saw diplomatic overtures to Tang China falter, planting seeds for insular refinement; he retired to poetry and Zen, dying at 64.

Uda’s indulgences embodied Heian Japan’s aesthetic hedonism: Moon-viewing banquets in the Daiki-den pavilion, where sake cascaded from lacquered fountains and geisha plucked biwa to his tanka odes on cherry petals and moth-e brows. His consorts, veiled in twelve-layered junihitoe silks dyed with safflower, inspired erotic pillow books with scenes of trysts amid dew-kissed irises, funded by rice levies from provincial estates. Extravagant noh precursors—ghost dances with foxfire lanterns—and opium-infused teas from Korean envoys blurred nights into haiku reveries; though restrained by clan oversight, Uda’s poetic libertinism eroded imperial authority, mirroring Genji‘s gilded intrigues where desire displaced duty, hastening the court’s drift from warrior roots.

Echoes of Excess: A Global Warning

These emperors—Sardanapalus’s legendary pyre, Nero’s fiery palace, Heliogabalus’s perfumed baths, Yang’s dragon fleets, Caligula’s divine bridge, Commodus’s bloodied sands, Xuanzong’s lychee couriers, Tiberius’s Caprian orgies, Vitellius’s gluttonous pies, Huizong’s ink-washed reveries, Zhou’s wine-soaked forests, Yozei’s tengu-haunted verses, Pepi II’s eternal banquets, Ibrahim’s furred frenzies, Uda’s moonlit odes—transcend their epochs, their indulgences a mirror to power’s seductive peril. In Japan, where emperors like the 9th-century Yozei dabbled in eccentricity but rarely in outright debauchery due to regental constraints, the pattern holds less vividly; yet the Heian court’s poetic libertinism, with its tales of amorous intrigue in The Tale of Genji, echoes similar themes of refined excess eroding resolve. Collectively, they remind us that decadence is not mere vice but systemic erosion: treasuries emptied, loyalties fractured, societies starved. As empires crumbled in their wake, these rulers’ legacies endure not as cautions heeded, but as lurid spectacles—eternal testaments to the human cost of unfettered desire.

As 3 burcas do café do Tavares

🧕🏿🧕🏿🧕🏿 As 3 burcas do café do Tavares

Era fim de tarde, a hora melancólica em que o sol se despede dos telhados. O Tavares, dono do café ExStasi, já tinha fechado a caixa e ido para casa cumprir com o ritual sagrado do bagaço morno em chavená de chá com um pingo de leite. A receita para uma boa noite de sono.

Foi então que dois agentes da PSP em patrulha, detetaram três figuras imóveis, envoltas em negro, postadas ali, mesmo à porta do café.

“Três mulheres de burca”, murmurou o agente Lacerda, com a solenidade de quem descobre uma célula terrorista, provavelmente a quadrilhar um ataque.

O Silva, mais prudente mas não menos zeloso das suas funções, também achou estranho o imobilismo das 3 suspeitas.

O agente Lacerda pediu-lhes identificação. Elas permaneceram mudas, imóveis, altivas debaixo do seu silêncio de pano.

O agente Silva, que sempre teve o faro apurado para o perigo invisível, concluiu que das 2,1, ou não percebem português, ou estão a provocar a autoridade. O Lacerda alinhou por um misto dos dois.

Por isso, diante de tamanha insolência, os agentes carregaram as três mulheres para a carrinha, entre olhares curiosos, e conduziram-nas à esquadra, onde ficaram alinhadas na parede como santas penitentes.

Chamaram um tradutor de árabe. Só podia vir de manhã. Passaram a noite em vigília, os dois agentes, um a pensar na promoção, o outro a imaginar comunicados oficiais e louvores em Diário da República, com direito a condecoração e selfie com o Marcelo.

Nisto, ainda não eram 8 da manhã do dia seguinte, entra o Tavares porta adentro, desgrenhado, com o avental ainda manchado com “branquinho do inferno”, aquela mistela de bagaço com leite.

“Senhores agentes, venho apresentar queixa de furto. Levaram-me três chapéus de sol pretos da esplanada! Todos iguais!”

O Lacerda ficou amarelo. O Silva arregalou os olhos. Olharam para a sala ao lado. Lá estavam as três detidas, na sua dignidade têxtil, perfeitamente idênticas aos chapéus descritos pelo Tavares.

O tradutor, entretanto chegou. Aproximou-se das suspeitas, pigarreou, disse umas palavras em árabe para cumprir o protocolo. O silêncio foi absoluto.

Agarrou uma das figuras e, com gesto decidido, puxou-lhe o véu. O ferro tombou com estrondo.

“São chapéus de sol”, declarou, entre o pasmo e o riso contido.

Seguiu-se um silêncio tumular. O comandante, atraído pela comoção, saiu do gabinete. Leu o auto de ocorrência:

Detenção preventiva de três cidadãs não identificadas, trajando burca integral.

Alguém me explica isto?

O Lacerda tentou: “chefe, à noitinha… parecia gente.”

O comandante fitou-o, suspirou e
mandou arquivar o caso “por erro de percepção cultural”.

O Tavares, satisfeito, levou de volta os seus três chapéus, instalando-os à porta do café ExStasi com a mesma dignidade de antes. O vento, cúmplice, soprou ligeiro, e o pano negro ondulou. Por um instante, pareciam mesmo três mulheres, caladas, oprimidas.

E é isto.

Estudo de Caso: O Estádio do Restelo

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Trabalho elaborado no Seminário de Gestão e Proteção do Património Arqueológico para o docente Professor Doutor Santiago Macias na Nova FCSH.

Introdução:

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Figura.1 – Estádio do Restelo
Fonte: Observador

Serve o presente documento, desenvolvido mediante o Seminário de Gestão e Proteção do Património Arqueológico, enquanto uma iniciativa de estudar e apoiar a conservação do Património Desportivo, temática esta que se encontra ainda subdesenvolvida no panorama nacional, na medida em que é muitas das vezes remetida a uma condição de invisibilidade[1].

Deste modo, disponho-me a realizar uma monografia em torno do Estádio do Restelo, com a intenção de demonstrar a importância deste espaço enquanto um verdadeiro repositório da identidade coletiva de Belém. Para isso, contei com o apoio do Clube de Futebol “Os Belenenses” cuja direção se disponibilizou prontamente não apenas com a cedência de material bibliográfico, bem como com a realização de uma visita guiada ao espaço no qual residem as suas memórias: o museu Manuel Boullousa, onde pude aprender imenso sobre a história deste clube, que nos dias de hoje é uma Instituição de Utilidade Pública[2].

Com a realização deste trabalho, vou procurar abordar não apenas a materialidade e imobilidade inerente ao meu objeto de estudo, mas também busco fazer referência à sua imaterialidade, na medida em que este pode ser visto como mais do que uma simples instalação destinada à prática ou exibição desportiva, defendendo a ideia Pierre Nora, que servirá para caracterizar estádios, pavilhões e outros recintos, enquanto potenciais “lugares de memória”[3], nos quais convergem as suas dimensões funcionais e simbólicas.

Assim sendo, este ensaio escrito vai seguir as seguintes metodologias: vou começar por reunir as informações existentes em torno do Estádio do Restelo, referenciando a sua História em termos bibliográficos, e de modo a conseguir obter um contexto alargado sobre a instituição que é o Clube de Futebol “Os Belenenses”; de seguida, tenho o intuito de estabelecer a relação entre a História do espaço, de modo a demonstrar a importância que este tem para os seus visitantes, especialmente os aqueles que são naturais de Belém; e finalmente tentarei demonstrar a necessidade de patrimonializar este edifício, através da sua importância desportiva e afetiva.

O Estádio do Restelo – Contextualização Geográfica:

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Figura.2 – Vista aérea de Lisboa
Fonte: Google Maps

O Estádio do Restelo, também conhecido como a “casa” do Clube de Futebol “Os Belenenses”, encontra-se situado na freguesia de Belém, concelho e distrito de Lisboa sob a seguinte morada: Avenida do Restelo, 1449-015, Lisboa. Este é apresentado na folha número 431-Lisboa da Carta Militar Portuguesa[4], e situado nas coordenadas X38° 42′ 5.99″ e Y-9.207900166511536. Trata-se de um Complexo Desportivo construído no século XX, cuja inauguração se deu a 23 de setembro de 1956, e que é propriedade do Belenenses. É considerado por muitos o estádio mais belo de Portugal[5], uma vez que se encontra numa área privilegiada, com vista para a zona histórica de Belém, para o Tejo, e para boa parte da Almada ribeirinha (fig.1).

O Belenenses e Estádio do Restelo – Uma História:

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Figura.3 – Banco instalado na praça Afonso de Albuquerque
Fonte: Mensagem de Lisboa

Antes de abordar o Estádio do Restelo enquanto objeto a ser estudado, é preciso situar historicamente quando, e em que circunstâncias, foi fundado o Clube de Futebol “Os Belenenses”. Foi através da iniciativa de Artur José Pereira[6], que depois de abandonar o Sporting Clube de Portugal, no final da época futebolística de 1918/1919, tinha como intuito formar um clube com o nome da sua terra, que era Belém. A sua ideia acabou por ganhar o apoio de alguns nomes como Francisco Pereira (seu irmão), Henrique Costa, Carlos Sobral, Joaquim Dias, Júlio Teixeira Gomes, Manuel Veloso e Romualdo Bogalho[7]. De entre tantos, alguns acabaram por abandonar também o Sport Lisboa e Benfica, levando à formação do Belenenses, que passados muitos anos de História se configura enquanto uma Instituição de Utilidade Publica. A fundação deste importante clube encontra-se eternizada através da presença de um banco de jardim, situado na Praça Afonso de Albuquerque, em Belém (fig.3), no qual pode ser lida a seguinte inscrição: “Aqui nasceu o C.F. “Os Belenenses”, 23-9-1919”.

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Figura.4 – Campo das Salésias (2019)
Fonte: AirCourts

Aquando da sua formação, o Belenenses jogava perto da Praça Afonso de Albuquerque, no Campo do Pau de Fio, mudando-se para o Campo das Salésias, o qual foi construído em terrenos cedidos pelo Estado a “título precário”, e foi o primeiro campo em território nacional a proporcionar um estádio com campo relvado e bancadas com cobertura para proteger da chuva, estabelecendo-se, por isso, enquanto o principal palco para os jogos da Seleção Nacional[8]. Foi no Estádio das Salésias que o Clube de Futebol “Os Belenenses” viveu os seus anos dourados, uma vez que este protagonizou a conquista do Campeonato Nacional da Época 1945/46, estabelecendo deste modo o nome do clube de Belém enquanto um dos quatro grandes do futebol português. No final desse mesmo ano, a Câmara Municipal de Lisboa comunicou ao Belenenses o prazo de seis anos para abandonar as Salésias, prazo esse que foi alargado, mas que se conformou em 1956, com a efetiva expulsão do clube deste local que lhe trouxe tantas alegrias. Todavia, em 2014, e devido ao esforço financeiro do Belenenses em recuperar este local tão querido pelos adeptos, o terreno que estava destinado a grandes projetos urbanísticos, mas que se encontrava ao abandono, foi comprado e recuperado. Aqui, em 2016, foi inaugurado o novo Campo das Salésias (fig.4), que serve atualmente não apenas enquanto um local para a prática desportiva dos escalões de formação, mas também enquanto um espaço de preservação de antigas memórias[9].

O abandono das Salésias levou o Belenenses ao Restelo, e essa “troca de ares” possibilitou uma evolução no caminho para a modernidade tanto da cidade de Belém, quanto do clube que a representa. Quando o Estádio do Restelo foi inaugurado, funcionava praticamente como um marco geográfico que delimitava a cidade, sendo desse modo, uma peça-chave para o crescimento da área que o engloba, estabelecendo-se enquanto um bem inestimável ao serviço da cidade de Lisboa[10]. Construído sobre uma antiga pedreira, em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Lisboa, é da autoria dos arquitetos Carlos Manuel Oliveira Ramos e Jorge Manuel Teixeira Viana, os quais o desenharam seguindo um “sistema misto de alvenaria e betão armado, aproveitando a pedra arrancada do local”[11]. Aqui, o Belenenses construiu não apenas aquele que foi o primeiro estádio nacional pensado especificamente para acolher transmissões televisivas, mas também o palco para a construção e armazenamento as memórias do clube, que por sua vez conta com o reconhecimento de milhares de associados de todas as classes, e dos mais vários cantos do mundo[12]. Mais recentemente, o complexo do Restelo, que viu o Belenenses sair triunfante de importantes conquistas para a sua história, como é o caso da Taça de Portugal da época 1988/89, foi alvo de um projeto de requalificação, em parceria com o Lidl, no ano de 2016. Este teve como principal enfoque cobrir a bancada do Topo Norte, e a adaptar a infraestrutura do clube de modo que esta coincidisse com os padrões modernos[13], construindo desse modo o palco perfeito para a realização de concertos e festivais, para além das já existentes atividades desportivas.

Resumidamente, e segundo Acácio Costa, o Estádio do Restelo é: (…) “Um sonho belo que se transforma em realidade… Francamente, às vezes parece-me um sonho ainda!…”[14].

O Estádio do Restelo, Património Material e Imaterial – Um “Lugar de Memória”:

Segundo a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, desenvolvida pela UNESCO, o património imaterial está interligado com: (…) “práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões — bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados — que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural”[15]. Deste modo, é importante e necessário fazer referência à importância que o património material exibe para que seja possível conservar o património imaterial, na medida em que os objetos e espaços podem transportar em si inúmeras memórias[16]. Assim sendo, vou optar por entender o espaço cultural, que é o Estádio do Restelo, enquanto um “lugar de memória”[17], uma vez que este se apresenta enquanto um elemento importantíssimo para a compreensão do meu objeto de estudo, uma vez que envolve um significado especial para uma comunidade, trabalhando enquanto um ponto de referência para a memória coletiva deste espaço[18].

Uma imagem com estátua, escultura, Busto, Artefacto

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Figura.5 – Bustos de Vicente e Matateu
Fonte: Duarte Formiga

Ao visitar presencialmente o meu objeto de estudo, foi-me possível concluir que este se estabelece enquanto um autêntico repositório de memórias, isto porque à entrada do complexo dei de caras com os bustos de Vicente e Matateu (fig.5) e o relevo de José Manuel Soares “Pepe” (fig.6), que servem enquanto eternas homenagens estas antigas glórias do clube, e que fomentam um verdadeiro depósito de memórias, neste espaço. Estas figuras transportam-nos à imaterialidade patrimonial, na medida em que contam e eternizam memórias acerca destes importantes fenómenos, que por sua vez proporcionaram um legado histórico ao Belenenses. Deste modo, é possível transmitir a ideia de que os espaços desportivos são, de facto, verdadeiros repositórios de memórias, associando o património material e imóvel, neste caso, o Estádio do Restelo, à nostalgia e ao afeto, que preservam o património imaterial, neste caso a memória das antigas memórias do clube.

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Figura.6 – Relevo de “Pepe”
Fonte: Duarte Formiga

Assim sendo, e através das figuras homenageantes, referidas acima, é-me possível afirmar que o espaço desportivo do Clube de Futebol “Os Belenenses” caracteriza-se enquanto um “lugar de memória” uma vez que é utilizado tanto pelas suas dimensões materiais, através das referências físicas ao seu passado; quanto pelas suas dimensões simbólicas, através das suas estórias, do afeto e da nostalgia associados ao espaço; e também pela sua dimensão funcional, na medida em que este é visitado e frequentado para prática desportiva e para a observação da mesma.

Práticas de Transmissão e Salvaguarda Patrimonial – O Caso “Belenenses”:

A construção identitária de comunidades inteiras, neste caso, das massas adeptas relacionadas com o Clube de Futebol “Os Belenenses”, está associada ao Estádio do Restelo, uma vez que o reconhecimento de uma “casa”, no contexto, desportivo, oferece à comunidade que a engloba não apenas um ponto de orgulho cívico, mas também um destino para as gerações futuras, que aí a irão preservar através do seu gosto pelo desporto[19]. Este envolvimento é também aquilo que vai salvaguardar o património existente em torno do espaço desportivo, na medida em que este se estabelece através dos contactos entre familiares e/ou amigos, de geração e, geração[20]. Nesta medida, é possível afirmar que a partilha de histórias acerca dos tempos áureos do Belenenses, através da utilização de referências orais, e da construção de monumentos em torno de figuras importantes para o clube, é tida enquanto uma das principais práticas de transmissão e salvaguarda deste património. Estas partilhas podem ser realizadas tanto através do relato oral, com os avôs a transmitirem aos netos os feitos desportivos do passado, como é o caso das recordações de partidas às quais assistiram, bem como através da visita ao espaço desportivo. Ainda assim, outro fator que irá, com certeza, manter estas “lendas” vivas é a venda de merchandising (fig.7) que contenha alusões ao passado da instituição, uma vez que, a nostalgia, o afeto e a empatia são fatores preponderantes para a preservação patrimonial[21].

Uma imagem com vestuário, T-shirt atlética, T-shirt, parte de cima

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Figura.7 – Exemplo de Merchandising
Fonte: Loja Oficial “Os Belenenses”

Apesar da importância das massas adeptas para a transmissão e salvaguarda do património, o Belenenses também procura estabelecer-se enquanto um agente patrimonializador. Assim sendo, o clube criou o Museu Manuel Boullosa, de modo a melhor comunicar e conservar o seu acervo patrimonial. Este espaço, que se encontra inserido no próprio Estádio do Restelo, respira paixão e pretende divulgar, através uma impressionante coleção, a trajetória gloriosa de uma das associações desportivas mais tradicionais do país. Através de algumas visitas que realizei ao espaço, pude constatar a exibição orgulhosa de taças e medalhas acumuladas em quase um século de disputas; equipamentos usados pelos heróis e antigas memórias, que marcaram gerações; painéis fotográficos que imortalizam lances decisivos, e celebrações que evidenciam a paixão pelo Belenenses. Quem por lá passa tem a oportunidade de sentir de perto o espírito de uma instituição que ajudou a moldar o desporto português, e é convidado pela responsável Argentina Matateu a reviver importantes momentos, que nos fazem refletir sobre a identidade não só do clube, mas também da comunidade que o rodeia. Deste modo, é possível afirmar que o Museu Manuel Boullosa, para além de se estabelecer enquanto um ponto de encontro para turistas interessados na história e cultura desportiva portuguesa, é também um espaço importante para a formação de fortes ligações entre o clube e a própria área de Belém. Assim sendo, e devido o diálogo ativo que se estabelece entre a massa adepta e o património da instituição, é possível concluir que “(…) o principal património de um Clube são os seus associados (…)”[22], na medida em que, como referido anteriormente, são estes que o vão melhor preservar e comunicar, devido ao afeto e à nostalgia.

O Problema na Patrimonialização do Estádio do Restelo:

Como referido anteriormente, o Estádio do Restelo tem sido palco de momentos marcantes, que ficaram registados na memória dos adeptos e da comunidade englobante, transformando-o num verdadeiro arquivo vivo da história não apenas do clube, mas também da região. Assim sendo, podemos afirmar que os espaços desportivos são territórios construídos com base na comunidade, socialmente, e que vão acumular significados culturais ao longo do tempo[23].

Apesar da sua rica e gloriosa história, o Belenenses também já viveu momentos em que não se encontrava na mó de cima, o que por sua vez transmite o perigo que o mesmo enfrenta para a conservação do seu património. A crise institucional, marcada pela separação entre o clube e a Sociedade Anónima Desportiva (SAD)[24], no ano de 2018, representou um momento crítico não apenas para a instituição, mas também para o próprio estádio enquanto bem patrimonial. Este conflito teve origem quando a administração da Belenenses SAD, entidade que geria o futebol profissional, decidiu romper ligações com o clube fundador, e mudar-se para o Estádio Nacional, no Jamor, deixando o histórico Clube de Futebol “Os Belenenses” sem uma equipa de futebol profissional, tendo sido obrigado a recomeçar nas divisões distritais, com uma equipa amadora, enquanto a SAD continuava a utilizar o nome e os símbolos do clube nos principais escalões do campeonato português. Apesar desta separação institucional, o Estádio do Restelo foi sempre mantido enquanto património do clube. No entanto, podemos afirmar que, do ponto de vista patrimonial, a identidade clubística deste clube centenário estava a ser perdida, uma vez em que, ao não deterem uma equipa profissional, seria difícil a comunidade visitar o estádio, e continuar a utilizá-lo enquanto um “lugar de memória”. Para que isso não acontecesse, o Belenenses foi obrigado a focar os seus esforços na vivência continuada, individual e coletiva, transformando aquela que seria a fase mais negra da história do clube, numa iniciativa que visou desenvolver a comunidade e o associativismo[25].

Paralelamente à crise institucional, o Estádio do Restelo enfrentou mais uma ameaça gravíssima, uma vez que durante quase uma década o mesmo passou a incorporar o nome “Municipal” (fig.8), enquanto o Belenenses se encontrava na triste circunstância de pagar a renda do espaço que projetou, construiu e melhorou, e que por sua vez funciona enquanto um suporte para as práticas sociais que mantêm viva a sua identidade[26]. Refiro-me ao “resgate” conduzido em sessão pública, pela autarquia de Lisboa, a 29 de junho de 1961. Esta medida deveu-se à frágil situação financeira em que o clube se encontrava, bem como com uma dívida que este dispunha face à Câmara Municipal de Lisboa, e transformou o Estádio do Restelo numa infraestrutura municipal, colocando-o “no mesmo patamar de uma piscina municipal ou de um parque de campismo público”[27], fator esse que obrigou o clube de Belém a disputar alguns jogos caseiros nos estádios da Tapadinha, Pina Manique, Alvalade e Luz, o que por sua vez colocou em perigo aquele que é o seu rico e histórico património identitário. Esta situação só ficou plenamente resolvida quando foi aprovada uma prorrogação da conceção e direito de superfície do Belenenses sobre os terrenos do Restelo, celebrada no 50.º Aniversário da instituição, a julho de 1982, e a subsequente obtenção total da propriedade dos terrenos, a janeiro de 1990, dando aso à preservação deste importante estádio enquanto um elemento de preservação e construção de memórias.

A Necessidade de Preservação Patrimonial do Estádio do Restelo:

Apesar do trabalho desenvolvido no Museu Manuel Boullosa, que funciona enquanto um importante dispositivo que catalisa a memória, e eleva o valor patrimonial do Belenenses, é necessário levar em consideração as problemáticas expostas acima, uma vez que estas evidenciam a necessidade da existência de uma patrimonialização formal do Estádio do Restelo, na medida em que esta não pode ser apenas um reconhecimento de valor, mas também um mecanismo de proteção contra ameaças futuras[28].

O reconhecimento oficial do estádio enquanto património cultural iria garantir não apenas a sua proteção legal contra eventuais ameaças de descaracterização ou demolição, mas também serviria enquanto uma ferramenta de divulgação à comunidade, contribuindo para a democratização do acesso ao património, permitindo que um conjunto mais amplo da sociedade reconheça e valorize o Restelo enquanto um bem cultural. Neste caso específico, a patrimonialização institucional poderia assumir a forma de classificação enquanto um Imóvel de Interesse Municipal, devido aos seus valores históricos, arquitetónicos e sociais.

Ainda assim, seria importante também, com a realização desta classificação, não impedir a utilização funcional do estádio enquanto um equipamento desportivo, de modo a não se perder a essência do “lugar de memória”, ou seja, há que garantir o reconhecimento oficial do estádio enquanto património cultural, mas sem perder a utilização do espaço pelas suas dimensões materiais, simbólicas e funcionais.

Reflexão:

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Figura.8 – “Estádio Municipal do Restelo
Fonte: Museu Manuel Boullosa

A análise desenvolvida em torno do Estádio do Restelo revela a complexidade inerente à preservação do património desportivo contemporâneo, evidenciando a maneira como estes espaços transcendem a sua função primária, de modo a estabelecerem-se enquanto verdadeiros repositórios da memória coletiva. O conceito de “lugar de memória” de Pierre Nora mostrou-se particularmente apropriado para compreender esta dualidade, na medida em que o Restelo incorpora simultaneamente as dimensões material, simbólica e funcional que caracterizam estes espaços de significado especial.

A trajetória histórica do Clube de Futebol “Os Belenenses” e do seu estádio ilustra exemplarmente os desafios enfrentados pelo património desportivo nacional. A crise institucional de 2018, e o período de “municipalização” forçada do estádio (1961-1990) demonstram de que modo a fragilidade institucional pode colocar em risco não apenas a preservação física dos espaços, mas também a continuidade das práticas culturais que lhes conferem significado. Estes episódios sublinham a vulnerabilidade do património desportivo face a pressões económicas e políticas, demonstrando a urgência de mecanismos de proteção mais robustos.

É também particularmente relevante constatar que o valor patrimonial destes espaços reside não apenas na sua materialidade arquitetónica, mas fundamentalmente nas práticas sociais e nas narrativas identitárias que neles se desenvolvem. O papel das massas adeptas enquanto agentes de transmissão patrimonial revela-se crucial, operando através de mecanismos informais de preservação da memória, que depois complementam as iniciativas institucionais formais, como é o caso do Museu Manuel Boullosa.

O texto desenvolvido evidenciou ainda a necessidade de uma abordagem integrada à patrimonialização, que vise reconhecer a especificidade dos espaços desportivos enquanto património vivo. Ao contrário de outros bens culturais, os estádios exigem uma gestão patrimonial que preserve simultaneamente a sua autenticidade histórica e a sua funcionalidade contemporânea, transformando-se num desafio que requer instrumentos de proteção adaptados às suas características peculiares.

Conclusão:

O presente estudo demonstrou que o Estádio do Restelo constitui um caso exemplar da riqueza patrimonial dos espaços desportivos portugueses, revelando a maneira como estes lugares operam enquanto âncoras identitárias para as comunidades que os habitam. A sua importância transcende largamente a dimensão desportiva, estabelecendo-se enquanto um elemento estruturante da identidade coletiva de Belém e um testemunho material da evolução urbanística de Lisboa.

A análise desenvolvida confirma a pertinência do enquadramento teórico dos “lugares de memória” para a compreensão do património desportivo, evidenciando como estes espaços operam enquanto verdadeiras interfaces entre o material e o imaterial, entre o individual e o coletivo, entre o passado e o presente. O Restelo emerge assim como um laboratório privilegiado para pensar estratégias de preservação patrimonial, que por sua vez respeitem esta complexidade multidimensional.

As ameaças identificadas ao longo da história do estádio, desde a instabilidade financeira à crise institucional recente, sublinham a urgência de desenvolver políticas públicas específicas para o património desportivo, algo que até aos dias de hoje ainda não se verifica, em território nacional. A proposta de classificação enquanto Imóvel de Interesse Municipal apresenta-se, portanto, como um primeiro passo necessário, mas insuficiente, se não for acompanhada por medidas que garantam a sustentabilidade económica e social destes espaços.

O caso do Belenenses revela ainda o potencial transformador da adversidade, demonstrando como as crises podem catalisar processos de revalorização patrimonial e renovação comunitária. A resposta do clube à separação da SAD, privilegiando o desenvolvimento associativo e comunitário, oferece um modelo inspirador na maneira como tratar o seu património, para outras instituições que se encontrem em situações similares.

Finalmente, serve o presente texto para procurar colmatar uma lacuna significativa nos estudos patrimoniais portugueses, propondo uma metodologia de análise aplicável a outros espaços desportivos nacionais. O património desportivo emerge assim não como uma categoria menor ou secundária, mas como um campo de estudo fundamental para a compreensão das dinâmicas identitárias e territoriais da sociedade contemporânea.

Deste modo, a preservação do Estádio do Restelo afigura-se enquanto algo imperativo, não apenas para os adeptos do Belenenses, mas para todos aqueles que reconhecem no desporto um veículo privilegiado de construção e transmissão da memória coletiva. Assim sendo, futuro dependerá da capacidade de articular proteção patrimonial e a vitalidade funcional, desafio esse que se estende a todo o universo do património desportivo nacional, e que exige uma resposta concertada entre instituições públicas, clubes e comunidades.

 

Bibliografia:

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UNESCO (2003). Convenção Para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

  1. (PEREIRA, 2024).

  2. (ROSA, 1984).

  3. (NORA, 2008).

  4. Infelizmente, não consegui obter o acesso à C.M.P. 431-Lisboa. Ainda assim, e através da observação da figura.2, é possível perceber onde está situado o Estádio do Restelo geograficamente. O símbolo da bola de futebol representa o objeto de estudo.

  5. (SILVA, 2021).

  6. (ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA, 2025).

  7. (RTP, 2015).

  8. (AMARAL, 2016).

  9. (OS BELENENSES, 2025).

  10. (SILVA, 2021).

  11. (Ibidem, 2021, p.6).

  12. (ROSA, 1984)

  13. Esta revitalização levou à pintura do complexo, e à substituição de assentos que se encontravam em péssimo estado de conservação. No entanto, um aspeto interessante foi a construção de um supermercado Lidl, na estrutura do Estádio.

  14. (SILVA, 2021, p.20).

  15. (UNESCO, 2003, p.3).

  16. Neste caso, é importante fazer uma correspondência entre a religião e o desporto. Quando abordamos festividades religiosas, é natural que se associem conceitos e memórias aos edifícios religiosos, por exemplo. No caso do desporto, é natural que também se associem momentos, memórias e histórias aos espaços desportivos. Existe, deste modo, uma conexão entre o material e o imaterial através dos elementos da nostalgia e do afeto.

  17. Segundo Pierre Nora, um “lugar de memória” é um espaço que é utilizado tanto pelas suas dimensões materiais, simbólicas e funcionais.

  18. (IBER MUSEOS, 2015).

  19. (RAMSHAW, 2005).

  20. (RAMSHAW, 2021).

  21. (FONTAL, 2020).

  22. (SILVA, 2021).

  23. (GIULIANOTTI, 2002, p.85).

  24. Uma SAD é uma sociedade comercial que permite aos clubes funcionarem como empresas. É um conceito que foi introduzido de maneira a trazer mais transparência e profissionalização na gestão clubística, permitindo o acesso a novas fontes de financiamento através da abertura do capital do clube a acionistas.

  25. (SILVA, 2021, p.84).

  26. (CONNERTON, 1989).

  27. (SILVA, 2021, p.54).

  28. (Harrison, 2013, p.14).

Sobre a diegese mitológica imigracionista

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Os apologistas do imigracionismo recorrem com frequência a uma premissa que pretendem ser irrefutável: sempre houve fluxos migratórios, logo a sua ocorrência é natural. Esta afirmação, embora verdadeira num plano meramente factual, revela-se um raciocínio falacioso quando usada como justificação universal simplificadora com o intuito de silenciar qualquer discussão relacionada com a temática. É certo que, em diferentes épocas, povos se deslocaram. Porém, omitir os riscos e problemas associados, e que jamais tais fluxos se verificaram num contexto de oito mil milhões e de meios tecnológicos que favorecem e aceleram deslocações em larga escala, bem como no quadro de Estados dotados de sistemas de assistência social vulneráveis a abusos,  é um exercício demonstrativo de má-fé e de manifesta desonestidade intelectual.

Outro argumento habitual da narrativa imigracionista é o do alegado enriquecimento económico. Invoca-se acriticamente que a imigração oriunda de países do vulgarmente chamado terceiro mundo traz maior prosperidade e ajuda à sustentabilidade dos sistemas assistencialistas. A investigação empírica, incluindo estudos realizados em países como a Dinamarca, dotados de sistemas estatísticos rigorosos, demonstra que tal não se verifica.¹ Quando existe algum ganho, este beneficia sobretudo determinados sectores empresariais ou grupos que lucram com mão-de-obra barata, não se traduzindo num benefício financeiro para a comunidade nacional nem para o orçamento público.

É igualmente frequente a invocação de um suposto enriquecimento cultural, por norma reduzido a aspectos gastronómicos ou alimentares. Contudo, tal conceito carece de definição objectiva, e admitir que uma dada influência é enriquecedora ou empobrecedora implica reconhecer a existência de culturas intrinsecamente superiores ou inferiores, uma noção de difícil sustentação e validação. O sincretismo resultante da fusão ou coexistência de culturas raramente origina uma síntese harmoniosa; pelo contrário, tende a dissolver elementos identitários de ambas as partes sem que daí decorra necessariamente um acréscimo comprovado de valor cultural.

Assim sendo, passo a enumerar algumas razões pelas quais os presentes fluxos migratórios que se procuram apresentar como inevitáveis são, de facto, inaceitáveis:

I. Escala e ritmo sem precedente

As migrações de outrora eram limitadas por obstáculos geográficos, transportes rudimentares e fronteiras vigiadas. Hoje, a rapidez e a escala tornam impossível qualquer assimilação gradual. Alterações demográficas profundas que outrora levariam séculos podem consumar-se em poucas décadas.

II. Diferença entre mobilidade histórica e mobilidade em larga escala

O deslocamento de comunidades pontuais ou de contingentes resultantes de conflitos locais não é comparável à transferência populacional intercontinental para regiões densamente povoadas e culturalmente consolidadas.

III. Impacto sobre o contrato social

O Estado social assenta num pacto implícito entre contribuintes e beneficiários. A imigração em massa, quando orientada para usufruto de prestações, fragiliza financeiramente esse pacto e fomenta tensões internas.

IV. Assimilação e multiculturalismo

Uma integração sustentável implicaria a adopção gradual da cultura anfitriã. Actualmente, o modelo prevalente é o do multiculturalismo paralelo, no qual comunidades convidadas mantêm códigos e costumes próprios, criando fragmentação social. Quando os números são elevados, é a cultura receptora que se vê compelida a ceder.

V. Selecção de destino e desequilíbrio global

O afluxo concentrado a certas regiões do globo, sobretudo a Europa, revela um desequilíbrio sistémico. Continentes vastos como África e Ásia possuem recursos e espaço. A concentração quase exclusiva no Ocidente gera dependência e desincentiva o desenvolvimento local.

VI. Soberania e consentimento

Alterações demográficas e culturais profundas constituem mudanças estruturais na essência da nação e deveriam ser objecto de deliberação democrática, não de imposição por elites políticas ou interesses externos.

VII. Mudança demográfica irreversível

A grande escala e a natureza cumulativa da imigração tornam os seus efeitos demográficos permanentes, mesmo que as políticas sejam revertidas no futuro.

VIII. Segurança interna

Fluxos descontrolados favorecem redes de tráfico humano, infiltração de elementos hostis e expansão do crime organizado, comprometendo a segurança pública.

IX. Pressão sobre recursos e infra-estruturas

Serviços públicos como saúde, habitação e educação ressentem-se de aumentos populacionais abruptos, afectando sobretudo os nacionais mais vulneráveis.

X. Desvalorização salarial

O ingresso de mão-de-obra pouco qualificada comprime salários nos sectores menos protegidos, beneficiando grandes empregadores e prejudicando trabalhadores autóctones.

XI. Erosão do capital social

A confiança mútua e a coesão comunitária, fundamentos do capital social, enfraquecem quando normas e referências comuns se fragmentam sob o peso de diferenças culturais não assimiladas.

XII. Impacto ambiental

A migração em larga escala acarreta custos ambientais, desde o transporte intercontinental até à sobrecarga urbana, incompatíveis com discursos de sustentabilidade climática.

XIII. Interesses económicos e políticos ocultos

O imigracionismo serve frequentemente interesses de elites económicas que procuram mão-de-obra barata e de actores políticos que visam alterar a composição do eleitorado, mais do que fins genuinamente humanitários.

XIV. Dupla moral internacional

Muitos países de origem mantêm leis severas relativamente à imigração e defendem zelosamente a sua identidade cultural, ao mesmo tempo que exigem abertura irrestrita aos países ocidentais. Esta postura revela um desequilíbrio ético e jurídico evidente.

Cumpre observar que, ainda que fosse verdadeiro o postulado segundo o qual a imigração oriunda de países subdesenvolvidos contribui para equilibrar as contas do Estado social, tal fluxo não resolveria a causa primeira do desequilíbrio. Esta é de natureza eminentemente civilizacional. Acresce que a própria racionalização desses fluxos, quando concebida sob este prisma, reduz o imigrante à condição de servo destinado a sustentar, com o seu labor, reformas e prestações de um sistema de base piramidal invertida.
Importa igualmente frisar que tomar um posicionamento contrário ao imigracionismo não implica assumir uma posição isolacionista, nem pressupõe recusa de um convívio saudável e mutuamente enriquecedor entre nações e culturas. Trata-se, antes, da legítima salvaguarda da soberania, da identidade histórica e da coesão social, sem as quais nenhum país pode perdurar e prosperar. Convém também rejeitar a associação da defesa destas posições a sentimentos de animosidade ou preconceito, pois o seu fundamento reside na razão, na prudência e na responsabilidade política. Não caiamos, portanto, em falácias cujo único propósito é perpetuar um statu quo notoriamente exaurido e catalisador de um descontentamento cada vez mais difuso. Espero que esta exposição de ideias e informações sirva ao leitor como instrumento para desmontar o mito imigracionista que, em certos discursos políticos, se converteu em mantra dogmático e sofístico.

1- Hansen, M. F., Schultz-Nielsen, M. L. & Tranæs, T. (2017). The fiscal impact of immigration to welfare states of the Scandinavian type. Journal of Population Economics, 30, 925-952. DOI: 10.1007/s00148-017-0636-1. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00148-017-0636-1

A Igreja e o Liberalismo Oitocentista Português

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A Igreja e o Liberalismo oitocentista português — um prisma de múltiplas faces. Texto produzido em 2024 na Universidade de Évora — Escola de Ciências Sociais, Licenciatura em História, na Unidade Curricular Seminário em História para a docente Professora Doutora Maria Fátima Nunes. Resumo: A investigação em torno da questão vintista portuguesa demarca-se como sendo, no passar das últimas décadas, uma temática pouco aprofundada e trabalhada. Neste sentido, tentaremos compreender, especificamente, através da visão do Padre José Agostinho de Macedo, um absoluto miguelista e antiliberal, a visão dual assente no seio do clero português da época e consequentemente toda a imposição do liberalismo em Portugal. Os ideais liberais sobrepõem-se em território nacional no ano de 1820, após um crescimento notório oriundo de França, sendo que posteriormente, num contexto de contrarrevolução, são várias as instâncias e alternâncias que caracterizam o Portugal vintista. Como tal, a análise e perceção do anteriormente referido será feita por meio da interpretação e estudo dos trabalhos do nosso Padre, aliados às eloquências emanadas pela Santa Sé. No fundo, esta investigação está assente numa enorme curiosidade e empenho, com o objetivo primordial de desmistificar o tema proposto, contribuindo assim para o seu desenvolvimento historiográfico e perceção da “força da longa duração de oitocentos para a era dos extremos”. Palavras-chave: Padre José Agostinho de Macedo; Liberalismo; Igreja; Revolução; Contrarrevolução.

Prefácio

O caminho traçado com vista à realização deste texto caracterizou-se por um conjunto de particularidades que em tudo refletem o empenho e dedicação aqui presentes. Um percurso académico trabalhoso e deveras cansativo está na base desta investigação, que acabou por se tornar especial dada a experiência de campo vivida, de modo a obter os materiais necessários ao seu desenvolvimento.

A visita frequente a estabelecimentos literários foi, sem qualquer tipo de dúvida, prazerosa e essencial, onde a ligação direta com livros, com o redigido em cada página, cada comparação, reflexão, ideia crítica, se demarcou como inesquecível, num momento onde parece que a nossa alma se entranha em cada letra, em cada palavra, numa viagem cujo destino final nada mais pode ser que a realização de um trabalho congruente. Nos corredores da Biblioteca Pública de Évora e da Biblioteca do Colégio do Espírito Santo, foram várias as horas passadas na consulta e estudo de obras, artigos, entre outros, com um só objetivo, que em tanto me orgulham e dignificam esta investigação.

Foi necessária a deslocação a Lisboa, cidade onde tudo acontece e tudo está ao nosso alcance. Ao entrar na Biblioteca Vitorino Magalhães Godinho, estabelecimento especializado e vocacionado para a investigação, localizado no Colégio Almada Negreiros, pertencente à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com o objetivo de adquirir um documento imprescindível à redação deste trabalho, perdi-me em corredores, entre estantes, livros, entre História. Desde edifício, partiram na madrugada do dia 25 de abril de 1974 as tropas revoltosas do Batalhão de Caçadores 5, sob o comando do então Major Cardoso Fontão, que viriam a ocupar o Quartel-General e o Rádio Clube Português. Fica aqui claro que esta Biblioteca está também inserida num dos locais cruciais de um dos mais importantes, senão o principal, acontecimento da História Contemporânea do nosso país.

No fundo, a escolha deste tema foi algo atribulada, não sendo esta a minha primeira opção de trabalho. No entanto, acho que passa muito pela capacidade de nos reinventarmos, seguindo por vezes caminhos que nem sempre são a nossa praia. Neste sentido, e no seguimento de trabalhos outrora realizados e de algumas opiniões, acabei por chegar a um consenso comigo mesmo de que esta seria a melhor opção. Surge então a questão: O que nos leva a investir nesta investigação?

Do ponto de vista pessoal, encaro esta investigação como um desafio a mim próprio, sendo esta uma temática que praticamente nunca tinha estudado, pelo menos de um modo tão aprofundado. Já do ponto de vista científico, é bastante simples responder a tal interrogação, uma vez que denotei logo no início do trabalho, que o Vintismo vem nos últimos anos a ser, de certo modo, esquecido pela historiografia, dado o decréscimo abrupto das investigações desenvolvidas. Posto isto, um dos meus principais objetivos é combater esta tendência com a realização de uma investigação académica coesa e coerente, alcançando os fins que tenho traçados.

Assim sendo, resta-me apenas evocar o que ainda está por vir, com a perfeita ideia de que a História é uma certeza, a minha certeza.

  1. Introdução

“A História não é, evidentemente, um mero entretecido de cenas e cenários, nem estes, tão-pouco, nascem de geração espontânea ou só porque os subjectivismos individuais e os voluntarismos grupais se entrechocam”

– DIAS, José Sebastião da Silva / DIAS, Graça da Silva (1986), Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, Ed. Instituto Nacional de Investigação Científica, 2ª Edição, Vol. I (Tomo II), Lisboa, p. 686

Tal como em tudo na vida, este trabalho de investigação acarreta também a sua cota parte de importância por diversos fatores, seja pelas instâncias da sua realização, assentes no desenvolvimento historiográfico da temática, bem como pelo retratar, sob um caminho de pesquisas e reflexões, de diferentes visões da sociedade, da religião e das mentalidades do Portugal nos primórdios de oitocentos. O intento primordial deste trabalho é o entendimento, por intermédio do desmitificar da visão do Padre José Agostinho de Macedo, das distintas faces que caracterizam as relações patentes entre a Igreja e as fações liberais responsáveis pela imposição do Liberalismo em território nacional.

Com vista a alcançar os objetivos traçados, este ensaio científico segue uma linha de pensamento que em tudo beneficia a compreensão do aqui redigido e do caminho, à altura, traçado pelas Revoluções Liberais europeias, com enfoque na Francesa e na Espanhola, e seguidamente a Portuguesa, que viriam a influenciar todo o enredo contemporâneo posterior. A caracterização da Igreja portuguesa, nos anos anteriores à revolta, será também alvo de estudo, o que nos permitirá, no seguimento de tal análise, interligar as relações existentes entre o Catolicismo e o Liberalismo, clarificando a compatibilidade, ou não, entre ambos. Serão aqui debatidas perspetivas transnacionais, sendo algumas emanadas pelo poder papal, que nos permitirão compreender, em grande parte, a instabilidade da conjuntura estudada, onde a dureza dos tempos, só por si, nos desperta o interesse na compreensão do sucedido.

A Revolução Liberal Portuguesa de 1820, que maioritariamente se distingue das restantes, permite-nos percecionar o aparecimento da ideologia contrarrevolucionária, como também clarificar os condicionalismos e obstáculos presentes nas tentativas de sobreposição liberal. Ao olhar para o considerado pelo Padre José Agostinho de Macedo, conseguimos, na totalidade, denotar que as posições defendidas pelo Trono e pelo Altar não se assemelham entre si. Uma ideologia constitucional liberal que perpétua no tempo e na memória, assente na inovação, na moral laica e na positividade do mundo, em contrapartida de uma doutrina providencialista a Deus, baseada na continuidade do tradicional.

Alguns dos trabalhos do nosso Padre, como o Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente e A Besta Esfolada são-nos inteiramente essenciais. Exemplos robustos de um contrarrevolucionário, que em tudo nos levam à sua perceção de irrealidade assente no Liberalismo, no que respeita ao fluxo intenso de reformas estruturais, num país onde o juízo do povo não estava preparado para tal, sem se equacionar e contrabalançar o efeito de transição de “motor anti-constitucional”.

Por fim, a partir da recolha exaustiva dos materiais disponíveis, cabe-nos a nós, historiadores, construir um pensamento e um perfil mental assentes na nossa capacidade crítica, contribuindo para o estudo da História, uma ciência social e humana por vezes injustiçada, mas de importância absolutamente inquestionável, enraizada nas nossas vivências, culturas e acreditações, onde, sem espaço para especulações, a longa duração é privilegiada, não esquecendo o estudo do tempo curto e das respetivas conjunturas.

Estado da Arte

De modo a materializar este trabalho de investigação, a análise de distintas perspetivas relacionadas com objeto de estudo em questão é de absoluta relevância para a realização de um estudo aprofundado e atual, que se distancie dos últimos procedimentos historiográficos relativos à temática. Ou seja, segundo a nossa visão e sentido crítico, no decorrer das últimas décadas o desenvolvimento das investigações em torno do “Vintismo português” tem sido, de certo modo, pouco trabalhado. Assim sendo, e com vista a combater tal tendência, passamos a explicar as quatro análises/estudos que foram de imprescindível utilização para um conhecimento lucido e abrangente: José Agostinho de Macedo e a ideologia contrarrevolucionária de Maria Ivone D’Ornellas[1], D. Carlota Joaquina: Rainha de Portugal de Sara Marques Pereira[2], Os actos adicionais à Carta Constitucional de 1826 de Paulo Jorge Fernandes[3] e Os Primórdios da Maçonaria em Portugal de José Sebastião da Silva Dias e Graça da Silva Dias[4]. No fundo, cabe salientar a relevância de cada uma destas referências, fornecendo-nos tal como o próprio título indica, um prisma de múltiplas faces.

Primeiramente, Maria Ivone D’Ornellas, através da sua Tese de Doutoramento, elucida-nos relativamente ao papel do Padre Agostinho de Macedo numa conjuntura deveras inquietante da História de Portugal, como o pós-vintismo. Retrata a ideologia contrarrevolucionária de Macedo enquanto crítico assumido do liberalismo, onde uma prevalência da doutrina do livre-arbítrio, do mérito pessoal, de uma sociedade horizontalizada e sobretudo de uma Monarquia Constitucional eram características. Este trabalho de investigação expõe as mais vastas acreditações do nosso padre, apologista de uma evolução política natural absolutista, por intermédio de uma doutrina teológica, do poder uno e indivisível, de uma sociedade verticalizada e, por fim, de uma Monarquia Hereditária.

Numa segunda análise, Sara Marques Pereira aborda na sua obra D. Carlota Joaquina: Rainha de Portugal, uma das figuras mais controversas e marcantes da história oitocentista portuguesa. Absolutista intrínseca e filha de monarcas espanhóis, considerava-se “fora do seu tempo” e nunca se terá conformado com o seu papel como consorte do Rei D. João VI. Com a sua vida marcada por um protagonismo em crescente, afirmou-se opositora à Revolução Liberal e defensora dos interesses de seu filho D. Miguel, posições que lhe valeram a imagem de “Rainha-Mártir” aos olhos de historiadores contemporâneos.

Sob outro ponto de vista, Paulo Jorge Fernandes, por consequência do seu estudo relativo aos Actos adicionais à Carta Constitucional de 1826 fornece-nos elementos informativos cruciais no que respeita à dificuldade de revista desta lei fundamental da segunda década do século XIX, o que resultou na sua revisão em quatro distintos momentos ao longo de todo o período oitocentista e primórdios do anterior centenário (1852, 1885, 1895 – 1896 e 1907). O destaque circunda a data de 1885, uma vez que foi nesta revisão que se denotou a única reforma pactuada entre as elites dos dois principais partidos do regime monárquico vigente na altura, com os objetivos centrados no bloqueio do acesso à esfera governativa por parte de republicanos. Esta investigação comprova-nos que os acontecimentos e imposições liberais não acarretaram apenas consequências momentâneas, mas sim no decorrer de uma longa conjuntura posterior.

Numa outra circunstância, a obra de José Sebastião da Silva Dias e Graça da Silva Dias, Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, transmite-nos uma diferente perspetiva no que respeita ao papel do Padre Agostinho Macedo, uma vez que as suas publicações foram órgãos de desinformação, ou seja, os Governadores do Reino não se limitaram apenas à repressão como modo de manterem o povo à margem daquilo que sucedia na realidade nacional. A perceção do liberalismo concreto possuía uma dinâmica liberal e outra antiliberal, sendo estas alcançadas por distintas fações da sociedade portuguesa: a primeira ligada aos intelectuais e à burguesia agrária e mercantilista; a segunda remetia para o clero e para a nobreza e consequentemente para as entidades burguesas ligadas a estes estratos sociais, estando também incluído grande parte do comércio retalhista e da classe industrial, o chamado “povo miúdo”. No seguimento da obra anteriormente referida de Sara Marques Pereira, aqui, a abordagem da Rainha D. Carlota Joaquina à Constituição, com a sua recusa de juramento, é também descrita como um fator de complicação face o seu posicionamento frente às Cortes e ao governo, algo importante, dado o seu poder mobilizador num Portugal com várias camadas de descontentes em diferentes estratos socias.

Por último, e com os horizontes colocados numa visão transnacional que nos permitirá a abertura de novas vias para a investigação, destaca-se a utilização de uma fonte primária oriunda da autoridade pontifícia do Papa Leão XII (1823 – 1829), Bula Quod Hoc Ineunte (1824)[5] e de um artigo da Universidade de Lille, em França, publicado na Revista Atlante e da autoria de João Pedro Rosa Ferreira, Humor, insulto e política nos periódicos de José Agostinho de Macedo (2020)[6]. Nesta linha, estas análises são preponderantes para a execução do trabalho, uma vez que nos permitirão compreender a reação, tanto de absolutistas como de liberais à ideologia vinda da Santa Sé, bem como questionar a importância e utilização do humor e da sátira nos periódicos de Macedo.

O entusiasmo em torno desta investigação alicerça-se em leituras e análises como as anteriormente referidas, com o objetivo primordial de contribuir para o crescer de um conhecimento pessoal bem como historiográfico, por intermédio de comparações, reflexões e questões, que em tudo favorecem o discernimento das problemáticas da altura.

O eclodir dos ideais liberais na Europa: de França à Península Ibérica

A transição patente entre os séculos XVIII e XIX em contexto europeu demarca-se do ponto de vista político e social, sendo este período comummente percecionado como a “era das revoluções”, das quais se demarcam a Revolução Francesa, em finais de setecentos e, entre outras, a Revolução Liberal Espanhola, de 1812, antecedendo estas a Revolução Liberal Portuguesa. Neste sentido, nesta específica conjuntura assistimos ao declínio das bases do “Antigo Regime”, algo que se tornou à posteriori num período de perturbações violentas, onde as guerras civis se evidenciavam, demonstrando assim a complicada consolidação das propostas colocadas em cima da mesa. Denotamos aqui o longo caminho percorrido pelos países do velho continente com vista à implementação de regimes liberais e constitucionais, sujeito tanto a avanços como a passos em falso, dos quais o território ibérico não esteve ausente.[7]

A Revolução Francesa de 1789 foi, em grosso modo, a “Revolução fundadora” deste enredo de revoltas liberais do século XIX, pois foi a partir daqui que os contemporâneos da época alargaram os seus horizontes, por meio de um novo tipo de consciência histórica[8], comparando a nova modernidade em que viviam por oposição a outras, isto fruto da sensação de rutura que se fez sentir.

As perspetivas diferenciam-se umas das outras, sendo que, por exemplo, numa visão vinda de Portugal, emanada pelo Padre José Agostinho de Macedo, a Revolução Francesa nada mais é que um “ilusório projeto, concebido no seio de uma errada e antirreligiosa Filosofia, que tinha por objeto destruir os alicerces de todos os tronos e de todos os altares e levantar sobre ruínas dos seus templos os estandartes ou os troféus do ateísmo.”[9]. Macedo demarcou-se como “um ativo panfletário anti-Revolução Francesa e anti-Napoleão”[10], vindo a considerar-se, como se verificará posteriormente, um acérrimo defensor do miguelismo e de uma evolução política natural de caráter absoluto, tal como comprova o seu mais célebre panfleto, A Besta Esfolada, que, segundo um crítico da altura, define claramente a posição do nosso Padre face as bases assentes no Liberalismo francês.

“É certo que Macedo foi mais ou menos franca e abertamente partidário do absolutismo real, mas admitia-o, professava-o, defendia-o, queria-o como uma demagogia coroada, presidida por um rei demagogo e tirano, e D. Miguel, até certa altura, para ele, foi esse rei.”[11]

No seguimento do alastrar das ideologias liberais nascidas em solo francês, a revolução liberal pioneira em territórios da Península Ibérica ocorre na vizinha Espanha, proclamada como consequência da Constituição de Cádis, no ano de 1812.[12]. Aqui implementou-se o liberalismo político, a fundação do princípio de soberania nacional e a “transformação dos súbditos em cidadãos.”[13]. É seguro afirmar que a Carta Magna espanhola vem por consequência da Constituição gaulesa de 1791, no entanto os processos anteriores são completamente distintos. Em França, uma revolução interna sucedeu-se, cuja qual tinha como primordial objetivo a queda do sistema social e político. Por outro lado, a Constituição de Cádis nasceu do desejo do povo espanhol de manter a sua soberania, fazendo frente à imposição napoleónica e com objetivo de nunca mais se submeter a nenhuma outra autoridade, seja ela de cariz monárquico ou republicano.

Com a ocorrência da Revolução Francesa, o conceito de revolução foi alvo de ressemantização, ou seja, este adquiriu um novo sentido, por consequência de uma transformação radical das estruturas políticas e sociais, algo se torna claro anos mais tarde com a Revolução Liberal Espanhola, sendo este o ponto assente da mudança, onde o conceito de revolução adota a sua semântica moderna, característica de uma profunda mudança de regime[14].

Em rigor, e como base na informação alicerçada, compreende-se que os ideais liberais impostos em Portugal em 1820, são resultado de um processo relativamente longo, iniciado décadas antes em França, passando por terras espanholas até chegar a território nacional. Esta “evolução” é, de certo modo, essencial para contextualizar o situacionismo liberal europeu à priori da análise nacional.

A Igreja Portuguesa nos finais do “Antigo Regime”

O período oitocentista, tanto a nível nacional como europeu, demarcou-se como uma conjuntura onde as relações entre a sociedade e a religião (Estado e a Igreja) se caracterizaram por inúmeras controvérsias, tanto do ponto de vista ideológico como institucional. Em Portugal, o Vintismo, introdutor da revolução e do liberalismo, deve ser percecionado como o ponto de partida do processo evolutivo patente entre “o civil e o religioso”[15], sendo este um fator condicionante nos anos posteriores, seja por meio de negociações e acordos ou de elevada tensão e discórdia. Neste sentido, é seguro afirmarmos que no exato momento em que Portugal atingiu a “aurora da liberdade”[16], surgiram também interrogações características de uma crescente incerteza: O que fazer com a religião? Qual o papel da Igreja?

A visão aqui transparecida indica-nos que a perspetiva liberal de oitocentos, no que respeito diz à Igreja e à Religião, na geografia ocidental europeia, com a inclusão portuguesa a partir de 1820, é consequência direta das tendências setecentistas e da gradual subordinação da Igreja face aos Estados, algo enraizado nas sociedades da fase final dos regimes absolutos.[17]. Neste sentido, evidencia-se aqui a dupla filiação iluminista e revolucionária que funciona como elemento de destaque do primeiro liberalismo português.

Num contexto pré-revolucionário, Portugal, apesar da discrepância periférica característica em relação aos grandes centros político-culturais do continente europeu, adquiriu também os ideais iluministas e as fórmulas da política estrangeira. Por conseguinte, a Igreja Portuguesa nos finais do “Antigo Regime”, aliada às suas relações patentes para com o Estado Absolutista, funcionaram como ponto introdutório do primeiro liberalismo de 1820. A adoção portuguesa da filosofia iluminista nada mais representa, aos olhos do Padre José Agostinho de Macedo, do que “A subversão geral de todos os povos civilizados, o abalo de todas as monarquias, a propagação daquelas ideias exaltadas pelo liberalismo”[18].

Ainda nesta conjuntura pré-1820, a Igreja portuguesa apresentava sinais de estar enfraquecida e sitiada pelo poder político, denotando-se também evidências de estagnação, como repercussões de um contexto internacional adverso. Noutra perspetiva, na face oposta da moeda, a Igreja demarcava-se pelo saber e influência cultural, moral e administrativa, oriunda do “catolicismo ancestral do reino”[19], apresentando-se o clero como o ainda principal agente educacional do país, principalmente, por intermédio da divulgação da escrita. Neste período, e sendo tal matéria constatada pelos liberais no tempo posterior da revolução, o clero, em contrapartida do poder civil, assegurava as operações de recrutamento militar, as cobranças de impostos, os inventários patrimoniais e a execução das decisões administrativas locais.

Por conclusão, e com os fundamentos baseados na informação descrita, denotamos que a posição da Igreja Portuguesa nos finais de setecentos e viragem para o século XIX surge como enquadramento de partida das vivências religiosas do pós-Revolução Liberal de 1820, acentuando-se o debate em redor do lugar da Religião e da Igreja Católica na sociedade.[20]

Liberalismo e Catolicismo

A Religião, questão forte entre liberais e absolutistas, surge aqui como um dos temas, inquestionavelmente, mais “sensíveis” do vintismo, seja na imprensa, na oratória, no púlpito ou na literatura. A religião Católica Apostólica Romana caracteriza-se como ponto assente de juramento, veneração e respeito dos revolucionários de 1820, o que leva a historiografia a levantar uma questão essencial com vista à interpretação desta fação revolucionária: Para os vintistas, qual o significado da religião Católica?

Num cômputo geral, e remetendo para as relações entre liberalismo e catolicismo, é seguro afirmar que a visão liberal vintista “não era negadora do fenómeno religioso”[21], mas sim defensora de ideias assentes na compatibilidade entre ambos. Na visão vintista, a religião compreende uma utilidade ideológica e simbólica, levando os referenciais do catolicismo a “apadrinhar” as novas concessões, valores e práticas liberais.[22]

Os revolucionários de 1820 viam no catolicismo um instrumento de coesão de unidade nacional, que bem instrumentalizado, permitiria ao liberalismo alcançar a tão desejada aceitação popular, sendo vários os exemplos no que respeita ao reconhecimento político liberal da função da religião como veículo de propagação dos ideais emanados pelo liberalismo. Manuel Borges Carneiro, um dos patriarcas do vintismo, proferia que o religioso era sim um instrumento de vinculação social oriundo da associação entre liberdade e religião, afirmando que “se a liberdade se estabeleceu, ela longe de fazer mal à religião, vai-lhe fazer bem, porque vai depurá-la dos labéus e fanatismos”.[23]

Sob outro ponto de vista, a Igreja Católica na primeira metade do século XIX estava assente num confronto entre Cristianismo e Liberalismo, que, apesar da dimensão religiosa, fazia-se sentir na totalidade social. Aqui, a transposição do “Antigo Regime” para a sociedade liberal é vista como o momento onde a ideia de religião como salvação, passa a ser de religião como realização social, algo que, aliado ao facto do Estado e da Igreja se manterem em situações de crise e conflito, levou à reflexão de que o primeiro liberalismo português não “atacou” diretamente a religião, mas sim o seu uso.[24]

“A pregação da Palavra de Deus e a restauração da vida religiosa consagrada são duas dimensões que corresponderam à necessidade de conciliar liberalismo e cristianismo através da organicidade católica.”[25]

Os vintistas, apesar das diferentes interpretações anteriormente analisadas e transparecidas, defenderam sempre a necessidade e a possibilidade de uma ligação, ainda que de estreito modo, entre o liberalismo e o catolicismo, por meio do garante permanente da compatibilidade entre o Estado e a Igreja, através de um meticuloso equilíbrio.[26]

A Revolução Liberal de 1820

A Revolução de 1820 sucede numa Europa onde a memória deixada pela Revolução Francesa de 1789 e o revivalismo religioso tinham clarificado um ambiente em tudo inadequado e pouco propício a revoltas.[27] Aqui, foi finalmente consagrado em Portugal, do ponto de vista político, o momento fundador do liberalismo oitocentista, juntamente com o reformular das ideias fundamentais do tempo em questão, o constitucionalismo e o nacionalismo.[28]

A convicção em torno da Revolução Liberal Portuguesa, nos meses imediatamente anteriores ao ocorrido, acabou fortalecida, dada a restauração da Constituição Liberal de Cádis de 1812, por meio de uma revolta liberal no sul de Espanha datada do dia 01 de janeiro de 1820.

A revolta portuguesa é então marcada para a cidade do Porto, a 24 de agosto do mesmo ano, sendo que todo o movimento estruturado assenta numa palavra-chave: Regeneração. Nesta madrugada, os conjurados reúnem-se no Campo de Santo Ovídeo, onde primeiramente sucede um pronunciamento militar, que mais tarde se alia com oficiais e militares revoltosos na Câmara Municipal.[29] Deste modo, as fações civis e militares criam um Governo Provisório na cidade do Porto, sendo de absoluta relevância clarificar, que enquanto tal se sucedia, na capital, Lisboa, não se calculava o ocorrido no norte do país. “A junta do Porto só iniciou a marcha no sentido de Lisboa, depois da adesão do Minho e quando a resistência absolutista estava vencida em Trás-os-Montes e nas Beiras.”[30]

O pronunciamento militar de 24 de agosto de 1820 surge como a origem de um movimento dinâmico de mudança no seio da sociedade portuguesa, colocando em causa as estruturas de um Estado de “Antigo Regime”. Este movimento durou cerca de tês anos, no entanto, e prevalecendo a consciência de uma memória histórica, as suas consequências fizeram-se sentir ainda no século XX, através dos seus ideais e princípios que acabaram por ressurgir na Implantação da República.[31]

A Legislação de 1821[32] e consequente Constituição de 1822 (que seria de curta duração), deveras progressista e avançada para o seu tempo, jurada num primeiro momento pelo parlamento e posteriormente pelo monarca, contemplava o ciclo de objetivos propostos pela Revolução Liberal do Porto: o regresso do rei; a expulsão dos ingleses; eleições para as Cortes Constituintes e promulgação da Constituição Liberal. Aqui, o poder do rei “desaparece” em parte, isto é, este torna-se um mero espectador da vida política do vintismo.[33] Distintamente das Constituições europeias anteriormente referidas, que não incluíram os direitos humanos no texto constitucional ou fizeram-no de um modo disperso ao longo do articulado, a Lei Fundamental de 1822 consagrava um amplo conjunto de direitos, que tinham como primordial fim a “liberdade, segurança, e propriedade de todos os Portugueses”.[34]

“A constituição lusitana não seria menos liberal que a espanhola de Cádis: e a palavra de ordem significava que o vintismo não queria ser analisado em termos de simples liberalização do antigo regime.”[35]

A organização do poder político passa a ser estabelecida em três distintos princípios fundamentais: o Princípio da Soberania Nacional, o Princípio da Representação e o Princípio da Separação e Independência dos poderes.

No primeiro, “A soberania reside na nação”, com base na união de todos os portugueses de ambos os hemisférios e nas ideias de indivisibilidade e inalienabilidade. No que respeita ao Princípio da Representação, este decreta que a soberania da nação só pode ser exercida pelos seus representantes legalmente eleitos, os deputados, não sendo o Rei a figura máxima da pátria. Denota-se portanto, já através destes dois primeiros princípios, um afastar quase por completo da figura do rei, passando para um papel totalmente secundário, não sendo detentor de direitos de soberania. Em rigor, a Constituição retira agora um elevado número de competências à coroa, transformando-se o monarca num cidadão como os restantes, obedecendo à Lei Fundamental.[36]

Relativamente ao Princípio da Separação e Independência dos poderes, este constata a divisão e distinção dos poderes executivo, legislativo e judicial. O Poder Executivo está concentrado na figura do rei, mas o mesmo não o exerce diretamente, delegando-o num governo. A sua autoridade não deriva da vontade divina, mas sim do desejo da nação, possuindo também o rei a competência de promulgação das leis, não sendo responsável pela sua elaboração. Este nomeia os juízes e os comandantes das Forças Armadas, podendo ainda nomear, bem como demitir, os Secretários de Estado. Noutra vertente, o Poder Legislativo está encarregue de fazer as leis, confiado a um parlamento, composto por uma única câmara, a Câmara dos Deputados, eleita por sufrágio direto. O direito de voto é masculino, sendo atribuído a todos os cidadãos maiores de idade. Por fim, o Poder Judicial pertence aos juízes, estando o Rei e o governo impossibilitados de intervir nas decisões da magistratura.[37]

Por reflexão, a partir daqui, o vintismo tem uma base constitucional a seguir, não obstante, apesar do determinado nestas bases, o regime liberal foi desde os seus primórdios atacado pelos seus opositores, adversários de toda esta transformação liberalista ocorrente em território nacional.

Após o movimento revolucionário desencadeado, foram desde logo surgindo vários grupos de descontentes que, por meio de maneiras mais ou menos explícitas, não deixaram de manifestar o seu claro descontentamento face o liberalismo português. Neste sentido, pretendemos agora clarificar algumas das mais expressivas oposições ao regime liberal, debruçando-nos nas perspetivas da Rainha D. Carlota Joaquina e do Infante D. Miguel.[38]

A Rainha D. Carlota Joaquina desempenhou um papel fundamental na história política em contexto ibérico na conjuntura oitocentista, demonstrando, desde cedo, um forte desejo e ambição política de reinar. Oscilante estrategicamente no que respeita a comportamentos políticos, acabou por definir claramente a sua posição em 1822, tornando-se na figura central da contrarrevolução em Portugal, “na qual seu filho, o infante D. Miguel, seria a figura operacional.”[39]. Com o objetivo de fazer cair o regime liberal, junta um grupo de absolutistas de modo a fazer frente às cortes vintistas, recusando-se a jurar a Constituição de 1822. Tal recusa levou à intervenção do monarca D. João VI, que se viu na obrigação de notificar a esposa com vista ao dito juramento, caso contrário esta incorreria na pena prevista, perdendo a cidadania e todas as dignidades inerentes à sua posição e sendo expulsa do reino. Ao que a Rainha D. Carlota Joaquina respondeu, em nota verbal:

“Que já havia mandado dizer a El-Rei que não jurava: que tinha assentado de nunca jurar em sua vida nem em bem, nem em mal, o que era por soberba, nem por ódio ás Cortes, mas sim porque assim uma vez o tinha dito: pois uma pessoa de bem não se retrata, e por ser uma pessoa doente, que bem sabia a lei e conhecia a pena que ella impunha; e que estava disposta para isso”[40]

A Rainha permanecera inflexível, não alterando a sua posição. Assim sendo, e terminado e prazo limite de juramento (dia 03 de dezembro de 1822), D. João VI viu-se obrigado a promulgar um decreto no qual retirava os direitos civis e monárquicos à esposa e a obrigava a exilar-se do país. Aos olhos da historiografia, a posição da Rainha D. Carlota Joaquina foi aproveitada pela imprensa absolutista e contrarrevolucionária, tornando-a numa mártir dos “malhados”, uma heroína “que com a sua coragem tinha enfrentado os “satânicos liberais.””[41]

O Miguelismo surge como um movimento heterogéneo e não apenas um movimento popular e rural, que aos olhos dos liberais oitocentistas se caracteriza pelo seu caráter contrarrevolucionário marcado pelo terror, oriundo dos interesses particulares da Igreja e da Nobreza, apoiado por camponeses, sendo o expoente máximo um “rei bronco e cruel, manipulado pela mãe, mais virado para os touros e para os fados do que para a arte de governar.”[42]

D. Miguel, influenciado por sua mãe, a 30 de abril de 1824, levanta os regimentos de Lisboa com vista à tomada de poder, argumentando que seu pai, El-Rei D. João VI continuava “cercado de facciosos” e que era necessária uma solução rápida e eficaz, servindo este golpe para evidenciar o seu isolamento na corte, apesar de responsável pelo comando do exército. Acabou por ser demitido por seu pai, submetendo-se em seguida ao exílio, na Áustria.[43]

Relativamente ao nosso Padre, José Agostinho de Macedo surge também, à semelhança das figuras anteriormente referidas, como um adversário assumido do liberalismo, incriminando o chamado “triénio vintista” pelo estado decaído do reino, algo que será abordado numa fase posterior, com base nos seus periódicos críticos, por meio da utilização do humor e da sátira.

Em rigor, e após a análise de diferentes prismas, concluímos que a Revolução Liberal de 1820 e o projeto e ideologias a si associados colheram dois tipos de receção. Para uns surgiu como a única maneira de retirar a miséria ao país, por meio do empenho das forças conjugadas. Por outro lado, noutra perspetiva, nada mais representava que uma “autêntica traição ao soberano”.[44]

  1. O Estado e a Igreja: A Santa Sé e a “perturbação espiritual”

A rutura do absolutismo foi encarada como o ponto de partida para a criação das condições necessárias com vista à total desestruturação das instituições eclesiásticas do “Antigo Regime”, caminhando-se agora rumo à inauguração de uma política religiosa centralizadora. Esta reorganização da Igreja, levada a cabo pela elite liberal, tem como objetivo fundamental a adequação, na respetiva conjuntura, do aparelho eclesiástico ao constitucionalismo característico, bem como a sua inserção num vasto movimento de secularização da sociedade, da cultura e das consciências.[45]

Num tom comparativo, na sociedade do “Antigo Regime”, as instituições religiosas usufruíam de um forte poder económico, algo que lhes proporcionava uma verdadeira capacidade de doutrina ideológica sob o conjunto populacional, através da moldagem das mentalidades e da difusão e orientação de determinados comportamentos e atitudes. Numa outra perspetiva, com a sobreposição do Liberalismo, e tal como já referenciado anteriormente, este adquiriu desde logo as bases de um projeto de caráter iluminista, que se afastava das ideias de outrora, no que respeita aos “velhos ritmos da sociedade caracterizadamente rural e dependente de uma economia agrária.”[46]. Aquando do período do chamado “Triénio Vintista”, os líderes liberais tomaram medidas com vista ao desclericalizar da sociedade e da redução do poderio económico da Igreja, sendo que tais decisões tinham como fim traçado a diminuição da influência tradicional da religião nas comunidades e a sua transformação num mero instrumento do Estado, ou seja, estamos perante uma submissão da Igreja face ao Estado. Estes líderes possuíam, portanto, o desejo de utilizar os aparelhos eclesiásticos na difusão dos preceitos constitucionais.[47]

Numa fase inicial, o novo regime acabou por ser aceite pela maioria do bispado, numa clara obediência às elites governativas, chegando mesmo, em alguns casos, a serem publicados pastorais favoráveis ao Liberalismo. Não obstante, a figura do cardeal-patriarca D. Carlos da Cunha, clérigo conservador que favorecera os contrarrevolucionários, e que, à semelhança da Rainha D. Carlota Joaquina, recusa também jurar as bases da Constituição, segue, por consequência das suas vicissitudes, o caminho do exílio.[48] Ao ano de 1823, com a chegada da questão da contrarrevolução, as decisões tomadas pelos vintistas acabaram suprimidas, permitindo, nos tempos posteriores, um novo alento às fações religiosas, derivado da reconciliação entre os poderes temporal e espiritual.

Numa época onde os avanços e recuos se evidenciam como características de um país assente na instabilidade, demarca-se também a visão emanada pelo poder papal. Deste modo, e com os olhares colocados no adquirir de uma visão transnacional, debruçamo-nos sobre a Bula Quod Hoc Ineunte, da autoria do Papa Leão XII. Com a intenção de virar os fiéis para Deus numa época de tanta “perturbação espiritual”, o líder máximo da Igreja Católica declarou através deste decreto pontifício, que 1825 era ano de Jubileu, o que provocou a insatisfação de liberais e dos soberanos em regime absolutista, aos quais não agradava ver tanta atenção concentrada no líder católico.

Celebrado a cada 25 anos, o Jubileu demarca-se como uma comemoração religiosa da Igreja Católica, num ano que será de paz e reconciliação, de festa e de perdão, onde a Graça Divina prevalecerá entre todos os seguidores de Cristo. Apesar do descrito, as chancelarias europeias do período em questão olhavam com preocupação para a convocação da dita comemoração, dado o considerável número de devotos que se teriam colocado em movimento.[49] Numa conjuntura deveras inquietante devido às Revoluções Liberais e às conspirações existentes, cada viajante era olhado com suspeita, sendo as fronteiras encerradas e as vias de comunicação constantemente vigiadas, contundo, o Papa Leão XII assim o pretendia e assim o realizou. A Bula em questão, numa fase inicial, evoca as dificuldades sentidas, mas seguidamente, estimula a celebração do Jubileu com alegria.

“Pela misericórdia do Senhor, é concedido à Nossa pequenez comunicar-vos com alegria que estamos agora perto de realizar felizmente, segundo o costume e as regras dos nossos anciãos, o que infelizmente não pôde ser feito no início deste século devido à terrível dureza dos tempos.”[50]

Leão XII relembra aqui a impossibilidade de realização do Jubileu de 1800, no início do século, aquando do pontificado do Papa Pio VII, por consequência do governo hegemónico de Napoleão que provocara dentro do seio da Igreja Católica um ambiente hostil e internamente insustentável.

Em pleno período de Restauração, num conturbado início de centúria, onde os tempos aconselham à prudência, o Papa cumpriu o seu dever, e “Deus abençoará a sua escolha”, com vista a um ano auspicioso, onde os mais abundantes meios de reconciliação e de graça para a salvação das almas se alevantarão.

“Que a terra ouça as Nossas palavras e que o mundo inteiro se alegre com o toque da trombeta sacerdotal que anuncia ao povo de Deus o Sagrado Jubileu. Anunciamos a chegada do ano da expiação, do perdão, da redenção, da graça, da remissão e da indulgência, em que, pelo mérito d’Aquele que se fez graça e verdade por nós, se renova de modo mais santo, na acumulação dos bens espirituais, aquilo que já entre o povo judeu uma antiga lei, pressagiando o futuro, tinha previsto no fim dos cinquenta anos.”[51]

Em rigor, ressalva-se aqui que a Revolução Liberal fez da religião um “simples” instrumento subordinado ao Estado e que, consequentemente de uma considerável análise transnacional, a visão emanada pela Santa Sé, nomeadamente pelo Papa Leão XII, surge num período em tudo conturbado no contexto europeu, encarado como uma “perturbação espiritual”, onde os desejos de alcançar direitos sagrados e inalienáveis[52], como a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade, estão assentes nas mais vastas vias revolucionárias dispersas pelo velho continente.

  1. Padre Agostinho de Macedo e a Ideologia Contrarrevolucionária

José Agostinho de Macedo, nascido na cidade de Beja, no mês de setembro de 1761, iniciou a sua carreira como frade na Ordem dos Gracianos, em 1778, de onde acabaria expulso catorze anos mais tarde, em 1792, no seguimento de quatro sentenças derivadas de crimes de apostasia, furto, fuga e arrombamento e outras infrações consideradas graves. O nosso Padre, em grosso modo, é um dos últimos baluartes ideológicos das doutrinas de cariz absoluto, acabando por falecer em 1831, no entanto, sem nunca dar, praticamente, “parte fraca” dos seus entendimentos. A título de curiosidade, é de referir que à altura do falecimento de José Agostinho de Macedo, El-Rei D. Miguel ordenou que lhe fizessem o enterro, com as devidas homenagens por este consideradas justas para um dos seus mais influentes e acérrimos admiradores.[53]

Os seus setenta anos de vida caracterizaram-se por um tempo incerto, como resultado de todos os acontecimentos ocorrentes neste respetivo período, com as Invasões Francesas, o “exílio” da família real no Brasil e as sucessivas regências, a difusão dos preceitos liberais e a consequente Revolução de 1820 e implantação do governo constitucional, a Independência do Brasil, a Contrarrevolução de 1823 e, por fim, o restabelecimento do absolutismo sob o comando de D. Miguel.[54]

Para melhor percecionar o surgimento da ideologia contrarrevolucionária é importante compreender os setores determinantes da época: a economia, sociedade, ordenamento político e instituições, mentalidade e posicionamento diplomático nas relações internacionais. No seguimento desta análise apercebemo-nos do valor dinamizador que estas estruturas empreendem na criação da ideologia contrarrevolucionária, permitindo-nos também a perceção dos condicionalismos e obstáculos presentes nas tentativas de implantação do liberalismo.[55]

José Agostinho de Macedo foi um escritor célebre e diferenciado pela sua postura irrequieta e turbulenta, ocupando-se de todos os géneros literários, com o lançamento gradual de “contendas literárias e políticas do seu tempo”[56], aliadas ao facto de este fazer frente a vários colegas, através de insultos violentos aos seus rivais literários e inimigos políticos, não perdoando qualquer ofensa à sua vaidade.

Aquando da ocorrência da Revolução Liberal de 1820, José Agostinho de Macedo procurou atrair a complacência das fações vitoriosas, não obstante, e por consequência dos seus ataques ao liberalismo, acabou denunciado e julgado, e posteriormente absolvido. Em resultado de tais sentenças, o nosso Padre, sobressaltado, publica o Manifesto à Nação ou Últimas Palavras Impressas, onde proclama a sua intenção de jamais escrever e até destruir por completo todos os seus manuscritos, declarando aqui que o governo vigente era o mais justo. Surge aqui pela primeira vez um José Agostinho de Macedo nunca antes visto, sujeito às vicissitudes da época, modificando a sua palavra com receio de represálias.[57] No entanto, apesar do anteriormente referido, por ocasião do triunfo da oposição, em 1823 na “Vila-Francada”, declarou no Postscriptum da Tripa Virada[58], que tudo o outrora dito em favor do constitucionalismo nada mais era que comédia, com vista à sua salvação e à traição aos liberais.

No Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente, pregado a 27 de novembro de 1823, o Padre Agostinho de Macedo dirige-se aos grandes senhores do reino exaltando-lhes a sua importância, recordando-os que são o “sustentáculo do Trono”. Aqui chama à responsabilidade cada “braço” da nação: ao clero, identifica que a sorte do reino está nas suas obras; ao exército, compete-lhes zelar pela independência do país e respetiva soberania nacional; aos magistrados, nada mais se os pode caracterizar que não a imparcialidade; à juventude, confia que o caminho indesejado do ateísmo seja combatido através da piedade à arte do saber; ao povo, exorta-o ao reconhecimento no poder do rei como o poder vindo de Deus, pois “nos céus está o exemplar da Soberania, na Terra a cópia”. Denotamos aqui uma exortação cívica e política, por parte de um pregador régio, que se revia em D. João VI, reconduzido à dignidade de monarca absoluto.[59]

“Destas verdades tão consignadas, e tão expressas nos Livros Santos passemos, Senhor, a considerar tambem a acção da Providencia sobre este feliz Reino, em cujo excelso Throno a mão do mesmo Deos tem tão milagrosamente sentado a Vossa Magestade. No seu berço, nos seus progressos, na sua maturidade, e na sua gloria he Deos quem o conduz sempre com huma vigilancia, e amor de hum Pai para com seus filhos, de hum Paster para com o seu rebanho;”[60]

Em 1828, ano do estabelecimento da ideologia absoluta de D. Miguel, Agostinho de Macedo demarcou-se como grande defensor da sua política, caracterizada por constantes ataques aos liberais, algo explícito em panfletos distribuídos contra a Carta Constitucional: “Todos os actos carcundaes, que tiverão lugar em 1823, todos os actos carcundaes, que se vírão em 1828, trouxerão em si o cunho da justiça, da honra, e da probidade”[61]. Neste seguimento, e de um modo natural, D. Miguel acabou por prestar grandes honras ao nosso Padre, que foi também nomeado como cronista substituto do Reino. Macedo passou assim a poder exibir a sua palavra com todo o fulgor, o que para ele nada mais significava que não “a glória” e “a quintessência”.[62]

“(…) foi esta índole, ou carácter da Revolução Francesa (…) seus fins foram a desorganização total de todos os elementos da Religião, da Soberania e da Sociedade (…). Consideramos um pouco as consequências miseráveis deste projecto concebido há anos, e que se agitava, e revolvia nas trevas (…). (…) universalizando-se o contágio (…) isto finalmente veio a sentir Portugal vendo- se uma vergonhosa cópia da mesma Revolução Francesa.”[63]

Foi a D. Miguel que José Agostinho de Macedo tributou grande número dos seus folhetos antirrevolucionários, clarificando a sua maior causa por intermédio de publicações em jornais e principalmente através do ataque aos seus inimigos. Aos liberais, que ousavam a sustentação da Carta Constitucional, este publicou entre 1828 e 1829, A Besta Esfolada, “o mais célebre e o mais virulento dos seus panfletos”.[64]

Em suma, e com base no analisado à priori, é possível clarificar que o Padre José Agostinho de Macedo, com as suas ideologias assentes numa base contrarrevolucionária capaz de derrotar os liberais, continuou, apesar da idade avançada, a produzir textos onde defende a doutrina absolutista, com vista à estabilização do regime miguelista.

    1. Humor como crítica nas publicações de Macedo: A Besta Esfolada

José Agostinho de Macedo, devido ao seu extremismo, “foi mandado calar”, num período onde o governo, apesar de contrarrevolucionário, apostava em políticas moderadoras. Aquando do primeiro período de vigência da Carta Constitucional (1826 – 1828), podemos afirmar que Macedo se manteve afastado, para mais tarde, quando o seu adorado D. Miguel tomou o poder, regressar de um modo triunfal.

Neste periódico do nosso Padre, A Besta Esfolada, a crítica aos ideais liberais e ao constitucionalismo estão deveras evidentes, demonstrando esta obra um José Agostinho de Macedo “desaçaimado”, suportado pelos mecenas do Mosteiro de Alcobaça.[65] O periódico transporta no seu primeiro número a data cuja qual D. Miguel assumiu o título de monarca absoluto, a 7 de julho de 1828, numa altura de elevada turbulência política.

“Chegou o momento de se cumprirem todas as minhas promessas, e de se satisfazer a já cançada expectaçaõ pública. Há quasi hum anno, começado a contar de 31 de Julho de 1827, que eu comecei a prometter a Besta esfolada, e até hoje 6 de Julho de 1828, não passou hum dia, em que se me naõ perguntasse pela Besta esfolada”[66]

Macedo clarifica aqui os seus objetivos, evidenciando de um modo claro que “A Besta He a Facção que começou a espinotar em Villa Franca a 3 de Junho de 1823, até 22 de Fevereiro de 1828.”[67]

Este periódico caracteriza-se pelos muitos excessos de linguagem, que acabaram por incompatibilizar Macedo com os pragmáticos do miguelismo, que tinham como objetivo central o reconhecimento diplomático do regime. Neste sentido, depreendemos que tal final não seria facilitado por esta violência verbal que caracterizava estes “textos de perseguição”[68], sendo que até o governo e a nobreza desenvolveram manobras para “controlar a Besta”.

Em rigor, sob o referido precedentemente, A Besta Esfolada resulta do sarcasmo e da sátira, transpondo os limites do considerado decente, cruel e obsceno, esclarecendo-nos que o Padre José Agostinho de Macedo odiava a liberdade de expressão e a liberdade de pensamento, opondo-se totalmente às mudanças políticas e sociais.

  1. Considerações finais

Por conseguinte de uma significativa leitura bibliográfica e análise e interpretação das fontes a que nos propusemos a desmistificar, foi-nos possível alcançar um dos principais fins que haviam sido propostos, a realização de uma investigação racional e compreensível, capaz de responder às perguntas colocadas e que respeitasse os procedimentos académicos exigidos, contribuindo assim para o aprofundar da temática em estudo.

Com vista à realização de um ensaio em torno do Liberalismo oitocentista português baseámo-nos, tal como explícito no título do trabalho, num prisma de múltiplas faces, no entanto, a visão do Padre José Agostinho de Macedo, através dos seus manuscritos, demarcou-se como principal e essencial, juntamente com as ideias emanadas pela Santa Sé, num dos períodos mais conturbados de oitocentos na Europa.

Foi percecionado o caminho traçado pelos ideais liberais até à chegada a território nacional, de França, a Espanha, até ao Reino de Portugal. Esta contextualização foi fundamental para perceber a imposição dos preceitos liberais, bem como todo o processo de mudança do “Antigo Regime” para o novo. Esta transição foi também analisada do ponto de vista religioso, clarificando em que estado ficara a Igreja no período consequente da rutura do absolutismo em Portugal.

Agostinho de Macedo protagonizou e marcou, na conjuntura analisada e de um modo tão próprio, acontecimentos que refletiram o eco da convulsão revolucionária e da emergência do liberalismo e consequente contrarrevolução. A leitura do Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente e de A Besta Esfolada esclarecem-nos que Macedo era incapaz de recorrer ao diálogo civilizado, denotando-se o ódio aos princípios de liberdade de expressão e liberdade de pensamento. As suas bases afastavam-se completamente das mudanças políticas e sociais, sendo a sua visão do mundo perfeitamente limitada, chegando até ao ponto de apelar ao desaparecimento físico dos seus adversários. Toda a sua obra, referindo-nos a todo o material produzido ao longo da sua vida, é de uma erudição, conhecimento e cultura consistentes, utilizados com eficácia no que respeita ao uso da violência, algo comprovado pelos periódicos aqui analisados, escritos sob um imoralismo cómico assente na sátira, no sarcasmo e na troça.

Outra questão fundamental a ser referida recai sobre a questão da memória histórica, da preservação daquilo que ocorrera no passado. Aos dias que correm, no hemiciclo do Palácio de São Bento, nada mais que a nossa Assembleia da República, encontra-se uma pintura da autoria de Veloso Salgado, representando as Cortes Constituintes de 1821. Pelo meio de imensas instâncias e alternâncias, mais de duzentos anos depois, uma imagem deste período introdutório do liberalismo está no topo da casa na nossa Democracia. Considero-o simplesmente curioso e espantoso.

A Historiografia contribui sempre para o desenvolvimento do conhecimento e da educação quando observada e corretamente trabalhada, no que respeita ao entendimento da pluralidade e independência necessárias para um bem-estar social. Assim sendo, o estudo da História e nomeadamente o trabalho aqui desenvolvido, inserem-se, ainda que indiretamente, num dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável introduzidos na Agenda 2030 da ONU, centrados nos princípios de não deixar ninguém para trás e garantir os Direitos Humanos para todos. Sendo este um trabalho assente no estudo do Liberalismo oitocentista português, faz todo o sentido que o Objetivo 16, “Paz, Justiça e Instituições Eficazes”, seja aqui mencionado. A liberdade, tanto individual como coletiva, é um bem essencial e um direito de todos, absolutamente fulcral para o garante da harmonia, paz e justiça no mundo. Em rigor, e com os olhos postos em tudo o que já sucedera, é imprescindível olhar para o futuro sem perpetuar a Tolerância e a Liberdade.

Fontes impressas

Arquivo Histórico Parlamentar, Legislação Régia (1820 – 1825), 1823 (https://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/12/7/p54, consultado no dia 31 de janeiro de 2025)

Arquivo Público da Santa Sé, Papa Leão XII, Bula Quod Hoc Ineunte, 1824

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MACEDO, José Agostinho de (1831), A Besta Esfolada, Impressão Régia, Lisboa

MACEDO, José Agostinho de (1823), Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente pregado na Igreja de N. S. da Graça de Lisboa na festividade que fez o Senado da Camara, Impressão da Rua Formoza, Nº42, Lisboa (https://purl.pt/6827/1/index.html#/1/html, Site da Biblioteca Nacional de Portugal, consultado no dia 31 de janeiro de 2025)

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  1. CASTRO, Maria Ivone D’Ornellas (1994), José Agostinho de Macedo e a ideologia contrarrevolucionária, Tese de Doutoramento em História e Teoria das Ideias, na especialidade de História das Ideias Políticas, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa
  2. PEREIRA, Sara Marques (2008), D. Carlota Joaquina: Rainha de Portugal, Ed. Livros do Horizonte, Lisboa
  3. FERNANDES, Paulo Jorge (2012), “Os actos adicionais à Carta Constitucional de 1826”, Revista História Constitucional, Universidade Nova de Lisboa, Nº 13, Lisboa, pp. 563 – 583
  4. DIAS, José Sebastião da Silva / DIAS, Graça da Silva (1986), Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, Ed. Instituto Nacional de Investigação Científica, 2ª Edição, Vol. I (Tomo II), Lisboa
  5. Arquivo Público da Santa Sé, Papa Leão XII, Bula Quod Hoc Ineunte, 1824
  6. FERREIRA, João Pedro Rosa (2020), “Humor, insulto e política nos periódicos de José Agostinho de Macedo”, Revista Atlante, Ed. Universidade de Lille, Nº 13, Lille: França
  7. BRITO, Ricardo de (2019), “O Conceito de Revolução numa Guerra de Ideias em Portugal: Algumas notas sobre linguagem e política (1820 – 1834)” in PROTÁSIO, Daniel Estudante (org.), Historiografia, Cultura e Política na Época do Visconde de Santarém (1791 – 1856), Ed. Centro de História da Universidade de Lisboa, Lisboa, pp. 69 – 70
  8. BRITO, op. cit., p. 70
  9. MACEDO, José Agostinho de (1823), Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente pregado na Igreja de N. S. da Graça de Lisboa na festividade que fez o Senado da Camara, Impressão da Rua Formoza, Nº42, Lisboa
  10. VICENTE, António Pedro (2023), “Padre José Agostinho Macedo: panfletário contra a Revolução Francesa e Napoleão, apologista do regime miguelista” in SILVA, António Ventura / SILVA, Mário J. Freire da (coord.), A Palavra é uma arma: Folhetos sobre as Invasões Napoleónicas, Ed. Centro de História da Universidade de Lisboa / Biblioteca do Exército, Lisboa, p. 81
  11. VICENTE, op. cit., p. 92
  12. CASTRO, op. cit., p. 327
  13. BEZERRA, Helga Maria Saboia (2013), “A Constituição de Cádiz de 1812”, Revista de Informação Legislativa, Vol. 50, Nº 198, p. 90
  14. BRITO, op. cit., p. 72
  15. SARDICA, José Miguel (2002), “O Vintismo perante a Igreja e o Catolicismo”, Revista PENÉLOPE, Nº 27, Lisboa, p. 127
  16. SARDICA, op. cit., p. 127
  17. SARDICA, op. cit., p. 127
  18. MACEDO, José Agostinho de (1823), Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente pregado na Igreja de N. S. da Graça de Lisboa na festividade que fez o Senado da Camara, Impressão da Rua Formoza, Nº42, Lisboa
  19. SARDICA, op. cit., p. 130
  20. FERREIRA, António Matos (2004), “Pensar Lacordaire a partir de Portugal: A propósito de um colóquio realizado em Lisboa, de 2 a 5 de maio de 2003”, Revista Lusitânia Sacra, 2ª série, Nº 16, Lisboa, p. 359
  21. SARDICA, op. cit., p. 132
  22. SARDICA, op. cit., p. 132
  23. SARDICA, op. cit., p. 132
  24. FERREIRA, op. cit., p. 361
  25. FERREIRA, op. cit., p. 362
  26. SARDICA, op. cit., p. 133
  27. RAMOS, Rui (2021), “Ruptura Constitucional e Guerra Civil (1820 – 1834)”, III Parte, Capítulo II in RAMOS, Rui (coord.) / SOUSA, Bernardo Vasconcelos e / MONTEIRO, Nuno Gonçalo, História de Portugal, Ed. D. Quixote, 1ª edição, Lisboa, p. 458
  28. VARGUES, Isabel Nobre (1993), “O processo de formação do primeiro movimento liberal: a Revolução de 1820” in MATTOSO, José (coord.), História de Portugal, Ed. Círculo de Leitores, Vol. 5, Lisboa, p. 45
  29. DIAS, op. cit., p. 687
  30. DIAS, op. cit., p. 689
  31. VARGUES, op. cit., pp. 56 – 57
  32. Arquivo Histórico Parlamentar, Legislação Régia (1820 – 1825), 1823 (https://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/12/7/p54, consultado no dia 31 de janeiro de 2025)
  33. VARGUES, op. cit., pp. 54 – 55
  34. Arquivo Histórico Parlamentar (https://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/Constituicao1822.aspx, consultado a 31 de janeiro de 2025)
  35. DIAS, op. cit., p. 694
  36. RAMOS, op. cit., p. 460
  37. RAMOS, op. cit., p. 459
  38. VARGUES, op. cit., p. 65
  39. VARGUES, op. cit., p. 65
  40. PEREIRA, op. cit., p. 135
  41. PEREIRA, op. cit., p. 149
  42. LOUSADA, Maria Alexandre (1989), “D. Pedro ou D. Miguel? As opções políticas da nobreza titulada portuguesa”, Revista PENÉLOPE, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Nº 4, Lisboa, p. 82
  43. RAMOS, op. cit., p. 477
  44. CASTRO, op. cit., p. 353
  45. NETO, Vítor (1993), “O Estado e a Igreja” in MATTOSO, José (coord.), História de Portugal, Ed. Círculo de Leitores, Vol. 5, Lisboa, p. 265
  46. NETO, op. cit., p. 265
  47. NETO, op. cit., p. 265
  48. NETO, op. cit., p. 265 – 266
  49. ABREU, José Paulo (2000), “Os Anos Santos na História da Igreja”, Revista Theologica, 2ª Série, Nº 35, Braga, p.10
  50. Arquivo Público da Santa Sé, Papa Leão XII, Bula Quod Hoc Ineunte, 1824, p. 1
  51. Arquivo Público da Santa Sé, Papa Leão XII, Bula Quod Hoc Ineunte, 1824, p. 2
  52. MARTINS, António Manuel (1989), “Recepção em Portugal das Encíclicas sobre o Liberalismo: Mirari Vos, Quanta Cura e Immortale Dei”, Revista Lusitânia Sacra, 2ª série, Nº 1, Lisboa, p. 41
  53. VICENTE, op. cit., p. 85
  54. CORREIA, Rita (2007), Biografia de José Agostinho de Macedo, Hemeroteca Digital de Lisboa, Lisboa
  55. CASTRO, op. cit., p. 305 – 306
  56. VICENTE, op. cit., p. 84
  57. VICENTE, op. cit., p. 84
  58. Regista a noite de 05 de junho de 1823, data do último golpe contrarrevolucionário, que culminou no regresso apoteótico de D. João VI a Lisboa e na nomeação do Infante D. Miguel como generalíssimo in FERREIRA, João Pedro Rosa (2020), “Humor, insulto e política nos periódicos de José Agostinho de Macedo”, Revista Atlante, Ed. Universidade de Lille, Nº 13, Lille: França, p. 3
  59. CASTRO, op. cit., pp. 391 – 393
  60. MACEDO, José Agostinho de (1823), Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente pregado na Igreja de N. S. da Graça de Lisboa na festividade que fez o Senado da Camara, Impressão da Rua Formoza, Nº42, Lisboa, p. 6
  61. MACEDO, José Agostinho de (1831), A Besta Esfolada, Impressão Régia, Lisboa, Nº 16, p. 2
  62. CASTRO, op. cit., p. 448
  63. Sermão de Acção de Graças pelo Restabelecimento da Monarquia Independente pregado na Igreja de N. S. da Graça de Lisboa na festividade que fez o Senado da Camara in CASTRO, op. cit., p. 304
  64. VICENTE, op. cit., p. 92
  65. Dedicatória a Frei Joaquim da Cruz, procurador do Mosteiro in FERREIRA, op. cit., p. 5
  66. MACEDO, José Agostinho de (1831), A Besta Esfolada, Impressão Régia, Lisboa, p. 1
  67. MACEDO, José Agostinho de (1831), A Besta Esfolada, Impressão Régia, Lisboa. p. 7
  68. FERREIRA, op. cit., p. 5

O Relógio Oferecido por São Francisco Xavier a Ōtomo Sōrin em 1551

Ōtomo Sōrin

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. A história do encontro entre o Ocidente e o Japão no século XVI está repleta de episódios fascinantes, nos quais objectos aparentemente mundanos ganham significados extraordinários. Um desses momentos memoráveis ocorreu em 1551, quando o missionário jesuíta São Francisco Xavier ofereceu ao poderoso daimiô Ōtomo Sōrin um relógio mecânico europeu — acto carregado de simbolismo, estratégia e inovação tecnológica.

O Contexto

Em 1543, os portugueses chegaram à ilha de Tanegashima, e introduziram as primeiras armas de fogo e objectos europeus no arquipélago nipónico. Este evento está documentado em diversas fontes jesuítas e em crónicas japonesas, tendo sido estudado por Charles R. Boxer em The Christian Century in Japan (1951) e por Jorge Santos Alves em Nagasáqui, 1550–1650.

Poucos anos depois, em 1549, São Francisco Xavier desembarcava em Kagoshima com o objectivo de evangelizar o Japão. A sua missão inicial decorre com dificuldade, mas rapidamente os missionários percebem que, para serem aceites, precisariam de conquistar a simpatia dos daimiôs (大名,) — senhores feudais locais.

Ōtomo Sōrin: Daimiô Cristão e Senhor de Funai

Ōtomo Sōrin, senhor da província de Bungo, é um dos primeiros daimiôs a acolher os missionários cristãos. É também uma figura estudada por Michael Cooper em They Came to Japan (1965), onde se destaca o seu papel como protector das missões. Sabe-se que manteve um contacto estreito com os jesuítas e, mais tarde, se converteria ao cristianismo com o nome de Dom Francisco.

Foi neste contexto que, em 1551, Francisco Xavier lhe ofereceu um relógio mecânico europeu. A existência deste episódio é referida na obra de Luís Fróis, História de Japam (manuscrito do séc. XVI), que narra com detalhe os primeiros anos da missão no arquipélago. Também as Cartas Ânuas da Companhia de Jesus (nomeadamente a de 1552) aludem ao impacto da oferta.

O Relógio como Objecto de Maravilha

Na Europa do século XVI, relógios mecânicos eram objectos de alto prestígio, produzidos por mestres relojoeiros em cidades como Augsburgo ou Nuremberga. Eram, segundo Cooper (1965, p. 88), “maravilhas tecnológicas” e frequentemente usados como presentes diplomáticos.

O relato de Luís Fróis descreve o espanto do daimiô perante o funcionamento automático do mecanismo, e a forma como os japoneses se referiam ao relógio como um instrumento “divino”. Este fascínio pelo funcionamento autónomo dos mecanismos ocidentais é tema recorrente nas descrições dos jesuítas.

Um Gesto Estratégico

A oferta de um relógio não foi apenas um acto de boa vontade: tratou-se de uma estratégia diplomática calculada. Como explica Charles Boxer (1951, p. 95), os jesuítas rapidamente entenderam que objectos ocidentais — sobretudo instrumentos de precisão — podiam facilitar o acesso às cortes feudais.

A oferta surtiu efeito: Ōtomo Sōrin autorizou a construção de igrejas e a livre pregação dos missionários na sua província. Décadas mais tarde, converter-se-ia oficialmente ao cristianismo, sendo uma figura-chave na chamada “Cristandade do Japão”.

Legado

Embora o relógio oferecido por Xavier não tenha sobrevivido, o seu impacto simbólico é inegável. Como sublinha Jorge Santos Alves (1994, p. 112), este gesto representa o início da longa relação entre tecnologia europeia e curiosidade japonesa, particularmente no campo da relojoaria.

Nos anos que se seguiram, artesãos japoneses começaram a construir os seus próprios relógios mecânicos, os wadokei, adaptando o sistema europeu às horas tradicionais nipónicas. Esta transição é documentada em estudos sobre história da tecnologia japonesa, como os publicados pelo Seiko Museum em Tóquio.

Fontes utilizadas:

  1. Fróis, Luís. História de Japam (manuscrito, c. 1583–1597).
  2. Boxer, Charles R. The Christian Century in Japan 1549–1650. University of California Press, 1951.
  3. Cooper, Michael. They Came to Japan: An Anthology of European Reports on Japan, 1543–1640. University of California Press, 1965.
  4. Alves, Jorge Santos. Nagasáqui, 1550–1650: O Tempo Português no Japão. Lisboa: Vega, 1994.
  5. Companhia de Jesus. Cartas Ânuas do Japão e da China (século XVI, várias edições críticas).
  6. Seiko Museum Ginza – Documentação sobre os wadokei e a influência ocidental na relojoaria japonesa.

Lista com todos os Senhores de Portugal desde a presúria de Vímara Peres (868-873) até Mendo Nunes (1043-1044)

A situação parece ser a seguinte. De Mumadona Dias até Mendo Nunes [1044], a sucessão em Portugal é praticamente dinástica. Em 1008, Mendo Gonçalves morre às mãos dos Normandos, facto que se explica pela regência de sua mulher, Tutadona Moniz, seguido da transição para o ramo imediatamente próximo àquela linhagem, com Alvito Nunes [que descende também do Conde de Guimarães Diogo Fernandes e Oneca, estes pais de Mumadona Dias], seguido de Nuno Alvites e Mendo Nunes, até 1044. Neste ano, por intervenção de Fernando Magno, acaba a linhagem vimaranense no território, enquanto gestora da mesma. O que claramente se nota é a transição do sangue para o oficialato público, com o estranho regime triunviral, que dura até 1064. Os seus próceres não eram Portucalenses ou, se eram, não pertenciam à linhagem que antes dominava. O ano não é coincidência: Fernando Magno, conquistando Coimbra, coloca a governar nela um seu subordinado igualmente [Sesnando Davides]. Nesse mesmo ano, sabemos que Fernando Magno coloca Sesnando como inquiridor em Santa Maria que, na teoria, pertenceria ao prócere de Portugal de então, Diogo Trotosendes, que não ficou propriamente contente com a situação. Diogo Trotosendes pega em armas contra Sesnando e, em retaliação, ambos Fernando Magno e o Bispo de Compostela coordenam a extinção do triunvirato e a queda de Diogo Sabemos igualmente que Sesnando avança para Norte. Há ainda um rebelde, até 1065, chamado Mendo Gonçalves II. Fernando Magno vai depender muito de Coimbra, e não é coincidência o facto de D. Teresa ir buscar cavaleiros conimbricenses para combater o filho. Coimbra era a Província rebelde de Portugal. Aquando de ±990, o Dux Magnus de Portugal, Gonçalo Mendes, subjuga Coimbra. Com ela, o seu governador de então, que eu presumo ser Rodrigo Gonçalves, filho do Conde Gonçalo Moniz de Coimbra. Há uma guerra por essa altura entre Gonçalo Mendes e os filhos de Gonçalo Moniz – um deles, Froila Gonçalves, aliou-se a Almançor contra o Dux; Rodrigo alia-se a Froila. O outro, Monio Gonçalves, apaziguou-se com Gonçalo Mendes. Facto é que Coimbra deixou de ser Condado, e andava a ferver desde essa altura. O novo oficialato público de Portugal também daí provem. Em 1065, morre Fernando Magno e, na Galiza, sucede Garcia. Não era apreciado em Portugal, uniu-se a Sesnando Davides para reforçar ali a sua autoridade, como fizera o pai. Em retaliação, o teórico sucessor do Dux Magnus Mendo Nunes, chamado Nuno Mendes de Tibães [que nunca foi Dux Magnus, não acreditem na wikipedia], pega em armas contra Garcia da Galiza, perde na Batalha de Pedroso em 1071, morre. Quando D. Afonso VI, com a guerra no Norte, ganha a Galiza, coloca em Portugal um seu homem, Paio Guterres, que governa até 1093/4. Neste contexto, chega Raimundo e chega Henrique. Quando casa com D. Teresa, ganha a hereditas de Portugal, a quem D. Afonso VI deu as terras no limiar atlântico da Península. De resto, há uma aliança mediata entre a nobreza vimaranense e o Conde D. Henrique – não comparece nas Cortes de Leão, arma guerra contra a Galiza. Parece que D. Afonso VII concede, a título de feudo, Portugal aos galegos, com os Trava à cabeça. Enquanto isso, o nosso Santo Rei era educado [presume-se que leccionado do ambiente em voga] por Egas Moniz. Pode haver causa-efeito entre a repugnância de D. Afonso VII em reconhecer D. Teresa como herdeira da Galiza com o conflito naquelas terras, encaminhada pelos nossos. De qualquer das formas, há uma aliança galego-leoneso-conimbricence, com Diego Gelmirez, Afonso Raimundes e a cavalaria de Coimbra, contra os direitos de D. Teresa, pressionam Portugal, ocorre S. Mamede. Não há tratado que infira no direito da Galiza por Portugal. Parece-me ser pouco mais ou menos isto.

E creio que, com os dados que fui juntando, consegui encontrar todos os Senhores de Portugal desde a presúria de Vímara Peres. Ora vejam:

  • Vímara Peres – 868-873
  • Lucídio Vimaranis – pouquíssimo tempo, c. 875
  • Guterre Rodrigues – até c. 878, já possui Coimbra a título provisório.
  • Hermenegildo Guterres – 878-907
  • Árias Mendes – só de Portucale, 907-908 [vai para Leão]
  • Guterre Mendes – 907-908 [só de Coimbra], 908-920? [governo unitário Portucal-Coimbra]
  • Diogo Fernandes – 920?-926
  • Regência de Onecca, Condessa de Guimarães e mulher de Diogo Fernandes – 926-c.943
  • Mumadona Dias [filha daqueles] – 943-950 (o esposo, Hermenegildo Gonçalves, morrera em 943)
  • Gonçalo Mendes – 950-997
  • Mendo Gonçalves – 997-1008 [morto pelos Normandos]
  • Regência breve de D. Tutadona Moniz, esposa de Mendo Gonçalves – 1008-c.1009/1010 [quebra de linhagem imediata]
  • Alvito Nunes, descendente de Vímara Peres por outra linhagem – 1010-1016 [morto pelos Normandos]
  • Nuno Alvites – 1016-1028
  • Regência da esposa deste, D. Ilduara Mendes – 1028-1043, em. governo conjunto com o filho Mendo Nunes
  • Mendo Nunes [de facto] – 1043-1044

Em 1044, quebra-se a dinastia pelas reformas administrativas de Fernando Magno, transição da Nobreza Condal para uma Senhorial, alguma Portucalense, mas principalmente Leonesa.

  • Período de triunvirato (até 1064, conquista de Coimbra, datas indeterminadas):
  • Guterre Afonso – Rodrigo Gonçalves – ?
  • Gomes Eicaz – Mendo Gonçalves – Godinho Viegas
  • Godinho Viegas – Eirigo Esposendes – Martinho Sandines
  • Diogo Troitosendes – Sisnando Anes – Telo Teles

Quanto a esta última, sabemos que ocorrera nos anos imediatamente anteriores e subsequentes a 1064, pois Sesnando Davides de Coimbra coliga-se com Fernando Magno contra Diogo Troitosendes, que se revoltara. Diogo perde, mas os outros membros aparentemente mantiveram-se.

Em 1071, o descendente da linhagem dos Condes de Guimarães, Nuno Mendes de Tibães, morre em Pedroso. Ele nunca governou Portugal, mas era muito útil saber que nobres estavam do lado de Garcia da Galiza, para continuar a cronologia. Até lá, é isto que tenho.

Muito importante de sublinhar que a filha de Nuno Mendes, Loba Nunes, era casada com Sesnando Davides, o que leva a crer ter sido uma política matrimonial de Fernando Magno para acalmar a Nobreza Portucalense, ou então o casamento foi posterior à morte de Nuno Mendes.

Intellectuals and Political Misjudgments: A Historical Analysis

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Introduction

Intellectuals, defined as individuals whose primary occupation involves the production, dissemination, or critique of ideas, have long held a significant influence over political discourse and societal development. Their role as thought leaders, whether through philosophy, literature, or social theory, positions them to shape public opinion and policy. However, this influence has not always translated into sound political judgment. As Thomas Sowell argues in Intellectuals and Society(2010), intellectuals often prioritize abstract theories and ideological visions over empirical realities, leading to repeated political miscalculations with far-reaching consequences. This essay explores the historical tendency of intellectuals to err in political matters, with a particular focus on their naive embrace of communism and Marxist ideologies, while tracing this pattern back to earlier historical periods to demonstrate its persistence. By drawing extensively on Sowell’s work, supplemented by primary and secondary historical sources, this analysis will argue that intellectuals’ detachment from practical realities, coupled with their preference for utopian ideals, has consistently led to flawed political positions.

Sowell’s central thesis is that intellectuals, unbound by the constraints of practical accountability, often advocate for policies that sound appealing in theory but fail in practice. He writes, “The intellectual’s vision of the world… tends to be one in which the anointed few impose their superior wisdom on the benighted masses” (Sowell, 2010, p. 6). This essay will examine how this vision has manifested across centuries, from the Enlightenment to the 20th century’s fascination with Marxism, and how it has contributed to political missteps. Part 1 will cover the conceptual framework, historical precedents from the 17th and 18th centuries, and the early roots of Marxist appeal among intellectuals. Part 2 will delve deeper into 20th-century examples, the consequences of these misjudgments, and a broader reflection on the intellectual’s role in politics.

Defining Intellectuals and Their Political Role

Before proceeding, it is necessary to define “intellectuals” in the context of this essay. Sowell describes intellectuals as “people whose occupations deal primarily with ideas—writers, academics, social critics, and the like” (Sowell, 2010, p. 2). Unlike professionals such as engineers or doctors, whose work is subject to immediate empirical validation, intellectuals operate in a realm where ideas are judged by their coherence or rhetorical appeal rather than their practical outcomes. This lack of accountability, Sowell argues, allows intellectuals to advocate for policies without bearing the consequences of their failures. He notes, “Intellectuals are insulated from the consequences of being wrong in a way that most other people are not” (Sowell, 2010, p. 292).

This insulation is critical to understanding why intellectuals have often been drawn to radical political ideologies, including Marxism. Their work thrives on abstract reasoning, which can lead to an overemphasis on idealized visions of society at the expense of pragmatic considerations. As Sowell observes, “The vision of the anointed is one in which the flaws of human nature and the constraints of the real world are seen as mere obstacles to be overcome by the application of superior knowledge” (Sowell, 2010, p. 112). This tendency becomes particularly evident when examining intellectuals’ historical political engagements, from early utopian schemes to the 20th-century embrace of communism.

Historical Precedents: Intellectuals in Early Modern Europe

To establish that intellectuals’ political misjudgments are not a modern phenomenon, we must first examine their role in early modern Europe, particularly during the 17th and 18th centuries. The Enlightenment, often celebrated as an era of reason, also saw intellectuals championing ideas that, while theoretically appealing, led to unintended political consequences.

The Utopian Visions of the Enlightenment

The Enlightenment marked a turning point in the influence of intellectuals, as figures like Jean-Jacques Rousseau and Voltaire shaped political thought through their writings. Rousseau’s The Social Contract (1762) posited that a “general will” could guide society toward a just and equitable order, an idea that inspired revolutionary fervor but also laid the groundwork for authoritarian interpretations. Sowell critiques such visions, noting that “theories that sound good in the abstract often ignore the complexities of human nature and the realities of power” (Sowell, 2010, p. 87). Rousseau’s ideas, while influential, were criticized even in his time for their impracticality. For instance, Edmund Burke warned that such abstract theories could lead to “the subversion of all established order” (Burke, 1790, p. 45).

One concrete example is the French Revolution (1789–1799), where intellectuals’ ideas fueled radical change but also chaos. The philosophes, including Diderot and d’Alembert, advocated for sweeping reforms based on reason and equality. However, their abstract principles, such as the universal rights of man, were difficult to implement in a society marked by deep divisions. The Revolution’s descent into the Reign of Terror (1793–1794) demonstrated the dangers of prioritizing ideological purity over practical governance. Sowell reflects on this, stating, “The French Revolution is a classic example of intellectuals’ ideas being taken to their logical extreme, with catastrophic results” (Sowell, 2010, p. 134). The execution of thousands, including moderates like the Girondins, underscored the disconnect between intellectual ideals and political realities.

Early Utopian Schemes

Even before the Enlightenment, intellectuals proposed utopian schemes that foreshadowed later Marxist ideologies. Thomas More’s Utopia (1516) imagined a society without private property, a concept that resonated with later socialist thinkers. While More’s work was satirical, it inspired serious attempts at communal living, such as the Münster Rebellion (1534–1535), where Anabaptist radicals sought to establish a theocratic commune based on shared ownership. The rebellion’s collapse into violence and tyranny highlighted the practical challenges of such visions. Sowell notes, “Intellectuals’ fascination with utopian schemes often overlooks the incentives and behaviors that make such systems unsustainable” (Sowell, 2010, p. 98).

Similarly, the Levellers and Diggers during the English Civil War (1642–1651) advocated for egalitarian reforms, with the Diggers experimenting with communal land ownership. While intellectually compelling, these experiments failed due to resistance from established powers and internal disorganization. Historian Christopher Hill observes, “The Diggers’ ideas were visionary but lacked the mechanisms to sustain them in a world of competing interests” (Hill, 1972, p. 112). These early examples illustrate a recurring pattern: intellectuals’ attraction to radical equality often ignores the complexities of implementation, a theme that would resurface with Marxism.

The Rise of Marxism and Intellectual Appeal

The 19th century marked a significant shift in intellectuals’ political engagements, with the emergence of Karl Marx’s theories providing a new framework for critiquing society. Marx’s Communist Manifesto (1848) and Das Kapital (1867) offered a systematic critique of capitalism, appealing to intellectuals’ desire for comprehensive, transformative solutions. Sowell argues that Marxism’s allure lay in its “vision of a world transformed by the application of intellectual insight,” which flattered intellectuals’ sense of superiority (Sowell, 2010, p. 167).

Why Marxism Attracted Intellectuals

Marxism’s appeal to intellectuals can be attributed to several factors. First, its dialectical materialism provided a seemingly scientific framework for understanding history, aligning with the Enlightenment’s emphasis on reason. Second, it promised a moral high ground by championing the oppressed proletariat against the bourgeoisie. Third, it offered a vision of a classless society, resonating with intellectuals’ utopian impulses. Sowell explains, “The intellectual’s role as a critic of society finds a natural home in ideologies like Marxism, which cast them as the vanguard of revolutionary change” (Sowell, 2010, p. 170).

However, this attraction often blinded intellectuals to Marxism’s practical flaws. Marx’s predictions, such as the inevitable collapse of capitalism due to internal contradictions, relied on abstract economic models that oversimplified human behavior. Sowell critiques this, noting, “Marx’s theories were elegant in their logic but disastrous in their application, as they ignored the incentives that drive human action” (Sowell, 2010, p. 182). The failure of Marxist predictions—such as the proletariat’s growing immiseration, which did not materialize in industrialized nations—did not deter intellectuals, who often dismissed empirical evidence in favor of ideological commitment.

Case Study: The Russian Revolution and Intellectual Support

The Russian Revolution of 1917 serves as a pivotal example of intellectuals’ naive support for Marxist ideas. Western intellectuals, including figures like George Bernard Shaw and H.G. Wells, were initially enthusiastic about the Bolshevik experiment. Shaw, for instance, visited the Soviet Union in 1931 and praised its “new civilization,” ignoring reports of famine and repression (Shaw, 1931, p. 23). Sowell highlights this disconnect, stating, “Intellectuals’ willingness to overlook the human costs of revolutionary change stems from their commitment to a vision rather than to reality” (Sowell, 2010, p. 214).

The Bolsheviks’ rise to power, led by Lenin and later Stalin, was celebrated by many intellectuals as the triumph of Marxist theory. However, the subsequent purges, forced collectivization, and mass starvation—particularly during the Holodomor (1932–1933), which killed millions—exposed the gap between Marxist ideals and their outcomes. Historian Robert Conquest estimates that Stalin’s policies led to at least 20 million deaths (Conquest, 1990, p. 306). Yet, many intellectuals, such as Jean-Paul Sartre, continued to defend the Soviet Union, arguing that its flaws were necessary steps toward socialism. Sowell critiques this, noting, “The intellectual’s ability to rationalize atrocities in the name of a higher cause is a recurring danger” (Sowell, 2010, p. 220).

The Fabian Society and Gradualist Marxism

In Britain, the Fabian Society, founded in 1884, represented a more gradualist approach to Marxism but still reflected intellectuals’ attraction to socialist ideals. Figures like Sidney and Beatrice Webb advocated for incremental socialist reforms, believing that intellectual planning could replace market mechanisms. Their book Soviet Communism: A New Civilization? (1935) praised the Soviet system, downplaying its authoritarianism. Sowell argues that the Fabians’ faith in centralized planning ignored the “knowledge problem”—the difficulty of aggregating dispersed information in a complex society (Sowell, 2010, p. 145). The Fabians’ influence on British policy, particularly the post-World War II welfare state, had mixed results, with some reforms improving living standards but others creating bureaucratic inefficiencies.

Intellectuals’ Disconnect from Reality

A common thread in these examples is intellectuals’ detachment from the practical realities of their ideas. Sowell emphasizes this, writing, “The intellectual’s world is one of words and concepts, not of tangible consequences” (Sowell, 2010, p. 89). This detachment is evident in their support for Marxism, which often ignored the human cost of revolutionary change. For instance, the Chinese Communist Revolution (1949), led by Mao Zedong, was initially celebrated by intellectuals like Simone de Beauvoir, who saw it as a triumph of Marxist principles. Yet, Mao’s Great Leap Forward (1958–1962) resulted in an estimated 30–45 million deaths due to famine and forced collectivization (Dikötter, 2010, p. 333). Sowell notes, “The intellectual’s commitment to an idea often outweighs evidence of its failure” (Sowell, 2010, p. 231).

This disconnect is not merely a product of ideological bias but also of intellectuals’ social position. As Sowell argues, intellectuals often operate in environments—universities, literary circles, or media—where their ideas are judged by peers rather than by real-world outcomes. He writes, “The validation of intellectual work comes from other intellectuals, not from the public or from practical results” (Sowell, 2010, p. 293). This insularity allows intellectuals to maintain flawed positions, such as their defense of Marxist regimes, long after evidence of their failures becomes undeniable.

Intellectuals and Political Misjudgments: A Historical Analysis, Part 2

Introduction

Part 1 of this essay established that intellectuals, as defined by Thomas Sowell in Intellectuals and Society (2010), have a historical tendency to err in political matters due to their preference for abstract theories over empirical realities. From the utopian schemes of the Enlightenment to the early embrace of Marxism, intellectuals have often championed ideologies that sound compelling in theory but falter in practice. Part 2 extends this analysis into the 20th century, examining intellectuals’ continued support for Marxist regimes, such as the Cuban Revolution and China’s Cultural Revolution, and their influence on Western policy debates. Drawing heavily on Sowell’s critique, this section will explore how intellectuals’ detachment from practical consequences, coupled with their moral posturing, perpetuated political misjudgments with devastating outcomes. It will also reflect on the broader implications for the role of intellectuals in politics and consider whether their influence can be tempered by greater accountability.

Intellectuals and 20th-Century Marxist Regimes

The 20th century saw Marxism transition from a theoretical framework to a governing ideology in several nations, with intellectuals playing a significant role in legitimizing these regimes. Sowell argues that intellectuals’ support for Marxism stemmed from its appeal as a “vision of cosmic justice,” which flattered their sense of moral and intellectual superiority (Sowell, 2010, p. 167). This section examines two key examples—the Cuban Revolution and China’s Cultural Revolution—to illustrate how intellectuals’ enthusiasm for Marxist ideals ignored the human costs of their implementation.

The Cuban Revolution and Western Intellectuals

The Cuban Revolution (1953–1959), led by Fidel Castro, became a focal point for Western intellectuals seeking an alternative to capitalism. Figures like Jean-Paul Sartre and C. Wright Mills celebrated Castro’s regime as a triumph of anti-imperialist socialism. Sartre, after visiting Cuba in 1960, wrote, “The Cuban Revolution is a genuine revolution, one that promises to liberate man from the chains of capitalist exploitation” (Sartre, 1961, p. 78). Similarly, Mills’ Listen, Yankee (1960) portrayed Castro’s government as a model for Third World liberation, glossing over its authoritarian tendencies.

Sowell critiques such endorsements, noting that intellectuals often “project their own values onto revolutionary movements, ignoring evidence that contradicts their vision” (Sowell, 2010, p. 219). Castro’s regime, while initially popular for its social reforms, quickly descended into repression, with thousands of political prisoners and exiles by the 1960s (Farber, 2006, p. 145). The execution of dissidents and the suppression of free speech were downplayed by intellectuals who saw Cuba as a symbol of resistance to Western hegemony. For instance, Susan Sontag argued that Cuba’s flaws were “excusable in the context of its struggle against imperialism” (Sontag, 1969, p. 23). Sowell counters this rationalization, stating, “The intellectual’s willingness to excuse tyranny in the name of a higher cause is a hallmark of their political naivety” (Sowell, 2010, p. 220).

The economic failures of Castro’s policies, such as the nationalization of industries and the reliance on Soviet subsidies, further exposed the gap between Marxist theory and reality. By the 1980s, Cuba’s economy was stagnant, with widespread shortages of basic goods (Pérez, 1995, p. 312). Yet, many intellectuals continued to defend the regime, focusing on its healthcare and education achievements while ignoring its broader failures. Sowell observes, “Intellectuals’ selective focus on positive outcomes allows them to maintain their ideological commitments despite overwhelming evidence to the contrary” (Sowell, 2010, p. 231).

China’s Cultural Revolution and Intellectual Apologists

China’s Cultural Revolution (1966–1976), initiated by Mao Zedong, represents another stark example of intellectuals’ misjudgments. Mao’s campaign to purge “capitalist roaders” and reinvigorate revolutionary zeal was initially praised by Western intellectuals as a bold experiment in social equality. Figures like Simone de Beauvoir and members of the French Tel Quel group, including Julia Kristeva, saw the Cultural Revolution as a rejection of bureaucratic socialism in favor of grassroots radicalism. Kristeva wrote, “The Cultural Revolution demonstrates the power of the masses to reshape society according to Marxist principles” (Kristeva, 1974, p. 102).

In reality, the Cultural Revolution was a humanitarian disaster, with millions persecuted, killed, or displaced. Historian Frank Dikötter estimates that at least 1.5 million people died, and tens of millions were subjected to violence or forced labor (Dikötter, 2016, p. 297). The Red Guards, Mao’s youthful enforcers, targeted intellectuals themselves, destroying cultural heritage and disrupting education. Sowell notes, “The irony of intellectuals supporting a movement that turned against them underscores their detachment from the consequences of their ideas” (Sowell, 2010, p. 226).

Despite mounting evidence of atrocities, some intellectuals persisted in their support. For example, the Committee of Concerned Asian Scholars, a group of American academics, published sympathetic accounts of the Cultural Revolution, arguing that its excesses were necessary for social transformation (Committee of Concerned Asian Scholars, 1971, p. 45). Sowell attributes this to intellectuals’ “vision of the anointed,” where they see themselves as arbiters of moral progress, unaccountable to practical outcomes (Sowell, 2010, p. 112). Only in the late 1970s, as China’s leadership under Deng Xiaoping acknowledged the Cultural Revolution’s failures, did some intellectuals begin to retract their support, though many, like Sartre, remained unapologetic.

Intellectuals’ Influence on Western Policy Debates

Beyond their support for Marxist regimes, intellectuals have shaped Western political debates, often advocating policies rooted in idealistic assumptions rather than empirical evidence. Sowell argues that intellectuals’ influence stems from their ability to frame issues in ways that resonate with public sentiment, even when their solutions are impractical (Sowell, 2010, p. 89). This section examines two areas where intellectuals’ political misjudgments have had significant impact: the welfare state and the anti-war movement.

The Welfare State and Centralized Planning

In the mid-20th century, intellectuals in Western democracies, particularly in Britain and the United States, championed the expansion of the welfare state, drawing on socialist principles inspired by Marxism. In Britain, the Beveridge Report (1942), authored by economist William Beveridge, laid the foundation for the post-war welfare state, including the National Health Service. Intellectuals like John Maynard Keynes and Harold Laski supported these reforms, arguing that centralized planning could eliminate poverty and inequality. Laski wrote, “The state must take responsibility for the welfare of its citizens, as the market has proven incapable of ensuring justice” (Laski, 1936, p. 204).

While the welfare state achieved some successes, such as improved access to healthcare, it also led to unintended consequences, including bureaucratic inefficiencies and dependency. Sowell critiques this, stating, “Intellectuals’ faith in centralized solutions ignores the knowledge problem—planners cannot possibly account for the dispersed information held by individuals” (Sowell, 2010, p. 145). For example, Britain’s nationalized industries, such as coal and steel, faced chronic inefficiencies, contributing to economic stagnation by the 1970s (Tomlinson, 1997, p. 89). In the United States, the War on Poverty, launched in the 1960s, was similarly driven by intellectuals’ belief in government intervention. However, studies later showed that programs like Aid to Families with Dependent Children increased dependency without significantly reducing poverty rates (Murray, 1984, p. 123).

Sowell argues that intellectuals’ advocacy for these policies often disregarded trade-offs. He writes, “The intellectual’s vision assumes that good intentions lead to good outcomes, ignoring the complexity of human behavior” (Sowell, 2010, p. 134). This assumption led to policies that, while well-meaning, often exacerbated the problems they aimed to solve.

The Anti-War Movement and Vietnam

The Vietnam War (1955–1975) provides another example of intellectuals’ political misjudgments. Many Western intellectuals, including Noam Chomsky and Susan Sontag, opposed U.S. involvement, framing it as imperialist aggression. Chomsky’s American Power and the New Mandarins (1969) criticized U.S. policy as a betrayal of democratic values, arguing that intellectuals should resist the “technocratic elite” (Chomsky, 1969, p. 34). While their critique of U.S. intervention had merit, many intellectuals romanticized the North Vietnamese regime, ignoring its authoritarianism and human rights abuses.

Sowell notes that intellectuals’ selective outrage often distorts their political judgments. He writes, “Intellectuals are quick to condemn the flaws of their own societies while excusing or ignoring those of regimes they admire” (Sowell, 2010, p. 214). For instance, the North Vietnamese government’s persecution of dissidents and forced collectivization were rarely addressed by anti-war intellectuals. After the fall of Saigon in 1975, the re-education camps and mass exodus of “boat people” revealed the costs of communist victory, yet few intellectuals acknowledged their earlier misjudgments (Nguyen, 2017, p. 211).

Consequences of Intellectuals’ Misjudgments

The political misjudgments of intellectuals have had profound consequences, both in Marxist regimes and in Western policy. Sowell emphasizes that the human cost of these errors is often borne by ordinary people, not the intellectuals who advocate them. He writes, “The intellectual’s ideas, when wrong, impose costs on others, while the intellectual himself remains insulated from the consequences” (Sowell, 2010, p. 292).

Human Costs of Marxist Regimes

The human toll of Marxist regimes supported by intellectuals is staggering. In the Soviet Union, Stalin’s purges and forced collectivization killed millions, yet intellectuals like Sidney and Beatrice Webb dismissed these as necessary for progress (Webb & Webb, 1935, p. 567). In China, the Great Leap Forward and Cultural Revolution led to tens of millions of deaths, with intellectuals’ endorsements lending legitimacy to these policies. In Cambodia, the Khmer Rouge (1975–1979), influenced by Marxist ideology and praised by some Western intellectuals like François Ponchaud before he later recanted, resulted in the deaths of approximately 1.7 million people (Kiernan, 2002, p. 458). Sowell observes, “The intellectual’s role in legitimizing such regimes cannot be overstated, as their rhetoric provides a veneer of moral justification” (Sowell, 2010, p. 226).

Policy Failures in the West

In Western democracies, intellectuals’ advocacy for centralized planning and social engineering has led to policy failures with lasting impacts. For example, urban renewal programs in the United States, inspired by intellectuals like Lewis Mumford, demolished vibrant communities in the name of progress, often displacing minorities and exacerbating poverty (Jacobs, 1961, p. 312). Similarly, the push for decriminalization of certain behaviors, influenced by intellectuals like Michel Foucault, led to unintended increases in crime rates in some cities during the 1970s (Wilson, 1983, p. 145). Sowell argues that these outcomes reflect intellectuals’ failure to anticipate trade-offs, stating, “The intellectual’s vision assumes that problems can be solved without creating new ones, a delusion that repeatedly proves costly” (Sowell, 2010, p. 134).

Reflections on the Role of Intellectuals in Politics

The persistent pattern of intellectuals’ political misjudgments raises questions about their proper role in public life. Sowell argues that intellectuals’ influence should be tempered by greater accountability to empirical evidence and practical outcomes. He writes, “The intellectual’s proper role is to critique and inform, not to dictate solutions from a position of unearned authority” (Sowell, 2010, p. 293). This section considers how intellectuals’ influence can be balanced and whether their errors are inevitable.

The Need for Accountability

One solution is to subject intellectuals’ ideas to the same scrutiny as other professions. Unlike doctors or engineers, whose errors have immediate consequences, intellectuals face little accountability for their political advocacy. Sowell suggests that “intellectuals should be held to account by the public, not just by their peers” (Sowell, 2010, p. 295). This could involve greater transparency in public discourse, such as requiring intellectuals to disclose their assumptions and engage with opposing views. For example, the debate over welfare reform in the 1990s, where intellectuals like Charles Murray faced rigorous public scrutiny, led to more balanced policies (Murray, 1984, p. 156).

The Role of Dissenting Intellectuals

Not all intellectuals have fallen prey to political naivety. Figures like George Orwell and Raymond Aron, who criticized Marxist regimes from a position of intellectual rigor, demonstrate that skepticism can temper ideological excesses. Orwell’s Animal Farm (1945) and 1984 (1949) exposed the dangers of totalitarianism, drawing on his firsthand observations of Soviet propaganda. Aron, in The Opium of the Intellectuals (1955), critiqued the allure of Marxism, arguing that it seduced intellectuals with its promise of moral certainty (Aron, 1955, p. 212). Sowell praises such figures, noting, “Intellectuals who challenge the prevailing vision perform a vital service, as they force a reckoning with reality” (Sowell, 2010, p. 287).

Are Misjudgments Inevitable?

The question remains whether intellectuals’ political errors are an inevitable consequence of their role. Sowell argues that their detachment from practical constraints makes misjudgments likely but not inevitable. He writes, “Intellectuals can avoid error by grounding their ideas in evidence and respecting the limits of human knowledge” (Sowell, 2010, p. 296). However, the incentives of the intellectual class—peer validation, moral posturing, and insulation from consequences—encourage ideological overreach. Addressing this requires a cultural shift toward valuing humility and empirical rigor over rhetorical flair.

Conclusion

This essay has argued that intellectuals have consistently erred in political matters due to their preference for abstract theories over empirical realities, as illustrated by their support for Marxism and other utopian ideologies. Part 1 traced this pattern from the Enlightenment to the early 20th century, while Part 2 examined intellectuals’ endorsements of the Cuban Revolution and China’s Cultural Revolution, their influence on Western policy, and the consequences of their misjudgments. Drawing on Thomas Sowell’s Intellectuals and Society, we have seen how intellectuals’ insulation from accountability and their commitment to visionary ideals have led to repeated political failures, often with devastating human costs.

The role of intellectuals in politics remains a double-edged sword. While they can illuminate complex issues, their tendency to prioritize theory over practice makes their influence fraught with risk. To mitigate this, intellectuals must embrace greater accountability, engage with dissenting voices, and ground their ideas in evidence. As Sowell concludes, “The intellectual’s greatest contribution is to clarify, not to dictate; to question, not to command” (Sowell, 2010, p. 297). By heeding this advice, intellectuals may yet fulfill their potential as critics and informants without repeating the costly errors of the past.

References

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Manifesto de D. Dinis sobre a guerra feita pelo Infante D. Afonso e as destruições que assolavam o Reino.

Manifesto aos Portugueses feito pelo Augusto Senhor D. Dinis, a 15/Mai/1321, sobre a guerra feita pelo Infante D. Afonso [futuro D. Afonso IV] e as destruições que assolavam o Reino.

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“[…] Como quer ElRey fizesse saber aos demais dos concelhos do seu senhorio as muitas mercês E muito bem que fezera ao Infante D. Afonso seu filho per muitas vezes e em muitas maneiras e lhes fizesse outrossim saber erros e nojos e desconhecimentos que lhes dele vieram para lhes pesar ende e para o estranharem em seus corações e para entenderem quando lhes ElRey sofreram pero por que depois que lhes isto fez saber agora novamente se moveu o Infante a fazer algumas cousas más e estranhas contra a honra e a majestade dElRey que é seu padre e seu Senhor e contra a sua justiça para que os Reinos e os seus Povos são manteúdos com ElRey por cargo de o fazer a saber aos que som filhos-de-algo e aos seus concelhos e aos seus naturais, porque é certo que tais som elles, e tão bons, e tão leais, que lhes pesara ende e que terão por direito de o estranharem pelo de Deus e pelo dElRey e pelo seu deles mesmos, e pela terra em que som naturais que a todos isto tange, e contra tudo isto som as causas que o Infante faz de si e ElRey bem certo que eles e os seus Padres e os seus Avós sempre guardaram verdade e lealdade, e nom recearom os corpos, nem os haveres, de os pôr em tudo aquilo que era honra e serviço e agradecimento do estado dele e dElRey D. Afonso seu Padre e dos Reis onde dele vêm, que nunca homens de nenhuma Naçom do mundo mais lealmente fezerom nem podiam fazer aos seus Senhores. E para entender qual foi a razom principal por que se o Infante moveu de fazer estas cousas, que depois fezerom devem saber, que nas custas que ElRey fez com a Rainha D. Maria sua sogra contra a vontade dElRei foi movido, que a Rainha D. Maria enviasse rogar e aficar ElRei que desse a justiça per que ele é ElRey ao dito Infante e que deixasse ElRei em sua vida e sua honra e a seu estado E tanto que daló chegou o Infante, chegou logo a ElRei Pêro Randel sobrejuiz da Casa do Rei de Castela com recado muito aficado que desse ElRei a justiça a seu filho E ElRei vendo a maneira da cobiça por que se o Infante movia a demandar isto e a míngua que a ElRei se seguia depois de si a sua justiça porque é Rei, estranhou, e o nom quis fazer, e o Infante partiu-se entom dElRei mui sandudo e ora haverá dous anos e desd´entom andou fazendo sempre muitos nojos a ElRei também ele como os seus em seu atrevimento que se tornarom em gram dano, e em grande estragamento da terra e as cousas que os do Infante fezerom em seu atrevimento depois que ElRei fez saber aos concelhos as cousas sobreditas que lhes fez saber do Infante som estas: Paio de Meira e o João Coelho seus [do Infante] vassalos, um de um cabo e outro de outro, fizerom assuada ante Riba de Minho de cavaleiros e doutras gentes e juntarom lide em que morreram cavaleiros e outros muitos, nom temendo Deus nem ElRei nem a sua justiça e fezerom grande estragamento na terra pelos lugares que forom assuados, na qual assuada foi morto Lopo Gonçalves de Abreu que era um dos melhores cavaleiros que no seu linhagem havia per que ficou aí mui grande homezio per asempre E per esta razom matarom depois outros alguns E sendo estes seus vassalos que esto fezerom degredados pelo meirinho-mor dElRei saírom-se da terra, e bem Paio de Meira com João Coelho, que forom cabedais de feito, e andado assim Paio de Meira foram da terra por degradado, veio-se para o Infante e o Infante nom teve per cargo de o estranhar de si com degradado, mas colheu-o a si e fez-lhe bem, e trazeu-o consigo. Outrossim João Coelho veio depois a Casa do Infante a Coimbra sendo degradado. Outrossi Estêvão Gonçalves Leitão vassalo do Infante e outrossim seu irmão com outros fezerom da Casa do Infante ora haja um ano, e sendo o Infante Além-Douro forom conselheiramente ter o caminho a Estêvão Fernandes cavaleiro vassalo dElRei e a Gonçalo Fernandes seu irmão, que era vassalo de Fernão Sanches, e mataram-nos ambos sem merecimento e acolheu-se logo a casa do Infante e nom se cumpriu com eles justiça porque os nom quis o Infante mandar arrecadar, nem dar-los à justiça dElRei. Outrossim Johão Pires Portel comendo com o Infante e andando com ele, foi ao Mosteiro de Marmelar e roubou e estragou o dito Mosteiro de quanto se achou, e pousou-se ele e os seus com mulheres casadas e virgens e com outras per força e quiseram matar o comendador desse lugar, se o achasse, dizendo que se o achasse que lhe cortaria as mãos e a cabeça e fez aí muitas outras cousas tam estranhas, que mais nom podia nem temendo Deus nem ElRei nem a sua justiça, e tanto que isto fez colheu-se logo ao Infante ele e os que traziam que se forom com ele com tudo aquilo que aí roubaram. Outrossim Lourenço do Mel, que matou um homem em Beja andando per esta razom mui gram tempo fora do Senhorio dElRei, porque soube que o Infante defendia os degradados e os malfeitores, veio-se pera sua Casa do Infante. Outrossim Afonso Franco matou outro homem em Beja e andando per esta razom gram tempo fora da terra veio-se para Casa do Infante. Outrossim Lourenço Tomé, que nom entendia aver direito perante ElRei e deu em resposta que nom consentia no emprazamento nem em cousa que ElRei contra ele fezesse, e outras cousas más e de grande sandice, que aí fez pôr, porque dava a entender que nom devia a ElRei por seu Juiz e que lhe nom guardaria dereito, e em no que fez ainda maior atrevimento e maior loucura enviou mostrar os estrumentos disto a ElRei, os quais ElRei tem que tudo isto fez em atrevimento do Infante, e sabendo o Infante nom estranhou, antes o consentiu, e que seria mui estranha cousa, e nunca esto foi dicto contra ElRei por nenhum seu natural que na sua terra houvesse, e tem ElRei que de guisa fez ele sempre justiça e dereito a cada um aos da sua terra, que nom havia este vassalo do Infante, por que o difamar por tão má maneira nem no Infante nom havia razom de-lo consentir, ante lo deviam estranhar se aguisado fezesse. Outrossim Domingos, que se chama seu chanceler, que publicamente apareça muito amiúde, e per muitas vezes pôs boca em ElRei difamando-o e dizendo contra ele e contra o seu estado tais cousas porque caiu em traiçom. E outrossim Pêro Miguéis, que foi irmão do Bispo de Lisboa, que é Cónigo, notário dElRei, e este Pêro Miguéis quer pôr boca contra ElRei de tal guisa que o Infante mesmo devia destes ambos e dos outros que pões boca em mal dElRei dar morte de traidores, que se atravessem a dizer tam gram traiçom contra ElRei, que é seu Padre e seu Senhor, e que é seu Senhor Natural deles mesmos […]”.

– Gavetas, Gav. 11, mç. 8, n.º 37.

Os materiais dos Instrumentos Filarmónicos

Texto de Nuno Lopes Margalha, originalmente publicado no website da Escola de Música da Enxara do Bispo, em www.bandadaenxara.pt. Da madeira densa da granadilha ao brilho do latão, das peles naturais ao Kevlar moderno, cada material usado nos instrumentos de uma banda filarmónica transporta uma história de natureza, técnica e cultura. A escolha da matéria-prima não é apenas uma questão de construção: é ela que molda o timbre, a resistência e até a identidade da música que chega ao público.

Os instrumentos de sopro de madeira ocupam um lugar central em qualquer banda filarmónica

Clarinetes, oboés, fagotes e flautins transportam consigo não apenas uma história musical, mas também a herança das árvores que lhes deram corpo.

A escolha da madeira nunca é um detalhe: é ela que determina a cor do som, a estabilidade e até a longevidade do instrumento

Granadilha – originária da África Oriental

A mais célebre entre todas é a granadilha, originária da África Oriental, sobretudo da Tanzânia e de Moçambique. É uma madeira escura, densa e naturalmente oleosa, que resiste às mudanças de humidade e oferece uma estabilidade notável. Nos clarinetes e oboés de nível profissional, a granadilha garante um timbre cheio, profundo e projectado. A sua dureza, porém, torna o trabalho do artesão exigente, e o facto de ser uma espécie protegida levanta hoje sérios desafios de sustentabilidade.

Ébano – África Central

Muito próxima dela está o ébano, vindo da África Central. Negro intenso e de textura fina, é valorizado pela elegância e pela clareza do som. A sua fragilidade perante variações de clima, contudo, pode causar fissuras, o que obriga a cuidados redobrados por parte dos músicos. Se a granadilha é a voz quente, o ébano é o timbre puro e cristalino.

Antes destas madeiras exóticas dominarem o fabrico de instrumentos, a Europa conhecia bem o buxo. Esta árvore, comum no Mediterrâneo, fornecia uma madeira clara e compacta, de grão muito fino. Foi o material privilegiado nas flautas barrocas, nos oboés antigos e até em fagotes históricos. O buxo oferecia leveza e uma resposta rápida, mas mostrava-se vulnerável às variações de humidade. Ainda hoje é procurado por quem se dedica à construção de cópias de instrumentos históricos.

Cocobolo – América Central

Mais longe, na América Central, encontramos o cocobolo, uma madeira de tons avermelhados e veios marcados. É usada em clarinetes artesanais e boquilhas especiais, apreciada pela beleza natural e pelo som encorpado. Contudo, o cocobolo pode ser instável e até causar alergias nos artesãos que o trabalham. Outro exemplo é o pau-rosa, vindo sobretudo do Brasil, que marcou presença em flautas e clarinetes de luxo. Com aroma característico e timbre doce, acabou por se tornar uma espécie protegida, hoje substituída por resinas modernas.

Não faltam exemplos de madeiras europeias aplicadas a instrumentos: a oliveira, usada em clarinetes artesanais em Portugal e Espanha, a pereira, a macieira e a ameixeira, que deram corpo a flautas e instrumentos populares. O arce e a faia encontram ainda hoje aplicação em peças de fagotes e contrafagotes. A oliveira, com a sua tonalidade dourada e veios marcados, oferece simultaneamente beleza e um som caloroso.

Na actualidade, muitos instrumentos de estudo já não são feitos de madeira, mas sim de resinas sintéticas que procuram imitar as propriedades da granadilha. São resistentes, económicas e suportam qualquer variação de temperatura, algo fundamental para quem começa a aprender. No entanto, falta-lhes a ressonância orgânica da madeira natural, aquele calor no timbre que só uma essência verdadeira consegue transmitir.

Independentemente da origem, todas as madeiras usadas em instrumentos musicais exigem um processo de preparação rigoroso. Devem ser secadas e estabilizadas ao longo de anos, cortadas de forma a evitar nós ou fissuras e trabalhadas sempre com respeito pela sua natureza. O resultado é um corpo acústico que, ao ser soprado, devolve a voz da árvore sob a forma de música.

Na granadilha escura, no ébano brilhante, no buxo claro ou na oliveira mediterrânica, cada madeira traz a sua personalidade, o seu temperamento e a sua alma. Quando a banda toca, ouvimos não apenas os músicos, mas também as florestas distantes que, de algum modo, continuam a viver dentro de cada instrumento.

Os metais que dão voz à banda

Se as madeiras oferecem calor e suavidade, os metais trazem brilho, potência e projecção ao som de uma banda filarmónica. Trompetes, trombones, tubas e trompas nascem da combinação de ligas cuidadosamente escolhidas, resultado de séculos de experimentação. Cada metal confere ao instrumento uma personalidade única: mais calor, mais brilho, mais resistência.

Texturas metálicas com tons variados de latão: nuances de cor que surgem conforme aumenta ou diminui a proporção de cobre e zinco — desde o dourado mais quente até tons mais pálidos.

O rei indiscutível deste universo é o latão, uma liga de cobre e zinco. Presente na esmagadora maioria dos instrumentos de sopro de metal, é maleável o suficiente para ser moldado em tubos e campânulas, mas também resistente para suportar a pressão do ar e o desgaste do tempo. O equilíbrio entre cobre e zinco define muito da cor sonora: uma maior proporção de cobre gera um som mais quente e aveludado, enquanto o aumento do zinco favorece um brilho mais cortante. Não é por acaso que trompetes e trombones de diferentes fabricantes variam tanto na sua personalidade: o segredo está muitas vezes escondido na liga.

O bronze, mistura de cobre com estanho, tem outra vocação. Encontramo-lo sobretudo em pratos e sinos, onde a capacidade de ressonância e a riqueza harmónica são determinantes. O bronze fundido e martelado ganha vida sob o golpe das baquetas, libertando camadas de harmónicos que permanecem no ar muito depois da nota inicial.

Mina de cobre a céu aberto

Há ainda um material que, embora discreto, marca presença essencial: o níquel-prata, também conhecido por alpaca. Trata-se de uma liga de cobre, níquel e zinco, usada frequentemente em chaves de clarinetes e saxofones, mas também em tubagens de flautas e em alguns trompetes. A sua resistência à corrosão e o brilho natural tornam-na ideal para peças sujeitas a uso intensivo. Além da durabilidade, oferece um timbre claro e directo, muito apreciado em flautas de concerto.

Em patamares mais exclusivos, surgem metais nobres como a prata e o ouro. Uma flauta de prata maciça ou um trompete folheado a ouro não são apenas luxos estéticos: cada metal acrescenta subtilezas acústicas. A prata tende a conferir projecção e um som penetrante, enquanto o ouro suaviza o timbre, criando uma voz mais redonda e calorosa. É nesse detalhe que muitos músicos profissionais encontram a sua identidade sonora.

O aço também tem o seu lugar, ainda que invisível aos olhos do público. Está presente em molas, parafusos e eixos, garantindo elasticidade e precisão nos mecanismos de válvulas e chaves. Sem o aço, a complexa mecânica dos sopros de metal não funcionaria com a mesma fiabilidade.

A escolha do metal não é apenas uma questão acústica, mas também de resistência. Um trombone em latão amarelo pode oferecer um timbre vibrante, mas será mais sensível à corrosão. Já o latão dourado, com maior proporção de cobre, dura mais, embora com um som menos brilhante. Os fabricantes conhecem bem este jogo de equilíbrio e é por isso que oferecem variações de ligas e acabamentos para responder ao gosto de cada músico.

Tal como acontece com as madeiras, também aqui os metais enfrentam hoje desafios ambientais e económicos. O custo crescente do cobre e do estanho obriga a explorar ligas alternativas, enquanto a procura por instrumentos mais leves leva à experimentação com alumínio e até com titânio. Ainda assim, o latão, o bronze e a prata continuam a ser a espinha dorsal da tradição filarmónica.

Quando ouvimos uma banda em pleno, com as trompas a dar corpo, os trombones a marcar a cadência e os trompetes a brilhar sobre a massa sonora, estamos a escutar a voz dos metais. Não são apenas tubos moldados, mas sim fragmentos da terra transformados em som. Cada campânula é um eco da mina, cada válvula carrega o trabalho dos fundidores e artesãos que, ao longo dos séculos, descobriram como fazer falar o cobre, o zinco, o estanho e a prata.

Cordas e membranas: o coração rítmico da banda

Membrana sintética tipo Mylar 

Se os sopros de madeira dão cor e os metais conferem brilho, a percussão é a pulsação que sustenta toda a banda filarmónica. Nos bombos, timbalões, caixas e tarolas, o som nasce sobretudo de dois elementos: as membranas e as cordas de ressonância. Ao contrário das madeiras ou metais, aqui a matéria-prima esteve durante séculos intimamente ligada ao mundo animal, mas foi progressivamente substituída por soluções sintéticas.

As membranas foram, durante muito tempo, feitas de peles naturais. Bezerro, cabra ou até burro eram escolhidos pela resistência e pelo timbre particular que ofereciam. O couro era preparado manualmente, esticado e fixado sobre a armação de madeira. O resultado era um som quente e orgânico, com variações subtis consoante a espessura e a qualidade da pele. Cada instrumento ganhava, assim, uma voz irrepetível. Essa riqueza sonora tinha, contudo, um preço: as peles naturais eram sensíveis ao clima, contraíam-se em tempo seco e relaxavam com a humidade, o que exigia constante afinação e cuidados redobrados.

No século XX, a revolução veio com o desenvolvimento das membranas sintéticas. O Mylar, um tipo de poliéster resistente, rapidamente conquistou lugar em caixas e timbalões. A sua grande vantagem era a estabilidade: não cedia às mudanças de temperatura ou de humidade e permitia uma afinação precisa e duradoura. Mais tarde, materiais como o Kevlar trouxeram ainda maior resistência, sobretudo em contextos de bandas marciais, onde a tensão sobre a pele é extrema. Estas soluções modernas garantem uniformidade e fiabilidade, ainda que muitos percussionistas defendam que a pele natural continua imbatível na riqueza tímbrica.

Tripa torcida

Nas tarolas e caixas, outro elemento essencial são os bordões ou cordas de ressonância. Originalmente feitos de tripa animal torcida, hoje são fabricados em aço ou em fibras sintéticas. O seu papel é acrescentar brilho e vivacidade ao som, vibrando contra a membrana inferior. Um simples ajuste da tensão dos bordões transforma radicalmente o carácter do instrumento: de um som seco e militar para um eco vibrante e envolvente.

Também nas baquetas encontramos diversidade de materiais. Os cabos continuam a ser de madeira, frequentemente hickory ou faia, enquanto as cabeças variam entre feltro, madeira, borracha ou plástico. Cada combinação produz uma paleta diferente de ataques e cores, permitindo que a percussão seja muito mais do que mera marcação rítmica: é também timbre, textura e expressão.

Hoje, entre peles naturais e sintéticas, entre bordões de tripa e de aço, coexistem tradições e inovações. O percussionista, mais do que qualquer outro músico da banda, vive num diálogo permanente com a matéria. Cada escolha traz consigo vantagens e limitações: a pele de bezerro oferece calor mas exige cuidado; o Mylar garante estabilidade mas sacrifica alguma riqueza; o Kevlar resiste a tudo, mas pode soar excessivamente seco.

No final, são estas membranas e cordas que dão à banda o seu coração rítmico.

Cada batida de bombo, cada redobro de caixa, cada tremolo de timbalão carrega não apenas o gesto do músico, mas também a história dos materiais que lhe dão corpo.

É um lembrete de que, na filarmónica, até o silêncio entre notas depende da vibração de uma pele ou de uma corda que, por um instante, se torna voz.

Materiais de origem animal: a herança viva nos instrumentos

Durante séculos, a música esteve intimamente ligada ao mundo natural e, em particular, ao reino animal. Muito antes das ligas metálicas, das resinas sintéticas e das fibras artificiais, eram as peles, as tripas, a crina e até o marfim que davam corpo e voz a muitos instrumentos. Nas bandas filarmónicas, ainda hoje ecoa esta herança, embora cada vez mais substituída por alternativas modernas.

As peles naturais foram, talvez, o material animal mais importante. Bezerro, cabra ou mesmo burro forneceram a membrana dos tambores, bombos e timbalões. Cada tipo de pele tinha um carácter distinto: a do bezerro soava mais quente e suave, a da cabra era mais clara e brilhante, a do burro mais robusta e seca. O clima, contudo, transformava-as constantemente. No frio seco, ficavam tensas e agudas; na humidade, relaxavam e perdiam definição. Mesmo assim, havia algo de orgânico e vivo nesse som que as peles sintéticas, por mais estáveis que sejam, dificilmente reproduzem.

Outro elemento fundamental foram as cordas de tripa animal, feitas a partir de intestinos de ovelha ou cabra, torcidos e secos. Usavam-se nos bordões das tarolas, onde vibravam contra a membrana inferior, dando aquele som característico, vibrante e metálico que distingue a caixa dos restantes tambores. Hoje, quase todas foram substituídas por aço ou fibras sintéticas, mas as tripas mantêm um lugar de prestígio no fabrico de cordas para instrumentos clássicos, como violinos e violoncelos.

brushes aplicados sobre uma pele de tambor, ilustrando o uso prático e a interação com a membrana, destacando o efeito suave da crina ao tocar.

A crina de cavalo também encontrou o seu espaço, sobretudo em acessórios de percussão. Algumas vassouras rítmicas, usadas para efeitos suaves em caixas e pratos, eram confeccionadas com feixes de crina. O material natural conferia flexibilidade e uma resposta táctil que o nylon moderno apenas imita.

Mais controverso foi o uso de marfim. Durante séculos, teclas, anéis e até boquilhas de instrumentos foram trabalhados a partir desta matéria nobre. A sua textura suave e a durabilidade fizeram dele um símbolo de luxo e prestígio. Hoje, por razões éticas e legais, o marfim está banido e foi substituído por materiais sintéticos que procuram imitar a sua aparência e tacto.

Em tradições populares e militares, chegaram a usar-se chifres e conchas como instrumentos naturais de sopro, recordando a ligação directa entre natureza e música. Embora não façam parte do repertório habitual das bandas modernas, lembram a origem longínqua de muitos dos instrumentos actuais.

Com o avanço da tecnologia, grande parte destes materiais foi sendo substituída por alternativas industriais. O Mylar e o Kevlar dominam as membranas, o aço tomou o lugar da tripa, o plástico substituiu o marfim e o nylon replicou a crina. Ainda assim, a memória dos materiais animais permanece.

Muitos músicos defendem que há um calor, uma riqueza e uma imperfeição orgânica na pele natural ou na tripa que nenhuma inovação consegue igualar.

Assim, mesmo numa banda filarmónica do século XXI, ao lado das ligas metálicas brilhantes e das resinas sintéticas impecáveis, continua a sobreviver a voz dos animais que, durante séculos, deram forma ao som da humanidade. É um testemunho da íntima relação entre música e natureza, que ainda hoje vibra em cada redobro de caixa, em cada batida de bombo e em cada detalhe artesanal.

Materiais modernos e sintéticos: a revolução silenciosa da banda

Se as madeiras, os metais e as peles animais marcam a tradição, os materiais modernos e sintéticos são a grande revolução que molda o presente e o futuro das bandas filarmónicas. Mais discretos, quase invisíveis ao olhar do público, são eles que garantem hoje durabilidade, estabilidade e, em muitos casos, o acesso de novos músicos a instrumentos de qualidade acessível.

Um dos exemplos mais claros é o plástico ABS, usado em clarinetes e flautas de estudo. Resistente a quedas, estável perante variações de temperatura e humidade e de custo reduzido, tornou-se indispensável no ensino. Se não oferece o mesmo calor e riqueza tímbrica da granadilha ou do ébano, compensa pela fiabilidade e pela leveza, permitindo que qualquer criança inicie a sua aprendizagem sem receio de danificar o instrumento.

Nas percussões, a grande revolução foi o Mylar, uma película de poliéster que substituiu as peles de bezerro ou cabra. Ao contrário das membranas naturais, não se contrai nem relaxa com as mudanças do clima, mantém a afinação durante mais tempo e aguenta o desgaste dos ensaios diários. Para bandas marciais, onde a intensidade é ainda maior, surgiram membranas em Kevlar, extremamente resistentes e capazes de suportar tensões elevadíssimas. Embora alguns percussionistas ainda defendam a alma da pele natural, é inegável que estas soluções industriais democratizaram e estabilizaram o mundo da percussão.

Também as resinas compostas ganham protagonismo. Imitam a densidade e o peso da madeira tropical, mas sem o risco de fissuras ou as questões ambientais associadas. Muitos clarinetes, oboés e fagotes intermédios são hoje construídos com estas resinas, oferecendo um compromisso entre som satisfatório e durabilidade. Para músicos que tocam ao ar livre, em procissões ou concertos de rua, esta alternativa evita o receio de ver o instrumento rachar com o frio ou a humidade.

No campo dos acessórios, multiplicam-se os apoios de polegar em silicone, as boquilhas de prática em borracha sintética e até as surdinas de metais em plásticos moldados. A leveza destes materiais, aliada ao baixo custo, permite que cada músico personalize a sua experiência de forma prática.

Mais recentemente, surgiram ainda materiais de vanguarda, como a fibra de carbono e o titânio, aplicados em instrumentos experimentais ou de luxo. A fibra de carbono combina leveza e resistência, abrindo caminho a trompetes e flautas quase indestrutíveis. O titânio, apesar do custo elevado, oferece robustez e um timbre peculiar que intriga músicos e construtores.

Estas inovações levantam, no entanto, um debate interessante: até que ponto a estabilidade e a uniformidade dos materiais sintéticos não sacrificam a imperfeição viva dos naturais? Um clarinete de resina pode soar correcto, mas será que transmite a mesma riqueza expressiva de um instrumento de granadilha? Um tambor com pele de Kevlar pode ser imbatível em volume, mas será que vibra com a mesma organicidade que o couro animal?

As respostas variam conforme o músico e o contexto. O certo é que os materiais modernos abriram as portas da música a milhares de pessoas que, de outro modo, não teriam acesso a instrumentos estáveis, resistentes e acessíveis. A democratização da prática musical, tão essencial ao espírito das bandas filarmónicas, deve muito a estas inovações silenciosas.

Hoje, nas ruas e palcos, convivem lado a lado a madeira centenária e o plástico moldado, o bronze ancestral e o Kevlar de alta tecnologia. A tradição e a modernidade não se anulam: completam-se. E é nesse diálogo entre o passado e o futuro que a banda encontra a sua força, capaz de tocar tanto o coração como a memória, tanto a emoção como a esperança.

O impacto da escolha dos materiais na música da banda

A sonoridade de uma banda filarmónica nasce da união entre músicos, repertório e acústica. Mas existe um elemento mais discreto, quase invisível ao público, que determina profundamente o carácter do som: os materiais de que são feitos os instrumentos. Madeira, metal, pele ou resina não são apenas suportes físicos, são parte integrante da identidade musical.

Nos sopros de madeira, a escolha entre granadilha, ébano ou resina molda a voz de um clarinete ou oboé. A densidade das madeiras africanas confere calor e profundidade, enquanto as alternativas sintéticas oferecem estabilidade e acessibilidade. O mesmo músico pode soar mais escuro e aveludado num clarinete de granadilha e mais directo e uniforme num modelo de resina. O material define, portanto, não apenas o timbre, mas também a expressividade possível.

Nos sopros de metal, a liga é o segredo. Trompetes de latão amarelo brilham com intensidade, ao passo que campânulas de latão dourado, mais rico em cobre, produzem um som redondo e suave. O bronze, nos pratos e sinos, acrescenta ressonância e complexidade, enquanto a prata e o ouro oferecem nuances de prestígio e subtileza.

A química do metal é, em última análise, a química do som.

Na percussão, a tensão entre tradição e modernidade é particularmente evidente. Uma pele natural de bezerro aquece e enriquece a batida, mas exige cuidados constantes e reage ao clima. Uma membrana de Mylar ou Kevlar, por outro lado, permanece firme e previsível, mas perde a organicidade viva da pele animal. Aqui, a escolha não é apenas técnica: é também estética e emocional.

O impacto dos materiais vai além do som. Influencia a resistência do instrumento, o seu peso, o conforto de execução e até a durabilidade. Um fagote de buxo precisa de mais cuidados do que um construído em resina, e uma tuba de latão dourado pode ser mais pesada do que uma em liga leve, condicionando a performance em desfiles e concertos de rua.

Comparação visual de pele natural vs sintética

Há ainda a dimensão ambiental e ética. Madeiras tropicais raras, como a granadilha ou o pau-rosa, estão hoje sob protecção internacional. O marfim desapareceu definitivamente da música por motivos óbvios. Estas restrições forçam construtores e músicos a reflectirem sobre a relação entre tradição, inovação e responsabilidade. Os materiais sintéticos surgem, assim, não apenas como soluções práticas, mas como respostas necessárias a um mundo em mudança.

No final, a escolha dos materiais é uma escolha de identidade. Cada clarinete, cada trompete, cada tambor transporta consigo uma história de árvores, minas, animais ou indústrias químicas.

Quando a banda toca, ouvimos não apenas os músicos, mas também a matéria que vibra, ressoa e se transforma em música.

É um lembrete silencioso de que o som não é apenas arte: é também natureza transformada em cultura.

Algumas Notas sobre Assassinatos e Direitos Civis

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Aquilo a que geralmente chamamos e consideramos um assassinato político não tem necessariamente de visar um político de profissão — ou seja, alguém que exerça de facto um cargo público oficial, ou seja proponente a tal. Na maior parte dos casos, assassinatos baseados num motivo familiar ao motivo político visam pessoas públicas — e, de certo modo, faz sentido chamar-lhes assassinatos públicos. São actos que talvez se destinem não tanto à subtracção da pessoa em causa — já que, na prática, poucas pessoas são insubstituíveis e os assassinos sabem ou intuem isso — mas sim ao impacto e ao espanto que o acto em si provoca. Essa intenção de notoriedade pode ser alimentada pelo desejo da imortalidade do nome e da acção do autor — tal como o grego Heróstrato, que pegou fogo a um famoso templo apenas para tornar o seu nome perene — ou, mais altruisticamente, pela própria noção do eco do acto em si, pelas suas consequências na paisagem pública daí resultantes, ou ainda por uma mistura das duas coisas.

Uma nota relevante sobre o perfil frequente deste tipo de assassinos é o facto de serem tontinhos. Têm, tipicamente, personalidades, biografias e vidas correntes de tontinhos: necessitam de atenção, têm complexo de salvador, uma espécie de bipolaridade messiânica. Harvey Oswald dirigiu-se à embaixada da Rússia com disposição de se alistar; mandaram-no embora, acharam-no um triste. James Earl Ray pretendia emigrar para a Rodésia e juntar-se à minoria branca que tinha declarado a independência desse país. Luigi Mangione foi um miúdo privilegiado, techno-hippie com a mania que percebia de tudo, de sorriso artificial e sócio-dependente. Quanto ao assassino de Kirk, ao que tudo indica — a esta data — trata-se de um miúdo de razoável inteligência escolar, alienado por grupos obscuros da Internet e por uma ideologia “antifascista” de extrema-esquerda, com um recente namorado travesti, que orquestrou na sua cabeça um plano para livrar o mundo do “mal” que era o cepticismo de Kirk quanto a transições de sexo.

Podemos acrescentar a estes exemplos outras instâncias recentes que não quisermos destacar, como, por exemplo, o caso de Bryan Routh, que tentou assassinar Donald Trump — um homem patético, completamente transtornado; John Hinckley, que baleou Ronald Reagan por um motivo ridículo e taralhoco — impressionar uma actriz de cinema; e o de Mehmet Ali Ağca, que baleou o Papa João Paulo II em 1981 por um motivo ainda hoje confuso, de fanatismo religioso misturado com eventual turbulência política, e que foi por este perdoado — concluindo, alguns dizem, a “era dos assassinatos políticos” dos anos setenta.

O perfil deste tipo de figura não é propriamente o de um sociopata, ou de qualquer tipo de psicopata evidente: porventura esses terão outras maneiras de exprimir a sua divergência, ou então a maluquice é tão evidente que acabam por ser apanhados mais cedo. Não: é o perfil do tolinho neurótico que pensa que sabe tudo — muitas vezes de potencial intelectual superior, mas de inadequação social e experiencial dramática — que, de forma quase autista, mas não ainda esquizofrénica, vê uma ligação lógica entre a supressão directa da vida de alguém e a persecução de um objectivo de grande escala. E o objectivo de grande escala, nesta idade moderna do grande plano progressista arquitetado pelo olho que tudo vê, é, em geral, a ideia de vinculação de direitos.

Pegando nesses e noutros exemplos de assassinatos públicos na realidade norte-americana nas últimas décadas, encontramos alguns que todos conhecem e que são, digamos, clássicos, e outros que são mais recentes e menos conhecidos, mas igualmente alimentados por um nexo comum: a ideia de direito civil.

Nas últimas décadas, o conceito de “direitos humanos” tem sofrido uma inflação semântica que o levou muito para além do seu núcleo clássico — o direito à vida, à integridade física, a um julgamento justo — para abarcar uma miríade de pretensões derivadas de ideologias frágeis como o socialismo e o comunismo. Já a Declaração Universal de 1948 introduzira a noção de “direitos económicos, sociais e culturais”, abrindo a porta a exigências que nada têm de universais mas muito de programáticas: direito à habitação, direito ao trabalho, direito ao lazer. A Constituição portuguesa de 1976 ou a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (2000) consolidaram esse alargamento, vinculando como direitos exigíveis prestações estatais e equilíbrios sociais que são, na prática, agendas ideológicas. Mais recentemente, a jurisprudência de tribunais constitucionais e internacionais tem acrescentado camadas — direito à identidade de género, direito a representação proporcional segundo estatuto étnico ou sexual, direito a cuidados de saúde universais gratuitos, direito a não ser ofendido pela opinião alheia. Este contínuo processo legislativo e jurisprudencial, mais do que uma defesa sólida da dignidade humana, funciona como catálogo de reivindicações políticas, muitas vezes triviais ou sectoriais, que procuram o selo de intangibilidade moral conferido pela palavra “direito”.

No caso do assassinato do presidente John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, o assassino foi Lee Harvey Oswald, comunista; ao que tudo indica — excluindo teorias da conspiração — a sua motivação terá passado por aí: terá pretendido fazer prevalecer uma sociedade que ele entendia como dando mais direitos às pessoas e, para isso, optou por subtrair o símbolo do império que mais ameaçava esse modelo de sociedade — o império americano — pretendendo dar força ao bloco comunista e ajudando a destruir o edifício do capitalismo através da presidência de um dos seus países centrais, contribuindo com isso para uma vida mais justa para todos. Depois temos o exemplo de Martin Luther King — ele próprio um ícone dos direitos civis — que foi assassinado por uma pessoa que tinha uma motivação também relacionada com os direitos, ou seja, essa pessoa queria fazer prevalecer o direito à discriminação racial, que era, nos Estados Unidos, aceite antes da lei dos direitos civis: James Earl Ray pretendia diminuir a força do movimento dos direitos civis em prol da igualdade racial, cuja legislação interferia nos “direitos” de cidadãos de escolherem em que escola as crianças andariam, quem acolhem no seu estabelecimento comercial, com quem fazem negócio, etc. Luigi Mangione pretendia atacar uma das cabeças do sistema de saúde norte-americano, baseado na intermediação das seguradoras, preferindo um sistema público: ele terá, a partir de uma experiência pessoal com um problema grave nas costas que tinha tido, e de grandes divergências com as seguradoras de saúde — experienciando, aliás, os sistemas de saúde noutros países que resolveram esses problemas sem custos directos para o utilizador — acumulado uma raiva de tal maneira, mas uma raiva racional, que resolveu abater um dos chefes de uma seguradora de saúde. Do assassinato de Charlie Kirk, mesmo antes de sabermos o perfil do assassino, podíamos concluir a partir de quem festejou: são pessoas que crêem que posições radicais (anti-aborto, islamocépticas, a favor do porte de arma, contra a idolatria de sexualidades minoritárias, etc.) não devem ter lugar na sociedade, e que quem as advoga deve ser subtraído a qualquer custo. Depois de conhecermos a biografia, terá sido, obviamente, para fazer prevalecer a ideia de direitos transgéneros, já que o comentador era muito céptico, ou completamente antagónico, face à ideia de direitos de pessoas que querem fazer transições de género — um processo que ele entendia, aliás, como perverso na sua essência.

Podemos ainda recuar a outros exemplos históricos onde se repete o mesmo padrão de tolinhos com mania de redenção através do ferro e do chumbo. O caso mais próximo de nós, o regicídio de 1908, mostra dois carbonários — Manuel Buíça e Alfredo Costa — que, mais do que estrategas lúcidos, eram exaltados da propaganda republicana, convencidos de que estavam a dar ao povo o “direito” de se libertar da “tirania” régia, quando na prática apenas mergulharam o país num caos maior. Anos depois, em Sarajevo, um estudante tuberculoso e falhado, Gavrilo Princip, achou-se braço armado do “direito” à autodeterminação eslava, e com a pistola barata que empunhou acabou por desencadear uma guerra mundial. Gandhi, o apóstolo da não-violência, caiu às mãos de Nathuram Godse, um medíocre obcecado com a pureza hindu, que julgava estar a defender o “direito” religioso da Índia contra a suposta traição da convivência muçulmana. Mais perto de nós, Yigal Amir, estudante israelita com ares de justiceiro messiânico, descarregou sobre Yitzhak Rabin para salvaguardar o que entendia ser o “direito” divino de Israel sobre as terras prometidas, recusando qualquer concessão aos palestinianos. Todos diferentes no palco e no século, mas irmãos na tolice neurótica: cada um tomou o capricho ou frustração pessoal por causa universal, e viu num assassinato público o atalho para a eternidade.

Não é inconcebível que, no futuro — a curto e médio prazo — possamos ver cada vez mais instâncias deste tipo de violência com propósito vinculativo em relação a toda e qualquer coisa que se entende por “direito”: podemos ver homossexuais exigirem o direito de reprodução medicamente assistida paga pelo Estado; transsexuais exigirem o direito de serem considerados como mulheres no mercado amoroso das relações; exigência de cuidados psicológicos garantidos gratuitamente, custeados pelo Estado; alargamento da noção de habitação condigna para T3 no Chiado, ou equivalente; exigência de representação equitativa de qualquer minoria de qualquer tipo (étnica, sexual, neuro-divergente, etc.) em qualquer ramo de actividade profissional ou lectiva; artistas de rua praticantes de artes circenses exigirem o direito ao pagamento de uma retribuição financeira, mesmo que ninguém ligue nenhuma àquilo que fazem. Aliás, na verdade, podemos ver qualquer pessoa que exerça qualquer actividade entender que é um direito o de ser recompensada financeiramente pela restante comunidade. A partir do momento em que se estabeleça qualquer uma destas exdrúxulas exigências como um direito humano equivalente ao direito à vida ou ao direito a ter um julgamento justo, não é difícil imaginar alguém — nomeadamente um perfeito tolinho — profissando matar com vista à vinculação destas autênticas trivialidades. E, lembremo-nos sempre, as coisas podem nunca parar por aí: podemos ver, no futuro, alguém a matar por qualquer mínima contrariedade no seu estatuto social e/ou existencial; alguém a matar por não ter toda a atenção do mundo inteiro num determinado momento do espaço e do tempo dirigida única e exclusivamente à sua pessoa. Estamos todos muito sozinhos, e a melhor maneira de não estar sozinho é matar.

Abril em Novembro

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Em 1973, um grupo de amigos que aborrecia o Estado Novo e que o Estado Novo aborrecia fundou em Bad Münstereifel, na Alemanha Ocidental, o Partido Socialista. Constituída a agremiação, imagino, os fundadores foram tomar café ao Hotel Kurhaus Uhlenberg e dizer mal de Marcello Caetano.

Três anos antes, em 1970, uma rapaziada da Universidade de Lisboa – que, levando-a a sério, lera a tradução francesa de “O Capital” – nutria o estimável propósito de cortar o pescoço à burguesia e entregar o poder aos serralheiros e electricistas da Lisnave. Pela imprensa estrangeira, tivera notícia de que, na China, a estudantada, impulsionada pelo Grande Timoneiro, andava a espancar professores e a caçar intelectuais traidores da revolução e dos camponeses. Invejosa e anti-soviética, fundara o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado.

Em Abril de 1974, o PS representava um grupo de amigos de café que aborrecia o Estado Novo e que o Estado Novo aborrecia; o MRPP representava uma parte relevante da rapaziada universitária de Lisboa, os díscolos. O único partido realmente existente, organizado, implantado no terreno e com actividade clandestina de muitas décadas, era o Partido Comunista Português. Acrescia que, aproveitando o fim político de Salazar e o desnorte da Primavera Marcelista, o PCP tomara conta dos sindicatos.

Neste cenário, não espanta que, logo após o pronunciamento do 25 de Abril, o PCP (e o seu braço farisaico apresentável à boa sociedade, o MDP/CDE) tenha imediatamente mobilizado meios, ocupado edifícios, ocupado fábricas, designado autarcas, invadido herdades, assumido a direcção de escolas, saneado «fascistas»… tomado conta do país. E tomado também conta dos capitães de Abril a quem, assarapantados, o poder tinha caído nos braços, sem saber o que fazer com ele.

Com o PCP, o pronunciamento de Abril tornou-se revolução e a revolução tornou-se processo. Comeu os seus primeiros filhos.

Sempre muito alucinado e distante de um laivo mínimo de noção da realidade – como já, preocupado, notara Caetano, no início de 74 – António de Spínola fantasiou que a sua pessoa era importante e indigerível. Em Março de 1975, tornou patente à cidade e ao mundo que não era apenas senhor de uma mente delirante. Também não primava pela inteligência. Foi para Tancos preparar a regeneração da pátria. Acabou em Madrid, a sonhar com Paiva Couceiro.

A revolução acelerou. A banca, os seguros, as petrolíferas, as cimenteiras, as transportadoras, as cervejeiras, a Siderurgia Nacional, a CUF e, por arrasto, a insignificante Sociedade Nacional de Estratificados foram nacionalizadas. O PCP, que tinha tomado conta do país, tornou-se dono do país.

Foi neste ponto que Álvaro Cunhal cometeu um erro fatal (ou, mais provavelmente, não o pôde evitar, porque , ao contrário de Spínola, não era dado a ilusões): permitiu que em 25 de Abril de 1975 se realizassem eleições livres para a Assembleia Constituinte.

O resultado das eleições revelou que, tirando no Alentejo rural da pobreza e na gritaria industrial da margem sul do Tejo, o PCP não tinha expressão em Portugal.

Foi o fim da revolução.

Vencedor das eleições, Mário Soares convocou uma manifestação para a Fonte Luminosa e atou laços de amizade eterna com a Igreja Católica. A esquerda militar aproveitou para salvar a pele. Juntou-se aos socialistas e, em Agosto, no que ficaria conhecido como “Documento dos Nove”, arrumou com Vasco Gonçalves e com o PCP.

A Quinta Divisão – órgão da propaganda militar do PCP – foi extinta e Otelo Saraiva de Carvalho demarcou-se de vez dos comunistas soviéticos, avançando com firmeza e insanidade rumo ao abismo.

Com o controle da situação perdido, Cunhal tentou juntar os cacos. Em Setembro, deixou cair Vasco Gonçalves, lamentou a incompreensão dos católicos, tentou outra vez, desesperado, trazer a esquerda militar e os socialistas ao seu redil frentista, procurou recuperar Otelo.

Falhou em toda a linha. Nas eleições de Abril, toda a gente tinha percebido que o PCP não metia medo a ninguém. A revolução tinha acabado. Cunhal compreendeu-o ou alguém do Comité Central do PCUS lho explicou. Resignou-se, consolando-se com a ideia de que Angola passara para a esfera do Leste.

Da revolução, sobraram uns tolinhos de extrema-esquerda. Os tolinhos confiaram noutro tolinho, Otelo. Na manhã de 25 de Novembro de 1975, lançaram a revolução final, a mãe de todas as revoluções. Por volta das sete horas, tropas paraquedistas tomaram o comando da 1.ª Região Aérea, à espera de Otelo. Retido no Palácio de Belém até altas horas da madrugada, Otelo fora libertado, ao que parece, mediante a promessa de ir para casa dormir. Foi para casa dormir. No princípio do dia seguinte, 26 de Novembro, foi declarada encerrada a sessão. Eanes e Jaime Neves assinaram a acta.

Em suma, se algum acontecimento foi decisivo para o estabelecimento da democracia em Portugal, esse acontecimento foram as eleições de 25 de Abril de 1975, para a Assembleia Constituinte. Foram eleições materialmente honestas e livres*. As primeiras, na História de Portugal. Só puderam ocorrer, porque um ano antes tinha havido o 25 de Abril de 1974.

Acontece que a direita actualmente no poder abomina (e com liberdade e legitimidade para abominar) o 25 de Abril. Por isso, usou o pretexto da morte do Papa para não o festejar. Por isso, inventa a celebração do irrelevante 25 de Novembro. Para desvalorizar o 25 de Abril.

Mas, para valorizar o 25 de Novembro e desvalorizar o 25 de Abril, tem de omitir o marco absolutamente crucial que foram as eleições livres de 25 de Abril de 1975, as eleições que ditaram que o caminho luso seria a democracia de tipo ocidental. É que, se em Abril de 1975 houve eleições livres, é porque a liberdade não foi instituída em Novembro. Foi instituída antes.

É por isso que a direita actualmente no poder, com grosseira e descarada desonestidade intelectual, tem de rever a História e anunciar a grande comemoração das primeiras eleições pós-25 de Novembro: as eleições de 1976, umas eleições sem qualquer importância especial, iguais a dezenas de outras que se realizaram em Portugal nos últimos 50 anos.

O gesto tem um nome: vigarice.

* Digo materialmente, no sentido de que o voto foi universal, secreto e honesto. Não houve, por qualquer modo, fraude eleitoral. Formalmente, não foram inteiramente livres, porque houve partidos – o MRPP, a AOC (Aliança Operário-Camponesa), o PDC (Partido da Democracia Cristã) – que foram impedidos de concorrer; e outros, por alegadamente fascistas, nem sequer foram autorizados a constituir-se ou foram imediatamente ilegalizados.

A Urgência de um Novo Laço

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A URGÊNCIA DE UM NOVO LAÇO[1], texto de Simão Mata[2]para o primeiro encontro do Laço Analítico/Núcleo de Lisboa.

Começo por me desculpar por não conseguir estar presente fisicamente convosco neste primeiro Encontro do Laço Analítico/Núcleo de Lisboa. Mas se não posso estar presente é por razões que me ultrapassam e que se prendem com a minha agenda profissional. Ainda assim, tal não significa que eu não possa dizer algumas palavras sobre o evento que hoje se está a celebrar em Portugal. E começo precisamente por aqui, pela minha impossibilidade em estar aí, fazendo-me chegar por intermédio deste texto e pela voz de uma colega psicanalista. Sou, por isso, ausência e personifico-me numa voz alheia o que, para mim, equivale a que isto que escrevo tenha outra dimensão, que salte de mim e que me escape de certa forma.

Pois bem, a necessidade deste meu escrito prende-se, justamente, com a necessidade de fazer laço convosco, mesmo não podendo estar presente. O que esta necessidade aponta mesmo sendo impossível a minha presença física é já, justamente, uma dimensão simbólica do laço, uma dimensão que ultrapassa, portanto, qualquer barreira, linguística, geográfica ou de outra natureza, ao ponto de eu, mesmo assim, querer fazer laço convosco. “O discurso é laço social” diz-nos Lacan. Fazer laço pela minha ausência, portanto, pela falta, pelo equívoco da minha presença/ausência e pelas palavras ditas por um outro e que se faz, por isso, um outro-outro. Que maravilha!

Gostaria de vos felicitar, a todos os que tiveram a ideia de trazer o Laço Analítico do Brasil para Portugal. Seria um lugar-comum esta felicitação, mas penso que ela comporta mais do que um mero ato formal. “A minha pátria é a língua portuguesa”, disse Fernando Pessoa e esta frase cabe também aqui nesta altura da fundação do Laço Analítico em Portugal. Vinícius de Morais, para não me acusarem de estar a citar apenas um poeta português, disse que era um homem meio sem pátria e que a sua pátria era a humanidade. Se o que nos une é a Língua, une-nos também a cultura, as tradições, os mitos mas também as nossas formas de expressão de angústias, sofrimentos, aspirações e sonhos. Todos sabemos, como lacanianos que somos, da importância da Língua e da Linguagem para nos constituirmos como sujeitos da falta. Mas para que o Laço se aprofunde será necessário também destacar as nossas incomensuráveis diferenças pois se é na proximidade que os nós se atam para formar laço também parece ser nas distâncias e nos equívocos que eles se desenrolam para se voltarem a formar. E, nesse sentido, o que hoje assistimos são laços sociais amorfos, amalgamados, sem distanciamentos devidos, levando-nos à indiferenciação psicótica, uma espécie de núcleo fusional onde, não nos separando, tornamo-nos uno quando deveríamos ser múltiplos a todo o momento e em toda a parte. Este Laço, o analítico, que aqui críamos, e estou certo de que todos os Laços serão assim, estão cravados de camadas estratificadas e contraditórias de sentidos e significantes devendo convocar uma escuta atenta, particular e singular.

Evito, por isso, qualquer tentativa de inculcação de uma psicanálise “à portuguesa” em detrimento de uma “à brasileira” ou “à francesa” pois, para mim, psicanálise só há uma: a freudiana que é, convém lembra-lo sempre, sobretudo os mais incautos, a do inconsciente. Há, por assim dizer, um oceâneo de palavras, sentidos e significantes impronunciáveis que separam os laços da nossa lusofonia, que os une também, pois foi e é ainda através deles que circulamos e que comunicamos. Talvez haja também, nas profundezas do oceâneo atlântico, muito para explicar neste laço denso entre Portugal e Brasil. Trata-se, porque não dizê-lo já para não manter este assunto na penumbra por mais tempo, de uma relação entre hemisférios – o do Norte, onde está Portugal, a Europa, o lado dominante do planeta, e o do Sul, onde está o Brasil e outros países latino-americanos, o lado dominado pela roldana da História. Uma relação, portanto, que é muito mais do que uma mera diferença geográfica, mas de epistemologias, de clivagens socioeconómicas e de dominações socioculturais. Convém que tenhamos isto presente na altura de fazermos Laço. Pois o Sul foi sempre dominado por um Norte geopolítico que ousa anular diferenças e inculca, a toda a hora e momento, o que julga ser verdadeiro e democrático, alimentando o progresso e a civilização, a força da ordem, fazendo equivaler tudo o que não cabe nesta ordem mundial como a barbárie incorrigível, o resíduo que deve levar ao silenciamento progressivo daqueles que ousem pensar, sentir e agir de forma diferente. Para Boaventura de Sousa Santos esta divisão ocorre no plano de uma “linha abissal” que separa o Norte e o Sul, sendo que neste último se podem encontrar: “(…) conhecimentos populares, leigos, plebeus, camponeses ou indígenas que desaparecem como conhecimentos relevantes ou comensuráveis por se encontrarem além do universo do verdadeiro e do falso” (Santos, 2009, p. 25).

Voltando agora à relação entre Portugal e o Brasil lembro-me, a este respeito, do discurso já muito embriagado, mas sempre certeiro, de Vinícius de Morais quando em casa de Amália Rodrigues[3] disse que o português se tinha que desengravatar. Refletindo sobre a sua estadia em Portugal após o convívio com intelectuais portugueses concluiu que teve uma impressão simultânea de beleza e tristeza: “Uma impressão de tristeza de ver este povo tão formalizado ainda. Eu tenho a impressão que o povo português precisa de se desengravatar, perder uma série de formalismos que ele conserva ainda. Despir-se de seu formalismo! Comunicar-se cada vez mais, amar-se sem problemas (…) Rompam com as cadeias, amem-se! Rompam com as tradições, rompam os preconceitos!”

O que queria, à distância das décadas, dizer Vinicius com a sua voz inebriada pela cachaça naquele serão de fados lisboeta?

Pois bem, vivia-se, na altura, a ditadura salazarista e os ventos eram, de facto, de um considerável engravatamento dos costumes, das tradições, temperados por um fado de esperança e de saudade onde os ventos que eram gerados além-fronteiras, ventos do progresso e da justiça, levavam logo os ditadores do regime fascista a apertar o laço (da gravata) dos portugueses que viviam com esperanças e sonhos de mudança. Relembro que também a gravata tem um laço. E este laço está, por vezes, apertado, tão apertado que ficam asfixiados e amedrontados todos aqueles que usam gravata. Espero que aqui não estejam presentes sujeitos engravatados. E, nos tempos que correm vemos o laço a ficar cada vez mais apertado – não o do Laço discursivo, claro. Mas o da gravata.

Comemoramos há dias o cinquentenário da nossa revolução dos cravos de 1974. Se a data é festiva deve ser também de reflexão profunda sobre o caminho que a pulsão revolucionária está a ter no nosso país. Afinal, depois da afirmação da liberdade, da emergência dos nossos impulsos reprimidos enquanto povo, qual tem sido o caminho desta atividade pulsional no pós-revolução? Acreditaríamos ingenuamente que após o momento da libertação da opressão que esta não se imporia novamente por forças mais ou menos conscientes? Enfim, quais os caminhos desta nova pulsão de liberdade que vivemos hoje, em pleno cinquentenário da revolução, em Portugal?

Por esta Europa e Mundo fora multiplicam-se experiências de natureza fascista (convém que não façamos polimentos na linguagem e que assumamos de uma vez por todas as pretensões dessas ideias convertidas em “neoconservadorismo”…) e, concretamente, em Portugal, essas ideias têm proliferado como cogumelos um pouco por toda a parte de que o seu sintoma mais recente são as últimas eleições legislativas de março onde o Partido Chega teve um milhão de votantes, afirmando-se como a terceira força política. Não estou a ensinar-vos nada sobre este aspeto pois durante quatro anos tiveram que lidar na presidência do vosso país com alguém com ideais análogos ao que esta força representa em Portugal. Mas importa lançarmos, desde já, a questão: como faremos Laço com o Outro, com o diferente, com o estrangeiro, quando isto nos acontece politicamente? Está na altura de resgatarmos a obra de um filósofo holandês, Rob Riemen, nomeadamente o seu Eterno Retorno do Fascismo (2012) onde a propósito da ascenção do fascismo no seu país refere: “Nos Países Baixos, Geert Wilders e o Partido da Liberdade são os protótipos do Fascismo contemporâneo e, enquanto tal, não são senão as consequências políticas lógicas de uma sociedade pela qual todos somos responsáveis. O fascismo contemporâneo resulta, mais uma vez, de partidos políticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivam um niilismo complacente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo dos negócios e de mass media que pretendem ser ventrículos do público em vez do seu espelho crítico. São estas as elites corrompidas que alimentam o vazio espiritual, contribuindo para uma nova expansão do fascismo” (pp. 75-76). Deduzimos por esta citação do filósofo holandês que todos temos a nossa quota parte pela ascensão atual do fascismo. Mas temos também a responsabilidade coletiva de o fazer desaparecer.

Façamos agora uma incursão no campo que nos traz aqui hoje: a psicanálise. Penso que ela, sendo um discurso sobre o qual nada se sabe é, por excelência, o discurso mais democrático de todos. Pois coloca-nos a todos no lugar dos equívocos, das desconfirmações, e das nossas próprias contradições. Foi assim desde o seu nascimento. Por muita teoria psicanalítica que exista, feita às vezes de forma enigmática por conceitos que permanecem cristalizados no tempo, a psicanálise pura – é essa que importa – reside na absoluta ignorância epistémica e o psicanalista que se orienta por ela e para ela não deve ser, embora muitas vezes o seja, um “proletário teórico”[4], espécie de “verificador” da teoria freudiana, lacaniana ou de qualquer outra linhagem.

De forma muito simples, mas bastante esclarecedora penso eu, para entendermos essa coisa tão rocambolesca chamada inconsciente basta pensarmos no seguinte: todo e qualquer sujeito em determinada fase da sua existência dá-se conta do hiato, da falha que existe entre o seu lado, isto é, a verdade, e tudo aquilo que personifica a impossibilidade efetiva da realização das suas necessidades pulsionais. Isto é o inconsciente. Simples. Em Lacan (1953) esse conceito está definido de forma muito clara também: “O inconsciente é a parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade do seu discurso consciente” (p. 260) ou ainda, como refere mais adiante no seu texto: “O inconsciente é o capítulo da minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado” (p. 261). Basta recordarmos a condição secundária/segunda consciência das histéricas de Freud, isto é, de um discurso consciente que sofria, afinal, de pouca consistência, de equívocos constantes, de falhas e deformações para percebermos que isso que aí se manifestava era, afinal, o produto dessa fenda entre o sujeito e o mundo. Dir-se-ia que a discursividade histérica não era retilínea, mas estava antes carregada de viragens, dobras e cortes. A teia discursiva era multiforme. Alguns viram défices. Freud viu um outro mundo. E com esse outro mundo, o que fez? Fez Laço e criou a psicanálise.

Ora, os tempos que vivemos hoje são contrários à psicanálise devido a uma contração muito significativa dos espaços para o contraditório, a reflexão e a tensão dialética. Não digo que sejam contrários no mesmo sentido da época freudiana mas ainda estamos perante uma “moral sexual civilizada”, vertida em preces de bons costumes e de meninos e meninas bem comportados (as). Quando digo contrários quero antes dizer que não são favoráveis, que a Psicanálise terá que lutar pela sua afirmação como arte, como ciência, como técnica, como uma teoria geral da ação humana, como uma metapsicologia, pois os tempos são de certezas que se querem absolutas e toda a atividade intelectual do Homem parece estar, não na identificação e elaboração das suas contradições e impasses mas numa fuga para a frente sem igual, num esforço desmesurado de não se escutar nada nem ninguém, de não se analisar coisa nenhuma. Tudo isto acontece numa sociedade que se autodesigna paradoxalmente de “terapêutica”, pois proliferam as psicoterapias do ego por esse Portugal e Mundo Fora. A psicanálise poderia encontrar aí, e talvez encontre em certo sentido, um ecossistema onde possa respirar e sobreviver. Mas talvez não tenhamos que vender assim tão ao desbarato o ouro da associação livre pelo cobre da sugestão direta das psicoterapias convencionais…

Psicanálise, pluralidade e democracia habitam em conjunto desde o seu nascimento. O pensamento único não é coincidente com a psicanálise. Daí que ela tenha sempre dificuldades em afirmar-se em qualquer época onde se afirmam os fascismos pois aí há o disparate, a bizarria, a infâmia e não o contraditório, a valorização das minorias discursivas, essas que Michel Foucault chamava de sombras da História. A psicanálise é, a meu ver, um discurso sobre as sombras da nossa existência situando-se nos antípodas da posição de algumas abordagens que se entretém em colocar feixes luminosos nas nossas vidas sempre precárias. A sombra humana, o não-dito, continua a ser, desde Freud, o que deve orientar o quefazer psicanalítico.

Por tudo isto que foi dito mas sobretudo por aquilo que não foi, torna-se urgente fazer Laço com os democratas de todo o mundo para que tenhamos a oportunidade de, com nossos Laços, realizarmos as batalhas ideológicas que se impõem no presente e no futuro. Citando o poeta Eugénio de Andrade: “É urgente o amor”. E o que é o amor senão o lado sublime do Laço Social? Daí que, voltando ao Laço Analítico, estamos em tempo de alegria e de festa porque vemos esta pluralidade afirmar-se no meu país, no vosso país, no meu eterno Portugal.

Referências bibliográficas

Glaser, B. & Strauss, A. (1967). The Discovery of Grouded Theory. New York: Aldine de Gruyter.

Lacan, J. (1953). Função e campo da linguagem em psicanálise. In J. Lacan (Ed.). Escritos (pp. 237-323). Rio de Janeiro: Edições Jorge Zahar

Riemen, R. (2012). O eterno retorno do fascismo. Lisboa: Editorial Bizâncio.

Santos, B. (2009). Para além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes. In B. Santos & M. Menezes (Eds.). Epistemologias do Sul (pp. 23-72). Coimbra: Edições Almedina.

  1. Este texto foi produzido no âmbito da comunicação oral que realizei nas I Jornadas de Psicanálise Laço Analítico/Escola de Psicanálise – Núcleo Portugal no dia 27 de Abril de 2024. O Encontro ocorreu na Casa do Brasil em Lisboa. Agradeço à colega Mel Rutkoski a gentiliza de ler este meu texto nas referidas jornadas.
  2. Membro do Centro Português de Psicanálise – Associação Lacaniana Internacional (CPP – ALI).
  3. Refiro-me ao célebre encontro ocorrido no final do ano de 1968 na casa de Amália Rodrigues onde estavam vários intelectuais e poetas, nomeadamente Vinícius de Morais, Natália Correia, David Mourão-Ferreira e José Carlos Ary dos Santos. Disponível em: Vinícius de Moraes em Casa de Amália Rodrigues – YouTube .
  4. Inspiro-me em Glaser e Strauss (1967) e na crítica que os autores fazem sobre o papel da teoria na pesquisa em ciências sociais e humanas.

As Demonstrações de Imaterialidade nos Jogos Olímpicos

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Ensaio produzido no Seminário de Património Imaterial para a docente Professora Doutora Raquel Henriques na NOVA FCSH.

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Figura 1 – Símbolo dos Jogos Olímpicos
Fonte: Comité Olímpico Internacional (COI)

Introdução:

Procurarei aqui estabelecer de que modo os Jogos Olímpicos podem ser considerados enquanto práticas culturais imateriais, utilizando mais especificamente as suas cerimónias de abertura enquanto principal foco de debate, devido à sua natureza cultural e política. Tentarei realizar, inicialmente, uma breve contextualização histórica em torno deste evento importantíssimo a nível global e, aliando-me a referências bibliográficas, bem como a recursos visuais, procurando desenvolver uma proposta prática de intervenção de modo a abordar esta vertente cultural do desporto, e de como este pode estabelecer uma conexão com a cultura.

A conceptualização dos Jogos Olímpicos enquanto património cultural imaterial fundamenta-se na definição estabelecida pela Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO (2003), que entende por património cultural imaterial “«(…) as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural.”[1]. Com base nesta definição, é possível enquadrar os Jogos Olímpicos, especialmente através das suas cerimónias, nos domínios das “artes do espectáculo” e das “práticas sociais, rituais e eventos festivos”, conforme estabelecido pela mesma Convenção.

O desporto é algo que faz parte da Humanidade desde que esta se organiza em sociedade. É algo que sempre esteve na natureza Humana, e sempre vai estar. Para além de ser uma ferramenta competitiva, o desporto é também um instrumento de formação, que visa a implementação de determinados valores socioculturais, seja em quem o pratica, seja em quem o assiste. O exemplo histórico disso mesmo é o caso dos Jogos Olímpicos, cuja organização, por sua vez, procura desde sempre apostar naqueles que são os “Valores Olímpicos”. Segundo o Comité Olímpico Internacional, estes valores são: a “Excelência”, “Respeito” e “Amizade”, os quais tentam cumprir a ideia de que os Jogos Olímpicos devem celebrar a atividade desportiva, pondo, deste modo, as rivalidades de lado, porque “é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa”[2].

Metodologia:

Este estudo foi baseado numa abordagem qualitativa focada na análise documental e nos estudos de caso utilizados para comparação. A metodologia empregue combina a análise de fontes primárias (documentos oficiais do COI, registos audiovisuais das cerimónias) com fontes secundárias (literatura académica em torno da temática do património imaterial, e estudos olímpicos).

Deste modo, foram selecionados três casos paradigmáticos: os Jogos de Berlim 1936, Los Angeles 1984 e Pequim 2008, que ilustram diferentes formas de instrumentalização cultural dos Jogos Olímpicos. A análise das cerimónias de abertura baseia-se nos cinco domínios do património imaterial estabelecidos pela UNESCO (2003): tradições e expressões orais; artes do espectáculo; práticas sociais, rituais e eventos festivos; conhecimentos e práticas relacionados com a natureza; e técnicas artesanais tradicionais.

A selecção dos casos de estudo obedeceu aos seguintes critérios: relevância histórica, impacto mediático global, inovação nas práticas cerimoniais e representatividade de diferentes contextos geopolíticos. Esta abordagem permite uma análise comparativa que evidencia as transformações das práticas culturais olímpicas ao longo dos séculos XX e XXI.

Breve História dos Jogos Olímpicos:

Os Jogos Olímpicos são, indiscutivelmente, a maior prova desportiva da História da Humanidade. O primeiro registo deste evento, que serviria enquanto uma celebração a Zeus, remonta ao ano de 776 a.C., em Olímpia. Os Jogos seriam, deste modo, uma cerimónia religiosa sagrada, que se realizava de quatro em quatro anos, e que parava o “Mundo Grego”, fazendo com que, desse modo, se apaziguassem disputas armadas[3]. Estes eram vistos como eventos de tal importância que os autores clássicos de História denominavam o tempo entre Jogos como “Olimpíada”[4]. No ano de 394, já durante o domínio de Roma, o Imperador Teodósio I aboliu a realização dos Jogos Olímpicos, devido ao Paganismo inerente a este festival, no qual estavam representadas modalidades como, por exemplo, o Pancrácio e a Corrida de Cavalos[5].

Foi apenas em 1896 que se voltou a realizar outra edição dos Jogos Olímpicos. Esta iniciativa, fruto da insistência e determinação de Pierre de Coubertin, William Penny Brookes, Dimítrios Vikélas e William M. Sloane, ficou marcada não apenas pelo fascínio que estas personalidades nutriam pela Cultura Clássica, como também pela procura da criação de uma competição desportiva que funcionasse enquanto um órgão promotor do entendimento internacional das pessoas deste Mundo[6].

Nos dias de hoje, os Jogos Olímpicos são vistos enquanto o evento desportivo de maior importância à escala global, uma vez que atraem atletas de mais de 200 nações[7] de dois em dois anos, alternando entre Jogos Olímpicos de Verão e Inverno. Deste modo, é possível referir que este autêntico festival da Humanidade se encontra na vanguarda daquele que é o palco desportivo internacional, constituindo aquilo que Maurice Roche considera enquanto “mega-evento”, ou seja, eventos de larga escala com impacto global significativo na cultura, política e economia[8].

Os Jogos Olímpicos Enquanto Património Cultural Imaterial: Enquadramento Teórico

Para compreendermos os Jogos Olímpicos enquanto património cultural imaterial, é essencial analisá-los através dos cinco domínios estabelecidos pela Convenção da UNESCO (2003):

Artes do Espectáculo: As cerimónias olímpicas podem constituir manifestações artísticas complexas que integram em si aspetos como é o caso da música, dança, teatro e as artes visuais. Estas autênticas performances transformam elementos culturais locais em espectáculos globais, criando desse modo novas formas de expressão artística que transcendem as fronteiras nacionais, e que se transformam em autênticos rituais[9].

Práticas Sociais, Rituais e Eventos Festivos: Os Jogos Olímpicos enquadram-se claramente neste domínio, na medida em que constituem práticas sociais que proporcionam às comunidades um sentimento de identidade e de continuidade, aspeto que será abordado mais à frente. Os rituais olímpicos, desde o acender da tocha, ao juramento dos atletas, estabelecem uma continuidade temporal que liga o passado grego ao presente global[10].

Transmissão e Salvaguarda: A questão da transmissão, fundamental no conceito de património imaterial, manifesta-se nos Jogos através da educação olímpica, dos programas de voluntariado e da própria mediatização do evento. O património cultural imaterial não é, por isso, algo que possa existir intrinsecamente, mas sim algo construído através dos processos de transmissão e do reconhecimento comunitário[11].

Os Jogos Olímpicos e a Sua Relação com a Cultura:

Ainda que o fenómeno dos Jogos Olímpicos possa ser mais comumente remetido ao panorama desportivo, é possível ligá-lo às artes e à cultura desde o seu ressurgimento em 1896, na medida em que os programas culturais, isto é, as competições artísticas ou festivais, são um campo privilegiado para se consolidarem simbologias[12], que irei mencionar mais à frente no ensaio.

É possível definir a relação que as artes e a cultura exibem para com os Jogos Olímpicos em três períodos temporais[13]: no primeiro, de 1896 a 1912, as competições de artes e a cultura não estavam formalmente inseridas nos Jogos; foi a partir dos Jogos de Estocolmo (1912) até aos de Londres (1948) que começaram a existir as chamadas “Olimpíadas Culturais”[14]; e por fim, desde os Jogos de Melbourne 1956 aos de Barcelona 1992, tendo este último marcado uma mudança paradigmática neste tipo de representação cultural.

De modo a compreendermos esta relação entre a cultura e os Jogos Olímpicos, é importante referir que Pierre de Coubertin, não se limitou apenas a reviver este festival desportivo da Antiguidade, uma vez que, com a inclusão de um programa artístico, procurou alcançar a dimensão cultural e artística dos Jogos originais, desenvolvendo um “Espírito Olímpico” que, de modo a replicar os comportamentos adotados pelos atletas, filósofos, poetas, músicos e escultores da antiguidade, visava o cumprimento da premissa de que o corpo, espírito e mente estão conectados. Para isso, Coubertin usou a palavra eurhythmy para designar o “casamento harmonioso do desporto e da cultura, atletismo e arte, músculo e mente”[15].

Foi só a partir de 1912, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, que estas dinâmicas culturais passaram a ser postas em prática, uma vez que, paralelamente às competições desportivas, começaram a ser organizadas competições artísticas, onde os artistas passaram, tal como os atletas, a competir por medalhas. O caminho destas “Olimpíadas Culturais” foi algo inconstante e polémico uma vez que existia uma certa dificuldade na implementação das mesmas[16], talvez por determinadas medidas tomadas pelo Comité Olímpico Internacional (COI), como o facto de ter sido determinado que a criação artística teria de estar ligada ao desporto, ou mesmo devido ao julgamento, muitas das vezes subjetivo, das obras realizadas. Deste modo, conforme os anos foram passando, as “Olimpíadas Culturais” começaram a ocupar um lugar periférico na organização dos Jogos, com exceção dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, nos quais houve um investimento financeiro e institucional extraordinário por parte do regime Nazi[17].

O período entre os Jogos Olímpicos de Melbourne 1956 e os Jogos Olímpicos de Barcelona 1992 marcaram uma mudança paradigmática na relação entre a cultura e os Jogos, na medida em que, em oposição às “Olimpíadas Culturais” de outrora, começaram a realizar-se uma enorme variedade de formatos de programação cultural, assumindo a forma de exposições e festivais em vez da vertente artística competitiva, nas cidades onde os Jogos se sediavam. Estão incluídas nesta variedade de formatos culturais a realização de não apenas feiras/festivais, como também as cerimónias de abertura e encerro. É, portanto, nestas cerimónias que me apoiarei para tentar provar a ideia inicial que propus.

As Cerimónias de Abertura Enquanto Prática Cultural Imaterial:

Tal como referi acima, os Jogos Olímpicos são um fenómeno que une a Antiguidade com a Contemporaneidade. A natureza física do desporto, a diplomacia e a partilha de identidade cultural, são aspetos recorrentes nestes Jogos, que estão cobertos de simbolismos. Por exemplo, o logo dos Jogos, o símbolo dos cinco anéis (fig.1) representa os cinco continentes, interligados em harmonia. Assim sendo, o sentimento Olímpico estabelece-se enquanto uma filosofia que promove a cultura e a educação através do desporto, uma vez que as cidades que recebem os Jogos Olímpicos são convidadas a partilhar os seus costumes, tradições e património. Deste modo, e com o fim das “Olimpíadas Culturais”, o que se estabeleceu enquanto verdadeiro destaque cultural nos Jogos, foram as cerimónias de abertura e de encerro. Estas cerimónias, em particular a de abertura, constituem-se enquanto ocasiões para as nações projetarem a sua identidade e valores para o Mundo[18].

Uma imagem com relva, estádio, céu, ar livre

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Figura 2 – Reichssportfeld (atual Olympiapark Berlin)
Fonte: Michael Barera

O exemplo dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, Los Angeles 1984 e Pequim 2008, vão ser abordados por Kevin Mulcahy enquanto “megaeventos que globalizam a identidade”[19]. É, portanto, através das cerimónias de abertura destes eventos, e tendo como referência a obra do autor citado acima, que pretendo explicar de que modo é que os Jogos Olímpicos se estabelecem enquanto prática cultural imaterial.

Uma imagem com vestuário, pessoa, homem, barco

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Figura 3 – Cerimónia de Abertura de Berlim ‘36
Fonte: DW

Iniciando de maneira cronológica, é necessário mencionar que os Jogos Olímpicos de Berlim foram um festival cultural sem precedentes quanto ao seu tamanho e natureza[20], e que, por razões óbvias e tendo em conta o teor histórico, são considerados como sendo o evento mais controverso da história Olímpica, muito por conta do uso propagandístico que o regime Nazi deu ao mesmo, usando-o de modo a legitimar os seus princípios, como bem se pode observar no filme Olympia, de Leni Riefenstahl. Apesar da hesitação inicial em relação à receção dos Jogos[21], estes foram notáveis não apenas na construção dos Estádios Olímpicos[22], como também pela variedade de inovações, muitas delas ainda hoje utilizadas. Este evento Olímpico foi o primeiro a desenvolver uma transmissão televisiva, fator que permitiu aos Jogos começarem a ser verdadeiros megaeventos, configurando-os como um espetáculo desportivo globalizado. Ainda que a inovação tecnológica tenha sido relevante, a cerimónia de abertura (fig.3) foi o grande epítome deste espetáculo[23]. Inicialmente, Hitler foi proclamado enquanto o “protetor destes jogos Olímpicos”, e Theodor Lewald, o Presidente do Comité Olímpico Alemão, decretou as conexões de sangue entre os alemães e os gregos antigos[24]. Foi também a partir destes Jogos que se deu início à tradição da passagem e ignição da tocha Olímpica, que foi transportada por atletas, de mão em mão, até chegar a Berlim, tal como consta no filme Olympia[25]. Todavia, a cerimónia de abertura dos Jogos de 1936, apesar de pomposa, ficou marcada pela sua controvérsia, na medida em que esta serviu enquanto palco para a celebração de Hitler, do seu regime e dos Jogos Olímpicos, seguindo essa ordem de importância[26]. A cerimónia de abertura de Berlim’36 é tida em conta como uma forma de o regime Nazi promover a sua ideologia política, especialmente quando o líder alemão entra pelos portões da maratona, ao som de trompetes e com o levantar de suásticas vermelhas, demonstrando símbolos culturais contrastantes da nação anfitriã. Podemos observar não apenas estes elementos, mas também, a ideia de como o Homem deve ser[27], e através do filme de Rienfenstahl, conseguimos observar Hitler a sair de cena quando atletas negros sobem ao pódio. Deste modo, é possível estabelecer que a organização dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936 procurou a criação de uma imagem completamente cinemática em torno do seu regime, estabelecendo-se como o verdadeiro precedente no uso das cerimónias de abertura enquanto instrumento para demonstrar a imagem que a nação organizadora dos Jogos deseja projetar de si ao público geral[28].

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Figura 4 – McDonald’s Swim Stadium (atual Uytengsu Aquatics Center)
Fonte: University of Southern California

Em contrapartida a Berlim‘36, os Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 estabelecem-se como um exemplo claro de “gestão privada”, uma vez que o Comité que organizou os Jogos foi estabelecido por uma empresa privada cujo departamento cultural contratou agências que organizaram a vertente cultural do evento, enquanto co-produtores[29]. Portanto, apesar de estes Jogos serem considerados por Mulcahy como os “Jogos da Guerra Fria”[30], o enfoque dos mesmos não está principalmente relacionado com o aspeto nacionalista, tal e qual como observamos no caso de Berlim’36. O aspeto caracterizante está, deste modo, relacionado, primeiramente, com facto de a organização se ter apoiado principalmente em parcerias com corporações privadas, de modo a angariar fundos para estes “Jogos Olímpicos de financiamento privado”[31]. Podemos observar que este investimento privado se estendeu ao Património Edificado, uma vez que muitos recintos desportivos adotaram o nome das marcas patrocinadoras, como é o caso do McDonald’s Swim Stadium (fig.4.), em Los Angeles, e que este capital inicial se mostrou muito proveitoso para a economia local e para o Programa Desportivo Americano[32].

Uma imagem com céu, ar livre, ar, bandeira

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Figura 5 – Voo de homem equipado de uma mochila a jato – LA ‘84
Fonte: UOL

Deste modo, Los Angeles ’84 mudou, com certeza, a natureza dos Jogos Olímpicos, na medida que, em vez de ser um evento que extrai fundos imensos aos cofres estatais, característica de muitos Jogos, este é capaz de transformar os Olímpicos em lucro. Justifica-se, deste modo, a afirmação de que “Tudo estava para venda em 1984 em Los Angeles”[33], na medida em que até mesmo o transporte da tocha Olímpica, durante a cerimónia de abertura, foi colocado à venda[34]. No entanto, e segundo Mulcahy (2017), esta autêntica Hollywoodização cultural, apesar de contribuir para uma total americanização das cerimónias de abertura[35], uma vez que se opõe aos valores tradicionais das cerimónias Olímpicas, foi a única solução, e a razão para o sucesso dos Jogos, que ficaram deste modo marcados pela ideologia económica americana, cuja qual procurava provar e projetar a superioridade dos valores americanos em contrapartida com os soviéticos, justificando desta maneira a relação dos Jogos com a Guerra Fria. Deste modo, fica visível o facto de que a organização americana procurou criar uma ligação filmográfica entre o espectador e o evento, contribuindo para a glorificação aos Estados Unidos enquanto verdadeiros criadores culturais, que ditam as modas, cujas iniciativas acabam por moldar a cultura global.

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Figura 6 – Fogos de Artificio – Pequim ‘08
Fonte: NBC News

É seguro afirmar que receber um evento à escala dos Jogos Olímpicos é um passo importante para o reconhecimento do anfitrião à escala mundial e o caso de Pequim ’08 é um ótimo exemplo disso mesmo. A aceitação internacional é algo que a República Democrática da China veio a procurar desde que o seu governo foi reconhecido pelos Estados Unidos da América em 1979[36], e receber o direito de organizar os jogos Olímpicos veio demonstrar o anuimento da China enquanto uma grande e antiga nação, que rapidamente se desenvolve enquanto sociedade[37].

Uma imagem com água, captura de ecrã, noite, luz

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Figura 6 – Pintura de Pergaminho Gu Qin & Shanshui – Pequim ‘08
Fonte: NBC News

Durante a sua cerimónia de abertura, a organização chinesa procurou realizar um contraste entre a sua tradição e a continuidade histórica, demonstrando harmonia e disciplina com um espetáculo de fogos de artifício (fig.6), a representação da pintura de pergaminho Gu Qin & Shanshui (fig.7) e o rufar de 2008[38] tambores (fig.8) que tocaram em uníssono, criando, deste modo, um espetáculo cuja disciplina dos executantes demonstra claramente a grandeza de uma nação. Esta cerimónia de abertura, que foi a mais cara de toda a História Olímpica[39], é utilizada, segundo Mulcahy (2017), enquanto simbologia para o desenvolvimento das pessoas da China, na medida em que demonstram a tradição da cultura imperial chinesa e uma mensagem de precisão, de arte, e de energia do povo chinês.

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Figura 7 – O tocar de 2008 tambores – Pequim ‘08
Fonte: NBC News

É ainda necessário referir que, apesar de a politização dos Jogos Olímpicos não ter começado em 2008, tal como pude observar com uma abordagem realizada aos outros dois eventos, a cerimónia de abertura de Pequim ’08 foi uma clara promoção dos valores benevolentes[40] que o novo líder socialista chinês queria transmitir ao mundo, funcionando mesmo como um exercício de diplomacia suave, que cria um efeito positivo, de aproximação mundial ao regime, fazendo com que os Jogos sirvam, deste modo, enquanto um reforço de valores culturais tradicionais, bem como a organização e empenho demonstrado pela população chinesa da atualidade.

Em suma, é importante referir o estado em que se encontravam as “Olimpíadas” anteriormente referidas. As iniciativas culturais desenvolvidas nos Jogos Olímpicos de Berlim 1936 basearam-se na ideia de que este evento seria transmitido para todo o mundo para, de certo modo, publicitarem os seus ideais com a criação de uma campanha cultural, que foi utilizada enquanto um mecanismo que visava tornar o discurso político da Alemanha Nazi mais visível a nível Mundial, nela englobando iniciativas como é o caso da primeira ignição da Tocha Olímpica, e a criação do primeiro filme com a temática Olímpica; no caso Jogos de Los Angeles 1984, que se deram durante um período da História marcado por uma autêntica batalha cultural entre EUA e União Soviética, a comissão organizadora americana procurou provar e legitimar a superioridade cuja qual acreditavam ter sobre os seus adversários políticos através de um planeamento assente em patrocínios corporativos que, com base numa total “americanização” dos Jogos, adotando iniciativas como é o caso da entrada de um homem munido de uma mochila a jato, durante a cerimónia de abertura, tornaram este evento nos Jogos Olímpicos mais bem sucedidos, economicamente falando, da História[41]; já no caso de Pequim ’08, a “Olimpíada Cultural” foi composta por festivais anuais que se prolongaram de 2003 a 2008, os quais duravam um mês, contando com uma variedade autêntica de eventos culturais e artísticos, que por sua vez, destacaram a diversidade cultural da China, muito observada durante a cerimónia de abertura dos Jogos, que fomentando um autêntico sentimento de pertença e unidade nacional através dos espetáculos de fogos de artifício e dos rufares de tambores, apoiou politicamente o líder chinês, de modo a que a imagem projetada do país para o mundo fosse sempre reflexo de disciplina, organização, benevolência, eficiência e capacidade tecnológica, com o intuito de demonstrar a China como uma potência global emergente[42].

Questões Críticas: Desafios da Patrimonialização Olímpica:

Autenticidade versus Espectáculo: Uma das questões centrais para a consideração dos Jogos Olímpicos enquanto património imaterial reside na questão da autenticidade. As cerimónias olímpicas constituem performances que oscilam entre a genuína expressão cultural e a representação teatralizada para consumo global, e tendo a UNESCO (2003) estabelecido que o património imaterial deve ser “transmitido de geração em geração” e “constantemente recriado pelas comunidades”, no caso olímpico isto não se regista, na medida em que a transmissão dá-se através de múltiplos canais como é o caso: da educação olímpica nas escolas, dos programas de voluntariado, da formação de técnicos e dirigentes, e da própria mediatização global do evento.

Comercialização e Integridade Cultural: A crescente comercialização dos Jogos Olímpicos tem vindo a levantar questões sobre a preservação da integridade das práticas culturais associadas às cerimónias. Existe uma tensão constante entre as necessidades de financiamento dos Jogos, e a preservação dos valores olímpicos tradicionais. A introdução de patrocínios comerciais nas cerimónias, a venda de direitos televisivos e a criação de merchandise oficial transformam o património olímpico numa commodity, levantando questões sobre se esta comercialização vai comprometer ou enriquecer as práticas culturais associadas aos Jogos[43].

As Olimpíadas Culturais Atualmente – O Caso de Paris 2024:

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Figura 8 – Galopar de Zeus, o cavalo de metal – Paris 2024
Fonte: NBC News

A última edição dos Jogos Olímpicos deu-se em Paris 2024, regressando à capital francesa passados exatamente cem anos desde a última receção parisiense dos Jogos. É, por isso, necessário indicar e refletir, baseando-me na cerimónia de abertura, de que modo as “Olimpíadas Culturais”, à semelhança das que tive a oportunidade de analisar acima, servem para demonstrar ao mundo a imagem política e cultural de uma nação.

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Figura 9 – Le Festin des Dieux – Paris 2024
Fonte: Olympics, via X

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Figura 10 – A Última Ceia, por Leonardo Da Vinci
Fonte: Santa Maria delle Grazie

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Figura 11 – Le Festin des Dieux, de Jan Van Biljert
Fonte: Musée Magnin Dijon

Durante a cerimónia de abertura, os pontos que se mais se destacaram foram o galopar de Zeus, um cavalo montado por um cavaleiro, ambos feitos de metal, cujo qual munia a bandeira Olímpica sobre as suas costas, e que se deslocava sobre o rio Sena (fig.8); e a representação elencada por drag queens (fig.9), que levou uma parte do público e alguns comentadores e políticos[44] a acreditar que era uma paródia dirigida à pintura de Leonardo Da Vinci: A Última Ceia (fig.10), mas que, no entanto, teve a sua inspiração na pintura do século XVII, Le Festin des Dieux (fig.11), de Jan Van Biljert, fazendo com que, deste modo, a representação escolhida por Thomas Jolly[45], diretor do espetáculo, para a cerimónia de abertura, pouco estivesse relacionada com o Cristianismo, uma vez que, esta representação, está infinitamente mais conectada ao passado grego dos Jogos Olímpicos. Importante será referir ainda que o espetáculo de Zeus, o cavalo de metal, mostrou-se como um símbolo de resiliência, paz e solidariedade, fazendo com que o galopar se transformasse num autêntico feito de engenharia, que intercala a arte e a tecnologia. Já no caso da representação polémica da pintura Le Festin des Dieux, a inspiração na mitologia, apesar de para muitos não ter sido explícita, pretendia fazer referência à cultura grega, bem como utilizar o tableau vivant[46], de modo a conectar a Grécia Antiga com a França atual, utilizando o Le Festin des Dieux enquanto uma maneira de demonstrar a falta de harmonia, e a completa diversidade que conseguimos compreender na sociedade moderna.

Fica claro, portanto, que apesar das constatações e da polémica, a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 veio tentar, através destes espetáculos culturais, demonstrar tanto os valores de excelência e inovação, bem como os valores da tolerância, igualdade e diversidade. Todavia, a organização dos Jogos não se encontra minimamente preocupada com o facto de as camadas mais conservadoras de espectadores, políticos e comentadores, considerarem que as cerimónias não devem ter shows de drag queens lá representadas, uma vez que faz questão em ir contra os processos de exclusão deste tipo de arte.

Vitalidade e Adaptação Contemporânea:

A cerimónia de Paris 2024 vem demonstrar a capacidade de adaptar o património olímpico ao integrar questões contemporâneas como é o caso da diversidade de género, da inclusão LGBTI+ e da sustentabilidade ambiental. Esta adaptação exemplifica aquilo que a UNESCO (2003) designa como “vitalidade” do património imaterial, ou seja a sua capacidade de se renovar mantendo a sua relevância social. O espetáculo de Zeus, o cavalo de metal, mostrou-se, deste modo, enquanto um símbolo de resiliência, paz e solidariedade, fazendo com que o seu galopar se transformasse num autêntico feito de engenharia, que intercala a arte e a tecnologia. Esta fusão entre tradição mitológica e inovação tecnológica ilustra a maneira como o património imaterial pode incorporar elementos contemporâneos sem que se perca a sua ligação às origens históricas.

Conclusão e Reflexão:

Com o decorrer deste ensaio, dediquei-me a explorar e identificar de que maneira os Jogos Olímpicos transcendem a esfera desportiva e se consolidam enquanto uma prática cultural imaterial, na medida em que conectam valores históricos, sociais e artísticos. A análise desenvolvida, baseada nos casos de Berlim 1936, Los Angeles 1984, Pequim 2008 e Paris 2024, demonstra que as cerimónias olímpicas constituem manifestações complexas de património cultural imaterial uma vez que operam simultaneamente local, nacional e globalmente.

A aplicação do quadro conceptual da UNESCO (2003) aos Jogos Olímpicos revela que estes se enquadram claramente nos domínios das “artes do espectáculo” e das “práticas sociais, rituais e eventos festivos”. A sua natureza de património imaterial manifesta-se através de múltiplas dimensões: a transmissão intergeracional de valores e práticas; a capacidade de adaptação e renovação; e o reconhecimento comunitário da sua importância cultural.

Os casos de estudo analisados evidenciam também os desafios e tensões inerentes à patrimonialização de eventos de escala global. A instrumentalização política (Berlim 1936), a comercialização (Los Angeles 1984) e a utilização como instrumento de soft power (Pequim 2008) demonstram que o património olímpico não é neutro, uma vez que é constantemente negociado e ressignificado, de acordo com interesses específicos.

A evolução das cerimónias olímpicas, desde as primeiras transmissões televisivas de 1936 até às inovações digitais contemporâneas, ilustra a capacidade adaptativa deste património cultural. Deste modo, conclui-se que o património não é algo que existe objetivamente, mas sim algo que é constantemente construído e reconstruído através de processos de seleção, interpretação e transmissão[47].

Contributos para a Teoria do Património Imaterial:

O estudo desenvolvido procurou contribuir para a literatura focada no património imaterial ao demonstrar de que modo as práticas culturais contemporâneas podem adquirir o estatuto patrimonial através da sua capacidade de mobilizar comunidades em torno de valores partilhados. Deste modo, buscou também comprovar-se que os Jogos Olímpicos constituem um caso único de património imaterial, na medida em que são simultaneamente um fenómeno global, na sua escala, e local, na especificidade das suas manifestações.

A análise das cerimónias olímpicas revelou também a importância da mediatização para a construção do património imaterial contemporâneo. Ao contrário das formas tradicionais de património imaterial, que se transmitem através de contacto direto entre comunidades, o património olímpico opera através de redes mediáticas globais, que permitem a participação de milhões de pessoas tanto presencial, quanto virtualmente.

Reflexão Final:

Os Jogos Olímpicos constituem um fenómeno cultural complexo que desafia as categorias tradicionais do património imaterial. A sua escala global, a sua mediatização intensiva e a sua instrumentalização política e comercial vão colocar questões importantes sobre os processos contemporâneos de patrimonialização. Não obstante destas tensões e contradições, os Jogos Olímpicos mantêm a sua capacidade de mobilizar emoções coletivas, de promover valores de excelência, respeito e amizade, e de criar momentos de comunhão global que transcendem diferenças nacionais, étnicas e religiosas. Esta capacidade de criar um significado partilhado através de uma escala global constitui, por si só, uma forma valiosa de património cultural imaterial.

“Mega-eventos” como os Jogos Olímpicos funcionam enquanto “laboratórios sociais” através dos quais se podem experimentar novas formas de organização social e cultural[48]. Assim sendo, o seu estudo e preservação enquanto uma manifestação de património cultural imaterial não se justifica apenas pela sua importância histórica, mas também pelo seu potencial para informar a construção de um futuro mais inclusivo e harmonioso.

A consideração dos Jogos Olímpicos enquanto património cultural imaterial obriga-nos a repensar sobre as nossas concepções em torno da tradição e modernidade, local e global, autenticidade e performance. Ademais, para além de resolver essas tensões, importa reconhecê-las como elemento constituinte da experiência cultural contemporânea, e trabalhar para que a patrimonialização sirva os seguintes propósitos: inclusão, diálogo intercultural e desenvolvimento sustentável.

Em última análise, os Jogos Olímpicos recordam-nos que o património imaterial não reside apenas nas práticas ancestrais das comunidades rurais, mas também nas formas culturais emergentes que respondem aos desafios e oportunidades do mundo atual e globalizado. É nesta capacidade de gerar novas formas de património cultural que reside, talvez, a maior contribuição dos Jogos Olímpicos para a diversidade cultural da Humanidade.

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SMITH, L. (2006). Uses of heritage. Routledge. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/286919161_Uses_of_Heritage.

UNESCO (2003). Convenção Para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial. Disponível em: https://ich.unesco.org/doc/src/00009-PT-Portugal-PDF.pdf

WILLIAMS, R. (1958). Resources of Hope: Culture, Democracy, Socialism. Culture is Ordinary. Capítulo 9, pp. 3-14.



  1. (UNESCO, 2003).




  2. Comité Olímpico Internacional (https://olympics.com/ioc/olympic-values).




  3. Ao contrário daquilo que se defendeu durante muitos anos, na Academia, a Trégua Olímpica – Ekecheiria – não significaria, segundo David C. Young (2024), um “cessar fogo” entre as polis, mas sim uma trégua para defender Olympia de uma invasão, e proteger os atletas e espectadores que para aqui viajavam.




  4. (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 2025).




  5. (International Olympic Commitee, s.d).




  6. (MULCAHY, 2017).




  7. (GAMMELSÆTER, 2019).




  8. (ROCHE, 2000).




  9. (KIRSHENBLATT-GIMBLETT, 2004).




  10. (SEGRAVE & CHU, 1988).




  11. (SMITH, 2006).




  12. (CARNEIRO, 2018).




  13. (GARCÍA, 2010).




  14. Segundo Tony Estanguet (2024), estes consistem num programa cultural que visa demonstrar a proximidade entre o desporto e a cultura, que muitas das vezes são colocados um contra o outro, mas que, no entanto, têm muito em comum. É o caso da performance, das emoções, a busca pela estética do movimento, mas também pela oferta diversificada e multidisciplinar. Deste modo, as “Olimpíadas Culturais” são uma oportunidade de celebrar os valores, o significado e a diversidade, que o desporto e a cultura têm em comum.




  15. (CARNEIRO, 2018).




  16. (HANNA, 1999).




  17. (CARNEIRO, 2018).




  18. (MULCAHY, 2017).




  19. (ibidem, 2017). Este é o título de um capítulo do seu livro “Public Culture, Cultural Identity, Cultural Policy: Comparative Perspectives”, que retrata as cerimónias de abertura dos jogos Olímpicos enquanto uma política cultural.




  20. (GARCÍA, 2010).




  21. Segundo Mulcahy (2017), o Ministro da Propaganda Nazi, Josef Goebbels viu nos Jogos Olímpicos uma grande oportunidade de dar ao regime uma imagem civilizada, ordeira, de modo a desvalorizar o criticismo feito às Leis de Nuremberg (que impediam atletas judeus de competir), e de fortalecer o apoio popular ao regime e a Hitler.




  22. Importante será referir o caso do Reichssportfeld (fig.2.), atual Olympiapark Berlin, que foi construído para albergar eventos de larga escala, onde era possível que se realizassem provas de diferentes desportos ao mesmo tempo. Este é um exemplo claro da arquitetura do regime Nazi, que serviu para demonstrar a grandeza estatal, e que sobreviveu a bombardeamentos na Segunda Guerra Mundial.




  23. (MULCAHY, 2017).




  24. (ibidem, 2017).




  25. O seguinte link contém o vídeo da versão do filme Olympia com a melhor qualidade que consegui encontrar: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/film/opening-of-1936-summer-olympic-games




  26. (Mulcahy, 2017).




  27. No filme Olympia, de Leni Riefenstahl, podemos observar o ideal Nazi do corpo masculino presente na cerimónia de abertura dos Jogos. Isto é, a importância dada ao corpo Ariano (loiro, alto, másculo), na medida em que o mesmo sendo racialmente superior, deve dominar fisicamente. Segundo Mulcahy (2017), os alemães usaram a cerimónia de abertura para acender a tocha Olímpica metaforicamente, de modo a estabelecerem-se, tal como os Arianos, descendentes, e legítimos herdeiros dos gregos antigos, e da sua cultura.




  28. (MULCAHY, 2017).




  29. (GARCÍA, 2010).




  30. Isto porque o Bloco Soviético tomou uma medida de boicote aos Jogos, como forma de retaliação a um anterior boicote americano nos Jogos de Moscovo (1980), causado pela intervenção soviética no Afeganistão, em 1978. O boicote soviético juntou mais de 16 nações (de 138) que não participaram no evento – o maior número de sempre, nos Olímpicos. Estes jogos, de 1980 e 1984, em semelhança à Guerra Fria, serviram como ocasiões perfeitas para ambos os polos, americano e soviético, partilharem a superioridade da sua ideologia. Os Jogos Olímpicos são, mais uma vez, palco de propaganda política.




  31. (MULCAHY, 2017).




  32. Segundo a BRITANNICA (2025), os Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 geraram um lucro de $225 milhões que foram reencaminhados apenas para os Programas Desportivos Americanos, sendo que as universidades puderam construir melhores instalações, e se criaram melhores condições desportivas. Ainda assim, estima-se que os Jogos injetaram um estimado de $2.4 mil milhões na economia do Sul da Califórnia, fazendo com que quaisquer cidades com aspirações globais tenha a ambição de ser anfitriã de um evento Olímpico.




  33. (MULCAHY, 2017).




  34. O preço a pagar para carregar a tocha Olímpica era de $3000 por quilómetro. Esta iniciativa angariou $11 milhões, que foram doados a empresas de caridade à escolha dos participantes compradores.




  35. Podemos verificar este aspeto no facto de que, durante a cerimónia de abertura dos Jogos de Los Angeles, um homem entrou no Estádio Memorial Coliseum, sobrevoando-o, e aterrando sobre o logo dos Jogos Olímpicos equipado com uma mochila a jato nas suas costas (fig.5).




  36. Segundo declarações do Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China (2022), no ano de 1979, os EUA reconheceram, através do Comunicado Conjunto sobre o Estabelecimento das Relações Diplomáticas China-EUA, que o Governo da República Popular da China era o governo legítimo.




  37. (MULCAHY, 2017).




  38. A numerologia enquanto elemento cultural foi parte integrante desta cerimónia. A cerimónia de abertura começou às 8h da manhã, no dia oito, dos mês oito, do ano de 2008. Nem os 2008 participantes no espetáculo dos tambores, nem outras referências ao número oito foram mera coincidência, uma vez que o número oito é um número da sorte, associado à fortuna e prosperidade no folclore chinês.




  39. Segundo o Gavini (2020), a abertura de Pequim foi a mais cara da história. A China gastou $100 milhões apenas na cerimónia de abertura, mais do que a soma do investimento nos Jogos de Atenas, Londres e Rio de Janeiro.




  40. Segundo Mulcahy (2017), o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jibao queriam construir uma nova visão para uma sociedade socialista harmoniosa, através da procura e sustentabilidade científica, mostrando a China ao mundo. A cerimónia de abertura serviu para isso mesmo, para redefinir a identidade política chinesa, repleta de valores tradicionais e universais.




  41. (LIESER 2015).




  42. (GARCIA, 2008).




  43. (PREUSS, 2004).




  44. No caso português, a deputada do partido CHEGA, Rita Matias criticou a cerimónia dizendo, por suas palavras, que esta “enaltece uma agenda que ataca a inocência das nossas crianças” (via instagram: https://www.instagram.com/ritamariamatias/reel/C-BJjESoycX/).




  45. O qual, numa declaração ao jornal francês BFM TV France, proferiu o seguinte: “Eu acho que foi bastante claro. O Dionísio chegou à mesa… Porque é que ele lá está? Porque é o deus dos festejos, do vinho, e pai de Sequana, a deusa do rio Sena” (via Visão: https://visao.pt/atualidade/desporto/jogos-olimpicos-paris-2024/2024-07-28-nao-era-jesus-mas-dionisio-o-deus-do-vinho-como-uma-indignacao-apressada-desencadeou-uma-grande-polemica-olimpica/).




  46. Trata-se de uma representação de uma obra/pintura feita por um grupo de atores e/ou modelos.




  47. (SMITH, 2006).




  48. (ROCHE, 2000)


O princípio da Dignidade da Pessoa Humana e a Procriação Medicamente Assistida

O princípio da Dignidade da Pessoa Humana e a Procriação Medicamente Assistida: Breve Comentário ao Acórdão n.º 101/2009, de 3 de março de 2009, do Tribunal Constitucional. Autor: Guilherme Manuel Miranda Correia Gonçalves.

ÍNDICE DE SIGLAS E ABREVIATURAS:

Ac. — Acórdão.
CRP — Constituição da República Portuguesa.
PMA — Procriação Medicamente assistida.
TC — Tribunal Constitucional.
HLA — Human leukocyte antigen.

Introdução

A aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana na justiça constitucional portuguesa coloca no dia-a-dia da nossa democracia contemporânea questões particularmente complexas. Na verdade, para além da problemática atinente à delimitação do seu conteúdo o mesmo levanta questões localizadas na intersecção com vários temas relevantes.

Focando a análise da procriação clinicamente auxiliada à luz do princípio da dignidade da pessoa humana, tomo como ponto de partida o voto de vencido da Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral ao Acórdão do TC n.º 101/09, de 03 de março ([1]). Procurarei determinar de que forma a dignidade da pessoa humana pode ser usada como instrumento de interpretação auxiliar. Em segundo lugar tentarei estabelecer o seu âmbito de aplicação subjetivo.

Na realidade, com o devido respeito por opinião em contrário, ao longo do extenso texto do Aresto do TC não me parece que o mesmo seja claro, preciso e inteligível, quanto à questão de saber se o embrião é, ele próprio, protegido pelo princípio da dignidade da pessoa humana.

Apesar da dignidade da pessoa humana ter deixado de ser encarada em certa medida como valor absoluto e passar a ser uma norma de direitos fundamentais sujeita a ponderação ([2]) a segunda maneira de ver não substitui a primeira, antes ao que me parece se cumulou com ela. Daí que haja que pensar num conteúdo alternativo para o conceito de dignidade da pessoa humana podendo ser o conceito de igualdade do valor humano. Desde já adianto que, defendo um conceito constitucional de vida mais abrangente do que foi utilizado no referido Acórdão.

*

“FISCALIZAÇÃO ABSTRATA DA CONSTITUCIONALIDADE” [art. 281.º n.º 1, alínea a) e n.º 2, alínea f) da CRP]

No Acórdão n.º 101/2009, do TC, a pedido de um grupo de trinta e um Deputados à Assembleia da República, ao abrigo do disposto no art. 281.º, n.º 1, alíneas a) e b), e n.º 2, alínea f), da CRP, foi chamado a apreciar a ilegalidade e a inconstitucionalidade da Lei n.º 32/2006, de 26 de julho, que regulamenta a procriação medicamente assistida na ordem jurídica portuguesa.

O Aresto e os fundamentos do pedido foram diversos, mas, para o que ora interessa, quanto ao objeto deste trabalho com a limitação imposta ([3]), restrinjo-me às questões de inconstitucionalidade material ([4]) e abordarei, resumidamente, o princípio da dignidade da pessoa humana e o modo como este foi invocado e aplicado neste Aresto. Na verdade, este princípio é relevante em matéria de PMA, porquanto nos termos do n.º 2, da alínea e) do art. 67.º da CRP incumbe ao Estado “regulamentar a procriação assistida, em termos que salvaguardem a dignidade da pessoa humana”.

Parto do voto de vencido da Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral, o qual se afasta da orientação seguida pela maioria “quanto ao conteúdo que se entendeu dever conferir ao princípio da salvaguarda da dignidade da pessoa humana” (…) depois, quanto à interpretação que se fez do âmbito de proteção da norma contida no nº 1 do seu artigo 24º; finalmente, quanto ao juízo, a que se chegou, de não inconstitucionalidade das normas da Lei nº 32/2006 respeitantes à investigação com recurso a embriões (n.ºs 2 a 5 do artigo 9.º)” ([5]), chamando a atenção para as debilidades da decisão maioritária quanto à aplicação do princípio enquanto parâmetro de controlo de constitucionalidade do diploma.

A primeira razão do desacordo foi ancorada na afirmação de que a alínea e) do nº 2 do artigo 67.º da CRP faz apelo ao princípio da dignidade da pessoa no modo como o legislador venha a regulamentar esta matéria, tal significa que este tem de optar por soluções que não lesem o princípio. Assim, para se poder avaliar se as opções do legislador estão em conformidade com as exigências constitucionais torna-se necessário “atribuir um certo sentido substancial – por mínimo que seja — à expressão salvaguarda da dignidade (…) humana.” Contudo, para a Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral “a argumentação do Tribunal foi construída a partir da ausência (e não da necessária presença) deste sentido substancial”. Ainda que o TC tenha definido o “alcance prescritivo do princípio”, ao afirmar que deve servir: “enquanto instrumento útil para a concretização e delimitação do conteúdo de direitos fundamentais, conferindo ao «sistema da Parte I da Constituição unidade de sentido, de valor e de concordância prática”, na verdade não determinou o “conteúdo da própria prescrição”. Tendo em conta a dificuldade inerente à densificação do princípio da dignidade, que “tem em si implicada uma fortíssima carga axiológica” é normal que o TC seja cauteloso na determinação do seu conteúdo, mas uma coisa é o ser-se prudente e outra o ser-se silente”. Em segundo lugar aduz também que não resulta claro da argumentação do Tribunal se apenas as pessoas nascidas são detentoras de dignidade ou se também o embrião o será. Como expressamente refere: “ficou ainda por esclarecer qual o exato âmbito da sua aplicação subjetiva. A certo passo diz o Acórdão que a «salvaguarda da dignidade da pessoa humana» se refere, com o alcance prescritivo que lhe fora conferido, às pessoas intervenientes nos processos de PMA, bem como às pessoas nascidas na sequência da aplicação das correspondentes técnicas. Mas noutros passos parece ter-se tido em conta, igualmente, a «dignidade» do embrião, invocando-se ela como elemento de ponderação face a outros direitos mobilizáveis para o caso”.

Nesta linha de pensamento, a Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral considera que ficaram por responder duas questões fundamentais:

(i) A “de saber de que modo” pode a dignidade da pessoa humana servir de “instrumento interpretativo auxiliar da ponderação a fazer entre outros direitos ou princípios”;

(ii) A determinação do “âmbito da sua aplicação subjetiva”.

*

Através do seu Ac. n.º 101/2009, o TC pronunciou-se sobre a conformidade constitucional de várias normas da Lei n.º 32/2006, de 26 de julho, que regula a utilização de técnicas de procriação medicamente assistida.

Para tal, teve presente o já acima referido artigo 67.º, n.º 2, alínea e), da CRP.

Como assevera o TC, «a Constituição erige a dignidade da pessoa humana ao estatuto de referência primeira em matéria de procriação medicamente assistida e é em função desse princípio e dos direitos fundamentais em que ele se pode concretizar que se deverá aferir a validade das soluções normativas consignadas na Lei n.º 32/2006» ([6]).

Pese embora esta solene declaração, não me parece claro qual seja o verdadeiro conteúdo do conceito de dignidade humana de que parte o TC no aludido Aresto. Na verdade, como afirma a Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral na referida declaração de voto, determinou-se «o alcance prescritivo do princípio, nada se dizendo, porém, quanto ao conteúdo da própria prescrição». E de facto o TC afirmou que «ao basear a República na “dignidade da pessoa humana”, a Constituição atribui a este princípio uma dimensão objetiva». Assim, o princípio da dignidade da pessoa humana não surge «como um específico direito fundamental que poderia servir de base à invocação de posições jurídicas subjetivas» [cf. ponto 5, alínea a) do aresto em análise]. Ao mesmo tempo estamos perante “um princípio jurídico que poderá ser utilizado na concretização e na delimitação do conteúdo de direitos fundamentais constitucionalmente consagrados ou na revelação de direitos fundamentais não escritos”.

Contudo, a verdade é que nada se diz no Ac. n.º 101/09 sobre o conceito de dignidade humana considerado na sua dimensão objetiva; a isto acresce que, nada se diz também sobre o papel que a dignidade humana desempenha na avaliação das medidas restritivas dos direitos fundamentais em cuja concretização ou revelação pode ser utilizado.

*

1. A tese argumentativa do TC

O Aresto objeto deste comentário traduz uma mudança de paradigma na compreensão jurídico-constitucional do conceito de dignidade humana. Na verdade, quando invoca o conceito o TC apesar de reconhecer uma “dimensão objetiva” não o faz enquanto princípio de direito objetivo mas como norma de direitos fundamentais. Assim, a meu ver, é aí que tem a sua sede esta mudança de modelo que plasma a indefinição do TC quanto ao conteúdo prescritivo da dignidade humana.

Numa análise preliminar da argumentação do TC no Ac. n.º 101/2009 a mesma permite summo rigore colocar a questão de saber se a invocação do princípio da dignidade da pessoa humana, não será, afinal, dispensável dada a “menor precisão que é reconhecida ao princípio” ([7]).

O segmento mais relevante da argumentação do TC no Ac. n.º 101/2009 consiste em encarar o conceito jurídico-constitucional de dignidade como um conceito permeável à ponderação. A este propósito, importa em especial atentar no modo como a argumentação do Tribunal parece inscrever-se numa mudança de paradigma da dignidade humana, nos termos da qual esta deixa de ser encarada como um valor ético objetivo e absoluto e fundamento de um direito específico que prevalece sempre no confronto com outros direitos ou valores constitucionais, e passa a ser tratada como uma norma de direitos fundamentais.

*

Em termos de inconstitucionalidade material, as questões colocadas ao TC foram as seguintes:

(i) A admissibilidade da utilização das técnicas de PMA em caso de risco de transmissão de doenças de origem não genética ou infecciosa;

(ii) A inexistência de um limite etário para os beneficiários;

(iii) A possibilidade de recurso a técnicas de PMA para tratamento de doença de terceiro;

(iv) A utilização de embriões em investigação científica;

(v) A admissibilidade da procriação heteróloga;

(vi) A regra do anonimato dos dadores;

(vii) o regime de filiação na reprodução heteróloga;

(viii) A inexistência de limites à criação de embriões;

(ix) O diagnóstico genético pré-implantatório;

(x) A não punição da clonagem reprodutiva e admissibilidade da técnica de transferência de núcleo; e

(xi) A não punição da maternidade de substituição a título gratuito.

Vou-me cingir às questões em que o TC se refere ao princípio da dignidade da pessoa humana enquanto parâmetro de controlo da constitucionalidade.

O TC refutou a violação deste princípio, primeiro em relação à questão (iii) ([8]). O problema com que este Tribunal se confrontou foi: saber se é legítima a criação dos vulgarmente designados “bebés-medicamento” ([9]).

Vejamos, em resumo, como o TC aplicou o princípio para concluir no sentido de que a solução legal não é inconstitucional.

O TC não refere explicitamente como interpreta o princípio da dignidade da pessoa humana. Mas, ainda que não fale expressamente na “fórmula do objeto”, refere, na sua resposta a “alegada instrumentalização do embrião”, já que no pedido de fiscalização efetuado pelos deputados se alega que este diploma admite a “criação de embriões medicamento”, instrumentalizando o embrião humano” ([10]).

Parece-me que, quando se utiliza diagnóstico genético pré-implantação de modo a fazer com que a criança a nascer seja de um grupo HLA compatível com o de outra pessoa, e que o novo ser é gerado exatamente com o objetivo de salvar um terceiro, este está a ser utilizado como um meio, como instrumento, para a prossecução de outros fins. Assim, deveríamos considerar que se verifica uma violação do princípio da dignidade ([11]). Contudo, a decisão do TC não foi neste sentido ([12]). Estou de acordo com o resultado a que chegou o Tribunal na ponderação que fez entre os diferentes direitos constitucionalmente protegidos e na conclusão a que chegou quanto à inexistência de uma violação do princípio da dignidade da pessoa humana. Todavia, tenho por bem fundada a crítica feita pela Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral no que se refere à deficiente concretização do princípio pelo TC, não resultando claro qual o verdadeiro conteúdo que lhe foi atribuído nessa ponderação. Por sua vez, não é completamente inteligível se o TC aplica o princípio da dignidade como princípio absoluto ou se, pelo contrário, o considera passível de cedência perante outros direitos ou bens jurídicos em conflito. Se, no caso, o TC colocou em confronto o princípio da dignidade e o direito à saúde, a ponderação que levou a cabo conduziu à cedência da dignidade, pondo em causa o caráter absoluto do princípio, o que é “incompatível com a norma constitucional que eleva a dignidade da pessoa humana a base em que assenta a República” ([13]).

Com o devido respeito por opinião em contrário, a tese argumentativa do TC parece remeter para juízos de ponderação que implicam uma relativização que tenho por inadmissível do princípio da dignidade da pessoa humana.

Quanto à questão (xi) ([14]) concordo com a conclusão a que o TC chegou ao considerar que a não criminalização desta conduta não viola o princípio da dignidade e quanto ao facto de, na sua argumentação ter tido em conta a “intenção subjacente” de quem instrumentaliza. Porém, desta afirmação parece retirar-se que, na perspetiva do TC, a maternidade ou gestação de substituição onerosa envolve uma instrumentalização que se traduzirá necessariamente em violação do princípio da dignidade da pessoa humana, o que não me parece, sem mais, evidente, ainda que possa haver circunstâncias em que tal aconteça ([15]).

2. A dignidade enquanto “instrumento interpretativo auxiliar da ponderação a fazer entre outros direitos ou princípios”

Como emerge do que já acima referi o TC tem atribuído funções diferenciadas ao princípio da dignidade da pessoa humana, sendo que uma delas é a de este servir enquanto critério de interpretação e como instrumento metódico de resolução de conflitos de direitos ([16]). Parece ser esse o objetivo do TC no Aresto em análise. Contudo, para que o princípio da dignidade da pessoa humana possa cumprir o seu papel, para sabermos “de que modo” pode a dignidade da pessoa humana servir de “instrumento interpretativo auxiliar da ponderação a fazer entre outros direitos ou princípios” é necessário materializá-lo.

No entender da Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral o TC deveria ter lançado mão à “fórmula do objeto” já anteriormente utilizada em jurisprudência anterior: Nas suas palavras “A invocação seria (…) compreensível se se tivesse pelo menos referido a mais antiga e consensual definição de «dignidade» – a decorrente da chamada «fórmula do objeto» de Dürig, aliás já referida pelo Tribunal noutros casos, e que se confunde, em resumo necessariamente grosseiro, com a proibição de instrumentalização de matriz kantiana» ([17]).

2.1. A “fórmula do objeto”

O nosso TC, perfilhando a jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal Alemão (Bundesverfassungsggercht), recorreu já, algumas vezes à velha “fórmula do objeto” para densificar o conceito de dignidade ([18]). Esta fórmula procura definir dignidade partindo da sua violação, que acontecerá nas situações em que a pessoa é reduzida à condição de objeto ou de um simples meio ([19]).

Quanto a mim, tenho dúvidas que a simples invocação por parte do TC da “fórmula do objeto” ([20]), no caso, sem mais, fosse suficiente para ancorado nela operar com o princípio da dignidade enquanto instrumento auxiliar de ponderação a fazer entre diferentes direitos que conflituam na matéria em análise, dado que a aceitação desta fórmula, nos termos em que tem sido empregada, não me parece ser livre de críticas.

Na verdade, tal fórmula pode ser usada tanto num contexto de autonomia como de heteronomia ([21]). E na realidade quer na doutrina, quer em decisões judiciais tem ancorado o estabelecimento de restrições à liberdade ao invés de servir como fundamento dessa mesma liberdade ([22]).

Jorge Reis Novais propõe a utilização mais “contida” ([23]) do princípio da dignidade, pois assim se não entendendo, pode servir como argumento que se utiliza quando não se têm outras razões para justificar proibições. Há neste campo um excessivo uso da dignidade. Parece-me ser de aceitar que a dignidade se identifique com autonomia ética da pessoa ([24]) e que o reconhecimento dessa autonomia ética se deve traduzir na possibilidade de ser a própria pessoa a definir quando está ou não a ser instrumentalizada ([25]) o que diga-se em abono da verdade nem sempre tem acontecido.

Quanto a mim, apesar de reconhecer que essa fórmula é por vezes utilizada de forma pouco adequada, todavia, parece-me útil para a concretização do princípio de dignidade, pese embora como realça Jorge Reis Novais, o seu “conteúdo normativo” seja insuficiente. Assim para este Autor na esteira do Tribunal Constitucional Federal alemão, que aqui acompanho, só haverá violação da dignidade quando, na instrumentalização em causa “esteja decisivamente presente um elemento de coisificação, desvalorização, desprezo, humilhação ou, em geral, de degradação da pessoa”, que pode resultar da intencionalidade de quem instrumentaliza ou do próprio contexto do caso. Deste modo, poderá ter lugar violação da dignidade mesmo quando não se verifique uma intencionalidade específica. A apreciação da “intenção subjacente” e do “significado social de uma ação” é, por isso, fundamental para avaliar se a instrumentalização é ou não atentatória da dignidade ([26]). Neste sentido a “fórmula do objeto” pode ser útil para a identificação das situações em que se verifica uma violação do princípio da dignidade. Porém, a consideração de todas estas circunstâncias não quer significar que este princípio seja relativo e sujeito a ponderação. Na verdade, tal princípio em si mesmo é absoluto, quer dizer, não pode ceder perante outros direitos ou bens jurídicos que possam com ele conflituar. Na realidade, parece-me que a determinação da sua violação não pode deixar de ter presente as circunstâncias concretas do caso. Assim quando se avaliar se uma determinada norma viola o princípio da dignidade não se pode concluir que o princípio teve de ceder perante outro direito ou bem jurídico que a ele se contrapõe e se considera preponderante. Com efeito, penso que a dignidade não é ponderável, pese embora a determinação da sua violação não possa ser imune a juízos de ponderação ([27]).

3. A determinação do “âmbito de aplicação subjetiva” do princípio da dignidade da pessoa humana

A determinação do “âmbito de aplicação subjetiva” do princípio da dignidade da pessoa humana é essencial nesta decisão, na medida em que somente tem razão de ser o examinar as soluções adotadas pelo legislador ordinário na ótica do princípio da dignidade se se considerar que o embrião beneficia, pelo menos em alguma medida, da proteção conferida por este princípio.

No Aresto em análise não se retira uma resposta inteiramente conclusiva. Parece num primeiro momento limitar a proteção conferida pelo princípio a pessoas já nascidas, mas acaba por se referir também à dignidade do embrião. Contudo, não é clara a posição que assume ao estabelecer a distinção entre embriões não implantados que virão a integrar um projeto parental e os que não o farão, servindo somente para efeitos de investigação ([28]).

Com o devido respeito por opinião em contrário, parece-me que a distinção entre embriões que serão implantados e aqueles que não o serão não deve ser critério para definir quais gozam e quais estão excluídos da proteção decorrente do princípio da dignidade ([29]).

No que respeita à existência de deveres de proteção da vida (ou de outros direitos fundamentais) em relação ao embrião, o TC, no que respeita à questão (iii), tece os considerandos que entendeu por convenientes ([30]).

Por sua vez, quanto à questão (iv) ([31]) expressou-se o TC nos termos referidos na nota ([32]) abaixo. Já quanto à questão (viii) ([33]) deixou dito o que consta da nota ([34]) infra.

Quer isto dizer que o TC considerou que o dever de proteger a vida, que decorre do artigo 24.º da CRP, abarca ainda a vida intrauterina ([35]) mas exclui a vida extrauterina, o embrião não implantado. Assim, o entendimento do TC é o de que o direito à vida e os outros direitos de personalidade não serão aplicáveis ao embrião, nem sequer na sua dimensão objetiva, pelo que dessas disposições não retira qualquer dever de proteção para o Estado, ainda que não exclua que o princípio da dignidade o possa ser.

Com o devido respeito por opinião diversa, independentemente da questão de saber se a personalidade jurídica deve ser apenas atribuída às pessoas já nascidas ou se deverá ser alargada a embriões in utero, ou até a embriões não implantados ([36]), parece-me que o Estado tem o dever de proteger todo e qualquer embrião. Assim, mesmo que não se lhe reconheça personalidade jurídica, os embriões devem ser protegidos pelo direito à vida na sua dimensão objetiva, não devendo a sua implantação ser critério decisivo para poderem beneficiar dessa proteção. Na verdade, decorre da consagração constitucional do direito à vida um dever do Estado, que inclui quer o embrião implantado, quer o embrião não implantado ([37]). Assim, com o devido respeito por opinião diversa, não tem razão o TC quando estabelece que o direito à vida e outros direitos de personalidade não lhe serão extensíveis. Logo todos os embriões, mesmo os não implantados, devem caber no “conceito constitucional de vida”.

Deste modo, cabe deslindar em que situações pode o Estado estar a deixar de cumprir esse dever de proteger o embrião, isto é, cumpre averiguar quando é que nos encontramos abaixo do limiar mínimo exigido pelo princípio da proibição do défice de proteção ([38]). Uma vez que, haverá violação deste princípio quando se viola o conteúdo essencial do direito, tal significa que é através do princípio da dignidade que cabe fazer essa apreciação ([39]). Opto, pois, pela teoria absoluta na determinação do conteúdo essencial dos direitos fundamentais, porquanto considero que esse conteúdo de dignidade é intimamente impresso no ânimo a cada um deles. O que não quer dizer que o princípio da dignidade esteja fatalmente violado quando nada resta do direito, dado que tem que se considerar as circunstâncias concretas do caso quando se procede a essa avaliação. Ora, a distinção entre a teoria subjetiva e a teoria objetiva na determinação do conteúdo essencial dos direitos surge da constatação de que é inevitável, em certos casos, o sacrifício completo de um direito fundamental em determinadas circunstâncias. Por isso mesmo, não pode a garantia do conteúdo essencial significar que é inválida toda a coartação que possa atingir o conteúdo essencial de cada um dos direitos subjetivos individuais. Assim, se atendermos às circunstâncias do caso poderá não se verificar uma violação do princípio da dignidade mesmo quando nada sobra do direito. Isso traduz que o Estado não incorre forçosamente em défice de proteção e, não haverá violação do conteúdo essencial do direito em todas as situações que envolvam o sacrifício completo da vida do embrião ([40]). Quero com isto dizer que considero que o embrião deve beneficiar da proteção conferida pelas normas de direitos fundamentais constitucionalmente previstas, sendo o princípio da dignidade chamado enquanto parâmetro de constitucionalidade na medida em que é através deste princípio que se afere o desrespeito pelo conteúdo essencial dos direitos em causa. A esta luz, no aresto em análise do TC, com o devido respeito por opinião diversa, parece-me que estaria a ser violado o dever de proteção da vida que impende sobre o legislador se se permitisse a criação de embriões especificamente para efeitos de investigação ([41]), situação que a própria lei proíbe. Por sua vez, a “fórmula do objeto” pode ser útil para determinação dessa violação quando utilizada adequadamente ([42]).

Quanto à questão acima referida em (viii) ([43]), a mesma é mais duvidosa ([44]).

Na verdade, a meu ver as questões mais problemáticas abordadas no Acórdão n.º 101/2009 são as respeitantes à investigação científica com recurso a embriões e à criação de embriões excedentários. Parece-me que a abertura mostrada pelo TC em matéria de investigação científica sobre embriões e de criação de embriões excedentários enraíza na falta de uma posição clara na sua argumentação quanto ao conteúdo conceito de dignidade humana; e por sua vez, na ideia de que essa mesma abertura contraria a ideia de dignidade como valor igual do humano. Em apertada síntese, o TC entendeu no Acórdão n.º 101/2009 ser constitucionalmente legítimo que a fertilização in vitro dê lugar à criação dos embriões em número considerado necessário para o êxito do processo, sem limitação. Para além disso considerou igualmente legítima a utilização em experimentação científica dos embriões cujo destino alternativo seria a destruição, uma vez que tem de estar afastada a possibilidade de os envolver num projeto parental, devendo em tal caso a experimentação ser apenas admissível para finalidades terapêuticas, de prevenção ou diagnóstico em termos de poder contribuir para o progresso do conhecimento científico, com probabilidade até de se vir a obter um benefício para a espécie humana.

Vemos, assim, que o TC no Aresto em análise pese embora limite a investigação científica a finalidades terapêuticas faz depender esta da medida em que possam contribuir para benefício da humanidade, em vez de exigir que a investigação científica sirva o propósito de tratar uma patologia claramente identificada. Quer isto dizer, que o TC passa, na prática, um cheque em branco à investigação científica sobre embriões, e parece-me que o decidido se mostra passível de pôr em causa o conceito constitucional de dignidade. Todavia, o que cabe aqui realçar são as implicações da ausência de uma opção clara, na argumentação desenvolvida pelo TC, sobre o conteúdo da dignidade humana como princípio constitucional. O risco que nesta sede se corre é bem apontado no voto de vencido da Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral, é o de que: “as decisões centrais relativas ao surgimento da vida, e à resolução dos conflitos de interesses que delas possam emergir, deverão ser reguladas apenas, e livremente, pelo legislador ordinário que, num espaço vazio de constitucionalidade, não contará com mais nada para além de si próprio para poder acompanhar e ordenar a ciência e a técnica”. Deste modo a deficiente concretização do princípio da dignidade da pessoa humana pelo TC é passível de críticas. Se o TC não fornece indicação clara, precisa e inteligível sobre o conceito de dignidade da pessoa humana, parece-me que dificilmente o legislador o virá a fazer. Assim, quanto a este aspeto da dignidade é mais grave o que não disse o Aresto em causa do que o que disse. Parece-me que o princípio da dignidade, entendido como princípio jurídico, para que possa operar devidamente enquanto “instrumento interpretativo auxiliar da ponderação a fazer entre outros direitos ou princípios” ou para determinar o seu “âmbito de aplicação subjetiva” o TC tem que ir mais além na definição do seu conteúdo. E na verdade, o TC tem vindo a aplicar este princípio proferindo decisões, como acontece com o Aresto aqui em análise, em que se apresentam fundamentos pouco sólidos e por isso mesmo passíveis de sã crítica.

BIBLIOGRAFIA

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  1. () De que é relator o Senhor Conselheiro: Carlos Fernandes Cadilha, Processo n.º 963/06. Disponível em:

    http://www.tribunalconstitucional.pt/tc/acordaos/20090101.html : <acedido em 21-mai.-2018>. Igualmente, nesta sede, está disponível o referido voto de vencido.


  2. () Ou pelo menos uma norma cujo conteúdo pode ser variável e de valor prima facie.
  3. () Máximo 10 pp. de texto útil, fonte: Garamond, tamanho 14, espaço, 1, 5.
  4. () Desconsiderando os vícios formais.
  5. () Cf. ponto 1. do referido voto de vencido. Disponível em:

    http://www.tribunalconstitucional.pt/tc/acordaos/20090101.html : <acedido em 21-mai.-2018>.


  6. () Cf. Ponto 5, alínea b) do referido Aresto.
  7. () Como se afirmou no Ac. n.º 141/2015 de 25-fev.-2015 (relator: Conselheiro Lino Rodrigues Ribeiro), proferido no âmbito do Proc n.º 136/14, embora a propósito de matéria diferente (as condições de atribuição do rendimento social de inserção a cidadãos portugueses), disponível em:

    http://www.tribunalconstitucional.pt/tc/acordaos/20150141.html — <acedido em 21-mai.-2018>.


  8. () Isto é, quanto à admissibilidade do recurso às técnicas de PMA para tratamento de doença grave de terceiro.
  9. () Isto é, a utilização de técnicas de PMA, nomeadamente do diagnóstico genético pré-implantação, para obter um grupo HLA (human leukocyte antigeri) compatível para efeitos de tratamento de doença grave de outra pessoa, normalmente um irmão. Expressa o TC, “a questão de constitucionalidade que poderá colocar-se, tendo em conta a perspetiva utilitarista que decorre do preceito legal, é a de saber se uma tal solução não constituirá uma ofensa ao princípio da dignidade da pessoa humana, no ponto em que o embrião ainda que não implantado, é suscetível de potenciar a existência de vida humana.
  10. () Quer dizer que, este modo de ver, está implícito na base do pedido feito de fiscalização da constitucionalidade em causa.
  11. () Na argumentação dos requerentes refere-se: “Quando a CRP erige a dignidade da pessoa humana como limite inultrapassável do recurso à procriação medicamente assistida (…), é no mínimo discutível que se possam criar seres que ab initio não são um fim em si mesmos”, ver MIRANDA, Jorge, – MEDEIROS, Rui -, Constituição Portuguesa Anotada, 1, 2.ª ed., Coimbra, Coimbra Editora, 2010, p. 524.
  12. () Na análise que fez da solução legal, o TC, acabou por atender ao “significado social da ação”, pese embora o não diga expressamente, fazendo uma ponderação entre os diferentes direitos em jogo e considerando o fim visado: a proteção da saúde de um terceiro em perigo de vida. Nas palavras do TC: “Dentro do regime jurídico definido pela lei, a alegada «instrumentalização» do embrião mostra-se assim justificada pela prevalência de outros valores constitucionalmente tutelados, também eles de natureza eminentemente pessoal, o que desde logo exclui que o controlo genético do embrião possa ser considerado como lesivo do princípio da dignidade da pessoa humana. (…) Pode concluir-se, nestes termos, que a solução normativa que se contém na Lei se enquadra num critério de ponderação e harmonização com outros valores constitucionalmente protegidos, sem pôr em causa, de forma evidente, a dignidade das pessoas diretamente envolvidas, e assegura, desse modo, em atenção aos objetivos que se pretende atingir, uma proteção adequada do embrião.”
  13. () NOVAIS, Jorge Reis, A Dignidade da Pessoa Humana, vol. II, Coimbra Almedina, 2016, p. 158.
  14. () Respeitante à inconstitucionalidade da não punição da maternidade de substituição a título gratuito (ainda que a lei claramente proíba este tipo de negócios, independentemente de serem onerosos ou gratuitos), quando o TC estabelece que “(…) é necessário ter em conta que a maternidade de substituição gratuita tende a ser vista como menos censurável, por revelar altruísmo e solidariedade da mãe gestadora em relação à mulher infértil, e por não haver da parte desta, um desrespeito pela dignidade da mãe gestadora, por não ocorrer aqui nenhuma tentativa de instrumentalização de uma pessoa economicamente carenciada, por meio da fixação de um «preço», como sucede nas situações de maternidade de substituição onerosa
  15. () Entendendo que a maternidade de substituição a título oneroso não implica violação do princípio da dignidade da pessoa humana, vide RAPOSO, Vera Lúcia, Quando a cegonha chega por contrato, Boletim da Ordem dos Advogados, 88, 2012, p. 27.
  16. () Ver sobre esta problemática, NOVAIS, Jorge Reis, A Dignidade da Pessoa Humana, I (Dignidade e Direitos Fundamentais), Coimbra, Almedina, 2015, pp. 28 ss.
  17. () A mudança de paradigma já acima apontada no texto, foi já analisada pelos constitucionalistas. Sobre esta problemática, basta ver as posições opostas de Ernst-Wolfgang Böckenförde, Die Würde des Menschen war unantastbar. Zur Neukommentierung der Menschenwürdegarantie des Grundgesetzes, in Recht, Staat, Freiheit. Studien zur Rechtsphilosophie, Staatstheorie und Verfassungsgeschichte, Frankfurt am Main, 2006, pp. 379 ss.; e Matthias Herdegen, Deutungen der Menschenwürde im Staatsrecht , GERDB Brudermüller / Kurt Seelmann (orgs.), Menschenwürde. Begründung, Konturen, Geschichte, Würzburg, 2008, pp. 57 e ss.
  18. () Foi invocada, por exemplo, no Ac. n.º 426/91, de 06-nov.-1991 (Relator Conselheiro Sousa Brito), proferido no âmbito do Proc n.º 183/90, da 2.ª Secção, disponível em: http://www.tribunalconstitucional.pt/tc/acordaos/19910426.html – < acedido em 22-mai.-2018>.
  19. () Exclui-se qualquer tratamento do ser humano como mero instrumento (cf. Günter Dürig, Der Grundrechtsatz von der Menschenwürde, Archiv des offenttlichen Rechts, 2,1956, pp. 125,152 e 153).
  20. () O Tribunal Constitucional Federal alemão, que aderiu inicialmente à fórmula do objeto, em virtude das críticas que lhe foram sendo tecidas reconheceu que esta não constitui uma “fórmula mágica” e que apenas pode apontar uma direção para a busca de lesões de dignidade (cf. Dieter Hömig, Die Menschenwürdegarantie des Grundgesetzes in der Rechtsprechung der Bundesrepublik Deutschland, Europäische Grundrechte-Zeitschrift, n.º 34, 2007, p. 637. Este Tribunal passou a entender que tratar a pessoa como um objeto não envolve automaticamente uma violação da dignidade, sendo necessário que se verifique uma determinada intenção, ou seja, que o comportamento em análise seja “manifestação de desprezo pela pessoa”. (cf Dieter Hömig, Die Menschenwürdegarantie des Grundgesetzes in der Rechtsprechung der Bundesrepublik Deutschland”, cit., p. 633. A censura apontada a esta perspetiva foi a de que poderá haver situações em que se verifica uma violação da dignidade mesmo quando não exista qualquer intencionalidade.
  21. () Sobre a dupla função do conceito de dignidade implícito na fórmula do objeto, como razão para ampliar e argumento para restringir a liberdade individual, vide OLIVEIRA, Nuno Manuel Pinto, O princípio da dignidade da pessoa humana e a regulação jurídica da bioética , Lex Medicinae, 15, 2011, p. 30.
  22. () Esse uso é um facto notório em sede de bioética. Existindo posições que propõem o seu afastamento (cf. OLIVEIRA, Nuno Manuel Pinto, ob. cit., p. 33 que coloca a questão da saber se o princípio da dignidade não deve ser abandonado, devendo procura-se razões mais profundas que justifiquem restrições da liberdade).
  23. () NOVAIS, Jorge Reis, A Dignidade da Pessoa Humana, II (Dignidade e Inconstitucionalidade, Coimbra, Almedina, 2016, p. 65 ss., referindo-se a uma aplicação contida do princípio em geral apenas em questões relacionadas com a bioética.
  24. () LOUREIRO, João, O direito à identidade genética do ser humano, in Portugal – Brasil Ano 2000, Coimbra 1999, p. 279.
  25. () Na medida em que na dignidade da pessoa se centra impossibilidade de a pessoa ser tratada como objeto, então, é ao indivíduo enquanto sujeito que, cabe, principalmente a densificação do conteúdo preciso da dignidade (cf., neste sentido, NOVAIS, Jorge Reis, Os princípios Constitucionais Estruturantes da República Portuguesa, Coimbra, Coimbra Editora, 2011, p. 58).
  26. () NOVAIS, Jorge Reis, A Dignidade da Pessoa Humana, II, cit., pp. 112 ss. Entendendo que o que está vedado pela fórmula do objeto não é usar o outro como meio, mas usá-lo unicamente como meio, ver RAPOSO, Vera Lúcia, Direito à imortalidade, Coimbra, Almedina, 2014, p. 239.
  27. () Cf. sobre este ponto com interesse, desenvolvidamente, vide NOVAIS, Jorge Reis, A Dignidade da Pessoa Humana, vol. II, cit., pp. 144 ss, maxime sobre o uso do princípio da dignidade nos domínios da bioética e da biotecnologia como valor absoluto, ver p. 153.
  28. () A respeito da questão (iii), isto é, quanto à admissibilidade do recurso às técnicas de PMA para tratamento de doença grave de terceiro, o TC considerou que: “(a) questão de constitucionalidade que poderá colocar-se, tendo em conta a perspetiva utilitarista que decorre do preceito legal, é a de saber se uma tal solução não constituirá uma ofensa ao princípio da dignidade da pessoa humana, no ponto em que o embrião, ainda que não implantado, é suscetível de potenciar a existência de uma vida humana”. Este segmento parece indiciar que o TC estende a proteção conferida pelo princípio ao embrião não implantado, independentemente de este vir ou não a sê-lo. Contudo, quanto à questão (iv) relativa à possibilidade de utilização de embriões em investigação científica, o TC considerou que será “apenas de considerar a proteção do embrião na perspetiva da dignidade da pessoa humana na estrita medida em que o embrião poderia dar origem a uma vida humana se fosse viável e viesse a ser utilizado num projeto parental.” Parece decorrer daqui que o TC considera que a dignidade apenas protege o embrião se este puder dar origem a uma vida humana, isto é, se for viável e vier a ser utilizado num projeto parental. Um pouco mais adiante o TC conclui expressando que: “a lei confere, pois, aos embriões que possam ser utilizados em investigação científica um destino condizente com a sua potencial dignidade humana”. Esta argumentação é extensível à questão analisada no ponto (ix) relativa à admissibilidade do diagnóstico genético pré-implantação, dado que, neste segmento, o TC remete para as conclusões a que chegou a propósito da investigação com embriões.
  29. () Porquanto se o TC considerar que embriões que não serão implantados não devem beneficiar essa proteção nada parece impedir a criação de embriões destinados especificamente à investigação, já que, na sua perspetiva, estes não gozam também da proteção decorrente do direito à vida ou de outros diretos fundamentais. Por sua vez, a questão controvertida de saber se o embrião é detentor de dignidade é, segundo Jorge Reis Novais, “muitas vezes configurável (…) em termos da controvérsia sobre saber se o embrião é ou não pessoa humana”. Contudo, considera que mais do que procurar uma resposta para essa questão, o que fundamentalmente releva é tentar perceber se o Estado tem deveres de proteção em relação ao embrião, que deveres são esses e se são equiparáveis aos que tem em relação a pessoas já nascidas (cf. NOVAIS, Jorge Reis, Dignidade da Pessoa Humana, II, cit., p. 90, e nota 67).
  30. () Isto é, quanto à admissibilidade do recurso às técnicas de PMA para tratamento de doença grave de terceiro, expressou que “importa notar que o método de procriação medicamente assistida, neste condicionalismo, incide sobre embriões ainda não implantados, em relação aos quais se não pode aplicar a garantia de proteção da vida humana, enquanto bem constitucionalmente protegido, ou de qualquer dos demais direitos pessoais que se encontram associados, como o direito à integridade física ou o direito à identidade pessoal e genética. E justamente porque não ocorreu ainda a transferência para o útero materno, o embrião submetido a técnicas de PMA, para os efeitos previstos no n.º 3 do artigo 7º, nem tão pouco beneficia da proteção correspondente à tutela da vida intrauterina, que, aliás, segundo a jurisprudência constitucional, assenta, ela própria, numa ponderação gradualista que deverá atender às diferentes fases do desenvolvimento do nascituro (…)”
  31. () Relativa possibilidade de utilização de embriões em investigação científica.
  32. () O TC expressou: ““(r)elevam aqui, porém, todas as considerações anteriormente expendidas a propósito da solução normativa consubstanciada no artigo 7.º, nº 3, em que igualmente estava em causa a possibilidade de pesquisa genética em embriões, neste caso, para efeito de tratamento de doença grave de terceiro (…). O ponto essencial, como aí se explanou, é que a investigação científica nos termos previstos no artigo 9.º incide sobre embriões não implantados no útero materno e relativamente aos quais se não colocam questões de constitucionalidade relacionadas com o direito à vida ou os direitos de personalidade (…)
  33. () Respeitante à relativa à não criação de embriões excedentários.
  34. () O TC expressou que “o parâmetro de constitucionalidade que está implicado na criação de embriões excedentários em resultado da aplicação de uma técnica de PMA, é o princípio da dignidade da pessoa humana, tendo em consideração que se trata de embriões não implantados no útero materno a que se não pode atribuir um grau de proteção correspondente à tutela da vida humana ou da vida intrauterina.”
  35. () Reafirmando o que já havia dito, na sua jurisprudência relativa ao aborto, quanto ao facto de essa proteção não ser sempre a mesma nos diversos estádios de desenvolvimento do embrião e o dever se tornar mais intenso à medida que este se aproxima do nascimento.
  36. () CAMPOS, Diogo Leite de – BARBAS, Stela, O início da pessoa humana e da pessoa jurídica, Revista da Ordem dos Advogados, 61, 2001, p. 1268, sustentam que “a vida humana, a pessoa humana e a personalidade jurídica começam com a conceção.”
  37. () Considerando que “(e)nquanto bem ou valor constitucionalmente protegido, o conceito constitucional de vida humana abrange não apenas a vida das pessoas, mas também a vida pré-natal, ainda não investida numa pessoa, a vida intrauterina (independentemente do momento em que se entenda que esta tem início) e a vida do embrião fertilizado”, vide CANOTILHO, José Joaquim Gomes, – MOREIRA, Vital , Constituição da República Portuguesa Anotada, vol. I, Coimbra, Coimbra 2007, p. 449. Igualmente MIRANDA, Jorge – MEDEIROS, Rui, Constituição Portuguesa Anotada, I, Coimbra, 2.º ed., Coimbra, Coimbra Editora, 2010, p. 514, nota XIII, consideram “(a) Constituição afirma que “a vida humana é inviolável sem fazer menção do estádio de desenvolvimento em que essa mesma vida se encontra e, naturalmente, sem exigir personalidade jurídica dos respetivos sujeitos ativos”.
  38. () NOVAIS, Jorge Reis, A Dignidade da Pessoa Humana, I, cit., p. 187, associa o princípio da dignidade com o princípio da proibição do défice. Considerando que o princípio da proteção do défice pode assegurar mais proteção do que a garantida pelo conteúdo essencial do direito. Vide também sobre este ponto SILVA, Jorge Pereira da, Deveres do Estado de Proteção de Direitos Fundamentais, Lisboa, Universidade Católica, 2015, pp. 608 ss. O conteúdo essencial, na sua perspetiva, constitui também o núcleo do princípio da proibição por defeito, mas “se o dever de proteção for particularmente intenso, se existirem instrumentos de proteção com eficácia comprovada e não particularmente exigentes do ponto de vista dos recursos necessários, e se os efeitos restritivos em posições jurídicas contrapostas não forem muito intensos”, a proibição do défice será mais exigente que a proteção do conteúdo essencial.
  39. () Com o devido respeito por opinião diversa, não tem razão a Senhora Conselheira Maria João Antunes quando parece pretender arredar completamente o princípio da dignidade da pessoa humana da discussão, ainda que, como resulta do texto supra, eu tenha dúvidas quanto ao modo como o Tribunal o aplicou.
  40. () RAPOSO, Vera Lúcia, O Direito à imortalidade, cit., p. 656, entende que nem todos os atos que destruam o embrião são contrários ao princípio da dignidade. Expressa “(t)al sucederá quando se trate de um ato gratuito, baseado exclusivamente no capricho individual, mas não, quando mediante ponderação de bens, se conclua que não há solução senão a destruição do embrião”.
  41. () RAPOSO, Vera Lúcia, O Direito à imortalidade, cit., p. 657, considera legítimo o uso de embriões para investigação, “desde que realizado dentro dos parâmetros legal e internacionalmente institucionalizados, nomeadamente, a proibição de criação de embriões exclusivamente para tal finalidade.”
  42. () No seu voto de vencido, a que nos vimos referindo, a Senhora Conselheira Maria Lúcia Amaral considera que “as técnicas de PMA não devem ser usadas para a criação de embriões com o intuito deliberado de os submeter a projetos de investigação científica porque tal implicaria uma «instrumentalização» contrária ao disposto nos artigos 24º, n.º 1; 67, nº 2, alínea e) e 1.º da Constituição.”.
  43. () Que respeita à não criação de embriões excedentários.
  44. () Neste ponto o TC foi ainda chamado a avaliar se a regulação desta matéria confere uma proteção devida aos embriões, pelo facto de a lei não estabelecer um limite numérico à sua criação, limitando-se a dizer que poderão ser criados os embriões necessários para o êxito do processo, de acordo com a boa prática clínica e os princípios do consentimento informado e por prever apenas como limite à investigação que seja razoável esperar que daí possa resultar benefício para a humanidade.

Encenar saltimbancos na Ibéria medieval

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 códice da British Library, Royal MS 10.E.IV, fol. 58, do século XIV

Encenar saltimbancos na Ibéria medieval

(o zajal nº 12 de Ibn Quzmán)

O poeta andaluz Ibn Quzmán (c. 1090?-1160) nasceu no seio de uma família abastada de Córdoba e foi apoiado por vários mecenas não só em Córdoba, como em Sevilha, Granada, Jaén e Fez. Tendo-se especializado num género popular-urbano de canção, o zajal, escrito no dialecto hispano-árabe ­— extinto há séculos e de difícil compreensão mesmo entre arabistas —, cultivou, apesar de casado e com filhos, uma reputação escandalosa de marginal, bêbado e ímpio, que em certa ocasião lhe valeu o cárcere. Desde a descoberta, em 1881, de um manuscrito com a sua obra, é considerado um dos autores cimeiros do Al-Andalus, e certamente o mais original de todos.

Entre as suas letras, que ao leitor moderno poderão lembrar canções de cabaret, chamou-me desde logo a atenção o zajal nº 12, por mim lido, há décadas, numa tradução castelhana de Emilio García Gómez (1972, 1981), que o subintitulou “Os jograis”. Cheguei mesmo a tentar traduzir o início do poema, num capítulo dedicado ao instrumentário medieval (Ferreira 1994). Contudo, o acesso recente a interpretações alternativas levou-me a querer revisitar o texto e a traduzi-lo na íntegra para português:

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

Tamboris tende prontos, | o adufe esteja à mão;

depressa, às castanholas | prestem todos atenção,

e se um pandeiro houver, | será óptima adição

à palheta, ó malta! | Ela vai-vos animar.

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

A Qurra, ponham véu | de seda leve, trançada;

de tafetá, a veste | toda em ponto bordada,

coberta de amuletos | da Babilónia afamada.

Toca a mexer, por Deus! | Já vos vejo a dormitar.

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

O Palonço está à espera. | Haja vida neste estrado!

E arreai um calduço | no que for desafinado.

Zuhra, Maryam, ‘Aixa, | onde estais? Rabo alçado!

Ululem, ó rameiras, | por quem está a liderar!

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

Dai ao juiz assento | feito de muito coxim,

pois há que honrar quem venha | da classe de onde eu vim.

E, gentes, é tão moço! | Agrada-me ser assim.

Bem vos vejo, por Deus! | E onde se meteu Qunbar?

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

Que esteja pronta a espada, | as faixas já na cintura,

mais um turbante branco, | lenço de rubra tintura;

e os Árabes que soem | seu grito: está na altura.

A postos a camela | e o camelo, para entrar.

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

Que achais deste Guerreiro e | do Velhote estropiado

à sombra do abanico | (às moscas, por Deus, poupado),

balbuciando queixas | em lamento soluçado

e assim se escapando, | logo após representar?

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

Isto é que é magia: | quem não dorme fica mal.

Xô!, cão branco-de-cal! | E xô!, cão branco-de-cal!

Enroscai essas caudas | e ide para o curral,

que amanhã podereis | alçá-las, para caçar.

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

Eu amo a vós todos. | Amai-me, pelo Profeta!

Sem vós não passo bem, | nem vós sem a minha festa.

Se azar me desgraçara, | vossa dor seria lesta;

Se a vós ele calhara, | como iria eu chorar…!

Saudações, saudações! | Já aqui irei voltar.

Nesta canção de Ibn Quzmán, o poeta imagina-se na pele do líder de uma companhia itinerante de variedades — ou grupo de saltimbancos —, que alicia o público com um misto de números musicais, teatrais e circenses. Mencionam-se instrumentos musicais, um travesti (Qurra), um coro de mulheres, uma camela e um camelo de carga, cães amestrados e personagens tipificados como o Palonço, um grupo de Árabes, um Guerreiro e um Ancião alquebrado. Entretanto, o organizador do espectáculo, cuja rudeza é patente, aproveita para se apresentar como um homem de distinção, roubando ao juiz presente (não nomeado) o panegírico de regra, no que confirma a sua falta de educação.

Contudo, a acção passa-se, maioritariamente, nos bastidores: enquanto mestre de cerimónias, o encenador saúda o público só para o convidar à espera, deixando, porém, a cena aberta para que os preparativos lhe sejam revelados (uma audácia que costumamos associar à arte moderna). Imperceptivelmente, a preparação da actuação, no seu enervamento desconjuntado, pontuada por ordens, censuras, alusões e lampejos de cor, transforma-se em espectáculo; e o refrão, que anunciava a saída de cena, anuncia por fim o seu encerramento e a promessa de nova visita ao lugar.

A canção ilustra a forma poética do zajal (precursor do vilancico ibérico); a tradução em português procura reproduzi-la, usando versos de treze ou catorze sílabas métricas com cesura interna segundo o esquema métrico 6() | 7(), com rimas A || bbba. O seu conteúdo foi baseado nas edições, comentários e traduções para o inglês e castelhano de, respectivamente, James T. Monroe (1979) e Federico Corriente (1980 para a edição-base, 1989 e 1996 para a tradução comentada), considerando também uma observação crítica de Abu-Haidar (1998)[1].

Manuel Pedro Ferreira

P. S.: Não posso deixar de registar aqui o imenso prazer que foi ler o trabalho de James T. Monroe sobre este poema, abarcando edição do texto original, discussão terminológica e linguística, exegese literária comparativa, cinco lâminas ilustrativas e duas propostas de tradução (literal e poética). Ainda que, à luz da posterior contribuição de Corriente, alguns pontos possam ser contestados, a energia intelectual, a erudição e a largueza de horizontes aí patentes fornecem uma lição, propõem um percurso aliciante e permanecem um regalo para o leitor. A discussão, pertinente e detalhada, dos instrumentos musicais mencionados na primeira estrofe (naqra, duff, xīz, bandayr [termo românico] e zamīr) teve o contributo do etnomusicólogo Israel J. Katz (1930-2021), com quem também eu, há muito tempo, me correspondi, e que cheguei a visitar em Nova Iorque. Na minha tradução, em vez de usar o termo técnico português para naqra ­— nácares—, optei pelo plural de «tamboril», dado ser de compreensão mais imediata e convocar a imagem de tambores de pequenas dimensões e carácter popular, como julgo seria o caso. Para designar zamīr, optei não por «charamela», que evoca os músicos profissionais activos entre c. 1400-1700, mas por «palheta», que é o aerofone correspondente de palheta dupla e campânula, de tipo rústico (Oliveira, 2000, pp. 247-48).

Bibliografia citada:

Abu-Haidar, J. A.: “The Script and Text of Ibn Quzmān’s Dīwān: Some Giveaway Secrets”, Al-Qantara 19/2 (1998), 273-313.

Corriente, Federico: Gramática, Métrica y Texto del Cancionero Hispanoárabe de Aban Quzmán (Madrid: Instituto Hispano-Árabe de Cultura, 1980).

Corriente, Federico: Ibn Quzmán — Cancionero andalusí. Edición de —, 2a edición (Madrid: Hiperión, 1989).

Corriente, Federico: Ibn Quzmán — Cancionero andalusí. Nueva edición, mejorada y puesta al día. Traducción, introducción y notas de — (Madrid: Hiperión, 1996).

Ferreira, Manuel Pedro: “As raízes medievais dos instrumentos musicais europeus”, in Fábricas de Sons: Instrumentos de música europeus dos séculos XVI a XX (Lisboa: Electa, 1994), pp. 33-40.

García Gómez, Emilio: Todo Ben Quzmān: editado, interpretado, medido y explicado (Madrid: Gredos, 1972).

García Gómez, Emilio: El mejor Ben Quzmán en 40 zéjeles (Madrid: Alianza, 1981).

Monroe, James T.: “Prolegomena to the Study of Ibn Quzmān: The Poet as Jongleur”, in El Romancero hoy: Historia, Comparatismo, Bibliografía crítica (Madrid, 1979), pp. 77-129.

Oliveira, Ernesto Veiga de: Instrumentos musicais populares portugueses, 3ª edição (Lisboa: Fundação C. Gulbenkian, 2000).

  1. Quando há divergência entre Monroe e Corriente, sigo Monroe nas identificações organológicas da estrofe I e também no verso V.3; adopto a leitura de Corriente no verso III.4; opto por uma solução intermédia em IV.3, IV.4 e VI.2; e sigo Abu-Haidar no verso V.4. O verso IV.3, no qual García Gómez e Monroe vêm a inscrição do nome do poeta, tem posto muitas dificuldades interpretativas. Corriente apresentou sucessivamente três hipóteses de leitura: ʾáy gulám! ya qázma! kaḏá húwwa ʾínsi? (1980); ay gulámi yáfiḏ? hakaḏá hu ínsi (1989); ay ḡulám ya qáwmi, kaḏá hu insí? (1996). Monroe, no mesmo passo, leu, na esteira de García Gómez: áy ġulám yā qúzmān | āha [húwa] ʾúnsī.

Edição: Agosto 2025

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Em diante: inquisition as legal innovator, registo internacional de navios, mulheres Samburu, imagem de Camões, detesto ciclistas, gerontocracias, Madina do Boé, há mouros na costa, Inês Cannas, John Philip Sousa, padronização do tempo, Portugal nos armoriais estrangeiros, crónicas de Jean Froissart, Fátima de Canijo, abril pelas direitas.

ENSAIO

Registo Internacional de Navios: Portugal, um Novo Atrator Fiscal?

Tal como as pessoas, também os navios necessitam de uma nacionalidade que os identifique. Se para as pessoas a nacionalidade dos progenitores, do cônjuge, o país de nascimento ou país de vivência por um longo período poderão definir a nacionalidade, para os navios, já não é bem assim: a nacionalidade concedida não tem de possuir alguma relação com a nacionalidade ou com o país de residência dos seus proprietários.

A construção da imagem de Camões como herói da pátria

Em 1825, Garrett publica Camões, marco do Romantismo português e da exaltação patriótica do poeta- soldado. A obra reforça o culto camoniano, destaca o escravo Jau e inspira literatura, arte e política. Camões torna-se símbolo eterno de Portugal.

The Inquisition as Legal Innovator

The Inquisition, despite its reputation, introduced key legal innovations for its time—such as standardized procedures, prisoner protections, regulated torture, and house arrest— that helped modernize and humanize judicial systems in Europe.

Que justiça quer construir para sua aldeia? O caso das mulheres Samburu

As experiências no território Samburu mostram como a implementação de um sistema de justiça restaurativa com uma perspectiva de género pode transformar profundamente a realidade de um território inteiro.

Atenção, cuidado!

CRÓNICA

Há mouros na costa!

O fenómeno da escravatura de brancos e católicos no Norte de África desmente a ideia, demasiado simplificada, de que a escravidão moderna foi apenas um fluxo unilateral de africanos para as Américas. A realidade era bem mais complexa e interligada: enquanto Portugal e Espanha participavam activamente no tráfico negreiro atlântico, comunidades inteiras nas suas próprias costas eram vítimas de uma escravização exercida a partir do Magrebe.

Detesto ciclistas

Uma crónica sobre porque é que, nas cidades, se aplaude a morte de um forcado e se exige funeral digno para um caniche, enquanto no campo se enterra o cão no quintal com uma lágrima sincera e no dia seguinte se continua a lavrar.

Madina do Boé…«Aqui Não Havia Messes»

De simbologia é feito o lugar do Boé. Alega-se ter sido aqui o início e o epílogo da guerra colonial da Guiné! Foi onde ocorreu uma das primeiras emboscadas que marcaram o início da luta de libertação do PAIGC e onde o partido de Amílcar Cabral proclama a independência do país, a 24 de Setembro de 1973, embora Portugal só a venha a reconhecer em Setembro de 1974.

Gerontocracias e brigadas do reumático

Em Portugal, quando se pôs termo ao Estado Novo através do golpe militar de Abril de 1974, assistiu-se à substituição de uma elite conservadora, alicerçada militarmente na icónica brigada do reumático, por uma nova casta saída dos ventos do Maio de 68, impregnada de igualitarismo militante, utopismo internacionalista e vocação marxizante.

Filosofia e clássicos.

ARTES VISUAIS

Galeria: Obras de Inês Cannas

Galeria com trabalhos de Inês Cannas (Lisboa, 1967), artista visual que vive e trabalha em Lisboa e frequentou o Curso Avançado de Artes Visuais, Ar.Co – Lisboa, além da Licenciatura em Design, IADE Lisboa.

Matemáticas, demografia, engenharias…

RUBRICA

Galeria: Inéditas armas de Portugal nos Armoriais Medievais estrangeiros

Uma breve galeria com armas de Portugal nos Armoriais Medievais estrangeiros, entre 1380 e 1486.

Uma Narrativa dos assuntos de Portugal após 1383

Uma das Narrativas Desconhecidas, num pergaminho alternativo das Crónicas de Jean Froissart, pelo cavaleiro João Fernandes Pacheco, dos assuntos de Portugal após 1383 [um excerto em muitos].

Da América para o mundo.

John Philip Sousa: O Rei das Marchas e as Suas Raízes Portuguesas

A história da música para bandas não se pode escrever sem mencionar, em letras sonoras e destacadas, o nome de John Philip Sousa, um sinónimo de marchas militares, de desfiles vibrantes, de patriotismo norte- americano em forma de pauta. O compositor de The Stars and Stripes Forever era filho de um madeirense, e essa herança lusitana nunca deixou de o acompanhar.

A Padronização do Tempo

A realidade nasce nas nossas mãos. Se temos dúvidas sobre a existência de algo, esticamos o indicador e tocamos-lhe. A conclusão da experiência fica por sua conta. As nossas mãos parecem, desta forma, ser o berço da realidade. Será mesmo assim?

Sobre a desinformação.

CRÍTICA

Crítica: Fátima (João Canijo, 2017)

O que torna um filme cómico é certas pessoas (o realizador, os actores) fazerem coisas cómicas; e o que torna um filme azul é certas coisas (objectos filmados, a emulsão da película, a iluminação) serem azuis. Um filme religioso não é no entanto o resultado de certas pessoas fazerem coisas religiosas; ou de certos objectos terem a propriedade de ser religiosos. Fátima, de João Canijo, não é, apesar do título, um filme religioso.

Crítica: Abril pelas direitas… foi bonita a festa, pá?, Rodrigo Pereira Coutinho e Paulo Jorge Teixeira

Apesar da produção extensa relativa ao Estado Novo e à transformação política subsequente, a expressão das direitas – liberais e social- democratas à direita, conservadores, reacionários e nacionalistas tradicionalistas – é minoritária nos discursos oficiais e historiográficos. Esta obra tenta colmatar essa hegemonia, reunindo 50 ensaios que capturam as múltiplas vozes e abordagens das direitas portuguesas.

Os funnnies deste mês são dedicados às eleições autárquicas portuguesas.

Retrato de Margarida da Áustria (1480–1530), filha do imperador Maximiliano I e de Maria da Borgonha, foi arquiduquesa de Áustria e regente dos Países Baixos borgonheses, destacando-se como uma das mais influentes mulheres do Renascimento europeu. Viúva três vezes e sem descendência, dedicou-se à governação e à diplomacia, tornando-se uma hábil mediadora entre as grandes potências do seu tempo. Foi também uma notável patrona das artes e das letras: protegeu humanistas como Erasmo de Roterdão, poetas como Jean Lemaire de Belges e músicos como Pierre de La Rue, além de colecionar manuscritos ricamente iluminados e apoiar a pintura flamenga, nomeadamente artistas ligados à tradição de Jan van Eyck e Rogier van der Weyden. A sua corte em Malinas tornou-se um centro cultural vibrante, símbolo do esplendor borgonhês e da síntese entre poder político e mecenato artístico.

Em diante: inquisition as legal innovator, registo internacional de navios, mulheres Samburu, imagem de Camões, detesto ciclistas gerontocracias, Madina do Boé, há mouros na costa, Inês Cannas, John Philip Sousa, padronização do tempo, Portugal nos armoriais estrangeiros, crónicas de Jean Froissart, Fátima de Canijo, abril pelas direitas.

ENSAIO

Registo Internacional de Navios: Portugal, um Novo Atrator Fiscal?

Tal como as pessoas, também os navios necessitam de uma nacionalidade que os identifique. Se para as pessoas a nacionalidade dos progenitores, do cônjuge, o país de nascimento ou país de vivência por um longo período poderão definir a nacionalidade, para os navios, já não é bem assim: a nacionalidade concedida não tem de possuir alguma relação com a nacionalidade ou com o país de residência dos seus proprietários.

A construção da imagem de Camões como herói da pátria

Em 1825, Garrett publica Camões, marco do Romantismo português e da exaltação patriótica do poeta- soldado. A obra reforça o culto camoniano, destaca o escravo Jau e inspira literatura, arte e política.

Camões torna-se símbolo eterno de Portugal.

The Inquisition as Legal Innovator

The Inquisition, despite its reputation, introduced key legal innovations for its time—such as standardized procedures, prisoner protections, regulated torture, and house arrest— that helped modernize and humanize judicial systems in Europe.

Que justiça quer construir para sua aldeia? O caso das mulheres Samburu

As experiências no território Samburu mostram como a implementação de um sistema de justiça restaurativa com uma perspectiva de género pode transformar profundamente a realidade de um território inteiro.

Atenção, cuidado!

CRÓNICA

Há mouros na costa!

O fenómeno da escravatura de brancos e católicos no Norte de África desmente a ideia, demasiado simplificada, de que a escravidão moderna foi apenas um fluxo

unilateral de africanos para as Américas. A realidade era bem mais complexa e interligada: enquanto

Portugal e Espanha participavam activamente no tráfico negreiro atlântico, comunidades inteiras nas suas próprias costas eram vítimas de uma escravização exercida a partir do Magrebe.

Detesto ciclistas

Uma crónica sobre porque é que, nas cidades, se aplaude a morte de um forcado e se exige funeral digno para um caniche, enquanto no campo se enterra o cão no quintal com uma lágrima sincera e no dia seguinte se continua a lavrar.

Madina do Boé…«Aqui Não Havia Messes»

De simbologia é feito o lugar do Boé. Alega-se ter sido aqui o início e o epílogo da guerra colonial da Guiné! Foi onde ocorreu uma das primeiras emboscadas que marcaram o início da luta de libertação do PAIGC e onde o partido de Amílcar Cabral proclama a independência do país, a 24 de Setembro de 1973, embora

Portugal só a venha a reconhecer em Setembro de 1974.

Gerontocracias e brigadas do reumático

Em Portugal, quando se pôs termo ao Estado Novo através do golpe militar de Abril de 1974, assistiu-se à substituição de uma elite conservadora, alicerçada militarmente na icónica brigada do reumático, por uma nova casta saída dos ventos do Maio de 68, impregnada de igualitarismo militante, utopismo internacionalista e vocação marxizante.

Filosofia e clássicos.

ARTES VISUAIS

Galeria: Obras de Inês Cannas

Galeria com trabalhos de Inês Cannas (Lisboa, 1967), artista visual que vive e trabalha em Lisboa e frequentou o Curso Avançado de Artes Visuais, Ar.Co –

Lisboa, além da Licenciatura em Design, IADE Lisboa.

Matemáticas, demografia, engenharias…

RUBRICA

Galeria: Inéditas armas de Portugal nos Armoriais Medievais estrangeiros

Uma breve galeria com armas de Portugal nos Armoriais Medievais estrangeiros, entre 1380 e 1486.

Uma Narrativa dos assuntos de Portugal após 1383

Uma das Narrativas Desconhecidas, num pergaminho alternativo das Crónicas de Jean Froissart, pelo cavaleiro João Fernandes Pacheco, dos assuntos de Portugal após 1383 [um excerto em muitos].

Da América para o mundo.

John Philip Sousa: O Rei das Marchas e as Suas Raízes Portuguesas

A história da música para bandas não se pode escrever sem mencionar, em letras sonoras e destacadas, o nome de John Philip Sousa, um sinónimo de marchas militares, de desfiles vibrantes, de patriotismo norte- americano em forma de pauta. O compositor de The Stars and Stripes Forever era filho de um madeirense, e essa herança lusitana nunca deixou de o acompanhar.

A Padronização do Tempo

A realidade nasce nas nossas mãos. Se temos dúvidas sobre a existência de algo, esticamos o indicador e tocamos-lhe. A conclusão da experiência fica por sua conta. As nossas mãos parecem, desta forma, ser o berço da realidade. Será mesmo assim?

Sobre a desinformação.

CRÍTICA

Crítica: Fátima (João Canijo, 2017)

O que torna um filme cómico é certas pessoas (o realizador, os actores) fazerem coisas cómicas; e o que torna um filme azul é certas coisas (objectos filmados, a emulsão da película, a iluminação) serem azuis. Um filme religioso não é no entanto o resultado de certas pessoas fazerem coisas religiosas; ou de certos objectos terem a propriedade de ser religiosos. Fátima, de João Canijo, não é, apesar do título, um filme religioso.

Crítica: Abril pelas direitas… foi bonita a festa, pá?, Rodrigo Pereira Coutinho e Paulo Jorge Teixeira

Apesar da produção extensa relativa ao Estado Novo e à transformação política subsequente, a expressão das direitas – liberais e social- democratas à direita, conservadores, reacionários e nacionalistas tradicionalistas – é minoritária nos discursos oficiais e historiográficos. Esta obra tenta colmatar essa hegemonia, reunindo 50 ensaios que capturam as múltiplas vozes e abordagens das direitas portuguesas.

Os funnnies deste mês são dedicados às eleições autárquicas portuguesas.

Retrato de Margarida da Áustria (1480–1530), filha do imperador Maximiliano I e de Maria da Borgonha, foi arquiduquesa de Áustria e regente dos Países Baixos borgonheses, destacando-se como uma das mais influentes mulheres do Renascimento europeu. Viúva três vezes e sem descendência, dedicou-se à governação e à diplomacia, tornando-se uma hábil mediadora entre as grandes potências do seu tempo. Foi também uma notável patrona das artes e das letras: protegeu humanistas como Erasmo de Roterdão, poetas como Jean Lemaire de Belges e músicos como Pierre de La Rue, além de colecionar manuscritos ricamente iluminados e apoiar a pintura flamenga, nomeadamente artistas ligados à tradição de Jan van Eyck e Rogier van der Weyden. A sua corte em Malinas tornou-se um centro cultural vibrante, símbolo do esplendor borgonhês e da síntese entre poder político e mecenato artístico.

Agricultura perene e codificada por cores: cientista português abre caminho para a produção alimentar do futuro

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A edição genética pode tornar as culturas mais coloridas – e tornar a produção alimentar do futuro mais sustentável e resiliente. Com base na Universidade de Copenhaga, o cientista português Pedro Correia trabalha no desenvolvimento de cereais perenes que toleram alterações climáticas e podem ser reconhecidos por robôs agrícolas.

O jovem cientista português Pedro Correia está a transformar a agricultura do futuro – um gene de cada vez. Como investigador de pós-doutoramento na Universidade de Copenhaga, trabalha com edição genética avançada para melhorar variedades de cereais perenes, de modo a obter produções estáveis mesmo em condições climáticas extremas.

Culturas tradicionais como trigo, milho e cevada têm uma grande vantagem: produzem colheitas elevadas. Mas exigem maquinaria pesada, fertilizantes químicos e pesticidas – e deixam o solo empobrecido e vulnerável.

“As culturas que cultivamos hoje são como animais de estimação – exigem cuidados constantes, fertilizantes e químicos para produzir bem”, explica Pedro Correia. “As culturas perenes, que permanecem no solo durante várias estações, têm raízes mais profundas, usam menos recursos e são muito mais resistentes ao clima.”

O problema é que produzem pouco.

Edição genética sem selo transgênico

Com um método livre de transgenes baseado na tecnologia CRISPR, Correia desenvolve mutações que já existem naturalmente noutras plantas. Essas alterações podem aumentar o número e o tamanho das sementes, tornando os cereais perenes uma alternativa economicamente viável a culturas tradicionais como trigo e cevada.

“Tentamos introduzir mutações naturais, que sabemos existir na natureza, para obter mais sementes e maiores “, explica Pedro.

Precisamente por serem mutações naturais, estas têm grande relevância. O melhoramento genético de plantas é uma atividade milenar. O desenvolvimento das leis da hereditariedade no início do século XX acelerou o processo, e os avanços da biotecnologia nos anos 70 permitiram introduzir alterações genéticas mais complexas. Nas últimas duas décadas, surgiram novas técnicas baseadas em biotecnologia, conhecidas como “novas técnicas genómicas” (NGTs). Enquanto as técnicas anteriores geravam alterações aleatórias no genoma, as NGTs permitem fazer edições direcionadas com grande precisão. É exatamente com isto que Pedro Correia trabalha:

“Usamos mutações naturais – não genes de outras espécies, transgenes. Usamos técnicas baseadas em CRISPR.”

Atualmente, a União Europeia, que possui uma das legislações mais restritivas do mundo em relação a organismos genéticamente modificados (OGM) está a rever as regras para permitir que plantas desenvolvidas com NGTs possam ser cultivadas ao ar livre. Isso já é possível noutras partes do mundo, como os EUA e a América do Sul, e Pedro vê na legislação europeia uma grande oportunidade:

“As nossas plantas podem ser potencialmente isentas de classificação como OGM, o que abrirá caminho para uma entrada mais rápida no mercado europeu”, diz ele.

Robôs agrícolas e plantas com códigos de cor

Um aspeto inovador da investigação de Correia é a ideia de editar geneticamente culturas para que possam ser reconhecidas por robôs agrícolas com inteligência artificial.

Robôs agrícolas são máquinas avançadas que usam sensores, GPS e IA para realizar tarefas com precissão – como controlo de ervas daninhas, colheita e sementeira. Podem reduzir o uso de pesticidas, poupar mão de obra e proteger o solo, minimizando o uso de maquinaria pesada. Com o aumento do foco na sustentabilidade e na escassez de mão de obra, os robôs devem desempenhar um papel essencial na agricultura do futuro, sobretudo quando usados com culturas geneticamente modificadas para serem facilmente reconhecíveis pelos sensores das máquinas.

As ervas daninhas representam uma grande ameaça tanto para culturas anuais como perenes, e a solução pode estar em tornar as culturas mais identificáveis através de pequenas alterações no espectro de cores das folhas ou nos padrões foliares.

“Não se trata de fazer plantas roxas ou azuis”, sublinha ele. “São ajustes subtis que permitem aos sensores e robôs distinguir culturas de ervas daninhas, ajudando-nos a reduzir o uso de herbicidas.”

Esta abordagem foi destacada pelo jornal The Guardian, onde cientistas argumentam que a codificação de cores nas plantas pode ser uma ferramenta essencial na agricultura de precisão do futuro. Correia e os seus colegas já estão a realizar testes laboratoriais com características vegetais reconhecíveis, que, combinadas com sementeira com GPS e robótica, podem automatizar significativamente o controlo de ervas daninhas.

De Lisboa a Copenhaga – e para o mundo

Pedro Correia vive e trabalha como pós-doutorando em Copenhaga desde 2021. Quando visitou a Dinamarca pela primeira vez num curso de verão em 2017, ficou imediatamente fascinado: “Tudo era incrível. Acho que me apaixonei pelo país.”

Licenciou-se em Portugal e concluiu o doutoramento entre Lisboa, Lancaster na Inglaterra e Copenhaga, antes de se voltar para a Dinamarca. Ele descreve o ambiente de investigação dinamarquês como sendo ao mesmo tempo eficiente e humano.
“Consigo fazer mais ciência com menos stress aqui. O equipamento, o apoio e a flexibilidade são excelentes”, afirma.

O que mais o atrai na cultura laboral dinamarquesa é a liberdade e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Embora o idioma seja um desafio, não tem dificultado a sua integração:

“Toda a gente fala inglês. Isso torna a integração fácil e é uma grande vantagem se a Dinamarca quiser atrair cientistas internacionais.”

Correia considera tanto uma carreira académica como colaborações com a indústria biotecnológica, especialmente na área da agrotecnologia e soluções sustentáveis:

“Estamos no meio de uma crise alimentar global. Precisamos de culturas que resistam à seca, que sequestram CO₂ e que não exijam grandes quantidades de químicos. As culturas perenes são parte da solução – não a única, mas uma parte essencial.”

E tenciona continuar na Dinamarca:

“Por agora, vou ficar. Há um caminho mais direto para continuar na academia, criar o meu próprio grupo de investigação, obter financiamento e orientar estudantes para formarmos uma nova geração de cientistas.”

Segundo a OCDE, a Dinamarca investe consistentemente mais de 3% do seu PIB em investigação e desenvolvimento, colocando-se entre os países mais avançados do mundo. Assim, o financiamento para investigação de ponta em ciências da vida, neurociências, farmacêuticas, biotecnologia e tecnologias para a transição climática é substancial. A estabilidade económica a nível pessoal também é elevada, apesar dos altos impostos:

“Na Dinamarca tem-se um bom salário. Os salários em Portugal não são sequer comparáveis. Mesmo que fiquemos apenas com metade após os impostos, é mais do que suficiente para viver e desfrutar. Para mim, foi também uma decisão financeira. Mas, acima de tudo, aqui há boas oportunidades e condições para fazer ciência de qualidade.”

Caixa de informações: O que são culturas perenes?

Culturas perenes são plantas que sobrevivem a várias estações de crescimento sem precisarem ser replantadas todos os anos. Têm raízes mais profundas, maior capacidade de sequestro de carbono e requerem menos trabalho do solo, o que as torna mais sustentáveis que as culturas anuais tradicionais.

Caixa de informações: Edição genética sem OGM?

A nova legislação da UE sobre NGTs (Novas Técnicas Genómicas) propõe que plantas desenvolvidas com técnicas precisas como o CRISPR – desde que não contenham genes estrangeiros (transgenes) – não sejam classificadas como OGM. Isso abre novas possibilidades para a produção alimentar europeia.

More info about Denmark as a scientific nation: research.state-of-denmark.com

About Pedro Correia:
https://plen.ku.dk/ansatte/?pure=da/persons/736853

Scientific article:
https://www.cell.com/trends/plant-science/abstract/S1360-1385(24)00057-8?

Guardian article:
https://www.theguardian.com/science/2024/apr/17/gene-editing-crops-to-be-colourful-could-aid-weeding-say-scientists

Feminismo e o papel da mulher na sociedade do Estado Novo

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Durante o Estado Novo, como bem se sabe, houve a promoção de valores tradicionais e a subordinação da mulher à esfera doméstica. Nesse período a mulher tinha como funções centrais a maternidade e o casamento, limitando a sua participação na vida pública e política. Contrariamente, há a assinalar a atuação do feminismo, face a esse paradigma, que continuou presente durante o regime ditatorial, mas que assumiu diversas formas e enfrentou diversas restrições. Este trabalho de investigação visa analisar o papel da mulher na sociedade do Estado Novo, explorando de que forma a política e o conservadorismo moldaram as expectativas em torno da feminilidade e da maternidade, enquanto, apesar da repressão, se assinala resistências feministas ao regime. No fundo, o foco cinge-se em evidenciar de que forma o feminismo desempenhou um ponto de viragem face à condição de subordinação feminina, imposta pelo regime, assinalando a luta pelos direitos das mulheres, sendo determinante nesse processo as vozes de algumas intelectuais e ativistas feministas. Palavras-Chave: Feminismo; Estado Novo; Sociabilidade; Espaço público. Trabalho realizado na Universidade de Évora/Escola de Ciências Sociais, no curso de Licenciatura em História e Arqueologia, para o Seminário em História, com a docente Professora Doutora Maria Fátima Nunes.

Fotografia retirada do Jornal Público: As histórias das mulheres que combateram o regime na clandestinidade, artigo de Bárbara Wong, 5/04/2017

Índice de Abreviaturas:
CNMP: Concelho Nacional de Mulheres Portuguesas
FDIM: Federação Democrática Internacional das Mulheres
MDM: Movimento Democrático de Mulheres
MND: Movimento Nacional Democrático
MUD: Movimento de Unidade Democrática
PIDE: Polícia Internacional e de Defesa do Estado

1. Introdução:

Esta investigação aborda o Feminismo e o papel da mulher na sociedade do Estado Novo, tratando da forma como o feminismo progrediu, se afirmou e marcou Portugal, no quadro de um profundo conservadorismo, referindo ainda algumas das feministas que mais marcaram o regime. Esta investigação procura dar a entender de que forma as feministas desafiaram as normas impostas pelo Estado Novo, lutando pela igualdade de direitos, mesmo estando sob a constante ameaça da repressão e da censura. A escolha deste tema adveio do meu interesse pessoal pela História da Mulher, área historiográfica que permite compreender a evolução da condição feminina ao longo dos tempos, bem como os desafios encontrados no processo de conquista dos direitos cívicos e sociais. A investigação possibilita explorar as dinâmicas entre o papel tradicionalmente destinado à mulher, centrado no lar e na família, e a emergência de um movimento feminista, que se manifesta como ponto de viragem no que consta à condição feminina, uma vez que ambicionava romper com essas teias, através precisamente da integração em diversos setores da sociedade civil ou política, com a finalidade da obtenção da sua emancipação. Para a realização deste trabalho de investigação é colocada uma questão, a qual se pretende clarificar, através de conceitos e análises historiográficas, sendo a questão: “De que modo o feminismo se manifestou durante o Estado Novo e quais os mecanismos usados pelo mesmo, que permitiram a sua intervenção pública?”.

Propõe-se assim estudar e entender qual o impacto que o feminismo gerou, mediante o contexto de conservadorismo e tradicionalismo em que se viveu durante o regime ditatorial. Para responder a este projeto de investigação recorre-se a diversas fontes, desde decretos de lei, aos arquivos da Casa Comum, a fontes iconográficas, e o recurso a uma obra da época, Novas Cartas Portuguesas. Com a análise destas fontes, é possível compreender que durante o período histórico mencionado na realização deste trabalho, a questão do feminismo bem como todos os conceitos e demais domínios relacionados com a presença da mulher na sociedade do Estado Novo, foi algo que as diversas feministas e intervenientes sociais colocaram nas relações sociais existentes na sociedade portuguesa conservadora. Relativamente à estrutura do seminário, o mesmo divide-se por uma ordem cronológica de análise: Inicialmente é apresentada uma contextualização referente ao papel social da mulher na 1ª República, com o intuito de expor o triunfo do feminismo em Portugal no regime republicano. Esta contextualização permite ainda indicar contrastes entre este regime e o Estado Novo relativamente à política estatal dirigida ao sexo feminino.

Numa outra perspetiva, já no Estado Novo, a fim de se compreender o nascimento da oposição feminina ao regime autoritário, é elaborado um capítulo relativo ao modelo ideológico defendido pelo Salazarismo referente às mulheres. Posteriormente é realizada uma análise sobre o feminismo durante a ditadura e a sua oposição ao regime, completando ainda esta análise com exemplos de feministas da época e dos instrumentos utilizados pelas mesmas para exporem os seus ideais e a sua crítica à política estatal relativa à mulher e à sua integração na vida social. Seguidamente numa outra análise, pretende-se compreender e evidenciar a importância da utilização do espaço público como instrumento essencial, na divulgação dos direitos e oportunidades de afirmação feminina, através do caso da revista Modas & Bordados, como exemplificação, onde se procura explicitar de que forma estes meios de comunicação social poderiam eventualmente ter a capacidade de alterar a mentalidade social existente no período ditatorial sobre as mulheres.

Na Europa entre o final da 1ª Guerra Mundial e a ascensão dos regimes antiliberais, a condição feminina era sobretudo de afirmação da sua emancipação, no entanto depois de consolidados os autoritarismos na década de 30 do século XX, as mulheres vêm a sua condição ser incorporada nos ideais político-ideológicos e conservadores dos distintos regimes autoritários europeus, o que provocou um claro retrocesso social na sua emancipação e participação na vida pública. Seguindo os semelhantes e restantes modelos político-ideológicos da restante Europa, no Estado Novo é notório afirmar que a condição feminina revelou-se à semelhança dos outros regimes, algo incorporado numa visão tradicional da sociedade, na qual o papel da mulher era sobretudo destinado ao trabalho doméstico e pouca opinião pública ou influência na organização social corporativa que caracterizava os regimes antiliberais. Perante a existência deste modelo de condição em que a mulher se inseria na sociedade corporativa do Estado Novo (pouca aparência pública e dedicação às tarefas domésticas ou sociais discretas), foram surgindo na sociedade portuguesa algumas vozes contrárias à conceção de vida feminina adotada pelo regime, nas quais procuraram consolidar uma afirmação no espaço público, e representar assim ideais contrários à ideologia do regime. Assim, esta investigação baseia-se sobretudo no domínio da História Social, na finalidade de compreender o feminismo e o papel desempenhado pelas mulheres no regime ditatorial, bem como procurar transmitir a evolução do movimento feminista na formulação de uma oposição cívica ao regime, mas também na dinamização da emancipação feminina ao longo desta cronologia, reveladora de uma memória história que perdurou quase 50 anos até abril de 1974.

2. Estado da Arte:

O Estado Novo é um regime que é alvo de estudo de diversas temáticas, sendo o ramo da História das Mulheres uma delas que por sua vez decidi investigar. Dentro deste âmbito de estudo, consegue-se perceber como é que a mulher era vista a nível social durante o regime, e como a ideologia feminista influenciou o mundo português, rompendo progressivamente com os ideais definidos pelo regime salazarista, que se empenhava em moldar a mentalidade da sociedade através de um forte tradicionalismo e do conservadorismo, de modo a não haver possíveis contestações. De referir, o papel da imprensa, nomeadamente revistas, tais como a Modas & Bordados que retratam o quotidiano feminino, e que influenciou em grande medida para uma nova forma de pensar referente ao papel da mulher, dotando-a com capacidades para poder ser um agente ativo na sociedade. Deste modo cumpre referir quatro obras elementares para perceber como é que a mulher era vista no Estado Novo, assinalando o seu quotidiano, a sua função na sociedade e as restrições e exigências que eram inculcadas desde cedo à mulher, de modo a não contestarem o regime. Sendo estas obras igualmente importantes para entender de que forma o feminismo influenciou a sociedade da época, e como foi desenhando um novo futuro e novas possibilidades de influência feminina no plano social.

Primeiramente, há que referir o livro Mulheres para além do seu tempo[1], em que há a abertura a um debate sobre o tema feminismo-machismo. O livro fornece o conceito do feminismo, dando também a conhecer não só os seus progressos, o seu grau de legitimidade e consequentemente as mudanças que trouxe, como também, as várias condicionantes a que esteve sujeito, perante um mundo à época caracterizado por ser conservador e tradicional. Seguidamente é apresentado o papel que revistas portuguesas femininas detiveram, a nível da emancipação feminina, sendo mencionadas duas revistas, que se considerou terem tido um papel mais marcante e ativo: a Alma feminina e o Portugal Feminino. As duas oferecem uma visão interessante da vida social e cultural das mulheres. Ao longo do livro, expõe-se como era a situação social da mulher portuguesa, mencionado temas como a educação feminina e a luta pelos direitos políticos e cívicos, iguais aos do homem. Acredito que a leitura deste livro seja importante para quem procura saber mais sobre a condição social da mulher e de que forma o feminismo influenciou no desenhar de um novo futuro, com novas oportunidades, desafiando os padrões sociais e culturais da época.

Seguidamente, na obra Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007)[2] é feita uma abordagem relativamente ao percurso do feminismo em Portugal em meio século de História, ou seja, desde o encerramento do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas em 1947 até à despenalização do aborto ocorrida em 2007. Relativamente ao período do Estado Novo, constata-se um esquecimento da memória histórica do feminismo, com uma ideologia conservadora e antifeminista que condicionava ideologicamente a sociedade portuguesa. Através do uso de teorias feministas, a autora procura dar visibilidade aos feminismos como corrente plural de pensamento e ação, mas apresenta igualmente as suas fragilidades, como a secundarização da luta das mulheres no lado da oposição do regime. Com efeito, a obra proporciona uma reflexão do impacto social que a ideologia feminista deteve em Portugal, e de que forma a resistência cívica se fez sentir ao longo do período do regime ditatorial. A obra de Manuela Tavares está divida em três partes: na primeira a autora menciona um contexto histórico sobre a evolução dos feminismos em Portugal desde a década de 1950; na segunda parte da sua obra a autora faz referência ao contacto existente entre o mundo académico e este tema, sendo que numa última fase aborda as várias teorias feministas e a sua necessidade de reconfiguração, já em período de democracia. Este livro é essencial à análise sobre a condição da mulher no Estado Novo e os movimentos feministas resultantes em oposição à visão feminina institucional.

Na dissertação de Mestrado, Mulheres e cidadania na revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928–1947[3] é mencionada a grande influência e poder que a revista Modas & Bordados deteve a nível político, cultural e social durante o Estado Novo. Uma revista, dirigida por Maria Lamas, ativista que se dedicou na luta pelos direitos das mulheres em Portugal, revelou-se fundamental e de grande importância para as mulheres que tinham possibilidades económicas para ter acesso a ela, pois caracterizou-se por uma evolução de mentalidades. Não só abordava questões de moda, beleza e de vida doméstica, como também abria espaço à dignificação da mulher, defendendo que a mesma se devia afirmar e criar espaço e relevo na sociedade, a fim de poder apresentar-se do ponto de vista social, como um ativo fundamental na elaboração de novas relações socias baseadas no princípio da igualdade entre a sociedade.

Por último, no livro Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A segunda Grande Guerra[4] é retratada a forma de vida das mulheres portuguesas do ponto de vista jurídico, durante a Segunda Guerra Mundial. Nele consegue-se perceber que do ponto de vista jurídico, a liberdade da mulher era limitada, prevalecendo o poder marital que determinava todos os aspetos de vida da sua cônjuge, pode-se assim dizer que a lei constitucional impunha vários entraves à afirmação da mulher. O livro abarca assim temas como a educação, o trabalho e o casamento que mostram como o regime ditatorial controlava o pensamento da mulher, e por sua vez a sua subordinação. É também mencionado no livro, algumas feministas portuguesas tais como a já referida Maria Lamas, onde apresentaram uma nova visão de mundo feminino, inculcando ideais que possibilitavam a que a mulher tivesse uma maior consciência do que poderia ser o seu papel na sociedade, reclamando assim por um papel cada vez mais presente e ativo. Deste modo, a leitura deste livro é fundamental para compreender como é que a mulher era vista socialmente durante o Estado Novo.

Ao realizar uma análise detalhada relativamente às obras mencionadas, nesta investigação, proponho a elaboração de um estudo relativo à comparação entre o ideal feminino instituído pelo regime e a diferente conceção sobre a vida feminina dos movimentos feministas, relativamente ao papel da mulher na sociedade e à sua própria imagem, por oposição ao Estado Novo. Assim, é relativo mencionar a importância destas quatro obras para a elaboração de uma complementaridade entre elas, no sentido de estabelecer as linhas gerais relativas à condição feminina, bem como à sua integração na sociedade e tentativa de emancipação protagonizada por organizações ou por iniciativa própria de feministas na clandestinidade, dado o caráter repressivo do Estado, após 1933, com a ascensão do autoritarismo. Através de outras leituras, e a interrogação feita às fontes, neste trabalho procura-se contribuir de forma inovadora para a historiografia relativa à História da Mulher em período da censura política. Assim, neste sentido, indico neste Estado da Arte obras essenciais à elaboração desta investigação, notando ainda que numa análise complementar, as obras produzidas sobre a História da Mulher e no feminismo no contexto do Estado Novo, é uma historiografia que ainda necessita de mais estudos relativos a uma temática transversal importante. Considero estas obras relevantes para a análise que esta investigação propõe elaborar.

3. O feminismo em Portugal: O triunfo na 1ª República

Após a implantação da primeira experiência republicana em Portugal, em 1910, o país atravessou um conjunto de mudanças significativas, quer políticas, económicas, culturais e até sociais. Neste sentido, é importante compreender que o início do movimento pela procura da afirmação da mulher em contexto social é iniciado após a implantação deste novo sistema político. Entre uma sociedade conservadora anterior a 1910 e uma sociedade aberta pós 1910, o novo regime político intitulava uma nova fase para a História Social, com um protagonismo relevante para a conquista de direitos fundamentais inseridos na constituição e no direito republicano, entre eles o direito das mulheres, amplamente diversificado por oposição ao conservadorismo da monarquia constitucional. Neste sentido, durante a 1ª República é notório referir a existência de uma organização feminina crescente, reivindicativa discursiva que revolucionou o paradigma das mulheres portuguesas no início do seculo XX, formando até uma elite feminina de intelectuais e mulheres com formação, responsáveis pela consolidação nos direitos femininos no espaço público[5].

É assim neste contexto político que o feminismo surge como elemento reivindicativo dos direitos das mulheres, liberdades e relevância social do papel das mulheres, na sociedade portuguesa. O regime republicano é o primeiro regime político que estabelece uma ampla liberdade de direitos para as mulheres na sociedade, também eles intitulados no constitucionalismo republicano. Desde as suas reivindicações até à aprovação legislativa de diretivas relacionadas com os direitos das mulheres, são inúmeros os acontecimentos que caracterizam esta cronologia como um período de mobilizações sociais e procura crescente da valorização da mulher, enquanto ativo crucial na dinamização da sociedade. É neste preciso período, que as mulheres portuguesas vêm a sua condição ser valorizada sobretudo a partir das reformas na educação com a criação de espaços destinados ao ensino feminino e instrução das mulheres. Num olhar transversal é relevante mencionar a imprensa como elemento fundamental no período republicano, ao proporcionar à sociedade feminina visões de emancipação da condição feminina[6]. A imprensa, permitiu o espalhar de direitos sobre a condição feminina, que mobilizaram personalidades decisivas na história do feminismo no regime republicano.

É importante destacar na sequência desta análise do triunfo do feminismo em Portugal, no período da 1ª República, anteriormente ao Estado Novo, diversas personalidades que se destacaram na obtenção de direitos e deveres fundamentais da condição feminina, entre elas Carolina Beatriz Ângelo, exemplo predominante para todas as mulheres da sua época, reivindicativa de um conjunto de direitos femininos, inaugurou em Portugal o direito de voto às mulheres com a aprovação legislativa do parlamento. As mulheres passaram assim a ter o direito de voto concedido. Este ato foi o mais importante de toda a primeira ação eleitoral do regime republicano[7]. Após o voto feminino, pelo país são constituídas diversas associações político-sociais, com o objetivo de difundir os direitos concedidos pelo regime às mulheres, bem como procurar contribuir nestas associações para uma melhor representação da mulher na sociedade, neste contexto é criado o CNMP, associação pelo qual as mulheres se reuniam a fim de procurarem consenso sobre outras formas de obtenção de direitos e liberdades, motivadas pela emancipação feminina desta cronologia[8].

A primeira experiência republicana inaugurou em Portugal um período propicio à afirmação da emancipação feminina, enquanto que gerou os fatores determinantes (políticos-ideológicos), que contribuíram para um período de ampla convivência social feminina, o que permitiu a existência de uma imagem da mulher enquanto ser autónomo, com capacidade de influenciar a sociedade e pensamento intelectual da época. Na História do feminismo em Portugal, o período republicano assume-se como uma cronologia caracterizada por uma abertura da sociedade à valorização do papel feminino, por oposição ao período monárquico e no qual o sentimento feminino e o quotidiano das mulheres, marcaram com a obtenção de direitos constitucionais um pioneirismo para a História da Mulher em Portugal. Um período tão importante para a compreensão do feminismo em Portugal é, no entanto, conturbado não pela obtenção de direitos, mas pela agitação política do parlamentarismo da 1ª República, o que com a entrada no país na rota do autoritarismo político coloca em causa a emancipação feminina e as conquistas laborais ou sociais que durante o período republicano as mulheres portuguesas adquiriram. É assim neste contexto de obtenção da emancipação feminina que este trabalho propõe avaliar a continuação deste projeto feminino no Portugal ditatorial.

4. O modelo Ideológico referente à mulher no Estado Novo

Segundo Salazar, a família era vista como sendo uma realidade primária e indispensável de toda a orgânica nacional, na qual se formava a ordem social e política do país. Para ele, o homem tinha a função de ser “o chefe moral da família”, detendo uma autoridade total do lar, sendo o decisor final em questões familiares e patrimoniais. A ideia de diferença de género renasce com o Estado Novo, e com a Constituição de 1933, que embora garantisse a igualdade dos cidadãos perante a lei[9], não fez grandes avanços em termos de direitos políticos para as mulheres. A mulher é então convidada a regressar ao lar, sendo fortemente condicionada pela ideologia conservadora, baseada em valores tradicionais e religiosos[10]. Era vista como dona de casa, mãe e esposa, detendo um papel pouco ativo na sociedade, estando os homens como os grandes protagonistas do meio público. A mulher subordinava-se assim ao homem, e à ideia de que ela era considerada um ser inferior, criou um protótipo de mulher-modelo que era representado como “fada do lar”[11], que se ocupava em cuidar da casa e dedicar-se ao marido e aos filhos. No geral, havia uma aceitação do papel secundário, que cabia ao sexo feminino, na sociedade. A sua autonomia estava em detrimento, face aos trabalhos domésticos e aos valores religiosos e morais, onde era então exigido à mulher que conferisse à sua família equilíbrio e harmonia.

Durante o Estado Novo, a função central que cabia à mulher na sociedade era então ser dona de casa. A mulher administrava e organizava a casa, e sendo doméstica tinha de possuir grandes conhecimentos para o bom cumprimento da sua função, enquanto “fada do lar”, era assim um trabalho exigente e árduo[12]. A mulher ideal seria aquela que melhor desempenha-se o seu papel enquanto doméstica, a que se subordinasse ao marido e a que se centrasse essencialmente no bem-estar da família, não participando em questões políticas. A mulher estava assim inerentemente ligada a um conjunto de funções distintas do marido, o que impedia a sua emancipação e participação ativa na sociedade da época.

De acrescentar que o trabalho doméstico era visto como aptidão natural das mulheres, fazendo com que não fosse visto como uma profissão[13]. O Estado Novo retoma então a ideologia que defende a “diferença natural dos sexos”, defendendo a ideia de que homens e mulheres possuem papéis diferentes, mas complementares na sociedade. A pureza, sensibilidade e maternidade, conferiam à mulher uma idealização enquanto ser cuidador, emotiva e biologicamente predisposta à devoção familiar[14] . Em consonância, com a visão do regime Salazarista, era dado à mulher o papel exclusivo de ser responsável pelas dinâmicas quotidianas. Face a essas responsabilidades, a mulher geria o orçamento doméstico, a partir da dotação definida pelo marido. Portanto, até na gestão económica das próprias responsabilidades familiares, se mantinha a obediência marital[15]. Outra responsabilidade da mulher era a educação dos filhos, assente na ideia de que havia uma predisposição maternal que influenciava esse processo. É igualmente relevante salientar que, na época, a maternidade era encarada como um papel natural da mulher[16], mas com o dever moral e social sempre subjacentes. O Estado Novo incentivava a maternidade com o propósito de aumentar a população portuguesa, desse modo, ser-se mãe passava não só por uma questão pessoal, como também uma responsabilidade coletiva.

Quanto às oportunidades de profissionalização deve-se dizer que estas eram limitadas e escassas, pois mesmo que conseguissem outro tipo de ocupação (que não fosse a de dona de casa), professora, enfermeira ou operária fabril, esses empregos traziam consigo também muitas condicionantes, além de os seus salários serem inferiores aos dos homens[17], num evidente paralelismo com a política do regime para com as mulheres. A atividade profissional das mulheres era uma questão que espelhava o contraste social.

Uma mulher solteira e sem família a seu cargo, teria mais facilidade de acesso a um emprego, contrariamente ao caso da mulher casada[18] . A sociedade via com bons olhos, o ato da mulher não procurar carreira profissional, mas antes dedicar-se à vida doméstica e familiar. A educação feminina era desse modo muito voltada para aprender as funções da lide doméstica[19], tais como aprender a bordar, costurar e a ser uma boa esposa e mãe. Esse lado mais prático do ensino dado às mulheres, sobrepunha-se ao pensamento critico e à profissionalização. No plano da cidadania política, a mulher conseguiu alguns magros direitos, no âmbito das leis promulgadas sob a ditadura. A 5 de maio de 1931[20], quando o governo procurou realizar eleições (que não se concretizaram), as mulheres maiores de 21 anos e que concluíssem a instrução secundária[21], ganharam o direito de voto, enquanto que para os homens bastava que soubessem ler e escrever.

O regime adotou então a opção de outras ditaduras, como a de Mussolini, ou a de Primo de Rivera, que proporcionaram às mulheres chefes de família um limitado direito de voto[22]. Há que assinalar igualmente a data de 1946, em que uma nova lei eleitoral aumentou o âmbito da de 1931[23], concedendo o direito de voto às mulheres casadas. A Capacidade eleitoral ativa das mulheres permanecia, todavia, a ser mais restringida comparativamente com a dos homens[24], continuando a serem excluídas da eleição dos deputados à Assembleia Nacional[25]. A política do Estado Novo seguia assim uma idealização feminina, que motivava o surgimento de uma oposição por parte das mulheres, a uma imposição ideológica adotada pelo regime.

4.1. O feminismo em Portugal: Na sombra do Estado Novo

Figura 10- Cartaz da oposição ao Estado Novo (1926-1974), exemplo de cartaz da oposição feminina, Disponível em: https://officialjpp.com/cartazes-da-oposiccedilatildeo-ao-estado-novo-1926-1974.html

A constituição de 1933 institui um novo regime político em Portugal, no qual são instituídas as bases de um sistema político que ficará na historiografia portuguesa conhecido por um sistema fechado, conservador e autoritário na definição da nova política portuguesa entre 1933 e 1974. Portugal foi assim o país que viveu a mais longa ditadura da Europa Ocidental no século XX, e nela estavam adjacentes pensamentos e ideários político-ideológicos, contrários à primeira experiência republicana e a qualquer tipo de liberalismo intelectual da sociedade. Neste sentido, certamente que na perspetiva da emancipação feminina e dos direitos adquiridos anteriores à implantação do Estado novo, a afirmação da mulher na sociedade sofreu inevitavelmente um retrocesso dada a natureza conservadora e autoritária do regime de Salazar, sendo impostas orientações políticas opostas a qualquer tipo de emancipação ou afirmação da identidade feminina[26]. O feminismo era assim um conceito não admitido na sociedade, sendo que qualquer manifestação ou organização cívica sem o consentimento das autoridades era rapidamente vigiado e censurado pela PIDE, numa tentativa de fazer cumprir as diretivas impostas juridicamente pelo Estado.

Na sombra do Estado Novo, os movimentos feministas estavam assim inerentemente condicionados quer juridicamente, quer de forma institucional pela política social referente ao sexo feminino. O regime numa atitude de condicionar ações ou protestos de oposição, instituiu no texto constitucional o dever e a norma na qual a mulher estava instituída a passar os seus dias no trabalho laboral e na educação aos seus filhos. Esta norma permitiu ao Estado Novo “silenciar” qualquer tipo de ação ou manifestação que pudesse constituir uma oposição feminina aos ideais que sustentavam a política salazarista direcionada à vida familiar. Tal como referido, a família era o núcleo da vida em sociedade, sendo que os ideais de Salazar anti-individualistas contribuíram também para o sentido de coletivização da família em que todos eram “um só” e assim se evitariam quaisquer reivindicações de direitos próprios, numa sociedade assim denominada corporativa[27]. Referir que, num contexto de perda de liberdades, a existência de movimentos de oposição, concertados ao regime facilitou a organização destas oposições.

Assim há a assinalar a atuação e resistência cívica que algumas ativistas portuguesas, inspiradas pelos movimentos feministas internacionais, desempenharam. Vistas como uma ameaça ao regime, na medida em que procuravam consciencializar as mulheres acerca das suas potencialidades intelectuais, atuaram de forma controlada, embora não deixasse de ser notório a união entre as mulheres. Consecutivamente, as reivindicações pelos direitos cívicos, liberdades e autonomia familiar da mulher relativamente às normas jurídicas que sustentavam estas diretivas, foram realizadas pela existência de associações cívicas, inspiradas em movimentos internacionais que no Pós-Segunda Guerra Mundial reivindicavam os seus direitos a uma emancipação feminina[28]. Apesar da sombra da censura, este período foi essencial na reorganização cívica, nas associações femininas que aproveitaram o fim da guerra para lutarem pelos seus direitos[29]. Neste contexto, é pertinente referenciar após esta reorganização da oposição feminina o surgimento das seguintes organizações de oposição femininas: FDIM (Federação Democrática Internacional das Mulheres); MUD (Movimento de Unidade Democrática); MDM (Movimento Democrático de Mulheres) e MND (Movimento Nacional Democrático).

Mencionar que estas associações agiram em certos contextos na clandestinidade, porém estavam inerentemente remetidas ao seu carater jurídico nas suas próprias fundações e géneses de criação. No entanto apesar de o regime consentir o surgimento destas organizações, elas não detinham um poder político organizado, remetendo-se assim para uma oposição não oficial politicamente. A par destes movimentos feministas, a oposição pela conquista de direitos e emancipação da mulher estava igualmente inserida mentalmente na sociedade, que paralelamente à política educativa do Estado Novo, contrariava as normas instituídas pelo regime no que se referia à manutenção da mulher enquanto elemento da família reservado às tarefas domésticas. Estes movimentos de oposição, permitiram assim em sociedade, contrariar este ideal conservador do Estado Novo de remeter a mulher às tarefas domésticas[30]. A intervenção pública relativamente ao quotidiano feminino permitiu expor uma narrativa distinta do regime e do seu ideário.

Figura 7- Mulheres no Congresso do MDM (Movimento Democrático de Mulheres), fotografia retirada do artigo de Margarida Paes, 2018, O Movimento Democrático de Mulheres celebra hoje 50 anos, Revistas Delas, Disponível em: https://www.delas.pt/o-movimento-democratico-de-mulheres-celebra-hoje-50-anos/pessoas/379786/

Apesar de o regime não permitir a existência assídua de sindicatos representativos dos direitos laborais das mulheres trabalhadoras, bem como dos homens, a oposição feminina pela emancipação da mulher acontecia igualmente nos locais de trabalho, aquando das reivindicações que existiam entre as mulheres e os seus patrões. Particularmente, em 1950 fruto de planos de desenvolvimento económico, a sociedade feminina aproveitou este contexto para reivindicar direitos salariais e até condições de trabalho junto das entidades empregadoras, num claro sentido de contestação indireta ao regime sobre a sua condição de vida[31]. Nas organizações já referidas, a oposição feminina concentrou grande parte da sua atividade na luta pelos direitos das mulheres concretamente a nível do seu prestígio social e liberdades de participação da vida pública e política, sendo que as reivindicações referidas anteriormente sobre as lutas nas empresas foram elas na sua maior parte pronunciadas nas reuniões destas associações. Apesar da repressão por parte do regime e de tentativas de silenciamento, a década de 50 constituiu um período no qual a posição feminina e todos os seus movimentos implícitos tiveram o seu protagonismo[32].

Figura 8- Congresso do MDM (Movimento Democrático de Mulheres), exposições 2, MDM (1968-2018): 50 anos. Mulheres fazendo história, site e-cultura.pt, Centro Nacional de Cultura, Disponível em: https://www.e-cultura.pt/evento/7742

Importante referir também que a oposição por parte das mulheres também acontecia por parte de feministas que estavam exiladas fora do país, concretamente nos países de língua portuguesa. Neste sentido, mesmo com um cenário político adverso, as manifestações pelos direitos e igualdades das mulheres recebia também de países estrangeiros a ajuda clandestinamente a uma oposição, que a partir de exemplos de jovens mulheres conseguiram promover um período de reivindicações, juntamente com o seu apoio a Humberto Delgado. Assim quer em Portugal e no Brasil, outras vozes femininas auxiliaram-se mutuamente num sentido de união antissalazarista[33]. Para além do Brasil, outros países lusófonos acolheram mulheres portuguesas exiladas, manifestantes também de um sentido opositor à vida feminina e à sua vivência de acordo com o regime. Referir que esta forma de organização da oposição em contexto externo foi um fator essencial.

Para além destes mecanismos usados pelas mulheres opositoras ao regime e à sua política para com o sexo feminino, é importante mencionar que no decorrer da Guerra Colonial, a reivindicação das mulheres em adquirir direitos é notória, pois com os maridos no Ultramar, para além das tarefas domésticas, havia a necessidade de realizar funções que os seus maridos realizavam antes da guerra. Assim é neste período que a emancipação feminina durante o Estado Novo gerou por si uma maior importância, quer na ocupação de funções destinadas aos homens, quer pela realização de diversas atividades sociais para além da vida doméstica e familiar a que o Estado Novo tinha remitido a mulher. Os problemas que as mulheres atravessavam nesta altura como a falta de emancipação, uma instrução que não lhes permitia a liberdade de pensar, foram motivos que levaram a que, quer pelas associações quer individualmente, houvesse uma tentativa de emancipação, sendo que na oposição é importante referir que as feministas consideravam os problemas da mulher como problemas que afetavam toda a sociedade e que sem a mulher no espaço público a sociedade estaria mais “pobre” intelectualmente[34].

Contrariamente ao sucedido na 1ª República, o feminismo no Estado Novo conheceu não um período de afirmação, mas um período de desafios que motivaram a luta pelos direitos das mulheres. Na clandestinidade, ou nos seus locais de trabalho, as formas comuns de luta, eram procuradas através da realização das atividades laborais destinadas aos homens durante a Guerra Colonial. A oposição feminina ao Estado Novo fez-se também através da participação de poucas mulheres que estavam ligadas a poucos cargos opúblicos. Por outro lado, a década de 70, na conhecida “Primavera Marcelista” na sua tentativa de abertura do regime, possibilitou uma relativa abertura social à mulher que por sua vez permitiu que a mesma pudesse ter acesso a cargos que até então não tinha. As reivindicações pelos direitos femininos fizeram-se também pela sua emancipação na vida familiar, contrariamente às imposições do marido, a mulher procurou através da instrução que recebia, contestar a sua função derivada da ideologia do regime. A entrada das mulheres no mercado de trabalho na década de 60, configurou igualmente uma expectativa de emancipação, mas sempre condicionada pela censura[35]. O feminismo no Estado Novo conheceu um retrocesso, remetendo-se para a oposição ao regime ditatorial.

4.2. As vozes do feminismo na oposição à ditadura: os casos de Maria Lamas e Elina Guimarães

É neste sentido, que é importante mencionar neste trabalho algumas personalidades que se destacaram pela luta nos direitos das mulheres a partir da oposição ao Estado Novo, sendo que são inúmeras as personalidades que entre si certamente trocavam ideias e sugestões na clandestinidade, para fazer frente áquilo que consideravam ser um retrocesso no papel da mulher entre o final da 1ª República e o Estado Novo. Este capítulo cinge-se sobretudo à análise de duas feministas importantes nesta época, para além de mencionar consecutivamente outras mulheres destacadas.

A primeira feminista a ser analisada é Maria Lamas, nasceu em Torres Novas (Santarém) no dia 6 de outubro de 1893. Sendo filha de Maria da Encarnação Vassalo Silva (muito católica) e de Manuel Caetano da Silva, um comerciante, republicano e personalidade que frequentava a maçonaria. Casou-se em 1911 com Teófilo Ribeiro da Fonseca, oficial da Escola Prática de Infantaria de Torres Novas[36]. Desse casamento resultaram duas filhas: Maria Emília (1911) e Manuela (1913). Sete anos depois divorciou-se em Torres Novas, e ficou a residir em Lisboa. Começou a trabalhar como jornalista e casou, em 1921, com Alfredo da Cunha Lamas, jornalista do Correio da Manhã, cujo apelido adotou[37]. Deste terceiro casamento surgiu uma terceira filha: Maria Cândida (1922) – altura em que começou a publicar poemas e contos infantis[38]. Contudo, esse casamento também não foi bem-sucedido, separando-se em 1936. Curiosamente, Maria Lamas continuou com o apelido do ex-marido para o resto da vida. Morreu com 90 anos de idade, deixando um legado profundo e duradouro no campo do feminismo, da literatura e da militância social. Após esta nota introdutória, serão apresentados os feitos e iniciativas que Maria Lamas promoveu e defendeu. Primeiramente, há que pautar o papel substancial que Maria Lamas desempenhou no que consta à mudança de mentalidades a nível da emancipação feminina, num tempo profundamente marcado por desigualdades sociais, pela discriminação ao acesso ao conhecimento, à cultura e à arte[39]. A intervenção de Maria Lamas compôs uma alteração a este contexto de desigualdade.

Figura 4- Prisão de Maria Lamas, 1949, Museu do Aljube Resistência e Liberdade, Disponível em: https://www.museudoaljube.pt/2024/07/18/maria-lamas-3/

É certo que Maria Lamas nunca se chegou a assumir como feminista, pela carga histórica que esse termo acarretava, no entanto, sempre foi visível o seu empenho em dignificar a mulher, e a dar a conhecer as capacidades intelectuais que a mulher, tal como o homem, detinha, dando destaque à importância da educação (fator determinante para a instrução e conhecimento dos direitos femininos). A educação, na sua perspetiva, serviria de mote para um evoluir de mentalidades e a consequente profissionalização da mulher, juntamente com o aparecimento de um leque de oportunidades que não se restringissem à função de doméstica. Maria Lamas manifestava a sua preocupação relativamente ao contexto de dona de casa que a mulher então se inseria, sendo o cuidado à família a sua principal missão. Proferia então que:

“… predomina o velho preconceito de que a mulher nasceu para ter filhos e tratar da casa. Mesmo quando as condições de vida levam a mulher a trabalhar no campo, na fábrica ou no escritório, isso não modifica a opinião de que, à parte a profissão que exerça, ela deve limitar o seu interesse exclusivamente à família.[40]”.

Ao longo da sua carreira, associando o trabalho de jornalista e o de escritora, escreveu e publicou muito textos, para distintos públicos, mas que continham um denominador comum: a defesa mais ou menos explicita dos direitos humanos, com foco particular nas mulheres e crianças[41]. Defendia no espaço público os direitos das mulheres, e perspetivava a necessidade de uma renovação de mentalidades, para que se estabelecesse uma relação mais igualitária entre homem e mulher, a fim de num contexto social poder ser aplicado uma relação de complementaridade entre o sexo masculino e feminino, no sentido de uma articulação na vida familiar e social, por oposição à imposição do poder paternal do marido nas relações em contexto familiar e social, que privava a mulher de obter a sua emancipação:

“Aos que perguntarem em que consiste essa renovação, diremos resumindo, tanto quanto possível, a resposta: – Consiste em dar à mulher uma confiança maior em si própria; uma lealdade mais perfeita para com o homem; uma consciência mais profunda da sua missão de mãe; num interesse directo e esclarecido, que a integre na vida pública do seu país e nos grandes problemas humanos.”[42].

No final da década de 1920, assumiu o lugar de diretora no suplemento Modas & Bordados, do jornal O Século, onde ativamente desempenhou um papel fundamental na divulgação desta revista e dos seus objetivos[43]. A revista inicialmente destinada a abordar temas relacionados com a vida do lar, como aprender a bordar e a cozinhar, com o tempo passou, ainda que de forma controlada, a colocar outro tipo de assuntos, relacionados com a emancipação da mulher. A revista foi elementar para dar a conhecer os direitos das mulheres, e dada a sua complexidade e importância, será abordada mais à frente neste trabalho. Paralelamente, Maria Lamas também organizou conferências e concertos em que participaram médicas, advogadas, poetisas e professoras portuguesas com o objetivo final de fazer chegar as suas ideias ao maior número de mulheres portuguesas. Nesse sentido, também criou o “Correio Joaninha”, que assinou sob o pseudónimo “Tia Filomena”, onde se assumia como uma amiga fiel das suas leitoras, dando apoio moral, e sobretudo educando-as no sentido de exercitarem os seus direitos[44].

É igualmente pertinente referenciar que a ação desta mulher no campo do jornalismo não se limitou apenas à direção da revista, pois a 11 de junho de 1945, viria a ocupar o cargo de presidente do Concelho Nacional de Mulheres Portuguesas (CNMP)[45]. Há que compreender que esse cargo se refletiu num empreendimento de iniciativas destinadas à mulher, tais como a criação de uma campanha de alfabetização das mulheres e a disponibilização de ensino da dactilografia e francês[46]. E na Assembleia Nacional proferia um discurso parlamentar que permitisse a igualdade jurídica entre os dois sexos[47]. Sublinhe-se a apresentação de um protesto à Assembleia redigido por Maria Lamas e por Elina Guimarães, contra a limitação do direito de voto feminino, concedido apenas às mulheres casadas pelo projeto lei de 1946, excluindo as outras mulheres, o que motivou uma critica por parte das feministas[48]. A participação na atividade pública, permitiu a Maria Lamas passar a sua perspetiva para a sociedade.

Maria Lamas aproveitou as suas idas à Assembleia Nacional para assim num espaço público defender uma maior abertura do regime para com o sexo feminino. Contudo, o CNMP viria a ser proibido pelo governo, encerrando a sua existência. Tal acontecimento, juntamente com a crescente preocupação face ao estatuto socioeconómico desfavorável da mulher em Portugal, motivou diretamente Maria Lamas, a escrever em finais dos anos 40, um livro de quase quinhentas páginas intitulado As mulheres do meu país. Realizou uma grande reportagem, extensa e inédita sobre as condições socioeconómicas das mulheres. Percorreu o país de norte a sul, sozinha, durante dois anos, para documentar como viviam as mulheres de então, observando o seu quotidiano, tanto no que diz respeito ao trabalho, como também à vida amorosa de cada uma delas[49]. Entrevisto-as, fotografo-as, e sentiu as suas vidas mais humildes ou mais desafogadas:

“Senti um grande desejo de conhecer melhor, de aprofundar os problemas do mundo em que vivia. De maneira que, eu decidi lutar pela democracia, pela liberdade, pela emancipação dos povos e em especial das mulheres.”

Foi notório ao longo do seu percurso de vida, um crescente fervor em mudar a sociedade, relembrando os direitos e deveres de cada género, com vista a alcançar a igualdade. Foi desse modo, protagonista de várias manifestações de caráter ativista, ao qual se colocou numa posição ameaçada, na medida em que foi alvo de várias perseguições por parte da PIDE, tendo sido presa mais que uma vez[50]. Nesse contexto, Maria Lamas sob uma constante ameaça do regime, decidiu exilar-se em Paris em 1962, permanecendo lá até 1969, mantendo-se nesse período ativa politicamente na defesa da emancipação feminina[51]. Maria Lamas foi uma ativista que confiou grandemente o futuro da sociedade aos jovens, destacando sempre o valor da educação, e a independência que dela advinha, relembrando aos jovens:

“São vocês, jovens, que amanhã irão ajudar a modificar o mundo”[52].

Esta frase de Maria Lamas reflete a mensagem que a mesma expõe aos mais jovens.

A par com Maria Lamas, há que destacar uma outra ativista portuguesa durante o Estado Novo, Elina Guimarães, que havia revelado um sentido de igualdade e de justiça social, que a levaria mais tarde para o movimento feminista, tendo sido uma valorosa e destacada feminista. Elina Guimarães foi jurista e escritora, uma mulher intensamente dedicada às causas dos direitos femininos, escrevendo em jornais, em revistas (sendo uma delas a Modas & Bordados) e em livros. Era feminista e afirmou-o constantemente, numa altura em que isso se refletia numa ameaça, defendendo que:

Esta luta não é travada contra o homem mas ao lado daqueles que defendem os mesmos ideais, Equidade e Dignidade Humana.”[53].

Em 1945, aderiu ao Movimento da Unidade Democrática (MUD) apoiando Norton de Matos à presidência da República. Ingressou no Concelho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), a convite de Adelaide Cabete, além de prestar apoio no gabinete jurídico, posteriormente já em 1946, exerceu importantes funções no CNMP sendo eleita vice-presidente da Assembleia Geral, com Maria Lamas como presidente[54]. Posteriormente participou ativamente em vários congressos feministas, nacionais e internacionais, como o International Council of Women e o International Alliance for Women’s Suffrage[55]. O alerta para a situação das mulheres em Portugal era uma constante do seu trabalho, focando-se muito em informar a sociedade, da política salazarista perante as mulheres. Por isso, quando escrevia sobre a luta feminista, preocupava-se em clarificar os conceitos e os ideais dessa mesma luta. Divulgar leis às mulheres era uma preocupação constante, de Elina Guimarães, tendo por isso escrito um livro, durante o seu período de oposição do Estado Novo intitulado A lei em que vivemos…[56]. Entre as pioneiras, em Portugal, do “feminismo jurídico”, sendo a jurista mais importante da segunda geração de feministas portuguesas, Elina contestou as regras do Código Civil de 1966 e foi contra a Concordata entre a Santa Sé e o Estado português, na questão do divórcio. Ao mesmo tempo, esforçou-se por melhorar a situação legal da mulher na família, e pelo universalismo dos direitos humanos, defendendo o reconhecimento de direitos políticos às mulheres, o pleno acesso à educação e ao trabalho.

Paralelamente, Elina Guimarães procurou nas suas manifestações de oposição a reivindicação da proteção da infância das mulheres[57]. A feminista revelou ainda um grande sentido de serviço público, na causa da obtenção dos direitos das mulheres: “Quando nos meus estudos de direito conheci com indignação a escravidão legal a que o direito civil reduzia a esposa e a mãe e o desprezo do direito político por todas as mulheres senti-me motivada por uma nova razão: o amor pela justiça.”[58]

Elina Guimarães defensora de uma emancipação feminina, a par com Maria Lamas, protagonizou momentos de critica social ao regime, denunciando aquilo a que as mulheres estavam sujeitas na sociedade portuguesa, nomeadamente a remunerações mais reduzidas que as dos homens, baixo nível educacional, e com contornos de instrução, mas não de conhecimento. Foi sempre ativa na luta contra a ditadura, pelos direitos não só das mulheres, mas também pelos das crianças. Elina Guimarães participou juntamente com a Maria Lamas em associações representativas de mulheres e liderou as vozes da oposição feminina em muitos casos. A sua ação social e cívica nas décadas que antecederam à queda da ditadura, mobilizou outras vozes que compuseram a oposição feminina na oposição do Estado Novo. Durante a ditadura, Elina Guimarães publica inúmeros textos que defendem o direito da entrada da mulher na vida política e ainda a regulação jurídica que permitisse a igualdade quer de direitos quer de oportunidades entre homens e mulheres[59]. Elina Guimarães assumiu-se assim uma protagonista não só na oposição feminina, mas também de revelação da vida da mulher no Portugal ditatorial, que a mesma considerava ser uma sociedade que necessitava de mudanças sociais. Defensora do direito familiar e da melhor relação de não subordinação entre homem e mulher, Elina Guimarães reivindica na sua oposição direitos maternais para a mulher em casa, por oposição ao poder paternal do marido[60]. Esta reivindicação de Elina Guimarães, fez-se igualmente de forma jurídica, com a feminista a criticar a lei que durante o Estado Novo determinava a influência do poder do marido sobre a mulher e sobre o núcleo da família. Esta questão jurídica levantada por Elina Guimarães faz referência a uma oposição também ela institucional, relativamente à ordem jurídica do Estado Novo.

4.2.2. Um exemplo de oposição: A escrita das Novas Cartas Portuguesas das “Três Marias”

Exemplo de uma escrita de oposição ao Estado Novo na luta pelos direitos femininos, é precisamente o livro intitulado Novas Cartas Portuguesas das três autoras: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, conhecidas na historiografia pelas “Três Marias”. Em 1971, após a apresentação do livro Minha Senhora de Mim, de Maria Teresa Horta, o Secretário de Estado da Informação Moreira Baptista ameaçou a editora Dom Quixote, de que se voltasse a publicar esse livro ou outro assinado por Maria Teresa Horta terminaria com a editora. Maria Teresa Horta face a esse acontecimento ficou muito desmoralizada, sendo inclusive alvo de violência física. Contudo, num dos almoços com Maria Isabel Barreno e com Maria Velho da Costa, perante as nódoas negras de Teresa Horta, a escritora Maria Velho da Costa deu a seguinte ideia: “Se uma mulher sozinha causa tanta confusão e tanto escândalo imaginem se fossem três”[61].

Nesse sentido, começaram a pensar em escrever um livro em torno de uma mulher portuguesa, tendo como objetivo desconstruir as relações de parentesco e de género, e de questionar os vários aspetos da vida nacional – a condição da mulher, a Guerra Colonial, a emigração, entre outros. “Minhas irmãs: Mas o que pode a literatura? / Ou antes: o que podem as palavras?”[62] .É então escrito o livro, apelidado de Novas Cartas Portuguesas, considerado à época pornográfico, um atentado à moral vigente e aos bons costumes, o livro foi apreendido pela censura, a editora foi encerrada e as autoras passaram por um processo judicial, concluído depois de abril de 1974[63]. Curiosamente, a obra das “Três Marias” foi determinante para a constituição de movimentos feministas em Portugal, embora as autoras não tivessem como objetivo escrever uma obra de cariz feminista, mas sim literário[64]. Há que pontuar que as “Três Marias” estabeleceram desde o início regras: liberdade absoluta, cada uma escreveria cinco cartas, sobre o que considerasse relevante acerca da condição feminina e sobre eventuais mudanças que poderiam beneficiar a sociedade tornando-a mais justa e coesa.

Todos os textos produzidos pelas três autoras eram assinados em conjunto pelas mesmas, a fim de resistir à censura da PIDE, ou seja, não havia forma de saber a quem pertencia cada um dos textos. Passaram a ter dois encontros por semana, um ao almoço, que já tinham, e outro à noite, “Tinhamos de ler alto o que trazíamos e entregar uma fotocópia a cada uma. Num tempo em que não havia fotocópias, fazíamos cópias a papel químico”, refere, Maria Teresa Horta, para quem esta experiência inovadora resultou numa cisão com a solidão da escrita[65]. Mas afinal o que aborda este livro? Como personagem principal, decidiram criar uma personagem chamada Mariana Alcofarado, freira em Beja, no século XVII, personagem essa que desafiaria os costumes morais da época, justamente porque evidenciava a clausura, a que tinha sido mantida e obrigada a submeter-se pelo pai, simbolizando por sua vez a clausura em que as mulheres portuguesas se encontravam por parte dos seus maridos, e do regime ditatorial. Mariana também desafiara as normas sociais e morais da altura, exaltando o seu amor por um general francês, e exprimindo ainda, o seu descontentamento pela sua clausura no convento[66]. A escolha da personagem não foi assim feita ao acaso, pois tal como Mariana, que estava sob clausura, e oprimida da sua liberdade de expressão, ao mesmo tempo, as mulheres do Portugal ditatorial, encontrar-se-iam na mesma situação, era então necessário aclamar pelos direitos das mulheres, e fazer com que se libertassem das exigências e limitações determinadas pelo Estado Novo, “… ninguém me peça, tente, exija, que regresse à clausura dos outros.”[67]

Cumpre salientar que, a obra começa por ser um diálogo epistolar, uma correspondência imaginária entre as personagens, entre Mariana e Chamilly (general francês), a mãe, a ama, a amiga de infância (D. Joana de Vasconcelos), o cunhado ou o primo José Maria e entre as autoras respetivamente. Contudo, esse modelo foi ultrapassado, transformando-se numa troca de textos vários, incluindo cartas, bilhetes, poemas, jogos de palavras, várias histórias de mulheres, e transforma-se num texto híbrido, cujo fio condutor reside na temática da clausura da mulher enquadrada numa sociedade onde reside o poder masculino.

Nesse sentido, é elementar compreender que esse conjunto heterogéneo de textos possui um suporte de caráter político e feminista e de alcance crítico. Na obra, são igualmente descritos momentos de violência doméstica, que não se relacionam somente à condição de mulher, mas também à Guerra Colonial, que como referi anteriormente era outra temática levantada pelas autoras. As “Três Marias” pretendiam passar a mensagem que violência gerava mais violência, e nesse ponto de vista, a Guerra Colonial, e as perseguições políticas eram consideradas como injustiças sociais: “-Que fizeste do meu choro? / Sequei-o na guerra / Secou-me no leite”[68]. Por outro lado, as autoras também destacam o ato passivo por parte da educação que a mãe dava à filha, na medida em que a educava de forma a servir o marido, a não questionar e a ser passiva na sociedade. A ideologia da “fada do lar” continuava então a ser passada de geração em geração, sendo aceite e vista como sendo acertado, embora contestado: “Imãs, que Anas ou Marianas terão ainda de ser ressuscitadas ou quando vivas postas à prova, idiotizadas, fracas, frágeis por lei, conveniência, crença e religião?”[69]. Todavia, face a esta submissão da mulher ao marido, houve algumas mulheres que contrariaram esses preceitos, como o texto “A luta”, inserida na obra, revela que algumas fugiram dos maridos; outras não se chegavam a casar afirmando que só se casariam por amor e outras suicidavam-se[70].

Através de uma escrita inovadora, as três autoras deste livro apontaram para além da vivência feminina da época, todo um conjunto de propostas para obter a emancipação feminina e a importância da mulher para a sociedade portuguesa. Ao exporem o ideário do Estado Novo, as “Três Marias”, nesta obra literária, colocam em perspetiva uma análise diferente relativa ao sexo feminino, que indicasse uma agenda social reivindicativa dos direitos e liberdades femininas. As Novas Cartas Portuguesas, através do exemplo da clausura vivida no século XVII, espelham a realidade da mulher do Estado Novo e nelas nasce uma oposição determinada ao regime com uma certeza: este livro caracterizou a oposição feminina inequivocamente, apesar da proibição do mesmo pela censura, sendo lido na clandestinidade.

5. A intervenção no espaço público: elemento fundamental para a oposição

É elementar compreender a grande influência que a imprensa periódica tem na construção de mentalidades, neste caso nas mentalidades femininas. De modo geral, constituem a imprensa feminina todas as publicações periódicas destinadas a mulheres e consumidas maioritariamente por elas[71]. Como bem se sabe, a imprensa deteve um papel preponderante na emancipação feminina, na medida em que na altura a imprensa assumia um lugar privilegiado da propagação dos interesses femininos como da manipulação e manutenção dos estereótipos femininos[72]. Desse modo, pode-se verificar que as revistas femininas, qualquer que seja o grupo social a que se destinam, representam um processo de valorização cultural, e que se encontra intimamente ligado à influência de ideologias dominantes e das conjunturas político-económicas das sociedades em que se enquadram[73]. Neste subcapítulo, será explorada a forma como a imprensa feminina dentro desse regime totalitário atuou, pela emancipação feminina. Na Imprensa feminina, estabelece-se uma relação de proximidade entre a leitora e a revista, na medida em que são utlizados o “eu” ou o “nós”, sendo que o uso desses pronomes se revela elementar para a constituição de uma relação de amizade, entre a revista e a leitora, há então a construção de uma certa intimidade pessoal[74].

No caso de Portugal, enquadrado num cenário onde não havia liberdade de expressão, todos os meios de comunicação eram vigiados pelo poder político. Partimos, pois, de que a imprensa é um espelho do seu tempo, acompanhando a ideologia do regime na construção do modelo de mulher, auxiliando-a assim no embelezamento do lar, dos filhos e de si própria, senão mesmo do marido, havia então a promoção do confinamento da mulher à célula familiar[75]. Há que notar que não deixa de ser um contrassenso que, depois de tudo o que já foi apontado relativamente às dificuldades da educação feminina e às altas taxas de analfabetismo, se verifique no plano editorial uma assinalável proliferação de publicações dirigidas ao público feminino, incentivando a sua leitura por parte das mulheres[76].

Mesmo com natural heterogeneidade qualitativa, de vida mais ou menos efémera, vários títulos se sucederam, merecendo maior ou menor adesão da sua audiência alvo. De destacar que a temática acerca das modas era bastante divulgada pela imprensa, revelando ser um tema de interesse para o grupo feminino. Contudo, ao lado das modas, foram se inserindo outros assuntos de interesse feminino, nomeadamente da progressão da presença feminina em diversos campos da vida social, nas artes, nas letras, na política, no desporto e na educação[77]. Não obstante, é sabido que esta imprensa é um fenómeno marcadamente urbano, no entanto só uma parte limitada da população feminina estava em condições de reunir as capacidades literárias, os meios financeiros, a disponibilidade de tempo, para desfrutar de revistas de grandes ambições iniciais e aparato gráfico. Uma característica comum à maioria destas publicações é o facto de serem responsabilidade das próprias mulheres, sendo minoritários os casos em que os homens assumem o papel de produzir materiais vocacionados para as mulheres, possivelmente pelo facto de ser considerado de menor interesse intelectual, ou pelo reconhecimento da inaptidão natural do sexo masculino para perceber os gostos do sexo oposto.

De substanciar que as posições mais aguerridas e esclarecedoras deviam-se aos órgãos mais ativamente feministas, em parte para se diferenciarem, com maior ou menor modéstia[78]. A imprensa feminina, pela sua exposição ao espaço público, concretamente ao público feminino foi um instrumento decisivo na publicação de textos que expunham a vida da mulher e nos quais se poderia perspetivar uma tendência de reivindicação pela emancipação feminina. A intervenção no espaço público pelos movimentos feministas a partir da imprensa, constitui um elemento fundamental para a divulgação dos seus ideais, relativos à mulher[79]. O espaço público possibilitou a existência de uma ampla comunicação, embora na clandestinidade devido à censura política. A imprensa feminina permitiu reproduzir algumas revistas fundamentais e artigos públicos que revelaram a sua génese pela emancipação feminina. O caso da revista Modas & Bordados é exemplo disto, uma revista importante analisada no próximo subcapítulo. A intervenção das mulheres na rádio permitiu também aos ouvintes a consciência dos ideários da oposição feminina.

5.1. Capacidade de moldar a mentalidade feminina: a revista Modas & Bordados

Figura 3- Ilustração de uma página do “Correio a Joaninha Revista Modas & Bordados, 1943, Modas e Bordados, No 1617, Fevereiro 1943-10,11, Disponível em: https://ilustracaoportugueza.wordpress.com/tag/modas-e-bordados/

A revista Modas & Bordados, foi um magazine feminino, suplemento semanal de O Século, cuja publicação foi caracterizada pela sua longevidade (1912-1977) e pela sua resistência à censura[80]. Este subcapítulo, irá concentrar-se sobretudo, ao período em que Maria Lamas foi diretora, 1928-1947, apresentando um período onde a taxa de analfabetismo era muito elevada, onde a mulher não tinha liberdade de expressão e onde vivia submissa às regras do regime totalitário, e subsequentemente debaixo das ordens do marido. A revista Modas & Bordados irá desempenhar então neste período um ponto de viragem, no que consta à situação da mulher, na medida em que irá instruí-la e dar a conhecer um conjunto de oportunidades, que através da educação, as mulheres poderiam deter, mostrando um campo profissional que não se registava em casa, a dignificação da mulher e o intelecto começaram então a ser explorados, em parte, nesta altura. A revista procurava então dar voz e visibilidade às mulheres.

A Modas & Bordados posiciona-se como uma publicação de resistência durante a direção de Maria Lamas, contrariando certas dimensões de uma visão modelar desigual de género, veiculada em discursos políticos durante o Estado Novo. Na década de 1930 ganha fôlego na revista o tema do papel social da mulher (em 1936 publicam-se as primeiras abordagens à emancipação feminina) e em finais dos anos 1940 afirma-se um novo tipo de mulher, lúcida, que não se contenta com uma existência frívola e conformada, muito embora direitos matrimoniais, divórcio e liberdade sexual não constem ainda da agenda da publicação neste período. Durante a ditadura, a Modas & Bordados assume uma missão formativa e informativa no sentido da elevação e dignificação da mulher, defende o direito à educação, ao trabalho e à sua atividade na vida política. A revista ofereceu durante o Estado Novo uma visão muito própria de caracterização do sexo feminino, com a transmissão para a sociedade de uma cultura influente relativa à mulher, contrária ao Estado Novo[81]. A revista no longo período ditatorial incorporou em si dezenas de publicações que revelaram uma constante procura pela mudança de mentalidades relativas ao sexo feminino que o Estado Novo impunha à mulher. A Modas & Bordados transmitiu paralelamente uma visão social justa e igual.

7. Considerações finais

Figura 9- Feministas portuguesas no século XX, fotografia retirada do artigo de Anne Cova, Vanda Gorjão e Isabel Freire, Cem anos de lutas femininas e feministas em Portugal: o exemplo das pioneiras, Jornal Público, Disponível em: https://www.publico.pt/2020/09/27/sociedade/noticia/cem-anos-lutas-femininas-feministas-portugal-exemplo-pioneiras-1932367

Após a realização de uma leitura bibliográfica e interpretação das fontes, este trabalho procurou essencialmente apresentar a essência da oposição feminina no Estado Novo, através dos distintos mecanismos que os movimentos feministas usaram para fazer a sua luta pela emancipação feminina. É assim possível compreender que, no século XX em Portugal o feminismo foi um conceito presente na sociedade portuguesa, revelando uma projeção significativa no regime republicano e posteriormente uma atuação reivindicativa menos percetível no Estado Novo, devido à política do regime e à censura política. Porém, retomando a questão central deste trabalho, é importante salientar que a oposição feminina durante o Estado Novo foi feita na clandestinidade, com a utilização de instrumentos essenciais como a imprensa ou a intervenção no espaço público, por parte das vozes femininas, que contestaram o modelo ideológico do Estado Novo aplicado ao sexo feminino. Apesar de todas as condicionantes políticas, estas vozes femininas que atuaram na sociedade portuguesa pelos direitos das mulheres, conseguiram ser uma voz ativa contra o regime que via nelas uma ameaça à sua retórica político-social.

Este tema referente à História Social, e em particular à História da Mulher, é um tema que merece ainda ser diversamente estudado pela Historiografia, não só pela própria especificidade do tema, mas também pela divergência entre uma sociedade conservadora no Estado Novo e uma sociedade liberal depois do 25 de abril. Esta investigação abordou sobretudo uma questão inovadora: a de compreender como é que num regime ditatorial as reivindicações de uma vida diferente por parte das mulheres aconteceu numa sociedade que as via como um elemento familiar e não social, e como no entanto é percetível compreender que apesar desta visão estatal e de todas as implicações, as mulheres transmitiram as suas reivindicações. Numa agenda de investigação transnacional, este artigo elaborou também uma introdução relativa à posição feminina nos outros regimes antiliberais europeus, para além de evidenciar uma diferença assente na política social dos regimes e nas pretensões que a sociedade feminina tinha por oposição a essa política social de regime. Tentámos assim possibilitar a construção de uma narrativa histórica sob a qual num contexto social distinto da cronologia estudada é percetível compreender que a luta pelos direitos femininos no presente já tinha ocorrido antes, numa constante evolução de obtenção de visibilidade social para com as mulheres. A História da Mulher em Portugal, no período Contemporâneo, pode ser analisada de uma forma evolutiva; pelo que o período ditatorial constituiu, mesmo apesar da sua essência, um espaço de oposição e reivindicação dos direitos femininos, sob o ponto de vista de um legado histórico.

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SILVA, Manuela Sofia, 2023, Do homem a praça, da mulher a casa: denúncia e crítica social em Novas Cartas Portuguesas, In Revista História das Ideias, Vol. 41, pp. 187 a 208, Disponível em: https://impactum-journals.uc.pt/rhi/article/view/12163

SILVA, Manuela Sofia, 2022, Porque precisamos de continuar a ler Novas Cartas Portuguesas 50 anos depois, Tese de Doutoramento apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pp. 113 a 130, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/369799410_Porque_precisamos_de_continuar_a_ler_Novas_Cartas_Portuguesas_50_anos_depois

TARRAFA, Cristina Correia, 2015, A Mulher, a Política e os Media, Tese de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Disponível em: https://estudogeral.uc.pt/bitstream/10316/30610/1/Tese%20de%20mestrado.pdf

TAVARES, Manuela, 2011, Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, Alfragide

VICENTE, Carla Cristina, 2010, A construção da imagem da mulher na imprensa

Feminina, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Tese de Mestrado apresentada na Universidade Nova de Lisboa, Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/7239

  1. LAMAS, Rosmarie, 1995, Mulheres para além do Seu tempo, Bertrand Editora
  2. TAVARES, Manuela, 2011, Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, Alfragide
  3. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  4. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra
  5. ESTEVES, João, 2014, Da Esperança à Deceção: a ilusão do sufrágio feminino na Revolução Republicana Portuguesa de 1910, Instituto Universitário de Lisboa, Centro de Estudos da História Contemporânea in História Constitucional, nº15, pp. 471-507, pág. 472, Disponível em: https://www.historiaconstitucional.com/index.php/historiaconstitucional/article/view/410/369
  6. LAMAS, Rosmarie, 1995, Mulheres para além do Seu tempo, Bertrand Editora, pág. 34
  7. ESTEVES, João, 2014, Da Esperança à Deceção: a ilusão do sufrágio feminino na Revolução Republicana Portuguesa de 1910, Instituto Universitário de Lisboa, Centro de Estudos da História Contemporânea in História Constitucional, nº15, pp. 471-507, pág. 489, Disponível em: https://www.historiaconstitucional.com/index.php/historiaconstitucional/article/view/410/369
  8. LAMAS, Rosmarie, 1995, Mulheres para além do Seu tempo, Bertrand Editora, pág. 37
  9. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág. 72
  10. GOMES, Tânia Vanessa, 2011, Uma revista feminina em tempo de Guerra: o caso da “Eva” (1939–1945), Tese de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, pág. 40, Disponível em: https://estudogeral.uc.pt/bitstream/10316/20487/1/Tese_Vanessa.pdf
  11. COVA, Anne e PINTO, António Costa, 1997, O Salazarismo e as mulheres: Uma abordagem comparativa. Penélope 17, pp.71-94, Pág. 73, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/28223756_O_Salazarismo_e_as_mulheres_uma_abordagem_comparativa
  12. TARRAFA, Cristina Correia, 2015, A Mulher, a Política e os Media, Tese de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Pág. 18, Disponível em: https://estudogeral.uc.pt/bitstream/10316/30610/1/Tese%20de%20mestrado.pdf
  13. BRASÃO, Inês, 2012, O Tempo das criadas: A condição servil em Portugal (1940-1970), Edições Tinta da China, Lisboa, pág. 33
  14. RODRIGUES, Francisco Pereira, 2017, O discurso de Eva: Posicionamentos de uma revista feminina perante a condição social da mulher durante o Estado Novo (1930–1950), Tese de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Pág.34, Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/109173/2/233291.pdf
  15. RODRIGUES, Francisco Pereira, 2017, O discurso de Eva: Posicionamentos de uma revista feminina perante a condição social da mulher durante o Estado Novo (1930–1950), Tese de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Pág.35, Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/109173/2/233291.pdf
  16. COVA, Anne e PINTO, António Costa, 1997, O Salazarismo e as mulheres: Uma abordagem comparativa. Penélope 17, pp.71-94, Pág. 72, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/28223756_O_Salazarismo_e_as_mulheres_uma_abordagem_comparativa
  17. COVA, Anne e PINTO, António Costa, 1997, O Salazarismo e as mulheres: Uma abordagem comparativa. Penélope 17, pp.71-94, Pág. 76, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/28223756_O_Salazarismo_e_as_mulheres_uma_abordagem_comparativa
  18. PIMENTEL, Irene Flunser, 2011, A cada um o seu lugar: A política feminina do Estado Novo, Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, pág. 35
  19. COVA, Anne e PINTO, António Costa, 1997, O Salazarismo e as mulheres: Uma abordagem comparativa. Penélope 17, pp.71-94, Pág. 72, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/28223756_O_Salazarismo_e_as_mulheres_uma_abordagem_comparativa
  20. Diário do Governo, 5 de maio de 1931, decreto Lei nº19:694, 1ª Série, nº104, pág. 790, Disponível em: https://files.dre.pt/1s/1931/05/10400/07890791.pdf
  21. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág. 109
  22. COVA, Anne e PINTO, António Costa, 1997, O Salazarismo e as mulheres: Uma abordagem comparativa. Penélope 17, pp.71-94, Pág. 79, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/28223756_O_Salazarismo_e_as_mulheres_uma_abordagem_comparativa
  23. COVA, Anne e PINTO, António Costa, 1997, O Salazarismo e as mulheres: Uma abordagem comparativa. Penélope 17, pp.71-94, Pág. 79, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/28223756_O_Salazarismo_e_as_mulheres_uma_abordagem_comparativa
  24. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, Pág. 108
  25. Diário do Governo, 28 de maio de 1946, decreto Lei nº2:015, 1º Série, nº116, pág. 408, Disponível em: https://files.dre.pt/1s/1946/05/11600/04050408.pdf
  26. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, pág.39, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  27. PIMENTEL, Irene Flunser, 2011, A cada um o seu lugar: A política feminina do Estado Novo, Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, pág. 32
  28. Nota: Referir que após a Segunda Guerra Mundial e a derrota dos autoritarismos, a pressão social sentida em Portugal foi relevante na medida em que a contestação ao regime foi aproveitada pelas mulheres que seguiram os exemplos da Europa do pós-guerra. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota dos regimes antiliberais o sentimento de emancipação feminina regressa às sociedades europeias reagrupando os seus ideais perdidos durante a consolidação dos regimes antiliberais. Em Portugal o mesmo sucedeu.
  29. TAVARES, Manuela, 2011, Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, Alfragide, pág. 48
  30. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, pág 41, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  31. TAVARES, Manuela, 2011, Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, Alfragide, pág.53
  32. Nota: A década de 50 constituiu um período no qual a oposição ao Estado Novo consolidou um verdadeiro protagonismo, claro está impulsionada pela candidatura de Humberto Delgado às presidenciais de 1958. Este episódio arrastou consigo toda a oposição que se fazia sentir ao regime, na qual a oposição feminina igualmente procurou o seu espaço, aproveitando o momento político de contestação desencadeado pela figura do general.
  33. MATOS, Maria Izilda, 2017, Vozes femininas na luta antissalazarista: envolvimento de portuguesas e brasileiras (São Paulo, 1950-1970), Universidade Católica de São Paulo, História, São Paulo, v. 36, pp. 1 a 21, pág. 16, Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/a/Bk5QSTXcDSYcwR5PcDCpYWq/?format=pdf


  34. TAVARES, Manuela, 2011, Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, Alfragide, pág. 52
  35. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, pág 42, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  36. GUIMARÃES, Maria Alice, 2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág.36


  37. GUIMARÃES, Maria Alice, 2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág.35


  38. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág.206
  39. GUIMARÃES, Maria Alice, 2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág.36


  40. Fundação Mário Soares e Maria Barroso, 1950, Do povo e para o povo. A mulher e o homem, in Casa Comum, pág.1 Disponível em: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09768.112#!1
  41. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág.206
  42. Fundação Mário Soares e Maria Barroso, 1950, Do povo e para o povo. A mulher e o homem, in Casa Comum, pág. 3 Disponível em: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09768.112#!1
  43. Fundação Mário Soares e Maria Barroso, 1948, Falamos hoje de: Maria Lamas, in Casa Comum, pág. 1, Disponível em: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09768.104#!1)
  44. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág210
  45. GUIMARÃES, Maria Alice, 2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág.37


  46. GUIMARÃES, Maria Alice, 2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág.38


  47. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, pág 69, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  48. GUIMARÃES, Maria Alice, 2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág.38


  49. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, pág 70, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  50. GUIMARÃES, Maria Alice,2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág.40


  51. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, pág 70, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  52. Fundação Mário Soares e Maria Barroso, s.d, Maria Lamas. Uma mulher inolvidável, in Casa Comum, pág. 1,Disponível em: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=02969.036.001)
  53. Fundação Mário Soares e Maria Barroso ,1981, Porque está na luta das mulheres? – Revista Mulheres, in Casa Comum, pág 1, Disponível em:http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=10092.003.006.011#!2
  54. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág. 213
  55. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág.213
  56. BRANCO, Sofia, 2006, Elina Guimarães: A Lei como arma feminista- Público, Fundação Mário Soares e Maria Barroso in Casa Comum, pág. 1, Disponível em: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=10092.003.001.003
  57. SILVA, Maria Regina, 1992, Feminismo em Portugal na voz de mulheres escritoras do início do século XX, Comissão para a igualdade e para os direitos das mulheres, pág. 30
  58. Fundação Mário Soares e Maria Barroso ,1981, Porque está na luta das mulheres? – Revista Mulheres, in Casa Comum, pág 1, Disponível em:http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=10092.003.006.011#!2
  59. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág. 214
  60. MELO, Helena Pereira, 2017, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo, A Segunda Grande Guerra, Almedina, Coimbra, pág. 213
  61. TAVARES, Manuela, 2011, Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, Alfragide, pág.176
  62. BARRENO, Maria Isabel, et al.,2001, Novas Cartas Portuguesas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 8ª edição, pág. 210
  63. SILVA, Manuela Sofia, 2023, Do homem a praça, da mulher a casa: denúncia e crítica social em Novas Cartas Portuguesas, In Revista História das Ideias, Vol. 41, pp. 187 a 208, pág.189, Disponível em: https://impactum-journals.uc.pt/rhi/article/view/12163
  64. JESUS, Isabel de, 2012, Novas Cartas Portuguesas: Uma Abordagem Feminista, Faces de Eva, nº28, Edições Colibri, Universidade Nova de Lisboa, pp. 43 a 52, pág. 46, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/Novas_cartas_portuguesas.pdf
  65. TAVARES, Manuela, 2011, Feminismos: Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, Alfragide, pág. 177
  66. SILVA, Manuela Sofia, 2022, Porque precisamos de continuar a ler Novas Cartas Portuguesas 50 anos depois, Tese de Doutoramento apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pp. 113 a 130, pág. 118, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/369799410_Porque_precisamos_de_continuar_a_ler_Novas_Cartas_Portuguesas_50_anos_depois
  67. BARRENO, Maria Isabel, et al.,2001, Novas Cartas Portuguesas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 8ª edição, pág. 308
  68. BARRENO, Maria Isabel, et al.,2001, Novas Cartas Portuguesas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 8ª edição, pág. 252
  69. BARRENO, Maria Isabel, et al.,2001, Novas Cartas Portuguesas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 8ª edição, pág. 261
  70. SILVA, Manuela Sofia, 2022, Porque precisamos de continuar a ler Novas Cartas Portuguesas 50 anos depois, Tese de Doutoramento apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pág. 122, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/369799410_Porque_precisamos_de_continuar_a_ler_Novas_Cartas_Portuguesas_50_anos_depois
  71. LAMAS, Rosmarie, 1995, Mulheres para além do Seu tempo, Bertrand Editora, pág. 20
  72. LAMAS, Rosmarie, 1995, Mulheres para além do Seu tempo, Bertrand Editora, Pág. 20
  73. GUIMARÃES, Maria Alice,2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág. 7


  74. VICENTE, Carla Cristina, 2010, A construção da imagem da mulher na imprensa

    Feminina, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Tese de Mestrado apresentada na Universidade Nova de Lisboa, pág.33, Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/7239


  75. GUIMARÃES, Maria Alice,2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág. 15


  76. GUINOTE, Paulo,1997, Quotidianos Femininos (1900-1933), Organizações Não Governamentais do concelho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, Vol. 1, pág.135
  77. GUINOTE, Paulo,1997, Quotidianos Femininos (1900-1933), Organizações Não Governamentais do concelho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, Vol. 1,pág. 135
  78. GUINOTE, Paulo,1997, Quotidianos Femininos (1900-1933), Organizações Não Governamentais do concelho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, Vol. 1, pág.139
  79. RODRIGUES, Mariline Direito, 2016, Mulheres e cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um percurso de mudança entre 1928-1947, Tese de Mestrado apresentada na Escola Superior de Comunicação Social, pp. 1 a 106, Lisboa, pág 49, Disponível em: file:///C:/Users/josec/Downloads/content%20(3).pdf
  80. GUIMARÃES, Maria Alice,2008, Saberes, Modas & Pó-de-arroz – Modas &

    Bordados. Vida feminina (1933-1955), Livros Horizonte, Lisboa, pág. 23


  81. FREIRE, Ana Isabel, 2019, Discursos sobre a emancipação das mulheres e feminismos na Modas & Bordados, no pré e pós- revolução dos cravos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Faces de Eva, 42, pp.85-102, pág.89, Disponível em: https://repositorio.ulisboa.pt/handle/10451/42602

A Padronização do Tempo

Relógio de rede óptica de itérbio do NIST — © J. Burrus/National Institute of Standards and Technology

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. A realidade nasce nas nossas mãos. Se temos dúvidas sobre a existência de algo, esticamos o indicador e tocamos-lhe. O teclado do seu computador ou o vidro do seu telemóvel são reais, existem. Os seus dedos conseguem confirmá-lo claramente. Nós próprios sabemos que existimos neste mundo. Caso tenha dúvidas, pode confirmá-lo de duas formas: a primeira é dar um beliscão no braço, uma técnica muito utilizada. Pode também, neste preciso momento, perguntar à pessoa mais próxima se existe. Vamos aguardar. A resposta foi afirmativa? Então, é porque existe. Foi negativa? Confirme se a pessoa do lado existe mesmo, estique o indicador e toque-lhe. Existe? A conclusão da experiência fica por sua conta. As nossas mãos parecem, desta forma, ser o berço da realidade. Será mesmo assim?

Tudo o que fazemos fazemo-lo no nosso mundo, não conseguimos esticar o indicador e tocar noutros mundos ou mesmo pisá-los. Talvez seja por esta razão que é tão difícil acreditar na existência de mundos para além do nosso. Segundo uma das poucas teorias que tentam esclarecer-nos acerca deste assunto, existem outros mundos nos quais nós próprios também existimos. Os físicos, a partir do vertiginoso topo da sua criatividade, baptizaram esta teoria como «Interpretação dos Muitos Mundos». O autor da ideia é Hugh Everett III. Aos 12 anos Hugh Everett III enviou uma carta a Albert Einstein para esclarecer uma questão sobre o que aconteceria se uma força impossível de deter agisse sobre um objecto imóvel. A resposta foi a seguinte:

«Caro Hugh: não existe tal coisa como uma força irresistível e um corpo imóvel. Mas parece haver um jovem muito teimoso que abriu caminho vitoriosamente através de estranhas dificuldades criadas por ele mesmo para esse fim. Atenciosamente, A. Einstein».

Talvez tenha sido esta resposta do maior génio da física que o motivou a seguir uma carreira de físico, talvez tenham sido as histórias da sua mãe, ou talvez os estudos sobre os projécteis da espingarda do seu pai. Não saberemos. O que sabemos é que Hugh Everett III foi, ele próprio, um génio em várias áreas e criou uma das soluções mais interessantes para nos esclarecer acerca do funcionamento da mecânica quântica. A sua Interpretação dos Muitos Mundos é actualmente aceite na física como uma das principais teorias da mecânica quântica, mas nem sempre foi assim.

A INTERPRETAÇÃO DE COPENHAGA

Participantes da 5.ª Conferência Solvay (Bruxelas, Outubro de 1927), dedicada a “Electrões e Fotões”. Sentados na primeira fila: Irving Langmuir, Max Planck, Marie Curie, Hendrik Lorentz (presidente), Albert Einstein, Paul Langevin, Charles-Eugène Guye, C. T. R. Wilson e Owen Willans Richardson. Nas filas de trás: figuras centrais da física quântica como Niels Bohr, Werner Heisenberg, Wolfgang Pauli, Max Born, Paul Dirac, Louis de Broglie, Arthur Compton, entre outros. Dos 29 participantes, 17 receberam o Prémio Nobel.

Em 1912, um empresário Belga, Ernest Solvay, criou as Conferências de Solvay (1), realizadas de três em três anos. A quinta conferência, que decorreu em Outubro de 1927, acerca de electrões e fotões, foi uma das mais importantes de todos os tempos. Nela, participaram 29 cientistas, dos quais 17 tinham ganhado, ou viriam a ganhar, o prémio Nobel. Entre eles, estavam nomes conhecidos, como Albert Einstein, Niels Bohr, Max Planck, Erwin Schrödinger. Nesta conferência, discutiu-se a recém-formulada teoria quântica, especialmente num famoso debate entre Einstein e Bohr acerca do comportamento do electrão. A famosa «Interpretação de Copenhaga» surgiu desta conferência. Para a compreendermos, precisamos antes de conhecer a descoberta de Schrödinger, dois anos antes, em 1925.

Schrödinger demonstrou, através da sua equação, que embora numa visão macroscópica do mundo a segunda lei de Newton (F = ma) obtivesse bons resultados, a nível quântico isso não acontecia.

A equação de Schrödinger permite então calcular a energia dos orbitais dos electrões, e demonstra que não é possível prever a posição exacta de um electrão. Esta impossibilidade deve-se ao facto de os electrões se encontrarem em superposições, ou seja, em várias posições, em simultâneo. Se estão em várias posições em simultâneo, pode dizer-se que não se comportam como partículas, mas, sim, como ondas. Porém, ao observarmos um electrão vêmo-lo como se se tratasse de uma partícula. A Interpretação de Copenhaga defende, então, que um electrão se comporta como uma onda, mas, quando é observado, a sua função de onda colapsa e passa a revelar-se como sendo uma partícula. Foi precisamente esta a ideia de Bohr da qual Einstein discordou. Conta-se que, na sequência deste debate, Einstein terá proferido a sua famosa frase:

«Deus não joga aos dados»

Referindo-se ao facto de a solução apresentada por Bohr, para explicar a transição entre onda e partícula, assentar numa probabilidade, e de ser para além disso, dependente de um observador. A resposta de Bohr foi simples:

«Einstein, pare de dizer a Deus o que fazer».

Após anos a ver o mundo pelos olhos da física clássica de Newton, estes génios estavam perante uma realidade impossível de confirmar. O autor da equação que originou toda esta controvérsia, Schrödinger, achava, ele próprio, que a ideia do colapso da função de onda era disparatada. Ao ponto de sugerir uma das mais espirituosas experiências da Física, conhecida, actualmente como a experiência do Gato de Schrödinger.

O GATO DE SCHRÖDINGER 

Representação esquemática da experiência conceptual do Gato de Schrödinger — ilustração do paradoxo quântico proposto por Erwin Schrödinger, onde o gato permanece simultaneamente vivo e morto até que a caixa seja aberta e se observe o sistema.

A experiência do Gato de Schrödinger procura exemplificar a aplicação, sem sentido, da Interpretação de Copenhaga a objectos comuns do dia a dia. Consiste, simplesmente, em colocar um gato numa caixa com um frasco de cianeto, um composto radioactivo, e um medidor de radiação. De acordo com a física quântica, os átomos da substância radioactiva podem decair, ou não, durante o período da experiência. Se as partículas da substância radioactiva decaírem e, portanto, libertarem radiação, o frasco com o veneno será partido e o gato morrerá. Se as partículas não decaírem, o gato viverá. Segundo a Interpretação de Copenhaga, até se abrir a caixa, o gato estará simultaneamente vivo e morto. Ao abrir a caixa, porém, o observador verá apenas ou um gato vivo, ou um gato morto. Embora esta não seja uma teoria fácil de admitir, como referiu Einstein, até aos dias de hoje, tem sido largamente aceite. 

A INTERPRETAÇÃO DOS MUITOS MUNDOS

Representação visual inspirada na Interpretação dos Muitos Mundos .

Trinta anos após a quinta Conferência de Solvay, Hugh Everett defendeu a sua tese de doutoramento, na qual sugeriu, heroicamente, uma solução para o problema de Bohr,  então mundialmente reconhecido. Após a defesa do seu doutoramento, o orientador da tese de Everett, conseguiu que Bohr aceitasse recebê-lo. Contudo, segundo o relato da esposa de Everett, Bohr não aceitou sequer tocar no assunto, nem tão pouco o recebeu.

A proposta de Everett era bastante simples, sugeria que apenas se recorresse à equação de Schrödinger para explicar o comportamento dos electrões, nada de mais até aqui. A ideia seguinte foi, porém, um pouco mais ousada.

Perante o problema da medição da posição do electrão, Everett sugeriu que a simples observação de um electrão criaria um novo mundo, onde o mesmo electrão surgiria como uma partícula.

Este mundo seria diferente do mundo anterior, no qual a partícula ainda se comportava como uma onda. À proposta de Everett deu-se o imaginativo nome de Teoria dos Muitos Mundos. Segundo a Interpretação dos Muitos Mundos, tanto o gato de Schrödinger, como o observador, como todo o mundo, estão numa superposição, o que é, evidentemente, mais coerente. É esta a razão pela qual terá naturalmente de ser considerada a existência de vários mundos. Até aos dias de hoje, a Interpretação dos Muitos Mundos é uma das poucas teorias que apresentam uma solução para o problema da medição da posição dos electrões em física quântica. O seu reconhecimento não é apenas feito por entusiastas de ficção científica, mas também por físicos conceituados como Sean Caroll.

AS MÃOS E A REALIDADE

A ideia da nossa presença em vários mundos em simultâneo é desconcertante. A vastidão do desconhecimento que a física quântica revelou é assustadora. Ficámos mesmo sem perceber o que é a própria realidade. Resta-nos considerar que é apenas no nosso pensamento que a realidade nasce, vive e morre. Afinal de contas, é no pensamento dos nossos pais que começamos a existir, mesmo antes de nascermos. Não nos tornamos realidade quando alguém nos toca. As nossas mãos não tornam real o mundo que os nossos pés pisam. Não é possível tocar na realidade, nem muito menos tornar real aquilo em que tocamos. 

Sabemos agora que a realidade nos escapa das mãos e que padece de problemas existenciais. E desde o fim-de-semana passado, descobrimos que o tempo sofre de males semelhantes. Quanto à realidade, pouco podemos fazer. Quanto ao tempo, sendo o IPR uma Escola de Relojoaria, temos pelo menos a obrigação de tentar esclarecê-lo — mesmo que, por mais absurdo que pareça, se considere que não existe.

O QUE É O TEMPO

No universo da relojoaria, o tempo não é apenas uma abstração filosófica ou um valor sentimental: é uma unidade física que deve ser medida com exactidão. A história da padronização do tempo percorre um caminho notável, em que se destaca a Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) — o fórum internacional responsável pela definição oficial das unidades fundamentais do Sistema Internacional (SI), entre as quais o segundo.

A Convenção do Metro: a génese da padronização

Em 20 de Maio de 1875, vinte nações — incluindo Portugal — assinaram em Paris a Convenção do Metro. Este tratado internacional estabeleceu os alicerces para uma uniformização mundial das unidades de medida, o que deu origem ao Bureau International des Poids et Mesures (BIPM), sediado em Sèvres, nos arredores de Paris.

Inicialmente centrado na definição do metro e do quilograma, o trabalho do BIPM alargou-se às outras grandezas físicas — entre elas, o tempo. A coordenação destas actividades passou a estar a cargo da Conferência Geral de Pesos e Medidas, que se reúne regularmente desde 1889 para aprovar definições, rever normas e garantir a coerência do sistema internacional de unidades.

O segundo astronómico: uma definição instável

Durante séculos, o tempo mediu-se por observações astronómicas.

O segundo era definido como a 1 ⁄ 86400 parte do dia solar médio — isto é, a vigésima quarta parte de uma rotação da Terra dividida por 3600.

Contudo, verificou-se que a rotação terrestre não é constante. Sofre pequenas variações imprevisíveis, de origem geológica, atmosférica e gravitacional.

Esta instabilidade tornou-se inaceitável para aplicações que exigem uma precisão extrema, como a navegação por satélite, a sincronização de redes de telecomunicações ou a relojoaria científica. Era necessário encontrar uma referência invariante, presente em toda a natureza.

O segundo atómico: a revolução da exactidão

A resposta chegou através da espectroscopia e da física quântica. Os átomos, ao transitarem entre níveis de energia, emitem radiação com uma frequência específica. No caso do césio-133, essa frequência é notavelmente estável.

Em 1967, a 13.ª Conferência Geral de Pesos e Medidas aprovou uma nova definição do segundo:

“O segundo é a duração de 9 192 631 770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio-133.”

Este momento representou um marco histórico. Pela primeira vez, a unidade de tempo deixou de depender dos astros e passou a depender de um fenómeno imutável da física atómica. Desde então, os relógios atómicos tornaram-se o padrão máximo de precisão.

De Paris para o mundo: os relógios ao ritmo do césio

A CGPM continua a supervisionar a evolução das definições do SI. Em 2019, redefiniu o quilograma, o ampere, o kelvin e a mole com base em constantes universais. A unidade de tempo, contudo, manteve-se ancorada na radiação do césio, embora se prepare o caminho para futuros padrões ainda mais precisos — como os relógios de rede óptica.

Relógios de rede óptica

Nos últimos anos, os chamados Relógios de rede óptica tornaram-se os instrumentos mais precisos de medição do tempo. Diferem dos relógios atómicos de césio por utilizarem átomos neutros aprisionados numa rede óptica – uma estrutura de luz laser que imobiliza os átomos em posições fixas.

Estes átomos são excitados por radiação óptica, com frequências muito superiores às micro-ondas usadas no césio, o que permite uma resolução temporal incomparável.

A precisão destes sistemas é tal que, segundo os dados mais recentes, o erro acumulado seria inferior a um segundo em 30 mil milhões de anos.

Embora ainda não se tenha substituído oficialmente o césio como referência do Sistema Internacional, os relógios de rede óptica são os principais candidatos à futura redefinição do segundo, estando actualmente em teste em laboratórios nacionais de metrologia em todo o mundo.

Portugal: um país sem Hora Legal

Em Portugal actualmente pode-se dizer que o tempo não existe com mais propriedade do que noutros países, pois após 145 anos ao serviço do país, o Observatório Astronómico de Lisboa deixou de ser a entidade emissora da Hora Legal.

Desde 2019, alterações legislativas e institucionais criaram um vazio de competências, tornando impossível cumprir o que o Decreto-Lei n.º 279/79 previa. A responsabilidade pela emissão do tempo oficial deverá ser transferida para o Instituto Português da Qualidade, mas o processo legislativo continua indefinido.

Enquanto isso, o país permanece sem uma entidade emissora activa e sem um único relógio público que marque oficialmente o tempo.

Portugal, que outrora teve um dos observatórios mais prestigiados da Europa, deixa assim de ter a sua própria hora legal.

NOTAS:

(1) As Conferências Solvay nasceram da visão e generosidade de Ernest Solvay (1838–1922), um industrial e químico belga que fez fortuna com o desenvolvimento do processo químico de produção de carbonato de sódio. Convencido de que o progresso científico exigia o diálogo entre os maiores pensadores do seu tempo, Solvay fundou, em 1911, uma série de conferências científicas de alto nível, que reuniram os físicos mais influentes do mundo num ambiente de debate livre e rigoroso. A sua iniciativa culminou na célebre quinta conferência de 1927, dedicada à teoria quântica, onde se enfrentaram duas concepções da realidade: a visão determinista de Einstein e a interpretação probabilística de Bohr. Ernest Solvay não foi apenas um mecenas: foi o arquitecto de um espaço onde a ciência teve a liberdade de questionar os seus próprios fundamentos. Embora estas conferências não tenham definido normas metrológicas, foram cruciais para a construção teórica que sustenta a forma como hoje se mede o tempo — nomeadamente através da física quântica que sustenta os relógios atómicos.

Referências

Livros

  1. Kragh, H. (1999). Quantum Generations: A History of Physics in the Twentieth Century. Princeton University Press.
  2. Carroll, S. (2019). Something Deeply Hidden: Quantum Worlds and the Emergence of Spacetime. Dutton Books.
  3. Byrne, P. (2010). The Many Worlds of Hugh Everett III. Oxford University Press.
  4. Heisenberg, W. (1958). Physics and Philosophy. Harper.
  5. Quinn, T. J. (2012). From Artefacts to Atoms. Oxford University Press.
  6. Rovelli, C. (2017). The Order of Time. Allen Lane.
  7. Pais, A. (1982). Subtle is the Lord: The Science and the Life of Albert Einstein. Oxford University Press.

Sites institucionais e científicos

  1. https://www.bipm.org
  2. https://www.solvayinstitutes.be
  3. https://plato.stanford.edu/entries/qm-everett
  4. https://www.iers.org
  5. https://www.nist.gov
  6. https://www.ipq.pt

John Philip Sousa: O Rei das Marchas e as Suas Raízes Portuguesas

Texto originalmente publicado no website da Escola de Música da Enxara do Bispo, em www.bandadaenxara.pt.

A história da música para bandas não se pode escrever sem mencionar, em letras sonoras e destacadas, o nome de John Philip Sousa. Para muitos, é um sinónimo de marchas militares, de desfiles vibrantes, de patriotismo norte-americano em forma de pauta. No entanto, há uma faceta menos conhecida deste gigante da música: as suas origens portuguesas. Sim, o compositor de The Stars and Stripes Forever era filho de um madeirense, e essa herança lusitana nunca deixou de o acompanhar.

John Philip Sousa

As raízes: da Madeira para Washington

John Philip Sousa nasceu a 6 de Novembro de 1854 em Washington, D.C., capital dos Estados Unidos da América. O seu pai, João António de Sousa, era natural da ilha da Madeira, tendo emigrado para os Estados Unidos ainda jovem. Músico de profissão, João António ingressou na Banda dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos como trombonista, posição que ocupou durante vários anos.

A mãe de John Philip, Maria Elisabeth Trinkhaus, era de origem bávara. Desta união nasceu um filho que, desde tenra idade, mostraria uma inclinação inata para a música — e que acabaria por superar todos os seus mestres.

Apesar de nascido em solo americano, John Philip Sousa cresceu num lar com fortes influências europeias. O pai, português, transmitiu-lhe não só o gosto pela música como também um certo espírito disciplinado e honesto que moldaria a sua vida profissional. Embora a sua biografia tenha sido muitas vezes “americanizada”, Sousa nunca escondeu nem renegou a sua ascendência portuguesa — antes pelo contrário, orgulhava-se dela.

Formação musical e primeiros passos

Com apenas seis anos de idade, Sousa começou a ter aulas de música. Estudou canto, violino, flauta e vários instrumentos de sopro, e revelou desde cedo um talento invulgar.

Aos treze anos, quase por acaso, o pai impediu-o de embarcar numa digressão circense e inscreveu-o como aprendiz de músico na Banda dos Fuzileiros Navais, onde ficaria a estudar e a trabalhar durante vários anos.

Aos vinte anos, Sousa era já um músico completo. Tocava em orquestras, dirigia agrupamentos locais e dava lições de música. A sua carreira como maestro, compositor e organizador seria vertiginosa, marcada por rigor, inovação e uma profunda dedicação à arte de emocionar multidões.

A glória: o nascimento do “Rei das Marchas”

Em 1880, com apenas 26 anos, Sousa foi nomeado maestro da United States Marine Band, a banda oficial da presidência dos EUA. Sob a sua direcção, a qualidade artística do agrupamento atingiu níveis sem precedentes. Sousa reescreveu o repertório, elevou os padrões de execução e deu início a uma nova era na música militar americana.

Em 1892, após doze anos de serviço, Sousa deixou a banda militar e fundou a Sousa Band, uma formação privada que se tornaria célebre em todo o mundo. Com ela, Sousa percorreu os Estados Unidos, o Canadá, a Europa, a América do Sul e até a Austrália, apresentou centenas de concertos e conquistou públicos de todas as idades e nacionalidades.

Foi neste período que compôs as suas obras mais conhecidas, entre as quais se destacam:

  • The Stars and Stripes Forever (1896), a mais famosa marcha americana, hoje hino oficial das marchas dos EUA;

A Sargento Kara Santos, flautista da Banda dos Fuzileiros Navais dos EUA, interpreta o solo de piccolo da marcha “The Stars and Stripes Forever”, de John Philip Sousa, durante o desfile de sexta-feira à noite no Quartel dos Fuzileiros Navais em Washington, D.C., a 31 de Maio de 2013.

  • The Washington Post (1889), escrita a pedido do jornal homónimo;

Interpretado por “The President’s Own” United States Marine Band

  • Semper Fidelis (1888), dedicada ao Corpo de Fuzileiros Navais;

SOUSA – Semper Fidelis – “A Banda do Presidente” dos Fuzileiros Navais dos EUA

  • Liberty Bell (1893), celebrizada mais tarde como tema dos Monty Python.

Banda dos Fuzileiros Navais interpreta – The Liberty Bell March – John Philip Sousa

Ao todo, Sousa compôs mais de 130 marchas, bem como operetas, valsas, peças sacras e hinos patrióticos. O seu estilo é inconfundível: claro, directo, rítmico, melodioso e com uma estrutura formal perfeitamente equilibrada.

Um invento que também nos toca: o Sousafone

Pouco se fala da faceta inventiva de Sousa. Insatisfeito com a sonoridade dos baixos nas bandas em movimento, Sousa colaborou com a empresa C.G. Conn para criar um novo instrumento: o Sousafone, uma tuba adaptada à marcha, com a campânula voltada para a frente.

Sousafones na Banda da Enxara

Ao longo da história das bandas filarmónicas, poucos instrumentos testemunharam uma transformação tão engenhosa e funcional como o sousafone. Criado para resolver problemas práticos de projecção sonora e mobilidade, o sousafone rapidamente se afirmou como uma peça essencial nas formações em marcha. A evolução do sousafone reflecte tanto o engenho técnico dos seus criadores como as necessidades concretas dos músicos e do público. Como acontece com todos os instrumentos, a sua adaptação acabou por ultrapassar os limites da tradição — como se comprova no vídeo seguinte.

BUYO» – Abertura de concerto com sousafone por @noranalepka com os @theluckychops, durante o concerto em Amesterdão.

O Problema da Tuba em Marcha

No final do século XIX, o instrumento mais grave da família dos metais era a tuba, presente tanto em orquestras como em bandas. No entanto, a tuba tradicional apresentava dois grandes inconvenientes em contexto de marcha:

  1. Era pesada e difícil de transportar em movimento, pois exigia força e equilíbrio do músico;
  2. Projectava o som para cima, o que dificultava a audição do baixo em ambientes exteriores.

Foi com base nestas limitações que surgiu a ideia de criar uma tuba adaptada à marcha, com projecção frontal e estrutura mais ergonómica.

O Génio Prático de John Philip Sousa

A figura central desta história é John Philip Sousa, maestro e compositor norte-americano com raízes portuguesas. Insatisfeito com a sonoridade das tubas na sua banda, Sousa procurou uma alternativa que permitisse levar os graves à rua com mais eficácia.

Em colaboração com a empresa C.G. Conn, Sousa encomendou um instrumento novo, que reunisse:

  • Conforto de transporte;
  • Grande capacidade de projecção sonora frontal;
  • Som encorpado, adequado a desfiles e concertos ao ar livre.

Nascia assim, em 1893, o primeiro sousafone — ou sousaphone, em inglês — nome atribuído em honra do próprio maestro.

A evolução do sousafone

Evolução do sousafone

O Primeiro Modelo: O “Rain-catcher”

O protótipo de 1893 era em tudo semelhante a uma tuba helicoidal, com o tubo enrolado à volta do corpo do executante, mas com a campânula voltada para cima. Este modelo ficou conhecido como “rain-catcher” (apanhador de chuva), precisamente porque a abertura do instrumento parecia ideal para recolher aguaceiros indesejados durante actuações ao ar livre.

Músicos com sousafones numa formação histórica, ilustrando os primeiros modelos com campânula frontal

Apesar de inovador, este primeiro sousafone ainda não resolvia completamente o problema da projecção sonora — mas a base estava lançada.

A Revolução: Campânula Frontal

Nos primeiros anos do século XX, o modelo foi redesenhado para incorporar uma campânula orientada para a frente, como Sousa originalmente pretendia. Este novo desenho permitia que o som se dirigisse directamente para o público, aumentando a eficácia sonora durante desfiles, marchas e actuações em locais abertos.

Com este aperfeiçoamento, o sousafone assumiu a sua forma definitiva:

  • Tubo circular completo, a envolver o corpo do músico;
  • Descanso sobre o ombro esquerdo;
  • Válvulas acessíveis ao toque da mão direita;
  • Campânula larga e imponente, voltada para a frente.

Material e Construção: do Latão à Fibra

Originalmente construídos em latão, os primeiros sousafones eram pesados, e exigiam robustez física por parte do executante. Com o tempo, especialmente a partir da década de 1960, começaram a surgir modelos em fibra de vidro, muito mais leves e resistentes às intempéries — ideais para bandas escolares, juvenis ou para longas actuações em movimento.

John W. Richardson, sousafone (1,98 m), e Winifred Bambrick, harpa (1,52 m), numa imagem promocional da banda de John Philip Sousa, onde o humor realça a grandiosidade do instrumento — e do músico.

Hoje em dia, coexistem três grandes tipos de sousafones:

  1. Sousafone clássico em latão – som mais rico e tradicional, preferido por músicos profissionais;
  2. Sousafone em latão niquelado ou prateado – estética mais refinada, por vezes usado em palcos;
  3. Sousafone em fibra de vidro – leve, resistente, ideal para desfiles e uso prolongado.

Inovações Recentes

Apesar da sua aparência clássica, o sousafone continua a evoluir. Nos últimos anos, surgiram:

  • Sousafones eléctricos, com microfones embutidos e saídas de áudio para amplificação;
  • Modelos modulares, com peças desmontáveis para facilitar o transporte;
  • Sistemas de válvulas rotativas, mais comuns em países germânicos, embora menos adoptados no mundo anglo-saxónico e lusófono.

Também se registam experiências com campânulas direccionáveis, capazes de alterar a projecção sonora conforme o tipo de actuação.

Na Cultura Popular e na Tradição Filarmónica

O sousafone é hoje presença habitual em bandas marciais, filarmónicas, grupos académicos e bandas de jazz de rua. Tornou-se um símbolo visual da música em movimento, muitas vezes pintado com cores vivas ou com o nome da banda na campânula.

Em Portugal, o sousafone é particularmente valorizado em romarias, festas populares e desfiles. Substituiu quase completamente a tuba em contexto de marcha, graças à sua ergonomia e potência sonora.

Na Banda Filarmónica da Enxara, como em tantas outras, o sousafone é o alicerce sonoro de muitas actuações, sustenta o ritmo e completa a formação.

Um Instrumento Sempre em Marcha

A história do sousafone é a história de uma ideia simples e genial: adaptar o som grave da tuba às exigências do mundo em movimento. Evoluiu de uma solução prática para se tornar ícone cultural, instrumento de identidade e voz dos desfiles.

Com mais de um século de existência, o sousafone continua actual — não só pela sua forma funcional, mas porque representa a capacidade da música de se moldar à realidade e de caminhar com o povo, rua fora, compasso a compasso.

Uma identidade composta por muitas vozes

Sousa foi um homem profundamente americano no seu patriotismo, mas cosmopolita no seu gosto musical e fiel às suas origens europeias e portuguesas. Em entrevistas e textos pessoais, Sousa referia-se com carinho às suas raízes. Em várias ocasiões, tocou para comunidades luso-americanas e mantinha contacto com famílias portuguesas nos Estados Unidos.

É curioso pensar que o som mais emblemático da América — a marcha militar — teve como artífice um homem de sangue madeirense. Em tempos de emigração, de cruzamento de culturas e de afirmação nacional, Sousa representa um exemplo raro e inspirador de como a música portuguesa, mesmo que indirectamente, deixou a sua marca no mundo inteiro.

A herança na Banda da Enxara

Na Banda Filarmónica da Enxara, como em tantas outras bandas do nosso país, as marchas de Sousa fazem parte do repertório clássico. Tocam-se em desfiles, festas, concertos ao ar livre. Os nossos músicos dão inúmeras vezes vida à obra de um descendente de portugueses, cuja música continua a unir gerações e a fazer vibrar plateias.

Celebrar John Philip Sousa não é apenas reconhecer o génio de um compositor brilhante. É também reconhecer que a nossa cultura, mesmo dispersa, tem ecos e frutos nos lugares mais inesperados do mundo.

Um Breve Estudo Sobre as Referências à Rainha Santa na Literatura Portuguesa

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Como o tempo era passado,

Nos jardins, no monte e prado,

De rosas e toda a flor,

El-rei, cheio de piedade,

Nas rosas da caridade

Viu a bênção do Senhor!

João de Lemos (1819 -1890) in “As Rosas de Santa Isabel”

A figura da Rainha Santa Isabel de Portugal mantém uma posição de destaque na memória coletiva portuguesa, e, esta proeminência é plenamente justificável, uma vez que a Rainha Isabel se revela uma personalidade cativante, não apenas pela sua profunda espiritualidade, mas também pelas virtudes inerentes ao seu temperamento. No entanto, observa-se que, por vezes, a sua relevância é subestimada em comparação com outras figuras santas e históricas igualmente queridas à Pátria portuguesa. Compreendo, assim, que a Rainha, de forma graciosa, reúne em si o serviço ao trono e ao altar – valores intrínsecos à nossa nação – acrescentando o singular atributo da sua feminilidade. A par de todas estes pontos agradáveis de ligação, no ano 2025 celebra-se o 400º aniversário da Canonização oficializada pela bula papal de Urbano VIII em 1625.

Este artigo não visa apresentar uma hagiografia exaustiva da Rainha Santa Isabel: em vez disso, explorará o impacto da vida e das lendas em torno da Santa na literatura portuguesa e, por inerência, na tradição popular, pois – em especial a literatura medieval – revela-nos as raízes da cultura portuguesa e permite-nos apreciar a evolução dos temas e conceitos fundamentais situando-os devidamente no contexto histórico literário. Contudo, o presente texto vai percorrer apenas alguns registos do século XVI até às produções literárias do século XXI.

Desde tenra idade, a Rainha Santa demonstrou propensão para a meditação, a solitude, a oração e o jejum. Contudo, a sua vida como rainha consorte de Portugal foi bastante ativa e participativa. Registros do século XIV indicam que a rainha acompanhou D. Dinis nos assuntos do reino, como evidenciado pela fórmula inicial de alguns documentos importantes: “Dom Denis, por graça de Deus rei de Portugal e do Algarve, en sembra (juntamente) com a rainha Dona Isabel, minha mulher…”. Isso demonstra o seu peso e influência na condução dos assuntos de Estado. Assim, Isabel de Aragão manifestou um notável interesse na participação das resoluções reais do Reino de Portugal, o que representava – à data – uma novidade para uma rainha consorte. Tal perspetiva desmistifica a imagem de mulher “sofrida” que erroneamente lhe é associada, revelando-a como uma mulher astuta, perspicaz; não desmentindo que de facto é dotada de uma vida em constante oração.

Não obstante, na atualidade, parece existir a tendência de desvirtuar a figura da Santa, desassociando-a dos seus valores católicos ao descrevê-la como insubmissa ao marido, simplesmente por ter convicções firmes. Não há nenhum indício que sustente a acusação de insubmissão – ela que permaneceu sempre ao lado de D. Dinis mesmo ciente das suas infidelidades. Pelo contrário, é digno de louvor que, na sua vida, a Rainha Santa sempre concretizou a plenitude de seus deveres de estado: apoiar o rei como mulher e participar da vida pública do reino como rainha. Além de uma vida dedicada à prática caritativa e à preocupação com o próximo, a Bula do Papa Urbano VII realça o papel daquela que foi frequentemente apelidada de “anjo da paz” como intermediária entre os reinos da Península Ibérica. A sua dedicação aos problemas políticos nacionais foi tal que, ao interferir na guerra civil entre o rei D. Dinis e o príncipe herdeiro D. Afonso, foi acusada pelo marido de favorecer os interesses do filho e enviada sob custódia para Alenquer. No entanto, manteve-se firme nas suas convicções e com a sua influência direta foi decisiva para a assinatura da paz em 1322, e, no ano seguinte, evitou o reacendimento do conflito ao colocar-se entre os exércitos prontos para a batalha.

Após o falecimento do rei D. Dinis (datado a janeiro de 1325), os anos subsequentes da vida de Isabel de Portugal foram vividos com um espírito de clarissa, até ao seu falecimento em Estremoz, no dia 4 de julho de 1336. Sua predileção pela “senhora pobreza” — expressão carinhosa com que São Francisco de Assis designava o seguimento de Cristo pobre — e por uma existência marcada pelo cuidado e interesse pelos mais necessitados, pelos pobres e enfermos, revela uma profunda espiritualidade franciscana.

É comum, mas erroneamente, afirmado que nos últimos anos da sua vida a rainha pertenceu apenas à Ordem Terceira Franciscana (OSF – atualmente movimento secular). No entanto, alguns documentos sugerem que a Rainha Santa, após a viuvez, professou como clarissa. De fato, para a Igreja e para a nação portuguesa, constitui um elevado privilégio o facto de a piedosa soberana ter vestido o hábito de Clarissa. Há, inclusive, historiadores que a denominam “a régia clarissa”, e sabe-se que, nos onze anos posteriores ao óbito de D. Dinis, ela professou clarissa, ainda que apenas in articulo mortis.

Reza uma antiga tradição que foi num Convento da cidade de Estremoz que ela morreu. A piedosa Rainha, que possuía o dom de apaziguadora nos furores bélicos, agora, nos anos da sua viuvez, bondosa como sempre, quis ir, ainda uma vez, usar da sua poderosa intervenção no litígio entre Dom Afonso IV e o Rei de Castela. Para tal, dirigiu-se a Estremoz. Porém, sobreveio-lhe, lá mesmo, uma enfermidade a que não resistiu. E foi assim que, ao ir como mensageira da paz, partiu realmente para o Reino da verdadeira paz. Recolhida ao Mosteiro das Clarissas de Estremoz, foi de lá, numa humilde cela, que a sua bela alma voou ao céu, a receber as eternas recompensas.

Dali transportaram-na seus súbditos a pedido do filho mais velho D. Afonso IV, com grandes honras e dedicação, amortalhada no seu hábito de Santa Clara, para o régio Mosteiro de Coimbra (mosteiro régio, mandado construir pela própria e era contínuo ao Paço). Ali repousam os restos mortais, dentro de magnífico túmulo, onde mandara colocar no tampo a sua imagem, vestida de Clarissa. No túmulo, a representação da Rainha ainda a mostra como peregrina a Santiago de Compostela, acompanhada de uma esmoleira, evidenciando seu cuidado com os carenciados e a imagem de si que desejava transmitir.

Na transladação do seu corpo de Estremoz para Coimbra – viagem longa que demorou 7 dias – consta que a comitiva que o acompanhava sentiu um suavíssimo cheiro de flores. O perfume espiritual é uma graça concedida a alguns santos, tal como o S. padre Pio ou a Santa Teresinha do Menino Jesus. Após este fenômeno a população logo se referia ao corpo da Rainha Santa como “corpo santo beatificado”.

O povo, desde cedo, considerou-a santa, atribuindo-lhe inúmeros milagres. A pedido de D. Manuel I, devido ao intenso culto público, foi beatificada pelo Papa Leão X (15-4-1516) e, em 1625, foi canonizada por Urbano VIII. A Devoção popular foi sempre muito forte, porque ao acompanhar as deslocações que o rei fazia pelo reino; e nessas alturas dava esmolas aos pobres, a raparigas pobres e distribuía alimentos. Sem dúvida, o milagre das rosas, em que, segundo a tradição, flores apareceram no seu regaço em vez dos pães escondidos para os pobres, tornou-se o episódio mais emblemático da sua santidade; se bem que as suas ações caritativas e capacidades diplomáticas são particularmente valorizadas na bula de canonização.

Conforme recorda o Cancioneiro de Coimbra, de Afonso Lopes Vieira, a pedido de D. Manuel I, D. Isabel foi beatificada:

Ao Padre-Santo pediu

O Senhor Dom Manuel

Que Ihe confirmasse santa

A Rainha Isabel.

Esta Rainha tão santa,

Mulher d’El-Rei Dom Dinis,

Só fez por servir a Deus,

E ele fez quanto quis.

Todas as suas esmolas

Só em secreto as dava

E uma vez que, escondidas,

No regaço as levava,

Um cavaleiro privado

A El-Rei a delatava:

E El-Rei, de cobiçoso,

Acorreu, e perguntava:

— «Que levais aí, Senhora,

Nesse regaço tamanho?»

— «Eu levo cravos e rosas,

Que outras coisas não tenho!»

— «Nem sequer há maravilhas;

Menos cravos, em Janeiro!

Ou serão esmolas isso,

Ou isso será dinheiro?»

A Rainha não falou;

Só o regaço abriu

E eram cravos e rosas,

Que dinheiro… Não se viu.

[…]

Igualmente, várias crónicas medievais e poesias retratam o espírito nobre da rainha e o apreço que os portugueses lhe tinham. A primeira hagiografia parece datada de 1751, redigida por Frei Francisco Brandão, mas segundo afirma o autor, «tresladada de um livro escrito de mão que está no Convento de Santa Clara, de Coimbra». E Frei Francisco Brandão formula o seguinte parecer relativamente ao original: «É muito antiga e muito próxima da morte da Rainha Santa Isabel».

Em cada uma Quaresma, fazia extremadas esmolas a homens e a mulheres envergonçados. E em dia, que se diz Caena Domini, lavava a certas mulheres, pobres gafas, os pés, e lhos beijava; e vestia-as de cuecas, de pelotes e ceromes; e dava-lhes de calçar e contas, por amor de Deus. E assi em aquele dia fazia entrar um clérigo ordenado de missa e um gafo, os mais pobres que achassem, e dava-lhes de vistir.

(Crónica publicada por Fr. Francisco Brandão, in Monarquia Lusitana, VI Parte, Lisboa, 1751.)

Na produção literária medieval, é pertinente destacar que, entre as diversas obras atribuídas ao Rei Trovador e que se crê terem sido dedicadas à Rainha, sua esposa, uma em particular parece sintetizar o espírito de tributo, admiração e respeito que o monarca nutria pela rainha dada a sua contribuição na projeção de um futuro promissor para a nação:

Pois que vos Deus fez, mia senhor,

fazer do bem sempr’o melhor

e vos en fez tam sabedor,

ũa verdade vos direi:

se mi valha Nostro Senhor,

érades bõa pera rei!

E pois sabedes entender

sempr’o melhor e escolher,

verdade vos quero dizer,

senhor, que sêrvi’e servirei:

pois vos Deus atal foi fazer,

érades bõa pera rei!

E pois vos Deus nunca fez par

de bom sem nem de bem falar,

nem fará já, a meu cuidar,

mia senhor e quanto bem hei,

se o Deus quisesse guisar,

érades bõa pera rei!

Cancioneiro da Biblioteca nacional – cantiga de amor- v. 95

(consultado em: https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=516&pv=sim )

Não se sabe se D. Dinis compôs esta cantiga de amor ainda infante ou já como monarca, contudo dirigindo-se à sua senhora, D. Isabel, o trovador garante-lhe que as suas incomparáveis qualidades (o discernimento, a inteligência, o bom senso, a capacidade de se exprimir bem) a capacitam plenamente para a realeza.

Nos anos seguintes, e até aos dias de hoje, o milagre das rosas Milagre das Rosas permanece um tema recorrente na literatura e na tradição popular portuguesa. O rei D. João III, um grande devoto da Rainha Santa, determinou em 1556 que, anualmente, no dia 4 de julho, toda a comunidade universitária deveria comparecer ao Colégio das Artes. Lá, assistiam a uma oração pública em louvor da Rainha Santa, proferida por um dos padres da Companhia de Jesus. Essa vontade régia foi imediatamente incorporada aos estatutos da Universidade. Consequentemente, o Colégio das Artes dedicou boa parte de sua produção literária à bem-aventurada Rainha D. Isabel. Isso é comprovado com os diversos códices que reúne as obras dos Jesuítas — em poesia e prosa, em latim, grego ou até hebraico — abrangendo desde orações panegíricas até poemas, epigramas, odes, elegias e epitáfios. Com sua canonização em 1625, em plena União Ibérica, a Rainha Santa foi proclamada por Filipe III como co-padroeira de Portugal. A Universidade de Coimbra — em cuja fundação a Rainha Santa Isabel desempenhou um papel significativo — organizou, entre outras iniciativas, um certame poético em sua honra. Publicado em 1626, sob o título Santissimae Reginae Elisabethae Poeticum Certamen dedicat, & consecrat Academia Conimbricensis Ivssv illustrissimi D. Francisci de Britto de Menezes a Consilijs Catholicae Maiestatis, & eiusdem Academiae Rectoris (A Academia de Coimbra oferece e dedica à Santíssima Rainha Isabel este Concurso Poético por ordem do Mui Ilustre D. Francisco de Britto de Menezes, Conselheiro de Sua Majestade Católica e Reitor da mesma Academia), o concurso reuniu textos em diversas línguas e gêneros literários, como odes, canções e sermões. Essa coletânea ofereceu um testemunho da diversidade e popularidade da devoção à nova santa, visto que muitos poetas passaram a consagrar suas obras à recém-nomeada padroeira de Portugal.

No período Quinhentista, a figura da Rainha continuou a exercer algum fascínio e as produções literárias do século XV e XVI dedicaram-lhe notável atenção. Certamente, que as devoções populares e a fé particular estavam em crescimento e firmavam-se cada vez mais no coração dos portugueses e das portuguesas. No Renascimento, destacam-se duas obras literárias: uma a que se refere indiretamente e outra, de caráter mais direto, que contribuiu significativamente para a intensificação da devoção à Rainha. A primeira obra mencionada é da autoria do historiador e humanista Damião de Góis, ao redigir a Crónica do Príncipe D. João, Góis faz referência a diversos acontecimentos, e em um deles retrata: “A Rainha Dona Isabel, mui piedosa e caritativa, socorria os pobres com tanta constância que parecia ser enviada por Deus para consolar os miseráveis.” Note-se que, embora este retrato seja discreto e a alusão à rainha indireta, é graças às descrições de Damião de Góis, Pedro João Perpinhão e Frei Marcos de Lisboa que atualmente é possível reconstituir o Milagre das Rosas o que, postumamente, facilitar as múltiplas adaptações modernas que hoje se realizam. A segunda obra foi publicada em Lisboa, em 1596, o Discurso sobre a Vida e Morte de Santa Isabel, Rainha de Portugal, e outras várias rimas, a obra é composta por seis cantos em oitavas e com as Várias Rimas que incluem sonetos, tercetos, éclogas, glosas, romances e emblemas, eleva a figura de Santa Isabel a um pedestal de grande devoção. Tal elevação contrapunha-se ao clima de insatisfação provocado pela perda da Independência e à evocação de D. Sebastião como um elemento presente no imaginário coletivo da Nação.

Nas primeiras estrofes, o poeta reconhece as misérias em que a pátria está imersa e recorda ainda o luto da tragédia de Alcácer Quibir, a exemplo do drama nacional, a estrofe 7:

Começar do destorço lusitano

E ruína total da glória altiva

Com que fez rico ao pobre mauritano

Sebastião, cuja morte inda hoje é viva;

Renovando-se sempre de ano em ano,

Qual águia que no mar a idade aviva,

Em outro mar de lágrimas que chora

Quem se deseja e sua sombra adora.

Contudo, o poeta, também, o transpõe para o plano pessoal e procurando consolo na recordação de glórias passadas, então, evoca a figura luminosa da Rainha Santa: «Vós, Isabel, sereis o meu cuidado; / Em vós empregarei meus pensamentos,/ Sendo por vós meu canto celebrado» (est. 13).

De facto, a literatura dos séculos XVI e XVII debruçar-se-ia predominantemente sobre a vida de D. Sebastião e o fenómeno do sebastianismo que se perpetuaram na memória coletiva até à atualidade e voltaria a ganhar ênfase na produção literária no século XX, com A Mensagem. As angústias da perda e a luta pela independência constituíam, também, o foco literário. Compreensivelmente, a figura da Rainha já não tinha tanta preponderância na produção literária; apesar de continuar a ser alvo de grande devoção entre o povo português.

Contudo, regista-se uma remanescência de sua presença na produção literária do século XIX, no período do Romantismo, com o poeta ultrarromântico João de Lemos (1819-1890), um miguelista obstinado e adepto da Monarquia absoluta, ansiou sempre ardentemente por sua restauração. O poema em questão, “As Rosas de Santa Isabel”, está citado na epígrafe do presente artigo. Acredita-se que este regresso se deve ao facto de o Romantismo na literatura, ao rejeitar o racionalismo e o classicismo, recupera e idealiza a Idade Média como uma época de valores de heroísmo, fé e sentimentos intensos, servindo de inspiração para a construção de uma identidade nacional e reforçando seus pensamentos evasivos. Ainda no século XIX, em 1883, o poeta e político liberal e republicano Teófilo de Braga – inspirado pela leitura de Hegel – está interessado em registar a cultura e tradição oral portuguesa publica Contos Tradicionais Portugueses inclui uma versão popular da lenda das rosas. É plausível que muitos outros autores oitocentistas tenham, indiretamente, refletido sobre a vida da rainha e do midiático milagre.

No século XX, José Régio figura central do modernismo português e fundador da Geração Presença conhecido por viver a fé católica de modo muito particular parece compreender a essência da Rainha Santa Isabel em sua peça de teatro “A Rainha Santa Isabel”, publicada em 1946. José Régio aborda uma dualidade entre a obediência conjugal e a vocação espiritual, expressa na frase: “Entre o dever de esposa e o dever de santa, há um abismo que só Deus pode atravessar.” No entanto, ele a descreve essencialmente como — já a conhecemos — bondosa, discreta e preocupada com o Reino de Deus: “A caridade é o meu reino. E nele sou rainha.” e “Não é o milagre que me faz santa. É o amor que não mede.” Ainda no XX, o poeta popular Henrique Rego escreveu o fado “Rainha Santa” que integra o repertório de Alfredo Marceneiro, e que culmina de forma bastante singela e poética:

Santa Isabel, se algum dia

Seu nome de eras famosas

Fosse esquecido afinal,

milagre faria

De nunca mais haver rosas

Nos jardins de Portugal.

milagre faria

De nunca mais haver rosas

Nos jardins de Portugal.

Atualmente, no século XXI, o milagre das rosas ainda está presente na memória coletiva do povo português e, também, é alvo de produção literária, nomeadamente, num género literário pouco desenvolvido no ensaio – o romance histórico. Neste pequeno estudo sobre as referências à Rainha Santa Isabel na literatura portuguesa seria uma grande lacuna se não mencionasse o conhecidíssimo trabalho da Isabel Stilwell que, em 2017, pública Isabel de Aragão – Entre o Céu e o Inferno: A rainha que Portugal imortalizou como Rainha Santa.

Não obstante, e ciente dos debates em teoria da literatura, bem como das fronteiras tênues entre a literatura e a história, considero que a definição de um romance histórico em termos da sua natureza literária e historiográfica revelava-se ambígua. Sobre essa questão, o ensaísta Manuel Gusmão discorreu extensivamente acerca dos diálogos entre literatura, história e ficção. Tais questões fundamentais parecem residir nas bases da própria literatura, visto que Aristóteles, em Poética, chegou à seguinte conclusão: o historiador narra o que de fato aconteceu, enquanto o poeta narra o que poderia ter acontecido. Desse modo, a poesia possui um caráter mais filosófico por procurar o universal – aquilo que qualquer indivíduo poderia experimentar ou sentir –, ao passo que a história restringe-se ao concreto. Assim sendo, afigura-se mais plausível que o milagre das rosas se perpetue na memória coletiva do povo português, não tanto pelas crónicas medievais ou pela prosa, mas, sobretudo, pela lírica medieval e pelo fato de diversos poetas no século XVI terem consagrado as suas obras à Rainha Santa Isabel.

Bibliografia

Adoradoras, Clarissas. (1976). In A ordem de Santa Clara em Portugal (pp. 70 – 72). Braga: Editorial Franciscana.

(1981). In M. E. Ferreira, Poesia e Prosa medievais (pp. 40-41). SL: Editora Ulisseia.

https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/santa-isabel-consorte-do-rei-trovador
https://cantigas.fcsh.unl.pt/index.asp

A sombra do pai: a performance e a psicologia na Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa

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Texto de Paulo Almeida, investigador independente na área da História Contemporânea de Portugal.

A atuação de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República distingue-se pela constante presença junto da população e pelo cuidado na gestão da própria imagem. Frequentemente visto em eventos formais e informais, deslocando-se a regiões distantes e acompanhando diferentes comunidades, cria a percepção de proximidade com os cidadãos, contraste evidente com a distância habitual de outros titulares do cargo. Contudo, esta presença intensa levanta questões: até que ponto se trata de uma empatia genuína e até que ponto é uma construção cuidadosamente calibrada da própria imagem?

A linguagem simples e acessível, os gestos de cordialidade personalizada e a visibilidade mediática podem, em muitos casos, ser mais performativos do que espontâneos, projetando uma sensação de proximidade que se confunde com autoridade moral. O equilíbrio que Marcelo demonstra entre informalidade e protocolo é igualmente questionável. Embora aparente flexibilidade, esta gestão da autoridade pode ser vista como um exercício calculado de manutenção de poder simbólico, em que cada gesto, cada visita, cada contacto com cidadãos funciona como uma afirmação discreta de influência. Situações concretas, visitas a pequenas localidades, encontros improvisados com cidadãos ou intervenções mediáticas, podem ser interpretadas não apenas como demonstrações de atenção, mas como elementos de uma estratégia de visibilidade contínua.
É neste contexto que se torna pertinente observar a influência de Baltazar Rebelo de Sousa, pai de Marcelo.
Há anos observo e intuo que Marcelo vive, de certo modo, sob a sombra e a idolatria da figura paterna. Não se trata apenas de herança simbólica, mas de um modelo de comportamento que combina visibilidade, protocolo e gestão calculada da imagem pública. Mesmo sem pretensões de psicólogo, a experiência e a observação sugerem que este padrão influencia profundamente a forma como Marcelo interpreta e exerce a Presidência.

Para compreender esta ligação, é necessário analisar a trajetória de Baltazar Rebelo de Sousa. Em 1968, Baltazar, então Governador-Geral de Moçambique, apresentou-se junto de uma população maioritariamente negra, rural e suburbanizada, num contexto informal e pouco estruturado ao mesmo tempo que atraía a atenção da elite Moçambicana da época, em eventos sociais, banquetes, etc., para que era conveniente e oportunamente, convidada.

Distanciando-se do estilo mais rígido e formal de seus antecessores, Baltazar destacou-se pela presença visível e direta, criando uma aproximação rara para a época. Embora tenha coincidido com momentos de crescimento económico e expectativa política, o impacto estrutural do seu mandato foi limitado.
O que permanece, porém, é a marca do estilo pessoal, a valorização da visibilidade e a construção de uma imagem performativa, elementos que décadas mais tarde se replicariam na postura de seu filho, Marcelo.

Formado em Medicina e especializado em Medicina Tropical e Sanitária, Baltazar iniciou a carreira nos Serviços Médico-Sociais e nas Caixas de Previdência, destacando-se na Mocidade Portuguesa e em cargos nacionais ligados à educação e cultura. Posteriormente, trabalhou como secretário do gabinete do Ministro do Ultramar, Marcelo Caetano, e foi eleito deputado à Assembleia Nacional, recebendo diversas condecorações. Com a chegada de Marcelo Caetano ao poder, Baltazar foi nomeado Governador-Geral de Moçambique, cargo que ocupou até 1970. De regresso a Lisboa, desempenhou funções ministeriais até 1974 e, após a Revolução do 25 de Abril, exilou-se no Brasil, dedicando-se à docência e à participação em associações culturais, sendo distinguido com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

Se a história oficial e as descrições biográficas nos apresentam esta imagem quase imaculada, cabe-nos interrogar o reverso: até que ponto tais representações correspondem à realidade, ou não passam de construções idealizadas? É aqui que se impõe uma leitura mais crítica, capaz de reconhecer contradições, tensões e até fragilidades que a narrativa laudatória tende a silenciar, e é neste contexto que se torna pertinente observar a influência de Baltazar Rebelo de Sousa, pai de Marcelo. Marcelo Rebelo de Sousa nasceu nesse seio do poder, cresceu a conviver com ministros por via das funções políticas do pai, e parece ter ficado preso a uma ideia de pertença a uma elite quase dinástica.

Sob uma perspetiva clínica, a análise de Marcelo revela traços de narcisismo subtil e histrionismo calculado, manifestos na exposição constante e na teatralidade cuidadosamente medida. A idolatria do pai e a necessidade de se afirmar por contraste levam-no a cultivar uma imagem de proximidade e simpatia, enquanto mantém, em segundo plano, uma gestão estratégica do poder. A alternância entre busca de atenção e retraimento revela uma ambivalência afetiva, típica de personalidades que equilibram desejo de aprovação com medo de desgaste ou rejeição.

Quando essa postura se projeta para a sociedade, os efeitos tornam-se coletivos e culturais. A necessidade de visibilidade e aprovação cria expectativas de presença constante, simpatia e empatia performativa. Por um lado, promove sensação de participação; por outro, mascara fragilidades estruturais e decisões complexas, substituindo substância por espetáculo. A política passa a ser, muitas vezes, gestão de perceções e culto da imagem, valorizando gestos simbólicos em detrimento de consistência e profundidade.

Além disso, existem exemplos concretos que confirmam esta interpretação. As iniciativas do Presidente junto das antigas províncias ultramarinas, homenagens, reconhecimentos históricos e participação em eventos, não são apenas diplomáticas, mas refletem uma necessidade de protagonismo simbólico e de inclusão. A presença constante, o gesto calculado e a visibilidade mediática repetem o padrão herdado do pai, transformando história pessoal em ação política e tentativa de  consolidar a imagem de um Presidente próximo, justo e atento.

Em síntese, a análise de Marcelo Rebelo de Sousa, à luz da influência paterna, da psicologia e da dimensão coletiva, sugere que a Presidência, tal como se apresenta ao público, é simultaneamente performance, estratégia e herança familiar. A proximidade e empatia exibidas não anulam a necessidade de visibilidade nem a construção meticulosa da imagem; antes, reforçam-nas.

Esta leitura crítica permite compreender melhor não apenas o homem, mas também a forma como a sociedade se relaciona com figuras de poder que equilibram carisma, afetividade e autoridade simbólica, um equilíbrio delicado entre presença e projeção, entre aparência e substância.

No fundo, a postura de Marcelo Rebelo de Sousa não surge por contraste, mas antes como continuidade de uma tradição herdada. O estilo próximo, de contacto constante com as populações, já se encontrava no percurso de seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, ainda que moldado pelas circunstâncias do ultramar. A diferença é que, no filho, esse traço se radicaliza até ao populismo mediático, comprometendo a sobriedade, a solenidade e o protocolo que o cargo de Presidente da República deveria preservar. Ninguém é Presidente da República; quando muito, está-se Presidente da República. E por isso, o respeito pela instituição não pode ser arrastado pela lama.

Como um grande estadista do século XX afirmou um dia:
“Governar não é agradar, é servir.”

Galeria: Obras de Inês Cannas

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Inês Cannas (Lisboa, 1967) Artista Visual, vive e trabalha em Lisboa. Frequentou o Curso Avançado de Artes Visuais, Ar.Co – Lisboa e a Licenciatura em Design, IADE – Lisboa, as formações de Desenho na Sociedade Nacional de Belas Artes, SNBA – Lisboa e de Fotografia – IADE, Lisboa, além de Formação Continua Gravura – Atelier Contra Prova, Lisboa 2018, Atelier de Gravura – Ar.Co, Almada, e Escultura Workshop com Israel Kislansky, Cascais.

Escultura em Argila, várias séries

Série Landscape, sem título

Série: óleo sobre mdf

Dois avulsos

RELICARIOS NATURAIS
SERIE HABITAT COMPARTILHADO CACADOR DE SOMBRAS 2025 (30X50X17)
SERIE PAISAGENS S NOME – SEM TITULO #6 2015 CARVÃO SOBRE FABRIANO 100 x 70

Série “Bruma Seca”

Uma Narrativa dos assuntos de Portugal após 1383

Uma das Narrativas Desconhecidas, num pergaminho alternativo das Crónicas de Jean Froissart, pelo cavaleiro João Fernandes Pacheco, dos assuntos de Portugal após 1383 [um excerto em muitos]

“[O Cronista narra nas suas palavras] Depois que o Rei D. João de Portugal derrotou o Rei D. João de Castela na Batalha do Campo de Aljubarrota, perto da Abadia que se diz no país de Alcobaça, onde tantos Nobres, Cavaleiros e Escudeiros do Reino da França e da Gasconha e do Reino de Castela foram mortos, e que o Rei D. João de Portugal por este belo e vitorioso feito foi levantado, temido e honrado pelos Portugueses, foi recebido na cidade de Lisboa no seu retorno da Batalha com grande glória de todo o Povo e grande triunfo, a Coroa de louros na sua cabeça, como antigamente os Reis costumavam fazer, quando triunfavam e derrotavam um Rei em Batalha; e a cidade de Lisboa encheu-se de alegria e loucura; e realizou-se uma grande festa perante os Nobres e Cavaleiros que ali estavam, e os Concelhos das boas vilas e Cidades do Reino: um Parlamento foi criado e encerrado para consultar e aconselhar acerca das tarefas do Reino e como, para sua honra, poderiam manter e perseverar, segundo opinião firme, estável e honrada. Pois, como disseram alguns sábios do País, era cedo para se consultarem e aconselharem sobre como poderiam fortalecer-se contra o Rei de Castela e seu poder, de modo a que permanecessem honradamente em sua vitória e pudessem-na multiplicar e ampliar. Neste Parlamento, que estava na Catedral que se diz de S. Domingos, em Lisboa, houve várias palavras recitadas e ditas e apresentadas, muitas delas não tão dignas de nota: não obstante, a decisão do Parlamento foi tal que enviaram mensagem para a Inglaterra, ao Duque de Lencastre, que se dizia herdeiro do Reino de Castela por meio de D. Constança sua mulher, que era a filha mais velha do Rei D. Pedro de Castela; e escreveram-lhe assim: que se alguma vez quisesse reivindicar o direito ao Reino de Castela e adiar este perigo que em suspenso estava, poderia vir a Portugal carregado de homens de armas e arqueiros, porque era chegada a hora. Então, foi lá ouvido e falou de belas palavras o Conde de Arraiolos, Condestável de Portugal [Nuno Álvares Pereira]: “pois que nós somos de acordo de enviar a Inglaterra, ao Duque de Lencastre, de quem contamos de ser auxiliados, e que esta é a maneira mais proveitosa de nos dar paz, e dar guerra aos nossos inimigos; guiemos e aconselhemos homens sábios e notáveis no nosso Reino que darão esta mensagem e assim informarão o Duque de Lencastre e o avisarão que ele venha a este País de grande riqueza e resista aos nossos inimigos, com a ajuda que de nós terá; pois acreditamos que o Rei de Castela fortalecer-se-á grandiosamente com o Rei da França e os Franceses, pois eles não sabem para que lado se virar. Eles houveram tréguas com os Ingleses no dia de S. João Baptista e os Ingleses com eles, e os Franceses têm também uma boa e firme paz com os Flamengos, que ocuparam por vários anos”. O discurso do Conde de Arraiolos foi aceite e bem dito, diz-se que falara mui bem e mui certamente. Então, foi nomeado por discussão que o Grão-Mestre de Santiago do Reino de Portugal e Lourenço [Eanes] Fogaça, um escudeiro muito sábio e discreto que conhecia e falava bem o Francês, iriam com a dita mensagem à Inglaterra, pois o conselho do Rei de Portugal admitiu que não era possível enviar lá, naquele momento, pessoas mais aptas que aquelas para fazer o trabalho em questão. Eram cartas mui bem escritas, ditadas bem e discretamente em bom Francês e em Latim, que seriam endereçadas ao Rei de Inglaterra, ao Duque de Lencastre e a seus irmãos, os Condes de Cambridge e de Buckingham; e essas cartas em Francês e Latim foram lidas perante o conselho, sendo muito apreciadas e depois seladas e entregues aos susoditos Mestre de Santiago e Lourenço Eanes Fogaça, que se encarregaram de levá-las para Inglaterra à vontade de Deus, desde que pudessem passar os perigos do mar, os infortúnios com ladrões e inimigos, que abundavam no mar mais do que em terra. Eles tinham um navio chamado Lin, que navega todos os ventos com mais segurança do que qualquer outro. No dia, despediram-se do Rei e do Arcebispo de Braga e do Bispo de Coimbra, o grande conselheiro de Portugal, e então chegaram ao Porto, entraram no navio, equiparam-se e navegaram para poderem chegar ao Reino de Inglaterra, ficando três dias no mar, ausentes de qualquer terra, vendo apenas céu e água, até ao quarto dia, quando avistaram a Cornualha. Tanto exploraram a dita costa pela façanha de Deus e pelo bom vento e pelas marés que os seus marinheiros sabiam aproveitar na hora certa, tanto costearam a Cornualha e as costas da Inglaterra, que chegaram sãos e salvos ao Porto de Southampton, e ali ancoraram. Desembaracaram do seu navio e foram refrescar-se na cidade. Ali foram bem inquiridos e interrogados pelo intendente de Southampton e pelos guardas do mar e do porto, de que País eram, de quem vinham, de que parte iam. Responderam a todas estas perguntas e disseram que eram do Reino de Portugal e que para lá tinham sido enviados pelo dito Rei e conselho. A estas palavras foram bem-vindos. Certo dia, quando os ditos mensageiros descansavam e refrescavam-se em Southampton, e providenciaram cavalos para si, para seus homens e também para os almocreves que os levariam a Londres, como não conheciam a região nem as estradas, partiram de lá e exploraram a região até chegarem a Londres. Desceram em Grace-church, na Casa Falcão, perto de Winchester, e foram enviados de volta pelos guardas, que lhes trouxeram os cavalos de antemão. Tanto que o Xerife chegou, sabendo-se que o Rei de Inglaterra e todos os seus estavam em Londres ou em Westminster, ficaram maravilhados e vieram para Londres na hora do almoço. Jantaram lá outrossim; e depois do jantar, ordenaram as cartas endereçadas ao Duque de Lencastre e à Duquesa e foram até eles. Quando o Duque e a Duquesa souberam quem eles eram, ficaram muito felizes, pois estavam ansiosos por ouvir notícias de Portugal: de facto, algumas foram contadas, mas eles não acreditaram em algumas, pois nem o Rei nem ninguém havia enviado nada por carta. Assim, o Grão-Mestre e Fogaça entraram no quarto do Duque de Lencastre, onde se encontrava a Duquesa; e, como Lourenço falava bem francês, foi o primeiro a falar. E, depois de fazer uma reverência ao Duque e à Duquesa, entregou ao Duque as cartas que vinham de Portugal. O Duque pegou-as e entregou à Duquesa as que lhe pertenciam: cada um as leu e depois as fechou (…)”.

 – Jean Froissart, apêndice do livro XIII das suas Crónicas.

Há mouros na costa!

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Elizabeth Marsh, nascida em 1735 em Portsmouth, era filha de um carpinteiro da Marinha Real. Em 1756, quando regressava sozinha de Gibraltar a Inglaterra para reencontrar o noivo, o navio em que seguia foi atacado por corsários marroquinos. Capturada e levada para Salé, enfrentou quatro meses de cativeiro sob a ameaça constante de ser integrada no harém do sultão Sidi Muhammad. Para se proteger, fingiu ser casada com um comerciante inglês, James Crisp, e resistiu tenazmente às investidas sexuais do seu dono, declarando preferir a fome ou a morte à submissão.

A sua posição era ambígua: ao contrário dos homens, que sofriam trabalhos forçados brutais, Elizabeth foi poupada a essas tarefas, mas viveu sob o peso da violência sexual iminente. Libertada graças a negociações entre Marrocos e a Grã-Bretanha, casou-se depois com Crisp, com quem teve dois filhos, embora o casamento fosse marcado por dificuldades financeiras e pela falência do marido.

Seguiu-o para a Índia, deixando os filhos alternadamente aos cuidados de familiares. A sua vida foi marcada por afastamentos familiares, solidão e sintomas que hoje se poderiam identificar como trauma psicológico. O seu livro, onde descreve o seu cativeiro, “The female captive: a narrative of facts, which happened in Barbary, in the year 1756, written by herself”, publicado anonimamente em 1769, deu-lhe algum rendimento e notoriedade. Foi também uma obra pioneira, oferecendo uma perspectiva feminina sobre a escravidão e as ameaças sexuais sofridas por mulheres europeias cativas no Norte de África.

Depois da morte de Crisp, Elizabeth continuou a viajar, inclusive pelo interior da Índia, acompanhada por George Smith, um seu parente e oficial britânico. Morreu em Calcutá em 1785.

Há mouros na costa!

A captura e a escravidão de europeus cristãos no Norte de África, sobretudo entre os séculos XVI e XIX, constitui um fenómeno que marcou tão profundamente comunidades inteiras do espaço mediterrânico e atlântico que a maior parte das vilas fundadas naqueles tempos se situam longe da costa.

Portugal, pela sua localização geográfica e pela sua intensa actividade marítima, esteve entre os reinos mais atingidos por esta realidade.

As cidades de Salé, em Marrocos, e Argel constituíram os principais centros corsários dos séculos XVII e XVIII, constituindo os cativos cristãos e os europeus renegados islamizados uma parte considerável da sua população e o corso o seu principal meio de subsistência.

As cidades de Salé, em Marrocos, e Argel constituíram os principais centros corsários dos séculos XVII e XVIII, constituindo os cativos cristãos e os europeus renegados islamizados uma parte considerável da sua população e o corso o seu principal meio de subsistência.

As maiores zonas de concentração de cativos portugueses foram Fez, Salé, Tetuão, Marrakech, Larache, Alquácer-Quibir, Argel, Tunis e Constantinopla. De todos estes lugares parece que o pior era o da cidade tunisina, daí o lema antes no inferno que em Tunes.

A existência de cativos significava reais possibilidades de incrementar a agricultura e as grandes construções públicas. Numa primeira fase, os cativos eram propriedade pessoal dos seus donos. Com Mulay Ismail, todos os escravos passaram a ser propriedade do sultão que, por direito, ou os comprava a 250 libras cada ou simplesmente procedia ao seu confisco. Com eles conseguia-se mão de obra em quantidade e a baixos custos, sendo apenas necessário dar-lhes um módico de roupa e de comida. 

Para resolver o problema da libertação dos cativos cristãos, desde cedo são constituídas ordens religiosas para este fim. A Ordem da Santíssima Trindade e a Ordem de Nossa Senhora das Mercês são duas que, nos estados ibéricos, desde o século XIII, se vão dedicar a esta obra de assistência. As preocupações eram dobradas com o resgate de mulheres – que, concebendo, contribuíam para o aumento do número de infiéis – e com as crianças – que corriam o perigo de perder a fé e de converter-se ao islamismo.

As maiores zonas de concentração de cativos portugueses foram Fez, Salé, Tetuão, Marrakech, Larache, Alquácer-Quibir, Argel, Tunis e Constantinopla. De todos estes lugares parece que o pior era o da cidade tunisina, daí o lema antes no inferno que em Tunes.

A existência de cativos significava reais possibilidades de incrementar a agricultura e as grandes construções públicas. Numa primeira fase, os cativos eram propriedade pessoal dos seus donos. Com Mulay Ismail, todos os escravos passaram a ser propriedade do sultão que, por direito, ou os comprava a 250 libras cada ou simplesmente procedia ao seu confisco. Com eles conseguia-se mão de obra em quantidade e a baixos custos, sendo apenas necessário dar-lhes um módico de roupa e de comida. 

Para resolver o problema da libertação dos cativos cristãos, desde cedo são constituídas ordens religiosas para este fim. A Ordem da Santíssima Trindade e a Ordem de Nossa Senhora das Mercês são duas que, nos estados ibéricos, desde o século XIII, se vão dedicar a esta obra de assistência. As preocupações eram dobradas com o resgate de mulheres – que, concebendo, contribuíam para o aumento do número de infiéis – e com as crianças – que corriam o perigo de perder a fé e de converter-se ao islamismo.

O caso da fragata portuguesa “Cisne”, capturada em 1802 por corsários argelinos, com a consequente morte de dezenas de marinheiros e a escravização de mais de trezentos homens e 36 rapazes, estes todos sodomizados, não foi um episódio isolado: antes, inscreve-se numa longa tradição de violência corsária, de humilhação nacional e de perdas humanas devastadoras.

Em 1802, um navio de guerra Marinha Real Portuguesa, de 44 canhões, foi capturado por uma fragata de corsário argelinos.

Durante a abordagem, os Portugueses tiveram mais de 50 mortos. Os 350 sobreviventes, 52 deles feridos, foram aprisionados e reduzidos à condição de escravos.

O desastre da “Cisne”, considerado pelo Príncipe Regente D. João como uma “desastrosa e incompreensível perda”, não era inédito. Três anos antes, o bergantim de guerra “Lebre” sofrera o mesmo destino. Portugal não conhecia uma humilhação tão grande às mãos dos magrebinos desde 1621, ano da rendição da nau da Índia “Conceição”. 

Agora, no início do século XIX – tal como em 1621, ou em 1578, com Alcácer Quibir – o país era obrigado a lidar com duas cruas realidades: a imediata perda de súbditos altamente qualificados para um inimigo de religião diferente e a perspectiva de, a médio e a longo prazo, ter que abrir os cordões à bolsa para os reaver. 

Havia também uma outra realidade da qual pouco se queria falar: a de se perderem definitivamente as pessoas para o Islão. De facto, das 36 crianças que seguiam a bordo da “Cisne” – todas violadas pelos seus amos – vinte renegariam a fé cristã, permanecendo na Argélia como islamizados.

Desde a consolidação da presença otomana em Argel, no início do século XVI, o corso berberisco transformou-se numa atividade estruturante da economia política do Magrebe.

A pirataria, que existia no Mediterrâneo desde sempre, transformou-se em actividade corsária e ganhou então novo ímpeto, agora apoiada numa rede institucionalizada que incluía portos fortificados, mercados de escravos e sistemas de resgate.

Para os reinos cristãos da Península Ibérica, isto significava viver sob a permanente ameaça de razias costeiras e ataques no mar.

As diversas carreiras intercontinentais levavam ao transporte marítimo de mercadorias altamente cobiçadas por aqueles que se achavam fora de as alcançar: ouro, prata, especiarias, têxteis asiáticos, açúcar, porcelanas, pérolas, pedras preciosas, mas também mercadorias menos nobres e mais comuns, como o sal, o azeite, o bacalhau, o trigo, e cavalos. 

Aos perigos do mar, havia que acrescentar a pirataria berberesca como risco acrescido a todos aqueles que pescavam ou viajavam pelo mar. As viagens marítimas e a pesca eram responsáveis por mais de metade das cativações, com as Berlengas e o cabo São Vicente a serem as zonas preferidas de emboscada pelos navios magrebinos.

Se os navios e as cargas eram imediatamente vendidos, os cristãos cativados no mar eram transportados para o Magrebe, onde aguardavam a venda ou troca por outros prisioneiros.

Domingos, natural de Estombar, contou à Inquisição, em 1558, que fora cativado quando andava num bergantim ao largo de de Faro, que fora levado para Larache e depois Tetuão, tendo sido resgatado dois anos depois. Liberto, voltara a pescar no Algarve, fora novamente cativado, sendo vendido ao mesmo dono que tivera aquando do primeiro cativeiro.

João da Costa, de Angra, foi cativado por franceses, quando se dirigia para o Brasil, sendo levado para La Rochelle e posteriormente abandonado na Biscaia. Perseverante, apanhou boleia num navio até ao Porto, de onde embarcou novamente para o Brasil. Voltou a não concluir viagem porque foi de novo cativado, desta vez por magrebinos.

Pescadores, comerciantes, soldados ou simples viajantes podiam, de um momento para o outro, ver-se reduzidos à condição de cativos. Houve quem saísse de Sines numa segunda-feira para ir pescar a poucas centenas de metros da costa e acordasse na sexta-feira com grilhetas nos pés em Argel.

A vulnerabilidade era particularmente notória em regiões como o Algarve ou os arquipélagos atlânticos, onde aldeias inteiras, como nas ilhas do Porto Santo, Santa Maria ou Canárias – chegaram a ser despovoadas após incursões magrebinas que levaram escravizados todos os seus habitantes.

Em 1616, os argelinos desembarcaram no Porto Santo, fazendo mais de 900 cativos, praticamente toda a população da ilha. Entre eles contava-se Luís, um menino de seis anos. Levado com os pais e vizinhos para Argel, resistiu sempre em renegar a fé católica (ou pelo menos foi o que confessou aos confissores da Inquisição).

Aos 13 anos, quando era aprendiz de alfaiate, fugiu aos espancamentos do dono e entrou clandestino numa embarcação corsária que acabou por ser tomada por cristãos franceses, junto a Marselha. 

Estes, tomando-o por mouro, fizeram dele cativo das galés, andando forçado ao remo pelo Mediterrâneo fora. 

Um ano depois da sua cativação, a galé em que servia aportou a Lisboa, sendo aí vendido a um taberneiro por 20 mil reais – o que testemunha o fenómeno inverso: a venda de muçulmanos cativos a cristãos.

Aconteceu então ser reconhecido pelo religioso, que o baptizara, podendo então regressar ao Porto Santo. 

Aqui vemos a primeira página do seu processo na Inquisição e que começa: “Luís, que esteve cativo (…)”

O estatuto do cativo cristão em Argel, Tetuão, Salé ou Tunes variava segundo a sua origem, profissão e possibilidade de resgate. Nobres e oficiais eram, por regra, alvo de melhores condições, pois esperava-se deles um resgate vultoso.

Mas para a esmagadora maioria, o destino eram os “banhos” – masmorras sobrepovoadas, escuras, onde se sobrevivia manietado em ferros e em condições degradantes. O seu quotidiano escravo incluía trabalhos forçados em obras públicas, minas, galés ou campos agrícolas, numa clara lógica de exploração económica.

O cativo tornava-se, assim, recurso produtivo, mercadoria transacionável e, simultaneamente, moeda de troca nas relações diplomáticas entre poderes cristãos e muçulmanos.

A violência física e psicológica era omnipresente. Espancamentos, castigos corporais, humilhações, privações alimentares e até mutilações como o arranque de barbas ou o talhamento de membros faziam parte do processo de dominação. O omnipresente abuso sexual de mulheres e rapazes – prática frequentemente silenciada nas fontes – acrescentava outra camada de brutalidade.

E havia ainda o espectro da conversão: para muitos, renegar a fé e abraçar o Islão surgia como a única forma de escapar aos tormentos. A adoção de nomes muçulmanos, a circuncisão e a mudança de trajes marcavam simbolicamente esta passagem. Contudo, a conversão não era apenas um acto individual de sobrevivência: tinha consequências para as comunidades de origem, que viam filhos, irmãos ou esposas “perdidos para sempre”, quer pela assimilação cultural, quer pela impossibilidade de retorno.

Para além da dor e da muito real possibilidade de infecção que tal acarretava, a circuncisão era uma amputação definitiva que para sempre haveria de marcar a pessoa como islamizada, caso voltasse ao seio da Cristandade. Era, por isso, quase sempre um acto imposto.

Manuel de Buarcos contou como o barbeiro como uma navalha o circuncidou “cortando-lhe a pele do prepúcio toda ao redor”. João foi ainda mais preciso, dizendo que “a cortadura se faz na pele do membro genital que cobre a cabeça do mesmo e à dita pele se corta uma porção com que depois a dita cabeça se não pode bem cobrir”.

António de Montemor conta que o tomaram dois homens e o ataram de mãos e pés, lhe taparam a boca com um pano e o cortaram. A outro António, para evitar sofrer, o embebedaram e lhe deram ópio mas que mesmo assim “chorou por seu pai e mãe”. 

A Domingos, de Estômbar, infectou a ferida ficando numa cama quinze dias até se curar.

O caso de Alcácer Quibir, em 1578, ilustra a escala colossal desta realidade. A derrota portuguesa levou à escravização de milhares de combatentes, e de milhares de mulheres e crianças que seguiam o exército, provocando uma desvalorização tão abrupta do trabalho escravo que a posse de cativos cristãos se tornou quase banal no Magrebe. O impacto foi tal que marcou durante décadas a memória coletiva portuguesa, não apenas pela tragédia militar, mas pelo drama humano que se seguiu.

A maior cativação de cristãos ocorrida num só momento deu-se com o desastre de Alcácer Quibir. 

Foram tantos os escravos e tão forte a desvalorização do trabalho braçal que um médico judeu escreveu que, depois da batalha “os trabalhadores mouros não têm como ganhar dinheiro porque Fez Velha está tão cheia de que não há pessoa que não tenha 2 ou 3 cristãos cativos”.

Dos despojos da batalha, os magrebinos trocaram por resgate não só pessoas, mas também os mais variados e ricos objectos de culto levados para Marrocos. As armas dos vencidos, incluindo as de D. Sebastião, foram vendidas a peso, a ferreiros. Muitas das mais finas lâminas de Toledo acabaram assim, derretidas em ferros para cativos.

O rol dos cativos em Alcácer Quibir dá-nos informações surpreendentes. Uma delas é a presença de mulheres e crianças na hoste cristã. Por exemplo, foram cativos André Borralho, um mulato de Moura, e Leão Camelo, da Horta, ambos de 13 anos; Manuel Raimundo de São Mamede e Gaspar Fernandes, de Óbidos, com 15; António da Fonseca, de Oleiros, Manuel Vaz, de Arcos de Valdevez, de 16 anos.

Sebastião de Pais – que tinha 9 anos quando se deslocou a Madrid a residir na casa de D. Cristóvão de Moura, integrando uma hoste que embarcou do Porto de Santa Maria para Tânger e dali para a batalha – foi cativado com 11 anos. Renegou e desempenhou importantes funções em Marrocos, regressando a Portugal apenas com 46 anos de idade, capturado e presente à Inquisição.

As ordens religiosas redentoras, como a da Santíssima Trindade e a de Nossa Senhora das Mercês, surgiram precisamente para lidar com este problema, angariando fundos e negociando resgates. Mas os custos eram elevados e, muitas vezes, selectivos: privilegiava-se a libertação de clérigos, nobres, crianças e jovens, deixando homens e mulheres comuns ao abandono. A Coroa, por seu lado, enfrentava o dilema entre pagar vultuosas quantias a “infiéis” ou perder definitivamente súbditos e recursos humanos qualificados.

O fenómeno da escravatura de brancos e católicos no Norte de África desmente a ideia, demasiado simplificada, de que a escravidão moderna foi apenas um fluxo unilateral de africanos para as Américas. A realidade era bem mais complexa e interligada: enquanto Portugal e Espanha participavam activamente no tráfico negreiro atlântico, comunidades inteiras nas suas próprias costas eram vítimas de uma escravização exercida a partir do Magrebe. Era um jogo de espelhos cruel, onde cristãos e muçulmanos, mediterrânicos e atlânticos, participavam de uma mesma lógica de captura, exploração e resgate. Compreender este fenómeno é essencial não só para reconstituir a dureza da experiência marítima e fronteiriça portuguesa, como também para inscrever Portugal num sistema mais vasto, onde o corso, a escravatura e a negociação de resgates moldaram identidades, economias e culturas de ambos os lados do Mediterrâneo.

A história destes cativos – marinheiros e pescadores arrancados ao convés, crianças levadas pela mão até perderem a língua da infância, mulheres reduzidas a concubinas – não pode ser vista apenas como nota de rodapé da grande História.

É uma ferida aberta que nos lembra que a escravatura não teve cor única nem direção única. Nos subterrâneos de Argel, nas galés de Tunis ou nos pátios de Marraquexe, milhares de portugueses viveram o drama de ver a liberdade transformada em mercadoria, o corpo em instrumento de trabalho ou de prazer alheio, e a fé em moeda de troca para a sobrevivência.

Estima-se que, entre os séculos XVI e XIX, um milhão de vidas europeias e norte-americanas foram escravizadas, lágrimas silenciosas no vasto oceano da Idade Moderna. Eram homens e mulheres comuns, que dormiam em Lagos ou em Aljezur e que acordaram com um pontapé numa porta; ou que partiram para pescar, comerciar ou guerrear, e que acabaram prisioneiros de um destino mais vasto do que eles próprios.

Ao recordarmos os que, como os tripulantes da “Cisne” ou os vencidos de Alcácer Quibir, conheceram o peso das correntes e a violência sexual, psicológica e física, devolvemos-lhes a voz que lhes foi arrancada.

A sua memória recorda-nos que a escravidão – em qualquer lugar e sob qualquer forma – é uma das mais fundas traições à dignidade humana.

Galeria: Inéditas armas de Portugal nos Armoriais Medievais estrangeiros

Inéditas armas de Portugal nos Armoriais Medievais estrangeiros:

c. 1380 – Armorial de Jean V de Bueil.

c. 1470 – Nova iluminura do mesmo manuscrito.

c. 1450 – Duas últimas do Armorial Berghammer.

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c. 1480 – Armorial de Coislin-Séguier (o terceiro da segunda coluna – não me perguntem o que raios isto é).

c. 1473 – Mesma coisa no Armorial de André de Rineck.

c. 1384 e póstuma, c. 1430 – Libro del conocimiento de todos los Rregnos et terras e señorios que son por el mundo.

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c. 1450/1460 – Armorial bósnio, não consegui identificar.

c. 1420 – Armorial de Charolois [está praticamente inacabado em todos os Reinos, Portugal não é exceção].

c. 1460 – Donaueschinger Wappenbuch [um dos mais belos]

c. 1483 – Armorial alemão Grünenberg-Wappenbuch.

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c. 1486 – Wernigeroder Wappenbuch.

Finais do séc. XIV – Armorial Le Breton

c. idem – Armorial Gelre.

meados do séc. XV – Chronicle Of The Council Of Constance, de Ulrich Riechental.

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Edição: Junho 2025

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Com toda a confiança: Fluxus, enfermeiras paraquedistas, estátuas de Lenine na Transnístria, slavery as a stepping stone, obras de Ana Vidigal, lidando com a Lídia, em louvor dos calvos, democracia e redes sociais, o lado errrado da história, mudança da hora, Manifestus Probatum, os besteiros do reino, uma vila medieval portuguesa, uma cantiga de escárnio, a direita radical e o ciborgue de Donna Haraway.

ENSAIO

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Fluxus: Uma Antítese

Sobre um movimento tão dispersivo quanto idiossincrático, o Fluxus, um dos mais complexos fenómenos artísticos surgidos na década de sessenta do século passado, que apresenta-se-nos hoje capaz ainda de resistir às mais (e menos) exigentes tentativas de interpretação e categorização.

Image 3Albatrozes — As Enfermeiras Pára-Quedistas na Guerra Colonial

Breve descrição com alguns depoimentos da vida e acções das enfermeiras pára-quedistas na guerra colonial portuguesa.

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Transnístria: um Lenine, um edifício e coisas de um estado de faz-de-conta

Sobre a estatuária de Lenine na região da Transnístria, com referências a processos simbólicos geopolíticos numa leitura comparativa com outros fenómenos semelhantes.

Image 5From Aristotle to Fitzhugh: Slavery as a Step Between Savagery and Civilization

Historical thinkers like Aristotle, Ibn Khaldun, Sepúlveda, Montesquieu, Locke, Hegel, Kant, Mill, Carlyle, Fitzhugh, and Rousseau viewed slavery as a tool to civilize savage peoples. Through enforced labor, cultural mimicry, and imposed order, they believed it transformed chaotic societies into disciplined, productive ones, integrating them into higher systems of faith, reason, and industry.

Europa e Ásia.

CRÓNICA

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Lidando com a Lídia

Alguns comentários sobre um discurso muito parcial e pouco unificador nas celebrações do dia de Portugal de 10 de junho de 2025 pela escritora Lidia Jorge.

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Em Louvor dos Calvos ou uma proposta de aproximação De Laude Calvorum de Hucbaldo ao Português

A História jamais se repete, embora as histórias que a compõe por várias vezes rimem. No século VIII, tal como no corrente, a figura calva foi vítima de variadas chacotas, o que levou o monge Hucbaldo, cuja reputação corria por toda a Europa, a compor um texto aliterativo, em latim, em defesa dos seus calvos congéneres. Aqui, propomos uma tradução em português da nossa autoria.

Image 12Sobre Democracia e Redes Sociais

Sentados na comodidade da democracia burguesa que fingem desprezar, gritam que a ascensão da extrema-direita é culpa do algoritmo. Esquecem-se, como sempre, que a história não começou em 2024, nem em 1974, e muito menos com a primeira selfie dos políticos.

Image 13A Falácia de “O Lado Errado da História“

Uma breve crónica sobre o uso suspeito, discutível, e muitas vezes absolutamente erróneo da expressão “o lado errado da história”, que pressupõe várias falácias.


Nas humanidades.

ARTES VISUAIS

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Obras de Ana Vidigal

Trabalhos da artista Ana Vidigal: técnica mistas sobre tela e papel, instalações site specific e colagens sobre cortiça.

Umas coisas são mais simples que outras.

RUBRICA

Sobre o ciclo anual de atividades rurais e comunitárias em uma vila medieval portuguesa

Excerto de José Mattoso sobre o ciclo anual de atividades rurais e comunitárias em uma vila medieval portuguesa, alinhado ao calendário litúrgico e às estações, com tarefas como matança de porcos, troca de ofícios, reparos no castelo, celebrações e gestão de recursos agrícolas e judiciais.

Sobre como a Bula Manifestis Probatum não criou Reino algum, porque ele já existia

Na primeira História de Portugal conhecida, de Fernando Oliveira (séc. XVI), encontramos um ensaio muito interessante sobre a Bula Manifestis Probatum, que procura demonstrar o facto da Bula não criar Reino algum, porque ele já existia.

Uma Cantiga de Escárnio a um Nobre de Guimarães e à sua família, no tempo de D. Afonso III

Uma Cantiga de Escárnio a um Nobre de Guimarães [D. Rui Gomes de Briteiros] e à sua família, no tempo de D. Afonso III, por estes não armarem bem os seus homens para a Guerra (para o Português corrente).

A milícia dos Besteiros do Reino, a história dos mesmos

Excerto de A Arte da Guerra em Portugal, de Miguel Gomes Martins, sobre a história da milícia dos besteiros do reino de Portugal.


Em mês de gay pride, duas estatísticas: a orientação política dos governos que descriminalizaram a homossexualidade; e estatísticas sobre casamentos combinados por todo o mundo.

Image 33A História e o Funcionamento Técnico das Horas Temporais

Vivemos num mundo onde o tempo é uniformemente medido, com cada hora a representar o mesmo intervalo. Nem sempre foi assim: Durante um período significativo da história, o tempo era ajustado às variações naturais do dia e da noite. Este sistema das horas temporais dividia o dia em 12 partes de luz e 12 partes de escuridão, cuja duração variava ao longo do ano, refletindo o ciclo das estações e respeitando os ritmos da natureza.

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Em pré-campanha presidencial, num clima de insatisfação com os candidatos, a Revista Minerva Universitária lança um nome para candidatura. Como Trump, é um empresário que se aproveitou da lei e ligações ao poder, gozou na cara de políticos e hoje está proscrito pelo sistema: Joe Berardo!

CRÍTICA

Image 37Crítica: Os perigos da direita radical: Bolsonaro, Ventura e não só!, de Carlos Martins

Publicado em 2023 pelas Edições Saída de Emergência, a obra de Carlos Martins propõe uma análise comparada da direita radical no período pós‑2ª Guerra Mundial. Destinado sobretudo a um público geral, mas com implicações relevantes para o debate académico, o livro apresenta os fundamentos históricos e ideológicos das correntes da direita radical.

Image 38Crítica: O ciborgue de Donna Haraway e a Poesia

Como a figura do ciborgue de Donna Haraway, em O Manifesto Ciborgue (1985), tem paralelos com certas ideias de teoria literária acerca de poemas.

Os funnnies deste mês, com gravidade.

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Fotografia de Lucrécia Bórgia (1480–1519), filha do Papa Alexandre VI. Foi uma figura destacada do Renascimento, reconhecida pela sua influência política e mecenato cultural. Enquanto Duquesa de Ferrara, após o casamento com Afonso I d’Este, transformou a sua corte num centro vibrante de arte e humanismo. Lucrécia apoiou artistas como Ticiano e promoveu poetas e eruditos, como Pietro Bembo, incentivando a criação de obras que enriqueceram o Renascimento. A sua corte tornou-se um ponto de encontro para intelectuais e artistas, evidenciando o seu papel como uma mecenas sofisticada numa era dominada por homens.

Madina do Boé…«Aqui Não Havia Messes»

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De simbologia é feito o lugar do Boé. A simbologia da casualidade ou da profecia alega ter sido aqui o início e o epílogo da guerra colonial da Guiné! Foi no chão do Boé que ocorreu uma das primeiras emboscadas que marcaram o início da luta de libertação do PAIGC e, será também neste chão, que o partido de Amílcar Cabral irá proclamar a independência do país, a 24 de Setembro de 1973, embora Portugal só a venha a reconhecer em Setembro de 1974.

O aquartelamento de Madina do Boé, a pouco mais de trinta quilómetros da fronteira da Guiné Conacri, fora ali instalado no final de 1967. Consideravelmente afastado das unidades mais próximas, este despovoado vivia na mais desagasalhada e inquietante das solidões e isolamento durante todo o ano, acentuado na época das chuvas. Para se sobreviver neste lugar era necessário «um apoio de retaguarda considerável que garantisse o mínimo de condições, só conseguido graças aos aviadores da força aérea portuguesa» que, regularmente, trazíam os mantimentos e o correio. Muitas vezes os aviões eram atacados nas aproximações ao aquartelamento, ou durante os descarregamentos, mas voaram sempre, sem nunca desistir, através dos céus cuja cor azul-furtivo emoldurava as suas asas de penas metálicas.

À boca de cena estava uma grande placa feita de rombas tábuas, onde letras pintadas a tinta branca, anunciavam: «Madina do Boé, o Algarve da Guiné», logo depois, uma pequena banca com a legenda ao alto: «Entre, temos alaúdes de primeira.» Sobre a banca, imensos brindes de oferta aos visitantes, arrumadinhos a preceito – restos de estilhaços de morteiro ou de canhão. Adereços apropriados. Adereços inapropriados. Alaúdes querendo despertar a aurora com os seus braços de meia-pera abertos para o sol do nascimento, ou da morte.

No palco de Madina, a mise-en-scène do nascimento, ou da morte, não tinha intervalos, estendia-se através dos longos meses capitulantes. Os militares portugueses combatiam dolorosamente os guerrilheiros do PAIGC. As unidades de infantaria

«garantiam a sua sobrevivência à custa dos seus mortos em emboscadas, flagelações e rebentamento de minas», além de servirem de paredão ao avanço da acção da guerrilha aos centros urbanos. Um paredão humano, feito de troncos e pernas, crânios e dedos.

Por esta altura, o cenário na Guiné era o seguinte: o exército português dominava as vilas e as cidades, enquanto que o PAIGC, os grandes espaços, como o de Boé, entre a fronteira da Guiné Conacri e a margem sul do rio Corubal.

No palco de alguém que é ninguém, as tropas do posto de Beli e do aquartelamento de Madina, representavam as poucas unidades que corriam o risco efectivo de um dia cederem a um ataque concertado dos guerrilheiros de Amílcar Cabral. Era como se estivessem sempre a ensaiar o último acto, segurando uma corda de grifos atada à volta da cintura.

O cenário: colinas e montes, onde se colocavam os vigilantes guerrilheiros e o aquartelamento isolado. Luz forte diurnal e penumbra sobre as tatuagens.

A acção: «ataques mais do que uma vez por dia, em regra e, algumas vezes, durante muitas horas.».

O lado de cá do incessante.

O lado de lá do reduzido sossego.

Corrupios. Rastejamentos. Quedas a meio de corridas para os abrigos ainda com restos de rancho nos cantos da boca. Palavrões. Rajadas. Mais os sons do carregamento das armas e dos risos aparvalhados. A alucinação a espraiar-se sobre a pele dos corpos, muito devagar. Silêncio sideral nas frinchas dos tiros. Combate.

Dizem que um ataque sofrido na noite de 13 de Março de 1968 fez estes mártires ficarem debaixo de fogo contínuo, durante dez horas consecutivas. Os soldados portugueses acreditavam que o número treze actuava em desarmonia com as leis do Universo. Os guerrilheiros consideravam-se Ulisses escapando à boca do Ciclope. Mais tarde soube-se ter sido este ataque comandado por Nino Vieira. Sendo Nino o encenador, a sua audácia de poderoso e excepcional prócer, achava-se capaz de destronar qualquer concílio de apóstolos, mesmo que, de grés redobrado, fossem feitas as personagens.

 Era do cimo dos montes que o PAIGC atacava, quase sempre com armas pesadas de artilharia e ligeiras de infantaria. Diariamente, havia que sair fora do centro do palco – o embrião do arame farpado, e cobrir todos os cumes dos montes, para recolher material e evitar que, as armas, especialmente os canhões sem recuo, pudessem fazer tiro directo. Os canhões afiguravam-se como armas de enorme poder de precisão, capazes de destruir museus divinos, réplicas de deuses presentes e omnipresentes, furacões e álbuns de recordações.

Todos os dias, uma companhia percorria as colinas, com enormes chagas de queimaduras na boca, sob uma ansiedade constante, perante a eventualidade de um ataque inimigo. Todos os dias, uma companhia percorria as colinas, com pesadelos de noites mal dormidas, pregados nas costas, tessiturando cantilenas militares, no mesmo compasso dos pés que subiam e desciam a acidez da representação.

«Apesar do fogo utilizado pelos guerrilheiros ser de elevada eficácia, raramente as ofensivas causavam vítimas à população militar portuguesa, sobretudo porque o aquartelamento estava protegido à prova desse tipo de armamento e os soldados resguardavam-se em abrigos subterrâneos fortificados.» Isto é, apesar das fogueiras ateadas nos quatro cantos do palco, o equinócio do núcleo nidificado fundia-se no emaranhado das estalactites habilmente colocadas e, como se fosse mármore, fechava- se no côncavo da sobrevivência.

Toda a vida dos soldados se concentrava em redor dos abrigos. «Um pequeno quadrado servia de quarto de dormir durante longos meses, apenas com dois orifícios virados à mata para observação, quando a sentinela não pudesse manter-se no seu lugar de vigilância.» Os dois olhos fatigados das lâminas dos flashes permanentes, aplicavam um esforço maior do que o bolor a fermentar em pasto seco, velando para que nenhum actor entrasse em cena fora de tempo.

Contavam-se vinte ou trinta abrigos em termos de guerra permanente. Em alguns estavam instalados postos de comunicação – os pontos do teatro, ávidos de contracena. Atiravam palavras para longe, para lá do palco, para o outro lado do opúsculo. Palavras difusas, em gritos de archote, por ajuda a Bissalanca, rápida, o quanto antes, que se estava a perder a resistência e a saliva.

«Aqui não havia messes», refere um comandante no desenrolar da memória. Aqui só havia o equilíbrio a exercitar-se sobre caixas de pandora, e também havia muitas nuvens de papiro a perturbar os cérebros delirantes. Beber whiskey com gelo, ao fim da tarde, em cadeira de encosto e pés no espaldar – era uma alucinação – só no começo da ressaca da bruma, a bruma antiga, aquela capaz de cegar quem sonha acordado.

Depois, para quebrar o ritmo já conhecido da actuação, surgiu uma novidade: um mês preenchido com dias ainda mais perturbantes e tensos, que muitos contam ter sido causador de elevado tormento, de enorme nervosismo e inquietação. Colocavam-se «atiradores especiais com armas de mira telescópica junto às árvores, a uma distância de quinhentos metros e faziam disparos, um ou dois disparos por dia, sempre à hora do almoço. Atingiram, algumas vezes, elementos da companhia, embora só uma vez com gravidade, causando grande pressão psicológica. Durante aquele mês, quando se aproximava a hora de almoço, começava a reinar o silêncio, um silêncio quase absoluto» e todos tinham a mesma pergunta dentro do pensamento: «quando é que vem o tiro?» Ou seja, dentro do grande drama, outro drama se encaixava, mais pequenino, mas não menos febril. Mexia com as tripas, com a deglutição e com os tímpanos. Era um drama-língua-no-anzol, de ferroada sinistra.

O aquartelamento tinha o seu perímetro «todo iluminado com postes electrificados, situados junto da terceira fiada de arame farpado, duas fiadas de arame do lado de dentro da iluminação e outra fiada de arame do lado de fora da iluminação.» Pendiam do arame, como pássaros mestres do restolho, garrafas de cerveja vazias, aos pares, de modo a que, perante qualquer toque no arame, tilintassem, e funcionassem como um alerta às sentinelas.

Para quê as garrafas, se havia iluminação? A iluminação «ia abaixo», devido a curto-circuitos provocados pelos ataques ou por cortes de fios, fazendo disparar o gerador e «ficava-se sem energia», daí a importância de «mecanismos suplementares de aviso da intrusão de qualquer inimigo.» Garrafas cantadoras, que o vento quebrou e a chuva esmerilhou. Já só os gargalos e pouco mais, chocalhos a crepitar nos panos de cena, panos de vidro que o arame teceu. Banda-sonora transconsciente feita de vidro a zurzir no metal, trinante, e sem saber de nada.

Agnelo Dantas, combatente do PAIGC, virá a confessar: «o objectivo era tornar a vida daquele aquartelamento impossível, mantendo-o sempre em situação de guerra e, mais cedo ou mais tarde, fazer os militares portugueses abandonarem o local.» Profecias de rasgar ao meio, de tirar as possibilidades, de adivinhar o êxodo aguardado.

Não existia no território, zona estratégica mais importante para o PAIGC do que Madina, não só pela natureza acidentada do terreno que facilitava o treino para a luta de guerrilha, mas porque esta região estava na fronteira com a República da Guiné. Era exactamente através de Conacri que as tropas de Cabral recebiam o apoio externo sem o qual dificilmente poderiam prosseguir a guerra. Havia a intenção do PAIGC libertar esta região para a desbravar e fazer daquele lugar uma base central, construindo um aeroporto onde os aviões pudessem aterrar para deixar materiais e fornecer a guerrilha espalhada pelo território, com o apoio da União Soviética, mesmo até, transferir para ali o seu secretariado. Logo, este era um espaço muito importante do ponto de vista estratégico. A preciosidade de um chão sem ouro nem ópio, chão a reclamar alforria de um estranho acampamento, para servir de ninho a bizarros pássaros de ferro.

Para os altos comandos portugueses, a região pouco interessava pelo facto de ser de difícil acesso e essencialmente por não ter ali populações que justificassem a presença de uma ou mais unidades de infantaria. Segundo a teoria de Spínola, a actuação das tropas devia fazer-se junto das populações. Naquele tipo de guerra, controlar o movimento dos civis e regular a vida nas aldeias tornava-se fundamental e, Madina, não tinha civis nem aldeias. Ali, os nativos eram poucos, não havia estradas, pontes, ou edifícios para proteger. Sob o ponto de vista militar as companhias de Beli e de Madina estavam simplesmente a defender-se a si mesmas.

Face a isto, Hélio Felgas e Spínola conversaram em Bissau. Concluíram ser necessário retirar as companhias ali instaladas. Spínola, depois de ter visitado a região, redigiu uma directiva, reflectindo essa preocupação. A Directiva Número Um de 1968, com a remodelação do dispositivo na região do Boé.

A competir com este inflexível e alucinado palco de guerra, existia a plataforma oposta – um importante centro político militar, onde o PAIGC, com o auxílio de instrutores chineses e o desempenho de guineenses formados na China, armava os seus quadros e preparava os guerrilheiros. Era ali que se encenava a arte da guerrilha. Era ali que se doutrinavam os elementares fundamentos políticos, de maneira a melhor se interiorizarem as razões da luta de libertação. Libertar do jugo, negar a representação do papel escolhido pelos colonos, envergar o traje de pelejadores sem medo, resistindo e avançando, ainda que também caíssem, derrotados, alguns dos seus heróis.

Domingos Ramos, um dos mais destacados comandantes da guerrilha acabou morto em Madina do Boé, a poucas dezenas de metros do arame farpado, que circundava o aquartelamento português, atingido por um estilhaço de granada. Os seus companheiros ergueram-lhe um memorial, no local onde caiu para sempre.

Na outra extremidade do bordão dos sentimentos e, com assombro, sabemos que no cerne do pior dos dramas, laivos de comédia sempre emergem, como narizes de palhaços-operários-do-submundo, no meio de um denso nevoeiro mental. O conforto do convívio e o sentido de humor são armas invisíveis feitas para atacar o medo constante. Se algumas vezes, no meio de um tiroteio sem fim, «com estardalhaço para cá e para lá», houver um corneteiro que suba a um abrigo e se ponha a tocar «Carga»,

 «Avançar» ou «Vitória», em Madina do Boé, isso será apenas um acto do Apocalipse descritivo dos anjos com trombetas. «O quinto anjo tocou a sua trombeta, e viu uma estrela que havia caído do céu sobre a terra. À estrela foi dada a chave do poço do Abismo. Quando ela abriu o Abismo, subiu dele fumo como o de uma gigantesca fornalha. O sol e o céu escureceram com o fumo que saía do Abismo.» Mas , assomará de seguida o seu comandante, dissonante, a alertar para o perigo e a ordenar que se recolha no poço do Abismo, designado de abrigo subterrâneo. A realidade, sempre a importunar a fantasia. Que enfastiante!

Madina, lugar perdido no Boé. Ali tinham poisado as forças de quadrícula, muito próximas da famosa fonte da Colina, onde nasciam as escassas águas: o bálsamo no semi-deserto. Os aquartelamentos têm de ser construídos perto das fontes e das borboletas, para que os cantis se refresquem, os rostos empoeirados se desencardam e se possa respirar a pureza do crepúsculo rotativo de Jericó, tão contrastante com o espaço em volta, endurecido.

Em Madina do Boé, não havia messes, não havia tabancas, nem sossego. Não havia nada. Se houvesse, ao menos, tempo, rezar-se-ia o «Pai-nosso», com a entoação de Luís Miguel Cintra:

«Pai-nosso que estás no Nada. Seja o Nada o teu nome. Venha a nós o Nada do teu reino. Seja claro o Nada da tua vontade. Assim na Terra como no Céu. O Nada que nos alimenta nos dá hoje. Perdoa-nos sempre que não formos Nada. Como tentaremos perdoar a cada uma das tuas criaturas. Não nos deixes incorrer em tentação. E livra-nos de não sermos o teu Nada.»

Crítica: Fátima (João Canijo, 2017)

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Recensão originalmente publicada na revista do Programa de Teoria de Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Forma de Vida, em Forma de Vida, # 10, Maio de 2017, pp. 64-66. Está disponível aqui.

O que torna um filme cómico é certas pessoas (o realizador, os actores) fazerem coisas cómicas; e o que torna um filme azul é certas coisas (objectos filmados, a emulsão da película, a iluminação) serem azuis. Um filme religioso não é no entanto o resultado de certas pessoas fazerem coisas religiosas; ou de certos objectos terem a propriedade de ser religiosos. Fátima, de João Canijo, não é, apesar do título, um filme religioso. Um filme que se passe em Fátima não é necessariamente um filme religioso. Posso fazer um filme religioso passado num submarino ou num circo; e posso fazer um filme religioso usando um burro, que ninguém consideraria um objecto religioso.

A maior parte das pessoas, no entanto, concordaria trivialmente que Fátima é um filme sobre religião, ou melhor, um filme em que certas pessoas fazem coisas que pessoas religiosas fazem. Pessoas religiosas fazem coisas como: dizer certas coisas; ir a certos sítios; fazer certos gestos. Qualquer actor aprende a fazer essas coisas numa escola de actores, exactamente como aprende a fazer de dama antiga ou de almirante. Os realizadores dizem aos actores coisas como: «Faz-me uma cara muito religiosa»; ou: «Entra-me nessa igreja». Um filme sobre religião depende por isso essencialmente dos seus actores, e de eles saberem fazerem essas coisas.

Os actores de Fátima são sobretudo actrizes. Quase todas as actrizes principais do filme se caracterizam por saber muito bem fazer certas coisas; e coisas que a maioria de nós associa a coisas religiosas. Conseguem rezar a Avé Maria, blasfemar, andar a pé pelas estradas, zangar-se e fazer as pazes umas com as outras. Pode argumentar-se que isso é o que acontece ao resto de nós, mas evidentemente há uma diferença: os actores não fazem as pazes uns com os outros; fazem a cara de quem está a fazer as pazes; fazem os barulhos característicos de quem reza a Avé Maria; fazem movimentos característicos de peregrinos em movimento.

Na escola de actores ou na escola de realizadores eu posso aprender a imitar certas coisas; e fazê-lo muito bem. Posso porém adquirir crenças religiosas nessas escolas? Não decerto porque o queira ou quando o queira; mas posso, se quiser, aprender a fazer cara de quem as tem. E como é que sei que uma pessoa que faz cara de crença religiosa tem uma crença religiosa? Na peça conhecida de Molière, o herói é alguém que faz cara de crenças religiosas e nós sabemos que não tem nenhuma dessas crenças; mas como o herói é um actor, é alguém que pode ou não ter uma crença a fazer de quem tem uma crença de modo a que todos percebam que não tem crença nenhuma. O filme de João Canijo é mais simples: é feito por actrizes que podem ou não ter crenças religiosas a fazer cara de crença, de modo a que todos concordem que alguma coisa deverão ter. Mas exactamente o quê? E exactamente quem?

Tão interessante como o filme, e tão parecido com o filme, é por isso aquilo que o realizador e as actrizes dizem sobre o filme. Por exemplo, o realizador declarou que as actrizes, e ele próprio, se prepararam para fazer o filme andando a pé como os peregrinos fazem: «As nove actrizes que fazem a peregrinação (. . .) tinham de documentar a “romaria”. Com as novas tecnologias foi mais fácil. Elas iam duas a duas integradas em cinco grupos de peregrinos reais, em Maio e Outubro [de 2015], porque se juntasse mais que duas não iriam interagir com os restantes elementos, ou então seria uma interacção muito mais circunscrita. Daí fiquei com as notas e ia transcrevendo os diários e, no fim de cada peregrinação real, reuníamos para resumir e sintetizar e acrescentar as coisas que podiam ter escapado.»[1] A actriz Anabela Moreira foi uma dessas actrizes. Observou que fez o que fez «só para o João poder saber o que era uma peregrinação e para nós todas também sabermos o que era. Porque só quem vive este percurso tão gigante, tão louco, só quem o conhece, é que pode falar dele com propriedade. Até podes observar de fora, mas nunca vais entender.»[2] E pelo menos outra actriz, Rita Blanco, declarou que «este filme serviu-me, espiritualmente, para pensar o meu processo de trabalho com o João [Canijo]. (. . .) Era isto que eu levava dentro da cabeça enquanto caminhava».[3]

Deixando de lado a questão de saber se não será injusto descrever atitudes gerais de pessoas a partir destas poucas declarações (e talvez seja), quer o que o realizador diz que queria, quer o que as actrizes dizem que fizeram ajuda a perceber o que todos eles acham que estiveram a fazer. O realizador terá pedido às actrizes que fossem «documentar a “romaria”», usando «as novas tecnologias». Para isso integrou-as em grupos de «peregrinos reais». A distinção entre peregrino real e actriz-a-documentar-a-romaria é uma distinção que só pode ser feita por alguém para quem o valor da religião é sobretudo documental; e para quem a função dos documentos é o de permitirem a certas pessoas fazer gestos e dizer coisas características de «peregrinos reais.». O realizador acha que o filme consiste na descrição daquilo que certas pessoas fazem; embora para isso tenha tido que arranjar pessoas que lhe fizessem essas coisas.

Quanto à segunda actriz, enquanto fazia os movimentos que terá visto os peregrinos fazer, ou que o realizador lhe disse para fazer, pensava «[n]o [s]eu processo de trabalho com o João». Pensar no seu processo de trabalho com «o João» é para si uma actividade espiritual; o filme serviu-lhe para exercer essa actividade. No seu espírito a ideia de espírito coincide com o seu trabalho e com a sua profissão, com aquilo que faz. O seu trabalho é neste filme aquilo que «o João» lhe disse que fizesse, ou que ele esperava que ela fizesse.

Ambas as actrizes acreditam, embora de modos diferentes, que aquilo que fizeram fez acontecer certas coisas: acreditam que a sua peregrinação não-real teve efeitos espirituais. No entanto, quer as actrizes quer o realizador declaram também francamente não ter convicções religiosas e, pelo menos num caso, ter a convicção de que todas as convicções religiosas são falsas. Não fazem troça dessas convicções, mas também não conseguiriam fazê-lo. Para fazer troça de uma convicção seria preciso saber imitá-la: mas, sendo possível imitar a cara de quem tem uma convicção, não é possível imitar uma convicção. Será que é por essa razão que respeitam as convicções que não têm? E será possível respeitar uma coisa que não se consegue imitar? A questão tem algum interesse filosófico, mas felizmente não precisa de ser considerada. Pelo contrário, a imagem que prevalece das declarações sobre o filme é a de que ninguém tem crenças religiosas mas todos parecem ter um certo medo, ou uma certa pena, de não as ter. Mas medo de quê, se essas crenças são falsas? E pena porquê?

Há várias maneiras de descrever actividades que normalmente não praticamos e pensamentos que normalmente não temos, isto é, as crenças que não nos ocorre entreter. Uma é transformarmo-las em sociologia, antropologia ou história, quer dizer, em descrições daquilo que as outras pessoas fazem. Nessa altura as nossas descrições serão documentários. Desse ponto de vista não há qualquer diferença entre um documentário com «peregrinos reais» e um documentário com actrizes a fazer de peregrinos reais, porque a atitude de quem filma e de quem é filmado é sempre a de descrever e imitar actividades que não pratica. Não adianta por isso, como faz a primeira actriz, reclamar um privilégio cognitivo que poderia vir de se ter visto peregrinos entretidos nas suas actividades.

Um documentário, com efeito, não nos diz nada sobre aquilo de que fala; mas mostra-nos sempre aquilo que nunca passou pela cabeça de quem o fez. Um bom exemplo disso é o que dizem as actrizes sobre o seu trabalho: que causou a ocorrência de sentimentos e opiniões, nomeadamente sobre religião; é a isso que chamam ter uma experiência «espiritual». A maneira de descrever os pensamentos religiosos que não temos é descrever os pensamentos que temos como sentimentos, experiências ou opiniões; e portanto de transformar as crenças religiosas em ocorrências psicológicas ou mentais; transformar a religião em experiência espiritual.[4] Para as duas actrizes, o que se passou com elas é de natureza psicológica.

Embora não seja um filme religioso, e especialmente porque não é um filme religioso, Fátima é uma imagem muito exacta daquilo que a religião é para quem não é religioso: a descrição de um conjunto de práticas características e de ocorrências mentais com efeitos benéficos e valor documental. Desse ponto de vista, o filme é um sintoma de um entendimento sociológico, histórico, antropológico e psicológico da religião. É todavia errado pensar que só tem este entendimento quem não se considera religioso. Referindo-se a Fátima, um bispo católico recentemente declarou que as visões dos pastores de Fátima «são fenómenos psicológicos naturais».[5] João Canijo e as suas actrizes não o teriam posto melhor.

[1] João Canijo a Ana Pina, «Confissões do realizador de Fátima». Diário Económico, 26 de Abril, 2017.
[2] Anabela Moreira a Bernardo Mendonça, «Este filme foi a maior loucura que todas nós actrizes fizemos por um realizador». Expresso online, 27 de Abril, 2017.
[3] Rita Blanco a Inês Lourenço,«Gosto muito de interpretar mulheres portuguesas. É qualquer coisa que me comove». Diário de Notícias, 26 de Abril, 2017.
[4] Anabela Moreira, idem: «Desenvolvi o meu próprio sistema de crença. Acredito que de facto não somos só o corpo.»
[5] D. Carlos Azevedo a Rosa Pedroso Lima, «Nossa Senhora não aprendeu português para falar com Lúcia». Expresso online, 25 de Abril, 2017.

Registo Internacional de Navios: Portugal, um Novo Atrator Fiscal?

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Figura 1 – Maior navio registado com bandeira portuguesa

Fonte: Jornal de Negócios, 2020

  1. INTRODUÇÃO

Tal como as pessoas, também os navios necessitam de uma nacionalidade que os identifique. No entanto, para as pessoas, a nacionalidade dos progenitores, do cônjuge, o país de nascimento ou país de vivência por um longo período poderão definir a nacionalidade que ser-lhes-á atribuída. Para os navios, já não é bem assim: a nacionalidade que lhes é concedida não tem, necessariamente, de possuir alguma relação com a nacionalidade ou com o país de residência dos seus proprietários (Ceiri News, 2020). Por vezes, a nacionalidade escolhida será a que, para eles, é a mais vantajosa, ou seja, a que poderá ser a mais “conveniente” adquirir – onde se encontram inclusas as Bandeira de Conveniência (BdC) ou, em inglês, Flag of Convenience (FoC).

Conforme dados da UNCTAD, mais de 70% da frota de navios do Mundo, na atualidade, é detentora de bandeiras de um país não correspondente ao de origem da sua propriedade (NGO Shipbreaking Platform, 2019). A adesão a Bandeiras de Conveniência tem demonstrado um elevado crescimento ao longo das décadas – sendo que, em 1950, estas representavam apenas 5% da frota mundial (The Geography of Transport Systems, 2022). Existem várias bandeiras que dominam o Mundo, no núcleo dos registos de navios, devido aos benefícios fiscais e regulamentares que estas concedem aos armadores estrageiros. O Panamá é um exemplo, tendo mesmo entrado no Livro do ‘Guinness World Record ‘, em 2017, pelos mais de 8.000 navios que registou a nível mundial – registos estes que lhe conferiram uma quota de mercado próxima dos 20% (Revista Cargo, 2017).

Apesar do Registo de Navios do Panamá ser líder mundial, existem muitos outros países que o seguem – como a Libéria e as Ilhas Marshall, também detentores de regulamentos menos rigorosos e, por isso, atraentes para os armadores estrangeiros (The Geography of Transport Systems, 2022). Apesar de Portugal não ser considerado um pavilhão de conveniência (Dixcart, 2021), oferece uma opção de registo internacional dotado de benefícios fiscais que lhe tem proporcionado uma posição de destaque, pela forte adesão de navios de países terceiros à bandeira portuguesa – designadamente através do ‘Registo Internacional de Navios da Madeira’ (DN, 2016), contando este, em 2019, com 680 navios registados (Jornal de Negócios, 2020). Assemelhar-se-á Portugal, a um “novo Panamá”? Será ele um novo atrator fiscal? Os motivos inerentes à sua escolha como Estado de bandeira por parte de armadores estrangeiros, assim como as vantagens dessa escolha para Portugal, serão aqui explorados.

  1. REGISTO INTERNACIONAL DE NAVIOS

O registo de navios detentores de uma arqueação bruta[1] superior a 100, incluindo navios de transporte de carga e de passageiros e navios de pesca, apresenta-se obrigatório (Shipping and Freight Resource, 2018). Este registo, que na prática funciona como uma manifestação que comprova a sua propriedade, possibilita o navio de navegar por águas internacionais (SeaNews, 2018). Um navio registado não é apenas um navio com nacionalidade, mas também um navio protegido – quer fisicamente, quer legalmente – por parte do seu país de registo – isto é, do Estado de bandeira – possuindo, este último, o poder exclusivo sobre o mesmo (Shipping and Freight Resource, 2018). A inspeção das condições de segurança, assim como das condições laborais a que a sua tripulação se encontra sujeita, fazem parte, também, das suas atribuições (SeaNews, 2018).

Com mais de 8 mil navios, Registo do Panamá entra no Livro do Guinness -  Revista Cargo Mas, na prática, como é atribuído este registo? A ‘International Martitime Organization’ (IMO), a partir de 1996, passou a conferir, aos navios, um número de identificação, ao nível mundial, de 7 dígitos – colocado, regra geral, na popa do navio, juntamente com o nome de batismo e com o nome do porto de registo (Ceiri News, 2020). Tal como como sugere a Figura 2: o navio, com o nome de ‘Ever Refine’, foi registado no Panamá e apresenta o número de identificação atribuído pela IMO (9061124), na última linha.

Figura 2 – Navio de nacionalidade panamiana.

Fonte: Revista Cargo, 2017

Esta atribuição teve, como fundamento, o aumento da segurança e a prevenção de fraudes e de poluição marítima (Shipping and Freight Resource, 2018). Qualquer que seja a bandeira adotada pelo navio, o número de identificação que a acompanha é único, permanente e colocado durante a sua construção, num local com visibilidade (Shipping and Freight Resource, 2018). Para além do número de identificação, atribuído pela ‘IMO’, o navio recebe, ainda, um número oficial por parte do seu país de registo – e este, sim, pode ser alterado quando o seu proprietário entender mudar o seu porto de registo (Ceiri News, 2020).

Conforme o Artigo 90º da ‘Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar’, referente ao ‘Direito de navegação’:

Todos os Estados, quer costeiros quer sem litoral, têm o direito de fazer navegar no alto mar navios que arvorem a sua bandeira.” (CNUDM, 1998).

E conforme o primeiro ponto do Artigo 91º, da mesma Convenção, referente à ‘Nacionalidade dos navios’:

Os Estados devem estabelecer os requisitos necessários para a atribuição da sua nacionalidade a navios, para o registo de navios no seu território e para o direito de arvorar a sua bandeira. Os navios possuem a nacionalidade do Estado cuja bandeira esteja autorizada a arvorar. Deve existir um vínculo substancial entre o Estado e o navio.” (CNUDM, 1998).

Tal como se encontra explícito no primeiro ponto deste último Artigo 91º, cada país possui os seus próprios os requisitos para efetuar o registo de navios. Existem países que somente permitem registos “fechados”, outros que facultam registos “abertos” e outros que não autorizam, de modo algum, a sua nacionalidade em navios destinados a atividades comerciais internacionais (IMO, 2019). Segundo defende Sakshi Agarwal, a legislação das nações, no âmbito do registo de navios, apresenta, para além do registo “fechado” e registo “aberto”, uma terceira categoria: o registo internacional, que contempla diferentes variantes de registo (Agarwal, 2014). Curiosamente, um país não ter de ser, necessariamente, um Estado costeiro para atribuir a sua bandeira a um navio (MITAGS, 2021) – a Mongólia representa um exemplo disso (Windward, 2022).

O registo “fechado” (também designado por registo tradicional ou nacional), que, tal como o nome sugere, apresenta-se como o mais restritivo. Em suma, tem de existir uma ligação honesta do navio com o país de registo (Shipping and Freight Resource, 2018). Os países que o praticam apenas possibilitam este registo aos navios pertencentes ao próprio Estado, seja através das empresas, que os detêm, aí localizadas, seja através de proprietários residentes (SeaNews, 2018). Além destes requisitos fulcrais, o país de registo constituir o principal local de atividade económica do navio apresenta-se, igualmente, exigido (SeaNews, 2018).

O navio empregar tripulação nacional do país de registo poderá consistir outro requisito, como se verifica no Brasil – em que é expresso no Artigo 4º da ‘Lei Nº 9.432, de 8 de janeiro de 1997’ que: “Nas embarcações de bandeira brasileira serão necessariamente brasileiros o comandante, o chefe de máquinas e dois terços da tripulação.” (Lei Nº 9.432, 1997).

O registo “aberto” é muito distinto do registo “fechado” ao nível de requisitos, sendo estes, por vezes, inexistentes. Neste modelo, os navios não têm de possuir nenhuma ligação com o país de registo para adquirir a sua nacionalidade – fazendo parte deste, as designadas ‘Bandeiras de Conveniência’ (Shipping and Freight Resource, 2018). Teoricamente, uma ‘Bandeira de Conveniência’ consiste num termo um pouco depreciativo utilizado para caracterizar a prática de registo “aberto” conferente de características atrativas para os armadores estrangeiros – entre elas, benefícios fiscais, maior facilidade no ato de registar o próprio navio e normas de segurança pouco exigentes (Shipping and Freight Resource, 2018). O Panamá, a Libéria as Ilhas Marshall constituem exemplos de países que oferecem este tipo de registo (The Geography of Transport Systems, 2022).

O “facilitismo” do registo “aberto” instigou algum desrespeito, por parte dos navios, pelas normas regulamentadas, o que levou a que fossem criadas variantes deste tipo de registo (SeaNews, 2018). Ao mesmo tempo, pretendia-se reverter o efeito de “emigração” de armadores para países estrangeiros, atraídos pelos benefícios das Bandeiras de Conveniência (Carlisle, 2009). O registo internacional é detentor dessas diferentes variantes, sendo atribuído por Estados que já têm incorporada a opção de registo nacional (Linkedin, 2019).

O registo híbrido possui um tipo de sistema situado entre o “fechado” e o “aberto”, na medida em que confere alguns requisitos idênticos aos dos registos nacionais e, ao mesmo tempo, benefícios também presentes nos registos “abertos” (SeaNews, 2018). Nalguns países, existe a exigência de a nacionalidade do proprietário ser a mesma que o país de registo; outros países, dão a possibilidade a proprietários estrangeiros, mediante o cumprimento de determinadas exigências, de adquirirem a sua nacionalidade para os seus navios – como o caso da Noruega, Dinamarca e Portugal (que anexa o Registo Internacional de Navios da Madeira, que será posteriormente analisado); e, por fim, outros dão liberdade de acesso a proprietários estrangeiros, sem exigências atreladas – como se verifica na Alemanha e em França (SeaNews, 2018).

O registo secundário (também designado por registo offshore) contem menos benefícios fiscais que o registo “aberto”, apesar de oferecer, como benefício aos armadores, a possibilidade de estes contratarem uma tripulação estrangeira, atribuindo-lhes salários inferiores aos que devem ser atribuídos a uma tripulação nacional (SeaNews, 2018). Este tipo de registo é, geralmente, operacionalizado por regiões autónomas ou territórios ultramarinos (Shipping and Freight Resource, 2018).

À exceção dos registos internacionais anteriormente mencionados, existe a opção de registo duplo – que é direcionado para navios com contratos de ‘Afretamento a Casco Nu[2]’ (Linkedin, 2019). Esta opção de registo baseia-se numa sobreposição ao registo original do navio, em que o Estado do afretador lhe concede o direito à utilização da sua bandeira – a Alemanha é um exemplo de país que possui esta opção de registo (Linkedin, 2019). Ou seja, caso uma empresa da Alemanha decida afretar um navio com registo japonês, uma vez que o país possui a opção de registo duplo, esta empresa poderá usufruir da nacionalidade alemã para o seu navio.

  1. JURISDIÇÃO DO ESTADO DE BANDEIRA

A ‘Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar’ prevê que o Estado de bandeira detenha a responsabilidade principal sobre o que acontece com o navio que navega com a sua bandeira (NGO Shipbreaking Platform, 2019).

Conforme o Artigo 94º da ‘Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar’, referente aos ‘Deveres do Estado de bandeira’:

1. Os Estados devem exercer, de modo efectivo, a sua jurisdição e seu controlo em questões administrativas, técnicas e sociais sobre navios que arvorem a sua bandeira.

(…) 3. Os Estados devem tomar, para os navios que arvorem a sua bandeira, as medidas necessárias para garantir a segurança no mar, no que se refere, inter alia, à:

a) Construção, equipamento e condições de navegabilidade do navio;

b) Composição, condições de trabalho e formação das tripulações, tendo em conta os instrumentos internacionais aplicáveis;

c) Utilização de sinais, manutenção de comunicações e prevenção de abalroamentos.” (CNUDM, 1998).

Na hora de escolher a bandeira a adotar não se pode descurar que os benefícios fiscais e regulamentares do país não vêm sozinhos. O Estado de bandeira possui jurisdição sobre vários cenários ocorridos no mar, tal como sugerem os Artigos 97º, 216º e 217º da ‘Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar’ (que serão seguidamente apresentados). Isto significa que uma infração cometida por parte de um navio poderá sujeitá-lo às penalizações do quadro legal do país de registo que, por sua vez, poder-se-á mostrar “pesado” e custoso, comparativamente ao país de onde este é cidadão nacional.

Conforme o Artigo 97º, da mesma Convenção, referente à ‘Jurisdição penal em caso de abalroamento ou qualquer outro incidente de navegação’:

1. Em caso de abalroamento ou de qualquer outro incidente de navegação ocorrido com um navio no alto mar que possa acarretar uma responsabilidade penal ou disciplinar para o capitão ou para qualquer outra pessoa ao serviço do navio, os procedimentos penais e disciplinares contra essas pessoas só podem ser iniciados perante as autoridades judiciais ou administrativas do Estado de bandeira ou perante as do Estado do qual essas pessoas sejam nacionais.

(…) 3. Nenhum apresamento ou retenção do navio pode ser ordenado, nem mesmo como medida de investigação, por outras autoridades que não as do Estado de bandeira.” (CNUDM, 1998).

Conforme o Artigo 216º, da mesma Convenção, referente à ‘Execução referente à poluição por alijamento’:

1. As leis e regulamentos adoptados em conformidade com a presente convenção e as regras e normas internacionais aplicáveis, estabelecidas por intermédio das organizações internacionais competentes ou de uma conferência diplomática, para prevenir, reduzir e controlar a poluição do meio marinho por alijamento devem ser executados:

(…) b) Pelo Estado de bandeira no que se refere às embarcações que arvorem a sua bandeira ou às embarcações (…) que estejam registadas no seu território (…)” (CNUDM, 1998).

E conforme o Artigo 217º, da mesma Convenção, referente à ‘Execução pelos Estados de bandeira’:

“(…) 4. Se uma embarcação cometer uma infracção às regras e normas estabelecidas por intermédio da organização internacional competente ou de uma conferência diplomática geral, o Estado de bandeira (…) deve ordenar uma investigação imediata e, se necessário, iniciar procedimentos relativos à alegada infracção, independentemente do local em que tenha sido cometida a infracção ou do local em que a poluição proveniente de tal infracção tenha ocorrido ou tenha sido verificada.

(…) 6. Os Estados devem, a pedido, por escrito, de qualquer Estado, investigar qualquer infracção que se alegue ter sido cometida pelas embarcações que arvorem a sua bandeira. Uma vez convencidos de que dispõem de provas suficientes para iniciar um procedimento relativo à alegada infracção, os Estados de bandeira devem iniciar sem demora esse procedimento em conformidade com o seu direito interno.” (CNUDM, 1998).

Para uma nação, nalgumas situações, poderá não se mostrar benéfica a cedência da sua bandeira: a responsabilização do Estado de bandeira pelas infrações e crimes cometidos, bem como pelos acidentes que envolvam os seus navios, poderá acarretar-lhe inconvenientes.

  1. A ADESÃO AO REGISTO DE NAVIOS EM PORTUGAL

As embarcações nacionais, com exceção das pertencentes à Armada, estão obrigatoriamente sujeitas a registo de propriedade (…) para que possam exercer a actividade que determina a sua classificação.” (DGRM, 2018). Portugal concebeu, até à data, duas opções de registo de navios: primeiramente, o regime convencional; e, posteriormente, o regime o ‘Registo Internacional de Navios da Madeira’, que teve o intuído de reverter a saída de armadores nacionais para registos internacionais mais favoráveis e, também, atrair armadores estrangeiros (Fernandes, 2014).

Conforme é defendido no Decreto-Lei n.º 92/2018 de 13 de novembro, “Nas últimas três décadas, a frota nacional da marinha mercante registada no registo convencional sofreu um acentuado declínio, resumindo-se hoje a menos de uma dezena de navios, apesar do acréscimo substancial da movimentação de navios, de cargas e de tráfego de cruzeiros verificado, na última década, nos portos nacionais.” (Decreto-Lei n.º 92/2018). Esta situação apresenta-se contrária ao ‘Registo Internacional de Navios da Madeira’ (RIN-MAR), que tem revelado crescimento ao nível da adesão (Revista Cargo, 2017).

Através do ‘Instituto da Mobilidade e dos Transportes’, foi possível aceder a dados referentes ao registo de navios comerciais em Portugal, no ano de 2021 – através do registo convencional e do ’Registo Internacional da Madeira’ (RIN-MAR). Como se pode verificar no Quadro 1, num total de 686 registo efetuados, o ‘RIN-MAR’ foi o tipo de registo mais solicitado pelos navios, com uma adesão bastante superior comparativamente ao registo convencional (acolhendo, este último, apenas 3 registos).

Navios comerciais registados (nº), em 2021
Tipo de registoNº navios
‘RIN-MAR’683
Registo convencional3
Total686

Quadro 1 – Número de navios comercias registados em Portugal, em 2021

Fonte: IMT, 2022

Os porta-contentores dominam o tipo de navio quanto ao número de registos em Portugal – com mais de 280 navios –, sendo seguido pelos tipos de navio de carga geral e graneleiro, como se pode verificar na Figura 3. No registo convencional, não se apresenta registado nenhum navio porta-contentores – apenas dois navios de carga geral e um RO-RO (IMT, 2022).

Figura 3 – Número de registos, em Portugal, por tipo de navio comercial, em 2021

Fonte: IMT, 2022

A tripulação de nacionalidade portuguesa é caracterizada por uma percentagem muito reduzida, comparativamente às restantes nacionalidades – representando apenas 3%, contra os 42% detentores de outras nacionalidades europeias e os 55% detentores de outras nacionalidades globais –, tal como se pode verificar na Figura 4. A fraca expressão de tripulantes portugueses expressa que o ‘RIN-MAR’ conseguiu captar, sobretudo, armadores estrangeiros.

Figura 4 – Peso da nacionalidade da tripulação dos navios comerciais registados em Portugal, em 2021

Fonte: IMT, 2022

Localizado na Região Autónoma da Madeira (RAM), o ‘Registo Internacional de Navios da Madeira’ (RIN-MAR) consiste num registo internacional, criado em 1989, de forma a impedir a evasão de navios nacionais para outros registos fora do país e, ao mesmo tempo, atrair armadores estrangeiros (Fernandes, 2014), tal como foi anteriormente mencionado. O facto da RAM possuir um Centro Internacional de Negócios[3] – cuja conceção teve o intuito de promover a sua dinamização, bem como a sua diversificação económica –, levou a que fosse aí estabelecido o registo internacional (Fernandes, 2014). “O regime da ZFM corresponde a um regime de Auxílios de Estado sob a forma fiscal, devidamente aprovado pela Comissão Europeia.” (Fernandes, 2014, p. 461), direcionado para as empresas estabelecidas na RAM, tendo sido o ‘RIN-MAR’ concebido nesse contexto (Fernandes, 2014).

Caracteriza-se por um modelo “aberto”, onde são aceites registos de navios cuja propriedade e/ou armador não sejam nacionais (Fernandes, 2014) e cuja empresa não se encontre fixada na RAM, no entanto é exigida a sua representação legal no território (SDM, 2022). O ‘RIN-MAR’ “abraça” vários tipos de embarcação – incluindo mesmo plataformas petrolíferas e iates privados (SDM, 2022) –, excluindo apenas as de pesca (Fernandes, 2014). Este, além de admitir um registo duplo, admite, ainda, um registo temporário e um registo provisório: registo temporário, pela possibilidade de ceder a sua bandeira temporariamente a navios em situações de fretamento ou afretamento em casco nu; e registo provisório, por atribuir nacionalidade aquando do processo relativo ao seu registo definitivo (Fernandes, 2014).

A sua atratividade é notável, uma vez que “(…) oferece vantagens operacionais específicas, assim como um regime fiscal atractivo aplicável quer aos navios registados, quer às sociedades licenciadas no CINM.” (SDM, 2022). A adesão dos navios ao ‘RIN-MAR’ prevê um total acesso à cabotagem nacional[4], não conta com restrições relativas à idade dos navios e apresenta alguma flexibilidade quanto à nacionalidade da tripulação dos mesmos: 30% desta deve possuir nacionalidade proveniente de países europeus ou de países que possuam o português como língua oficial (SDM, 2022). Entre as vantagens fiscais oferecidas, constam: a isenção fiscal sobre os salários dos tripulantes (portugueses ou estrangeiros); isenção fiscal em sede de segurança social portuguesa, por parte dos tripulantes e os seus empregadores estrangeiros, e aplicação de uma taxa reduzida para os portugueses; e flexibilidade na escolha do sistema legal regulador, no âmbito de possíveis hipotecas (SDM, 2022).

Quanto aos seus encargos, estes compreendem: no âmbito do registo inicial de um navio ou registo de renovação, uma taxa fixa de 1.800 euros e uma taxa variável, respeitante de escalões definidos consoante a sua Arqueação Líquida[5]; e, no âmbito na manutenção anual dos registos, uma taxa fixa de 1.400 euros e uma taxa variável, também respeitante de escalões definidos consoante a sua Arqueação Líquida (SDM, 2022).

Todas as vantagens concedidas pelo ‘RIN-MAR’ trouxeram-lhe uma proeminência – quer a nível nacional, quer a nível europeu –, pela quantidade de navios que acolhe e pela respetiva tonelagem (MMCL, s.d.). Graças ao ‘RIN-MAR’, em 2021, Portugal também demonstrou destaque a nível global, alcançando o 14º lugar no ranking mundial de Estados de Bandeira (Revista Cargo, 2021). Através da leitura da Figura 5, é possível, assim, verificar a posição do ‘RIN-MAR’, através da leitura do indicador ‘Dead-weight Tonnage[6], representando este 1.1.% do Mundo e com um crescimento de 9.7% de 2020 e 2021. Apenas se encontram contabilizados, nesta listagem, os navios comerciais com uma propulsão de, pelo menos, 100 toneladas brutas (UNCTAD, 2021).

Figura 5 – Principais bandeiras de registo, por ‘dead-weight tonnage’, em 2021

Fonte: UNCTAD, 2021

O ‘RIN-MAR’ tem sido um grande auxílio no posicionamento internacional da RAM e também do país, designadamente no setor dos transportes marítimos (SDM, 2022). Um elevado número de navios a exibir a bandeira nacional, claramente contribui para a promoção do país no estrangeiro (DN, 2016). Através deste registo, “Portugal tem concretizado o seu regresso ao mundo do transporte marítimo, como confirma a sua presença em organizações internacionais do sector, como é o caso da IMO.” (SDM, 2022). Empresas a se fixarem no país constitui uma oportunidade não só pelo pagamento de impostos que contribui para a economia, mas pelos postos de trabalho que oferecem. O caso de um armador estónio, que trouxe parte da sua base operacional para a RAM, constitui um exemplo, assim como a criação na RAM, por parte de empresários alemães, da ‘European Mar’ – empresa de registo de navios que, em 3 anos, efetuou 300 registos (DN, 2016) e abriu uma sucursal na Grécia, reforçando a sua presença num mercado internacional bastante competitivo no setor do shipping (Revista Cargo, 2021).

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nacionalizar um navio não é algo simples, na medida em que, por vezes, não existe qualquer espécie de vínculo entre a embarcação e o Estado de bandeira, referindo, ainda, na permissão de troca do porto de registo (Figura 6). Por vezes, a nacionalidade é requerida consoante interesses fiscais e regulamentares do armador, sendo esta situação possível graças à existência e respetiva permissibilidade dos registos “abertos”. Os Estados de Bandeira saem beneficiados pela atribuição da sua bandeira, mas, por outro lado, têm em cima deles a responsabilidade pelo que acontece com os navios por eles nacionalizados.

Figura 6 – Nacionalidade dos navios

Fonte: NGO Shipbreaking Platform, 2019

O surgimento de novas variantes do registo “aberto” foi importante para assegurar a ordem no mar e, ao mesmo tempo, atrair armadores para países mais “vazios” em termos de registos. Portugal consistiu num exemplo quando decidiu criar o ‘RIN-MAR’ e no qual se pode dizer que foi bem-sucedido. Assumir que Portugal se assemelha a um “novo Panamá” será um pouco ambicioso, pelo menos na atualidade, na medida em que o seu número registos não atinge nem um décimo dos panamianos. Mas poderá considerar-se, sem dúvida, Portugal um novo atrator fiscal. Os resultados não deixam mentir: centenas de navios registados, com um aumento visível ao longos dos anos e com perspetivas de subida.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Decreto-Lei n.º 92/2018 de 13 de novembro. Diário da República n.º 218 – I série. Lisboa: Presidência do Conselho de Ministros

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Fernandes, C. (2014). O Registo Internacional de Navios da Madeira – Uma viagem pelo mar. Revista da Ordem dos Advogados, Ano 74, II – Lisboa, Abr./Jun. 2014

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Windward. (2022). Flag of Convenience. Consultado a 1 out. 2022. Disponível em: https://windward.ai/glossary/flag-of-convenience/

  1. A ‘Arqueação Bruta’ (AB) expressa o volume de um navio (Portogente, 2016).
  2. O termo ‘Afretamento a Casco Nu’ consiste num contrato através do qual o afretador do navio, detém, por um determinado período, o direito à sua posse, utilização e controle (Wilson, Sons, s.d.).
  3. O ‘Centro Internacional de Negócios da Madeira’ (CINM), também designado por ‘Zona Franca da Madeira’ (ZFM), “(…) consiste num conjunto de incentivos, sobretudo de natureza fiscal, concedidos com o objectivo de atrair investimento externo para a Madeira (…)” (SDM, 2022).
  4. A cabotagem nacional compreende “O transporte marítimo de passageiros e de mercadorias efetuado entre portos nacionais (…)” (IMT, 2022).
  5. A ‘Arqueação Líquida’ (AL) corresponde à capacidade útil de um navio (Portogente, 2016).
  6. O termo ‘Dead-weight Tonnage’, ou ‘Porte Bruto’, representa a “Diferença entre o peso do navio com o máximo de carga autorizado e o peso do navio leve.” (INE, 2022).

Crítica: Abril pelas direitas… foi bonita a festa, pá?, Rodrigo Pereira Coutinho e Paulo Jorge Teixeira

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Recensão da obra “Abril pelas direitas… foi bonita a festa, pá?” Coordenada por Rodrigo Pereira Coutinho e Paulo Jorge Teixeira – com prefácio de Alexandre Franco de Sá

Introdução

Em 2024, ao comemorar os 50 anos da queda do Estado Novo e o início da democratização em Portugal, retoma-se o debate sobre o legado desse período. Embora exista uma produção extensa relativa ao Estado Novo e à transformação política subsequente, a expressão das diversas direitas – que abrange desde liberais e social-democratas à direita até conservadores, reacionários e nacionalistas tradicionalistas – permanece minoritária nos discursos oficiais e historiográficos. Nesse contexto, a obra “Abril pelas direitas… foi bonita a festa, pá?” surge como uma tentativa de contrabalançar essa hegemonia, reunindo 50 ensaios que capturam as múltiplas vozes e abordagens das direitas portuguesas.

Síntese dos artigos fundamentais da obra

A obra agrupa textos publicados em colunas de opinião e possui a maioria dos artigos originais, os quais, embora variados em estilo e origem, partilham a proposta de diagnosticar criticamente o regime democrático português contemporâneo à luz do passado e das suas próprias contradições. Seguem, de forma sintetizada, os principais pontos abordados, organizados por autor:

1. Alexandre Franco de Sá (Prefácio, pp. 15–26)

Temas abordados:

  • Crítica ao processo de descolonização, defendendo que Angola e Moçambique já haviam adquirido estatuto de Estado em 1972 (p. 20).
  • Observação de que, apesar de instaurada a democracia, sobre ela paira o desinteresse cívico e a consolidação de uma oligarquia partidária (p. 24).
  • Análise do desenvolvimento do país, que gerou frustração: sucessivas alternâncias de governos permitiram a existência de clientelismos, com ciclos de nacionalizações seguidos de privatizações, perda de soberania, desmantelamento das estruturas produtivas e consequente envelhecimento e empobrecimento da população, agravados pelo fluxo migratório e pela emigração juvenil (pp. 24–25).

2. Rafael Pinto Borges (pp. 39–42)

Temas abordados:

  • A gênese das referências da democracia portuguesa na influência dos discípulos de Estaline, mesmo após o fim do poder salazarista (p. 40).
  • Crítica à descolonização, comparando o processo português com os casos da Austrália e do Canadá, sugerindo o seu fracasso (p. 41).
  • Reflexão sobre a perda de um património geopolítico secular e as consequências para os países africanos – marcada pela miséria e pelo caos –, enfatizando que a democracia só emergiu por meio do PREC e da destruição gradual da indústria (p. 42).

3. Miguel Nunes Silva (pp. 51–55)

Temas abordados:

  • No contexto do Portugal de Salazar, destaca-se o desrespeito pela liberdade política – ainda que o aprisionamento e a tortura tenham afetado apenas uma minoria capaz de subverter a ordem vigente.
  • Análise da transição: o abandono do Ultramar, a renomeação de infraestruturas, o colapso do Estado e o aumento expressivo da dívida pública, contrapondo tais retrocessos aos ganhos de liberdades civis e políticas pós-Estado Novo.
  • Apontamento de críticas contemporâneas, como a censura nas redes sociais, o totalitarismo progressista e o fenómeno do politicamente correto (p. 55).

4. Teresa Nogueira Pinto (pp. 61–65)

Temas abordados:

  • Diagnóstico do colapso institucional e de uma estagnação que torna o país refém de uma elite política decadente.
  • Pontos sobre a deterioração das Forças Armadas e o declínio da taxa de natalidade.
  • Exposição da hegemonia cultural da esquerda e da confluência entre as antigas e as novas direitas – que se justificam à custa da democracia cristã ou do centro-direita liberal – desafiando o status quo europeu (pp. 61–62).

5. José Almeida (pp. 67–73)

Temas abordados:

  • Reinterpretação de Oliveira Salazar como “o príncipe da política portuguesa” (p. 70).
  • Discussão sobre os efeitos da desintegração do Império Português, apontando para a emergência de Estados falidos e para a autodeterminação como um conceito que adquire tonalidades neocolonialistas – configurando-se, nesse contexto, como uma espécie de “nacionalismo do bem” (p. 72).

6. Miguel Granja (pp. 95–100)

Temas abordados:

  • Crítica ao uso do 25 de abril como instrumento a serviço das direções partidárias, onde o povo aceita ser “insultado” e empobrecido pelos seus governantes.
  • Reflexão sobre os mecanismos de corrupção que se traduzem num empobrecimento generalizado – denominando “Portugal democrático” o cenário em que o enriquecimento pessoal é facilitado por práticas clientelistas.
  • Observação de que o esvaziamento das elites alimenta movimentos populistas (pp. 99–100).

7. José Luís Tavares (pp. 117–124)

Temas abordados:

  • Destaque para o alarmante percentual de pobreza – cerca de 20% da população, com projeções de duplicação na ausência de apoios sociais.
  • Análise comparativa que sugere que as novas gerações enfrentarão condições piores do que as anteriores.
  • Reconhecimento do governo de Aníbal Cavaco Silva como responsável por algumas modernizações, como a erradicação das barracas nas áreas metropolitanas (Lisboa e Porto) (pp. 117–119).

8. Abel Matos Santos (pp. 133–136)

Temas abordados:

  • Relato de práticas violentas durante o PREC – com episódios de assassinatos – acompanhado de críticas à “descolonização exemplar”.
  • Argumentação de que, embora se viva numa democracia com conquistas, esta está permeada por uma partidocracia, na qual os partidos e as suas direções predominam, limitando a escolha dos eleitores e promovendo uma censura económica e política, para além de falhas na reforma do sistema eleitoral e na resolução de problemas cruciais em saúde, educação, justiça, segurança e habitação (pp. 134–135).

9. Rui Pereira (pp. 155–157)

Temas abordados:

  • Asserção de que Portugal encontra-se numa situação de ameaça, sem alma nem identidade, com uma sociedade que perdeu o espírito da comunidade nacional.
  • Crítica ao papel do exército, que atua como “mercenário” a serviço da NATO ou da ONU, afastando-se do seu papel de reserva moral.
  • Proposta para o ressurgimento de um exército verdadeiramente nacional e popular (p. 156).

10. João Brás (pp. 167–172)

Temas abordados:

  • Enfoque na necessidade de aprofundar os pontos de falha e definir medidas que deveriam ter sido implementadas para a modernização do país.
  • Argumentação de que, embora as mudanças sejam imprescindíveis, estas frequentemente conduzem a um aumento do estatismo e da propaganda.
  • Destacamento do facto de que, em grande parte, as transformações devem-se à entrada na CEE e à imposição de regras externas – pelo que, ainda que o país não viva sob uma ditadura, tampouco desfruta de uma democracia plena –, bem como uma crítica à descolonização, apontada como desastrosa e criminosa, com graves consequências humanitárias e económicas (pp. 168–171).

11. Pedro Arroja (pp. 241–245)

Temas abordados:

  • Análise dos índices de crescimento económico: destaca que, enquanto nas décadas de 1960 o crescimento foi robusto (entre 7% a 11%), desde 1974 Portugal teve de recorrer três vezes à ajuda externa, e que o crescimento médio dos últimos 50 anos não ultrapassou os 2% anuais (pp. 241–242).

12. Miguel Côrte-Real Gomes (pp. 247–250)

Temas abordados:

  • Defesa de um modelo estatal enxuto, que seja prestigiado, subsidiário e solidário, com base no Estado de Direito e numa democracia autêntica, onde os cidadãos se sintam representados.
  • Proposta de um cenário em que os cidadãos possam progredir sem necessidade de emigrar e onde os negócios prosperem sem serem oprimidos por um Estado gordo, repleto de burocracia e de impostos elevados (p. 249).

Questões Editoriais

Para além do conteúdo dos ensaios, a obra suscita duas questões editoriais:

  • Índice: A ausência dos títulos dos capítulos dificulta a orientação dos leitores que não estão familiarizados com os autores.
  • Origem dos textos: A inclusão de artigos inicialmente publicados como colunas de opinião online levanta questões quanto à seleção e à originalidade do material reunido.

Considerações Finais

“Abril pelas direitas… foi bonita a festa, pá?” apresenta uma visão multifacetada das diversas direitas em Portugal, articulando diagnósticos que oscilam entre a crítica ao sistema vigente e o reconhecimento dos avanços – como a redução da mortalidade infantil, o aumento da esperança de vida e o saneamento básico – que, em parte, decorrem das transformações tecnológicas e da integração supranacional. Ainda que os ensaios apontem falhas marcantes na condução política e na consolidação do regime democrático (tais como a concentração de poder, o clientelismo, a insuficiência de reformas estruturais e as consequências da descolonização), mostra-se indispensável para compreender os desafios atuais e as reminiscências do passado.

A obra é recomendada não só a estudiosos da política e da história recentes de Portugal, como também a leitores interessados em conhecer as diversas perspetivas que, por vezes, se encontram à margem da narrativa dominante – permitindo assim uma leitura mais ampla e crítica acerca do 25 de Abril e dos seus desdobramentos.

Detesto ciclistas

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Detesto ciclistas.

Detesto-os porque se espraiam, em fila indiana ou em pelotão, pela marginal de Cascais como se fossem donos da faixa da direita, donos do sol e da maresia, donos do trânsito engarrafado atrás deles.

E nós, os tristes automobilistas, fechados no metal e no ar condicionado, condenados a ver-lhes, mais ou menos flácidas, as nádegas de lycra fluorescente. É como se a estrada tivesse sido feita para eles e não para os carros. Ora há ciclovias, quilómetros de ciclovias, erguidas à custa dos meus impostos, ciclovias que não posso usar de carro e que eles, claro, desprezam. Preferem a Marginal. Porque tem vista de mar. Por isso fingem que são utentes da estrada, pessoas que precisam de se deslocar de bicicleta para o trabalho, como eu, mas não são: são diletantes de fim de semana, a empatar a vida a quem cá mora.

E no entanto, confesso, também sou ciclista. Mas nunca, nunca me passaria pela cabeça formar um pelotão na marginal, a emperrar o trânsito. Porque sei que sou frágil, que um camião não trava para me salvar os ossos, que basta uma distracção e caio da arriba abaixo, como aconteceu há poucos dias na Parede. Porque é o que acontece de vez em quando: um acidente grave, um ciclista no chão, sirenes, o capacete, às vezes o crânio, partidos como um ovo.

Nessas alturas, penso sempre: foi ele que se pôs a jeito. Só um maluco arrisca carne e osso contra carros que passam a setenta, oitenta. Mas nunca – nunca – me ocorre ir escrever nos fóruns de ciclistas: “é menos um”. Nunca me ocorre proibir o ciclismo, nem desejar a morte de quem pedala. Só penso: se tivesse usado a ciclovia, talvez ainda estivesse vivo, e a família não chorasse agora à porta da morgue. Livre-arbítrio, chamam-lhe.

Penso nisto, dos ciclistas, agora, por causa da polémica da semana: a morte de um jovem forcado na arena do Campo Pequeno e a torrente de ódio jubiloso dos anti-taurinos de teclado, os eternos moralistas da internet, aplaudindo aquela morte como se fosse justiça poética: se não houvesse arenas, ninguém/nada, homem ou touro, lá morria.

Penso também, sobre o mesmo tema, que estou dividido quanto à tourada. Em pequeno, na linha de Cascais, tourada era um cartaz esquecido colado ao muro, era uma festa de Cascais a que não ia. Cresci entre suburbanos de esquerda, onde quem gostava de touros era do CDS, e bastava esse selo – a do fascista do antigamente – para me repelir. Os ricos do CDS tinham barcos, os ricos do CDS tinham casas na Guia e os ricos do reviralho iam à tourada. Eu não.

Depois, quando estudei Engenharia Zootécnica nos Açores, lá não havia como escapar à festa brava: os colegas vinham de Moura, de Barrancos, da Terceira – a terra portuguesa de maior afición, onde até as mulheres são forcadas, como se vê pela foto que aqui vos deixo, de uns saudosos anos 90 do século passado – e falavam dos artistas da festa brava como eu falava dos Smiths ou dos Aztec Camera.

Todos sabiam o que era uma verónica, uma chicuelina, uma vacada. E muitos eram forcados: rapazes de dezoito, vinte anos, que se atiravam aos touros como outros se atiravam ao rock’n’roll ou saltavam da prancha dos 10 metros, nas piscinas. Para eles, o grupo era irmandade, era prova de coragem com o risco da morte sempre à espreita. E a morte, sempre próxima, às vezes vinha.

Eu vi-a, um dia. Vi um corpo a ficar estendido, imóvel como um trapo na Monumental de Angra, ouvi o som da cabeça de António Gouveia a embater no chão no dia do seu aniversário, escutei o silêncio súbito, a sombra da morte a passar sobre os outros, a passar sobre nós. Faz parte.

E por fazer parte, há marialvismo, claro. Hoje chamar-lhe-iam masculinidade tóxica. Há fanfarronice, cerveja, palmadas nas costas, hombridade exagerada. Mas há também uma amizade colegial, uma quase ternura viril, semelhante à dos soldados que regressam da frente de batalha. Ninguém se metia com um forcado do Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, porque os forcados da Terceira eram os nossos ciganos: quem se metia com um, levava de todos os outros.

Nada disto interessa aos wokes, que acabaram com o serviço militar obrigatório e andam há anos para proibir a tauromaquia. Para eles, ser anti-tourada é extensão de ser anti-tudo: anti-fóssil, anti-colonialismo, anti-patriarcado, anti-qualquer coisa.

Mas não basta ser contra: é preciso encenar, é preciso chocar. O Picasso dizia que a arte era um dedo espetado no cu da burguesia. Os wokes fizeram disso método: espectáculos de drag queens em escolas primárias, barbas com batom em festivais de música, pronomes inventados, uma exigência fascizóide de que toda a sociedade dobre a língua para se lhes adequar, às minorias que inventaram que desde sempre foram reprimidas e que agora chegou a sua vez de brilhar. E de reprimir.

E assim – tal como com a ânsia de humilhar os “fascistas”, os “racistas” e os “homofóbicos” – o ódio que destilam aos “taurinos” faz com que atirem fora o menino com a água do banho.

Porque regozijar-se com a morte de um forcado não ajuda os touros: fortalece as Touradas. Uma prática já em declínio, quase folclórica, condenada a extinguir-se como os almocreves ou as lojas de revelação de rolos fotográficos, ganha nova vida no asco que lhe atiram.

Um dia cansar-nos-emos dos animalistas de sofá, dos que resgatam cães para depois os largarem na rua, dos que castram gatos enquanto derramam lágrimas virtuais pela bicharada, dos que falam de como são bons “tutores” com a mesma hipocrisia com que abandonam animais na berma da estrada. Um dia, depois de tanto moralismo e de tanta sinalização de virtude, voltaremos ao pragmatismo: eutanásia para os cães vadios, silêncio nos fóruns, menos virtude exibida, menos ódio transvestido de compaixão.

E é aqui que entramos na forma como olhamos para os animais, nós, urbanos, em contraste com quem viveu sempre no campo.

No interior agrícola, o animal é animal. Não é filho, nem companheiro de cama, nem membro da família com festa de aniversário e bolo de ração. É amigo, sim, muitas vezes companheiro de solidão e de trabalho, mas sobretudo é comida, é força, é parte do ciclo natural das coisas.

A vaca dá leite, o boi puxa(va) o arado, o cão guarda a casa, o porco acaba na salgadeira. Essa é a verdade nua e crua, sem sentimentalismos. E, paradoxalmente, é uma relação mais honesta e saudável do que a urbana: porque não há disfarce, não há antropomorfismo, não se projecta no animal uma humanidade que ele não tem. Há respeito, há cuidado, porque da saúde do animal depende às vezes a sobrevivência da família. Há afecto, mas um afecto sem ilusões.

Na cidade, pelo contrário, os animais de companhia ocupam o vazio deixado pelas relações humanas em declínio. O cão ou o gato já não são apenas companhia, são substitutos de filhos, são confidentes, são projectos de vida.

Exige-se para eles o que não se consegue para os humanos: um SNS veterinário, psicólogos caninos, consultas de nutrição felina. E, enquanto isso, a vizinhança deixa de se falar, os amigos são trocados por um Huskie – esse cão tão típico de Portugal – ou a maternidade por uma cadela esterilizada com laçarote cor-de-rosa.

Não é raro ver casais que tratam o cão como um primogénito, pessoas solitárias que dedicam mais horas ao gato do que ao convívio com outros humanos, solteiros que encontram no animal não apenas companhia mas a ilusão de um amor incondicional que acham que os demais homens e mulheres de carne e osso não lhe conseguem oferecer.

O paradoxo é este: enquanto o urbano pede para os animais estatuto de cidadãos, equivalentes em direitos aos humanos, o rural, que os abate e os come, convive com eles de forma mais equilibrada, mais natural, menos neurótica.

E talvez seja essa diferença que explica porque é que, nas cidades, se aplaude a morte de um forcado e se exige funeral digno para um caniche, enquanto no campo se enterra o cão no quintal com uma lágrima sincera e no dia seguinte se continua a lavrar.

O futuro dirá se esta substituição dos humanos por animais de companhia é apenas moda passageira ou se é sintoma de uma sociedade que desaprendeu de ser comunidade.

Por agora, basta olhar para as ruas urbanas pejadas de patudos ansiosos para irem cagar nos passeios nos poucos minutos que os seus don.. perdão, os seus tutores, lhes podem dispensar, e gatos entediados em apartamentos T0, para percebermos que talvez o problema não esteja nos animais, mas em nós – nós, que os usamos para preencher o vazio que deixámos crescer entre uns e outros.

Fotografias de Ana Frias

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Ana Frias encontra-se atualmente a frequentar a licenciatura em Mediação Artística e Cultural na Escola Superior de Educação de Lisboa. Formada em Fotografia pela Escola Profissional de Imagem em 2016, tem desenvolvido projetos que exploram a interação entre tempo, espaço e palavra, com especial foco na fotografia de arquitetura. Além da fotografia, tem-se dedicado a projetos colaborativos, procurando novas formas de expressão e narrativas que aproximam. https://www.behance.net/anafrias

Quando Lisboa é cercada de exércitos, um estudo histórico sobre a prática de um sitiado

“Enquanto nas operações ofensivas o Concelho de Lisboa estava representado essencialmente através de milícias, já os cercos de 1373 e de 1384 envolveram todos quantos nesses momentos se encontravam na cidade, apanhados por uma situação da qual dificilmente conseguiriam sair; o cidadão comum, os nobres, o clero regular e secular, os grupos dirigentes da cidade, homens, mulheres, velhos e novos, uns guerreiros por vocação e outros por obrigação. Quando Henrique II de Castela se dirigia para Lisboa com o objetivo de a tomar, as milícias concelhias, que se encontravam próximas da Azambuja – em trânsito para se juntarem em Santarém à hoste régia -receberam ordens para regressar de modo a procederem à defesa da principal cidade do Reino. Organizadas, bem armadas e psicologicamente preparadas para o combate, constituíram, supomos, a linha da frente da resistência ao invasor. Todavia, a Crónica de D. Fernando, de Fernão Lopes, não as refere – assim formadas – como tendo participado na resistência contra o inimigo Castelhano, isto apesar de os seus membros – segundo a mesma fonte – se encontrarem na cidade. O mesmo sucede relativamente ao cerco de 1384, sobre o qual as crónicas são ainda menos explícitas no tocante à participação das milícias concelhias na defesa de Lisboa. Contudo, é muito natural que, à semelhança do sucedido onze anos antes, tal tivesse ocorrido. Veja-se, por exemplo, o caso da pavesada com que os Castelhanos se defrontaram à chegada, composta por “homens darmas e beesteiros, e isso mesmo homeens de pee”. A constituir essa formação defensiva estariam, muito provavelmente e entre outros, aquantiados e besteiros do conto. Porém, o Cronista nada adianta a esse respeito. Quanto à presença dos comandantes das milícias (coudéis e anadéis), as Crónicas são, uma vez mais, omissas. Todos estes laconismos levam-nos a pensar que, no decurso dos cercos, as milícias do concelho não estariam constituídas como tal, devendo tanto os seus efetivos como as suas chefias ter sido dispersos por grupos, cujo comando estaria entregue a cidadãos e membros da nobreza que tinham a seu cargo atribuições específicas, tais como a vigilância das portas, das muralhas e das torres da cerca. Daí as milícias não serem mencionadas por Fernão Lopes. Porém, não foram apenas aos aquantiados e besteiros do conto de Lisboa que coube a missão de defender a Cidade. Pelo contrário, as fontes revelam o envolvimento de toda a população, de tal modo que, durante o cerco de 1373, chegou mesmo a ser sugerido que os Frades e Clérigos deveriam armar-se para defrontarem as tropas castelhanas, utilizando para isso as armas que se encontravam guardadas no arsenal régio, o que, tudo o indica, acabou por acontecer, repetindo-se esta situação durante o Cerco de 1384. A corrida aos arsenais parece ter sido usual em situações de perigo iminente, tal como em 1382, durante a Terceira Guerra Fernandina, quando uma Frota castelhana, proveniente da Biscaia, estacionou no Tejo, lançando o pânico entre os lisboetas. Registe-se que este armamento não chegou nunca a ser pago ou devolvido. Para a defesa da cidade, D. João recorreu também a um interessante expediente, que consistia na libertação de todos os criminosos cujos delitos tivessem sido cometidos até 1/Dez/1383 – data do assassínio do Conde de Ourém, João Fernandes Andeiro -, com a condição de ingressarem nas fileiras dos defensores da cidade, pelo que seriam remunerados. A defesa de Lisboa não passava apenas pela tomada de armas. Era necessário impedir, de outras formas, o avanço das hostes inimigas, o que, em 1373, foi feito através da construção de barricadas em algumas das ruas que partiam do interior da cerca moura e desembocavam no rossio de S. Domingos. Em 1384 também foram erguidas barricadas, desta feita na faixa junto ao rio, uma em cada extremo da cidade, para evitar que o inimigo ocupasse a praia e cortasse o acesso dos sitiados ao rio, de onde poderiam vir reforços e abastecimentos. Para tal devem ter sido utilizadas madeiras retiradas dos armazéns do rei e de particulares e cujo pagamento não chegou nunca a ser efetuado. É possível que nessas barricadas tenham também sido utilizadas portas de casas e outros objetos de madeira, tal como sucedeu durante o cerco de Ciudad Rodrigo, em inícios de 1370. Mas não eram apenas os homens a colaborar nas tarefas de defesa e no reforço das estruturas fixas. Quando a hoste de Juan I cercava a cidade de Lisboa, às mulheres da cidade cabia o papel de acartar cestos cheios de pedras até aos adarves para que os homens as lançassem contra os inimigos que se aproximassem dos muros Também as moças davam o seu contributo, neste caso apanhando pedra para a construção da barbacã localizada do lado do arraial castelhano, entre a Porta de S. Catarina e a Torre de Álvaro Pais, numa extensão de 300 a 400m. A defesa não ocupava de forma igual e constante todos os lisboetas. Os mesteirais, por exemplo – aqueles que não faziam parte dos grupos permanentes de guarda -, continuavam na sua atividade laboral. Todavia, sempre que soava o alerta, pegavam em armas e dirigiam-se para o local onde esse alarme (geralmente o repicar de um sino) tivesse sido tocado. Sendo a defesa uma tarefa que deveria envolver todos os que, de uma forma ou de outra, para ela pudessem contribuir, era natural encontrar-se “nom soomente os homeens mancebos, mas as velhas cabeças cubertas de cãas, que se guarneciã darmas pera pellejar”. Os fidalgos e cidadãos mais destacados da cidade, além de muitos outros oriundos de outras localidades do reino, por seu lado, tinham um importante papel na organização da defesa, tendo a seu cargo atribuições cruciais, tais como a guarda das portas e das torres da cerca, para o que eram auxiliados por homens de armas e besteiros, alguns deles – imaginamos – membros das milícias do concelho. Mas não eram apenas lisboetas que se encontravam na cidade. Tanto num cerco como no outro registou-se a entrada de muitos refugiados, oriundos dos arredores, que buscavam a segurança conferida pelas muralhas. Porém não eram só estes a afluir a Lisboa. Ao confirmar as intenções do rei castelhano, D. Fernando, em 1373, decidiu reforçar a defesa da cidade enviando desde Santarém – onde se encontrava a reunir contingentes para a constituição da hoste – diversas barcas, as quais transportavam D. Álvaro Pires de Castro, Alcaide de Lisboa, Lançarote Peçanha, Vasco Martins de Melo e João Focim, capitão da frota (…)”.

  – “Lisboa e a guerra (1367-1411)”, de Miguel Gomes Martins.

Gerontocracias e brigadas do reumático

A história de uma nação constrói-se não apenas pelos actos de bravura ou pelo génio de alguns, mas também pelas suas derivas de decadência e pelos estertores das suas classes dirigentes em fim de ciclo. Em Portugal, quando se pôs termo ao Estado Novo através do golpe militar de Abril de 1974, assistiu-se à substituição de uma elite conservadora, alicerçada militarmente na icónica brigada do reumático, por uma nova casta saída dos ventos do Maio de 68, impregnada de igualitarismo militante, utopismo internacionalista e vocação marxizante. Esta geração ascendente proclamou-se detentora de uma nova ética política e, rejeitando o autoritarismo e a tradição, abraçou o relativismo, o progressismo pedagógico e uma ingénua crença nas virtudes da planificação social. Passados mais de cinquenta anos de governação directa e indirecta, o edifício construído revela todos os sinais de ruína iminente. A sua arquitectura política e moral revela-se obsoleta, desconexa da realidade e cada vez mais irrelevante. Encontramo-nos perante um regime cansado, incapaz de se renovar, forte candidato à extrema unção política. Este quadro de decomposição manifesta-se em múltiplos aspectos, desde o aumento da dívida pública, a estagnação económica, o declínio cultural e a apatia generalizada. Governado por burocratas desinspirados e elites descomprometidas com o interesse nacional, Portugal caminha paulatinamente em direcção ao abismo.

A gerontocracia que nos rege é, em certo sentido, irónica. A antiguidade e a velhice sempre estiveram associadas à sabedoria e ao discernimento amadurecido pelo tempo. Contudo, não podemos ignorar que a longevidade biológica traz igualmente consigo os declínios hormonais, a lassidão mental e a senilidade comportamental. Uma existência mais longa não se traduz necessariamente numa melhor capacidade intelectual, nem numa consciência mais aguçada do mundo. Por vezes, significa apenas a persistência de corpos esgotados em cargos de comando, agarrados a ideologias fossilizadas e incapacitados para compreender os desafios do presente. Entre os poucos sinais positivos figuram as anunciadas alterações ao regime de aquisição da nacionalidade. As propostas recentes, mais restritivas, são bem acolhidas por aqueles que reconhecem a necessidade urgente de travar a substituição populacional em curso. No entanto, este aparente despertar é rapidamente desmentido pela pressão dos interesses económicos organizados. Como veio a público, as confederações patronais reuniram-se com o primeiro-ministro Luís Montenegro para manifestar o seu receio de que as novas regras travem a entrada de imigrantes, considerados essenciais para sustentar o modelo económico vigente.¹ ² Assim, em contradição gritante, enquanto se aponta timidamente para a preservação da identidade nacional, perpetua-se uma lógica de crescimento baseada na importação de mão-de-obra barata oriunda do Terceiro Mundo.

Tal como em muitos países europeus, a classe política portuguesa opta por soluções imediatistas, subordinadas ao conforto dos grandes interesses da hotelaria, da agricultura intensiva e do sector dos serviços, ignorando os custos sociais, culturais e civilizacionais a curto, médio e longo prazo. Este fenómeno não é exclusivo de Portugal, e a Europa como um todo encontra-se refém de gerontocracias, não apenas no sentido etário, mas sobretudo mental. As ideias dominantes envelheceram e tornaram-se hostis à continuidade da civilização que as gerou, e o envelhecimento demográfico avança a par da aversão ao esforço, da glorificação do hedonismo e do desprezo pelo trabalho. Em lugar de se promoverem políticas de responsabilidade, de redução do aparelho estatal, de alívio fiscal, de aposta em sectores de valor acrescentado como a inteligência artificial ou a automatização, insiste-se na dependência estrutural de populações exógenas, culturalmente alheias e frequentemente ideologicamente incompatíveis. A Itália de Meloni, por exemplo, prepara-se para emitir meio milhão de vistos de trabalho para cidadãos não pertencentes à União Europeia ao longo dos próximos três anos.³ A Hungria de Orbán, embora proclame uma ideologia hostil à imigração em nome da reposição demográfica interna, tem na prática adoptado uma postura paradoxal, recrutando discretamente trabalhadores estrangeiros para suprir carências no mercado de trabalho.⁴

Passámos assim da lógica do cidadão nacional, vinculado a uma herança, uma cultura e um destino comum, para a do indivíduo atomizado, abstraído da sua história e definido exclusivamente pelas suas carências materiais. O conceito de povo foi dissolvido na linguagem fria dos mercados, e o cidadão, outrora sujeito político e membro de um corpo vivo, é hoje reduzido à figura do consumidor. Tornou-se um mero actor económico, descartável, permutável, desprovido de enraizamento e alheado de qualquer dever colectivo. Neste paradigma mercantilista e despersonalizado, a nação deixa de ser um organismo moral e transforma-se num somatório arbitrário de necessidades e desejos, administrado segundo critérios de eficiência estatística e produtividade abstracta. A vida partilhada reduz-se a estatísticas e balanços, e o vínculo comunitário desfaz-se em fragmentos, dando lugar a um individualismo frio, à ilusão do conforto permanente e ao esquecimento lento de tudo o que une.

Frente a esta dissolução, importa recordar que toda a mudança autêntica nasce no foro íntimo, e não é por decreto nem por injunção externa que um indivíduo ou povo se reergue. Uma alvorada exige uma metanóia, uma verdadeira transformação interior, que ponha fim à lógica da delegação passiva e da esperança messiânica, e reabilite a vontade, o labor disciplinado, o espírito de sacrifício e a fidelidade às raízes. Apenas com esta atitude será possível romper o ciclo de decadência e entrar de novo no caminho da vitalidade e do crescimento sustentável. Sem ela, nenhuma política nos salvará, nenhuma estatística nos elevará, nenhuma fronteira nos protegerá. Se nada for alterado no íntimo do ser e na substância da cultura, permaneceremos condenados a definhar, não por força de agressão externa, mas por apatia e rendição interior. Entregues a espíritos exaustos e nutridos por ideias gastas, tornar-nos-emos estranhos na nossa própria casa e sombras errantes numa terra que já não nos reconhece. Até que o solo que nos viu nascer deixe de ser pátria viva e se transfigure, sem alarde, em relicário arqueológico daquilo que fomos. E então, quiçá demasiado tarde, choraremos a extinção da civilização que soube outrora ser altiva, harmoniosa, fecunda, intrépida e luminosa.

Referências
1- https://expresso.pt/economia/trabalho/2025-06-25-patroes-temem-que-regras-para-a-imigracao-travem-contratacoes-necessarias-depois-de-o-governo-avisar-que-a-economia-tera-de-se-adaptar-b43bf423
2 – https://sicnoticias.pt/pais/2025-07-02-video-montenegro-tem-primeira-reuniao-com-patroes-e-sindicatos-greve-e-imigracao-em-cima-da-mesa-ea3efe15
3 – https://www.reuters.com/world/italy-issue-half-million-non-eu-work-visas-over-next-three-years-2025-06-30
4 – https://www.politico.eu/article/fortress-hungary-surprising-answer-population-crisis-migration

Principais Construtores de Instrumentos para Bandas Filarmónicas

Da tradição artesanal à inovação tecnológica, os maiores construtores de instrumentos musicais moldam diariamente o som das bandas filarmónicas em todo o mundo. Este artigo apresenta os nomes que estão por trás dos clarinetes, trompetes, tubas e percussões que dão vida às nossas filarmónicas — marcas com séculos de história e uma missão comum: servir a música com excelência. Texto originalmente publicado no website da Escola de Música da Enxara do Bispo, em www.bandadaenxara.pt.

As bandas filarmónicas — orquestras de sopros e percussão de tradição civil — dependem de instrumentos de alta qualidade fornecidos por construtores reconhecidos internacionalmente. Muitos destes fabricantes possuem legados centenários e influenciaram a evolução da música de banda. Por exemplo – a empresa francesa Buffet Crampon foi fundada em 1825 e tornou-se líder global em clarinetes, celebrou em 2025 dois séculos de inovação e excelência artesanal. De forma semelhante, a japonesa Yamaha iniciou em 1887 e, ao longo de mais de um século, consolidou-se como uma das marcas mais reconhecidas e respeitadas, graças à qualidade consistente dos seus instrumentos e à enorme variedade de produtos para todos os níveis.

Antoine Courtois (fundada em 1803)
Besson (fundada em 1837)

Nas últimas décadas, o sector passou também por consolidações empresariais e avanços tecnológicos. Grandes grupos formaram-se pela fusão ou aquisição de marcas tradicionais — por exemplo, em 2006 a Buffet Crampon expandiu-se ao adquirir as históricas fabricantes de metais Antoine Courtois (fundada em 1803) e Besson (fundada em 1837), o que lhes permitiu reforçar a presença do grupo em instrumentos de metal utilizados em bandas.

Do mesmo modo, a Conn-Selmer emergiu nos EUA e uniu várias marcas lendárias sob uma mesma empresa (Selmer, Conn, Bach, King, entre outras), o que a torna actualmente na maior fabricante de instrumentos de banda nos Estados Unidos, por exemplo.

Green Line da Buffet

Em paralelo, os fabricantes investem continuamente em inovação — seja na pesquisa de novos materiais, como a madeira composta Green Line da Buffet para clarinetes, seja no design colaborativo com músicos profissionais para aperfeiçoar modelos (prática comum na Buffet, Yamaha e outras).

Observa-se ainda a internacionalização da produção: marcas tradicionais abriram fábricas na Ásia ou estabeleceram parcerias globais para responder à crescente procura — a Buffet Crampon, por exemplo, inaugurou unidades na China com grande capacidade produtiva.

Em síntese, a construção de instrumentos para banda filarmónica equilibra o respeito pela tradição artesanal com as exigências modernas de qualidade e inovação. De seguida

destacamos alguns dos principais fabricantes actuais e o seu contributo para o universo filarmónico.

Buffet Crampon (França)

Fundada em Paris em 1825, a Buffet Crampon tornou-se líder mundial na construção de clarinetes, detendo cerca de 85% do mercado profissional de sistema Boehm. Os músicos apreciam-na pela afinação precisa, timbre apurado e mecânica fiável. O modelo E11, de nível intermédio, é amplamente utilizado em bandas filarmónicas.

Além dos clarinetes, produz saxofones, oboés e fagotes. Desde os anos 2000, o grupo passou a integrar também a Besson (cornetas, eufónios, trombones) e a Antoine Courtois (trompas e trombones), oferecendo uma gama completa de metais. Os modelos Tosca e Divine exemplificam o trabalho colaborativo com clarinetistas profissionais.

Conn-Selmer (Estados Unidos)

Fábrica da Conn-Selmer no Indiana, EUA

A Conn-Selmer, sediada no Indiana, é a maior fabricante americana de instrumentos de sopro e percussão. Resulta da fusão de marcas históricas como Conn, Selmer, Bach e King. A empresa produz instrumentos desde o nível estudantil até aos modelos profissionais artesanais.

Na fábrica de Eastlake (Ohio) constroem-se trompetes, trombones, sousafones, eufónios, tubas e mais. A empresa valoriza a educação musical, com modelos robustos para escolas e uma ligação forte ao mundo profissional (ex.: trompetes Bach Stradivarius, trombones Conn).

Miraphone (Alemanha)

Funcionários da Miraphone

A Miraphone, fundada em 1946, é referência mundial em tubas, eufónios e outros metais graves. Os seus instrumentos são construídos artesanalmente na Alemanha, conjugando tradição com inovação.

O modelo Miraphone 186 é uma das tubas BB♭ mais prestigiadas. A marca trabalha com músicos através da Miraphone Academy para ajustar ergonomia, resposta e timbre. As suas tubas e eufónios são amplamente usados em bandas sinfónicas profissionais.

Yamaha (Japão)

A Yamaha, fundada em 1887, é reconhecida pela fiabilidade e pela amplitude da sua oferta — produz instrumentos para estudantes e profissionais em todas as famílias de sopros e percussão.

Linhas como Yamaha Custom EX (saxofones), Xeno (trompetes) e Chicago/NY (artistas) destacam-se nos palcos internacionais. A marca investe em I&D com músicos de referência, inova no design e apoia a educação musical com programas e materiais pedagógicos.

Adams Musical Instruments (Países Baixos)

Adams Big Sound Paukenfabriek (fábrica de tímpanos)

A Adams Musical Instruments, sediada nos Países Baixos, conquistou renome internacional sobretudo na área da percussão de concerto e, mais recentemente, nos metais artesanais. Fundada em 1970 por André Adams, a empresa evoluiu de um pequeno atelier para se tornar reconhecida como líder mundial em percussão sinfónica profissional, fornecendo tímpanos, marimbas, xilofones, vibrafones e outros instrumentos a orquestras e bandas em todo o mundo.

O slogan da marca – “The Sound of Quality” – reflecte a filosofia de produzir instrumentos com o mais alto rigor sonoro e de construção.

Com mais de 40 anos de experiência, a Adams é hoje uma referência incontornável em design e inovação destes instrumentos.

As suas marimbas e vibrafones são fabricados com materiais seleccionados (como pau-rosa hondurenho de qualidade superior) e com engenharia acústica avançada, o que lhes garante presença assídua em palcos de concerto e nos naipes de percussão de bandas filarmónicas.

Paralelamente à percussão, a Adams consolidou-se também como fabricante de instrumentos de metal de alto padrão, construídos artesanalmente na fábrica de Ittervoort. A linha Adams Brass inclui trompetes, fliscornes, eufónios e tubas, muitas vezes personalizados segundo as preferências dos músicos.

Esta abordagem resultou na adopção dos instrumentos Adams por solistas de renome, como Steven Mead, o que valoriza a resposta e riqueza sonora.

A colaboração com instituições académicas e artistas é central na filosofia da Adams, o que permite melhorias contínuas nos instrumentos tal como a consolidação a reputação da marca em contexto profissional e educativo.

Outros Fabricantes Notáveis

  • Besson (Reino Unido / França) – Fundadora do sistema compensado moderno para eufónio. Especializa-se em instrumentos solistas e baixos de metal, amplamente utilizados em brass bands e bandas filarmónicas.
  • Henri Selmer Paris (França) – Referência mundial em saxofones e clarinetes, com modelos icónicos como o Mark VI e o Supreme. Fabricados artesanalmente.
  • Jupiter (Taiwan) – Fabricante emergente com grande presença no ensino musical. Oferece instrumentos robustos com excelente relação qualidade/preço.

A vitalidade das bandas filarmónicas está directamente ligada à qualidade dos instrumentos utilizados. Marcas como Buffet Crampon, Conn-Selmer, Miraphone, Yamaha, Adams e outras moldam diariamente o som das bandas pelo mundo.

Uma história inspiradora – Schagerl a marca austríaca

Numa pequena aldeia da Baixa Áustria chamada Mank, longe das grandes cidades e dos centros industriais, nasceu em 1961 uma oficina de instrumentos musicais que viria a tornar-se uma das mais respeitadas fabricantes europeias de instrumentos de sopro. A história da Schagerl começou de forma discreta e humilde, quando Karl Schagerl e a sua esposa Josefa abriram uma pequena loja onde vendiam e reparavam instrumentos, destinados essencialmente as bandas filarmónicas e músicos locais.

Desde o início, a dedicação à qualidade e ao rigor artesanal tornou-se um princípio fundamental.

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o negócio familiar expandiu-se cuidadosamente. Foram contratados outros artesãos, foi aumentada a capacidade de produção e aperfeiçoando técnicas próprias na construção de violinos, trompetes e fliscornes. Neste período, a Schagerl conseguiu atrair a atenção de músicos reconhecidos, elementos da Filarmónica de Viena como Helmut Wobisch e Carol Dawn Reinhart. Estes músicos apreciavam especialmente a precisão, sonoridade e qualidade dos instrumentos fabricados pela pequena oficina austríaca.

 Trompete rotativo – Gansch Horn

Em 1989, Karl Schagerl júnior assumiu a gestão da empresa, introduzindo uma nova dinâmica. Sob a sua liderança, a Schagerl começou a produzir instrumentos inovadores, como o trompete rotativo conhecido como “Gansch Horn”, criado em colaboração com Thomas Gansch, famoso membro do grupo Mnozil Brass. Esta colaboração representou uma viragem na história da empresa, que passou a trabalhar regularmente com músicos profissionais de renome internacional para aperfeiçoar continuamente os seus modelos.

Com o crescimento do reconhecimento internacional, a Schagerl ampliou a sua produção, naturalmente, com a combinação de técnicas artesanais tradicionais com tecnologias modernas, como máquinas CNC, e sempre com uma atenção meticulosa aos detalhes e à qualidade sonora. A marca conseguiu estabelecer-se no mercado profissional, oferecer linhas personalizadas para músicos exigentes, bem como séries educacionais acessíveis, destinadas a jovens músicos e bandas filarmónicas.

A Schagerl também assumiu um papel activo na comunidade musical – organizou desde 2008 o Schagerl Brass Festival, um evento que reúne músicos conceituados de todo o mundo para workshops, concertos e intercâmbio de experiências. Esta iniciativa reforçou o compromisso da empresa com a cultura local e a educação musical, e contribuiu para a divulgação internacional da aldeia onde tudo começou.

Actualmente, a Schagerl continua sediada em Mank, onde emprega dezenas de artesãos que produzem anualmente centenas de instrumentos vendidos em todo o mundo.

A marca tem conseguido manter-se fiel às suas raízes artesanais e ao contacto directo com músicos. A história da Schagerl serve de inspiração para pequenas empresas e pode levá-las a acreditar que é possível crescer com autenticidade, qualidade e respeito pela tradição.

Ligações úteis:

A construção da imagem de Camões como herói da pátria

Em 1825, Almeida Garrett publicou o poema Camões. Em sintonia com as comemorações do quinto centenário do nascimento do poeta Luís de Camões, não podemos deixar de lhe associar a efeméride do segundo centenário da edição da obra inaugural do Romantismo em Portugal. Com efeito, se não fosse Camões, que outro autor teria sido elegido como mito patriótico e herói supremo da nação? Inspirou autores, artistas e políticos, o Estado erigiu-lhe uma estátua em Lisboa e, em 1880, as suas ossadas foram trasladadas para o Mosteiro dos Jerónimos, com as de Vasco da Gama, o herói da epopeia camoniana.

No início do século XIX, poucos anos após Bocage ter composto o soneto “Camões, grande Camões” e prenunciado a idiossincrasia romântica no que diz respeito à urgente reabilitação do poeta-soldado renascentista e da sua obra, após séculos de censura inquisitorial, começa a sentir-se uma extrema admiração por este autor, cujo exemplo patriótico será evocado de forma progressiva sob as mais variadas formas de arte, como é o caso da literatura, da pintura, da música ou da escultura. Em 1817, José Maria de Sousa Botelho, morgado de Mateus, patrocina uma luxuosa edição em dois volumes ilustrados de Os Lusíadas, impressa na tipografia parisiense Firmin Didot; entre esse ano e o seguinte, o pianista Domingos Bomtempo compõe a Missa de Requiem em Dó Menor, Opus 23, uma celebração fúnebre à memória de Camões.

Após a revolução liberal de 1820, a crescente admiração pelo génio de Camões, considerado a partir deste período um modelo supremo de patriotismo, inspira diversos autores e artistas a representar e a divulgar alguns episódios da sua vida, em particular o momento dramático da sua morte. Em 1824, Domingos Sequeira expôs a pintura A morte de Camões no “Salon” do Louvre, premiada com uma medalha de ouro. Tendo desaparecido o original, restaram apenas dois estudos, um dos quais está exposto no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa; nesse desenho, feito a carvão e giz branco sobre papel (35,5×42,2 cm), podemos observar Camões débil e em tronco nu, sentado na sua enxerga com a face e os braços erguidos ao alto, à luz ténue duma vela, no momento em que recebe a notícia da perda da independência de Portugal.

Morte de Camoes  Esboço de Domingos Sequeira, desenhado em 1825.jpg

Imagem 1: Domingos Sequeira, A morte de Camões (Fonte: MNAA)

O século XIX foi, de facto, testemunhando a ascensão do culto camoniano e a admiração crescente pelo génio criativo do poeta-soldado renascentista. Em 1825, o Romantismo foi introduzido na literatura portuguesa com a publicação da obra Camões, um poema épico em dez cantos, composto em 1824 por Almeida Garrett, durante o seu sofrido, mas culturalmente enriquecedor, exílio em França, devido às suas opções pela causa liberal. Em seis décadas, esta obra teve oito edições: 1825 (Paris: Livraria Nacional Estrangeira); 1839 (Lisboa: Tipografia de José Baptista Miranda); 1844 (Lisboa: Imprensa Nacional); 1854 (Porto: Livraria Chardron); 1858 (Lisboa: Viúva Bertrand e Filhos); 1863 (Lisboa: Viúva Bertrand e Filhos); 1880, integrada nas comemorações camonianas e prefaciada por Camilo Castelo Branco (Porto: Livraria de Ernesto Chardron); e 1886 (Lisboa: Imprensa Nacional).

No início da Advertência ao seu poema, Almeida Garrett proclama a originalidade nele contida ao quebrar com os preceitos clássicos, e compara o seu processo de composição ao modo como os nautas lusos desbravaram novos mares. Nesta mesma Advertência, o autor sublinha ainda a sua liberdade: “Não sou clássico nem romântico: de mim digo que não tenho seita, nem partido em poesia (assim como em cousa nenhuma)” (Garrett 1973, 29). Com estas palavras, o pioneiro da escola romântica em Portugal pretende afirmar a sua autonomia, tanto em relação às estritas regras aristotélicas e horacianas da mimesis clássica, como ao estilo florescente de Walter Scott e Byron.

A educação de Almeida Garrett havia tido uma componente arcádica, através das leituras de clássicos gregos, como Horácio, Ésquilo, Eurípedes ou Sófocles, bem como de clássicos franceses, como Racine ou Voltaire. Assim se explica que as suas primeiras obras – Lucrécia (1819), Mérope (1820) e Catão (1821) – tenham sido tragédias clássicas. Em 1825, Garrett não renega a sua formação cultural e literária no classicismo, nem se declara romântico; com efeito, apesar das características românticas já contidas no poema, tais como a intensidade emocional, a quebra das regras clássicas ao nível da estrutura, da rima, dos atributos dos heróis épicos e trágicos, ou das valorização de personagens de baixa condição, Garrett não renuncia aos arcaísmos classicizantes. Na verdade, o patriarca da primeira geração romântica em Portugal entende que uma composição poética deve estar em conformidade com as prescrições recomendadas por Horácio na sua Arte Poética: tal como a abelha vai, de flor em flor, em busca do melhor pólen para obter o mel mais saboroso, também Garrett tenta conciliar em simultâneo a tradição dos grandes autores clássicos com a moderna escola romântica. Na defesa intransigente dos valores da individualidade e da afirmação do sujeito, é esta a ideia que defende para a poesia: originalidade e liberdade de imaginação.

O poema extenso Camões inspira-se na vida atribulada de Luís de Camões e na composição da sua obra épica, no qual sustenta a representação de um génio incompreendido pelas forças do poder, anatematizado pela má Fortuna e proscrito da sua pátria amada. Os dez cantos do poema garrettiano revelam, desde logo, um alinhamento com a estrutura formal d’Os Lusíadas, sendo cada um iniciado com uma epígrafe extraída da epopeia camoniana, à excepção do canto V, encabeçado por dois versos do soneto “Alma minha gentil que te partiste”. Como explicação desta intertextualidade camoniana por parte de Almeida Garrett, recorremos às palavras do crítico literário Carlos Reis: “para Garrett, restaurar o discurso camoniano, pela citação ou epígrafe, pela paráfrase ou pelo pastiche, correspondia também à recuperação da necessidade da epopeia, senão como género, pelo menos como estímulo para a revitalização da Pátria;” (Reis 1982, 73).

O Canto I é iniciado com a palavra “saudade”, que é, tal como é definida no primeiro verso, um “gosto amargo de infelizes” sentido em simultâneo quer pelo autor, quer pelo herói do poema, pois ambos experimentaram o acerbo distanciamento da pátria. À semelhança do que sucede com a típica invocação aos deuses feita nos primeiros versos das epopeias clássicas, a quem os seus autores rogavam inspiração, a saudade adquire aqui um estatuto de divindade, uma espécie de entidade misteriosa que dá ânimo à tristeza do autor; a saudade, uma doce e melódica palavra enunciada apenas em português, para a qual não existe tradução fiel em outras línguas, é esse ente sobrenatural que faz aproximar amigos e apaixonados ausentes e que permite que um poeta degredado “voe”, por breves momentos, desde o Sena, à beira do qual se encontra, até ao Tejo, símbolo da sua terra amada.

Após o lamento inicial de saudade, este canto prossegue com a narração do regresso de Camões a Lisboa, na companhia do seu escravo, após ter deambulado pelo Oriente durante quase duas décadas. Imbuído de cenas melancólicas e paisagens lúgubres, o canto II descreve o funeral de Natércia (anagrama de Caterina de Ataíde, dama da corte), uma das mulheres que o poeta teria cortejado. Nos cantos seguintes, Camões dirige-se a Sintra, a fim de apresentar a D. Sebastião a sua epopeia, que resgatou de um naufrágio e entende ser útil à pátria. Através de uma sequência de paráfrases, é narrada a viagem de Vasco da Gama e os seus principais eventos, em paralelo com o próprio desterro do poeta, revelando, uma vez mais, a simultaneidade de dois heróis épicos. Pelo meio, é mencionada a exuberante beleza de Sintra, com uma referência ao poeta romântico inglês Lord Byron, o bardo misterioso que havia dado a conhecer aquele espaço edénico quando o visitou e mencionou no seu poema Childe Harold’s Pilgrimage, publicado em 1818. Nos cantos VII e VIII, presenciamos Camões a declamar, perante o jovem rei, alguns episódios de Os Lusíadas.

Neste poema, Almeida Garrett explora não só a história de um poeta talentoso perseguido pelo infortúnio, mas também os estados de espírito do Jau, o bom e fiel escravo que mendigava pelas ruas de Lisboa, na calada da noite, para aplacar a fome do seu senhor e amigo. Assim, esta obra poética aborda, de uma forma pioneira na literatura portuguesa, o tema da escravatura, um negócio que iria ser gradualmente reduzido a partir do momento em que o marquês de Sá da Bandeira promulgou, em Dezembro de 1836, um decreto que proibia a exportação e a importação de escravos em todos os domínios portugueses, encerrando o envolvimento de Portugal nessa “nódoa indelével na história das Nações modernas”.

Até ao início do século XIX, pouco havia sido escrito a propósito da relação de Camões com o Jau (ou António, também assim chamado desde o seu baptismo cristão), o escravo javanês que adquiriu durante a sua permanência na ilha de Moçambique, a meio da sua jornada de repatriamento de Goa para Portugal, ou sobre qualquer espécie de emoção nascida dessa convivência. No início do século XVII, o padre Pedro de Mariz (1550-1615), autor do primeiro esboço biográfico de Camões, incluído na edição de 1613 de Os Lusíadas, menciona que Jau mendigava à noite nas ruas de Lisboa. No seu texto, Mariz transcreve o conteúdo de uma carta escrita por Camões ao fidalgo Rui Dias da Câmara, onde lhe pede desculpa pelo atraso na trasladação de alguns salmos penitenciais, e acrescenta ainda que estava pobre e a receber auxílio de um escravo chamado Jau: “quando fizera aqueles cantos, era mancebo, farto e namorado, querido e estimado, […], e que agora não tinha espírito, nem contentamento para nada, porque ali estava o seu jau que lhe pedia duas moedas para carvão, e ele as não tinha para lhas dar.” (Mariz 1613).

Este silêncio em torno da relação entre Camões e o seu escravo mudou com a proclamação do liberalismo em Portugal. Com efeito, a partir do momento em que a Constituição Política de 1822 estabeleceu a abolição da censura e a liberdade de imprensa, autores e artistas utilizaram a sua liberdade de expressão para dar vida a heróis históricos sob as mais diversas formas de arte, a fim de dotar a identidade nacional de um passado glorioso. O movimento romântico desse período rompeu com a tradição clássica e privilegiou a emoção, em detrimento da razão. Os artistas abraçaram os ideais de justiça e tolerância, juntamente com sentimentos antiescravistas, e começaram a pensar de forma diferente em relação à cor da pele e à raça. Essas correntes de historicismo, orgulho nacional e emocionalidade convergiram em algumas representações literárias e artísticas do convívio do poeta renascentista com o seu servo javanês ao longo de uma década.

Em Camões, Garrett atribui uma importância excepcional a momentos da vida do poeta após o seu regresso do Oriente e ao papel desempenhado pelo seu escravo Jau. Garrett atribui a este último não apenas um nome – António – e atributos morais, mas também uma voz activa, presente ao longo do poema. Longe de ser uma personagem secundária no poema garrettiano, o Jau é frequentemente destacado na acção principal; em termos narratológicos, é o adjuvante do herói, o companheiro e amigo que nunca o abandona, permanecendo fielmente ao seu lado até ao fim dos seus dias. Garrett induz, assim, os seus leitores a identificarem-se com os traços de personalidade do escravo, tais como honestidade, humildade, integridade, bondade e lealdade. Esta afeição criada entre o herói nacional e o seu servo pode, eventualmente, ainda ser considerada à luz do contexto colonial do Império Português, que tinha ficado reduzido após a declaração da independência do Brasil em 1822. Almeida Garrett tenta demonstrar a legitimidade de uma ideologia patriótica e colonialista através do relevante papel desempenhado por um escravo honrado e aquiescente.

O poema termina com os pungentes momentos finais da vida errante de Camões: “Arqueja exangue, / Definha à míngua, só, desamparado / Dos amigos, do rei, da pátria indigna, / O cantor dos Lusíadas.” (Garrett 1973, 175). Nos últimos versos do canto X, encontramos o patriotismo, o grande traço identitário do pensamento garrettiano, duplamente consolidado na ideologia liberal e no temperamento romântico, que está patente nas derradeiras palavras proferidas por Camões antes de perecer, em simultâneo com a perda da independência de Portugal: “Os olhos turvos para o céu levanta; / E já no arranco extremo: – «Pátria, ao menos / Juntos morremos…» – E expirou coa Pátria.” (Garrett 1973, 188).

A partir desta obra poética de 1825, que assinala a introdução do Romantismo em Portugal, irá desenvolver-se uma profunda admiração pelo poeta quinhentista, que já vinha sendo demonstrada por meio de outras formas artísticas, já aludidas no início do texto. António Feliciano de Castilho, escritor e pedagogo da primeira geração romântica, também se sentiu impelido a preencher as enigmáticas omissões biográficas da vida de Camões. Durante a sua permanência na ilha de São Miguel, em finais da década de 40, Castilho escreveu Camões: Estudo Histórico-Poético, um drama sobre a vida atribulada do poeta. Publicada em 1849, esta obra em três volumes envolve o escravo Jau, descrevendo-o como “mancebo robusto, impetuoso e poético”, com “briosa segurança na postura, nos movimentos e no falar”, apresenta algumas ideias para homenagear a memória de Camões e preservar o seu legado histórico-cultural, e propõe recuperar os seus restos mortais e trasladá-los para um mausoléu.

No período da Regeneração e da política fontista, permanece o sentimento patriótico, e alguns autores e artistas também procuram ilustrar, ao longo da segunda metade do século XIX, a vida aventurosa de Camões, sobretudo o período amargurado dos seus derradeiros anos.

Imagem 2: Francisco Metrass, Camões na gruta de Macau (Fonte: MNAC)

Em 1853, Francisco Metrass, o mais legítimo representante da pintura romântica em Portugal, pinta o quadro Camões na gruta de Macau. Nesta pintura a óleo sobre tela (1,63×1,32 m), exposta no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, o poeta parece meditar no poema que o consagrará como vate da nação; a pena na sua mão direita e a espada a seus pés patenteiam o tema clássico das Armas e das Letras, os dois honoráveis talentos que um autêntico herói deve praticar com elevada destreza, e consubstanciam a sua própria vida, numa clara alusão aos derradeiros versos da epopeia camoniana: “Pera servir-vos, braço às armas feito, / Pera cantar-vos, mente às Musas dada.” (Os Lusíadas, X, est. 155). O seu escravo Jau, de semblante tímido e melancólico, é o único a seu lado.

Camões no leito da morte, uma litografia a preto e branco (34,5 x 50 cm) composta em 1861 por um artista de nome Cupertino, representa também os derradeiros momentos do poeta renascentista: temos aqui a imagem de um poeta envelhecido, débil, andrajoso e abatido, que recebe a visita de um nobre, presumivelmente o seu amigo Gonçalo Coutinho, que lhe transmite a notícia da perda da independência de Portugal. Enquanto descansa na sua humilde enxerga, Camões tem a seu lado um homem que o ampara e cujas características físicas se assemelham às representações tradicionais dos indígenas javaneses: cabelo delgado, olhos rasgados, e bigode e pera ao estilo oriental.

Uma imagem com quadro, Cara humana, vestuário, desenho

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Imagem 3: Cupertino, Camões no leito da morte (Fonte: BNP)

Em 1875, Eça de Queiroz publica O crime do Padre Amaro. Ao longo deste romance, o protagonista Amaro consegue adaptar-se sempre ao meio que o rodeia, tanto em Leiria como na passagem por Lisboa, em Maio de 1871, por altura dos eventos sanguinários da Comuna de Paris. No último capítulo, vemos o jovem sacerdote perto da estátua de Camões no Largo do Chiado, da autoria do escultor Victor Bastos, que havia sido inaugurada em 1867. Como exemplo superior deste retrato de degeneração nacional, junto ao pedestal da imponente estátua, encontram-se o padre Amaro e o cónego Dias, os mandatários da Igreja que acompanham o conde de Ribamar, representante do poder temporal e da classe aristocrática, que discursa sobre a prosperidade económica de Portugal. Nos últimos parágrafos, surge uma visão paradoxal: determinado em denunciar o lado sórdido da sociedade, o narrador repõe a verdade e mostra as pessoas que por ali circulam, ociosas e consumidas por vícios que causavam a degenerescência da raça e o definhamento da indústria. No plano derradeiro da obra, a pequenez daquela tríade de personagens medíocres e abstraídas da realidade, um símbolo da aliança entre o trono e o altar, contrasta ironicamente com a estátua de Camões, a evocar a epopeia marítima que, em tempos remotos, uma nação destemida havia concretizado.

Em 1880, o patriotismo, após o extremo valor que o regime liberal e a escola romântica lhe haviam dado, adquire uma nova dimensão política quando o movimento republicano também dele se apropria. Com efeito, na década de 80, o sentimento nacionalista torna-se um dos principais instrumentos do Partido Republicano Português, cuja linha ideológica é assinalada, neste período, pelo encorajamento à celebração dos grandes heróis da História, tal como sucedera em França com as homenagens prestadas aos filósofos Voltaire e Rousseau. Neste sentido, como forma de sublinhar os feitos grandíloquos do passado, a fase propagandística do PRP principia justamente com as comemorações do tricentenário da morte de Camões e a homenagem aos protagonistas dos descobrimentos marítimos, encabeçadas por Teófilo Braga.

Na edição de Outubro-Novembro de 1879 da revista portuense O Positivismo, dirigida por Teófilo Braga e Júlio de Matos entre 1878 e 1882, encontra-se o texto “O centenário de Camões em 1880”, onde Teófilo Braga propõe a união das forças civis para festejar condignamente a efeméride de Camões. O ideólogo republicano destaca a importância de se comemorar o 10 de Junho, em homenagem à grandeza poética e ao patriotismo exemplar do “santo laico da República” (Medina 1986, 18). Teófilo Braga critica o regime monárquico, denuncia o estado decadente da nação, mas mantém a confiança no futuro ao evocar Os Lusíadas, a inspiradora “bíblia” do povo e fonte de energia para a alma lusitana. Teófilo Braga procura, assim, consolidar a genialidade intemporal de Camões e enquadrar os festejos do seu centenário num enquadramento republicano e laico.

As comemorações do terceiro centenário da morte de Camões são, com efeito, uma excelente oportunidade de acção cívica por parte dos dirigentes republicanos, através de cortejos ao monumento do poeta, de edições literárias e outros eventos culturais. Neste mesmo período, o cronista gráfico Rafael Bordalo Pinheiro dá também um enorme impulso à propaganda republicana. As suas caricaturas, plenas de humor corrosivo, vão revelando o crescimento gradual do republicanismo, apostado em derrubar o regime monárquico por via eleitoral. Apesar de procurar manter algum distanciamento em relação às instituições político-partidárias, Bordalo manifestou muitas vezes a sua afinidade com a causa republicana, o que o levou a declinar, em 1886, a comenda régia da Ordem de São Tiago.

A 12 de Junho de 1875, Bordalo Bordalo inaugura a figura de Zé Povinho numa caricatura publicada na gazeta satírica A Lanterna Mágica. A partir desta data, Zé Povinho torna-se uma representação antropológica do português típico, com todas as idiossincrasias negativas de fraqueza, iliteracia, rudeza e conformismo. Nomeado com um duplo diminutivo, este pobre estereótipo simboliza a forma como o povo é continuamente iludido pela classe dirigente, e acaba por entrar no combate político ao tornar-se, segundo o historiador e crítico de arte José-Augusto França, “um porta-voz dos sentimentos republicanos” (França 1993, 562).

A 17 de Junho de 1880, Bordalo publica no jornal O António Maria, do qual era director, a “Crónica do Centenário”, uma caricatura em plena sintonia com os festejos camonianos e inserida num amplo conjunto de protestos desencadeados contra o regime monárquico. A este propósito, o historiador João Medina tece o seguinte comentário: “Nasceu de facto o nosso republicanismo com o tricentenário da morte do Poeta e as verdadeiras festas populares promovidas pelos republicanos, festejos que logo tiveram um cunho anti-brigantino, como o resumiu num “cartoon” o cronista gráfico da época, Rafael Bordalo Pinheiro […]” (Medina 1990, 21). Nesta ilustração bordaliana, Camões tem um barrete frígio na cabeça, ou seja, está simbolicamente convertido à ideologia republicana. A partir deste momento, assinalado de forma tão “caricata”, o poeta fica associado ao republicanismo e transforma-se, segundo a excelente metáfora que Eduardo Lourenço utiliza na sua obra O Labirinto da Saudade, numa “máquina de guerra ideológica contra a Monarquia […].” (Lourenço 1978, 163). Bordalo coloca Camões num plano de destaque, à frente do povo exultante, e menospreza os representantes da monarquia portuguesa, incluindo o rei D. Luís e Anselmo José Braamcamp, chefe do Governo, relegados para um canto; com efeito, o monarca e o seu governo haviam entendido que as comemorações camonianas eram uma iniciativa republicana e alhearam-se das cerimónias, facto que Bordalo Pinheiro não deixou de salientar na legenda inserida: “Camões agradece aos altos poderes do Estado não terem ido à sua procissão e terem-no feito republicano, com o qual muito ganhou a ideia”.

Entre outros importantíssimos tributos político-culturais que assinalaram estas comemorações, é de referir que as ossadas do poeta, juntamente com as de Vasco da Gama, o grande herói da epopeia camoniana, foram trasladadas para o Mosteiro dos Jerónimos, Cesário Verde publica o “O Sentimento dum Ocidental”, sai a sétima edição de Camões, de Almeida Garrett, prefaciada por Camilo Castelo Branco, e Gomes Leal edita A fome de Camões, em cujo poema extenso também é exposta a dependência económica do poeta em relação ao seu escravo. Com efeito, no século XIX, a veia romântica ampliou o espaço das emoções na cultura ocidental. No contexto de uma revolução liberal, que conduziu à abolição da escravatura, um crescente respeito pelo génio criativo de Camões inspirou autores e artistas a iniciar o processo de tornar este poeta uma lenda nacional e um grande exemplo de patriotismo. Com base no tema clássico do herói solitário e do seu fiel ajudante, e dando continuidade ao mito do Bom Selvagem, uma teoria do homem incivilizado atribuída a Rousseau, foram reinventados alguns aspectos da vida do poeta-soldado, incluindo a ênfase no desempenho do seu servo. Através do poderoso veículo de imaginação explorado por Almeida Garrett, este escravo denominado Jau – ou António – é o exemplo pioneiro das escassas representações da escravatura na literatura e arte em Portugal.

No século XX, já sob regime republicano, Camões assombrou o pensamento de Fernando Pessoa, continuou a marcar a cultura portuguesa e a manter-se como paradigma patriótico, com o empenho dos vários poderes políticos: o Estado Novo, liderado por Oliveira Salazar, passou a assinalar a data de 10 de Junho como “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”; após a Revolução dos Cravos, o regime democrático deu-lhe um sentido mais amplo, convertendo-o em “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”; no último quartel deste século, criou-se o Instituto Camões, um organismo público que tem divulgado e ensinado a língua portuguesa pelos quatro cantos do mundo, e instituiu-se o Prémio Camões, o maior galardão com que, anualmente, o Estado laureia os autores de países lusófonos que contribuem para o engrandecimento literário e cultural da língua portuguesa. Vários poetas de renome o celebraram em seus versos, tais como Sophia de Mello Breyner Andresen, Miguel Torga, Manuel Alegre, Herberto Helder, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira ou José Saramago.

Ao longo dos dois últimos séculos, Camões tem sido, portanto, o autor mais usado pelas diversas forças políticas, tanto em regime monárquico como republicano, e o seu exemplo supremo de patriotismo levou diversos autores e artistas a representar alguns episódios da sua vida sob as mais variadas formas de arte, como é o caso da literatura, da pintura, da música ou da escultura. Em pleno século XXI, com a obra deste poeta da diáspora lusa e da miscigenação entre os povos do mundo traduzida nas mais diversas línguas, estudada em várias universidades internacionais, algumas das quais criaram cátedras com o seu nome, e referência incontornável na literatura universal, vários eventos têm celebrado os 500 anos do seu nascimento. Para além de alguns problemas ocorridos com o Comissariado-Geral para as comemorações camonianas em 2024, deu-se também a contrariedade de esta efeméride ter coincidido justamente com os 50 anos da Revolução dos Cravos e da implementação da democracia em Portugal, um evento que ofuscou as comemorações camonianas e lhes retirou algum destaque.

Independentemente de todos os contratempos e constrangimentos, de uma coisa podemos estar certos: continuarão a ser debatidas questões do cânone e do corpus da lírica camoniana, que, segundo Aguiar e Silva, contêm o mais complexo problema textológico de toda a literatura portuguesa; para além disso, continuaremos a abordar, na sua obra, temas como o renascimento, o petrarquismo, o amor, a saudade, a natureza, o destino, a mitologia, a mudança e o desconcerto do mundo; e surgirão novas traduções da obra camoniana para diferentes línguas, bem como múltiplos estudos, ensaios ou biografias.

E a nível didáctico, qual é o lugar destinado a Camões e qual a representatividade da sua obra nos programas e metas curriculares de Português para o ensino secundário? Como estudar este poeta e o que estudar na sua obra? Ensinar Camões a jovens de 14 e 15 anos é, neste século marcado pela globalização, um desafio duplamente complexo: por um lado, a crescente e generalizada desmotivação para a leitura; por outro lado, uma maior heterogeneidade nas salas de aula, com cada vez mais alunos oriundos de vários continentes e nacionalidades, que possuem competências linguísticas, crenças religiosas e contextos culturais muito diversos.

Apesar dos novos desafios que se verificam nas salas de aula ao nível dos perfis assimétricos das novas gerações de alunos, Camões tem resistido às revisões de programas e metas curriculares, e mantém-se inabalável no cânone literário escolar, cujos textos, reconhecidos como modelo edificativo de escrita, contribuem bastante para a educação literária e para um melhor desempenho da escrita e da oralidade. A lírica e a épica camonianas continuarão a ser dadas a conhecer aos alunos do 9º e 10º anos de escolaridade, servindo os propósitos do ensino de literatura, história, retórica, estilística e sintaxe, e os programas escolares continuarão a incluir o texto camoniano, por ser uma grande fonte de estudo gramatical: como classificar e dividir as orações, identificar as figuras de estilo, ou, na métrica, saber distinguir a medida velha do verso decassilábico.

Todos os regimes políticos são efémeros, mas o génio de Camões perdurará ao longo dos tempos. Independentemente das políticas culturais e pedagógicas, o seu filão inextinguível continuará a oferecer novos mares por desbravar na literatura e na arte, e o seu nome estará sempre associado à diáspora dos portugueses e da sua língua. Perante a qualidade insofismável da obra camoniana, continuaremos a espalhar por toda a parte o engenho e arte deste poeta, e a ouvir o português a ser comummente designado como “a língua de Camões”. Enfim, o nosso poeta-soldado, que pela sua obra valorosa da lei da morte se libertou, continuará a ser uma sinédoque de Portugal e uma marca incontornável da cultura portuguesa.

Referências bibliográficas

Braga, T. (1879). “O centenário de Camões em 1880”. O Positivismo. 1 (II ano), Outubro-Novembro.

França, J.-A. (1993). O Romantismo em Portugal – Estudo de factos socioculturais. 2ª edição. Lisboa: Livros Horizonte.

Garrett, A. (1973). Camões. Lisboa: Livros Horizonte.

Lourenço, E. (1978). O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Mariz, P., (1613). “Ao estudioso da lição poética,” in Os Lusíadas do grande Lvis de Camoens, Príncipe da poesia heróica. Lisboa: Pedro Crasbeeck.

Medina, J. (1990). “Oh! a República!…. Estudos sobre o Republicanismo e a Primeira República Portuguesa, Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica.

Medina, J. (1986). “Zé Povinho e Camões: dois pólos da prototipia nacional”. Colóquio – Letras, 92, Julho, pp. 11-21.

Reis, C. (1982). “Intertextualidade e ideologia: uma imagem romântica de Camões”, in Construção da leitura. Ensaios de metodologia e de crítica literária. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, pp. 59-73.

Edição: Julho 2025

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Sobre a unidade poética no sujeito da obra “Isilda”, uma empregada de caixa registadora, na forma como ela reflexiona e apresenta uma leitura dos gestos, atitudes, expressões faciais, dos clientes frequentes, não só através das suas características mas também dos produtos consumidos ou em falta.

Os funnnies deste mês, só com factos.

Fotografia de Louisine Havemeyer (1855–1929), uma das mais influentes colecionadoras e patronas de arte norte-americanas do final do século XIX e início do XX. Herdeira de uma grande fortuna industrial, destacou-se pelo seu papel pioneiro na introdução do impressionismo francês nos Estados Unidos, incentivada pela amiga Mary Cassatt, que a orientou nas aquisições de obras de Manet, Monet, Degas e Renoir. Ao lado do marido, Henry Havemeyer, reuniu uma das mais importantes coleções privadas da época, abrangendo pintura europeia, arte decorativa e peças asiáticas, cuja qualidade rivalizava com a de museus. A sua generosidade culminou em significativas doações ao Metropolitan Museum of Art, que transformaram a instituição numa referência internacional, consolidando o seu legado como mecenas visionária e promotora do gosto moderno na América.

Cronologia de Batalhas do Reino de Portugal de 1128 a 1200, com rácio Vitória/Derrota.

1127 – Cerco de Guimarães por Afonso VII (V)

1128 – Batalha de S. Mamede (V)

1130 – Expedição de Afonso VII a Límia e Toronho (V/D)… 

…1131 – Revolta de Bermudo Peres de Trava (V)

1131 – Investida de Tashfin e Ibn Ganum em Évora (V)

1132 – Incursão à Andaluzia por forças cristãs (D – foram intersetadas em Évora)

1133 – Assalto mouro a Idanha-a-Nova (D – foi abandonada)

1134 – Expedição cristã a Badajoz, Évora e Beja (D)

1136 – Fossado da Ladeia (V)

1136 – Presúria da Ladeia, por Fernão Peres Cativo (V)

1137 – Combate em Serpa com o caudilho de Toledo (V)

1137 – Batalha de Cerneja (V)

1137 – Fossado cristão em Tomar e Nabão (V)

1137 – Ataque de Ibn´Umar em Leiria e Coimbra (V)

1139 – Batalha de Ourique (V)

1140 – Ofensiva almorávida no Porto (V – capturam alguns homens importantes mas não conquistam a Cidade)

1140 – Investida almorávida no Castelo de Leiria (D)

1140 – Ataque leonês a Castro Laboreiro (D)

1141 – Reconquista de Castro Laboreiro (V)

1141 – Cerco de Afonso VII ao Castelo de Pena da Rainha (V)

1141 – Bafordo da Portela de Vez (V)

1142 – Tentativa de assalto a Lisboa (Stalemate)

1144 – Ataque mouro ao castelo de Soure (D)

1144 – Ataque mouro ao castelo de Mértola (D)

1146 – Pressão cristã a Lisboa, Santarém e Évora (para pagarem párias) – (V)

1147 – Conquista de Santarém (V)

1147 –  Cerco de Lisboa (D)

1147 – Conquistas de Sintra, Palmela e Almada (V)

1151 – Tentativa de conquista de Alcácer (D)

1154 – idem (D)

1155 – Investida almóada em Trancoso (V) 1157 – Investida em Alcácer (D)

1158 – Invasão da Galiza, c. Tui (V)

1160 – Conquista de Alcácer (V)

1162 – Conquista de Beja (V)

1163 – Invasão de Salamanca (V)

1163 – Fossado de Beja (V)

1163 – Reconquista de Toronho (V)

1163 – Batalha de Argañara (D)

1165 – Tentativa moura de conquistar Santarém (V)

1165 – Investida em Badajoz (D)

1165 – Conquista de Évora (V)

1166 – Conquistas de Moura e Alconchel (V)

1166 – Conquistas de Serpa, Montánchez e Juromenha (V)

1166 – Investida dos cavaleiros de Santarém em Niebla (D)

1169 – Investida em Badajoz (D)

1170 – Investida moura em Juromenha (D)

1172 – Reocupação de Beja (V, embora abandonada em 1173)

1175 – Ataque leonês por Portugal (V)

1178 – Fossado de Sevilha pelo Infante D. Sancho (V)

1178 – Investida moura em Alcácer (V)

1179 – Investida do Infante D. Sancho em Ciudad Rodrigo (D)

1179 – Ataque naval a Sevilha (V)

1179 – Ação naval moura contra Lisboa (V)

1179 – Cerco mouro de Abrantes (V)

1180 – Batalha do Cabo Espichel (V)

1181 – Batalha Naval de Silves (V)

1181 – Batalha do Cabo de S. Vicente (V)

1181 – Fossado mouro em Évora (D)

1182 – Investida cristã em Sanlúcar (V, com saque)

1184 – Cerco mouro em Santarém (V)

1187 – Fossado de S. Paio da Piconha (V)

1189 – Incursão leonesa contra Celorico de Basto (V/stalemate)

1189 – Conquista de Silves (V)

1190 – Expedição moura em Torres Novas (D)

1190 – Cerco almóada em Silves (V)

1191 – Investidas mouras em Silves, Alcácer, Palmela, Almada (D/D/V/V)

1197 – Conquista de Tui e Pontevedra (V)

1198 – Lide das Ervas Tenras (D)

1199 – Conquista leonesa de Algoso e Bragança (D/D)

1199 – Reconquista de Bragança e Cerco de Ciudad Rodrigo (V/V).

Heroísmo em Tolkien: Heróis improváveis

I.

Algo me chamou atenção nos textos de Tolkien, os heróis. Acostumada com o herói grego, o arquétipo basilar da cultura do heroísmo, fico intrigada com os heróis de Tolkien. Não que ele fuja do arquétipo do herói grego, provido de habilidades, aptidões quase divinas, um senso moral ilibado e um profundo respeito por sua terra, sua cultura, seu lar, pois vemos heróis assim em Hobbit com Thorin,o Escudo de Carvalho e os filhos de Dúrin, também em Senhor dos Anéis com Legolas e Aragorn, ou os cavaleiros caçadores de dragão do Reino Pequeno. É possível achar semelhanças também entre Aquiles e Túrin em Os Filhos de Húrin. Túrin vem de uma família aristocrata e conhecida de Beren. Lúthien, tem habilidade com flecha e espada que provém dos ensinos élficos. Luta pela honra e pela família e sofre um episódio de loucura com a morte de Beleg.

Tolkien recorre ao herói grego, mas seu enfoque não está nele. Os heróis de Tolkien não são como Aquiles, ou Ajax. Eles são diferentes. São acomodados, rotineiros, ranzinzas, conformados com seu estilo de vida e cheios de pequenos vícios que por vezes são vistos como saudáveis. Eles não são heróis de berço ou apoiados por uma divindade, não são renomados. Desconhecidos, sem grandes feitos. São bons, caridosos como uma pessoa qualquer, mas tornam-se valorosos pelas escolhas que fazem em circunstâncias difíceis. Eles são dignos de serem heróis devido às situações em que são colocados ou levados como Bilbo Bolseiro e Samwise por Gandalf a viver. Heróis do cotidiano, que fazem pequenas escolhas e atos que os comprometem a um valor maior que eles mesmos.

Posteriormente, se encaixam no perfil de herói que conhecemos. São conhecidos por seus altos sacrifícios, grandes feitos e canções chegam a ser inventadas e cantadas por gerações. Adquirem habilidades, aptidões, a aretê, ou seja, alcançam a excelência.

Faremos uma análise do herói em duas grandes obras de Tolkien: A coleção do Senhor dos Anéis e o incrível Mestre Giles d’Aldeia. Visitaremos o conceito de herói na perspectiva grega, mais especificamente a homérica, para podermos compreender os contrastes e as semelhanças como dois heróis: Samwise e Giles d’Aldeia. Concluiremos com uma retrospectiva e reflexão sobre as possíveis lições desses heróis Tolkienianos.


II.

Primeiramente devemos definir alguns pontos. O primeiro deles é o herói grego, ou, a concepção de herói que herdamos dos gregos. A literatura grega está recheada de grandes heróis. O Homero nos proporciona uma vasta visão de alguns deles. Tanto na Ilíada como na Odisseia, podemos observar esse conceito de herói. O herói, normalmente, tem uma origem aristocrata, filho de um herói. Todos os heróis estão ligados de certa forma à aristocracia. Ele possui uma relação com os deuses, possui um aretê, ou seja, excelência.

Homero entende por aretê as qualidades morais ou espirituais’. Em geral, de acordo com a modalidade de pensamento dos tempos primitivos, designa por aretê a força e destreza dos guerreiros ou lutadores e, acima de tudo, heroísmo, considerado não no nosso sentido de ação moral e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.

Não é verossímil que na época em que as duas epopéias nasceram a palavra arete tivesse, no uso vivo da linguagem, apenas o significado estreito dominante em Homero. A própria poesia épica reconhece já, ao lado da aretê, outras medidas de valor. Assim, a Odisséia exalta, sobretudo no seu herói principal, acima da valentia, que passa a lugar secundário, a prudência e a astúcia. Sob o conceito de aretê é necessário compreender outras excelências além da força intrépida, como nos é apresentada, sem contar as exceções citadas, pela poesia dos tempos mais antigos (JAEGER, p.27, 2003).

O herói devia respeitar os deuses, os suplicantes, o estrangeiro e o inimigo, padrões que norteiam a moralidade grega. O herói busca a kléos, a glória, o reconhecimento, alcançando a imortalidade ao ser lembrado pelo coletivo. Ser imortal é ser lembrado e inserido nas canções, como foi Ulisses, que entre Feácios ouve o aedo chamado Demódoco canta as história da Guerra de Tróia, desconhecendo a presença de Ulisses na audiência.

Aparentemente o herói grego pode parecer distante da realidade. Um padrão utópico demais para ser plausível ou até mesmo real. Mas a grande questão do herói não era somente sua formação, origem ou contexto, mas seu caminho, sua jornada. Grandes heróis, filhos de outros heróis, dotados de habilidade e abençoados por deuses, erram, enlouqueceram, se esqueceram de seu dever. Como bem resumiu Northrop Frye,:

Aquiles é mais do que qualquer homem poderia ser, mas é também o que qualquer homem desejaria ser, e faz, o que fariam quase todos se tanta força tivessem. Não é o retrato de um herói individual, mas a força ardente do desejo, da frustração e do descontentamento humanos, algo presente em cada um de nós, parte da humanidade inteira.( FRYE,p. 56, 2017).

Alguns advogam contra o ideal, pois acreditam que criar um ideal é fugir da realidade. Ter ideais tornou-se sinônimo de alienação. A verdade é que o ideal nos traz para realidade. Através da comparação do que seria melhor, vemos as dificuldades no presente. O perigo reside no ideal realista, pois o ideal realista torna o presente somente como uma mera extensão do ideal e faz com o indivíduo que idealiza se acomode com a realidade presente, acreditando que o ideal e o real são iguais, quando efetivamente não o são. O progresso só existe quando existe uma hierarquia, pois se não existirem coisas inferiores e coisas superiores como saberemos que estamos evoluindo, não existirá uma forma de comparar. Sendo assim, o ideal é essencial para o crescimento e desenvolvimento.

As pessoas que dizem que um ideal é uma coisa perigosa, que ilude e inebria, estão perfeitamente corretas. Contudo, o ideal que nos inebria mais é do tipo menos idealista de ideal. O ideal que nos inebria menos é o mais ideal propriamente ideal; que nos torna sóbrios repentinamente, como o fazem todas as alturas, precipícios e grandes distâncias (CHESTERTON, p. 242, 2012).

A primeira vista pode ser contraditório, defender o ideal de herói em Tolkien,se pode aparentar que ele parte em retirada. A questão não é que Tolkien está renegando o herói grego, o seu ideal de herói, mas o encontra em lugares improváveis. Tolkien extrai o ideal de algo que não tem aparência de ideal, pois pode ser altamente ordinário e comum, mas para Tolkien é precisamente no comum que o ideal está. O ideal se mostra em vários lugares. Dizer que o ideal está em outro lugar, não o negar, mas trazer uma nova face do prisma. Os heróis de Tolkien são ideais, porém não inicialmente. Tolkien nos convida a encontrar o ideal, a alcançá-lo independente de nossas raízes, histórias e aptidões. Porque no fim o que realmente importa não é quem o alcançou, mas se pode ser alcançado.

No capítulo intitulado Heroísmo, Birzer mostra os heróis de Tolkien. Ele descreve e mostra possíveis inspirações para Faramir, Aragorn, Gandalf, Frodo, Samwise e outros. Como resumiu Birzer,“ Frodo, Sam, Gandalf, Aragorn e Faramir— representa atos heroicos diferentes. Gandalf é o profeta, Aragorn é o rei “cristão”, Frodo é o sacerdote sacrificial, Sam, o homem comum e Faramir é o homem que conhece e respeita seu lugar na criação de Deus” (p.174, 2023). O foco do estudo não são aqueles heróis que estamos acostumados e que facilmente reconhecemos como heróis, mas sim aqueles que não esperávamos e que por preconceitos heroicos existentes em nossa mente, nós não os julgaríamos serem dignos de nenhuma forma de heroísmo.


Samwise, o herói improvável

Samwise, um hobbit comum. Tolkien nos apresenta Samwise de uma forma tão ordinária que sua primeira aparição é numa discussão no mínimo cafona e desnecessária com Ted Ruivão. Com tamanha inocência, alguns leitores podem até achar que Samwise era infantil, no sentido pejorativo da palavra. De fato, as primeiras impressões que temos de Samwise não são dignas de um herói, aparentemente. Desprovido de qualquer característica física, ou até mesmo de um passado, ou origem brilhante, Samwise parece ser mais um hobbit de qualquer do que um verdadeiro herói.

Durante a jornada de Samwise com seu melhor amigo Frodo para destruir o terrível anel. Samwise é descoberto. Aquele véu sobre o personagem parece cair gradualmente em cada passo até o Monte da Perdição. A lealdade de Samwise é tão clara e espetacular, que chega a ser comparada à de João Batista (BIRZER, p. 157, 2023) e também ao incrível Sir Gawain.

Diferente de muitos heróis, a lealdade de Samwise está firmada em algo mais puro, no caso a “obediência e o amor” como referiu Tolkien (p.14, 1923). Vimos que heróis do passado, buscavam grandes feitos pela kléos, pela imortalidade de seus nomes no coletivos, e por vezes, a raiz de tal anseio fosse o orgulho, a vanglória e até a “obstinação” (ibid.p.14).

Samwise, encontrou uma razão mais elevada para seus atos heróicos, assim como Wiglaf[1]. “ É por isso que o subordinado, especialmente o subordinado imediato, provou ser uma figura tão importante para Tolkien, seguia as ordens por amor e dever, não para ganho pessoal” (BIRZER, p. 158, 2023). É tão evidente, que se torna claro ao longo do texto que Sam preferia mil vezes estar em casa, desfrutando de sua vida comum, do que estar matando Shelob. Ele não estava em busca de glória, e muito menos de renome, não queria viver para sempre, mas viver a porção que havia lhe sido dada. Ele sabia que tinha um propósito e precisava vivê-lo.


Mestre Giles d’Aldeia

O livro inicia contando-nos sobre o Mestre Giles d’Aldeia, uma abreviação de seu nome e o lugar onde a história ocorreu. Não revela o tempo especificamente, mas nos dá dicas. Talvez, estejamos falando do período da heptarquia Anglo-saxônica. Porém, não acredito que o foco seja no tempo decorrido, mas no ocorrido em si. Portanto, Tolkien começa nos contando:

Ægidius de Hammo foi um homem que viveu nas regiões centrais da ilha da Grã-Bretanha. Seu nome completo era Ægidius Ahenobarbus Julius Agricola de Hammo, pois as pessoas eram presenteadas com nomes abundantes naqueles dias, em tempos já bem distantes, quando, felizmente, esta ilha ainda era dividida em vários reinos ( TOLKIEN, p. 21, 2021).

Giles Barba-Vermelha Julius Fazendeiro de Ham, era fazendeiro e de barba ruiva, que faz jus ao seu nome. Tinha um cachorro chamado Ganido. A relação entre Giles e Ganido é marcada por momentos de ira, desprezo, amor e cuidado. Mestre Giles d’Aldeia estava muito confortável e bem-acostumado com a sua vida no campo, a rotina, os seus hábitos tinham um alto valor para ele. A impressão que Mestre Giles d’Aldeia nos passa é a de um senhor ranzinza, acomodado, murmurador e impaciente. Alguns dirão que ele é o velho chato que todos temos na vizinhança. O modo como trata o seu cachorro é constrangedor para o leitor. Como podemos ver no exemplo abaixo:

Socorro! Socorro! Socorro—- gritou o cachorro.

A cabeça de Giles apareceu de novo.

—- Acabo com você, se fizer só mais um barulho!—- ele disse. — O que foi que deu em você, seu idiota? ( TOLKIEN,p.28, 2021).

A forma de tratar de Mestre Giles d’Aldeia de tratar o seu cachorro parece muito distante de um herói. Os heróis apareciam seus companheiros animais, pois muitos deles foram de ajuda para alcançarem a vitória ou até mesmo para escaparem de um situação de morte. Apesar do Mestre Giles d’ Aldeia não aparentar ter nenhuma inclinação para o heroísmo e muito menos para aventura, ele acaba se tornando um herói em Reino Pequeno. Não foi ele quem procurou pela aventura, a aventura foi atrás dele.

O Gigante surge em seus belos campos arados e o Dragão, baseado em verdades mal-contadas, visita sua aldeia. O Rei e seus cavaleiros, que deveriam lutar com bravura e procurar a luta, apenas esperam e podem por vezes soarem como bem interesseiros. Como fica visível nas negociações entre o Crisofílax e o Reino, vejamos o seguinte trecho:

Mas o Rei queria dinheiro.

Ele se despediu de seus leais súditos, porém foi curto e grosso; e cancelou metade dos Títulos do Tesouro. Foi bastante frio com Giles e o dispensou com um aceno

No final do texto, Mestre Giles não somente era herói, mas também rei. Seus feitos serão lembrados. Despreparado, humilde fazendeiro, sem grandes ambições, Giles defende o seu lar, o seu modo de viver, a sua casa que foi ameaçada por um gigante e um dragão. Supostamente a trivialidade de Giles salvou todo o Reino Pequeno, visto que não foram suas incríveis habilidades com o bacamarte ou com a espada Mordedora-de-Caudas.


III.

Nós nos identificamos com os medos, a comodidade, o cotidiano, a falta de bom humor de Mestre Giles, o desejo de aproveitar coisas simples em paz de Samwise, ou de perder a paciência em um discussão frívola que não irá mudar nada. Somos em diversas situações como Mestre Giles e Samwise, e, portanto, temos as mesmas oportunidades que eles tiveram de alterar o curso de nossa história, fazer a coisa certa e lutar pelo nosso lar, pelo nosso pedaço de descanso e pelo nosso propósito. Sentimo-nos compungidos pelos personagens a descobrir o nosso propósito e lutarmos para completá-lo.

Assim o herói de Tolkien é aquele que entendeu o seu propósito e atendeu ao chamado, mesmo desprovido de habilidades heroicas, guarda divina ou berço de ouro. Aprendemos, por conseguinte, que para sermos heróis devemos compreender o nosso chamado e preencher seu objetivo com nossas vidas. É claro, que também outros heróis o fizeram, buscaram praticar o seu chamado, porém quando se esqueciam disso, caiam em desgraça profunda até que voltassem ao estado inicial, puro de más intenções e desejos desordenados de glória e grandeza, por isso alguns foram levados às profundas do Tártaro e do Inferno para serem reavivados como Gandalf foi.

Referências Bibliográficas

BERDIAEV, N. O espírito de Dostoiévski. Tradução de Otto Schneider. 1ª ed,. Rio de Janeiro: Eleia Editora, 2021.

BIRZER, Bradley J. O Mito Santificador de Tolkien: Interpretando a Terra Média. Tradução Márcia de Xavier de Brito. 2.ed. São Paulo: LVM Editora, 2023.

BERDIAEV, N. A verdade e a Revelação. Tradução de Bernardo Santos. Rio de Janeiro: Eleia Editora, 2021.

CAMPBELL, J. O herói de mil faces. 10. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2005.

CHESTERTON,G.K. Hereges. Tradução por Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito. Campinas: Ecclesiae, 2012.

FRYE, Northrop. A imaginação educada. 1.ed. Campinas, SP: Vide Editorial, 2017.

GRAFF, Eric S. The Three Faces of Faërie in Tolkien’s Shorter Fiction: Niggle, Smith and Giles. Mythlore, vol. 18, no. 3 (69), 1992, pp. 15–19. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/26813051. Acesso em 22 de outubro de 2024.

HOMERO. Ilíada. Tradução e prefácio por Frederico Lourenço; introdução e apêndices de Peter Jones; introdução à edição 1950. E.V.Rieu.1.ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

JAEGER, Werner. PAIDEIA: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2003

TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. Tradução por Lenita Maria Rimoli Esteves; revisão técnica e consultoria Ronald Eduard Kyrmse; coordenação Luís Carlos Borges. 5.ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

TOLKIEN, J.R.R. Senhor dos Anéis : Completa Edição. Martins Fontes, 2000.

TOLKIEN, J.R.R. Os Filhos de Húrin. Tradução de Ronald Kyrmse. 1.ed. Rio de Janeiro, RJ: HarperCollins Brasil, 2020.

TOLKIEN, J.R.R. Mestre Giles d’ Aldeia. Tradução Rosana Rios. 1.ed. Rio de Janeiro, RJ: HarperCollins, 2021.

TOLKIEN, J.R.R. Beren e Lúthien . Tradução de Ronald Kyrmse; Ilustração Alan Lee. 1.ed. Rio de Janeiro, RJ: HarperCollins, 2018.

TOLKIEN, J.R.R. Beowulf. A translation and commentary together with sellic spell. Edited by Christopher Tolkien. London Bridge Street, HarperCollinsPublishers, 2016.

TOLKIEN, J.R.R. The homecoming of Beorhtnoth Beorhtelm’s son. Essay and Studies, 6, 1953.

  1. TOLKIEN. Beowulf. A translation and commentary together with sellic spell. Edited by Christopher Tolkien. London Bridge Street, HarperCollinsPublishers, 2016.

“Noise Against Fascism”

 

A generalidade dos leitores interpretará o anglicismo à letra como “Ruido Contra o Fascismo”. Pois como toda a gente sabe e é indiscutível na generalidade dos círculos intelectuais, os fascistas odeiam ruido, não o suportam, tendo o mesmo, conforme já demonstrado cientificamente, o mesmo efeito nocivo que o minério Kryptonita do planeta Krypton sobre o seu mais famoso habitante, o Super-Homem (sendo que os fascistas não são Super-Homens nenhuns).

Esclareça-se aqui, que este ruido não é um ruido qualquer, o “Noise” (ruido) aqui referido é relativo a um género musical. Sim, um género musical, que nas suas manifestações mais extremas, faz parecer qualquer banda de heavy metal e seus subgéneros um musical infantil.

Questionei uma aplicação de IA o que era “Musica Noise” e obtive a seguinte resposta:

“Música noise, ou simplesmente noise, é um gênero musical experimental caracterizado pelo uso de sons não convencionais, como ruídos, estática, feedback e distorção, para criar texturas sonoras agressivas e dissonantes. É um gênero que explora o limite entre som e ruído, muitas vezes abandonando os elementos tradicionais da música como melodia, harmonia e ritmo. “

Não me cabe aqui discutir se a definição da IA é a mais correcta ou não, mas concordo em geral com a ultima frase, como ponto de partida.

Confesso aqui, desde já, ser apreciador de algumas formas deste tipo de expressão sonora, nomeadamente de alguns subgéneros mais ambientais, industriais, rituais e por aí fora.

Em suma este género musical contempla um espectro que vai da sua manifestação mais extrema no subgénero Harsh Noise às formas mais subtis em composições de sons/ruídos gravados na natureza (cascatas, vento, chuva, etc.), sons minimalistas ou misturados de forma a criar várias camadas sonoras a belo prazer de quem os compõe.

Visto isto, a conclusão que se poderá tirar na primeira leitura, é de que este tal género musical que dá pelo epíteto de “Noise”, é na verdade um estilo sonoro de contestação contra o Fascismo. Os fascistas como conservadores, anti-revolucionários, já mais seriam capazes de absorver e interpretar um género musical abstracto e inestético. E nada melhor para enfatizar isso, que criar e promover um género musical que lhes vai ao calcanhar de Aquiles, com marca registada e certificada de Antifascista.

Mas afinal onde estará a origem deste género musical (?), adveio do Punk(?), derivou dos subgéneros mais extremos do Heavy Metal? É uma iluminação mental do bloco soviético?

Na verdade, a ideia do género musical teve a sua origem em 1913, pela mente de Luigi Russolo em uma carta dirigida a Balilla Pratella (Compositor Italiano). “A Arte dos Ruídos – Manifesto Futurista”, a famosa carta/manifesto que está na origem do “Noise”, ou o “som-ruído” como designava Russolo.

“Esta evolução da música é paralela à multiplicação das máquinas (…)”

“(…) É preciso romper este círculo estreito de sons puros e conquistar a variedade infinita dos “sons-ruídos”.”

“Beethoven e Wagner chacoalharam nossos nervos e corações por muitos anos. Agora saciados apreciamos muito mais combinar mentalmente os ruídos dos elétricos, dos motores a combustão, dos carros de roncos ensandecidos, do que reouvir por exemplo, a “Heróica” ou a “Pastoral”.”

“Não se poderá objetar que o ruído seja unicamente forte e desagradável ao ouvido. Parece-me inútil enumerar todos os ruídos tênues e delicados, que proporcionam sensações acústicas agradáveis.

Para convencermo-nos então da variedade surpreendente dos ruídos, basta pensar no estrondo do trovão, nos sibilos do vento, no estrondo de uma cascata, no gorgolejar de um riacho, no farfalhar das folhas, no trote de um cavalo se afastando, nos solavancos trepidantes do carro no asfalto, na respiração ampla, solene e branca de uma cidade à noite, em todos os ruídos que fazem os animais selvagens e domésticos e em todos aqueles sons que a boca humana pode produzir sem falar ou cantar.”

Estes excertos da famosa carta/manifesto, são bem esclarecedores daquilo que ia na cabeça de Russolo para uma nova expressão sonora, o “som-ruído”.

Figura – Russolo e o seu assistente Ugo Piatti no seu estúdio em Milão 1913

Mas afinal quem era este Luigi Russolo, pintor, compositor, pai do “som-ruido” (“Noise” portanto)?

Figura – Auto Retrato com caveiras (Luigi Russolo 1909)

Figura 3 – “Dinamismo de um automóvel” pintura de Luigi Russolo

Imagine-se só, que o criador do “noise”, o senhor do “som-ruido” é nem mais nem menos que um entusiasta Fascista, um dos nomes mais importantes do movimento Futurista, forte impulsionador artístico do Fascismo Italiano.

Como pode ser então? Esses conservadores, antirrevolucionários prestavam-se às artes com expressões não convencionais, inestéticas, futurísticas para a época? Sim, é verdade.

Nunca se ignore que o movimento fascista é na sua génese, revolucionário, anticapitalista, antiburguês, activista, socialista radical, intolerante para com ideias opostas às suas, Futurista (talvez possamos dizer ultra-progressista),

Do anterior, pensem nos partidos e conhecidos que estão constantemente a insinuar-se com o jargão “Antifascista” e vejam lá se não se enquadram activamente no descrito. Parece antagónico, mas não é.

O jargão “Antifascista” valida as expressões culturais da nossa contemporaneidade, mesmo quando se apropria de expressões culturais Fascistas. As correntes que fazem questão de se insinuar como Antifascistas são em tudo semelhantes às correntes efectivamente Fascistas. E isto é maravilhoso, pois é indiscutível que Antifascistas e Fascistas estão em luta pelo mesmo bairro, para impor a todos os moradores a sua engenharia social, o seu experimento de sociedade que é a verdade indiscutível do que é melhor para todos. E o dogma das suas ciências sociais, é inquestionável.

Já vivi o suficiente para ver como movimentos de contestação deste tipo, nomeadamente “Antifascista”, se vão mutando aos sabores da actualidade ao longo das décadas. Na falta de profundidade, criatividade, capacidade critica, conhecimento e imparcialidade, é o vazio que mais afecta estes movimentos. Nada melhor para preencher esse vazio, do que criar uma causa, a luta Anti Fascista, mesmo que, esse inimigo não se conheça bem, e pior, não se perceba as semelhanças e a raiz comum que ambos têm.

Na duvida, todos são Fascistas se não são Antifascistas.

O Antifascismo vende e está na moda, o capitalismo promove-o com “t-shirts”, “totem bags” e cabelos pintados de rosa, verde e azul, por um planeta mais verde, ecológico e claro sem fascistas.

Por ultimo, invoco apenas aos “livres” pensadores a apreciar a arte, não pela arte em si, pois na minha opinião a arte tem um papel transcendente e metafisico, mas entendendo-a como manifestações culturais do homem no mundo, em um determinado contexto que por si só deve ser enquadrado, percebido e degustado.

Só assim entenderemos o antagónico estado da nossa contemporaneidade e do “som ruido”

Se a apropriação cultural de expressões artisticas de raiz Fascista aqui demonstrada é abjecta para Antifascistas, estes que aguardem na torre da sua alta superioridade moral, até perceberem que a poesia moderna que tanto lhes apraz em tertúlias de café e feirantes livrarias, tem como pai Erza Pound. Sim, este ultimo também ele um abjecto Fascista.

“Especuladores bebendo sangue adoçado com m….,

E por trás deles ……f, e os financeiros

Chicoteando-os com arames de aço”

(CANTAR XIV Erza Pound)

Carta de Juan I de Castela ao Concelho de Múrcia, a notificar a derrota no campo de Aljubarrota

Dada en la muy noble çiudat de Sevilla, veynte e nueve dias de agosto, del año del nasçimiento del nuestro salvador Jhesuchristo de mill e trezientos e ochenta e çinco años. Nos, el Rey”.

“Don Johan, por la graçia de Dios Rey de Castiella, de Leon, de Portogal, de Toledo, de Gallizia, de Cordova, de Murçia, de Jahen, del Algarbe, de Algezira, e señor de Lara, e de Vizcaya, e de Molina, al conçeio e alcalles e alguazil e cavallero e escuderos e omes buenos de la muy noble çibdat de Murçia, salud e gracia. Bien sabedes en commo por otras nuestras cartas vos enbiamos contar el mal e daño e perdida que en esta desaventura contesçio a nos e a los nuestros, por nuestros pecados e de los nuestros; e porque entonçe con nuestra dolencia que venimos muy flaco, non vos podiemos mandar escrivir las cosas commo passaron tan largamente commo aviamos en voluntad de vos la mandar escrivir, enbiamos vos las agora contar. Sabed que lunes, catorze dias deste mes de agosto, oviemos pelea con aquel traydor que solia ser maestre Davis e con todos los del regno de Portogal que de su parte tenia e con todos los otros estrangeros, asi ingreses commo gascones, que con el estavan, e la pelea fue en esta manera: ellos se pusieron en aquel dia, desde la mañana, en una plaza fuerte que era entre dos arroyos, de fondo cada uno de diez a doze brazas, e quando la nuestra gente y llego e vieron que non los podian acometer por ally, oviemos todos de rodear por venir a ellos por otra parte que nos paresçio ser mas llanno: e quando fuemos en aquel lugar era ya ora de vesperas e la nuestra gente estavan muy cansada. E entonçe, los mas de los cavalleros que con nos estavan, que en otras batallas se avian acresçido e acordavan que non se diese la pelea en aquel dia, lo uno porque la nuestra gente estava cansada, e lo otro por mirar la sua batalla en la manera que estava. E toda la otra nuestra gente, por la voluntad que avia de pelear fueronse syn nuestro acuerdo alla e nos fuemos con ellos en la pelea, commo quier estavamos muy flaco que avia catorze dias que yvamos en camino en andas, por la cual razon non podiamos entender ninguna cosa de la dicha batalla commo conplia a nuestro serviçio. E despues que los nuestros fueron çerca dellos fallaron tres cosas: la una, un monte cortado que les daba fasta la çinta; e la segunda, en la fruente de sua batalla una cava tan alta commo un ome fasta la garganta; e la terçera, que la fruente de su batalla estava tan çercada por los arroyos que la tenian en derredor que non avia de frente de treszientos e quarenta a quatroçientas lanças. E commo quier que esto estava asi e los nuestros viesen todas estas batallas non dexaron de acometerlos e por nuestros pecados fuemos asi vençido e los nuestros. E nos, veyendo el desbarato de nuestra gente fuemos nos para Santaren, e de alli veniemos por mar en un navio armado a Lixbona para la nuestra flota, por quanto estavamos e non podiamos cavalgar. E estoviemos assi dos dias e mandamos guardar ally nuestra flota e fazer algunas cosas que conplian a nuestro serviçio, e mucha gente de los que estavan en el nuestro regno de Portogal fueronse a la nuestra flota e despues venimos nos para aqui, a Sevilla, en tres galeas e llegamos aqui lunes, veynte e un dias desde dicho mes de agosto, e fuemos forçado de nos detener aqui por la grand dolencia que teniamos e por ordenar algunas cosas que conplian a nuestro serviçio. E Dios querendo, entendemos partir desta çibdat para alla, a Castiella, de aqui a quatro o çinco dias, por quanto con la ayuda de Dios e con la ayuda de todos vosotros los de los nuestros regnos, que tenemos que vos sentieredes del mal e desonrra e lastima que nos e los dichos nuestros regnos reçibiemos, nos entendemos mucho ayna aver vergança desta desonrra e cobrar lo que a nos pertenesçe, porque nos e los nuestros quedamos con tal grand vergueña, lo qual nos seria a todos vergueña e lastima si asi quedase, avemos ordenado de fazer nuestras cortes e ordenar tales cosas con vosotros quales cunplan a serviçio de Dios e a onrra e provecho nuestro e de nuestros regnos, e que las dichas cortes que se fagan en Valladolid, entendemos començar por el primero dia de otubre primeiro que viene. Porque vos mandamos que nos enbiedes luego a la dicha villa de Valladolid, dos omes buenos onrrados de entre vosotros con procuraçion bastante para que nos con conseio dellos e de los que ally ajuntaren ordenemos que cunple a nuestro serviçio e a onrra e provecho de los nuestros regnos.

Dada en la muy noble çiudat de Sevilla, veynte e nueve dias de agosto, del año del nasçimiento del nuestro salvador Jhesuchristo de mill e trezientos e ochenta e çinco años. Nos, el Rey”.

The Inquisition as Legal Innovator

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Introduction

The Inquisition has long been associated with religious persecution, torture, and repression. Its image, shaped by centuries of polemics, Enlightenment critiques, and popular culture, is overwhelmingly negative. However, such a portrayal obscures the nuanced and complex reality of the inquisitorial system, particularly its role in the historical development of legal institutions in Europe. When compared with contemporary secular judicial practices, the Inquisition introduced notable procedural innovations, many of which contributed to the standardization and humanization of justice. These include systematic record-keeping, legal safeguards for defendants, regulation of prison conditions, and the invention of alternative forms of punishment such as prisão domiciliária (house arrest). This short essay explores how the Inquisition, despite its often grim objectives, improved the administration of justice in crucial ways during the late medieval and early modern periods.


Context: Judicial Practices Before and Outside the Inquisition

Before the emergence of the inquisitorial system in the 13th century, judicial processes in most parts of Europe were dominated by trial by ordeal, public accusations, and feudal arbitration. Accusatory justice prevailed, in which the burden of initiating a trial lay with a plaintiff who had to risk retaliation and prove his case—often without the benefit of witnesses, documentation, or legal counsel. The use of torture was largely unregulated, punishments were frequently corporal and disproportionate, and prisons were sites of abuse and neglect. Trials could be arbitrary, swift, and often fatal. In many ways, the inquisitorial courts, especially the more formalized ones like the Spanish and Roman Inquisitions, represented a move toward a more rational and bureaucratized legal model (Kamen, 1997; Peters, 1988).


The Institutionalization of Legal Procedure

One of the most important contributions of the Inquisition was the creation of a highly systematized legal procedure. Unlike secular courts of the time, inquisitorial tribunals kept meticulous written records of all proceedings. This included transcripts of interrogations, testimonies, judgments, and appeals. Such documentation was groundbreaking and served as a model for future legal systems based on the principle of precedent and accountability (Lea, 1906). The reliance on written depositions and the requirement to keep procedural consistency ensured that cases were not decided solely based on oral accusations or arbitrary decisions.

Moreover, inquisitorial tribunals introduced preliminary investigations (the inquisitio) before charges were formally laid. This was a significant innovation: instead of launching a trial based purely on denunciation, inquisitors were expected to investigate discreetly, gather evidence, and confirm whether there were sufficient grounds to proceed. This investigative phase marks the beginning of a rational evidentiary system in European law, with echoes in the instruction phase of many modern civil-law countries.


Protections Afforded to the Defendant

Despite its coercive nature, the inquisitorial process afforded several legal protections to the accused that were uncommon elsewhere. While modern standards of justice (e.g., presumption of innocence, open trials) were not in place, the Inquisition’s procedures were comparatively advanced for their time. For instance:

1. Legal Representation and Defense Opportunities

The accused had the right to know the charges against them—though not always the identity of their accusers—and could present a written defense. In many inquisitorial courts, a notary was present to ensure an accurate record of proceedings. In some cases, particularly after the Council of Trent (1545–1563), defendants were allowed legal counsel, albeit one approved by the tribunal. While such a lawyer did not act independently in the modern sense, their role in advising and framing the defense introduced an early version of due process (Bethencourt, 1997).

2. Rules of Evidence and Witnesses

The Inquisition formalized rules concerning acceptable evidence. At least two witnesses were required for a conviction, and their testimonies had to be consistent and corroborated. This was a significant step forward in a time when a single accusation, even without substantiation, could lead to execution in secular courts. In addition, witnesses could be disqualified due to bias, enmity, or moral untrustworthiness—a legal refinement that was rarely observed elsewhere (Peters, 1988).

3. Appeals and Oversight

Another procedural safeguard was the right of appeal. Defendants could appeal their sentences to higher ecclesiastical authorities, including the Supreme Sacred Congregation of the Roman and Universal Inquisition in Rome. In Spain, the Consejo de la Suprema y General Inquisición functioned as a central authority overseeing regional tribunals. This vertical hierarchy enabled quality control, something mostly absent from secular courts that were often run by local lords or town magistrates with unchecked power (Dedieu, 1987).


Regulation of Prison Conditions

Perhaps surprisingly, inquisitorial prisons were more regulated and, in some cases, more humane than their secular counterparts. This was not always out of compassion—poor treatment of prisoners risked invalidating confessions or creating public scandal—but it did result in genuine institutional concern for conditions of detention.

Inquisitorial authorities provided food, clothing, and medical attention. Prisons were often located within ecclesiastical buildings and were inspected more regularly. There was, for example, in the Spanish Inquisition, an official called the alcaide responsible for prison oversight. Prisoners could petition for improvements to their treatment, and some tribunals maintained archives of complaints and reforms.

Furthermore, inquisitorial tribunals had clearer limits on the use of torture, which, while not absent, was regulated through a set of written rules: it could be applied only once, under strict conditions, and for a limited time. Confessions obtained under torture had to be confirmed freely afterwards, an important legal safeguard ignored in many other systems of the time (Kamen, 1997; Langbein, 1977).


The Innovation of Prisão Domiciliária

One of the Inquisition’s most enduring contributions to penal practice was the introduction of house arrestprisão domiciliária—as an alternative to physical imprisonment. This measure was used for certain categories of accused, such as clergy, nobility, the elderly, or women, who were not considered dangerous or were awaiting further proceedings.

This flexible and less punitive form of detention reflected a recognition of individual circumstances and laid a precedent for modern penal practices that differentiate levels of security and punishment. Today’s systems of bail, parole, or electronic monitoring have conceptual roots in these early inquisitorial practices. Inquisitorial house arrest also allowed the prisoner to maintain social and economic ties, limiting the long-term social damage of incarceration (Ginzburg, 1991).


Long-Term Legacy and Influence

Many of the judicial features associated with the Inquisition were later adopted into secular law, particularly in countries under Roman Catholic influence. The French Napoleonic Code, for instance, drew on earlier inquisitorial methods in its investigation-focused approach and its written, codified legal procedures. In Portugal, the influence of inquisitorial legal culture persisted well into the 18th century, shaping aspects of judicial review, evidentiary standards, and the centralized role of the state in legal affairs.

It is important to note, however, that the Inquisition’s emphasis on confession and orthodoxy created tensions between truth-seeking and coercion. While it professionalized many aspects of justice, it did so under a religious and dogmatic mandate that limited its moral reach. Yet, when studied as a historical institution within its time, the Inquisition can be recognized as a paradoxical but important precursor to modern bureaucratic justice systems.


Conclusion

The Inquisition was undeniably a tool of religious control and censorship, and it inflicted suffering on many. Yet it also served as an institutional laboratory for new ideas about law, evidence, and criminal procedure. It advanced the rationalization of justice in a time when arbitrariness and brutality were widespread. Through its structured procedures, rules of evidence, regulated use of torture, prisoner protections, and innovations like house arrest, the Inquisition contributed to the legal modernization of Europe.

Understanding the Inquisition’s legal legacy allows for a more balanced view—one that recognizes both its coercive intentions and its unintended progressive effects. In the slow and painful emergence of modern legal institutions, the Inquisition occupies an ambivalent but significant place: one where repression and reform coexisted, and where seeds of modern justice were sown within the framework of ecclesiastical orthodoxy.


References

  • Bethencourt, F. (1997). The Inquisition: A Global History, 1478–1834. Cambridge University Press.
  • Dedieu, J.-P. (1987). L’Inquisition: L’Église et le pouvoir judiciaire. Presses Universitaires de France.
  • Ginzburg, C. (1991). The Cheese and the Worms: The Cosmos of a Sixteenth-Century Miller. Johns Hopkins University Press.
  • Kamen, H. (1997). The Spanish Inquisition: A Historical Revision. Yale University Press.
  • Langbein, J. H. (1977). Torture and the Law of Proof: Europe and England in the Ancien Régime. University of Chicago Press.
  • Lea, H. C. (1906). A History of the Inquisition of the Middle Ages. Harper & Brothers.
  • Peters, E. (1988). Inquisition. University of California Press.

O Humor como Escudo: A Sobrevalorização de Ricardo Araújo Pereira

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Durante mais de duas décadas, Ricardo Araújo Pereira foi elevado pela imprensa e por grande parte do meio académico ao estatuto quase intocável de grande referência intelectual do humor em Portugal. Mas não apenas humorista, mas também pensador, comentador, farol moral. É, em si, este fenómeno de canonização mediática, revelador de muito mais do que apenas do talento do próprio. Revela a forma como, em Portugal, a crítica foi sendo substituída por reverência, e a verdadeira inteligência por um certo cinismo pós-moderno disfarçado de lucidez.

Não é que Araújo Pereira não tenha piada. Muitos acham que tem. Mas terá ele realmente tanta graça como a que lhe é atribuída? E, ainda mais importante, terá ele a densidade intelectual e cultural que grande parte do público atribui? A resposta, para mim e para um número crescente de pessoa é não, não tem. E o artigo recentemente publicado na @MinervaRevista_, com a precisão de quem desmonta uma peça gasta, vem finalmente colocar em palavras aquilo que muitos sempre sentiram mas poucos escreveram.

Ricardo Araújo Pereira tornou-se conhecido como um dos rostos do grupo Gato Fedorento, um coletivo humorístico que trouxe alguma inovação formal ao humor televisivo dos anos 2000, principalmente pelo uso de uma linguagem muito coloquial, de paródias sociais e de sátira a figuras políticas. Mas o fenómeno Gato Fedorento foi, desde o início, muito mais o produto de um contexto cultural que estava sedento de irreverência do que o resultado de uma genialidade transcendente.

A paródia que faziam era eficaz, mas nunca chegou a ser profunda, pois tocava no imediato, mas não perdurava no tempo. E, ao contrário de um grande satirista como Herman José nos seus melhores dias, nunca chegaram verdadeiramente ao cerne das questões. Preferiram o conforto da uma crítica alinhada com a opinião dominante e disfarçaram-na de ousadia.

Com o tempo, a transição de Araújo Pereira do humor para a crónica e o comentário político deu-lhe a nova roupagem do intelectual de esquerda com piada. E foi nesse preciso momento que começou a sobrevalorização mais gritante pois é muito comum em Portugal confundir-se fluência verbal com inteligência profunda. Muitas vezes basta saber falar bem, e Ricardo fala bem, escreve com ironia, tem boa memória e recorre com frequência a referências literárias ou filosóficas que são quase sempre bastante básicas, para se ser tido como profundamente inteligente. Sendo Portugal um país onde a elite cultural vive da aparência da erudição e não da verdadeira substância, essa característica bastou para o colocar num pedestal.

No entanto, ao lermos com atenção os seus textos e escutarmos os seus comentários, percebemos rapidamente que Araújo Pereira raramente se expõe ao risco da complexidade. As suas análises são pouco profundas, recheadas apenas de ironia fácil, sustentadas numa visão do mundo ideologicamente previsível e sem colocar qualquer desafio ao politicamente confortável. É um humorista que ri com os poderosos quando esses são de esquerda, but que ridiculariza sem piedade tudo o que cheire a conservadorismo, direita democrática ou religião, o que mostra facciosismo.

A sua cultura é selectiva e utilitária, sempre disfarçando alguma vulgaridade que a assola. Serve para brilhar em debates televisivos ou crónicas de jornal, mas raramente é acompanhada de pensamento próprio, coragem intelectual ou visão. Há nele aquilo a que podemos chamar de esperteza mas não chegando a ser verdadeira sabedoria.

Considerar Ricardo Araújo Pereira como alguém com grande coragem é o maior equívoco que uma grande parte das pessoas comete. Consideram-no corajoso por ser crítico, por ser mordaz, por mostrar não ter medo de dizer as verdades. Mas se essas verdades são aquelas em que a maioria das redações já acredita e as piadas são sempre contra políticos de direita que já por si são alvos fáceis, onde é que está o verdadeiro risco?

Nunca o vimos a fazer humor sobre o fanatismo do wokismo. Nunca o vimos desconstruir os dogmas das novas ideologias de género ou expor a hipocrisia das elites culturais progressistas. Nunca o vimos defender a liberdade de expressão quando esta entra em choque com os tabus do politicamente correto. Ele está sempre no lado seguro, o lado onde os aplausos são garantidos.

Um dos traços mais desconfortáveis da sua figura pública de Ricardo Araújo Pereira é a imagem de constante auto-satisfação. Há nele uma postura de quem acredita estar acima da crítica, não por mérito genuíno, mas porque durante anos foi blindado por uma imprensa que o endeusou, por universidades que o acolheram como grande pensador, e por um público que confundiu sarcasmo com génio. E é precisamente esta arrogância que lhe permite comentar tudo com um tom de condescendência, como que a insinuar que qualquer discordância revela ignorância. Essa postura cancela qualquer crítica, fecha portas ao debate plural e contribui para a ideia de que há vozes que estão acima do contraditório.

A sobrevalorização de Ricardo Araújo Pereira é, no fundo, a sintoma da forma como a cultura portuguesa se deixou capturar por figuras medianas com boa imprensa. É o reflexo de uma sociedade onde se confunde riso com reflexão, onde a repetição de slogans ideológicos substitui o pensamento crítico e onde os intelectuais pop são aceites sem contraditório.

Mas a culpa não é inteiramente dele. É sobretudo de todos nós porque é responsabilidade nossa, enquanto sociedade, desmontar estes mitos e exigir mais daqueles que ocupam, como Ricardo Araújo Pereira, espaços de influência pública.

Ele teve o seu mérito como humorista, mas a aura que lhe construíram ultrapassa largamente esse mérito, a ideia de que é um intelectual brilhante, um analista arguto ou um provocador lúcido é, como bem apontou a Revista Minerva, um exagero cultivado por um certo meio urbano, progressista e mediaticamente dominante.

Está na altura de desinchar este balão. Não por birra, mas por higiene cultural.

O Jogo pode Ajudar na Aprendizagem

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O JOGO PODE AJUDAR NA APRENDIZAGEM [1]Rosa Luísa Gaspar [2]

Resumo: Onde se explora como os jogos podem ajudar na aprendizagem. Os jogos educativos oferecem um ambiente envolvente que envolve os alunos, permitindo uma aprendizagem prática e personalizada. Estudos científicos mostram que o uso de jogos na educação melhora o envolvimento, a motivação, as habilidades cognitivas e sociais, além da retenção de conhecimentos a longo prazo. No entanto, é importante considerar o design adequado dos jogos e a sua integração efetiva no currículo educativo. Este estudo destaca os benefícios e as melhores práticas para o uso de jogos como ferramentas educativas, promovendo abordagens inovadoras no ensino e na aprendizagem. Palavras-chave: Jogo; Aprendizagem; Educação; Tecnologia; Jogos Tradicionais; Jogos Digitais.

Introdução

Os jogos educativos têm se mostrado eficazes na promoção da aprendizagem. Eles oferecem um ambiente envolvente e interativo, que motiva os alunos e facilita uma aprendizagem prática e personalizada. Este artigo tem como objetivo explorar como os jogos podem auxiliar no processo de aprendizagem, destacando os seus benefícios cientificamente comprovados, como a melhoria no envolvimento dos alunos, o desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais, e a retenção de conhecimentos a longo prazo. É importante selecionar jogos adequados e integrá-los de forma efetiva ao currículo escolar, complementando as metodologias tradicionais de ensino. Através de abordagens inovadoras, os jogos podem potencializar o envolvimento dos alunos e promover uma educação dinâmica e estimulante. Ao longo do artigo, serão apresentadas evidências que comprovam a eficácia dos jogos na aprendizagem, assim como serão discutidos os desafios e oportunidades relacionados a essa abordagem. Compreender o papel dos jogos como “um instrumento pedagógico importante [para o] desenvolvimento intelectual e social do [indivíduo] [3] como aliados na promoção da aprendizagem é fundamental para melhorar as práticas educativas e preparar os alunos para os desafios do século XXI.

A aprendizagem

A aprendizagem é um processo fundamental no desenvolvimento humano e tem sido objeto de estudo e reflexão ao longo da história da educação. Tradicionalmente, a aprendizagem tem sido associada a um contexto formal, como a sala de aula, onde os alunos adquirem conhecimentos por meio de aulas expositivas e atividades teóricas. No entanto, a compreensão contemporânea da aprendizagem vai além desse modelo tradicional. Trata-se de um processo complexo e multifacetado que envolve a construção ativa do conhecimento, a partir da interação do indivíduo com seu ambiente. A abordagem construtivista, por exemplo, enfatiza o papel ativo do aluno na construção de significados e na construção de sua própria compreensão do mundo. Nesse contexto, o jogo surge como uma ferramenta valiosa para potencializar a aprendizagem no seu todo – cognitivo, social e emocional das crianças [4] , sendo por meio dessas estratégias que se molda a realidade de acordo com as diversas necessidades do indivíduo.

O jogo

O jogo pode ser definido como uma atividade lúdica e voluntária que envolve desafios, regras e interação. É uma forma natural de expressão humana e está presente em diversas culturas e sociedades ao redor do mundo. O jogo pode ocorrer em diferentes formatos, desde jogos físicos tradicionais, como quebra-cabeças e jogos de tabuleiro, até jogos digitais e virtuais.

Os jogos oferecem um ambiente seguro e motivador para a exploração, a experimentação e a resolução de problemas. Eles permitem que os jogadores assumam papéis ativos, tomem decisões e enfrentem desafios, o que contribui para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e emocionais. Além disso, o jogo estimula a criatividade, a imaginação e a capacidade de resolver problemas complexos.

O jogo tradicional e o jogo digital

Os jogos tradicionais e os jogos digitais são abordagens distintas, porém complementares, no contexto da aprendizagem. O jogo tradicional, que envolve atividades físicas e interações sociais face a face, promove o desenvolvimento de habilidades motoras, a socialização e a colaboração entre os participantes. os jogos oferecem experiências sensoriais e físicas que estimulam a aprendizagem de maneira lúdica e agradável. Por outro lado, os jogos digitais oferecem uma experiência imersiva e interativa por meio de dispositivos eletrónicos, como computadores, consoles e dispositivos móveis. Esses jogos possuem uma variedade de formatos, desde jogos educativos específicos até jogos de entretenimento com potencial educativo. Eles permitem o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como raciocínio lógico, [resolução de problemas] [5] e pensamento estratégico, além de proporcionarem um ambiente virtual estimulante e adaptável às necessidades individuais dos alunos, evidenciando também a promoção de desafios e o seu contributo para a [aprendizagem] [6].

Ao explorar ambos os tipos de jogos, é possível oferecer aos estudantes uma gama diversificada de experiências de aprendizagem. A integração de jogos tradicionais e jogos digitais no currículo educacional pode potencializar os benefícios de cada abordagem, promovendo uma educação mais abrangente e dinâmica. Dessa forma, é importante considerar a utilização equilibrada dessas modalidades de jogos, de acordo com os objetivos educacionais e as necessidades dos alunos.

No entanto, é essencial realizar uma seleção criteriosa dos jogos utilizados, levando em consideração a faixa etária dos estudantes, os objetivos de aprendizagem, a relevância dos conteúdos abordados e a qualidade dos recursos disponíveis. Além disso, é fundamental garantir a segurança online e promover uma utilização consciente e responsável dos jogos digitais, orientando os alunos sobre os limites e os benefícios do uso dessas tecnologias.

Portanto, a combinação dos jogos tradicionais e dos jogos digitais oferece uma abordagem pedagógica enriquecedora, que pode estimular o envolvimento, a motivação e o desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais dos alunos. Ao integrar essas duas modalidades de jogos, os educadores podem criar um ambiente de aprendizagem diversificado e cativante, promovendo uma educação mais relevante e alinhada às demandas contemporâneas.

A aprendizagem e os jogos na atualidade

Com o avanço da tecnologia e o surgimento da geração de nativos digitais, os jogos têm se tornado cada vez mais presentes na vida quotidiana das pessoas, especialmente dos jovens. Os jogos digitais oferecem experiências imersivas e interativas, que atraem a atenção e o interesse dos jogadores de forma única. Os nativos digitais crescem num ambiente tecnológico e estão familiarizados com a linguagem e as dinâmicas dos jogos, pois uma das variáveis a ter em conta é a interatividade, sendo esta das características mais relevantes nos videojogos, pois apresentam modos de difusão, individual, grupal e permite o acesso a muitos jogadores ao mesmo tempo. [7]

No entanto, os jogos não são exclusivos dos nativos digitais. Os adultos também podem beneficiar do uso dos jogos como ferramentas educativas e de aprendizagem. Os jogos de estratégia, simulação e resolução de problemas podem ser utilizados para promover o desenvolvimento de habilidades como a tomada de decisões, o trabalho em equipa e o pensamento crítico, independentemente da faixa etária pois ao jogar, não existem “erros”; o jogo promove interatividade entre os alunos, auxiliando na aprendizagem e no respeito pelos outros.

O jogo na educação

Na educação, o jogo tem se mostrado uma abordagem pedagógica eficaz para promover a aprendizagem significativa e envolvente. Os jogos educativos oferecem um ambiente de aprendizagem prático e contextualizado, onde os alunos podem aplicar conceitos e desenvolver habilidades de forma ativa. Além disso, os jogos incentivam a colaboração, a comunicação e o pensamento crítico, promovendo o envolvimento dos alunos.

A integração dos jogos no currículo é um aspeto crucial para aproveitar ao máximo os benefícios educacionais dos jogos. É importante considerar cuidadosamente como os jogos podem ser incorporados de forma eficaz e significativa nas práticas educativas.

Primeiramente, é essencial alinhar os jogos ao currículo, identificando os objetivos de aprendizagem e as competências que podem ser desenvolvidas por meio dos jogos. Os jogos devem ser selecionados com base nas necessidades dos alunos e nos conteúdos a serem abordados, de modo a complementar e enriquecer o ensino tradicional.

Além disso, é fundamental adaptar os jogos às diferentes faixas etárias e níveis de desenvolvimento dos alunos. Os jogos podem ser projetados para atender às necessidades específicas de cada grupo, considerando as suas habilidades cognitivas, sociais e emocionais. Dessa forma, os jogos tornam-se mais relevantes e acessíveis aos estudantes, promovendo um envolvimento mais profundo e uma aprendizagem mais significativa.

Outro aspeto importante é integrar os jogos de forma coerente e consistente nas práticas de ensino. Os jogos devem ser vistos como uma estratégia complementar, não substituta, para as abordagens tradicionais de ensino. Eles podem ser utilizados como parte de projetos educacionais, como atividades de revisão ou reforço, ou como uma forma de explorar conceitos e conteúdos de maneira mais prática e envolvente. Tomemos por exemplo a matemática, torna-se essencial promover o desenvolvimento dessas habilidades desde a idade pré-escolar, utilizando atividades que despertam o interesse das crianças. Nesse sentido, os jogos e computadores se destacam como recursos de aprendizagem informal, auxiliando na:

“(…) construção activa por parte do sujeito, a qual é potencializada ou constrangida por certos contextos socioculturais, nos quais se incluem as expectativas dos pais em relação ao sucesso matemático das crianças, os valores culturais em relação à escola e à matemática, as descontinuidades entre a escola e a família.” (Moreira & Oliveira, 2003; Becker & Selter, 1996 [8]

Além disso, é essencial promover uma reflexão crítica sobre os jogos utilizados. Os educadores devem analisar os aspetos pedagógicos dos jogos, como os objetivos de aprendizagem, as estratégias de ensino incorporadas, as interações sociais e as possibilidades de avaliação. Isso garante que os jogos selecionados sejam eficazes e adequados aos propósitos educacionais, evitando apenas o entretenimento vazio.

Por fim, é importante fornecer suporte e orientação aos educadores na implementação dos jogos no currículo. Isso pode incluir capacitação e formação específica sobre o uso de jogos como ferramentas educativas, o compartilhamento de boas práticas, recursos e materiais educacionais relacionados aos jogos, além de um ambiente colaborativo para troca de experiências, adaptando os jogos aos objetivos de aprendizagem, considerando a faixa etária dos alunos e promovendo uma abordagem complementar ao ensino tradicional, aproveitando o potencial educacional dos jogos para criar uma experiência de aprendizagem envolvente.

Considerações finais

Os jogos educativos têm se mostrado uma abordagem eficaz e promissora na educação contemporânea. Eles proporcionam um ambiente envolvente, interativo e desafiador, promovendo uma aprendizagem prática e personalizada. Ao integrar os jogos no currículo de forma cuidadosa e coerente, os educadores incluem a Interatividade, Controlo, Flexibilidade, Socialização, o papel do educador [9] estimulando o envolvimento dos alunos e desenvolvendo habilidades cognitivas e sociais. Os jogos são uma ferramenta valiosa para criar uma experiência de aprendizagem motivadora e significativa, preparando os alunos para os desafios do século XXI. É essencial continuar pesquisando e aprimorando as práticas de uso dos jogos na educação, explorando novas abordagens que maximizem seu potencial educativo e garantam uma educação de qualidade para todos.

Referências bibliográficas

Alves, L., & Bianchin, M. A. (2010). O jogo como recurso de aprendizagem. Revista Psicopedagogia. 27(83), pp. 282-287. São José do Rio Preto, São Paulo: Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

Amante, L. (Mai/Ago de 2007). As TIC na Escola e no Jardim de Infância: motivos e factores para a sua integração. Revista de Ciências da Educação, pp. 51-64.

Barros, C., & Oliveira, I. R. (2010). Videojogos e aprendizagens matemáticas na educação pré-escolar: um estudo de caso. Educação, Formação & Tecnologia, 3(2), 95-113. https://eft-edu.com/index.php/eft/article/view/88

Gee, J. P. (2010). Bons Videojogos + Boa Aprendizagem: Colectânea de Ensaios sobre os Videojogos, a Aprendizagem e a Literacia. Edições Pedago.

Gomes, T. S., & Carvalho, A. A. (2008). Jogos Como Ferramenta Educativa: de que forma os jogos online podem trazer importantes contribuições para a aprendizagem. Actas da Conferência ZON | Digital Games 2008, pp. 133-140.

Gros, B. (2008). Juegos digitales y aprendizage: fronteras y limitaciones. In Begoña Gros (coord.) Videojuegos y aprendizage, (pp. 9-29). Barcelona: Editorial Graó, de IRIF, SL.

Lopes, N. e Oliveira, I (2013). “Videojogos, Serious Games e simuladores na Educação: usar, criar e modificar” em Educação, Formação e Tecnologia, 6 (1), 4-20.

  1. Artigo Científico desenvolvido para a Unidade Curricular de Jogo e Aprendizagem [11021], orientado pela Professora Doutora Ana Nobre.
  2. Estudante da Licenciatura em Educação – Minor Pedagogia Social e da Formação na Universidade Aberta, email: 1904400@estudante.uab.pt.
  3. Alves & Bianchin, 2010, p.282
  4. Amante, 2004, p.2
  5. Barros & Oliveira, 2010, p.99
  6. Gee, 2008, p.2
  7. Gross, 2008, p.12
  8. Barros e Oliveira, 2010, p.96
  9. Barros e Oliveira, 2010, pp.99,100

A Sinfonia do Bem-Estar: Aromaterapia, Massoterapia e Fitoterapia

Na correria do mundo contemporâneo, onde o stress e as demandas diárias dominam nossas rotinas, a busca por equilíbrio e bem-estar tornou-se essencial. As terapias complementares emergem como aliadas poderosas, oferecendo não apenas alívio, mas também uma conexão profunda com a natureza e o próprio corpo. Entre essas práticas, a aromaterapia, a massoterapia e a fitoterapia destacam-se por sua abordagem holística, trabalhando em sinergia para criar uma verdadeira sinfonia de cura, relaxamento e revitalização.

Aromaterapia: A Alquimia dos Sentidos

A aromaterapia é uma prática milenar que utiliza óleos essenciais, extraídos de plantas, para promover saúde física, mental e emocional. Esses óleos, verdadeiros concentrados da essência vegetal, possuem propriedades terapêuticas que vão desde o alívio da ansiedade até o tratamento de condições dermatológicas e respiratórias.

A Magia dos Óleos Essenciais

Cada óleo essencial é único, com um perfil químico que define suas propriedades. O óleo de lavanda, por exemplo, é amplamente reconhecido por suas qualidades calmantes, sendo ideal para reduzir stress e melhorar o sono. Já o óleo de eucalipto é valorizado por suas propriedades descongestionantes e revigorantes, frequentemente usado em tratamentos respiratórios. Outros óleos populares incluem:

  • Óleo de Tea Tree: Antibacteriano e antifúngico, excelente para cuidados com a pele.
  • Óleo de Hortelã-Pimenta: Estimulante, alivia dores musculares e melhora a concentração.
  • Óleo de Camomila: Anti-inflamatório, ideal para peles sensíveis e relaxamento.

Os óleos essenciais são obtidos por processos como destilação a vapor ou prensagem a frio, garantindo a preservação de seus compostos bioativos. Esses compostos interagem com o corpo humano de forma poderosa, influenciando tanto o sistema nervoso quanto o imunológico.

Métodos de Uso

Os óleos essenciais podem ser aplicados de diversas formas, cada uma com benefícios específicos:

  • Inalação: A forma mais rápida de absorção, onde os compostos aromáticos alcançam o sistema límbico, que regula emoções e memórias. Difusores ultrassônicos são populares por criar uma névoa aromática que purifica e perfuma o ambiente.
  • Aplicação Tópica: Diluídos em óleos carreadores (como amêndoas ou jojoba), os óleos essenciais são absorvidos pela pele, promovendo efeitos locais e sistêmicos.
  • Banhos Aromáticos: Adicionar algumas gotas de óleo essencial à água do banho cria uma experiência relaxante e terapêutica.
  • Compressas: Óleos diluídos em água quente ou fria podem ser aplicados em compressas para aliviar dores ou inflamações.

Precauções na Aromaterapia

Embora natural, a aromaterapia exige cuidados. Óleos essenciais são altamente concentrados e devem ser diluídos antes do uso tópico para evitar irritações. Alguns óleos, como os cítricos, são fotossensíveis e podem causar manchas na pele sob exposição solar. Além disso, gestantes, crianças e pessoas com condições médicas específicas devem consultar profissionais antes de usá-los.

Massoterapia: O Toque que Cura

A massoterapia, uma prática ancestral presente em diversas culturas, utiliza o toque terapêutico para aliviar tensões, melhorar a circulação e promover o bem-estar. Mais do que um momento de relaxamento, a massagem é uma ferramenta poderosa para tratar condições físicas e emocionais.

Técnicas de Massagem

A massoterapia abrange uma variedade de técnicas, cada uma com objetivos específicos:

  • Massagem Sueca: Caracterizada por movimentos longos e fluidos, é ideal para relaxamento geral, melhoria da circulação e alívio de tensões leves.
  • Massagem Deep Tissue: Foca nas camadas profundas dos músculos, sendo eficaz para dores crônicas, como as causadas por má postura ou lesões.
  • Massagem Terapêutica: Personalizada para tratar condições específicas, como dores articulares, lesões esportivas ou enxaquecas.
  • Massagem Ayurvédica: Inspirada na medicina indiana, utiliza óleos aquecidos e movimentos rítmicos para equilibrar corpo e mente.
  • Reflexologia: Concentra-se em pontos específicos dos pés, mãos ou orelhas, que correspondem a diferentes partes do corpo, promovendo equilíbrio sistêmico.

Benefícios da Massoterapia

Estudos científicos comprovam que a massoterapia reduz níveis de cortisol (hormônio do stress), aumenta a produção de endorfinas e melhora a qualidade do sono. Além disso, ela estimula o sistema linfático, auxiliando na eliminação de toxinas, e promove a recuperação muscular, sendo amplamente utilizada por atletas.

Sinergia com a Aromaterapia

A integração da aromaterapia à massoterapia eleva a experiência a outro patamar. Óleos essenciais potencializam os efeitos da massagem, oferecendo benefícios adicionais. Por exemplo:

  • Lavanda e Bergamota: Promovem relaxamento profundo, ideais para massagens suecas.
  • Hortelã-Pimenta e Alecrim: Aliviam dores musculares, perfeitos para massagens deep tissue.
  • Ylang-Ylang: Estimula a sensação de bem-estar e sensualidade, ótimo para massagens relaxantes.

A combinação do toque terapêutico com os aromas cria uma experiência multissensorial que nutre corpo, mente e alma.

Fitoterapia: A Sabedoria das Plantas

A fitoterapia, uma das práticas medicinais mais antigas da humanidade, utiliza plantas e seus extratos para prevenir e tratar doenças. Combinando conhecimento tradicional e validação científica, ela oferece uma abordagem natural e eficaz para a saúde.

O Poder das Plantas Medicinais

As plantas medicinais são ricas em compostos bioativos, como alcaloides, flavonoides e terpenos, que conferem propriedades terapêuticas. Exemplos incluem:

  • Camomila: Calmante, auxilia no tratamento de insônia e problemas digestivos.
  • Gengibre: Anti-inflamatório e digestivo, eficaz contra náuseas e dores articulares.
  • Echinacea: Fortalece o sistema imunológico, usada para prevenir resfriados.
  • Valeriana: Sedativa natural, promove sono reparador.

Essas plantas podem ser consumidas como chás, tinturas, cápsulas ou extratos, dependendo da necessidade e da orientação profissional.

Formas de Aplicação

A fitoterapia oferece diversas formas de uso:

  • Chás e Infusões: Ideais para extrair compostos solúveis, como em chás de erva-cidreira para relaxamento.
  • Tinturas: Extratos alcoólicos concentrados, usados em pequenas doses para efeitos rápidos.
  • Pomadas e Bálsamos: Aplicados topicamente para tratar condições de pele ou dores localizadas.
  • Cápsulas: Práticas para doses padronizadas de extratos vegetais.

Integração com Aromaterapia e Massoterapia

A fitoterapia complementa as outras terapias de forma natural. Por exemplo, um chá de camomila pode preparar o corpo para uma massagem relaxante, enquanto óleos essenciais de plantas medicinais, como o de alecrim, amplificam os efeitos terapêuticos durante a massagem. Bálsamos fitoterápicos, como os à base de arnica, podem ser aplicados após massagens deep tissue para aliviar dores musculares.

A Interconexão das Terapias Complementares

A verdadeira magia dessas terapias reside em sua capacidade de se entrelaçarem, criando um sistema de cuidado holístico que trata o indivíduo em sua totalidade. Aromaterapia, massoterapia e fitoterapia trabalham em harmonia, abordando corpo, mente e espírito de forma integrada.

Um Dia de Bem-Estar

Imagine um dia dedicado ao autocuidado:

  • Manhã: Comece com uma inalação de óleo essencial de eucalipto para despertar os sentidos, seguida por um chá de gengibre e limão para estimular o metabolismo.
  • Tarde: Uma sessão de massagem sueca com óleos de lavanda e bergamota promove relaxamento profundo. Após, uma infusão de hortelã-pimenta revitaliza o corpo.
  • Noite: Um banho aromático com óleo de rosa mosqueta, conhecido por suas propriedades regenerativas, prepara o corpo para o sono. Um chá de valeriana finaliza o dia, garantindo uma noite tranquila.

Esse ritual exemplifica como as terapias podem ser combinadas para criar uma rotina de bem-estar abrangente.

Evidências e Testemunhos

Pesquisas mostram que a combinação dessas terapias pode reduzir sintomas de ansiedade em até 60%, melhorar a qualidade do sono e aliviar dores crônicas. Pacientes relatam histórias inspiradoras, como a de uma mulher que superou enxaquecas crônicas com massagens terapêuticas e óleos essenciais, ou de um atleta que recuperou a mobilidade com a integração de fitoterapia e massagem deep tissue.

Desafios e Considerações Éticas

Apesar dos benefícios, as terapias complementares enfrentam desafios. A regulamentação varia entre países, o que pode levar a práticas inconsistentes. Além disso, a qualidade dos óleos essenciais e extratos fitoterápicos depende de fatores como origem e método de produção. É fundamental buscar profissionais qualificados e produtos certificados.

Pessoas com alergias, condições médicas específicas ou em uso de medicamentos devem consultar um médico antes de iniciar qualquer terapia. A educação contínua e a transparência são essenciais para garantir a segurança e a eficácia dessas práticas.

Conclusão: Um Convite à Harmonia

Aromaterapia, massoterapia e fitoterapia são mais do que práticas isoladas; são peças de uma sinfonia que celebra a conexão entre o ser humano e a natureza. Juntas, elas oferecem um caminho natural e poderoso para a saúde, o equilíbrio e a paz interior. Ao incorporar essas terapias nas nossas vidas, podemos não apenas melhorar nossa qualidade de vida, mas também redescobrir a sabedoria ancestral que nos lembra: a verdadeira cura nasce da harmonia e da interconexão.

Que esta sinfonia do bem-estar o inspire a explorar essas práticas, encontrando no toque, nos aromas e nas plantas um refúgio de cura e renovação.

Maio de 68: O Lento Arder da Sede

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Era chegado o lindo e redondo mês de Maio, mês dos ramos das noivas, do fim das chuvas, da celebração das mães que geraram os filhos que hão-de ir para a guerra ou, tão somente, o mês de desenhar no pó do chão uma cornucópia sagrada, esconjuradora de todas as maldições hereditárias. Lisboa sobrevivia, prenhe de livros proibidos, boitese bordéis, por entre as hortas, as tascas e as meias de nylon, conforme o ventre de Bona Dea. Salazar, estampa com centenas de mãos hábeis, comandava o torrão natal, aconchegado num cobertor de lã de ovelha, protegido de enrouquecer a sua voz frágil e rodeado de vassalos sagazes, convencidos de que era possível ressuscitar o absolutismo. Assim refugiado, no miolo do seu alcácer e adjacente ao chão, perfilava as garrafas com vinho tinto da sua colheita na província, necessariamente curado a enxofre e algum mofo da batina que lhe vincara a infância, enquanto expedia para África os filhos dos filhos de uma nação.

 Só alguns, como Carlos Nery de Araújo, é que sabiam porque Lisboa estava assombrada. De Lisboa, em harpa elíptica, partiam os navios carregados com os jovens efebos, para a guerra colonial. Estava-se em 1968, António de Spínola tomava posse como governador da Guiné. A guerra, combate ou oposição entre forças, a quebrar a paz em pedaços e a fazer a morte parecer banal, ainda que os que perecessem fossem rebentos de flores. A guerra colonial, pela parte portuguesa, a sustentar-se no princípio político da defesa daquilo que se considerava ser território nacional. Esse princípio, com base em manter um império, edificaria uma fatalidade sem reparo possível, em todo o tempo que há-de ser o futuro da pátria amada. Outros rapazes havia, franceses, que dançavam à volta da árvore de Maio, ao som de flautas e tambores, num ritual de arremesso, para que nascesse o sol, o espanto e as ideias, em cânticos de liberdade. Porém , não era essa a encenação no palco de Portugal.

 Às onze horas daquele primeiro dia de Maio, cinzento, o Niassa deixava o porto de Lisboa rumo à Guiné-Bissau. No cais eram imensas as estátuas vivas de mãos a acenar os lenços brancos e, outros tantos lenços que não tendo força para acenar, enxugavam o olhar, ou tentavam esconder as bocas escancaradas no choro da antecipação das saudades, mais a falta de esperança.

Naquele instante, cor de violeta, Francisco Espairo sentia que o movimento da língua estava no trilho desassossegado do que vale vencer para não morrer. Lambia o medo, em silêncio. O silêncio da juventude brava nunca se pode constituir de medo, e nem de assombros, só de procura, ainda que partir signifique dor.

Cada pai, cada mãe, cada irmão, cada namorada ou companheira, faziam-se símbolos do desespero, num queixume que não encontrava razão. Defender a pátria e a bandeira de Portugal seria arrastar em turbilhão estes jovens rapazes para dentro de um navio, com destino a uma lonjura estranha e desconhecida.

Eram tantos os rostos com máscara de mágoa a preencher o cais! Os mesmos rostos que iriam ficar gravados na sua memória. A expressão de dor dos familiares ocupava todo o tamanho sombrio da plataforma, na cena da despedida, enquanto o Tejo brilhava sempre, cruel e impiedoso, nem parecia o velho amigo Tejo, de alfinete de prata na gravata e um ar pedante, com modos de traidor-bandido.

O branco dos acenos sobrevoava o negrume dos corvos em que se tinham transformado os olhares pungentes, e apoderava-se de Francisco, que se sentia prisioneiro de uma emboscada a meio do caminho que vinha percorrendo, através da enseada do futuro.

O ruído dos motores galopava estrondoso, assustando as ninfas e as sereias do Tejo. Sufocava-se. O espaço ia todo ocupado! Os soldados eram tantos! Como é que se remanesce, ao menos, com um fragmento de lucidez?

Esta viagem demoraria seis dias, sem escala em qualquer porto de mar. De vez em quando passava outra embarcação, lá muito ao longe. E, perto, seguia a escolta da Marinha de Guerra, como um amparo vigilante.

É assim o engenho do exército: usurpador, como todos os engenhos de todos os exércitos do mundo, que arranca estes meninos dos seus berços e os leva para os matos da selvagem Guiné.

O mar repousado fazia por adormecê-los, em jeito de ninar. Pai feito de água e abraço. Enorme colo ali achado. E, a fundura do seu peito, escondia-lhes o choro como se fosse um segredo de vidro.

O mormaço ajudava a transpiração a fazer-se perfume perante os outros cheiros pestilentos. Cada homem que viajava nesta camada inferior do Niassa representava um cavalo de raça pura, pronto para qualquer trabalho, um servo entregue ao cuidado da instituição militar de um país governado por uma minoria de autocratas pretensiosos. Sentiam-se incapazes de poder apelar à sua condição de homens a quem se deve dignidade e merecimento.

  • O que é aquilo?
  • São peixes voadores, não vês, ó palerma?!
  • Peixes voadores? Mas como é que eles conseguem, os filhos de uma onça?
  • Ah! Ah! Ah! – gargalhada geral de quem vai mais ou menos bem-disposto e sem enjoar.

Francisco, agora já Chico, vai febril. Sonha com a sua terra, com a sua avó Maria do Socorro, adeus avó. Sonha com a sua noiva Cassilda, adeus meu amor. Vira, volta e revira o corpo. Vomita vezes demais, dia após dia. Quanto tempo ainda falta para terminar este martírio?

  • És de onde, ó Chico?
  • Sou de Regoufe.
  • Onde raio é Regoufe?
  • Não sabes nada. Para que te pões a perguntar? Valia mais que não me atormentasses o juízo!
  • Olhem só, temos um Chico atormentado!
  • Ah! Ah! Ah! – mais risos e zombaria. Decerto o melhor remédio para estes rapazes suportarem as horas de viagem naquelas condições, rumo ao infortúnio. Maneiras de passar o tempo!

Nesta viagem, o tempo é demorado. É um tempo que, de tão lento, se faz peganhento. Um tempo que se agarra à pele, como uma decadência que começou a ulcerá-la, mal o Niassa largou do cais. Feito de minúsculas brasas, vai flagelando, aos poucos, com tristeza, com melancolia, com transtorno pontiagudo, com aquela angústia de uma provação que faz padecer.

Pudesse agora estar sentado na soleira da porta de casa, a contemplar a serra verdejante, a sentir o ar fresco e perfumado dos goivos a assenhorar-se-lhe dos pulmões, e o plano seria vertical e infinito, sem medo ou ansiedade. Quantas vezes assim esteve e nem deu importância?!

Uma Ordenação militar ao Concelho de Lisboa pelo Augusto Senhor D. Duarte [1436]

“Dom Eduarte e etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que desejando nós honrra E proveito aos moradores da muy Nobre Leall Çidade de Lisboa por lhes fazermos mercêe como elles muy bem merecem hordenamos que daqui em diante quallquer morador dentro dos muros E…

…arrabaldes della que acontiado em cavalo E armas fôr ou tall contia tenha per que lhe devesse seer lançado seia rrelevado E escusado dello Contanto que por o dicto cavallo e armas cada huu delles tenha em sua casa dous arneses limpos bõs E rreçebondos, diga-se, o que houver…

…de ter por o cavallo que seja arnês de pernas E prontas çarradas com sua faldra ou solhas E arnês de braços gaveto ou mandalletes E baçinete de baveyra E lança de armas E facha. E o outro arnês seja segundo a hordenaçom que sobrello he feita E sse fôr acontiado em cavalo…

…singelo ou tever contia pera ell mandamos que tenha o arnês comprido suso declarado E com elles pareçam nos allardos [revistas de tropas] perante o Coudell. E aconteçendo que por nosso serviço nos hajamos mester alguãs armas E a cada huu destes sobreditos mandemos filhar…

…alguuns arneses, queremos que taaes como estes hajam liberdade de nom serem constrangidos nem demandados que pareçam em allardos com o dicto arnês ou arneses do dia que lhe forem filhados atá dez annos, se lhe primeiro pagados ou tornados nom forem. E tanto que lhe tornados…

…ou pagados forem, sejam theúdos de parecer com elles nos dictos allardos como antes pareciam. E posto que lhe nom sejam pagados atá os dictos dez annos os sobreditos a que assy as dictas armas fôrem filhadas sse trabalhem de averem outras tantas E taaes pera daí em diante…

…com ellas pareçerem nos dictos allardos. E sse atá o presente alguns acontiados foram filhadas armas nom sejam theúdos a ter outras semelhantes atá que sejam compridos quinze anos do tempo que lhes filhados foram E pera averem estes arneses hajam seis meses de espaço cada…

…vez que lhe forem lançados E como de rrazom en tanto tempo se podia perder alguu cavallo se o tevesse por o qual averia de comprar outro, assy he dito de aver o dicto arnês como dito hé, com o quall nom há de fazer despesa como com o cavallo. E por que esto fazemos em seu…

…favor delles, se alguuns ante quiserem teer os cavallos rrecebondos segundo sua hordenança a nós praz de seerem escusados de teerem os ditos arneses compridos. E outrossy queremos E hordenamos que daqui em diante nenhuu estrangeyro de quallquer naçom que seja fora de nossos…

…Rregnos que sse a esta çidade venha morar nom seja constrangido nem posto por beesteyro do conto em quanto nella morarem. E por que os dictos ofiçiaaes E outras pessoas a que peertençe de os dar poderiam dizer ou poer escusa que por este azo o numero de 300 beesteyros do…

…conto que em a dicta çidade per hordenança amtiga ha daver nom sse poderia cumprir. E os naturaaes da terra se agravariam por tall escusamento. Praz-nos quitarmos-lhe do dicto numero çimquoenta. E daqui em diante a dicta çidade nom seja mais obrigada de nos dar que 250…

…beesteyros. E este abatimento dos dictos 50 beesteyros queremos que seja por lhes fazer mercêe por que bem sabemos que nunca de pessoas estrangeyras foram na dicta çidade 50 beesteyros E sse este anno alguuns estrangeyros foram postos por beesteyros, mandamos que os tirem…

…ainda que já sejam scriptos no livro do anadell-mor. Outrossy queremos E hordenamos que daqui em diante em ella nemhuãs pessoas dos nossos regnos ou de fora delles que vão pera Çeuta nem armadas ou per alguuã outra parte ou em ella queiram estar, de qualquer estado E…

…condiçam que sejam, quando nós E a Rrainha minha molher E os Iffantes meus filhos E irmaãos E Condes E meus sobrinhos nom formos em a dicta çidade, nom sejam dadas de pousadia nenhuãs casas per nossas cartas nem Alvarás posto que as tragam se em ellas nom fezer memçom que…

…se deem nom embargando esta carta Mas todos vão pousar ao Estau novo que se ora faz no Rrossio acerca de S. Domingos tanto que acabado fôr E em elle ouver abastança das cousas que neçessarias E compridouras forem aos que em ell pousarem segundo se custuma de fazer em…

…semelhantes Estaus. Outrossy nos praz por a dita çidade melhor se povorar que quallquer que daqui em diante fezer casas de novo, que os primeiros cinquo annos seguintes nom sejam dadas de pousentadoria. E sse forem feitas sobre alguuns pardieiros, que àa feytura desta som…

…derribados de todo o telhado E madeiramento, sejam escusadas da dita pousentadoria por três annos primeiros seguintes posto que àa dicta cidade venhamos. E porem mandamos ao nosso pousentador-mor E ao corregedor E ao Coudell E Anadell E Offiçiaes E homeens bons da dicta…

…çidade E a outros quaaesquer que esto pertencer a que esta nossa carta for mostrada que a cumpram E guardem assy E per a guisa que em ella he contheudo, que assy he nossa mercêe E all nom façades. Dada em a dicta çidade primeiro dia de dezembro, Ruy Galvam a fez, Era de…

…Mill E IIIIc XXXVI annos”. – Leitura Nova, Livro X da Estremadura, f. 208-209.

Que justiça quer construir para sua aldeia? O caso das mulheres Samburu

Que justiça você quer construir para si e para sua aldeia? Uma travessia a partir das mulheres Samburu

Laís Cristina Neiva de Sousa[1]

No final de março, deparei-me com uma reportagem no jornal Nation Kenya intitulada, numa tradução livre ao português, Quebrando barreiras: Como as mulheres de Samburu encontraram sua voz nos tribunais tradicionais[2], escrita pela jornalista Florah Koech. O texto contava as experiências — uso o plural porque, na minha visão, são múltiplas e coletivas — de justiça restaurativa no Quênia, país da África Oriental. A história me capturou de imediato, não só pela força do relato, mas também por me lembrar do meu próprio artigo — Um diálogo entre Direitos Humanos, Justiça Restaurativa e Hermenêutica Filosófica: os círculos restaurativos como vivência da linguagem na perspectiva gadameriana[3], no qual investiguei experiências restaurativas no contexto brasileiro.

As experiências no território Samburu, em resumo, mostram como a implementação de um sistema de justiça restaurativa com uma perspectiva de gênero pode transformar profundamente a realidade de um território inteiro. Estamos a falar de uma sociedade pastoral patriarcal, onde o Conselho de Anciãos era composto exclusivamente por homens. Esse cenário começou a mudar com a inclusão de quatro mulheres no Conselho, que é composto em seu total por 19 pessoas, formando o que eles chamaram de Loip — o Tribunal sob a Árvore. Antes relegadas ao trabalho doméstico e ao pastoreio, essas mulheres não participavam de negociações importantes para sua realidade, como por exemplo os casamentos e dotes de suas filhas. No entanto, a partir da sua inclusão, Koech nos conta como elas passaram a desempenhar um papel central na resolução de conflitos, especialmente em casos de violência doméstica, outrora ignorados ou empurrados para o esquecimento.

Nesse contexto, a justiça restaurativa, agora também feita por mulheres, trouxe uma nova sensibilidade à comunidade Samburu: os conflitos passaram a ser resolvidos de forma amigável, incluindo disputas por terras e até casos criminais, como homicídio. Ademais, a presença feminina alterou a própria estrutura social da comunidade, pois os homens mais velhos começaram a ouvir as suas esposas nas decisões familiares. Isso evidencia como o gênero importa, não como categoria biológica, mas como lente de mundo. É através do olhar dessas mulheres que outras se reconhecem e conseguem se aproximar das experiências fenomenológicas de estar-no-mundo sendo mulher, seja no Brasil, seja no Quênia, em meio a todos o complexo de relações que perpassam por nossos corpos.

O conceito de poder simbólico[4], formulado por Pierre Bourdieu, é essencial para compreender essa dinâmica. Ele nos ensina que as instituições humanas carregam um poder invisível, porém potente, que legitima uma determinada visão de mundo como se fosse natural, e não o é. Entretanto, é esse tipo de poder que culturalmente determina comportamentos e práticas que buscam excluir a presença feminina dos locais de tomada de decisão, de poder real. O sistema de justiça não é diferente: a linguagem, os rituais jurídicos e a própria figura do juiz são socialmente reconhecidos como legítimos, mesmo quando perpetuam desigualdades. Por isso é tão importante ter esses espaços ocupados por mulheres e outras identidades historicamente vulnerabilizadas, para que o poder represente, de fato, o social. E isso ressoa, como se viu na comunidade Samburu.

Neste panorama, lá atrás, no meu artigo, eu já refletia como as práticas restaurativas podem ser vistas como formas criativas de resistência social. São alternativas que desafiam a racionalidade dominante, questionam estruturas excludentes e abrem espaço para novas formas de pensar justiça — para além da sanção. Além disso, essas práticas promovem uma educação para a paz, centrada nos direitos humanos e na transformação social. Uma paz que exige responsabilidade e cidadania participativa.

Para além disso, a experiência Samburu também desafia a lógica do “ganha-perde” da justiça tradicional, substituindo-a por um modelo de “ganha-ganha” comunitário. Outro dado relevante trazido pela reportagem é como a justiça restaurativa, ali, é ponte entre o tradicional e o formal. O Loip recebe os casos, resolvem-nos segundo regras locais e comunicam os resultados ao sistema formal, num fluxo que desobstrui a justiça estatal e fortalece os laços comunitários.

Aqui, a hermenêutica de Gadamer[5] ilumina o processo: a fusão de horizontes permite reformular pré-compreensões. O sujeito aberto à escuta coloca em jogo seus próprios preconceitos e forma outros horizontes de mundo. Assim, saímos de um modelo de justiça tradicional e patriarcal para uma experiência circular, comunitária, onde laços sociais rompidos pelo mau-feito são restabelecidos. Ou seja, tem-se uma forma decolonial, ou contracolonial, como propunha o mestre Nêgo Bispo[6].

Pensar em formas alternativas de justiça, que nos representem desde epistemologias do Sul — seja na América do Sul ou na África Oriental — é fundamental. O gênero importa. A empatia importa. A escuta importa. São esses elementos que podem gerar novas formas de efetivamente fazer justiça, uma justiça que sirva à coletividade.

Agradeço profundamente a Florah Koech pelo valoroso artigo, e ao Dossier África[7], promovido pela Casa África de diplomacia espanhola, por fazer com que essas experiências cheguem a outras latitudes, cruzem oceanos e dialoguem com janelas já abertas. Que possamos, então, continuar a problematizar desde outros olhares, de forma viva e insurgente.

Afinal, não existem respostas melhores que outras, elas são reflexos de cada povo. Basta se perguntar: que justiça você quer construir para si e para sua aldeia?

  1. Laís Neiva é Bacharel em Direito pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Especializou-se em Direitos humanos e Democracia. Também concluiu um Diplomado de Liderança em Inclusão Social e Acesso a Direitos pela Organização dos Estado Americanos (OEA). Já desempenhou cargos públicos de Assessora Jurídica de autoridades brasileiras como Magistrado (TJPI) e Promotor de Justiça (MPPI). Atualmente, é mestra em Estudos de Tolerância Mundial e Paz pela Universidade Católica de Murcia (UCAM) e também atua como pesquisadora do Grupo de Estudos em Direito e Assuntos Internacionais (GEDAI) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Sua pesquisa se concentra em questões raciais, violência policial e direitos humanos no Brasil. Comprometida com a promoção dos direitos humanos, acredita em seu potencial transformador para a sociedade, integrando essa perspectiva em sua carreira acadêmica e vida pública.

  2. Koech, F. (2025, 27 de março). Breaking barriers: How Samburu women found their voice in traditional courts. Nation Kenya. https://nation.africa/kenya/news/gender/breaking-barriers-how-samburu-women-found-their-voice-in-traditional-courts-4979682 .

  3. Sousa, L. C. N. d. (2024). Um diálogo entre Direitos Humanos, Justiça Restaurativa e Hermenêutica Filosófica: os círculos restaurativos como vivência da linguagem na perspectiva gadameriana. Revista do Ministério Público / Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.01(01), 93–119.  https://www.mprj.mp.br/servicos/revista-do-mp/revista-91 .

  4. Pierre Bourdieu, O Poder Simbólico, tradução de Fernando Tomaz (Lisboa: Difel, 1989), 7-16.

  5. Hans-Georg Gadamer, Verdade e método II: complementos e índice, tradução de Enio Paulo Giachini, revisão da tradução de Maria de Sá Calvacante-Schuback (Petrópolis, RJ: Vozes, 2002), 132.

  6. Filósofo, poeta, escritor, professor e ativista político, publicou três livros e dezenas de artigos sobre a história da luta do povo negro. Propôs o conceito de contracolonialismo, uma atitude para reforçar a cultura, as práticas, a organização social e todas as manifestações coletivas dos povos colonizados contra os esforços de imposição dos colonizadores. Para ele, a contracolonização seria o “antídoto” contra a colonização, que ele definia como “veneno”. Ver: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2023/12/04/antonio-bispo-dos-santos-o-nego-bispo-propos-contra-colonialismo-contra-veneno-da-colonizacao.ghtml

  7. Dosier África. (s.d.). Casafrica. https://www.casafrica.es/es/DosierAfrica

Obras de Ana Vidigal

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Técnica mista sobre Tela

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Técnica mista sobre papel

Colagens sobre cortiça

Fluxus: Uma Antítese

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1. A génese do Fluxus

Tão dispersivo quanto idiossincrático, o Fluxus, um dos mais complexos fenómenos artísticos surgidos na década de sessenta do século passado, apresenta-se-nos hoje capaz ainda de resistir às mais (e menos) exigentes tentativas de interpretação e categorização. Comum aos artistas que se identificaram com este movimento era a noção de que o domínio ao qual pertencia a arte não devia nem podia ser distinto daquele a que a vida quotidiana convencionalmente sempre pertencera. A realidade deveria então ser interpretada como o lugar-mesmo no qual vida e arte acabariam por ser uma e a mesma coisa, e sobre a qual poderiam atuar de um mesmo e igual modo. Assim, era declarado o fim da cisão entre artístico e não artístico, artista e não artista, vida e arte, sob o instigante ditame “everything is art and everyone can do it”[1]. Tais posições resultaram numa original redefinição e criação de sentidos no que à génese, à apresentação e à distribuição da arte diz respeito. Entre os exemplos mais relevantes encontram-se os conceitos de festival, performance e event[2] explorados pelo Fluxus – casos estes em que o espectador, ao contrário do que até então acontecia, se tornava parte integrante da obra a que assistia, sendo até, por vezes, um agente imprescindível na sua execução e conclusão. Não obstante, não devem estas noções ser bruscamente isoladas dos contextos vanguardistas nos quais (e muitas vezes contra os quais) surgiram – nomeadamente o do Expressionismo Abstracto, o da Pop Art, o do Minimalismo e o do Nouveau Réalisme – assim como dos legados mais específicos a partir dos quais se desenvolveram e foram atualizando, sendo destes os melhores exemplos o do artista dadaísta Marcel Duchamp e o do músico e compositor John Cage.

2. A tríplice histórica do Fluxus

George Maciunas (1931-1978), imigrante lituano nos Estados Unidos da América, e fundador do movimento que se afirmaria como Fluxus, partindo das inéditas possibilidades demonstradas pela ironia crítica dos ready-made de Duchamp e pelas indeterminações e contingências das chance operations de Cage (herdadas do estudo deste sobre o pensamento oriental Zen) começou por explorar a possibilidade de novos modos de hibridismo mediados por aspetos e processos que, provenientes tanto das vanguardas históricas quanto das suas contemporâneas, entendia serem os mais antagónicos ao formalismo estético tradicional.

Tendo isto como escopo, e depois de numa primeira fase ter tentado, em 1960, fundar em Nova Iorque, mas sem sucesso, a revista Fluxus (destinada a um grupo cultural lituano da mesma cidade) conseguiu porém, já no ano seguinte, organizar na AG Gallery, na mesma cidade, o primeiro evento relacionado com o que se viria a tornar o Fluxus, intitulado, neste primeiro momento, Bread & AG. Finalmente, depois deste evento, Maciunas empreendeu todo um programa centrado numa série de festivais e concertos, que, começado em Wiesbaden, em 1962, passou depois por Düsseldorf, Wuppertal, Copenhagen, Paris, tendo terminado em Nice em 1963. Programa que, muito afim aos festivais de música e cultura atuais, ao ter contado com a colaboração de artistas provenientes de todos os cantos do mundo e das mais diversas áreas, logrou colocar definitiva e internacionalmente o Fluxus entre as novas correntes vanguardistas do período do pós-guerra.

Regressado a Nova Iorque em 1963, Maciunas organiza no ano seguinte um conjunto de performances de grupo. O primeiro, em abril e maio, que designou por Fluxus Concerts. O segundo, em junho, a que chamou Fluxus Symphony Orchestra. E, finalmente, um último, ainda no outono do mesmo ano, que teve lugar na Washington Square Gallery. Este primeiro momento, que comummente se considera a primeira fase do Fluxus, terminaria no final do mesmo ano, devido a profundas divergências entre vários membros constituintes, marcadas, inclusivamente, pela saída, sem retorno, dos mesmos artistas.

<i>Flux Year Box 2</i> De 1964 a 1970 desenvolve-se o que se pode notar como a segunda fase do Fluxus, pontuada essencialmente por publicações antológicas como a Flux 1 e Flux Yearbox 2, de cujo total conjunto são estas os mais relevantes exemplos.

Durante os oito anos seguintes, que terminam com a morte de Maciunas em 1978, e que muitas vezes são mencionados como a terceira e última fase do Fluxus, este regressara à sua dimensão mormente performativa, segundo modos que exigiam do público uma maior e, por vezes, indispensável participação e atividade, como se verificou por exemplo em Flux Mass, Flux Divorce, Flux Tours e Flux Games.

Figura 1 – Year Box 2, George Maciunas, 1972.
Fonte: Museum of Modern Art (MoMA).

Disponível em: https://www.moma.org/interactives/exhibitions/2011/fluxus_editions/works/year-box-2/index.html. Acesso em: 12 jun. 2025.

3. Fluxus enquanto teoria estética

George Maciunas, até mesmo antes do estabelecimento do Fluxus como tal, foi sempre refletindo e teorizando sobre a sua sensibilidade e posição artísticas. Nesta sequência começou por defender no seu ensaio Neo-Dada in Music, Theatre, Poetry, Art, apresentado em 1962 no Fluxus concert Après John Cage, em Wuppertal, uma mudança do paradigma artístico que passaria pela criação de uma anti-art[3], a qual, por meio de um maior concretismo e de uma menor artificialidade, antecederia o contexto de total indiferenciação entre o objeto comum e o objeto artístico. No mesmo texto, substancia esta posição, argumentando que “rainfall is anti-art, a babble of a crowd is anti-art, a sneeze is anti-art, a flight of a butterfly, or movements of microbes are anti-art. They are as beatiful and as worth to be aware of as art itself.”[4]

Mais tarde, já em 1963, e depois de terminado o festival em Wiesbaden, Maciunas redige o seu Fluxus Manifesto, onde os conceitos de fusão entre arte e vida por meio da criação de uma anti-art são então explicitamente fundamentados e subsequentemente direcionados ao papel social e político que o Fluxus deveria desempenhar. Usando um método semelhante ao dos Dadaístas, recorre a um dicionário; e, a partir desse, fotografa e cola na folha do seu manifesto oito dos significados referentes à entrada lexical “fluxo”, tendo, desses, destacado termos como “corrente”, “processo” e “fusão”. Nesta senda, manuscreve e sublinha o termo purge, relevando assim a vertente profundamente catártica e renovadora que deveria ser inerente a todo o movimento. Movimento que promoveria, por conseguinte, uma “non art reality to be grasped by all peoples, not only critics, dilettants and professionals” e que, purgando o mundo do europanism, conseguisse “fuse the cadres of cultural, social & political revolutionaries into united front & action”.

Figura 2 – Adaptada de Fluxus, por Hendricks, J. and Phillpot, C., p. 2, 1988. New York, N.Y.: Museum of Modern Art.

Por fim, em 1965, definidos os derradeiros ideais do Fluxus, a sua teorização atinge o que se poderia chamar de estado de síntese, com o texto Fluxamusement, da autoria, também, de Maciunas. Neste texto, é declarado, para além do objetivo de estabelecer “the artist’s nonprofessional status in society”, que “this substitute art-amusement must be simple, amusing, unpretentious, concerned with insignificances, require no skill or countless rehearsals, have no commodity or institutional value”[5].

Esta assumida demanda antitética contra os convencionalismos e institucionalismos artísticos (europeus), designada por Maciunas de europanism, consagra, a par com a sua pretensa união entre arte e vida, uma das mais centrais e importantes características do Fluxus. Pois, simultaneamente à crítica direcionada ao hermetismo burguês de todas as posições (e imposições) artísticas europeias, é não só diferidamente retomado o que antes havia sido já identificado e criticado pelas vanguardas históricas dos anos vinte e trinta[6] – e.g., a presunção da originalidade, a correspondente crise autoral, a crítica à chamada indústria da cultura e obviamente o estatuto do objeto artístico – como são também, ainda que de um modo inegavelmente complexo, reunidas e ao mesmo tempo subvertidas as grandes problemáticas artísticas contemporâneas ao movimento, nomeadamente a crise (classicamente) modernista do médium artístico, a coletivização dos meios de produção cultural, a referida conceção holística da arte e a obsolescência do objeto artístico, bem como as tensões inerentes à sua dimensão enunciativa.

4. A performance enquanto médium artístico

É na senda de uma atitude profundamente ética em relação à arte, que, procurando cotejar ao máximo a crise do médium artístico, o Fluxus descobre e amplia o seu potencial máximo de atuação, por meio do então recém-chegado conceito de performance. A ambiguidade e a ambivalência por este possibilitadas deram origem a um modo de expressão híbrido, capaz de articular diversos elementos através de uma irónica dialogia que, tão corpórea quanto contextual, tão singular quanto interdisciplinar, permitiu criar e negociar fenomenológica e epistemologicamente um dinâmico e indeterminado conjunto de significados entre público e artista, audiência e performer.

Intimamente associados a este paradigma performativo, artistas do Fluxus como George Brecht, Robert Watts e Dick Higgins – partindo da reformulação das noções de simultaneidade de eventos de John Cage, da sagaz teoria arquivística presente na obra La Boîte-en-valise de Marcel Duchamp ou ainda da simplicidade enunciativa de Lighting Piece (1955) de Yoko Ono – conseguiram dar vazão às contingentes, e por isso sempre imprevisíveis, (ir)resoluções subsecutivas à performance, através de um registo performativo de cariz sobretudo linguístico-teatral, que George Brecht designou como event. Reconhecíveis na sua simplicidade e, em muitos casos, literalidade, ambas patentes não só no recurso a objetos mundanos (tais como utensílios de cozinha, peças de mobília, instrumentos musicais, aparelhos eletrónicos, etc.) ou na escrita concisa de instruções performativas, estes events incorporavam as mais desmedidas e inesperadas doses de absurdo, provocação, desconcerto, improvisação, surpresa e, muitas das vezes, humor; muito humor.

Figura 3 – Yoko Ono – Lighting Piece (1955)

(reprodução nossa)

De e entre toda esta heterogeneidade ético-artística foram surgindo as desafiantes estéticas associadas ao Fluxus. Desde a Piano Activities (1959), de Philip Corner, executada em Wiesbaden por George Maciunas, passando pelo Drip Music (1959) de George Brecht, só executado também por Maciunas em 1963, e chegando à Kuba TV (1963), de Nam June Paik, na qual este introduz o vídeo como médium integrante de uma performance musical, a também melófila odisseia do Fluxus não reconheceu limites, como tão bem ilustra a performance de Paik e Charlotte Moorman 26’1.1499 for a String Player de John Cage (1965).

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Figura 4 – George Brecht – Drip Music (1962)

(reprodução nossa)

Figura 5 – Drip Music, de George Brecht, executado George Maciunas, 1963.

Fonte: Museum of Modern Art (MoMA). Disponível em: George Brecht. George Brecht’s Drip Music (1962), performed by George Maciunas during Festum Fluxorum/Fluxus/Musik und Antimusik/Das Instrumentale Theater, Staatliche Kunstakademie, Düsseldorf, February 2, 1963. 1963 | MoMA. Acesso em: 12 jun. 2025.

Muitíssimo recorrentes em exibições do grupo Fluxus, as performances e os events realizados a partir de contextos musicais não devem ser interpretados como totalmente arbitrários, pois (para além da clara influência de Cage em muitos dos artistas do grupo e, por conseguinte, a constante revisitação do seu objeto de investigação estética) o próprio conceito de música, os seus instrumentos, a sua hermética tradição erudita e o seu público tradicionalmente burguês constituíam um dos mais evidentes exemplos do elitismo denunciado em tantas ocasiões por Maciunas e outros artistas do Fluxus. Por esta razão, os objetos associáveis a essa mesma tradição eram, para além de alvo de deslocações ou destruições totais, também muitas vezes reutilizados quer em nome dessa nova estética, quer em nome de uma sua nova e atestada função.

5. A linguagem retórica do Fluxus

Com artistas como Ben Vautier, o Fluxus pôde também explorar outras vertentes e possibilidades. Dialogantes com dimensões essencialmente linguísticas, trabalhos como por exemplo Regardez moi cella suffit (1962) e Total Art Match-box (1965) pretenderam deslocar, num jogo de tensões conceptuais cujo âmago era a justaposição das linguagens verbal e visual, a atenção comummente concedida ao artista e à sua obra para o seu expectante público, até então considerado uma entidade mormente passiva e contemplativa. No primeiro dos trabalhos mencionados, essa sua mesma tensão era, como desde logo indicado pelo seu título, desencadeada por uma desconstrução da própria expetativa, a partir da qual se estabeleceria entre o próprio público e a sua função na performance o desarranjo gerado por essa mesma tensão, uma vez que seria apenas necessário que o público realizasse o que em primeira instância já havia realizado, de maneira a poder apreender o que a performance pretendera que de facto se realizasse. No caso do segundo trabalho, uma análoga tensão gerar-se-ia através do rearranjo e da redefinição do público não enquanto espectador da performance, mas antes como seu agente e veículo, visto que essa só verdadeiramente se cumpriria por meio da ação do seu público – que, em concreto, consistia em queimar tudo o que fosse considerado arte, a fim de queimar, em seguida, com o último fósforo da caixa, a própria caixa de fósforos que desencadeara, em primeira instância, todo o processo.

Uma imagem com fósforo, lume, recipiente, caixa

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Figura 6 –Total Art Match-Box, de Ben Vautier, ca. 1965.

Fonte: Museum of Modern Art (MoMA).

Disponível em: https://www.moma.org/collection/works/127589.

Acesso em: 12 jun. 2025.

Em ambos os casos (e também no já referido Drip Music, de George Brecht) são facilmente identificáveis as fortes influências das teorias autodestrutivas da arte de Gustav Metzger, colaborador breve do Fluxus. Retórica que enquadrou no Fluxus o que se poderá entender como uma perspetiva recursiva ou até mesmo pleonástica relativamente às temáticas da efemeridade e da obsolescência do objeto artístico, mediante as quais se explorava o conceito de uma arte autodestrutiva enquanto nova e prolífera forma de criação artística.

Fluxus, um realojamento das instituições

Comum também às práticas vanguardistas contemporâneas ao Fluxus, o questionamento do papel das instituições artísticas, assim como a influência destas na organização dos padrões e panoramas estéticos e culturais, foram alvo de enormes críticas por parte do grupo Fluxus. Assumidamente demarcado de perceções realistas provenientes de uma cultura social centrada na indústria do espetáculo e do consumo (como as que eram valorizadas pelos artistas do Nouveau Réalisme) e algo duvidoso quanto às deliberadas posições cínicas que a Pop Art ostentava diante das influências que sofrera desse mesmo tipo de cultura, o Fluxus tudo fez para se autoexcluir dos circuitos pré-estabelecidos pelos museus, galerias e instituições culturais. Contrariamente a todos estes, e guardando mais próximos os ideais da politizada estética do Produtivismo Russo e da estética reificada dos Dadaístas, o Fluxus repensou-se a partir da criação de uma sua própria rede de distribuição e consumo.

Disso mesmo nasce, em 1963, a sua Fluxshop de Nova Iorque, cujo funcionamento seria em tudo comparável a qualquer uma das outras lojas existentes na mesma cidade, se Maciunas não tivesse depois afirmado que esta não vendera, durante todo o ano em que estivera em funcionamento, um único item – de entre os quais se podiam encontrar os mais diversos objetos relativos ao Fluxus: um jornal, como o V TRE, vários Fluxfilms, revistas, livros, as já mencionadas antologias, folhetos e, por fim, juntamente com os surpreendentes Fluxkits (onde se podiam encontrar todo o tipo de objetos), as memoráveis Yearboxes, que eram registos a partir dos quais Robert Morris criara ainda o literal Card File (1962), e que eram, essencialmente, compostas por compilações de events e descrições escritas de processos artísticos.

No entanto, parece ser indispensável a qualquer análise feita a esta, diga-se, institucionalização do Fluxus uma perspetiva que não deixe devidamente de assinalar a sua dimensão irónica, satírica até. Ou não fosse esta uma experiência absurdamente ambiciosa, sobretudo se se tiver conta que só se acabou por materializar em modestas escalas. Pois é de notar que de modo algum chegou sequer a representar um tipo de concorrência às históricas instituições e indústrias existentes, para além de não ter também possibilitado qualquer difusão das suas obras para meios ou públicos que não fossem eles mesmos constituídos, numa maioria de vezes, por elementos pertencentes ao próprio movimento.

Mas outras críticas foram sendo feitas pelo Fluxus ao comportamento das instituições. Robert Filliou, artista francês, com a sua Gallerie legitime (1962), partindo da portabilidade oferecida pelas Boîte-en-valise de Duchamp, recorre a um só objeto – um chapéu – e relocaliza-o conceptualmente através do que pode ser interpretado como uma profunda e cáustica alegoria. Aludindo a todo o conceito de uma galeria de arte num objeto de uso quotidiano que tanto poderia proteger o sítio do corpo onde normalmente se o coloca, como servir-lhe também de adereço, Filliou optou por dispor depois nesse mesmo objeto todo o tipo de anotações, fotografias e elementos outros, (re)agrupando-os numa só composição, resultante numa estrutura conceptual singela e singular, através da qual a tradicional ideia de galeria de arte era sarcasticamente atualizada, segundo uma reificação capaz de fundir os caracteres de um objeto artístico convencional, com os de um objeto convencional, de uso quotidiano, como é um chapéu.

Uma ideologia do corpo

Juntamente com o seu internacionalismo, o Fluxus representa indubitavelmente um dos grupos mais feministas de todo o século. Se comparado com o número exíguo de artistas femininas presentes nas precedentes enciclopédias de história de arte, o considerável número de trabalhos realizados por mulheres artistas como Alison Knowles, Charlotte Moorman, Yoko Ono, Shigeko Kubota, Mieko Shiomi ou Sara Seagull – e principalmente o facto de algumas destas corresponderem a alguns dos mais memoráveis artistas da história do grupo – é indesmentível que o Fluxus se tenha constituído como exemplo de um movimento deveras paritário. Nunca devendo, porém, esta dimensão feminista do Fluxus deixar de ser indagada, também, sob a ótica de um revolvimento do estatuto convencional do artista, a que deveriam ser indiferentes questões como justamente as de género; algo que, aliás, o grupo defendeu sempre de modo veemente, numa total recusa de conceções como a originalidade e a singularidade, a identidade e a autoria artísticas.

Concordantes com esta vertente inevitavelmente feminista são também as intenções e as posições sociopolíticas do Fluxus. Profundamente antitéticas, estas implicavam, como se já afirmou, uma contraposição em relação a qualquer sociedade sustentada nos então vigentes pré-conceitos identitários, de matriz reacionária. Neste sentido, trabalhos como Conversation Piece (1962) e Cut Piece (1964) da japonesa Yoko Ono ou Vagina Painting (1965) de Shigeko Kubota, não só significaram uma leitura crítica sobre a posição e condição sociais e sexuais da mulher como também inauguraram um novo conjunto de explícitas e dialogantes abordagens ao corpo enquanto objeto sexualizado, diferentes, em vários aspetos, das protagonizadas por artistas como, por exemplo, o americano Jackson Pollock (cujo processo de pintura fora sempre associado a uma mitologia masculina do gesto) ou o japonês, integrante do grupo Gutai, Kazuo Shiraga (cujas performances se baseavam sobretudo em processos indexativos, presentes depois também em trabalhos de artistas europeus, como por exemplo os do francês Yves Klein, artista do Nouveau Réalisme).

Igualmente corpóreo, ainda que sob nuances de cariz mais psicológico, Mirror (1963), de Mieko Shiomi, aborda as tensões entre a fisicalidade de um contexto e as perspetivas individuais que, desencadeadas por e nessa mesma situação, podem surgir mentalmente no corpo que nele se posiciona. Marcadamente autorreflexiva, esta performance remete para a experiência quotidiana feminina, que, enquanto observadora das suas realidades exteriores e interiores, acaba por se revelar a si mesma enquanto derradeira testemunha da sua própria pluralidade[7].

Figura 7 – Mieko Shiomi – Mirror Piece (1963)

(reprodução nossa)

Por sua vez, trabalhos como Glove to Be Worn While Examining (1960), de Alison Knowles, no qual a sugestão à típica situação passiva experimentada por um paciente aquando de uma ida a um centro hospitalar para que se proceda à realização de um exame que implique por parte do médico o uso de uma luva de borracha esterilizada, enfatizam mais uma vez a perspetiva holística desta anti-art do Fluxus, assim como a profunda ironia e o humor afiado que lhe devem ser inerentes, principalmente a propósito de referências a fenómenos ou processos biológicos do corpo humano. Alusões que se podem também encontrar noutros eventos de Knowles, ainda que, desta feita, mais tipicamente literais e mundanos como, por exemplo, Make a salad (1962) ou Identical Lunch (1967).

Mas não só artistas femininas Fluxus trataram, enquanto objeto (artístico), o corpo de forma provocadora. O artista norte-americano Benjamin Patterson, durante um Fluxus Concert em Nova Iorque, apresentou uma performance de carácter declaradamente erótico, a que chamou Whipped Cream Piece (Lick Piece) (1964), e que, como o título deixa sugerir, consistia em cobrir um corpo humano com chantili (a artista Lette Eisenhauer voluntariou-se nesta ocasião), solicitando que o mesmo fosse depois, e somente com recurso à língua, totalmente removido por quem do público o estivesse disposto a fazer. Performance que – pela permanente difusão dos conceitos de representação e representatividade e de realidade e realização – se pode ainda hoje considerar um jogos mais irreverentes alguma vez apresentados pelo Fluxus.

Fluxus, uma antítese

A viciosidade circular inerente à articulação entre uma dogmática teorização artística e um subversivo experimentalismo libertário, representa, a par com a atividade performativa exigida a todo um “pathos” passivamente tradicional e soturno, talvez a maior contribuição estética legada pelo Fluxus. A definição da sua ortodoxa teleologia artística, segundo a qual foi criada uma anti-art como processo intermedial de fusão entre vida humana e arte, vaticinara uma sociedade iminentemente revolucionária onde imperaria uma nova sensibilidade estética que, através da sua natureza holística e inclusiva, dispensaria a existência de uma experiência sumamente estética em arte, em nome do que talvez se pudesse designar por um (in)certo tipo de existencialismo estético.

Na realidade, o movimento Fluxus, na procura de fundar e estabelecer essa congregação sensível em que se tornariam indestrinçáveis o objeto quotidiano e o objeto artístico, acabou antes por criar como que uma reificada desordem, um materialismo caótico. Demovida da sua funcionalidade por meio de (re)composições, desconstruções e destruições, toda essa pluralidade de objetos resultou muitas vezes não num conjunto intentado de significados simples e despretensiosos, mas, na verdade, num agregado amorfo de alusões herméticas e referências ininteligíveis, cujo paroxismo se viu também espelhado na exclusividade do grupo e na inacessibilidade do público a grande parte dos seus trabalhos; transformando-se assim o que deveria ter sido uma atitude e um comportamento estéticos exigentes e transformadores numa contentável enunciação de pleonásticos sofismos e retoricismos diegéticos.

Todavia, não deve ser negada a pertinência e a subtileza do sarcasmo delator protagonizado pelo Fluxus. A argúcia do seu seriíssimo humor, com um desferir de lentos golpes na tão desejada esfera do burlesco, conseguiu por vezes devolver ao público cenários reconhecíveis e bastante comuns, ainda que na sua maioria apenas representativos da posição crítica do Fluxus à acomodação dos artistas e suas instituições tradicionais. Nesta senda, são também notáveis a sua dimensão internacional, desprovida das mórbidas mitologias nacionalistas de épocas históricas precedentes (ou, infelizmente, talvez não), e a sua dimensão identitária, que, de um modo provocador e inventivo, conseguiu também contribuir para novas reflexões de ordem política e social.

No entanto, e para concluir, cabe dizer que a criação de uma anti-art por parte do Fluxus não possibilitou – para além da quase institucionalização de um regime artístico essencialmente insurreto e disruptivo – nem a gradual fusão entre arte e vida, nem a prenunciada fundação de uma nova sensibilidade estética e social. Pois o paradoxo estabelecido entre a potencialidade artística inerente a quaisquer seres humanos e a posição contundente e ressentida em relação aos artistas que constituem toda a tradição artística foi responsável pela viciosa retórica circular que o Fluxus não conseguiu resolver e da qual nunca se conseguiu totalmente libertar.

Na complexa proposta artística que o Fluxus nos lega, e partindo da sua natureza profundamente antitética, pode concluir-se que a sua ambição de purgar a arte por meio da criação de uma anti-art pode antes ter implicado que, depois da criação desta, se tenha tornado mais significativa a afirmação da que se quis negar do que a negação que se não afirmou.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Foster, H., Krauss, R., Bois, Y., Buchloh, B. and Joselit, D. (2016). Art since 1900. 3ª ed. Londres: Thames & Hudson, p.456.

2 Brecht, G. (1966). Chance-imagery. 1ª ed. New York. p.111

3 Hendricks, J. and Phillpot, C. (1988). Fluxus. New York, N.Y.: Museum of Modern Art. p. 25-27

6 Foster, H. (1996). The return of the real. 1ª ed. Cambridge, Mass: MIT Press, p.28-29

7 Stiles, K. (1993). Between Water and Stone: Fluxus Performance, A Metaphysics of Acts, em In The Spirit of Fluxus. Minneapolis, Minnesota: Walker Art Center, p.79.

  1. Foster, H., Krauss, R., Bois, Y., Buchloh, B. and Joselit, D. (2016). Art since 1900. 3ª ed. Londres: Thames & Hudson, p.456.
  2. Brecht, G. (1966). Chance-imagery. 1ª ed. New York. p.111.
  3. Hendricks, J. and Phillpot, C. (1988). Fluxus. New York, N.Y.: Museum of Modern Art. p. 27.
  4. Ibidem.
  5. Ibid. – p. 13.
  6. Foster, H. (1996). The return of the real. 1ª ed. Cambridge, Mass: MIT Press, p.28-29.
  7. Stiles, K. (1993). Between Water and Stone: Fluxus Performance, A Metaphysics of Acts, em In The Spirit of Fluxus. Minneapolis, Minnesota: Walker Art Center, p.79.

Sobre Democracia e Redes Sociais

Sentados na comodidade da democracia burguesa que fingem desprezar, gritam que a ascensão da extrema-direita é culpa do algoritmo. Que o tiktok transformou putos em fachos, que o face fez da avó da Mortágua uma nacionalista convicta, e que o whatsapp radicalizou taxistas entre a partilha de fotografias de gajas nuas e palavras de ordem contra os comunas.

Esquecem-se, como sempre, que a história não começou em 2024, nem em 1974, e muito menos com a primeira selfie do Ventura.

Até parece que a 1ª República caiu por causa de fake news disseminadas em código morse, por memes desenhados à pena e partilhados nos cafés da baixa. Que o Bernardino Machado era alvo constante de deepfakes feitos em xilogravura, onde aparecia com saia e busto de Maria da Fonte, acusado de querer instaurar o comunismo esotérico. Que a Carbonária tinha um grupo secreto no telegram, versão papel, onde se discutia a infiltração dos comunas no clero e a maçonaria na ASAE.

Até parece que em 1926, o golpe de estado foi convocado por telegram. Com a convocatória terá seguido um excel com as senhas, locais e os hashtags da revolta. Eram só paleonazis. O contrário de neonazis, pronto, porque foi antes do Adolfo.

E depois da queda da 1ª República, como é que Salazar chegou ao poder? Tudo terá começado com um vídeo viral no tiktok. Salazar a caminhar pelas escadas da Universidade de Coimbra, e no copy do vídeo um singelo “contas certas = país certo. É preciso acabar com a bandalheira!”. Salazar foi obviamente o primeiro dos influencers políticos a galgar o populismo das redes sociais, encavalitado nas fake news. O sucesso terá sido imediato. As massas, fartas de ver governos a cair mais depressa do que stories no Instagram, entregaram-se de bom grado à promessa de silêncio, pão e trabalho.

E é isto que não encaixa no delírio digital da esquerda obsoleta. Os regimes autoritários não precisam de redes sociais para nascer. Basta-lhes o caos. Basta que a democracia se transforme num circo autofágico, em que ninguém acredita em nada, em que todos gritam, todos roubam, todos trocam de cadeira como num jogo de musical de indigência política. E foi precisamente isso que aconteceu na 1ª República.

Não havia tiktok, mas havia fome. Não havia X, mas havia tiros nas ruas. Não havia algoritmos, mas havia uma vontade generalizada de ordem, nem que fosse pela força.

Portanto, culpar a tecnologia de hoje pelo autoritarismo de amanhã é como culpar Gutenberg pela Inquisição. É uma forma conveniente de não olhar para dentro, de não admitir que os populismos crescem porque os sistemas democráticos apodrecem de dentro para fora. Que Salazar não precisou de face para nada, bastou-lhe a república a cair aos bocados e meia dúzia de tipos com saudades do absolutismo.

Mas pronto. Que continue o delírio. Que se acredite que um tweet é mais perigoso que a destruição sistemática da autoridade do Estado. Que se diga que a culpa é do feed e do algo, e não da fome. Que se exija mais moderação nos comentários, mas nunca nos partidos. E que se esqueça, como sempre, que a história não precisa de likes e RT’s para se repetir.

Basta apenas que ninguém a leia ou que a reescrevam a seu belo prazer e intento.

Transnístria: um Lenine, um edifício e coisas de um estado de faz-de-conta

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I was elated; I wanted to dance, shout, sing and express some great emotion (…). I felt I was part of, belonged to, a strong world, and it seemed as if all the strength of that world was inside me.

(Lilin, 2011: 7)

Broadcaster: What is a country (Chto eto – strana)?

Young Contestant: It is where a people (narod) live.

Broadcaster: (…) but a strana does not have to be big (bol’shoi); it can be small (malen’kii) too, right?

(Chamberlain-Creangă, 2006: 371)

1. Um Lenine e um edifício…

Chamberlain-Creangă (2006: 371), que efetuou trabalho de campo na Rezina Cement da Egrafal Group (2005-2006), expõe a seguinte vignette numa estação de autocarro, enquanto se encaminhava da República Moldava Peridniestriana[1] (RMP) para a República da Moldova (Chamberlain-Creangă, 2011: 4):

She [Natal’ia] abruptly inquired: “Are you going to Rezina?” (…). Moving closer to me, she lowered her voice, privately warning with all seriousness and conviction, “they are a different people (drugoi narod) over there”, referring to persons just 0.3 kilometers across the river in the right-bank Moldova.

Ainda que Natal’ia considera ‘drugoi narod’ – num relato aparentemente de igual para igual –, a verdade é a de que “the independence of Transnistria has not been recognized by any country in the world, not even the Russian Federation”[2] (Eberhardt, 2011: 6). Situada na parte norte do rio Nistru, a RMP é uma região com anseios separatistas da Moldávia, que, em 1990, “refused to raise the new Moldovan flag (…) because for them the red Soviet flag (…) was a symbol of great achievement” (Cojocaru, 2006: 266). Com fortes influências russófilas, Dura refere que o conflito não é étnico, porquanto “it did not pit one ethnic group against another” (Dura, 2009: 5; Deletant, 1993: 15), mas Kaufman & Bowers (1998: 129) sugerem que, por este ter no cerne diferenças linguísticas, simbólicas, identitárias e de lealdade, o label de conflito étnico não se torna totalmente impróprio. Assim, a RMP enquadra-se na categoria de make-believe states de Navaro-Yashin (2007: 80), de parastates (Marandici, 2020: 61) ou de de facto states (Blakkisrud & Kolstø, 2011: 180).

Como Navaro-Yashin (2007: 80) aponta, “fiction is the bread and butter of politics” – e aqui os symbolic objects, entendidos no interstício nomádico entre o simbólico e material (Gardner & Abrams, 2023: 2), possuem um papel fundamental. É neste contexto que emerge a seguinte fotografia, retirada da capital Tiraspol, onde em frente ao edifício parlamentar, se ergue um sóbrio Lenine.

Neste caso, a estátua de Lenine (1) e o edifício do Parlamento (2) são entendidos como dois exemplos de symbolic objects seguindo a definição e subsequente tipologia (não exaustiva) de Lofland (citado por Abrams & Gardner, 2023: 3):

all those material items that participants view as physically expressing their enterprise, including remembrances of its successes, traumatic challenges, and hopes for its future. Such objects are of several kinds, three of which are: (i) key artifacts, (ii) symbolic places [viz., Parlamento] and (iii) iconic persons [viz., Lenine].

De facto, ambos os objetos possuem as duas vertentes inerentes a qualquer symbolic obejct: 1) a natureza tangível [viz., “material ‘stuff’” ou “physically expressing” (Abrams & Gardner, 2023: 3)], mesmo que nenhum seja transportável (pelo menos, não com facilidade); e 2) a natureza intangível (viz., capacidades culturais e semióticas), imbuída de uma lógica de legitimação internacional (externa) e de construção identitária (interna), numa imitação da prática moldava e ucraniana (Marandici, 2020: 61-62) – em tudo semelhante ao caso da TRNC[3] em relação ao Chipre (Navaro-Yashin, 2007: 85).

É fundamental referir que Lofland aplica esta definição aos movimentos sociais organizados (Abrams & Gardner, 2023: 3) e Abrams & Gardner debruçam-se mais especificamente sobre contentious politics[4] (Abrams & Gardner, 2023: 2). Num nível de abstração superior, todavia, é possível entender a atuação da RMP como um resentment[5] (Silva & Rogenhofer, 2022: 7) e/ou um ato de resistência contra o “West as entity” (Wolf, 1982: 5). Numa visão externa da sociedade internacional, a RMP é “Characterized as a smuggler’s Paradise (…) the last bastion of the Soviet Union” (Bobick, 2016: 241), um fóssil soviético (Clapp, 2016: 38); numa visão interna (emic), a RMP identifica-se num eixo binário ‘nós’ e os ‘outros’ (moldavos, romenos, europeus, Ocidente, NATO) (Bobick, 2016: 244). Para ambas as dinâmicas, os symbolic objects são fulcrais: para além de permitirem ‘ver’ o grupo (Cohen, 1969: 220), estes tornam-se – são – a Transnístria, os transnistrianos, um ‘drugoi narod’.

2. … num foco interno e externo…

No poema Komsomol’skaia de Maiakovskii, este escreve: “Lenin-lived. / Lenin-lives. / Lenin-will live.” (Tumarkin, 1981: 38). No caso da Transnístria, Lenine vive por intermédio desta estátua – e, pelo seu carácter palimpséstico, através de todos os outros media no qual a sua figura é exposta [sejam estes linguistic, i.e. poemas, músicas, histórias, nomes de ruas ou praças (Troebst, 2003: 454); ou non-linguistic, miniaturizados ou não (Foxhall, 2015: 1), i.e. bandeiras, graffitis, pins]. O Lenine, como um artefacto, tal como o El Che analisado por Selbin (2023: 221), “[is] suffused with meaning as an object as well as a subject of desire”.

Se “writing about Che ‘is like dancing about architecture’, a nearly senseless, even absurd exercise” (Selbin, 2023: 216), traçar as três fases da existência dos symbolic objects de Abrams & Gardner (viz., criação, potência e legado[6]) em relação ao Lenine enquanto emblematic individual (Abrams & Gardner, 2023: 4; 6) ou icon (Peirce citado por Silva & Rogenhofer, 2022: 4) é igualmente enigmático e multifacetado. No entanto, é exequível retirar algumas conclusões sobre o caso particular deste[7] Lenine transnistriano, cuja criação data de 1987, tendo sido (re)imaginado e esculpido por Lev E. Kerbel (Troebst, 2003: 453), com base noutras estátuas espalhadas pelo Bloco Soviético na altura da Guerra Fria.

Feito de mármore vermelho, a potência deste Lenine pode ser analisada seguindo duas lógicas complementares. Em primeiro lugar, o seu simbolismo inerente parte de uma base empírica, uma vez que Lenine existiu: “He had been flesh and blood (…) – someone people could relate to personally” (Barner-Barry & Hody, 1994: 612). Assim, este pauta-se por ser “[an] example of a disciplined, self-defying, self-sacrificing revolutionary” (Selbin, 2023: 220). A interpretação continua atual, mas adquire uma outra camada por a estátua ter sido mantida enquanto um legado. A seguinte entrevista de Siegl (citada por Troebst, 2003: 455) aponta precisamente para esta ideia:

When asked in 2001 why the statue remained, TMR Minister of Foreign Affairs Valerii A. Litskay answered: ‘There are no other monuments beside the ones for Lenin and Suvarov… In earlier times, we had three Lenins in the main street – that was too many so we removed one of them…’.

Neste sentido, há uma relação de exchange – de “relatedness between temporalities” (Ssorin-Chaikov, 2017: 9) – entre a matriz temporal da década de 80, quando a Moldávia fazia parte da URSS, e a atual, em que a RMP utiliza uma retórica de “preservation of the Soviet legacy”, expressa na manutenção de dois Lenines. Em simultâneo, está inculcada numa vertente contraditória de individualização, que reflete as own politics da RMP (Ortner, 1995: 117): foi retirada uma estátua, para além do Lenine de outros media [i.e. Troebst (2003: 455) refere algumas moedas comemorativas e estátuas menores]. Poderá se afirmar que se trata de uma melancolia bi-dimensional: Lenine é um melancholic object[8] (Navaro-Yashin, 2009: 16) de um passado perdido, mas também é um reforço de uma nova identidade.

Em segundo lugar, a expressão estatuária conflui para este eixo fluido de preservação-separação. Observando o gesto metafórico[9] (Cienki & Mϋller, 2008: 483) da estátua, Lenine não detém a típica mão direita estendida, a apontar para o ‘futuro’ como é costume (Cienki & Mϋller, 2008: 483). No entanto, a sua postura é igualmente reveladora: o Lenine, vestido modestamente e de cabeça erguida, segura com o braço esquerdo uma bandeira (um outro symbolic object). Esta não possui nenhum indício de ser a transnistriana, caracterizada pelo símbolo do martelo e do foice. In extremis, tal sugere uma tenta de universalidade, talvez ligada ao internacionalismo comunista. Não obstante, na atualidade, a política de separação e o local da estátua – lactu sensu, na RMP; strictu sensu, frente ao Parlamento – permitem uma leitura da bandeira como a bandeira transnistriana enquanto symbolic obejct nacionalista. Tal demonstra a transformação, reinterpretação, (re)produção e metamorfose dos symbolic obejcts – afinal, “The agency of things is neither merely derivative of human agency, nor are things the sole agentes in social interactions” (Silva & Rogenhofer, 2022: 4).

A posição da estátua frente ao Parlamento cria, de facto, uma ligação forte entre ambos – mas o próprio edifício pode ser entendido como um symbolic object. É verdade que uma das críticas de Abrams & Gardner à definição de Lofland é particularmente a questão dos espaços, afirmando que “Places appear to form more of a continuum, ranging from those that exist plainly as objects (…) to those that lack substantial materiality” (Abrams & Gardner, 2023: 3-4). Neste caso, o edifício do Parlamento integra claramente os espaços físicos / tangíveis, enquadrando-se na categoria das estruturas políticas (Sewell, 2001: 54).

Tal como outros edifícios políticos, Dilaveroglu (2025: 1) refere como os parlamentos “articulate the prevailing political ethos, encoding meaning through their materiality, spatial composition and architectural language”. Goodsell (1988: 288) enumera três funções da materialidade dos edifícios parlamentares: preservação, articulação e formação – cada uma com um crono-topos temporal num nexo passado, presente e futuro, respetivamente. A preservação – “the mobilization, conservation and maintenance of cultural values over long periods of time” (Goodsell, 1988: 288) – relativa ao edifício parlamentar da RMP destaca-se, desde logo, em dois aspetos: 1) pela localização geográfica, em Tiraspol, que tinha sido o “garrison town of the 14th Russian Army” (Deletant, 1993: 15) [por isso escolhido em 1960 para a construção do Soviete Supremo da Transnístria[10]; mais tarde, será também o local onde se anuncia a secessão da RMP (Deletant, 1993: 15)]; e 2) pela arquitetura em pedra tipicamente soviética (i.e. simetria, colunas imponentes, decoração nacionalista parca, com brasões ou bandeiras), cuja fachada emana uma estabilidade digna de um poder (para)estatal. Tanto o local histórico, como a estética sóbria, confluem para a “stabilization of (…) national order” (Goodsell, 1988: 289). Ao especificar as características relativas às funções de articulação e formação[11], Goodsell (1988: 292-301) foca-se sobretudo nas disposições internas dos parlamentos (i.e. número e espaçamento da(s) câmara(s), mobiliário, acústica das salas), que ultrapassam o scope da imagem selecionada. Porém, será possível afirmar que a estátua do Lenine no recinto exterior atua como symbolic object na articulação da concepção do presente e futuro: o Parlamento da RMP é um ato de imitação performativo, semelhante as peculiaridades burocrático-administrativas da TRNC (Navaro-Yashin, 2007: 84), que pretende se justificar interna e externamente através de um ideário soviético exposto na materialidade da estátua e do edifício.

3. … são a Transnístria.

Navaro-Yashin (2007: 81) refere que determinados objetos “are perceived or experienced as affectively charged phenomena when produced and transacted in specific contexts of social relation”. Os symbolic obejects inerentes na imagem selecionada – a estátua e o edifício do Parlamento – já estão produzidos e não podem ser facilmente transacionados. Não obstante, estes são criadores de afeições, seja num determinado momento (viz., numa das recorrentes comemorações e cerimónias) ou ao longo do tempo (viz., pela sua fixação). Esta afeição traduz-se em dois polos dependentes: um interno, de criação identitária e outro externo, de legitimação internacional.

Chamberlain-Creangă afirma que “Nowhere are ideas of ‘the state’, nation and citizenship more important and contested than in a country that does not exist” (Chamberlain-Creangă, 2006: 372). Por isso, “Parastates act as nation-builders” (Marandici, 2020: 61) e, de facto, a RMP possui um objetivo claro de criar esta identidade: o pridnestrovskii narod (Chamberlain-Creangă, 2006: 373), auto-definido com cinco markers: 1) auto-suficiência (samobyt-nost’); 2) estatismo (gosudarstvennost); 3) multietnicidade (polietnichnost’); 4) vetor do Ortodoxismo Eslavo do Leste (vostochnyĭ svalianskiĭ pravoslavnyĭ vektor); 5) Moldavismo (moldovenizm) (Babilunga citado por Marandici, 2020: 63-64). Esta identidade baseia-se, claramente, num passado soviético. Apesar disto, Adams & Lavrenova sugerem que há 4 possíveis hipóteses enquanto ao legado das estátuas de Lenine consoante o contexto, entre as quais “(a) preserved and left in place to symbolize the legitmacy of post-Soviet elites”[12] (Adams & Lavrenova, 2022: 708), num reforço da ligação à Rússia (Marandici, 2020: 63). No caso da RMP, a literatura aponta sobretudo nesta direção – sendo por isso que a estátua permanece frente ao Parlamento (Cummings, 2013: 609), numa criação de spatial melancholia[13] (Navaro-Yashin, 2009: 15). Todavia, denota-se uma falha no estudo at the grass-root level. Assim, assume-se que poderá ser frutífero equiparar o Lenine transnistriano à estátua do Coronel Ojukwu em Biafra, estudada por Atata & Omobowale (2023: 261):

The very existence of this statue is a source of inspiration and a stimulus for demonstrators. Its positioning at the ‘entrance’ to Biafra is suggestive of protection, connecting the notion of the Biafran state to ideas of safety and security. The ‘father of the nation’, standing to protect his people, is a source of inspiration.

Assumindo, como Humphrey & Forbes-Mewett (2024: 2) destacam, que há um crescente “feelings of belonging and loyalty among the population, as well as within the development of a Transnistrian national identity”, não será descabido afirmar que a estátua de Lenine, enquanto uma recordação melancólica, contribui para a pertença transnistriana. O edifício parlamentar que serve de fundo ao Lenine, deverá também provocar algum tipo de emoção, numa “fusion of the existential and the normative” (Geertz, 1957: 422), tal como o Home Office ou outro corpo administrativo na etnografia de Navaro-Yashin (2007: 83).

Ao confluírem um conjunto de cidadãos a volta da estátua e do Parlamento, emerge um efeito semelhante ao produzido pela MAGA[14] cap (embora esta seja um item transportável) de Silva & Rogenhofer. Em primeiro, tal como as “MAGA caps tranform their wearers into members of Trump’s national-populist project” (Silva & Rogenhofer, 2022: 7), a junção, admiração e/ou veneração a volta da estátua reúne indivíduos que se identificam com a “Transnistrian identity” (Marandici, 2020: 61) ou com o “collective thought” (Durkheim, 1995: 239). Em segundo, opera-se a já explicitada divisão: não na retórica populista entre “’us’, the honest (…) people, versus ‘them’, the corrupt globalist elite” (Silva & Rogenhofer, 2022: 7), mas sim numa puramente nacionalista[15]: “nós”, os verdadeiros patriotas, a procura de uma identidade partilhada (Chamberlain-Creangă, 2006: 396) , e “eles”, os inimigos do povo transnistrianos. Acresce ainda que o Parlamento, enquanto instituição de soberania, confere um ato performativo de legitimidade internacional, justificado pela existência de uma identidade nacional distinta. Neste sentido, a RMP utiliza os symbolic objects a partir de duas lentes: 1) enquanto Estado que utiliza os symbolic objects para penentrar as esferas sociais; e 2) enquanto um estado que “offers us images of governamental power challenged” em relação a Moldávia (Trouillot, 2001: 125).

Mesmo assim, a escassa literatura tem demonstrado resultados ambíguos desta iniciativa: numa entrevista efetuada por Cojocaru (2006: 267), um estudante afirmou que “Moldova was the one that wanted to (…) repress us. We want our people and our opinion to be respected”; Humphrey & Forbes-Mewett (2024: 10) contactam com uma mulher que comunica que “I want to live in Moldova or Europe, America, Germany (…). More than Transnistria”; e Marandici (2020: 61) dá a conhecer o caso de Vadim Krasnosel’skiĭ, que informa como “In my veins flows Russian, Ukrainian, and Polish blood. How can you divide me into parts?”. É mais producente a visão de Chamberlain-Creangă (2006: 374): “I encountered an array of identities and opinions, sometimes opposing and sometimes championing the idea of a loyal Transnistrian citizenry”.

Assim, em vez de reduzir a RMP e outros make-believe states a black holes (Blakkisrud & Kolstø, 2011: 180) bolsho’ii ou malenk’ii, é fundamental analisar todas as dimensões do spatial-temporal continuum (Swartz et al., 1966: 8) – incluindo o ponto em que o simbólico e o material se reúnem, “where the cultural or semiotic qualities of symbolic objects become intertwined with their material properties in important and often transformative ways” (Abrams & Gardner, 2023: 2). Ademais, a dimensão temporal – como uma “unit over time, not merely a unit at a particular point in time” (Smith citado por Swartz et al., 1966: 30) – é de extrema importância, pois os símbolos, incluindo os seus corolários materiais, são dinâmicos (Cohen, 1969: 219) e dependentes do contexto histórico (local e global).

4. Apêndice:

4.1. Representação cartográfica da RMP:

(Retirada de Deletant, 1993: 15).

4.2. Outros Lenines:

4.2.1. Sucleia.

Este Lenine de Sucleia foi decapitado em 1990, tendo havido uma reposição em 2011. Contudo, a nova cabeça é desproporcional ao corpo (Clapp, 2016: 32).

Monument to Vladimir Lenin Sucleia Transnistria-5

4.2.2. Bendery.

Monument to Vladimir Lenin Bendery (Bender) Transnistria-4

(Ambas as fotografias foram retiradas de https://www.kathmanduandbeyond.com/lenin-statues-former-soviet-union/).

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7

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8

Wolf, Eric. 1982. Europe and the people without history. University of California Press. ISBN: 978-0-520-26818-0.

9

7. Fontes:

Fotografia principal, retirada de um blogue de arquitetura (Kathmandu & beyond), disponível em https://www.kathmanduandbeyond.com/parliament-lenin-tiraspol-transnistria-monument/ (consultado em 30.05.2025).

Fotografias do apêndice, retiradas do mesmo blogue, disponível em https://www.kathmanduandbeyond.com/lenin-statues-former-soviet-union/ (consultado em 31.05.2025)

10

  1. Priednestrovskaya Moldavskaya Respublika (ver apêndice para uma representação cartográfica).
  2. É reconhecida apenas por outros dois make-belive states: a Ossétia e a Abecásia (Humphrey & Forbes-Mewett, 2024: 2).
  3. Turkish Republic of Northern Cyprus.
  4. Definida, citando Tilly (Abrams & Gardner, 2023: 2), como “interactions or series of interactions ‘in which actors make claims bearing on someone else’s interests, in which governments appear either as targets, initiators of claims or third parties’”.
  5. Silva & Rogenhofer operacionalizam o conceito de ‘democratic resentment’ [“an affective patterning of collective action in democratic societies (…). It channels perceived violations of the democratic promise (…) into a critique of the present” (Silva & Carreira, 2022: 4) como o sentimento base do populismo. No caso da RMP, utiliza-se apenas ‘resentment’, por se tratar de um sentimento mais vasto e nacionalista, criado numa lógica conflitual, de violação da soberania pela Moldávia em particular e pelo Ocidente em geral (Cojocaru, 2006: 262-263; Chamberlain-Creangă, 2006: 373). In extremis, seria ‘transnistrian resentment’.
  6. Segundo Abrams & Gardner (2023: 6), “how they come to play a role in contentious politics (creation), how they operate when deployed (potency), and the invocations, reinventions, and memories they give rise to over time (legacy)”.
  7. Enfatiza-se ‘este’ Lenine, porquanto há mais estátuas do Lenine na Transnístria. Ver apêndice para mais alguns exemplos.
  8. Navaro-Yashin (2009: 15) define melancholic objects como “things which exude an affect of melancholy” e spatial melancholia – referida posteriormente – como “an environment or atmosphere which discharges such an affect”.
  9. Segundo Cienki & Mϋller (2008: 485), “Metaphoric gestures have typically been conceived of as movements of the hands that represent or indicate the source domain of a metaphor”.
  10. Verkhovny Soviet.
  11. Goodsell define a articulação como “the manifestation of values and ideas currently extant in political life at the time of the building’s construction, remodelling, refinishing, or rearrangement” (Goodsell, 1988: 288). Relativo a formação, afirma que “public architecture affects the political future” (Goodsell, 1988: 288).
  12. Para além desta, tem-se ainda: “(b) taken for granted but permitted to deteriorate, (c) removed, relocated or destroyed to indicate the end of Soviet occupation, and (c) captured and reworked for use in place promotion and capitalist marketing” (Adams & Lavrenova, 2022: 708). Para além da referida (a), nenhuma se aplica no caso da RMP.
  13. Ver nota de rodapé 8.
  14. ‘Make America Great Again’.
  15. A referência ao ‘puramente’ é essencial, porquanto Silva & Rogenhofer afirmam que a MAGA cap representa uma articulação entre o populismo e o nacionalismo (Silva & Rogenhofer, 2022: 10).

Lidando com a Lídia

Sobre o 10 de Junho de 2025 ou Lidando com a Lídia

Que Lídia Jorge integrasse o Conselho de Estado ou o cânone literário nacional era-me circunstância irrelevante e desconhecida, e o seu discurso no Dia de Portugal apenas consolidou essa mesma insignificância. Não obstante, tratando-se de uma alocução pública com ambição simbólica, proferida em nome da República Portuguesa, impõe-se, com inteira legitimidade e até com sentido de responsabilidade cívica, a contestação do que se configurou, em essência, como um exercício de pseudo-erudição presunçosa, aparente apanágio das elites ineptas e utopistas que comprometem os destinos de Portugal. Curiosamente, Lídia Jorge escolheu ignorar, por omissão involuntária ou cálculo ideológico, que o 10 de Junho, enquanto data comemorativa, não emerge de um impulso popular espontâneo nem de qualquer pacto emocional amplo. Foi uma criação intelectual e política do final do século XIX, nascida no seio do republicanismo jacobino, que, carente de figuras unificadoras da pátria, encontrou em Camões um símbolo civilizacional e aglutinador. Trata-se, portanto, de uma efeméride moldada em ambientes académicos, literários e ideológicos, criada séculos após a morte do poeta. Na sua versão actual, sobrevive desprovida da energia crítica que a poderia tornar relevante, amputada sobretudo da verve camoniana que denunciava sem pudor a venalidade, a decadência institucional e a corrupção moral do poder espúrio.

Entre o penteado de rigidez cerimonial e a maquilhagem cuidadosamente aplicada para mascarar os sinais do tempo, fica condensada a imagem de uma mulher conformada à estética da respeitabilidade senil da fidalguia em declínio que personifica. Dotada de um timbre trémulo, hesitante e por vezes titubeante, Lídia Jorge proferiu um sermão laicizado, imbuído de reminiscências de sacristia ideológica, com uma retórica própria de uma figura decorativa de regime, revestida de moral pseudo-humanista e de uma nebulosa incerteza prospectiva, edificada com fragmentos dispersos de história e banalidades emotivas, amalgamadas por um léxico inflacionado e desprovido de substância conceptual.

Foi, no geral, um discurso errático e estruturalmente difuso, pontuado por dissonâncias temáticas súbitas, onde, por exemplo, um lamento tecnológico de feição ludita coexiste com uma exaltação da memória histórica reinterpretada com credenciação tecnológica, segundo os padrões de uma academia permeada por correntes ideológicas de matriz marxizante. Encarna, por isso, a título de exemplo feminino, a antítese simbólica de figuras como Brites de Almeida, pois nem combate, nem propõe, nem exalta. Antes desconstrói, distorce e languidamente se extingue.

O discurso e estatuto de classe que Lídia Jorge corporiza representa o Portugal que Camões repudiava. O Portugal da auto-indulgência, da resignação, da decadência moral e material, dominado por uma inclinação venal que conduz, de forma quase inevitável, ao apagamento do seu vínculo identitário mais profundo. Nesta data, a locutora, em vez de enaltecer o poeta e a data em causa, abandona-se a uma meditação exangue, destituída de enraizamento, permeada por uma arrogância eurocêntrica de corte iluminista-missionário, transfigurando Luís Vaz de Camões e o povo português em “peregrinos prometeicos da Terra”, isto é, sujeitos desenraizados, moldados por um cosmopolitismo de laboratório, imposto por elites que rejeitam qualquer pertença orgânica ao tecido histórico e espiritual da nação.

A argumentação retórica apresentada não é apenas frágil, como também se revelou profundamente alienadora ao procurar apagar Camões da história viva e acomodá-lo num altar inócuo sob o rótulo de património da humanidade. Tal gesto constitui um acto claro de dessacralização cultural, já que Camões não pertence ao domínio dos ícones universais, pois é o poeta de Portugal, o intérprete da honra, da gesta, da língua, da amargura e da exigência. A sua epopeia não é e nunca será uma reflexão vazia sobre a condição humana em abstracto. É uma obra enraizada na experiência concreta de um povo com destino. A sua poesia denuncia e afirma, combate e lamenta. Não consola com indulgência, mas desafia com severidade. Não absolve, mas julga. Ama a pátria com intensidade e obriga-a, por isso mesmo, a ser grande.

A dado momento durante o discurso, recorre a uma retórica tecnológica-existencial, cuja vacuidade é notória. Substitui a análise política densa por imagens vagas e afectadas, como “pescoços em competição” ou “seguidores e fantasmas”, que em vez de elucidar o presente, apenas o ornamentam com um lamento ludita de retórica pobre e sentimentalismo difuso. O resultado é um discurso de crítica amorfa, destituído de densidade teórica, onde a ausência de referências históricas ou filosóficas fundamentadas revela não só a fragilidade da reflexão, mas também o seu propósito meramente performativo.
No momento em que Lídia Jorge declara que as comunidades portuguesas constituem o corpo essencial do ser identitário de Portugal, não profere apenas uma fórmula de cortesia institucional. Por trás dessa aparente benevolente banalidade, insinua-se uma reconfiguração simbólica profunda da própria ideia de Portugal. A portugalidade, que não existe sem enraização no próprio território, na língua e na continuidade histórica, é subtilmente deslocada para a diáspora, convertendo-se numa entidade volátil e transnacional. Tal deslocamento, longe de ser neutro, traduz-se numa progressiva dissolução da soberania cultural, o que caracteriza o pensamento e léxico pós-moderno da interveniente. Uma diáspora que sente verdadeira saudade do solo natal afirma precisamente a sua raiz, não a sua diluição, e quando se dissolve num outro espaço político e cultural, ainda que continue a construir pontes ou vínculos, não reforça a identidade de origem. Pelo contrário, substitui-a. Exaltar a diáspora como sede da nova portugalidade equivale, na prática, a renunciar à terra, à língua como destino e à continuidade orgânica do povo. Camões, cuja pena carregava o peso do sal e da guerra, jamais pactuaria com esta forma elegante de deserção e reinterpretação da identidade.

Também constatou a irrefutabilidade de que Camões elevou a língua portuguesa a uma expressão poética de rara excelência, mas falseando-o intelectualmente como um autor moderno nos termos em que hoje se entende essa condição, tentando retratá-lo como antecessor de certas leituras contemporâneas do colonialismo, e desconsiderando que a sua obra respira valores aristocráticos, imperiais, trágicos e profundamente patrióticos. Quando a discursante invoca um vago “pensamento novo” insinuando que o poeta estaria em sintonia com sensibilidades contemporâneas, promove uma leitura distorcida e intelectualmente desonesta que procura ajustá-lo a molduras ideológicas alheias ao seu tempo. Nada poderia estar mais distante da verdade, já que Camões não era nem prefigurador de progressismos nem precursor de cosmopolitismos sentimentais. O seu horizonte era o de uma nobreza de espírito inseparável da grandeza imperial, vista não como abuso, mas como destino providencial de um povo eleito para navegar, descobrir, dominar e legar. Pese embora se possa argumentar que Os Lusíadas contenham tensões internas, estas jamais se confundem com quaisquer mecanismos da denúncia pós-colonial. São tensões nascidas da decepção aristocrática, de uma crítica que emerge não contra o ideal imperial, mas da dor pela sua corrupção. Camões não combate o império enquanto projecto civilizacional, combate a sua indignidade e o desvio dos seus fundamentos éticos. Não pretende o seu colapso, mas a sua redenção através da virtude e da honra.

Convém ter ciente que, relativamente à trajectória de vida do poeta, sabe-se que foi errante, belicosa e marcada por instabilidade crónica, recusando participar em intrigas de cortesãos e demonstrando desdém pela adulação e aversão a servilismos. É, a meu ver, precisamente essa natureza insubmissa e profundamente anti-sistémica que o torna incómodo para a discursante, que tenta esvaziá-lo através da vitimização contemporânea ou da colagem oportunista a modas ideológicas do presente. Assim, aplicar ao século XVI os critérios morais e sociológicos do século XXI é um anacronismo crasso, considerando que nem sequer existia um público nacional letrado que pudesse consagrar Camões ou garantir-lhe reconhecimento material duradouro. Sabe-se igualmente que Camões beneficiou de uma tença anual de quinze mil réis, concedida por D. Sebastião em 1571, sinal inequívoco de reconhecimento institucional da sua obra. Apesar da imagem recorrente da sua morte em pobreza, importa sublinhar que Os Lusíadas foram concebidos para um público de elite, como bem demonstra a sua dedicatória ao próprio monarca.

Quanto ao paralelismo que Lídia Jorge estabelece entre Luís Vaz de Camões, Miguel de Cervantes e William Shakespeare, ao apresentá-los como uma tríade fundadora da modernidade literária europeia unificada por uma crítica abrangente ao poder, poderá sugerir à primeira vista um gesto de elevação douto. No entanto, quando submetida a uma leitura exigente, essa associação revela-se conceptualmente imprecisa, retoricamente forçada e perigosamente niveladora, já que converte Camões em uma figura neutralizada, expurgada da sua especificidade histórica, e moldada a um ideal universalizante que o desfaz na sua singularidade. Não existe qualquer vestígio de diálogo entre esses autores, nem de influência partilhada, nem sequer uma afinidade estrutural clara entre os seus projectos literários. Camões constrói uma crítica moral e política profundamente ancorada na experiência portuguesa do declínio imperial. Essa crítica emerge de uma ética do heroísmo, de uma exigência de virtude e de uma consciência trágica do destino nacional. Os impérios, para Camões, não tombam por ataques externos, mas pela degradação interna que corrói os seus fundamentos. Shakespeare, por contraste, representa o poder através de figuras dilaceradas pela loucura, pela ambição e pela fragmentação interior. A sua linguagem é a do abismo psíquico e da culpa. Cervantes desmonta os resíduos de um ideal cavaleiresco em ruína, em um mundo que já não acredita em heróis, e transforma o delírio na única forma de transcendência possível. Shakespeare via o colapso interior. Cervantes, a erosão do sentido. Camões, o desmoronar da missão. Tentar incluir Camões neste agrupamento é um exercício de moldagem artificial ao gosto das leituras pós-modernas que procuram retirar ao poeta português a sua identidade épica, trágica e patriótica. Ao fazê-lo, apagam-se as diferenças fundamentais de contexto, de fim literário, de público e de vocação.

Camões não é um nome intercambiável numa galeria de humanistas ilustrados. É um corpo enraizado na sua língua, no seu tempo e no seu povo. Assim, a crise existencial do renascimento que atravessa essas obras é profunda e irredutível a slogans. Lídia Jorge, ao invocá-la, não mergulha no seu abismo, antes paira à superfície, instrumentalizando-a para ornamentar uma agenda moralista sem densidade metafísica e de legitimação de uma sensibilidade pós-moderna, enquanto ignora o conflito radical e específico que postulam essas obras. Reduzir a angústia trágica presente nas mesmas a meros sintomas de um mal-estar genérico associado à condição material é empobrecer a sua força, negando-lhes o peso do mundo para logo os tornar leves e decorativos.

A estrofe de Camões evocada por Lídia Jorge, “este deprava às vezes as ciências, os juízos cegando e as consciências, este interpreta mais do que subtilmente os textos, este faz e desfaz as leis, este causa os perjúrios entre a gente, e mil vezes tiranos torna os reis”, constitui uma acusação veemente contra as elites portuguesas do século XVI. Contudo, a discursante dilui-lhe a força histórica e a gravidade ética ao reencená-la como mera manifestação de “psicopatologia do poder”. Camões, nesse passo, não alude a desvarios clínicos nem a distúrbios conceptuais de foro abstracto. Denuncia, com clareza moral e intenção pedagógica, a corrupção sistémica, a decadência das virtudes públicas, a traição dos ideais fundacionais e a inversão da hierarquia meritocrática. Reconfigurar essa denúncia cortante à luz de categorias vagas como “subversão da boa convivência” não é apenas um anacronismo intelectual, é uma forma sofisticada de anestesia simbólica. Ao diluir a contundência moral do poeta em fórmulas vagas e afectadas, a discursante priva a obra do seu poder acusatório, transmutando-a numa alegoria morna e inócua, inteiramente compatível com a sensibilidade apaziguadora e o horizonte complacente de uma elite que teme o juízo e verticalidade do poeta.

Lídia Jorge procura igualmente transfigurar Camões numa figura profética, como se nele residisse uma antevisão do desastre de Alcácer-Quibir. Contudo, o tom camoniano não é oracular nem visionário, é antes racional, ético e trágico. Esta tentativa de o tornar um vidente revela-se um gesto de apropriação retórica, alheio ao seu enraizamento na tradição clássica e no horizonte moral do seu tempo. Pretende-se, assim, domesticá-lo, psicologizá-lo, esvaziá-lo da sua energia heroica, para integrá-lo numa galeria de humanistas ilustrados, reduzindo-o a busto funcional da pedagogia moralista da locutora. Neste processo, amputam-se-lhe os vínculos fundamentais com a pátria, a língua, a missão e o povo, convertendo-o num emblema etéreo de um cosmopolitismo anémico, onde tudo é moral abstracta e nada é memória histórica.

A referência ao Infante Dom Henrique constituiu uma tentativa deliberada de subverter o seu estatuto simbólico enquanto figura fundacional dos Descobrimentos. Ainda que o seu envolvimento no tráfico negreiro esteja documentalmente atestado, a forma como é apresentado no discurso em causa serve uma narrativa de denúncia unívoca, desprovida de qualquer contextualização moral, religiosa ou geopolítica própria da época. Reduzido ironicamente à figura de “alguém em cima de um cavalo”, o Infante é despido do valor emblemático que lhe foi atribuído ao longo dos séculos, sendo tratado como mero agente de violência estrutural. A redução dos Descobrimentos a uma sucessão de actos de rapina e submissão revela não apenas uma miopia histórica, mas uma instrumentalização ideológica orientada à reconfiguração identitária. A escravatura, embora inegavelmente praticada, foi uma realidade transversal a inúmeras civilizações, incluindo africanas, árabes e europeias, e está longe de constituir exclusividade portuguesa ou ocidental. Cumpre recordar que foi precisamente a Europa do século XIX, animada pelo progresso técnico, jurídico e filosófico, que liderou os movimentos abolicionistas com vocação universal. A narrativa que hoje nos é apresentada manipula deliberadamente esse passado para justificar novos mecanismos de diluição identitária, promovendo uma imigração massiva oriunda do terceiro mundo, adornada sob o véu da expiação histórica e do altruísmo humanitário compulsivo. Esta dinâmica, embora dissimulada por uma retórica redentora, replica em moldes contemporâneos e encapotados as lógicas antigas do tráfico e da exploração humana, que deveriam envergonhar qualquer civilização. A tolerância institucional à ilegalidade, a instrumentalização de mão-de-obra descartável e a organização de fluxos por interesses opacos constituem ecos perturbadores contemporâneos de antigas formas de servidão.
Para além disso, a antropologia da mestiçagem e da diluição identitária, hoje promovida como um imperativo inquestionável, não assenta em fundamentos neutros nem se sustenta em critérios científicos rigorosos. Trata-se de uma construção política orientada para a erosão dos pilares da soberania cultural, onde a centralidade da língua, a pertença ao território e a continuidade histórica são progressivamente indesejadas e apagadas. À heroicidade, que elevava a memória colectiva e nutria o espírito cívico, sucede um remorso perpétuo. A memória vertical, estruturada por hierarquias de valor e exemplos de grandeza, é substituída por um sentimentalismo horizontalizante que nivela todas as narrativas. Nesse processo, o orgulho nacional é eclipsado por uma culpa automática, instilada como condição prévia de pertença ao presente.

A locutora aproveita a efeméride para evocar de modo condescendente uma frase de Donald Trump, “Adoro os pouco instruídos”, onde curiosamente revela um preconceito velado sob a capa de superioridade ética. Proclama inclusão, mas exclui o dissenso. Invoca a humanidade, mas nega o humano tangível. Celebra o progresso, mas renega as raízes. A sua crítica transcende o populismo para atingir directamente o povo concreto e classes menos instruídas, não a abstração retórica de que se serve, mas aquele que trabalha a terra, honra os seus, ama a pátria sem ironia e dispensa seminários pós-coloniais para compreender o valor da justiça. O desprezo insinuado pela “falta de instrução” evidencia a arrogância de uma elite que se presume farol moral da humanidade, encerrada numa bolha académica e urbana, dissociada da vida empírica e da substância popular. A crítica ao populismo, enunciada a partir de uma cátedra elitista e alheada, revela a pretensão de quem ignora o serviço ao povo mas reivindica representá-lo. No mundo rural, tantas vezes caricaturado, subsistem formas de lucidez trágica, de sentido moral instintivo e de fidelidade às verdades elementares que a retórica cosmopolita não alcança. A discursante, ao alinhar-se com os cânones globalistas, rompe com o Portugal profundo, alienando-se da memória viva que faz da recitação de Camões um acto de dever e orgulho, e não de instrumentalização ideológica. Camões, tal como o conhecemos da sua obra, jamais absolveria semelhante discurso acaciano.

O discurso esgota-se numa tentativa disparatada de transfigurar Camões num emblema emocional da resistência humana, onde o poeta épico cede lugar a uma figura de pathos, mártir laico despojado de vocação trágica, pátria e densidade moral. Confunde Camões com escravos, migrantes e outros proscritos, amputando-lhe qualquer singularidade histórica e cultural, e cristalizando o que se poderá designar de culto de penitência pós-nacional. Um discurso que amalgama lirismo pueril, memória manipulada e moralismo globalista para propor uma narrativa desenraizada da história portuguesa. Em vez de se celebrar Portugal, encena-se um país exausto e envergonhado de si mesmo, onde os heróis são rebaixados a cúmplices, a identidade desfaz-se em fluidez programada, e o futuro é uma incógnita remetido à contingência de forças alheias à vontade nacional. A exortação à grandeza cede lugar à resignação, o chamamento ao combate é substituído por um murmúrio de arrependimento, e a lucidez patriótica dissolve-se num sentimentalismo tíbio e inócuo. A imagem de Camões que a discursante projecta é anémica, desfigurada, reduzida a uma sombra inócua e estéril, despida de vigor trágico ou fulgor épico. Invoca-o como alegoria de valores universais, mas fá-lo ao preço da sua amputação simbólica, cujo fim último é sepultar a sua figura num túmulo de irrelevância cultural, cometendo um acto de verdadeiro assassinato simbólico do maior poeta nacional. Neste enquadramento, Camões deixa de ser o poeta do Império e da pátria concreta para se converter num espectro funcional, despojado da sua densidade trágica e transfigurado em emblema sentimental moldado à medida de narrativas demo-liberais. A sua figura é assim adaptada ao molde confortável de uma portugalidade desterritorializada, dócil, anódina e desvinculada de qualquer exigência histórica.

Finaliza dizendo que, em comum com Camões, tem a ideia do ser humano como um ser de resistência e de combate, só sendo preciso determinar a causa certa, e declara que Camões nunca mais morreu. Esta ambiciosa tentativa de encerrar a sua alocução com uma nota apoteótica revela uma flagrante dissonância entre a proclamação e o conteúdo, e certamente que a resistência e combate nunca poderá ser o mesmo, já que não logra explicar a missão de Camões, nem determina uma clara e indubitável causa a seguir. Ao longo da sua penosa intervenção, a oradora dedicou-se inteiramente ao esvaziamento simbólico do poeta e à dessacralização da sua obra. Camões, contudo, sobrevive. Sobrevive não por obra dos seus intérpretes pós-identitários, mas apesar deles. A sua voz, forjada na dor, na exigência e na lucidez trágica, resistirá incólume à domesticação e ao apagamento. Não morreu, de facto, e permanecerá insubmisso frente aos que, sob o pretexto de um humanismo amorfo, procuram neutralizá-lo. Enquanto houver quem o leia com rigor e lucidez, Camões continuará a fulgir não como sob a forma de ícone resignado, mas como chama viva e irreprimível da consciência nacional. Lídia Jorge, em contrapartida, jamais inscreverá o seu nome entre os vultos que dignificam a memória portuguesa. A sua intervenção nas comemorações do Dia de Portugal não a consagra, desonra-a. Ficará registada não como legado mas como mancha, episódio infamante de um tempo em que o prestígio institucional se divorciou da grandeza de espírito.

Em anexo: Discurso nas Cerimónias Oficiais do 10 de Junho – Lídia Jorge (2025)

Este ano de 2025 não estava no meu horizonte, mas agradeço. Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico. Mas em Portugal é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante. Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade. E muitas vezes é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto. a assunção de que um poeta do século X nosou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra. A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem. O país retribui-lhes, reconhecendo desde há muito que as comunidades portuguesas são corpo essencial do nosso ser identitário. Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado foi cidade anfitriã em 1996. Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera. O que mudou e o que justifica que, de novo tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos. É sabido que lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o promontório de Sagres. A escassos 40 km de distância, sagres e lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva, cujo papel se encontra em avaliação. A a comunicação digital, que se afirmou a partir dos anos 90, permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por terras do infanto. Era a altura de atribuir a Lagos de Novo o Estatuto de Cidade merecedora, de acolher estas celebrações e de fazer refletir a sua importância como polo aglutinador de interesse cultural. Mas há outro motivo para que este ano a celebração deste dia seja particular. Desde há do anos que estamos a evocar o nascimento de Camões ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu. Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Bitovan. Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu. Provam-no a forma como passados cinco séculos tem sido revisitada ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior. Novos autores têm surgido atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões. O jovem ansaísta Carlos Maria Bobon pôs recentemente, recentemente em relevo, o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na língua portuguesa moderna que hoje usamos. demonstrou como a língua portuguesa manobrada no seu esplendor resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do oceano, como lhe chamou Baltazar Staço. Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal lendas, são verdades. O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índico redigiu na margem de um exemplar dos lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor, escreveu o frade e lovi morir em um hospital em Lisboa, sem entender uma sábana com que cobrisse Depois de haver navegado 5500 léguas per mar, assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana já depois de morto. Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos, conceitos sobre vida humana e seu mistério. Isso talvez. Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi. Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que se se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Hipérbole é linda. Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de camões, como se fossem filmes modernos feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior. Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em Sobos rios que vão, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar. Ao regressarmos a todos esses versos escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender os tempos duros que atravessamos, têm em conformidade com os tempos em que o próprio viveu. Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao ciclo, ao fim de um ciclo e sob a consciência dessa mudança, no conjunto das 1128 que compõem os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia. Então, aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que passados 50 anos impediam a manutenção desse mesmo império. E nesse campo pode-se dizer que os lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia. É bom lembrar que entre os séculos X e X7, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos. E no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas. Foram eles Shakespeare, Servantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder. Corpos que continua válido e intacto até aos nossos dias. sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder lachista. No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então, queixava-se da degradação moral, mencionava o vil interesse e sede e miga do dinheiro que a tudo nos obriga e evocava, entre os vários aspectos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem. que tinham enfrentado o mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer fortuna. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual que resultava depois na prática, na degradação dos atos do dia- a dia. Escreve o poeta no final do canto oitavo. Este deprava às vezes as ciências, os juízos cegando e as consciências. Este interpreta mais do que sutilmente os textos. Este faz e desfaz as leis. Este causa os prejúrios entre a gente. E mil vezes tiranos tornam reis. Na verdade, Camões e Servantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram. Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que que lutavam entre si por o domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque. Os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”, escreveu Shakespeare no ato qu do rei Lier. “É uma infelicidade da época que os loucos guem os cegos. Enquanto isso, Servantes criava a figura genial do alucinado Dom Quichote de Lamancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido. Por seu lado, Camões, no corpo dos Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si, por si mesmo, haviam sido proféticas em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer Kibir ocorrido em 1578 estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto 10o. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura. No entanto, o fim de ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa. Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global, porque nós agora somos outros. Deslocamos-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço. Mas alguma coisa desse outro fim de século que se seguiu ao tempo da renascença malograda relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder de mente aliado ao triunfalismo tecnológico faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos são apenas público que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas. É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as comunidades portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos. Sobre estes areais aconteceram momentos decisivos para o mundo. No início da idade moderna, lagos e sagraram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. o promontório e a silhueta do infante austero, que sonhou com achamento de ilhas e outros descobrimentos como parte de uma guerra santa, antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira. e a lenda coloca-o a meditar em sagres. Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sofia escreveu: “Ali vimos a viamência do visível, o aparecer total exposto inteiro e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar era o verdadeiro. Esta ideia de que na mente do infante se processou uma epifania anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal. que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sacres passou assim para a história e para a mitologia como o lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo. Mas existe uma outra perspectiva, como é sabido, e hoje em dia, o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora. É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade. É preciso sempre sublinhar para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade. O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade. E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso. Agos precisamente oferece às populações atuais a par do lado mágico dos descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico. Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorço pelo facto de aqui se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, com polos de abastecimento nas Áfricas, nas costas da África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX. Lagos expõe a memória desse remorço. Mostra como num dia de agosto, de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia. E como foram repartidos e por quem? Alguém que muito presamos encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio infante Dom Henrique. Lagos não se furta a expor essa verdade histórica. Lagos também mostra o local onde depois em levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano em envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia banta. Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui no dia de hoje. Aliás, a UNESCO criou a rota do escravo e inscreveu lagos na rota da escravatura para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sobre os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos. Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene. Homens não se matem aos outros. É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 144, porque o cronista do infante, Dom Henrique o narrou. Ees Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou de forma comovida como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da crónica dos feitos de Guiné para termos a certeza de que havia quem não achasse justo, semelhante degradação e o dissesse. Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse. O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do infante, de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença. É uma luta nossa contemporânea. Em lagos, hoje, em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Knibone, datado de 2014, que tem corrido mundo. A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar, num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre está um tripulante que a vista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes. O tripulante da grande embarcação pergunta: “De onde vê a vocês?” “Da lancha apinhada?” Alguém responde: “Vimos da terra?” Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de imigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar. Consta que em pleno século X7 10% da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui e nos misionamos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do Europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do Senhor que o escravizou, filhos do pirata e do que foi roubado, mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas. A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte. Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte. A pergunta é esta: quando ficaram quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem máquina entrarem no novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano? Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu. Regressa sua obra para procurar entender que conceito tinha o poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial. Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto primeiro dos luzíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos, onde pode acolher-se um fraco humano, onde terá segura a curta vida, que não se arme e se indigue no céu sereno contra um bicho da terra tão pequeno. Nestes versos se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo. Mas na prática essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido a separá-lo da terra, igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos. Mas, entretanto, o século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais, tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e durante algumas décadas foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo, só que ultimamente regrite-se a cada dia que passa. O conceito de representatividade respeitável da figura do chefe de estado, oriundo do povo grego. Princípio princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos evangelhos. Essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos está a ser subvertida. A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende. Um chefe de estado de um de uma grande potência durante um comício, pôde dizer: “Adoro-vos. Adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram. Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais. Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar sem querer ofender quem quer que seja. Perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência. Nós portugueses não somos ricos, somos pobres e injustos. Mas ainda assim derrubamos uma longuíssima ditadura e e terminamos com opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criamos uma comunidade de países de língua portuguesa e fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz. Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força. Leio Camões, aquele que nunca mais morreu e comoovo-me com o seu destino. Porque se alguma coisa tem em comum ele que foi géio e eu não sou, é a certeza de que partilhe da sua ideia de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa. Muito obrigada.

Sobre como a Bula Manifestis Probatum não criou Reino algum, porque ele já existia

Na primeira História de Portugal conhecida, de Fernando Oliveira (séc. XVI), há um ensaio muito interessante sobre a Bula Manifestis Probatum, que procura demonstrar o facto da Bula não criar Reino algum, porque ele já existia. Ora vejam: 

“Concordam ambos [Alexandre III e Eugénio III], porque ambos dizem que este Reino era de D. Afonso Henriques. E isto se confirma por um breve do sobredito Inocêncio Terceiro dirigido a D. Afonso, o segundo, no qual diz que os Reis de Castela não têm jurisdição alguma em Portugal. Concordam também, porque ambos dizem que D. Afonso ordenou dar aos Papas um certo censo. Mas são diferentes na tenção com que ordenou de lho dar, porque a Crónica diz que fez D. Afonso este seu reino peiteiro ao Papa, por graças que lhe o Papa concedeu, e o breve diz, que ordenou dar-lhe aquele censo em sinal que este reino era do direito de S. Pedro. E chama-lhe censo e não peita, as quais cousas são mui diferentes uma da outra, porque dar ao Papa peita por graças espirituais tem figura de simonia e dar-lhe censo em sinal de reverência, como diz o breve, é sinal de obediência e devoção. Não diz que faz o reino peiteiro, mas diz que lhe dá aquilo em sinal que é do direito de S. Pedro. As quais palavras se hão-de notar por esta via que agora direi. Diz que é do direito de D. Pedro, porque naqueles tempos havia na Igreja Cristã muitos cismas, e uns diziam que eram da obediência de Constantinopla, outros de Alexandria e outros de Roma, onde S. Pedro foi prelado. E, por isso, o Breve entende que ser da obediência de Roma é ser do direito de S. Pedro e é ser da Igreja Católica. A tenção de D. Afonso foi professar a obediência dos sucessores de S. Pedro. Alguns quiseram dizer que D. Afonso fizera este reino feudo da câmara apostólica, mas não sabem o que dizem, porque a propriedade do feudo é do senhor do feudo e a propriedade de Portugal nunca foi da câmara apostólica. E têm os feudos tal condição, que não se pagando, perdem pelos senhores feudatários, mas este de Portugal nunca se pagou e nem por isso se perdeu. Não o perderam, digo, os Reis de Portugal, porque são eles os senhores proprietários e não deram seu senhorio aos Papas, nem lhe concediam senão censo, como diz o breve, o qual nunca se pagou, nem veio a efeito. Mas veio a efeito o que ele significava, que era ser este reino da obediência da cátedra de S. Pedro, como de feito é, e sempre foi sem jamais quebrar. E, por isso, lhe concede a ele e a seus reis este Papa Alexandre, e depois dele Inocêncio Terceiro confirma estas graças sobreditas, e não pela peita, como quis entender a Crónica. Finalmente, não deu D. Afonso Henriques aos Papas o senhorio temporal deste Reino, nem se lhe obrigou a pagar tributo como a senhores temporais, mas assinava-lhe censo como a eclesiásticos com título de esmola espontânea e obra piedosa sem obrigação, como são as esmolas puras. Alguns chamam a este reescrito erecção e criação de novo reino e rei, mas o Papa não lhe chama senão página de constituição, a qual não pode ser de novo rei, nem reino, porque além de o Papa não declarar de que é esta constituição, ele mesmo, no princípio deste mesmo reescrito, chama a D. Afonso rei e a Portugal reino, antes de lhe dar autoridade para serem Rei, nem Reino. E daí consta que este reescrito não é de nova erecção, nem de um, nem de outro. Não de reino, porque na primeira parte deste livro fica provado que Portugal tem título de Reino muito antigo, nem de Rei, porque aqui nesta história vimos que o povo, no campo de Ourique, perto de quarenta anos antes disto, fez D. Afonso Henriques Rei de Portugal. E se dizem que o povo de Portugal não podia fazer Rei D. Afonso Henriques, também lhe direi que o povo desbaratado e desapossado de suas terras não podia fazer D. Pelágio Rei de Espanha. E se para D. Afonso Henriques era necessária autoridade apostólica, também era necessária a mesma autoridade para os Reis de Castela e de Navarra e Aragão, que se fizeram Reis e Reinos sem aquela autoridade. Os Mouros deram estes títulos a Córdova e a Toledo e Sevilha e Granada, e os Cristãos só com aquela autoridade dos Mouros chamam aquelas terras reinos. Assim que bem podia o povo de Portugal usar destes títulos, como outros usavam e já usava deles antes deste reescrito. E não foi esta nova erecção, nem criação, nem o Papa usa destes vocábulos neste breve, mas chama-lhe constituição, como disse, porque lhe não podia dar essoutros nomes de erecção e criação nova. Constituição lhe chama, porque quanto ao principal lhe deu ser e constituiu por autoridade divina, como antigamente os profetas e sacerdotes faziam quando ungiam os réis, e agora fazem quando ungem os Imperadores. Os quais, depois de ser eleitos secularmente, são ungidos em significação que sacramentalmente recebem de Deus o poder que têm sobre o povo, por meio dos Sumos Pontífices que os constituem E esta é a constituição que o Papa fez em D. Afonso Henriques, posto que o não ungisse, porque as cerimónias sacramentais não são da essência dos sacramentos. O essencial é que o poder dos Reis venha de Cristo por meio dos Sumos Pontífices, seus Vigários, segundo mui doutamente escreveu em nossos dias o doutor navarro Martim de Azpilcueta. E, assim, veio a D. Afonso Henriques, por meio de Alexandre tércio, autor deste breve. E mais, este nome constituição, aqui se pode tomar lei e pragmática, assim como os nossos Bispos chamam constituições as suas leis sinodais, porque aqui o Papa chama constituição à lei que ele põe aos contrários em favor deste reino e seus reis; os quais tomam sob sua proteção. Outro ponto é necessário que pratiquemos sobre este breve, por que os émulos se não gloriem de sua malícia contra o Papa e contra D. Afonso Henriques. Dizem os émulos que o Papa tomou este reino aos reis de Castela e que o deu a D. Afonso Henriques, mas não dizem verdade, porque este reino não era dos Reis de Castela, mas estava em mão dos Mouros, e de poder de Mouros o tirou D. Afonso Henriques e seu pai. Isto consta do que fica escrito nesta história e deste breve consta que lhe não deu senão o que ele tomasse aos Mouros e não aos Cristãos, mas antes fez salva dos lugares que pertencem aos reis cristãos nossos vizinhos, e diz assim: “Por autoridade apostólica concedemos a tua excelência e confirmamos todos os lugares que com ajuda da graça celestial tomares das mãos dos Sarracenos, em que os príncipes cristãos comarcãos não podem adquirir direito”. O Papa que isto diz não pretende tomar o Reino de Portugal aos Reis de Castela e dá-lo a D. Afonso Henriques. Nem o tomou a eles, nem o deu a ele, porque já era seu dele e nunca foi deles, isto consta de tudo o que fica escrito atrás e deste reescrito presente, e não há outro reescrito que outra cousa diga, nem histórias que isto contradigam com alguma autoridade, porque as que isto contradizem não a têm sua, nem alegam de outrem, que tenham. É muito de notar que diz em que os príncipes comarcãos não podem adquirir direito, como os de Castela não podem adquirir nos lugares de Portugal, segundo fica provado”.

Crítica: Os perigos da direita radical: Bolsonaro, Ventura e não só!, de Carlos Martins

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Introdução

Publicado em 2023 pelas Edições Saída de Emergência, a obra de Carlos Martins propõe uma análise comparada da direita radical no período pós‑2ª Guerra Mundial. Destinado sobretudo a um público geral, mas com implicações relevantes para o debate académico, o livro apresenta os fundamentos históricos e ideológicos desta corrente. O prefácio assinado por António Costa Pinto (pp. 13–14) prepara o leitor para uma leitura que, embora acessível, não dispensa a seriedade e o rigor interpretativo.

Estrutura da Obra

O livro está organizado em diversas secções que delineiam o percurso da direita radical, desde a sua definição até à sua manifestação em diferentes contextos nacionais. Assim, a estrutura básica consiste em:

  • Introdução (pp. 15–32): definição e delimitação do conceito de direita radical;
  • Capítulo 1 – “A direita radical em França: uma ameaça à espera de se concretizar” (pp. 35–62);
  • Capítulo 2 – “O caso italiano: Salvini, Meloni e outros protagonistas” (pp. 63–89);
  • Capítulo 3 – “A ‘democracia iliberal’ na Hungria: o regime de Viktor Orbán” (pp. 93–117);
  • Capítulo 4 – “A Rússia de Putin: ‘democracia iliberal’ ou o autoritarismo conservador?” (pp. 118–145);
  • Capítulo 5 – “Donald Trump e a direita americana: o líder da direita radical conquista a Casa Branca” (pp. 149–175);
  • Capítulo 6 – “O Brasil de Bolsonaro: um populista violento na América do Sul” (pp. 176–199);
  • Capítulo 7 – “O Vox espanhol: o fim do ‘excecionalismo Ibérico’” (pp. 203–227);
  • Capítulo 8 – “A direita radical em Portugal: André Ventura e o fim do ‘excecionalismo português’” (pp. 228–255);
  • Capítulo 9 – “A direita antidemocrática pelo mundo: alguns casos nacionais” (pp. 259–289);
  • Secções Complementares – Lista de abreviaturas (pp. 291–294) e Bibliografia (pp. 295–300).

Esta organização permite a visualização, de forma concisa, da evolução histórica e das manifestações contemporâneas da direita radical, situando cada capítulo num contexto nacional próprio.

Análise Crítica

Carlos Martins evidencia os contornos ideológicos da direita radical e o seu impacto na política contemporânea, recorrendo a uma abordagem comparada que inclui na análise diversas expressões desta corrente.

Uma parte relevante desta análise é a discussão sobre o caso francês. No Capítulo 1, o autor dedica o seu estudo à França, evidenciando como a tradição que se iniciou com figuras como Jean‑Marie Le Pen culmina com a ascensão de Marine Le Pen. Essa linha de argumentação demonstra, de forma clara, a influência histórica dos discursos nacionalistas e, consequentemente, na propagação de ideias que se refletem noutros movimentos identitários e populistas na Europa.

Paralelamente, a obra introduz uma análise de economia política que merece destaque. O autor diferencia as abordagens protecionistas e liberais presentes nas várias manifestações da direita radical. Em alguns contextos nacionais, as medidas protecionistas são vistas como ferramentas para salvaguardar a indústria e a soberania económica, refletindo uma rejeição ao modelo de globalização liberal. Noutras situações, no entanto, observa-se uma tendência à implementação de políticas económicas liberais que, paradoxalmente, podem ser utilizadas para reconfigurar as relações comerciais num contexto de intensa concorrência global. Essa dualidade entre protecionismo e liberalismo enriquece a compreensão dos desafios económicos que acompanham a ascensão do populismo de direita.

Apesar do mérito na abordagem comparada, alguns pontos da análise – em particular, os capítulos referentes ao caso português – revelam certas limitações. Martins recorre, por vezes, demasiadamente a notícias e relatos mediáticos, resultando numa carência de fundamentação académica robusta nessa secção. No entanto, esta limitação é compensada pela inclusão de um conjunto de referências bibliográficas, que conferem à obra um apoio teórico importante para o estudo da direita radical em Portugal.

Outro aspeto notório é a clareza da linguagem adotada, que permite a transmissão de argumentos complexos de forma acessível. A estrutura adotada – em que cada capítulo apresenta uma breve história dos movimentos seguida de uma análise dos líderes atuais – revela-se particularmente eficaz para compreender tanto a evolução histórica quanto o impacto eleitoral destes fenómenos.

Considerações Finais

“Os perigos da direita radical: Bolsonaro, Ventura e não só!” constitui uma leitura indispensável para quem pretende compreender as dinâmicas da direita radical num contexto global e, em especial, à luz do crescimento de movimentos populistas. Ao combinar uma análise histórica com uma abordagem comparada que inclui reflexões sobre o caso francês e os dilemas da economia política – entre protecionismo e liberalismo –, Carlos Martins oferece ferramentas cruciais para a reflexão crítica sobre os riscos que esta ideologia representa para a democracia. A obra é recomendada tanto a estudiosos de ciência política como ao público interessado numa análise aprofundada deste fenómeno.

Bibliografia

Martins, Carlos. Fascismos: para além de Hitler e Mussolini. Edições Saída de Emergência, Porto Salvo, 2022.

Martins, Carlos. Os perigos da direita radical: Bolsonaro, Ventura e não só!. Prefácio de António Costa Pinto. Saída de Emergência, Porto Salvo, 2023.

A milícia dos Besteiros do Reino, a história dos mesmos 

“Desde o século XII que as fontes mencionam a presença de corpos de besteiros entre as forças concelhias. Forais como o de Cernancelhe, de 1124, ou os que seguiam o modelo de Santarém/Lisboa, de 1179, são disso os melhores exemplos. A importância atribuída a estes atiradores especializados no manejo da besta encontra-se amplamente demonstrada nos privilégios que, desde cedo, lhe foram conferidos. Destes destacavam-se a equiparação – para efeitos jurídicos – a cavaleiros-vilãos, a isenção de jugada e a possibilidade de, atingindo a idade de 60-70 anos, obterem o estatutos de “pousados” – tal como os cavaleiros – sem que, por isso, perdessem qualquer uma das prerrogativas de que até aí tinham usufruído. Estes combatentes encontravam-se ainda isentos de boa parte dos impostos municipais, excepto nos casos em que se destinavam à construção ou reparação de estruturas defensivas. Como tal, integrar este grupo era uma forma de ascensão social, a todos os níveis prestigiante, sobretudo em comparação com a restante peonagem. Talvez para vincar essa diferença relativamente aos outros combatentes de infantaria, demonstrando que pertenciam a um escalão superior, muitos são os documentos que mencionam indivíduos identificando-os apenas como besteiros, em vez de o fazerem, por exemplo, aludindo à sua atividade profissional. O ingresso no grupo socio-militar dos besteiros fazia-se, até inícios do século XIV, de forma voluntária. De tal forma que, quem quisesse abandonar esse estatuto, bastava apresentar-se – como se encontra expresso, por exemplo, nos Costumes de Santarém – junto do Alcaide e fazer entrega da corda da sua arma No entanto, aquela não era uma promoção fácil de obter, dependendo, em primeiro lugar, do resultado favorável da avaliação da perícia com que o candidato manuseava a besta. Para além disso, o acesso a este grupo socio-militar encontrava-se limitado a um número restrito e previamente estabelecido de indivíduos, pelo que nem sempre seria possível a admissão de novos atiradores. Percebe-se, assim, que as autoridades locais procuravam manter um número fixo de besteiros, não só para um melhor planeamento das ações militares em que participavam, mas também para evitar que se verificasse um excesso destes atiradores e, por consequência, de indivíduos abrangidos por privilégios fiscais e judiciais. Para essa vigilância contavam com os Anadéis, Oficiais responsáveis pelo recrutamento dos besteiros e atestados ao comando desses contingentes, pelo menos, desde a primeira metade do século XIII, usufruindo dos mesmos privilégios que os seus subordinados. A eficácia destes combatentes, gradualmente autonomizados da restante peonagem, terá sido, até finais de Duzentos, posta à prova por diversas vezes no âmbito das ações armadas protagonizadas pela hoste régia. A lista dos “beesteyros que devem yr a serviço dElRey” – de finais do século XIII – é a esse respeito demonstrativo da utilização, pela Monarquia, de contingentes concelhios compostos exclusivamente por besteiros. Este arrolamento, que abrange apenas localidades situadas no centro de Portugal, indica-nos que Abrantes deveria contribuir para a hoste régia com 32 atiradores, Tomar com outros tantos, Pombal com 21, tal como Torres Novas, Soure com 12, Ourém com 21, Porto de Mós com 10, Leiria com 40, Penela com 6, Miranda do Corvo com 4, Lousã com 12, Coimbra com 31, Montemor-o-Velho com 21, Alcanede com 15 e Santarém com 60, o que totalizava o número considerável de 338 combatentes armados de besta, a mais letal das armas então utilizadas A tendência para a utilização de besteiros, em detrimento de outras forças de infantaria provenientes dos concelhos, observa-se também em 1298, na composição do contingente mobilizado em Lisboa para a campanha desse ano, realizada no âmbito da participação Portuguesa na Guerra Civil de Castela e que contava apenas com cavaleiros e besteiros. Parece, pois, seguro que D. Dinis recorria com alguma frequência a esses milicianos como forma de aumentar a capacidade de tiro da hoste régia. Mas não terá sido o primeiro a compreender a sua importância tática. A prová-lo está a existência de um corpo de besteiros do rei, atestado, pelo menos, nos reinados de D. Sancho I e de D. Afonso II. D. Dinis terá igualmente percebido que estes contingentes podiam ser utilizados ainda com maior proveito desde que lhes fosse atribuído um enquadramento legal próprio que os convertesse num corpo militar numericamente estável e com quantitativos definidos pela Coroa, bem adestrado, com boas armas, num regime próprio da “profissionalização” e com um elevado grau de prontidão para que pudesse ser mobilizado de forma rápida sempre que o Rei deles necessitasse. Obviava-se, desta forma, à falta de qualidade revelada pelas forças de infantaria fornecidas pelos Concelhos, acomodadas – tal como as de cavalaria – à situação geral de pacificação vivida no Reino após o final da Reconquista Cristã. As primeiras referências à nova milícia remontam a 1299, quando D. Dinis, no final do cerco de Portalegre, concedeu cartas de privilégios aos besteiros do conto de Serpa, em recompensa pela forma destacada como participaram “em na guerra e em Portalegre”. Estas forças teriam, então, já um certo grau de autonomia e, pelo menos desde 1282, uma organização interna e um comandante próprio, o Anadel, que as diferenciava dos demais contingentes concelhios mobilizados nessa vila alentejana. Os privilégios atribuídos pelo Rei não se encontravam todos consignados numa mesma carta. Pelo contrário, distribuíram-se por vários diplomas datados de 1299 – três deles remontam ao dia 24.10 deste ano -, de 1304, de 1309 e de 1313, a que se somava um documento sem data, mas atribuível a D. Dinis, bem como uma carta de privilégios concedida por D. Beatriz, viúva de D. Afonso III, em 1282. Esta dispersão por vários diplomas parece-nos reveladora, em primeiro lugar, de alguma incipiência na forma como eram concedidos e, em segundo, da inexistência, até aí, de qualquer modelo que servisse de base para a atribuição deste tipo de cartas de privilégios. De outra forma dificilmente se explica a emissão de três cartas de privilégios distintas num mesmo dia. Assim, acreditamos que os acima três diplomas régios de 24.10.1299 foram, tudo aponta nesse sentido, os primeiros que a Coroa outorgou aos besteiros do conto (…)”.

 – “A Arte da Guerra em Portugal”, de Miguel Gomes Martins.

Em Louvor dos Calvos ou uma proposta de aproximação De Laude Calvorum de Hucbaldo ao Português

Domingos Tavares Campos (domingostavarescampos@gmail.com)

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

A todos os meus amigos a quem

Deus investiu na condição calva.

Resumo: A História jamais se repete, embora as histórias que a compõe por várias vezes rimem. No século VIII, tal como no corrente, a figura calva foi vítima de variadas chacotas, o que levou o monge Hucbaldo, cuja reputação corria por toda a Europa, a compor um texto aliterativo, em latim, em defesa dos seus calvos congéneres. Aqui, propomos uma tradução em português da nossa autoria.

Palavras-chave: Calvície, Literatura Medieval, Poesia Aliterativa, Tradução.

Abstract: History never repeats itself, although the particular (hi)stories that make it up often rhyme. In the 8th century, just like today, the balding man was often the victim of satyre, which led the monk Hucbald, whose reputation ran before him throughout Europe, to compose an alliterative text in Latin in defense of his bald peers. Here, we propose our own Portuguese translation.

Keywords: Baldness, Medieval Literature, Alliterative Poetry, Translation.

Portugal tem vindo a dominar a indústria dos implantes capilares, um sector da medicina estética que está em constante crescimento e, neste momento, fruto de avanços técnicos e um certo grau de economia de escala, permitiu baixar o custo desta operação, que até há uns anos era vista quase como um arcano mistério esotérico. A razão é simples: a calvície é, na nossa sociedade, vista como esteticamente neutra, no melhor dos casos, como prejudicial, no pior. No passado, a calvície foi interpretada como sinal de sabedoria, motivo pelo qual Sócrates, Demócrito e Pitágoras, para citar três exemplos famosos da Antiguidade Clássica, foram retratados como calvos. Na tradição iconográfica cristã primitiva, a falta de cabelo tornou-se proporcional à sabedoria dos doutos, como S. João Evangelista, S. Paulo e S. Jerónimo. No entanto, esta marcha histórica não foi linear e a calvície nem sempre foi tomada como sinal de sapiência, tendo, por exemplo, Júlio César, o grande líder romano, adoptado um penteado com o infame comb over, como nos podemos aperceber pelas suas estátuas; situação replicada por S. Constantino, que, a despeito da sua conversão ao Cristianismo, poderia ter abandonado todas as caducas coisas conquanto não se tratasse dos seus condutos capilares.

Posto isto, nas centúrias primas do medievo, a condição calva não deveria suscitar grande contentamento por parte dos investidos: as tradições pagãs, mal dissolvidas ainda num cristianismo insipiente, tratavam do cabelo com especial atenção, o que, aliás, encontra ecos na tradição judaico-cristã no mito de Sansão. Simultaneamente, a proliferação do estamento monástico impelia os seus membros à tonsura, como sinal de obediência, cortando o seu cabelo ou com mechas em forma de cruz (como se mantém no rito baptismal bizantino), ou com o corte da coroa. A condição capilar comunicava o estamento social, político e económico; situação comum a toda a Eurásia: na China, o corte do cabelo era censurado nos códices confucionistas, o que se manteve até à chegada da dinastia Qing ao poder, em 1644, que impeliu a maioria Han ao corte do cabelo ou ao corte da cabeça; para os povos das estepes, como os Mongóis, o cabelo comunicava o estatuto social e os guerreiros deveriam cortá-lo ritualmente, mantendo mechas compridas intercaladas com pedaços completamente rapados; e na Rússia até recentemente era visto como condenável o corte do cabelo por parte de membros da igreja, sendo que os místicos sem afiliação eclesiástica, como Rasputine, também o deixavam crescer, mostra da falta de ligação ao mundo, sendo que os Velhos Crentes, que mantém os costumes medievais, ainda mantém o hábito do cabelo comprido como mostra da sua consagração à missão religiosa. Na Europa Central, vítimas da jocosidade alheia, os calvos irão encontrar refúgio no texto de Hucbaldo que, não surpreendentemente, deveria ter sido ele mesmo calvo: Huc Bald, Hugo, o Calvo.

Hoje reduzido ao desconhecimento, este monge foi importantíssimo no desenvolvimento da teoria musical cristã, além de poemas profanos e composições sacras. O texto que aqui nos ocupa é o Ecloga de Calvis, dedicado ao bispo Hatto de Mogúncia (Mainz), tendo granjeado a fama durante o Renascimento, com inúmeras versões impressas.

Desde já, assumimos a nossa falta de qualificação própria para a tradução desta obra: o nosso latim é relativamente mau e obrigou-nos a socorrer-nos de dicionários para traduzir a peça quase palavra a palavra, além da tradução francesa do século XIX e da tradução inglesa dos nossos dias. Além disto, a constante e sacrossanta aliteração torna o texto dificílimo e com bastantes problemas, pelo que estas duas prévias traduções entram, várias vezes, em conflicto, sendo difícil descortinar ao certo o que é escrito, embora se compreenda o seu sentido global. Além destes problemas específicos, colocam-se ainda os problemas globais de serem todas as traduções meras aproximações ao sentido da obra.

Posto isto, consideramos que, pela novidade no contexto português, pela jocosidade granjeada e pela realização de toda a tradução mantendo a aliteração original em -c, salvo para conjunções, determinantes e proposições, visto não possuir o nosso pátrio idioma casos[1], ao contrário do seu antepassado latino, dos quais nos possamos recorrer para tornar a aliteração perfeitamente pura.

Posto isto, o grosso do poema é composto, como dito previamente, por 146 estrofes, precedido por dois poemas, estes não aliterativos, em que o monge dedica a sua composição ao bispo Hatto e se consagra à musa Polímnia. Há algumas versões que incluem um outro poema de 13 linhas somente, mas que o tradutor para o francês considera não serem da autoria do religioso franco[2], mas antes alguma imitação. De todos os modos, decidimos traduzi-los, deixando esta adenda.

Assim sendo, e sem mais nos alongarmos:

Coíbe-te, Camena, de cerrar de cantos os calvos
Cachoada, caudada e crespa calúnia caia ante ti.
Canta, antes, a copiosa caridade calva.
Coíba-se de calada conquanto do claro círculo cerúleo
Com o conturbado clangor canoroso 
Caia do Céu, com o culto Cristão.
Consagrados cálices cesáreos, cheios
Com corja e comandita do culto Catão,
Cantos condenando as culpas clericais.
Cessa o canto, Camena, e cerceia a crítica calva!
Carlos, claríssimo César, com carecas celebra
Conquistas clericais, com Cristo comungando a Cruz.
Clausa consternada Camena, com César concordante compartilh’a cortesia
Coroa, condecoração, como César, da calva condição,

Comemorem-se, cantem-se e celebrem-se os calvos

Cristo, a cabeça dos carecas contemplai:
Cruz, clemente com os crimes calvos.

Carmine, clara, cave calvos calvare, camoena;

Crispa cada contra caudata calumnia cirro

Calvorum charites cantatae carmine claro

Conticeant, cum clangenti concita canore

Concidering coeli cum Christi culmina cultu.

Caesarae capides, cauti cata cista Catonis

Concludant cleri captantia carmina culpas.

Carmina calvorum comtrix, conclude, camoena.

Carole, cum calvis, Caesar clarissime, canta

Crucifero Christo clari conamina cleri.

Clausa camoena capita cum Caesare congrua curam

Comta corona, cave; cum Caesare condita calvo

Caroleos comunt celebrantia carmina calvos.

Christe, caput calvum cum comto contueare.

Crux cujus cunctis codonat crimina calvis.

Quanto ao texto que canonicamente pertence a Hucbaldo, não mantivemos as divisões que lhe são dadas na versão francesa do século XIX, por não se poderem datar as mesmas, preservando a unidade que cuidamos original do poema.

Canções com censuras colossais, chacotam carecas:

Cantadas, compostas; celebremos, contudo, calvas cantigas

Claras, conspícuas, comummente conhecidas

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Começarei a condecorar calvos com condignas canções

Confundindo crinas cachoadas, cirrosas;

Concelebremos criativos cânticos da conceituada Camena

Comemorando calvos, cominando nos capotes criminosos:

Com a capilar carência calva, cuidam chalacear.

Calvos aos cumes dos Céus caminham,

Calando os que contam com compridos cabelos,

Caluniadores, cessando os condutos capilares com cada canção,

Cantigas consonantes, aos calvos conjuntamente cantadas

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Crescente coroa na cabeça, calva como o colo.

Consortes clérigos, conferidos na calvície:

Concordantes corporalmente com Cristo, cedendo a Coroa.

Cortando da cabeça cabelo, do coração crimes convelando.

Com o coração, o Criador, no cerúleo corpo contempla

Cobiçando comparticipar no culto dos cidadãos celestes

Condenando com cautela crimes e caducas coisas

Céus catapultado, celestial coral

Cupidamente compreendendo e clamando o Criador da completa criação

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Contentes cabeças carecas clamam como canoras,

Conquanto cantando castas cantigas em corridinho[3]

Conformes em cabeça, concordes colectivamente em corpo

Complancência do clero, cuidadosamente a construindo celas

Com clangor do corno celeste, convocam coortes,

Concedendo o cognome cristão com o Crisma,

Consórcio consagrado com a classe crismada.

Comunidade concorde, cautelosamente celebrante o convívio da Ceia

Convivas constantes do corpo e cruor de Cristo.

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Copiosos calvos coleccionam castíssimos claustros[4]

Celebrantes cândidos dos celestiais cantos cristãos

Carentes de corporais crinas, clareando os cumes celestes.

Cumes dos Céus cobiçando[5], coibindo-se de cuidados caducos

Concebendo cartas, compondo cantos claros

Católicos certíssimos, cânones cuidando consertar

Coibindo a carne, conservando do coração o calor;

Constantes, castos, o comum curso cruzar

Celeremente, conquistando a chegada aos cumes celestiais

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Chefiam os calvos, caminhando ao cimo dos Céus

Conspícuos, colorida a Coroa como cervical [embelezados com a coroa cervical]

Clementes coligem capital, concedendo com consideração aos clientes

Cuide-se, cuidado, ca[6] os calvos condenam crimes.

Calvos censores copiosos censos constroem,

Corpulentas carecas comunicam de cuidado carecimento:

Considera corporalmente cego o calvo[7]

Calvos cessam do cuidado a cegueira[8]

Cessa a consternação, calvo, cessa, careca[9].

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Calvos, conhecidos combatentes.

Contestando com cristas carecas, como capacetes,

Contorcem, crispam, conjuntamente contendem:

Cercam os cachoados cabeludos, calcam-lhes os comados

Com cutelos cavam carnosos caboucos, como corrusco cortam os cabos

Cervicais caídas; celebram os calvos com celeuma clamorosa.

Comovido ao confronto, com capacidade os calvos combatem

Coligem e calcam, compelem à cedência os cabeludos

Cativos capturados, captos com cérvices coarctadas.

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Conhecereis: calvos contam com o cúlmen do cérebro;

Conhecereis, calvos crânios curam catarro;

Conhecereis, calvas cabeças curam cegas catervas.

Cancro e caquexia a crónicas conduzidos por calvos[10]

Castigados cardiopatas o carpe cessam; cólica condição curada.

Com canivetes cortantes, condições carnais conferindo

Corruptas cabeças, charcosas com cruor cervical.

Causa dos cantos à chusma? O calvo as clandestinas coisas, que capitulam

Censura, causadoras da criatura o caimento; curando o corpo.[11]

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Consternação dos cabeludos cirssosos, de concursos cessem a concepção

Críticas à criatura de clamar cessai:

Ca o Criador, do Cosmo causador, com completo comando

Constituiu com cargo e compromisso, colectar, consultar, conferir a criação

Curvando em conjunto as chusmas, condecorando, contrariamente, claro, o careca:

Concedendo-lhe o cume com a criada completude coagindo cumprir o calvo comando.[12]

Cretinos conclamam, como cães, comunicando clamores:

“Criou o calvo como carquilhosa[13] cabaça caída, chafurdada?[14]

Cuja crítica celeremente carece constituir-se calada.

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Choldras canalhas, castigam couros ao calvo.

Com que causa? Calvos crimes de seu coração contorcem, cortam e correm.

Contrariamente, cabeludos com carapinhas colocam cinzas na cabeça calva.[15]

Calvos compreendem conversão coalescente do corpo em cinzas.

Consequentemente consideram carecer a carne de crestar com calidez de carvão

Chamusca coração do calvo da congregação com calor de Cristo.[16]

Com que causam castram calvos, castos corporalmente?

Culpas castram no coração completa e celeremente.

Choldras canalhas, cessai cantos chacoteando dos calvos!

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Cuidado com canto, o claro à claridade, o cego à cegueira, conforme características, cingir

Calcando a calúnia, comprimindo-a contra o chão, chafurdando na charneca.[17]

Conspurcada, carrancudas cantatas contra calvos concluem com cornetas, clarins e cítaras.

Certamente considerado como crítico, censores caprichados dos carecas

Clarividentes calvos, conhecedores cabais das celestiais coisas.

Calvos chacotearam, cercando-os, chocarreando, chalaceando,

Clamando: “Caminha ao cume, celeremente, calvo”[18].

Condenam os calvos os cativos, criminosos com culpas claras

Calamitosos, corroídos, culposos corpos em cotas e componentes caídos.

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Cantos aos calvos compostos, compilados, cortejam o calvo

Conspícuo, cujo cruel contendedor composto

Considerava o cultuador de Cristo crucificar.

Contentamente, cercam o cordial calvo com cabeça circumfulgente

“Completamente cegos!”, o clamor de Cristo citando.

Caem, celeremente, corporalmente cavados como com cutelos cortados:

Consequentemente, capturado ao cume dos Céus caminha

Clarividentemente, contempla cara-a-cara o Criador da completa criação

Cujo coração claramente cintila como concha celestial.

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Conglomerai os coros, celebrai os calvos em conjunto.

Calva censura cambia-se em celebratórios cantos os calvos cultuando,

Conhecemos: o cônsul dos Céus ‘conselham caução:

Consulta crimes, considera-os completamente cacosos[19];

Condena culpados; criando um colóquio comunal.

Cultivando comunidades cívicas; confunde os cachoados:

Contidos e conquistados; dos cônjuges da Cristandade

Comove corações, cabeça condita com o corpo[20].

Cretinos cessai de condenar os célebres calvos!

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Contenham criaturas cruéis contra carecas;

Conatamente conservando criminosas culpas,

Comunicando cínicas contumélias – carentes de conteúdo,

Cobiçosos de cassar consideração; clausurem-nos e castiguem-nos cegamente,

Calvastro[21], censor, crê que o capturado

Careça de culpar o calvo, como cego cão.

Cala-te, cão, que culpas de crimes os calvos;

Cala-te, cão, com cantos críticos dos calvos;

Cala-te, cão, cessa de corroer os calvos;

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Caso contemples o concílio calvo congregado, claro e cintilante,

Compreende que o círculo celestial consente o careca,

Ca o centro do Céu é o cerne da calvície.

Circuitos do cosmo confirmam-se como comendas calvas.

Coligi os carecas! Congregai os cintilantes calvos!

Cíntia[22] cessará de conferir e colorir

Cedendo o cargo comparadas com as claras calvas cabeças.

Conbrilham carecas, calvo capacete coruscando;

Constelações cintilam, do careca cerúleas cópias.

Cantos aos calvos cantai, clarísona Camena!

Convém claros cantos compor nos claustros,

Completos, cortesãos, cantos calvos.

Versão latina, de Étienne-François Corpet.

Carmina, conviciis cerritus carpere calvos

Conatus, cecinit, celebrentur carmine calvi

Conspicuo clari: carmen cognoscite, cuncti.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Comere condigno conabor carmine calvos;

Contra, cirrosi crines confundere colli.

Cantica concelebrent callentes clara camoenae;

Collaudent calvos, collatrent carmine clubas

Carpere conantes calvos crispante cachinno;

Conscendant coeli calvorum causa cacumen.

Conticcant cuncti concreto crine comati,

Cerrito calvos calventes carmine cunctos.

Consona conjunctim cantentur carmina calvis.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Cum crescit calvi capitis cérvice corona,

Consortem cleri consignat confore calvum,

Capturum claram, Christo cedente, coronam.

Ceu crines capitis, convellens crimina cordis,

Corde creatorem conspectat, corpore coelum.

Coelicolas cives cupiens contingere cultu,
Crimina cum curis condemnat cuncta caducis;

Coeli conscensum, concentum coelicolarum

Concupiens cupide, collaudant cuncta creantem.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Conjubilant calvi celso clamore canori,

Continuantque choro castas cantare choreas.

Conformes capiti, concordes corpore cuncti,

Complacitas cleri contendunt condere caulas,

Correpto cornu coelestia clássica clangung,

Conficiunt carum Christi cognomine chrisma,

Consociant cuneo conspersos chrismate coetus.

Concordes caute celebrant convivia coenae;

Constanturant Christi convivas carne, cruore.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Complures calvos cogunt castissima castra.

Coelica certatim celebrantes cantica Christo,

Corpore, crine carente, collustrant culmina coeli.

Coelica concupiunt, cohibent curare caduca.

Componunt chartas, concinnant carmina clara.

Catholicum canonem certum conscribere curant.

Commulcant carnem, congestant corde calorem

Constantem, castum, communi currere cursu

Contendunt celeres, coelique capessere culmen.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Conregnant calvi, conscendunt culmina clari,

Conspicui, comti chrysea cérvice corona.

Clementes censu, condunt consulta clientum.

Cincinnose, cave! Condemnant crimina calvi:

Censorem calvum censuram cendere constant;

Cordacem calvum cordatum crede cavendum.

Calventem calvos caecari corpore censet.

Calvitium calvi caecatus carpere cessa;

Cessa calvastrum, cessa corrodere, cessa.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Conductun calvis cúneos ceramine claros.

Compugnant calvi cristati casside coni.

Contorquent, crispant celeres cum caede catervas:

Comprendunt cirros, contundunt calce comatos,

Cuspide confodiunt; capulo conscissa corusco

Colla cadunt; celebrant calvi clamore celeusma.

Commotus certare, catus certamine calvus

Conculcat, caedit, crinitos cedere cogit,

Captivos captat, captos cervice coartat.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Comperies calvos columen confere cérebro:

Comperies calvos capitis curare catarrhos:

Comperies calvos caecas curare cavernas.

Chronica cum cancro cetique cachexia calvo.

Cardia cor carpens cassatur, cólica cessat.

Contrectans chalybem, conscissa carne, coercet

Corruptum capitis, cocta cérvice, cruorem.

Cur complura cano? Clandestina cuncta caduci

Corpore confutat, collapsaque corpora curat.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Corde cavus, cirrose, cave certare creanti,

Conviciumque creaturae concidecere cessa.

Condita cunctipotens causarum cuncta creator

Constituit, curamque cavens confere creatis,

Caetera curvavit, clarum consurgere calvi

Concedens culmen, cui cedere cuncta coegit.

Cerritus cur collatrat clamore canino:

Condiderat calvum colapsa cucurbita coeno?

Conticeat citius coenosa calumnia cujus.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Colplex carnificum, corium convellere calvo

Cur censes? Cordis convellit crimina calvus.

Cur censes capiti cineres conspergere calvo?

Cognoscit calvus cineri concrescere corpus.

Cur censes calido carnes carbone cremari?

Corda cremant calvi Christi concota calore.

Cur censes calvum castrari corpore castum?

Cordetenus cunctis castratur concito culpis.

Carmine carnificans calvum, compesce cavillum.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Carminibus caveo claris conjugere caeca.

Calcetur coenu calcanda calumnia calce.

Coenosus, coenosa caneus, concludito cannam.

Censebis certe censorem códice cantum

Clarividum calvum, cui cônscia consecutura.

Commotum catulum circumlatrante cachinno

Clamantes: Conscede citus, coscedito, calve!

Condemnasse cacos confestim crimine clarant

Convicii, corrosa cadunt cum corpore carptim.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Carmina calvorum cumulentur carmine calvi

Conspicui, cujus crudelis cautio caedis

Constiterat, Christi cultores carnificare.

Conjubilent circumfulgente charismate calvo

Caecato cuncti! Christi clamore citatus,

Corruerat cito, confossus ceu cúspide conti;

Confestimque capit conscensum culmine coeli,

CLarivido cernens conspecto cunctipotentem,

Confore cor cujus claret coeleste catinum.[23]

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Conglumerat choros, calvo celebrate choreas

Censuram celebrem calvus compsisse colendum

Comperimus: coeli consul, consulta cavendi

Crimina confutat, coenosi cuncta coercet

Colloquii; cunctis communia commoda censet.

Confundit cirros; collegia civic condit.

Conciliando consponsorum Christicolarum

Corda ciet, capiti corpus conjugere certans.

Cerritus celebres cesset contemnere calvos.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Crudelem calvos casso conamine cunctos

Carpere conantem compescite; crimine captum

Convicii, commentantem comenta caduca,

Concito convictum caecis concludite claustris.

Calvaster censor caecari crimine captum

Censet. Caece canis, cessa contemnere calvum!

Conquinisce, canis, confinges crimina calvis!

Conquinisce, canis, collantrans carmine calvos!

Conquinisce, canis, cessans corrodere calvos!

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Concilium clarum calvorum cogere coetum

Cum cernis, calvum coeli comprendito cyclum;

Calvitti culmen coeli cognoscito centrum.

Circuitum cosmi commendant caetera calvi.

Calvos consocia, cadentes congere calvos,

Cynthia cessabit chryseos confere colores,

Cornua contenebrans cedet concrescere calvis.

Collucent calvi, calvorum cássida candet

Conrutilans, coeli ceu copia clara coruscat.

Carmina clarisonae, calvis cantate, camoenae.

Conveniet claras claustris componere cannas

Completur claris carmen cantabile calvis.

Bibliografia:

HUCBALDO – De Laude Calvorum Carmen Mirabile; edição, prefácio, comentários e tradução de de Étienne-François Corpet, 1853. Disponível online em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k1338867.image e https://books.google.pt/books?id=nNtGAQAAMAAJ&printsec=frontcover&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

Klein, Thomas – In Praise of Bald Men: A Translation of Hucbald’s Ecloga de Calvis. Comitatus: A Journal of Medieval and Renaissance Studies, nº 26, 1995. Disponível online em: https://escholarship.org/uc/item/1v6296zv

  1. Embora, a nosso ver, ainda restem alguns resquícios de casos pois é perfeitamente possível, embora seja considerado pedante, proferir “o filho joanino”, ao invés de “o filho do João”, mas não sendo nós linguistas, desejamos abster-nos deste debate e submeter-nos à apreciação deles.

  2. HUCBALDO – De laude calvorum; edição de Étienne-François Corpet. Disponível online em: https://books.google.pt/books?id=nNtGAQAAMAAJ&printsec=frontcover&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

  3. Melhor tradução que encontramos para dança

  4. Castra; castelo pelo sentido literal, claustro pela rede sintática

  5. Isto é, que buscam o Reino dos Céus.

  6. Forma medieval para porque.

  7. Sem vaidade.

  8. São prudentes.

  9. Findam as tristezas.

  10. Conduzidas a crónicas porque, pelo calvo, foram acabadas.

  11. Os calvos são ainda castos, recebendo cantos por motivo da sua castidade que os leva a censurar os bens perecíveis pela imortalidade da condição santa.

  12. Deus concedeu ao calvo a soberania sobre a Criação, obrigando todas as criaturas a curvarem-se perante este.

  13. Com rugas.

  14. A tradução literal seria: colapsada no caulino chão. Por facilidade, utilizamos chafurdada.

  15. Humilhar, remonta à práctica de colocar cinzas na cabeça quando se peca, como feito por S. Francisco de Assis, por exemplo.

  16. Os calvos são, por natureza, contemptos mundistas e não seguem as tendências da carne, imitam Cristo e vão fazendo penitência.

  17. Não fazendo caso da calúnia.

  18. Referência a 2 Reis 2.23: Eliseu partiu dali para Betel. Pelo caminho, apareceram uns rapazitos, vindos da povoação, que se puseram a troçar dele e a dizer: «Vai-te embora, careca!». Disponível online em: https://biblia.pt/biblia/BPT/2KI.2/2-Reis-2 [consultado a 28.04.2023]. Nesta passagem, os jovens pedem que o profeta morra, “Vai-te embora”.

  19. Imprestável, digno de um caco.

  20. Nua, como o corpo nu, sem pecados.

  21. Calvaster, tanto pode ser careca como Calvastro, familiar de Júlio César.

  22. A Lua.

  23. Estes últimos versos provavelmente referem-se a S. Paulo, como refere a edição francesa de Corpet.

Mudança da Hora: uma história entre o tempo, a luz e os relógios

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Hoje em dia, consideramos como certa a alteração da hora no último domingo de Março e no último domingo de Outubro. Esta prática, que se tornou uma norma comum em toda a União Europeia, nem sempre foi consensual ou linear. A mudança da hora tem raízes históricas profundas e está intimamente ligada à evolução da medição do tempo, à relojoaria e aos ritmos sociais e económicos das últimas gerações.

Antes da invenção dos relógios mecânicos, o tempo era medido de forma bastante mais orgânica. O Sol era o principal regulador do quotidiano. Os dias começavam com o nascer do sol, e as horas eram calculadas com base na luz solar disponível. Na Babilónia, por exemplo, contavam-se doze horas entre o nascer e o pôr-do-sol, o que significava que a duração de cada hora variava ao longo do ano. Mais tarde, adoptou-se como referência o meio-dia solar — o momento em que o Sol atinge o ponto mais alto no céu. A partir desse ponto, dividia-se o dia em duas metades: doze horas para trás, doze para diante. Ainda assim, estas “horas” permaneciam maleáveis, ao sabor das estações.

Relógio decimal francês da época da Revolução Francesa. O mostrador grande apresenta as dez horas do dia decimal em algarismos árabes, enquanto o mostrador pequeno indica os dois períodos de 12 horas do dia de 24 horas convencional, em numeração romana.

Com a Revolução Industrial e, sobretudo, com o advento do transporte ferroviário, tornou-se imperativo estabelecer uma hora exacta, uniforme e sincronizada entre localidades. A organização dos horários dos comboios e de outras actividades logísticas exigia uma coordenação precisa, o que levou à padronização dos fusos horários nacionais. Passou a ser necessário que todos os relógios estivessem certos entre si. Muitas freguesias sincronizavam-se com a hora oficial trazida desde a capital.

A ideia de alterar a hora para melhor aproveitar a luz solar surgiu muito antes de ser implementada.

O Relógio de Ohio, no Capitólio dos Estados Unidos, a ser adiantado por Charles Higgins, sargento de armas do Senado, no dia 31 de Março de 1918, aquando da primeira entrada em vigor do horário de verão no país.
O Relógio de Ohio, no Capitólio dos Estados Unidos, a ser adiantado por Charles Higgins, sargento de armas do Senado, no dia 31 de Março de 1918, aquando da primeira entrada em vigor do horário de verão no país.

Em 1784, Benjamin Franklin, então a residir em Paris, publicou um ensaio sobre a poupança da luz solar onde sugeria mudar os horários das actividades humanas conforme as estações, para evitar o desperdício de velas. Em Espanha, a cidade de Cádis implementou uma medida semelhante já em 1810, alterou os horários dos serviços públicos entre Maio e Setembro. Em 1895, o neozelandês George Hudson propôs um desfasamento oficial de duas horas.

Contudo, foi apenas durante a Primeira Guerra Mundial que a mudança da hora foi efectivamente adoptada por motivos práticos.

A Alemanha e o Império Austro-Húngaro foram os primeiros a implementar oficialmente a mudança da hora, a 30 de Abril de 1916, procuraram assim reduzir o consumo energético.

Portugal seguiu o exemplo pouco depois, com a primeira mudança de hora decretada a 17 de Junho de 1916, durante o governo de António José de Almeida (então ministro do Interior).

A regra estabelecida determinava que a alteração se desse a partir de 1 de Março, e assim se fez entre 1917 e 1921. Após diversas interrupções nos anos seguintes, só em 1926, durante o governo de António Maria da Silva, se retomou a prática de forma mais sistemática, ainda que com períodos de suspensão, como em 1930 e 1933.

Durante o Estado Novo, sobretudo nos anos da Segunda Guerra Mundial, a mudança da hora tornou-se mais regular, e em 1949 começou-se a aplicar uma fórmula de fácil memorização: início da hora de Verão no primeiro domingo de Abril às 2h00 da manhã, terminando no primeiro domingo de Outubro às 3h00. Este sistema vigorou até 1966. A partir de então, e até 1976, deixou-se de mudar a hora.

Após o 25 de Abril de 1974, que marcou o fim da ditadura e o regresso da democracia em Portugal, muitas medidas administrativas e políticas foram revistas — e uma delas foi precisamente a retoma da mudança da hora. A prática tinha sido suspensa durante alguns anos, e só voltou a ser implementada em 1976, já em plena reorganização do país. O contexto era semelhante ao de outras épocas: poupança energética e harmonização com os restantes países europeus, que entretanto já tinham retomado o horário de Verão.

Durante vinte anos, Portugal adoptou regras próprias para o horário de Verão e Inverno, geralmente com início no primeiro domingo de Abril e fim no final de Setembro. Em 1992, o governo de Aníbal Cavaco Silva decidiu alinhar a hora portuguesa com a da Europa Central, abolindo temporariamente a hora de Inverno. A experiência durou quatro anos e teve consequências controversas, como o aumento de acidentes rodoviários e perturbações no ritmo de vida. A medida viria a ser revertida em 1996 pelo governo de António Guterres.

Relógio atómico do Observatório Astronómico de Lisboa de 1972 - Patek Philippe
Relógio atómico do Observatório Astronómico de Lisboa de 1972 – Patek Philippe

Desde então, Portugal segue a directiva europeia que uniformizou a mudança da hora em todos os Estados-membros: à 1h00 da madrugada do último domingo de Março, os relógios são adiantados uma hora (hora de Verão); à 2h00 do último domingo de Outubro, atrasam-se uma hora (hora de Inverno).

A próxima mudança da hora ocorrerá na madrugada de 30 de Março de 2025.

Os relógios deverão ser adiantados uma hora: à 1h00, passarão a marcar 2h00.

A alteração da hora continua a ser um tema debatido. Os defensores apontam vantagens como o aproveitamento da luz natural ao fim do dia e a potencial poupança energética. Já os críticos salientam os efeitos negativos no sono, no bemestar e na produtividade. O Parlamento Europeu chegou a aprovar o fim da mudança da hora, mas os países membros ainda não se entenderam sobre qual fuso adoptar definitivamente.

Na relojoaria, esta alteração representa um momento simbólico. Os relógios digitais e electrónicos podem ajustar-se automaticamente por sinal de rádio (como o DCF77), GPS ou ligação à internet. Porém, nos relógios mecânicos — especialmente os de pulso e os de torre — o ajuste continua a ser feito manualmente.

Aula de relojoaria grossa IPR
Aula de relojoaria grossa IPR

Este gesto, para muitos entusiastas, é um pequeno ritual, um reencontro com o tempo e com a tradição.

Assim, entre luz, sombras e engrenagens, a mudança da hora é também um espelho da nossa relação com o tempo. É um hábito que atravessa séculos, guerras, regimes e tecnologias, e que continua a marcar — literalmente — os nossos dias.

Uma Cantiga de Escárnio a um Nobre de Guimarães e à sua família, no tempo de D. Afonso III

Uma Cantiga de Escárnio a um Nobre de Guimarães [D. Rui Gomes de Briteiros] e à sua família, no tempo de D. Afonso III, por estes não armarem bem os seus homens para a Guerra (para o Português corrente). 

“Estava-se Dom Belpelho em uma sua maison

Que chamam Longos, dond´eles todos som

Per porta lh´entra Martim de Frazom,

Escudo a colo em que esteve um capom,

Que foi já poleir´em outra sazom,

Cavalo agudo, que semelha forom;

em cima dele um velho selegom [sela grande], sem estrebeiras e com roto bardom;

nem porta loriga nem porta lorigom,

nem geolheiras, quais de ferro som,

Mas traz perponto roto sem algodom

e coberturas dum velho zarelhom;

lança de pinho e de bragal o pendom,

Chapel de ferro, que se lhe mui mal pom [põe], e sobraçado um velho espadarrom,

Cuitel cachado, cinta sem farcilhom,

Duas esporas destras, ca sestras nom som,

Maça de fuste, que lhe pende do arçom.

A Dom Belpelho moveu esta razom:

 – Ai, meu Senhor, assi Deus vos perdom,

onde é João Aranha, o vosso companhom e vosso Alferes, que vos tem o pendom?

Se é aqui, saia desta maison,

que já outros todos em Basto som.

Eoi!

Estas horas chega João de Froiam,

cavalo velho, caçurro e aleixam [aleijão],

sinais [brasão] porta em no arçom de avam [frente]:

campo verde, onde fareja o cam, e no escudo a tais lhe acharam;

Cerame e cinto e calças de Roam,

sua catadura semelha de um jaiam [gigante].

Ante Dom Belpelho se vai se aparelhan

e diz – Senhor, nom valereis um pam

Se os que som em Basto se vi vos assi vam;

Mais ide a eles, que se vos não iram: achá-los-edes e escarmentaram.

Vingade a casa em que vos mijaram [mijarão],

Que digam todos quantos pós vós vierem

Que tal conselho deu Joam de Froiam.

Eoi!

Isto per dito chegou Pero Ferreira,

cavalo branco, vermelho na peteira,

Escudo a colo, que foi de uma masseira, Sua lança torta de um ramo de cerdeira,

Capelo de ferro, o anasal na trincheira [a parte que protegia o nariz estava na orelha]

E furado em cima da moleira;

Traz uma osa e uma geolheira,

Estrebeirando vai de mui gram maneira;

e achou Belpelho estando em uma eira e diz: – Aqui estades, ai, velho de matreira!

Venha Pachacho e Dom Roi Cabreira [outros dois vassalos dos Briteiros]

pera darem a mim a deanteira,

que já vos tarda essa gente da Beira,

o Mordomo e o sobrinho de Cheira,

e Mem Sapo e Dom Martim de Meira e Lopo Gato, esse filho da freira,

Que nom há entre nós melhor lança peideira.

Eoi!”.

Slavery from Aristotle to Fitzhugh: Between Savagery and Civilization

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Across centuries, a constellation of thinkers—spanning ancient Greece to Victorian England—saw slavery not just as a labor system but as a transformative force, a gritty mechanism for hauling certain peoples from savage states into civilized life. From Aristotle’s natural hierarchies to Carlyle’s labor ethic, these minds—Aristotle, Ibn Khaldun, Sepúlveda, Montesquieu, Locke, Hegel, Kant, Mill, Carlyle, Fitzhugh, and Rousseau—wove a tapestry of arguments about how slavery could forge order, impart skills, and integrate outsiders into refined societies. Their ideas, born in eras where servitude was woven into the social fabric, crisscross in surprising ways, revealing a shared belief in progress through subjugation. This essay traces their interwoven perspectives, unpacking the nuts and bolts of how they thought slavery worked as a cultural crucible, less concerned with its absence today than with the machinery they claimed it set in motion.

The roots of this notion stretch back to Aristotle, who saw the world as a ladder of natural roles. In his Politics, he pegged some folks—often non-Greeks—as natural slaves, their minds too dim for self-rule. For him, slavery wasn’t just handy; it was a civilizing engine. By tethering these barbarians to a wiser master, it gave them structure, a daily grind that taught obedience and purpose while letting the elite ponder higher things like philosophy. Jump forward to Juan Ginés de Sepúlveda in 16th-century Spain, and you see echoes of this. During the Valladolid debate, he leaned on Aristotle to argue that Indigenous Americans—wild pagans in his eyes—needed chains to learn Christian order. Slavery, he figured, drilled discipline into them, swapping idolatry for faith and raw survival for a place in Spain’s grand hierarchy. Both men saw it as a kind of tough love, a system where the enslaved got a leg up by mimicking their betters, step by brutal step.

This idea of slavery as a cultural conveyor belt pops up again with Ibn Khaldun, the 14th-century Arab historian. In his Muqaddimah, he tracked how rough nomadic tribes conquered settled folks, then soaked up their polish—often through servitude. Enslaved captives didn’t just toil; they learned city ways, picking up language, crafts, and customs from their masters until the line between savage and civilized blurred. It’s a slow burn, not unlike what George Fitzhugh, a 19th-century American, pitched in Cannibals All!. He claimed African slaves in the South traded barbarism for a cozy spot under white planters, their labor in cotton fields schooling them in a stable, hierarchical world. For both, slavery was a classroom of sorts, its mechanisms grinding down tribal chaos into something structured, even if the pupils had no say in the lesson plan.

Then there’s the labor angle, where Thomas Carlyle and John Stuart Mill meet in unexpected ways. Carlyle, in his 1849 Occasional Discourse on the Negro Question, raged that freed Jamaicans lazed about, wasting their potential. Slavery, he insisted, forced a work ethic on them, turning idle savages into productive cogs—a moral and economic win. Mill, more measured in On Liberty, agreed that backward peoples needed a firm hand. He saw despotism, including slavery, as a boot camp for civilizations not yet ready for freedom, teaching them punctuality, industry, and law through rote obedience. Their overlap is striking: both figured hard labor under a whip was the ticket to civilizing habits, a practical drill that stuck where lectures wouldn’t. Charles de Montesquieu chimes in here too, from The Spirit of the Laws. He tied slavery to hot climates, where laziness reigned unless checked by force—enslavement kicked those societies into gear, making them industrious by necessity.

But it’s not all about sweat and imitation; some saw slavery as a grand historical gearshift. Hegel, in his Philosophy of History, cast Africa as a savage backwater, outside history’s flow until yanked in by European chains. For him, slavery was a messy but vital spark, exposing these peoples to rational systems—courts, trade, technology—that they’d otherwise miss. It’s a cosmic take, mirrored by Immanuel Kant’s Anthropology writings, where he pegged non-Europeans as morally childish, needing a stern guardian to grow up. Slavery, Kant hinted, could be that guardian, instilling reason through servitude until they could stand alone. John Locke’s twist in his Second Treatise fits here too: he okayed slavery for war captives, reckoning it swapped tribal anarchy for a taste of property-based order. Together, they paint slavery as a historical shove, its mechanisms jolting stagnant cultures into the stream of progress, whether through law, logic, or land.

The gears of this machine get more intricate with thinkers blending the practical and the philosophical. Jean-Jacques Rousseau, in Discourse on Inequality, romanticized the noble savage but admitted some societies stalled without a jolt—slavery could be that jolt, breaking their inertia with forced exposure to complex ways. It’s a reluctant nod, not far from Montesquieu’s climate-driven logic: where nature lulls, slavery stirs. Fitzhugh, though, saw it as a finished product—slaves in the South didn’t just learn, they belonged, their labor knitting them into a civilized web that beat their old cannibal chaos. Sepúlveda’s religious spin ties in too; he figured slavery’s daily grind—prayers, tasks, rules—rebuilt pagan souls into Christian ones, a spiritual upgrade via earthly toil. Across these views, the mechanism is clear: slavery as a cultural transplant, rooting new habits and beliefs through repetition and control.

Even the doubters add to the mix. Locke’s war-captive clause isn’t just punishment—it’s a civilizing swap, trading spears for plows under a master’s eye. Kant’s moral tutelage overlaps with Mill’s despotism: both saw slavery as a phase, a harsh apprenticeship that drilled civilized traits—duty, order, restraint—into raw material. Hegel’s dialectic nods to Ibn Khaldun’s cycles: conquest enslaves, slavery refines, rinse and repeat until the savage is history. Carlyle’s work obsession links back to Aristotle’s purpose-giving chains—labor as the thread that stitches wildness into society. It’s a web of cause and effect, where slavery’s daily grind, its imposed hierarchies, and its cultural osmosis churned out something new, or so they claimed.

Zooming in, the how of it all stands out. Aristotle’s slaves learned by doing—hauling stone, tending flocks—mimicking Greek ways until they stuck. Ibn Khaldun’s captives picked up Arabic and crafts in bustling cities, their kids born half-civilized. Sepúlveda’s Indians knelt at Mass, their old rituals fading under Spanish lash and cross. Montesquieu’s tropical sluggards turned fields under overseers, their sweat yielding crops and discipline. Locke’s captives built roads for Rome or Virginia, their hands shaping a world they’d join. Hegel’s Africans manned plantations, their toil feeding Europe’s Enlightenment machine. Kant’s wards absorbed ethics through servitude, Mill’s through labor camps, Carlyle’s through sugar fields—each a cog in a system that, they argued, hammered savage edges into civilized shapes.

The connections tighten further. Fitzhugh’s plantation harmony echoes Aristotle’s natural fit—slavery as a slot where everyone belongs, learning their place. Rousseau’s disruption aligns with Hegel’s historical kick, both seeing slavery as a breaker of savage stillness. Mill and Kant, both Enlightenment sons, bet on reason emerging from forced order, while Carlyle and Sepúlveda, centuries apart, banked on labor and faith as twin civilizing rods. Ibn Khaldun’s slow assimilation prefigures Fitzhugh’s generational shift—slavery as a multi-act play, not a one-off lesson. Locke’s property game ties to Montesquieu’s industry push: both saw work under duress as the spark that lit civilized fire.

This isn’t about pretty ideals—it’s about the grind. Slavery, in their eyes, was a machine with teeth: it broke bodies but built systems. It marched captives from mud huts to marble halls, from war cries to work songs, from tribal feuds to tax rolls. Aristotle’s helots carved Athens’ glory, Sepúlveda’s converts filled Spain’s pews, Ibn Khaldun’s bondsmen spiced Baghdad’s markets. Montesquieu’s field hands fed empires, Locke’s prisoners paved colonies, Hegel’s slaves stoked history’s engine. Kant’s pupils learned duty, Mill’s order, Carlyle’s industry, Fitzhugh’s harmony, Rousseau’s jolt—all through the same raw tools: chains, whips, and time. They didn’t blink at the blood; they saw the blueprint.

So, this brief essay sprawls across their minds, not boxed by name but tangled by vision. Aristotle kicks it off with nature’s nudge, Ibn Khaldun tracks its grind through history, Sepúlveda blesses it with God. Montesquieu maps its geography, Locke its justice, Hegel its destiny. Kant and Mill polish it with reason, Carlyle and Fitzhugh cheer its sweat, Rousseau shrugs at its chaos. Together, they sketch a world where slavery wasn’t just power—it was progress, a messy, creaking lever that, they swore, lifted the savage into the light. Whether it worked as neatly as they dreamed is another tale, but the mechanisms—labor, mimicry, hierarchy—were, to them, the real gears of the climb.


References

  • Aristotle. Politics. Translated by J. Barnes. Princeton University Press, 1984.
  • Bernasconi, R. “Who Invented the Concept of Race? Kant’s Role.” In Race, ed. R. Bernasconi. Blackwell, 2001.
  • Carlyle, T. Occasional Discourse on the Negro Question. Fraser’s Magazine, 1849.
  • Farr, J. “Locke, Natural Law, and New World Slavery.” Political Theory, 36(4), 495-522, 2008.
  • Fitzhugh, G. Cannibals All! Or, Slaves Without Masters. A.E. Miller, 1857.
  • Goldberg, D. T. “Liberalism’s Limits.” Nineteenth-Century Contexts, 22(2), 203-216, 2000.
  • Hanke, L. All Mankind is One. Northern Illinois University Press, 1974.
  • Hegel, G. W. F. The Philosophy of History. Translated by J. Sibree, 1956. Dover, 1837.
  • Ibn Khaldun. The Muqaddimah: An Introduction to History. Translated by F. Rosenthal. Princeton University Press, 1958.
  • Kant, I. Anthropology from a Pragmatic Point of View. Translated by V.L. Dowdell, 1978. Southern Illinois University Press, 1798.
  • Locke, J. Second Treatise of Government. Hackett, 1980, 1689.
  • Mill, J. S. On Liberty. Penguin Classics, 1974, 1859.
  • Montesquieu, C. de. The Spirit of the Laws. Translated by A.M. Cohler et al., 1989. Cambridge University Press, 1748.
  • Pinkard, T. Hegel: A Biography. Cambridge University Press, 2000.
  • Rousseau, J.-J. The Social Contract & Discourse on Inequality. Translated by G.D.H. Cole, 1973. Everyman, 1762.
  • Ryan, A. The Philosophy of John Stuart Mill. Humanities Press, 1990.
  • Sepúlveda, J. G. de. Democrates Alter. In Spanish Colonial Theory, ed. L. Hanke, 1974, 1545.
  • Shklar, J. N. Montesquieu. Oxford University Press, 1987.
  • Starobinski, J. Jean-Jacques Rousseau: Transparency and Obstruction. University of Chicago Press, 1988.
  • Wish, H. George Fitzhugh: Propagandist of the Old South. Louisiana State University Press, 1960.

O Teorema das Quatro Cores: Importância Filosófica

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A finalidade deste artigo é divugar um tema dentro da Filosofia da Ciência. Pretende-se abordar as questões levantadas para filosofia da Matemática pela demonstração de um dos seus teoremas clássicos, o Teorema das Quatro Cores: qual o número mínimo de cores necessárias para colorir um mapa? Procura ilustrar-se como o processo de demonstração do Teorema das Quatro Cores alterou a Matemática a nível das práticas, das técnicas utilizadas e na sua Filosofia. Não se pretende um estudo exaustivo pelo que as questões técnicas são apenas afloradas. Quer-se apenas uma introdução a temas da filosofia da Matemática de modo a que um leigo fique com noções mais sólidas.

A desconfiança e resistência à novidade ou a sua adopção e integração num património são, em última análise, parte do tema deste trabalho: o uso da informática era, nos anos 1970, o que a internet foi no início deste século e a Inteligência Artificial é atualmente.

O QUE É UM TEOREMA, QUAL A SUA UTILIDADE?

Qualquer dicionário de língua portuguesa define um teorema como sendo «qualquer proposição que, para ser admitida, precisa de demonstração». [1] Trata-se de um termo muito utilizado em Lógica e Matemática e que surge nos Elementos de Euclides (360-295 a.C.) com o significado de “afirmação que pode ser provada”.

Enquanto um teorema não é demonstrado recebe o nome de conjectura. A demonstração da correcção de um teorema é chamada prova. Esta relaciona logicamente premissas e conclusões. Vocábulos associados a teorema são: proposição, sentença não associada a qualquer outro teorema; lema, “pré-teorema” que serve para ajudar na prova e corolário, algo que dele decorre.

Alguns teoremas ganharam popularidade pelo seu pendor lúdico: pode-se passar o tempo a tentar demonstrar um teorema, são alguns dos populares «quebra – cabeças». Além disso, são problemas matemáticos com um grande potencial didáctico, até pela potencialidade que possuem de despertar nos jovens alunos o gosto pela descoberta e pela matemática.

Um dos teoremas mais populares devido à simplicidade da formulação é o chamado Teorema das Quatro Cores. Corresponde à possibilidade de colorir um mapa com um número mínimo de cores de maneira a que dois países contíguos (com fronteira extensa, não num só ponto) não recebam a mesma tonalidade.

UMA CONJECTURA…

http://www.esacademic.com/pictures/eswiki/49/180px-Francis_guthrie.jpg

Fig. 1- Francis Guthrie (1831-1899). Matemático Sul – africano que formulou a Conjectura das Quatro Cores.

O Teorema das Quatro cores surge em 1852, quando Francis Guthrie (1831-1899) (figura 1) tentava colorir um mapa de Inglaterra de forma que dois condados adjacentes não ficassem com a mesma cor. Após alguma reflexão, conjecturou que qualquer mapa plano poderia ser colorido apenas com quatro cores. Francis contactou um eminente matemático seu contemporâneo, Augustus De Morgan (1806-1871), apresentando-lhe a sua conjectura. O entusiasmo deste levou-o a divulgar a Conjectura das Quatro Cores pela comunidade matemática. O problema foi discutido e teve alguns desenvolvimentos: De Morgan procurou saber, por exemplo, se quando quatro países têm dois a dois fronteiras comuns, um deles tem de estar dentro dos outros três. Este problema continuou a ser trabalhado mas sem entrar nos círculos oficiais. [2]

Em Julho de 1878, Arthur Cayley (1821-1895), um jurista apaixonado pela Matemática, questionava se já existia uma solução para a Conjectura das Quatro Cores na secção de Matemática da Royal Society. Cayley publicou uma pequena análise do problema nos Proceedings of the Royal Geographical Society em 1879. Nesse ano, Alfred Bray Kempe (1849-1922), também advogado e antigo aluno de Cayley no Trinity College de Cambridge, publicou uma demonstração completa do Teorema das Quatro Cores no American Journal of Mathematics. A demonstração de Kempe foi estudada por vários matemáticos que sugeriram formas de a melhorar. Assim, em 1879, considerava-se estabelecido o Teorema das Quatro Cores. [3]

Todavia, em 1890, Percy John Heawood (1861-1955) provou que a demonstração de Kempe tinha um erro. Não foi capaz de obter nenhuma demonstração alternativa mas provou o Teorema das Cinco Cores: não são necessárias mais do que cinco tonalidades para colorir um mapa plano onde países de fronteira comum têm cores diferentes. Esta prova era de pequena dimensão e matematicamente simples.

Em 1880 Peter Guthrie Tait (1831 – 1901) realiza também uma demonstração, que em 1891 se descobre não estar correcta. Ambas as demonstrações tiveram valor: estabeleceram-se as cadeias de Kempe, que permitiram mostrar o Teorema das Cinco Cores e foram utilizadas na redutibilidade de configurações na prova do Teorema das Quatro Cores; Tait mostrou que o problema da coloração dos vértices de triangulações planas com quatro cores é equivalente à coloração das arestas com apenas 3 cores. [4]

Em 1976, com a ajuda de um IBM 360, na Universidade de Illinois, Kenneth Appel e Wolfgang Haken apresentaram uma demonstração do Teorema das Quatro Cores. John Koch também colaborou nos programas computacionais. Recorreram a mil horas de uso de um computador de alta velocidade. A prova era demasiado longa para ser verificada à mão e havia a possibilidade de o computador ter cometido um qualquer erro difícil de detectar.

Para os mais cépticos, existia sempre a possibilidade de o programa usado ter sido concebido para falsear um resultado, pois era o primeiro grande teorema a ser provado com base na informática e existia competição para demonstrar o teorema.

A demonstração de 1976 ficou também a dever-se a George David Birkhoff (1884 – 1944) e Heinrich Heesch (1906-1995) que contribuíram com ideias cruciais na obtenção da prova. O trabalho do primeiro permitiu demonstrar que a Conjectura das Quatro Cores era verdadeira para mapas com 25 regiões. A prova apresentada foi tradicional, a «papel e lápis». O segundo desenvolveu os conceitos de redutibilidade, inevitabilidade e descarregamento.

Estes conceitos técnicos podem ser sintetizados: o conjunto inevitável contém tantas regiões que qualquer mapa contém pelo menos uma delas; a configuração redutível é um arranjo de países que não pode ocorrer num contra exemplo (caso um mapa possua uma configuração redutível pode ser colorido com quatro cores); e o descarregamento é um método que prova que qualquer grafo contém um sub grafo de uma lista especificada.

A dificuldade em verificar todos os cálculos feitos na demonstração de 1976 incentivou outros matemáticos a tentarem encontrar uma prova mais simples. Este trabalho tinha mais de 80 páginas de diagramas e ainda 400 micro fichas com mais informação desenhada à mão.

Surgiu assim em, 1996, uma demonstração simplificada do Teorema das Quatro Cores, cuja formulação foi o resultado de trabalho conjunto de Neil Robertson, Paul Seymour, Daniel Sanders e Robin Thomas.

Estes matemáticos reduziram a quantidade de cálculos de modo que demonstração pudesse ser reproduzida em menos de um dia. Todavia ainda hoje não existe uma demonstração que não necessite de computadores. Isso colocava em causa a existência da prova.

DEMONSTRANDO O TEOREMA DAS QUATRO CORES

Para demonstrar o teorema há que recorrer a grafos planares. Estes são representados no plano de tal forma que as suas arestas não se cruzam. Podem ser coloridos por quatro cores de modo que vértices vizinhos não recebam a mesma. [5]

Se qualquer grafo planar pode ser colorido com quatro cores, então qualquer mapa plano também. Isto, pois qualquer mapa cria um grafo: a capital de um país é um vértice ligada por estrada (o arco) aos países adjacentes. Os estados são as faces resultantes do facto do plano ser dividido pelo grafo. O problema de colorir o mapa passa a ser o seguinte: colorir cada vértice do grafo de maneira que dois vértices adjacentes tenham cores diferentes. Provar o Teorema das Quatro Cores corresponde a provar que todos os mapas planos podem ser coloridos com menos de cinco tons.

O Teorema das Cinco Cores havia sido demonstrado por Kempe. Este partiu de três postulados: o mapa não contém um país isolado dentro de outro (caso do Lesoto incrustado na África do Sul), o mesmo país não possui enclaves (como a região malaia de Sarawak na ilha de Bornéu) e em cada ponto de fronteira não se encontram mais do que três vizinhos. Tudo isto era feito a partir da configuração em grafos planares. Kempe chamou a este mapa um «mapa normal». Para respeitar o primeiro postulado, Kempe fez “desaparecer” o país «enclave» introduzindo um novo país que “apaga” o vértice onde se encontram países a mais. Chama a isso «redutibilidade». O seu erro, ulteriormente descoberto por Heawood, foi pensar que a situação de um país que se encontra na confluência de cinco era redutível. [6]

Appel e Haken vão encontrar um outro conjunto de configurações e mostrar que todas eram redutíveis. Começaram com um algoritmo e testaram através de um programa informático a redutibilidade das configurações. Sempre que não se conseguia reduzir uma configuração, o algoritmo era modificado para conceber uma nova configuração redutível. Chegaram assim a um conjunto de 1834 configurações redutíveis, posteriormente reduzidas a 1482 configurações inevitáveis. [7]

No início dos anos 1980 um estudante de mestrado descobre erros no trabalho de Appel e Haken. Estes irão refutar os argumentos escrevendo um novo trabalho. Instala-se uma grande polémica, semelhante às que acompanharam o teorema ao longo da sua história. Recorde-se que houve órgãos de comunicação social que se recusaram a dar nota da demonstração de Appel e Hakken devido à polémica.

Na década de 1990, uma equipa de quatro matemáticos insatisfeitos por a demonstração anterior recorrer a computador e não poder ser totalmente verificada devido à morosidade dos cálculos, enceta uma nova demonstração.

Com um método ligeiramente diferente estes quatro matemáticos bolseiros a trabalhar na Universidade de Rutgers chegaram a um conjunto de 633 configurações redutíveis (figura 2). A ideia era verificar a prova anterior, reconstituindo-a, mas a dimensão da tarefa levou-os por outro caminho. Basearam-se em algumas proposições comuns mas acabaram por construir um novo programa de computador.

Os problemas da prova de Appel e Haken foram menorizados: o artigo final tem cerca de 40 páginas, a demonstração demorou menos de três horas e meia e os meios informáticos foram considerados comportáveis tornando «possível a outros cientistas verificar todos os passos da nossa prova, incluindo programa e dados do computador».[8]

http://people.math.gatech.edu/~thomas/FC/confs.gif

Fig. 2- Um conjunto de configurações (figura 1 da publicação citada de ROBERTSON et. al.).

Utilizaram a aritmética integral, que consideraram mais segura em relação aos arredondamentos. Anteciparam também a crítica de a prova não poder ser considerada uma prova tradicional, pois não pode ser humanamente verificada a compilação dos programas e a infalibilidade do hardware que na prática possuíam menor possibilidade de erro sendo feitos informaticamente do que sendo realizados tradicionalmente. Reconhecem que verificar um programa informático é mais difícil que uma prova matemática da mesma extensão. [9]

Repare-se que em vinte anos a informática, tanto a nível de software como a nível de hardware tinha dado um salto de gigante. Não só o computador usado nesta última demonstração era mais rápido como consideravelmente menor fisicamente e em termos de valor (custo): repare-se que o IBM 360 podia ter um disco com 100MB de capacidade, mil vezes menor que o disco do computador em que se faz este trabalho.

Assim, a reconstituição da experiência tornou-se não só mais fácil como também mais acessível. O próprio número de programadores/investigadores em informática cresceu exponencialmente, tornando mais fácil repetir e verificar cada passo da experiência.

O Teorema da Quatro Cores fascinou os matemáticos durante mais de um século mas tem pouco interesse para quem realiza mapas temáticos pois, entre outras coisas, a representação gráfica perde legibilidade como se constata através de duas das figuras do trabalho, o que contraria a «arte» de transmitir informação graficamente, uma cor teria de ser empregue com o oceano e um dos postulados corresponde ao «apagamento» dos enclaves, o que dificulta a sua aplicação em cartografia.

É utilizado amiúde em aulas práticas de Geografia do ensino básico com a finalidade de problematizar uma tarefa tão simples quanto a de colorir um mapa de Portugal ou outros. Tenta-se com isso fomentar a aprendizagem dos distritos ou concelhos e criar hábitos de raciocínio mais complexos em jovens que estão a desenvolver as suas capacidades intelectuais: existem muitos mapas em que se as cores de determinadas regiões forem colocadas antecipadamente, não é possível colorir as restantes com quatro tonalidades.

Mas para quê tanto trabalho? Porque era necessário lutar durante mais de um século para resolver um teorema matemático? Poderão perguntar os apologistas da ciência «aplicada» ou os cínicos. Para responder a essa questão basta referir que a afectação de frequências diferentes numa rede de telefone móvel; a realização de exames académicos diferentes mas de igual grau de dificuldade sobre uma mesma matéria e a resolução de um problema de Soduku, inspiram-se ou podem ser reduzidos à resolução da coloração de grafos. Os programas informáticos utilizados para estas e outras funções são descendentes do de HAPPEL e HAKKEN.

PODE-SE FALAR DE PROVA?

Tratando-se de uma demonstração não convencional até que ponto se pode falar de uma prova? Com efeito o recurso a meios informáticos pode inviabilizar a existência do teorema porquanto se pode considerar que a afirmação não foi demonstrada. Para isso temos de abordar a noção de prova.

Em filosofia considera-se que uma prova deve possuir três características principais. A primeira é ser convincente, isto é ser aceite pela comunidade científica (os pares dos demonstradores) como verosímil. Deve ser verificável, um agente racional deve poder revê-la e reconstruir a sua demonstração, avaliando-a e alcançando a mesma conclusão que os seus antecessores no processo de investigação sem margem para dúvidas. Por fim, a prova deve ser formalizável. Isto é deve ser possível traduzi-la numa linguagem formal apropriada, tornando-a objectiva. O facto de a prova ser verificável e formalizável é definitivo. Com efeito caso uma prova possa ser submetida a estas duas operações é automaticamente aceite em matemática. [10]

Estala aqui a polémica pois a prova de Appel e Haken não pode ser totalmente verificável. Além disso, um dos lemas mais importantes, o algoritmo usado, apela a que se tome como certos os resultados obtidos «por computador». Assim, uma parte de uma prova formal parte de uma base empírica, já que é expressa numa linguagem que não é formalizada (pelo menos em termos convencionais).

Abrem-se as portas à discussão de dois pontos: qual o estatuto das provas baseadas em trabalho de computador? Se não se pode verificar o trabalho do cientista, ultrapassámos a conjectura e temos teorema (afirmação provada) ou não?

Cumpre demonstrar que a prova de Appel e Haken pode ser aceite. Para isso terá de preencher as três características das provas. Efectivamente, a maioria da comunidade aceitou a demonstração pelo que se este obstáculo fica superado havendo resistência apenas por parte dos «matemáticos formados antes do desenvolvimento dos computadores de alta velocidade». [11]

Todavia a prova não era verificável em todos os passos, tal como a de 1996. Nenhum matemático verificou passo a passo o lema da redutibilidade. Também se pode objectar que o computador não fornece uma prova mas a descrição de uma prova. Pode-se apelar ao uso de computadores como um novo método de prova mas então a noção de prova teria de ser alterada para que se acomodasse o novo método [12]

Isso seria um precedente perigoso. Não se deveria alterar a realidade ou, neste caso um padrão de aceitação de verdade, para aceitar uma teoria, mas sim rejeitar a teoria que não consegue explicar a realidade: isto é um princípio de qualquer investigação.

Pôr em causa este princípio acarreta perigos e questões que não se sabe onde terminam, tal como demonstra TYMOCZKO através do exemplo do matemático marciano e do paralelo que faz com o jogo infantil do «rei – manda»: em última instância para aceitar uma teoria fazia-se apelo não à demonstração mas à autoridade, contrariando as ideias de demonstração/experimentação e de verificação (transparência), basilares no trabalho científico.

Estas provas por computador também não são provas formais, pois pressupõem a infalibilidade dos computadores, não tendo em conta que estes falham (quer o programa, quer a máquina): pode haver alterações do processo por vírus informático, por falhas de corrente, haver defeito do hardware ou o próprio algoritmo estar mal calculado.

Qual é então o valor do trabalho realizado por computador no contexto da justificação de um resultado matemático (neste caso a redutibilidade de uma configuração)? É, devido ao exposto, menor que o de uma prova tradicional pois assenta num conjunto complexo de factores empíricos. Estaremos preparados para confiar nas provas obtidas por computador mesmo quando não compreendemos inteiramente a forma do seu trabalho? [13]

Trata-se então de uma questão de boa-fé no trabalho do computador. No caso da demonstração de 1976 do Teorema das Quatro Cores, tal ocorre num caso pioneiro pelo que, como em todos os casos pioneiros de ciência o argumento de boa-fé deve ser aceite: mesmo em Direito, quando se prejudica alguém, a boa-fé do arguido serve de argumento decisivo para absolvição. Seria aceite sempre, enquanto prova, de forma reservada, enquanto facto que espera verificação(ões) definitiva(s).

Também não se pode esquecer que dado a dimensão dos dados em análise, é humanamente muito difícil proceder à verificação. Esta só sucederá usando (aguardando) evoluções técnicas decisivas que permitam a demonstração final, após verificação mais rigorosa.

De resto qualquer passo novo em ciência é provisório, sendo que há sempre um momento de debate e de contestação aos resultados. Apenas quando a maioria das objecções cai é que se aceita o novo conhecimento. Isto decorre da aceitação, do convencimento, por parte dos pares cientistas.

Desta forma, o Teorema da Quatro Cores ficou estabelecido (provisoriamente) em 1976 e ficou consolidado em 1996. Foi provado em 2005 (v. figura 3). Deixou de ser uma mera conjectura. Subsistiram todavia algumas questões por esclarecer.

Archivo:Four color world map.svg

Fig. 3- Um mapa político do mundo colorido com quatro cores (repare-se como o oceano fica por colorir, para permitir uma maior aproximação aos postulados do teorema).

O NOVO TEOREMA DAS QUATRO CORES

A aceitação do Teorema e das provas por computador vai criar agitação no seio da comunidade dos matemáticos. Emergem novas questões epistemológicas para as quais não existiam respostas certas. Passam a coexistir novas formas de encarar a matemática.

Ocorre uma aproximação com as ciências naturais pois são colocados em causa quatro postulados da matemática: os teoremas matemáticos são conhecidos a priori; a matemática não possui conteúdo empírico; a matemática baseia-se apenas em provas, enquanto as ciências naturais se apoiam em experiências; os teoremas matemáticos possuem um maior grau de certeza que os das ciências naturais. [14]

Relativamente ao primeiro postulado refere-se ao facto de serem verdades que não são demonstradas através de experiências mas pela razão. O Teorema foi demonstrado através de experiências realizadas por computador, sendo assim uma verdade a posteriori, só verificada, como foi, por outra experiência por computador vinte anos depois.

Esta posição será discutida no seio dos especialistas, mas é aquela que, por colocar problemas mais fortes foi escolhida para ser debatida aqui. A título de exemplo de um especialista que esgrime argumentos com TYMOCZKO veja-se SWART. [15]

Surge assim o que TYMOCZKO chama «o novo Teorema das Quatro Cores». Aceitar o teorema implica modificar o conceito de prova, de modo a que inclua as provas fornecidas por computador.

Este autor chama a atenção para o facto de Appel e Haken terem desenvolvido não uma prova mas um argumento probabilístico sobre o número de configurações redutíveis e acrescentaram-lhe o argumento de que as técnicas necessárias poderiam ser programadas informaticamente.

É assim necessário alterar novamente o conceito de prova para aceitar argumentos probabilísticos que têm a possibilidade de não estarem correctos, passando a estar sempre implícito um possível erro, o que não ocorria com as provas tradicionais, formais. Existiria assim a necessidade da matemática «formal» ter de conviver com a matemática «probabilística».

Estaria então a ocorrer na Matemática o que Khun apelida de mudança de paradigma? Tal entronca em dois obstáculos. O primeiro é a Matemática não ser encarada como uma estrutura dinâmica que se desenvolve no tempo, o que poderia ser esgrimido como estando-se em período de mudança de paradigma. O segundo obstáculo é histórico. Os paradigmas são definidos em termos de desenvolvimento passado, tendo efeitos no desenvolvimento da ciência. Uma coisa é caracterizar um acontecimento como um paradigma com base no seu registo histórico, outra é assumir que um fenómeno recente funcionará como paradigma a partir de dados limitados. [16]

Entretanto, em 1979 um filósofo húngaro, Imre LAKATOS (1922-1974), baseando-se numa abordagem historicista, começa a dar exemplos de provas informais que demonstram intuitivamente as suas conclusões, chama-lhes «experiências conceptuais».

De acordo com este matemático os resultados formais podem ser baseados em provas informais não formalizáveis através da teoria original: são as provas pós – formais, uma classe de provas não definida, pois são verdadeiras numa estrutura mas falsas noutra, sendo igualmente falíveis. Isso acarretaria que um teorema não seria nunca uma verdade inatacável, mas que ainda não se havia encontrado um contra-exemplo. Surgindo este, algo que não pudesse ser explicado recorrendo ao teorema, este era ajustado. Existia assim uma forma contínua de acumulação de conhecimento, através de um processo de provas e refutações. O conhecimento matemático seria baseado na heurística. [17]

Estaria assim a aplicar-se à Matemática a teoria de Hegel da História, do confronto entre tese e antítese surgiria uma síntese que sofreria posteriormente o mesmo processo.

Outro autor não fala de prova mas de «resultado calculado», é reconhecida uma nova forma de fazer matemática, falível, baseada na probabilidade e que recorre a técnicas de difícil verificabilidade mas que são inevitáveis para provas complexas e/ou longas no sentido em que ultrapassam a capacidade de trabalho humana. [18]

Os matemáticos tinham de aprender a lidar com a probabilidade e a incerteza. Tal permitiria aceitar a demonstração do Teorema das Quatro Cores mesmo sem formalizar a linguagem e não havendo verificação total dos dados.

Isto vai de encontro à forma pós – moderna de encarar o mundo, que sustenta que coexistem diversas formas de realizar a mesma coisa desde a arquitectura à matemática. De resto em Filosofia da ciência seguia o que já era sustentado por outros autores[19].

Todavia, caso se aceitasse tacitamente a prova por computador e o relativismo inerente à probabilidade de certeza, ficava uma indefinição: quando é que se podia falar de um conhecimento estabelecido pela Matemática? Deveria esta limitar-se a refutar afirmações incorrectas sendo o património científico apenas aquilo que não se provava falso? Já não existia lugar para provas formais?

A PROVA FORMAL

A prova formal surge por um canadiano francófono perito em linguagens de programação e na verificação formal de programas informáticos. Era à altura investigador sénior da Microsoft Research Cambridge.

A resolução do teorema resume-se em poucos passos. Inicialmente reduz-se um problema de análise infinito a um problema finito de combinatória, construindo um grafo dual do mapa e fazendo apelo a um teorema da lógica proposicional. Pode-se assim construir um mapa de poliedros que respeitam a fórmula de Euler. Seguidamente, estes são transformados em mapas cúbicos em que cada vértice tem um grau (número de arestas que nele se interceptam) correspondente a três, cobrindo cada vértice com um pequeno polígono. Aprendendo com o erro de Kempe evitam-se os pentágonos e procuram-se configurações redutíveis com maior número de lados. A redutibilidade das configurações é inevitável através da aridade média. Procuram-se configurações redutíveis junto a faces cuja aridade média em mais de duas vizinhança é inferior a seis. A criação da média é feita através do descarregamento de fracções de aridades entre faces de acordo com um pequeno conjunto de padrões locais. A prova enumera todos os polígonos nessas condições. [20]

Esta é, em traços gerais, a descrição do trabalho deste informático. Estes passos poderiam ser verificados. A questão da formalização passará pela utilização de uma linguagem própria, a que o investigador chama Coq- Sistema de Prova Formal, baseada numa outra mais complexa. A prova será formalizada nessa linguagem e visualizada através do que o autor apelida de hiper-mapa. O Teorema das quatro cores fica assim cabalmente provado para mapas planos. Procura-se agora aplicar os seus ensinamentos para o provar a superfícies não planares.

Todo o processo é complexo e de difícil compreensão para um leigo em Matemática e programação. O que deve ficar claro é que todos os passos podem ser verificados por um programa diferente. Repare-se que as anteriores demonstrações apoiaram-se em programas próprios e que não podiam ser replicados (figura 4).

Por outro lado, e isso é fundamental numa prova formal, mostra e permite a compreensão de como a prova funciona. Surge assim uma prova formal que pacifica os últimos cépticos. Punha-se fim a um jogo que durou mais de 150 anos!

Digitalizar0001.jpg

Passo 2-3

Passo 5

Passo 8

Passo 6-7

Passo 4

Passo 1

Fig. 4- A digitalização do Teorema das quatro cores no trabalho de Gonthier (figura 3 do trabalho citado).

CONCLUSÕES

As conclusões deste breve trabalho são de duas ordens. Por um lado, conclusões que se denominarão internas, ligadas à natureza da Matemática e da sua evolução; por outro lado, as externas, relativas a Ciência em geral e à forma como a disciplina científica Matemática é encarada.

Relativamente às primeiras há a referir que surgem outras formas de encarar a Matemática, baseadas, por exemplo, na intuição. Esta ganha relevo para entender os processos criativos e até explicativos que não se conseguem formalizar. Isso fica patente na discussão das novas formas de prova. Também os profissionais desta ciência se viram «obrigados» a aceitar as provas por computador sempre que estavam envolvidas grandes quantidades de dados: o que TYMOCZKO considerou polémico é aceite correntemente trinta anos depois. Isto até por uma questão de pragmatismo relativamente ao cálculo manual e à necessidade de apresentar conclusões: uma probabilidade de certeza de 99,9(9)%, pode ser considerada certeza para efeitos práticos. A evolução tecnológica mitiga as questões que se levanta(va)m. Tal como ROBERTSON e a sua equipa argumentavam, por vezes o recurso à informática vem mesmo reduzir as hipóteses de erro. Além disso, surgem também novas áreas em Matemática que só podem ser abordadas através destas técnicas.

No que toca às segundas, relativas à disciplina mas que também a extravasam, referem-se a necessidade de ponderação e discussão antes da aceitação completa de provas. Por vezes e como a história do Teorema das Quatro Cores ilustra, é necessário aceitar provisoriamente um resultado que será posteriormente, com o desenvolvimento da técnica, plenamente demonstrado.

Repare-se que caminham em conjunto máquina, programa e recursos humanos (ensino e difusão e acumulação de saber e saber – fazer). Apenas quando há uma «conjugação feliz» dos três se resolve definitivamente a questão. O Teorema das Quatro Cores contribui decisivamente para que o computador (informática) passasse a ser parte das técnicas científicas, sendo presentemente prática corrente a existência de modelos computacionais nas matemáticas aplicadas e ciências cognatas. Ocorre igualmente uma reformulação da imagem da Matemática que passa a estar mais próxima das ciências naturais, recorrendo a experiências e que aceita a relatividade do conhecimento e a falibilidade das demonstrações. Aceita igualmente provas formais e não formais, sendo uma estrutura que se desenvolve no tempo.

Esta imagem da Matemática não chegou ainda ao grande público onde a disciplina goza de uma reputação de solidez indiscutível: repare-se nas expressões populares: «demonstrar por a + b» ou «precisão matemática» quando se fala de algo cuja certeza não levanta dúvidas.

BIBLIOGRAFIA

K. APPEL; W. HAKEN; J. KOCH; Every planar map is four colorable. Part I. Discharging, ILLINOIS J. MATH., volume 21, 1977, 429-490.

K. APPEL; W. HAKEN; J. KOCH; Every planar map is four colorable. Part II.Reducibility, ILLINOIS J. MATH., volume 21, 1977, 491-567.

J. R. BROWN Philosophy of Mathematics, (Routledge 2008).

G. GONTHIER; Formal Proof-The Four Color Theorem, NOTICES OF THE AMS, Volume 55, Número 11, Dezembro 2008.

I. LAKATOS, Proofs and Refutations, (Cambridge University Press 1976).

O. ORE The four-color problem, (New York: Academic Press 1967).

N. ROBERTSON; D. P. SANDERS; P. SEYMOUR; R. THOMAS; A New Proof of the Four-Colour Theorem; ELECTRONIC RESEARCH ANNOUNCEMENTS OF THE AMERICAN MATHEMATICAL SOCIETY; Volume 2, Número 1, Agosto 1996.

THOMAS TYMOCZKO, The Four-Color Problem and Its Philosophical Significance, THE JOURNAL OF PHILOSOPHY, Vol. 76, No. 2. (Feb., 1979), pp. 57-83.

FONTES DA FIGURAS

FIGURA 1- http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/56/Francis_guthrie.jpg

FIGURA 2- N. ROBERTSON; D. P. SANDERS; P. SEYMOUR; R. THOMAS; A New Proof of the Four-Colour Theorem; ELECTRONIC RESEARCH ANNOUNCEMENTS OF THE AMERICAN MATHEMATICAL SOCIETY; Volume 2, Número 1, Agosto 1996.

FIGURA 3- http://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:Four_color_world_map.svg

FIGURA 4- G. GONTHIER; Formal Proof-The Four Color Theorem, NOTICES OF THE AMS, Volume 55, Número 11, Dezembro 2008.

  1. J.P. MACHADO (coord.) Grande Dicionário da Língua Portuguesa, vol. XI, (Amigos do Livro Editores 1981).
  2. O. ORE The four-color problem, (New York: Academic Press 1967).
  3. Ibid.
  4. Op. cit. em 2.
  5. K. APPEL.; W HAKEN; J. KOCH; Every planar map is four colorable. Part I. Discharging, ILLINOIS J. MATH., volume 21, 1977, 429-490.
  6. Ibid.
  7. K. APPEL; W. HAKEN; J. KOCH; Every planar map is four colorable. Part II.Reducibility, ILLINOIS J. MATH., volume 21, 1977, 491-567.
  8. N. ROBERTSON; D. P. SANDERS; P. SEYMOUR; R. THOMAS; A New Proof of the Four-Colour Theorem; ELECTRONIC RESEARCH ANNOUNCEMENTS OF THE AMERICAN MATHEMATICAL SOCIETY; Volume 2, Número 1, Agosto 1996.
  9. Ibid.
  10. T. TYMOCZKO The Four-Color Problem and Its Philosophical Significance, The Journal of Philosophy, Vol. 76, No. 2. (Feb., 1979), pp. 57-83.
  11. K. APPEL; W. HAKEN; J. KOCH; Every planar map is four colorable. Part II.Reducibility, ILLINOIS J. MATH., volume 21, 1977, 491-567.
  12. Op. cit. em 11.
  13. Op. cit. em 11.
  14. Op. cit. em 11.
  15. E. R. SWART The philosophical implications of the four-color problem, AMERICAN MATHEMATICAL MONTHLY (Mathematical Association of America,1980) 87 (9): 697–702.
  16. Op. cit. em 11.
  17. I. LAKATOS, Proofs and Refutations, (Cambridge University Press 1976).
  18. J. R. BROWN Philosophy of Mathematics, (Routledge 2008).
  19. P. FEYERABEND Against Method, (Verso: 1993).
  20. G. GONTHIER; Formal Proof-The Four Color Theorem, NOTICES OF THE AMS, Volume 55, Número 11, Dezembro 2008.

Edição: Maio 2025

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Em sentido: espaços desportivos e memória, immigration in the usa, choro dos homens na literatura, direitos de seres sencientes, assédio e relações na academia, o engodo da Cocanha, guerra, meio-ambiente e boicote, tectos de rendas, 12 angry men, metaficção em Harvey, Tarantino gasto, Peter Lely e a nobreza inglesa, alcunhas medievais, as mulheres portuguesas.

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Albatrozes — As Enfermeiras Pára-Quedistas na Guerra Colonial

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Também há quem diga que dá azar matar um albatroz. Sempre a superstição! Por isso, das quarenta e seis mulheres enfermeiras pára-quedistas que vão prestar serviço na guerra colonial portuguesa, nas três frentes, durante treze anos, apenas duas perderão a vida, Maria Celeste Ferreira da Costa, na Guiné, ao ser atingida pela hélice de um Dornier 27, quando se prepava para embarcar, e Maria Cristina Justino da Silva, ferida em combate, na região de Mueda, em Moçambique, ambas em missão de evacuação de feridos dos campos de batalha.

Na verdade, as mulheres-albatrozes sabem mover-se de maneira muito eficaz quando voam, e nunca se cansam, ainda que os vôos sejam demorados. Por outro lado, levam nas cabeças as boinas verdes – coroas de serafins e querubins que as «cobrem com o seu manto» e lhes iluminam as decisões, para que se façam «sempre úteis e agradáveis para todos, como flores belas e perfumadas e sem espinhos», providenciando «êxito nos seus trabalhos, projectos e destinos de vida.»

Quanta simbologia está associada às boinas verdes! Quantas fotografias nos mostram militares pára-quedistas regressados de uma operação, «com os rostos marcados pelo cansaço, camuflado sujo, barba de dias, mas usando orgulhosamente a boina verde!»

A enfermeira Ivone foi uma das primeiras enfermeiras pára-quedistas. A guerra colonial na Guiné consta do seu currículo como um torvelinho de cinzas que ela ajudou a transformar em áurea reminiscência.

Foi em 1961 que se instruíram as primeiras mulheres pára-quedistas e, desse primeiro grupo, apenas seis ficaram apuradas. «Naquele tempo era uma audácia extraordinária, em relação às tradições, em relação aos costumes e ao estatuto cultural efectivo das mulheres na vida portuguesa.» Sim, «acho que foi uma bofetada que o Salazar deu a muita gente porque quando o coronel Kaúlza lhe apresentou na reunião de Conselho a proposta para admitirem enfermeiras, num concurso de páraquedismo para acudir aos feridos de guerra, os outros desataram logo a dizer – isso é utópico! Salazar calou-se, não disse nada, nem sim nem sopas. Quando saíram da reunião, chegou-se ao pé do Kaúlza e disse-lhe: venha cá que eu preciso de discutir aí uma coisa consigo e chamou-o lá para o gabinete: mostre aí essa proposta que apresentou lá dentro. E acrescentou: avance.»

Em Tancos, foram fazer o curso. Os exercícios físicos não eram tão intensos quanto os dos homens, mas, realizavam a totalidade da instrução, «desde o arnês, ao salto da torre, aos rolamentos, porque nessa altura o páraquedismo ainda não era tão seguro, a instrução da dobragem do pára-quedas e como se trabalhava com o pára- quedas no ar, fazer face a maus funcionamentos do material, foi feito exactamente como o dos homens, e responderam perfeitamente.»

É muito interessante verificar que, só em 1992, mais de trinta anos depois, é que as mulheres vão poder voltar a ingressar nas Forças Armadas em Portugal!

É deveras envolvente também escutar os depoimentos:

«- O mais marcante foi o primeiro salto. Todo aquele barulho dentro do avião e depois a gente encontrar-se naquele silêncio absoluto, que é maravilhoso… é uma coisa maravilhosa, é única!»

«- Na Guiné achei que aquilo era muito difícil, havia guerra por todos os sítios.»

– «Enquanto que a gente estava lá, naquele sofrimento, notava que aqui havia uma indiferença, só se incomodavam com a guerra aquelas pessoas que tinham lá familiares.»

«- Assim que a gente levantava a cabeça um bocadinho, as balas assobiavam e eles só me diziam: minha alferes, baixe a cabeça!»

«- Será que eu tenho os conhecimentos suficientes para poder fazer tudo aquilo que deve ser feito e não me vou enganar em nada? Depois chegava lá, e a estupidez desaparecia.»

«- Havia muito stress, toda a gente andava muito stressada, os ataques eram muitos na Guiné, a Guiné era uma província muito atacada, era uma guerra mesmo, mesmo acesa, e havia dias em que saíam as aeronaves todas, e todo o pessoal que prestava assistência saía para as evacuações.»

«- Durante oito dias não apaguei a luz do quarto, não a conseguia apagar, tinha aquela imagem, sempre.»

«- Eu acho que fiquei diferente, acho que sim, fiquei diferente.»

«- Demos um passo bastante grande em relação à emancipação da mulher.»

«- Eu sentia-me bem porque aquilo para mim era uma sensação maravilhosa, ir buscar feridos, trazê-los e tratá-los. Eu era feliz e foi formidável. Adorei a vida que eu tive, a minha vida profissional como pára-quedista foi algo que eu iria novamente enfrentar.»

«- Chorávamos com as outras pessoas, com os familiares, cá. Eu chorava com eles, aquela dor.»

«- Para mim o mais chocante era ir reconhecer os pára-quedistas mortos, esfacelados, rebentados.»

«- O que mais me custava era ver chegar, constantemente, companheiros mutilados, jovens que ficavam sem pernas e sem braços, com a vida transformada para sempre. Ou pior ainda: os que chegavam sem vida, que trazíamos de helicóptero para o Hospital Militar de Bissau.»

«- Muitas pessoas que hoje estão vivas podem agradecer às enfermeiras pára- quedistas e aos pilotos.»

«- Quando a gente salvava alguém era uma felicidade!»

«- A gente tem mais capacidade do que aquela que pensa ter.»

«- Recuperavam-se os feridos todos. Os feridos, mesmo os do inimigo, que eram tratados exactamente como os nossos.»

«- Em situações de enorme tristeza rezávamos a Deus e a Nossa Senhora, por aqueles que tratávamos. Quem nunca fez a guerra não sabe o que é a oração.»

É nos últimos anos de guerra colonial, que as enfermeiras pára-quedistas exercem funções mais activas, precisamente na Guiné-Bissau, por ser o território em que a luta armada é mais violenta.

A violência, com a sua boca de monstro, em forma de porta misteriosa, abre-se e fecha-se ininterruptamente. De cada vez que se abre, a ciência dos encaixes e dos entalhes aplica a sua lógica – engolir as presas. De cada vez que se fecha, mastiga as presas, saliva e arrota. Apesar disso, a violência observada e vivenciada pelas mulheres pára-quedistas, mesmo sendo truculenta, não conseguia penetrar-lhes dentro do Vverão que as habitava. Elas tinham um regaço redondo, onde não cabiam cômoros,

nem silvados, ou domínios políticos, ou… qualquer outra coisa. Elas cantavam com as suas vozes de moças e a sua ideia era só uma – não há menstruação que impeça as mulheres de se transmudarem em militares e voarem, como os albatrozes. Elas são elas, com a sua coragem e o seu medo o, misturados, estruturalmente misturados e sensorialmente gravados no lenço que lhes limpa o suor do pescoço.

Sim, há quem diga, que dá azar matar um albatroz. Falham as tentativas, quase sempre, e ainda bem. As asas deles que são as asas delas, têm poemas inscritos, poemas heteronicamente pessoanos. Um mistério, que as protege, um escudo de ranger os dentes de noite, um bruxismo que nunca pára de procurar o sentido da vida. Claro que o sentido da vida é um reportório antagónico ao sentido da guerra. O reportório do sentido da guerra é uma personagem cega que caminha pelo bosque adentro, cheio de objectivos concretos, enquanto que o sentido da vida utiliza um guião aberto e, de certa maneira, inclui muitos improvisos.

As mulheres pára-quedistas simbolizam o sagrado desse sentido da vida, com a sua natureza delicada. A sua atitude no cenário de guerra é mansa, altruísta, clemente e maternal. O desafio é socorrer, sem grande hesitação. A única questão que as aflige faz-se notar na frase-questão de uma canção dos Moonspell: «então é este o estilo de morte exemplar sobre o qual me falaste? E queres a minha semente nessa canção de cisne fatal?»

Sobre o ciclo anual de atividades rurais e comunitárias em uma vila medieval portuguesa

“No começo do inverno, quando se inicia o ano litúrgico, preparando o Natal com o tempo introdutório do Advento, os homens e as mulheres recolhem-se em casa e ocupam-se das tarefas domésticas, que asseguram o funcionamento da produção familiar. Efetivamente, no Santo André (30/Nov), terminada já a engorda, substituem-se, se é preciso, os encarregados dos porcos. Provavelmente faz-se, pouco depois, o grande ritual doméstico da matança e salga-se a carne, que fornece um importante meio de alimentação, na altura em que os frutos da terra são poucos. No Natal mudam-se os hortelãos, o que permite provavelmente recolher frutos secos, e reorganizar a administração dos quintais e das capoeiras. Depois da festa do Sol invicto, vem o longo inverno, com a redução das atividades públicas e o consumo dos alimentos acumulados no outono. Quando os dias começam lentamente a crescer, aumentando a renovação do ciclo vegetativo, e renasce a esperança de ver aparecer a primavera, prepara-se também a reorganização da comunidade, mudando os alcaldes e os aportelados do concelho no dia de Nossa Senhora das Candeias (2/Fev). Os novos magistrados iniciarão as suas funções com vigor novo, mas os chefes de família devem vigiá-los atentamente durante os dias de inverno que ainda continuam, para não perturbarem a vida da comunidade com inovações excessivas. Em Março começam as obras no castelo, preparando-o para os ataques mouros que raramente faltavam no período quente. Quem nele trabalha são os peões e os lavradores, roubando algum tempo às atividades agrícolas, que nesta época não são ainda muito intensas, mas prolongando as obras e a vigilância das muralhas por todo o verão quando elas vão ficando cada vez mais pesadas. Não sabemos se o começo da Quaresma dá lugar a festividades populares do género do Carnaval. Mas a intensificação progressiva da vida pública e comunitária e a contenção que a liturgia impõe, com o seu ambiente austero, têm o seu paralelo na vida civil, com a redução da atividade judicial. Adiam-se para depois da Páscoa os processos de crime, e despacham-se apenas os que resultam de prejuízos nos prados, vinhas, moinhos, azenhas, etc. É preciso guardar e cuidar dos instrumentos de produção na época crucial da germinação primaveril. E se a energia que então se apossa das pessoas dá lugar a abusos, convém, talvez, esperar que o tempo apazigue os ânimos para julgar os processos pendentes, ou confiar no ambiente de pacificação que a primavera traz consigo. A renovação da natureza celebra-se com a grande festividade da Páscoa, a partir da qual se começam também as lavras dos terrenos em pousio ou as “póvoas” nos montes. Desde a Páscoa até ao São Miguel (29/Set) proíbe-se a caça ao coelho, para deixar crescer as crias e permitir a renovação das reservas animais, nas matas e nas charnecas. Em Maio, iniciam-se as expedições de pilhagens na fronteira, que se prolongarão até Agosto. Entretanto, os peões e os jugueiros dedicam-se aos trabalhos da sacha e da monda ou levam o gado a pastar ao monte. Pelo São João (24/Jun) mudam os pastores. Como, por esta altura, deve começar a escassear o cereal entregue aos moleiros para moer, aumenta a proporção da maquia que eles cobram (de 1/16, passa a 1/12), mantendo-se assim até ao São Miguel (29/Set). Nesta data pode também começar a vender-se o vinho produzido no concelho. O solstício é, portanto, marcado por mudanças importantes, que as festas populares não deixariam de acentuar. Pouco depois, no São Pedro (29/Jun), podia começar a vender-se lenha no açougue, e no princípio de Julho dava-se o gado de parceria, renovando-se assim os acordos para a organização dos rebanhos, que em breve deviam partir para as pastagens de verão. Estas não seriam, talvez, demasiado longínquas: podiam dirigir-se à Serra da Estrela ou à de Montemuro, ou, então, aos montes das Astúrias [adaptado do Foral da Vila de Alfaiates, atenção]. No São Cristóvão (10/Jul) começavam a reunir-se semanalmente, às terças-feiras, as parcerias dos moinhos e das azenhas, decerto para vigiar as reparações a fazer nos engenhos, eventualmente estragados pelas águas do inverno e da primavera. Entretanto, continuavam as expedições na fronteira, e vigiava-se atentamente no castelo e nas atalaias, para correr ao apelido se se aproximavam os ginetes mouros, e proteger o gado e as searas. Em Agosto, intensificando-se a vigilância das searas e chegando o tempo de ceifa, reduz-se novamente, como durante a Quaresma, a atividade judicial. Os jugueiros que têm de se ocupar das colheitas entregam os bois a alguém por sua conta e confiam o trabalho da eira (trilho) às mulheres. A partir do fim do mês, cessam ou diminuem as azarias e os fossados, afrouxa a vigilância no castelo, preparam-se as sementeiras do outono. No São Cipriano (14/Set) havia um feriado judicial, e os ferreiros entregavam as relhas dos arados novos que tinham feito, para com elas lavrarem a terra antes das sementeiras. Pelo São Miguel (29/Set) tabela-se o preço do mosto do vinho, diminui a maquia dos cereais cobrada pelo moleiro e pode recomeçar a caça ao coelho. Dispondo já de cereal novo, podia semear-se o trigo e o centeio em outubro. No São Martinho (11/Nov) cessavam os trabalhos de reparação no castelo e regressavam os rebanhos das pastagens longínquas, pois nessa altura deviam entrar in extremo. Com os rebanhos, recolhem-se também os homens e as mulheres a suas casas, passando a dedicar-se mais às atividades domésticas para, em consonância com a natureza, adotarem os seus ritmos mais lentos e ocultos.”

 – “Identificação de um País”, de José Mattoso.

Edição: Abril 2025

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Governo sombra: novidades tecnológicas na educação, mudança de sexo como fraude médica, autogestão da sogantal, metafísica do amor, racionalidade como sobrevivência, o que os outros vêem em nós, ano da física quântica, procissão de abril como celebração datada, Portugal medieval, artes visuais, os limites da ciência, cinema italiano e art of the deal.

ENSAIO

Novas realidades tecnológicas na Educação

Sobre o impacto das novas tecnologias na educação, destacando como ferramentas como realidade aumentada, inteligência artificial e plataformas digitais estão a transformar o ensino, promovendo experiências de aprendizagem mais interativas e personalizadas.

The Biological Reality of Sex and the Limits of “Sex Change” Interventions: A Historical, Scientific, and Ethical Analysis

On whether the idea of “sex change” is a medical fraud: sex goes beyond genitalia and hormones, and currently there is no know scientific technique that can change it, as the complex process that forms sexual identity, starting in the womb, is neither replicable nor reversible.

Da Reivindicação à Autogestão: uma Análise do Caso da Fábrica Sogantal no Período Revolucionário de 1974

Uma análise do caso da fábrica Sogantal, a partir do Jornal Combate e do Jornal da Sogantal, no contexto do período revolucionário português do final do século XX.

Prolegómenos a uma Metafísica Do Amor

Exploração de uma metafísica do amor, analisando o eros como força unificadora e transgressora, com base em Bataille e textos clássicos. Examina-se o amor-paixão, sua relação com a morte e a necessidade de confissão para compreendê-lo, destacando sua natureza enigmática.

Os clássicos.

CRÓNICA

As características que os outros veem em nós e que não reconhecemos: máscara social ou falta de autopercepção?

Serão as características que os outros percepcionam de nós um reflexo de uma dimensão que não percebemos, ou representam apenas um papel que desempenhamos, moldado pelo contexto e pelas expectativas sociais, uma máscara?

A racionalidade: de mecanismo básico de sobrevivência a faculdade de pensamento

Sobre como a racionalidade é um mecanismo básico de sobrevivência que os humanos aplicam a uma vastíssima gama de situações, muitas das quais não têm a ver com a sobrevivência, mas resultam de fatores culturais.

Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica

A UNESCO declarou o ano de 2025 como Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica. Foi uma ideia feliz: a Física Quântica mudou definitiva e radicalmente as nossas vidas, e faz todo o sentido assinalar este 100º aniversário.

As Festividades do 25 de Abril: Uma Reflexão Crítica sobre o Legado da Revolução

Anualmente, uma procissão da burguesia intelectual de esquerda, advinda de toda a área metropolitana de Lisboa, já sem apoio relevante das antigas classes operárias, e à qual a maioria da população local de Lisboa é alheia, celebra um golpe de estado com cinquenta anos que já diz pouco à maioria dos portugueses.

As matemáticas.

ARTES VISUAIS

A Palavra e a Imagem em diálogos (im)pertinentes

Pinturas de Inês Almeida da Gama. A palavra/imagem, o mote desta reflexão, versa sobre dois modos de ver: o visível e o ilegível, procurando estabelecer um diálogo pertinente ou, impertinente, no processo construtivo plástico entre a palavra e a imagem.

As filosofias.

RUBRICA

Sobre a Casa da Guarda dos Augustos Primeiros Reis de Portugal

Sobre a Casa da Guarda dos primeiros reis de Portugal, excerto de A Guerra Cristã na Formação de Portugal – 1128- 1249, de Carlos Filipe Afonso.

Sobre o costumeiro pão de cada dia do Português Medieval, um estudo de caso

Sobre o costumeiro pão de cada dia do Português Medieval, um estudo de caso — excerto de À mesa nas terras de Alcobaça em Finais da Idade Média, de Iria Gonçalves.

Os monstros.

CRÍTICA

Reflexões sobre o Sentido da Vida no Cinema Italiano Contemporâneo

Análise de filmes do cinema italiano contemporâneo que exploram o sentido da vida, abordando temas como espiritualidade, relações humanas e crises existenciais com narrativas profundas e esteticamente ricas.

Crítica: Limites da Ciência, Jorge Calado, FFMS, 2021

Jorge Calado analisa os limites da ciência, destacando questões éticas, políticas e financeiras. Explora fraudes, financiamento e catástrofes, atualizando o livro com reflexões sobre a COVID-19. Uma crítica à descredibilização da ciência.

As estatísticas.

Crítica: The Art of the Deal, Donald Trump, 1987

Written in 1987, at the inaugural peak of its popularity as a real estate tycoon, The Art of the Deal was initially thought of as an autobiography. But early on, ghostwriter Tony Schwartz realized that Trump’s mental way is not given to reflections on the past, tending only to the absolutization of the present.

Os funnnies (sobre tecnologias e ideias).

Busto de Livia Drusilla (58 AC–29 AD), terceira esposa do imperador Augusto, difusora em larga escala da sua própria imagem como ícone de poder e estatuto, estando também associada ao patronato e ao incentivo de expressões artísticas, literárias e culturais da época.

Peter Lely: Galeria de Retratos da Nobresa Inglesa do séc. XVII

Peter Lely (1618–1680) foi um pintor holandês que se tornou o principal retratista na Inglaterra durante o século XVII, especialmente conhecido por seu trabalho na corte de Carlos II. Nascido Pieter van der Faes em Soest, Westfália, ele treinou em Haarlem antes de se mudar para Londres no início da década de 1640, onde ganhou fama por seus retratos elegantes e vibrantes. Suas obras mais notáveis incluem a série “Windsor Beauties”, que retrata damas proeminentes da corte da Restauração, destacando sua habilidade em capturar opulência e personalidade.

Galeria

I – Elizabeth, Condessa de Grammont.

II – Mulher desconhecida, mas certamente da Nobreza.

III – Catherine Sedley, Condessa de Dorchester.

IV – Anne Hyde, Duquesa de York.

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I – Sua Majestade Britânica Jaime II, aqui Duque de York.

II – Sir Jeremiah Smith.

III – Sua Majestade Britânica Carlos II.

IV – Sir Thomas Clifford.

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I – Anne Digny, Condessa de Sunderland.

II – outra de Anne Hyde, Duquesa de York.

III – Barbara Vilmers, Duquesa de Cleveland [e amante de Carlos II].

IV – Anna Maria Brudenell, Condessa de Shrewsbury.

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I – Sua Majestade Britânica Carlos II, a cavalo.

II – Sua Majestade Britânica Catarina de Bragança.

III – Thomas Osborne, Duque de Leeds.

IV – Almirante Teddiman.

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I – Louise de Keroualle, Duquesa de Portsmouth.

II – outra de Barbara Villers, Duquesa de Cleveland.

III – Margaret Brooke, Senhora de Denham.

IV – Diana Kirke, Condessa de Oxford.

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I – Sir Henry Blount.

II – Diane Russel, Senhora de Newport.

III – Elizabeth Capell, Condessa de Carnarvon.

IV – Lady Elisabeth Murray.

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I – Sir Henry Brouncker, Vinconde de Brouncker.

II – James Butler, Duque de Ormond.

III – James Butler, Conde de Ossory.

IV – outra de Sua Majestade Britânica Carlos II.

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I – Elizabeth Wriothesley, Condessa da Nortúmbria.

II – outra da dita Senhora Condessa.

III – outra da dita Senhora Condessa.

IV – Elizabeth Fitzgerald, Condessa de Kildare.

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I – Sir Charles Killigrew.

II – Sir Christopher Myngs.

III – Sir William Compton.

IV – Mary Bagot, Condessa de Falmouth e Dorset.

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I – Judith Pelham, Condessa de Feversham.

II – Lady Frances Bard.

III – Sir Cornelis Tromp.

IV – Sir Abraham Cowley.

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I – Frances Teresa Stuart.

II – Gertrude, Marquesa de Halifax.

III – Elizabeth Hamilton.

IV – Lady Henrietta Hyde.

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I – Edward Montagu, Conde de Sandwich.

II – Almirante Sir John Lawson.

III – Frescheville Holles e Robert Holmes.

IV – Vice-Almirante Sir William Berkeley.

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I – Mulher desconhecida, mas seguramente da Nobreza.

II – Margaret Hughes.

III – Lady Mary Fane.

IV – Diana, Condessa de Ailesbury.

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I – Sir George Monk.

II – George Morley.

III – Barão Thomas Grosvenor.

IV – Louise Renée de Pennancoet de Kéroualle.

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I – Sua Majestade Britânica [embora usurpadora] Maria II.

II – Pessoa desconhecida.

III – Mary Capel, Duquesa de Beaufort, e sua irmã Elizabeth, Condessa de Carnarvon.

IV – Pessoa desconhecida.

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I – Sir John Harman.

II – John Graham of Claverhouse, Visconde de Dundee.

III – John Maitland, Duque de Lauderdale.

IV – John Wilmot, Conde de Rochester.

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I – a mesma última pessoa desconhecida.

II – uma Pastora desconhecida.

III – Margaret Cavendish, Duquesa de Newcastle.

IV – Lady Mary Davis.

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I – Maria de Modena, Duquesa de York.

II – Jane Needham, Senhora de Myddleton.

III – Sir Moll Davis.

IV – Bartholomew Beale.

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I – George Monck, Duque de Albemarle.

II – Lady Elizabeth Grimston.

III – Lady Penelope Spencer.

IV – Lady Anne Monson.

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I – James Scott, Duque de Monmouth.

II – John Wilmot, Conde de Rochester.

III – Henry Jermyn, Conde de Saint Albans.

IV – Lady Mary Wilson.

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I – Lady Anna Maria Brudenell, Condessa de Shrewsbury.

II – Lady Essex Rich, Condessa de Winchilsea.

III – Mary Ashe, Viscondessa de Townshend.

IV – Lady Mary Parsons.

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I – Sir Charles Brune of Athelhampton.

II – Almirante Sir George Ayscue.

III – Almirante Sir William Penn.

IV – George Monck, Duque de Albemarle.

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I – Sir Jeremiah Smith.

II – Sir Richard Legh.

III – Sir Hugh Acland.

IV – Sir Ralph Banks.

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I – Nell Gwynne, amante de Carlos II.

II – Elizabeth Noel, Viscondessa de Campden.

III – Lady Diana Sidney.

IV – Eleanor Needham, Senhora de Byron.

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Duarte Nunes de Leão sobre as mulheres Portuguesas

Duarte Nunes de Leão, no séc. XVI, escreveu um capítulo na sua “Descripçam do Reyno de Portugal” sobre as mulheres Portuguesas. Passo para aqui, porque julguei muito bonito de se ler. 

“Fazendo Nuno Fernandes de Teive, Capitão de Safim (que foi um valoroso homem) uma entrada em terra de mouros, foi tomado em uma cidade e morto ele e os mais fronteiros e moradores da cidade que foi novo caso para Portugueses que naqueles tempos felizes d´El-Rei D. Manuel traziam os Mouros muito apertados. E vendo os Mouros que a cidade havia de ficar só, determinaram de ir a ela, e tentaram de a escalar, dando-lhe alguns assaltos. Pelo que as mulheres sabendo que os maridos eram mortos e o perigo em que elas estavam de suas vidas e honras, acudiram aos muros e torres com as cabeças armadas ou cobertas, e com as lanças arvoradas fingindo que eram homens: e com este estratagema os mouros parecendo-lhes que a cidade estava acompanhada de gente, se foram, e elas começaram a chorar seus maridos. No tempo que Suleimão Paxá general da armada do turco veio a por cerco à Fortaleza de Diu de que António da Silveira era Capitão, sendo os Portugueses somente seiscentos, e os janiçaros muitos mil, além de catorze mil homens escolhidos com que Alicão e Coje Sofar os vieram ajudar, com a continuação dos combates e força dos basiliscos e grossa e imunerável artilharia que traziam, foram-se os Portugueses diminuindo muito com os mortos e feridos e doentes de uma doença nunca vista, e os muros se arruinavam tanto, que repartida a gente a pelejar e em tirar a terra dos muros que se derribavam, para os refazer não havia gente para uma cousa e outra. Pelo que uma mulher Nobre per nome Isabel da Veiga, casada com um homem Fidalgo da Ilha da Madeira em idade ainda moça e mui gentil mulher, mas de grande autoridade e valor, vendo aquele comum perigo e o trabalho que aqueles homens passavam em acarretar a terra per que deixavam de pelejar, e que aquele ofício de acarretar era cousa para que tanto podiam homens como mulheres, e que fazendo-o elas os homens não deixariam de fazer o ofício das armas para defesa de todos, fez uma fala a todas as mulheres que na fortaleza estavam, pondo-lhes diante o perigo e a necessidade em que eram postas, e o trabalho que aqueles homens padeciam em cujos braços consistia sua honra e defesa: e lhes persuadiu que elas fizessem aquele ofício que mulheres podiam fazer: e ela primeiro veio com sua alcofa a trabalhar e cada uma das mais veio com a sua, e os homens todos tomaram as armas. O que foi grande ajuda para aquela fortaleza se defender. No outro grande cerco que os turcos com El-Rei de Cambaia puseram à mesma Fortaleza de Diu, sendo Capitão D. João Mascarenhas, em outra tal necessidade de as mulheres todas acarretarem madeira para o reparo do muro que os mouros desfaziam com sua artilharia, andando entre eles uma mulher honrada e casada per nome Isabel Madeira, veio um tiro de bombarda que perante seus olhos lhe despedaçou seu marido que ela em extremo amava, e de que tinha quatro filhos. A qual não somente não lançou lágrima alguma por ele perseverando no ofício em que andava, mas repreendia às outras mulheres que a vinham consolar, dizendo-lhes que trabalhassem e não deixassem o ofício que faziam, que seu marido morrera honrado por seu Deus e por seu Rei, e que tão honrados morressem seus filhos. O qual dito e feito se podia contar entre aqueles que se escrevem das Lacedemónias. Na Cidade de Lisboa uma dona viúva nobre que vivia à porta de Santa Catarina vendo levar preso um seu sobrinho per morte de um homem, e que o levavam maltratado saiu à rua com presteza a rogar ao Alcaide que o não levasse assim desonestamente, porque era homem Fidalgo. O Alcaide pondo-lhe as mãos a afastou de si. Pelo que ela indignada daquele desacato se arremessou a ele e lhe arrancou da cinta a espada que levava, e com ela lhe deu uma cutilada em um ombro e outra pela cabeça do que ajudava a levar o preso: por o que o sobrinho se desenvolveu e solto com uma alabarda que tomou a um dos ministros se salvou com ajuda da tia que o fez valorosamente contra os ministros da justiça e gente que lhes acudiu. Na Cidade de Lagos, do Reino do Algarve, chegando uma mulher de um homem principal a sua janela, alta noite viu que três homens andavam às cutiladas com um seu filho moço de vinte anos ao qual já tinham mal ferido. A mãe tomando uma lança saiu à rua para acudir a seu filho e de maneira se houve com os três, que quando um escravo e um moço seus acudiram à briga tinha ela já feridos dous deles de duas grandes lançadas perque lhes foi necessário deixar a briga. Um homem honrado em Lisboa sendo acometido de quatro ladrões que andavam a tomar capas, lhe tomaram a capa, e o chapéu, e indo ele a sua casa a armar-se para os ir buscar sua mulher lhe fechou a porta e não consentiu sair salvo se a levasse consigo: e coberta com uma capa e com uma espada e rodela o acompanhou. Eles acharam os quatro e se houveram de maneira que os ladrões fugiram deixando duas capas, um sombreiro e um casco e uma espada e algum sangue na rua. […] Uma donzela moça de pouca idade per nome Dona Guiomar que com seu pai o doutor Pero Nunes, cosmógrafo-mor d´El-Rei estava em Coimbra. Esta tendo-lhe prometido um filho de um cidadão seu vizinho que casaria com ela e não cumprindo a sua promessa o mandou citar perante o Bispo da mesma cidade que as perguntas lhe quis fazer na Igreja de S. João. E negando o mancebo a promessa que fizera, ela de improviso lançou mão a um canivete de um estojo que consigo trazia per seus lavores e lhe deu uma grande cutilada pelo rosto. Feito isto se volveu ao altar pedindo perdão a Deus e depois ao Bispo. O qual a mandou depositar até ver o que se havia de fazer no caso. E porque ela soube que todos parentes e amigos do ofendido e muita gente armada com eles estavam na Ponte do Mondego per onde suspeitavam que ela passasse per o Mosteiro de Santa Clara onde seu pai a queria meter freira, ela com grande ânimo se mandou levar às costas de um trabalhador escondida em uma grande canastra em que levava pera o dito Mosteiro de Santa Clara cera e cousas pera o ofício da Semana Santa, animando ao que a levava que não temesse que Deus a quem ia servir os guardaria. E assi foi entre aqueles tantos homens armados ao Mosteiro onde as freiras que já tinham recado a esperavam com grande alvoroço: e aí está hoje freira professa. No Concelho de Regalados na freguesia de S. Miguel havia uma donzela gentil mulher e de muitas boas partes outras per nome Margarida de Abreu, filha de um Cristóvão Rebelo de Abreu homem nobre com a qual desejando casar um homem que não era seu igual em geração, mas homens de boas partes e criado d´El-Rei se gabou que era casado com ela parecendo-lhe que com aquela intenção o poderia vir a ser. Vindo isto à notícia dela que do caso era inocente se teve por mui afrontada. Pelo que ao seguinte Domingo em que ela costumava ir à Igreja acompanhada de uma sua irmã a que deu conta do caso que passara e do que havia de passar, em per passando do lugar em que aquele homem se assentava com uma faca que na mão levava amolada, lhe deu algumas cutiladas. E sendo pelo sacrilégio do ferimento que cometeu na Igreja condenada que estivesse um Domingo na mesma Igreja enquanto a missa durava em corpo com uma vela acesa na mão, ela foi a isso vestida ricamente como quem triunfava do que fizera. No qual auto pareceu a todos que a viram mais formosa do que antes era (…)”.

Há muitos outros casos narrados.

O Engodo da Cocanha

O mito de uma terra onde o vinho jorra das fontes, onde comida e bens estão à disposição de todos, onde o trabalho é desnecessário, o conforto e o bem-estar estão garantidos, assim como a eterna felicidade assente no prazer sem fim; … essa terra é Cocanha. Estamos no eterno caminho dessa terra mitológica que políticos e governantes invocam inconscientemente, brandindo-a em sua ideia como um engodo para obter suporte à sua governança.

Figura – Oskar Herrfurth (1862-1934) – séries de seis postais

Arthur Schopenhauer não foi de todo um filosofo politico, porém, a sua linha de pensamento nesse campo repercute-se em um pequeno texto sobre o titulo “A Politica”.

“O Estado não é mais do que o açaimo cujo fim é tornar inofensivo esse animal carnívoro que é o homem, e dar-lhe o aspecto de um herbívoro.” (A Politica, A. Schopenhauer)

Por mais crua que esta prosa possa parecer, no nosso intimo mais profundo, sabemos que não esteja longe da realidade o sentido regulador do Estado como garante da ordem. Em um mundo de conforto com todas as necessidades básicas realizadas e mais ainda, teremos o discurso da razão e da humanidade, sabendo, porém, que na escassez e sofrimento, não há razão que se imponha ao instinto de sobreviver. Na dor, na fome, no caos em geral, colocamos o “eu” e os nossos em primeiro lugar, destruindo qualquer nuance de igualdade, fraternidade e liberdade imposta. O Homem selvático volta a revelar-se, pois;

“Se caíssem os grilhões e as cadeias da ordem legal, se a anarquia rebentasse, ver-se-ia então o que é o homem.” (A Politica, A. Schopenhauer)

Em pleno sec. XXI já não devemos ter duvidas do que tem sido o Homem, para o bem e para o mal. Olhar o percurso do Homem pelo mundo, nas variadíssimas culturas que criou, nações, impérios, guerras, massacres, avanços e recuos cívicos, e analisar sem preconceitos ideológicos a natureza humana. Segurar essa análise para a projectar na nossa actualidade e antever sobre consequências, comportamentos no futuro. Talvez esse seja o passo que nos falta enquanto Homem, para percebermos que o bom governo da Pólis não é uma questão de linha ideológica, mas sim de perceber o Homem e aceita-lo como é na sua mediocridade e grandeza. Só depois desse passo, só depois de aceitar e reconhecer os indivíduos como frutos de determinado território e cultura, é que haverá condições para estabelecer um Estado coeso e próspero. Sendo este processo sempre activo ao longo das gerações, pois os símbolos da cultura e do território devem ser cuidados e perpetuados sob pena de enfraquecerem, dividir e colocar em causa a coesão do Estado como figura de governo de uma nação, cujo o povo é elo da sua matéria e espirito.

Posto isto, impõe-se como primeira questão perguntarmo-nos a nós mesmos; devemos obedecer ao Estado(?). Da minha parte a resposta é clara, Sim. Mas não para nos tornarmos herbívoros ruminantes em um Estado aglutinante que nos quer dependentes da sua auréola. O Estado tem como principal objectivo proporcionar que cada cidadão possa encontrar “a vida boa”, de forma a que cada um possa florescer como melhor lhe apraz. Porém, essa “vida boa” não está garantida e só pode ser justa se for proporcional ao esforço e responsabilidade de cada um, sendo que para tal é imperativo os deveres de cada cidadão estarem hierarquicamente posicionados sobre os seus direitos. Desta forma haverá a constatação que a equidade entre cidadãos é fundamental para que se gere distribuição social, não por imposição estatal, mas por decisão solidária individual de cada cidadão.

A segunda questão que nos deve fazer reflectir é; como deve governar esse Estado(?).

“A organização da sociedade humana oscila como um pêndulo entre dois extremos, dois polos, dois males opostos: o despotismo e a anarquia.” (A Politica, A. Schopenhauer)

Na régua governativa entre a anarquia e o despotismo, seja ele de que pendor for, o Homem está condenado a deambular entre o caos e a tirania. E em ambos tem acesso ao estado mais medíocre do Homem. Aqui, A. Schopenhauer tende a apontar um Estado tendencionalmente mais do lado déspota do que do lado anarquista, pois a ordem social deve imperar sob pena do Estado desmoronar na desordem.

Aparecerão utópicos com formulações de Estados com governos perfeitos, onde o maná estatal é garantido em quantidade e para todos de igual forma, e se assim não for taxa-se quem mais tem por esforço próprio. Porém, o Homem é cru, mesmo que tal um dia fosse possível, logo apareceria um conjunto de indivíduos para se aproveitar, usurpar e destruir essa ténue harmonia. É isto que Schopenhaur nos deixa bem claro nos seguintes parágrafos.

“Em toda a parte e em todo o tempo, tem havido grande descontentamento contra os governos, as leis e as instituições públicas; é o resultado de estarem sempre dispostas a torna-los responsáveis da miséria inseparáveis da existência humana, pois tem por origem, segundo o mito, a maldição que feriu Adão e com ele toda a raça humana. Contudo, nunca essa tendência injusta foi explorada de um modo mais mentiroso do que pelos nossos demagogos contemporâneos. Estes de facto, por ódio ao cristianismo, proclamam-se optimistas: aos seus olhos, o mundo não tem fim algum fora de si mesmo, e, pela sua natureza, parece-lhes organizado na perfeição, uma verdadeira mansão da felicidade. É aos governos somente que atribuem as misérias colossais do mundo que bandam contra esta teoria; parece-lhes que se os governos fizessem o seu dever, o céu existiria na terra, isto é, todos os homens poderiam sem trabalho e sem cuidados comer e beber à farta, propagar-se e morrer: porque isto é o que eles entendem quando falam do progresso infinito da humanidade, de que fazem o fim da vida e do mundo, e que não se cansam de anunciar com frases pomposas e enfáticas” (A Politica, A. Schopenhauer)

“A raça humana é uma vez por todas e por natureza votada ao sofrimento e à ruina; embora fosse possível com o auxilio da Estado e da história remediar a injustiça e a miséria ao ponto da terra se tornar uma espécie de pais de Cocanha, os homens chegariam a disputar por aborrecimento, precipitar-se-iam uns sobre os outros, ou então o excesso de população resultaria em fome e esta destrui-los-ia.” (A Politica, A. Schopenhauer)

Um Estado implica uma agregação de indivíduos (elo), em um determinado território (matéria), com uma determinada cultura comum (espirito), aqui matéria e espirito, garantem conjuntamente a coesão desses indivíduos que consequentemente alicerçam o Estado pois o elo-matéria-espirito, são a própria ideia de povo. Se por alguma causa se dissolve, enfraquece o todo ou parte dessa tríade, o Estado fragiliza podendo mesmo colapsar.

“Querem planos utópicos: a única solução do problema politico e social seria o despotismo dos sábios e dos nobres, duma aristocracia pura e verdadeira, obtida por meio de geração, pela união dos homens de sentimentos altamente generosos com as mulheres mais inteligentes e finas. Esta proposta é a minha utopia e a minha Republica de Platão” (A Politica, A. Schopenhauer)

Talvez não nos reste mesmo hipótese de voltar à raiz da idealizada governança da Pólis, se queremos dar continuidade à matriz civilizacional europeia, repensemos “A República de Platão”. Uma nova reflexão de Estado e Governo tem de ter como base antes demais a psique do povo da nação a que se presta e compreender assim a tríade do elo matéria-espirito.

Sob pena de aqui estar a apregoar uma nova ideia de Cocanha, apenas peço espirito livre para reflectir sobre um Estado além de ideologias politicas, assente em valores próprios da sua nação-cultura e com um sentido pragmático e de rápida adaptação às circunstancias internas e externas, que permita os seus cidadãos florescer. Uma República de cidadãos cientes dos seus deveres para com a mesma. Se Aristóteles nos dizia que a duvida era o primeiro passo para a sabedoria, compartilh-se algumas duvidas/questões sobre três temas fundamentais, deixando o desafio de soluções/respostas ou o acréscimo de mais duvidas/questões. Acima e tudo uma reflexão sobre o contexto politico em que vivemos e se fará sentido continuar a sustentá-lo.

DEMOCRACIA – A Injustiça de um Homem um Voto

  • Haverá justiça onde o voto de cada Homem tem o mesmo valor?
  • Porque haverá o voto de um Homem que cumpre a lei e paga os seus devidos impostos, ter o mesmo valor que de um outro Homem que não cumpre a lei e/ou não paga impostos?
  • Não deveria o voto de cada cidadão ter mais valor mediante uma ponderação(?) entre:
      • o seu conhecimento (político, económico, histórico, etc)
      • o seu contributo em impostos bem como tempo contributivo
      • o seu contributo em regime de voluntariado na sociedade

Assim, para cada cidadão, o seu voto valeria tanto ou mais quanto mais alta fosse a sua qualificação relativamente a conhecimento (políticos, económicos, históricos, etc), impostos pagos, trabalho voluntario realizado.

  • E se para votar fosse imprescindível a emancipação do cidadão e ter pelo menos o tempo de uma legislatura de contribuição com impostos?
  • E se quem é judicialmente condenado por não cumprir leis fundamentais ou lesar o Estado, fosse considerado inapto para votar?
  • Devemos estreitar o “direito ao voto” e valorizar mais este a quem tem mais competências e contribui mais para a sociedade? (Talvez assim estejamos mais perto de pensar uma sofocracia do sec. XXI ou epistocracia como mais recentemente apelidada. Que fique vincada a ideia que o acto de votar não é um direito nem um dever, mas sim uma responsabilidade.)

GOVERNANTES – Governam os melhores e os mais aptos

  • Que sentido há em sermos governados por indivíduos, que não sendo os mais capazes e mais aptos, conseguem ascender ao poder pela maior influencia e favores que alcançam dentro de determinado partido?
  • Fará sentido sermos governados por lideres de partidos que nada mais querem do que alcançar o poder e testar as suas teorias ideológicas de uma forma cega, muitas delas que já falharam vezes sem conta em outras geografias?
  • Que prosperidade poderá haver em um estado, onde os governantes fizeram apenas carreira nos órgãos internos dos partidos, sem qualquer noção da vida real do “chão de fábrica”?
  • E se o Governo estivesse restrito apenas aos melhores na sua área, aqueles que já demonstraram saber gerir, administrar, coordenar, liderar com conduta ética, etc.?
  • E se em vez de partidos votássemos em estratégias de desenvolvimento e prosperidade para todos, assentes em estudos científicos imparciais e não em demagogia/populismo?

EDUCAÇÃO – Instrução, cultura, civismo e actividade física

  • Que melhor povo poderá haver em uma República se não um que é constantemente desafiado para a actividade intelectual e física?
  • Que tipo de Estado se desenvolve em um sistema educativo onde professores são parciais ideologicamente, burocratas arraigados ao sistema de ensino, sem qualquer experiencia de vida fora da academia?
  • Não deveria o estado promover que os seus cidadãos participassem em sessões culturais, debates, formações dos temas que mais apraz a cada individuo, e por tal, em caso de bom aproveitamento poderiam ter benesses fiscais? (povo culto, maior cidadania, mais prosperidade).
  • Não deveriam os órgãos culturais e desportivos do estado estarem sempre abertos e disponíveis para os cidadãos que contribuem?
  • Não deveriam todos os cidadãos anualmente ser chamados para simulacros militares ou catástrofes naturais?
  • Não deveria haver obrigatoriedade de serviço militar e/ou voluntariado social? (a disciplina e os deveres para com a Republica, são imprescindíveis para a convivência entre as diferentes classes e estruturantes para o civismo)

Muitas outras questões poderiam ser levantadas e tantos outros temas abordados, não obstante que fique aqui a ressonância para não nos acomodarmos ao actual sistema politico como o mais alto tecto civilizacional. Nem tão pouco reflitamos em outros sistemas como utopias, pois não é esse o intento, o que aqui tentei explanar, él a busca de um Estado que Governe pelo pragmatismo, pelos factos, pelo conhecimento cientifico imparcial, sem deixar de parte os campos da psique-espirito do Homem. Seja reflectida uma Republica sem Utopia, assente na realidade, onde o povo é o seu ponto central.

“Os Utópicos, por outro lado, nada aceitam. Estão demasiadamente preocupados com o que devia ser, para prestarem qualquer atenção séria ao que é. A realidade exterior desgosta-os, o sonho compensador é o universo em que vivem. O assunto das suas meditações não é o Homem, mas sim um monstro de racionalidade e virtude – de uma racionalidade e virtude, nesse aspecto, só deles” (“Os organizadores e os utopistas; Aldous Huxley)

Algumas alcunhas obscuras e cómicas na Idade Média Portuguesa


o Abala Matos
o Águas Tintas
o Alcança Lobos
Alimpa Boca
Alma Daninha
Amarga-lhe Água
o Anão
Anojo
Apanha Frio
o Arranha Portas
o Baboso
o Barba Alva
o Barba Boa
Barba de Alho
Barba de Leite
Barba de Ouro
Barba de Pele
Barba de Sacho
Barba Feita
Barba Forte
Barba Leda
Barba Meia
Barba Rasa
Barba Redonda
Barba Roita
Barba Rufa
Barba Torta
o Barbas d’Ouro
Barbas de Porco
Barbas de Rei
o Barbirruivo
o Barriga Ancha
o Bate Cabelos
o Bate Velhas
o Bate Vias
Bebe Água
Bebe-lh’Água
o Beiçudo
Beiçolas
Beição
o Bem Falante
Bem lhe Quero
Bem lhe Fará
Bem me Praz
o Bexigoso
o Bico de Bulhefre
Boa Mulher
Boca d’Égua
Boca de Sapo
Boca de Testo
o Boca Doce
o Bofes de Bagaço
o Bolinho de Massa
o Bom Colhão
o Bom Corpo
o Bom Pecador
o Bota Fogo
o Brita Calçadas
o Brita Campos
o Brita Montes
o Brita Osso
o Burlão
o Busca Arruído
o Cabaçudo
o Cabeça de Alface
o Cabeça de Ferro
o Cabeça de Finado
o Cabeça de Galego
o Cabeça de Moura
o Cabeça de Ovo
o Cabeça de Pulgas
o Cabeçorro
o Caga Lã
o Caga Landes
o Caga na Cadeia
o Caga na Relva
o Caga no Cesto
o Caga por Si
o Cagão
o Caralho
o Caralho de Gato
o Caralho de Lobo
o Caralho Folgado
o Caralho Podre
o Caralhote
o Carne Azeda
o Carne de Pega
o Carne Gorda
Caro Custa
o Carunchoso
o Cerra Bodes
o Cerra Portas
o Chamuscado
o Cheira Dinheiro
o Cheir’á Vinho
o Chora Ovos
o Chora Cascas
o Colhão
o Colhão de Bode
o Colhão de Velha
o Colo de Ouro
o Colo de Prata
o Conde da Asneira
o Cor de Cevada
o Cornichones
o Cornudo
o Corpo Grande
o Corpo Santo
o Corre Cavalos
o Corre em Chão
o Corre Vilas
o Corta Cepos
o Corta Largo
o Degolado
o Dentaça
o Desbarbado
o Cuzinho
o Desmiolado
o Despido
o Deus Ajuda
o Deus das Ovelhas
Deus o Deu
o Diabrês
o Dormideiro
o Enforca Judeus
o Engana Galegos
o Entulho
o Esfola Cabras
o Estraga Azeite
o Esturgido
o Falporrinho
o Fanado
o Fato Largo
o Faz Nada
o Faz Tudo
Fé Que Deve a Deus
o Felpudo
o Filho da Mãe
o Focinhões
o Forçadinho
o Fura Buchos
o Fura Capas
o Fura Cascas
o Fura Montes
o Gala Padrastos
o Grande Pele
o Gorgomilo
o Guarda Vacas
o Hajamo-lo com Deus
o Homem Novo
o Jantar Feito
o Lucifer
o Má Cara
a Maiorzinha
o Mal Abunda
o Mal Anda
o Mal Busca
o Mal Degolado
o Mal Dorme
o Mal Lavado
o Mal Mija
o Mal Paga
o Mal Pedaço
o Mal Penteado
o Maleitinhas
o Manco
o Manhas Boas
o Manteigado
o Mão Inchada
o Mãos Alvas
o Mãos Boas
Mãos de Águia
o Maravilha
o Mata Cavalos
o Mata Filhos
o Mata Lobos
o Mata Mouros
o Mata Peixes
o Mata Piolhos
o Melhor que Assemelha
o Merda Seca
o Mira Pés
o Mofino
o Montanha Negra
a Morta de Frio
o Morto por Andar
o Morto por ser Rico
o Muchacho
o Nádega
o Neto de Deus
o Olhar de Mancebo
o Olhicovo
o Olho Bom
o Olho de Cabra
o Olho de Pata
o Paga Mal
o Palha no Cu
o Papa Gatos
o Papa Leite
o Pé de Ferro
o Pé de Lado
o Pé de Pata
o Pé de Pau
o Pé Polinho
o Peito e Meio
o Perna Bela
o Perna Britada
o Perna d’Aço
o Perna de Cavaleiro
o Perna de Cítola
o Pés Leves
o Pestilença
o Pica Ferro
o Pica Milho
o Pica Mós
o Pica na Calça
o Pica Pedra
o Pica na Jarra
o Pica P*tas
o Pica Sino
o Pica Vilãs
o Pincha-lhe o Bago
o Piçalho
o Porcalhão
o Porta Cerrada
o Pouca Roupa
o Pouco Sangue
o Pouco Tutano
o Quadril de Pega
o Que se Preza
o Que Vem
o Queima Casas
o Quinhentas Barbas
o Rabão
o Rabo de Asno
o Rabo de Boi
o Rabo de Carneiro
o Rabo de Gato
o Rabo de Porco
o Rabudo
o Rasca Velhas
o Rei dos Cães
o Ramelado
o Reza Mudo
o Rico de Ventre
o Rolão
o Rubicundo
o Seca Forno
o Sai-lhe a Pele
o Salta Regueiras
o Sarrabulho
o Segue a Ninhada
o Sem Mãos
o Sem Sabor
o Sem Mal
o Sem Barbas
o Sem Vinho
o Separa Corpos
o Talha Vinho
o Testa Branca
o Tira Mantéis
o Tripas Quentes
o Troca Burros
o Urinaça
o Urinas
o Verga Tesa
o Vergasco
o Ventura Boa
o Zorro
o Zaralho

O Papel dos Espaços Desportivos Enquanto Repositórios de Memórias

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Introdução:

Os espaços desportivos são capazes de transcender a sua materialidade e imobilidade para serem constituídos enquanto repositórios da memória coletiva, na medida em que podem ser tidos em conta como mais do que simples instalações destinadas à prática ou à exibição de desportos. Assim sendo podemos referir-nos aos estádios, pavilhões e outros recintos, enquanto “lugares de memória”[1], como propôs Pierre Nora, uma vez que nestes convergem dimensões materiais, simbólicas e funcionais, que, por sua vez, sustentam a construção identitária de comunidades inteiras, neste caso, de massas adeptas.

No contexto desportivo, o património imaterial manifesta-se nestes espaços através das narrativas neles partilhadas, sejam estas os rituais coletivos, ou os conhecimentos transmitidos entre gerações, que, por sua vez, promovem práticas culturais[2]. Deste modo, os espaços desportivos podem ser vistos como um “factor de aproximação, intercâmbio e entendimento entre os seres humanos”[3], na medida em que fomentam estes três princípios. É possível referir que os espaços desportivos promovem: a aproximação, uma vez que funcionam enquanto pontos de encontro, onde pessoas de diferentes origens sociais se reúnem com um propósito em comum; o intercâmbio, porque existe a troca de experiências, conhecimentos e emoções entre adeptos; e entendimento, na medida em que pode ser construída a mediação de conflitos através de valores comuns[4].

O presente ensaio propõe-se a analisar o papel dos espaços desportivos enquanto locais privilegiados para a construção, preservação e transmissão da memória coletiva. Assim sendo, pretendo refletir sobre o modo como estes espaços funcionam enquanto verdadeiros elos entre passado e presente, entre o material e o imaterial, entre a prática desportiva e a construção cultural de identidades, temas estes que suscitam importantes questões sobre a preservação deste património. De modo a tornar esta reflexão mais concisa, abordarei o caso do Estádio do Restelo, devido à dimensão da sua história.

Breve Enquadramento Teórico:

Segundo a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, desenvolvida pela UNESCO, o património imaterial está interligado com: (…) “práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões — bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados — que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural”[5].

É necessário, portanto, referir a importância que o património material exibe para que seja possível conservar o património imaterial, uma vez que os objetos/espaços podem transportar em si inúmeras memórias[6]. Assim sendo, opto por me focar nos espaços culturais, neste caso, nos espaços desportivos, tendo-os em conta enquanto “lugares de memória” [7], seguindo a perspetiva de Pierre Nora. Estes apresentam-se enquanto elementos importantíssimos para a compreensão do Estádio do Restelo, uma vez que se estabelecem enquanto espaços que possuem um significado especial para uma comunidade, trabalhando enquanto pontos de referência para a memória coletiva[8].

Os Espaços Desportivos Enquanto Repositórios da Memória Coletiva:

Aquando da sua inauguração, sobre uma antiga pedreira, no dia 23 de setembro de 1956, o Estádio do Restelo estabeleceu-se enquanto um verdadeiro monumento, que contou com o reconhecimento de milhares de associados de todas as classes, e dos mais vários cantos do mundo, afirmando que sem eles a vivência deste momento não seria possível[9], na medida em que muitos destes reforçaram monetariamente o Clube de Futebol “Os Belenenses” através de um contributo financeiro voluntário, que superou os 34 mil contos, na altura[10].

Neste espaço, presente na paisagem ocidental de Lisboa, em Belém, celebraram-se muitas conquistas desportivas, fator esse que levou o Belenenses a obter importantes condecorações, por exemplo, “Comendador da Ordem Militar de Cristo e Oficial da Ordem de Benemerência”, tornando este clube numa Instituição de Utilidade Pública[11]. Esta obra, conduzida pelos arquitetos Carlos Manuel Oliveira Ramos e Jorge Manuel Teixeira Viana, influenciou a mudança da cidade quando foi inaugurada, uma vez que delimitava o fim da cidade. Esta funciona enquanto um marco geográfico que teve uma enorme importância para o crescimento da zona de Belém, sendo ainda hoje um bem inestimável ao serviço de Lisboa[12]. Nas palavras de Acácio Costa: (…) “Um sonho belo que se transforma em realidade… Francamente, às vezes parece-me que sonho ainda!…”[13]

É possível, seguindo a frase acima citada, transmitir a ideia de que os espaços desportivos são, de facto, verdadeiros repositórios de memória, do ponto de vista imaterial, através da associação do espaço à nostalgia e ao afeto. No entanto, ao visitar o Estádio do Restelo, também me deparei com um depósito de memórias mais físico, tangível. Refiro-me aos bustos de Vicente[14] e Matateu[15] (fig.1) e ao relevo de José Manuel Soares «Pepe»[16] (fig. 2), presentes no muro à entrada do estádio. Estes, ao representarem figuras importantes da história do clube de Belém, transportam-nos à imaterialidade, contando e eternizando as memórias em torno de estes importantes “fenómenos”, proporcionaram a esta instituição, fabricando o seu legado histórico.

Assim sendo, é certo afirmar que o Estádio do Restelo funciona enquanto um “lugar de memória”, na medida em que, como referido inicialmente, converge em si as dimensões materiais, simbólicas e funcionais, que, por sua vez, sustentam a construção identitária de comunidades inteiras, neste caso, das suas massas adeptas. O espaço desportivo do Clube de Futebol “Os Belenenses” caracteriza-se enquanto um “lugar de memória” uma vez que é utilizado tanto pelas suas dimensões materiais, através das referências físicas ao seu passado, quanto pelas suas dimensões simbólicas, através das suas estórias, do afeto e da nostalgia associados ao espaço; e também pela sua dimensão funcional, na medida em que este é visitado e frequentado para prática desportiva e para a observação da mesma.

Práticas de Transmissão e Salvaguarda:

Segundo Ramshaw, o reconhecimento de uma “casa”, no contexto desportivo, oferece à comunidade que a engloba não apenas um ponto de orgulho cívico, mas também um destino às gerações futuras, que aí a preservam através do seu gosto pelo desporto[17]. Este envolvimento é também aquilo que vai salvaguardar o património em torno do espaço desportivo, na medida em que este se estabelece através dos contactos entre familiares e/ou amigos, de geração em geração[18]. Nesta medida, é possível afirmar que a partilha das histórias acerca dos tempos áureos do Belenenses, através da utilização de referências orais e da construção de monumentos em torno dos “ídolos” do clube, como é o caso dos já referidos Vicente e Matateu, é tida enquanto uma das principais práticas de transmissão e salvaguarda deste património. Estas partilhas podem ser realizadas tanto através do relato oral, com os avôs a transmitirem aos netos feitos do passado, como recordações suas de partidas às quais assistiram, quanto através da visita ao espaço desportivo. Ainda assim, outro fator que, com certeza vai ajudar a manter estas “lendas” vivas é a venda de merchandising (figs. 6 e 7) que contenha alusões ao passado da instituição, uma vez que, a nostalgia, o afeto e a empatia se estabelecem enquanto elementos preponderantes para a preservação patrimonial[19].

Reflexão e Conclusão:

Segundo Bromberger, os espaços desportivos (estádios) são elementos de exaltação ao sentimento de pertença em comunidade[20]. É através dele que se transmite o amor ao clube, e é nele que são construídas memórias, como, por exemplo, a primeira partida assistida com a companhia de um familiar, a celebração de uma vitória histórica, ou simplesmente o sentimento de conforto e de afeto que se tem ao frequentar o mesmo lugar durante anos. É possível referir, portanto, que os espaços desportivos transcendem a sua funcionalidade primária e que se compõem enquanto elementos fundamentais à manutenção de uma identidade clubística e de uma comunidade local, neste caso a identidade Belenense, pertencente à comunidade de Belém.

Em suma, é possível afirmar que, de certo modo, é graças aos monumentos desportivos, neste caso, referindo-me ao Estádio do Restelo, o qual se estabelece como um derradeiro “Estádio-Museu”[21], que estas estórias serão preservadas, memorizadas e transmitidas às futuras gerações, preservando o património desta instituição. Assim sendo, os espaços desportivos são, enquanto “lugares de memória”, um caso de estudo fascinante para a compreensão das comunidades que os rodeiam, na medida em que nos podem transmitir a memória coletiva das mesmas, através de uma contínua negociação entre gerações passadas e futuras, entre as respetivas permanência e transformação.

Concluindo, é possível afirmar que os espaços desportivos não se estabelecem enquanto meros locais de prática desportiva. No caso do Estádio do Restelo, é justo tê-lo em conta enquanto um verdadeiro repositório da identidade coletiva de Belém, na medida em que surge enquanto um espaço de diálogo intergeracional, onde as memórias são depositadas, preservadas e reinventadas. O caso do Clube de Futebol “Os Belenenses” ilustra perfeitamente de que modo os “lugares de memória” acabam por contribuir para que se construa um sentimento de pertença, o qual é estruturante para a preservação patrimonial da identidade e das memórias coletivas de Belém enquanto um todo.

Figuras:


Figura 1 – Bustos de Vicente e Matateu.

Uma imagem com Escultura em pedra, Cara humana, estátua, Artefacto

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Figura 2 – Relevo de “Pepe”.

Uma imagem com chão, ar livre, texto, pedra arredondada

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Figura 3 – Placa de homenagem a Vicente.


Figura 4 – Placa de homenagem a Vicente.


Figura 5 – Placa de homenagem a “Pepe”

Uma imagem com vestuário, T-shirt atlética, T-shirt, parte de cima

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Figura 6 – Merchandising alusivo a fotografias históricas.

Bibliografia:

BROMBERGER, Christian (1995). Le Match de football: Ethnologie d’une passion partisane à Marseille, Naples et Turin. Paris: Édition de la MSH.

Fontal, O. (2020). Cómo Educar En El Patrimonio – Guia práctica para el desarrollo de actividades de educación patrimonial. Comunidad de Madrid.

Iber museos (2015). VI Encuentro Nacional de Patrimonio: lugares de la memória. Mincultura. Disponível em: https://www.ibermuseos.org/pt/recursos/noticias/vi-encontro-nacional-do-patrimonio-lugares-de-memoria/#:~:text=Um%20lugar%20de%20mem%C3%B3ria%20pode%20ser%20definido,sua%20verdade%20simb%C3%B3lica%20e%20sua%20realidade%20hist%C3%B3rica. Consultado a 17-04-2025.

NORA, Pierre (2008). Los Lugares De La Memoria. Ediciones TRILCE. Disponível em: https://archive.org/details/nora-pierre.-los-lugares-de-la-memoria-ocr-2008/page/1/mode/1up. Consultado no dia 16-04-2025.

RAMSHAW, Gregory; GAMMON, Sean (2005). More than just Nostalgia? Exploring the Heritage/Sport Tourism Nexus. Journal of Tourism, 10(4), pp. 229-241.

RAMSHAW, Gregory. (2021) Sport Heritage. Clemson University. DOI: 10.4324/9780367766924-RESS38-1.

ROSA, Acácio. FACTOS, NOMES E NÚMEROS da História do CLUBE DE FUTEBOL «OS BELENENSES». Tipografia SFFF (C.R.L). 1.ª Parte. Livro cedido pela atual direção do Clube de Futebol «Os Belenenses».

SILVA, Rui; Macedo, Edgar; Tibério, João (2021). Estádio do Restelo – A História do Estádio. Camisa Azul – Revista Autónoma de Cultura Belenenses.

UNESCO (2003). Convenção Para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

  1. (NORA, 2008).
  2. Neste contexto, as “práticas culturais” a que me refiro são: comportamentos, tradições ou costumes que se desenvolvem em torno dos espaços desportivos. Estas podem estar relacionadas a claques (cânticos, coreografias, celebrações…); tradições pré e pós-jogo (trocas de galhardetes, encontros tradicionais em cafés/restaurantes…); linguagem própria (uso de expressões que só fazem sentido para os membros de uma determinada comunidade…); práticas comemorativas (maneiras específicas de celebrar vitórias, homenagear figuras históricas…); entre outros aspetos.
  3. (UNESCO, 2003, p.2).
  4. A mediação de conflitos através de valores comuns pode ser registada, por exemplo, através do entendimento em torno da importância do “terceiro tempo”. Esta tradição, que consiste num convívio pós-jogo entre equipas rivais, é muito utilizada em modalidades como o rugby enquanto um mecanismo integrador e de resolução de tensões que possam ter surgido durante a partida.
  5. (UNESCO, 2003, p. 3).
  6. É importante estabelecer um paralelismo entre a religião e o desporto. Quando falamos de festividades religiosas, é natural que associemos conceitos e memórias aos edifícios religiosos, por exemplo. No caso do desporto, é também natural que sejam associados momentos, memórias e histórias aos espaços desportivos. Existe, deste modo, uma conexão entre o material e o imaterial, através da nostalgia e do afeto.
  7. (NORA, 2008).
  8. (IBER MUSEOS, 2015).
  9. (ROSA, 1984).
  10. (SILVA, 2021).
  11. (ROSA, 1984).
  12. (SILVA, 2021, p 3).
  13. (Ibidem, 2021, p.20).
  14. Através da placa que o homenageia (fig.3), é possível observar que Vicente é visto enquanto uma referência para todos os adeptos do Belenenses, sendo considerado o “eterno capitão”. Disputou 317 jogos ao serviço do clube do Restelo, vencendo a Taça de Portugal de 1960. Foi também um dos primeiros jogadores de origem africana a jogar ao serviço da Seleção Nacional Portuguesa, juntamente com o seu irmão Matateu. É graças a si que existe a expressão tradicional “Corta, Vicente!”, na gíria desportiva.
  15. Através da placa que o homenageia (fig. 4), podemos observar que Matateu é considerado o maior ídolo da História do Belenenses. Foi o “artilheiro” do campeonato nacional nas épocas de 1952/53 e 1954/55. Jogou 291 jogos ao serviço do clube do Restelo e conquistou a Taça de Portugal de 1960, no decorrer dos mesmos. Foi também um dos primeiros jogadores de origem africana a jogar ao serviço da Seleção Nacional Portuguesa, juntamente com o seu irmão Vicente.
  16. Através da placa que o homenageia (fig.5), podemos observar que “Pepe” estabeleceu-se enquanto um “ídolo” não apenas pelos adeptos do Belenenses, mas também pelos aficionados da seleção portuguesa. Foi um atleta admirado por todos os amantes de desporto da sua altura, tendo sido uma figura exemplar, de dedicação e esforço, que perdeu a sua vida abruptamente, com 23 anos, vítima de envenenamento. Este monumento foi construído em sua homenagem por subscrição pública nacional, e oferecido pelos clubes portugueses ao Belenenses, num verdadeiro ato de diplomacia e amizade.
  17. (RAMSHAW, 2005).
  18. (RAMSHAW, 2021).
  19. (FONTAL, 2020).
  20. (BROMBERGER, 1995).
  21. (SILVA, 2021, p. 74).

Military, Geographical, and Cultural Differences Between the Vietnam and Iraq Wars: An American Perspective

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The Vietnam War (1955–1975) and the Iraq War (2003–2011) stand as pivotal moments in American military history, each defined by distinct strategic, operational, and environmental contexts. While both conflicts involved the United States in protracted counterinsurgency and nation-building efforts, they differed significantly in military approaches, technological capabilities, logistical frameworks, geographical settings, and cultural dynamics. These differences shaped not only the experiences of American soldiers but also the public’s perception of the wars. Here we briefly explore these distinctions from the American perspective, emphasizing how each factor influenced the conduct, soldier experience, and societal views of these conflicts.

Military Differences: Strategy and Doctrine

The Vietnam War was a prolonged counterinsurgency against the Viet Cong and North Vietnamese Army (NVA), rooted in a strategy of attrition. Large-scale search-and-destroy missions, such as Operations Cedar Falls and Junction City, aimed to eliminate enemy forces through overwhelming firepower. However, the enemy’s guerrilla tactics—leveraging mobility, local support, and evasion—frustrated conventional approaches. The draft-based conscription system produced a large but often unmotivated force, with short, one-year tours disrupting unit cohesion and local knowledge. This approach struggled to achieve strategic success, as political and cultural complexities undermined military gains.

In contrast, the Iraq War began with a conventional “shock and awe” invasion in 2003, using rapid, precise strikes to topple Saddam Hussein’s regime. The post-invasion phase shifted to counterinsurgency against diverse insurgent groups, including Al-Qaeda in Iraq and sectarian militias. The 2007 “surge” adopted a population-centric approach, as outlined in the Counterinsurgency Field Manual (FM 3-24), prioritizing civilian security and local governance. Fought by an all-volunteer, professional force, Iraq saw better-trained troops, though repeated deployments strained morale. The shift from Vietnam’s attrition to Iraq’s adaptive strategy reflects doctrinal evolution, though both wars struggled to translate military efforts into political stability.

Technological Differences: From Analog to Digital Warfare

Technological disparities between the wars transformed American operations. In Vietnam, the U.S. relied on technologies like the F-4 Phantom, B-52 Stratofortress, and UH-1 Huey helicopter for airstrikes, mobility, and evacuation. Targeting was imprecise, relying on visual identification or basic sensors, often causing significant civilian casualties. Ground forces used M16 rifles and analog radios, vulnerable to interception and environmental interference. Limited real-time intelligence hindered operations in Vietnam’s dense terrain, where the enemy exploited natural cover.

By the Iraq War, digital technologies revolutionized warfare. Precision-guided munitions (PGMs), such as GPS-guided JDAMs, enabled accurate airstrikes, reducing collateral damage. Unmanned aerial vehicles (UAVs) like the MQ-1 Predator provided real-time surveillance and strikes. Ground troops benefited from advanced body armor, night-vision goggles, and networked systems like Blue Force Tracker, enhancing coordination. M1 Abrams tanks and Bradley Fighting Vehicles dominated urban and desert combat. While these advancements gave U.S. forces an edge, insurgents’ low-tech improvised explosive devices (IEDs) exposed the limits of high-tech solutions in asymmetric warfare.

Logistical Differences: Supply Chains and Infrastructure

Logistics in Vietnam faced the challenge of sustaining a massive force in a tropical, underdeveloped region. Supplies shipped across the Pacific to ports like Da Nang were distributed via air, river, or poor road networks. Jungle terrain and monsoons complicated transportation, with convoys vulnerable to ambushes. Extensive bases like Long Binh stored vast materiel, but corruption and black-market theft disrupted distribution. Airlifts via C-130s and helicopters were critical but strained by the volume of supplies, including 700,000 tons of bombs annually.

In Iraq, a desert environment with better infrastructure facilitated logistics. Prepositioned equipment in Kuwait and Qatar supported the 2003 invasion, while modern supply chains used commercial firms and automated tracking. Ground convoys, though targeted by IEDs, leveraged road networks. Bases like Camp Victory relied on contractors like Halliburton for food, maintenance, and fuel, unlike Vietnam’s military-dominated logistics. Technological advancements improved efficiency, but contractor reliance introduced cost and accountability issues. Vietnam’s logistics were constrained by geography, while Iraq’s focused on securing supply lines in a hostile, urbanized setting.

Geographical Differences: Terrain and Operational Challenges

The geographical settings of Vietnam and Iraq profoundly influenced military operations and soldier experiences. Vietnam’s dense jungles, swamps, and rice paddies created a challenging environment for American forces. The tropical climate, with heavy monsoons, exacerbated physical hardships, causing equipment malfunctions and diseases like malaria. The terrain favored the Viet Cong’s guerrilla tactics, allowing them to disappear into jungles or tunnel networks. Soldiers faced constant threats from ambushes, booby traps, and snipers, contributing to psychological stress and a sense of disorientation. The unfamiliar landscape, far removed from American urban or rural settings, reinforced a perception of Vietnam as an alien, hostile world, both for troops and the public.

Iraq’s arid deserts, urban centers, and flat terrain presented a stark contrast. The open landscape facilitated mechanized warfare during the 2003 invasion, with tanks and armored vehicles dominating. However, urban areas like Baghdad and Fallujah became focal points for insurgency, where close-quarters combat and IEDs posed significant risks. The extreme heat, often exceeding 120°F, tested soldiers’ endurance, though modern equipment like air-conditioned vehicles mitigated some discomfort. Unlike Vietnam’s isolating jungles, Iraq’s urban settings allowed greater interaction with civilians, complicating operations due to the need to distinguish combatants from non-combatants. For soldiers, Iraq’s environment felt more familiar due to its urban elements, but the constant threat of IEDs and suicide bombings heightened anxiety.

Public perception was shaped by these geographies. Vietnam’s jungles, depicted in media as impenetrable and foreboding, fueled a narrative of an unwinnable war in a distant, exotic land. Iraq’s urban and desert imagery, broadcast in real-time via embedded journalists, brought the war closer to home, emphasizing its immediacy and human toll. The visibility of Iraq’s urban destruction contrasted with Vietnam’s remote battlefields, influencing public debates over intervention and occupation.

Cultural Differences: Local Dynamics and Soldier Interactions

Cultural contexts in Vietnam and Iraq significantly affected soldier experiences and public views. In Vietnam, American troops operated in a predominantly Buddhist, agrarian society with a strong nationalist tradition. The cultural gap was vast; language barriers and unfamiliar customs hindered interactions with South Vietnamese allies and civilians. The Viet Cong’s integration into rural communities made it difficult to distinguish friend from foe, fostering mistrust. Soldiers often viewed locals with suspicion, and incidents like the My Lai massacre damaged U.S. credibility. The cultural disconnect, combined with the draft’s diverse, often poorly trained troops, led to dehumanizing attitudes toward the Vietnamese, reflected in slang like “gooks.” At home, the public’s growing awareness of cultural insensitivity and civilian casualties fueled anti-war sentiment, amplified by iconic images like the “Napalm Girl.”

In Iraq, the U.S. encountered a complex, multi-ethnic society divided among Sunni, Shia, and Kurdish groups, with Islam as a unifying but contentious factor. Cultural training improved compared to Vietnam, with soldiers receiving briefings on Iraqi customs and religious sensitivities. However, early missteps, such as the mishandling of religious sites or aggressive house searches, alienated locals. The counterinsurgency doctrine emphasized cultural engagement, with troops working alongside Iraqi forces and tribal leaders during the surge. Yet, the urban setting and sectarian violence complicated trust-building, as soldiers faced suicide bombings and betrayal. The all-volunteer force, more professional than Vietnam’s, showed greater cultural awareness, but stress from prolonged deployments led to occasional misconduct, like the Abu Ghraib scandal, which shocked the public.

Public perception of Iraq was shaped by real-time media coverage and cultural controversies. Unlike Vietnam, where cultural issues emerged gradually, Iraq’s cultural missteps were immediately scrutinized, amplifying criticism of U.S. policy. The perception of Iraq as a religiously charged conflict, compared to Vietnam’s ideological Cold War framing, heightened domestic debates over intervention in the Muslim world, influencing support for the war.

General Physical Settings: Impact on Soldiers and Public Views

The physical settings of Vietnam and Iraq shaped soldiers’ daily lives and public narratives. In Vietnam, troops endured primitive conditions in jungle outposts, with limited access to comforts. Monsoons, heat, and insects compounded physical exhaustion, while the lack of clear frontlines created a pervasive sense of danger. Base camps offered some respite, but even these were vulnerable to rocket attacks. The physical toll—evident in high rates of combat stress and disease—contributed to soldiers’ alienation, mirrored by a public increasingly skeptical of a war fought in a distant, inhospitable land.

Iraq’s physical setting, with modern FOBs equipped with gyms, internet, and dining facilities, offered better living conditions, reflecting logistical advancements. However, the urban and desert environment brought unique stressors: constant IED threats, urban combat, and extreme heat. Soldiers’ repeated tours, unlike Vietnam’s one-year rotations, led to cumulative psychological strain, with post-traumatic stress disorder (PTSD) rates rising. The public, exposed to vivid imagery of urban warfare and soldier life via media, developed a more immediate, empathetic view of troops’ sacrifices, though this coexisted with growing war fatigue.

And Finally

The Vietnam and Iraq wars, viewed through the American lens, reveal a complex interplay of military, technological, logistical, geographical, and cultural factors that shaped their conduct and legacy. Vietnam’s attrition-based strategy, analog technology, and jungle logistics contrasted with Iraq’s adaptive counterinsurgency, digital warfare, and desert supply chains. Geographically, Vietnam’s alien terrain isolated soldiers and fueled public disillusionment, while Iraq’s urban setting brought the war’s immediacy home. Culturally, Vietnam’s disconnects deepened mistrust, while Iraq’s complex dynamics demanded nuanced engagement, with missteps amplifying criticism. The physical settings—Vietnam’s harsh jungles versus Iraq’s modern bases—further differentiated soldier experiences and public perceptions. Together, these elements underscore the evolution of American warfare and the persistent challenge of aligning military power with political and cultural realities. As the U.S. reflects on these conflicts, their lessons illuminate the need for holistic strategies that account for environment, culture, and societal impacts in future engagements.

A História e o Funcionamento Técnico das Horas Temporais

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Atualmente, vivemos num mundo onde o tempo é uniformemente medido, com cada hora a representar exatamente o mesmo intervalo. Contudo, nem sempre foi assim. Durante um período significativo da história, o tempo era ajustado às variações naturais do dia e da noite. Este sistema, designado por horas temporais, dividia o dia em 12 partes de luz e 12 partes de escuridão, cuja duração variava ao longo do ano, refletindo o ciclo das estações e respeitando os ritmos da natureza.

Wadokei de bolso

Origem das Horas Temporais

O conceito de horas temporais remonta ao Egito Antigo, quando a observação dos astros desempenhava um papel essencial na organização do tempo.

Os egípcios desenvolveram um calendário civil com 12 meses de 30 dias e adicionaram cinco dias suplementares para alinhar o ciclo anual com o movimento solar. A medição do tempo foi inicialmente baseada nos decanos, constelações que surgiam ciclicamente no horizonte durante a noite. Cada período de 10 dias era marcado pelo aparecimento de um decano específico, até que 12 decanos podiam ser vistos sucessivamente durante a noite. Este método levou à divisão da noite em 12 partes iguais, adaptando-se posteriormente à divisão do dia em 12 partes equivalentes.

Deste modo, as horas temporais não eram fixas; a duração das horas de luz e escuridão variava consoante a estação do ano. Durante o verão, as horas diurnas tornavam-se mais longas e as noturnas mais curtas, enquanto no inverno o oposto sucedia.

Apenas nos equinócios as horas de luz e de escuridão tinham duração idêntica. Adoptadas pelos gregos e romanos, as horas temporais espalharam-se pela Europa e foram empregues durante mais de 250 anos. Apesar da introdução das horas uniformes na Idade Média, que facilitaram os cálculos matemáticos e a organização social, o sistema de horas temporais continuou a ser usado em contextos específicos.

Construção de Relógios para Horas Temporais

A concepção de relógios que medem horas temporais exigiu uma abordagem inovadora da engenharia e da relojoaria. Um exemplo notável surge no Japão, onde os relógios conhecidos como Wadokei foram desenvolvidos. Estes relógios permitiam medir tanto horas temporais como horas uniformes, refletindo a coexistência dos dois sistemas de medição do tempo.

Os Wadokei: Funcionamento Técnico

Os Wadokei foram introduzidos no Japão durante o Período Edo (1603–1868) e representam um marco na relojoaria mundial. Tecnicamente, estes relógios funcionavam com base em mecanismos ajustáveis que alteravam o ritmo da medição ao longo do ano. A principal inovação dos Wadokei residia no uso de marcadores móveis, que permitiam a alteração da posição das divisões no mostrador, adaptando-as às mudanças sazonais. No interior do relógio, um mecanismo de escape de roda de reencontro e oscilador de foliot regulava o movimento do sistema de engrenagens, ajustando a duração de cada hora em função da época do ano. Este ajuste era conseguido através de discos ou placas móveis que controlavam a distância percorrida pelos ponteiros em cada ciclo. Os relojoeiros japoneses criaram também sistemas de pesos ou molas que modificavam a força aplicada ao mecanismo, assegurando uma precisão notável, mesmo com a variação constante das horas.

Alguns Wadokei possuíam mostradores duplos: um dedicado às horas temporais e outro às horas uniformes, permitindo que o utilizador alternasse entre os dois sistemas consoante as necessidades. Outros modelos avançados incorporavam sinos que soavam em intervalos ajustáveis, anunciando as mudanças no ciclo do dia e da noite.

A Modernização dos Wadokei – Masahiro Kikuno

Embora os Wadokei tradicionais fossem relógios de mesa, o mestre relojoeiro japonês Masahiro Kikuno adaptou este conceito ao formato de relógio de pulso no início do século XXI. Baseando-se nos princípios de Tanaka Hisashige, Kikuno criou um relógio com marcadores móveis que se ajustam automaticamente ao longo do ano. Este mecanismo complexo, inteiramente fabricado à mão, mantém a essência dos Wadokei originais, integrando-a numa peça portátil.

O relógio de Kikuno utiliza um sistema de engrenagens moderno para movimentar os marcadores no mostrador. À medida que as estações mudam, os marcadores deslocam-se gradualmente, aproximando-se ou afastando-se, de modo a refletir a variação natural das horas de luz e escuridão. A precisão deste relógio exige cálculos minuciosos e uma execução técnica de altíssimo nível, demonstrando a mestria do relojoeiro.

Em 2011, Kikuno apresentou o seu primeiro relógio de pulso com horas temporais, denominado “Temporal Hour Watch”. Este modelo inovador ajusta automaticamente os marcadores das horas no mostrador, adaptando-se às variações sazonais. O mecanismo interno utiliza um sistema de câmaras que, ao longo do ano, desloca os marcadores para reflectir com precisão as mudanças na duração das horas diurnas e noturnas.

Posteriormente, desenvolveu o “Wadokei Revision”, uma versão aprimorada que combina técnicas tradicionais com design muito próprio. Este relógio apresenta um mostrador onde os marcadores móveis ajustam-se continuamente, permitindo uma leitura precisa das horas temporais. O movimento interno, inteiramente feito à mão, demonstra a mestria de Kikuno na relojoaria artesanal.

A dedicação de Masahiro Kikuno em revitalizar os Wadokei evidencia a sua profunda ligação à cultura japonesa e ao respeito pelas tradições relojoeiras. As suas criações não só preservam técnicas ancestrais, mas também as adaptam ao contexto contemporâneo, oferecendo peças únicas que celebram a harmonia entre o tempo e a natureza.

Exemplares Portugueses de Horas Temporais

Em Portugal, dois exemplos notáveis de horas temporais encontram-se na Casa-Museu Medeiros e Almeida, em Lisboa. Este espaço, considerado um dos mais importantes museus de relojoaria do país, exibe uma vasta coleção de relógios históricos.

Relevância Actual das Horas Temporais

Apesar de terem caído em desuso, as horas temporais continuam a fascinar estudiosos e entusiastas da relojoaria. O seu funcionamento oferece uma perspetiva única sobre como diferentes culturas adaptaram a medição do tempo aos ciclos naturais. A reinterpretação moderna dos Wadokei por Masahiro Kikuno demonstra que este conceito ainda possui um apelo intemporal, mantendo viva a ligação entre a relojoaria e os ritmos da natureza.

Sobre o costumeiro pão de cada dia do Português Medieval, um estudo de caso

“A parte esmagadoramente maioritária deste cereal que os campos de Alcobaça produziam – com a necessária ressalva em relação à cevada – destinava-se à panificação. É certo que não pode excluir-se o consumo de uma pequena parte dos cereais de segunda [milho, centeio e cevada] em caldos, em papas ou em qualquer outra pasta mais ou menos consistente, preparações em que estes víveres já são bem aproveitados pelo organismo humano, mas aqui, nas terras de Alcobaça, com uma colheita tão mais avultada de trigo, esse consumo devia ser bastante minguado Todavia, a já mais que milenar tradição do consumo dos cereais panificados falava mais alto a todas as camadas da sociedade medieval, que, aliás, também a transmitiram aos seus descendentes e eles não deixaram morrer, até nos nossos dias, tradição que obrigava a que quase todo o cereal tivesse como destino, à saída do moinho, a entrada no forno. Não só em Alcobaça, como por toda a Europa. Sumariamente limpo na eira e recolhido no celeiro, o grão aí ficava, aguardando que viessem ensacá-lo para o transportar ao moinho. No domínio de Alcobaça, o cereal do convento, como o dos camponeses, era farinado nos moinhos senhoriais, direito que os monges, como os demais senhores do tempo, faziam questão de guardar. Na Abadia, aquando de cada moedura mediam-se, para o efeito, 30 alqueires de trigo. No moinho, esse cereal voltava a ser limpo, desta vez com mais minúcia e sofria quebras entre meio e 1 alqueire, “segundo ho trigo he lympo e çujo”, isto é, quebras que podiam oscilar entre 1,7% e 3,3%. O cereal era então moído, começando aí, efectivamente, o processo que o levaria à mesa de todos quantos se alimentavam no Mosteiro. A moagem era uma operação importante e dela dependia, em parte, o rendimento do cereal. Os engenhos moageiros – nos coutos de Alcobaça todos eles movidos a energia hidráulica – eram mecanismos com alguma complexidade e exigiam, no seu funcionamento, moleiro sabedor, para que o trabalho resultasse com qualidade. Porque muitas variáveis podiam interferir no processo. Para já era necessário que toda a engrenagem se encontrasse em bom estado de funcionamento e toda ela requeria muita atenção, sobretudo as rodas e as mós. Aquelas eram peças delicadas, muito grandes e exigindo na sua construção um avultado número de peças que teriam de se ajustar na perfeição; estas eram massas de pedra mais ou menos imponentes, que podiam medir entre 80cm e 1.40m de diâmetro por 25cm de altura, eram sempre monolíticos e muito difíceis de extrair, de confeccionar, de transportar. Exigiam ainda uma pedra de boa qualidade, sobretudo as que se destinavam à moagem do trigo, as chamadas mós alveiras, ou trigueiras, talhadas, preferentemente, em quartzite, o que podia implicar o seu transporte de muito longas distâncias. Não obstante desgastavam-se com rapidez e era mester serem reparadas, o que implicava a desmontagem da mó volante, a reparação de asperezas e ranhuras, trabalho feito com a ajuda de martelos especiais e lavor muito delicado. As próprias águas, sobretudo se podiam sofrer saltos bruscos ou laboravam em correntes de débitos de qualquer forma irregulares, podiam influir no resultado da moagem. E sobre a máquina exercia-se a habilidade do moleiro, a maneira como ele conduzia a mó volante sobre a dormente, a distância que colocava e mantinha entre ambas, tudo isto era decisivo para a maior ou menor finura da farinha resultante. O Mosteiro tinha vários moinhos e azenhas espalhados por todo o seu domínio e diversos outros fora dele mas, como é lógico, moía o seu grão nos que se localizavam nas imediações. Mas todos eles se encontravam equipados com mós alveiras – o que não excluía a coexistência, no mesmo engenho, de mós segundeiras – pelo que, em princípio, todos tinham a possibilidade ao menos teórica de produzir um trabalho de boa qualidade. Aqueles 30 alqueires de trigo que tinham dado entrada no moinho e agora saíam transformados em farinha, traziam um volume que podia oscilar entre os 34 e 36 alqueires – valor, este último, poucas vezes atingido – oscilações que, naturalmente, correspondiam à qualidade da moagem efetuada e também ao cereal. É preciso, no entanto, referir, que a medida utilizada não era sempre a mesma. O trigo fora medido pelo chamado alqueire do Sobrado, isto é, aquele que se utilizava nos celeiros centrais do mosteiro, de onde o grão saía e a farinha pelo alqueire “direito”, a que adiante voltarei a referir-me, um pouco menor que o primeiro e diferindo nele meia oitava. Isto é, medido que fosse o trigo por este último padrão, corresponderia a 31 alqueires e sete oitavas. Assim, o aumento de volume que a farinha representava relativamente ao grão era um pouco menor. Este aspeto, no entanto, é irrelevante para os cálculos de movimento a realizar, uma vez que eles se reportam, em todos os casos, à mesma medida. Era esta moedura completa que precisava agora sofrer um outro tipo de tratamento, antes de se poder com ela elaborar a massa, isto é, precisava ser peneirada. Era a peneiração uma das operações mais decisivas para o resultado final do processo e conforme se pretendesse um pão mais fino ou mais grosseiro, assim a operação teria de ser executada de forma diferente. Quando se queria um pão mais rústico a moedura peneirava-se apenas uma vez, por peneira de malha mais rala, de modo a retirar apenas os farelos; quando se queria um pão mais fino a operação continuava, agora com peneiras de rede cada vez mais apertada, de modo a que a farinha resultante fosse cada vez mais fina e pura. Por isso a variedade de peneiras que a documentação nos deixa vislumbrar, uma vez por outra, infelizmente muito poucas e sempre de forma muito breve: eram as peneiras alvas, de seda, de ante-mão, ralas ou de rara, até mesmo “meia peneira”. Talvez algumas delas, designadas de formas diferentes fossem iguais ou, pelo menos, muito semelhantes, mas talvez outras mais existissem, distintas destas e a que a documentação calou um apodo diferenciador. No Mosteiro fazia-se uso de muitas peneiras, que talvez se gastassem com alguma rapidez. Durante os três anos [1437-1439] em que a contabilidade monástica nos elucida acerca das compras efetuadas pelos monges foram adquiridas 31 peneiras, de que 18 de seda e 13 de rala. Os Monges comiam pão branco. Cada vez que no Mosteiro mediam-se, para o efeito, 10 alqueires de farinha que, após todo o processo de peneiração ficavam reduzidos a 5,5 e 6 alqueires. Isto, obtinha-se uma taxa de extração da farinha na ordem dos 55, 60%. Resultava assim aquilo a que chamavam o “poo branco”. Era a flor de farinha. […]”.

 – “À mesa nas terras de Alcobaça em Finais da Idade Média”, de Iria Gonçalves.

As Festividades do 25 de Abril: Uma Reflexão Crítica sobre o Legado da Revolução

Anualmente, um desfile da burguesia intelectual de esquerda, advinda de toda a área metropolitana de Lisboa, já sem qualquer apoio relevante das antigas classes operárias, há muito extintas, celebra uma manifestação ao nível de feira popular à qual a maioria da população local de Lisboa é alheia. Este espetáculo, que outrora simbolizava a unidade popular na conquista da liberdade, transformou-se numa espécie de ritual sectário, muito distante do pulsar da comum sociedade portuguesa contemporânea. Recentemente, tensões com a entrada do partido político Iniciativa Liberal no desfile e o cerrar de fileiras da esquerda ideológica em geral relevam a sua verdadeira essência: tratar-se-á fundamentalmente de uma manifestação daqueles que acham que o 25 de Abril não foi a criação de uma democracia liberal e plural aberta a ideologias de esquerda e de direita, mas sim a criação de um regime político rumo ao socialismo, de inspiração marxista, sectário, e, por várias e numerosas vezes, não todas, rejeitado pelos portugueses nas urnas. São absolutamente bem-vindas estas tensões, que devem estar o mais explícitas possível, e demonstrar o contraste gritante entre os resultados dos sufrágios universais realizados desde 1974 e a deriva totalitária de uma minoria de extrema-esquerda, que aglomera também muita burguesia de esquerda moderada que gosta de com ela namorar, para que, um dia, possivelmente, a ideia de democracia liberal plural que constitui o atual regime político deixe de estar definitivamente ligada a uma espécie de data natalícia de características religiosas, caducas, cujas principais objetivos já estavam cumpridos por volta de 1982. É possível que no dia em que essa data já não seja celebrada exista mais possibilidade, mas democracia, mais pluralidade, mais esquerda e mais direita.

O Contexto Histórico: O Golpe de Estado de 1974 como Reacção à Obsolescência do Regime

O 25 de Abril de 1974 marcou o fim de quase meio século de ditadura salazarista, um regime que sufocou liberdades, reprimiu dissidências e manteve, na sua fase mais tardia, Portugal num estado de atraso económico e social, enquanto prolongava uma guerra colonial insustentável em África. Isto não objecta a que, inicialmente, e em particular no período pós guerra, o regime do Estado Novo tenha tido um trabalho notável quer de pacificação da sociedade na sequência da ingovernabilidade de tendências anárquicas da primeira república, quer na modernização das estruturas materiais e imateriais do país, ao mesmo tempo que trilhava um percurso de responsabilidade económica. Perto do final do século, porém, o regime tinha coalhado e funcionava mais como um empecilho ao desenvolvimento do que como motor. A Revolução dos Cravos, liderada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), foi um momento de ruptura a que a maior parte do povo português reagiu bem, significando uma reacção natural a um status quo que tinha já parado no tempo, congelado nos dogmas da sua fundação inicial — como tem sucedido a todos os regimes ao longo da história.

Sendo a revolução, ou, melhor dizendo, o golpe de estado, na sua concepção, execução e acolhimento, um evento quase irrepreensível na sua execução e de grande apoio popular, por outro lado o período imediatamente a seguir à revolução, conhecido como Processo Revolucionário em Curso (PREC), revelou profundas divisões ideológicas. Entre 1974 e 1975, Portugal viveu um turbilhão político, com movimentos de esquerda, inspirados por ideais marxistas, a disputarem o controlo do futuro do país. Partidos como o Partido Comunista Português (PCP) e setores radicais do MFA defendiam uma transição para um regime socialista anti-parlamentar e distante daquilo a que chamavam a “democracia burguesa” — a que temos hoje —, enquanto forças moderadas, como o Partido Socialista (PS) e o Partido Social-Democrata (PSD), advogavam uma democracia liberal pluralista, e alguns partidos de direita ligados ao anterior regime eram simplesmente proibidos. As eleições de 1975 para a Assembleia Constituinte, as primeiras livres em décadas, foram um marco: os portugueses rejeitaram maioritariamente as visões mais radicais, optando por partidos que defendiam a democracia representativa e a integração europeia — e, apesar da opinião pública estar fortemente manipulada para um entendimento da revolução como inevitavelmente marxista, premiaram maioritariamente a social-democracia moderada de Mário Soares e de Sá Carneiro.

Por volta de 1982, com a estabilização das instituições democráticas e a aprovação de uma Constituição revista que afastou algumas das ambições socialistas mais utópicas do PREC, os objetivos centrais do 25 de Abril – democracia, descolonização e modernização económica – estavam, em grande medida, cumpridos. A adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986 consolidou Portugal como uma democracia liberal, aberta ao pluralismo político e à economia de mercado, colocando-a aliás na dependência de financiamentos e estruturas externas que na prática tornavam praticamente impossível qualquer regresso a um regime não democrático. Mesmo depois deste sucesso, que poderia ter sido aproveitado como um passo em frente no desenvolvimento económico, social, cultural e principalmente político do país, a celebração do 25 de Abril permaneceu, adquirindo contornos quase religiosos, como uma “data natalícia” que, para muitos, transcende a política e se torna um símbolo intocável. Espanha, que não teve, como nós, um momento de transição tão súbito, passou por uma democratização muito mais racional e não conta com nenhuma data de características sacras como esta — e passa bem sem isso.

A Transformação das Celebrações: De Revolução Popular a Feira Elitista

As celebrações do 25 de Abril, especialmente em Lisboa, mudaram drasticamente desde os anos 1970. Nos primeiros anos, as manifestações eram vibrantes, com operários, camponeses e estudantes a encherem as ruas, celebrando a liberdade recém-conquistada — cerimónias aliás largamente estendidas à data do primeiro de Maio, naturalmente associada a essas classes. Hoje, porém, o desfile transformou-se numa manifestação ao nível de feira popular, dominada por uma burguesia intelectual de esquerda que, vinda de toda a área metropolitana de Lisboa, parece desconectada do resto da sociedade. A ausência das antigas classes operárias, há muito extintas reflete transformações socioeconómicas profundas: a desindustrialização, o enfraquecimento dos sindicatos e a ascensão de uma economia de serviços reduziram o peso das classes trabalhadoras tradicionais, que outrora foram o coração do apoio popular da revolução. O que resta hoje é a peregrinação das classes intelectuais progressistas — entre as quais se contam famílias burguesas bem instaladas no novo regime, juventudes das indústrias criativas enganadas por promessas de ensino superior como garante de empregabilidade, e alguns radicais socialistas que ainda sonham, em pleno século XXI, com um qualquer travestismo de ditadura do proletariado.

A maioria da população local de Lisboa — que, à semelhança dos parisienses que nunca vão à Torre Eiffel — não tem significativo interesse na parada ou procissão que ali decorre, tal como também não são conhecidos por se dirigirem em massa à feira da ladra, às marchas ou aos santos populares. Este é aliás um triunvirato de eventos cuja frequência se pode dizer mais turística do que autenticamente local, embora, no caso das marchas ou dos santos, existam adesões de camadas específicas dos antigos bairros populares cuja lealdade aos eventos é duradoura. Mas a descida da avenida em Abril, em particular, é um evento quase exclusivo de uma elite politizada, fauna que curiosamente podemos encontrar, em menor número, mas com as mesmas caras, os mesmos hábitos e a mesma categoria de classe social perfeitamente discernível e inconfundível, na Feira do Livro que anualmente decorre no Parque Eduardo VII.

Esta alienação pode ser atribuída a vários fatores. Primeiro, o 25 de Abril, enquanto evento histórico, pode ter perdido relevância para gerações mais jovens, que não vivenciaram a ditadura ou o fervor revolucionário. Segundo, as celebrações, frequentemente organizadas por partidos e movimentos de esquerda, adquiriram um caráter sectário, afastando aqueles que não partilham a mesma visão ideológica. O que era um momento de unidade popular transformou-se num ritual que, para muitos, parece mais performativo do que genuíno. Com o passar do tempo, o fosso tem-se alargado ainda mais: novas forças políticas, ajustadas aos tempos actuais e já não agrilhoadas pelos dogmatismos da revolução socialista, surgem no panorama parlamentar e extra-parlamentar português, não reconhecendo na procissão do dia o carácter sacramental e religioso que os seus participantes lhe incutem, tal como não reconhecem na data do 25 de Abril a inevitabilidade do caminho para o socialismo.

Tensões Ideológicas: O Legado do 25 de Abril em Disputa

A existência destas novas forças políticas podia ser meramente um fenómeno distante da marcha, já que algumas não pretendem sequer ter nela parte. Mas recentemente, as tensões nas celebrações do 25 de Abril tornaram-se mais evidentes com a entrada da Iniciativa Liberal no desfile. Este partido, que defende o liberalismo económico e político, representa uma visão da democracia que contrasta com a narrativa dominante de setores da esquerda, que continuam a ver o 25 de Abril como o ponto de partida para um projeto socialista de inspiração marxista. O cerrar de fileiras da esquerda política em geral face a esta participação revela a verdadeira essência das celebrações: para muitos dos seus organizadores, a revolução não foi a criação de uma democracia liberal e plural, aberta a ideologias de esquerda e de direita, mas sim o embrião de um regime sectário, que, por várias vezes, foi rejeitado pelos portugueses nas urnas.

Estas tensões são, paradoxalmente, bem-vindas. Elas expõem o contraste gritante entre os resultados dos sufrágios universais desde 1974, que consistentemente favoreceram partidos moderados e pluralistas de esquerda e de direita, e a deriva totalitária de uma minoria de extrema-esquerda a que a esquerda centrista, por comodismo, covardia ou ignorância, vai atrás. Esta minoria radical, que aglomera também muita burguesia de esquerda moderada que gosta de com ela namorar, parece agarrada a uma visão do 25 de Abril que já não ressoa com a realidade política portuguesa. Desde 1975, os portugueses escolheram, eleição após eleição, um modelo de democracia liberal, rejeitando tanto o autoritarismo de direita do Estado Novo quanto as utopias socialistas do PREC. No entanto, as celebrações do 25 de Abril continuam a ser apropriadas por setores que insistem numa leitura ideologicamente enviesada da revolução, aliás marcada por expressões conflituosas anti-direita e com evocações mal-informadas de supostos “valores de abril” que incluem políticas como nacionalizações massivas, redistribuição massiva de propriedade, e re-configuração avassaladora das hierarquias sociais e laborais, políticas que não recolhem de todo qualquer unanimidade da sociedade portuguesa, sendo expressões que nada têm a ver com uma democracia liberal que inclua expressões políticas de todos os quadrantes.

Para um Futuro Mais Plural

A insistência em celebrar o 25 de Abril como uma data natalícia de características religiosas e caducas impede, em certa medida, a plena realização da democracia liberal plural que a revolução tornou possível. Os principais objetivos do 25 de Abril – liberdade, democracia e desenvolvimento – foram alcançados, em grande parte, por volta de 1982. Continuar a tratar esta data como um totem intocável, reservado a uma elite ideológica, apenas perpetua divisões e obscurece o verdadeiro legado da revolução: a criação de um sistema político aberto a todas as ideologias, de esquerda e de direita.

É possível que, no dia em que o 25 de Abril deixe de ser celebrado com este fervor quase religioso, Portugal possa abraçar uma democracia ainda mais vibrante e plural. Nesse futuro, haverá mais possibilidade, mais democracia, mais pluralidade, mais esquerda e mais direita. A revolução, afinal, não pertence a um grupo ou ideologia; ela pertence a todos os portugueses, que, através do voto e da participação cívica, continuam a moldar o seu destino. Que o 25 de Abril seja, então, não um fim em si mesmo, mas um convite permanente à construção de um país mais livre e inclusivo — e que, quanto mais depressa for esquecido, mais depressa se avançará para um futuro mais de acordo com os tempos, mais desenvolvido, mais próspero — e, no fundo, o que isto quer dizer é que se avançará para um futuro mais progressista e não um futuro preso nas ideias conservadoras de há cinquenta anos.

A Palavra e a Imagem em diálogos (im)pertinentes

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Inês Almeida da Gama é artista plástica, mestre em Artes Plásticas, vive e trabalha no Porto. Tem como interesses principais a pintura; a escultura; projeto; vídeo; desenho digital; arte e tecnologia. Formou-se em 2020/2021 como Licenciada em Artes Plásticas – Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e em 2021/2023 como Mestre em Artes Plásticas (MAP) – Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Está sediada no atelier 46A, no Passeio de São Lázaro, 46-A, no Porto. Visitem o seu website.

A palavra/imagem, o mote desta reflexão, versa sobre dois modos de ver: o visível e o ilegível, procurando estabelecer um diálogo pertinente ou, impertinente, no processo construtivo plástico entre a palavra e a imagem. Provocando o sentido da sintaxe gramatical, elevado ao estado da visualidade textual, ao limite da palavra como imagem: não importa tanto o seu conteúdo objetivo, mas a forma visual que dá corpo compositivo ao quadro no qual se inscreve.

O palimpsesto vai surgir neste estudo, não só como processo do fazer artístico, como também pelo seu sentido metafórico, cujas características consistem no raspar, apagar e inscrever de novo, indagando o tempo, evocando a memória, perante o diálogo entre signos e as consecutivas camadas de inscrições e apagamentos que o compõe, num ato de fruição. Evocamos os poetas, Fernando Pessoa pelo palimpsesto desassossegado de heterónimos. Alexandre O’Neill pelas palavras que nos beijam como se tivessem boca.

O ponto de partida consta de um percurso realizado em torno da cidade do Porto, na tentativa de registar a ambiguidade do que se vê e, do que não se vê, ou, do que se gostaria de ver, de todas as histórias secretas que desvelam vestígios de signos, sinais, códigos e outros segredos, tal como num palimpsesto. Para o efeito houve o apelo à câmara fotográfica, como se de uma prótese ocular se tratasse; regista, guarda na memória, cristaliza o tempo.

Escolhi a cidade, porque a cidade é mais do que um simples espaço físico; é o reflexo da mente e do espírito, claramente configurada na mais bela imagem de paixão. Agora sei, que a cidade é uma longa história que guarda segredos, suspensos na inquietude das palavras.

Título: Palavras Desassossegadas, 2023 Óleo s/ tela linho, 92x73cm
Série: Oito Páginas, Oito folhas desassossegadas
Título: Folha Desassossegada_VI, 2023 Bio Óleo s/ tela linho, 92x73cm
Título: Não Contes a Ninguém_IV, 2023 Óleo s/ tela linho, 92x73cm
Título: Não Sei Onde Te Vi, 2025 Óleo s/ tela linho, 92x73cm
Série: Oito Páginas, Oito folhas desassossegadas
Título: Folha Desassossegada_VI, 2023 Bio Óleo s/ tela linho, 92x73cm
Título: Mundo Imaginário, 2025 Óleo s/ tela, 60x60cm

Sobre habitação: basculando entre imbecilidade e populismo

Existem em Portugal 2,9 milhões de proprietários e respetivas famílias que discordam de algumas barbaridades…

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É. O último censo sério sobre habitação foi conduzido pelo INE em 2021. Eu sei que estamos em 2025, o preço da habitação está mais alto, mas o cenário de fundo não mudou assim tanto. Temos mais de 2.900.000 proprietários de habitação em Portugal, mais as respetivas famílias. São muitos eleitores! Sabem qual é o interesse desta gente na queda do preço do imobiliário? Zero ou próximo de zero. O imobiliário funciona em Portugal como uma forma de investimento da poupança, juntamente com depósitos a prazo e certificados de aforro. E ao longo das últimas décadas o imobiliário tem sido o abono de família de muitos, seja pela valorização e venda, ou pela herança e posterior venda. E explica muito do nível de vida que alguns portugueses levam considerando os salários que temos em Portugal.

Mas sim, eventualmente não será sustentável. O ponto é que quando Mariana Mortágua ataca os proprietários, na figura dos fundos de investimento, está na realidade a atacar uma vasta e esmagadora franja da população portuguesa. Sim, os proprietários gostam de ver os seus ativos, os imóveis, a valorizar. E essa é que é a questão grossa, como diria Paulo Raimundo.

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Pois: a mana quer colocar tetos nas rendas. Mas olhem lá para a distribuição das rendas em Portugal. Só 20 mil estão acima dos 1000 €. Uma fatia relevante está abaixo dos 100 €. O grosso está entre os 100 e os 1000 €. E este é o retrato real do mundo do arrendamento em Portugal.

Se à data de hoje é possível encontrar rendas baixas? Eu sei que não, mas este mercado, o do arrendamento, está carregado de distorções. Colocar tetos às rendas é apenas mais uma que iria afastar potenciais arrendatários. Aliás, as regras atuais já afastam.

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Agora olha para a distribuição da habitação. A esmagadora maioria está ocupada para habitação própria permanente, como é óbvio. Poco mais de um milhão de fogos são habitações secundárias, casas de férias, que normalmente não estão nos grandes centros urbanos, mas em destinos de férias. Mais de 300 mil estão entre o Alentejo e Algarve. Há 348 mil habitações para arrendamento ou venda, e depois, vago, mas não disponível no mercado, a última coluna à direita, 375 mil habitações. Não é um número que possamos ignorar, mas também não é a sua colocação no mercado de arrendamento que iria resolver o dito problema da habitação em Portugal. Muito menos com tetos máximos nas rendas!

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Agora, claro, quando se vive dentro da bolha de Lisboa percebe-se que a realidade não é bem a mesma. Para interpretação deste mapa, a cor mais escura e azulada mostra-nos uma percentagem maior de proprietários de alojamentos familiares, mais claro nas “bordas” de Lisboa. No centro, de facto, os donos da habitação são outros. Mas lá está, alguém teve que os vender. Alguém quis vender porque achou que o preço era bom ou precisava de dinheiro. O mal está feito, agora é aprender a lidar com esta realidade. Não vamos voltar a ter agregados familiares da classe média a viver no centro de Lisboa, não dá. E também não tem que ser.

O país é muito mais do que Lisboa, e esse é o principal erro de gente como a mana Mortágua: pensar que é.

Fonte de informação na base: INE – Censo de 2021, https://censos.ine.pt/xportal/xmain?xpgid=censos21_habitacao&xpid=CENSOS21.

Em conclusão: a mana foi várias vezes à televisão confirmar aquilo que todos já sabíamos, o Bloco é uma start-up de ideias falidas com sede na bolha do Reddit. Apresentou-se com a segurança de quem nunca geriu uma mercearia mas tem opiniões muito fortes sobre como deve funcionar o mercado. Entre dois sorrisos ensaiados e uma ou outra tentativa de parecer a voz dos “sem casa”, a mana explicou, com a convicção de um influencer vegan a falar de bifes do lombo, que o segredo para haver mais casas no mercado é, imagine-se, pôr um teto às rendas. É a mesma coisa do que dizer que a melhor forma de produzir mais leite é espremer menos e com mais carinho as tetas da vaca.

Diz a moça que se os senhorios forem impedidos de ganhar dinheiro, vão magicamente colocar mais casas no mercado. Um raciocínio tão lógico como meter um cadeado no frigorífico à espera que ele encha. Top! Mas não se atrapalhou. Entre uma defesa épica dos direitos dos inquilinos e uma frase tirada de um qualquer manual de “economia para poetas ”, a sempre radical mana desenhou em direto na RTP um país onde os proprietários são um bicho estranho que compra casa só pelo prazer de as ver ali ao abandono. Estranho, muito estranho!

Meus amigos, cada vez mais o discurso do Bloco parece um palacete em ruínas com janelas de demagogia e telhado de pura negação da realidade. E é por isso que têm o destino traçado. Mas ela foi lá à RTP, bater o pé ao entrevistador, e disse tudo, menos o essencial.

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O Bloco de Esquerda, mais conhecido como o partido das manas, quer colocar tetos às rendas, como em vários países europeus….

A proposta do Bloco é inspirada no modelo holandês, curiosamente governada por uma coligação de direita liderada pela extrema-direita de Geert Wilders, do Partido para a Liberdade, PVV. Ironia do destino. E eu, curioso como sou, fui espreitar a proposta do Bloco, e depois fui perceber como funciona o modelo holandês.

Sim, enquanto que um modelo foi regurgitado à volta de uma fogueira numa noite de festa animada, o outro, de facto, tem cabeça, tronco e membros.

Só para terem uma ideia, o modelo holandês aplicado a Portugal ia permitir-te encontrar um T3 com uma renda máxima de 771 € em Alçaperna, que é ali para os lados da Lousã.

Bem, mas vamos lá ver isso então…

Bom, a proposta do Bloco é esta:

“Criar tetos máximos para rendas inferiores aos valores definidos na Portaria n.o 277-A/2010, de 21 de maio, tendo em consideração variáveis como: área do imóvel, qualidade do alojamento, certificação energética, localização e tipologia. Esta medida deve ser combinada com a limitação da atualização legal das rendas considerando a evolução do poder de compra.”

É verdade que o modelo holandês impõe tetos a algumas rendas em função da área do imóvel, qualidade do alojamento, certificação energética, localização e tipologia. Essa é a base comum, que irei detalhar no caso do modelo holandês.

Mas isto para o Bloco é só fachada, porque o que o Bloco quer é tetos às rendas abaixo dos valores definidos na Portaria n.o 277-A/2010, de 21 de maio, que suporta o programa de apoio financeiro Porta 65, um programa completamente falhado de apoio ao arrendamento jovem. Permitam-me partilhar os valores:

Grande Lisboa:​

T0 a T1: 514 euros​

T2 a T3: 669 euros​

T4 a T5: 771 euros​

Grande Porto:​

T0 a T1: 412 euros​

T2 a T3: 514 euros​

T4 a T5: 669 euros

Algarve:​

T0 a T1: 412 euros​

T2 a T3: 514 euros​

T4 a T5: 669 euros

Ora se o Porta 65 é um programa falhado, imaginem a proposta do Bloco!

No entanto, se obrigarmos os senhorios a arrendar, ou até, quiçá, tomarmos de assalto a propriedade privada, então talvez resulte durante um ano ou dois até entrarmos em colapso total e completo enquanto país.

fonte de informação: propostas do Bloco para habitação.

https://programa2024.bloco.org/capitulo-1/1-3-propostas-para-baixar-os-precos-das-casas/?utm_source=chatgpt.com

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O modelo holandês na Holanda, país onde até as vacas têm seguro de saúde, existe de facto um sistema chamado huurprijsregulering, nome bonito para “não vais pedir o que te der na gana pelo T0 com vista para o beco”.

Este sistema aplica-se sobretudo às rendas sociais (sociale huur). Funciona com uma espécie de tabelinha de pontos, o WWS (Woningwaarderingsstelsel, que soa a feitiço do Harry Potter), onde se mede tudo: área, janelas, se tens torneira a pingar ou vizinho que toca saxofone. A soma dos pontos diz quanto podes cobrar de renda.

Mais pontos, mais euritos. Menos pontos, azarito.

Teto de renda com base nos pontos: o modelo

O governo publica anualmente uma tabela que liga o número de pontos a uma renda máxima permitida. Por exemplo (valores indicativos de 2024):

100 pontos → renda máxima de ± €597

150 pontos → renda máxima de ± €800

200 pontos → renda máxima de ± €1.000

Se a casa tiver até um certo número de pontos (em 2024, cerca de 145), ela é considerada habitação social, e a renda é regulada.

Mas depois tens o segmento livre. Se uma casa tiver um número de pontos suficiente (por exemplo, mais de 145 pontos), pode entrar no mercado liberalizado (geliberaliseerde huur), onde não há limite legal para a renda. Contudo, mesmo neste segmento, o governo aplica medidas de controlo indireto, como limitação de aumentos anuais de renda e incentivos fiscais e penalizações.

Ora como imaginas, para ter um score abaixo de 145 é preciso ser um vão de escada! E isto aplica-se maioritariamente à habitação social, pertença das cooperativas que abundam na Holanda, num regime semi-privado em que há colanoração com o Estado.

Isto dito, atenção. Já em 2024. As limitações às rendas no setor privado nos Países Baixos já entraram em vigor. A Lei das Rendas Acessíveis (Affordable Rent Act) foi implementada em 1 de julho de 2024, introduzindo controles de renda para o segmento de arrendamento de médio porte. ​

Esta legislação expandiu o sistema de pontos existente (Woningwaarderingsstelsel ou WWS) para abranger propriedades com até 186 pontos, o que corresponde a uma renda máxima de aproximadamente €1.157,95 por mês. Anteriormente, apenas propriedades com até 145 pontos estavam sujeitas a controles de renda, classificadas como habitação social.

Mas posso-te garantir que numa casinha decente em Amesterdão com vista para os canais não vais encontrar nada abaixo dos 186 pontinhos…

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Então vá! No meu direito a uma vida digna e justa decidi ir viver para Amesterdão, aqui: Herengracht 497, 1017 BT Amsterdam

Vamos lá qual é a renda que me espera!

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Olha, uma casinha pequena, 59 m2, 1,217 €.

Nota que o valor de mercado é uma variável importante na avaliação da renda. Depois tens todo o tipo de perguntas para perceber a qualidade da habitação.

Se eventualmente não tiver WC, fica de facto mais barato…..

Se também quiseres brincar, podes fazê-lo aqui:

https://huurprijscheck.huurcommissie.nl/en/self-contained-accommodation

Em conclusão: tetos nas rendas como na Holanda, diz o Bloco! Mas calma, que o modelo vem adaptado ao contexto nacional. Ou seja, retiraram-lhe os dentes, cortaram-lhe os braços e mais alguns membros, e ficamos só com o dedo mendinho do pé. O resultado? Um brilhante plano para termos um T0 no Chiado a 500€, sem sanita, sem eletricidade e com um senhorio que só aceita arrendar pelo teto máximo se o resto vier por debaixo da mesa.

A ideia desta gente é simpes. Parecer que somos a Holanda, mas com o jeitinho de quem põe papel autocolante a fingir que é mármore na bancada da cozinha. Chama-se socialismo decorativo.

O teto à renda vai trazer justiça à habitação. Ora claro! Porque todos sabemos que é justo o Estado fixar o preço do arrendamento de uma casa sem janelas em Alcântara a 480€, enquanto o senhorio vende a fração do lado como T0 “open space artístico” por meio milhão a um puto nómada digital dinamarquês que quer viver em Portugal porque as ondas são boas para surfar!

isto é trotskismo de condomínio meus amigos! Revolucionário nas reuniões, mas que se ajoelha à primeira ata do senhorio.

Se isto for aplicado, em breve o sonho de qualquer jovem português será mesmo conseguir alugar uma marquise em Entrecampos por 450€, partilhada com um router e um aquecedor a óleo, com a etiqueta a dizer:

“Inspirado na Holanda. Produzido num palácio da Rua da Palma.”

Reflexões sobre o Sentido da Vida no Cinema Italiano Contemporâneo

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ÀS COISAS QUE NOS FAZEM FELIZES (Gabriele Muccino, 2020)

As Coisas que nos Fazem Felizes (Trailer) | MHD

O cinema italiano não precisa de grandes produções nem de tecnologia de última geração para fazer bons filmes. Não se trata de defeito, mas de virtude. Um bom argumento, bons atores, realização e edição eficientes e, praticamente, está feito.

Dito assim, até parece fácil, porque é essa a ideia com que ficamos, quando assistimos a filmes como ÀS COISAS QUE NOS FAZEM FELIZES (Gabriele Muccino, 2020). Durante cerca de duas horas, acompanhamos 40 anos na vida de quatro amigos, Giulio, Paolo, Ricardo e Gemma, marcada por muitos desencontros e outros tantos encontros. Os episódios da vida íntima surgem enquadrados no contexto social e político que foi modelando a Itália nas últimas quatro décadas, acrescentando valor ao filme.

Mas o que prende mesmo a nossa atenção é a imitação da vida tal como ela é, com conquistas e desilusões; dificuldades e sucessos; expetativas que mudam ao sabor da realidade; encontro com a esperança perdida; questionamento e procura incessante da felicidade, que, mesmo inconsciente, está sempre latente. Se há quadra propícia à reflexão sobre o que nos faz felizes é a natalícia.

Com efeito, o maior mérito da história que nos é apresentada é tornar evidente que o sucesso pode não se traduzir em obter grandes lucros ou posições de destaque, que a felicidade não se contabiliza em valores monetários, que aquilo que é conquistado com persistência e esforço tem mais sabor, que as coisas que nos fazem felizes são, realmente, as mais simples (ainda que seja um lugar-comum) e que é nelas que nos devemos focar, sob pena de vermos a vida passar sem que a tenhamos tornado nossa. E como tudo é cíclico, a última sequência mostra um casal de adolescentes que, à semelhança de tantos outros antes deles, estão a iniciar a sua jornada, para, no final, provavelmente, chegarem à mesma conclusão, ainda que com experiências de vida sempre diferentes.

AS IRMÃS MACALUSO (Emma Dante, 2020)

Uma tradição italiana que se renova - RTP Cinemax

Não há muitos filmes que provoquem uma comoção tão profunda, tão forte, que perturbem de tal forma o nosso coração, que nos deixam, ao longo de quase todo o filme, num alvoroço de sensações difíceis de domar, como AS IRMÃS MACALUSO (Emma Dante, 2020). Claro que quando o filme termina, ele permanece connosco, reclama a nossa atenção, assombra os nossos pensamentos e faz-nos refletir. Por isso, enquanto escrevo estas singelas linhas, é difícil não me comover novamente. Trata-se, pois, de uma história emocionalmente intensa e exigente e a forma como nos é apresentada revela delicadeza nos pormenores e um cuidado artístico próprios de uma obra de nível superior.

O filme é realizado por Emma Dante, a partir da sua própria encenação para teatro. Como o título nos indica, a história acompanha as cinco irmãs Macaluso na infância, idade adulta e velhice. Até aqui, nada de novo. No entanto, a tragédia que as irá ensombrar confere ao filme uma dimensão humana poderosíssima, numa mescla de culpa, remorso e penitência.

Sonhos desfeitos, vidas desperdiçadas, aprisionadas naquela casa que parece impedi-las de seguir em frente e tentar fazer algo que as realize, ser feliz. Uma casa onde o mais perto que há do paraíso é um quadro na parede e uma pintura no aparador da sala. Aqui também é guardado o serviço de jantar para as ocasiões especiais. Sempre me incomodou este hábito, pelos vistos tão italiano quanto português (ou talvez não se restrinja a nenhuma nacionalidade, talvez seja simplesmente humano), de se guardar as melhores loiças, os melhores talheres, as melhores toalhas, enquanto vemos a vida passar. E esta será umas das principais mensagens do filme, aproveitar tudo, não guardar nada, não esperar pelo que não sabemos que vai acontecer.

Quando vemos Maria, a mais velha das irmãs, no regresso para casa do emprego, executando os mesmos passos de dança de quando era jovem, com a diferença de que, em jovem, permitia-se sonhar, percebemos que a sua vida não foi, de facto, vivida, a mesma dança torna-se num grito de desespero, de libertação. E, por isso, perante a notícia da sua morte anunciada, come vorazmente alguns bolos, como se esse gesto representasse tudo o que não viveu, numa espécie de vingança.

No fim, assistimos ao desmantelamento da casa das irmãs, após a morte da única que nunca a abandonou. Móveis e caixão descem pela mesma janela, a carrinha das mudanças de um lado, o carro funerário do outro, tudo é descartável, incluindo o ser humano.

TRÊS ANDARES (Nanni Moretti, 2021)

Três Andares” é um dos filmes mais sombrios de Nanni Moretti, uma cadeia  obsessiva de reações à dor e ao luto - Expresso

Tem-se verificado, no panorama cinematográfico deste dois últimos anos, uma tendência crescente de filmes alavancados por um certo tipo de introspeção que se consubstancia numa reflexão sobre escolhas que se fazem, caminhos que se seguem e de que forma estes influenciam, indelével e irreparavelmente, a vida das personagens.

O novo e comovente filme de Nanni Moretti, TRÊS ANDARES (2021), parece seguir esta tendência (não é por acaso que a expressão “la nostra strada” é repetida no filme, provavelmente para mostrar que “la nostra strada” nem sempre é a mais indicada, que todos nos devemos pôr em causa, pois todos falhamos), e as personagens terão de lidar com as consequências das suas opções, algumas delas marcadas até por uma certa leviandade, acabando por culminar em situações trágicas.

A história segue, ao longo de dez anos, o quotidiano de quatro famílias que habitam o mesmo prédio em Roma, cada uma representando uma diferente fase da vida, facto a que não será alheia a circunstância de haver um adolescente, uma criança e uma bebé recém-nascida no centro de cada uma destas histórias, cada um deles encerrando em si mesmo, todas as possibilidades do mundo.

A realização de Moretti é de uma sensibilidade irrepreensível, deixando o melodrama fluir sem pausas desnecessárias e o devir do tempo é transmitido com naturalidade, como se todas aquelas personagens estivessem realmente a crescer, a envelhecer, a transformar-se diante dos nossos olhos. Apesar de, em alguns momentos, sermos tentados a julgar as suas atitudes, torna-se claro, à medida que o filme avança para o seu desfecho, que aqui não há bons nem maus, apenas seres humanos que erram, que tentam melhorar, que se arrependem, que aprendem com os seus erros, e que, de certo modo, alcançam a redenção, exceção feita à figura do juiz interpretado por Nanni Moretti, cuja rigidez de princípios nunca abandona, mas que acaba por se extinguir com ele.

É, pois, na dicotomia entre justiça / relações humanas que este filme assenta. A lei, enquanto reguladora, dissuasora e castigadora dos comportamentos humanos, deve, tem de ser, igual para todos. Porém, a lei das relações humanas é volátil e depende sempre de uma boa dose de compreensão, tolerância e aceitação, para que se abra espaço à esperança e à mudança. Delas se alimenta a condição humana.

O REI DO RISO (Mario Martone, 2021)
O Rei do Riso (trailer)QUI RIDO IO, ou, no título português, O REI DO RISO (2021), filme do realizador italiano Mario Martone, pode resumir-se em duas palavras: Toni Servillo. A genialidade do ator permite incorporar as diferentes facetas, nem sempre agradáveis, muitas vezes contraditórias e até imorais, de Eduardo Scarpetta (1853-1925), ator e encenador que marcou a comédia napolitana em finais do século XIX e princípios do XX, em grande parte devido à personagem cómica que criou, Felice Sciosciammocca. Aliás, a primeira cena do filme é uma longa sequência que culmina com a aparição desta personagem em palco, levando a plateia ao rubro.

No entanto, à medida que avançamos na história, percebemos que este filme biográfico pretende direcionar a nossa atenção para um episódio muito concreto da vida de Scarpetta. Ao parodiar a tragédia “La Figlia di lorio”, da autoria de Gabriele D’Annunzio, um dos mais importantes poetas italianos da época, Scarpetta é acusado de plágio, vendo-se envolvido num complexo processo legal, famoso por ter sido a primeira ação judicial sobre direitos autorais em Itália, que coloca em causa o êxito granjeado até então.

As cenas em tribunal são uma delícia para o espetador, com destaque para a inteligente argumentação de Scarpetta, levantando questões bastante atuais, relacionadas com as noções de plágio e paródia, como se fossem duas faces opostas da intertextualidade. Tratando-se do “Rei do Riso”, não é de estranhar que o filme culmine com uma atuação cómica de Eduardo Scarpetta, que transforma a sala de tribunal num palco de teatro.

INTERDITO A CÃES E ITALIANOS (Alain Ughetto, 2022)

Interdito a Cães e Italianos — Filmes — Festa do Cinema Italiano

Nem todas as grandes histórias que chegam ao cinema são protagonizadas por atores de carne e osso. INTERDITO A CÃES E ITALIANOS (2022),  uma coprodução de França, Itália, Suíça, Bélgica e Portugal, escrita e dirigida por Alain Ughetto, é disso exemplo. Além de acumular a escrita e a realização, Alain Ughetto também constrói, com as suas mãos, as personagens/familiares, imortalizando, no título, a discriminação a que italianos estavam sujeitos num país que eles próprios ajudaram a modernizar.

Trata-se de uma obra cinematográfica filmada em slow motion, que se destaca por uma narrativa pessoal e comovente, ao mesmo tempo em que lança um olhar profundo sobre eventos históricos que moldaram o século XX. O filme é, como se tem referido frequentemente, uma carta de amor do realizador aos seus antepassados italianos (avós), Luigi e Cesira Ughetto, que enfrentaram a difícil jornada da emigração da região de Piemonte, na Itália, para França.  Uma história de fome, miséria, guerras e doenças, intercalada, ocasionalmente,  com momentos de esperança e felicidade.

Um dos aspectos notáveis deste filme é a forma como ele equilibra habilmente a história da família Ughetto com os acontecimentos históricos que lhe servem como pano de fundo e lhe conferem uma ordem cronológica, em particular a guerra italo-turca e as duas guerras mundiais, conectando as experiências pessoais dos Ughetto com os tumultos e mudanças significativas que ocorreram no mundo durante esse período. Essa abordagem dá ao filme uma dimensão universal e faz com que a história da família se torne um microcosmo das lutas e desafios enfrentados pela humanidade ao longo dos tempos.

Entre os bonecos animados surge, em algumas sequências, uma mão humana que vai dialogando com a narradora da história, a avó, e que pode simbolizar quer o talento e a habilidade de Luigi, quer a importância do trabalho manual, que é passado de uma geração para outra, quer ainda a jornada empreendida pelos avós de Alain Ughetto na senda de construírem uma vida melhor para os seus filhos e netos.

Resistance to Late 19th c. Irish and Italian Immigration and Contemporary South American Immigration in the USA

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Introduction

The history of immigration to the United States is marked by cycles of acceptance and resistance, often shaped by economic, cultural, and religious anxieties. In the late 19th and early 20th centuries, Irish and Italian immigrants, predominantly Catholic, faced significant opposition from native-born Protestant Americans who viewed their arrival as a threat to national identity, economic stability, and social order. This resistance was fueled by stereotypes of criminality, religious incompatibility, and fears of unassimilability, often manifesting in discriminatory policies, mob violence, and nativist political movements. Today, similar dynamics are evident in the resistance to South American immigration, where concerns about security, gang violence, and cultural integration echo historical patterns. This essay examines the parallels between these two periods, focusing on the dominant groups that opposed Irish and Italian immigration, the security and gang-related violence associated with these communities, and their eventual integration into American society. It further extrapolates these historical insights to analyze contemporary attitudes toward South American immigrants, noting the emergence of conservative leanings and skepticism toward uncontrolled immigration within these newer communities.

Historical Context of Irish and Italian Immigration

Irish immigration to the United States surged in the mid-19th century, driven by the Great Famine (1845–1852), which killed approximately one million Irish and forced two million to emigrate (Library of Congress, n.d.). From 1820 to 1860, nearly two million Irish arrived, with 75% settling after the famine (Library of Congress, n.d.). These immigrants were predominantly Catholic, rural, and unskilled, concentrating in urban centers like Boston, New York, and Philadelphia. Their arrival coincided with a period of economic competition and Protestant dominance, exacerbating tensions with native-born Americans (Higham, 1955).

Italian immigration followed, peaking between 1890 and 1920, when over four million Italians, mostly from Southern Italy, migrated to the United States (Gagliarducci & Tabellini, 2022). Like the Irish, Italians were overwhelmingly Catholic, often impoverished, and faced hostility due to their religious and cultural differences. By 1920, Southern and Eastern European immigrants, including Italians, comprised 41% of the U.S. foreign-born population, a significant shift from the Northern and Western European dominance of earlier decades (Migration Policy Institute, 2024).

Both groups faced systemic prejudice rooted in their Catholic faith, which was perceived as antithetical to America’s Protestant ethos. The Catholic Church’s hierarchical structure and allegiance to the Vatican fueled fears of a “papal plot” to undermine American democracy (History.com, 2017). These religious tensions, combined with economic and social anxieties, set the stage for widespread resistance.

Dominant Groups Opposing Irish and Italian Immigration

The opposition to Irish and Italian immigration was led by native-born Protestant Americans, particularly those of Anglo-Saxon descent, who viewed themselves as guardians of American cultural and political values. This group, often referred to as White Anglo-Saxon Protestants (WASPs), dominated economic, political, and social institutions in the 19th and early 20th centuries. Their resistance was articulated through nativist movements, political organizations, and influential intellectual circles.

The Know-Nothing Party, formally the American Party, emerged in the 1850s as a powerful nativist force, particularly targeting Irish Catholics. The party capitalized on anti-Catholic sentiment, promising to restrict immigration and protect Protestant values (History.com, 2017). In 1854, the Know-Nothings won significant electoral victories, including six governorships and control of several state legislatures, reflecting widespread support among Protestant working-class and middle-class voters (Immigrant Archive Project, 2017). The party’s rhetoric portrayed Irish immigrants as violent, drunken, and loyal to the Pope, incapable of assimilating into American society (Library of Congress, n.d.).

By the late 19th and early 20th centuries, opposition to Italian immigrants was similarly intense, driven by both Protestant elites and broader nativist groups. The Ku Klux Klan (KKK), re-emerging in the 1910s, opposed Catholic immigration, particularly targeting Italians and Jews alongside African Americans (Migration Policy Institute, 2024). The KKK’s propaganda depicted Italians as prone to “crimes of personal violence,” a stereotype reinforced by eugenicists like Charles Davenport, who argued that Southern Europeans were racially inferior and unfit for American society (Migration Policy Institute, 2024).

Intellectual and political elites further legitimized this resistance. The Dillingham Commission’s 1911 report, commissioned by Congress, described Southern and Eastern Europeans as racially distinct and inferior to Northern Europeans, advocating for literacy tests and race-based immigration quotas (Migration Policy Institute, 2024). These recommendations culminated in the Immigration Act of 1924, which sharply limited immigration from Southern and Eastern Europe, reflecting the influence of Protestant elites and nativist organizations like the Immigration Restriction League (Higham, 1955).

Economic competition also fueled opposition. The American Federation of Labor (AFL), representing skilled Protestant workers, supported immigration restrictions to protect wages and job opportunities, viewing Irish and Italian laborers as threats due to their willingness to work for lower wages (Migration Policy Institute, 2024). This economic anxiety was particularly acute in urban areas, where Irish and Italian immigrants competed with native-born workers in industries like construction, railroads, and manufacturing (Library of Congress, n.d.).

Security and Gang-Related Violence Associated with Irish and Italian Immigration

Irish and Italian immigrants were frequently stereotyped as inherently criminal, with their communities linked to gang activity and violence. These perceptions, while exaggerated, were rooted in real incidents that fueled nativist fears and justified restrictive policies.

For the Irish, urban slums in cities like New York and Boston became associated with crime and disorder. The Irish were concentrated in impoverished neighborhoods, living in overcrowded tenements with poor sanitation, which bred social instability (Library of Congress, n.d.). Gangs such as the Bowery Boys and the Dead Rabbits, active in New York’s Five Points district, engaged in street brawls, theft, and extortion, often along ethnic lines (History.com, 2017). The 1863 New York City Draft Riots, sparked by opposition to conscription during the Civil War, saw Irish mobs attack African Americans and government officials, resulting in over 100 deaths (Library of Congress, 2017). These riots reinforced stereotypes of Irish violence and disloyalty, as nativists accused them of undermining national unity (Higham, 1955).

Anti-Catholic violence also targeted Irish communities. In 1831, Protestants burned St. Mary’s Catholic Church in New York City, and in 1844, anti-Irish riots in Philadelphia left 13 dead (Library of Congress, n.d.). Such incidents were often provoked by nativist groups like the Know-Nothings, who incited mobs to attack Irish neighborhoods and churches (History.com, 2017). The 1854 attack on Jesuit priest John Bapst in Ellsworth, Maine, where he was tarred and feathered for opposing Protestant Bible use in schools, exemplified the violent backlash against Irish Catholic influence (History.com, 2017).

Italian immigrants faced similar accusations of criminality, particularly linked to organized crime. The emergence of the Black Hand, an extortion racket operating in Italian neighborhoods in the early 20th century, heightened fears of Italian lawlessness (Gagliarducci & Tabellini, 2022). While the Black Hand was not a centralized organization, its activities—threatening letters, kidnappings, and murders—were sensationalized by the press, cementing the stereotype of Italians as prone to violence (Higham, 1955). The 1891 lynching of 11 Italian immigrants in New Orleans, accused of murdering a police chief, underscored the vulnerability of Italian communities to mob violence and the complicity of local authorities in anti-Italian sentiment (Migration Policy Institute, 2024).

The Sacco and Vanzetti case (1920–1927) further amplified perceptions of Italian criminality. Nicola Sacco and Bartolomeo Vanzetti, Italian anarchists, were convicted of robbery and murder in a highly publicized trial marred by anti-Italian and anti-immigrant bias. Their execution, despite weak evidence, reflected the broader stigmatization of Italians as threats to public safety (Global Boston, 2019). Italian neighborhoods, like Irish ones, were often described as dangerous, with police reluctant to intervene except in large groups (Library of Congress, n.d.).

These incidents, while not representative of entire communities, were exploited by nativists to portray Irish and Italian immigrants as security risks. The association of Catholicism with disloyalty—exacerbated by fears of papal influence—further intensified these concerns, leading to calls for immigration restrictions and heightened surveillance of Catholic communities (Politico Magazine, 2015).


Integration of Irish and Italian Immigrants

The Irish and Italian immigrants who faced intense resistance in the 19th and early 20th centuries ultimately became integral to the American social, political, and economic fabric. Despite initial stigmatization as unassimilable Catholics prone to crime and disloyalty, both groups overcame systemic barriers through economic mobility, institutional support, cultural adaptation, and political engagement. Central to their integration were Catholic institutions, which provided community cohesion and countered anti-Catholic prejudice, as well as strategic alliances with labor movements and political machines.

Mechanisms of Irish Integration

The integration of Irish immigrants, who arrived in large numbers following the Great Famine (1845–1852), was a gradual process marked by economic, social, and political advancements. Initially concentrated in low-wage, unskilled labor—such as construction, domestic service, and dock work—the Irish leveraged economic opportunities to achieve upward mobility. By the late 19th century, second-generation Irish Americans were entering skilled trades, small businesses, and white-collar professions (Kenny, 2000). The expansion of public works projects, such as canals and railroads, provided steady employment, enabling many Irish families to move out of urban slums into more stable neighborhoods (Library of Congress, n.d.).

Education played a critical role in Irish assimilation. Catholic parochial schools, established in response to Protestant-dominated public schools that often required Bible readings from the King James Version, offered Irish children access to education while preserving their religious identity (Dolan, 2008). By 1900, the Catholic Church operated over 3,500 parochial schools, educating nearly one million students, many of whom were Irish (Politico Magazine, 2015). These schools emphasized discipline, literacy, and American civic values, preparing Irish youth for professional and civic roles. The Irish also benefited from public education in cities like New York and Boston, where they gained skills that facilitated entry into teaching, law, and journalism (Kenny, 2000).

Political engagement was another cornerstone of Irish integration. The Irish quickly mastered urban politics, particularly through Democratic Party machines like Tammany Hall in New York City. These machines provided jobs, housing, and social services to Irish immigrants in exchange for votes, fostering loyalty and political influence (Erie, 1988). By the 1880s, Irish politicians dominated city governments in Boston, Chicago, and New York, with figures like Boston’s Mayor Hugh O’Brien (elected 1884) symbolizing Irish political ascent (Library of Congress, n.d.). The Irish also gained prominence in national politics; by 1900, over 50 Irish Americans served in Congress, amplifying their community’s voice (Kenny, 2000).

Labor unions further aided Irish integration. Initially excluded from the American Federation of Labor (AFL), which favored skilled Protestant workers, the Irish formed their own unions, such as the Knights of Labor, which by 1886 had over 700,000 members, including many Irish Catholics (Dolan, 2008). Union activism secured better wages and working conditions, enhancing economic stability and social respectability. The Irish also used their labor influence to challenge nativist policies, advocating for fair treatment of immigrants (Erie, 1988).

The Catholic Church was a linchpin of Irish integration, serving as both a cultural anchor and a bridge to American society. Irish clergy, such as Archbishop John Hughes of New York, defended Catholic rights and established institutions like hospitals, orphanages, and mutual aid societies that supported impoverished immigrants (Politico Magazine, 2015). The Church’s emphasis on temperance and moral reform countered stereotypes of Irish drunkenness and lawlessness, while its growing influence—by 1900, Catholics comprised 17% of the U.S. population—forced Protestant elites to engage with Catholic leaders (Dolan, 2008). The Church also mediated tensions between Irish immigrants and native-born Americans, promoting civic participation and patriotism.

Mechanisms of Italian Integration

Italian immigrants, arriving primarily between 1890 and 1920, faced similar challenges but followed a distinct path to integration. Like the Irish, Italians were initially relegated to low-wage jobs, such as construction, garment manufacturing, and street vending, often in ethnically segregated neighborhoods like New York’s Little Italy and Boston’s North End (Gagliarducci & Tabellini, 2022). However, Italians achieved economic mobility through entrepreneurship and family-based enterprises. By the 1920s, Italian Americans owned thousands of small businesses, including grocery stores, barber shops, and construction firms, which provided financial stability and community leadership (Luconi, 2001).

Education was slower to take hold among Italians, who prioritized immediate economic survival over schooling. Many Italian children left school early to work, and in 1910, only 30% of Italian-American children in New York City attended school regularly, compared to 60% of native-born children (Global Boston, 2019). However, the Catholic Church and settlement houses, such as Hull House in Chicago, offered educational programs that gradually increased literacy and vocational skills. By the 1930s, second-generation Italians were attending high school and college in greater numbers, entering professions like law, medicine, and public service (Luconi, 2001).

Italian political integration lagged behind the Irish due to regional divisions—Northern and Southern Italians often distrusted each other—and a cultural emphasis on family over civic engagement. However, the Democratic Party, recognizing the growing Italian vote, began courting Italian Americans in the 1920s. Figures like Fiorello La Guardia, elected mayor of New York City in 1933, exemplified Italian political success, leveraging cross-ethnic coalitions to champion immigrant rights (Luconi, 2001). Italian Americans also gained influence through labor unions, particularly in the garment and construction industries, where leaders like Luigi Antonini of the International Ladies’ Garment Workers’ Union advocated for better working conditions (Gagliarducci & Tabellini, 2022).

The Catholic Church played a vital role in Italian integration, though its influence was initially limited by Italian immigrants’ distrust of institutional religion, rooted in anticlerical traditions from Southern Italy (Dolan, 2008). The Church responded by establishing Italian parishes, such as Our Lady of Mount Carmel in New York, which offered religious services, festivals, and social support tailored to Italian traditions. These parishes fostered community cohesion and countered stereotypes of Italian criminality by promoting family values and civic responsibility (Global Boston, 2019). The Church also mediated between Italian immigrants and native-born Americans, encouraging participation in American civic life.

Italian mutual aid societies, known as società di mutuo soccorso, were equally important. By 1920, over 2,000 such societies operated in the United States, providing insurance, job placement, and cultural preservation (Luconi, 2001). These organizations helped Italians navigate economic hardship and discrimination, fostering a sense of pride and collective identity that eased their integration.

Erosion of Anti-Catholic Prejudice

The integration of Irish and Italian immigrants was accompanied by a gradual decline in anti-Catholic prejudice, driven by demographic, political, and cultural shifts. By 1920, Catholics constituted nearly 20% of the U.S. population, making them a significant electoral and social force (Dolan, 2008). This demographic weight forced political parties, particularly the Democrats, to court Catholic voters, reducing overt anti-Catholic rhetoric. The election of Al Smith, an Irish Catholic, as New York’s governor in 1918 and his presidential candidacy in 1928 marked a turning point, though his defeat reflected lingering anti-Catholic sentiment (Politico Magazine, 2015).

World War I and World War II accelerated integration by fostering national unity. Irish and Italian Americans served in large numbers—over 800,000 Catholics served in World War I alone—demonstrating patriotism and countering accusations of disloyalty (Higham, 1955). Military service also provided economic opportunities and social mobility, as veterans accessed benefits like the GI Bill, which enabled homeownership and higher education (Kenny, 2000). Shared wartime experiences blurred ethnic boundaries, fostering a broader sense of American identity.

The racialization of Irish and Italians as “white” was another critical factor. Initially perceived as racially distinct, both groups benefited from the hardening of the black-white racial binary in the early 20th century. By aligning with white identity, Irish and Italian Americans gained access to social and economic privileges denied to African Americans and other minorities (Ignatiev, 1995). This process was evident in labor unions, where Irish and Italian workers excluded non-whites to secure better jobs, and in residential patterns, as both groups moved to racially segregated suburbs (Gagliarducci & Tabellini, 2022).

Cultural assimilation also played a role. Second- and third-generation Irish and Italians increasingly adopted American customs, such as English fluency, intermarriage with other ethnic groups, and participation in mainstream institutions like the Boy Scouts and civic clubs (Luconi, 2001). Popular culture, including films and literature, began portraying Irish and Italian Americans as quintessentially American, with figures like Frank Sinatra and Joe DiMaggio becoming national icons (Global Boston, 2019).


Contemporary Resistance, Integration, and Political Shifts

The resistance to Irish and Italian Catholic immigrants in the 19th and early 20th centuries shares striking parallels with contemporary opposition to South American immigration in the United States. Like their predecessors, South American immigrants—predominantly from countries such as Mexico, El Salvador, Guatemala, and Honduras—face nativist backlash rooted in fears of cultural incompatibility, economic competition, and security threats. Stereotypes of criminality, particularly tied to gangs like MS-13, echo historical accusations against Irish and Italian communities. Yet, as with the Irish and Italians, South American immigrants are pursuing integration through education, labor, and civic engagement, supported by religious and community institutions. Notably, some Latino communities are exhibiting a conservative shift, including skepticism toward uncontrolled immigration, mirroring the political evolution of earlier immigrant groups.

Contemporary Resistance to South American Immigration

South American immigration to the United States, particularly from Central America and Mexico, has surged since the 1980s, driven by economic hardship, political instability, and violence. By 2023, over 25 million Latinos of South American and Central American descent resided in the U.S., comprising roughly 40% of the nation’s foreign-born population (Pew Research Center, 2023). This demographic shift has provoked significant resistance, primarily from native-born white Americans, conservative political groups, and segments of the working class, who perceive these immigrants as threats to national identity, economic stability, and public safety.

The dominant groups opposing South American immigration bear similarities to the Protestant elites and nativist organizations that targeted Irish and Italian immigrants. Conservative political leaders, particularly within the Republican Party, have championed restrictive immigration policies, framing South American immigrants as economic burdens and security risks. The Trump administration’s policies, such as the 2017–2021 border wall expansion and the “zero tolerance” family separation policy, reflected this stance, drawing on rhetoric that portrayed immigrants as “invaders” (Migration Policy Institute, 2021). Grassroots movements, including vigilante groups like the Minutemen Project, have echoed historical nativist organizations like the Know-Nothings, patrolling borders and advocating for stricter enforcement (Southern Poverty Law Center, 2019).

Cultural and religious anxieties also fuel resistance. While the Catholic identity of many South American immigrants is less contentious today—given the integration of Catholicism into American society—fears of cultural “Hispanization” persist. Critics argue that Spanish language dominance and distinct cultural practices threaten America’s Anglo-Protestant heritage, a concern reminiscent of anti-Catholic fears in the 19th century (Huntington, 2004). These anxieties are amplified by conservative media outlets, which often depict Latino immigrants as unwilling to assimilate, despite evidence of high English acquisition rates among second-generation Latinos (Pew Research Center, 2023).

Economic competition remains a significant driver of opposition, particularly among white working-class communities. South American immigrants, often employed in low-wage sectors like agriculture, construction, and hospitality, are perceived as depressing wages and displacing native-born workers (Borjas, 2016). This mirrors the economic tensions that fueled Irish and Italian exclusion from labor markets, with modern labor unions, such as the AFL-CIO, adopting a more inclusive stance but still facing internal debates over immigration’s economic impacts (Migration Policy Institute, 2021).

Security and Gang-Related Violence Concerns

Security concerns, particularly around gang violence, play a central role in contemporary resistance to South American immigration, much like the gang-related stereotypes that plagued Irish and Italian communities. The Mara Salvatrucha (MS-13) gang, originating among Salvadoran immigrants in Los Angeles in the 1980s, has become a focal point of anti-immigrant rhetoric. MS-13, with an estimated 10,000 members in the U.S., is responsible for violent crimes, including extortion, drug trafficking, and murder (Congressional Research Service, 2022). High-profile cases, such as the 2017 murders of four teenagers in Long Island, New York, attributed to MS-13, have been widely publicized, reinforcing stereotypes of Central American immigrants as inherently criminal (New York Times, 2018).

These narratives parallel historical fears of Irish gangs like the Dead Rabbits and Italian extortion rackets like the Black Hand. As with those earlier groups, MS-13 represents a small fraction of the South American immigrant population, yet its actions are used to generalize entire communities. The Trump administration’s designation of MS-13 as a “transnational criminal organization” and its linkage to immigration policy intensified these associations, much like the sensationalized coverage of Italian anarchists in the Sacco and Vanzetti case (Congressional Research Service, 2022). Deportation campaigns targeting MS-13 members often swept up non-criminal immigrants, echoing the mass arrests of Irish during the 1863 Draft Riots (Migration Policy Institute, 2021).

Anti-immigrant violence has also resurfaced, reminiscent of historical attacks on Irish and Italian communities. In 2019, a mass shooting in El Paso, Texas, targeting Latinos and motivated by anti-immigrant ideology, killed 23 people, underscoring the persistence of nativist hostility (Southern Poverty Law Center, 2019). Such incidents, combined with increased Immigration and Customs Enforcement (ICE) raids in Latino neighborhoods, create a climate of fear that hinders integration, much as anti-Catholic riots did for earlier immigrants.

Integration Efforts of South American Immigrants

Despite these challenges, South American immigrants are pursuing integration through pathways similar to those of the Irish and Italians: education, labor, civic engagement, and religious institutions. Educational attainment among Latinos has risen significantly; by 2021, 63% of second-generation Latino high school students graduated on time, compared to 51% in 2000 (Pew Research Center, 2023). Community colleges and vocational programs have become key avenues for economic mobility, with many Latinos entering fields like healthcare, technology, and small business ownership (Migration Policy Institute, 2021).

Labor market participation is another pillar of integration. South American immigrants dominate sectors like agriculture (50% of U.S. farmworkers are Latino) and construction (30% of workers), contributing significantly to the economy (Bureau of Labor Statistics, 2023). Labor unions, learning from their exclusionary past, have increasingly embraced Latino workers, with organizations like the Service Employees International Union (SEIU) advocating for immigrant rights (Migration Policy Institute, 2021). Worker centers, similar to Italian mutual aid societies, provide job training and legal support, fostering economic stability.

Religious institutions, particularly the Catholic Church, play a vital role in Latino integration, much as they did for Irish and Italians. Over 60% of U.S. Latinos are Catholic, and parishes in cities like Los Angeles and Miami offer Spanish-language services, community programs, and advocacy for immigrant rights (Pew Research Center, 2023). Evangelical churches, which attract a growing share of Latinos (25% by 2020), also provide social networks and moral frameworks that encourage civic participation (Pew Research Center, 2020). These institutions counter stereotypes of criminality by emphasizing family values and community service, mirroring the Catholic Church’s role in reshaping Irish and Italian public images.

Civic engagement is increasing, though at a slower pace than among earlier immigrants. Latino voter turnout rose from 13% of the electorate in 2000 to 18% in 2020, driven by second-generation citizens (Pew Research Center, 2023). Organizations like UnidosUS and the League of United Latin American Citizens (LULAC) advocate for policy reforms, while local leaders, such as Los Angeles Mayor Karen Bass, reflect growing Latino political influence. However, barriers like voter suppression and language access issues persist, reminiscent of Irish struggles against nativist electoral restrictions (Migration Policy Institute, 2021).

Conservative Shift and Immigration Skepticism

A notable parallel between historical and contemporary immigrant groups is the political evolution toward conservatism, particularly regarding immigration attitudes. Just as second- and third-generation Irish and Italians embraced conservative values to align with white American identity, some South American immigrants and their descendants are shifting rightward. In the 2020 presidential election, Donald Trump won 38% of the Latino vote, up from 28% in 2016, with significant gains among Mexican Americans in Texas and Cubans in Florida (Pew Research Center, 2021). This trend continued in 2024, with exit polls indicating 42% Latino support for Republican candidates in key states (CNN, 2024).

Economic success and cultural assimilation partly explain this shift. As Latinos achieve middle-class status—homeownership among Latinos rose to 49% by 2022—they prioritize issues like taxes, small business support, and public safety, aligning with conservative platforms (Pew Research Center, 2023). Religious values, particularly among Catholic and Evangelical Latinos, also drive conservative stances on issues like abortion and family structure, echoing the Irish Catholic embrace of moral conservatism in the early 20th century (Pew Research Center, 2020).

Skepticism toward uncontrolled immigration is another factor. Surveys show that 45% of Latinos support stronger border security, and 30% favor reduced legal immigration levels, reflecting concerns about job competition and cultural cohesion (Gallup, 2023). This mirrors the Irish and Italian turn against newer immigrants, such as Eastern Europeans, in the early 20th century, as they sought to protect their hard-won status (Higham, 1955). For example, Cuban Americans, many of whom fled socialist regimes, often view unchecked immigration as a potential destabilizing force, a sentiment echoed by some Central American communities wary of gang infiltration (Pew Research Center, 2021).

Conclusion

The resistance to South American immigration in the United States mirrors the historical opposition to Irish and Italian Catholic immigrants, driven by fears of cultural difference, economic competition, and security threats. Stereotypes of criminality, amplified by gang narratives like MS-13, parallel the exaggerated fears of Irish and Italian lawlessness, while nativist policies and violence recall earlier anti-Catholic hostility. Yet, South American immigrants are following a familiar path to integration through education, labor, religious institutions, and civic engagement, much as their predecessors did. The conservative shift among some Latinos, including skepticism toward uncontrolled immigration, reflects a cyclical pattern in American immigration history, where assimilated groups seek to safeguard their status amid new waves of arrivals.

These parallels suggest that South American immigrants have the potential to achieve full integration, as the Irish and Italians did, provided structural barriers are addressed. Policies that promote education, economic opportunity, and civic inclusion, alongside efforts to combat nativist rhetoric, could accelerate this process. The history of American immigration reveals a recurring tension between exclusion and acceptance, but it also underscores the resilience of immigrant communities in reshaping the nation’s social and political landscape.

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Crítica: Limites da Ciência, Jorge Calado, FFMS, 2021

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«Limites da Ciência» de Jorge Calado, FFMS, 2021 [2ª edição], 220 p., ISBN 978-989-9064-27-0. Por José Braga.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos procura estudar a sociedade portuguesa, contribuindo para debater questões que a afetam. Tem-se distinguido nas áreas da Ciência e educação apoiando a publicação de ensaios e estudos sobre os temas. Foi este o contexto da publicação deste trabalho, cuja segunda edição vem confirmar o espaço existente para a temática no mercado editorial nacional. Este livro foi revisto e acrescido de um posfácio sobre a pandemia COVID-19 que nos afetou a todos.

Além do posfácio e prefácio, onde são expostos a origem e pontos de partida para esta reflexão, a obra está organizada em quatro capítulos (30 secções), «Carácter da Ciência», «Crises na Ciência», «Ciência e Capital» e «Catástrofe», possuindo um útil índice onomástico e bibliografia com obras de referência sobre os temas tratados. O aparelho iconográfico ilustra questões abordadas, demonstrando o ponto de vista exposto da proximidade entre arte e Ciência.

A Ciência nasceu da curiosidade humana e da observação da natureza. Iniciou-se com a finalidade de compreender o funcionamento desta. Surge quando o conhecimento é validado através da experiência, usando um processo de exclusão e rejeição para atingir uma conclusão. Deve-se conseguir prever o que vai acontecer, quando e como, tendo por base a Matemática.

Destas caraterísticas surgem limites internos da Ciência, os seus dogmas: axiomas, leis, regras e teoremas. Existem ainda limites provisórios, impostos pelas técnicas disponíveis. São assim alargados com o desenvolvimento da própria Ciência e tecnologia. A marcha destas é imprevisível existindo um espaço para o acaso, a serendipidade, como a mais célebre descoberta de Alexander Fleming (1881-1955), a penicilina, mas também o nylon, teflon ou velcro. Outra fronteira científica é a língua e linguagem, que permite a reprodução das experiências. Se o cientista não comunica, o seu trabalho não existe. As ideias devem ser claras e serem transmitidas de forma correta e apelativa não apenas entre pares, mas igualmente com os leigos, permitindo a discussão, divulgação e apropriação das ideias.

A fragmentação e recombinação das disciplinas cria especialização, mas também leva a um acerto de afinidades e convergência disciplinar. A tradição científica sempre apontou no sentido da junção de saberes, sendo fundamental na investigação de problemas complexos o trabalho em equipa com contribuições de várias disciplinas. A cultura abrangente permite pontes e vocabulário comum no trabalho interdisciplinar, mas também facilita a atualização na própria área de conhecimentos e as relações humanas, daí que Abel Salazar (1889-1946) defendesse que «O médico que só sabe medicina nem medicina sabe».

Os limites éticos do empreendimento científico são exemplificados através da história de alguns cientistas notáveis, caso de Fritz Haber (1868-1934) que num contexto de nacionalismos exacerbados assinou o manifesto «Pela Civilização» (1914), em que o militarismo alemão era encarado como salvador da cultura do país, e esposa, Clara Immerwahr (1870-1915) e do seu trágico final. Sublinha-se como a Guerra forjou a aliança entre Ciência, indústria e militares, mas o dever do cientista é refletir sobre as consequências da sua investigação e tornar públicos os perigos inerentes, como nas Conferências Pugwash.

Início e fim da vida humana, modificações genéticas e clonagem são também questões científicas que põem em questão os limites éticos da Ciência. Por vezes, o progresso científico é tão rápido que a consciência ética não reage atempadamente, sendo fundamental o debate continuado, supranacional, promovido pela Comissão Mundial para a Ética do Conhecimento Científico e Técnico da UNESCO.

A Ciência também pode chocar com convicções ideológicas ou religiosas, caso da oposição Criacionismo/Evolucionismo, muito acesa nos Estados Unidos da América. A censura pode atrasar os perigos, mas também prejudicar as benesses da Ciência, colocando a questão da relação da Ciência com a liberdade, florescendo aquela quando esta é cultivada.

O mau comportamento científico, fabricação de dados, falsificação ou plágio pela pressão para publicar, ambição de fama e fortuna ou necessidade de captação de financiamento são outros limites da Ciência abordados no livro. O facto de a causa para a retração de artigos ser em 43% devida a fraude e só 21 % devida a erros ou omissões coloca as questões éticas noutra perspetiva.

A ciência por projeto trouxe mais dinheiro e competição ao meio científico, passando a ser gerida por objetivos: surge uma marginalização da investigação realizada por mera curiosidade, que inclui boa parte da investigação fundamental, afetando a criatividade. Há uma urgência em produzir resultados e surge burocracia ligada à gestão do projeto, mas ganha-se em eficiência o que é indispensável nos tempos coevos e nos sectores militar e da saúde.

O uso da Ciência cria abusos dos que usam e sofrem dos seus resultados. Dá também visibilidade aos seus limites. As grandes catástrofes de origem antrópica de Bhopal, na Índia (1984), o maior desastre industrial de sempre; Chernobyl, no território da atual Ucrânia (1989), mas também as zoonoses, o tratamento ou armazenagem de lixos radioativos, o bioterrorismo, o impacto dos nanomateriais ou a inteligência artificial colocam à Ciência desafios novos na medida em que se esta está na sua origem, também tem um papel na resolução dos problemas que se levantam.

Com efeito, a Ciência não é boa nem má, dependendo de circunstâncias várias e da responsabilidade dos decisores as suas aplicações. Os perigos ligados à Ciência só podem ser moderados por uma sociedade com cultura científica e valores éticos. Valores que levem as pessoas comuns a pensar e a agir de modo sensato. Para isso é fundamental uma educação assente na transmissão daquilo que é o melhor da Humanidade a nível cultural, artístico, científico e literário, valorizando a ética e fomentando o espírito crítico.

Livro que apresenta e debate temas prementes e atuais, casa bem Ciência e Arte, surgindo como uma introdução a temas complexos de autoria portuguesa, resultando da experiência letiva e reflexões do químico e crítico cultural Jorge Calado, que regeu no Instituto Superior Técnico uma cadeira sobre estas questões. Não deve passar despercebido a quem se interessa pela Ciência.

Sobre a Casa da Guarda dos Augustos Primeiros Reis de Portugal

“No espaço que viria a ser Portugal, vigorava, desde o período condal, uma guarda que se manteve sem grandes alterações na função, ao longo de toda a cronologia estudada. Este grupo, denominado schola ou scola no início do séc. XII, encontra-se explicitamente identificado no Foral de Coimbra de 1111, que assim se referia aos companheiros do Conde D. Henrique, por oposição aos homens do Concelho. No Foral de Soure, do mesmo ano, encontramos nova referência explícita. Os documentos referidos posicionam schola – substantivo coletivo – na condição de confirmante, juntamente com o Concelho, deixando subjacente que, pelo menos no início do séc. XII, a guarda do conde se confundia com o conjunto de próceres que o acompanhavam, isto é, não existia uma distinção nítida entre um conceito de “homens da Casa de…” e o de “Guarda de…”, como viria a ocorrer mais tarde, começando a distinção a ser mais nítida em finais da centúria de Duzentos e inícios da seguinte. Em todo o caso, independentemente de conseguirmos efetuar uma destrinça clara em cronologias mais recuadas, a mesnada régia, ou seja, os companheiros de armas do rei, podiam ser entendidos como o somatório dos elementos da sua guarda e os outros colaboradores que, por integrarem o seu séquito, também o acompanhavam na guerra. Entre os constituintes da schola encontravam-se cavaleiros, escudeiros, besteiros e, provavelmente, outros auxiliares num coletivo permanente mas sem constituição fixa, para o qual a generalidade dos autores tem interpretado designações como “comilitones mei”, “meu militum”, “nostris hominibus” ou “nostro militi” como indício de pertença àquele grupo. No entanto, na maioria dos casos pode duvidar-se se estas expressões correspondem a um serviço direto na companhia do rei ou, pelo contrário, se referem apenas à relação de vassalagem para com o Monarca. É possível que alguns nomes dos companheiros dos condes de Portugal que figuram na diplomática disponível, quer como confirmantes, quer como testemunhas, fossem elementos da schola. São os casos de cavaleiros francos como Uzberto e Artaldo, este último escudeiro da Rainha D. Teresa, que terá vindo da Borgonha com o conde Dom Henrique. No Foral de Castreição (c. Trancoso), D. Sancho I referiu-se explicitamente a quatro cavaleiros, um deles, Soeiro Soares, como “homo noster” (seu e da Rainha D. Dulce) e três outros como “militibus nostri”, Afonso Pedro, Pedro Pais de Gemonde e Fernando Pais, de Entre-o-Ave-e-Este. Estes ou eram cavaleiros per naturam ou não-nobres, detentores de cavalarias atribuídas pelo rei, embora a designação toponímica da proveniência adicionada aos dois últimos possa indicar serem indivíduos de linhagem. Sem dados adicionais, não conseguimos perceber se pertenciam ou não à schola. Na doação que o mesmo Monarca faz, em 1200, a Rodrigo Martins, seu porteiro e cliente, parece-nos mais provável que pelo menos parte das testemunhas elencadas fizesse parte da guarda régia. Foram referidos D. Gonçalo Mendes, Dom Rodrigo Mendes, Vasco Mendes, Mendo, Paio, Egas e Afonso, todos “principibus et militibus” do rei. Os três primeiros eram irmãos, ricos-homens, filhos legítimos do Conde D. Mendo Gonçalves de Sousa, o Sousão, talvez sejam eles os designados por “principibus” e é certo que, na ocasião da outorga, acompanhavam o rei. Na data do documento, Gonçalo era Mordomo da Cúria e Rodrigo tinha sido Alferes-mor em 1192 e entre 1196 e 1198. Vasco não tinha ocupado nenhum cargo palatino e é possível que, por essa razão, ao contrário dos seus irmãos, não tenha sido distinguido com o designativo “domno”. Os restantes quatro, talvez sejam os mesmos que o documento refere como “militibus”. Não podendo estar certos de que todos os sete cavaleiros faziam parte da schola, é verosímil a hipótese de que pelo menos os três Sousões a ela pertencessem à data da outorga. A schola funcionaria como um grupo permanente e fixo, mas socialmente heterogéneo, que tinha de estabelecer uma boa articulação sob o ponto de vista militar. Entre as suas tarefas contar-se-ia a guarda pessoal do Monarca, com especial preponderância para a sua proteção e do seu pendão no campo de batalha, mas também a atribuição de missões em autonomia, como pode ter sido o caso de Vasco Mendes, que surge como executor da destruição da quintã de Lourenço Vasques da Cunha, em 1210, a mando de D. Sancho I A heterogeneidade dos cavaleiros da schola poderia estar patente no equipamento que possuíam. Entretanto, à medida que os companheiros dos reis foram sendo cada vez mais provenientes de uma nobreza que se tendeu a encerrar como grupo social, é natural que as panóplias se fossem uniformizando, a ponto de se verificar, como salientou José Mattoso, que só os cavaleiros que constituíam as mesnadas dos reis e grandes senhores tinham a capacidade de se equipar com a vanguarda do equipamento disponível e ainda substituir regularmente os cavalos perdidos na guerra. Tal remete também para a escassez quase constante e para o elevado custo de equipamento militar e justifica um uso que perdurou durante toda a Idade Média, a satisfação da lutuosa, bem descrita ao tempo de D. Afonso III, através do Regimento da Casa Real, de 1258. O degredo 20º determinava que, por morte de um cavaleiro, fosse dado ao rei o cavalo do defunto ou cem morabitinos, dos que o soberano lhe dava em soldada durante a vida, bem como a loriga, lorigão e armas. O rei faria então mercê destas armas e cavalo ao cavaleiro que o substituísse. Como qualquer corpo militar que se pretende coeso, os cavaleiros da schola deveriam praticar rituais de iniciação. Mesmo sem um ideário de cavalaria completamente consolidado, como se verificaria a partir da segunda metade do séc. XIII, a investidura era praticada e constituía um acontecimento marcante e extraordinário. Infelizmente não dispomos de dados que nos permitam identificar estes procedimentos, mas temos ecos da ascensão à categoria de cavaleiro no seio do corpo que acompanhava o Monarca, no caso de Gonçalo Pais Taveira, armado cavaleiro por D. Afonso II e tendo feito parte da Casa do Rei. Um outro grupo integrante da guarda régia era o dos escudeiros, cujas referências documentais podem ser detectadas em continuidade quer no período condal, quer nos primeiros cinco reinados. A designação tem um sentido funcional, correspondente a uma posição inferior à do cavaleiro, podendo este ser fidalgo ou vilão, embora possamos presumir que entre os cavaleiros da schola, só figurassem, ou pelo menos predominassem, escudeiros nobres (…)”.

 – “A Guerra Cristã na Formação de Portugal – 1128-1249”, de Carlos Filipe Afonso.

The Disparity Between Islamic Ideals and the Treatment of Women in the Modern Muslim World: A Cultural and Historical Analysis

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The Disparity Between Islamic Ideals and the Treatment of Women in the Modern Muslim World: A Cultural and Historical Analysis

Introduction

Islam’s foundational texts—the Quran and the Hadith—present a nuanced view of women, emphasizing their spiritual equality with men while delineating distinct social roles. Emerging in 7th-century Arabia, these principles challenged a deeply patriarchal tribal society, granting women unprecedented rights to inheritance, property, and marital consent. Yet, in much of today’s Muslim world, women face systemic mistreatment—restricted education, enforced veiling, honor-based violence—that seems at odds with these early ideals. This essay argues that the poor treatment of women in contemporary Muslim-majority societies stems not primarily from Islam’s core teachings but from the persistence of pre-Islamic cultural traditions, amplified by selective scriptural interpretations, historical shifts, and modern political agendas. Drawing on Quranic exegesis, historical accounts, and current data, it seeks to untangle the religious from the cultural, offering a comprehensive analysis of this disparity.


Women in Early Islam: Quranic Ideals and Historical Context

Islam’s advent in pre-Islamic Arabia marked a significant shift in women’s status. The Quran asserts spiritual equality unequivocally: “O mankind, We created you from a single male and female, and made you into nations and tribes” (Quran 4:1, Nasr, 2015). This verse, coupled with the absence of an “original sin” narrative blaming women, contrasts with other religious traditions of the era (Esposito, 2005). Women were granted concrete rights: inheritance (Quran 4:11), property ownership, and the ability to initiate divorce (Quran 2:229). Marriage required mutual consent, with dowries paid to brides, not their families (Quran 4:4), a stark departure from treating women as chattel.

Pre-Islamic Arabia, however, was a harsh backdrop. Tribal norms sanctioned female infanticide—condemned in Quran 81:8-9—and excluded women from legal or economic agency (Hitti, 1970). Polygamy was unrestricted, and widows were inherited like property. Islam curtailed these practices, limiting polygamy to four wives with the condition of equal treatment (Quran 4:3), a proviso many scholars argue is deliberately stringent (Rahman, 1982). Quran 4:34, stating “men are the maintainers of women,” assigns men a protective role, often interpreted as stewardship rather than dominance (Barlas, 2002).

Historical figures underscore this potential. Khadijah, Muhammad’s first wife, was a wealthy merchant who proposed to him, embodying economic independence (Ahmed, 1992). Aisha, a later wife, became a scholar and military leader, narrating over 2,000 Hadiths and advising the early Muslim community (Spellberg, 1994). These examples suggest that early Islam envisioned women as active participants, not passive subordinates.


The Persistence of Pre-Islamic Traditions

Despite these reforms, pre-Islamic cultural norms endured, often overshadowing Islam’s egalitarian impulses. Honor-based violence exemplifies this. In Pakistan, approximately 1,000 women are killed annually in “honor killings” for perceived moral breaches (Human Rights Watch, 2022). The Quran offers no justification for such acts; instead, they echo pre-Islamic tribal codes valuing family reputation over individual rights (Welchman & Hossain, 2005). Similarly, Saudi Arabia’s male guardianship system—until loosened in 2019—required women to seek male permission for travel or marriage, a practice rooted in Bedouin traditions of lineage control, not a direct Quranic mandate (Yamani, 2000).

In South Asia, cultural imports complicate the picture. Child marriage and dowry violence, prevalent among Muslim communities in Pakistan and India, predate Islam’s arrival via the Mughal Empire (Engineer, 2008). The Quran sets no marriage age but emphasizes maturity and consent (Quran 4:6), yet South Asian customs often override this. In Iran, mandatory veiling enforced since the 1979 Revolution blends pre-Islamic Zoroastrian norms—where elite women were secluded—with revolutionary zeal, exceeding the Quran’s modest dress guidelines (Quran 24:31) (Mottahedeh, 2000).

Anthropologist Lila Abu-Lughod (2013) labels these “cultural accretions,” arguing they reflect patriarchal power structures rather than religious necessity. Polygamy, permitted but regulated in Islam, often reverts to its pre-Islamic excess in practice—e.g., in rural Yemen or sub-Saharan Africa—lacking the justice Quran 4:3 demands. These examples illustrate how old habits, absorbed into Islamic societies, distort the faith’s original intent.


Interpretive Distortions and Patriarchal Reinforcement

Islamic texts, while progressive for their time, contain ambiguities that invite interpretation. Quran 4:34—“Men are the maintainers of women, because Allah has made some of them excel others, and because they spend of their wealth”—is a flashpoint. The subsequent phrase, often translated as permitting men to “strike” disobedient wives, has been debated for centuries. Feminist scholars like Asma Barlas (2002) argue it means “to separate” or “to admonish,” citing linguistic nuance and the Prophet’s non-violent example. Yet, conservative exegesis, dominant in places like Afghanistan, amplifies it to justify control (Rahman, 1982).

Historical shifts reinforced this trend. The Abbasid Caliphate (750-1258) codified Sharia, blending Arab tribal customs with Islamic law, a process that often sidelined women’s agency (Ahmed, 1992). Colonialism (18th-20th centuries) further entrenched patriarchy; Western powers propped up local elites who resisted modernization by clinging to “tradition,” including gender norms (Moghadam, 2003). Post-colonial states like Pakistan or Egypt inherited these dynamics, with religious authorities amplifying patriarchal readings to assert identity against Western influence.

Modern political Islam compounds the issue. Iran’s theocracy post-1979 imposed strict gender codes, framing them as Islamic despite their cultural roots (Mottahedeh, 2000). Saudi Wahhabism, exported globally, prioritizes male authority, drawing on 18th-century tribal revivalism rather than the Quran’s broader spirit (DeLong-Bas, 2004). The Taliban’s 2021 resurgence in Afghanistan—banning girls’ education and enforcing burqas—lacks Quranic precedent but aligns with Pashtunwali, a pre-Islamic tribal code (UN Women, 2022). These movements show how interpretation, fused with politics, can eclipse Islam’s egalitarian potential.


Contemporary Realities and Regional Variations

The modern Muslim world presents a stark gender gap. The 2023 Global Gender Gap Report ranks Afghanistan (152nd), Yemen (149th), and Pakistan (142nd) among the lowest globally for women’s education, economic participation, and political empowerment (World Economic Forum, 2023). In Afghanistan, Taliban policies since 2021 bar girls from secondary school and mandate male chaperones, restrictions absent from the Quran or Hadith (UN Women, 2022). Yemen’s civil war has worsened child marriage rates, with 32% of girls wed before 18, a practice tied to poverty and custom, not religion (UNICEF, 2023).

Contrastingly, some Muslim-majority states show flexibility. Tunisia’s 1956 Personal Status Code banned polygamy and expanded women’s rights, citing Islam’s justice ethos (Charrad, 2001). Turkey’s secular reforms under Ataturk granted suffrage in 1934, though Erdogan’s recent policies signal a conservative rollback (Arat, 2010). Indonesia, the largest Muslim nation, hosts progressive groups like Fatayat NU, which reinterpret texts to promote gender equity (Badran, 2009).

Yet resistance persists. Iran’s 2022 protests over Mahsa Amini’s death—killed for improper hijab—highlight backlash against cultural-religious fusion (Amnesty International, 2023). Morocco’s 2004 Moudawana reforms, expanding women’s rights, face clerical pushback despite Quranic grounding (Sadiqi, 2008). These variations underscore that Islam adapts to context, but entrenched patriarchy—often mislabeled as “Islamic”—hinders progress.


Conclusion

The mistreatment of women in the modern Muslim world reflects a complex interplay of pre-Islamic cultural legacies, interpretive distortions, and historical-political forces. The Quran and early Islam offered a framework for gender equity—spiritual equality, legal rights, and active roles—unmatched in 7th-century Arabia. Yet, tribal norms like honor codes, guardianship, and polygamy persisted, merging with selective readings of ambiguous verses to entrench patriarchy. Colonialism, post-colonial identity struggles, and modern Islamist movements further widened the gap between ideal and reality. While reformist efforts in Tunisia, Indonesia, and elsewhere reclaim Islam’s egalitarian roots, the dominant narrative remains shaped by culture masquerading as religion. Addressing this disparity demands a critical disentangling of the two—a task both scholarly and societal.


Bibliography

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  • Welchman, L., & Hossain, S. (Eds.). (2005). ‘Honour’: Crimes, Paradigms, and Violence Against Women. Zed Books.
  • World Economic Forum. (2023). Global Gender Gap Report 2023. [Online].
  • Yamani, M. (2000). Feminism and Islam: Legal and Literary Perspectives. NYU Press.

Edição: Março 2025

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Manutenções climáticas: este mês, temos revoluções liberais na península, marketing social, Morris Weitz, gatekeeping e newsmaking, Jane Eyre e a tradição gótica, a ética do guerreiro, analogia: WW2 Europa e Ucrânia, neoconservadores = comunistas, o vulgar em Aristófanes, uma presidência da Cristina, cerco de Lisboa, idade média em Portugal, pais portugueses e castelhanos, como Sebastianistas não são bons portugueses, palavras mal usadas, sugestões de leitura, Sinais de Fogo, Mulholland Drive revisited, os melhores números de comédia de sempre e fotografia.

ENSAIO

As revoluções liberais na Península Ibérica (Século XIX): origens, semelhanças e contrastes

Análise das revoluções liberais do século XIX na Península Ibérica, destacando suas origens (crise económica, ideias iluministas), semelhanças (luta por constituições) e contrastes (Portugal focado na monarquia, Espanha em guerras civis).

Marketing Social: Da Evolução à Ação Sustentável

Sobre a evolução do marketing social, destacando o seu papel na promoção de comportamentos sustentáveis. Enfatizam-se estratégias éticas, o envolvimento da comunidade e o impacto a longo prazo, visando uma sociedade mais consciente e responsável.

A objetividade do conceito de ‘arte’ a partir de Morris Weitz

Será o conceito de ‘arte’ definível? Será a arte algo de tal forma subjetivo que seja impossível de apresentar uma definição para a mesma, ou existe, ainda que de uma maneira bastante geral, um carácter objetivo naquilo ao qual atribuímos a designação de ‘arte’?

Gatekeeping e Newsmaking

Dois pontos sobre teoria dos média: o papel de gatekeeping como filtro das informações, moldando a realidade social, e o aspecto do newsmaking como foco na produção e relevância noticiosa.

Jane Eyre, the skeptic Penny Dreadful: Charlotte Brontë’s Realistic incorporation of the Gothic Tradition

Regarding Charlotte Bronte’s Jane Eyre, how can a novel be analyzed and studied when removed from its historical and literary context? This essay aims to demonstrate that the key to complete and utter understanding of even the most concealed aspects of a literary piece is to look at it from a contextualized perspective.

O Sentido no Sofrimento, o Exaspero da Morte, e a Ética do Guerreiro

Teorias sobre a vida e a morte em quatro grandes filósofos da história ocidental: Platão, Heraclito, Nietzsche, e Aristóteles.

Arquitectura.

CRÓNICA

Analogias: WW2, Europa e Ucrânia

Trump não é o Chamberlain de 1938: está a tentar dividir a Ucrânia com Putin, como Estaline fez com Hitler em 1939. Quem está a fazer o papel de Chamberlain, tanto o de 1938, como o de 1939, é a Europa.

Neoconservatives: Left-Wing Revolutionaries in Conservative Disguise

On neoconservatives, ex-communist radicals, masqueraded as conservatives, pushing a Trotskyist war agenda and subverting U.S. constitutional values. Their circumstantial patriotism and GOP dominance led to failures like Iraq, echoing leftist utopian flops.

O Vulgar, o Alegórico e as Mulheres em Três Peças de Aristófanes

Sobre dimensões pouco conhecidas para o leitor comum presentes em peças dramáticas da antiguidade: o uso de tropos boçais, uma alegoria com proto-comunismo e esboços de feminismo anti-patriarcal.

Uma Presidência da Cristina

Na continuação da série de putativos candidatos à presidência da república portuguesa em 2025, temos Cristina Ferreira, a mulher que conquistou o entretenimento, a moda e até a literatura de autoajuda com títulos como “Pra Cima de Puta”.

Apesar de ser brincadeira, por vezes isto acontece.

ARTES VISUAIS

Fotografias: Veias de Lisboa em Transe

Série temática de fotografias dedicadas à cidade de Lisboa, focadas em cenas da paisagem urbana.

Os Cinco Melhores Números de Comédia de Todos os Tempos

Registos vídeo e apontamentos históricos com os melhores números de comédia de sempre, re-encenações de tropos antigos, em Who’s On First, Dead Parrot, Modern Times, Safety Last, Duck Soup.

Dois pontos, ou o mesmo ponto, sobre trabalho — na academia e não só.

RUBRICA

Excerto de Fernão Lopes sobre o sofrimento das gentes de Lisboa, no cerco de 1384

Excerto da Crónica de D. João I, cap. CXLVIII, sobre o sofrimento das gentes de Lisboa no cerco de 1384.

Sobre a Idade Média em Portugal, sociedade de grande envergadura e prosperidade

Excerto que corresponde a uma boa fatia de um extenso capítulo, o II da obra ‘Paixão e Graça da Terra, de Luís de Almeida Braga.

Como um Pai Português foi desmembrado por se recusar a ordenar ao Filho que entregasse o Castelo ao Castelhano [1383]

Excerto da “Crónica de D. Fernando”, cap. LXXIX, de Fernão Lopes, relatando um dramático episódio.

Como os Sebastianistas e os apologistas do Quinto Império não são bons Portugueses, um excerto

Uma passagem da Crónica de D. Fernando, cap. LXXIX, de Fernão Lopes.

Armas — no masculino e no feminino.

Sugestões de Literatura: Novidades na Filosofia

Rubrica já habitual em que, com a ajuda das magníficas críticas da Notre Dame Philosophical Review, trazemos aos nossos leitores alguns títulos recentemente lançados do mercado editorial da filosofia, que vão desde obras generalistas até a estudos mais especializados.

Palavras Mal Usadas #4 — Oligarquia, Sororidade, Liberal, Queer, etc.

Recuperamos uma rubrica a que pontualmente acrescentamos itens, sempre dominados pelo seu uso contemporâneo — e às vezes o critério de contemporâneo pode ser tão estrito como a recorrência do uso de determinada palavra ao longo de período curto de poucos meses.

América!

CRÍTICA

Crítica: Sinais de Fogo, Jorge de Sena, 1979

Romance de formação artística, inacabado e vagamente autobiográfico, Sinais de Fogo não é um grande romance nem retrata a formação de um grande artista.

Vamos ter eleições!

Crítica: Defesa Freudiana de Aspectos de uma Narrativa em Mulholland Drive (David Lynch, 2001)

Um argumento a favor de um impulso de interpretação inteligível aplicado até a obras abstractas ou semi- abstractas como Mulholland Drive.

Funnnies! Este mês sobre religiões.

Retrato de Dolores Olmedo Patiño (ca. 1908–2002) por Diego Rivera. Dolores foi patrona das artes, filantropa e fundadora do Museo el Olmedo, tendo sido responsável por a maioria das obras de Rivera e de Frida Kahlo se manterem em solo mexicano.

Novas realidades tecnológicas na Educação

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Francisca Silva e Rafael Coelho. Resumo O presente artigo pretende abordar as novas realidades tecnológicas e como elas são utilizadas no ensino. É feita uma abordagem sobre a realidade aumentada, a realidade virtual e a inteligência artificial, ainda é realizado um estudo de caso sobre as seguintes tecnologias. As tecnologias são ferramentas que não podem ser evitadas dentro da sala de aula, devido a isso e a evolução contínua da tecnologia em si, é necessário conhecer as novas realidades que vêm surgindo. Com as novas realidades é essencial entender como elas podem e devem ser utilizadas na educação de maneira a facilitar a mesma. Compreender os seus benefícios e dificuldades permite o total entendimento de como é possível o ser humano utilizar ao seu favor estes dispositivos. No final do artigo é apresentado um inquérito feito à estudantes para entender melhor a opinião sobre estas novas realidades tecnológicas e o futuro delas no ensino. Palavras-chave: tecnologias, ensino, realidades, novas

Novas realidades tecnológicas na educação

Introdução

A investigação presente neste trabalho, no âmbito da unidade curricular de Media e Cultura Contemporânea do terceiro ano da licenciatura do curso de Ciências da Comunicação, tem como ponto de partida analisar o impacto das novas tecnologias no setor da educação, considerando as suas contribuições para uma construção de uma aprendizagem mais dinâmica e inclusivos. Além disso, explora-se os desafios que estas novas realidades tecnológicas trazem consigo, como a necessidade de formação dos docentes e a reflexão sobre os limites éticos e pedagógicos sobre o seu uso nas escolas/universidades.

As novas tecnologias transformam e modificam os métodos tradicionais da educação, permitindo abordagens mais interativas e personalizadas. Ferramentas como a realidade aumentada, realidade virtual e a inteligência artificial potencializam o acesso ao conhecimento, transformando a experiência de ensino para uma experiência muito mais criativa, fomentando o pensamento crítico nos alunos. Assim, ao abordar a relação entre as novas realidades tecnológicas e a educação, propõe-se um olhar crítico sobre como estas novas tecnologias moldam as novas práticas do ensino e de que forma irão contribuir para a formação de cidadãos.

As tecnologias na educação

Os aparecimentos das tecnologias causaram uma série de questões tanto para a vida cotidiana como para a sala de aula. Com estes aparelhos foi gerada uma nova maneira de comunicação e de acesso à informação com rapidez e precisão. (Almeida; Cantuária & Goulart, 2021) A evolução da tecnologia abriu portas para um fluxo de comunicação e partilha de informação, o que permitiu uma maior interação nos métodos de aprendizagem. Com este avanço as maneiras de ensino foram alteradas. (Almeida; Cantuária & Goulart, 2021) Agora com as tecnologias o professor precisou de se adaptar a estas novas realidades, exigem uma construção de conhecimento perante as tecnologias para conseguir a partilha de informação. (Almeida; Cantuária & Goulart, 2021)

Quando em sala de aula, as tecnologias criam um ambiente mais participativo e no ensino já é necessário que sejam instruídas como as utilizar para assim os alunos poderem ter um leque de habilidades para o futuro. (SANTOS, 2010 citado por Almeida; Cantuária & Goulart, 2021, p.306) Ao usar as tecnologias durante o ensino possibilita os alunos adquirir uma data de qualidades como, por exemplo, imaginação e espírito crítico. Tornaram-se ferramentas essenciais para o progresso dentro da sala de aula. (Calvacante, 2012, citado por Almeida; Cantuária & Goulart, 2021, p. 309)

Atualmente, é essencial que os professores sejam criativos e estejam dispostos a empregar as tecnologias como ferramentas para promover a interação no ensino. Devido a funcionalidade dos recursos pedagógicos que tornam as atividades em sala de aula mais eficazes, o que facilita o compartilhar de experiências e fortalece a relação entre o docente e aluno. (Almeida; Cantuária & Goulart, 2021)

Realidade aumentada

O primeiro sistema de realidade aumentada (RA) foi desenvolvido na Universidade da Carolina do Norte, com o objetivo de auxiliar na aprendizagem da anatomia tridimensional. Esse sistema utilizava um dispositivo com uma tela acoplada à cabeça, permitindo a visualização de modelos em três dimensões (Garzón, 2021).

Na era da tecnologia, o ensino tem se adaptado às inovações, utilizando-as para diversificar os métodos pedagógicos. A realidade aumentada é uma ferramenta que integra o mundo real ao ambiente digital, criando uma interação dinâmica entre ambos (Garzón, 2021). Por meio de dispositivos tecnológicos capazes de suportar suas configurações, a RA projeta imagens tridimensionais, oferecendo uma experiência imersiva que supera as limitações de tecnologias tradicionais ainda presentes nas salas de aula (Celestino et al., 2020).

A RA promove a acessibilidade e a partilha de informações, contribuindo para a evolução tanto na educação quanto em diversos ambientes profissionais (Garzón, 2021). Com sua integração ao ensino, novas abordagens pedagógicas podem ser desenvolvidas, permitindo, por meio de um único dispositivo, a criação de uma ampla variedade de experiências visuais e interativas (Garzón, 2021).
Para aproveitar plenamente os benefícios dessa tecnologia, é essencial que o sistema educacional a incorpore de forma estratégica, explorando seu potencial para enriquecer o processo de aprendizagem (Garzón, 2021).

2.1. Realidade aumentada no ensino

A realidade aumentada (RA) tem sido aplicada em diversos setores do ensino, como engenharia, saúde e design, por meio de ferramentas específicas. Iniciativas como o MetaVisión, por exemplo, desenvolvem soluções que integram a RA ao ensino, promovendo uma aprendizagem mais participativa e interativa (Villarán, Ibañez, & Delgado Kloos, 2015, citado por Fernandez, 2017, p. 5).

Na área da saúde, a RA permite que professores utilizem modelos digitais do corpo humano para explorar seus componentes de forma detalhada. É possível segmentar partes específicas, acessar informações relacionadas e promover interatividade, possibilitando que os estudantes manipulem esses modelos e trabalhem ativamente com o conteúdo (Ibáñez, Di Serio, Villarán, & Delgado Kloos, 2014, citado por Fernandez, 2017, p. 5).

Na engenharia, a RA também oferece benefícios significativos. Docentes podem criar modelos digitais de infraestruturas arquitetônicas, permitindo que os alunos realizem tarefas individuais ou colaborativas. Em projetos em grupo, a tecnologia facilita a interação em tempo real, promovendo uma comunicação dinâmica e aprimorando a qualidade do trabalho desenvolvido (Ibáñez, Di Serio, Villarán, & Delgado Kloos, 2014, citado por Fernandez, 2017, p. 5).

No campo do design, a RA é utilizada para visualizar digitalmente ideias e projetos, simulando materiais e dimensões reais sem a necessidade de produção física. Essa abordagem permite que os usuários testem e apresentem conceitos de forma prática e eficiente, explorando o potencial do produto no ambiente real por meio de dispositivos (Di Serio, Ibáñez, & Delgado Kloos, 2013, citado por Fernandez, 2017, p. 5).

2.2. Benefícios proporcionados por esta tecnologia

Criatividade e perceção: a RA contribui para uma aprendizagem mais imersiva e cria um meio de aprendizagem mais impulsionador para a criatividade e perceção do estudante, e projetem as suas ideias visualmente com maior facilidade. (AYER; MESSNER; ANUMBA, 2016; MANRIQUE-JUAN, C. et al., 2017, citado por Ferenhof et al, 2019). Interatividade e colaboração: a utilização desta tecnologia pauta-se pela interatividade e faz com que os alunos se comuniquem tanto entre si como com os docentes. A possibilidade de imaginação com esta tecnologia é imensa porque ela permite interação e colaboração dentro e fora de aula, consequentemente os estudantes podem conhecer novas realidades e construir ambientes onde possam interagir de maneira a desenvolver projetos. (BILLINGHURST; DUENSER, 2012 citado por Ferenhof et al, 2019). Muitas plataformas de RA permitem que os alunos trabalhem em equipa, e, ao interagirem com o mesmo conteúdo ao mesmo tempo, compartilhem ideias e soluções. Esse tipo de colaboração ativa melhora as habilidades de comunicação e trabalho em grupo, além de criar uma atmosfera de aprendizagem mais dinâmica. (BILLINGHURST; DUENSER, 2012 citado por Ferenhof et al, 2019). Aprendizagem Adaptativa: com a RA, é possível criar experiências de aprendizagem adaptadas a cada aluno. As atividades podem ser ajustadas em termos de dificuldade e ritmo, de acordo com o progresso individual. Isto é útil em contextos educativos diversificados, onde alunos com diferentes níveis de habilidade podem beneficiar de uma abordagem mais personalizada. (Garzón, 2021)

2.3. Dificuldades apresentadas por esta tecnologia

Acessibilidade: a acessibilidade refere-se ao parâmetro das pessoas que têm algum tipo de deficiência e como é dada a possibilidade de as tecnologias serem usadas por qualquer pessoa. As ferramentas que utilizam a RA ainda não estão adaptadas para suprir todas as necessidades destas pessoas e devido ao grande uso por parte destes indivíduos com deficiência, é necessário a melhoria destes dispositivos para permitir uma aprendizagem mais dinâmica. (Garzón, 2021). Usabilidade: exige uma compreensão sobre a tecnologia para ser usada e esse é um dos pontos que pode dificultar a sua utilização. Para usufruir da mesma é necessário que os estudantes tenham um conhecimento prévio, façam multitarefas, usem da sua atenção, por isso com o avanço desta tecnologia é essencial encontrar maneiras que permitam o fácil enquadramento na sala de aula. (Garzón, 2021). Disseminação: quando um indivíduo quer usar a RA a ferramenta exige um download e uma instalação e até plataformas específicas para atuar, logo este processo acaba por cansar os utilizadores pela demora. Além disso, esta tecnologia reside em uma plataforma apenas e necessita de constante desenvolvimento para se inserir em diferentes plataformas. A RA acaba por se limitar neste aspecto e para melhorar a disseminação da mesma é preciso derrubar estas barreiras. (Garzón, 2021)

Realidade Virtual

A Realidade Virtual (RV) surgiu na década de 60, com o desenvolvimento do ScketchPad por Ivan Sutherland. No entanto, só na década de 90 é que ganhou força, graças ao grande avanço tecnológico que permitiu o uso de sistemas gráficos interativos em tempo real. (Kirner e Siscoutto, 2007)

Os inícios não foram de fácil popularização, uma vez que eram necessários equipamentos específicos como capacete, luvas, óculos estereoscópicos, mouses 3D e muito mais. Posto isto, uma “viagem” para um ambiente virtual totalmente desconhecido não fornecia confiança às pessoas. (Kirner e Siscoutto, 2007)

A Realidade Virtual é o uso de tecnologias avançadas para proporcionar ao usuário uma sensação de imersão numa realidade alternativa. Promove e permite um envolvimento e uma interação total da pessoa, fazendo-a acreditar que está num outro ambiente. Reduz a distância entre o usuário e a simulação, superando todas as limitações que os sistemas de operação tradicionais colocam. (Braga, 2001)

Graças a este grande avanço tecnológico, tudo é mais rápido e fácil, tornando a Realidade Virtual acessível não apenas aos grandes centros de pesquisa, mas também à educação. (Braga, 2001)

3.1. Realidade Virtual na Educação

Uma das grandes questões colocadas sobre a Realidade Virtual é sua compatibilidade com a Educação. A RV é vista como um instrumento poderoso que irá ser uma catapulta para a evolução do ensino. (Braga, 2001)

A Educação, à semelhança da Realidade Virtual, é um processo de descoberta, observação e construção de conhecimento, porém, com estas duas interligadas, haverá a possibilidade de aprendermos sobre lugares, sítios de difícil acesso. (Braga, 2001)

Destacam-se os benefícios que esta ferramenta “poderosa” terá na aprendizagem, tais como: maior interesse e motivação por parte dos alunos, capacidade única de ilustrar os processos e objetos de forma mais eficaz e concreta, análise profunda e pormenorizada ou até mais distante (se for o caso) e permite às pessoas com deficiência a oportunidade de realizar tarefas que não são possíveis. (Braga, 2001)

Contudo, a utilização da Realidade Virtual acarreta barreiras que impossibilitam o uso desta ferramenta ao nível escolar. Os elevados custos na sua implementação, o despreparo dos professores, a falta de métodos, de técnicas, de ferramentas de desenvolvimento e até mesmo o próprio envolvimento de equipas multidisciplinares colocam esta questão muito longe do setor da educação. (Braga, 2001)

3.2. Realidade Virtual no Ensino Especial

A Realidade Virtual está a revolucionar o ensino especial, ao proporcionar ferramentas inovadoras para ajudar as necessidades individuais de alunos com deficiência. Temos o exemplo das crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA), que demonstram défices na área da comunicação, interação social e comportamental. Segundo um estudo em 1996, duas crianças com TEA responderam aos cenários virtuais de forma significativa, o que torna relevante o potencial uso da RV na aprendizagem. (Afonso et al, 2020)

O uso desta tecnologia nestes alunos tem como principal objetivo melhorar a qualidade do trabalho do professor, permitindo a interação e a comunicação. (Afonso et al, 2020)

Outra temática são os alunos com deficiência auditiva. Tendo em conta que vivemos numa era tecnológica, estes alunos são facilmente inseridos no mundo digital. Como são principalmente indivíduos visuais, a interação com a realidade virtual fornece estímulos deste foro, sendo captados de forma mais eficaz, o que motiva um aluno surdo para a parte escrita e literária. (Afonso et al, 2020)

3.3. Anatoml 3D: Realidade Virtual no Ensino da Medicina

Ao longo da história, a medicina tem evoluído significativamente, graças às descobertas científicas e avanços tecnológicos. Desde a invenção do microscópio até ao uso da inteligência artificial, cada passo dado contribuiu para melhorar o diagnóstico e o tratamento dos doentes. (Monteiro et al. 2006)

Nos últimos anos, a Realidade Virtual surgiu como uma das inovações mais promissoras na área da medicina não só nos exames e simulação de procedimentos mais detalhados, como também na preparação e ensino de profissionais de saúde. (Monteiro et al. 2006)

Anatoml 3D é um atlas de anatomia baseado em RV gratuito que proporciona uma experiência interativa, mostrando modelos tridimensionais do corpo humano com descrições textuais detalhadas sobre cada estrutura. Esta ferramenta permite uma visualização tridimensional, de forma a garantir a sua veracidade em relação às estruturas reais do organismo. Possibilita ainda uma interface bastante imersiva, facilitando o estudo e a análise aprofundada do ambiente que o usuário está a explorar. (Monteiro et al. 2006)

No ponto de vista académico, estudantes de medicina veem Anatoml 3D como uma alternativa aos atlas existentes que não garantem visualização presencial da estrutura do corpo humano e aos livros de medicina que têm limitações ao nível visual, proporcionando-lhes assim, uma melhor consolidação do conhecimento. (Monteiro et al. 2006)

Inteligência Artificial

A inteligência artificial (IA) representa um dos desenvolvimentos tecnológicos mais importantes das últimas décadas, tendo um impacto significativo em diversos domínios, incluindo a educação.

É um domínio tecnológico em expansão, capaz de alterar todos os aspetos das nossas interações sociais. Na educação, a IA começou a produzir novas soluções de ensino e aprendizagem que estão atualmente a ser testadas em diferentes contextos. (Pedro et al., 2019).

Trata-se da ciência e engenharia de criar máquinas inteligentes, especialmente programas de computador inteligentes. Está relacionada com a tarefa semelhante de usar computadores para compreender a inteligência humana, mas a IA não tem de se limitar a métodos que sejam biologicamente observáveis. (McCarthy, 2004).

Uma das vantagens mais importantes da IA na educação é a capacidade de personalizar a aprendizagem. Os sistemas educativos baseados em IA, como sistemas de tutoria inteligente, chatbots e avaliações automatizadas, podem adaptar o processo de aprendizagem às necessidades individuais dos alunos, permitindo-lhes aprender ao seu próprio ritmo e de acordo com as suas preferências e o tempo disponível. (Ballantine & Stoner, 2024).

4.1 Três Tipos de Inteligência Artificial (IA)

Inteligência Artificial Estreita (ANI)

Também conhecida como IA Fraca, a ANI é projetada para desempenhar tarefas e funções específicas. Destaca-se numa área específica, mas não consegue realizar tarefas além do seu âmbito programado. Exemplos incluem sistemas de recomendação, assistentes virtuais (como a Siri ou a Alexa) e software de reconhecimento de imagens. (Russell et al., 2021).

Inteligência Artificial Geral (AGI)

A AGI, ou IA Forte, refere-se a máquinas com a capacidade de aprender, compreender e aplicar conhecimentos numa ampla gama de tarefas – de forma semelhante à inteligência humana. Estes sistemas são capazes de realizar qualquer tarefa intelectual que um ser humano consiga. (Goertzel, 2007).

Inteligência Artificial Superinteligente (ASI)

A ASI representa sistemas de IA que ultrapassam a inteligência humana em todos os aspetos, incluindo criatividade, resolução de problemas e inteligência emocional. Este tipo de IA é especulativo e ainda não foi alcançado. (Bostrom, 2014).

4.2 Vantagens da Inteligência Artificial (IA)

Uma das principais vantagens da inteligência artificial é que as suas decisões são baseadas em factos, e não em emoções. Mesmo com o máximo esforço, é um facto bem conhecido que as decisões humanas são frequentemente influenciadas de forma negativa pelas emoções.

Os benefícios da inteligência artificial são incríveis, pois esta área permite-nos evoluir e avançar para um futuro marcado pela automação. Seguem-se as principais vantagens da Inteligência Artificial (IA):

  • Conclusão de tarefas mais rapidamente do que um ser humano,
  • Trabalho complexo e stressante realizado com facilidade,
  • Realização de tarefas difíceis num curto espaço de tempo,
  • Capacidade de desempenhar várias funções em simultâneo,
  • Elevada taxa de sucesso,
  • Menos erros e defeitos,
  • Maior eficiência num curto período,
  • Redução do espaço e do tamanho dos sistemas,
  • Capacidade de calcular situações complexas a longo prazo,
  • Descoberta de territórios inexplorados, como o espaço sideral. (Khanzode & Sarode, 2020).

4.3 Desvantagens da Inteligência Artificial (IA)

Algumas das principais desvantagens da Inteligência Artificial (IA) no nosso dia a dia são as seguintes:

  • Pode ser mal utilizada, levando à destruição em grande escala,
  • Ocorrem erros de programação que podem resultar em ações opostas ao comando dado,
  • Impacto negativo nos empregos humanos,
  • Aumento do problema do desemprego,
  • A criatividade depende exclusivamente do programador,
  • Falta de empatia e contacto humano,
  • As novas gerações podem tornar-se mais preguiçosas,
  • Requer muito tempo e dinheiro para desenvolvimento,
  • Aumento da dependência tecnológica. (Khanzode & Sarode, 2020).

4.4 Impacto da Inteligência Artificial (IA) na Educação

Com o avanço das tecnologias da informação, a inteligência artificial (IA) tem impactado a educação de diversas formas. Este estudo busca avaliar como a IA influenciou o ensino, a aprendizagem, a administração e a gestão no setor educacional (Chen et al., 2020).

Espera-se que a pesquisa demonstre que a IA aumenta a eficácia e a eficiência em tarefas administrativas, além de aprimorar o ensino e a aprendizagem. Os resultados serão valiosos para acadêmicos, profissionais e gestores educacionais, promovendo decisões baseadas em evidências e melhores práticas de gestão (Chen et al., 2020).

O estudo contribuirá para o avanço do conhecimento, fornecendo descobertas empíricas sobre os impactos da IA na educação. Suas conclusões complementarão pesquisas anteriores e orientarão políticas governamentais voltadas ao uso estratégico da IA no setor educacional (Chen et al., 2020).

A aplicação da IA na educação abrange diversas áreas, como desenvolvimento curricular, personalização de conteúdos, métodos pedagógicos, avaliação de alunos e comunicação entre professores e estudantes, conforme destacado por Chassignol et al. (citado por Chen et al., 2020).

Caso Prático – Questionário

Para este caso prático resolvemos fazer um questionário aos alunos da UTAD, abordando alguns temas como o conhecimento que as pessoas têm sobre as novas realidades tecnológicas, o modo como a tecnologia é usada pelos alunos e pela instituição de ensino (neste caso UTAD) e algumas sugestões e previsões para o futuro.

Os resultados obtidos aqui serão abordados e debatidos neste tópico do artigo e também irão contribuir para a último tópico de “Reflexão Final” com vista a darem algum suporte às respostas de algumas perguntas que foram sendo levantadas no decorrer da escrita deste documento. O questionário estará também no final do trabalho em forma de link.

Introdução

Primeiramente, como modo de descrição da amostra obtida conseguimos 90 respostas de alunos estudantes de diversos cursos da UTAD. A maioria das idades dos inquiridos estão compreendidas entre os 18 e os 23 anos e o género feminino prevalece sobre os demais.

Figura 1 – Idade dos Estudantes Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Idade. Número de respostas: 90 respostas.

Figura 2 – Género dos estudantes

Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Género. Número de respostas: 90 respostas.

Fonte da imagem – Questionário

Fonte da imagem – Questionário

Figura 3 – Ano académico dos estudantes

Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Que ano frequentas?. Número de respostas: 90 respostas.

Fonte da imagem – Questionário

Atualidade das Tecnologias

Na primeira secção do questionário intitulada “Atualidade das Tecnologias” pretendemos saber quais tecnologias os alunos vêem diariamente na sua sala de aula e quais tecnologias utilizam nos seus processos individuais de estudo. Este tópico é de grande importância para nós pois permite-nos ter uma maior noção sobre o tipo de aparelhos eletrónicos a serem usados e se estes vão de encontro às necessidades dos alunos do século XXI.

À pergunta “Quais tecnologias (Ex. Projetor, computadores, etc.) vês presentes na tua sala de aula diariamente?” as respostas limitaram-se a:

  • Computadores
  • Telemóveis
  • Tablets
  • Projetor

Estas respostas indicam-nos que existe uma diversidade de tecnologias a serem utilizadas. Porém, as tecnologias referidas são o padrão para uma aula dos dias que correm, não havendo nenhuma inovação tecnológica nem nada diferenciado nas salas de aula.

Seguidamente perguntámos se os os alunos usavam tecnologias nos seus processos de aprendizagem individual e, se sim, quais utilizavam. De facto, a esmagadora maioria dos alunos utiliza tecnologia, as respostas limitaram-se às mesmas da questão anterior: Tablets, Telemóveis e Computadores.

Figura 4 – Respostas sobre a atualidade das tecnologias Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Utilizas alguma tecnologia (Ex. Projetor, computador, etc.) no teu processo de aprendizagem?. Número de respostas: 90 respostas.

Fonte da imagem – Questionário

Estas respostas permitem-nos perceber que os alunos se limitam às tecnologias que se tornaram padrão nos dias atuais, e que praticamente é impossível fazer-se um estudo ou pesquisa sem recurso aos meios tecnológicos.

Realidade Virtual e Inteligência Artificial

A segunda secção deste questionário foi intitulada de “Realidade Virtual e Inteligência Artificial”, e nela pretendemos perceber se estas tecnologias emergentes estão a ser utilizadas pelos alunos. As respostas, embora simples e expectáveis, revelam que de facto estas tecnologias, com maior destaque para a Inteligência Artificial, estão a ser cada vez mais usadas. Para além disto, tínhamos como objetivo perceber se o estabelecimento de ensino no qual os inquiridos se encontram faz, ou não, bom uso das novas realidades tecnológicas. A esta pergunta a maioria respondeu que a UTAD ainda não faz bom uso destas novas tecnologias emergentes.

Figura 5 – Respostas sobre a RV e IA

Figura 6 – Respostas sobre a RV e IA Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Achas que o teu estabelecimento de ensino faz bom uso das novas realidades tecnológicas (Ex. Realidade Virtual, Inteligência Artificial, etc.). Número de respostas: 90 respostas.

Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Utilizas Realidade Virtual ou Inteligência Artificial no teu processo individual de aprendizagem/ensino?. Número de respostas: 90 respostas.

Fonte da imagem – Questionário

Fonte da imagem – Questionário

Nestas respostas podemos ver que os inquiridos usam, de facto, as novas realidades tecnológicas nos seus processos individuais de estudo, porém o mesmo não se replica quando nos transportamos para a academia.

Como forma de perceber quais aplicações ou tecnologias de Inteligência Artificial os alunos usavam, decidimos perguntar “Quais as ferramentas de Realidade Virtual ou Inteligência Artificial que utilizas?”. As respostas foram variadas e os alunos responderam com:

  • ChatGPT
  • Perplexity.ai
  • Bing.ai
  • Copilot
  • Bixby
  • Notion.ai
  • Lexica.art
  • Gemini
  • DaVinci
  • Elicit

Através destas respostas percebemos que a preferência dos alunos é variada, com uma forte percentagem a escolher o ChatGPT como meio de pesquisa e recolha de informação. Isto mostra-nos que embora ainda nem todos usem a Inteligência Artificial, a perspetiva é de que esta continue a crescer e ser cada vez mais utilizada no futuro.

Futuro das Tecnologias

Na última secção deste questionário decidimos deixar os alunos fazer as suas próprias apostas sobre como será o futuro a nível tecnológico do ensino. Deixamos a resposta ser o mais livre possível de modo que cada um se pudesse expressar da maneira que quisesse.

Como não podemos esquecer o presente decidimos começar com a pergunta “O que tens a dizer sobre o estado do ensino atualmente, a nível tecnológico?”. Esta pergunta permite-nos perceber certos problemas que os inquiridos encontram com o estado atual do ensino. Das respostas obtidas gostávamos de destacar as seguintes:

  • “Considero que ainda se encontra muito atrasado e as funcionalidades nem sempre são explicadas e/ou utilizadas da maneira mais correta.”
  • “Tecnologicamente o ensino está extremamente atrasado, continuando com muitos métodos do passado. Muitos professores ainda têm dificuldade com coisas que, nesta altura, deviam ser básicas como computadores e projetores. Há professores que nem aceitam o uso de computador nas aulas. Todas estas coisas fazem com que o ensino esteja num estado deplorável em que um projetor ou um site para detectar plágio nos trabalhos é o pináculo da tecnologia. Uma mudança é precisa desesperadamente.”
  • “Bastante mau. Muitos professores ainda não têm treinamento adequado para usar as novas tecnologias de forma eficaz. Isso resulta num uso superficial ou até em resistência, limitando o potencial das ferramentas tecnológicas”.
  • “Na minha opinião o ensino tem que evoluir tal como tudo, principalmente a nível tecnológico pois este campo traz ferramentas de grande uso para ambos estudantes e professores”.
  • “Cada vez mais o ensino está a ficar desatualizado com o crescimento de novas tecnologias”.

Estas respostas são exemplos de um sentimento de mudança generalizada por parte dos alunos.

A nosso ver, uma melhoria é sim necessária. No entanto, é necessário entender que para uma transição tecnológica é preciso tempo e recursos financeiros que por vezes não se encontram disponíveis de momento. Ambos os lados desta “batalha” estão corretos e uma transição digital e tecnológica é inevitável mais cedo ou mais tarde.

De seguida fizemos a pergunta “Quais novas tecnologias já existentes esperas que sejam implementadas no Ensino?”. Das respostas obtidas gostaríamos de destacar as seguintes:

  • “Espero que a inteligência artificial possa ser mais aproveitada como método de apoio, quer para os professores, quer para os alunos. Principalmente espero também que o uso de um projetor e de computadores de ambas as partes se torne padrão. Um sistema de deteção real de presenças, como aqueles de impressão digital que são padrão em todos os locais de trabalho. Quadros e apresentações interativas seriam algo que faria diferença sem dúvida”.
  • “Realidade Virtual, esta tecnologia poderia permitir experiências imersivas em que os alunos “viajam” virtualmente por exemplo para locais históricos”.
  • “Reforço ou melhoramento de computadores e projetores, melhorar a qualidade da internet”.
  • “Realidade virtual, poderia ser usada como simulador para ensinar a realidade de um sismo ou de um fenômeno”.
  • “Espero que tecnologias como inteligência artificial personalizada para apoiar a aprendizagem individual, realidade virtual aumentada para aulas práticas e laboratórios virtuais sejam implementadas, oferecendo uma experiência mais interativa e prática para os alunos”.

Estas respostas mostram-nos que não é assim uma mudança tão radical que está a ser pretendida. As respostas anteriores poderiam dar uma falsa ideia de que tudo estava mal e nada estava bem, porém aqui percebemos que a mudança pedida se baseia muito em aplicar conceitos e tecnologias simples que já estão criadas e implementadas em outros setores.

Para concluir este questionário perguntamos “Quais outras tecnologias esperas que sejam inventadas no futuro de modo a melhorar o ensino?”. Das respostas obtidas gostávamos de destacar as seguintes:

  • “Seria interessante ver o desenvolvimento de tecnologias de imersão total, como salas de aula virtuais com realidade virtual avançada, onde os alunos pudessem “visitar” qualquer lugar ou tempo histórico. Outra ideia seria uma IA avançada que ofereça suporte emocional e orientação para os estudantes, ajudando no bem-estar e motivação acadêmica”.
  • “Cadernos digitais como forma de guardar e armazenar a matéria facilmente. Algo através da I.A. que permita fazer resumos automaticamente. Testes mais interativos e avaliações baseadas realmente em algo que o aluno mostre, em vez de testes escritos em que qualquer um pode decorar a matéria e ter nota máxima e logo de seguida esquecer tudo. Numa outra perspectiva, um plano curricular personalizado a cada aluno seria muito bem-vindo também”.
  • “Inteligência Artificial (IA) adaptativa: A IA pode personalizar a aprendizagem de acordo com as necessidades, interesses e ritmo de cada aluno. Ferramentas baseadas na lA podiam criar planos de estudo dinâmicos, recomendar recursos e até oferecer feedback em tempo real, identificando onde os alunos estão com dificuldades e oferecendo intervenções específicas”.
  • “Aprendizagem adaptativa, ou seja, uma maneira de acompanhar os alunos de acordo com a sua evolução”.
  • “Uma que saiba fazer a separação do conteúdo necessário, para não termos que estudar o que não precisamos/ vamos usar”.

Através destas respostas podemos perceber os desejos dos estudantes e entender que não são assim tão irrealistas. Alguns deles já existem e já são implementados noutros setores ou estabelecimentos, porém continuam a ser um “desejo” pois o público geral não tem conhecimento.

Em suma, a opinião baseia-se no argumento de que devemos aproveitar as tecnologias para ajudar e para simplificar o processo de aprendizagem, não sendo pedidos exorbitantes ou irrealistas.

Reflexão Final

As tecnologias vieram para ficar, e as gerações mais novas estão totalmente imersas nesse contexto, tendo crescido em um mundo moldado por avanços tecnológicos constantes. No entanto, essa transformação também impõe desafios, especialmente no ensino, uma área que enfrenta dificuldades em acompanhar o ritmo dessas mudanças.

Atualmente, apesar do aumento no número de universitários a cada ano, poucos estudantes se dedicam plenamente aos cursos que escolhem. Para muitos, a vida universitária parece mais uma obrigação do que uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Isso reflete não apenas uma possível desmotivação dos alunos, mas também falhas nos métodos de ensino, que muitas vezes não dialogam com a realidade tecnológica em que os jovens estão inseridos.

A transição para um mundo mais tecnológico não ocorre de maneira uniforme. Pessoas mais velhas, habituadas a métodos tradicionais, frequentemente resistem às mudanças, especialmente às tecnológicas. Por outro lado, os que estão dispostos a abraçar essa transformação nem sempre recebem o suporte necessário para fazê-lo. Essa lacuna de apoio afeta tanto alunos quanto professores, que precisam de formação contínua para utilizar as ferramentas tecnológicas de forma eficaz.

Para que a integração da tecnologia no ensino seja bem-sucedida, é fundamental investir em capacitação e criar um ambiente que favoreça a adaptação. Essa mudança é um processo que exige tempo, paciência e empenho de todos os envolvidos. Apesar dos desafios financeiros, é possível fazer avanços significativos utilizando tecnologias já disponíveis, muitas das quais não demandam grandes investimentos.

Ferramentas acessíveis, como plataformas de aprendizagem online, gamificação e aplicativos interativos, já demonstraram resultados positivos. Por exemplo, em um estudo realizado em 2022, escolas que usaram tecnologia para personalizar o aprendizado observaram um aumento de 25% no desempenho dos alunos em disciplinas como matemática e ciências.

Em suma, as ferramentas tecnológicas atuais têm o potencial de transformar o ensino, mas essa mudança requer mais do que recursos; ela depende de confiança, dedicação e tempo. Assim como outros setores se reinventaram com a tecnologia, o ensino também conseguirá, gradualmente, acompanhar essa evolução e tornar-se mais acessível, dinâmico e relevante para as gerações futuras.

Bibliografia

Anexo

Link do questionário – https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScHDR6k97CbeHWOxcL8jSoxzb_WVKTF2NBnI3ZYaXxc1dI2bA/viewform?usp=sf_link

Big Boys Do Cry — O Choro dos Homens na Literatura Clássica

Resumo

Propõe-se uma análise sobre o choro de homens em uma cultura que muitos consideram incentivadora de uma masculinidade antissentimentos. O ponto de partida é um artigo publicado na revista da USP, e a pesquisa explora a Ilíada, a Odisseia, a Bíblia e o Beowulf em busca de representações do choro masculino. Por meio dos textos analisados, estabelece-se um contraste entre as ideias neles expostas e o conceito difundido de “big boys don’t cry”, associado a Nietzsche e à era vitoriana.

Introdução

Nos últimos anos, tem-se levantado questões sobre os sentimentos masculinos, especialmente representados pelo ato de chorar. Em 2022, foi publicado um artigo na revista da USP intitulado “Para especialistas, é hora de acabar com a cultura do ‘homem não chora’”. O texto lança luz sobre o problema da conhecida “masculinidade tóxica”. Segundo Mesquita (2021, p. 1),

a expressão “masculinidade tóxica” passou a ser utilizada para nomear, com tom crítico, o conjunto de comportamentos associados à suposta crença da superioridade masculina, a qual é acompanhada de uma agressividade insidiosa, que alcança os próprios homens e as pessoas com quem estes se relacionam. Pode-se relacionar a utilização do termo à ideia de envenenamento das relações sociais e do próprio sujeito que performa essa imagem viril, exigida para se encaixar no padrão masculino.

Embora o artigo da USP afirme a existência da “masculinidade tóxica” e aponte a necessidade de superá-la, não apresenta meios efetivos para combatê-la nem oferece pistas sobre a origem dessa concepção. Ao analisar textos clássicos, a expressão “grandes meninos não choram” não parece ser completamente adequada. Assim, surgem questionamentos: por que homens não choram? Quem afirmou isso? Não há exemplos de homens chorando na literatura?

A investigação teve início com a intrigante afirmação de G. K. Chesterton: “De fato, os vikings não reprimiram de modo algum os sentimentos. Choravam como bebês e se beijavam como garotas; em suma, agiam como Aquiles e todos os heróis vigorosos, filhos dos deuses” (CHESTERTON, 2012, p. 206). Chesterton, um ávido leitor, não faria tal proposição sem indícios, o que nos levou a buscar tais evidências nos textos clássicos.

Desenvolvimento

Erroneamente, ser masculino tem significado, para alguns, buscar uma masculinidade distorcida: ser fisicamente forte, estar no controle e não demonstrar emoções. No entanto, os homens possuem sentimentos e emoções, mas são ensinados a suprimi-los e, consequentemente, a não prantear. É comum ouvir frases como: “Os meninos não choram” ou “Aceite isso como homem”.

Essa tradição equivocada de supressão dos sentimentos como manifestação de masculinidade parece ser fruto de uma distorção histórica. Diversos filósofos defenderam uma espécie de antissentimentalismo, como Nietzsche, que proclama: “Sede duros” (NIETZSCHE, 2003). Algumas interpretações de suas ideias levaram a um ideal de homem que não apenas reprime seus sentimentos, mas, por vezes, exalta a inexistência deles.

É inegável que os homens possuem sentimentos — exceto em casos patológicos, como a psicopatia —, e eles têm várias formas de expressá-los, inclusive por meio das lágrimas. A questão no passado não estava em ter ou não sentimentos, mas em como e quando expressá-los. Vejamos alguns exemplos:

O Angustiado Aquiles

Na Ilíada, no canto 19, encontramos o grande herói Aquiles em profunda angústia e Antíloco em prantos devido à trágica morte de Pátroclo. O contexto do trecho é o seguinte: Pátroclo decide ajudar os gregos, que estão acuados pelos troianos. Antes de partir para a batalha, Aquiles, seu amigo, o aconselha a ser cauteloso, mas Pátroclo ignora o aviso. Vestido com a armadura de Aquiles, ele persegue os troianos e é morto por Heitor.

Enquanto isso pensava no espírito e no coração, chegou junto dele o filho excelso Nestor. Vertendo lágrimas escaldantes, deu a triste notícia: “Ai de mim, ó filho do fogoso Peleu! Demasiado funesta é a notícia que ouvirás, prouvera que nunca tivesse acontecido!” Assim falou; e uma nuvem negra de dor se apoderou de Aquiles. Por seu lado, Antíloco lamentava-se e chorava muitas lágrimas, segurando nas mãos de Aquiles, que gemia no seu glorioso coração; é que receava que com ferro ele cortasse a própria garganta (HOMERO, 2013, p. 519-520, linhas 15-30).

Nesse excerto, observamos dois homens dominados pelo luto, pela angústia e pelo sofrimento. Homero descreve com clareza os sentimentos que atravessam os corações de Aquiles e Antíloco, transmitindo ao leitor o peso dessa dor. O poderoso Aquiles, conhecido por sua força, torna-se vulnerável ao perder o amigo Pátroclo, o que nos permite empatizar com sua humanidade.

Figura 1 – Quadro
Achilles Frantic for the Loss of Patroclus, Rejecting the Consolation of Thetis (1803), de George Dawe. Óleo sobre tela, 128,9 × 102,2 cm.1

O Nostálgico Ulisses

No canto 13 da Odisseia, Ulisses, mesmo estando vivo, é retratado como se estivesse morto. Ele se encontra na corte dos Feácios, sua última parada antes de retornar a Ítaca e reencontrar sua amada Penélope. Durante um banquete, o aedo Demódoco, sem saber da presença de Ulisses na audiência, canta sobre a Guerra de Troia, despertando emoções no herói:

Era isto que cantava o celebérrimo aedo. Mas Ulisses, com suas mãos possantes, pegou sua capa de púrpura e com ela cobriu a cabeça, escondendo o belo rosto. Sentia vergonha dos Feácios, porque das pálpebras corriam lágrimas: na verdade, cada vez que o aedo fazia uma pausa, Ulisses limpava as lágrimas e tirava a capa da cabeça; e com a taça de asa dupla oferecia libações aos deuses (HOMERO, 2011, p. 239, linhas 80-85).

Há debates sobre os motivos do choro de Ulisses, mas é evidente que ele é tocado profundamente pelas palavras de Demódoco. As memórias da guerra, com suas glórias e perdas, o levam às lágrimas diante de uma audiência, revelando a sensibilidade de um herói épico.

O Andarilho sem Direção

Beowulf é estruturado em torno de quatro funerais, todos conduzidos principalmente por homens. Após a morte de Beowulf, o último sobrevivente, um Geat, torna-se um andarilho sem senhor, lamentando o destino de seu povo. O funeral de Beowulf, o quarto e último do poema, é descrito com grande detalhe:

For him then the Geatish lords a pyre prepared upon the earth, not niggardly, with helms o’erhung and shields of war and corslets shining, as his prayer had been. Now laid they amidst their glorious king, mighty men lamenting their lord beloved. Then upon the hill warriors began the mightiest of funeral fires to waken. Woodsmoke mounted black above the burning, a roaring flame ringed with weeping, till the swirling winds and quiet, and the body’s bony house was crumbled in the blazing. Unhappy in heart they mourned their misery and their liege-lord slain (TOLKIEN, 2016, p. 104-105, linhas 2635-2640).

A cerimônia é marcada por episódios de luto intenso, com homens tristes e afligidos pelos eventos recentes, demonstrando que o choro e a expressão de dor eram parte integrante de sua cultura.

O Messias Choroso

Na narrativa bíblica, encontramos um episódio marcante envolvendo Jesus Cristo, descrito no Evangelho de João. Jesus, uma figura associada a características como força, compaixão, serenidade e humildade, demonstra emoção ao lidar com a morte de seu amigo Lázaro, que estava sepultado há quatro dias. Ao chegar a Betânia, onde viviam Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria, Jesus é interpelado por Marta e, em seguida, encontra Maria e outros judeus que consolavam as irmãs:

Jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se. E perguntou: “Onde o sepultastes?” Eles lhe responderam: “Senhor, vem e vê!” Jesus chorou. Então, disseram os judeus: “Vede o quanto o amavam!” (Jo 11:33-36).

Dois aspectos chamam a atenção nessa passagem. Primeiro, a agitação no espírito de Jesus, seguida por seu choro explícito, que é tão visível que os judeus reconhecem seu amor por Lázaro. Segundo, o fato de Jesus chorar mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro, mostrando que ele foi tomado por suas emoções de forma profunda, expressando um amor que transcende palavras.

Um Lamento ao Sentimentalismo

A partir dos exemplos apresentados, questiona-se a origem da condenação à expressão de sentimentos por homens. Uma das possíveis origens pode estar no conceito de “super-homem” de Nietzsche. Em sua obra, Nietzsche propõe a superação do homem tradicional, o que inclui a superação de comportamentos associados à fraqueza, como a expressão de emoções. Conforme Berdiaev (2021, p. 51),

Nietzsche quer vencer o homem, como sendo uma vergonha e um opróbrio, e busca o Super-homem. Assim, o termo extremo deste culto do homem criado pelo humanismo é a própria destruição do homem.

As interpretações de Nietzsche geraram controvérsias, influenciando ideologias como o nazismo, que associava o “super-homem” à eliminação de toda fraqueza, incluindo as emoções e a dor. Não havia espaço para dilemas sentimentais nesse ideal; eles deveriam ser suprimidos para que o homem se aproximasse do “super-homem”.

Além de Nietzsche, outras correntes influenciaram a perspectiva antissentimentalista. Segundo Capp e Jenkins (2014), o estoicismo na era vitoriana foi elevado a um radicalismo em que as emoções deveriam ser reprimidas. Contudo, estudos mostram que as emoções desempenhavam um papel crucial na dinâmica social da Inglaterra vitoriana. A origem dessa ideia é controversa, e uma investigação mais aprofundada sobre a recorrência da expressão “homens não choram” e seu contexto sociocultural e histórico seria relevante.

Conclusão

A bibliografia sobre o tema é vasta, mas os textos aqui analisados foram escolhidos por sua clareza e relevância no cânone literário. Nos exemplos apresentados, não se observa uma repreensão explícita da sociedade ao choro masculino; ao contrário, os textos são permeados por lágrimas viris. O problema não residia na fragilidade exposta pelo choro, mas na falta de domínio das emoções. Não era errado chorar, mas sim chorar copiosamente a ponto de se fechar em uma tristeza mortal ou em uma loucura, como a de Aquiles.

Portanto, os homens não eram incentivados a reprimir o choro, mas a conhecerem a si mesmos, a expressarem seus sentimentos sem se tornarem reféns deles, sem que estes ofuscassem a claridade do dia, a glória da batalha ou a razão de ser e viver. A origem exata da expressão “homens não choram” permanece incerta, mas os textos analisados revelam que figuras frequentemente associadas à masculinidade tóxica demonstraram maior abertura ao coração dos homens.

Referências Bibliográficas

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BERDIAEV, N. O Espírito de Dostoiévski. Tradução de Otto Schneider. 1. ed. Rio de Janeiro: Eleia Editora, 2021.

BERDIAEV, N. A Verdade e a Revelação. Tradução de Bernardo Santos. Rio de Janeiro: Eleia Editora, 2021.

CHESTERTON, G. K. Hereges. Tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito. Campinas: Ecclesiae, 2012.

CAPP, B.; JENKINS, G. Big Boys Don’t Cry: Masculinity from Jesus to Michael Fassbender. Warwick Knowledge Centre, 2014. Disponível em: <https://warwick.ac.uk/newsandevents/knowledgecentre/arts/history/big-boys-dont-cry/>. Acesso em: 6 dez. 2023.

DAWE, George. Achilles Frantic for the Loss of Patroclus, Rejecting the Consolation of Thetis. 1803. Óleo sobre tela, 128,9 × 102,2 cm. Disponível em: [inserir URL]. Acesso em: 7 dez. 2023.

HOMERO. Odisseia. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço; introdução e notas de Bernard Knox. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras, 2011.

HOMERO. Ilíada. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço; introdução e apêndices de Peter Jones. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras, 2013.

TOLKIEN, J. R. R. Beowulf: A Translation and Commentary Together with Sellic Spell. Edição de Christopher Tolkien. London: HarperCollins Publishers, 2016.

MESQUITA, Yukimi Mori; CORREA, Hevellyn Ciely da Silva. A “masculinidade tóxica” em questão: uma perspectiva psicanalítica. Rev. Subj., Fortaleza, v. 21, n. 1, p. 1-13, abr. 2021. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2359-07692021000100006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 6 dez. 2023. DOI: 10.5020/23590777.rs.v21i1.e10936.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret, 2003.

OLIVEIRA, Laura. Para especialistas, é hora de acabar com a cultura do “homem não chora”. Revista USP, 2022. Disponível em: [inserir URL]. Acesso em: 6 dez. 2023.

1 George Dawe (1781-1829), Achilles Frantic for the Loss of Patroclus, Rejecting the Consolation of Thetis, 1803. Óleo sobre tela, 128,9 × 102,2 cm.

As características que os outros veem em nós e que não reconhecemos: máscara social ou falta de autopercepção?

A complexidade das interações humanas desafia frequentemente a nossa capacidade de compreender quem somos. Quando nos deparamos com a percepção que outros têm de nós, especialmente no caso de características que não reconhecemos como nossas, surgem questões sobre a autenticidade desta imagem. Serão essas características um reflexo de uma dimensão nossa que ainda não percebemos, ou representam apenas um papel que desempenhamos, moldado pelo contexto e pelas expectativas sociais, vulgo, uma máscara social?

Neste ensaio pretende-se explorar esta questão através de conceitos fundamentais da Psicologia Social, como o autoconceito, identidade, autopercepção e autoestima, abordando, ainda, a teoria da auto-discrepância, que ilumina as tensões entre o eu real, o eu ideal e o eu que acreditamos que os outros esperam de nós.

Segundo Smith, Mackie e Claypool (2015), o autoconceito é “todo o conhecimento de um indivíduo sobre as suas qualidades pessoais” (p. 96), sendo este construído a partir das nossas experiências, percepções, crenças e sentimentos sobre quem somos, e mediado pelas nossas interações sociais. A identidade, por sua vez, “refere-se à forma como nos sentimos em relação aos grupos que partilhamos com os outros” (Smith et al., 2015, p. 192, citando M. Rosenberg, 1979; Tajfel, 1972), sendo o resultado da integração do autoconceito com as dimensões sociais e culturais que nos envolvem. Enquanto o autoconceito é introspectivo, a identidade é negociada num contexto interacional, funcionando como uma ponte entre o indivíduo e a sociedade.

A autopercepção, contudo, nem sempre está alinhada com o que os outros veem em nós. Filtramos informações que não confirmam as nossas crenças sobre quem somos, gerando uma cegueira parcial para traços que os outros reconhecem, fenómeno este que está inerentemente ligado à autoestima, pois admitirmos características que não reconhecemos em nós pode ameaçar o nosso valor próprio. É aqui que Smith et al. (2015) sugere que

O autoconhecimento exato das nossas capacidades e preferências é importante para nos orientar ao longo da vida de forma a satisfazer as nossas necessidades e capacidades. Mas a exatidão não é a única consideração a ter em conta na avaliação do eu: a autoestima é também grandemente influenciada por pressões motivacionais para pensarmos bem de nós próprios. Estas motivações colorem muitos dos nossos pensamentos e sentimentos sobre o eu através de preconceitos de auto-aprimoramento. (p. 139)

A teoria da auto-discrepância, proposta por Higgins (1987), ajuda a compreender estas dinâmicas. Segundo esta teoria, as discrepâncias entre o eu real (quem acreditamos ser), o eu ideal (quem desejamos ser) e o eu normativo (quem achamos que os outros esperam que sejamos) geram emoções negativas, como culpa ou frustração. Estas emoções podem levar a ajustamentos manifestados em máscaras sociais, ou seja, comportamentos que atendem às expectativas externas, mas que nem sempre refletem o nosso eu autêntico. Essa camuflagem social, quase como um jogo de ‘faz-de-conta’, pode levar-nos a ter comportamentos que distorcem a percepção da realidade, tanto para nós próprios como para os outros (Brighenti & Castelli, 2016). Esta distorção pode explicar a discrepância entre como nos vemos e como os outros nos veem, obscurecendo características genuínas e criando uma ilusão de quem somos.

E é aqui que a idealização do autoconceito surge como um mecanismo de proteção. Criamos um ponto de referência aspiracional que pode motivar o nosso crescimento pessoal, mas também acentuar discrepâncias entre o eu real e o eu ideal, expondo as nossas falhas ou inconsistências. Assim, questionamos se as características atribuídas pelos outros são traços reais que não aceitamos ou adaptações sociais. Alguns estudos em Psicologia Social sugerem que as máscaras sociais podem ser tão integradas na identidade que se confundem com o eu autêntico. Por outro lado, características genuínas podem parecer alheias devido a processos de negação ou falta de autorreflexão.

Quando Bem (1972) diz que “as atitudes finais dos sujeitos reais na experiência são assim vistas como um conjunto de auto-atribuições feitas pelo indivíduo com base no seu próprio comportamento à luz dos constrangimentos contextuais em que esse comportamento parece estar a ocorrer” (p. 8), o autor sugere que a forma como nos comportamos em determinados contextos pode, de facto, influenciar a forma como nos vemos, levando-nos a adotar características ou atitudes que talvez não correspondam ao nosso eu autêntico.

Neste contexto, a autoexploração é essencial para atenuar estas ambiguidades. A reflexão pessoal e o feedback sincero daqueles em quem confiamos e que temos como nos sendo mais próximos, podem ajudar-nos a distinguir as nossas máscaras dos nossos traços autênticos. Além disso, reconhecer que o autoconceito é dinâmico e influenciado por fatores internos e externos é um passo importante a dar para aliviar a pressão de aderirmos a uma identidade fixa.

Em suma, as características que os outros veem em nós, mas que nós não reconhecemos, representam um desafio fascinante para a compreensão de quem somos. Sejam fruto de máscaras sociais ou de falta de autopercepção, estas características convidam-nos a refletir sobre a complexidade do autoconceito, da identidade e da autoestima.

Nesse âmbito, a teoria da auto-discrepância e o conceito de idealização do autoconceito oferecem perspectivas relevantes ao tema, revelando como as nossas aspirações e as expectativas sociais moldam a forma como nos vemos e somos vistos. Este processo encoraja-nos a abraçar a evolução constante da nossa identidade, equilibrando quem somos, quem desejamos ser e o que os outros percebem em nós. Como dizia Aristóteles segundo o conhecimento popular, ‘conhecer-se a si próprio é o princípio de toda a sabedoria’.

Referências Bibliográficas

Bem, D. J. (1972). Self-Perception Theory. Advances in Experimental Social Psychology, 1–62. https://doi.org/10.1016/s0065-2601(08)60024-6

Brighenti, A. M., & Castelli, A. (2016). Social camouflage: functions, logic, paradoxes. Distinktion: Journal of Social Theory, 17(2), 228-249. https://doi.org/10.1080/1600910X.2016.1217552

Higgins, E. T. (1987). Self-discrepancy: A theory relating self and affect. Psychological Review, 94(3), 319–340. https://doi.org/10.1037/0033-295X.94.3.319

Smith, E. R., Mackie, D. M., & Claypool, H. M. (2015). Social psychology (4.ª ed.). Psychology Press.

Texto de Beatriz Martins Aguiar

A racionalidade: de mecanismo básico de sobrevivência a faculdade de pensamento

Imagem: (The Wild Boar Hunt, c.1640 ), Frans Snyders

Darei por muito bem aplicado o meu propósito de contribuir com algumas notas relativas ao que penso sobre os temas da racionalidade e da liberdade, da racionalidade como faculdade humana de sobrevivência, de conhecimento e de inventividade, e da liberdade como exercício de racionalidade. São temas charneira do meu pensamento sobre o que é “ser humano”. Distinto deste é o problema de saber o que é “o ser humano”.

A minha tese é que a racionalidade é um mecanismo básico de sobrevivência, que os humanos aplicam a uma vastíssima gama de situações, muitas das quais não têm a ver com a sobrevivência, mas resultam de fatores culturais. Um indivíduo humano que não tenha a faculdade de racionalidade, dificilmente sobreviverá sem a ajuda dos outros. E, se for um indivíduo de outra espécie não conseguirá sobreviver.

A consciência da racionalidade permite aplicá-la a todo o tipo de situações, concretas ou ficcionadas, seja através de imagens, palavras, números, enfim, a racionalidade pode transformar tudo em linguagem e a linguagem, em praticamente tudo.
Pode multiplicar e desmultiplicar mundos e visões.

A racionalidade permite-nos escolher, dentro dos limites das possibilidades e estas variam muito de indivíduo para indivíduo, por fatores individuais endógenos e exógenos.

A liberdade é um exercício de racionalidade. Dizemos que não temos liberdade quando não podemos escolher. Esta falta de liberdade pode ser total, ou absoluta, quando não podemos escolher de todo, ou parcial, quando temos um leque de opções, mais ou menos extenso e variado.

Se os limites nos são impostos naturalmente, isso é um constrangimento natural, se nos forem impostos por outros indivíduos, ou pela sociedade, isso é um constrangimento social, político, cultural, ético, jurídico. Os limites morais são os que o indivíduo estabelece para si mesmo.
A questão dos limites morais coloca-se quando existe possibilidade de não respeitar os limites parciais ou relativos que são impostos pela sociedade, ou por outros indivíduos.

A racionalidade exerce-se, ou opera sobre dados, ou termos discerníveis. Podem ser sons, números, volumes, palavras, sinais, quantidades, qualidades, enfim, tudo o que conhecemos e tudo o que se possa imaginar. Esta liberdade de pensamento é ilimitada, no sentido em que só tem como limite a capacidade de estabelecer relações.

A racionalidade é pensamento e, como o pensamento, também é ilimitada quanto ao campo da sua aplicação, exercício, ou operação.
A liberdade é uma condição biológica, viva, concreta, física, que pode ser ilimitada quanto ao pensamento, mas é limitada por fatores endógenos e exógenos que podem assumir natureza física, mais ou menos inelutável, como já referi.

A faculdade de racionalidade, que permite distinguir e estabelecer relações entre coisas, ideias, enfim, tudo o que seja suscetível de ser percecionado, pensado ou ter significado, nos humanos, pode operar sobre vastíssimos domínios, ou objetos, não apenas da experiência direta dos sentidos periféricos, mas também da experiência indireta das representações mentais, das ideias, dos números, das formas, dos conceitos, das teorias, das crenças, dos interesses, dos valores, dos sentimentos, dos significados e dos sentidos que se dão.

Certamente que essa faculdade não é conhecimento, nem resolução de problemas, mas não há conhecimento, ou seja, ninguém poderá ter a experiência de conhecimento, se não tiver a aptidão, ou estiver impedido, de usar a faculdade de racionalidade.

O uso que se faz dos termos racionalidade e irracionalidade é tão amplo e, por vezes, tão contraditório, que apresenta a racionalidade como boa e a irracionalidade como nefasta, sendo esta, tantas vezes, acusada de todos os males que se poderiam imputar aos humanos.

Encontro uma justificação plausível para este entendimento. Em geral, confunde-se racionalidade com verdade, com o que está certo, com retidão, com direito, com ciência, com aquilo que resolve problemas, que tudo devia, ou deve ser. Irracional é o resto, o que está errado, que é nocivo, que é perigoso, que causa problemas, que é injustificado, independentemente de ser censurável ou não. Este uso, tão arreigado nos nossos hábitos de comunicação e de linguagem corrente, dificulta, se é que não impede, que vejamos a racionalidade com outros olhos, ou seja, que entendamos a racionalidade como a faculdade humana que está presente em toda a ação dos indivíduos, de tal modo que muito daquilo que designamos como irracional, de facto é tão racional como aquilo que designamos propriamente de racional.

O cerne dos problemas da humanidade, resultantes dos seus comportamentos ou produzidos por estes, não está no serem estes racionais ou não, está no serem problemas.

Prolegómenos a uma Metafísica Do Amor

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1 – Introdução

É a problemática do amor que move tanto este texto como as nossas vidas, sendo o alvo destas considerações filosóficas compreender aquilo que é o sentido de absolutamente tudo o que fazemos e enche abundantemente de valor tudo aquilo em que nos deleitamos. Ora, a compreensão do conceito de Amor é absolutamente significante para o quotidiano individual, afinal, é capaz de ser conveniente conhecermos (ou termos posse de algo que se pareça com uma pobre compreensão) aquilo que, mesmo que não saibamos, move não só as nossas vidas, como todo e qualquer fragmento de ação que constitua o nosso modo de ser, outrora, agimos e vivemos para quê? Em nome de quê? Porquê?

A cultura grega antiga mostra-nos perfeitamente a maior dificuldade que a problemática do amor carrega consigo, a saber, a incapacidade de reconhecer o valor e o sentido do peso da afecção amorosa. Até certa altura, Atenas transbordava templos e festivais em honra de tudo o que é deus e semideus, mas a falta de um único monumento erguido em nome de ἔρως é prova de incompreensão das suas obras e dádivas aos Homens (O Banquete, 177a-b). Esta desvalorização não é sem razão de ser, isto porque há um medo nos Homens que quer distância do amor, mesmo que não se consiga libertar dele, e Hesíodo, na sua Teogonia, expõe tão de modo tão belo e verdadeiro o porquê desse medo, quando diz o seguinte: “Eros, de entre os deuses imortais o mais belo, ele o desatador dos membros [do corpo], a mente e a ponderada resolução no peito de todos os homens e de todos os deuses submete”[1] (120-122).

Estas questões serão devidamente expostas e consequentemente exploradas e desenvolvidas segundo um plano organizado fornecido pela estrutura do texto de S. Tomás, onde os temas fundamentais a ser abordados encontram-se previamente enunciados nas questões 26-28 do “De Passionum Animae, in prima-secundae pars Summae Teologiae”, que correspondem respectivamente a:

Utrum amor sit passio?[2]

Utrum bonum sit sola causa amoris?[3]

Utrum similitudo sit causa amoris?[4]

Utrum unio sit effectus amoris?[5]

Utrum amor sit passio laesiva amantis?[6]

Ao aprofundar o estudo reflexivo filosófico, dada a conclusão deste estudo, das duas uma, ou se cai num profundo abismo de falta de sentido, ou talvez se ganhe um pouco de lucidez face aos nossos comportamentos e as suas devidas motivações subjacentes, isto porque, novamente, tomando em consideração a conclusão a ser exposta, o objecto do Amor, ou seja, aquilo que se ama quando se ama, não é possível de aquisição em vida, o que pode levar, de facto, ao confronto com o abismo do absurdo, ou pode, por outro lado, dar uns ares de esperança de obter algo de idêntico/semelhante cá, ou até, em casos de autêntica êxtase, a esperança da perfeita comunhão com o Amor em diferentes circunstâncias, certamente transcendestes[7].

A Fenomenologia enquanto conceito passou a estar disponível no léxico filosófico com Johann Lambert, na obra The Neues Organon, onde explora a ideia de Fenomenologia como uma “Teoria das Aparências”; isto quer dizer que, nem na altura de S. Tomás e muito menos na de Platão, havia o conceito de Fenomenologia enquanto tal. Contudo, uma interpretação fenomenológica tanto nos escritos de Platão como nos de S. Tomás deixa de parecer tão disparatada quando atentamos o princípio central da astronomia grega antiga: “σῴζειν τὰ φαινόμενα”[8], onde se apela à importância da salvação/preservação dos fenómenos[9].

Entendido este passo, é perfeitamente admissível olharmos para as abordagens discursivas de Sócrates com um olhar fenoménico (tanto no Fedro, como n’O Banquete); o mesmo aplica-se às estruturas sistemáticas de S. Tomás, que não fazem outra coisa senão descrever os diferentes fenómenos, neste caso, os do Amor, tais quais são, independentemente se agradáveis ou não.

1.2 – Revisão literária

Correm rios de tinta sobre o amor desde os primórdios da humanidade, não só em formato de texto, mas são imensas as representações artísticas acerca do fenómeno. As principais obras consultadas para a elaboração deste texto desaguam consequentemente em vários livros e artigos que se ocupam de produzir reflexões, comentários e complementos sobre o que fora dito. É Sócrates o pioneiro responsável por atribuir uma definição a esta afecção, na obra “O Banquete”, onde relaciona o amor com o desejo do Bem. Ao contrário dos mais antigos, que viam o amor (ἔρως) como um dos deuses primordiais (vindo logo após de Caos e Gaia, na Teogonia de Hesíodo), contudo, Sócrates vê-lo antes como um δαίμων (semideus/génio), sendo que à semelhança de um semideus é um meio termo entre o divino e o humano, e é também o mediador entre Deus e Homem, na medida em que é por meio do Amor que todo o Homem procura a ideia do Bem [que na alegoria da caverna representa o Sol, de onde provém a Luz (que representa a Verdade – ἀλήθεια)], e por ser a fonte da verdade e um dos extremos da mediação, pode ser entendido como Deus. No Fedro, ao decorrer do segundo discurso de Sócrates, é descrito de modo simultaneamente rigoroso e poético os sintomas do indivíduo tomado de amor (249d), e que lança uma rica base de compreensão às questões que S. Tomás elabora sobre o Amor, no texto “De Passionum Animae”.

Na questão “Utrum similitudo sit causa amoris?” pode perfeitamente fazer-se o paralelo com os livros XVIII e XVI da “Ética a Nicómaco”, onde Aristóteles explora a questão da amizade de excelência (que envolve sempre o mais elevado bem), e a noção de que esta amizade exige reciprocidade. Ademais, Kierkegaard, nas Obras do Amor, fala do amor como uma devolução de si a si mesmo, como se a pessoa amada fosse um espelho, e maior é o amor quanto melhor for a reflexão.

Já na questão “Utrum unio sit effectus amoris?” pode-se recorrer ao mito de Aristófanes (também no Banquete) para clarificar o assunto. O melhor cenário possível é a vivência levada a dois, é completa e plenamente satisfeita apenas com a outra metade, que agregada a si mesmo faz o todo. Conjugando esta visão com o pensamento de Kierkegaard, nota-se um desejo de voltar a si mesmo, mas volta-se a si mesmo por meio do outro, que é absolutamente indispensável para a realização do desejo de ser devolvido a si mesmo, ou seja, não é possível pensar o amor sem alguém que se ame, contudo, se também formos um espelho para a pessoa que nos devolve o reflexo, o todo parece ficar fechado e satisfeito em si mesmo. Como dito acima, far-se-á um breve uso das Obras do Amor apenas para incorporar a problemática da devolução de si a si mesmo no mito de Aristófanes, que enriquecerá a investigação de São Tomás de Aquino (visto que a obra é imensamente rica no que diz respeito à sua filosofia própria, e uma abordagem mais que breve deturparia a estrutura e desviaria o rumo do presente ensaio).

Mesmo com todas estas considerações, o entendimento sobre o Amor carece de algo (como explica Aristóteles na Ética a Nicómaco), e é Agostinho que vai pensar o que é que falta para que o nosso desejo do Bem seja plenamente satisfeito, i.e., se o desejo do Bem é o desejo do Bem para sempre, mas se não é possível obter o Bem para sempre (visto que aquele que se ama não é infinito tal como não o é o amante), tem que haver algo de absolutamente bom que preencha o nosso desejo, afinal, o desejo só faz sentido na medida em que o que é desejado existe, como explica posteriormente que não se pode amar o desconhecido, logo, se se ama a ideia de Bem, tem de ter havido um qualquer contacto prévio com ela.

2 – DIÁLOGO ANALÍTICO ENTRE PLATÃO E S. TOMÁS DE AQUINO

O Amor diz-se de várias maneiras[10], mas este texto versa-se sobre a problemática do amor dito romântico. Ora, é evidente a impossibilidade de cura para uma paixão[11] cuja causa se desconhece. Além disso: será de nosso alcance a capacidade de evitar os comportamentos incontroláveis desta paixão (ἔρως), mesmo que se entendam as causas e manifestações dos efeitos subjacentes ao fenómeno amoroso? Careça ou não o Amor de definição, em qualquer um dos casos parece ser impensável a escapatória da μανία de quando se está tomado de amor, ou até mesmo da mera vulnerabilidade do imperativo que se sobrepõe a qualquer circunstância de vontade própria.

2.1 – O AMOR ENQUANTO PAIXÃO CONCUPISCENTE

A questão que dá início à investigação de S. Tomás acerca do amor debruça-se sobre a qualidade deste sentimento. O contributo acrescentado por S. Tomás às considerações estoicas, epicuristas, e aristotélicas anteriores, debruçadas sobre a problemática das paixões, encontra-se devidamente analisada na primeira das cinco questões alvejadas neste ensaio. Por Passio, S. Tomás entende um movimento interno na alma estrictamente humana, como será tratado mais adiante. Ora, como bom leitor de Aristóteles que é, a concepção de movimento aqui mencionada tem que ver com uma passagem de potência (potentia/δύναμις) a acto (actus/ἐνέργεια). A alma humana tem duas faculdades principais constituintes, a saber, o Intelecto (Intellectus) e a Vontade (Voluntas)[12], e o movimento aqui pensado é o movimento interno nas duas faculdades.

Segundo a metafísica aristotélica, todo o movimento tem um fim, i.e., toda a potência é potência em relação a um acto, logo, os movimentos de cada faculdade têm de ter um fim em comum (por serem faculdades da alma), mas que não deixe de ser próprio da sua faculdade em particular. A inclinação do intelecto é a verdade, enquanto a disposição da vontade é o bem[13], logo, residindo as paixões no reino da vontade, todas as paixões ou desejam ardentemente o Bem ou repugnam ao máximo o mal, como se pode notar no seguinte passo: “A paixão é um movimento apetitivo da força do sensível em imaginação do bem ou do mal. E ainda: a paixão é um movimento irracional da alma por suposição do bem ou do mal.[14]. Esta passagem demonstra com virtude que, apesar da Verdade e do Bem não serem distintos, no domínio da Vontade, segundo São Tomás, não há racionalidade, i.e., todas as onze paixões, por serem ou concupiscentes ou irascíveis, não são passíveis de escolha de afecção[15], e sendo que o Amor é uma das paixões da alma, não está ao nosso alcance ser-se ou não tomado por ele, indo ao encontro do superlativo que se sobrepõe sobre nós exteriormente, a ser analisado na sexta questão.

2.2 – A ÂNSIA DO BEM ABSOLUTO

Acerca da segunda questão, graças ao estudo de S. Tomás sobre os apetites motores da alma, e como ficou claro acima, o Amor é paixão do concupiscente, logo, está naturalmente afinado e inclina-se para amar aquilo que é maximamente bom, e é assim precisamente pelo facto de ser paixão do concupiscente (cuja sua característica é o vínculo tendencioso natural pelo Bem). A investigação platónica dá continuidade e completa o estudo de S. Tomás, tendo início no trabalho de definição do ἔρως, que sucede uma panóplia de elogios feitos ao δαίμων. Ora, o Amor tem de ser amor de alguma coisa[16], e pela própria natureza do ἔρως, é desejo que provém do facto do sujeito que o sente carecer de alguma «coisa», logo, o desejo só existe na medida em que falta algo àquele que deseja[17]; contudo, pode também haver desejo na condição da possibilidade de poder vir a faltar esse mesmo objecto, ou ainda uma junção de ambos, i.e., desejar possuir o que já se tem e permanecer na posse de tal[18]. Sendo assim, as afirmações de que o Homem ama o Bem, e ainda, que deseja possuí-lo para sempre, parecem ser evidentes o bastante, dadas as considerações anteriores[19]. Seja isto o que foi dito acerca da primeira causa.

2.3 – O OBJECTO AMADO EXPRESSO NOUTREM

Sobre a segunda causa, a saber, a da semelhança, é Aristóteles que dá o pontapé de saída, ao dizer que: “[…] é a partir do amor por si próprio que todas as disposições de afeição e amor se estendem depois também nos outros.” (1168b1), ao que deixa nítido que o amor (passional ou não) que sentimos por outrem tem por base um amor de si próprio.[20] Ora, este passo é importante porque prepara o terreno para Kierkegaard entrar em cena, nomeadamente com a conceptualização do sentido de “outro-eu”[21]. Segundo Kierkegaard, o fenómeno do amor é um fenómeno egoísta pela própria natureza do amor, isto porque o outro é visto como um meio de devolução de si próprio a si mesmo, uma verdadeira validação absoluta do amante, isto porque é pelo facto do outro de algum modo se assemelhar a mim que eu me afirmo sobre mim mesmo e amo no outro as categorias que me pertencem. Deste modo, e o que é de maior importância destacar, o amado é como um espelho, e mais intenso será o amor sentido pelo amante quanto melhor for a reflexão da imagem do amante a si mesmo, e chama-se amor, mesmo que não se faça a mínima ideia disso, àquilo que é a mais elevada afirmação de si mesmo que existe; em suma, e como já foi dito, amamos no outro aquilo que se parece connosco. Mas então, que prova nos garante isso? Com que base podemos dizer que Kierkegaard está certo e não escreveu diários amorosos subjectivos em forma de ensaio filosófico? Fácil: experiência. Kierkegaard não escreveu outra coisa que não uma descrição fria do que procuramos no objecto amado; basta debruçarmos o mínimo de intelecto[22] sobre o amado que caímos logo numa análise de autorretrato do amante. E mais, este passo é escrito na primeira pessoa porque, admitindo tudo o que fora escrito, é impossível que alguém não esteja apaixonado em qualquer momento.[23]

É de se recordar também a marcante fala de Sócrates no Alcibíades, onde explica que a pupila do olho de outrem é também como um espelho que reflete a nossa alma no outro, o que é muito interessante pensar que nos vemos a nós mesmos nos olhos de amor do olhar de outrem (na qualidade de amante face a nós mesmos), e deleitamo-nos profundamente nisso[24].

2.4 – O ARDOR POR UNIÃO

Esclarecida a questão acerca da similitudo, de que modo se pode dar a união com o objecto amado e o que é que a fundamenta? A seguir o método tomista, comecemos esta discussão com a que, a meu ver, é uma das mais belas e brilhantes afirmações de Aristóteles, quando diz: “O laço de amizade entre um homem e uma mulher parece existir por natureza, porque o Humano tem, pela sua própria natureza, uma existência a dois mais do que numa comunidade de Estado.” (1162a15)[25].

Para dar seguimento a esta Natureza do Homem, o mito narrado por Aristófanes n’O Banquete é absolutamente incontornável, ao que começa logo por enunciar que “O amor restabelece o nosso estado original e procura fazer de dois um só, curando assim a natureza humana.” (191d), e quando assim suceder, a nossa natureza restaurar-se-á, e assim seremos de facto felizes e bem-aventurados (193c)[26]; esta união é voluntária e desejada por ambas as partes, e mais, não se dá por outro motivo a não ser a semelhança![27] Em suma, o desejo de união dá-se pela semelhança, e tem o seu fundamento na natureza humana, que deseja unir-se àquilo que verdadeiramente ama quando ama.

Ainda acerca da união, há dois pontos vitais a considerar apontados por S. Tomás. Primeiro, quando chama Agostinho à discussão na primeira argumentação que toma depois das considerações contrárias por refutar, e esta chamada de Agostinho jaz no livro IV das Confissões, quando, pelas palavras de S. Tomás, cita o filósofo: “Bene quidam dixit de amico suo, dimidium animae suae[28], e podemos ver a coerência entre os escritos e a vida de S. Agostinho porque, tal qual escreveu, assim o viveu, quando a sua pretendente voltou de Milão para Tagaste, e descreve que foi como se tivesse perdido metade da sua alma[29]. Em segundo lugar e como aponta S. Tomás de modo bastante perspicaz, se houvesse uma fusão dos amados num só ser, tal resultaria “na corrupção de ambos e de cada um deles[30], logo, buscam a união, mas de um modo que lhes seja conveniente em simultâneo, de forma a poderem viver a eternidade juntos mas sem deixarem de ser o que/quem são; ora, podemos interpretar junto desta observação de S. Tomás o que Aristóteles dá a entender ser o primado da existência do Homem: a aversão à perda de identidade, quando diz: “Pois a existência é para o sério um bem. Cada Humano deseja para si próprio o bem, contudo ninguém o escolheria se para o obter tivesse de se transformar noutra pessoa, nem mesmo se aquele outro em que se tivesse tornado possuísse todas as coisas (pois Deus possui desde logo o bem tal como ele é). Ou seja, cada Humano escolhe para si o bem, mas apenas se puder continuar a ser o que quer que desde sempre seja.” (1166a20), com efeito, exprime com excelência o que se tem considerado até então, visto que, mesmo que o objecto amado possua o bem maximamente[31], apenas desejamos a união na medida em que “con-vivemos” e não nos fundimos a ele, deixando de ser quicumque simus[32], mas de modo a viver espiritualmente por inteiro com o outro.

Para começar a investigação acerca da última questão, atentemos na observação de S. Tomás: “dicendum quod amori attribui possunt quatuor effectus proximi: scilicet liquefactio, fruitio, languor et fervor. Inter quae primum est liquefactio, quae opponitur congelationi.[33], entendemos, principalmente com a chamada de atenção no fim da citação, que sendo o amor derretimento (liquefactio) mais que qualquer outro efeito, amplifica a própria paixão que é, e mostra um empoderamento sobre nós que anula qualquer tentativa de resistência.

2.5 – ENTUSIASMO MANIFESTO DESCONTROLADO[34]

Ora, já é o Amor aceite enquanto fenómeno dominante, afinal, basta recordar os discursos de Pausânias e Fedro n’O Banquete[35], mas, agora no diálogo que recebe o seu nome, atentemos ao segundo discurso de Sócrates, onde explora tão poética e verdadeiramente os efeitos que o Amor impõe no amante que o sofre[36], i.e., quando o amante vê o objecto amado: “a reminiscência do belo enche-o de alegria […] nesse estado de delírio não consegue descansar de noite, nem durante o dia permanecer onde quer que esteja; pelo contrário, corre com vivo desejo para o lugar onde pensa poder ver aquele que possui a beleza. […] a ninguém estima tanto como a pessoa amada: assim mãe, irmãos, amigos, de todos se esquece; sempre pronto a ser escravo e a deitar-se o mais perto possível do seu desejo. […] nele encontra o seu único médico para os seus graves sofrimentos.” (251d-252b)[37]. Ao analisar cuidadosamente este passo, é evidente, em primeira instância, o caracter mitológico da filosofia[38]. Muito bem, juntar os contributos analíticos, frios e distantes de S. Tomás à fervorosa descrição de Sócrates pode gerar alguma verdade, sendo que, se o amor é liquefactio, inflama e amplifica a paixão que já é, e enquanto paixão deseja o Bem e o Belo (que pertencem ao plano divino[39]), logo, o amor é um desejo louco de possuir o Bem e o Belo (que, por serem cosias do divino, podemos pensar o Bem (τὸ ἀγάθος) enquanto fundamento da Verdade (τὰ ἀλέθηια), segundo a alegoria da caverna, i.e., bebendo da interpretação medieval, Deus).

A focar no carácter de loucura do amor, é a melhor das possessões divinas, porque floresce no amante uma intuição de esperança de que a vida afinal possa ter um pingo de sentido, enquanto afogado em violentas mas acolhedoras correntes de amor, e são acolhedoras porque quando ouve chamar o seu nome pelo portador da beleza, sente-se em casa, mesmo que isso cause incontáveis remoinhos interiores em si. O fenómeno é contraditório mas a sua natureza é desse modo[40]; tudo indica que estar tomado de encanto é semelhante a atirar-se para o olho de um furacão onde os ventos cantam[41]. O foco é inteiramente direcionado ao receptáculo do belo, e não é para menos, visto que o outro emite uma luz tão forte que ofusca qualquer um que se atreva a ocupar um espaço próximo[42], aliás, a familiaridade e o desejo do outro é tão esmagadora que a competição é cruel; é impossível manter-se quieto quando o coração grita por união. Se por acaso o amante, por um qualquer motivo ou razão, tentasse fugir do feitiço a que está submetido, rapidamente perceberia que não há volta a dar, o nome daquele que transmite o belo está escrito em toda a parte (como canta a música), e a sua essência é manifesta nos mais pequenos detalhes do mundo, pelo simples motivo do outro ser o seu mundo, e tudo o que percepciona exclama o seu ser, e os mais pequenos detalhes das ínfimas partes constituintes do κόσμος lembram-lhe do quão majestoso e radiante é aquele que ama; e, se por acaso se lembrar de fugir de algum modo do κόσμος, continua condenado ao maravilhamento de tudo em que está submerso, porque, revisitando Dostoiévski, como o outro é um sonho, o amante dorme imenso, procurando qualquer coisa que lembre o amado mesmo onde se tenta esconder dele, por mais contraditório que seja, com já visto acima, trata-se de uma procura involuntária mesmo onde faz de tudo para se abster dele.

Por estes motivos, o amor tem tudo para ser uma paixão que fere o amante[43], porque mesmo que este faça de tudo para se pôr alhures e suprimir os efeitos da paixão, não será assim tão fácil quanto gostaria que fosse, seja por que motivo for. O amor apanha-o despercebido, o amante não escolhe quando será afectado, não escolhe por quem será atraído, nem faz ideia do porquê de assim ser. O pouco que pode tentar inferir sobre o amor é extraído pela análise do fenómeno do desejo, as suas qualidades e o que pode dizer sobre ele, baseado em critérios não mais que puramente racionais.

2.6 – DETERMINAÇÃO DIALÉTICA DE DESEJO – OBJECTO DESEJADO

Passemos então à análise do desejo e das categorias[44] daquele que o possui. Como diz Agostinho, há desejos que a todos são comuns[45], ora, aquilo que entre todos os desejos é comum é o Bem, como diz Aristóteles, na Ética: “[…] o bem é aquilo por que tudo anseia.” (1094a1), logo, conclui-se que o que é comum no desejo que a todos é comum (felicidade/ἐυδαιμονία) é o Bem, como completa Platão, por meio do diálogo Sócrates-Diotima, n’O Banquete: “«E de que servem as coisas boas a quem as possui?» Repliquei: «A isso já posso responder mais facilmente… é torná-lo feliz.»” (204e).

Está patente no amor o desejo de imortalidade, visto que, através da geração e da procriação, tenta-se imortalizar a relação de amor num próximo ente que dela surja; com efeito e de modo sucessivo, este próximo ente também deseja o Belo em si e por si mesmo, e há de tentar imortalizar a sua relação com o outro através de um novo processo de eternizar o todo que outrora viveu com outrem[46]. O desejo de imortalidade só é possível na medida em que o objecto desejado existe, e só faz sentido prosseguir com a investigação acerca daquele que deseja se entendermos a dimensão do desejo almejado que se afirma e sobrepõe a si; prova disso é estabelecida por Kierkegaard, na primeira parte do Ou-Ou: “Trata-se de uma determinação dialética que tem de ser retida com acutilância: só na medida em que há objecto, há desejo; só na medida em que há desejo, há objecto; o desejo e o objecto são um par de gémeos, em que um não veio ao mundo antes do outro, nem sequer uma ínfima parte de um instante.” (|82|). Sendo assim, pode-se inferir, numa primeira instância, que se se deseja a imortalidade e o Bem[47], estes a princípio existem, visto exercerem, sobre o humano, a maior força[48], o maior espanto, e o maior e melhor desejo.

Finalmente, visto que o que é desejado existe, e que há, de facto, uma determinação dialética «desejo-objecto desejado», então, por meio de reflexão, é válido pensar que quem deseja possui as características/categorias, mesmo que em parte ou em menor grau, do objecto desejado; tal raciocínio segue-se no Fédon, quando Sócrates argumenta que a alma tem um caracter de eternidade, visto que contempla as formas, que são eternas por natureza (enquanto o corpo vê apenas os objectos, que desempenham a função de condutores de formas), sendo assim, cada qual capta aquilo com que partilha uma natureza semelhante, como é evidente quando diz: “se nos dispomos a conhecer com clareza um dado objecto, é indispensável desligarmo-nos do corpo e, pela alma em si mesma, observarmos as coisas em si mesmas” (66e)[49]. Sendo assim, entendendo que por meio da determinação dialética e do silogismo de Sócrates a alma é semelhante ao que deseja, então a alma estrictamente humana (visto ser a única que manifesta ἔρως) é semelhante àquilo que fundamenta o Amor, i.e., o Sumo Bem; com efeito, a alma humana tem um caracter de imortalidade (visto que a Verdade e as respectivas formas contempladas são eternas e provêm do Bem em si mesmo[50]) e de bondade (visto amar a semelhança e o que ama ser o Bem em si mesmo, como analisado acima), em suma, o que tão bem exprime toda esta análise está expresso no livro do Génesis: “e criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Génesis, 1:27).

3. – O AMOR COMO MEDIAÇÃO QUE UNE O HUMANO AO DIVINO

Uma última consideração a fazer é a seguinte: o amor é laço que une o Humano ao Divino, mas o Divino também é amor, logo, o Divino deu-se a si mesmo para tornar possível, por meio de si mesmo, a união com o Humano. A respeito da primeira consideração, no caso, do Divino ter-se dado a si mesmo para permitir a união com o Humano (i.e., o Amor deu parte de si para unir os polos) é entendida na clássica passagem de João, 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho Unigénito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.”; ora, a vida eterna só existe em Deus, porque ele é eterno, e o que demonstra que o seu filho Unigénito é a ponte de ligação entre o Divino e o Humano (enquanto Amor por excelência) e simultaneamente uma parte de Deus (enquanto vida eterna) é clara e distintamente dito por Ele quando disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, ninguém vai ao Pai senão por mim” (João, 14:16).

Em suma e em tom de conclusão, o amor é uma força exterior que se sobrepõe a nós; mais, é força superlativa, nada é mais capaz de nos mover ou inspirar feitos de nobreza que o amor. Esta força aumenta em nós a vontade de andar por aí a distribuir o bem como se se tratasse de um rodízio de actos divinos. Não só amplifica o desejo do bem como atenua qualquer mal sofrido. Que não é possível encontrar uma cura para o amor já ficou claro o bastante, dadas as nossas considerações anteriores; mas mesmo assim, faria algum sentido procurar uma cura para aquilo que já é por si só a cura de qualquer mal? Para quê tirar da mente o que está dentro do coração? Não há outra forma de abater o mal se não for por amor, aliás, usando a linguagem tomista, terá o perdão, porventura, outro fundamento que não o amor? Não. Perdoar sem amor não é perdoar, é tolerar ou atirar areia para os olhos, chamem-lhe o que quiserem. Mas já que esta conclusão surfa uma abordagem bíblica, seria possível, tal como fez Jesus Cristo, abraçar um traidor e chamar-lhe de irmão sem ter o amor por base? O verdadeiro perdão requer o amor ao próximo, ademais, há maior prova de amor que termos recebido aquilo que Jesus mereceu e ter Jesus recebido aquilo que nós merecemos?

Com estas considerações, já se percebeu que gradualmente se deixou de falar do mesmo tipo de amor, e não foi desvio ou falta de cuidado, não, é metalinguagem compactada num parágrafo. A transição gradual representa o processo de mediação cujo amor é responsável. Primeiro, gostamos do outro por amor romântico, e, sintetizando as cosias, ao debruçar o intelecto sobre a questão, entendemos que o que procuramos é o Sumo Bem; ao conhecermos o Sumo Bem por meio de determinações dialéticas[51], passamos a entender o amor que dele vem, e entendemos que o amor passou de ser uma paixão descontrolada para um dever[52]. Por fim, apesar de ser um dever, o amor tanto romântico quanto fraternal (ἔρως καὶ ἀγάπη) continuam a ser os dois primados do sentido da existência humana, dado que, em concordância com as considerações acerca do ἀγάπη tomadas na nota 9 supra, “é o amor que dá valor ao ouro e à prata”, e um dos escritos que melhor expressa esta superioridade de valor diz o seguinte: “Ela é mais preciosa que rubis; nada que possas desejar se compara a ela. Longos dias há na sua mãe direita; na sua esquerda, riquezas e honra. Os caminhos dela são caminhos de deleite, e todas as suas verdades são de paz.” (Provérbios, 3: 15-17).

Podemos entender que, uma consideração que é própria do Amor é que, o amor por excelência requer uma vida assumidamente dedicada ao outro, e, em simultâneo, seja o amor romântico ou de fraternidade, vivendo assumidamente dedicado a outrem, o Amor é também fazer com que o outro viva melhor do que se eu não existisse.

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  1. Tradução revista pelo professor doutor António Campelo Amaral do grego: “ἠδ᾽ Ἔρος, ὃς κάλλιστος ἐν ἀθανάτοισι θεοῖσι, // λυσιμελής, πάντων δὲ θεῶν πάντων τ᾽ ἀνθρώπων // δάμναται ἐν στήθεσσι νόον καὶ ἐπίφρονα βουλήν.”.



  2. II-II, q.26, a.02



  3. II-II, q.27, a.01



  4. II-II, q.27, a.03



  5. II-II, q.28, a.01



  6. II-II, q.28, a.05



  7. Descartes, ao terminar a terceira meditação sobre a filosofia primeira: “De Deo, quod existat”, comprime eloquentemente, numa pequena frase, o que é o desejo desesperado de satisfazer a contemplação divina da suma felicidade transcendente através do contacto com imagens imperfeitas do imanente, como se pode entender na seguinte passagem: “Porque, assim como cremos pela fé que a suma felicidade da outra vida consiste unicamente na contemplação da majestade divina, também agora verificamos que uma tal contemplação, embora muito menos perfeita, faculta o maior contentamento espiritual de que somos capazes nesta vida. – Ut enim in hac sola divinae majestatis contemplatione summam alterius vitae foelicitatem consistere fide credimus, ita etiam jam ex eadem, licet multo minus perfecta, maximam, cujus in hac vita capaces simus, voluptatem percipi posse experimur.Descartes, R. Meditações sobre a Filosofia Primeira. Tradução do Latim e notas de Gustavo de Fraga. Edições 70: Coimbra, Junho de 2024. Por acrescento, pode perfeitamente recorrer-se a um belíssimo inciso de S. Paulo, na primeira epístola aos Coríntios, onde ainda mais formidavelmente afirma: “Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido. Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor.” (1 Coríntios: 12-13). S. Paulo ainda faz questão de acrescentar que a maior e obviamente melhor via para alcançar o objecto de contemplação é o Amor (ἀγάπη), não só porque este é o mediador entre o divino e o humano, como também o próprio objecto de contemplação, porque Deus é o próprio Amor (ἀγάπη) – sendo este o termo presente no texto original grego. Vale realçar a diferença gigantesca entre o Amor e a sua imagem, inerente no texto no grego original, i.e., vale notar que a palavra usada para traduzir “espelho” é ἐσόπτρου (no texto está declinado no genitivo, contudo, εἴσοπτρον é o nominativo) que significa reflexo, contudo, os objectos reflectores daquela época, especialmente no contexto greco-romano, eram feitos de metal polido (normalmente bronze ou prata), o que demonstra ainda mais o quão vaga é a imagem face ao que reflecte (neste caso, o divino). Mais uma vez, Platão parece ter acertado em cheio, visto que esta passagem cheira, e muito, à teoria das formas.



  8. Vale chamar a atenção para o seguinte: a ideia de que foi Platão o responsável por esta abordagem vem principalmente de Simplicius, onde por sua vez menciona Sosígenes (um comentarista do séc. II.) no seu próprio comentário ao De Caelo, onde atribui esta máxima a Platão, ao discutir a obra “Περὶ ταχῶν” de Eudoxo de Cnido, ZHMUD, L. Plato as “Architect of Science”. Phronesis 43, no.3 (1998): 211–44. Capítulos III e IV, pp 7 e 9.



  9. Entende-se por “fenómeno” “aquilo que aparece, na medida em que se dá a ver”, sendo que φαινόμενον é o particípio presente médio passivo de φαίνεσθαι, que por sua vez é o infinitivo presente médio-passivo de φαίνω – “aparecer”. O termo φῶς – “luz” tem etimologicamente que ver com o “Φ” inicial, isto porque φῶς traz consigo o indicativo originário da partícula elementar /f/.



  10. Em referência ao enunciado do livro Ζ (VII) da metafísica de Aristóteles: “Τὸ ὂν λέγεται πολλαχῶς”, através de uma equivalência trocando o infinitivo do verbo ἐιμί, entendemos que, no português, “Amor” é usado sem qualquer cuidado. Das polissemias que restaram do latim nada bebeu, i.e., o latim ainda preservou alguma distinção entre as diferentes nuances do amor (como nos casos de amor, amicitia, caritas, dilectio, pietas, cupiditas, venus), mas é no grego que se vinca com distinção os sentidos da palavra e onde nasce o termo a ser abordado no presente ensaio. A Φιλία oscila entre dois termos: primeiro, transmite uma dimensão de posse, na medida em que vê algo como próprio; segundo, designa obsessão, quando usado em compostos morfológicos, e.g., φιλοχρήματον καὶ φιλοκερδές (República, 581a). Com efeito, e mais ligada à primeira acepção, está normalmente associada ao amor de amizade, nomeadamente a “gostar de estar com outro”; Aristóteles explora a φιλία mais a fundo nos livros XVIII e XIV da “Ética a Nicómaco” e estabelece bases importantíssimas de fundamento que estão directamente ligadas ao tema que interessa às considerações a fazer posteriormente. Apesar de ser associada à amizade pelo senso comum, a φιλία é um laço a ser estabelecido tanto entre amigos, entre filhos e pais, como até mesmo com qualquer pessoa com quem se tenha algum contacto (também se admite sentir φιλία por animais, claro), ora, esta ampla possibilidade de laços é entendida ao revisitar o seguinte passo da Ética a Nicómaco: “O amor dos filhos pelos seus pais tal como a ligação dos homens aos deuses é paralelo ao laço que nos une ao bem e ao que nos é superior.” (1162a5). Já Ἀγάπη parece ser um tipo de feitiço que os cristãos estão sempre a falar (apesar da palavra já existir muito antes do cristianismo, com a nuance de amor fraternal, do verbo ἀγαπάω, que significa “estimar”, tendo claramente que ver com uma dimensão afectiva, como se pode ver, por exemplo, quando Aristóteles diz, logo no início da Metafísica: “σημεῖον δ’ ἡ τῶν αἰστήσεων ἀγάπησις·” (A.980a21)), e cujo sentido é priorizado face a todas as cosias, i.e., metaforicamente, é o ἀγάπη que dá valor ao ouro e à prata, dá vida às memórias e cor aos nossos dias, na tradição cristã, é entendido como o amor elevado ao mais alto nível, no caso, o amor do divino pelo Homem, e que é dever do Homem senti-lo em relação ao próximo. Um passo que ilustra com muita virtude este ponto, está também na Ética e diz o seguinte: “Na verdade, todo o artista ama mais o seu próprio trabalho do que poderia ser amado pelo próprio trabalho se este ganhasse vida” (1167b35). A Στοργή (do verbo στέργω, que significa “amar com ternura”) é o amor que um pai tem pelo filho (entendido também como o amor que um rei sente pelo seu povo, e em outros casos e como é comum no grego, expressar o sentido de desejo carnal, apesar de ser muito rara e execpional esta aparição), podendo também estar sujeito à interpretação de ser como uma imagem do ἀγάπη, apesar do amor sentido pelos pais para com os filhos (ou do divino para com o mortal) ser sempre superior ao seu inverso, como demonstrado acima. Por fim, é para o entendimento do ἔρως e das suas manifestações que serão dirigidas as considerações ao decorrer deste texto.



  11. O termo “paixão”, lato sensu, é cognoscível se remetido para a sua etimologia – do grego “Πάθoς”, tem por significado “sofrimento”, mas não se limita ao sentido pejorativo, mas a tudo aquilo que afecta o corpo (σῶμα) e a alma (ψυχή) tanto para o bem como para o mal; mergulhando mais afundo no sentido do termo chegamos ao verbo “πάσχω” que exprime a ideia de ser afectado de uma ou de outra maneria, experimentar esta ou aquela afecção, o que demonstra com virtude que pode haver boas ou más afecções, como nos casos de “εὖ πάσχειν” (sentir-se bem, boa disposição) e κακῶς πάσχειν (sentir-se mal, má disposição) – tal oposição dá-se por conta dos advérbios de modo “εὖ” (bom) e “κακῶς” (mau). Quanto aos gregos, foram os epicuristas e os estoicos os principais responsáveis por desenvolver um modo de vida sustentado racionalmente na ideia de um controlo das πάθη. Os estoicos debruçaram-se mais sobre a problemática negativa das paixões (κακῶς πάσχειν), inferindo que as πάθη são impulsos sensitivos e, por natureza, contrários à razão (por serem impulsos concupiscentes, parece haver uma exometria de relação de oposição entre πάθος – λόγος e σῶμα – ψυχή); tome-se como exemplo todo o discurso de Séneca sobre a nobreza do acto de suprimento da raiva no quotidiano, na sua obra “De Ira” – Lucius Annaeus Seneca. “On Anger.” Moral Essays. Vol. 1. Trans. John W. Basore. London: W. Heinemann, 1928. Em complemento à investigação filosófica do estoicismo, foram os epicuristas os responsáveis por pensar a parte positiva das paixões (εὖ πάσχειν), tendo como fim último de vida o ideal de ἀταραξία, que consiste num regulamento das paixões, através do autocontrolo e disciplina a fim de anular as perturbações da alma (αἱ ταράξεις τῆς ψυχῆς), que, esta anulação, por si só, já seria causa de felicidade (i.e., o simples facto de não ter perturbações).



  12. Apesar de S. Tomás mencionar apenas duas faculdades, estas questões da prima-secundae (não só as que compõem o De Passionum Animae, mas também as dos Humani Actibus, como é evidente) estão abundantemente recheadas do que parece ser uma leitura de Platão, sendo possível uma equivalência com duas das três partes constituintes da tripartição da alma, a saber, o intellectus com a λογιστικόν (racional) e a voluntas com a ἐπιθυμητικόν (concupiscente). Apesar da vontade ser comumente pensada quando se trata da parte irascível da alma (θυμοειδές), o tipo de vontade que S. Tomás aborda tem mais que ver com a parte concupiscente, isto porque engloba todos os tipos de desejo (como se a voluntas fosse uma junção das partes concupiscente e irascível), visto que, segundo S. Tomás, há paixões do irascível e paixões do concupiscente, mas todas são paixões e obedecem aos critérios da vontade. Sobre a distribuição qualitativa das paixões, cf. nota 14 infra.



  13. O que não significa que sejam coisas separadas, de todo, como se pode entender na alegoria da caverna, por exemplo, onde a luz (que representa a Verdade) deriva do sol (que representa a ideia do Bem).



  14. Este recurso surge durante a exposição de um dos argumentos que sustenta a conclusão final do artigo, onde é invocada uma passagem do livro II de De Fide Ortodoxa de S. João de Damasceno – “Passio est motus appetitivae virtutis sensibilis in imaginatione boni vel mali. Et aliter: Passio est motus irrationalis animae per suspicionem boni vel mali.”.



  15. Sendo os apetites concupiscentes o Amor (amor), o Ódio (odium), o Desejo (desiderium), a Aversão (abominatio), a Alegria (gaudium) e a Tristeza (tristitia), e os apetites irascíveis a Esperança (spes), o Desespero (desperatio), a Audácia (audácia), o Medo (timor) e a Ira (ira).



  16. Apesar de parecer redundante, atentemos com detalhe na questão de Sócrates a Agatão, n’O Banquete: “O Amor é amor de nada ou de alguma coisa?” (199e), pode parecer confuso ou até mesmo redundante, mas recorrer ao grego original guiar-nos-á a alguma resposta, no caso, a passagem exprime o seguinte: “ὁ Ἔρως ἔρως ἐστὶν οὐδενὸς ἢ τινός;”, tirando a parte disjuntiva “οὐδενὸς [genitivo de οὐδείς (nada)] ἢ [conjunção disjuntiva] τινός [pronome indefinido singular declinado também no genitivo]”, resta-nos o verbo principal (ἐιμί, conjugado na terceira pessoa do singular do presente indicativo activo) e o núcleo da questão: “ὁ Ἔρως ἔρως”. Só esta palavra daria pano para mangas, mas analisemos os seus significados primordiais: primeiro, muito antes d’O Banquete ser escrito, Ἔρως já se usava como uma palavra comum, e a sua conotação, sem qualquer tipo de ligação à mitologia e/ou à filosofia, é apenas a de “desejo por qualquer coisa, carência violenta, grande atração”, i.e., é bastante normal alguém sentir ἔρως por comida, por exemplo, sem ter, necessariamente, segundas intenções com os alimentos. Vale ter em consideração que ἔρως, como é óbvio e abundante no grego, não é o único termo usado para traduzir “desejo”, e.g., ἐπιθυμία, que tem uma abrangência maior e engloba o tipo de desejos gerais; ὄρεχις, que tem mais que ver com apetites e inclinações naturais a algo; ἵμερος, que está ligado a tipos de desejos espontâneos, imediatos e de atração instantânea; e também βουλήσις que, em oposição a ἵμερος, abrange o tipo de desejo racional e ponderado, i.e., tem a vontade deliberada com apelo ao intelecto como base (do verbo βούλομαι, que significa “querer”, mas querer com “cabeça, corpo e membros”). Ἔρως, como dito acima, é um δαίμων, mas o que importa agora ter em consideração é uma extração da filosofia escondida nas entrelinhas no mito da sua origem. Ἔρως é filho de Πενία e Πόρος, como se pode ver no final da cota 203b: “Então a Pobreza, que na sua natural indigência meditava ter um filho do Engenho, deitou-se junto dele e assim concebeu o Amor”. Πόρος, por sua vez, é filho de Σοφία (203b), o que será útil mais adiante; já Πενία, em grego, significa “Pobreza”, exprimindo a nuance de falta de alguma coisa. No dia do nascimento de Afrodite, os deuses reuniram-se num festim, e foi lá que se deu este acontecimento, onde Ἔρως fora concebido. Todo o cenário é, ele mesmo, abundantemente rico em detalhes que dão significado ao Amor, e para a sua devida compreensão, analisemos a última passagem a respeito: “Concebido nas festas em honra do seu nascimento [de Afrodite], é, por natureza, um apaixonado do Belo, pois que Afrodite é bela. Por outro lado, a condição de filho do engenho e da Pobreza ditou-lhe o seu destino.” (203c) é extraordinária a genialidade de cada palavra deste passo, ao que todo o estudante de filosofia o devia rezar, passo a heresia, quase que diariamente, isto porque, dado que Ἔρως foi concebido na festa de nascimento de Afrodite, e, como diz o passo, “Afrodite é bela” (τῆς Ἀφροδίτης καλῆς οὔσης), Ἔρως tem uma qualquer relação com o Belo, no caso, uma relação de desejo, da sua natureza de significado semântico conjugada com a natureza do acontecimento por trás do seu nascimento. Agora, este desejo é infeliz, porque, dada a essência da sua mãe Πενία, será para sempre um desejo desprovido de qualquer tipo de posse e realização, dado estar condenado a ser um desejo, verdadeiramente, pobre.



  17. Pode pensar-se, a primeira instância, no discurso de Aristófanes como justificação desta falta, como será explorado com mais rigor infra, contudo, nada nos impede de estabelecer breves considerações acerca da carência da natureza do desejo. Na verdade, o que falta ao amante não é uma outra metade que o complete, como se deste modo o seu horizonte de desejo ficasse plenamente fechado e satisfeito (segundo conta Aristófanes), mas, como está expresso e bastante claro em 205e, é comum que pessoas consintam em amputar as próprias mãos e pés se virem que estas partes lhes são nocivas, o que demonstra que é preferível um corpo saudável a um corpo completo. Ora, por analogia, podemos concluir que é preferível a posse do Bem a integrar algum todo, a não ser que o todo “suceda ser, pelo menos, o bem” (τυγχάνῃ γέ που, ὦ ἑπαῖρε, ἀγαθὸν ὄν) (205e).



  18. Uma boa representação que manifesta com semelhança o medo de perder quem se ama/o que se ama jaz no Formião de Terêncio. Na obra, depara-se com a mesma problemática vista de dois pontos de vista diferentes, mas cujo seu fim lhes é comum: Antifão casou prematura e espontaneamente, ao passo que teme perder a sua noiva e o desfasamento do matrimónio; Fédria, todavia, vê a sua amada vendida enquanto escrava, e move mundos a fio para poder comprá-la de volta. Este desespero é muito bem expresso quando desabafa em pânico: “Assim os deuses me ajudem, de modo a que me seja permitido fruir durante tanto tempo o objecto do meu amor: então estarei pronto a fazer um acordo com a morte.” (Terêncio. Formião. Introdução, tradução do Latim e notas de Aires Pereira de Couto, Edições 70: Lisboa, 1999. p. X, A. I, c. III, v.165), contudo, Fédria não é um caso isolado, ao passo que Antifão não fica nada atrás (o que remonta para algo de comum quando se trata do medo de perder quem se ama, para a perda de sentido quando isso acontece, e até mesmo para a demonstração do desespero face à ameaça de tal assim suceder), quando diz: “É que se a minha má sorte chegar ao ponto de me separar de ti, Fânio, eu já não tenho vontade de viver.” (Ibidem., p. x, A. I, c. IV, v.200). Fica assim entendido que a vida sem a possibilidade de comunhão com quem se ama perde todo o sentido, ademais, o cenário paradisíaco perfeito consta na eternidade vivida em amor.



  19. Em suma, como o amor é uma paixão concupiscente e todas as paixões aspiram ao Bem ou repugnam o mal (segundo S. Tomás), e tendo em consideração o estudo acerca do ἔρως, o amor é desejo do Belo/Bem. De início é, de facto, desejo das coisas belas/boas, contudo, a dado momento do diálogo Sócrates-Diotima, deixa-se de utilizar a nomenclatura τὰ ἀγάθα e passa-se a falar em τὸ ἀγάθον καὶ τὸ κάλον. Convém também ter em conta que os termos parecem ser equivalentes, contudo, no Hípias Maior, “fica claro” (isto porque o diálogo acaba em ἀπορία, como não é nada atípico em Platão) que o Belo (τὸ κάλον) é um tipo de prazer superior directa e intrinsecamente ligado com o Bem em si mesmo (τὸ ἀγάθον αὐτό).



  20. É de notar também o que diz Pseudo-Dionísio, o Aeropagia, no capítulo IV de De Divinis Nominibus: “singula deipsa amant contentive”.



  21. Não foi Kierkegaard o pioneiro do termo “outro-eu”, tendo S. Tomás já exprimido essa noção (apesar de, no caso, tratar da amicitia), quando diz: “Do mesmo modo, quem ama alguém por amor de amizade quer-lhe o bem que quer para si mesmo, e por isso o apreende como outro eu, enquanto quer o bem para ele como para si mesmo.” (Similiter cum aliquis amat aliquem amore amicitiae, vult ei bonum: unde apprehendit eum ut alterum se, inquantum scilicet vult ei bonum sicut et sibi ipsi.) (cf. II-II, q.28, a.01, – sed contra.)



  22. Do latim Intellegere – discernir, no sentido de separar e distinguir, no fenómeno do amor, o que do amante e o que de si próprio se ama no amante. Convém também destacar, pelo facto de ser tratar de Amor, que, para não se cair num narcisismo ou amor extremamente egoísta, o “espelho ideal” será reflectir o amor de Cristo, segundo Kierkegaard, ao passo que, é através do Amor que devemos ser uma imagem de Cristo, como ele é imagem de Deus Pai. Esta nota serve apenas de esclarecimento a possíveis angústias face ao caracter egoísta do Amor.



  23. Admite-se perfeitamente que alguém contraponha que não está apaixonado por ninguém, e que o diga de boa-fé, contudo, das duas uma: atentemos no aviso de Ovídio, no Remedia Amoris, quando diz: “quem diz demais e a muita gente «Não amo», ama.” – qui nimium multis «non amo» dicit, amat. Ovídio. Remédios Contra o Amor. Tradução do Latim, introdução e notas de Carlos Ascenso André, Quetzal: Lisboa, Outubro de 2024. p. 95, v.648, que alerta já para uma ponderação do que se diz acerca do amor sentido; segundo, foi Dostoievski que tão poética e brevemente espremeu toda a vasta gama de teoria que sustentaria uma argumentação a favor, na obra White Nights, quando o protagonista do romance, absolutamente desesperado mas, em simultâneo, tranquilíssimo e confiante de que o que diz é verdade, profere: “Oh, if only you knew how many times I’ve fallen in love like that!” (Dostoesvky, F. White Nights: And Other Stories. Penguin Classics: 2009. p. 17.), ao que a senhorita que estabelece o diálogo com ele o questiona como seria isso possível (sendo que o personagem diz, logo no início da história, que nunca saía de casa e mal conhecia pessoas), e o nosso protagonista responde com o núcleo desta questão: “[…] with nobody, but with an ideal, with the one I see in my dreams. I create entire love stories in my dreams.” (Ibidem.), o que traduz em palavras o fenómeno que Kierkegaard enunciou, i.e., mesmo que não amemos uma pessoa em concreto, amamos a ideia de alguém que nos devolva a nós mesmos. Este passo é de se manter em mente, visto vir a ser útil mais adiante…



  24. No caso, a passagem em questão consiste no seguinte: “And have you observed that the face of the person who looks into another’s eye is shown in the optic confronting him, as in a mirror, and we call this the pupil, for in a sort it is an image of the person looking?” (132e-133a). A nota de rodapé da edição consultada e devidamente identificada na bibliografia aponta para um pequeno grande detalhe; a palavra no grego original que fora traduzida para “pupila” é κόρη, e tanto no grego como no seu equivalente latino (pupilla) tanto significam “pequena rapariga” como “pupila”, e o jogo de palavras usado por Sócrates aponta para que, no centro escuro do olho, seja vista uma pequena imagem reflectida, exactamente como um “espelho de almas”.



  25. Quando se pensa em Aristóteles, é quase instantânea a associação ao seu famoso dito: “ὁ ἄνθρωπος φύσει πολιτικὸν ζῷον” (Política, 1253a); ora, para Aristóteles dizer que mais do que uma existência numa comunidade de estado, o Homem aspira, por natureza, a uma vida levada a dois, então a união com o outro tem tudo para ser um estilo de vida superior ao considerado em comunidade.



  26. Ao reflectirmos sobre o mito e o aplicarmos à vida humana, compreende-se que o cenário de máxima felicidade é um cenário de imortalidade levada por uma vida junto ao outro, i.e., uma vida de amor supera qualquer tipo de relação, seja ela familiar, amiga, ou de comunidade de estado, como será melhor manifesto na citação do livro do Génesis da nota 26 infra.



  27. Analisemos de passagem a seguinte fala, em 192e: “Não será a isto que vocês aspiram – a identificarem-se o mais possível um ao outro, de forma a não mais se separarem noite e dia?”; vemos aqui compilada toda a estrutura que S. Tomás elaborou com a ordem sistemática das questões, isto porque começa-se por entender que, por se identificarem o mais possível um com o outro, que é a mais pura e elevada forma de semelhança, juntam-se e temem profundamente a possibilidade de separação, i.e., a semelhança desagua num desejo intenso de união. Em concordância, considere-se a seguinte passagem do livro do Génesis, que de modo tão belo e aconchegante ilustra o processo de união que alivia o medo de não cura da natureza vivida a dois: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e unir-se-á à sua mulher, e juntos serão uma só carne.” (Génesis, 2:24).



  28. cf. II-II, q.28, a.01, – Respondeo.



  29. Tal descrição repete-se com a morte de um amigo muito querido de S. Agostinho, narrada também no livro IV, visto que este tipo de alterum se existe também na amicitia (cf. Nota 20 supra).



  30. cf. II-II, q.28, a.01, – Ad Secundum.



  31. Isto porque, relembrando que: “Deus possui o bem tal como ele é”, mesmo que nos tenhamos que, hipoteticamente, fundir com Deus (tendo em conta a máxima de que “Deus é o ser em relação ao qual nada mais ou de maior pode ser pensado” – Deus est aliquid quo nihil maius cogitari possit – Anselmo, S. Proslogion. Tradução do latim, introdução e notas por José Maria Sila Rosa e Maria Helena Reis Pereira, Texto Editora: Lisboa, 1995.), preferimos não deixar de ser o que somos a apreender o bem perdendo a nossa essência (cf. nota 16 supra).



  32. Adapta-se, neste caso, o corrente uso de quicumque sim de S. Agostinho (cf. e,g. Confissões, X, 10.2.2)



  33. Cf. II-II, q.28, a.06 – Respondeo.



  34. Invoca-se o pleno sentido de Entusiasmo, em concordância com a nota 46 infra, ἐνθυσιασμός é um termo composto por três elementos, a saber: ἐν (advérbio e preposição que significa “dentro”, “em” – equivale ao in do inglês), θεός (deus) e o sufixo ιασμός (que indica um estado ou condição); em suma, ἐνθυσιασμός significa literalmente “ser tomado por deus pelo lado de dentro”, e está em harmonia com a passagem da Ilíada infracitada, tendo em conta o verbo ἐνθυσιάζω, que significa “ser inspirado” (estando subentendido ἐνθεος).



  35. Atentemos também, a recorrer como reforço, o que tão poeticamente nos diz Ovídio, também em Remedia Amoris: “logo e sem tu quereres se alojou no teu coração o amor; // eras capaz de transmudar homens em mil figuras, // mas não eras capaz de transmudar as leis do teu coração.” – longus in inuito pectore sedit amor. // Vertere tu poteras homines in mille figuras, // non poteras animi uertere iura tui. (Op. Cit. p. 67, vv. 268-270).



  36. Sofre no sentido de πάσχω (cf. nota 10 supra).



  37. Veja-se também, por complemento, uma breve passagem do discurso Expectativa da fé, Dia de Ano Novo, dos Dezoito Discursos Edificantes, onde Kierkegaard diz o seguinte: “Seguimos uma boa vontade, a qual, se bem que não mereça a honra de levar o nome de amor, também não deve ser desconsiderada com leviandade. Só abrimos uma excepção no que diz respeito a uma única pessoa. Por ela bate mais veloz o nosso coração, preocupamo-nos mais com o seu bem-estar.” – Kierkegaard, S. Dezoito Discursos Edificantes. Introdução, tradução do dinamarquês e notas de Elisabete M. de Sousa, Relógio D’Água, Lisboa: Maio de 2023. p. 38, |17|.



  38. No caso, que o amor é amor do belo (cf. nota 15 supra).



  39. Plotino ajuda-nos a entender bem esta relação, quando diz: “Nunca os olhos verão o Sol, sem se terem tornado semelhantes ao Sol, nem uma alma veria o belo sem ser bela. Primeiro, que tudo se torne divino e belo, se quiser contemplar Deus e o Belo.” (Enéadas, I.6.9).



  40. Na verdade, esta μανία é uma grande contradição, porque é um terror ser destruído divinamente por dentro, mas é um terror que sabe bem, aliás, é o melhor dos terrores: um terror desejado. Podemos pensar neste terror como um agitador de águas na alma estrictamente humana, e através de um jogo de linguagem, as comumente descritas “borboletas na barriga” fazem algum sentido, porque a alma (ψυχή) agita-se, embora no plano inteligível, de modo semelhante ao movimento das borboletas (sendo que uma das nuances de ψυχή, para além de “alma”, é também a de “borboleta”, enquanto símbolo de imortalidade da alma entre os antigos, tendo que ver com o processo de metamorfose).



  41. O que mostra que não importa a situação vivida, se levada por meio do amor, perde toda a gravidade, e o foco passa a ser o outro (novamente: “nele encontra o seu único médico para graves sofrimentos” – 252b).



  42. Esta questão tem muitas e curiosas semelhanças com o baptismo de Jesus por João Baptista, quando os céus se abrem e o Espírito Santo desce sobre Ele; veja-se também a descrição do apóstolo Marcos da transfiguração de Cristo no monte Tabor: “[…] o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.” (Marcos, 17: 1-2) – Estas recorrências bíblicas ajudam a ilustrar o fenómeno sentido por aqueles que amam ao ver a pessoa amada, e o seu âmbito de equivalência não só tem que ver com a proximidade de percepções, com a condição de Deus ser Amor, como jaz na primeira carta do apóstolo João: “Deus é amor, e aquele que permanecer no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1 João, 4: 8).



  43. Novamente no sentido que tem sido tomado em consideração ao longo do texto (cf. nota 37 supra).



  44. Neste caso, não se entende “categorias” apenas no sentido metafísico aristotélico e/ou kantiano, mas além disso, no seu sentido grego, “aquilo que se pode acusar sobre algo”; tomemos como exemplo a Apologia de Sócrates: quando Sócrates diz que vai defender-se das falsas acusações e dos acusadores, diz que se vai defender das ψευδῆ κατηγορημένα καὶ τοὺς κατηγόρους (πρῶτον μὲν οὖν δίκαιός εἰμι ἀπολογήσασθαι, ὦ ἄνδρες Ἀθηναῖοι, πρὸς τὰ πρῶτά μου ψευδῆ κατηγορημένα καὶ τοὺς πρώτους κατηγόρους – 18a5).



  45. Atentemos, principalmente, quando diz: “É conhecida de todos aqueles que, se lhes pudéssemos perguntar se queriam ser felizes, responderiam a uma só voz, sem nenhuma hesitação, que queriam.” (Confissões, X, XX, 29); outro passo muito importante que se liga a este para formar a base do nosso raciocínio é: “Quem, pois, é tão inimigo de si mesmo que não queira ser feliz? […] Todos, com efeito, querem a felicidade, e todos concordam neste desejo, embora nem todos sejam felizes, porque nem todos querem os meios para o conseguir.” (A Cidade de Deus, XIX, 1). Independentemente do tipo de acção, i.e., seja ela boa ou má, toda ela anseia pelo Bem, i.e., uma acção má procura o bem mesmo assim, contudo, mira-o na qualidade de bem aparente, não como o bem em si mesmo (como está escrito no início do passo que será exposto adiante: “[…] todo o procedimento prático [πρᾶχίς] e toda a decisão, parecem lançar-se para um certo bem.” (Ética a Nicómaco, I. 1094a1). Kant parece ir ao encontro deste passo de Aristóteles, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, quando diz: “todos os homens têm já por si mesmos a mais forte e íntima inclinação para a felicidade, porque é exactamente nesta ideia que se reúnem numa soma todas as inclinações.” – haben alle Menschen schon von selbst die mächtigste und innigste Neigung zur Glückseligkeit, weil sich gerade in dieser Idee alle Neigungen zu einer Summe vereinigen. Kant, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Introdução de Pedro Galvão, tradução do Alemão de Paulo Quintela, Edições 70, Lisboa: Novembro de 2019. p. 30, BA 13, exaltando ainda mais a inclinação comum a todos para a felicidade e que esta é a soma de todas as inclinações, ou seja, todo o procedimento prático aponta para a felicidade e todos agimos consoante a este desejo comum.



  46. Tal torna-se evidente através do seguinte passo: “«Ora a união entre o homem e a mulher é propriamente um acto de gerar e há nisto algo de divino, que subsiste cada ser vivo, mortal por natureza, como forma de imortalidade […] Pois o alvo do Amor não é de facto o Belo, como tu supões, Sócrates, […] mas gerar e criar no Belo! […] Porque a geração é, para o ser mortal, como que a possibilidade de se perpetuar e imortalizar.»” (206c-206e).



  47. A partir de agora, substituir-se-á a conotação de Belo (τὸ κάλος) por Bem (τὸ ἀγάθον), à semelhança do diálogo Diotima-Sócrates (cf. 204e).



  48. Sim, o amor exerce a maior força sobre o Homem e é simultaneamente a maior fonte de força do mesmo; para isso, revisite-se o discurso de Fedro, n’O Banquete: “nem a nobreza de parentesco, nem os cargos de prestígio, nem a riqueza nem qualquer outra coisa são capazes de inspirar feitos tão belos como o amor. […] Assim, se houvesse processo de constituir um Estado ou um exército só de amantes e de amados, que organização melhor poderia encontrar-se? Homens como estes […] seriam capazes de vencer o mundo inteiro! […] não há homem nenhum tão fraco a quem o próprio amor não inspire actos de bravura e não o torne igual aos bravos por natureza.” (178c-179b). Em suma: “O deus insufla-lhes coragem” (Ilíada X, 482). Ademais, é importante realçar que o amante só é cheio de actos de bravura perante a possibilidade de reparo por parte do amado, veja-se, finalmente: “nem à vista de seu pai nem dos seus camaradas nem de outra pessoa qualquer se sentirá tão mal como na presença do seu amado!” (178d), daí a importância da participação dos amados no exército mencionado acima.



  49. Um bom complemento que auxilia a compreensão desta argumentação jaz no capítulo X do De Imortalitate Animae, de S. Agostinho, quando explica que, entendido que o corpo vê os objectos e a alma vê as formas através de uma condução sensível permitida pela relação corpo-objecto no sensível, e que esta relação só é possível porque tanto os objectos como o corpo compartilham algo em comum que os liga (a saber, a matéria), também a alma terá que ter algo em comum com a verdade. Com efeito, sendo as verdades eternas (e.g., a matemática, as formas e as regras da lógica), para a alma contemplar as verdades eternas terá que ter, à semelhança, um caracter de imortalidade; vejamos: “Mas, seja como for, é certo que a alma não poderia por ela mesma contemplar a verdade, se ela não tivesse alguma relação com ela. Pois tudo o que contemplamos ou consideramos através do pensamento, nós o percebemos através dos sentidos ou através do intelecto.”. Serve de complemento a esta observação a argumentação levada por Sócrates, no seu segundo discurso no Fedro, ao demonstrar que toda a alma é imortal, visto que é princípio de movimento autónomo do próprio corpo (incluindo qualquer tipo de alma, ao contrário de Aristóteles, por exemplo). O facto da alma ser um princípio – ἀρχή (no caso, de movimento, mas pode ser também interpretado como um princípio de dignidade, como afirma Hans Jonas, ou de individualização, como tem sido desenvolvido pela tradição grega) dita a sua imortalidade, porque “um princípio é coisa não gerada […] e, uma vez que não é gerado, é necessariamente incorruptível, […] sendo assim, é princípio de movimento o Ser que se move a si mesmo.” (245c). Ao contrário, todo o corpo cuja fonte de movimento é exterior, é mortal e cessa de existir, sofrendo também de corrupção. Ainda acerca da imutabilidade da alma e do seu caracter de princípio motor, vejamos novamente o que diz Agostinho no capítulo III do De Imortalitate Anima, quando em concordância com o que acabámos de ler, diz o seguinte: “Deve-se reconhecer que tudo o que provoca movimento não muda ao fazê-lo. Ora, a alma é substância viva que provoca no corpo os mais diversos movimentos.” Agostinho, S. A Imortalidade da Alma. Teodoro Editor: Niterói – Rio de Janeiro, 2018. p. 7.



  50. Ademais, o maior motivo do Amor ser eterno (entendendo por Amor a relação que nos liga ao absoluto – ἔρως, o intermediário entre os Homens – ἀγάπη, e o próprio extremo da mediação – Θέος) está tão belamente escrito numa passagem que resume todas as considerações possíveis imaginárias a ser feitas sobre o assunto, que, em complemento (apesar de ser o começo) à supracitada na nota 6, é a seguinte: “O amor jamais cairá. As profecias terão o seu fim, o dom das línguas terminará e a ciência será inútil. Pois o nosso conhecimento é imperfeito e também imperfeita é a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança.” (1 Coríntios, 13: 8-13). Podemos ver que tudo o que é imperfeito cessará ou sofrerá corrupção, mas o amor não está incluído, o amor a tudo resiste e prevalece, sendo a maior força que existe e sustenta união; uma união baseada em amor jamais cairá.



  51. Cf. toda a investigação acerca das qualidades daquele que deseja e do objecto desejado tomadas na secção 2.6 – Determinação dialética de desejo-objecto desejado.



  52. Cf. Mateus, 22: 30-37: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o coração, de toda a alma e com todo o teu entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. O Segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os profetas dependem destes dois mandamentos.”.


Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica

A UNESCO declarou o ano de 2025 como Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica. Foi uma ideia bastante feliz. A Física Quântica mudou definitiva e radicalmente as nossas vidas, e por isso faz todo o sentido assinalar este 100º aniversário.

A teoria quântica ficou estabelecida há 100 anos, fruto de um longo processo, que não terminou em 1925. No princípio do século XX tínhamos um paradigma para os fenómenos físicos muito bem estabelecido, a que chamamos de Física Clássica ou Newtoniana, uma vez que partia das três leis da mecânica de Newton, que hoje em dia se aprendem na escola.

A Física Clássica evoluiu muito em termos de sofisticação e conseguiu de alguma forma incorporar o electromagnetismo e a termodinâmica. Contou com imensos sucessos e permitiu desenvolver muita tecnologia, potenciando a revolução industrial do século XIX. Este paradigma clássico baseia-se numa concepção bastante intuitiva de espaço e de tempo, dos corpos e das suas interacções, e por isso muito apelativa.

A Física de Newton foi falhando à medida que a precisão dos instrumentos foi aumentando e à medida que apareciam novos fenómenos que não encaixavam nesse paradigma.

No final do século XIX e princípios do XX começaram a fazer-se descobertas e a aparecerem fenómenos que não encaixavam no paradigma clássico. Essas descobertas levaram a refazer os nossos conceitos de espaço e de tempo (por exemplo), e aprendemos a partir da teoria da relatividade que temos de os considerar unidos numa entidade a que chamamos espaço-tempo: uma única entidade com dois aspectos. Naturalmente, se mudamos os conceitos de espaço e de tempo, os movimentos vão-se processar de outra forma, menos intuitiva do que a sugerida pela Física Clássica, mas real, como o demonstra a experiência, que é o critério de verdade (ou de não falsidade) numa disciplina experimental.

Uma outra sequência de estudos, no esforço para determinar o que era e como funcionava o átomo, levou-nos a uma concepção ainda mais radicalmente contra-intuitiva da natureza dos objectos e das suas interacções. É a teoria quântica, que estamos a comemorar agora. Não é uma curiosidade de laboratório; toda a electrónica com que convivemos no dia-a-dia tem a sua base em tecnologias quânticas.

A teoria quântica forneceu um modelo extremamente eficaz da realidade física, permitindo-nos compreender e manipular o mundo material de maneira inovadora. Isso resultou no desenvolvimento de uma vasta gama de dispositivos tecnológicos, impulsionando um avanço sem precedentes na história da humanidade. Com a teoria quântica, aprendemos a controlar com precisão as propriedades eléctricas, magnéticas, mecânicas e ópticas dos materiais, o que nos permitiu criar dispositivos essenciais para o nosso quotidiano, como os telemóveis, os computadores, as lâmpadas LED, os microondas e detectores de diversos tipos. Essa tecnologia revolucionou o nosso estilo de vida, embora nem sempre para melhor, pois qualquer avanço tecnológico pode ser utilizado tanto para o bem quanto para o mal. Os nossos

antepassados não imaginariam as capacidades que hoje temos à disposição com um simples telemóvel.

Mas estes são os frutos da primeira revolução que a Física Quântica causou. São os frutos mais baixos, mais fáceis de apanhar. Neste novo século, estamos a ir aos frutos mais altos, e as expectativas são enormes. Estamos a começar uma segunda revolução quântica, em que aplicamos tecnologicamente os resultados menos intuitivos da Física Quântica. E isso é um verdadeiro mundo novo, com realidades que não têm paralelo no mundo da Física de Newton.

Nesta segunda revolução quântica que está a decorrer, estamos a aprender a controlar fenómenos exóticos, como o entrelaçamento quântico e a não- localidade.

Esses fenómenos são explorados para a computação quântica, que permitirá fazer determinados cálculos e simulações que não são possíveis com os computadores actuais. A inteligência artificial será muito potenciada por este tipo de dispositivos, assim como aplicações que envolvam a manipulação de grandes quantidades de dados. A ciência dos materiais, a descoberta de novos medicamentos, as simulações a grande escala serão mais acessíveis.

Outro aspecto envolve o desenvolvimento de novos tipos de sensores. A sociedade actual já está atulhada de sensores que detectam movimento, obstáculos, químicos, sinais de todo o tipo. Sensores mais sensíveis e fiáveis serão criados para monitorizar o meio ambiente, a qualidade dos alimentos, os nossos sinais vitais, a mobilidade, e o funcionamento de todo o tipo de dispositivos.

A comunicação quântica permitirá comunicações mais seguras através da criptografia quântica.

Sabe Deus quantas mais aplicações vão estar disponíveis dentro de uns anos, e como elas nos vão mudar a vida.

Estas tecnologias prometem dar um grande avanço à sociedade que as dominar. E um atraso das que desleixarem este desenvolvimento. A Europa (e Portugal de modo particular) tem-se deixado ficar para trás nas últimas décadas nestes campos, relativamente à China e aos Estados Unidos. Não é fácil recuperar o tempo perdido, e a Europa devia ter um sentido de urgência no desenvolvimento das diversas tecnologias quânticas. Elas são radicalmente disruptivas, e o atraso significa perda de segurança económica e militar.

O Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica oferece uma excelente oportunidade para nos apercebermos de que a Física Quântica está na base de toda a tecnologia moderna e continuará a desempenhar um papel ainda mais central nas inovações tecnológicas do futuro próximo.

Veias de Lisboa em Transe

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Série temática de fotografias dedicadas à cidade de Lisboa, da autoria de Beatriz Rijo.

Como um Pai Português foi desmembrado por se recusar a ordenar ao Filho que entregasse o Castelo ao Castelhano (1383)

“O bom escudeiro de Nuno Gonçalves, que foi preso nesta peleja que ouvistes [referindo-se a um conflito no Entre-Douro-e-Minho, entre as forças locais do Reino e o castelhano D. Henrique Manuel], tendo grão sentido no Castelo de Faria, que deixara encomendado a seu filho, cuidou aquilo que arrazoadamente era de presumir, a saber: que aqueles que o tomaram o levariam ante o lugar e, dando-lhe alguns tormentos ou ameaça deles, que o filho vendo-o, haveria piedade dele e seria demovido a lhes dar o castelo. E porque não tinha maneira de saber como o d’isto podesse perceber disse a Pêro Rodriguez Sarmento [o homem que o prendeu] que o mandasse levar ao castelo, e que ele diria a seu filho, que nele ficara, que lho entregasse. Pêro Rodriguez foi disto mui ledo e mandou que o levassem logo, e ele, chegando ao pé do lugar, chamou pelo filho, o qual veio à pressa, e ele, em vez de dizer que desse o castelo àqueles que o levavam, disse ao filho nesta guisa: 

  – Filho, bem sabes como esse castelo me foi dado por el-Rei D. Fernando, meu Senhor, que o tivesse por ele, e lhe fiz por ele menagem; e, por minha desventura, eu saí dele cuidando de o servir, e sou ora preso em poder de seus inimigos, os quais me trazem aqui para te mandar que lho entregueis; e porque isso é cousa que eu fazer não devo guardando minha lealdade, porém te mando, sob pena de minha bênção, que o não faças, nem o dês a nenhuma pessoa senão a el-Rei, meu Senhor, que mo deu, que por te perceber disto me fiz aqui trazer; e por tormentos e morte que me vejas dar não o entregues a outrem senão a el-Rei, meu Senhor, ou a quem to ele mandar entregar por seu certo recado.

  Os que o preso levavam, quando isto ouviram, ficaram espantados de suas razões, e perguntaram-lhe se dizia aquilo de jogo ou se o tinha assim na vontade; e ele respondeu que para o perceber disto se fizera ali trazer, e que assim lho mandava, sob pena da sua bênção. Eles, tendo-se por escarnidos, com queixume disto, em presença do filho o mataram nessa hora, de cruéis feridas, e não cobraram porém o castelo.”

 – “Crónica de D. Fernando”, cap. LXXIX, de Fernão Lopes.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Março 2025

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Rubrica já habitual em que, com a ajuda das magníficas críticas da Notre Dame Philosophical Review, que recebemos com regularidade, trazemos aos nossos leitores alguns títulos do mercado editorial da filosofia, recentemente lançados, que vão desde obras generalistas até a estudos mais especializados — evitando, no entanto, os tópicos demasiado de nicho, demasiado técnicos, demasiado de especialização filosófica muito precisa, dado que somos, como toda a gente sabe, uma revista dirigida ao público em geral. Fiquem então com estes títulos.

De David Charles (ed.), The History of Hylomorphism, Oxford University Press, 2023, explora a evolução do hilomorfismo, a teoria aristotélica de matéria e forma, desde a antiguidade até os debates filosóficos contemporâneos. Fredric Jameson, em The Years of Theory: Postwar French Thought to the Present, analisa o desenvolvimento do pensamento teórico francês pós-guerra, destacando sua influência na crítica cultural e literária até hoje. Rach Cosker-Rowland and Christopher Howard (eds.) trazem-nos Fittingness: Essays in the Philosophy of Normativity, Oxford University Press, 2023, que reúne ensaios que investigam o conceito de “adequação” como fundamento da normatividade em ética e epistemologia. Roberto Casati, The Cognitive Life of Maps, MIT Press, 2024, examina como os mapas moldam a cognição humana, explorando sua função além da mera representação espacial.

Frederick C. Beiser, Philosophy of Life: German Lebensphilosophie 1870–1920, Oxford University Press, 2023, que traça a história da Lebensphilosophie, um movimento alemão que enfatizou a vida e a experiência contra o racionalismo abstrato. Richard Pettigrew, Epistemic Risk & the Demands of Rationality, Oxford University Press, 2022, onde argumenta que a racionalidade epistêmica envolve gerenciar riscos ao formar crenças em condições de incerteza. Stephen Darwall, The Heart & Its Attitudes, Oxford University Press, 2024, que investiga as atitudes emocionais do coração como centrais para a moralidade e as relações interpessoais. Blain Neufeld, Public Reason and Political Autonomy: Realizing the Ideal of a Civic People, Routledge, 2021, uma defesa da razão pública como essencial para alcançar a autonomia política e uma comunidade cívica ideal.

Por fim, Philip Kain, Marx, Revolution and Social Democracy, Oxford University Press, 2023, que reexamina as ideias de Marx sobre revolução e sua relevância para a democracia social contemporânea. Alison Stone, Women on Philosophy of Art: Britain 1770–1900, Oxford University Press, 2024:, destacando as contribuições de mulheres britânicas para a filosofia da arte durante os séculos XVIII e XIX. Cass R. Sunstein, Decisions About Decisions: Practical Reason in Ordinary Life, Cambridge University Press, 2023, examina como as pessoas tomam decisões sobre o processo decisório em si, explorando a razão prática em escolhas cotidianas. Larry S. Temkin, Being Good in a World of Need, Oxford University Press, 2022, uma análise sobre os desafios éticos de agir moralmente em um mundo marcado por desigualdades e necessidades urgentes, questionando o que significa “ser bom”.

As revoluções liberais na Península Ibérica (Século XIX): origens, semelhanças e contrastes

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RESUMO: A Península Ibérica assistiu ao eclodir de muitas revoltas de cunho liberal ao longo do século XIX. As revoluções que tiveram lugar em Espanha, entre 1808 e 1834, foram, essencialmente, de cunho político e não tanto de cariz social. Tal resultou da vontade de uma elite esclarecida que quis modernizar o sistema económico, social e político do seu país. A Espanha pretendia ascender a um grau de desenvolvimento semelhante a países como a Inglaterra e a França. Foram sobretudo as elites que levaram por diante a revolução espanhola. Os seus protagonistas eram provenientes de diversas origens sociais, mas onde predominava a nobreza de velha cepa, a fidalguia tradicional. No caso português, se é certo que os militares foram partícipes directos, públicos e notórios, no pronunciamento militar de 24 de Agosto de 1820, no Porto, não será despiciendo sublinhar o papel central que tiveram (como motor de todo o processo), por exemplo, os magistrados, enquanto elite esclarecida, detentora do saber jurídico e político. PALAVRAS-CHAVE: Revoluções Liberais; Península Ibérica; Portugal; Espanha

Introdução

A Península Ibérica, ao longo do século XIX, assistiu ao eclodir de muitas revoltas, convulsões e rebeliões de vária ordem, cuja análise se reveste de manifesta complexidade. Tributárias ou não da França revolucionária, importa perceber as causas e consequências, as semelhanças e contrastes dessas revoltas, de maior ou menor magnitude, de maiores ou menores repercussões, que eclodiram em ambos os reinos ibéricos. Importa perceber, também, quais os agentes e actores que estiveram na génese das convulsões e quem participou nessas marés de mudança e até que ponto as estruturas de Antigo Regime foram abaladas pelos ventos revolucionários de cariz liberal que sopraram no espaço peninsular.

Em torno do conceito de “revolução”

Sendo «Revolução» um conceito antigo, não tinha, evidentemente, a conotação que hoje assume. Por isso, torna-se oportuno fixar desde já o essencial acerca do conceito de revolução à luz da historiografia contemporânea.

O termo «Revolução» estava muito ligado à ciência astronómica, para significar o movimento completo, cíclico, permanente e imparável, circular e irreversível dos astros em torno do sol. Era algo que o Homem não podia, de todo, contrariar. As mudanças operadas eram entendidas como uma espécie de purificação, um refazer dos valores perdidos, um retornar aos valores de uma pureza original. Na Antiguidade, por exemplo, já aconteciam mudanças políticas, e violências que as acompanhavam com guerras sangrentas, mas essas rupturas não traziam nada de inteiramente novo, não interrompiam o decurso da História. Podiam substituir os protagonistas, mas não desencadeavam nada de substancialmente diferente, não provocavam um «novo princípio». As mudanças eram vistas como um retorno a uma fase diferente do seu ciclo natural, por sua vez inscrito no movimento perpétuo predeterminado pela Natureza e, por isso, imutável[1].

Ora, as revoluções, propriamente ditas e como hoje as entendemos, como muito bem sublinha Hanna Arendt, não aconteceram antes da época moderna[2]. As revoluções contemporâneas são analisadas como movimentos de ruptura, que incorporam uma ânsia de caminhar para a liberdade – qualquer que ela seja – e a presença das elites. Estes são, grosso modo, alguns dos traços comuns às revoluções contemporâneas.

O expansionismo napoleónico nos reinos peninsulares

As revoltas e movimentos liberais que varreram a Península Ibérica poderão ser melhor compreendidos se incidirmos, desde já, a nossa análise sobre a problemática do Bloqueio Continental que, nascendo para lá das fronteiras peninsulares, acabou por ter em Portugal e Espanha fortíssimas repercussões.

Na sequência do Bloqueio Continental decretado pela França contra a Grã-Bretanha e a subsequente invasão de Portugal por tropas napoleónicas, a corte portuguesa transferiu-se para o Brasil, em Novembro de 1807. A retirada estratégica da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, apesar dos inerentes custos de ordem moral, política, militar, económica e social, foi, ainda assim, considerada preferível face à opção da permanência em Lisboa[3]. O país sofreu três invasões, entre 1807 e 1811, todas elas rechaçadas pelas forças anglo-lusas sem que, no entanto, durante esse tempo, se tivesse conseguido evitar roubos, violências, saques, pilhagens e devassas de toda a ordem. Pouco depois da instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro, uma carta régia de 1808, autorizava a abertura dos portos brasileiros ao comércio de “todas as nações amigas[4], facto que ia ao encontro dos interesses ingleses. O Bloqueio Continental não conseguiu produzir o efeito pretendido por Napoleão, ou seja, isolar a Inglaterra do mercado europeu de importações e exportações.

Em 1808, a França invadiu a Espanha, o rei Fernando VII foi preso e levado para França, afastado do trono entre 1808 e 1814. Foi um período turbulento, agitado e sangrento. Havia a consciência que a resistência contra a ocupação francesa não dizia respeito apenas â recuperação da independência contra o poderio militar napoleónico, mas estava ligado, de forma mais profunda, ao conceito de liberdade colectiva, de soberania nacional[5]. Portanto, como muito bem sublinha Roura i Aulinas, neste período de ocupação napoleónica, a ideia de independência está claramente associada ao desejo, não apenas de desvinculação, mas também de emancipação política colectiva que aspirava a uma emancipação social, relacionada, por sua vez, com a emancipação individual[6].

Em suma, a ideia de independência que grassava na Espanha ocupada aparece assim associada à ideia de revolução. As revoltas e tumultos ocorridos nesse período provocaram um considerável número de vítimas. Josep Fontana aponta para um decréscimo populacional entre os 215 000 a 375 000 habitantes[7]. Curiosamente, se, por um lado, o conflito acentuava os problemas estruturais (políticos, económicos, sociais) de que a Espanha enfermava, por outro lado, por paradoxal que possa parecer, o seu impacto era mitigado (ou dissimulado?) por outro tipo de factores. Isto é, o conflito facilitava os factores que tendiam a aglutinar a sociedade espanhola em torno do poder, através da disseminação, no imaginário colectivo, de sentimentos relacionados com a exaltação heroica e o patriotismo. Este ambiente revolucionário, de guerra civil, de um grau considerável de mobilização armada e de efervescência de guerrilha, era tributária da própria Revolução Francesa – pela óbvia proximidade geográfica e temporal[8]. Para além disso, não é despiciendo recordar o papel fundamental que tiveram as elites letradas na difusão de novas ideias, constituindo o fermento revolucionário, neste período de 1808 a 1814.

A Constituição de Cádis

A penetração em Espanha das ideias da Revolução Francesa, as ideias veiculadas pela Ilustración e o próprio pensamento que se foi forjando na viragem do século XVIII para o século XIX, estabeleceram as bases da Revolução Liberal Espanhola que teve a expressão máxima nas cortes de Cádis e na proclamação da sua Constituição[9], aprovada em 1812. Com efeito, a Constituição de Cádis foi fortemente marcada, por um lado, pela ausência e abdicação dos monarcas e, por outro lado, pela guerra que a ocupação napoleónica gerou, daí o ênfase colocado na ideia de «nação» e não tanto nos direitos individuais. Trata-se de um texto constitucional considerado radical, de ruptura política relativamente às estruturas de Antigo Regime. Na análise mais detalhada do texto constitucional, verifica-se que o monarca ficava submetido a uma série de restrições (como era patente no extenso artigo 172) que culminavam no artigo 173 no qual o rei ficava subordinado à Constituição[10]. O objecto era, portanto, a implantação de uma Monarquia Constitucional em Espanha.

O regresso de Fernando VII

Quando, em 1814, Fernando VII regressou ao trono, renegou a Constituição de Cádis e restabeleceu o absolutismo. O rei, denunciando “la corrupción casi general de las costumbres en todas las clases[11], encarregou a Igreja de se ocupar com a educação religiosa das crianças, entre outras medidas de reposição de antigos privilégios senhoriais e de cariz feudal. A erosão tinha chegado também às classes campesinas que estavam na ruína e cuja dura experiência dos anos de guerra[12] lhes tinha feito tomar consciência de que muitas das regras, a que estiveram submetidos pela tradição, eram injustificáveis. Por isso, pediam tão insistentemente a supressão dos direitos senhoriais. Os anos de restauração do absolutismo foram marcados, também, por uma instabilidade política. Nos primeiros anos, cerca de trinta ministros desfilaram pelo governo, num rotativismo que era uma prova da sua incapacidade e impotência para enfrentar os problemas[13]. A essa incapacidade política juntavam-se as manobras e intrigas de uma camarilha que andava na órbita do monarca. Seguiram-se uma série de tentativas de golpes e revoltas[14] que contribuíram para um desgaste do poder.

O processo independentista das colónias: desintegração do império espanhol

A erosão do poder, provocada pela instabilidade política, acentuava as dificuldades económicas que a Espanha atravessava não permitindo uma acção rápida, musculada e eficaz de forma a travar a marcha dos movimentos independentistas – Chile em 1818, a Grande Colômbia em 1819. Ainda assim, Fernando VII apostou no recrutamento e treino militar para encetar uma expedição às colónias, para se poder dedicar “a la empresa de pacificar las Américas[15] e tentar evitar a desagregação do império espanhol.

Focos de revolta no Brasil

O fim anunciado do império espanhol na América parecia, aparentemente, contrastar com o caso brasileiro. Com efeito, a presença da corte no Brasil e o decreto de 1815, que elevou esta colónia à categoria de reino, terá porventura atenuado o recrudescer do processo independentista. Todavia, não se pode olvidar alguns focos de contestação radical (e desfecho violento) como foi o caso do célebre Tiradentes – sentenciado e executado em Abril de 1792[16] por conspiração e, também, em Março de 1817, a revolta de Pernambuco, de cariz republicano, onde se vociferava contra aquilo a que chamavam o “infernal monstro da Tirania Real[17]. A este desejo de emancipação não deverá ter sido alheio, também, o papel das elites letradas que vinham estudar e formar-se na Metrópole, nomeadamente na Universidade de Coimbra, regressando depois ao Brasil.

O descontentamento no exército português

Não era só em Espanha que se avolumavam os problemas de cariz militar. Também em Portugal, a prolongada permanência dos ingleses, comandados por Beresford, engrossava o descontentamento quer entre os militares, quer entre a população em geral. O sinal mais visível desse descontentamento terá sido o complot militar liderado, em 1817, por Gomes Freire de Andrade[18], que pretendia afastar Beresford e acabar com o ascendente dos ingleses sobre o país, pois o poder de facto concentrava-se nas mãos de Beresford, estando a Regência colocada, por força das circunstâncias, numa situação subalterna e secundária. A conspiração foi descoberta e os seus intervenientes foram, severamente, punidos. Se, por um lado, a presença dos ingleses impulsionou o espírito de modernização e profissionalismo do exército, junto dos militares portugueses, por outro lado a violência e a dureza dos métodos organizativos e disciplinares[19] aplicados por Beresford, acicataram o recrudescimento das reivindicações castrenses. Estas, apesar de corporativas, ganharam rapidamente uma dimensão nacionalista e patriótica[20]. A exemplaridade que a Regência quis dar ao caso Gomes Freire, acabou por revelar, afinal, a sua própria fraqueza, colocando-se cada vez mais dependente do apoio militar de que Beresford era o garante. Acresce que os problemas no seio do exército agravaram-se e a condenação à forca de Gomes Freire veio ferir o sentimento nacional e patriótico[21], engrossando a contestação a Beresford e à presença inglesa em Portugal.

A criação do Sinédrio

Foi num quadro de dificuldades económicas, instabilidade política e patriotismo ferido que, em janeiro de 1818, surgiu, no Porto, o Sinédrio[22] – uma sociedade secreta onde pontificavam figuras como o juíz desembargador Manuel Fernandes Tomás, o advogado Ferreira Borges, mas também personalidades do clero, da nobreza, da universidade, do exército. E foi esta organização, onde predominavam as elites, com destaque para os homens de leis, que organizou a insurreição, contando para o efeito com a adesão de sectores militares[23].

A Revolta de Cádis

Se em Portugal germinava e alastrava um sentimento de revolta, também em Espanha o descontentamento crescia. Fernando VII sentiu dificuldades em obter fundos para organizar uma expedição à América espanhola, vendo-se na necessidade de recorrer a um empréstimo forçado. É neste quadro, nada favorável, que se registou em Valência, em 1819, mais uma tentativa de revolta, entretanto abortada, tendo custado a vida aos seus autores. A 1 de Janeiro de 1820, quando já se vivia uma atmosfera impregnada de um espírito revolucionário, rebentou em Cádis um movimento insurrecional, chefiado pelo general Rafael de Riego. 1600 homens aquartelados recusaram-se a embarcar para atravessar o Atlântico, rumo às colónias. Foi mais um rude golpe na autoridade do monarca.

O crédito que o absolutismo restaurado foi conseguindo reunir e as esperanças que grande parte da população havia colocado no regresso, em 1814, do seu «desejado» rei Fernando VII, foram-se esboroando gradualmente[24], muito por culpa do próprio soberano e do seu temperamento pessoal: “no sabía ni ser buen rey, ni déspota vigoroso[25]. O rei recusou-se a jurar a Constituição de 1812. Porém, em Março, as inúmeras pressões levaram-no a reconsiderar e a aceitar jurar a Constituição de Cádis: “Marchemos francamente, y yo el primero, por la senda constitucional”[26] – proclamou o soberano.

A revolta do Porto

A insurreição de Cádis, e da Espanha no seu conjunto, influenciou de forma poderosa a situação em Portugal. Cinco meses volvidos sobre os acontecimentos de Cádis, numa altura em que Beresford se tinha deslocado ao Brasil para pedir ao rei mais recursos e mais poderes, rebentava no Porto, em Agosto de 1820, uma revolta militar. Em Setembro, já a rebelião se estendia a Lisboa que aderiu com entusiasmo. No regresso do Brasil, Beresford foi impedido de desembarcar em Lisboa, sendo forçado a regressar a Inglaterra, para não mais voltar.

Em Janeiro de 1821 reuniram-se as Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa e prepararam-se as condições para redigir e aprovar a primeira constituição liberal portuguesa, uma constituição que respeitasse a realeza e o catolicismo e que transferisse a soberania do monarca para a Nação[27]. Foram abolidos alguns direitos banais; foi extinto o Tribunal do Santo Ofício; foi abolida a Censura Prévia; foi regulamentado o exercício da liberdade de imprensa; foram aprovadas medidas para reformar os rendimentos do clero, entre outras medidas de cariz liberal.

O regresso do rei e a independência do Brasil

A 3 Julho de 1821 D. João VI e a corte (cerca de 3000 pessoas) regressaram finalmente a Portugal. A 7 de Setembro, com o chamado «Grito do Ipiranga», o Brasil declarou unilateralmente a independência, influenciado, por certo, pelo processo independentista que grassava na América Central e do Sul, como eram os casos do México, da Bolívia e do Peru. Além disso, no Brasil, onde já germinava um sentimento de mudança, havia a noção que, logo que o rei regressasse a Portugal, a independência seria só uma questão de tempo. Talvez agora se compreenda melhor os motivos que terão contribuído para retardar o regresso de D. João VI à Metrópole, pois o Brasil estaria demasiado exposto à voracidade dos interesses ingleses. Porém, ao contrário das colónias espanholas da América, que optaram pelo republicanismo, o Brasil iniciou o seu processo de independência como uma Monarquia.

D. João VI, quando chegou a Lisboa, jurou a Constituição de 1822. A rainha, D. Carlota Joaquina, porém, recusou fazê-lo.

Guerras civis na Península Ibérica

Se em Portugal pareciam soprar alguns ventos de mudança, que iam tentando romper com as estruturas de Antigo Regime, em Espanha verificou-se, nessa altura, nova reviravolta com o retorno ao poder, em 1823, dos absolutistas com a ajuda de Luís XVIII de França. Alguns anos depois, a situação agudizou-se, com a morte de Fernando VII, em 1833, iniciando-se então um período de guerra civil.

Em Portugal o período de guerra civil, entre liberais e absolutistas, que opôs os irmãos D. Pedro e D. Miguel, decorreu entre 1832 e 1834, culminando com a vitória dos liberais, formalizada na assinatura da Convenção de Évora-Monte e a consequente saída definitiva de D. Miguel para o estrangeiro.

Notas Finais

A revolução que teve lugar em Espanha, entre 1808 e 1834, foi essencialmente política e não tanto de cariz social. Tal resultou da vontade de uma elite esclarecida que quis modernizar o sistema económico, social e político. Pretendia-se criar as condições para que a Espanha pudesse ascender a um grau de desenvolvimento semelhante a países como a Inglaterra e a França. Contrariamente à tese da luta de classes – tão cara à historiografia marxista – a verdade é que, pelo contrário, como demonstra o estudo de Jesus Cruz, as elites que levaram por diante a revolução espanhola eram provenientes de diversas origens sociais, numa complexa mistura, mas onde predominava a nobreza de velha cepa, a fidalguia tradicional[28].

Ao analisar o “processo genético[29] do liberalismo em Portugal, Graça Dias considera que o mesmo terá tido algumas das suas origens num processo de ruptura cultural. Ou seja, a inovação científica, uma literatura comprometida com a sociedade, um jornalismo inconformista e o próprio ensino superior, terão contribuído para marcar uma ruptura com o Portugal velho, num processo que terá tido o seu início com a saída de Pombal do poder. No caso do conhecimento científico, Fátima Nunes sublinha mesmo a importância que terão tido alguns aspectos da sociabilidade científica onde o liberalismo terá ido mergulhar algumas das suas raízes. Isto é, a inovação científica, ao lançar um olhar sobre o real, procurou – aglutinando saberes individuais – galvanizar um saber novo e inovador que, depois, acabou por ter uma projecção ideológica[30].

Se é certo que os militares foram partícipes directos, públicos e notórios, no pronunciamento militar de 24 de Agosto de 1820, no Porto, não será despiciendo sublinhar o papel central que tiveram (como motor de todo o processo), por exemplo, os magistrados, enquanto elite esclarecida, detentora do saber jurídico e político.

Bibliografia

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Serrão, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, 3ª ed. vol. VII, Lisboa, Verbo, 1994.


  1. Hanna Arendt, Sobre a Revolução, Trad. de Isabel Costa Morais, Lisboa, Relógio d’Água, 2001, p. 27.



  2. Idem, Ibidem, p. 12.



  3. Ernesto Castro Leal, A Corte Portuguesa embarca para o Brasil em 1807: versões de pensamento em confronto, p. 2 http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/1807.pdf (acedido em 2012.09.08).



  4. Fernando Brandão, Da crise do Antigo Regime à Revolução Liberal – 1799 a 1820: uma cronologia, Lisboa, Europress, 2005, p. 48.



  5. Lluis Roura i Aulinas, “Guerra de independencia e inícios de revolución”, in Cuadernos de Historia Moderna.Anejos, VII, 2008, p.. 77.



  6. Idem, Ibidem.



  7. Josep Fontana, “Restauración y Revolución 1814-1823”, in Historia de España, vol. 6, La época del liberalismo, Barcelona, Editorial Critica, 2007, p. 79.



  8. Lluis Roura i Aulinas, “Guerra de independencia…, p.79.



  9. Idem, ibidem.



  10. Idem, “Guerra de independencia…, p.89.



  11. Josep Fontana, “Restauración y Revolución 1814)…, p.84.



  12. Ao redor de Saragoça foram destruídas cerca de 160 000 oliveiras; as perdas de cabeças de gado foram de tal ordem que, em muitas ocasiões, os rebanhos serviam de “despensa para las tropas de uno y outro bando” (Cfr. Josep Fontana, “Restauración y Revolución 1814)…, p.80.



  13. Josep Fontana, “Restauración y Revolución 1814)…,, p.87.



  14. Em 1816 uma revolta, que pretendia matar o rei, teve origem maçónica, conhecida como a “Conspiração do Triângulo”. Em 1817 rebentou na Catalunha um outro movimento de amplo apoio social. Também em Granada, que era a cabeça da maçonaria espanhola, se veio a descobrir uma conjura.



  15. Josep Fontana, “Restauración y Revolución 1814)…, p.89.



  16. Kenneth Maxwell, “Conjuração mineira: novos aspectos”, Estudos Avançados, vol. 3, no. 6, 1989, pp. 04-24.



  17. Fernando Pereira Marques, “Os militares, a crise do Antigo Regime e o advento do liberalismo”, in O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX, vol. 1, Lisboa, Sá da Costa, 1981, p.151.



  18. Chefe maçónico com ligações aos liberais espanhóis (Crfr. Fernando Pereira Marques, “Os militares, a crise do Antigo Regime…, p.150). Para uns ele foi traidor, para outros, mártir da Pátria.



  19. Os castigos a aplicar aos presos, por exemplo, passavam por chibatadas, aplicadas diante dos demais reclusos, variando o número de chibatadas consoante a gravidade da ocorrência. Sobre o instrumento do castigo dizia-se:” a chibata será de pau da Índia e terá quatro e meio palmos de comprimento, e outras tantas linhas de diametro na extremidade superior”(Cfr. Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, 3ª ed. vol. VII, Lisboa, Verbo, 1994, p.121.)



  20. Fernando Pereira Marques, “Os militares, a crise do Antigo Regime…, p. 150.



  21. Fernando Pereira Marques, “Os militares, a crise do Antigo Regime…, p. 151.



  22. Palavra de raiz hebraica que significa, entre os judeus, “Assembleia” ou “Tribunal Supremo”.



  23. Mais tarde, o grupo dos militares e o dos homens de leis entraram por vezes em choque, criando problemas no processo de instauração do liberalismo. Os militares, apelidavam, ironicamente, o grupo dos homens de leis de “rábulas” ou mesmo “becas” (cfr. Fortunato de Almeida, História de Portugal, vol. VI, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1929, p. 30).



  24. Josep Fontana, “Restauración y Revolución 1814)…, p.94.



  25. Idem, Ibidem.



  26. Idem, Ibidem, p.97.



  27. Luís A. de Oliveira Ramos, “A Revolução de 1820 e a Revolução Francesa”, in Revista de História, n. 5, 1983, p. 138. pp 131-142.  



  28. Jesus Cruz, “Notability and Revolution: Social Origins of the Political Elite in Liberal Spain, 1800 to 1853”, in Comparative Studies in Society and History, vol. 36, no. 1, 1994, p. 120.



  29. Graça Silva Dias, “Ruptura Cultural e Ruptura Política nas origens do liberalismo”, in O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX, Lisboa, Sá da Costa, Vol. 2, 1982, p. 217.



  30. Maria de Fátima Nunes, “A sociabilidade científica: alguns aspectos das raízes do liberalismo em Portugal”, in Do Antigo Regime ao Liberalismo. 1750-1850, (Org., Fernando Marques da Costa; Francisco Contente Domingues; Nuno Gonçalo Monteiro), Lisboa, Vega, 1989, p.71.


Palavras Mal Usadas #4 — Oligarquia, Sororidade, Liberal, Queer, etc.

Recuperamos uma rubrica a que pontualmente acrescentamos algumas entradas, sempre dominadas pelo seu uso contemporâneo — e às vezes o critério de contemporâneo pode ser tão estrito como a recorrência do uso de determinada palavra ao longo de período curto de poucos meses. Tratamos assim de palavras ou expressões que entram na moda ou cujo uso ligeiramente distorcido face ao significado original é socialmente útil para marcar determinado ponto, ou mesmo até palavras e expressões já há muito estabelecidas na língua mas cujo sentido foi sujeito, ao longo da sua historia, a severas distorções.

Começamos assim por abordar um conceito que está na ordem do dia: o de oligarquia. Tem sido levantado a propósito do papel de alguns milionários, nalguns casos papel mais público que o habitual, nas recentes eleições presidenciais norte-americanas de 2024. O uso é abusivo: não existe de facto oligarquia nem nos Estados Unidos nem na maior parte das democracias liberais ocidentais, onde encontramos regimes de representação política eficazes, com partidos políticos diversos, eleições livres sem fraude significativa, rotação de poder político e pesos e contrapesos judiciais independentes. Existem sim oligarquias em países de partido único ou perto disso, em que, na ausência de rotatividade de poder e de pluralidade democrática, o poder de facto concentra-se em poucos. Não é o caso dos USA: Elon Musk, por exemplo, é um cidadão com intervenção política, à semelhança de muitos outros  (Soros, Oprah, Chomsky, etc), com mais dinheiro ou menos dinheiro. Tal exercício de intervenção não constitui por si só de forma alguma uma situação de regime que se possa classificar como “oligarquia“. 

Continuamos com sororidade, neologismo recente, com raiz latina mas ainda não inscrito nos dicionários, que reporta a um sentimento de união tribal primária entre pessoas do sexo feminino face a poderes opressores exteriores, em qualquer circunstância. É um termo típico das contradições da terceira fase do feminismo, em que se apela a um sentimento acrítico de defesa de pessoas só por serem mulheres, precisamente o oposto da pugna pela igualdade e pelo mérito da primeira fase do movimento. É derivado do latim soror (irmã) e refere-se a um sentimento de união tribal entre mulheres frente a poderes opressores externos, evocando uma solidariedade quase instintiva que, embora poderosa, reflete contradições típicas da terceira fase do feminismo: enquanto o movimento em sua primeira vaga lutava por igualdade e mérito, rejeitando estereótipos em busca de oportunidades universais, o uso de “sororidade” pode sugerir uma lealdade acrítica baseada apenas no género, criando um tribalismo que prioriza a defesa incondicional em detrimento da avaliação individual e racional, o que paradoxalmente se afasta do ideal emancipatório original e reforça uma dicotomia “nós contra eles”.

A expressão “construção social“, tão em voga em debates académicos e culturais, adquiriu um caráter irritante devido ao seu uso frequentemente pejorativo, que implica uma desvalorização de fenômenos como meros produtos arbitrários da vontade humana, desprovidos de qualquer fundamento mais profundo — uma visão enraizada na falácia de que tais “construções” seriam inteiramente mutáveis e plásticas, sujeitas a uma reformulação caprichosa, quando, na verdade, muitas delas estão profundamente ancoradas em lógicas naturais e históricas que resistem a mudanças simples ou voluntariosas. Por exemplo, ao rotular-se género, hierarquias ou mesmo a família como “construções sociais” com um tom de desprezo, ignora-se que essas estruturas, embora moldadas por contextos culturais, frequentemente emergem de padrões biológicos, psicológicos e sociais — como a reprodução, a cooperação ou a necessidade de oertencça — que não são meros artifícios descartáveis, mas sim respostas adaptativas complexas, entranhadas na experiência humana ao longo de milénios. Esse uso redutor da expressão, popularizado em especial por correntes pós-modernas, sugere uma leveza ilusória na transformação dessas realidades, subestimando as tensões entre o que é construído e o que é dado, o que gera frustração tanto pela simplificação quanto pela arrogância implícita de que bastaria “desconstruir” para reescrever o mundo, quando, na prática, tais raízes naturais impõem limites que não podem ser ignorados sem consequências. Assim, o tom irritante de “construção social” não vem apenas de sua repetição mecânica, mas da falácia que carrega: a de que o humano é um arquitecto absoluto, e não um coautor condicionado por forças que escapam ao seu controle total.

A expressão “adultos na sala” cristalizou-se nos últimos anos como um cliché irritante, especialmente devido à intensa polarização política e social que marcou a ascensão de forças populistas nos parlamentos europeus e americanos, servindo como uma espécie de grito de guerra retórico que reflecte tanto a arrogância quanto a insegurança de quem o emprega. Originalmente, parece ter surgido como uma reação das elites intelectuais e progressistas — acostumadas, desde o consenso político pós-Segunda Guerra Mundial no Ocidente, a ditar os códigos morais e as regras do discurso público, definindo o que era aceitável ou tabu — frente ao surgimento de novos actores e códigos que desafiavam a sua hegemonia, como os movimentos populistas de direita ou mesmo de esquerda radical. Ao invocar “adultos na sala”, essas elites buscavam posicionar-se como guardiãs da maturidade, da razão e da ordem, infantilizando os seus adversários com um tom de superioridade moral e nariz empinado, como se dissessem: “Nós sabemos como as coisas devem ser feitas.” Contudo, a ironia é que a expressão acabou sendo apropriada pelas forças contrárias, que passaram a usá-la para ridicularizar justamente essa postura elitista, virando o jogo e expondo a fragilidade de uma classe que, diante da perda de controle sobre a narrativa, recorre a chavões para reafirmar uma autoridade cada vez mais contestada. Assim, “adultos na sala” tornou-se um símbolo da disputa por legitimidade em tempos de ruptura, carregando tanto a nostalgia de um passado de consensos quanto o ressentimento de um presente fragmentado.

O mercado, lendária expressão que migra dos terrenos da ciência económica especializada para a designação genérica de tudo o que tem a ver com termos mais dinheiro ou menos dinheiro, mais coisas ou menos coisas, mais recursos ou menos recursos, é hoje uma expressão com alguma má reputação, já que uma parte significativa da população interpreta os mecanismos das trocas económicas complexas — acções, participações voláteis em geral, câmbios, produtos financeiros derivados, etc — como maquinâncias sinistras destinadas a lixar-lhe a vida para alguns peixes gordos se safarem. Mas o mercado, apesar de ser em parte isso, fundamentalmente não é isso: mercado económico significa simplesmente todas as trocas, a gigantesca maioria voluntárias, que as pessoa fazem das suas propriedades e recursos, em toda a parte, por todo o mundo, a toda a hora. Uma venda de uns auriculares usados tem exactamente o mesmo valor, o mesmo significado e a mesma substância de um investimento em fundos imobiliários. A economia não é uma ciência oculista nem uma tramóia contra-natura — uma “construção social”, como hoje se costuma dizer — para lixar as pessoas comuns: a economia é antes tudo aquilo em que participamos quando entramos em trocas voluntárias uns com os outros, do que quer que seja, em geral intermediadas pelo sistema de medição de valor a que chamamos de moeda. O mercado é isso, é tudo isso: a vida social de troca de recursos de toda a gente.

A expressão “liberal“, que tem ganhado má fama nos terrenos da política contemporânea, pode ser colocada em contraste ou em semelhança com a reputação que a palavra “libertino” já carregou em tempos passados, ambas marcadas por uma evolução de sentidos que reflete tanto os contextos históricos quanto as disputas ideológicas de suas épocas. Enquanto “libertino”, no seu uso histórico, evocava uma ideia de devassidão ou desregramento moral, associada a excessos individuais e a uma rejeição das normas sociais, “liberal” hoje enfrenta um desgaste semelhante, sendo frequentemente distorcida em debates polarizados: para alguns, sinónimo de elitismo económico ou indiferença social; para outros, um rótulo de fraqueza moral ou permissividade. Importa lembrar, contudo, que a tradição do liberalismo, com raízes no século XIX, é muito mais ampla e profunda do que essas caricaturas sugerem — trata-se não apenas de uma teoria económica, centrada na defesa do mercado livre e da propriedade privada, mas também de uma filosofia moral que coloca a maximização da liberdade individual como princípio fundamental, entendendo-a como o caminho mais proveitoso tanto para o florescimento dos indivíduos quanto para o fortalecimento da vida coletiva. Figuras como John Stuart Mill e Adam Smith, por exemplo, articulavam essa visão com um equilíbrio entre autonomia pessoal e responsabilidade social, algo que se perde nas simplificações atuais, onde “liberal” é muitas vezes reduzido a um espantalho político, distante da sua ambição original de harmonizar liberdade e bem comum. Assim, tanto “liberal” quanto “libertino” ilustram como palavras podem ser arrastadas para o campo da má reputação, menos pelos seus significados intrínsecos e mais pelas paixões e preconceitos que mobilizam em determinado momento histórico.

A palavra “queer“, hoje amplamente associada a sexualidades alternativas e não maioritárias — como bissexualidade, transgeneridade e outras identidades que desafiam as normas tradicionais de gênero e orientação sexual —, carrega uma trajetória semântica que revela tanto sua riqueza quanto sua transformação ao longo do tempo. Originalmente, “queer” vinha do inglês arcaico e significava simplesmente “estranho” ou “bizarro”, uma descrição genérica de algo peculiar ou fora do comum, sem qualquer vínculo necessário à esfera sexual. Esse uso mais amplo, que persistiu até o início do século XX, foi gradualmente apropriado por movimentos identitários, especialmente a partir das últimas décadas do século passado, quando ativistas e teóricos, como os ligados à teoria queer, ressignificaram o termo para abarcar uma rejeição deliberada das categorias fixas de sexualidade e gênero impostas pela heteronormatividade. Assim, o que era uma expressão neutra de excentricidade tornou-se um símbolo político e cultural, muitas vezes carregado de orgulho subversivo, mas também de controvérsia, já que sua associação com variantes percebidas como “bizarras” ou “distantes da norma” pode tanto empoderar quanto alienar, dependendo do contexto. Essa evolução reflete não apenas uma mudança linguística, mas uma disputa mais ampla sobre identidade, aceitação e os limites do que se considera “normal”, evidenciando como palavras podem ser reinventadas para carregar novos mundos de significado — e de conflito.

Por fim, desde aproximadamente 2010, tem-se observado uma crescente pejorativização da expressão “ao que vem“, que, em português, tradicionalmente funcionava como uma construção neutra para indagar sobre intenções ou propósitos, mas que, mais recentemente, passou a ser associada, em muitos contextos, a uma insinuação de más intenções por parte do sujeito em questão, carregando um tom de desconfiança ou acusação implícita. Esse deslize semântico, que transforma uma pergunta ou constatação simples em algo potencialmente carregado de julgamento, é ao mesmo tempo irritante, menorizante e neurótico: irritante, porque distorce uma forma corriqueira de comunicação em algo desnecessariamente hostil; menorizante, por reduzir a complexidade das intenções humanas a uma presunção negativa; e neurótico, pois reflete uma tendência cultural mais ampla de hipervigilância e polarização, onde até mesmo expressões banais são arrastadas para o terreno da suspeita. Essa mudança pode ser vista como um sintoma de tempos em que a boa-fé é menos presumida, e o diálogo cotidiano se vê contaminado por uma postura defensiva ou cínica, o que empobrece a linguagem e as interações que ela sustenta. Embora não haja um marco exato para essa transformação, ela parece ecoar o aumento da tensão social e política da última década, evidenciando como o léxico acompanha — e às vezes amplifica — as ansiedades de uma era.

Os Cinco Melhores Números de Comédia de Todos os Tempos

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Trazemos aqui uma reunião, o mais sucinta e abrangente possível, dos melhores e mais conhecidos números de comédia a nível mundial. São todos do século XX, época em que a popularização da divulgação audiovisual através do cinema e da televisão trouxeram a possibilidade mnemónica de sedimentar na psique colectiva com muito maior intensidade e permanência este tipo de conteúdos, que antes sobreviviam através dos números de comédia ao vivo e da tradição oral partilhada socialmente em comunidades. São eles cinco, a maior parte deles já conhecidos dos nossos leitores, e listamo-los mais ou menos por ordem de importância.

Começamos precisamente com um que não é tão popular em Portugal, talvez devido ao suporte referencial — o basebol — não ser entre nós nada familiar, o Who’s On First, de 1930, um jogo de trocadilhos absolutamente magistral da autoridade da dupla Abbot e Costello. Continuamos com aquele que seguramente é familiar para muitos, o Dead Parrot, dos Monty Python, de 1969. Temos ainda a famosíssima cena do filme Modern Times, de 1936, em que Charlie Chaplin, numa linha de montagem, se digladia com o ritmo incessante da produção industrial, num bailado magnífico entre o corpo do homem e as engrenagens das máquinas. Depois, encontramos Harold Lloyd, em Safety Last, de 1923, numa jornada poderosa de comédia física que culmina com a famosa cena com o próprio pendurado nos ponteiros de uma torre de relógio, um marco da história do cinema. Por fim, escolhemos o tropo mímico do espelho na famosa cena de Duck Soup, de 1933, em que os irmãos Marx nos presenteiam com uma magnífica interação entre a figura espantada de um homem que se julga encontrar defronte de um espelho mas que na verdade tem um seu sócia replicando-lhe os movimentos.

Muitos terão ficado esquecidos nesta lista — Buster Keaton, os comediantes stand-up americanos, Jacques Tati, e tantos outros — mas definimos que seriam cinco e cinco assim foram. Tentámos incluir géneros tão distintos como o trocadilho verbal e a comédia física, e alguns destes números representam tropos usados desde a antiguidade, não sendo propriamente inéditos. Por exemplo, em Who’s On First, o número reflete o tropo antigo da identidade equivocada, como em Menaechmi de Plauto, onde nomes trocados criam caos, e a Logomachia grega de Aristófanes, transformando o diálogo numa batalha de absurdos moderna, movida a trocadilhos e ritmo implacável. Em Dead Parrot, o embate encarna o Alazon (fanfarrão obstinado) de Michael Palin, como os charlatães gregos de Aristófanes, contra o Eiron (questionador irónico) de John Cleese, típico de Roma, onde a teimosia ridícula diante do óbvio é desmontada com humor cortante e surreal. Na cena da fábrica em Modern Times, o número reflete o acidente físico dos mimos gregos e o Labor Sisyphus romano, como nas tarefas inúteis de Plauto, transformando o corpo em piada e o trabalho repetitivo numa crítica cómica à era industrial, com Chaplin como um Sísifo tragicómico. Nas peripécias de Safety Last, ecoa vagamente o servo astuto de Plauto, um herói improvável que enfrenta a Peripeteia (reviravolta perigosa) com engenho e sorte, como um trickster grego, misturando suspense físico e risadas num gag que poderia brilhar em qualquer palco antigo. Por fim, no número do espelho, dos irmãos Marx, faz-se uma releitura da identidade equivocada e do Doppelgänger de Aristófanes (As Rãs) e Plauto (Amphitryon), onde duplos visuais geram confusão, transformando-se num ballet cómico que actualiza o engano teatral para o cinema com sincronia impecável e nonsense puro. Desfrutem então dos registos visuais de cada uma destas obras-primas.

https://www.youtube.com/watch?v=TwWVfesLYuk

“Who’s on First?” (“Quem está na primeira?”) é um clássico número de comédia criado pela dupla Abbott e Costello. Nele, Bud Abbott explica a Lou Costello os nomes dos jogadores de uma equipa de basebol, mas os nomes são palavras comuns que geram uma confusão hilariante. Abbott diz que “Quem” (Who) está na primeira base, “O Quê” (What) está na segunda, e “Eu Não Sei” (I Don’t Know) está na terceira. Costello, confuso, faz perguntas simples como “Quem está na primeira?”, e Abbott responde “Sim”, referindo-se ao nome “Quem”. A conversa torna-se assim um longuíssimo ciclo de mal-entendidos, com Costello a ficar cada vez mais frustrado, enquanto Abbott mantém a calma, explicando o alinhamento da equipa com toda a calma. É uma obra-prima de trocadilhos e timing cómico, originalmente apresentada na rádio nos anos 1930 e depois adaptada para filme e espectáculos ao vivo.

Neste número, exibido em Monty Python’s Flying Circus em 1969, John Cleese interpreta um cliente que entra numa loja de animais para reclamar de um papagaio que comprou. Ele confronta o dono da loja, Michael Palin, afirmando que o papagaio está morto. Palin insiste que o pássaro está apenas “a descansar” ou “atordoado”, apesar de Cleese apontar que ele está claramente sem vida — “ele está pregado ao poleiro!” ou “partiu desta para melhor!”. A discussão escala, com Cleese listando eufemismos criativos para a morte (“é um ex-papagaio!”), enquanto Palin oferece desculpas absurdas, como dizer que o papagaio é um “papagaio norueguês azul que gosta de dormir de costas”. O humor vem do contraste entre a obstinação de Palin e a exasperação de Cleese, constituindo uma crítica estupenda ao mau atendimento ao cliente na vida moderna.

Em Tempos Modernos (1936), Charlie Chaplin interpreta o famoso Tramp, desta vez como um operário numa linha de montagem. Na cena icónica das engrenagens, ele trabalha a apertar parafusos em peças que passam rápido por uma passadeira. O ritmo acelera até que ele não consegue acompanhar mais, e, num momento de caos cómico, é sugado pelas enormes engrenagens da máquina. O Tramp rola e desliza entre os dentes gigantes, como uma marionete, acabando por sair ileso mas desorientado. Depois, continua a tentar apertar parafusos em tudo que vê — até no uniforme dos seus colegas. É uma crítica hilariante à desumanização do trabalho industrial, com o corpo de Chaplin tornando-se parte da máquina num magnífico espetáculo de comédia física.

Em Safety Last! (1923), Harold Lloyd interpreta um jovem ambicioso que trabalha num grande armazém. Para impressionar sua namorada e chefe, ele organiza um golpe publicitário: escalar a fachada de um prédio alto. Na cena icónica da torre do relógio, Lloyd sobe o edifício, mas tudo dá para o torto — ele escorrega, agarra-se às janelas e, no clímax, fica pendurado nos ponteiros de um relógio gigante. O ponteiro dobra sob o seu peso, deixando-o a balançar no ar, com a cidade abaixo. A sua personagem de óculos, sempre optimista, mistura pânico e determinação, enquanto o perigo real do truque (sem duplos!) amplifica o humor. É um momento de tensão e riso, definindo o estilo ousado de Lloyd no cinema mudo.

Por fim, em Duck Soup (1933), Groucho Marx interpreta Rufus T. Firefly, líder de Freedonia, e Harpo Marx é um espião disfarçado. Na cena do espelho, Harpo invade o quarto de Groucho e quebra um espelho sem querer. Quando Groucho aparece, Harpo finge ser o seu reflexo. Os dois, vestidos iguais com camisolas e chapéus, imitam os movimentos um do outro em perfeita sincronia — Groucho testa Harpo com gestos estranhos, como levantar a perna ou girar em volta de si mesmo, e Harpo copia tudo impecavelmente. O humor vem da absurdidade da situação e do timing impecável, até que Chico entra e estraga a ilusão. É uma brincadeira visual brilhante, baseada no tropo clássico de identidade trocada.

Neoconservatives: Left-Wing Revolutionaries in Conservative Disguise

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Introduction

Neoconservatism, long celebrated as a pillar of American conservatism, is a political fraud—a left-wing ideology draped in the trappings of patriotism, born from the ashes of ex-communist intellectuals who never abandoned their obsession with grand historical narratives. Emerging in the mid-20th century from disillusioned Trotskyists and liberal hawks, neoconservatives infiltrated the Republican Party, peaking in influence under George W. Bush, only to leave a legacy of catastrophic wars and ideological overreach. Far from the restraint, tradition, and constitutional fidelity of true conservatism, they pursued a radical vision of remaking the world in America’s image—a mission echoing the utopian failures of the Soviet Union and the European Union’s technocratic sprawl. This essay contends that neoconservatives are fundamentally leftist, driven by a Trotskyist inheritance of war mongering for childish reasons, a circumstantial patriotism rooted in power rather than principle, and a set of beliefs antithetical to America’s founding ethos. Their decade-long dominance of the GOP, achieved through a deceptive masquerade as “conservatives,” ultimately unraveled in failure, exposing their revolutionary core. We begin by tracing their war mongering to its Trotskyist roots, a resentment-fueled crusade that swapped socialist revolution for American cultural imperialism.

War Mongering: A Trotskyist Legacy

At the heart of neoconservatism lies an insatiable appetite for military intervention, a trait not of conservative prudence but of leftist revolutionary zeal—specifically, a Trotskyist inheritance retooled for American ends. Leon Trotsky, the Bolshevik firebrand, envisioned “permanent revolution,” a global campaign to topple regimes and spread socialism, a dream crushed by Stalin’s insular Soviet machine. Ex-Trotskyists like Irving Kristol, Norman Podhoretz, and James Burnham, radical intellectuals of the 1930s and ’40s, were scarred by this betrayal. Having once cheered the overthrow of tyrants in the name of ideology, they redirected that fervor when the Soviet Union morphed into a monstrous parody of their ideals. By the Cold War, they’d swapped socialism for democracy, but the playbook stayed the same: use force to remake the world, one regime at a time.

This legacy crystallized in their post-9/11 war mongering, most infamously the 2003 Iraq War. Neoconservatives—Paul Wolfowitz, Richard Perle, and their ilk—pushed a vision of “spreading American culture,” a euphemism for planting democracy in alien soils with no historical roots for it. The justification was laughably childish: topple Saddam Hussein, wave the Stars and Stripes, and watch Iraq bloom into a Jeffersonian paradise, complete with Big Macs and ballot boxes. It wasn’t strategic realism—Saddam posed no imminent threat—but a revolutionary fantasy, a tantrum against tyranny echoing their old anti-Stalin grudge. The WMD pretext, shaky from the start, was a fig leaf for this deeper impulse.

The outcome was predictably disastrous. Over 4,400 American lives lost, $2 trillion squandered, and a nation plunged into chaos that birthed ISIS—all for a grand narrative that ignored Iraq’s tribal fissures and Islamic currents. It’s a rerun of the Soviet Union’s Afghan misadventure, where ideology blinded planners to local realities, costing 15,000 Soviet lives and hastening the USSR’s collapse. Neocons hadn’t evolved—they’d just rebranded Trotsky’s permanent revolution as America’s “freedom agenda.” Their war mongering wasn’t about defense; it was about resentment, a leftist reflex to force history’s arc, proving they never shed their radical skin.

Circumstantial Patriotism: Ideology Over Nation

Neoconservatives drape themselves in the American flag, but their patriotism is a hollow shell—a convenient vehicle for wielding power and spreading their ideology, not a rooted loyalty to the nation’s character or principles. Unlike traditional conservatives, who cherish America for its constitutional limits, rugged individualism, and historical sovereignty, neocons see it as a means to an end: a superpower-sized battering ram to enact their universalist vision. Their allegiance isn’t to the Stars and Stripes or the Founding Fathers’ republic—it’s to a grand narrative of global democracy and moral crusades, a cause they’d abandon America for in a heartbeat if a better host emerged.

This opportunism traces back to their ex-communist roots. In the 1940s and ’50s, figures like Irving Kristol and Sidney Hook, once Trotskyist firebrands, pivoted from the collapsing left to the American establishment when the Cold War made the U.S. the anti-Soviet vanguard. They didn’t embrace America for its liberty or decentralized ethos—Kristol himself wrote in Two Cheers for Capitalism (1978) that markets needed moral shackles, a tepid nod at best. They latched on because it offered muscle to fight communism, their old foe. By the 1970s, they’d jumped to Nixon and Reagan, riding the anti-Red wave to relevance. Post-9/11, they hitched their wagon to George W. Bush, exploiting terror fears to push their “freedom agenda” through Iraq and beyond. Each shift was calculated—America was the biggest stick available, not a sacred cause.

Their “patriotism” reveals its shallowness in practice. Neocons cheered interventions that drained American blood and treasure—over $6 trillion on post-9/11 wars by some estimates—while shrugging at the domestic cost: a ballooning deficit, neglected infrastructure, and a polarized public. True patriots prioritize the homeland’s health; neocons treated it like a launchpad. Their rhetoric about “American values” was a sales pitch, not a conviction. If a rising China or a resurgent Russia offered a stronger perch to preach their gospel—say, toppling dictators under a different banner—they’d pivot without a tear. Paul Wolfowitz’s push for global democratization, laid out in the 1992 Defense Planning Guidance, cared more about a new world order than America’s own borders or people.

Contrast this with traditional conservatism’s ethos: a fierce devotion to national sovereignty, wary of foreign quagmires. Think Pat Buchanan, who blasted neocons as “interlopers” in the GOP, or the Founders, who saw America as a self-contained experiment, not a global missionary. Neocons’ borderless zeal—spreading democracy like a virus—smacks of Marxist internationalism, not American exceptionalism. Their patriotism is circumstantial, a marriage of convenience to grasp power and project their ideology. When the U.S. ceased to serve that end, as their influence waned after Iraq’s fallout, they didn’t fight to “conserve” it—they just faded, proving their loyalty was always conditional.

Constitutional Betrayal: A Leftist Assault on America’s Foundations

Neoconservatives’ ideology doesn’t just stray from American constitutional principles—it actively undermines them, revealing a leftist penchant for centralized power and utopian overreach rather than the restraint and liberty the Founders enshrined. The Constitution, forged in 1787, is a bulwark of limited government, individual rights, and skepticism toward foreign entanglements—values neocons trample with their bloated militarism, executive overreach, and nation-building fantasies. Far from conserving America’s republican core, they twist it into a tool for their revolutionary agenda, proving their “conservatism” is a sham.

Start with the fiscal rot. The Constitution’s framers, like Madison, obsessed over balanced governance—Article I, Section 8 ties taxation and spending to Congress, a check on profligacy. Neocons laugh that off. Their fetish for defense spending—peaking at $700 billion annually under Bush—ballooned the federal budget, with post-9/11 wars adding over $6 trillion to the national debt by 2021 estimates. Traditional conservatives howl at such excess; neocons shrug, prioritizing their global crusades over domestic solvency. It’s a statist move, not a conservative one, echoing leftist big-government dreams more than Jefferson’s lean republic.

Then there’s war powers. The Constitution vests Congress with the sole authority to declare war (Article I, Section 8), a deliberate brake on executive adventurism. Neocons sidestepped that with Iraq in 2003, leaning on the flimsy 2002 Authorization for Use of Military Force—a blank check Bush wielded while neocons like Wolfowitz and Rumsfeld cheered. No formal declaration, just a unilateral plunge into chaos. The Founders would’ve recoiled—think of Washington’s warning against “overgrown military establishments” in his Farewell Address. Neocons don’t conserve that caution; they ditch it for preemptive strikes, a radical departure from constitutional norms.

Privacy takes a hit too. The Fourth Amendment guards against unwarranted searches—neocons gutted it with the Patriot Act, a post-9/11 brainchild they championed. Wiretapping, data sweeps, all in the name of “security”—it’s a leftist’s dream of state control, not a conservative’s reverence for individual liberty. Traditionalists like Rand Paul later railed against it; neocons saw it as a fair trade for their war machine.

Most damning is their nation-building spree. George Washington’s 1796 Farewell Address urged avoiding “permanent alliances” and foreign meddling—America was to be a beacon, not a babysitter. Neocons spat on that, sinking billions into Iraq and Afghanistan to sculpt democracies from sand. Iraq’s $60 billion reconstruction tab alone, littered with corruption and failure, mocks the Founders’ aversion to entangling adventures. Traditional conservatives defend sovereignty and self-reliance—think Taft or Coolidge. Neocons chase a borderless, universalist fantasy, more akin to Marxist internationalism than Madison’s federalism. They’re not preserving America’s constitutional soul—they’re perverting it into a launchpad for their grand narrative.

This betrayal isn’t accidental—it’s baked into their ex-communist DNA. Trotskyists loved centralized power to force history’s march; neocons just swapped the hammer-and-sickle for stars-and-stripes. Their principles—big budgets, war without oversight, rights traded for ideology—aren’t conservative. They’re leftist, dressed up to dodge scrutiny, and they erode the very system they claim to champion.

The Conservative Masquerade: Hijacking the GOP

How did neoconservatives—ex-communist radicals with a revolutionary streak—pass as conservatives and seize the Republican Party for over a decade? It’s a stunning act of political sleight-of-hand, fueled by timing, optics, and a GOP too fractured to spot the impostors. Far from conserving tradition, they smuggled their leftist grand vision into the heart of America’s biggest right-wing party, dominating it from the Reagan era through the Bush years. Their success wasn’t ideological purity—it was a con, exploiting crises and fear to mask their true colors.

The stage was set in the 1970s. The Republican Party was a mess—Watergate had trashed Nixon’s credibility, stagflation tanked the economy, and the New Left’s anti-war, counterculture surge alienated moderates. Into this chaos stepped the neocons: ex-Trotskyists like Irving Kristol and Norman Podhoretz, armed with intellectual heft and a fierce anti-communist rap sheet. They’d ditched the Democrats, fed up with McGovern’s dovishness, and saw the GOP as ripe for a takeover. Kristol’s Commentary magazine and think tanks like the American Enterprise Institute became their pulpits, spinning them as tough-on-Russia patriots. Their hawkishness—honed by decades of hating Stalin—fit the Cold War mood, and a rattled GOP didn’t dig into their leftist baggage.

Reagan’s rise in 1980 cemented their foothold. His “Evil Empire” rhetoric vibed with their anti-Soviet crusade, and they rode his coattails—think Jeane Kirkpatrick, a neocon star at the UN. Traditional conservatives, focused on small government and social values, were too busy winning elections to notice the ideological drift. Neocons weren’t about conserving rural America or slashing budgets—they wanted a muscular state to remake the world. But the party, desperate for intellectual firepower, let them in. By the late ’80s, they’d burrowed into the establishment, their “conservative” label unchallenged.

The real coup came after 9/11. The Cold War’s end had left them adrift—Clinton’s ’90s ignored their war cries—but the Twin Towers’ fall was their golden ticket. George W. Bush, a blank-slate Texan, became their puppet. Neocons like Paul Wolfowitz, Dick Cheney, and Donald Rumsfeld seized the moment, pitching Iraq as a moral and strategic must. Fear drowned out dissent—who’d question “patriotism” after 9/11? Their think-tank machine, from Project for the New American Century (PNAC) to AEI, churned out manifestos like PNAC’s 1998 call for Saddam’s ouster, cloaking radicalism in conservative buzzwords: “strength,” “freedom,” “security.” The GOP, spooked by terrorism and craving resolve, handed them the reins through the 2000s.

How’d they pull it off so long? They weren’t conservatives—traditionalists like Pat Buchanan called them “interlopers,” railing against their wars and globalism. But neocons mastered the masquerade. Their polish—Kristol’s essays, Podhoretz’s editorials—outshone the right’s gruff populists. They hijacked Reagan’s legacy, twisting his optimism into their crusades. And they thrived on crisis—Cold War, then terror—when scrutiny fades. The GOP didn’t see ex-communists with a Trotskyist itch; it saw “tough guys” waving the flag. For a decade, they ruled, not because they fit, but because they faked it brilliantly.

Failure: The Leftist Curse Repeats

Neoconservatives’ grip on American power didn’t just fade—it imploded, a spectacular crash that mirrors the fate of every leftist grand experiment from the Soviet Union to the European Union’s overreaching dreams. Their reign, peaking in the Bush years, promised a world reshaped by American might and democracy’s glow. Instead, it delivered chaos, debt, and a humbled nation, proving their revolutionary vision—dressed up as conservatism—was as brittle as the utopian schemes they once fled. Like their ex-communist forebears, they overestimated ideology’s power to bend history and underestimated reality’s stubborn bite.

Iraq is the smoking gun. Launched in 2003 with neocon bravado—Wolfowitz predicted a quick, cheap win—it devolved into a decade-long insurgency. Over 4,400 U.S. troops died, $2 trillion vanished, and the “democracy” they planted sprouted sectarian war and ISIS. Afghanistan, another neocon pet project, dragged on 20 years, costing $2.3 trillion and ending in 2021 with the Taliban back in charge. The Middle East, far from a democratic Eden, grew more volatile—Iran gained, Syria bled. Like Soviet planners ignoring Afghan tribes in the 1980s, losing 15,000 lives and tanking their empire, neocons assumed alien cultures would bow to their script. They didn’t. History doesn’t care about your narrative.

The fallout hit home too. War debts—over $6 trillion total by some counts—helped spark the 2008 financial crash, gutting America’s middle class while neocons shrugged. Public exhaustion fueled Obama’s 2008 win, a quiet rejection of their endless crusades. Their “freedom agenda” didn’t just fail abroad—it eroded trust in the GOP, paving the way for Trump’s populist backlash. Traditional conservatives, long sidelined, resurfaced to reclaim the party from these “interlopers.” Neocons’ influence withered—by 2016, they were relics, shunned by a war-weary right.

This collapse echoes leftist patterns. The USSR overextended itself into ruin—Afghanistan was its death knell. The EU’s technocratic push, ignoring national identities, stumbles with Brexit and populist revolts. Neocons followed suit: hubris, ignorance of local limits, and a blind faith in force. Their “conservatism” was a facade—beneath it, the same radical itch that tanked their old ideologies. They didn’t conserve America’s strength; they squandered it on a leftist pipe dream, proving grand visions crumble when they meet the real world.

Conclusion

Neoconservatives aren’t conservatives—they’re ex-communists chasing a Trotskyist ghost, wielding America as a revolutionary cudgel. Their war mongering, a petty vendetta against tyranny dressed as heroism, recycles their resentment of Stalin’s machine. Their patriotism, a power grab not a principle, would ditch the U.S. for any stronger host. Their principles—big government, war without restraint, rights traded for ideology—mock the Constitution’s spirit. They conned the GOP with timing and fear, passing as conservatives for a decade, but their failures—bloody, costly, inevitable—laid bare the lie. Iraq’s ashes, Afghanistan’s retreat, and a nation’s exhaustion mirror the Soviet and EU flops: history doesn’t bend to grand narratives, and neither should America. Neocons didn’t conserve—they conquered, and lost. Their story is a warning: revolutions, even in patriotic drag, end in rubble.

Como os Sebastianistas e os apologistas do Quinto Império não são bons Portugueses, um excerto

“Ora vamos miudamente desconjuntando as pedras do edifício Sebástico, e comecemos pelo juramento dado por D. Afonso Henriques nas Cortes de Coimbra, pois se julga peça autêntica e anterior a Fr. Bernardo de Brito, pelo Padre António Vieira. Vamos à atenuada 16.ª geração; e vejamos se é o Encoberto Sebastião, ou quem é? Costumam-se nas altercações bem ordenadas concederem-se certos postulados necessários e razoáveis; eu tenho que estabelecer dois que não podem ser negados pelos mais teimosos Sebastianistas: I – Que uma geração se entende de pai a filho pela ordem da natureza; II – Que enquanto se podem entender as Profecias no sentido literal e óbvio, não é lícito recorrer ao acomodatício, ou figurativo. Ora, isto não é pedir muito, e é preciso que um Sebastianista seja também um sovina, ou catinga para o negar, e até pode passar por axioma, que um pai gerando um filho constitui uma geração. Vamos ao juramento, eu o julgo autêntico, e incontestável a aparição de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques. Que ouviu o Monarca ao Senhor? Que ouviu a Leovigildo Peres de Almeida, porque é preciso distinguir estas duas cousas. Jurou pois o Rei desta maneira: Nesta Cruz de cobre e neste livro dos Santíssimos Evangelhos, em que ponho as minhas mãos, juro que eu miserável pecador vi com estes meus indignos olhos o verdadeiro Senhor Nosso Jesus Cristo estendido na Cruz. Diz pois que lhe ouvira estas palavras: – Eu sou o Edificador e Dissipador dos Impérios, e dos Reinos, quero em ti, e na tua descendência estabelecer um Império para mim, para que por ele o meu nome seja levado a Nações estrangeiras, e para que os teus descendentes me reconheçam por Autor e Doador do teu Reino; formarás o escudo das tuas armas, comporás a tua bandeira do preço com que eu remi o género humano, e daquele com que fui vendido pelos Judeus, e será um Reino santificado para mim, puro na Fé, e amado por sua piedade. Eis aqui o juramento, eis aqui as palavras, que o Rei escutou na sua visão, e mais nada. Eu vi todos os livros, todos os tratados em que vem este grande passo, que nós acreditamos, e uma contínua tradição entre nós, autoriza: Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus. Nestas promessas não vem Encoberto, não aparece Sebastião algum, não se determina, ou a decadência, ou o termo da Monarquia Portuguesa, o que ali se prometeu, é o que se tem cumprido até agora, é um Reino amado de Deus, levou seu nome às extremidades da terra, e o ensinou a muitas Nações estranhas, tem conservado a sua Fé intacta, e é respeitável pela sua piedade e Religião, conservando-a na sua maior pureza e integridade. Agora não o juramento do Rei, é uma passagem de pura fé histórica; D. Afonso fortalecido com a visão falou aos Soldados aqui ponho em bom romance: Senhor, estai de bom ânimo, vencereis, vencereis, e não sereis vencido: sois amado do Senhor porque pôs sobre vós, e sobre a vossa geração os olhos da sua misericórdia até à décima sexta geração, na qual se atenuará; mas nela atenuada tornará a pôr os olhos e verá – Estas palavras não são de Jesus Cristo, não jurou o Rei que as ouvira, não se acham incluídas no juramento, são palavras de Leovigildo Peres de Almeida, que assim se chamava o Ermitão. Este é pois o grande Palladium dos Sebastianistas. Este grande homem é o seu homem, este é o Arquiprofeta da Seita Sebástica. Ora pois falou o Profeta primeiro dos Sebastianistas, é preciso entrar no conhecimento do Oráculo, e é preciso distinguir duas coisas; primeira, que na 16.ª geração se atenuaria a descendência de D. Afonso Henriques. Segunda, que nesta mesma 16.ª geração atenuada poria Deus os olhos de sua misericórdia. Vejamos nós agora quem é esta 16.ª geração atenuada, abatida, e sem prole, de que fala o Ermitão. Contemos com sinceridade e rigor, sem nos apartamos do sentido literal da Profecia, primeiro alicerce Sebástico. Qual é a 1.ª geração de D. Afonso Henriques? É seu filho D. Sancho gerado por ele: bem está, a geração é de pai para filho (grafismo na imagem). Não há outro modo de contar gerações: Pai – Filho. Logo, D. Sebastião não é a 16.ª geração…

…Mas sendo o Peres de Almeida tão grande Profeta, não pode mentir. Ele não falou no 16.º Rei de Portugal, falou na 16.ª geração. Se ele fala no número dos Reis Portugueses, e quer dizer que se atenuou no último, que cumpre o número dos dezesseis, piora um pouco, porque acaba no Cardeal Rei, que fazem dezessete (grafismo na imagem). Aqui se acabou, e aqui se atenuou, logo os Sebastianistas devem esperar por D. Henrique, não D. Sebastião, e por isso se devem chamar Henriquistas, e não Sebastianistas. Se contam Reis, sobeja um, se contam…

…gerações, faltam três. Se querem tirar deste número de pleno poder D. Afonso Henriques, então fica D. Sebastião sendo 15, e o Cardeal 16, e é este o atenuado e o Encoberto, e é mentira também estar enterrado em Belém, não morreu em Almeirim, está na Ilha dos Capuchos. Meus Sebastianistas, aqui há mistério, o Profeta Almeida não é homem de carambolices, ele fala em gerações sucessivas de Pai a Filho na linha masculina sem interrupção até a 16.ª, para a qual já bem atenuada o Senhor olhou. Vamos à conta, que posto seja Jesuítica, é vossa, e é declarada pelos vossos Profetas, e por seus comentadores, e corroborada pela História e Genealogia (grafismos na imagem). Aqui tendes vós testarudos Sebastianistas 16 gerações sucessivas sem interrupção em linha masculina e reta, e sabei que este é o caminho único que há…

…para salvar a verdade do vosso primeiro Oráculo. D. João IV é a 16.ª geração por varonia, e como se vê, atenuada por D. Felipe IV a ponto de o querer arrancar de Portugal e mandá-lo para Catalunha. Assim fica em pé, e na sua natural e óbvia inteligência, o oráculo do Profeta Peres de Almeida, porque ainda que queiramos dizer que em ElRey D. Sebastião se atenuou a prole dos Reis, não sendo ElRey D. Sebastião a 16.ª geração expressa no Oráculo, não se pode entender que nele atenuado, o Senhor começava logo a engrandecer o Reino, pondo nele os olhos de sua misericórdia. Lembremo-nos também que o Oráculo do Peres admite um sentido moral muito próprio, porque se pode chamar atenuação de prole régia o estado de Duque a que foram passando os filhos de D. João I e até esta dignidade estava atenuada no Duque D. João II pela política de Castela. Vós Sebastianistas, se vos aparecesse ElRey D. Sebastião, lhe devíeis dizer: Vá Vossa Majestade com Deus, porque não é a 16.ª geração atenuada que nos promete o nosso Peres, já cá temos no Trono a 16.ª geração atenuada e exaltada, que foi ElRey D. João IV”.

 – “Os Sebastianistas”, de José Agostinho de Macedo, dois volumes.

Marketing Social: Da Evolução à Ação Sustentável

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Para muitos, sobretudo os da geração mais jovem que agora concluem a licenciatura, a Segunda Guerra Mundial parece um acontecimento distante, pertencente ao século passado. No entanto, para outros que ainda hoje vivem entre nós – pais na casa dos 60 anos e avós na casa dos 80 –, foi uma realidade marcante. Ainda hoje assistimos a esforços de reconstrução motivados pelo ódio entre seres humanos, seguidos por uma onda de solidariedade que atravessa gerações e se reflete tanto a nível individual como organizacional.

Não é necessário recuar tanto no tempo para encontrar exemplos de tragédias globais que mobilizam a solidariedade. Já neste século, o maremoto em Sumatra (Indonésia) e o terramoto no Haiti levantaram questões sobre os impactos ambientais e sociais da ambição desmedida dos países mais ricos e do consumo desenfreado. Mais recentemente, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia e os ataques do Hamas trouxeram novas crises humanitárias. O que todos estes acontecimentos têm em comum? A resposta da sociedade civil, que se une numa onda de solidariedade social à escala global, levando apoio às vítimas e motivando voluntários a agir em prol de causas humanitárias. Perante estas adversidades, é este espírito coletivo que nos permite superar os desafios que a natureza e os conflitos nos impõem ao longo do tempo.

As conquistas no campo social têm sido cada vez mais citadas e vive-se uma época de consciencialização da população em geral para a urgência de mudança de comportamento para o bem-estar social, seja de pessoas individuais, seja de organizações com e sem fins lucrativos[1]. As questões sociais, cada vez mais valorizadas, ganham prestígio e reputação na nossa sociedade. O marketing social é frequentemente confundido com filantropia ou amor à humanidade, sobretudo por razões culturais. No entanto, o verdadeiro desafio para as organizações passa por integrar o marketing social na sua estratégia. As marcas devem assumir um papel social ativo e servir de referência. Paralelamente, à medida que adotam esta postura, acabam por transferir para os consumidores um maior poder na influência do comportamento empresarial (Cota, 2007).

Continuando nesta perspetiva histórica e fazendo uma breve retrospetiva sobre a relação entre as organizações e os seus mercados, é possível resumir em sete as etapas do ciclo de marketing (McKenna, 1993; Levine et al, 1999; Godin, 1999; Lindon et al, 2004; Kotle et al., 2010):

  1. Estágio artesanal (séc. XIX – início do séc. XX): marketing individualizado e relacional, baseado na produção artesanal e na interação direta com o público-alvo.
  2. Estágio industrial (até aos anos 30): marketing orientado para o produto, focado na produção em massa, com gestão das vendas e promoção limitada.
  3. Estágio do consumidor (anos 40 e 50): mudança da ótica de produção para uma ótica de mercado, com maior atenção às necessidades dos consumidores.
  4. Estágio do valor (anos 70 e 80): marketing da diferenciação, marcado pela segmentação, posicionamento e criação de valor para o público-alvo.
  5. Estágio relacional (anos 90): reinvenção do marketing relacional do primeiro estágio, agora apoiado pelas tecnologias da informação, web marketing e e-commerce.
  6. Estágio digital e experiencial (anos 2000-2010): ascensão do marketing digital, das redes sociais e do marketing experiencial, onde as marcas procuram criar ligações emocionais e interações significativas com os consumidores.
  7. Estágio da sustentabilidade e propósito (2010-presente): crescente preocupação com o impacto social e ambiental das marcas, com ênfase no marketing sustentável, ético e de propósito, alinhado com valores sociais e expectativas da sociedade.

Relacionando estas etapas com as Eras do Marketing[2], observa-se uma evolução progressiva:

  • Orientação para a produção: foco exclusivo na produção, sem preocupações com as vendas, sendo o principal objetivo disponibilizar o produto no mercado.
  • Orientação para as vendas: ocorre com a inversão da lei da oferta e da procura, levando a um ambiente mais competitivo e à necessidade de promover os produtos de forma ativa.
  • Orientação para o público-alvo: as organizações passam a focar-se nas necessidades dos consumidores, utilizando estudos de mercado para fundamentar as decisões de marketing.
  • Orientação social (anos 90): além de considerar desejos e necessidades dos consumidores, as empresas passam a valorizar o impacto social das suas ações.
  • Orientação para a experiência e o propósito (anos 2000-presente): o marketing assume um papel estratégico no relacionamento com os consumidores, promovendo experiências autênticas e reforçando valores sociais e ambientais. de forma a proporcionar-lhe um relacionamento com valor superior capaz de lhe garantir o seu bem-estar na sociedade[3]. Parece tudo convergir ao social, ambiente propício para o desenvolvimento do marketing a este patamar social.

O marketing evoluiu para um modelo em que a criação de valor vai além do consumo, promovendo conexões emocionais, sustentabilidade e responsabilidade social como fatores-chave para a competitividade das marcas.

No mundo globalizado em que vivemos fruto dos avanços tecnológicos, as ferramentas de Inteligência Artificial passaram a ser o grande motor de pesquisa. É aqui que, ao analisar o papel social no marketing, encontramos à distância de um click e em qualquer parte do mundo a aplicação indiscriminada dos conceitos de marketing social, responsabilidade social e marketing socialmente responsável conotados a iniciativas sociais. Desta forma, é pertinente começarmos por aqui mesmo: distinção dos 3 conceitos, mesmo que breve que seja, para depois sim analisarmos a evolução conceptual do termo Marketing Social (MS) como objetivo fundamental desta reflexão.

A Associação Americana de Marketing[4] define[5] marketing socialmente responsável[6] como um compromisso de marketing em não impactar negativamente o ambiente social e, sempre que possível, utilizar competências e recursos para o melhorar. E ainda acrescenta que este conceito é frequentemente confundido com marketing social[7].

Em relação à responsabilidade social corporativa (empresarial), AMA refere que implica avaliar de forma consciente o impacto das ações de uma empresa, assegurando que a sua atuação equilibra os objetivos financeiros imediatos (maximização do lucro) com o bem-estar e as necessidades da sociedade a longo prazo, promovendo um ambiente sustentável e saudável para a sua continuidade.[8]

Na definição de MS, AMA distingue duas perspectivas. Vejamos: (1) Definição de ambientes: Ramo do marketing que se dedica à aplicação de conhecimentos, conceitos e técnicas de marketing para promover objetivos sociais, bem como à análise das consequências sociais das estratégias, decisões e ações de marketing. (2) Definição de MS: Estratégia de marketing concebida para influenciar o comportamento de um público-alvo, em que os benefícios resultantes se destinam principalmente à própria audiência ou à sociedade em geral, e não ao responsável pela ação de marketing. AMA acrescenta ainda que o marketing social é por vezes confundido com o impacto social do marketing. O marketing social pode ser realizado por organizações com fins lucrativos, públicas, privadas sem fins lucrativos ou até por indivíduos. Exemplos disso são as tentativas de influenciar as pessoas a deixar de fumar (como no caso da American Cancer Society, uma organização privada sem fins lucrativos). A tentativa de um amigo influenciar outro a seguir uma dieta também pode ser considerada marketing social.[9]

Podemos concluir que enquanto a responsabilidade social é vista como um conjunto amplo de acções em benefício da sociedade, fica-se apenas na sensibilização, o MS vai mais longe, fazendo uso das ferramentas de marketing com objectivo de influenciar e mudar o comportamento de um determinado segmento para o benefício desse segmento e/ou para o bem social. Já o marketing socialmente responsável é a obrigação que as organizações têm de não agredir o ambiente social.

O conceito MS foi introduzido por Kotler e Zaltman em 1971, definindo-o como o desígnio, implementação e controlo de programas que pretendem aumentar a aceitação de uma ideia social ou a sua prática por um ou mais grupos. Este conceito digamos que não é ingénuo e, apesar de inovador para a época, resultou de várias discussões sobre os limites no conceito de marketing. Gunay (2001) refere que esta discussão iniciou com a equipa de marketing da Universidade de Ohio, a qual formulou a seguinte definição de marketing: o processo social pelo qual a procura por bens e serviços é antecipada ou ampliada e atendida através da conceção, comunicação, troca e distribuição física desses bens e serviços (Gunay, 2001, citando Marketing Staff of the Ohio State University, 1965). Esta definição, refere Gunay (2001), contrasta com a definição da AMA[10], uma vez que a equipa de marketing da Universidade de Ohio sugere que o marketing é um processo social mais do que um conjunto de atividades empresariais, como a AMA oficializou. Instalada que estava a discussão, Gunay (2001) afirma que Kotler e Levy (1969) sugeriram uma nova dimensão ao conceito de marketing: incluir as organizações sem fins lucrativos (como as igrejas, a polícia, os museus, as escolas públicas). Todas as organizações devem desenvolver produtos adequados para servir os diversos segmentos de consumidores e utilizar ferramentas de comunicação modernas para alcançar os seus públicos (Gunay, 2001, citando Kotler e Levy, 1969).

Neste contexto de alargamento do marketing para todas as organizações nas quais o marketing era relevante, o conceito de produto e consumidor no âmbito do marketing também foi discutido. Caso para perguntar: quais serão os limites do marketing? Vai além do lucro, envolve ética, valores, responsabilidades e relacionamento com várias entidades. A definição do marketing torna-se mais ampla, reconhecendo-se as dimensões sociais do marketing (Gunay, 2001, citando Lazer, 1969).

Verificamos através dos relatos de Gunay (2001) que se sucederam as discussões sobre se o marketing se deveria limitar a um processo empresarial. Diz Gunay (2001) que Kotler e Levy (1969) descrevem os que limitavam o crescimento do marketing como uma forma de miopia, percepção apoiada por estudiosos nestas matérias, como Lavidge (1970) que insistiu que as áreas em que os profissionais de marketing podem e devem servir a sociedade alargaram-se. Além disso, as funções do marketing também se expandiram. Já não é suficiente definir o marketing apenas em termos das atividades relacionadas com a compra, venda e distribuição de bens e serviços (Gunay, 2001, citando Lavidge, 1970). Gunay (2001) refere mesmo que Lavidge (1970) acreditava que os profissionais de marketing tinham aqui uma oportunidade, mas também a responsabilidade de servir a sociedade. Adicionalmente Gunay (2001) indica que Ferber (1970) concorda com este alargamento do conceito de marketing, sendo que a integração e a diversificação são as palavras-chave para o marketing, que acabará por se diversificar para o campo social e políticas públicas.

Kotler e Zaltman (1971) introduzem o conceito de MS referindo vários exemplos (1949, 1952, 1966, 1968, 1969) que se relacionam com causas sociais, mas não assumidamente como MS, até porque eram na generalidade ineficazes. Kotler e Zaltman (1971) já previam que estas questões sociais estariam na ordem do dia e fazem uma abordagem aos 4 P’s de McCarthy numa vertente de MS

Esta arbitrariedade na utilização dos conceitos de marketing social, marketing societal ou marketing socialmente responsável foi retratada em 1974 por El-Ansary. A definição de MS e as suas fronteiras estão pouco claras na literatura. MS é a uma vertente do marketing que se preocupa com a aplicação do conhecimento, conceitos e técnicas de marketing para promover objetivos sociais, assim como com as consequências sociais das políticas, decisões e ações de marketing. De forma mais ampla, MS refere-se ao marketing realizado por organizações não empresariais e sem fins lucrativos. Por outro lado, o marketing societal diz respeito à incorporação de aspetos sociais no desenho e implementação de estratégias de marketing (El-Ansary, 1974, citando Lazer e Kelley, 1973).

Bagozzi (1975) rejeita as definições de Kotler e Zaltman (1971), de Lazer e Kelly (1973) e mesmo a de Bartels (1974). Este último avança com uma definição diferente das anteriores: MS é a aplicação de técnicas de marketing a áreas não relacionadas com o marketing (Bagozzi, 1975, citando Bartels, 1974). Esta definição, que segundo Bagozzi (1975) cobre virtualmente tudo no marketing e até alguns aspetos fora do marketing, sugere desconforto e confusão em relação à definição de MS e mesmo à identidade do marketing (Gunay, 2001, citando Luck, 1974).

Bagozzi (1975) justifica esta rejeição afirmando que devemos rejeitar a ideia de que o MS é apenas a utilização ou aplicação de técnicas de marketing a outras áreas.

Partindo da definição de marketing, como sendo uma função geral de aplicabilidade universal, Bagozzi (1975) refere que MS determina a dinâmica e a natureza do comportamento de troca nos relacionamentos sociais. Assim, o MS é na realidade um subconjunto do conceito genérico de marketing, pois lida com a criação e resolução de trocas em relações sociais. Os profissionais de marketing podem contribuir para outras áreas que envolvem trocas sociais, fornecendo teorias e técnicas para a compreensão e controlo dessas transações. Não substituem profissionais da área social, mas, sim, apoiam e complementam.[11]

Em 1985 Richard Manoff, um dos primeiros praticantes de MS, sugere que MS é mais do que pesquisa, design de produtos e distribuição, difusão de informações ou a construção e implementação de uma estratégia de comunicação. Pode incluir a introdução de um novo produto, a modificação de produtos existentes, a restrição do consumo (por exemplo, cigarros) e a comunicação de mudanças estruturais em instituições existentes (por exemplo, vales alimentares, práticas hospitalares). O marketing social pode ser exclusivamente educativo (por exemplo, a restrição do consumo de sódio), mas ainda assim ser obrigado a realizar um trabalho de sensibilização com empresas de alimentos para produtos com redução de sódio.

Em 1988, Lefebvre e Flora identificam oito componentes essenciais do MS:

  1. Uma orientação para o consumidor, de forma a alcançar os objetivos organizacionais (sociais).
  2. Ênfase nas trocas voluntárias de bens e serviços entre fornecedores e consumidores.
  3. Estudos de mercado quanto ao público-alvo e estratégias de segmentação.
  4. Pesquisas exploratórias para o design de produtos e conteúdos, bem como o seu pré-teste.
  5. Análise dos canais de distribuição ou comunicação.
  6. Aplicação do marketing-mix, combinando as características de produto, preço, distribuição e comunicação no planeamento das estratégias e implementação das ações.
  7. Sistema de monitorização de processos, integrando funções de controlo.
  8. Processo de gestão que inclui a análise de problemas, o planeamento, a implementação e a avaliação de resultados.

A tentativa de nos focalizarmos no conceito de MS e analisarmos a sua evolução naturalmente se relaciona com a evolução do conceito de marketing e os limites da sua área de aplicação. Gunay (2001) refere que desde os anos 50 o conceito de marketing tem vindo a ser amplamente criticado, sendo que a sua definição, limitação, implementação e compreensão geral foi nos anos 70 amplamente discutido. Contudo e segundo Gunay (2001), este ambiente crítico sugeriu a aceitação de que vender era diferente de marketing, que as necessidades e desejos dos consumidores deveriam constituir o ponto fundamental da atenção dos gestores e que a organização deveria fornecer o produto e/ou serviço que satisfizesse as necessidades dos consumidores, através de uma coordenação de actividades e esforços integrados, que permitissem a organização atingir os seus objectivos. O conceito de marketing é, essencialmente, uma filosofia empresarial que inclui a orientação para o público-alvo e a integração das atividades organizacionais na concretização dos objetivos da empresa. Este conceito permite que a organização alcance os seus objetivos através da satisfação do seu público-alvo. (Gunay, 2001)

Gunay (2001) indica a definição do conceito de marketing de Kotler (1997) como sendo a mais bem aceite no seio da comunidade científica. O conceito de marketing defende que a chave para alcançar os objetivos organizacionais está em superar a concorrência na integração das atividades de marketing, de forma a identificar e satisfazer as necessidades e desejos dos mercados-alvo. Não importa aqui desenvolver este tema, contudo importa referir que o conceito de marketing foi largamente criticado e apoiado[12], sendo que Gunay (2001) conclui que marketing é apresentado como um processo, uma função empresarial e uma filosofia de negócio. O conceito de marketing também se expandiu no contexto do processo de troca, ultrapassando o âmbito das organizações empresariais para incorporar questões sociais e éticas. No entanto, é essencial fazer uma observação crítica sobre esta ampliação, especialmente no que diz respeito ao MS. Este tende a diluir a centralidade do consumidor, levando, na prática, a uma orientação para o mercado que privilegia uma visão mais restrita do marketing.

Hastings (2008) afirma que desde 1971, com Kotler e Zaltman, muitos profissionais de MS trouxeram a público as suas próprias definições de MS, sendo que a sua maioria fazia referência ao uso das técnicas e princípios do marketing (‘comercial’). Andreasen em 1994 (refere Hastings, 2008) confirma esta tendência de adaptação de técnicas de marketing (‘comercial’) a campanhas concebidos para influenciar comportamentos voluntários.

Mais tarde, em 2000, Andreasen e Drumwright, citando Andreasen (1995) e Bloom e Novelli, (1981), referem que o MS é significativamente diferente do marketing (‘comercial’), embora a sua principal característica seja a adoção de conceitos e ferramentas deste último. Andreasen e Drumwright (2000) indicam-nos algumas diferenças entre o MS e o marketing (‘comercial’), sendo que algumas delas estão no facto de que o MS lida com objetivos ‘dramáticos’ (como por exemplo: fazer com que as pessoas comam 5 frutas e vegetais por dia ou fazer com que todos os homens gay’s pratiquem sexo seguro). Por outro lado, os objetivos dos profissionais de marketing (‘comercial’) tendem a focar-se na obtenção de pequenos ganhos de penetração de mercado ou na quota de mercado da marca.

Em 2002, Andreasen refere que o MS, tendo em conta o ciclo de vida do produto, está na fase de crescimento, mostrando-nos indícios no campo conceptual e prático do enraizamento e aceitação cada vez maiores deste novo campo do marketing[13]. Contudo, Andreasen (2002) faz um alerta: existe o risco de não se atingir o potencial máximo do MS, devido em parte aos problemas de percepção e também à falta de clareza quanto ao campo e às regras de actuação do MS face a outras abordagens feitas às mudanças sociais. Desta forma, Andreasen (2002) indica algumas barreiras ao crescimento do MS e propõe estratégias de branding que recorrem aos próprios conceitos e ferramentas da área para impulsionar o seu desenvolvimento.

O marketing (‘comercial’) e os seus defensores académicos não devem desperdiçar o que pode ser uma oportunidade importante para reposicionar todo o campo do marketing (Adreasen, 2002), que parte da definição de Kotler e Zaltman (1971)[14] e acrescenta que a sua definição é similar. MS não é como uma teoria ou um conjunto único de técnicas, mas como um processo para desenvolver campanhas de mudança social que é modelado com base nos processos utilizados no marketing do setor privado. Difere de Kotler e Roberto (1989) quando diz que o MS não é unicamente a ‘aceitação de uma ideia social’, até porque, afirma Andreasen (2002), no sector privado o objetivo último é a mudança de comportamento. Andreasen definia MS como a aplicação das técnicas de marketing (‘comercial’) à análise, planeamento, execução e avaliação de programas destinados a influenciar o comportamento voluntário dos públicos-alvo, com o objetivo de melhorar o seu bem-estar pessoal e o da sociedade (Domegan, 2008, citando Andreasen, 2002).

Ainda em 2002, Kotler, Roberto e Lee referem-se ao MS como sendo o uso dos princípios e técnicas de marketing para influenciar um público-alvo a aceitar, rejeitar, modificar ou abandonar voluntariamente um comportamento em benefício de indivíduos, grupos ou da sociedade como um todo. E, em 2003, Donovan e Henley definem MS como a aplicação do conceito de marketing, das técnicas de marketing (‘comercial’) e de outras técnicas de mudança social para alcançar mudanças no comportamento individual e mudanças na estrutura social que sejam consistentes com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU.

Hastings, em 2003, defende que a característica fundamental do MS é que retira conceitos do marketing (‘comercial’) como a orientação para o consumidor, a troca mutuamente benéfica, a necessidade de se focar na mudança de comportamento e de abordar o contexto, bem como o indivíduo (Domegan, 2008, citando Hastings, 2003).

Lindon et al (2004) numa descrição prática entre o MS e o marketing (‘comercial’) referem que enquanto o segundo procura transmitir que a marca x de pasta de dentes é melhor do que a sua concorrente y, o MS procura revelar que o que é importante é escovar os dentes regularmente. Desta forma, a especificidade do MS ocorre essencialmente ao nível do seu objecto (a consciência social) e nos objectivos que se propõe (despertar essa consciência, modificar atitudes e alterar comportamentos), identificando duas características fundamentais do MS: 1. o seu objectivo é estritamente pessoal (o que se procura é estimular a consciência social em cada indivíduo e, mesmo quando é conscientemente aceite, a ideia social obriga a novos hábitos que vão contra a comodidade individual, facto que leva a que muitas vezes haja uma aparenta aceitação da ideia e depois na prática não se revela em comportamentos diários); 2. é difícil gerar a necessidade de novos comportamentos (desta forma é necessária a utilização de medidas coercivas para obrigar a alteração de comportamentos, adoptando-se uma estratégia de pressão externa em substituição de uma atitude interna). Neste sentido, Lindon et al (2004), partindo da definição de produto social de Kotler e Roberto (1992)[15], assinalam três tipos de produto social: 1. ideia social (crença, atitude ou valor[16]); 2. prática social (a ocorrência de uma única acção e alteração de um comportamento padrão); 3. objecto tangível (instrumentos para se estabelecer uma prática social, exemplo: o preservativo e a pílula).

Em 2006 Philip Kotler, Nancy Lee e Michael Rothschild definem MS como sendo um processo que aplica princípios e técnicas de marketing para criar, comunicar e entregar valor, com o objetivo de influenciar os comportamentos do público-alvo, beneficiando tanto a sociedade (saúde pública, segurança, ambiente e comunidades) como o próprio público-alvo. Neste mesmo ano o National Social Marketing Centre revê o desenvolvimento histórico do conceito de MS e elabora uma definição mais inclusiva reconhecendo as várias influências no MS. O MS é a aplicação sistemática do marketing, juntamente com outros conceitos e técnicas, para alcançar objetivos comportamentais específicos em prol do bem social.[17]

Partindo das várias definições de MS, o National Social Marketing Centre identificou três elementos comuns a todas elas:

  1. O principal objetivo é alcançar o ‘bem social’ (ao invés de benefícios comerciais), com metas comportamentais claramente definidas.
  2. Trata-se de um processo sistemático, estruturado para abordar questões de curto, médio e longo prazo.
  3. Utiliza uma variedade de técnicas e abordagens de marketing (marketing mix).

No caso do MS relacionado com a saúde, o ‘bem social’ pode ser expresso através do cumprimento de metas comportamentais específicas, realistas e geríveis, com o propósito de melhorar a saúde e reduzir as desigualdades na área da saúde.

Se nos anos 70 o MS baseava-se na ‘venda de ideias’, em 2006 o National Social Marketing Centre (NSMC, 2006) refere-se ao MS como ‘vender fraternidade da mesma forma que se vende sabão’ (Wiebe, 1951-52). Esta conceptualização inicial do MS definiu-se com base em transações de marketing (‘comercial’). Na prática, isso resultou inevitavelmente num MS incipiente, fortemente focado na comunicação de uma mensagem (Domegan, 2007). Por esta razão, os que não eram profissionais de marketing tenderam a confundir o MS com comunicação social, mas o profissional de MS não se preocupa apenas com a comunicação da mensagem; deve também procurar facilitar a adoção da mudança comportamental (Domegan, 2007, citando Sargeant, 2005).

O MS foi também confundido no passado com a propaganda social e educação. Apesar deste início incerto, a maioria, embora não todos, acolheu favoravelmente a expansão do marketing de transações económicas para áreas não tradicionais e não comerciais, como a saúde pública e o planeamento familiar (Kotler e Levy, 1969; Luck, 1969). A visão do MS no século XXI amadureceu e agora delimita o seu domínio no processo de troca para a mudança comportamental voluntária (Andreasen, 1995, 2002; Kotler et al., 2002; Hastings, 2003), confirmando um movimento conceptual em direção à abordagem relacional de ‘mercado’ (Lusch and Vargo, 2006; Domegan, 2007).

O MS é a co-criação de benefícios e valores sociais e económicos complexos entre e através uma rede comunitária de relações. Não se trata de uma rede a nível da empresa – ela funciona de forma ascendente, descendente e transversal, ao longo de todo um sistema holístico de relações. Trata-se de uma rede de colaboração profunda, resolução de problemas e paixão, centrada inteiramente nas verdadeiras necessidades do público-alvo, entre e com este (Domegan, 2007, citando Smith, 2000, 2006). Esta definição levanta uma outra questão no MS, já que numa sociedade democrática e livre, o consumidor tem o direito de recusar a mudança de comportamento, sendo que o produto ou a intervenção do marketeer social deve oferecer um benefício imediato maior e um valor percebido superior em comparação com as escolhas comportamentais alternativas. O interesse próprio do público-alvo exige que o marketeer social trabalhe mais, mais rapidamente, de forma mais profunda e mais extensiva na compreensão das motivações desse alvo e no design de uma oferta ou intervenção de mercado que os atraia. À medida que esse público se torna mais individualizado, cresce a necessidade de compreender e investir nas motivações, no compromisso e na confiança (Hjelmar, 2005; Hastings, 2006; Domegan, 2007)

Domegan (2008) apresenta o esquema de classificação CMP[18] no contexto de MS, já que o mesmo tinha sido identificado como gap no estudo originário, pelo que Domegan (2008) constrói a seguinte hipótese: Os aspetos existentes da prática de marketing (TM, DM, eM, IM, NM[19]) no esquema de classificação CMP acomodam as práticas de Marketing Social ou há lacunas de algum tipo?

Domegan (2008) avança com a evolução conceptual, breve que seja, de MS. Depois de algumas controvérsias na definição de MS no passado e com a chegada da expansão das técnicas de marketing a áreas não tradicionais e não comerciais (como a saúde pública), Domegan (2008) refere-nos que a vertente conceptual mais moderna e madura do marketing social delimita o seu domínio ao processo de troca de mudança comportamental voluntária, sendo que o que sobressai das definições mais actuais do MS indicadas por Domegan (2008)[20] é a mudança voluntária de comportamento e o contexto de troca.

Domegan (2008) refere que em toda a literatura de MS é aceite que a mudança voluntária de comportamento ocorre a nível individual e a nível da sociedade, pelo que existem 3 dimensões na sociedade que são afectadas pela mudança preconizada pelas campanhas de marketing social: nível micro, grupo e macro (Domegan citando Levy e Zaltman, 1975).

Tal como no marketing (‘comercial’), a unidade de análise no MS começa ao nível micro: consumidor, como no marketing tradicional (TM) e no marketing direto (DM). O MS também se foca na análise ou impacto, nas relações interorganizacionais de conteúdo, duração e intensidade, como no marketing de rede (NM) (Domegan citando Ford et al, 2003). No entanto, o MS, ao incorporar ambos os níveis de análise, adiciona ainda um terceiro nível ou unidade de análise, o do sistema global – um nível macro, da sociedade, que inclui aqueles que controlam o contexto social que influencia as outras duas unidades (Domegan citando Brenkert, 2002).

Domegan (2008) sugere uma modificação às dimensões do CMP em duas perspectivas: o esquema de classificação pode ser alargado a mais uma terceira unidade de análise – a sociedade/comunidade, além do consumidor e organização – o que implica a tomada de consciência de que o marketing (‘comercial’) tenha em conta não só a componente de consumo, mas também a componente social; o esquema de classificação CMP poderá captar a vertente social, para além do marketplace, onde o marketing ‘(‘comercial’) ocorre. Tal como sugere Domegan (2008), tudo isto só pode ser alcançado se adicionarmos uma nova dimensão, contexto de troca, tempo, parcerias e avaliação/desempenho.

Um bom marketing começa por avaliar a situação, definir o problema, analisar as forças concorrentes e só depois começa a desenhar possíveis soluções (Hastings, 2008). Neste sentido, Hastings (2008) refere que MS tem as suas raízes no ‘setor comercial’, defendendo que a interface entre o marketing (‘comercial’) e o MS gera benefícios mútuos. Em particular, a aplicação de ideias de marketing, como a orientação para o consumidor e a construção de relações em situações extremas – com comportamentos aditivos ou até criminosos, por exemplo – testa a sua robustez.

Smith e Schneider (2009) reforçam a ideia que todo o marketing (seja ele marketing desportivo, marketing industrial, marketing farmacêutico, MS[21], etc) trata-se de mudar o comportamento e, em seguida, incentivar a adesão a esse comportamento alterado. A tarefa principal é levar o consumidor ao ponto em que o comportamento desejado seja considerado significativo, importante e conveniente. Isso significa que o consumidor: 1. conhece o comportamento desejado; 2. acredita que comportar-se da maneira desejada é pessoalmente vantajoso; e 3. a mudança de comportamento não é considerada demasiado inconveniente. Se algum destes três componentes estiver em falta, o consumidor não vai mudar.

Ainda em 2009 Weinreich refere-se ao MS como tendo os mesmos princípios de marketing utilizados para vender produtos aos consumidores mas neste caso para ‘vender’ ideias, atitudes e comportamentos. O marketing social procura influenciar comportamentos sociais, não para beneficiar o marketeer, mas para beneficiar o público-alvo e a sociedade em geral, identificando o que as pessoas querem e precisam, ao invés de tentar persuadi-las a comprar o que estamos a produzir. As decisões passam por: 1. Conceber um Produto; 2. Definir o Preço; 3. Desenhar o canal de Distribuição; e 4. Comunicar. Weinreich (2009) sugere os seguintes 4 P’s do MS: 1. Públicos; 2. Parcerias; 3. Políticas; 4. Orçamento.

O Social Marketing Institute define MS como o planeamento e a implementação de programas destinados a promover a mudança social, utilizando conceitos do marketing (‘comercial’). E ainda enumera alguns ‘princípios’ básicos do marketing, a saber: 1. o objetivo final do marketing é influenciar a ação; 2. a ação ocorre sempre que os públicos-alvo acreditam que os benefícios que recebem serão maiores do que os custos que incorrerão; 3. programas para influenciar a ação serão mais eficazes se se basearem na compreensão das próprias perceções do público-alvo; 4. os públicos-alvo raramente são uniformes nas suas perceções e/ou respostas prováveis aos esforços de marketing, devendo, portanto, ser divididos em segmentos; 5. os esforços de marketing devem incorporar todos os ‘4 P’s’ (criar um Produto apelativo – ou seja, o conjunto de benefícios associados à ação desejada; minimizar o Preço que o público-alvo acredita ter de pagar; tornar a troca e as suas oportunidades disponíveis em Locais que alcancem o público e se adequem ao seu estilo de vida; Comunicar de forma criativa e através de canais e táticas que maximizem as respostas desejadas); 6. os comportamentos recomendados têm sempre concorrência, que deve ser compreendida e abordada; 7. o mercado está em constante mudança, e, por isso, os planos estratégicos ‘montados’ devem ser regularmente monitorizados e a gestão deve estar preparada para alterar rapidamente estratégias e táticas. Estes conceitos chave podem ser abreviados da seguinte forma: a ação é o objetivo; o público-alvo é o foco; a troca é crucial; segmentar os mercados; fazer uso dos quatro ‘P’s’; analisar e estar atento à concorrência; monitorizar e ser flexível.[22]

Com uma carreira direcionada ao marketing (‘comercial’), com lucros efetivos em vista, os profissionais de marketing quando se deparam com este novo campo de actuação (o social) e tendo em conta os problemas complexos que encontram neste campo, naturalmente que se levantam questões teóricas de fundo (modelos teóricos) e diferentes perspectivas quanto às mudanças sociais a acontecerem. Alguns estudos de caso reflectem esta multidisciplinaridade e a tradição eclética, os quais podem ser consultados em vários sites[23]. Neste sentido, desde 2006 que o National Social Marketing Centre se refere a todas as diferentes influências no MS como este tendo dois parentes: 1. O parente social (ciências sociais, políticas sociais, etc); 2. O parente marketing (marketing comercial e do sector público).

Enquanto o MS se dedica ao social good, o marketing (‘comercial’) dedica-se ao financial, o que não significa que os marketeers (‘comerciais’) não contribuam para o alcance do social good, que aliás tem vindo a sofrer um re-branding tal como sugerem Gilligan e Golden (2009). Como o futuro dos negócios caminha para a integração destes indicadores sociais (‘lucro social’) nos modelos empresariais, as organizações que começarem agora terão, certamente, uma vantagem competitiva, uma vez que existem inúmeras oportunidades e tendências neste setor em rápido crescimento.

Partindo de toda a evolução conceptual apontada anteriormente, reúne-se em 8 as características-chave do MS, as quais são entusiasticamente utilizadas sobretudo pelo National Social Marketing Centre para promover uma maior coerência na utilização e aplicação do MS, a saber:

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  1. Orientação para o público-alvo – Forte foco no público-alvo, valorizando a compreensão do seu ponto de partida, conhecimento, atitudes, crenças e o contexto social em que vive e trabalha.
  2. Comportamento e objetivos comportamentais – Ênfase na compreensão do comportamento existente e dos principais fatores que o influenciam, bem como na definição de objetivos comportamentais claros. Estes podem ser divididos em etapas acionáveis e mensuráveis, implementadas ao longo do tempo.
  3. Teoria – Utilização de teorias do comportamento para compreender o comportamento humano e desenvolver programas com base nesse entendimento.
  4. Insight – Obtenção de uma compreensão profunda sobre o que motiva e impulsiona as pessoas.
  5. ‘Troca’ – Aplicação do conceito de ‘troca’, compreendendo o que se espera das pessoas e o custo real dessa mudança.
  6. ‘Concorrência’ – Consideração do conceito de ‘concorrência’, analisando os fatores que impactam as pessoas e competem pelo seu tempo e atenção.
  7. ‘Mix de intervenção’ e ‘mix de marketing’ – Utilização de diferentes intervenções ou métodos para alcançar um objetivo comportamental. A nível estratégico denominado ‘mix de intervenção’; a nível operacional referido como ‘mix de marketing’.
  8. Segmentação do público – Clareza na definição do público-alvo, utilizando a segmentação para direcionar as mensagens e ações de forma eficaz.[24]

O MS não é uma moda passageira. Foi conceptualmente denominado em 1971, está considerado como conceito na AMA[25] e tem crescido desde então, aliado às transformações internacionais, com reflexo direto em cada ambiente nacional e de onde nasce e se desenvolve toda a componente social. A sua evolução contínua permite que responda aos desafios atuais, ajustando-se a novas necessidades e contextos globais. Hoje, a sua relevância torna-se ainda mais evidente ao ser alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, que visam erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir prosperidade para todos. O MS, ao promover mudanças comportamentais positivas, contribui diretamente para várias metas, como saúde e bem-estar, educação de qualidade, consumo sustentável e ação climática.

Embora existam diferenças, pequenas que sejam, entre as diversas definições de MS encontradas na literatura, estas diferenças, que propiciam as ‘discussões públicas’, garantem a sua continuidade. A capacidade do MS de se adaptar e integrar objetivos globais reforça a sua importância na criação de sociedades mais equitativas e sustentáveis. Ao influenciar comportamentos individuais e coletivos, o MS desempenha um papel essencial na construção de um futuro mais sustentável, apoiando iniciativas que promovem justiça social, inclusão e responsabilidade ambiental. Se, no passado, a sua aplicação se focava sobretudo em questões de saúde pública e segurança, hoje assume um papel mais amplo, impulsionando mudanças essenciais para atingir os ODS e consolidar um impacto social duradouro.

Referências:

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Micro_BIO:

Cláudia Ribau é docente no ISCA-Universidade de Aveiro, na área do marketing. Tem mais de 25 anos de experiência na direção de marketing e comunicação em ambiente industrial.


  1. Veja-se a título de exemplo a tentativa mundial em diminuir os índices de poluição, como forma de limitar os maus impactos ambientais.



  2. Estas 4 Eras de Marketing foram identificadas com base na experiência da empresa Phillsbury, tendo sido reanalisadas por Fullerton (1988) que propôs uma divisão cronológica mais precisa do desenvolvimento do marketing.



  3. A satisfação do público-alvo e a opinião pública, facilitado que estava o acesso à informação, começam a dar atenção às iniciativas sociais das organizações, as quais passaram a ser consideradas vantagens competitivas. Aspecto que aliás no estudo apresentado por Brodie e Coviello (2008) foi identificado como uma prática de marketing (marketing social) não muito explicitamente considerada neste estudo, mas mais detalhada com Domegan (2008).



  4. AMA: American Marketing Association.



  5. AMA Dictionary.



  6. Social Responsibility of Marketing ou Societal Marketing.



  7. Fonte: AMA: https://www.ama.org/.



  8. Vide nota anterior.



  9. Vide nota anterior.



  10. A realização de atividades empresariais que direcionam o fluxo de bens e serviços do produtor para o consumidor ou utilizador (Gunay, 2001, citando Hunt, 1976 como definição oficial da AMA referente ao marketing).



  11. Esta interdisciplinaridade foi como que reforçada por Doyle (1995) quando nos refere que o Marketing não pode ser mais encarado como autónomo, dentro e fora da organização, mas sim cooperante com os restantes colegas de trabalho dentro da organização e partilhando processos com outras organizações/entidades fora da organização. Este trabalho em conjunto para um objectivo comum (consumidores satisfeitos) permite às organizações solidificarem as suas vantagens competitivas, assente num dinâmico e competitivo networking, que gera conhecimento, alcançável apenas numa organização aberta entre si (envolvente interna) e entre outras organizações (envolvente externa).



  12. Gunay (2001, p. 128-134) refere Hise (1965), Dawson (1969), Kaldor (1971), Feldman (1971), Barksdale Darden (1971), McNamara’s (1972), Lusch e tal. (1976), Sachs e Benson (1978), Drucker (1974), Levitt (1962), Gordon (1986), Houston (1986), Tauber (1974), Bennet e Cooper (1979, 1981), Riesz (1980), Kiel (1984), Kodama (1992), Hooley et al. (1990), entre muitos outros.



  13. Artigos e livros publicados dedicados ao MS; a fundação de um jornal exclusivo nesta área (Social Marketing Quarterly, fundado em 1994; 3 conferências anuais sobre MS; vários centros de MS e programas de formação nesta área em várias partes do mundo; a fundação do Social Marketing Institute em 1999, várias empresas consultoras na área de MS, entre muitos outros (Andreasen, 2002).



  14. Mais tarde reforçada por Kotler e Roberto (1989): O termo passou a designar uma mudança social que envolve design, implementação e controlo de programas destinados a aumentar a aceitabilidade social em um ou mais grupos de adotantes-alvo. Utiliza conceitos de segmentação de mercado, pesquisa de consumidores, desenvolvimento e teste de conceitos de produtos, comunicação dirigida, facilitação, incentivos e teoria da troca para maximizar a resposta do adotante-alvo (Andreasen, 2002, citando Kotler e Zaltman, 1971, e Kotler e Roberto, 1989)



  15. “(…) o produto é a ideia, o conhecimento, a convicção, a atitude, o hábito ou o comportamento que se quer transmitir aos segmentos-alvo.” (Lindon et al, 2004, p.591)



  16. “Crença é a percepção que se tem sobre uma coisa concreta, não implica avaliação; as atitudes são avaliações positivas ou negativas de pessoas, objectos, ideias ou acontecimentos; valores são ideias gerais do que é certo ou errado.” (Lindon et al, 2004, p.592)



  17. Fonte: https://www.thensmc.com/ retirado a 11/03/2025 às 17h38.



  18. Contemporary Marketing Practices, classificação que foi apresentado por Brodie e Coviello (2008): um estudo que pretendeu analisar o marketing mais conceptual e o marketing mais prático. Este estudo, que acabou por envolver mais de 15 países, segundo Brodie e Coviello, trouxe uma contribuição única no campo do conhecimento do marketing, aproximando a teoria da prática. O objectivo inicial deste estudo foi de perfilar as práticas de marketing no ambiente contemporâneo e examinar a relevância do marketing relacional em diferentes contextos organizacionais, culturais e económicos e acabou por nos dar a perceber como as organizações se relacionam com o seu mercado, integrando o tradicional e as mais modernas práticas de marketing. Em 1997, Coviello, Brodie e Munro desenvolvem um esquema de classificação, identificando duas perspectivas gerais de marketing, tendo em conta o contexto prático do marketing: transactional (4 “P”) e relational marketing (database, interaction e network marketing). Cada um destes tipos de marketing tem características únicas que podem ter mais aplicação ou menos aplicação tendo em conta o tipo de organização e o mercado. Sensivelmente dez anos mais tarde, Brodie e Coviello (2008) como que reflectem sobre estas duas perspectivas, dando um avanço conceptual ao marketing, embora com défice de análise face ao marketing social, ndicando-nos mesmo o estudo de Domegan (2008) (Brodie e Coviello, 2008),



  19. TM – Transaction Marketing; DM – Database Marketing; eM – eMarketing; IM – Interaction Marketing; NM – Network Marketing.



  20. Refere Domegan (2007 e 2008) que as três definições de MS mais aceitáveis são de Kotler (2002), Andreasen (2002) e Hastings (2003).



  21. Acreditam que o MS é uma categoria do marketing, como os tipos de marketing mencionados.



  22. Fonte: https://www.thensmc.com/ retirado a 11/03/2025, às 19h35.



  23. Nomeadamente em https://www.thensmc.com/.



  24. Fonte: https://www.thensmc.com/, retirado a 12/03/2025 às 13h20.



  25. AMA: American Marketing Association. Com a reputação que esta Associação tem na comunidade científica em matéria de marketing, relembremos a sua definição aqui colocada.


The Biological Reality of Sex and the Limits of “Sex Change” Interventions: A Historical, Scientific, and Ethical Analysis

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Abstract

This essay critically evaluates the concept of “sex change” through its historical origins, biological foundations, and ethical implications. Defining sex as an integrated, chromosomally determined system—encompassing genetics, anatomy, physiology, neurology, and more—it argues that current medical interventions cannot comprehensively alter this holistic entity. The paper traces the idea’s emergence from early 20th-century experiments to contemporary gender-affirming care, catalogs an extensive array of sex-determined bodily properties, and assesses whether promoting “sex change” constitutes medical fraud. Drawing on historical records, peer-reviewed scientific literature, and ethical frameworks, it concludes that while interventions modify specific traits to alleviate psychological distress, they fall short of transforming biological sex in its entirety. The term “sex change” thus misrepresents scientific reality, necessitating greater precision in medical discourse and patient expectations.

Introduction

The concept of “changing sex” has oscillated between medical marvel and philosophical conundrum since its inception over a century ago. From the rudimentary surgeries of the 1930s to today’s sophisticated gender-affirming procedures, it embodies a profound human desire to align physical form with internal identity—a quest that challenges the boundaries of biology and medicine. Yet, as many times it is presented in the media and in contemporary politically distorted public discourse, sex is not a singular, malleable trait reducible to genitalia or hormones. Rather, it is a multifaceted system of properties established at conception: chromosomal markers in every cell give rise to skeletal structures shaped by developmental cascades, neurological wiring imprinted prenatally, physiological dynamics tuned by hormones, and a host of other traits interwoven into a cohesive whole. This paper contends that “sex change,” as popularly understood, oversimplifies this complex reality, raising critical questions about its feasibility and ethical framing in medical practice.

Historically, the pursuit of sex-altering interventions emerged from a blend of compassion, scientific curiosity, and individual desperation. Pioneers like Magnus Hirschfeld and Harry Benjamin sought to alleviate the suffering of those whose inner sense of self clashed with their bodies, leveraging the tools of their time—surgery and nascent hormone therapies. Today, these efforts persist as a cornerstone of transgender healthcare, refined by decades of research and clinical experience, and are surprisingly covered by most public health systems. Yet, their limitations remain stark when measured against a comprehensive definition of biological sex, prompting scrutiny of both their scientific underpinnings and societal implications. This analysis addresses three core inquiries: when and how was the idea of “sex change” first conceived and implemented? What bodily properties define sex beyond the commonly cited features of genitalia and hormones? And does the promotion of such interventions, given their partial scope, risk constituting medical fraud?

Through a synthesis of historical case studies, scientific evidence, and ethical reflection, this essay seeks to illuminate a contentious intersection of biology, medicine, and human experience. It argues that while interventions offer practical relief for some, they cannot rewrite the integrated essence of sex, necessitating a reevaluation of terminology and expectations in both clinical and public spheres. The discussion unfolds across five sections: a historical overview, a biological catalog, a technological assessment, an ethical critique, and a synthetic conclusion. Here we go then.

Historical Emergence of “Sex Change” Concepts

1.1 Pre-Modern Antecedents

The impulse to transcend or modify biological sex predates modern medical frameworks, manifesting in cultural and ritualistic practices across civilizations. In ancient Rome, the Galli priests of the goddess Cybele castrated themselves during ecstatic rituals, adopting feminine attire and social roles as an act of divine devotion. This self-alteration, documented by historians like Mary Beard (1994), was not a “sex change” in the modern sense but a symbolic shift, reflecting a fluidity of gender expression within a religious context. Similarly, among certain Native American tribes, “two-spirit” individuals embodied both male and female identities, often marked by ceremonial shifts in dress or behavior rather than physical modification (Lang, 1998). These individuals, revered as healers or mediators, highlight a pre-modern recognition of gender variance, setting a cultural precedent for later medical explorations. While lacking surgical or hormonal components, such practices underscore a longstanding human fascination with altering sexed identity. But it is of the most fundamental importance to highlight that these were vary rare cases and represented marginal roles in society: there is no known widespread conception in any culture or civilization whatsoever of a third sex that places doubts on the basic sexual binary that we all know.

1.2 Scientific Foundations in Endocrinology and Surgery

While millennia have gone by without any significant shift in the obvious sexual binary that characterizes the human race and many other species, the late 19th and early 20th centuries marked a pivotal transition with the advent of scientific disciplines capable of addressing sex alteration. Austrian physiologist Eugen Steinach conducted pioneering experiments in the 1910s and 1920s, transplanting testes and ovaries in rodents and observing resultant changes in secondary sexual characteristics. Roosters grew hen-like feathers, and rats displayed altered mating behaviors, suggesting that hormones could manipulate sex traits (Sengoopta, 2006). Though Steinach’s work remained experimental and animal-based, it ignited clinical interest by demonstrating hormonal influence over phenotype. Concurrently, advances in surgical techniques—such as tissue grafting, antiseptics, and anesthesia—expanded the possibilities for physical modification. Anne Fausto-Sterling (2000) notes that this period bridged theoretical speculation with practical application, laying the groundwork for human interventions. The discovery of sex hormones—estrogen in 1923, testosterone in 1935—further catalyzed this shift, offering tools to tweak biology in ways previously unimaginable. The definition of sex was now for the first time being reduced to a limited and structured set of physiological precepts that configured what we see in the body itself.

1.3 Early Surgical Interventions

The first documented attempts at what we now term “sex change” surgeries emerged in the 1930s under the aegis of Magnus Hirschfeld’s Institute for Sexual Research in Berlin. Hirschfeld, a sexologist and advocate for sexual minorities, oversaw experimental procedures for transgender individuals—then broadly labeled “transvestites.” Dora Richter, a transgender woman, underwent an orchiectomy (removal of testes) followed by vaginoplasty in 1931, a rudimentary yet groundbreaking procedure that constructed a functional neovagina (Herrn, 1995). This marked one of the earliest recorded instances of surgical sex reassignment, though its techniques were primitive by today’s standards.

Around the same time, Danish artist Lili Elbe pursued a more ambitious series of operations starting in 1930, also linked to Hirschfeld’s network. Her surgeries—castration, penectomy, and an experimental uterine transplant—aimed to enable reproductive capacity, a goal far beyond the era’s capabilities. Elbe’s death in 1931 from transplant rejection, detailed in her posthumous memoir edited by Niels Hoyer (1933), underscored the immunological and technical limits of the time. In the 1940s, Michael Dillon, a British trans man, pursued a different path, beginning testosterone therapy in 1939 and undergoing phalloplasty in a series of operations through the mid-1940s. Dillon’s case, chronicled by Andrew Hodges (2007), represents one of the earliest female-to-male transitions, leveraging both hormones and surgery.

The 1950s brought wider visibility with Christine Jorgensen, an American trans woman who underwent orchiectomy and vaginoplasty in Denmark in 1952. Her story exploded in the media—headlined as “Ex-GI Becomes Blonde Beauty”—and cemented “sex change” in public consciousness (Jorgensen, 1967). Unlike earlier cases, Jorgensen’s procedures benefited from improved surgical techniques and hormone availability, though they remained limited to external modifications.

1.4 Evolution and Popularization

These early interventions slowly transitioned “sex change” from a fringe experiment to a recognized medical practice. While most in the public saw this as exotic medicine and skipped serious ethical and philosophical considerations on the procedures, the practices eventually became known as mainstream science for a sometimes very vocal minority. In the 1950s, American endocrinologist Harry Benjamin formalized treatment protocols for “transsexualism,” a term he coined to describe those seeking physical transition. His book, The Transsexual Phenomenon (1966), emphasized psychological relief over biological overhaul, framing surgery and hormones as tools to align body with mind. However, media sensationalism often overshadowed this nuance. Jessi Meyerowitz (2002) argues that coverage of Jorgensen and others amplified the notion of complete transformation, diverging from clinicians’ more modest claims. This tension—between medical pragmatism and public perception—persists, shaping debates over “sex change” to the present day.

Defining Sex as an Integrated Biological System

2.1 Chromosomal and Genetic Foundations

To ascertain whether these practices are fringe experiments or serious medical procedures, one must undertake a careful analysis of what is sex — not what is sex in any cultural, psychological or religious sense, but what it is biologically. And what it is biologically seems to be, in layman’s terms, a very complex network of properties that characterize an undoubtedly binary mostly evident in genitalia and a number of other features, but not, in any way, reducible — and therefore easily modifiable — to those. Let’s see how. Biological sex originates at conception with the inheritance of XX or XY chromosomes, a binary that underpins human dimorphism. The SRY gene on the Y chromosome, identified by Sinclair et al. (1990), triggers testicular development in males, initiating a cascade of sex-specific gene expression that differentiates gonads, hormones, and downstream traits. This genetic blueprint resides in every cell, influencing epigenetic modifications—chemical tags that regulate gene activity—and persists throughout life (Bachtrog et al., 2014). Beyond SRY, X-linked genes contribute to traits like color vision, while females’ dual X chromosomes (one inactivated as a Barr body) enhance genetic redundancy compared to males’ single X and minimal Y gene set (Ober et al., 2008). Mitochondrial DNA, inherited maternally, also shows sex-specific effects on metabolism and aging, with females often exhibiting longer telomeres due to estrogen’s protective role (Barrett & Richardson, 2011). This cellular foundation renders sex a pervasive, immutable marker, resistant to post-conception alteration.

2.2 Anatomical and Physiological Traits

Sex manifests across the body in a tapestry of interdependent traits, extending far beyond genitalia and hormones. From what we know, these traits are not isolated properties that can be exchanged at will, but are rather a part of an interdependent complex system of physiological sexual identity that is formed at birth, as we will see in the next section.

  • Skeletal Structure: Males exhibit denser, thicker bones and narrower pelvises, optimized for physical strength and stability, while females have lighter skeletons with wider pelvic inlets, adapted for childbirth. These differences, detailed in anatomical texts like Schuenke et al. (2010), arise from hormonal influences on osteogenesis during puberty—testosterone thickens male bones, estrogen shapes female pelvic angles.
  • Musculature: Testosterone drives greater muscle mass and a higher proportion of fast-twitch fibers in males, enhancing power and speed, whereas estrogen in females favors endurance-oriented muscle profiles with more slow-twitch fibers (Handelsman et al., 2018). This dimorphism affects not just size but tendon strength and joint dynamics, with males showing stiffer connective tissues.
  • Cardiovascular System: Males possess larger hearts (by mass) and higher hemoglobin levels, optimizing oxygen delivery for physical output, while females have smaller hearts, faster resting rates, and more elastic arteries due to estrogen’s vasodilatory effects (Regitz-Zagrosek, 2012). Blood volume and red cell counts also differ, with males averaging 5–6 liters vs. females’ 4–5 liters.
  • Respiratory System: Male larger lungs and testosterone-enlarged larynges yield greater tidal volumes and deeper voices; female smaller lungs and shorter, thinner vocal cords produce higher pitches (Titze, 1989). These traits, set by puberty, reflect sex-specific respiratory and phonatory adaptations.
  • Neurological System: Males show greater overall brain volume, particularly in areas like the cerebellum, while females exhibit thicker cortices and denser connectivity across hemispheres, notably in the corpus callosum (Ritchie et al., 2018). Prenatal hormones shape these patterns—testosterone boosts spatial processing in males, estrogen enhances verbal fluency in females.
  • Metabolic Profile: Testosterone promotes visceral fat accumulation (around organs) and higher basal metabolic rates in males; estrogen drives gynoid fat (hips, thighs, breasts) and lower BMR in females, preparing for pregnancy (Mauvais-Jarvis, 2015). Liver enzyme activity also varies, with males metabolizing alcohol faster due to higher alcohol dehydrogenase levels.
  • Skin and Hair: Male thicker skin and terminal hair (beards, chest) result from androgen-driven sebaceous gland activity; female thinner, elastic skin and vellus hair reflect estrogen’s influence on collagen and hydration (Giustina et al., 2014).
  • Immune System: Females mount stronger immune responses, with estrogen boosting antibody production, increasing autoimmune risk (e.g., lupus); males, with testosterone suppressing immunity, face higher infection rates but fewer autoimmune disorders (Klein & Flanagan, 2016).
  • Reproductive and Urinary Systems: Beyond genitalia, males have prostates and longer urethras (20 cm vs. female 4 cm), affecting bladder dynamics; females possess uteri, fallopian tubes, and shorter urethras, raising UTI risk (Standring, 2016).

2.3 Interdependence and Developmental Imprinting

The traits outlined above are not isolated features but components of an interdependent system, orchestrated by chromosomal instructions and amplified by sex hormones during development. Prenatal testosterone in males shapes brain structures like the hypothalamus, which governs sexual behavior, and the amygdala, tied to aggression, while its absence in females fosters distinct neural patterns, such as enhanced verbal processing regions (Bao & Swaab, 2011). This imprinting extends to skeletal growth—male narrower pelvises and female wider inlets emerge from hormonal cues at puberty, locking in structural differences (Vilain, 2006). Even cellular metabolism reflects this cascade, with XX cells in females showing higher oxidative stress resistance due to dual X chromosomes, contrasted with XY cells’ reliance on a single X and minimal Y contribution (Ober et al., 2008).

This “undissociable whole” not only resists postnatal reversal but is likely part of a complex system of interrelations that we cannot entirely grasp in detailed scientific terms, but that everyone can intuitively access through our universal conceptions of male and female. Some examples of those characteristics as follows. Neurological wiring, set in utero, influences sensory thresholds—females often excel in olfactory and color discrimination, males in spatial navigation (Ritchie et al., 2018). Physiological dynamics, like male higher red blood cell counts or female cyclic hormonal fluctuations, are similarly entrenched. Eric Vilain (2006) argues that sex differentiation is a developmental cascade, where early genetic triggers (e.g., SRY) ripple through every system, embedding traits that surgery or hormones can only superficially modify. This interdependence underscores the challenge of “changing sex” beyond isolated components.

Limitations of Current “Sex Change” Technology

3.1 Surgical Interventions

Surgical techniques like vaginoplasty (for trans women) and phalloplasty (for trans men) alter external genitalia but leave internal reproductive structures intact—ovaries, fallopian tubes, or prostates persist, unaffected by scalpels (Selvaggi & Andreasson, 2016). Vaginoplasty constructs a neovagina from penile or scrotal tissue, achieving functional depth in 85% of cases, but it cannot replicate uterine or ovarian roles (Hage, 1993). Phalloplasty, often using forearm flaps, creates a neophallus with limited sensation and no natural erectile function without prosthetics (Selvaggi & Andreasson, 2016). Skeletal markers—male narrower pelvises, female wider inlets—remain unchanged, as do organ dynamics like lung capacity or heart size (Ainsworth, 2015). Complications—fistulas in 10–20% of vaginoplasties, urethral strictures in phalloplasties—highlight technical constraints, with revision surgeries common (Hage, 1993). These procedures reshape surfaces, not systems.

3.2 Hormone Therapy

Hormone replacement therapy—estrogen and anti-androgens for trans women, testosterone for trans men—shifts secondary sexual characteristics but hits clear limits. In trans women, estrogen redistributes fat to hips and breasts, softens skin, and reduces muscle mass, while anti-androgens curb facial hair (Gooren, 2011). In trans men, testosterone thickens vocal cords (lowering pitch), boosts muscle mass, and triggers beard growth. Yet, male vocal cords don’t shrink under estrogen, female skeletons don’t masculinize fully under testosterone, and chromosomal effects (XX or XY) endure (Wierckx et al., 2014). Efficacy plateaus—breast development peaks within 2–3 years, voice changes in trans men stabilize after 12 months (Gooren, 2011). Long-term risks complicate outcomes: estrogen raises thromboembolism odds (2–5% incidence), testosterone induces polycythemia in 10–20% of users (Wierckx et al., 2014). Hormones adjust phenotypes, not genotypes or core structures— and require life-long continuation of artificial therapy.

3.3 Unreachable Frontiers

When we approach other components of human physiology that are indissociable from sex, we quickly reach the realm of the untenable. While emerging technologies like CRISPR offer theoretical promise for chromosomal editing, practical hurdles loom large: rewriting every cell’s XX or XY code—trillions in a human body—requires precision and scale beyond current capabilities, and even then, it couldn’t undo developmental imprints like bone shape or brain wiring (Doudna & Sternberg, 2017). Neurological reprogramming, on the other hand, such as altering sex-specific hypothalamic patterns, exceeds neuroscience’s grasp, and prenatal hormone effects are deemed irreversible postnatally (Swaab, 2007). And tissue engineering might one day craft functional uteri or testes, but integrating them into a sex-altered system—melding blood supply, hormonal feedback, and innervation—remains speculative. Claire Ainsworth (2015) notes that sex’s complexity, from cellular DNA to organ interplay, places total transformation in sci-fi territory, not 2025 reality.

The Question of Medical Fraud

4.1 Historical Intent and Transparency

It must be noted that early practitioners like Magnus Hirschfeld and Harry Benjamin aimed to alleviate profound psychological distress, not rewrite biology wholesale— reminding us how “sex change” practices are rooted in a mostly psychological definition of sex and therefore dangerously far from a substantial physiological definition that is deserving of the complexity involved. Hirschfeld’s institute documented cases like Dora Richter’s with clinical candor, noting surgical goals (e.g., vaginoplasty) without claiming chromosomal shifts (Herrn, 1995; Hirschfeld, 1933). Benjamin’s protocols prioritized “harmony of mind and body,” explicitly acknowledging immutable traits (Benjamin, 1966). Patients like Lili Elbe and Christine Jorgensen pursued feasible outcomes—visible, functional alignment—aware of limits, as evidenced by Jorgensen’s memoir (1967), which details her acceptance of partial transition. This transparency, driven by compassion and desperation rather than deceit, undercuts fraud accusations in the historical context at first, but does not excuse the strange path that medical science has here taken, ignoring the holistic nature of each of the sexes in the sexual binary and treating it like you can temporarily fix parts without correctly interpreting the whole.

4.2 Modern Practice and Terminology

Contemporary standards, codified by the World Professional Association for Transgender Health (WPATH), frame interventions as “gender-affirming care,” not “sex change.” The 2022 guidelines explicitly note what changes (e.g., fat distribution) and what doesn’t (e.g., chromosomes, fertility in many cases), mandating informed consent (Coleman et al., 2022). Clinicians counsel patients on limits—e.g., testosterone won’t widen a female pelvis—ensuring expectations align with outcomes (Drescher, 2010). Yet, the legacy term “sex change” lingers in public discourse, risking misperception. Critics like Paul McHugh (2016) argue this semantic lag misleads, implying a biological impossibility, though clinical practice counters with detailed disclosure, complicating the fraud narrative. But it remains to be clear how, during the XX and even more during the XXI century, medical practice evolved, in this area, from considering gender dysphoria as a purely psychological condition that could be remedied through mostly psychological treatment, as expected from most if not all psychological maladies, to a framework where treatment for the condition is given through very coarse physical and hormonal artificial alterations—validating the patient’s psychological fixation—in an area of physiological complexity far from our reach. In particular The lack of conclusive evidence on the biological etiology of gender dysphoria, despite suggestive neurobiological findings, underscores the challenge of treating a condition that spans mind and body. 

4.3 Ethical Analysis

But fraud, legally and ethically, requires intent to deceive for gain (Green, 2019). Historical and modern evidence suggests medical intent centers on relief, not illusion—80% of patients report improved quality of life post-intervention, with dysphoria scores dropping from 7.8 to 2.1 on a 10-point scale (Hess et al., 2014). Although this data might be presented in a way that undercuts future problems, that inevitably occur with such life-altering and fragile interventions, the short-term satisfaction seems to dominate. Overpromising full transformation, rare in clinical settings but common in media (e.g., tabloid headlines), could qualify as misleading if intentional. Yet, patient autonomy and beneficence—core bioethical principles—support partial interventions (Beauchamp & Childress, 2013). Critics might counter that offering unachievable “sex change” exploits vulnerability, but satisfaction data and consent processes suggest benefit outweighs harm for many, blurring the fraud line. So overall the practice, in the eyes of current medical science, backed by a strange political movement that pushed for the remedy of a psychological condition through the validation of that fixation with physiological modifications, is cleverly disguised as specific care even if it deals with a holistic topic. It might be argued that pursuing this line of treatment without properly recognizing the interdependent complexity of the sexual characteristics approaches fraud, but science can refuge itself in the short-term results of validating the psychological fixation—although it is very rare that a psychological condition is treated through its validation. Mind you, this is hardly comparable to homosexuality or classical defined sexual deviations: those are not treated in current medical practice and no intervention is necessary for the subject to live their lives independently.

Discussion and Synthesis

The “sex change” concept bridges identity and biology but falters against sex’s integrated nature. Historical efforts—from Richter’s 1931 surgery to Jorgensen’s 1952 media moment—targeted distress with pragmatic tools, not delusions of omnipotence. Modern care refines this mission, with hormones and surgery easing dysphoria (e.g., suicide risk drops from 41% pre-treatment to 4% post; Bailey et al., 2014). Yet, biological limits—chromosomes, skeletons, neural imprints—persist, rendering “change” an approximation, not a transformation. Counterarguments emphasize psychological gains: reduced anxiety, enhanced social functioning (Hess et al., 2014). Philosophers like Judith Butler (1990) might frame sex as performative, sidestepping biology, but science anchors it in material reality.

Terminology fuels debate—”sex change” suggests totality, “gender affirmation” specificity. Future tech (e.g., CRISPR, tissue engineering) may narrow this gap, but 2025’s tools adjust surfaces, not cores. The disconnect between intent (relief) and perception (complete swap) demands clarity—patients deserve truth, not hype. Balancing biological fact with human need remains the challenge.

Conclusion

Sex, as a chromosomal, anatomical, and physiological whole, resists complete alteration with current medical tools. From the 1930s to 2025, interventions have modified visible traits—genitalia, fat patterns—but left deeper properties intact. While not fraudulent in clinical intent, the “sex change” label invites skepticism when misaligned with biology’s complexity. Ethical practice hinges on precise language and realistic expectations, honoring both scientific limits and the human drive for congruence. As technology evolves, so must discourse, ensuring alignment between what is promised and what is possible.

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Excerto de Fernão Lopes sobre o sofrimento das gentes de Lisboa, no cerco de 1384

“Estando assim a cidade cercada da maneira que ouvistes, gastavam-se os mantimentos cada vez, pelas muitas gentes que em ela havia, assim as que se acolheram dentro do termo de homens aldeões com mulheres e filhos, como das que vieram na frota do Porto, e alguns se metiam às vezes em batéis, e passavam de noite escusamente contra as partes do Ribatejo, que já se achavam prestes, por recados que ante mandaram, e partiam de noite remando mui rijamente. Algumas Galés, quando os sentiam vir remando, isso mesmo remavam à pressa sobre eles, e os batéis por lhe fugir, e elas por os tomar, eram postos em grandes trabalhos. Os que esperavam por tal trigo, andavam por a ribeira da parte de Xabregas aguardando quando viessem, e os que velavam, se viam as Galés remar contra cá, repicavam logo por lhes acorrer. Os da Cidade, como ouviam o repique, deixavam o sono, e tomavam as armas, e saía muita gente, e defendiam-nos às bestas, se cumpria, e ferindo-se às vezes de uma parte e da outra, porém nunca foi vez que tomassem algum, salvo um que certos batéis estavam em Ribatejo com trigo, e foram descobertos por um homem natural de Almada, e tomados por os Castelãos, e ele preso e arrastado e decepado e enforcado. E posto que tal trigo alguma ajuda fizesse, era tão pouco, e tão raramente, que houveram mester de multiplicar como fez Nosso Senhor Jesus Cristo aos pães, com que fartou cinco mil homens. E isto fartou assim a cidade apertadamente, que as públicas esmolas começavam de falecer, e nenhuma geração de pobres achava quem lhe desse pão, de guisa que a perda comum vencendo de todo a piedade, e vendo a grande míngua dos mantimentos, estabeleceram deitar fora as gentes minguadas, e não pertencentes para a defesa. E isto foi feito duas ou três vezes, até lançar fora (das muralhas) as mancebas mundanárias (prostitutas) e judeus, e outros semelhantes, dizendo que, pois tais pessoas não eram de pelejar, que não gastassem mantimentos aos defensores, mas isto não aproveitava cousa que muito prestasse. Os Castelãos à primeira aprazia-lhe com eles, e davam-lhe de comer (a estes expulsos) e acolhimento, e depois vendo que isto era com fome por gastar mais a cidade, fez El-Rei de Castela uma ordenança, que nenhum de dentro fosse recebido em seu arraial, mas que todos fossem lançados fora, e que se ir se não quisessem, que os açoitassem, e fizessem tomar pera a cidade, e isto lhe era tão grave de fazer, tornarem por força pera tal lugar, onde chorando não esperavam serem recebidos. E tais aí havia que de seu grado se iam da cidade, e se iam pera o arraial, querendo de todo ante ser cativos, que assim perecendo morrerem de fome, como não lançariam fora gente minguada, e sem proveito, que o Mestre (de Avis) mandou saber em certo pela cidade que pão havia por todo em ela, assim por covas, como per outra maneira, e achavam que era tão pouco, que bem haviam mester sobre ele conselho. Na cidade não havia trigo para vender, e se o havia era mui pouco, e tão caro que as pobres gentes não podiam chegar a ele, que valia cada alqueire 4 libras, e o alqueire do melhor 40 soldos, e a canada de vinho 3 e 4 libras, e padeciam mui apertadamente, e dia havia ali, que ainda que dessem por um pão uma dobra, o não achavam à venda, e começaram a comer pão de bagaço de azeitona, e dos queijos das malvas e raízes de ervas, e outras desacostumadas cousas pouco amigas da natureza. E tais aí haviam, que se mantinham em alféloas. No lugar onde costumavam a vender o trigo, andavam homens e moços esgravatando a terra, e se achavam algum grão de trigo metiam-no na boca, sem tendo outro mantimento. Outros se fartavam de ervas e bebiam tanta água, que achavam homens e cachopos jazer mortos inchados nas praças, e em outros lugares. Das carnes isso mesmo havia em ela grande míngua, e se alguns criavam porcos mantinham-se neles e assim pequena posta de porco valia 5 libras e 6, que era uma dobra Castelhana, e galinha 40 soldos, e a dúzia de ovos 12 soldos. E se almocreves (mercadores ambulantes) traziam alguns bois, valia cada um 70 libras, que eram 14 dobras cruzadas, valendo então a dobra 5 e 6 libras, e a cabeça e as tripas uma dobra, assim que os pobres por míngua de dinheiro não comiam carne, e viviam mal, e comiam carnes das bestas (cavalos), e não somente os pobres e minguados, mas grandes pessoas da cidade lazerando, não sabiam que fazer, e os gestos mudados com fome bem mostravam seus encobertos padecimentos. Andavam os moços de 3 e 4 anos pedindo pão pela cidade, por amor de Deus, como lhes mandavam suas madres, e muitos não tinham outras cousas que lhe dar senão lágrimas, que era triste cousa de ver, e se lhe davam tamanho pão como uma noz, haviam-no por grande bem, e desfaleciam-lhe leite àqueles que tinham crianças a seus peitos, por míngua de mantimentos, e vendo lazerar seus filhos e filhas, que acorrer não podiam, choravam sobre eles amiúde a morte, antes que a morte os privasse da vida. Muitos esguardavam as preces alheiras, com chorosos olhos, por cumprir o que a piedade manda e não tendo de que lhe acorrer, caíam em dobra de tristeza. Toda a cidade era dada a nojo, cheia de mesquinhas querelas, sem nenhum prazer que houvessem: uns com grande míngua do que padeciam, outros havendo dó das tribuladas; e isto não sem razão, que se é triste o coração cuidoso nas cousas contrárias que lhe avir podem, vede que fariam aqueles que as tão continuadamente presente tinham. Mas com tudo isto, quando repicavam, nenhum não mostrava que era faminto, mas farto, e rico contra seus inimigos, e esforçavam-se uns aconselhar e dar remédio a seu grande nojo, mas não prestava conforto de palavras nem podia tal dor ser amansada com nenhumas doces razões. E assim como é natural cousa a mão ir amiúde onde seja dor, assim uns homens falando com os outros, não podia de todo despartir, senão em a míngua, que cada um padecia. Oh! Quantas vezes encomendavam nas missas e pregações que rogassem a Deus devotamente por o estado da cidade, e ficando de joelhos, beijando a terra, bradando a Deus que lhes acorresse, e sua preces não eram cumpridas. Uns choravam entre si, mal dizendo seus dias, queixando-se por quanto viviam, como se dissessem com o Profeta: Ora viesse a morte antes do tempo, e a terra cobrisse nossas faces, por não vermos tantos males. Assim que rogavam à morte, que os levasse, dizendo que melhor fôra morrer, que lhes serem cada dia renovados padecimentos […] Os padres e as madres viam estalar de fome os filhos que muito amavam, rompiam as faces e peitos sobre eles, não tendo com que lhes acorrer senão pranto, espargimento de lágrimas, e sobre isto medo daquela vingança, que entendiam que El-Rei de Castela deles havia de tomar (…)”.

 – Crónica de D. João I, cap. CXLVIII

Edição: Fevereiro 2025

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Em forma: Rossini e Beethoven, colonização e epidemias, Dostoievski, meteorologia igual a climatologia, Kanye West, MEGA, o fim das tradutoras, amores virtuais, cartoons e lições de arte, curiosidades históricas, solstício de inverno, Papa Francisco e Marçal Grilo.

ENSAIO

A Melodia Transcrita: A Intersecção de Rossini e Beethoven na Tradição Musical

Um relato na primeira pessoa que é na verdade um breve estudo etnomusicológico sobre a circulação de temas melódicos na Europa do século XIX.

Epidemics in Colonial America and Australia: Main Cause of Population Decline

Africa and Asia were extensively colonized by Europeans, but their populations remain essentially made up of ethnic natives, relatively speaking. However, that is not the case in the Americas and in Australia, where populations are largely non- native or mixed race. Why is this? The answer is mostly epidemics.

Oiça: Sabe o que é um Sonhador? – Noites Brancas de Dostoievski

Reflexão sobre Noites Brancas e o conceito de sonhador em Dostoievski, um tema importante e recorrente para o autor: o “sonhador” é o indivíduo que se revolta com o seu destino.

Meteorologia e Climatologia São a Mesma Coisa

Sobre como esta distinção estanque é usada como esperteza saloia da parte da religião do catastrofismo climático. Na verdade, apontar uma previsão meteorológica errada é como apontar uma previsão de climatologia errada: ambas pertencem ao ramo das probabilidades do estudo dos fenómenos atmosféricos.

Da literatura! E dos futuros agentes IA com quem dialogaremos.

CRÓNICA

O Desaparecimento das Tradutoras: Um Drama Burguês em Três Actos

A inteligência artificial, esse prodígio da modernidade que hoje é universalmente acessível, veio finalmente pôr termo a uma das mais insuportáveis tragédias da nossa era: a existência da classe profissional das tradutoras.

Anatomia de um Amor Virtual: Olhar o Vácuo

Reflexão sobre as complexidades das relações amorosas na era digital e o impacto das aplicações de encontros e da tecnologia na dinâmica social, destacando a despersonalização e os desafios de conexão genuína em tempos de hiperconexão.

O que diz Kanye

O que West está a dizer, em parte, nas suas muito polémicas diatribes on-line, é que os seus gestores no mundo do entretenimento, intermediários entre liberdade de expressão artística e viabilidade comercial/moral pública foram, em grande parte, judeus.

MEGA e a Competitividade da União Europeia: A Visão dos Conservadores

Sobre a conferência Make Europe Great Again, nascida de uma preocupação conjunta do grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus e do Partido Romeno AUR, que acolhera a primeira edição do MEGA em Bucareste.

Humor e academia.

ARTES VISUAIS

Cartoons Políticos e Lições sobre estilos de pintura

Vários desenhos de Rui Cavaleiro dedicados a temas da actualidade política portuguesa e internacional de inícios de 2025, e também um projeto especial destinado a todos os amantes da arte: ilustrações sobre vários estilos de pintura tendo como modelo o cãozinho Tuco.

Na comunicação social e na academia: tendências terminológicas.

RUBRICA

De um duelo que o Infante D. João de Castro teve com um urso e outro com um porco, na Era de 1375

“El-Rey Dom Fernando era mui querençoso de caça e monte, onde quer que sabia que os havia boõns, filhando em elle grande prazer e desenfadamento; e porque o certificarom que em terra da Beira e per Riba de Côa avia boõns montes d’ursos

O quotidiano do Município de Évora no séc. XIV, por meio de algumas inéditas Leis Municipais

“Que ninguém atirasse esterco para o muro da Muralha Fernandina, nem coloque fogo às esterqueiras (presume- se ser um fosso), sob pena de 10 libras destinada às obras do Concelho.”

e porcos em grande avondança, fez-se prestes com toda sua casa (…)”

O Solstício de Dezembro: o Dia Mais Curto do Ano no Hemisfério Norte

O dia mais curto do ano no Hemisfério Norte ocorre durante o solstício de Dezembro, um fenómeno astronómico que acontece entre os dias 20 e 22 de Dezembro, conforme o calendário gregoriano.

Das doenças mentais na universidade e fora dela.

CRÍTICA

Crítica: duas obras de Eduardo Marçal Grilo

«Salazar e a Educação no Estado Novo» (2022, 230 p.) e «Educação e Liberdade» (2024, 276 p.) de Eduardo Marçal Grilo, Clube do Autor.

Um pedaço de história e uma dissertação actualmente famosa.

Literatura e religião para o autoconhecimento segundo o Papa Francisco

Uma obra que aborda como arte, religião e literatura promovem o autoconhecimento, destacando reflexões do Papa Francisco e outros pontífices sobre a espiritualidade nas artes. A literatura é vista como um “ginásio de discernimento”, crucial para o crescimento humano e espiritual.

Funnnies! Este mês dedicados à arte da t-shirt com legenda.

Fotografia de Cherine Magrabi, libanesa, patrona das artes, em particular do design, fundadora da House of Today, destinada à mentoria de jovens designers no Líbano.

 

Analogias: WW2, Europa e Ucrânia

História e não estória: odeio acontecimentos históricos adaptados à conveniência e analogias com pouco sentido. Neville Chamberlain foi obviamente comido de cebolada em setembro de 1938, mas não foi ele o responsável pela WW2.

De facto a 30 de setembro de 1938, Neville Chamberlain, primeiro-ministro britânico, assinou o acordo de Munique com Adolf Hitler (Alemanha), Benito Mussolini (Itália) e Édouard Daladier (França). O objetivo? Evitar uma nova guerra europeia através da cedência à Alemanha Nazi a região dos Sudetas, uma parte fronteiriça da Checoslováquia, onde vivia uma grande população de origem alemã. Notem que o governo checoslovaco não foi sequer convidado para as negociações, só a aceitar a perda do território! E de facto Chamberlain regressou ao Reino Unido no dia seguinte e, assim que desembarcou em Londres, ergueu o documento assinado perante uma multidão entusiasmada. “Trouxe-vos a paz para o nosso tempo”. Nada mais errado como sabemos hoje. Mas acho que o enquadramento histórico merece ser mais alargado…

Vamos lá recuar dois aninhos antes do momento Chamberlain. Nos jogos olímpicos de Berlim de 1936, a delegação francesa, ao entrar no estádio, fez uma saudação que muitos interpretaram como o gesto nazi, embora tenha sido depois justificada como uma saudação olímpica. Este episódio simboliza como, naquela época, muitos governos ocidentais toleraram e até cultivaram relações cordiais com o regime nazi. O primeiro-ministro britânico era Stanley Baldwin, que, tal como outros líderes europeus, via Hitler como um baluarte contra o comunismo e acreditava que era possível apaziguá-lo. Foi o antecessor de Chamberlain. O ponto mais alto desta normalização do regime nazi foi quanto a mim a encenação dos jogos em Berlim, onde o III reich se apresentou ao mundo como uma potência moderna e disciplinada, sem que as perseguições aos judeus e a forte re-militarização alemã alarmasse as principais democracias ocidentais. É bom recordar que o anti-semitismo estava presente um pouco por toda a Europa, inlcuindo também, em especial, no Reino Unido.

Ah, já agora, o pacto Molotov-Ribbentrop, assinado a 23 de agosto de 1939, entre a Alemanha nazi e a URSS. Oficialmente um tratado de não agressão, incluía um protocolo secreto que dividia a Europa Oriental em esferas de influência. Hitler e Estaline concordaram em partilhar a Polónia, com a Alemanha a ficar com o oeste e a URSS o leste, além do controlo soviético sobre os Estados Bálticos (Estónia, Letónia, Lituânia) e também Finlândia. E de facto a 1 de setembro de 1939 os alemães invadiam a Polónia, os soviéticos, a 17. O Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha a 3 de setembro de 1939.

Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha a 3 de setembro de 1939, 2 dias depois da invasão nazi da Polónia. Vamos lá ver como é que correu depois da Europa democrática finalmente bater o pé ao Adolfo: 9 de abril de 1940 – Invasão da Dinamarca e da Noruega (Operação Weserübung). 10 de maio de 1940 – Invasão da Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo (início da ofensiva alemã no Ocidente). 10 de maio de 1940 – Invasão da França (queda de Paris a 14 de junho; armistício assinado a 22 de junho). 28 de outubro de 1940 – Invasão da Grécia pela Itália (fracasso inicial, levando à intervenção alemã em abril de 1941). 6 de abril de 1941 – Invasão da Jugoslávia e da Grécia (a Alemanha ocupa ambos os países em semanas). E por último, a 22 de junho de 1941, o que devia ter acontecido primeiro – Invasão da União Soviética (Operação Barbarossa), marcando a maior campanha da guerra.

Em conclusão: o Chamberlain de setembro de 1939 que declarou guerra à Alemanha nazi é muito mais culpado do que o Chamberlain de Munique 1938, que assinou um acordo de paz que Hitler nunca tencionou cumprir. Porquê? Porque não estava em condições de fazer frente à Alemanha. Não por falta de equipamento militar, britânicos e franceses juntos eram provavelmente mais fortes do que os alemães.Mas sim porque os seus povos não estavam preparados para a batalha. Os alemães, pelo contrário, estavam no ponto, após mais de meia dúzia de anos a ser trabalhados pela propaganda nazi. Winston Churchill foi nomeado primeiro-ministro do Reino Unido a 10 de maio de 1940, no mesmo dia em que a Alemanha nazi invadiu a França, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo. Churchill é o político que mais admiro. Preparou mentalmente os britânicos para a guerra em modo EXPRESS. Tinha o dom da palavra. Assertivo e combativo. Um Senhor. Nem tudo lhe saiu bem. Nem 15 dias depois de assumir funções e já estava a lidar com o resgate de mais de 300 mil soldados aliados de Dunquerque. Foi um milagre, mas também a demonstração de que os aliados não estavam preparados para a guerra. Bem, factos históricos à parte. Moral disto. Não estás preparado para a guerra, não te metas nela. E esse foi o erro dos aliados em setembro de 1939. Foi declarar guerra à Alemanha nazi sem estar preparado nem ter uma estratégia efetiva de combate. Não tivessem declarado guerra logo em setembro de 1939, e a Alemanha nazi teria ficado entretida com a frente oriental durante muito tempo. Estaline ia sempre ser um osso duro de roer. Bem sei que a existência de 2 frentes enfraqueceu a Alemanha, mas teria sido mais prudente, e tudo bem pesado, mesmo depois da invasão polaca, optar pela via diplomática. Trump não é o Chamberlain de 1938. Trump está a tentar dividir a Ucrânia com Putin, como Estaline fez com Hitler em 1939. Eu ainda não sei quem desempenha o papel de quem. Não faz mal, lá haveremos de descobrir. mas sei quem está a fazer o papel de Chamberlain, tanto o de 1938, como o de 1939. A Europa. Inevitavelmente a Europa. Em 2014, e em 2022.

Sobre a Idade Média em Portugal, sociedade de grande envergadura e prosperidade

“Desde que os Argonautas da Terceira decretaram a Monarquia Constitucional, que não passava de uma cobarde ficção republicana, a liberdade que os enrouquecia deixou de ser apenas palavras, para se tornar castigo, cada novo dia mais duro. É que, na voz candente de José Agostinho de Macedo, o Despotismo, ao sair por uma porta, entrou por cento e tantas! E então se chegou ao extremo de liberdade de imprensa – ser liberdade de apreensão; liberdade de cultos – ser perseguição religiosa; liberdade de ensino – proibição de ensinar a moral católica; liberdade de associação – impedimento de formar associações, tanto na ordem religiosa como económica. Quer dizer: liberdade é a supressão das liberdades. (…) A gente operária foi a que mais diretamente sentiu o que nesta doutrina havia de funesto. Os artistas medievos conheceram uma era de segurança e honesto bem-estar como os de nossos dias não encontraram ainda. Verdadeiramente não havia então classes pobres; só os indivíduos o podiam ser, por virtude de circunstâncias excepcionais e fortuitas, – incêndios, pestes, as grandes fomes, as doenças longas. Mas esses tinham nos mosteiros hospitalidade generosa e tenra. No Convento de Alcobaça (e só falo deste por ser o que mais andou ligado à vida e fortuna de Portugal) davam gratuitamente todos os remédios da botica a todos os pobres, não só dos seus coutos, que compreendiam treze vilas e três portos de mar, mas a quem quer que lhe fosse pedir auxílio. Sabe-se até que um dos cargos de maior consideração no mosteiro era o de mestre ou diretor da enfermaria dos pobres. Diariamente coziam ali 24 alqueires de pão para quem o não tivesse noutra parte e o fosse receber à Portaria. Em Quinta-feira-maior distribuíam aquele frades 4.000 pães e repartiam 25 moios de trigo pelos pobres de fora da vila. E a todos quantos pediam agasalho se dava hospedagem gratuita nesse mosteiro. James Murphy, viajando por Portugal por 1789, escreveu: ‘Aqueles que declamam contra os Frades e contra a sua opulência faziam bem se examinassem se por acaso há na Europa um fidalgo ou um cavalheiro possuidor de uma fortuna igual à que detêm os Frades de Alcobaça, e que faça tanto bem ao seu próximo como fazem os Frades deste Mosteiro’. Nada há na assistência pública de hoje que mereça comparar-se à liberalidade santa dos Conventos. O que modernamente se chama pauperismo não existia então, como também nada havia que se assemelhasse ao proletariado de agora. A ninguém faltava uma pedra redonda para erguer o lume, nem havia quem não tivesse onde abrigar-se à noite. As matas da Coroa davam lenha a uns, a outros madeira para rabiças de arados e para caibros; podiam estes tirar dali pranchas e vigamentos para fabricar suas embarcações, aqueles a cortiça para encortiçarem as redes. Nas Cortes de Lisboa de 1427 foi dito que nas Comarcas da Beira e Entre-Douro-e-Minho não se encontravam cavões nem jornaleiros, o que parece indicar, na autorizada opinião de Gama Barros, que todos tinham cultura própria de que se ocupassem. Viollet le Duc afirmou algures que as casas da gente mais miúda da Idade Média eram bem melhores do que essas em que moram os pobres dos nossos dias. E Tocqueville, apesar de ter vivido sempre enleado nos fabulosos encantos do que se lhe afigurava o progresso da civilização, reconhece também, desconsolado e amargo, que a situação dos trabalhadores do seu tempo era muito inferior à que tinham os obscuros obreiros do século XIII. A fome chega à porta do Oficial, mas não pode lá entrar, – era sabido ditado (..) Em 1227, Fernão Martins, ferreiro, doou com sua mulher Águeda, no Mosteiro de Salzedas, umas vinhas em Armamar, com obrigação de os tomarem por seus familiares e os fazerem participantes de todas as boas obras daquela Abadia e de serem conduzidos a ela depois de defuntos, pelos mesmos religiosos, para ali os sepultarem. Enquanto vivos, os doadores entregariam anualmente, por dia de S. Martinho, uma pitança de 17 teigas de pão cozido, 20 pescadas e 2 módios de vinho. E que, além de ser assim abastado, não era desprezível o ofício de ferreiro, vê-se ainda de uma sentença de El Rei D. Duarte, de 1436, dispensando os ferreiros do concelho de Felgueiras de servir os encargos da República. Por Outubro de 1431, comprava o Infante D. Henrique a João Anes, armeiro, por 400 coroas de ouro ‘das velhas, de bom ouro e justo peso do cunho de El Rei de França’, uns paços e assentamentos de casas, com 6 pardeeiros e chãos, na freguesia de S. Tomé, de Lisboa, para nelas estabelecer a Universidade. E o valor e o destino das casas não precisa de ser enfeitado com palavras para mostrar a importância e a riqueza de um operário humilde. O costume de andar descalço, tão vulgar agora no povo das nossas aldeias*, parece não ter existido na Idade Média. As iluminuras do livro do Apocalipse do Mosteiro de Lorvão, que representam cenas da vida agrícola, mostram-nos todos os trabalhadores calçados Nas miniaturas que adornam o manuscrito da Parte I da Crónica de D. João, da Biblioteca Nacional de Madrid, o rapaz que guarda ovelhas calça sapatos pretos; a mulher que aparece a fiar na roca também está calçada e calçados estão, uns com sapatos, outros com botas, os rudes campónios. A lei de preços de Afonso III, de 26 de Dezembro de 1253, fixando os salários da gente da lavoura, na província de Entre-Douro-e-Minho, ordena que se deêm aos serviçais, qualquer que seja a categoria, do alfeireiro ao moço pequeno e à rapariga do gado, 2 pares de sapatos por ano. Não se perdeu logo a boa moda. Nas Cortes de 1481 e 1482, ao procurar impedir os desregramentos do vestuário luxuoso, os procuradores do povo diziam: ‘Parece também a vossos povos que lavradores, criados e gente dessa sorte, conquanto aos dias santos possam trajar bristol e calçar sapatos brancos ou pretos, aos dias de trabalho devem vestir burel e fustão, trazer calções e botas’. Os mesteirais, esses, usariam bristol e sapatos pretos. Na feira que se fazia no Rossio, no ano de 1551, contavam-se 15 a 20 sapateiros que vendiam calçado velho, ‘os quais – informa um escrito da época – vendem muito mais do que os do novo, porque com este velho levam calçado grosso de trabalhadores’. No livro de orações de D. Manuel, iluminado com representação de assuntos campestres, também estão calçados os camponeses que lidam na eira. O criado de um beneficiado da Igreja do Salvador, em 1558, tinha de soldada, além de 4 cruzados e certas peças de roupa, um par de botas, ‘como he uzo e costume’. Pela escritura que o venerável Nun’Álvares fez com os Mestres e Oficiais que pelos anos de 1389 trabalharam na grande obra do Convento do Carmo, sabemos que aos mestres se devia dar por dia 30 reais, aos Oficiais 13 reais, e aos serventuários 10 reais, ‘que era muito abondo para comprar dois alqueires de teigo, que naquele tempo custava a 5 reais o alqueire’, esclarece o cronista dos Carmelitas descalços, Fr. José Pereira de Santana. Ao redor do ano de 1470, cada mestre carpinteiro e pedreiro do Município de Lisboa ganhava tanto como o cirurgião e o médico do partido, e quase tanto como os juízes. Os salários dos mestres de ofício regulavam, em 1480, entre 25 reais, jornal de um alfaiate, e 40 reais, que ganhavam o sapateiro, o ferreiro e o correeiro. Para saber que não era mesquinho o salário, basta lembrar que um viajante gastava então 15 reais para comer nas estalagens e que os Procuradores do Povo às Cortes de 1490 puderam dizer que um Chefe de Família governava até ali a sua casa com 3 e 4 mil reais por ano. Em 1494, o lente de véspera de Medicina na Universidade, percebia 8.640 reais, e João Crespim, mestre de carpintaria e artilharia real, tinha de ordenado 9.195 reais. João Afonso, mestre da Fundição, ganhava por aquele tempo 15.000 reais anualmente, enquanto a cada um dos membros da Casa dos Contos, em que se concentrava toda a contabilidade da Fazenda Pública, se assinavam apenas 10.000 reais, e 5.000 reais aos escrivães. (…) Em 1531 os pedreiros venciam de jornal, desde Março até Setembro, 12 reais por dia, e 10 reais de Outubro até Fevereiro; os  carpinteiros 25 reais, e 20 reais; os alfaiates ganhavam 25 reais por dia; 40 reais os correeiros; 10 reais os sapateiros. Ora, um operário podia então comprar um arrátel de vaca por 2 ou 3 reais; uma galinha custava-lhe 7 reais e por 2 reais já conseguia 5 ovos. Em Guimarães, no ano de 1552, um carro de lenha não custava mais de 20 reais, e um carpinteiro ou pedreiro ganhava por dia 30 reais, dando-lhe..

..de comer, e 50 reais sendo a seco. Por 10 reais comprava quem quer um arrátel de toucinho seco, por 8 reais um coelho, e um cabrito por 30 reais. Um leitão valia 30 reais e uma lebre 15. Uns sapatos de bom cordovão pagavam-se com 50 reais, e os de vaca valiam 45. Praticamente o dinheiro do pobre tinha valir superior ao do rico. A satisfação das primeiras necessidades de vida – albergue, comida, vestido – era baratíssima, mas em compensação os objetos de luxo atingiam preços altíssimos. Desde que a lei impunha aos municípios o dever de taxar os salários dos mesteirais, os salários correspondiam exatamente ao custo de vida. A féria do operário não diferia sensivelmente dos ganhos do mestre. Em 1507, João Cordeiro, mestre de carpintaria, que trabalhou no Paço de Sintra, tinha de jorna 60 reais, e os carpinteiros Fernando Anes, João André e Álvaro Fernandes 50 reais cada um; João Rodrigues, mestre pedreiro, ganhava 60 reais e 50 reais os oficiais Pedro de Carnide e Afonso Fernandes; Gonçalo Gomes, pintor, recebia 60 reais e João, seu criado, 40 reais. (…) Nas Cortes de Coimbra de 1394 queixava-se o concelho de Santarém de ter de dar pousada e cama gratuita aos pedreiros, carpinteiros e outros mesteirais que trabalhavam nas obras ali mandadas fazer pelo Rei, visto que ‘recebiam jornais grandes e bons’. João de Guimarães, o celebrado alfageme que em Santarém consertou a espada de Nuno Álvares era, no dizer da Crónica anónima do Condestável, rico e feliz. Diogo Fernandes, latoeiro em Lisboa no tempo de D. João III, dava dinheiro a juro. Diogo Raçola, armeiro, vestia luxuosamente roupas de seda. Em socorro da praça de Mazagão, que o xerife Muley Abdala, Rei de Marrocos, sitiava, 1.000 homens enviavam à sua custa os oficiais mecânicos. (…) Ao descrever a Ribeira, no livro das grandezas de Lisboa, Fr. Nicolau de Oliveira observava: ‘Há aqui à parte do Rio 54 escamadeiras de peixe, que ganham mui bem de comer a este ofício, e muitas delas são mui ricas’. Ah! Como se compreende o orgulhoso gruto daquele grande curtidor de Basileia, ao receber em sua casa o imperador Rodolfo de Habsburgo: ‘C’est le métier qui fait maintenant la richesse!’ Mas se os lucros do ofício não bastassem, concediam então os Monarcas amplos privilégios, porque ‘huma das cousas que mais ennobrece e honra a cidade assy som os bõos oficiais’. (…)”

[o excerto corresponde a uma boa fatia de um extenso capítulo, o II da obra ‘Paixão e Graça da Terra, de Luís de Almeida Braga – obra de muito primor e honra].

MEGA e a Competitividade da União Europeia: A Visão dos Conservadores

A conferência Make Europe Great Again realizada em Bruxelas nasceu de uma preocupação conjunta do grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus e do Partido Romeno AUR, que acolhera a primeira edição do MEGA em Bucareste.

A organização do evento contou com vários oradores desde líderes políticos, ex-deputados, directores de think-thanks, embaixadores assim como reputadas personalidades do movimento conservador europeu.

Portugal encontrou-se representado ao mais alto nível através do embaixador e eurodeputado do Partido Chega António Tânger Correira que manifestou preocupações com a deriva woke da União Europeia, a necessidade de suspender o Green New Deal e a revogação do Pacto das Migrações. A delegação portuguesa contou ainda com a presença de Miguel Nunes Silva, director do Instituto Trezeno e Mestre em Estudos Europeus pelo Colégio da Europa em Bruges que por ter feito parte do seu percurso formativo na Bélgica acompanhou de perto a reconfiguração da política europeia e o desmantelamento dos Estados-Nação assim como a progressiva subjugação dos países mais pequenos aos ditames de Bruxelas.

A revitalização da Europa erigida por Schumann e Monnet- seus pais fundadores – através da recuperação dos seus ideais – promoção da paz e solidariedade entre as nações, defesa da democracia, assim como a valorização do estado de Direito tornou-se uma constante ao longo dos vários discursos proferidos

As análises efectuadas nesta conferência procuraram projectar o futuro, identificar as falhas e reconstruir uma Europa menos burocrática, mais autossuficiente e politicamente mais democrática.

A imigração em massa e a ausência de uma política de controlo de fronteiras, assim como a promoção da “religião do multiculturalismo” têm sido factores de instabilidade, num continente bastante envelhecido e em que os sistemas de segurança social entraram em colapso. 

A eurodeputada Marion Maréchal-Le Pen, Vice-Presidente do ECR, destacou entre as várias ameaças (empobrecimento e declínio geopolítico) uma grave crise demográfica que em última análise coloca em risco a própria sobrevivência do povo europeu.

A estagnação da Europa em termos de natalidade também se observa pelos próprios números adiantados pela própria eurodeputada. Enquanto se prevê que a Europa mantenha sensivelmente a mesma população entre 2025 e 2050 – 450 milhões de europeus, prevê-se que no mesmo período temporal África e Ásia aumentem a sua população em cerca de mil milhões habitantes.  

Marion recorreu a factos preocupantes sobre o fenómeno migratório. Em 2022 foi a primeira vez que entraram mais imigrantes em solo europeu do que aqueles que nasceram e em França há 30% de nascimentos de origem extra-europeia. A imigração em massa de países que apresentam altas taxas de natalidade, o crescente individualismo e o feminismo – responsável pela desregulação da maternidade são sinais dos tempos numa Europa em acentuado declínio.

Em segundo lugar aponta-se como problemática a falta de democraticidade da União Europeia, particularmente no que diz respeito às decisões tomadas na Comissão Europeia por políticos não eleitos que não demonstram qualquer tipo de preocupação sobre a vontade soberana dos povos de cada estado-membro da União.

Decisões polémicas e arbitrárias têm prevalecido sem qualquer consulta popular, mantendo sob cativeiro o povo europeu. Neste sentido não é difícil encontrar exemplos da “tirania totalitária progressista” seja na forma tardia e negligente com que abordaram a pandemia Covid-19, restringindo de forma severa direitos, liberdades e garantias dos cidadãos – implementação do passaporte sanitário, vacinação obrigatória e restrições de circulação no espaço Schengen.

O deputado romeno Mihail Neamțu contrastou Soljenístsin com a família Soros. Soljenítsin ainda que dissidente, criticava o Ocidente pela sua fraqueza espiritual e de integridade de valores; a prazo acabando por ter razão e as consequências da debilidade moral hoje repercutindo-se a todos os níveis. Os Soros também são oriundos da Europa de Leste mas dedicaram-se a incentivar e financiar o caos moral e geopolítico no Leste. Soljenítsin procurava fortalecer as estruturas tradicionais da sociedade enquanto que os Soros procuram uniformizar os povos e destruir os valores orgânicos do homem social.

Soljenítsin representa o espírito conservador de defesa da família tradicional, o espírito de cooperação e sociabilidade entre os membros da comunidade nacional, o respeito pela ordem e hierarquia assim como a perenidade dos valores.

George Soros incorpora a “ditadura progressista totalitária woke” – a defesa da “ditadura das minorias” – a promoção dos coletivos LGBT, a defesa intransigente do feminismo radical e a destruição do patriarcado assim como o financiamento do lobby das alterações climáticas e dos políticos e partidos de extrema-esquerda com o objectivo final de extinguir o povo europeu, evidente nas declarações de Jean-Luc Mélenchon.*

Em terceiro lugar e não menos importante destaca-se a excessiva regulamentação de bens e serviços da União Europeia que contribui para o desaceleramento do crescimento das economias da zona Euro, por sua vez gravemente afectadas pela desindustrialização da economia alemã** – perda de fornecimento de gás russo que resultou num aumento do custo da energia***e o encerramento de empresas prestigiadas no ramo automóvel, como a Volkswagen.

Tendo em conta o relatório “The future of european competitiveness” nas últimas cinco décadas nenhuma empresa da UE com valor superior a 100 mil milhões de euros foi criada do zero, e 30% dos unicórnios europeus saíram do bloco desde 2008 devido à dificuldade de expansão no continente. A este propósito os conservadores europeus alertam para a urgência em revogar imediatamente o Regulmento da Inteligência Artificial**** ou AI Act que impõe restrições ou proibições a determinadas aplicações consideradas de “risco inaceitável”, estabelecendo deste modo desafios significativos para a permanência destas empresas no mercado comum da zona Euro.

As empresas enfrentam uma teia densa de regulações, impostos e requisitos administrativos que variam entre os Estados-membros, criando barreiras invisíveis ao crescimento e à expansão internacional. Além disso, o mercado único europeu encontra-se saturado, com uma concorrência intensa entre empresas que disputam uma base de consumidores limitada e envelhecida.

Mateusz Morawiecki referiu-se ao relatório do Parlamento Europeu***** “Eliminação das barreiras não pautais e não fiscais no mercado único” que referia que as barreiras comerciais não tarifárias aumentavam os custos das trocas de bens até 50% e de serviços até 100%, comprometendo os objectivos da estratégia industrial da UE e afetando negativamente a competitividade energética.

Um quarto factor de preocupação apresentado por vários participantes foi o condicionamento da liberdade de expressão. Francesco Giubilei, Presidente do Think-Thank Conservador Nazione Futura e da Fundação Tatarella, criticou a UE e a imprensa progressista italiana relativamente à forma como se apressaram a apresentar Donald Trump como uma figura “populista” e uma “ameaça” aos valores europeus por ter como seu principal financiador Elon Musk, argumentando que o magnata, estaria a interferir directamente no processo político através da plataforma X (anteriormente Twitter). Não deixa de ser um exercício hipócrita quando os mesmos dirigentes europeus permaneceram totalmente indiferentes relativamente à censura imposta por Zuckerberg e pelas Big Tech, no decurso da administração Biden, banindo uma série de perfis de direita, sempre com a ladainha da protecção contra o discurso de ódio e defesa da democracia. Além da União Europeia agir com “dois pesos e duas medidas”, numa espécie de Ministério da Verdade Orwelliano, mantém como prioridade a criação de grupos de trabalho sobre fact-checking para poder deliberar (em causa própria, diga-se) quais os conteúdos que podem ou não ser publicados.

A Conferência “Make Europe Great Again – MEGA” através dos seus diversos painéis temáticos lembram-nos que quem adormece em liberdade pode acordar em ditadura. 

Mesmo que não contenha um aparelho repressivo formal à luz dos estados totalitários do séc.XX, o federalismo europeu é uma forma supranacional de transferir soberania dos estados para Bruxelas, transformando-os em meros protectorados económicos, uma vez que delegam parte das suas competências em áreas como comércio, concorrência, política monetária, segurança ou justiça que passam directamente a ser administradas por Bruxelas ou através de Instituições como o Tribunal de Justiça da União Europeia que estabelece o princípio da primazia do direito europeu sobre as legislações nacionais.

A segurança dos estados-nação e o controlo da imigração, a protecção da liberdade de expressão contra o cancelamento da dissidência, a desburocratização e simplificação de processos para atracção de investimento e de oportunidades de negócio são prioridades dos Conservadores Europeus

Mas o combate cultural também deve assumir formas metapolíticas no que diz respeito à manutenção e preservação dos valores intemporais europeus consubstanciadas no direito romano, filosofia grega e da moral cristã – os três pilares da civilizacional Ocidental expressos pelo Santo Padre João Paulo II.

Os conservadores carregam consigo a responsabilidade história de pôr termo à deriva woke e identitária – traduzida na novilíngua progressista por questões como a “urgência climática” para se referirem a alterações climáticas, “pessoa gestante” que substitui a palavra mãe, para não ferirem a susceptibilidade das “pessoas trans e não binárias” que não podem engravidar, o “racismo estrutural” que incute desde cedo nas crianças brancas que se constituem como potenciais opressoras face a crianças negras ou asiáticas e por isso ocupam um lugar de privilégio a que designam como “branquitude”, entre outras histerias colectivas que animam a turba progressista de forma orgásmica. 

Tal como Maquiavel escrevera na sua magistral Obra – “O Príncipe” – a política deve ser regida por princípios pragmáticos e precisa de líderes fortes e estratégias eficazes para garantir a sua sobrevivência.

A Europa enfrenta claramente uma crise de lideranças, perdida nas memórias de estadistas como Konrad Adenauer, Winston Churchill ou Charles de Gaulle.

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*“No nosso país, uma em cada quatro pessoas tem um avô estrangeiro. 40% da população fala pelo menos duas línguas. Estamos destinados a ser uma nação crioula e tanto melhor! Que a jovem geração seja a grande substituta da velha geração”

**https://rtbrasil.com/noticias/5495-alemanha-corre-risco-desindustrializacao-revela/)

***a indústria alemã paga, em média, 40% mais por energia em comparação a 2021, tornando a produção local menos competitiva

****https://www.consilium.europa.eu/pt/policies/artificial-intelligence/

*****https://pt.euronews.com/my-europe/2024/09/09/relatorio-de-draghi-sobre-a-competitividade-da-ue-cinco-conclusoes-principais

Epidemics in Colonial America and Australia: Main Cause of Population Decline

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Africa and Asia were extensively colonized by Europeans, but their populations remain essentially made up of ethnic natives, relatively speaking. However, that is not the case in the Americas and in Australia, where populations are largely non-native or mixed race. Why is this? Several factors can be conjured among two main lines: the nature and goals of European colonization in each region and, more importantly and statistically relevantly, the demographic and epidemiological impacts it had. This essay will demonstrate how the epidemiological consequences of the introduction of Europeans in the long-isolated continents of the Americas and Australia is by far the most important factor in explaining this demographic divergence.

1. Nature and Goals of European Colonization

The nature of European colonization varied significantly between regions. In Africa and Asia, European powers established predominantly exploitation colonies, where the goal was to extract resources and control trade rather than settle large populations. The indigenous societies remained largely intact, as European presence was mainly concentrated in administrative centers and trading posts (Acemoglu, Johnson & Robinson, 2001).

By contrast, in the Americas and Australia, Europeans pursued settler colonization, which involved the large-scale migration of European populations with the intention of permanent residence. This necessitated land acquisition, often through violent displacement of indigenous peoples, and the establishment of European-style societies (Crosby, 1986).

However, even settler colonialism alone does not fully explain the demographic transformation. European expansion into Africa and Asia did not lead to the large-scale replacement of native populations. The decisive difference lies in the epidemiological impact of European contact.

2. The Epidemiological Catastrophe in the Americas and Australia

The most significant and well-documented reason for the demographic shift in the Americas and Australia is the introduction of Old World diseases. Prior to European contact, indigenous populations in these regions had been isolated from Eurasian and African disease pools for millennia. Consequently, they lacked immunological defenses against pathogens such as smallpox, measles, influenza, and typhus (Diamond, 1997).

Historical accounts and epidemiological models suggest that indigenous populations in the Americas suffered mortality rates as high as 80-90% within a century of European arrival (Dobyns, 1983). This was due to a combination of direct infection, secondary effects such as famine and social collapse, and the inability to recover population numbers quickly. This demographic vacuum facilitated European settlement and the importation of African slaves to replace lost indigenous labor (Mann, 2005).

In contrast, Africa and Asia had been part of the Eurasian disease environment for millennia. Their populations had developed partial immunities to many of the same diseases that Europeans carried. As a result, although European-introduced diseases did affect certain populations, they did not cause the catastrophic collapses seen in the Americas and Australia (McNeill, 1976). Furthermore, tropical diseases like malaria and yellow fever in Africa posed significant obstacles to European settlers, further limiting demographic transformation (Curtin, 1989).

3. Indigenous Resistance and Population Continuity

Another contributing factor is the ability of indigenous societies to resist European domination. Many African and Asian states had long histories of political organization and military resistance, making total population replacement impractical (Iliffe, 1995).

By contrast, in the Americas and Australia, indigenous societies often lacked large-scale political unity, making them more vulnerable to European expansion. While many indigenous groups fought fiercely against colonization, their numbers had been so depleted by disease that their capacity for prolonged resistance was diminished (Thornton, 1987).

4. The Role of Slavery and Immigration Policies

In response to the demographic collapse of indigenous populations, European settlers in the Americas turned to African slavery to sustain their economies. The transatlantic slave trade brought millions of Africans to the Americas, further altering the demographic landscape (Eltis, 2000). In contrast, Africa and Asia were primarily sources of enslaved labor, rather than destinations for it, preserving the demographic continuity of their native populations.

Moreover, colonial policies encouraged European migration to settler colonies, reinforcing demographic transformation in the Americas and Australia (Belich, 2009). In contrast, European colonial governments in Africa and Asia typically did not implement large-scale European settlement programs, ensuring that native populations remained dominant.

Conclusion

While multiple factors influenced the demographic composition of colonized regions, the most statistically significant and historically decisive was the epidemiological catastrophe that followed European contact in the Americas and Australia. The introduction of Old World diseases led to an unprecedented collapse of indigenous populations, creating a demographic vacuum that facilitated large-scale European settlement and African slavery. In Africa and Asia, where such a collapse did not occur, native populations remained demographically dominant despite centuries of colonial rule. Thus, while the nature of colonization and political resistance played important roles, it was the biological consequences of first contact that ultimately defined the demographic landscape of the modern world.

References

Thornton, R. (1987). American Indian Holocaust and Survival: A Population History Since 1492. University of Oklahoma Press.

Acemoglu, D., Johnson, S., & Robinson, J. A. (2001). “The Colonial Origins of Comparative Development: An Empirical Investigation.” American Economic Review.

Belich, J. (2009). Replenishing the Earth: The Settler Revolution and the Rise of the Anglo-World, 1783-1939. Oxford University Press.

Crosby, A. W. (1986). Ecological Imperialism: The Biological Expansion of Europe, 900-1900. Cambridge University Press.

Curtin, P. (1989). Death by Migration: Europe’s Encounter with the Tropical World in the Nineteenth Century. Cambridge University Press.

Diamond, J. (1997). Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies. W.W. Norton & Company.

Dobyns, H. F. (1983). Their Number Become Thinned: Native American Population Dynamics in Eastern North America. University of Tennessee Press.

Eltis, D. (2000). The Rise of African Slavery in the Americas. Cambridge University Press.

Iliffe, J. (1995). Africans: The History of a Continent. Cambridge University Press.

Mann, C. (2005). 1491: New Revelations of the Americas Before Columbus. Knopf.

McNeill, W. H. (1976). Plagues and Peoples. Anchor Press.

Oiça: Sabe o que é um Sonhador? – Noites Brancas de Dostoievski

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«Uma vida assim é um crime e um pecado»1. Diz o sonhador de Noites Brancas quando aparentemente é honesto com Nástenka (e pela primeira vez consigo mesmo) na segunda noite. Há vários meses que ando a refletir sobre este livro e todo o conceito de sonhador para Dostoievski, um tema importante e recorrente para o autor que Thomas Marullo resumiu como: «Para além de trabalhos de ficção, escreveu uma série de artigos, com o título “Crónicas de Petersburgo”, em que detalhou o seu fascínio com “sonhadores”, indivíduos que se revoltam com o seu destino».2 Para compreenderem a minha interpretação de Noites Brancas há que pensar na “viagem” do sonhador durante a obra. Começa como alguém objetivamente solitário, que se ilude a si próprio (apenas superficialmente), que trava amizades com prédios e cria relações imaginárias com pessoas que encontra na sua rotina para preencher o vazio do seu dia a dia. Termina a história uma pessoa destruída, tendo experienciado uma relação genuína e um interesse amoroso, ambas coisas que ele não considerava possíveis.

O sonhador é alguém que habita um mundo á parte nas mesmas ruas onde habitamos todos, é alguém que vive «uma vida como a que pode existir num reino misterioso dos confins do mundo (…) é um misto de qualquer coisa de fantástico, ardentemente ideal e ao mesmo tempo (…) incrivelmente vulgar.».3 Para o sonhador a vida é alimentada com as ilusões que lhe preenchem o vazio que o próprio não consegue preencher, neste caso em particular a falta de relações e interações sociais que levam á solidão e que é substituído com as ilustres fantasias, romances e grandezas que o sonhador cria para si mesmo. Estas fantasias são, no entanto, periodicamente desafiadas e o sonhador é confrontado com a dolorosa realidade da sua situação, como quando ele descreve que é incapaz de receber a visita de um conhecido, na qual ele torna a situação tão estranha e desconfortável que leva a que a situação não se repita para o dito conhecido. Fora encontros sociais específicos esta realidade atormenta-o, por mais que ele a queira esconder, na primeira noite com Nástenka ele confessa ter o desejo de abordar mulheres na rua e de quebrar este ciclo e quando as pessoas estão a partir para as datchas dá consigo mesmo a desejar ir com elas. «depois das minhas noites fantásticas já me acontecem momentos de lucidez, que são horríveis!».4

O sonhador nasce do trauma. Ambas as personagens (Nástenka e o sonhador) são sonhadores e ambos partilham esta verdade, no caso de Nástenka é mais óbvio qual é o seu trauma, no do sonhador ele apenas consegue comparar a sua situação com a de um «infeliz gatinho» que foi maltratado. É neste contexto de trauma que surge uma “barreira protetora” e necessariamente distanciadora do mundo, deixando os vazios que foram bloqueados pelo trauma a serem preenchidos com sonhos e mentiras doces que confortam a vítima e lhe dão a sensação forte (mas vazia) de ter ali encontrado um substituto para as coisas reais. «Pois se não há outra vida, é forçoso construí-la a partir desses fragmentos. Entretanto, a alma quer e pede outra coisa! E em vão o sonhador se revolve, como nas cinzas, nos seus antigos desvaneios, procurando nessas cinzas ao menos uma fagulha para soprá-la…”»5

 Nesta medida o nosso sonhador ultrapassa uma questão de se resignar com a sua condição miserável apesar de ter capacidade de a alterar (como é evidente no decorrer das noites), é uma pessoa que se ilude (ou tenta iludir) de que não só não consegue alterar nada, como está bem com a sua condição. O ponto fulcral é que através dos sonhos torna-se cada vez mais difícil mudar (que já por si só não seria fácil) a condição em que nos encontramos, cria complacência numa situação que requer arriscar, que requer colocar o “peso do Destino” nos nossos ombros para que a “barreira protetora” possa ser levantada e para que possamos preencher os espaços anteriormente cobertos com aquilo que mais carecemos. Neste sentido o sonhador é uma personagem paradoxal, que se julga feliz e preenchido com as suas realidades sonhadas e que, no entanto, deseja acima de tudo desenvolver relações genuínas (e por isso necessariamente quebrar a realidade sonhada).

O final da história é extremamente ambíguo, deixando aberto á interpretação do leitor o destino do sonhador após as noites brancas com Nástenka. A meu ver o sonhador acaba ciente da sua solidão (como começa a ficar evidente nas duas primeiras noites), do vazio que tem dentro de si, e de como seria o seu futuro se continuasse a sua vida como a fez até ter conhecido Nástenka, é uma descoberta esmagadora que impossibilita o sonhador de voltar ao seu estilo de vida anterior. Os prédios bonitos que numa outra altura considerava seus amigos, passam a ter um aspeto degradado e velho, e nisso ele vê a imagem do seu futuro, questiona o que tinha dito a ele mesmo e a Nástenka (e que desde o início se revela quase ingénuo ele acreditar nisso verdadeiramente) de só precisar de dois minutos de interação para lhe durar uma vida é de facto verdade: «Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Mas será isso pouco para toda uma vida humana?…».6 A realidade é que provavelmente não chegará, uma vez experienciada esta realidade social superior em que se demonstra a si mesmo capaz de criar laços de amizade e até amor com outra pessoa, o sonhador preenche o vazio que há tanto tempo tem ocupado com os seus sonhos, revelando-lhe que subestimou a sua necessidade e o poder da experiência que passou bem como a sua capacidade de alterar a sua realidade. «E o que você me contou daquela vez sobre o seu sonhador não tem nada a ver consigo. Você curou-se, é na verdade um homem completamente diferente daquele que descreveu.»7

O tempo em que a ação decorre tem também significância, Noites Brancas começa num dia de manhã, representando a rotina do sonhador e a sua vida antes de conhecer a Nástenka, explode em exploração da ação durante cinco noites (e quatro encontros com Nástenka). É durante estas noites que a sua vida muda, que a história deixa de ser sobre um homem que vagueia pelas ruas de São Petersburgo a fantasiar relações inexistentes para começar a desenvolver uma relação genuína com uma pessoa pela qual nutre sentimentos reais. Na quarta noite o sonhador conta-nos os eventos da terceira noite, e revê-la que nesse dia devido ás condições atmosféricas Nástenka não vai sair á rua, é uma noite curtamente descrita como sendo muito penosa e difícil para o sonhador, que se sente inútil perante tudo isso.  Na última noite, após a intimidade entre ambas as personagens já estar estabelecida é quando a realidade do sonhador desmorona pois ele passa de ser um amigo de Nástenka que apesar de nutrir sentimentos pela mesma julga que nunca vai poder agir sobre eles (apesar de isso ser o seu desejo mais íntimo) para expressar os seus sentimentos e ter uns minutos de pura felicidade e por fim para uma realidade em que tudo isso lhe é tirado, como se lhe puxassem o tapete debaixo dos pés. O último capítulo da história «Manhã» representa, portanto, o despertar, um novo começo, e é precisamente nesta manhã que o sonhador começa a ver a “névoa dos sonhos a levantar-se”. É para mim um capítulo de mudança inevitável, marcado por eventos fora do seu controlo (para além da situação com Nástenka) está representado nas alterações feitas pela Matriona, que limpa as teias de aranha do apartamento e diz-lhe que agora se pode casar e ter visitas.

A exploração do sonhador como idealizador extremo, como um romântico inegável e acima de tudo como uma pessoa frágil e vulgar é o que torna este livro verdadeiramente interessante, da mesma maneira como Memórias do Subterrâneo nos obriga a revermo-nos no personagem principal (em certos aspetos mais do que outros para cada pessoa), criamos empatia com o sonhador numa leitura que nos transporta para a sua realidade onde mesmo que levada ao expoente máximo somos capazes de encontrar uma ligação com os nossos diversos graus pessoais de sonhador.

1Fiodor Dostoievski, Noites Brancas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp 36

2Thomas Marullo, Young Fyodor Dostoievski, Cornell Press, 28/10/21, https://www.cornellpress.cornell.edu/young-fyodor-dostoevsky-1846-1847/

3Fiodor Dostoievski, Noites Brancas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp 26

4Fiodor Dostoievski, Noites Brancas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp 36

5Fiodor Dostoievski, Noites Brancas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp 36

6Fiodor Dostoievski, Noites Brancas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp 737Fiodor Dostoievski, Noites Brancas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp 57

O Desaparecimento das Tradutoras: Um Drama Burguês em Três Actos

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A inteligência artificial, esse prodígio da modernidade que hoje é universalmente acessível, veio finalmente pôr termo a uma das mais insuportáveis tragédias da nossa era: a existência da classe profissional das tradutoras. Sim, dessas figuras intelectualmente entediadas, de postura algo displicente, sempre de chávena na mão e olhar distante, que vivem na ilusão de que a sua profissão é uma arte sublime. O fim desta classe – ou melhor, desta sororidade – há de ser saudado por todos os que se preocupam com a eficácia, a precisão e, acima de tudo, o avanço da humanidade para lá dos caprichos da mediocridade em que se sustenta o conforto destas intelectuais burguesas e ociosas. Este texto é uma mera aproximação ao problema e não pretende ser uma abordagem extensa a algumas teorias erradas — e interesseiras — que essa classe profissional tem sobre o ofício. Deixaremos isso para outra altura.

Primeiro Acto: O Culto da Tradução

Se há algo que define a tradutora média é a sua absoluta convicção de que traduzir é um ato de génio. Entre suspiros lânguidos e monólogos sobre a “riqueza semântica” de um termo alemão intraduzível (mas que um estudante de primeiro ano de linguística resolve em dez segundos), esta classe profissional vive num delírio de importância. Convencidas de que são as guardiãs da literatura mundial, tendem a esquecer que o seu ofício tem tanto de artístico como o trabalho de um encadernador ou de um digitador de textos. Nem um nem outro são desprezíveis, mas claramente as primeiras tendem a considerar-se acima dos segundos. Vejamos este ponto com mais atenção.

O que uma tradutora faz é pegar numa frase num idioma e passá-la para outro, algo que, convenhamos, qualquer máquina pode agora fazer, baseada em leituras cumulativamente complexas que não ultrapassam o mero saber técnico, com todo o mérito que um saber técnico merece, resultando num produto com qualidade superior e, felizmente, sem as idiossincrasias temperamentais de uma intelectual entediada. Ao contrário do que essa classe profissional pretensiosamente argumentará, traduzir não é uma decifração de uma arte complexa digna de bruxas e de práticas oculistas: é um saber técnico de plena precisão, que aliás tudo tem a ganhar quanto mais literal possível for, literalidade essa que, está claro, as tradutoras evitam ao máximo, sendo afinal guardiãs não da literatura mas do seu próprio ofício e da sua classe profissional.

Assim, ah!, que dor insuportável para essas almas que passaram décadas a convencer-se de que o seu trabalho era mais do que um exercício técnico! Ainda hoje se queixarão que traduzir é uma espécie de ofício místico, e, conforme o avanço da tecnologia, pretenderão enganar incautos com o argumento do toque humano, que na verdade é o argumento do pilim. E se há coisa que todos os tradutores e todos os místicos fizeram até hoje foi dar erros, dizer asneiras em geral e, principalmente — e este é o grande ponto em comum — acharem-se mais especiais que os outros. O que acontece quando a possiblidade da sua substituição surge?

Segundo Acto: A Inteligência Artificial Entra em Cena

A IA veio acabar com este espetáculo deprimente e ridículo. De uma só assentada, livrou-nos dos erros de interpretação, dos prazos eternos e das explicações pretensiosas sobre as dificuldades intrínsecas de traduzir um romance obscuro de um autor moldavo. Estas obscuridades funcionais tornaram-se claramente fraudulentas. A questão não é de “qualidade” indecifrável, mas de quantidade de conhecimento. Com modelos de linguagem a funcionar a uma velocidade e precisão inatingíveis por um ser humano, o destino da classe tradutória está selado: obsolescência pura e dura.

A ironia, claro, é que as tradutoras sempre consideraram a sua profissão uma atividade de vanguarda, enquanto se agarravam desesperadamente a um modelo de trabalho antiquado. Não estão minimamente preparadas para a extinção. Entretanto, podem, sob várias formas, protestar, escrever manifestos, fazer abaixo-assinados – mas tudo isso é em vão. O progresso não tem paciência para dramatismos de café literário.

Hoje a IA consegue traduções não só aceitáveis como também correctas a nível técnico e até mesmo literário, o que está de acordo com certas teorias da tradução. Tudo o que é necessário é ajustar o nível de literalidade e registo pretendidos, alguns ajustes e correções finais, e está feito um trabalho mais do que bom. A reacção dessa classe profissional, cuja ética conservadora não legitima qualquer tipo de mudança, tem sido a do desprezo e do pânico, enquanto se vão agarrando à tentativa de convencer os fundos públicos a continuarem a dar-lhes importância. Não existe qualquer movimento significativo ou inteligente da parte desta classe que pretenda integrar a IA no seu trabalho ou mesmo admitir a substituição desse trabalho pelo artifício por inteiro. É curioso: traduzem o autor, o artífice por excelência, pretendendo um alcance artístico também, mas tendencialmente recusam qualquer tipo de artifício evidente no seu próprio ofício. São mentirosas três vezes seguidas, não? Consultem Platão.

Terceiro Acto: A Requalificação?

E agora? Que será dessas mulheres que, na sua esmagadora maioria (quase 70% da classe, vejam bem!), dedicaram a vida a um ofício que a tecnologia está prestes a tornar, ou mesmo já tornou, dispensável? O futuro apresenta-lhes desafios imensos. Talvez algumas descubram talentos ocultos na jardinagem, enquanto outras podem sempre abraçar carreiras mais apropriadas ao seu estatuto de burguesas progressistas, como o voluntariado em ONGs ou a animação de workshops sobre literatura de resistência. Não é verdade?

E claro, há sempre a opção de um recuo estratégico para os braços de maridos e companheiros que, como sempre, ganham mais do que elas e que, afinal, ao longo das suas vidas, sempre lhes proporcionaram a prática dessa profissão tendencialmente ociosa. Essa tradição de passarem uma vida a apoiarem-se noutro — seja o autor original ou seja o marido — afinal, não se perde tão facilmente quanto as ilusões de grandeza profissional. 

E assim termina este drama burguês, com as tradutoras a desaparecerem do palco do mercado de trabalho, substituídas por algoritmos que não bebem chá nem fingem erudição – mas que, ao contrário delas, fazem o trabalho de forma rápida, eficaz e sem lamúrias. Este ensaio, inclusive, é a prova da sua monumental inutilidade a partir deste momento, por razões facilmente descortináveis para alguns. Boa sorte, tradutoras! 

O quotidiano do Município de Évora no séc. XIV, por meio de algumas inéditas Leis Municipais

I – Os almocreves (homens que transportavam e comerciavam bens) que trouxessem pescado que o levassem logo ao açougue ou, se o trouxessem de noite, o levassem lá nas primeiras horas da manhã. Os produtos não podiam ser comerciados sem a autorização prévia do almotacé (homem da  Câmara responsável pelo tabelamento de preços e medidas), sob pena de empicotamento (colocar no pelourinho). Os regateiros (vendedores a retalho) deveriam jurar uma vez por mês ao Concelho que não vendiam o pescado por um preço desaguisado, e que não escondiam pescado que  o almocreve lhes dera para vender.

II – Que ninguém atirasse esterco para o muro da Muralha Fernandina, nem coloque fogo às esterqueiras (presume-se ser um fosso), sob pena de 10 libras destinada às obras do Concelho.

III – Que nenhum carniceiro matasse vacas ou bois  senão os que estão no curral do Concelho, salvo se fôr por necessidade individual, tendo de notificar o almotacé para efeito, sem pagar coima por isso. Os carniceiros que trouxessem couro ao açougue deviam tê-los para vender entre as 9h e as 18h. Estavam também proibidos de  vender bois ou vacas doentes ou más. Ademais, que os carniceiros “ponham dous talhos no açougue e dous talhos de carneiro desde o sabbado horas de vespera – 15h – ataa sol posto, e os outros carniceiros cada hum seu talho desde o domingo pola manham atta quinta-feyra saindo  de vespera ao findar”.

IV – Os que vendessem carne nas enxercas que fizessem nelas três ruas: uma para cabras, outra para ovelhas e outra para carneiros. E só podia vender nas enxercas quem tivesse um parceiro no açougue que lhes talhasse as carnes. O Concelho também ordena que os animais vendidos sejam trazidos “com as cabeçaas presas aos corpos e as tenham em elles ataa que dictas carnes sejam vendidas”, salvo a do porco. E se os carniceiros venderem os “quatro dianteiros” do animal antes dos “traseiros”, que as cabeças deles estejam em  um sítio onde todos os comerciantes a pudessem ver. Também ordenam que nenhum carniceiro inche a carne que vende, sob pena de multa.

V – Os fruteiros de Évora deveriam vendê-las segundo a almotaçaria (tabelamento) prevista pelo Concelho. No que toca aos fruteiros de fora,  só podiam vendê-las na Praça da Porta de Alconchel, à excepção dos fruteiros de Montemor, que  podem levar as frutas no dia seguinte ao da chegada à cidade, presumivelmente por virem do lado contrário onde a praça se localiza. Isto não se aplica aos moradores do Concelho,  que podem vender sem almotaçaria (se não as venderem aos regatões) – as nozes e as castanhas não tinham almotaçaria.

VI – Que aqueles que esbalsam as suas talhas (tina onde se pisavam as uvas), que as façam do lado de fora do Castelo, tendo até três dias para as mover para  os montes. O Concelho não aplica esta normativa ao bagaço. Na determinação VIII, as uvas NÃO PODIAM ser vendidas a retalho.

VII – As padeiras deviam cozer e vender o pão de acordo com o peso exigido pelo Concelho (proibiam que se fizesse o que chamavam de “pam menor”)  IX – Que o Rossio de Évora seja limpo de todo o esterco, permitindo-se que se lance o esterco somente “em cima do outeyro da corredoira ou junto das valladas dos farregeaes que juntam com elle”. Na determinação X, não se podia lançar esterco na cerca nova e, segundo a XI,  também não o podiam fazer no corpo de vila. Segundo a XIII, não o podiam fazer mesmo que deixem o esterco em gamelas ou bacios ou jueiras.

XII – Os maçadeiros e gramadeiros da vila deviam levar as arestas do linho (o caule) também para os esterqueiros.

XIV – Que os  vendedores a retalho não revendam produtos de fora desde as 15h de Sábado até às 9h de Terça, salvo se fôrem peles de coelho, couro em cabelo, especiarias, sevo e cera em carriagem (panos não).

XV – O vinho e o azeite também estavam sujeitos ao comércio por medidas  certas, punindo-se a falsificação das quantidades mercadejadas.

XVI – Que no dia 3 de todo e qualquer mês, os mercadores deveriam ter com o afilador do Concelho (que à data era um Esteve Anes ourives) para que este analisasse as medidas das varas e alas dos vários produtos  desde os minerais até aos panos, tendo o comerciante de pagar seis dinheiros ao afilador se a medida não fosse certa. No que toca ao vinho, azeite e mel, deveriam ir ter com o homem responsável pela medição destes produtos em concreto.

XVII – Até 29 de Setembro, dia de São  Miguel, ninguém poderia “trazer per rua lume em testo nem outra cousa descoberta”.

XVIII – Que os produtos da caça sejam vendidos na praça. Os excedentes depois da tarde de mercado poderiam ser vendidos em casa do caçador.

XIX – Que as regateiras não comprem frutas antes  das 9h da manhã; era proibido igualmente vender carnes misturadas. Os porcos não podiam ser trazidos para o Rossio da Cidade.

XX – Que qualquer tripeira ou pescadeira que verter caldo ou água de pescado na porta da Praça de Alconchel, limpe os resíduos que fizer. Na  seguinte determinação, ordena o Concelho que “nom lancem testeiradas de lixo ou dagua” nas praças e ruas públicas.

XXI – O azeite era vendido em duas medidas: em quarteirões ou em quatro dinheiros.

XXII – Que ninguém levasse o gado para fora do termo da Cidade sem  autorização dos Vereadores da Câmara por Alvará do Escrivão da Câmara. E que os carniceiros ou enxerqueiros não comprem gados aos pigureiros ou guardadores sem mandado dos donos dos gados. Na seguinte, é proibido o mesmo às couramas, que precisavam da mesma autorização e do  acordo dos Mesteirais (Oficiais mecânicos) da Cidade, se era mester ou não tal saída.

XXIV – Que ninguém lance água pela janela sem dizer primeiramente três vezes “Água vai”.

XXV – Que nenhuma marceira venda linhas senão as que tenham marca autorizada de chaveira direita  

De um duelo que o Infante D. João de Castro teve com um urso e outro com um porco, na Era de 1375

“El-Rey Dom Fernando era mui querençoso de caça e monte, onde quer que sabia que os havia boõns, filhando em elle grande prazer e desenfadamento; e porque o certificarom que em terra da Beira e per Riba de Côa avia boõns montes d’ursos e porcos em grande avondança, fez-se prestes com toda sua casa e da Rainha e muitos monteiros com sabujos e alãos [raças de cão], e levou caminho d’aquela comarca. E fazendo em eles grande matança, aconteceo huum dia que o Infante se encontrou com huum muy grande urso, e juntou-se tanto a elle pollo ferir amantenente que o urso firmou bem seus pés e levantou os braços por o arrevatar da sela; e o Infante quando esto viu, empicotou-se tanto sobre a sela que foi de todo sobre o arção dianteiro, e o urso tendendo as pontas das mãos po-lo filhar alcançou o arção derradeiro da sela tavarenha, segundo entonces usavam, e arrancou o arção com huã grande aljava da anca do cavalo; e o Infante por todo isto nom o deixou, e assi sem arção e com o cavalo ferido voltou sobr’elle po-llo arremessar, e nunca se dele quitou atá que sobrevierom outros, e lho ajudarom a filhar nas ascumas. Outra vez lhe aqueceo que aprazou hum porco mui grande, o qual achou com gram trabalho, fazendo-o andar longa terra antre dia e noite, de que ficou mui cansado; e depois que o ouve cercado mandou huum seu pajem, que lhe levava a ascuma, que fosse a pressa chamar os de cavallo e os monteiros e toda a vozaria, e que lhe trouxessem dous alãos [cães pretos]; os quaes amava tanto que os lançava de noite consigo na cama, e ele em meio deles: hum avia nome Bravor, que lhe dera seu irmão o Meestre d’Avis, o outro chamavom Rabez, que lhe enviara Fernam Peres d’Andrade, tio de Rui Freire de Galiza. Quando a companha foi toda junta, feze-se muito tarde, porque vinham de longe; e depois que o Infante partio as armadas, ficou ele em huã delas e mandou poer os cães a achar, e postos nom acharom nada porque o porco se levantara entanto e nom estava em aquel logar; e durou isto tam grande spaço que o Infante, enfadado de quebranto, nom se pôde sofrer que nom dormisse. O pajem seu que tinha os alãos, semelhavelmente forçando-o o sono, teve-lhe companha e adormeceu: e ante que adormecesse, porquanto nom sentia vozes de monteiros nem ladridos de cães no monte, cuidou de dormir em seu vagar, e atou as trelas dos alãos huuã na perna e outra d’arredor de si pela cintura. Em este comeos sobreveio o grande porco, seguro e desacompanhado de sabujos e d’alãos, exudrado por a gram calma que fazia, e veo nascer per a bicada de huum monte junto com a armada onde jazia o Infante e seu pajem dormindo. Ora deveis de saber que aquell bom alão de Bravor, comprido d’ardimento e de bondades, segundo sua natureza era assi acostumado que sem trelas aguardava com o rrosto na estribeira quanto o cavalo podesse andar; e porco nem urso, nem outro alimária com que se encontrasse nom avia de travar em ela, a menos de lho mandarem fazer. E quando o porco assi nasceo, o outro alão Rabez deu huã arrancada, e o Bravor teve-se quedo [parado]; e quando Rabez viu que sse o porco saía e que o nom desatrelavom, fez huã gramde arrancada per hum mesto mato, levando após si o pajem [a dormir] e o outro alão. Ao som disto acordou o Infante, e quando vio o moço e os alãos ir desta guisa, e o porco que se poinha a salvo, ouve tam grande sanha que maior ser nom podia, e foi-se rijo com huum cutelo de caça fora da bainha e cortou as trelas que iam atadas no pajem. Os alãos, com as trelas cortas, forom filhar o porco em huum espesso arvoredo, e chegando o Infante a ele, o porco se queria despedir dos alãos, que eram empeçados em huãs curtas carvalheiras; e em saindo-se o porco, nom querendo aguardar de justa, o Infante o remessou; e entom foi feita a mais formosa azcumada de seu braço que até ali fôra vista nem ouvida antre monteiros, porque as cutelas da ascuma entrarom pelos polpões da coxa e cortarom os ossos e as juntas e sairom as cutelas com toda a asta pello conto da ascuma da outra parte da caluga da espalda. Muitas boas andanças, e delas contrairas, lhe aqueecerom em seus montes que seriam longas de contar, de que nom curamos fazer mençom. E assi como era gramde monteiro, desta guisa de todas maneiras de aves, assi d’açores, como falcões e gaviães, galgos de lebres e raposas e podengos de mostra; e el mesmo trabalhava com eles a lhes tirar, em tanto que todos aviam por muito o trabalho e afão que em semelhantes feitos levava”.

 – Chancelaria de D. Fernando, de Fernão Lopes, cap. XCIX.

O que diz Kanye

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A reputação do judeu como manhoso, ladrão e, principalmente, usurário, é uma reputação lendária que vem já desde os relatos bíblicos. Estas características são, como todas as descrições genéricas de grupos sociais, largamente exageradas, influenciadas por tensões político sociais, mas nunca são inteiramente desprovidas de fundamento histórico factual, mesmo que muito remoto.

Podemos tentar aqui fazer um resumo muito sintético das bases históricas para esta reputação. Em primeiro lugar, o próprio ofício de mercador tem, na tradição cristã, mau nome. Nos textos sagrados, a figura é frequentemente vista como veiculador de falhas morais relacionadas com o dinheiro. A sociedade judaica em específico foi-se desenvolvimento par a par com a complexidade das trocas comerciais de grande escala, devido tanto à sua ética religiosa com forte papel na regulação dos negócios, como também pelo lugar geográfico de grande importância nas rotas económicas do período antigo. Já na idade média europeia, a diáspora semita sofreu a existência de restrições à actividade comercial. Isto empurrou parte dessa população mais financeiramente robusta para a única actividade economicamente viável disponível: emprestar dinheiro.

Todas estas circunstâncias favoreceram a proximidade da cultura e da ética judaicas com a complexidade que exigem sistemas de dependência financeira e económica de grande escala. Por isso frequentemente o judeu é o “burguês” por excelência: ele prospera na grande cidade, nas metrópoles, nos lugares de vanguarda da sociedade civilizada enquanto gestor e intermediário das grandes trocas de recursos e de ideias aí florescentes.

Mas falemos do caso específico do cantor norte-americano Kanye West que, numa das suas fascinantes diatribes, já pouco ou nada inéditas, emitiu qualificativos complexos e por vezes até contraditórios quanto a essa população. Kanye afirma, resumidamente, que foi roubado, censurado e metaforicamente escravizado por judeus. Afirma também, aqui em especulações mais abstractas, que essa elite judaica, traumatizada pelo holocausto, manipula os homens brancos contra os negros e vice-versa, protegendo-se a si mesma.

Estes últimos pontos são mais difíceis de provar. Mas os primeiros são mais rasteáveis. Fundamentalmente, a tese que Kanye West tem adiantado nos últimos dias quanto aos “judeus“ como grupo homogéneo advém da sua experiência no mundo do entretenimento norte-americano, onde, por contingência histórica e por mérito próprio, alguma elite judaica acumulou não só lugares de poder e influência significativos como também aguçou o talento de gestão artística que esse meio, o mais exigente, competitivo e lucrativo do mundo, requer.

O que West está a dizer é que ao longo de sua carreira — que, em grande parte, é equivalente a dizer ao longo da sua vida — as personagens intermediárias de gestão de recursos, habituadas e aliás obrigadas a forçarem um equilíbrio entre liberdade de expressão artística e viabilidade comercial/moral pública foram, em grande parte, judeus. É muito provavelmente isso que ele está a dizer.

Assim, como guardiões da moral pública, não necessariamente através de um cálculo meramente moral por si só mas através da navegação da viabilidade comercial que é, no fundo, um tomar de pulso dessa moral pública, os judeus figuram nessa maneira como os intermediários censórios entre o artista e o público, tanto na experiência de West como na experiência de inúmeros profissionais no mundo do entretenimento norte-americano, de Los Angeles a Nova Iorque.

Mas estas acusações, que destacam apenas o papel censório e não o papel divulgador, são injustas para os judeus, pois os mesmos, noutras e muitas ocasiões, favoreceram o desafio das convenções, a redefinição dos códigos pelos quais os artistas se regiam, com isso ajudando a transformar a moral pública por avenidas inéditas.

Podemos dar aqui alguns exemplos muito breves mas definitivos. O papel que alguns compositores tiveram não só na divulgação da música negra mas também na sua adaptação a formatos palatáveis para o grande público (Leonard Bernstein, na Broadway; os irmãos Chess, nos blues); a comédia observacional aguçada e astuta (Mel Brooks, aliás notável produtor cinematográfico de expressões extra comédia; Jerry Seinfeld; Woody Allen); a divulgação das artes (o patronato monumental de figura de vanguarda feito por Peggy Gughenheim ou Gertrude Stein).

Todas estas pessoas, e muitas outras, eram judeus. Notavelmente muitas foram intermediários — como, de certo modo, todo o artista é também um intermediário, um mercador de influências, etc. — que ajudaram a trazer expressões de vanguarda ao grande público. Trouxeram-nas por vezes truncadas, outras vezes inteiras. Mas trouxeram-nas.

Nos tempos actuais, e, aliás, não por culpa própria nem da classe gestora nem da elite judaica, tempos estes em que a indústria do entretenimento norte-americana tem já uma bagagem monumental de tradição e cultura, o aspecto mediador surgirá, eventualmente, aos olhos do artista mais inocente, como uma incompreensível trama censória de origens dificilmente determináveis, e facilmente atribuível a um poder sinistro. Se os primeiros empresários que trouxeram o blues para o grande público poderiam ser vistos como libertadores, as mesmas figuras que hoje participam no empresariado do mundo do rap e da música popular são vistas como mercadores usurários e censórios: perdeu-se a memória da classe intermediária como poder moderador fundamental, e tende-se a achar que as coisas acontecem sozinhas.

É deste modo que West terá razão, porém, no caso da sua experiência pessoal — no facto de ser objectivamente censurado, controlado e eventualmente traído pelos gestores não só da sua carreira mas do mundo do entretenimento e geral — partindo do princípio que não estará inteiramente a mentir nem inteiramente a ser somente preconceituoso. E esta é uma experiência que pode, em grande medida, corresponder factualmente à contemporaneidade do entretenimento norte-americano, e ser historicamente contigente. Mesmo assim, é importante sublinhar nesse aspecto como os judeus não serão o poder agencial principal dessa censura mas simplesmente — como tantas vezes são — os intermediários de um diálogo, nestes tempos difíceis, entre liberdade expressão artística ou, mais sucintamente, liberdade de expressão por si só, e discurso público.

É um tempo que se manifesta difícil devido a circunstâncias históricas não inteiramente claras e provavelmente não atribuíveis por inteiro nem a nenhuma etnia em específico nem sequer a nenhuma classe profissional em específico, duas categorias que claramente são confundidas, não por culpa própria porque as coisas são mesmo assim, no discurso do West.

Ouvindo-o e lendo-o correctamente — sendo que aliás as suas expressões totalmente desgarradas, sem filtros, que passam pelo fantástico teste da autenticidade pois muitas vezes se contradizem a si mesmas — conseguimos iniciar uma conversa profícua quanto ao assunto “os judeus” e o papel específico que têm na definição da moral pública norte-americana através do seu estatuto meritório absolutamente fundamental no mundo do entretenimento.

Crítica: Sinais de Fogo, Jorge de Sena, 1979

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Fenomenologia e Existencialismo em Sinais de Fogo

Romance de formação artística, inacabado e vagamente autobiográfico, Sinais de Fogo não é um grande romance nem retrata a formação de um grande artista. Um jovem de classe média Lisboeta, recém-chegado à faculdade, passa o verão na Figueira, albergando-se em casa do tio. Em transição da adolescência para a vida adulta, verá a sua indiferente passividade perante o mundo transformar-se numa participação, acompanhada por insistentes monólogos de auto-reflexão que culminarão na visita da poesia. A chegada à Figueira coincide com o eclodir da guerra civil espanhola, um evento marcante também para o autor, que irá transformar a vila com a presença de inúmeros espanhóis, dois deles refugiados em casa do tio. A guerra terá, assim, dois paralelos: um, na poluída teia de dependências com que os amigos e o seu interesse amoroso, Mercedes, se envolverão numa planeada fuga dos espanhóis, e outro no seu interior fragmentado, onde procura uma identificação entre predeterminação e autonomia, tal como em Espanha. Da descoberta das várias pátrias dentro da pátria, das várias esferas da vida, longe da unidade perdida da infância, virá a procura da identidade, culminando com a implantação do Estado Novo em Portugal e com a aparição de uma personalidade madura, marcada e participativa, ambas trazendo a paz e a unidade à fragmentação.

A Figueira é um lugar de passagem, viciosa e excessiva mas simultaneamente provinciana como qualquer terra portuguesa. Nela encontraremos o simbolismo da praia como espaço de transição, de parto, sujidade e sangue, para o mar que é sempre a alteridade, e a árvore no quintal dos tios, frequente nas sequências oníricas, como lugar de fuga e de vigia. Neste cenário, descobrirá um mundo fragmentado entre o público, o semi-público e o privado, numa rede de comprometimentos sociais em redor da fuga e de Mercedes, onde a sua multiplicação interior se perderá. O retrato social é secundário, subordinado à interrogação filosófica, e o romance não é ideólogo, já que o protagonista não escolhe lados. A ausência de uma longa viagem, uma expansão do espaço, distingue-o também do romance de formação clássico. Não há uma clara figura de mentor, nem para o despertar artístico, onde apenas recebe a visita das musas, nem para o despertar erótico, onde o libertino Rodrigues, bisexual e exibicionista, escravo do sensitivo, não o poderia ser, e apenas poderá figurar-se ligeiramente no tio, um cínico para quem a vida é uma grande pouca-vergonha, um guia para a maturidade social. Mas viverá, com todas as personagens do romance, relações duais intensas, próprias de quem busca a sua definição como sujeito contra o mundo, o outro. A sua procura como ser autónomo face ao determinismo e a descrença nas convenções ilustrará o traço fundamental de um romance de formação moderno. É a descoberta erótico-emocional no amor, a descoberta do eu no mundo e a consequente decorrência da vocação poética que irá constituir a Bildung do protagonista, e não um mero despertar cívico que tivesse como fim o melhoramento das instituições, das tradições e da sociedade. A desconfiança e o alheamento face àquelas, com que o protagonista inicia e conclui a sua Bildung, constitui um traço modernista do primado do eu em conflito não apenas com o mundo mas com a sua impressão e sensação de vazio perante o mundo, aproximando-se do existencialismo. Será a experiência estética a surgir como fim da vivência cívica, e não o contrário. Ainda assim, bastaria a passagem da ignorância para o conhecimento de si mesmo e da passividade para a acção, ainda que imersa num relativismo modernista, para permitir a sua classificação como romance de formação.

A sua Bildung não é ilustrada por acções mas pelo recurso ao monólogo, tantas vezes aborrecido e previsível, ruminando interrogações existencialistas que alternam entre o

João Luís Almeida

compenetrado e o nebuloso, uma oscilação que pode ser intencional ou provir da debilidade do autor. Ilustram uma construção auto-reflexiva da personalidade, onde o eu não é uma substância mas uma continuidade, resultando numa transformação interior visível a partir da segunda metade do romance. Alicerçados na procura da sua definição como ser autónomo, os monólogos abordarão os temas da pureza e da impureza, o determinismo, a síntese dos vários mundos que habita. Ao mesmo tempo, à cogitação juntar-se-á a dor da metamorfose e do nascimento, resultando em constantes inconstâncias de espírito. Sente saudades da vida programática de Lisboa, da infância. É assaltado por emoções vagas mas que aparentam intensidade, absolutizações do momento onde reina o sensitivo, como ensaios de emoções futuras. Surgem os impulsos animais: amar, possuir, matar. Imagina constantemente alegorias: a vida como sexo, como guerra, como um pão que se engole, como uma retrete, pretendendo encontrar a alegoria-mestre, sem o conseguir. A sua urgência não procura só excesso, mas também o moderado: mas mesmo aí a agonia da transformação é constante, originando ocasionais ataques de choro, como um recém-nascido, involuntários e alheios. Alternando a sua presença absoluta em várias esferas, sente-se mergulhado num delírio, que nada mais é do que a imprevisibilidade da vida a que se habitua como participante. Assim, incapaz de se realizar na totalidade que procura, nutre uma profunda indiferença perante o mundo, onde duvida que as coisas verdadeiramente o marquem. A sensação de tudo estar cruzado consigo é favorecida pelo provincianismo do meio, e esses pequenos mundos são como pequenos eus, ensaios de um eu futuro. Desejando a sua própria pureza, toma banhos prolongados, e cogita sobre a mistura turva entre beleza e depravação, amor e carne. Recorre à imagem da antropofagia, onde não se possui verdadeiramente ninguém e todos se possuem a todos, como se fossem personagens inventando-se umas às outras. Procura assim um equilíbrio entre predestinação e autonomia, encontrando frequentemente o relativismo moral em que a modernidade naufraga. Mas os acontecimentos, a violência da participação no mundo, irão forçar as fronteiras entre essas esferas, fazendo-o perder todas as purezas da infância e ganhando a pureza essencial. Assim, emergirá de uma violência, tal como a civilização, como mais tarde notará.

Este despertar filosófico será acompanhado por um importante despertar erótico e emocional. O seu erotismo, em Lisboa, não era inocente, mas imaturo, vivido com criadas e prostitutas, numa solitária auto-satisfação ou brincadeira. Inicialmente, na Figueira, continuará com a mesma vivência, passando por uma uma orgia grotesca com os amigos, descrita hiperbolicamente. Mas, com Mercedes, emergirá um homem novo após cada mergulho, na aprendizagem da intimidade e do abandono. Esta é uma das personagens mais interessantes do romance, perfeita para o seu papel: serena por fora, perdida por dentro, tem o mesmo orgulho na paixão e na razão. O intenso erotismo que ambos vivem, na profusa fusão dos corpos, ultrapassando todas as repugnâncias, traz-lhe a descoberta do amor entre o baixo e o sublime. Ao início, a sua incerteza constante levá-lo-á a duvidar sobre a natureza do amor, vendo-o como uma ficção subordinada ao determinismo. Mas descobre a posse de si mesmo, mais do que a posse do objecto amante, como ensaio de uma alteridade e de uma liberdade maior, suspenso momentaneamente fora da vida, absolutizando um dos seus pequenos mundos: não lhe deixa nada com que a pudesse amar, conforme reconhecerá, pois tornou o corpo dela na encarnação viva do seu próprio amor. Mais tarde, em Lisboa, fecunda o corpo imaginário de Mercedes, na praia, como que nascendo de novo, e, logo de seguida, visitando uma prostituta, sente que o desejo já não chega ao sexo, tendo-se abstraído. Encontra assim o amor enquanto contradição, procura e destruição de uma imagem, numa dependência entre sujeito e objecto, constituindo uma fenomenologia.

Mas é para o despertar artístico que se encaminharão todos os eventos e é onde desaguará todo o conteúdo dos monólogos. A Erziehung é desvalorizada, pois a escola apenas o dotou de formação profissional: o destino do seu amadurecimento será mesmo a vocação poética. Sem experiência literária, irá produzir logo à partida, inverosimilmente, versos com a qualidade de um Jorge de Sena, abordando o tema da transição e da prisão transparente em que se sente viver. O que escreve é de tradição moderna, não clássica, e o impulso inicial não é racional mas inspirativo, onde do mesmo vago som poético emergirão palavras mutantes. Mas este impulso amadurecerá para ser conjugado tanto sensivelmente como formalmente, conduzido pela razão a uma realização no tempo e no espaço, evoluindo da inspiração involuntária para o domínio da vontade. Torna-se, assim, não apenas a voz de uma musa mas a descoberta de uma imanência já entrevista nos monólogos, numa aprendizagem progressiva compatível com a Bildung. Descobre nessa voz uma vida fora da vida, fundando a realidade na sua consciência, e não nos sentidos. Daí decorrerá um utilitarismo da sua literatura, e consequentemente da sua formação interior, que é, em primeiro lugar, fenomenológico: o aparecimento da sua voz poética possibilitará uma transformação do mundo que é fundada no eu, equivalendo, tal como para Sena, conhecer a transformar. Herdada de Kant e principalmente de Husserl, a fenomenologia de Sena opõe-se ao realismo estrito e materialista: para o autor, a arte, mesmo que testemunhal, opera sempre nessa dialética fenomenológica, e assim é sempre transformadora da realidade, já que forma e modifica as nossas impressões de um mundo que só existe através delas. Paradoxalmente, embora se confesse céptico quanto a todos os sistemas cognitivos, Sena encontrará nesse realismo fenomenológico um fiável equilíbrio entre o mundo exterior e liberdade interior, tal como o seu protagonista.

Ocorre, assim, um progressivo despertar da solidão e do alheamento onde o objectivo e o subjectivo se encontravam distantes para um alheamento fenomenológico, tendente ao existencialismo, onde aqueles são interdependentes. Tomando consciência desta mudança, sentir-se-à também mais comprometido, descobrindo o irreversível do real, do passado, da morte, do acto, onde o que passa é que fica inscrito, e não apenas a consciência acrítica da infância. Na primeira metade do romance, pouco evolui: ensaia monólogos tímidos e confusos que se sucedem aos acontecimentos. Mas na segunda metade, adensa-se: descobre a sua vida como única e irrepetível, mesmo dentro da causalidade, o amor erótico como abandono e realização, e a participação violenta no mundo, o comprometimento, o eu como acto e não somente como sujeito ou substância. De regresso a Lisboa, após dormir dois dias de um sono febril e uterino, acorda outro, resignado com o determinismo e mais próximo da sua voz poética, a princípio estrangeira, depois equivalente à sua própria voz. Mas a indiferença, a náusea, solidificou-se: se a intenção, ao início, é apanhar o comboio da vida e não ficar a ver navios, é a ver navios que termina. Emergirá para uma Lisboa onde se instala um Estado Novo paralelo ao seu, pacificando a fragmentação e semeando um cenário fantasmagórico de desconfiança e de indiferença, onde a verdadeira surpresa já não será possível. Apesar disso, esta nova personalidade já não corresponderá à acefalia da infância ou à agonia da transformação. Assim, na resolução da fronteira entre o eu e o mundo, emergiu por duas vias: se com os outros a experiência foi sempre de sujidade, através de redes de dependências infinitas onde a unidade mínima é indeterminável, no amor viverá a experiência dual de imediata transcendência e absolutização física e moral. Em ambas o eu se dissolve, perdendo todas as purezas para ganhar a única pureza absoluta, regressando à descoberta da sua voz interior, onde ultrapassa uma fronteira cognitiva e conhece a experiência pré-lógica, descobrindo a sua voz poética como processo em construção e encarnando numa maturidade em que o mundo é fenomenologicamente dependente do seu olhar.

Meteorologia e Climatologia São a Mesma Coisa

Nos debates sobre mudanças climáticas, é comum ouvir alguém dizer que um dia frio fora do normal ou uma tempestade inesperada são provas de que o aquecimento global não existe. Por um lado, pode parecer que este tipo de argumento reflecte uma confusão talvez propositada entre meteorologia e climatologia, que se pode supor incentivada por quem deseja minimizar a crise climática e  para desacreditar evidências científicas, como se o facto de um meteorologista errar uma previsão do tempo invalidasse toda a compreensão sobre o clima do planeta. 

Mas, por outro lado, o ponto mais relevante e importante que queremos aqui destacar é sobre a distinção estanque entre estas áreas da ciência é muitas vezes usada como uma espécie de esperteza saloia da parte dos adeptos da religião do catastrofismo climático. Na verdade, alguém que aponta como uma previsão meteorológica está errada faz exactamente o mesmo que alguém que aponte como uma previsão de climatologia está errada: ambos estes ramos pertencem ao mesmo campo, a ciência do estudo dos fenómenos atmosféricos.

Tal como uma pessoa comum sabe que há dias mais frios e dias mais quentes e que, por vezes, estes se sucedem concomitantemente sem que isso represente nenhum tipo de padrão metafísico, sabe também e de igual modo que existem invernos mais quentes ou menos quentes, e que isso não representa necessariamente nenhuma teleologia apocalíptica. Este é o ponto fundamental: uma pessoa comum sabe perfeitamente que o tempo e o clima são áreas que pertencem à mesma coisa, e sabe-o melhor, aparentemente, do que muitos dos “espertos” adeptos do cultismo climático, que apresentam a suposta falha nessa distinção como prova de ignorância do vulgo. Mas o vulgo tem razão: meteorologia e climatologia são uma e a mesma coisa.

A sua diferença, entre meteorologia e climatologia, assim, não reside no objeto de estudo, mas sim na escala temporal em que se analisam os fenómenos atmosféricos. Ambas fazem parte da mesma ciência e utilizam métodos semelhantes para compreender a atmosfera e prever o seu comportamento.

Vejamos o caso da meteorologia. É a ciência que estuda os processos físicos e dinâmicos da atmosfera, incluindo a temperatura, pressão atmosférica, humidade e vento, bem como a interação desses elementos com a superfície terrestre. O seu objetivo principal é prever o estado do tempo num curto período de tempo, geralmente de horas a dias. Para isso, os meteorologistas utilizam modelos matemáticos baseados nas equações da dinâmica dos fluidos e termodinâmica, bem como dados de satélites, radares e estações meteorológicas. Estes modelos permitem compreender e antecipar fenómenos atmosféricos como tempestades, frentes frias, ondas de calor e furacões.

A climatologia, por sua vez, baseia-se nas mesmas variáveis atmosféricas estudadas pela meteorologia, mas analisadas a uma escala temporal maior. A climatologia examina padrões médios de temperatura, precipitação, ventos e outras condições atmosféricas ao longo de décadas, séculos ou até milénios. O seu objetivo é identificar tendências e compreender as variações climáticas naturais e antropogénicas. Para tal, os climatologistas utilizam séries temporais extensas, dados paleoclimáticos (provenientes de anéis de árvores, núcleos de gelo e sedimentos oceânicos) e modelos climáticos globais que simulam a evolução da atmosfera ao longo do tempo.

A grande diferença entre meteorologia e climatologia reside, portanto, na escala temporal da análise e na aplicação prática dos seus estudos. Enquanto a meteorologia é fundamental para a previsão do tempo e mitigação de desastres naturais a curto prazo, a climatologia permite compreender mudanças de longo prazo e prever possíveis cenários futuros relacionados com alterações climáticas. Outro factor essencial que demonstra a ligação entre as duas áreas é o facto de os modelos climáticos utilizarem os mesmos princípios físicos e equações fundamentais da meteorologia. Ambos os campos dependem de variáveis atmosféricas como temperatura, pressão e humidade para elaborar previsões e análises, sendo que a única diferença real é o horizonte temporal da observação e da previsão.

Assim, meteorologia e climatologia são essencialmente a mesma ciência aplicada a diferentes escalas temporais. Ambas estudam os mesmos processos atmosféricos e utilizam métodos semelhantes para compreendê-los. A distinção entre elas é, portanto, mais uma questão de abordagem do que de conteúdo, reforçando a ideia de que são duas faces da mesma moeda. É bem possível que negligenciar esta interligação e tratar as duas disciplinas como opostas apenas contribui para desinformação e confusão, enfraquecendo o entendimento científico necessário para enfrentar os desafios climáticos do presente e do futuro.

Crítica: duas obras de Eduardo Marçal Grilo

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«Salazar e a Educação no Estado Novo» (2022, 230 p.) e «Educação e Liberdade» (2024, 276 p.) de Eduardo Marçal Grilo, Clube do Autor. ISBN:978-989-724-660-9 e 978-989-724-768-2, respetivamente. Por José Braga, investigador do Centro Interuniversitário de História da Ciência e Tecnologia — Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

As declarações de memorialistas (diários, memórias, declarações orais ou entrevistas) só podem ser aceites como verdades após investigação suplementar. Devem ser avaliadas de forma crítica e abordadas com ceticismo, dado que pode haver afirmações inconsistentes e a tentativa de fixar versões da História. Além disso, um ator ao abordar as suas próprias ações nem sempre é fidedigno devido a esquecimento ou tendência para racionalizar à luz de eventos posteriores.

Sabendo isso, Eduardo Marçal Grilo (n. 1942), engenheiro mecânico, licenciado e Doutor pelo Instituto Superior Técnico, com mestrado feito no Imperial College da Universidade de Londres, publicou as suas memórias relativas a educação nestes dois volumes. São mais relevantes por se tratar de alguém que foi professor e Diretor Geral do Ensino Superior e Ministro da Educação. Não se trata de um texto memorialista típico, nem de história da educação apesar de existir uma base de investigação e de recordações. São o que se pode qualificar de «memórias pesquisadas».

«Salazar e a Educação no Estado Novo» abrange os consulados de António Carneiro Pacheco (que ocupou a pasta de 1936 a 1940), autor da Lei de Bases da Educação do Regime; Mário Figueiredo (com a tutela de 1940 a 1944) e Fernando Pires de Lima (responsável entre 1947 e 1955), que nos seus mandatos tiveram sobretudo preocupação de inculcar a ideologia do Estado Novo na população estudantil e no professorado, permitindo a sua consolidação e desenvolvimento. É esse o contexto do afastamento de 42 professores do ensino superior durante o Estado Novo (Anexo III do livro, pp. 219-221).

Com Francisco Leite Pinto (Ministro da Educação de 1955 a 1961) e Inocência Galvão Teles (entre 1962 e 1968) o Regime adota uma visão pragmática da relação entre educação e formação de recursos humanos para a Economia. Leite Pinto foi responsável pelo Decreto-Lei 40 900, de 1956, que, por pretender instaurar o controlo das direções das Associações Académicas (conjugado com a Guerra Colonial e o receio pelas oportunidades profissionais), originará diversas crises estudantis, nomeadamente a de 1962 (pp. 172-175) que o Autor viveu como estudante no Instituto Superior Técnico (pp. 188-192). É retratado assim, do ensino primário ao doutoramento, um ensino (superior) elitista e as suas convulsões.

«Educação e Liberdade» é um trabalho mais intimista e mais rico em informações. Marçal Grilo começa por referir o papel de Marcello Caetano na Crise estudantil de 1962 para explicar o início do consulado de José Veiga Simão (Ministro da Educação de 1970 a 1974). Debruça-se sobre a receção das ideias deste nas Universidades, nomeadamente a diversificação do ensino pós-secundário e a expansão da rede de ensino superior, quando só existiam 4 universidades: Lisboa, Porto Coimbra e Instituto Superior Técnico e a Universidade Católica (com um estatuto especial, ao abrigo da Concordata).

Veiga Simão elaborou as «Linhas Gerais da Reforma do Ensino Superior» (1971), sob influência britânica, criando os futuros Politécnicos (Vila Real e Covilhã foram os primeiros), a Universidade de Aveiro, a Universidade do Minho, a Universidade Nova de Lisboa e o Instituto Universitário de Évora. Também cria «vigilantes» políticos nas universidades (os «gorilas»), o que o Autor não esquece. Apoiado pelo Presidente do Conselho de Ministros, para o Autor, a liberalização do Regime tinha na Educação o seu motor. Marçal Grilo, com base numa investigação pessoal, aborda as relações entre Marcello Caetano e Veiga Simão, que ameaçou demitir-se caso o Instituto Universitário de Évora não fosse criado (p. 103).

Este Ministro da Educação teve uma visão estruturada e de conjunto do sistema educativo (algo raro) e procurou também não confrontar universidades, criando novas relações e equilíbrios institucionais, não pondo em causa «elites intelectuais», antes ampliando-as e diversificando-as.

Com o Período Revolucionário Em Curso, o Autor recorda os saneamentos (Anexo 2, pp. 259-263) em que 54 docentes foram afastados. Retrata a anarquia no ensino: «Na área da educação, este processo revolucionário teve as maiores consequências tanto no ensino superior como nas escolas dos ensinos básico e secundário. A indisciplina instalou-se em praticamente todas as escolas e a falta de autoridade era evidente; ninguém respeitava as hierarquias existentes, e os revolucionários tomaram conta dos órgãos de gestão, introduzindo um sem-número de práticas improvisadas e sem racionalidade, denominadas como «gestão democrática» (p. 137). Foi uma fase difícil para o nosso país, com grandes convulsões políticas.

Ainda assim, procedeu-se à expansão da rede de escolas de ensino secundário, criando mais de 100 estabelecimentos desse nível, difundindo-o geograficamente, mas diminuindo a qualidade da formação dos professores e alunos e extinguindo o ensino técnico (institutos comerciais, industriais e escolas de regentes agrícolas), privando o país, por décadas, de mão-de-obra com qualificação média, essencial para diversas atividades económicas, o que também explica a dificuldade em atrair investimento estrangeiro.

Marçal Grilo descreve igualmente o mandato de Mário Sottomayor Cardia (Ministro da Educação entre 1976 e 1978), foi Diretor Geral do Ensino Superior a seu pedido. Neste, procurou-se a despartidirização das estruturas de ensino superior, a criação das Comissões interuniversitárias (para analisar as estruturas curriculares e as habilitações docentes); abordaram-se questões relativas ao ensino da Medicina (destacando-se a importância de Jaime Celestino da Costa) e a criação da Universidade Nova de Lisboa, organizada de forma interdepartamental (e funcionando assim até 1977), para fomentar a interdisciplinaridade, num modelo das universidades anglo-saxónicas, apadrinhada por Veiga Simão.

O Autor vivia entre a Academia Militar, o Instituto Superior Técnico e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, tendo, portanto, uma observação da sociedade da época a partir de vários ângulos. Lembremo-nos que um dos resultados da anarquia durante o PREC, foram as passagens administrativas, o «passar sem saber», a negação daquilo que deve ser a Educação. Todavia, é por essa época que nasce o Serviço Cívico. Rapidamente abandonado por razões políticas, equivaleria ao que é hoje o gap year em alguns meios socioeconómicos: permite conhecer outras realidades, o alargar de horizontes, a inserção na vida adulta e um contributo para a Sociedade, retribuindo a juventude a formação recebida gratuitamente.

Estes dois livros completam-se, devendo ser lidos conhecendo a admiração de Marçal Grilo por Veiga Simão e a pertença à sua família política. Além disso, existem falhas na revisão do livro que desmerecem o Autor. «Memórias pesquisadas», escritas por um observador atento, têm valor pelas recordações de personalidades (o segundo volume possui um útil índice onomástico a consultar) e por testemunharem a importância da criação de Escolas Superiores de Educação e Institutos Politécnicos e universidades recentes, o seu papel para o desenvolvimento regional e a democratização social e espacial da educação. Podem ser lidos com proveito por qualquer pessoa que se interesse por educação, especialmente estudantes e professores de qualquer grau de ensino, pois devemos conhecer o passado para compreender o presente e planear o futuro.

Uma Presidência da Cristina

Na continuação da série de putativos candidatos à presidência da república portuguesa em 2025, temos, esta semana, Cristina Ferreira. A mulher que conquistou o entretenimento, a moda e até a literatura de autoajuda com títulos como “Pra Cima de P@ta”, pode um dia ser candidata a Belém, e ganhar!

A mim não me choca nada. Ela de facto tem essa capacidade, a de se enfiar em projetos para vencer. É uma Queen. Ainda assim não sou fã do estilo, mas compreendo que ela sabe mexer com as massas como poucos. Mas vá: vamos lá imaginar como seria a Cristina, “Pra Cima de P@ta”, Presidente da República.

O Conselho de Estado daria de imediato lugar ao Consultório de Estado, com a seguinte composição:

Manuel Luís Goucha

Conselheiro para a Ética e Decoração de Salões Presidenciais. A sua principal função será garantir que cada intervenção pública da Presidente é feita num cenário elegante, com um tapete persa e um jarro de flores importadas diretamente de Versalhes.

Nos tempos livres, ensinará os portugueses a como parecer rico sem precisar de ter dinheiro.

Cláudio Ramos 

Conselheiro para os Assuntos da Comédia Involuntária. Terá a responsabilidade de converter cada crise nacional numa boa novela mexicana.

Quando a dívida pública disparar, fará um especial de três horas sobre como os juros afetam os signos do zodíaco.

Maya

Conselheira para as Relações Internacionais e Cartomancia Governativa. Nenhum decreto presidencial será assinado sem antes ser confirmado pelo veredicto dos búzios.

Maria Leal

Conselheira para a Cultura e Património Sonoro Nacional. As sessões do Consultório de Estado começarão sempre com o hino nacional regravado em estilo reggaeton, cantado pela própria em playback, com direito a dança do ventre.

José Castelo Branco

Conselheiro para a Modernização e Etiqueta Presidencial. O único que poderá dizer à Presidente “Oh querida, essa escolha de outfit para o discurso do 10 de Junho é um atentado à pátria!”

Trabalhará no projeto de trazer de volta a monarquia, desde que ele seja o rei, ou a rainha, nem sei….

António Raminhos 

Conselheiro para a Justiça e Comédia JudicialTransformará a PGR num clube de stand-up onde os processos judiciais se resolvem com roasts em vez de sentenças.

Toy

Conselheiro para a Educação e Formação Académica de gente que não quer aprender a ler e escrever. O currículo escolar será reformulado para incluir aulas de “Como engatar alguém no Facebook sem parecer um psicopata” e “Matemática Financeira para saber quanto gastar minis e couratos sem ficar liso antes do fim do mês”.

Eis então o COnsultório de Estado (ex-Conselho de Estado). Agora sim, temos um fórum onte se exploram os grandes problemas do povo português. Enquanto os antigos Presidentes tinham que lidar com coisas chatas como crises económicas, corrupção e défices estruturais, Cristina trouxe uma abordagem inovadora. Tudo pode ser resolvido com uma boa conversa e um patrocinador forte.

Assim, o novo Consultório de Estado não se reúne no Palácio de Belém, mas sim num cenário da TVI especialmente desenhado para o efeito, com sofás cor-de-rosa, iluminação de gala e um público pago para aplaudir em momentos estratégicos.

O primeiro tema em debate?  O óbvio: bufas. Posso aliás aqui antever com facilidade…..”A flatulência é um problema nacional!”, exclama Cristina, enquanto Cláudio Ramos abanava a cabeça em sinal de concordância. “O povo tem medo de falar sobre isto, mas é uma questão de saúde pública. Portugal está a reter gases e isso está a prejudicar a produtividade do país!” Será então aprovado o primeiro decreto presidencial da era Cristina. Um subsídio especial para todos os portugueses que sofrem de flatulência crónica, com descontos no supermercado em feijão e couves. Parece-me uma ótima iniciativa.

A política externa também seria revolucionada. Cristina implementaria a diplomacia do bem-estar, onde as cimeiras internacionais passariam a ser substituídas por sessões de coaching. Não sei se seria do agrado da UE, mas a Cristina, com aquele jeitinho dela, a oferecer à  Ursula von der Leyen um pijama acetinado cor-de-rosa, com a inscrição “Boss Lady”, acompanhada de 10 dl do famoso perfume Pypi, estou certo que nos garantia a  aprovação imediata dos fundos europeus.

E acho que seria muito por aqui. Se isto te parece improvável, olha bem para o estado da política nacional, e após reflexão, talvez não aches uma presidência como esta da Cristina assim tão estranha!

O Solstício de Dezembro: o Dia Mais Curto do Ano no Hemisfério Norte

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. O dia mais curto do ano no Hemisfério Norte ocorre durante o solstício de Dezembro, um fenómeno astronómico que acontece entre os dias 20 e 22 de Dezembro, conforme o calendário gregoriano. Em 2024, o solstício foi registado no dia 21 de Dezembro, às 09:21 (hora de Lisboa) e 10:21 (hora de Madrid). Este evento marca o início do Inverno no Hemisfério Norte e do Verão no Hemisfério Sul.

© IPR – Instituto Português de Relojoaria

O solstício de Dezembro corresponde ao momento em que o Sol atinge a sua menor declinação em relação ao Equador Celeste no Hemisfério Norte, resultando no dia com menos horas de luz solar e na noite mais longa do ano.

O que é o solstício?

A palavra “solstício” deriva do latim solstitium, formada por solis (Sol) e sistere (parar), referindo-se ao aparente “estacionar” do Sol no céu. Durante este fenómeno, a posição do Sol ao nascer e ao pôr-do-sol parece permanecer constante, marcando uma inversão no movimento aparente da sua trajetória.

Este fenómeno deve-se à inclinação do eixo da Terra (aproximadamente 23,5 graus em relação ao plano orbital), que faz com que os raios solares incidam de forma desigual sobre as diferentes regiões do planeta ao longo do ano.

Características do solstício de Dezembro no Hemisfério Norte

  1. Dia mais curto do ano: O solstício de Dezembro traz o menor número de horas de luz diurna, que varia conforme a latitude. Quanto mais a norte se estiver, mais curto será o dia e mais longa a noite.
  2. Altura mínima do Sol no céu: Ao meio-dia solar, o Sol atinge a sua posição mais baixa no horizonte em todo o ano.
  3. Início do Inverno: Este fenómeno marca o começo oficial da estação mais fria no Hemisfério Norte, mesmo que o pico do frio ocorra semanas mais tarde devido ao efeito de desfasamento térmico.

Simetria com o Hemisfério Sul

No Hemisfério Sul, o solstício de Dezembro apresenta um fenómeno oposto ao do Hemisfério Norte. Enquanto no Norte se vive o dia mais curto do ano e o início do Inverno, no Sul ocorre o dia mais longo do ano, marcando o começo oficial do Verão. Esta diferença resulta da inclinação axial da Terra, que distribui a luz solar de maneira desigual nos dois hemisférios durante o ano.

Importância cultural e histórica

Desde tempos antigos, o solstício de Dezembro tem sido celebrado por diversas culturas como um momento de renovação e renascimento, dado o retorno progressivo da luz solar nos dias que se seguem.

Escultura Saturnália de Ernesto Biondi, localizada no Jardim Botânico de Buenos Aires.
  • Saturnália (Roma Antiga): Um festival dedicado ao deus Saturno, associado ao ciclo das colheitas e ao renascimento do Sol.
Ilustração de um antigo festival nórdico de Yule (Die Gartenlaube, 1880)
  • Yule (povos germânicos): Festividades em honra do Sol e da esperança no regresso dos dias mais longos.
O Striezelmarkt em Dresden, Alemanha, um dos primeiros mercados de Natal do mundo.
  • Natal: Muitas tradições natalícias têm raízes em celebrações solsticiais, representando a luz que vence as trevas.

Astronomia e ciência

No solstício de Dezembro, o Trópico de Capricórnio, a 23,5° de latitude sul, recebe os raios solares de forma perpendicular. Este alinhamento astronómico resulta na máxima inclinação da Terra, com o Hemisfério Norte inclinado para longe do Sol.

Impacto climático: O desfasamento sazonal

Apesar de o solstício de Dezembro marcar o início do Inverno, as temperaturas mais baixas costumam ocorrer algumas semanas depois. Este fenómeno, conhecido como desfasamento sazonal, deve-se à capacidade térmica dos oceanos e da atmosfera, que demoram mais tempo a arrefecer em resposta à menor radiação solar.

Curiosidades sobre o solstício de Dezembro

  • A duração do dia no solstício varia consoante a localização. Em Lisboa, o dia tem cerca de 9 horas, enquanto em regiões árticas pode não haver luz diurna.
  • Após o solstício, os dias começam gradualmente a ficar mais longos até ao equinócio da Primavera, em Março.
  • Locais como Stonehenge, no Reino Unido, e Machu Picchu, no Peru, têm alinhamentos arquitectónicos que celebram os solstícios.

O solstício de Dezembro é um marco astronómico e cultural que simboliza a transição e o ciclo da natureza. Este dia, com as suas longas noites e curta luz diurna, inspira a celebração do retorno da luz e o início de um novo ciclo anual.

Relógios e solstícios

Relógios Solares

Os relógios solares foram amplamente utilizados para indicar a posição do Sol no céu, e alguns foram projetados para marcar os solstícios:

  • Relógios solares analemáticos: Usam a posição do Sol ao longo do ano, como pontos específicos para os solstícios de verão e inverno.
  • Gnomons verticais ou horizontais: A sombra projectada por um gnomon pode ser utilizada para identificar o solstício quando atinge a sua posição máxima ou mínima ao longo de uma linha específica.

Relógios Astronómicos

Os relógios astronómicos complexos, como os que se podem ver em algumas catedrais e praças históricas, incorporam calendários solares que indicam datas de eventos astronómicos importantes, como solstícios.

Orloj – Praga

  • Orloj – Relógio Astronómico de Praga: Exibe dados solares, lunares e sazonais, além da hora.
O relógio astronómico da Catedral de Estrasburgo
O relógio astronómico da Catedral de Estrasburgo
  • Relógio Astronómico de Estrasburgo: Apresenta representações do movimento solar em relação às estações.

Relógios de Sol Megalíticos e Alinhamentos

Newgrange e Stonehenge

Monumentos como Stonehenge, no Reino Unido, ou Newgrange, na Irlanda, têm alinhamentos específicos com os solstícios e funcionam como “relógios solares” primitivos.

Relógios Modernos com Complicações Astronómicas

Vacheron Constantin Les Cabinotiers Celestia

Relógios como o Vacheron Constantin Les Cabinotiers Celestia, podem também apresentar complicações astronómicas que indicam solstícios e equinócios:

  • Relógios com calendário anual ou perpétuo: Alguns modelos avançados de relojoaria consideram escalas astronómicas detalhadas.
  • Complicações solares: Algumas peças indicam a declinação solar, uma complicação designada de equação do tempo, tal como outros fenómenos ligados aos ciclos do Sol.

A Melodia Transcrita: A Intersecção de Rossini e Beethoven na Tradição Musical

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A Melodia Transcrita: “A Intersecção de Rossini e Beethoven na Tradição Musical”: Um estudo etnomusicológico sobre a circulação de temas melódicos na Europa do século XIX

“O Enigma das Melodias Cruzadas”

Era uma noite fria e húmida, típica do inverno lisboeta, quando me dirigi à casa do sociólogo da música Jorge Lima Barreto. A cidade, mergulhada numa quietude quase sinistra, contrastava com o zumbido de ideias e teorias musicais que ecoavam na minha mente. O caminho até ao número indicado, num bairro de ruas estreitas e empedradas, parecia estender-se por um labirinto de sombras, como se o destino estivesse a preparar-me para algo mais do que uma simples reunião de amigos.

Aquele encontro, marcado há semanas, era aguardado com expectativa. Jorge, uma figura excêntrica, mas genial, acolhia-nos no seu refúgio intelectual, uma morada onde o jazz, a música erudita e o experimentalismo se fundiam como enigmas à espera de serem desvendados. Juntavam-se a nós dois jovens que, embora alunos meus, traziam uma perspectiva inquieta e provocadora ao nosso círculo: Carlos Andrade, um músico amador com uma certa inclinação para o mistério das composições, e Gonçalo Falcão, designer e agora director da revista “Jazz.Pt”, cujas ideias disruptivas pareciam sempre à beira de nos conduzir para o inesperado.

A sala de Jorge, envolta em penumbra, era decorada com pilhas de discos, livros e instrumentos dispostos como relíquias de uma investigação sem fim. O ar, carregado de uma leve fragrância de madeira antiga e vinil desgastado, parecia evocar histórias de melodias esquecidas, de compositores há muito mortos mas cujas notas persistiam no tempo. Sentámo-nos em redor da mesa, enquanto Jorge preparava um tabuleiro de vinis que prometia ser o nosso desafio da noite: o famoso jogo de Blindfold Test.

O jogo era simples, mas envolvia uma astúcia quase sherlockiana: cada um de nós deveria escolher uma peça musical sem revelar o autor, enquanto os restantes tentavam adivinhar de quem se tratava, qual a obra e, idealmente, qual a versão. Um exercício de memória, intuição e conhecimento musical profundo.

O ambiente estava calmo, mas uma tensão subtil pairava no ar. Sabíamos que aquela noite poderia reservar-nos uma surpresa, uma revelação que nos escapava ainda. Quando Carlos Andrade se levantou, com um leve sorriso enigmático, para colocar o próximo disco, algo no seu olhar sugeria que ele tinha preparado um enigma especial para nós. As primeiras notas ecoaram pela sala. Uma melodia familiar, mas ao mesmo tempo perturbadoramente fora de lugar. Algo não batia certo.

Era neste momento que, sem saber, nos aproximávamos de um mistério que ligaria duas figuras gigantes da música — Rossini e Beethoven — numa teia de sons cruzados, uma charada musical que iria desafiar o nosso entendimento e colocar em questão séculos de história.

Mas o que seria? E como poderíamos resolver este enigma? Naquela noite, um segredo escondido nas entrelinhas da história da música seria desvendado, e nós, como detectives num romance de mistério, estávamos prestes a descobrir a verdade por trás de uma melodia que viajara no tempo.

O que parecia ser apenas mais um jogo transformava-se agora num caso musical que desafiaria tudo o que pensávamos saber. A resposta estava ao nosso alcance, mas teríamos nós a acuidade suficiente para desvendá-la?

A Noite do “Blindfold Test”


“De Rossini a Beethoven, ou o Jogo das Aparências”

O contexto era descontraído, mas envolvia uma actividade que exigia concentração — o jogo do Blindfold Test. A proposta era simples: alguém escolhia uma peça musical, e os outros tentavam adivinhar o autor, a obra, ou até a versão interpretada. Parecia uma noite de lazer para três músicos entusiastas, mas o que começou como um jogo despretensioso acabaria por se tornar o ponto de partida para uma das descobertas mais surpreendentes da minha carreira enquanto etnomusicólogo.

Carlos Andrade decidiu então colocar um quarteto de cordas. De imediato, algo me soou familiar, embora não conseguisse identificar a peça de imediato. A melodia soava conhecida, mas a instrumentação — um quarteto de cordas — não parecia encaixar com a memória que eu tinha. Foi aí que comecei a tentar organizar as ideias. “Isto é de uma ópera de Rossini”, disse eu. Mas no mesmo instante, Carlos corrigiu-me: “Não, isto é o segundo andamento do penúltimo quarteto de cordas de Beethoven, o opus 132.” O choque foi imediato. Como poderia a minha mente associar uma melodia beethoviana a uma ópera de Rossini?

A Busca pela Melodia Perdida


“Rossini ou Beethoven? Uma Questão de Antecipação Melódica”

Ainda intrigado, decidi verificar se a minha memória me estava a pregar partidas. Liguei para o meu amigo, o pianista Manuel Guimarães, e cantei-lhe a melodia que tanto me perturbava. Ele, sem hesitar, respondeu: “Isso é da ópera La Gazza Ladra de Rossini!” O meu espanto foi total. Coloquei o disco da referida ópera, e o que ouvimos foi a confirmação daquilo que eu tinha pressentido: a melodia era quase idêntica à do quarteto de Beethoven.

Foi então que comecei a considerar a hipótese de Rossini ter copiado a melodia de Beethoven, ou pelo menos se ter inspirado nela. Naturalmente, fui verificar as datas de composição das duas obras. E para minha grande surpresa, a ópera de Rossini, La Gazza Ladra, tinha sido composta em 1817, enquanto o quarteto opus 132 de Beethoven só foi finalizado em 1825. Como seria possível? Sempre imaginei que, caso houvesse influência entre ambos, seria Rossini a “beber” da tradição alemã, e não o contrário.

Os Encontros Entre Rossini e Beethoven


“Quando o Pequeno Alemãozinho Conhece o Mestre”

Determinado a descobrir mais sobre esta ligação melódica, aprofundei a minha pesquisa. Através de leituras, descobri que Rossini e Beethoven se tinham encontrado pelo menos duas vezes, uma em 1813 e outra em 1816. E mais relevante ainda: Beethoven, no seu último encontro em 1816, teria mostrado a Rossini alguns esboços dos seus últimos quartetos de cordas, que ainda estavam em desenvolvimento.

Foi aí que a minha hipótese se consolidou. Acredito que Rossini, pressionado a compor a abertura de La Gazza Ladra, poderia ter-se lembrado de uma melodia que havia visto nos esboços de Beethoven e adaptou-a para a sua ópera. A melodia seria então uma antecipação de um tema que Beethoven só terminaria anos mais tarde. O compositor alemão era conhecido pelo seu processo lento e meticuloso de composição, e é plausível que Rossini, num momento de urgência, tenha adaptado esse esboço para a sua obra.

Influência ou Coincidência?


“O Etnomusicólogo em Busca de Respostas”

Como etnomusicólogo, a minha preocupação vai além da mera comparação de datas ou da busca por “plágios” formais. O meu interesse centra-se na circulação de ideias musicais, nos encontros e desencontros culturais que moldaram a música europeia do século XIX. A questão aqui não é apenas se Rossini copiou Beethoven. O mais intrigante é entender como estas duas figuras colossais partilharam, consciente ou inconscientemente, um universo sonoro comum. Em que medida Rossini se apropriou de elementos do estilo beethoviano?. E como Rossini, o “Pequeno Alemãozinho”, como era apelidado, assimilou a tradição germânica?

Não se trata de condenar um compositor por copiar outro, mas de entender o fluxo de ideias musicais que atravessaram fronteiras e estilos. É possível que, num encontro casual, Beethoven tenha partilhado algo que, anos depois, surgiria transformado na obra de Rossini. Afinal, a música é, muitas vezes, uma confluência de ideias, influências e inspirações. E de facto assim tinha sido: Beethoven tinha-se encontrado em 1816 com Rossini e tinha-lhe mostrado os seus esboços dos seus últimos quartetos. Um ano mais tarde Rossini, no dia da estreia da sua ópera “La Gazza Ladra” ainda não tinha terminado a Abertura da ópera e o Director do teatro prendeu-o numa sala no teatro e só o deixou sair depois deste ter completado a sua Abertura (que seria esta, a tal influenciada pelo referido andamento do penúltimo quarteto de Beethoven).

A Melodia como Património Comum


“Beethoven e Rossini: Dois Lados de uma Mesma Moeda”

O que podemos tirar desta análise é que a música, tal como outras formas de arte, é um território partilhado. As melodias, harmonias e ritmos são parte de um património comum que transcende o indivíduo. Rossini e Beethoven, embora com estilos e personalidades distintas, operaram dentro de um mesmo universo musical, onde as influências se cruzavam e as ideias fluíam de uma obra para outra.

Este caso, longe de ser uma anomalia, demonstra a riqueza da tradição musical europeia e a forma como compositores de diferentes geografias e estéticas se influenciaram mutuamente. Mais do que uma questão de cópia, estamos a falar de um diálogo melódico que atravessou fronteiras, criando novas formas e expressões artísticas.

Este é o verdadeiro legado da música: um espaço onde o passado e o presente se encontram, onde as ideias se transformam e onde as melodias, como pontes entre épocas, nos lembram da complexa teia de influências que nos une.

O Último Acorde: O Mistério Resolvido com um Sorriso

“A Solução do Mistério e o Desfecho Harmonioso”

A sala, até então imersa num silêncio pesado de reflexão, explodiu numa risada colectiva quando o disco de La Gazza Ladra finalmente soou. A verdade estava ali, inegável, tão clara quanto as notas que ecoavam na sala. Aquela melodia de Rossini, que eu tinha identificado quase instintivamente, coincidia em mais do que um simples acaso com o segundo andamento do quarteto de Beethoven. Um mistério que começara como um simples jogo de Blindfold Test transformara-se num enigma musical digno de uma investigação digna de Sherlock Holmes, mas agora, no desfecho, o ambiente era leve e descontraído, como se tivéssemos resolvido um grande quebra-cabeças.

Carlos Andrade, ainda com o sorriso enigmático no rosto, quebrou o silêncio, batendo com as palmas nas pernas e exclamando: “Bem, quem diria que acabaríamos a discutir um plágio entre Rossini e Beethoven esta noite!” Gonçalo Falcão, recostado na sua cadeira, acrescentou com um tom brincalhão: “Talvez devêssemos publicar um artigo para uma revista de música, não sobre jazz, mas sobre esta charada musical! ‘Beethoven, o Copista de Rossini’ — aposto que ia ser um sucesso!” As risadas ecoaram novamente pela sala.

“De facto,” comecei eu, “não há como negar a coincidência, ou talvez o ‘empréstimo’… Mas a questão é que esta noite provou uma coisa: a música, tal como a vida, é cheia de surpresas. “Quem diria que Rossini, tão rápido e espontâneo a compor, pudesse ter sido influenciado por Beethoven de forma tão… subtil?”. Se foi plágio ou inspiração, isso já não cabe a nós decidir. O que importa é que descobrimos um pequeno mistério que, talvez, nem os próprios compositores soubessem que existia!”

Jorge Lima Barreto, que até então observava em silêncio, com um ar de satisfação pelo rumo que a noite tinha tomado, levantou-se da sua poltrona e disse com um sorriso: “Meus caros, a música é feita destas coincidências e encontros. Às vezes, as melodias vagueiam de um lado para o outro, e os compositores, conscientes ou não, são apenas veículos dessas ideias. O importante é que terminámos esta noite com um mistério resolvido e um bom momento de partilha.”

Ao sairmos da casa de Jorge, o frio da noite lisboeta voltou a envolver-nos, mas o calor da descoberta ainda pulsava em cada um de nós. Carlos e Gonçalo conversavam animadamente sobre outras melodias que poderiam estar “escondidas” em obras que nunca imaginaríamos, enquanto eu caminhava em silêncio, a reflectir sobre como a música nos surpreende até nos momentos mais triviais.

“Sabem,” disse eu, interrompendo a conversa dos dois, “não posso deixar de pensar que, no fundo, a música é como este nosso jogo de Blindfold Test. Nunca sabemos de onde vem a melodia, nem para onde vai. E esta noite mostrou-nos isso mais uma vez.”

Despedimo-nos com abraços, e enquanto cada um seguia o seu caminho, havia uma sensação de leveza no ar, como se tivéssemos partilhado algo mais do que apenas uma descoberta musical. Era a magia do inesperado, do mistério revelado e da amizade cimentada pelas melodias que ecoavam nos nossos pensamentos.

Afinal, naquela noite, o suspense musicológico deu lugar à alegria da descoberta, e todos nós, como detectives musicais, saímos emocionados e com a sensação de que, no fundo, a música — tal como a vida — sempre tem mais a oferecer do que aquilo que esperamos.

“A Melodia Revelada: Análise Comparativa entre Beethoven e Rossini”

No quarteto de cordas opus 132 de Beethoven, podemos identificar, ao minuto 25:22, a melodia em questão, cuja estrutura melódica será, mais tarde, apropriada por Rossini na abertura da sua ópera La Gazza Ladra. Ao ouvirem este excerto, notem como a progressão melódica em Beethoven apresenta uma característica linear e expansiva, típica da sua linguagem harmónica madura. Agora, ao compararmos este fragmento com a abertura de La Gazza Ladra, logo nos primeiros momentos da ópera, podemos claramente identificar a mesma sequência melódica, reinterpretada por Rossini, mas mantendo a essência rítmica e melódica do original de Beethoven.

Este tipo de apropriação, não incomum na época, levanta questões sobre a intertextualidade na música, onde compositores de diferentes tradições podiam, conscientemente ou não, incorporar elementos uns dos outros. Aqui, o encontro entre Rossini e Beethoven parece ter sido marcado por uma partilha de ideias melódicas que transcendem as barreiras estilísticas entre a ópera italiana e o quarteto de cordas alemão.

Edição: Janeiro 2025

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Ano novo: madrinhas de guerra, Elon Musk, Kierkegaard e Dreyer, burguesia racista, Severino Ngoenha, teatralidade, filosofia na FCUL, dress stories, porcos fascistas, o cânone, Nonesuch Records.

ENSAIO

Relembrar Outras Frentes de Combate em 1914-1918: as Madrinhas De Guerra

As madrinhas de guerra foram uma invenção criada pela necessidade de se manter o moral dos combatentes da I Grande Guerra, de modo a evitar insubmissões e deserções entre os contingentes militares.

Uma Aproximação Lírico- Dialética a Kierkegäard via Carl Dreyer

Agrilhoado nas malhas da lógica e do discurso, Johannes, de Silentio, fixa a monstruosidade do paradoxo em espanto, desespero e impotência. Johannes, de Dreyer, habita o paradoxo, o lugar da não linguagem, da alegria e da restituição. Entre ambos, uma ponte invisível.

A Reconciliação Nacional e a Paz: Leituras Crítico- Filosóficas em Severino Ngoenha

Sobre a conciliação e a busca da identidade moçambicana, acordos de paz e reconciliação, proposta de resistência, e consenso enquanto critério para pôr uma luz no fim do túnel político.

Evolução e Perspetivas Variadas sobre o Conceito de Teatralidade

O conceito de teatralidade à luz de Stanislavski, Zola, Pirandello e Chekhov desenha a sua evolução na transição que estes autores operam dentro do contexto de mudança do século XIX para o século XX.

Grandes capas, apetecíveis conteúdos.

CRÓNICA

On Elon Musk

On how the thesis that the south- african millionaire is a “nazi” is based on absurdity and complete delusion, given his total opposition to the minority current of ethno-nationalism in today’s populist right-wing movements

O lugar da Filosofia da Ciência

Sobre o encerramento da unidade de investigação em filosofia da ciência da FCUL, onde se justifica porque foi tomada a decisão fácil e não a mais acertada.

A Burguesia Racista Saiu à Rua

Onde o autor propõe uma razão para alguns progressistas políticos ficarem indignados com rusgas só quando as pessoas são de certa cor: é porque vêem as minorias étnicas como seus animais de estimação.

Uma Presidência À Gomes

Texto de pura ficção, uma sátira sobre uma hipotética presidência da ex-deputada Ana Gomes.

Humor e ciências exactas.

ARTES VISUAIS

Dress-stories: From the 1900s to the 1980s

A monumentally interesting essay consisting of a series of illustrated tales that speak a little of the ways in which the items that have clothed us can be used to tell stories.

Na academia, mais um dia.

RUBRICA

Nonesuch Records: sobre a actualidade dos arcaísmos

Revisão histórica sobre a magnífica editora Nonesuch Records, cujo católogo prima pelo jazz, pelo experimental de vanguarda e alguma música tradicional.

Filmes de Natal, Relógios e Tempo

Filmes natalícios nos quais o tempo não surge apenas como algo que se mede e se observa, mas como um elemento central, representado por relógios que marcam momentos decisivos ou transmitem mensagens profundas sobre o sentido da vida.

Conversa: Ilustração e Artes Visuais com Maike Bispo

Ilustração e Artes Visuais é o universo que foi abordado nesta conversa com o ilustrador Maike Bispo: falou-se sobre o seu processo criativo, inspirações e novos projetos.

“Not God but a swastika

So black no sky could squeak through.

Every woman adores a Fascist, The boot in the face, the brute Brute heart of a brute like you.”

(de Daddy, Sylvia Plath)

CRÍTICA

Crítica: Porcos Fascistas — Organismos Tecnocientíficos e a História do Fascismo, Tiago Saraiva

Assente nas preocupações de Georges Canguilhem e Michel Foucault com a biopolítica, o livro explica como organismos tecnocientíficos concebidos para sustentar a nação se tornaram importantes na institucionalização e expansão dos regimes de Mussolini, Salazar e Hitler, constituindo modernidades alternativas.

Dois lembretes sobre equívocos legais.

Crítica: O Cânone, 2021, ed. António M. Feijó, João R. Figueiredo, Miguel Tamen

Mais do que o ar de afronta e polémica com que entrou ou foi feito entrar no panorama editorial português, este volume vale mesmo é pela divulgação dos autores superiores que elenca.

Funnnies! Ou not so funny, como preferirem.

Fotografia de Helene Kröller-Müller (1869-1939), filantropa alemã, colecionadora de arte, um das primeiros a interessar-se por Van Gogh. A sua colecção foi mais tarde vendida à Holanda e encontra-se hoje alojada no Kröller-Müller Museum (https://krollermuller.nl/en).

On Elon Musk

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How the Argument That the South African Billionaire is a “Nazi” is Based on Absurdity and Complete Delusion, Given His Total Opposition to the Minority Strand of Ethno-Nationalism in Today’s Populist Right-Wing Movements

About Elon Musk

I write this summary, as comprehensively as possible, motivated by the sensationalist focus the media placed on a gesture of gratitude to the public that the millionaire Elon Musk had a short while ago. The collective hysteria surrounding the recent election of the highly inflammatory politician Donald Trump led many to interpret, in a completely absurd and delusional way, this gesture as a Nazi or merely Roman salute.

The media coverage, as is often the case—and increasingly so—appealed to the most primitive simian instincts, particularly of those with a greater responsibility to be well-informed and think rigorously. So this is both a commentary on the disinformation industry as a whole, and also a call to attention to the brutal alienation from reality that today characterizes progressive urban elites.

Anyone not intoxicated by this regrettable alienation can easily verify, by analyzing the full video, that it was simply a common gesture of “throwing a heart” to the crowd, unrelated to extremist ideologies. Yet, many adamantly swear it was a Nazi salute. This almost psychiatric misunderstanding is based on years of misinformation that the public has been forced to digest. I will attempt to clarify this below.


There is No Relevant Nazi Movement in Western Democracies Today

Let us begin by clarifying one of the monumental misconceptions that underpin this delusion, which is already pathologically entrenched in the public psyche. While in America, perhaps somewhere between half and a quarter of the population might genuinely or vaguely believe in this deceit, the problem is even worse in Europe.

The central fact is simple: Elon Musk has absolutely no connection to nor history with indicating sympathy for ethno-nationalist far-right movements. Many of the arguments linking him to such ideologies are baseless or the result of distorted interpretations.

It is beforehand essential to distinguish here a fundamental political point: ethno-nationalism, the populist nationalist variant that could be associated with Nazism, is generally speaking a minority strand within the Western populist right. In other words, in the current political landscape, there are very few genuine fascists or Nazis, and no truly anti-democratic political actors, parties or major strands opposed to representative parliamentary democracy as it exists in Western regimes today.

Thus, it is absurd to classify figures like Musk, Trump, or Ramashwany as close to fascist movements, as their opposition to ethno-nationalism—consistently an imminent part of Nazism— is more than well documented. Similarly, it is false to claim that political parties or their supporters, like the AfD in Germany, Trump in the USA or Chega voters in Portugal, are themselves Nazis or fascists: few serious and objective political compasses attribute such characteristics to those parties. Even Italy’s current Prime Minister, despite a past in ultra-nationalist organizations, no longer represents those sectors. This is as absurd as characterizing current social-democratic politicians that had a vague marxist phase in their youth as rabid communists.

Furthermore, claims that Musk’s gesture or the occasional use of symbols like Pepe the Frog are extremist are misinterpreted. Musk’s gesture was clearly an expression of affection for the crowd, contextualized within his speech, a gesture in fact not at all uncommon among stage celebrities and politicians. Meanwhile, the aforementioned avatar ceased to be exclusive to the far-right long ago. It is now a generalized symbol used against political correctness and as a counter-culture icon. If the left has lost its monopoly on counter-culture, that is an introspection they must undertake.


Millionaires, Celebrities, and Politics

Musk is, after all, merely a millionaire who supported political campaigns on the right since 2020, having before been a somewhat moderate leftist supporter. The amounts he donated, both this time and in previous elections, are not particularly significant compared to dozens of other millionaires who have made substantial donations to American politicians over the years.

Additionally, on the 2024 American presidency elections, he has campaigned in person, resembling more a celebrity in this aspect. But even here, it is unclear if there is anything novel: millionaires and celebrities have always supported politicians, whether privately or publicly—Soros, Oprah, Gates, Rockefeller, Hearst, and many more. The American media has always had owners with political friendships and some have even occupied political positions.

Indeed, some pursued political careers themselves (Bloomberg, Hearst, Forbes): this is normal in a democracy. Not to mention the telecommunications industry, analogous to social media: in that sector, the proximity to politics is even greater, as is the case in numerous other industries. Such in general not relevant nor newsworthy.


Political Thought and Economic Relations

The economic relations between this millionaire’s companies and the U.S. government is an area where legitimate questions arise. Yet even here, these questions are dubious at best.

His car company operates autonomously, and he has stated that he would prefer not to have the government subsidies for electric vehicles currently in place. As for his space exploration company, it is a different story. However, there are no serious studies indicating current exclusive dependence on the U.S. government for its long-term subsistence, as its current weight on contracts is about 50-60% of total, and the tendency is to further diversify.

Furthermore, Musk’s public or private persona does not show any irreducible ideological positions, whether far-right or far-left. He tends to lean liberal on economic and social matters, conservative on common-sense issues like the biological reality of sex (a matter he has personal family experiences with), and is overall a staunch advocate of meritocracy.

Finally, he is objectively, explicitly and in a documented way, opposed to any political measures that particularize groups based on race, gender, or origin. This last point places him decisively at odds with the fantasy of “Nazism.”


Biography: Family History, Beginnings, and Career

Musk’s family history is relatively simple. He is the son of a politically left-leaning couple—as many where at the time at that age group—who emigrated to South Africa in the 1970s. They participated in moderate investments, taking advantage of the region’s economic prosperity at the time, including the much-discussed mining exploration in Uganda, which did not yield significant wealth.

Later, in the West—Canada and the U.S.—his student and early professional life was marked by hard work and minimal luxuries or exceptional conditions. He began accumulating wealth through launching various tech initiatives and companies, like PayPal, a relatively common path for high achieving tech students during the sector’s economic boom.

He used his extraordinary engineering abilities, process optimization skills, and economic awareness to successfully establish ventures in electric mobility and space exploration. These achievements have significantly expanded his fortune.


Excentricities, Genius, and Visionary Elements

His vision for the world, or at least the one he has publicly expressed for years, is extraordinarily optimistic about technology, humanity’s ability to overcome challenges posed by nature, and the role of science—especially engineering—in conquering those challenges.

Regarding space exploration, his goals become somewhat mystical: he advocates that the expansion of humanity’s collective consciousness, whatever that might mean, will benefit from transitioning to a multi-planetary species. Hence his personal obsession with the colonization of Mars in the near term.

Moreover, he is generally a man who speaks his mind, who does not care—or does not wish to care—about the consequences his public image might bring to his businesses. So far, he has been successful in that gamble.

A recent and notable anecdote illustrates his peculiar nature: he recently stated that he opposes remote work because it is unfair to workers who cannot perform their jobs remotely and must necessarily go to their workplaces—mechanics, plumbers, janitors, etc.

This is impressive: this rarely heard position it could have been a point made by a left-wing defender of the working class, yet it came from the richest man in the world.


Lastly: The X Platform

Partially based on these concerns, he proceeded, in 2022, to purchase the social network X (formerly Twitter), believing that a digital public forum for discussion free from significant censorial currents was essential.

He saw the existing social media and internet platforms in general as dominated by censorship tendencies, both at the ideological-political level—where even moderate right-wing views were heavily censored by Silicon Valley’s left-leaning industrial complex—and at the level of citizen power and critique, as evidenced by the extraordinary mechanisms of censorship imposed by social networks during the COVID-19 pandemic.

Thus, he became the owner of one of the most important but less-used social networks in the world, at least compared to other top platforms. Its difference lies in its predominant use by two influential groups of very special useful idiots: politicians and journalists.

The doctrine he implemented on the platform in terms of information control is highly liberal. It does not show a bias toward censoring any relevant political field. On the contrary, it contrasts with the previous policy of high policing of thoughts and speech—still common in many networks today—as it now tends mostly not to censor expressions that fall within the law.

In liberal democracies, where freedom of speech is protected, this naturally includes all sorts of nonsense, but that’s the way it is.

On X, no terms are officially banned, although novilinguae-like words like “cis” are now viewed as insults, as before more obvious expressions like “SOB.” Yet, none of these expressions are formally censored. Regarding the platform’s functioning, there is no specific promotion of accounts, movements, or ideologies.

What changed was the algorithm, designed to include opposing views, promoting greater diversity of perspectives. Additionally, he implemented a collaborative fact-checking system similar to Wikipedia’s model, reinforcing users’ role in filtering information.

Finally, it is false to claim Musk supports the end of digital platforms or traditional media in general. Instead, he expresses criticism of the poor state and decline of traditional journalism, which he believes could lead to change or even its extinction—a sentiment shared by many.


Coda: The Definition of Oligarchy

Lastly, I want to emphasize another significant misconception perpetuated like chewing gum in today’s public discourse. There is, in fact, no oligarchy in the United States or most Western liberal democracies. These are effective representative regimes, with diverse political parties, free elections without significant fraud, power rotation, and independent judicial checks and balances.

Oligarchies do exist, however, in one-party systems or near-equivalents where, in the absence of power rotation and democratic plurality, power is concentrated in the hands of a few. This is not the case in the U.S. Musk is a citizen with political involvement, similar to many others—Soros, Oprah, Chomsky, etc.—whether wealthier or less so.

This exercise of involvement does not, in itself, constitute a regime that could be classified as an “oligarchy.” The term is entirely misused.

Nonesuch Records: sobre a actualidade dos arcaísmos

Originalmente publicado em jazz.pt, aqui e aqui.

The excellence of every Art is its intensity, capable of making all disagreeables evaporate from their being in close relationship
with Beauty & Truth […].
John Keats

A 22 de dezembro de 1818, Keats escreve uma carta aos irmãos George e Tom. Aí, traça um elogio à «Negative Capability» de Shakespeare, isto é, à virtude de um grande poeta que, envolto em incertezas, dúvidas e mistérios, consegue ver a Beleza e, a partir dessa visão, fazer com que todos os desagradáveis se dissipem. Ora, numa ligeira torção, considero que a música editada pela Nonesuch Records tem este atributo raro, aspecto desde logo grafado na designação nominal, que aponta para a atualidade do arcaísmo da perfeição, que quer dizer “acabado”, e da excelência de algo, neste caso, da música.

Fundada em 1964 por Jac Holzman (1931), também fundador e diretor executivo da Elektra Records1, a label americana Nonesuch surgiu inicialmente como uma editora clássica, cujo fito seria o de conquistar auditores mais jovens e com menos poder de compra. O feito foi conseguido, dado Holzman ter reduzido para metade o preço dos discos, gesto inspirado nas pequenas edições de bolso da literatura clássica, tal como afirmado pelo fundador na página oficial da editora.

No dealbar desta aventura, Holzman optou por não fazer encomendas, à exceção das que solicitou ao compositor modernista Charles Ives (1874‑1954), o que o levou a apostar na licença de álbuns de pequenas editoras europeias, reembalando-os, de forma elegante e cativante, para o jovem público americano. Neste âmbito, o catálogo da editora apresenta obras de músicos clássicos marcantes, como Stephen Foster, compositor americano do século XIX, e Scott Joplin (1868-1917), compositor e pianista americano. Aliás, ainda nesta linha clássica, é de ressaltar a contribuição histórica da editora com a série intitulada George e Ira Gershwin Library of Congress series.

Fruto deste gesto editorial inovador, a robustez financeira da Nonesuch não só concedeu à Elektra Records algum desafogo para continuar com as suas edições de música pop, como também possibilitou a assinatura de contratos com bandas marcantes, como The Doors e Love, e artistas como Judy Collins (1939), Tom Paxton (1937), Tom Rush (1941), com a canção “These Days”, profusamente conhecida após a interpretação de Nico em “Chelsea Girl”, Tim Buckley (1947‑1975), entre outros. Desde os seus gestos iniciais, a assinatura da editora, em estreita relação com a Elektra, primou pela intensidade qualitativa ao misturar edições clássicas e modernas. No entanto, a Elektra acabou por ser vendida por Holzman à Warner Communications, em 1970.

No mesmo ano, e na vanguarda da edição, a Nonesuch edita o álbum “Computer Music” [H-71245], com trabalhos pioneiros de J.K. Randall (1929‑2014), na altura membro do Departamento de Música da Princeton University, Barry Vercoe (1937), autor do MUSIC 360 programming language, e Charles Dodge (1942), à altura, professor dos Departamentos de Música da Columbia University e da Princeton University e investigador em computer sound synthesis no IBM Thomas J. Watson Research Centre. Os trabalhos foram realizados no Computer Centres of Columbia & Princeton Universities.

Nesta medida, a missão editorial da Nonesuch tornou-se cada vez mais eclética, acolhendo no seu vasto catálogo música contemporânea, jazz, teatro musical, música popular americana e do mundo. Dando azo a esta expansão, a editora contempla no seu catálogo trabalhos do artista de teatro musical americano Stephen Sondheim (1930-2021) e do autor de musicais Adam Guettel (1964). A par disto, o fundador e a sua equipa iniciaram uma estreita colaboração com o New York City Ballet e The George Balanchine Trust, tendo também assumido a gravação sonora de programas de televisão (e.g.: “The Civil War”, “Angels in America”, “The Wire”) e de filmes (e.g.: “Powaqqatsi”, “Wings of Desire”, “Requiem for a Dream”, “Kundun”, “The Hours”, “The Thin Blue Line”, “There Will Be Blood”, “Sweeney Todd”, “Revolutionary Road”, “I Am Love”, “True Grit”, “Norwegian Wood”, “Inside Llewyn Davis”, “Boyhood”). Este espectro de ação amplo traduziu-se numa profícua colaboração com um leque diverso de compositores que trabalhavam para a indústria fílmica e não só, como Georges Delerue (1925-1992), Alex North (1910-1991), Toru Takemitsu (1930‑1996), Leonard Rosenman (1924-2008), entre outros. 

Em 2004, depois de quarenta anos de edições em nome da perfeição musical, a Nonesuch foi congratulada com Grammys em quatro géneros musicais diferentes, a saber: melhor álbum clássico e melhor composição clássica contemporânea atribuídos a John Adams; melhor álbum alternativo concedido à banda de rock alternativo Wilco; melhor álbum de música mundial atribuído ao músico senegalês Youssou N’Dour (1959) e o Best Contemporary Jazz Album dado ao “Unspeakable” [79828-2] de Bill Frisell (1951).

Em 2024, ano em que a editora celebra sessenta anos de existência, pode-se acrescentar que a justa celebração da perfeição musical perseguida pela Nonesuch apresenta, retrospetivamente, duas frentes de estabilidade: por um lado, um catálogo forte e eclético; por outro, uma liderança editorial vigorosa, que se deveu, primeiramente, a duas figuras proeminentes. A primeira, Tracey Sterne (1927-2000), pianista prodigiosa2 e uma das primeiras mulheres a assumir as funções de editora musical, trabalhou inicialmente na Vanguard Records. O lema de Sterne assentava na procura de altos padrões de qualidade editorial, aspecto reforçado pelo seu perfil pioneiro, que conciliava um certo grau de brilhantismo no contato com os artistas e uma espécie de obstinação intransigente ao defender, com paixão, a música editada.

Seguindo as pegadas de Holzman, Sterne começa a construir a sua lista de artistas e a procurar talentos nos círculos da música clássica e contemporânea. Este gesto editorial de risco comportou uma boa receção crítica. Um dos exemplos de risco editorial terá sido a produção do álbum «Ancient Voices of Children» [H-71255] do compositor George Crumb, saído em 1971, e que congregou um conjunto de composições inspirado nos poemas de Federico Garcia Lorca. No entanto, o álbum chegou aos escaparates e vendeu mais de 70.000 unidades.

Durante o reinado de Sterne, a editora iniciou uma série audaz dedicada à world music, intitulada “Explorer Series”3, que contemplava a gravação e a edição de música indígena de todo o mundo, a partir das gravações de campo realizadas por David Lewiston (1929-2017), o «‘musical tourist’ who brought old sounds to new ears», como fixado por Anastasia Tsioulcas na National Public Radio, e produzidas por Peter Siegel. Sterne acarinhou esta série e não a considerou apenas uma produção antropológica, defendendo-a com o mesmo rigor e empenho, com que apostara em outras edições da Nonesuch Records.

Estas duas marcas inelutáveis de Sterne no catálogo da Nonesuch, permitiram à editora congregar um leque de artistas mundiais de alta qualidade, como o bandoneonista e compositor argentino Astor Piazzolla e, no futuro, o compositor, cantor, escritor e produtor brasileiro Caetano Veloso, o músico Youssou N’Dour, entre tantos outros. Porém, em dezembro de 1979, Joe Smith despede, inesperada e subitamente, Sterne que, embora surpreendida, não deixou de especular sobre a razão do seu despedimento se prender com a descida das vendas. A demissão de Sterne ergueu protestos fortes no seio da comunidade artística, tendo sido assinada uma petição recebida pelo New York Times com mais de 2000 nomes.

O legado de Sterne teve discípulos e, a título de curiosidade, Joshua Rifkin (1944), professor de música na Universidade de Boston, maestro, pianista e musicólogo americano que trabalhou com Sterne, interpretou “Scott Joplin Piano Rags I, II, III” [HB-71248, H-71264 e H‑71305], álbum saído a lume em 1970, 1972, 1974, respetivamente. Este gesto editorial provocou um renascimento do jazz ragtime, dado ter sido o primeiro álbum a atingir um milhão de vendas.

Depois da saída de Sterne, e durante quatro anos, a direção da Nonesuch ficou a cargo de Keith Holzman, irmão mais novo do fundador, com sede em Los Angeles. Em 1984, depois da saída de Keith Holzman, surge a segunda figura capital da editora: Bob Hurwitz (1949) que, desde 1975 até 1984, foi o rosto da direção americana da ECM e que trabalhará ativamente na Nonesuch até 2017.

Hurwitz continuará a apostar na expansão editorial, sob o signo da perfeição, e, sobretudo, no selo de jazz da Nonesuch Records. Pianista, criado no seio de uma família interessada nos novos tipos de música, chegou a Nova Iorque aos 21 anos, determinado a ser músico ou a trabalhar no mundo fonográfico. O seu primeiro contrato foi com a Columbia Records, enquanto redator publicitário. Neste ambiente auspicioso e entusiasmante conheceu Karin Berg, Manfred Eicher, John Hammond e Goddard Lieberson, figuras significativas na cena musical. A par desta teia de conhecimentos, Hurwitz também estabeleceu relações estreitas com músicos de jazz que acabariam por fazer parte do catálogo da Nonesuch. Com carte blanche por parte de Bob Krasnow (1934-2016), fundador da Blue Thumb Records e, à altura, presidente da Elektra Records, oiça-se o testemunho de Hurwitz acerca da sua chegada à Nonesuch:

The first two years were incredibly fertile. We were able to sign Steve Reich and John Adams, and start working with Philip Glass, Kronos Quartet, and John Zorn. It was a time when most of the classical divisions of major labels were asleep. They were so busy devising genre “crossover” projects and re-issuing catalogue on CD, still a new technology at that time, that few people were doing anything from an A&R point of view.

A partir de 1984, a Nonesuch focou o interesse editorial na música jazz. Em 1985, edita “Desert Music” [79101-2] de Steve Reich; “Harmonielehre” [79115-2] de John Adams e o álbum débutSergio e Odair Assad. Music for two guitars by Astor Piazzolla, Leo Brouwer, Hermeto Pascoal, Radamés Gnattali, Sergio Assad e Alberto Ginastera” [79116]. Um ano depois, sai o álbum inaugural “Kronos Quartet” [79111-2], com a mítica interpretação de “Purple Haze”, composição de Jimi Hendrix que fecha o álbum, e “World Saxophone Quartet Plays Duke Ellington” [979137-1]. Em 1987, sai a lume “Spillane” [9 79172-1] de John Zorn.

Abre-se, assim, um reinado novo e prolífero que abarca a contratação de músicos independentes, como acontece com Reich e Zorn que, na altura, assinaram contrato de exclusividade com a editora, que ainda hoje se mantém. Do catálogo arcaico da Nonesuch permaneceram o pianista clássico Richard Goode (1943), conhecido pelas suas interpretações de Mozart e Beethoven, e a soprano canadiana Teresa Stratas (1938). Mas note-se que esta lufada vibrátil e inovadora que Hurwitz trouxe à Nonesuch, ao reforçar a continuidade entre a música clássica e as produções de índole mais contemporânea, se encontra, ainda, em perfeita consonância com o espírito audaz de Sterne, cujo lema apontava para a atualidade arcaica da perfeição.

Porém, apesar desta afinidade atmosférica, Hurwitz estava ciente do conflito entre a sua sensibilidade e a de Sterne, que apostara numa linha mais cerebral de influência europeia. Assim sendo, Hurwitz, sem minorar as criações de compositores de música clássica contemporânea, como os compositores George Perle (1915-2009) e Leon Kirchner (1919-2009), defendia a divulgação, produção e edição de músicos independentes mais próximos da sua geração, aspecto que não deixou de salientar, nestes termos: «I think it’s a wonderful irony because the recording of new music is possibly the least commercially viable aspect of anything one can do in the record business. But all of our initial successes came out of that area.»

O instinto do produtor foi certeiro: os três primeiros álbuns de Kronos Quartet venderam cerca de 100 mil cópias, um resultado inédito para o quarteto de cordas inovador; o quinto álbum do mesmo quarteto, “Pieces of Africa” [79275-2], lançado em 1992, vendeu cerca de 400.000 cópias e apareceu como número um da Billboard. Lembre-se, igualmente, que as criações da autoria de Philip Glass, “Mishima” [979113-1] de 1985 e “Powaqqatsi” [7559-79192-2] de 1988, venderam mais de 100.000 exemplares, tal como aconteceu com o álbum “Different Trains / Electric Counterpoint” [9 79176-2], datado de 1989, de Steve Reich e do Kronos Quartet. No entanto, o álbum “Symphony No. 3” [7559-79282-2] da autoria do compositor polaco Henryk Górecki (1933-2010), uma obra minimalista dedicada ao povo polaco, vítima das atrocidades da Segunda Guerra Mundial, foi um dos álbuns de eleição da música contemporânea, por parte dos auditores. A peça foi composta em 1976, mas só foi editada em 1992.

A orientação visionária de Hurwitz contribuiu para a construção de um catálogo cada vez mais amplo e eclético, que incluía artistas e compositores de jazz da cena musical de Nova Iorque, como John Zorn e Wayne Horvitz, e uma longa e produtiva colaboração editorial com o guitarrista Bill Frisell. Sob a chancela da Nonesuch, surgiram mais edições do World Saxophone Quartet e também de Zorn, a saber: “The Big Gundown. John Zorn plays the music of Ennio Morricone” [9 79139-1 F], datado de 1986, e “Naked City” [9 79238-2], de 1990. Todavia, a grande viragem editorial promovida por Hurwitz foi a oportunidade de trabalhar com Caetano Veloso. Com efeito, Hurwitz afirma que a contratação do cantor e compositor brasileiro, membro fundador do movimento subversivo Tropicalismo no final dos anos 60, «turned everything on its head», acrescentando na página oficial da editora:

I inherited a company that was beloved by many for its rich classical music tradition, and suddenly one day there is a genuine pop musician like Caetano. In one respect, he did not fit in any of the criteria that were established for the company, and yet he was artistically on as high a level as anyone performing music at that time. It broke down a wall, and perhaps at that moment, Nonesuch ceased to be ‘a classical label’. Suddenly, so much more was now possible. Years later, hearing Lorraine Hunt Lieberson sing Caetano’s “Tradição” as beautifully as she had sung Bach, Handel, Lieberson, or Adams, my initial instincts were reaffirmed.

A entrada deste artista maior no catálogo da Nonesuch, com o álbum homónimo [846 916-1] de 1986, abriu as represas do futuro: território inexplorado e virgem que, num só rasgo, educou a sensibilidade dos auditores e determinou os acordos editoriais futuros. Em 1987, a Nonesuch lançou uma reedição de “Le Mystère des Voix Bulgares” [E2 79165], uma coleção de performances vocais a cappella de um coro feminino búlgaro, inicialmente gravado por Marcel Cellier em 1975. Em 1989, surge o segundo volume de gravações do mesmo coro vocal feminino búlgaro, vencedor do Grammy Award for the Best Traditional Folk Recording desse ano, que alia a melancolia dos arranjos vocais a uma tonalidade simultaneamente moderna e folk. Logo após este sucesso búlgaro, Hurwitz integra no catálogo os Gipsy Kings, que conquistaram os auditores.

Ainda em 1988, Astor Piazzolla4 lança os seus álbuns, sob a chancela da Nonesuch Records. A presença incandescente do mestre argentino trouxe centenas de milhares de vendas, sendo exemplo disso a reedição, em 1998, do álbum “Tango: Zero Hour” [79469-2], gravado com The New Tango Quintet e datado inicialmente de 1986. A posteridade de Piazzolla continua a ser celebrada pelos seus pares, a saber: Gidon Kremer (1947), violinista clássico letão, maestro, diretor artístico e fundador da orquestra Kremerata Baltica, edita, sob a égide da Nonesuch, “Hommage à Piazzolla: The Complete Astor Piazzolla Recordings” [7559 79872-6], um box set de oito CD, lançado em 2012, que une a orquestra Kremerata Baltica e The Astor Quartet em torno das obras completas de Piazzolla.

Durante os 47 anos do reinado duplo de Sterne e Hurwitz, a Nonesuch primou pela vanguarda da música clássica contemporânea ao editar nomes como George Crumb (1929-2022), compositor americano de música clássica, Elliott Carter (1908-2012), compositor que se deixou conquistar pela música atonal, William Bolcom (1938), compositor e pianista, John Adams, Steve Reich, Kronos Quartet, Philip Glass, Louis Andriessen, compositor holandês (1939-2021), Frederic Rzewski (1938-2021), co-fundador dos MEV – Musica Elettronica Viva, Henryk Górecki, entre outros.

A existência avança com recuos e abalos e, em 1994, Bob Krasnow (1934-2016), o responsável pela entrada de Hurwitz na Nonesuch, foi despedido. O Warner Music Group decidiu que a editora devia ser transferida para a Warner Music International, que incluía as editoras Teldec e Erato, deixando assim a editora-mãe, Elektra Records. Nesta altura de mudanças turbulentas, Hurwitz conseguiu um feito tremendo: contratar David Bither, anterior gerente da Elektra Records. Bither inicia, assim, os seus trabalhos na Nonesuch como vice‑presidente sénior e, em 2017, torna-se presidente da editora, altura em que Hurwitz assume o cargo de presidente emérito. Após um período de trabalho autónomo e livre, sensivelmente entre 1984 a 1994, Hurwitz trabalhará em conjunto com a segunda voz de A&R na Nonesuch.

Desde o reinado de Sterne que a equipa da Nonesuch era constituída por não mais do que cinco pessoas. Ora, Hurwitz, cônscio da relevância da sua escolha, reuniu-se com 40 pessoas musicalmente qualificadas para tornar transparente a nova contratação. Os dois nomes em cima de mesa eram David Bither e Peter Clancy, diretor de publicidade e de promoção da Philips Records. A escolha pendeu para Clancy, connaisseur de música clássica e com ampla experiência na indústria musical, que assumiu a vice-presidência de marketing. No entanto, Bither, embora sem raízes no ramo fonográfico, continuou a participar nas conversas e campanhas editoriais durante os três primeiros anos de Hurtwitz. A relação de ambos foi bastante profícua e Bither tornou-se, inicialmente, chefe de marketing nacional e, por fim, vice‑presidente sénior e gerente geral.

O primeiro projeto de Bither na Nonesuch foi incluir no catálogo a cantora cabo-verdiana Cesária Évora5 (1941-2011), com o seu álbum homónimo [9 79379-2], datado de 1995, cuja estreia nos EUA vendeu 200.000 cópias, consolidando, mundialmente, a aventura editorial da Nonesuch. Em seguida, fechou contrato com a World Circuit Records, com sede em Londres, gesto editorial que trouxe consigo a edição de Buena Vista Social Club6, uma colaboração que reúne músicos de Cuba e Mali e que inclui, a título exemplar, o guitarrista, violinista e cantor cubano Eliades Ochoa (1946), o músico maliano Bassekou Kouyate (1966), o guitarrista maliano Djelimady Tounkara (1947) e, ainda, Toumani Diabaté (1965-2024), recentemente falecido, mestre da kora, um instrumento com 21 cordas tipicamente africano.

Através da associação da Nonesuch com a World Circuit Records, o catálogo amplia-se e passa a incluir as inesquecíveis gravações do compositor e cantor cubano Ibrahim Ferrer (1927-2005) e do cantor senegalês Cheikh Lô (1955). A par destas fecundas inclusões, o auditor poderá ainda ouvir o cantor e guitarrista maliano Ali Farka Touré (1939-2006), a Orchestra Baobab e AfroCubism, título homónimo do álbum [525993-2] do Buena Vista Social Club que saiu a lume em 2010. A este respeito, depois de Bither seguir atentamente o trabalho do diretor da Circuit Records, Nick Gold, com a jovem cantora e compositora maliana Oumou Sangare (1968), Hurwitz lembra:

With the Oumou Sangare record, Nick had found a completely new way to record African musicians in this very clear style that basically allowed them to be who they were; they seemed, in their own way, as revolutionary as what Manfred had done at ECM in the early years from a production point of view.

Com efeito, Bither afirma ter passado um dia inteiro com o produtor Nick Gold em Nova Iorque. Percebeu, de imediato, que estavam os dois editorialmente alinhados, aspecto reforçado pela partilha das gravações de Ry Cooder (1947), feitas por Nick Gold, e um grupo de músicos cubanos, que tinha acabado de chegar de Cuba. Sobre este encontro auspicioso, Bither declarou: “That was one of those moments of utter good fortune. We actually made the World Circuit deal knowing nothing about the Buena Vista Social Club record.”

Poucos anos depois da sua entrada na Nonesuch, Bither aditou ao catálogo a cantora Emmylou Harris (1947) e outras contratações importantes, tais como as bandas Wilco e The Black Keys, o compositor e músico senegalês Youssou N’Dour (1959); a artista experimental Laurie Anderson7 (1947), que lançou em 2024 “Amelia8 [075597904665] e recebeu a atribuição do Grammy Lifetime Achievement Award 2024; Sam Phillips, com o seu début álbum, “Fan Dance” [79625-2], datado de 2001, Laura Veirs e o seu “Carbon Glacier” [79854-2], saído em 2004, T-Bone Burnett e o álbum “Tooth of Crime” [450300-2] e Christina Courtin, com o seu álbum homónimo [254652‑2], saído em 2009. Bither foi, igualmente, responsável por ter trazido para a Nonesuch “Smile” [79846-2] de Brian Wilson. Estes gestos editoriais de Bither foram reconhecidos pela editora, que deixa inscrito um tributo ao produtor na sua página oficial:

David’s coming to Nonesuch was an important moment in our company’s history; though we share many things in common in terms of our musical taste, David also brought in a different and highly evolved perspective that was invaluable in terms of our growth and development as a label. We became a much stronger company after he joined Nonesuch’s staff.

Buena Vista Social Club” [79478-2], “Afro-Cuban All‑Stars. A Toda Cuba Le Gusta” [79476-2] e “Introducing Rubén González” [79477-2] são os títulos dos três álbuns inaugurais do Buena Vista. Estas edições, lançadas em 1997, agitaram as águas editoriais e tornaram-se o início de uma história marcante sobre música, arte e política. Clancy promoveu os lançamentos com requinte e sofisticação em revistas, rádios e jornais. Hurwitz, Bither e Clancy voaram, entretanto, para os Países-Baixos para assistir ao concerto que Ry Cooder organizara com os músicos cubanos. Depois do concerto, decidiram que a Nonesuch levaria o show ao Carnegie Hall.

Em julho de 1998, o concerto no Carnegie Hall foi capturado pelo olhar atento do realizador Wim Wenders, um ponto de ignição para a realização do documentário-musical, intitulado “Buena Vista Social Club”, que estreou em 1999 e que ganhou o melhor documentário no European Film Awards em 2000. O mote deste imperdível documentário parte da história «of an American musician [Ry Cooder] who went searching for the sounds of an island and discovered the soul of a people». Note-se que, por oposição à maioria dos álbuns que conhece o seu pico de vendas nas primeiras semanas da sua aparição, o álbum homónimo de Buena Vista Social Club atingiu vendas sólidas no primeiro ano e ainda mais consistentes nos anos subsequentes. Além deste elemento financeiro sadio, esta ação editorial gerou uma série de projetos, que incluiu vários músicos oriundos das sessões matriciais em Havana. Na verdade, estes encontros auspiciosos e ecléticos, coroados pelas edições da Nonesuch, tornaram-se um compromisso contínuo de qualidade, aspecto que honra a atualidade dos arcaísmos e excede qualquer estratégia de marketing, mas oiça-se o que diz Hurwitz na página oficial da editora:

One of the things I brought from my ECM days was the idea that you cannot second-guess the public in terms of what it might like; the experience of seeing Keith Jarrett selling millions of copies of a record of solo improvised piano music demonstrated to me that there are far more people interested in adventurous music than we can imagine. When I heard the finished tapes of Górecki and Buena Vista, I thought, ‘Great records, maybe we’ll sell 50,000.’ We could have never expected either of the albums to sell in the millions. I give much of the credit to a very sophisticated public that has the hunger for new and unusual music that touches them deeply. That said, Peter Clancy found a way to harness that public excitement in a way that I think is unprecedented in our business; rather than follow the playbook of pop or jazz or classical companies, which would have been the obvious thing to do, Peter found a way to do it that was never condescending, and always full of imagination.

Ao longo dos anos, a saúde financeira da Nonesuch Records mantém-se robusta e há uma aposta cuidada em novos membros para preencher os cargos que Hurwitz, Bither e Clancy ocupavam, como Karina Beznicki, que assumiu a vice-presidência da produção, cargo que ainda hoje ocupa, acompanhando todos os aspectos de produção e design dos álbuns. No entanto, a Nonesuch não deixou de colaborar com freelancers, engenheiros de som, diretores artísticos, designers, escritores, fotógrafos e publicitários que contribuíram, de igual modo, para a alta qualidade das peças e dos produtos que coroam o seu catálogo. Este sinal de abertura, um outro atributo basilar da Nonesuch, também pode ser encontrado nas relações colaborativas que a editora mantém com os artistas, desde a década de 80, como acontece, por exemplo, com a edição do box set no septuagésimo aniversário do Steve Reich, intitulado “Phases: A Nonesuch Retrospective” [7559-79962-2]; a peça “WTC 9/11” [528236-2] escrita por Reich para o Kronos Quartet, que saiu a lume em 2011; o 5-CD box set, intitulado “One Earth, One People, One Love: Kronos Plays Terry Riley” [7559-79513-1; 7559-79217-2; 7559-79639-2; 7559-79959-8 e 7559-79503-6], que celebra o octogésimo aniversário do compositor minimalista Terry Riley e que apareceu nos escaparates, em 2015, com um booklet de quarenta oito páginas; a composição do álbum “Scheherazade.2” [557170-2] de John Adams, datado de 2016, entre tantos outros artistas e compositores fiéis à qualidade do selo.

Em 2002, a Nonesuch lançou uma coleção de sete CD, intitulada “Rzewski Plays Rzewski: Piano Works. 1975-19” [79623-2] com obras para piano de Frederic Rzewski (1938-2021), compositor, pianista e cofundador do grupo de improvisação eletroacústica Musica Elettronica Viva [MEV], formado em Roma em 1966 e ativo até 2017, que seguiu as lições extraordinárias de Tudor e Cage. Esta coleção inclui as peças icónicas “The People United Will Never Be Defeated!” e “De Profundis”. No entanto, a obra para piano mais reconhecida da sua lavra, fruto também da sua duração (aprox. 8 horas), intitula-se “The Road”.

A Nonesuch continua a apostar em edições de música contemporânea, sem obliterar os artistas clássicos. Nesta linha, em 2005, sai a lume “Dimanche à Bamako” [79912-2] do casal maliano Amadou & Mariam, álbum produzido por Manu Chao. Em 2008, o pianista e compositor Fernando Otero (1952) lança o seu début álbum, intitulado “Pagina de Buenos Aires” [257084‑2], classificado com quatro estrelas pelo The Guardian (UK). Ainda no mesmo ano, a soprano Isabel Bayrakdarian (1974) edita “Gomidas Songs” [N 511487-2], um tributo ao compositor arménio Gomidas Vardabet (1869‑1935).

Nos anos anteriores, a editora apostara, igualmente, na edição de dois álbuns da mezzo‑soprano Lorraine Hunt Lieberson (1954‑2006), a saber: “Bach Cantatas, BWV 82 and 199” [79692-2] e “Neruda Songs” [79954-2], uma composição de Peter Lieberson inspirada nos poemas de Pablo Neruda e dedicada à sua mulher. Em 2009, surge no catálogo da editora “a/rhythmia” [467708-2], o début álbum do Alarm Will Sound, Contemporary Chamber Ensemble. No ano seguinte, é lançado “Shy and Mighty” [522413-2], álbum de estreia do compositor e pianista Timothy Andres (1985) e, em 2013, “Home Stretch” [534416-2], da autoria do mesmo artista, embora com assinatura de Timo Andres.

De facto, a colaboração de grande fôlego com a World Circuit trouxe um leque de artistas internacionais que expandiu, uma vez mais, o catálogo da editora, tais como: o duo Ali Fark Touré (guitarra) e Toumani Diabaté (kora), com a saída a lume do “In the Heart of the Moon” [79920-2] em 2005; o músico senegalês Cheikh Lô (1955) e o seu álbum “Lamps Fall” [79938-2], saído em 2006; o músico maliano Toumani Diabaté, com o álbum “The Mandé Variations” [433724-2/WCD079], datado de 2008; e, entre outros, o álbum “Made in Dakar” [433788-2] da Orchestra Baobab, datado de 2007. Em 2014, a Nonesuch edita o álbum de Bossa Nova, intitulado “Abraçaço” [541364-2] de Caetano Veloso, que ganhou o Grammy Latino de Melhor Álbum, lançado inicialmente em 2012, sob a chancela da Universal Music. Em 2016, sai a lume “Né So” [553578-2] da cantora, compositora e multi‑instrumentista maliana Rokia Traoré (1974), álbum produzido por John Parish, PJ Harvey e Tracy Chapman. O álbum contempla dez canções originais e uma versão de “Strange Fruit” de Billie Holiday.

O ecletismo do catálogo inclui, igualmente, edições de revivals da Broadway, como “The Light in the Piazza” [79829-2], saído em 2005, com música e letras de Adam Guettel (1964), inspirado na obra de Craig Lucas; “Sweeney Todd and Company” [368572-2], soundtrack do filme de Tim Burton, primeiramente editado em 2007 e “A Little Night Music” [523488-2], inspirado no filme “Smiles of a Summer Night” de Ingmar Bergman, duas criações de Stephen Sondheim (1930-2021).

A par disto, é também possível encontrar edições da dupla de rock The Black Keys (e.g.: “Magic Potion”); o álbum de estreia (e.g.: “Yours, Dreamily”) da banda The Arcs fundada por Dan Auerbach, guitarrista e vocalista da banda The Black Keys; quatro álbuns de estúdio da banda de rock alternativo de Chicago, Wilco (e.g.: “Yankee Hotel Foxtrot”); o álbum de cinco CD, “50 Song Memoir” [558154-1] da banda Magnetic Fields, saído em 2017; o álbum “Punch” [181732-2] da banda Punch Brothers, lançado em 2008, com o exímio bandolinista Chris Thile (1981). Em 2013, sai a lume “Bright Sunny South” [530858-2], uma recriação de música folk da autoria do multi‑instrumentista e cantor Sam Amidon (1981) que, em 2014, edita “Lily‑O” [543642-2]. Outra adição inovadora ao catálogo eclético é “Genuine Negro Jig” [516995-2], álbum vencedor de um Grammy em 2010 da Carolina Chocolate Drops, uma banda de cordas afro-americana, que mistura country, blues e música antiga. Em 2015, nomeado para Grammy de Melhor Álbum Folk, surge nos escaparates “Tomorrow is my Turn” [541708-2] de Rhiannon Giddens (1977).

O catálogo da Nonesuch também inclui artistas pop, country e folk, como Emmylou Harris e o álbum “Red Dirt Girl” [79616-2] lançado em 2ooo; a colaboração de Mark Knopfler e Emmylou Harris em “All the Roadrunning” [44154-2], álbum datado de 2006; a colaboração de Rodney Crowell e Emmylou Harris em “The Traveling Kind” [548243-2], edição de 2015 agraciada com o Duo/Group of the Year Award pela Americana Music Association Honours & Awards; o box set de Randy Newman, intitulado “Roll with the Punches (The Studio Albums 1979-2017)” [075597928105], saído em julho de 2021, que contempla sete álbuns de estúdio (“Born Again”, “Trouble in Paradise”, “Land of Dreams”, “Faust”, “Bad Love”, “Harps and Angels” e “Dark Matter”), capas originais dos discos, letras e demos de “Faust”; “California Trilogy” de Ry Cooder, que se inicia, em 2005, com o lançamento de “Chávez Ravine” [79877-2], seguido de “My Name is Buddy” [79961-2], editado em 2007, e “I, Flathead. The songs of Kash Buk and the Klowns” [465916-2], álbum que fecha a trilogia, datado de 2008; o “Travelogue” [79817-2] de Joni Mitchell, datado de 2002, e, ainda, “A Tribute to Joni Mitchell” [122620-2], saído em 2007, que contém colaborações de Annie Lennox, Björk, Caetano Veloso, Elvis Costello, Brad Mehldau, Prince, entre outros.

A intensidade de todas estas combinações artísticas torna o catálogo da Nonesuch uma unidade variável, tal como firmado por Ed Siegel, crítico do Boston Globe, assim:

There is a sensibility that unites them, one in which all these musical categories dissolve into… a musical world where boundaries between genres stretch and snap. Where [violinist] Gidon Kremer can go to new places with John Adams and then make a heartfelt case for tango master Astor Piazzolla as he has on a pair of CDs. Or a Dawn Upshaw can move so effortlessly from singing with Richard Goode to collaborating with Mandy Patinkin.

Desde os seus primórdios que a editora se encontra aliada ao Warner Music Group. Passados dez anos, sob a égide da Elektra, a editora é acolhida, durante oito anos, pelo Warner Music International e três anos pela Atlântica até chegar à sua casa atual, Warner Bros.

Em setembro de 2016, Kris Chen assume o cargo de vice-presidente sénior da Nonesuch e, lamentavelmente, com a chegada da editora à Warner Bros, dá-se o encerramento da linha de jazz, ainda que a abertura às edições da cena jazzística se mantenha ativa. Prova disso, e a título exemplar, são as críticas de António Branco a “Come What May” [585291-2] do Joshua Redman Quartet, saída em junho de 2019 na jazz.pt, e de Sofia Rajado a dois álbuns da guitarrista de jazz americana Mary Halvorson, em dezembro de 2022 na jazz.pt, e ainda a edição de “Ghost Song” [075597914672], datado de 2022, um “álbum notabilíssimo” de Cécile McLorin Salvant, considerado o disco internacional número um na lista de António Branco na jazz.pt.

A receita para a inscrição da Nonesuch na história da cena editorial é uma combinação atual de arcaísmos, como a perfeição e a beleza, e a construção de uma fraternidade artística, cujas mundividências singulares e intensas se transformam num todo, simultaneamente múltiplo e unitário.

[1] Sobre o apelo sentido por Jac Holzman para a criação da Elektra Records e os artistas de alta qualidade que perfazem o seu catálogo, veja-se o imperdível  documentário da BBC, intitulado “The Man Who Recorded America: Jac Holzman’s Elektra Records”.

[2] Oiça-se “Teresa Sterne: A Portrait” [79619-2], um CD duplo lançado em 2000, com a chancela da Nonesuch Records, que celebra a obra e os trabalhos de Sterne. O primeiro CD contém as performances de Teresa Sterne, datadas de 1938 a 1951, quer a solo quer com a CBS Concert Orchestra e a New York Philharmonic. O segundo destaca as gravações prediletas da pianista e produtora, a partir do catálogo da Nonesuch Records (e.g.: Paul Jacobs, Joshua Rifkin, Jan DeGaetani, Gilbert Kalish, Joan Morris e William Bolcom, além de seleções da série Explorer). Este CD duplo apresenta, ainda, um livreto de 48 páginas com ensaios de William Bolcom, George Crumb, Richard Freed, Gilbert Kalish, David Lewiston e do presidente da Nonesuch Records, Robert Hurwitz.

[3] A Nonesuch Explorer Series encontrou auditores entusiasmados e um público de contracultura que recorria à audição de “The Ramayana Monkey Chant” (a última faixa do álbum “Golden Rain. Balinese Gamelan Music” [H-72028], saído em 1969) durante as suas «chemically altered armchair travels», como fixado na página oficial da editora. O impacto da série reverberou no mundo da crítica, senão leia-se o que diz o crítico musical Milo Miles: «When I was a teenager, every record store indicated that music from other countries was unimportant. Foreign music albums had cruddy covers. They were dusty and stuck in the back. The only people who bought them must have been immigrants. The Nonesuch Explorer Series changed all that. The covers were bright and lively, with intriguing art and a look of something both hip and professional. The terrific two-LP sampler could provide a first exposure to Indonesian gamelan, Japanese wooden flute, and African thumb piano.» E, num numa leitura retrospetiva, que nos transporta até aos anos 60, leiam-se as linhas saídas no San Francisco Chronicle: «Flash back to the 1960s, when the Explorer Series began. Pioneers from Benjamin Britten to the Beatles had begun to steadily open our ears to what seemed like exotic sounds. Everyone, it seemed, was open to new ideas. In this atmosphere Nonesuch’s Music from the Morning of the World exploded as a chart-topper in the 1960s, alongside the then-new Nonesuch recordings of songs and dances from Mexico and the Bahamas that inaugurated the series’ recordings of overlooked music of the New World. This was all happening when most Americans thought Mexican music meant mariachis, when reggae was not a household word, when Andean flutes were not ubiquitous in soundtracks, when Cuban music was dying along with most of Cuban culture under Communism, and when Brazilian music was about to take over as the dominant influence in international pop.»

[4] A atualidade intemporal do mestre de tango é reforçada por Gidon Kremer no Journal da Nonesuch, assim: «You can sense through his music an experience that makes you at the same time joyful and sad. And saying these two words, ‘joyful’ and ‘sad,’ I could say as well that the striking combination of two extreme emotions go together like they go in Franz Schubert’s music, in Astor’s music. I know very few composers where you can feel it in such a passionate way.» Note-se, aliás, que o mestre argentino continua, ainda hoje, a ser justamente celebrado: a 28 de setembro de 2024, no Hot Club de Lyon, o Quinteto Libertad! fez uma inesquecível “Hommage à Astor Piazzolla”, intitulada “Nuevo Tango”. O quinteto é composto por Joseph Bonneton (violino), líder do projeto, que aproveitou o ensejo para apresentar na sessão musical composições da sua lavra, Pablo Amado (bandonéon), Adrien Irankhah (piano) e Florian Coppey (contrabaixo).

[5] Existe um documentário imperdível e comovente da autoria de Ana Sofia Fonseca, intitulado “Cesária Évora”, saído em 2022, que retrata de forma inédita e intimista a “diva de pés descalços”, desde a atmosfera generosa da sua casa, sempre de porta aberta, e o seu percurso internacional.

[6] Em 1997, “Buena Vista Social Club”, com quase três milhões de unidades vendidas, tornou‑se o álbum mais vendido na história da editora, o que promoveu a venda de centenas de milhares de álbuns de músicos vinculados ao projeto (Ibrahim Ferrer, Rubén González, entre outros).

[7] Não resisto em partilhar uma nota sobre o documentário award-winning,Sisters with Transistors”, dedicado às mulheres pioneiras na música eletrónica, que rompe um silêncio de décadas. Realizado por Lisa Rovner e narrado por Laurie Anderson, este documentário magnético saiu a lume em 2020 e em janeiro de 2021 em Portugal. Em março de 2021, Lisa Rovner e o coprodutor Marcus Hed juntam-se numa conversa entusiasmante acerca do documentário, organizada pela EMPAC – Experimental Media and Performing Arts Center, em Rensselaer, New York.

[8] Este oitavo álbum de Laurie Anderson, o terceiro sob a chancela da Nonesuch, é dedicado a Amelia Earhart (1897-1937), defensora dos direitos das mulheres e a primeira mulher a sobrevoar o Oceano Atlântico em 1928. Em Junho de 1937, começa a sua viagem ao mundo e desaparece. Publicou a obra « 20 Hrs., 40 Min. Our flight in the Friendship» (1928).

Gatekeeping e Newsmaking

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Introdução

Durante muito tempo, acreditou-se que a informação que passava nos media era recebida e interpretada da mesma forma por todos aqueles que estavam a assistir. Deste conceito surgiu uma teoria no início do Sec. XX que ficou conhecida como a teoria da bala mágica.

Esta teoria rapidamente se provou retrógrada e inverídica, tendo uns anos mais tarde se provado que a comunicação era feita em dois sentidos; surgiu assim a teoria two step flow of communication, caracterizada por um envolvimento maior entre o emissor e o recetor. Passou-se a acreditar que, ao receber a mensagem, o ouvinte tirava as suas próprias conclusões, conclusões estas que poderiam ser diferentes de indivíduo para indivíduo, e para além disso dava um feedback ao emissor.

A partir desta teoria, surgiram muitas outras ao longo dos tempos, sendo que se tomou como dado adquirido que a comunicação era feita em dois sentidos e não só em um.

Foi no ano de 1947 que surgiu a teoria do gatekeeping, que se apresentou como revolucionária e que perdura até aos dias de hoje. A palavra gatekeeping nada mais é do que a junção das palavras “gate”, que se traduz por “portão”, e “keeping” que se traduz por “guardar”, fazendo assim a palavra que no seu sentido metafórico se pode traduzir para algo como “guardar o portão”.

Esta teoria vem-nos dizer que os media têm fundamentalmente o papel de gatekeepers, e a sua função é filtrar a informação que circula, verificar a sua veracidade e só aí então apresentá-la ao público. Para facilitar podemos pensar no “gate” como a informação que é apresentada ao público, e a parte da verificação e validação dessa mesma informação para depois ser feita uma filtragem para decidir o que é ou não é passado no ar pode ser entendido como o “keeping”.

Na maior parte das sociedades do Sec. XX, em que as pessoas eram mais facilmente iludidas e acreditavam em tudo o que passava na televisão, este papel era fundamental. Porém, numa altura em que as Fake News são cada vez mais frequentes e que as redes sociais estão a ganhar terreno em comparação com os media tradicionais, este papel é absolutamente necessário também para a sociedade atual, pois estas mostram-se como um sítio onde a filtragem e validação da informação nem sempre é realizada.

Neste texto pretendo desenvolver e explicar mais aprofundadamente o que é de facto a teoria do gatekeeping, como ela surgiu e como evoluiu ao longo dos tempos. Para isso recorre-se à análise de diversos artigos e estudos realizados anteriormente de modo a que a nossa precisão esteja o mais fundamentada quanto possível. Pretendo ainda abordar o tópico de newsmaking, recorrendo às mesmas estratégias.

  1. Gatekeeping

A teoria do gatekeeping surgiu em 1947, autorada por Kurt Lewin, que, ao se aperceber que os hábitos alimentares e as atividades de lazer eram diferentes de família para família, decidiu estudar o porquê de tal fenómeno tendo por base a perspectiva psicológica (Barzilai-Nahon, 2009). Barzilai-Nahon, no seu livro Theories of Information Behaviour, de 2005, define Gatekeeping como um processo de controlo de informações. Já Pamela J. Shoemaker e Timothy Vos dizem que muitas pessoas veem o gatekeeping como “uma metáfora para descrever como as ‘notícias’ são descobertas e selecionadas pela mídia” e afirmam que essa visão é imprecisa, no seu livro Gatekeeping Theory. Cada pessoa tem a sua própria definição de valor de notícia e isso faz com que o conteúdo que é transmitido seja diferente e de diferente forma dependendo de quem o está a transmitir (Shoemaker e Vos, 2005). Mais tarde em 2009 Shoemaker e Vos desenvolvem a sua definição e acrescentam que “a teoria do gatekeeping examina o fluxo de informações da mídia para o público”. Afirmam ainda que “os gatekeepers atuam como mediadores, estabelecendo o que é informação importante e digna de ser transformada em mensagem pública”. Concluem dizendo que “os gatekeepers contribuem para a construção dos indivíduos na realidade social e da sua visão do mundo” (Shoemaker e Vos, 2009).

A base de todas as mensagens é a informação, que para chegar ao público passa antes por um conjunto de “portas” que a filtram e fazem a sua seleção e divulgação de acordo com critérios predefinidos (Shoemaker e Vos, 2005). Nem todas as informações têm a mesma chance de passar pela primeira das “portas” e a ordem pela qual os conteúdos aparecem no jornal, a duração de cada notícia na televisão, o local onde as notícias são colocadas (se na internet, se no fim ou início do jornal, etc.), tudo isso é resultado da filtragem feita anteriormente (Shoemaker e Vos, 2005). Um exemplo simples dado por Shoemaker e Vos na sua obra Gatekeeping Theory é o das doenças e de como os diagnósticos médicos só chegam aos meios de comunicação caso o indivíduo seja alguém bem posicionado na sociedade, influente ou com estatuto elevado (Shoemaker e Vos, 2005). Lewin, nas suas pesquisas, verificou que o processo de filtragem sucessiva pode ser aplicado a diversos casos da sociedade, sendo que a sua pesquisa mais famosa foi utilizando donas de casa e verificando que também elas tinham um papel um pouco semelhante ao de gatekeepers, na medida em que primeiro selecionavam o que iam preparar de jantar, em seguida que tipo de ingredientes e de onde os iam buscar, em seguida a forma de cozinhar, chegando eventualmente ao resultado final que seria indesejado ou desejado dependendo de a quem fosse servido (Barzilai-Nahon, 2009).

A globalização e o surgimento da Internet vieram complicar o processo de gatekeeping, uma vez que “os gatekeepers dependem das informações demográficas do público para controlar o fluxo de informações através dos portões” e, naturalmente, com a diversidade de pessoas a aceder às redes constantemente, este processo de mudança nas audiências complicou o movimento de passagem das informações por entre as “portas” (Shoemaker e Vos, 2009).

Os gatekeepers fazem o seu próprio juízo de valor na informação, e é exatamente isso que lhes permite selecionar a informação, sendo que tudo o que lhes possa ser prejudicial para a sua imagem é, naturalmente, eliminado (Barzilai-Nahon, 2006). Sendo assim Barzilai-Nahon (2006) enuncia “oito critérios principais do Gatekeeping, que, de certa forma, se relacionam todos entre si e que incitam à filtragem de conteúdos”, e são eles:

  • Violação da cultura comunitária; este critério define-se por práticas que “podem pôr em risco o nível de compromisso que o utilizador tem para com a página da marca” e dá o exemplo de “comentários de outras marcas ou de outros utilizadores que incitem o próprio utilizador a deixar a página em que está e ir visitar outras páginas de marcas ou de produtos” (Barzilai-Nahon, 2006).
  • Conteúdos Irrelevantes; tratam-se de “todos os conteúdos que não se relacionam de forma alguma com o tema central da página” (Barzilai-Nahon, 2006).
  • Informação Comercial; trata-se da “publicação de conteúdos comerciais que tenham como objetivo a sua própria promoção e que não se relacionam de forma alguma com a marca ou com o utilizador detentor da página” (Barzilai-Nahon, 2006).
  • Proteção dos Limites Comunitários; a autora explica isto como “cada página tem as suas regras e os seus limites relativamente aos conteúdos, como tal, conteúdos que não respeitem esses limites serão imediatamente eliminados” e dá o exemplo de comentários ofensivos e impróprios (Barzilai-Nahon, 2006).
  • Atividades Ilícitas; trata-se da “divulgação de atividades que não sejam legais” (Barzilai-Nahon, 2006).
  • Difamação; trata-se da “publicação de conteúdos que difamem a marca ou os utilizadores” (Barzilai-Nahon, 2006).
  • Racismo; engloba “conteúdos que sejam racistas e que ofendam os utilizadores” (Barzilai-Nahon, 2006).
  • Propensão para a Violência; tratam-se de “conteúdos que tenham como objetivo incitar à violência” (Barzilai-Nahon, 2006).

A partir da teoria do gatekeeping foram desenvolvidas várias teorias devido à larga diversidade do conceito e da sua aplicação a diversas áreas, tais como a comunicação, ciência da informação, ciência política, gestão da tecnologia, entre outras (Barzilai-Nahon, 2009).

1.1 Network Gatekeeping

Com o surgimento da Internet, a comunicação sofreu uma transformação. Shoemaker e Vos afirmam, em 2009, que “a Internet difere de outras formas de mídia e comunicação de massas, pois oferece maior oportunidade para interatividade e conversa bidirecional”. Com esta maior proximidade das plataformas digitais, os utilizadores podem entrar diretamente em contacto com o jornalista e dar o seu parecer sobre as notícias (Shoemaker e Vos, 2009). Os gatekeepers podem aumentar a sua eficácia usando a Internet adequadamente; desta forma, irão obter melhores informações e acesso a indivíduos comuns e/ou potenciais clientes (Moller e Halinen, 1999). A Internet tem um potencial interativo muito grande e possui recursos característicos, o que aumenta “as formas pelas quais os indivíduos podem transformar o fluxo de notícias” (Finnemann, 2011). De acordo com Shoemaker e Vos, os próprios membros do público são considerados gatekeepers secundários na Internet (Shoemaker e Vos, 2009). Eles vão mais além ao afirmar que a teoria do gatekeeping foi redefinida pelos membros da audiência devido ao seu papel mais ativo. Aliado a isto, afirmam ainda que o conceito de público também foi alterado, pois estes “tornaram mais difícil medir e prever o público-alvo devido à influência global da Internet” (Shoemaker e Vos, 2009). “A Web 2.0 dá a todos uma oportunidade igual de se tornar um gatekeeper online, sugerindo que a própria multidão ou rede também funciona como um gatekeeper” (Keen, 2008).

Tendo tudo isto em consideração, foi em 2005 que Barzilai-Nahon desenvolveu uma nova teoria, à qual chamou de Teoria do Network Gatekeeping. A autora explicou o desenvolvimento desta teoria numa declaração em que disse que “a Internet é um espaço aberto que dá origem a vários tipos de comportamentos e, como tal, o controlo de informação no meio online é frequente”. Afirmou ainda que não só o papel dos gatekeepers mudou devido à Internet, mas também o próprio processo de gatekeeping; o processo de gatekeeping passa agora a englobar várias fases, tais como: seleção, adição, retenção, canalização, manipulação, repetição, localização, integração, ignorar e exclusão de informações (Barzilai-Nahon, 2005).

Esta teoria possui diversas ramificações que vão desde a “compreensão da disseminação de informações” até ao estudo do “comportamento dos utilizadores na Internet”: porém o seu ramo principal baseia-se na “avaliação do poder das relações na Internet” e na “conceptualização da distribuição e os processos de controlo de informações” (Barzilai-Nahon, 2005). Os objetivos prenderam-se com a prevenção de utilizadores e empresas a “eventuais obstáculos que os impedem de ter uma presença eficiente e eficaz na Internet, bem como ajuda a perceber o tipo de forças que controlam e fornecem a informação que circula na rede” (Barzilai-Nahon, 2005).

1.2 Teoria do Gatekeeper

Kurt Lewin foi o primeiro autor com preocupações sociais na área da comunicação de massas a indicar que a passagem da informação pelos “portões” do gatekeeping era predefinida e a seleção da mesma era “regida ou por regras imparciais ou por um grupo no ‘poder’ que tem o papel de decidir: o que aprovar e o que rejeitar” (Traquina, 1993). No seguimento desta teoria, Lewin acreditava que “compreender como é que o portão funciona era compreender que fatores é que determinam as decisões dos gatekeepers” (D’Aiola, apud. Reis, 2016). Assim podemos afirmar que uma das explicações do jornalismo “advém da própria teoria do gatekeeper, pois a sua função está ligada intimamente à ação pessoal do jornalista”, isso faz com que o jornalista “perca a sua isenção de imparcialidade” ao efetuar o papel de gatekeeper (D’Aiola, apud. Reis, 2016). Assim, o termo gatekeeper pode ser aplicado “à pessoa que toma uma decisão numa sequência de decisões”, sendo normal que “uma notícia sobre um mesmo assunto difira de jornalista para jornalista” e que as notícias sejam “explicadas como um produto das pessoas e das suas intenções” (Traquina, 2002).

1.2.1 Teoria do Gatekeeper — David Manning White

Segundo o professor David Manning White, “uma notícia é transmitida de um gatekeeper para outro na cadeia de comunicações” (Traquina, 1993). Acaba por ser através deste estudo do gatekeeper que White percebe que o processo de seleção da informação seguido da comunicação das notícias é feito de forma pessoal e arbitrária e, sendo o jornalista um gatekeeper, é responsabilidade deste selecionar o que deverá ser publicado e o seu detalhe (Traquina, 1993). Como observa Carla D`Aiola (2003) “o gatekeeper é quem determina o que atravessa o portão de entrada no jornal, ou seja, o que será visto pelo leitor” é ainda “aquele que determina o que será notícia e o que não será”. Sendo assim a teoria do gatekeeper acaba por limitar e minimizar outros pontos do processo de produção jornalística, ao propor “uma concepção bem limitada do trabalho jornalístico, baseando-se no conceito de ‘selecção’” (Traquina, 2002). Defendendo que o gatekeeping não é uma simples operação de selecção e querendo alargar este conceito, Donohue, Tichenor e Olien (presentes na obra de Traquina, 2002), apresentam outros elementos envolvidos no processo de aprovação ou rejeição de informação dizendo que o gatekeeping nos mass media inclui todas as formas de controlo da informação, que “podem estabelecer-se nas decisões acerca da codificação das mensagens, da selecção, da formação da mensagem, da difusão, da programação, da exclusão de toda a mensagem ou das suas componentes”.

Todas as conclusões que White apresentou foram analisadas e criticadas por diversos autores, que concluíram que o jornalista decide mediante uma liberdade condicionada. As razões da decisão do que passa pelo portão são principalmente de foro profissional e não subjetivo, não decorrendo, assim, das avaliações pessoais do indivíduo que exerce a atividade jornalística, mas da estrutura burocrática (Abras & Penido, 2006). Desta forma, a teoria do gatekeeper baseia-se numa seleção de informação, de tal forma que “a maior parte do gatekeepingcabe ao espaço organizacional, pois coloca limites ao trabalho do jornalista, que acaba por se submeter às políticas e aos interesses corporativos” (Abras & Penido, 2006). A análise das notícias que atravessam o portão é influenciada, maioritariamente, pelo meio em que vivem os jornalistas; sendo assim, a subjetividade destes acaba por ser determinada pelo seu ambiente social e comunitário e pela formação cultural e ideológica que lhe é intrínseca, incluindo a sua concepção ética e aquilo que considera como moralmente aceitável ou não (Abras & Penido, 2006).

1.2.2 Teoria do Gatekeeper – Warren Breed

Devido à necessidade de se explicar a teoria do gatekeeper a partir do ponto de vista social, Warren Breed em 1955 cria a “teoria organizacional”, na qual o autor procurou alargar a perspectiva teórica do gatekeeper, centrando-se no estudo da organização jornalística (Traquina, 2002). Ou seja, o jornalista seguirá mais facilmente as normas editoriais e organizacionais do local onde trabalha, do que as suas ideologias, as suas crenças pessoais (Traquina, 2002). Como a empresa controla o trabalho do jornalista, ele, enquanto funcionário da empresa, “aprende a antever aquilo que se espera dele, a fim de obter recompensas e evitar penalidades” (Traquina, 2002).

Na sua teoria organizacional, Breed identifica seis factores que promovem esta relação de conformismo do jornalista para com a política editorial da organização para a qual trabalha, sendo estes:

  • A autoridade institucional e as sanções (Traquina, 2002).
  • Os sentimentos de obrigação e de estima para com os superiores (Traquina, 2002).
  • Aspirações de mobilidade (Traquina, 2002).
  • A ausência de grupos de lealdade em conflito (Traquina, 2002).
  • O prazer da atividade (Traquina, 2002).
  • As notícias como valor (Traquina, 2002).

Portanto, segundo esta teoria, as notícias acabam por ser o resultado de sucessivos processos de interação social que têm lugar dentro da empresa jornalística (Traquina, 2002). Deste modo, “o jornalista sabe que o seu trabalho vai passar por uma cadeia organizacional em que os seus superiores hierárquicos e os seus assistentes têm certos poderes e meios de controlo”, isso faz com que ele tenha “de se antecipar às expectativas dos superiores para evitar retoques nos seus textos e reprimendas” (Traquina, 2002).

Breed conclui, então, que “a linha editorial da empresa jornalística é geralmente seguida”, e que “a descrição da dinâmica situação sociocultural da redacção sugerirá explicações para este conformismo.” (Traquina, 2002). Através desta teoria conseguimos perceber que os jornalistas não são os únicos gatekeepers, pois os editores também têm pelo menos uma importante palavra a dizer sobre a informação que deve ser publicada e que chega ao público (Traquina, 2002).

1.2.3 Teoria do Gatekeeper – Edward S. Herman e Noam Chomsky

Na sequência das teorias sobre a relação entre a seleção das notícias e a organização empresarial, surgiu a teoria da ação política (Traquina, 2002). Genericamente, pode dizer-se que esta teoria veio abordar a atividade jornalística sob o ponto de vista político e social e a sua capacidade enquanto quarto poder, apresentando os média como um instrumento que serve os interesses políticos ao considerar “que o conteúdo das notícias não é determinado a nível interior, nem a nível interno, mas a nível externo, a nível macroeconómico” (Traquina, 2002). Assim, o processo noticioso mantém uma relação direta com a estrutura económica da empresa jornalística, que dita o que é publicado (Traquina, 2002).

Edward S. Herman e Noam Chomsky (citados em Traquina, 2002) apresentam cinco factores que explicam a sujeição dos jornalistas aos interesses do sistema estabelecido:

  • A estrutura de propriedade dos média (Traquina, 2002).
  • A sua natureza capitalista, traduzida na procura do lucro e consequente importância da publicidade (Traquina, 2002).
  • A dependência dos jornalistas das fontes governamentais e do mundo empresarial
  • As ações punitivas dos poderosos (Traquina, 2002).
  • A ideologia anti-comunista dominante entre a comunidade jornalística norte- americana (algo que hoje não se aplica) (Traquina, 2002).
  1. Newsmaking

Uma notícia é aquilo que a sociedade acha pertinente e relevante, (Fernandes, 2011). Este conceito surgiu dos estudos de Kurt Lewin em 1947. Nascido onde nos dias de hoje é a Polónia, ele foi considerado um dos pais da psicologia, pois no seu tempo de vida ele contribuiu imenso para os estudos sociais, (the author, 2008).

Lewin, neste conceito, aborda a produção de notícias, desde os processos pelos quais as informações passam até chegarem à sociedade, bem como os jornalistas selecionam essas informações. Estas são recolhidas através de acontecimentos do nosso dia a dia, passando por uma prévia seleção feita pelos jornalistas. Logo o tipo de notícia que chega ao público está dependente da interpretação e julgamento do emissor (Silveira, Pavarino, 2009).

De modo a diminuir e selecionar a quantidade de informação existente, os meios de comunicação criaram um conjunto de critérios para ajudar nesta tarefa. Para ser produzida e selecionada a informação noticiosa, esta deve respeitar três exigências: “transformar um acontecimento desconhecido num acontecimento notável e reconhecido por todos”, “ relatar os acontecimentos de forma a demonstrar que foram tratados de forma natural, sem qualquer tipo de pressões ou influências” e “organizar a informação no tempo e no espaço, de forma a ser trabalhada e planificada, permitindo então que os acontecimentos noticiáveis fluam” (Wolf, 1995, pp. 188-189). Na hora de produzir as informações, “a elaboração da pauta, a seleção das fontes e o trabalho de apuração, redação e circulação da notícia” são fatores decisivos na escolha da informação, tal como os valores da pessoa que está a selecioná-la, (Traquina, 1988/1993:167).

Deste modo, é correto afirmar que o newsmaking vem provar o prestígio do trabalho dos profissionais e dos processos pelos quais eles passam. Estes precisam de selecionar as ocorrências que são dignas ou não de ser divulgadas, tendo por base “um número imprevisível e indefinido de factos” selecionam apenas uma “quantidade finita e estável de notícias” (Wolf, 1995, p. 190). Com este trabalho em mãos, houve a necessidade de criar algo que ajude a dividir o que é, ou não, útil para ser noticiado. Criaram-se três objetivos principais para estes critérios: fazer com que algo pouco conhecido se tornasse importante socialmente, contar o que aconteceu fazendo parecer que é natural e nunca forçado, e, por último, manter a informação junta e metodicamente posta de modo a ser fácil agrupá-la em espaço-tempo, deixando as notícias fluir (Wolf, 1995, pp. 188-189).

Wolf (2003) diz então que o jornalismo tem obrigatoriamente uma passagem pela noticiabilidade e os critérios de relevância, que definem o valor de um acontecimento na sociedade.

2.1. Noticiabilidade e valores notícia

Noticiabilidade pode ser definida como “o conjunto de elementos através dos quais o órgão Informativo controla e gere a quantidade e o tipo de acontecimentos, de entre os quais há que selecionar as notícias” (Wolf, 1995, p. 195). Posto isto, sabemos que os valores da notícia são componentes desta e que têm como objetivo dar resposta a “quais os acontecimentos que são considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícias” (Wolf, 1995, p. 195).

Sendo assim, os valores de notícia seriam “critérios de relevância espalhados ao longo de todo o processo de produção” (Wolf, 1995, p. 195) que são relevantes até à conclusão da criação da notícia, e que podem ser utilizados com duas funções diferentes: como componentes incorporados no trabalho final, ou como um guia para moldar o que será mostrado à sociedade. Estes valores transformam-se em particularidades dos eventos ou do trabalho jornalístico, a partir dos quais dá para entender os dados que podem ser colocados na informação noticiosa. Assim, os valores de notícia tornam mais fácil, rápido e eficaz o trabalho dos profissionais.

Para que estes funcionem adequadamente, é necessário que a maneira de os aplicar seja versátil, rápida e fácil, para que não restem dúvidas quanto à divisão dos conteúdos. Com isto por base é possível afirmar que os valores notícia têm “por objectivo atingir fins práticos de uma forma programada” e estão destinados “a tornar possível a repetitividade de certos procedimentos” (Wolf, 1995, p. 197), e por isso devendo dar oportunidade para uma separação quase automatizada. Ainda que possam ser definidos e explicados, é um facto que os valores notícia mudam conforme os tempos correm, tendo em conta que coisas que eram relevantes no passado, hoje não o são.

2.2 Critérios de seleção de informação

Um dos critérios mostrados por Wolf, que o mesmo considera como classe dos valores notícia, são os critérios relativos ao produto. Este “diz respeito à disponibilidade de materiais e às características específicas do produto informativo” (Wolf, 1995, p. 206), que está ligado ao fácil alcance do acontecimento e à capacidade de administração jornalística, principalmente se não levar a um grande consumo de meios. “Os critérios relativos ao produto são aplicados a cada notícia mas, “quanto menos importante é a notícia, mais eles entram em jogo na sua avaliação”” (Gans, citado em Wolf, 1995, p. 206).

Outro critério corresponde ao da brevidade, que implica a notícia não ser muito extensa para que as pessoas que a leem conseguirem guardar a o material que lhes foi transmitido. É trabalho do jornalista fazer com que fiquem escritas apenas as partes mais importantes dos documentos noticiosos. Nos critérios de relevância que dizem respeito ao produto está inserido aquele que fala sobre a notícia como resposta de uma filosofia da informação, que se enquadra na história classificação informativa e do jornalismo. Desta forma, “constitui notícia aquilo que altera a rotina, as aparências normais” (Wolf, 1995, p. 206). Como afirmam Galtung e Ruge, quanto mais marcante e escandaloso for um evento, maior será a probabilidade de ser transformado em notícia.

O terceiro critério corresponde à atualidade e à frequência, mais especificamente à periodicidade, do modo que esta demonstra como é que determinado acontecimento demora a ser transformado até obter algum sentido. O valor de notícia, correspondente ao critério relacionado à frequência, trata da demarcação do espaço-tempo que é intrínseco à notícia. De acordo com a visão da escolha de ocorrências capazes de serem publicadas, Wolf considera que este critério “facilita e confere maior rapidez à escolha” (Wolf, 1995, p. 211) uma vez que demanda uma pré-seleção antes da execução dos outros valores de notícia.

O valor de notícia que remete ao meio de comunicação indica o tempo de extensão das produções, acabando assim por ser distribuído. Uma mudança significativa feita na base de uma produção noticiosa, segundo Wolf, terá sempre a modificação dos valores notícia usados na seleção das informações. A continuidade também é considerada valor de notícia, retrata atuais progressos de uma acontecimento já explorado. Se uma informação noticiosa é considerada reiterativa, não terá capacidade de ser publicada. O equilíbrio é o último valor de notícia relativo ao produto e ligado à “composição equilibrada do noticiário no seu conjunto” (Wolf, 1995, p. 209). As notícias buscam a numerosidade, de maneira a manterem-se equilibradas. Esse balanço só é possível quando estas se apoderam de todo o país e referem todas as faixas etárias e classes sociais.

Wolf menciona ainda um outro critério que se foca no meio de comunicação, mais especificamente na televisão, não por este ser superior ao resto dos meios, mas sim por este concentrar-se nas imagens associadas às notícias apresentadas. Mas na hora de apresentar uma notícia, é nas palavras que reside a informação necessária para criar uma boa conteúdo, visto que estas podem apresentar imagens ou não, uma vez que estas funcionam como um complemento da notícia. Isto é o que acontece na televisão: primeiro relata-se a informação e só depois é que são apresentadas as imagens a complementar a notícia. Gans (citado em Wolf, 1995, p. 210), afirma que a televisão “procura produzir um produto interessante e que entretenha o seu target, o seu público-alvo”, já que se uma notíca for passada no meio de comunicação televisão e não apresente texto verbal nenhum, para além de ficar descontextualizada torna-se aborrecida e confusa para os espectadores. É por esta razão que o valor de notícia está ligado aos critérios de relevância relativos ao público.

O quarto valor de notícia é constituído precisamente por estes critérios relativos ao público, que consistem no foco dos jornalistas na notícia e nas informações que estão a transmitir e não no público, pois quanto mais tempo passarem nestes menor se dedicam à notícia. (Wolf ,1995, pp. 212-213).

Em conclusão, a competição existente entre os meios de comunicação contribui para que haja modelos de referência entre eles. Esta competição está relacionada com os critérios relativos à concorrência, que vem também reforçar alguns valores de notícia. Os valores notícia passam também por uma avaliação relativa à reciprocidade que possuem entre as ligações formadas entre eles, e esta avaliação pode ser igualmente realizada através dos critérios relativos aos produtos, ao meio de comunicação e ao formato, (Wolf, 1995, p. 199).

Assim sendo, para Wolf, existem quatro variáveis de fator que levam à importância da notícia:

  • O estatuto social do indivíduo: quanto mais alta é a classe social de sobre quem é a notícia, mais facilmente a sociedade o reconhece;
  • a repercussão que tem na sociedade: se o acontecimento for sobre o país em questão ou sobre algo que o impacte diretamente, a notícia tem mais valor;
  • a quantia de indivíduos inseridos na ocorrência: se houver mais vítimas num acidente ou mais figuras da alta sociedade juntas em algum sítio, a notícia é mais viável;
  • o seguimento: se a notícia for o acontecimento adjacente ou da mesma sequência de outra, tem mais prestígio, assim como se for possível haver uma continuação no futuro.

Adenda: Diferença entre Gatekeeping e Newsmaking

    Os estudos realizados sobre a teoria do Gatekeeper tendiam a relacionar o que sai nos media através de um processo que organizava o que era viável de ser transmitido, realizado pelo chamado “Guarda do Portão” (o gatekeeper); já as pesquisas a serem feitas no âmbito do newsmaking “relacionam a imagem da realidade social, fornecida pelos mass media, com a organização e a produção rotineira dos aparelhos jornalísticos” (Wolf, 1995, p. 183). Assim, a mais evidente distinção entre o Gatekeeping, onde são escolhidos os conteúdos, e o Newsmaking, onde são produzidos, é o facto de, na sua produção, esta não se prender exclusivamente “à cobertura de um acontecimento particular, mas ao andamento normal da cobertura informativa por períodos prolongados” (Wolf, 1995, p. 186).

    Referências bibliográficas

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    Traquina, Nelson (2002): O que é Jornalismo. Brasil: Quimera

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    Lopes, Anabela Sousa; Silvestre, Cláudia; Mata, Maria José (2020): “’O que é jornalismo?’ – Perceções de estudantes de jornalismo no século XXI”. Lisboa

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    Reis, Pedro Filipe Bastos dos (2016): O newsmaking da secção Mundo do Público, Escola Superior de Comunicação Social

    Roberts, Chris (2005): Gatekeeping theory: An evolution, The University of South Carolina

    Anatomia de um Amor Virtual: Olhar o Vácuo.

    Tomás Pereira Botelho
    Atenas, Verão de 2024

    “É possível habituar todas as grandes massas ao kitsch. E depois é fácil afirmar que elas não entendem nem querem mais nada”

    Heinrich Mann.

    Os americanos pareciam já não estar unidos por crenças comuns mas por imagens comuns: o que nos liga passou a ser o que testemunhamos.

    David Foster Wallace.

    A cerca de 200 metros de mim mora uma pessoa grega com que costumava conviver. O que não será de surpreender, considerando que moro em Atenas. Ela trabalhava num café, este também situado a poucos metros da minha casa. Ela tinha por hábito sair com raparigas que conhece ou em contexto de trabalho, ou via apps de encontros. Alardear não consiste do seu vocabulário; resume-se a uma existência proporcional a rumos de outrora, em que o culto do narciso não era tão exponencial. Ocasionalmente conheçia uma dessas raparigas: eram pessoas interessantes, curiosas e cujas afirmações prosaicas revelam a profunda crise da inexistência de condições sociais e românticas estáveis e alicerçadas, com que as gerações contemporâneas se debatem. Não o explicitam; são insinuações, desabafos contidos, murmúrios agitados pelo consumo de desinibidores[1]. Queremos todos descobrir naquilo que nos tornámos após as sucessivas crises financeiras e amorosas; e tudo o que a nossa vida conheceu foram, invariavelmente, crises.

    Noutro ponto da Europa, uma amiga próxima recorre às revoluções tecnológicas para me comunicar, via Instagram, que tem uma namorada. “Ela é libanesa, mais nova que nós, mas mais consciente. Viver no Líbano… Consegues imaginar?” A minha amiga mora em Lyon, onde conheceu a namorada – recorda-me de imediato de Virginie Despentes e das suas vivências em Lyon. A pergunta retórica da minha amiga portuguesa não me abre espaço para o pensamento seguinte, uma bolha de texto encravada na engrenagem da comunicação, um “a escrever” fantasmagórico. Apenas li sobre o tipo de conflitos e traumas um lugar como o Líbano possa inflingir, e há limites para o que a empatia antropológica nos permite conceber. Descobri, ao longo de mais mensagens, que se tinham conhecido através do Tinder, que tinham saído juntas algumas vezes, um percurso em nada peculiar considerando o ano em que vivemos, simultaneamente representativo da facilidade com que se estabelecem relações com pessoas fora do nosso espectro cultural, identitário, nacional, social, ou até mesmo do nosso panorama fantasioso. É, igualmente, representativo da vida pós 30 anos de portugueses que se encontram fora do país; comunicamos por breves trechos de como estás, como vai a vida, quando me vens visitar, e novidades. Fragmentos anacrónicos mas carregados de simbolismo interno, como se cartas de Rilke a um jovem poeta as pudéssemos comparar. As efusivas conversas sobre o estado social e o estado a que chegámos são guardadas para quando nos encontramos, um fogo que absorve, como lenha que o alimenta, as ocasionais notícias do Público, Jornal de Notícias ou SIC que partilhamos. Ao longe, não vemos apenas como os nossos modelos românticos se expandiram (ou contraíram, se foram pessoas que preferem manter-se na companhia da língua materna), mas também nos indignamos face a pobreza de espírito de um Portugal sôfrego por regressar às suas raízes salazaristas.

    De Portugal, mais uma vez recebia mensagens no Instagram: outra amiga conta-me como conheceu o marido, um pintor japonês. Conhecera-o não numa aplicação de encontros, mas numa aplicação de aprendizagem de línguas, onde frequentemente costumava ir para conversar com humanos fluentes em japonês (fossem eles japoneses ou não, contudo, ditaria a estatística, que o mais provável era que acabasse por conversar com, efectivamente, um japonês). Desconheço mais detalhes da história, ou se os conheço, não vejo necessidade de os partilhar. O marido diz-me que ler Mishima em japonês é uma experiência estruturante, e que as traduções não nos transportam da mesma maneira. Tomo uma nota mental de que terei que, eventualmente, aprender japonês.

    É um percurso emocional palindrómico. Saudades. Procura de ligação. Abrir a aplicação de encontros incessantemente, ou ter as notificações activadas e não nos conseguirmos desligar da necessidade de verificar, a cada segundo, se alguma mudança ocorrera. Uma outra amiga grega, esta numa espécie de relação de osmose com um rapaz algo totó[2], confidencia-me que tem medo que os momentos lhe escapem, que receia estar a perder algo significante; explico-lhe que envelhecer é compreender que não somos omnipresentes, medimos as consequências e optamos. De que vale ter tanta liberdade de escolha se não recorrermos ao acto de escolher? O seu telemóvel apita: mais uma notificação de alguém a fazer algo algures na cidade de Atenas. O seu semblante torna-se reservado; quem lhe dera ser feita de algo imaterial e suster a consciência espalhada por uma cidade.

    No Inverno de 2022, após uma separação consideravelmente traumática, brutal e negligente, resolvi, pela primeira vez na minha – ainda – curta vida recorrer a uma aplicação de encontros. Recuso-me a divulgar os ecos privados que me iam na cabeça, mas uma aproximação matemática colocar-me-ia no espectro do desespero e depressão. Não me era particularmente alegre apresentar-me numa aplicação de encontros; sempre preferi conhecer pessoas que pudesse olhar nos olhos, embora, num passado adolescente, tenha sido grande utilizador da rede HI5, mas esse tópico será conversado mais tarde, talvez nunca.

    Foi, pois, com um conjunto de auto-reprimendas e auto-piedade, que marquei encontro com uma rapariga proveniente de um país europeu que tinha recentemente sido invadido[3]. Passada uma inexorável fase exploratório do Tinder, onde me senti exposto como um frango de campo, muito orgânico, muito amigo do ambiente, no talho do meu velho bairro, acabei por, a partir de uma amostra de barro, me transformar na estatueta afável dos encontros cegos. Não era tanto a falta de confiança que se sobrepunha à lógica da procura: não obstante a depressão associada à ruptura de uma relação de três anos, ainda era capaz de me afirmar como um bom partido, um homem carinhoso e cuja imagem sempre se aprimorou como cuidada. Era a infalível e tenebrosa despersonificação que decorria do acto de me registar e transfigurar num perfil bi-dimensional captado unicamente por um meio abjecto, por sua vez transposto para objectos telefónicos com acesso à internet espalhados pela região de Lisboa. Cessara a humanidade, assim como a humildade. Cessara a “representação do eu na vida quotidiana” que Goffman encetara como ponto de partida do seu pensamento sociológico. Cessara, a privacidade auto-imposta.

    Recordo-me de, enquanto preenchia o perfil virtual, de me indagar se isto seria uma solução para algo inconcebível mas que perdurava, ou um novo problema em si mesmo. Mais tarde vim a descobrir que, apesar de nunca ter sofrido do síndrome que Father John Misty, com poesia peremptória, categoriza como “Eventually the dying man takes his final breath / But first checks his news feed to see what he’s ‘bout to miss”, ou seja, aquela necessidade fisiológica de estar sempre acompanhado do dispositivo nas mãos[4]; o resultado de me ter inscrito numa aplicação de encontros foi, infelizmente, o surgimento dessa necessidade maníaca e neurótica de ter que verificar se tinha alguma mensagem no Tinder, dado que abomino activar notificações. Tal como um Woody Allen que precisa permanentemente de ter razão, ou corrigir membros de uma fila de cinema que debitam Marshall McLuhan, também eu me tornara num ser encurvado, cinzento e histérico que corria da casa-de-banho para verificar as mensagens antes de me ausentar por vinte minutos enquanto condicionava o cabelo e fazia a barba[5].

    Várias tentativas infrutíferas depois, e o dispêndio de uma quantia equivalente à compra de um novo livro, com o objectivo de puder gostar de perfis de raparigas todo o dia, quando quisesse, encetei conversa com, talvez, quatro ou cinco raparigas[6]. Destas quatro ou cinco consegui obter respostas não monossilábicas talvez de duas, e marquei um café com uma, a tal que supra-mencionei. O processo de selecção era, em certa medida, um duplo processo de selecção: podemos gostar do perfil da pessoa, mas essa pessoa tem de gostar de volta, tal como podem gostar do nosso perfil e nós teremos de gostar de volta – ou não. Só através desse embate de gostos simultâneos é que a oportunidade de conversa surge (algo que sempre me confundiu um pouco, admito; não será o conhecimento embalado pela conversa, e não a conversa um efeito secundário do conhecimento aleatório?). Postas as coisas de forma lógica: lá porque gosto de cinema isso significa que automaticamente só posso falar com a rapariga Alfa se ela gostar de cinema também? E se o seu universo cinematográfico consistir de Marvel ao passo que o meu consiste de Sorrentino? Ainda damos “match”, ou estamos destinados ao infortúnio?

    A espantosa alegoria, e subsequente ironia, do filme Fingernails, consiste na eliminação desta litania enfadonha-romântica de termos de, por pura serendipidade, encontrar a agulha no palheiro das ofertas que o Tinder nos proporciona. Ainda que o argumento do filme reitere que o vazio da certeza da relação – processo obtido pela remoção de unhas e consequente testes realizados – pode surgir como uma armadilha de tédio, a alternativa, para um homem heterossexual de vinte e nove anos de infinita oferta mas parca correspondência, também não é necessariamente um processo de adulação e exaltação. Frequentemente caía sobre o sofá em vazios existenciais e piscinas de solidão. A metáfora das paredes a caírem sobre nós, a fecharam-se sobre nós, tornou-se, na medida do bizarro, a realidade nata e quotidiana, incrementando os paroxismos da depressão e da alienação prolongada fruto de uma ruptura relacional.

    Não me recordo quando é que apaguei o Tinder. Conto somente com um encontro infrutífero. Para muitos azar; no meu entender o investimento mínimo fora um investimento a mais.

    Dubravka Ugresic, menciona que “é graças à tecnologia digital, não a Marx, que o homem comum se aventurou no comunismo”; os Instagrams, os Facebooks, toda a panóplia de coisas que fazemos na Internet, consagraram uma libertação pessoal de magnitudes que, porventura, ainda não compreendemos (se bem que sinto que talvez o iremos começar a compreender quando estudarmos a tendência dos votos de eleições realizadas em 2024). Criamos o nosso conhecimento linear, os nossos factos dogmáticos – em detrimento das realidades complexas e cinzentas, o que acarreta perigos democráticos e intelectuais.

    Nesse sentido, uma das obras seminais para compreender a Internet provém das mente de Daniel Miller (antropólogo britânico) e de Don Slater (sociólogo britânico), uma obra de pesquisa e análise cujos pilares assentam em três premissas / conclusões:

    A – A internet pode ser estudada não como tecnologia em si mesma (o livro foi editado em 2000, um momento de grande crescimento financeiro e económico graças ao primeiro boom do dot com) mas também como um conjunto de práticas sociais e culturais, mapeando não apenas geografias virtuais, mas também geografias físicas;

    B – Possibilidade de surgirem novos modelos de trabalho de campo etnográfico e novas formas de imersão nas estruturas sociais (porventura trabalhar num local estático durante anos a fio deixará de ser a norma);

    C – A criação de etnografia / pesquisas colaborativas, que considerem as especificidades de conhecimento de múltiplas disciplinas / áreas de produção (algo que, actualmente, é inevitável)

    Do livro nasce uma história de investigação exemplar, referente à forma como famílias em Trindade se mantêm com contacto com outros familiares na Grã-Bretanha e Estados Unidos da América, em particular mães e filhas. Consequentemente, geram-se novos modelos de comunicação, idiomas e vernáculos inovadores e ícones / simbolismos identitários. Graças ao advento da comunicação virtual, a mensagem é transmitida a partir de um texto elaborado em papel, para uma série de baques num teclado, para alfabetos que não conseguimos alcançar e entrelaçar nos dedos; estes somente existem como iconografias no éter, moldando, manobrando e mantendo as relações afectivas entre famílias distantes.

    Daniel Miller e Horst, por sua vez, editam, mais tardem, um livro sobre modelos de pesquisa etnográfica na Internet, agregando ensaios que não só apresentam inovadores utilizações, como também retratam alguns dos temas incontornáveis para se pensar e enquadrar a Internet em si. Porventura o mais frisante e hodierno texto é da autoria de Tom Boellstorff, registando um prolífico e fundamental argumento sobre a aparente dicotomia entre o que é virtual e o que é actual (real). O autor defende que conceptualizar o virtual e o actual como mundos onde as barreiras se esbatem e que se assimilam é perigoso, assim como estipular que estas esferas de operação se afastam cada vez mais uma da outra, dado que metáforas espaciais, inclusive, impedem de representar a totalidade de conexões materiais e semióticas entre ambos. Como tal, propõe estruturar o pensamento sobre o digital em modos de indexicalidade. Um símbolo de indexação comum é o de que fumo é a indexação de fogo, contudo fumo não representa fogo tão bem quanto a própria palavra “fogo” o representaria numa história, ou numa alusão a acontecimentos de um determinado dia. Desta forma, o fumo é conectado espacial, temporal e fisicamente a outro acontecimento, outro conceito / fenómeno, derivando o seu significado precisamente desta ligação, e não da sua presença linguística. Denotando que os contextos de indexação de interacção são, pois, dinâmicos, Boellstroff considera-os como modelos para repensar a etnografia digital, acrescentando que estes processos de nos movimentarmos entre espaço, tempo e realidades sociais já não se encontram alicerçados somente no offline, mas também no online.

    Consequentemente, durante os meses de escrita da minha tese de mestrado em Antropologia Social e Cultural, bebi frequentemente das proposições de Boellstorff, considerando que o meu objecto de estudo eram videojogos e comunidades online de “multiplayer” RPG’s[7]. Descrevi mundos de indexações; em cenários de aparente osmose e co-dependência, foi curioso verificar até onde é que os teoremas antropológicos de Boellstorff aguentariam. Eventualmente apercebi-me que, de maneira a conseguir ilustrar e descrever correctamente a pletora simbólica, imaterial e identitária da conexão de um jogador e um videojogo contemporâneo, que indexações não bastam, mas é necessário, também, identificar os pontos de contacto. Pontes que unem duas esferas paralelas[8], como é que o virtual nos alberga, e como é que o actual nos confunde. Consequentemente assistimos à equiparação ou equivalência de narrativas e padrões de comportamento psico-cultural entre a rotina actual e as rotinas virtuais. Muitos jogadores sustentavam e investiam emoções, dinheiro e tempo em relações somente virtuais com outros jogadores. Clarifico: não era o jogador que se envolvia romanticamente com o outro jogador, eram os seus avatares, extensões virtuais, ampliadas, contextualizadas e pessoais, que abarcavam a totalidade do amor e da relação. “Dizer que as massas querem ser divertidas e por isso entender que o que as massas querem é lixo”, como escreveu João Barrento, significa também compreender que as massas desejam algo indiscritível, que existe para além dos padrões das suas realidades anafadas e enclausuradas. A alternativa virtual não invalida a actual: pelo contrário, há jogadores polígamos que namoram virtualmente e fisicamente. O amor é para as massas, e o virtual é o campo onde nos processamos e nos tornamos contemporâneos.

    A questão perentória prende-se, desse modo, não com a dualidade entre actual e virtual, tal como Boeslstroff expõe, mas com a ignonomia de todo o processo de captivação, romantificação – em determinados casos de perversão – e sexualização das trivialidades do processo de engate, o nodal do conhecimento amoroso. Se, neste momento cósmico e temporal, a tecnologia de encontros não passa, em certa medida, de entretenimento e amparo aos nossos desejos de combate à solidão e voracidade sexual, para que finalidade teórica ou poética é que nos dirigimos? Ver memes? Ou vídeos do Tik Tok? Namorar com figuras nos nossos ecrãs? Incentivar antagonismos?

    Infelizmente, assume-se amiúde que seja desses recursos tecnológicos que retiremos a nossa paisagem conceptual e respectiva interpretação. É lá onde somos instruídos dos “icks” femininos, do ódio “incel”, da pasmaceira da toxicidade masculina e como ela prolífera como pestilento lençol sobre quase todos; dos lugares maravilhosos de cada país que desconhecemos, dos casais multiculturais que lutam contra a endomitrose, que se divertem com as diferenças linguísticas de cada um, que apresentam – (ou representam?) – os seus utensílios favoritos, sejam de culinária ou brinquedos sexuais, e toda a panóplia de opiniões, interjeições e postulações sobre como manter uma relação, saúde mental e a soma das narrativas em voga. O novo mundo é composto por teorias sobre tudo e um conjunto de tudólogos que se definem como criadores de conteúdo[9].

    Somos livres para nos apresentarmos como queremos nas redes sociais e em particular nas aplicações de encontros: ignóbeis, mentirosos, vis, adulterados por camadas de filtros, verdadeiros, retocados, modificados, apreensivos, dedicados à causa do romance, dedicados à causa do sexo, seres multi-celulares e multi-disciplinares. Conquistámos o reconhecimento concedido apenas aos grandes humanos imortalizados em estátuas e nomes de ruas: todos merecemos admiração e likes. Somos narcisos que bebem água como um husky sedento. Recriamo-nos como sílfides, figuras indistintas que pairam sobre a nossa imaginação.

    O que se traduz, invariavelmente, numa reconfiguração animalesca de conceitos amorosos, sexuais e tudo o que tem a ver com a busca de parceiros. O humano comum e banal também merece ser amado, nem que seja por às duas e meia da manhã numa booty call, a mensagem sugestiva de “como é que estás?, que invariavelmente terminará numa sessão de sexo desconsolada.

    Paulatinamente dirigimo-nos para a re-interpretação do romance e do processo de conhecimento amoroso. Não que já não tenhamos atravessado muitas destas re-interpretações: várias que registaram avanços culturais e sociais significativos. Mas tal como a extinção em massa, por vezes o que se apaga é a vida hodierna e edénica.

    Há coisas que são sempre diferentes por fora, mas sempre semelhantes por dentro. João Barrento refere que os seus cadernos de escrita e anotações assim se constituem. As aplicações de encontros integram esta regra paradoxal: uma vez integrado numa, pouco as difere.

    Foi numa festa queer repleta de crianças de dezoito e dezanove anos que, a mesma amiga grega com quem ocasionalmente convivo, me desafiou a me inscrever na aplicação de encontros Hinge, uma variante, uma linha temporal paralela. Acedi à ideia, não tanto por esta me agradar, mas por me encontrar perigosamente próximo do meu aniversário, e como tal, sofrer de um aguda e incontrolável pânico identitário. Pessoalmente odeio fazer anos; de que é que vale celebrar a progressão quando esta é uma ilusão? O nadir da progressão não é individual, mas colectivo. Similarmente, o propósito da inscrição numa nova aplicação de encontros não é singular, mas caracterizado pela pertença a uma díade.

    Hinge, um formato análogo ao Tinder, pouca evidencia em termos de distinção, exceptuando a capacidade em introduzir segmentos textuais que nos conferem versatilidade para além da fotografia e do nome. Não somos exclusivamente uma imagem, pois há a possibilidade de engendrar, a partir de uma escolha predefinida de ideias / questões, respostas – verdadeiros anzóis com minhocas, sejamos verídicos – que nos permitem colher a simpatia textual de outros utilizadores. Podemos responder a estas perguntas ou factos pessoais: “adoro… pizza / quero ir… a Itália / o que mais gosto de fazer…viajar!”[10], uma panóplia de teoremas supostamente engendrados para nos conseguirmos expor a um nível socialmente aceitável. O diálogo é colocado em evidência, mas este permanece curto. Algures, num programa de televisão, o escritor Jonathan Franzen insurgiu-se contra o Twitter: “como é que é suposto escrever algo com significado em 140 caracteres?”. Não creio que ele aceitaria o Hinge, na medida da impossibilidade de desenvolvimento; diálogo abafado por códigos de uma aplicação. Não obstante a imaginação de muitos utilizadores de espaços curtos de diálogo, não compreendo em que medida é suposto um ser humano apresentar-se na base de 170 ou 200 caracteres. Equiparar um engate ao tamanho de um anúncio; vendo relação de longa duração, comprem hoje e recebam dois aspiradores!

    Isto é a primeira instância; mais tarde poderemos resumir o diálogo por via do sistema de mensagens internas da aplicação. Contudo, se num primeiro momento de contacto o que temos a apresentar são duas verdades e uma mentira[11], porventura a sistematização do enigma e mistério prevaleça, ao passo que definha a complexidade e o fluxo de idiossincrasias que nos evidenciam. A dignidade da primazia, o tom escarlate dos famélicos por amor devoto, ou amor corrupto. A formatação paulatina e gradual da nossa personalidade virtual tem, inquestionávelmente, o condão de nos re-configurar enquanto detentores de complexidades, mas que andam a sofismar os raciocínios de segundos e terceiros. Não pretendo argumentar que a produção de mistério e / ou frases piadéticas não sejam fundamentos cruciais para a projecção de compreensão e identidade, apenas que deve persistir um fundo de apreensão ao nos apoderarmos da página de mais outro ser humano com quem vamos estabelecer contacto por via de um número limitado e reduzido de palavras. O ciclo comportamental das aplicações de encontros amorosos não prima pela complexidade, mas sim pela desenvoltura.

    O que é fanérico, porventura transversal, aos organismo das aplicações de encontro, é a oferta variada e a subjacente questão temporal. É rápido conectarmo-nos com alguém através de meia dúzia de frases ou gestos de polegares. É fácil. Tergiversar todo o senão e ambiguidade do contacto directo, actual. A sublimidade do virtual é o evitar o imediato; temos tempo para considerar, tempo para explorar e decidir, enquanto, paradoxalmente, decidimos rapidamente, em segundos, se queremos estabelecer contacto ou não com A, B, Z, G ou o J com os músculos preponderantes.

    Apesar de estar consciente de tudo o que discorri, acabei por instalar o Hinge. Coloquei o meu telemóvel em experientes mãos gregas e delas nasceram um perfil com frases que, embora não me definissem, eram consideradas pela cultura de engate como bons anzóis.

    Primeiro a despersonalização, depois a desmaterialização.

    Ao passo que o Tinder me deixou perturbado pela travessia de humano num contexto físico e temporal a mais uma linha numa grelha excel a ser preterida ou selecionada, no Hinge percepcionei a transfiguração do meu ser. Um estado liminal, incaracterístico, construído exclusivamente para os fins almejados. Durante duas semanas deixei o processo desenvolver-se em piloto automático, recorrendo ao fenómeno dos gracejos boçais e padronizados. Como uma boa calculadora, debitava fórmulas em nada prosaicas ou embelezadas, apenas princípios fundamentais generalistas.

    Vi tudo: homens jovens que ficam precocemente carecas mas têm cara de criança e que compensam indo ao ginásio demasiadas vezes e tentado deixar crescer a barba, mas por serem jovens acabam com um relvado de pêlos púbicos, de corpo, certamente exaurido de tanto esforço, que não se assemelha tanto a uma armadura automatizada, mas antes ao resultado de uma invasão de quistos megalómanos; mulheres de formosura padronizada, cortes de cabelo sofríveis e a invariável fotografia de biquini. Todos gostam de pizza. De Netflix. De viajar – mas para onde é que tanto viajam, e com que dinheiro?

    Julguei estar a ser tendencioso. Como bom antropólogo optei por entrevistar um largo espectro de amigos e conhecidos para desvendar os parâmetros da oferta. Uma conhecida sueca informou-me que a diferença entre os perfis masculinos suecos e gregos residia singularmente na cor de cabelo predominante: as fotografias de músculos sobre-desenvolvidos assombrava-a em ambos os recantos europeus. Um amigo português revela-me que opta essencialmente por mulheres com fotografias onde seja visível um bronzeado: “significa que são activas”. Uma amiga norueguesa confirma que as mulheres com quem contacta no Tinder se dividem em duas tendências: com piercings, tatuagens e cabelos coloridos, ou demasiado bem vestidas. Outra conhecida grega afirma estar saturada de receber mensagens de homens em tronco nu: “só dizem verborreias”.

    Acabei por conversar com uma mulher turca que estou estudava em Princeton sobre marxismo. Combinei um encontro com uma mulher grega que criava banda desenhada. Esse foi o princípio do fim. Passado duas semanas do encontro resolvi voltar à segurança da não-presença. Apercebi-me que a replicação, e não a adoração, é o objectivo primordial do amor virtual.

    Pouco depois de remover o Hinge do telemóvel, tive o prazer de ter sido o companheiro de uma mulher grega. Nos princípios da relação contei-lhe a história sobre o encontro com a pessoa que fazia banda desenhada, e como, face um pedido sexual que envolvia items que eu não possuía, ela afirmara, séria e obtusa, que “um homem tem sempre de estar preparado para tudo o que uma mulher possa desejar”. A companheira grega riu, onírica.

    Dias mais tarde, pediu-me algo em casa – tofu? vinho? um tipo particular de massa? não me recordo – e ao afirmar que não possuía tal coisa em casa, ela repetiu as palavras, com a incomparável bonomia que a sua bondade fazia proliferar. Não me recordo do que respondi; certamente ter-lhe-ei dado um beijo, ou nos sublimes lábios, ou na testa pálida.

    Cortara as asas das aplicações, impedindo-as de participarem em voos de atracção; agora dançavam em torno dos meus tornozelos, como insectos a mendigar, cada uma desejando a ribalta sob a forma de uma história de vida. Tal como nos Paradoxos de Zenão, a cultura de engate virtual é fabricada de uma realidade única e imutável: nem todo o desejo é correspondido, e mesmo quando é, nunca saberemos se será verídico até a clássica antiguidade do olhar for interpretada.

    É com alguma frequência e nostalgia que converso com a minha amiga de Lyon, a qual me recorda sempre de Virginie Despentes. Creio que também ela é fã da Virginie, embora nunca tenhamos abordado a autora directamente; mas estudámos juntos e ambos possuímos a mesma edição de capa dura de “The Death And Life Of Great American Cities”, da antropóloga Jane Jacobs. Ambos lemos o Le Monde e outros jornais similares, pelo que deduzo que, algures na sua vida, também ela se tenha deparado com Virginie Despentes.

    A autora francesa, na sua magnífica obra “King Kong Theory”, reflecte sobre a violação de que foi vítima. As palavras surgem naturalmente, um desencadear de fúria da minha parte por ser homem, e, consequentemente, ser o agente primordial deste tipo de violência sexual. Recordo-me de algumas pessoas com que namorei que foram, igualmente, vítimas ou de violação, ou de violência sexual. Faço um rápido inventário mental de quantas pessoas com quem me dou que sei que sofreram nas mãos de homens heterossexuais sem consciência de limites ou respeito. Concluo, com tristeza, que representam cerca de 80% das pessoas que conheço.

    Depreendo, a partir desta linha de pensamento, que a tecnologia de encontros tem amplificado este mal, ou pelo menos a sua probabilidade, não tanto por incorrer em alteração de processos – já escrevia Annie Ernaux que a sua mãe não a deixava sair com rapazes com medo que a filha fosse engravidar – mas pela pluralidade de oferta e facilidade de conexão. É tão fácil saírmos com alguém com quem acabámos de trocar um gosto.

    Mais tarde, na sua obra, Virgienie Despentes afirma que há poucos homens que escrevam, com seriedade e honestidade, sobre os efeitos da masculinidade tóxica; indago-me sobre se, inconscientemente, fora a influência vitalícia desta veia nefasta que me conduzira às aplicações de encontros.

    O que advém observar sobre estes comportamentos resume-se, mais uma vez, pelos escritos de Dubravka Ugresic: o pluralismo de identidades do homem comum, do humano regular e quotidiano conseguiu um espaço onde exporta as suas verborreias e pensamentos abjectos. Como todos os utensílios, depende da pessoa e da sua essência o conteúdo gerado: afinal a Internet é tão ferramenta como a primordial roda. A diferença está na transmissão (exacto, transmissão para o mundo, para o planeta) daquilo que somos, ou pretendemos ser, ou aspiramos a ser, ou que não queremos ser. Na idade do romance digital, a nossa pele é desvalorizada, em prol da projecção. Somos cenários idílicos, produzidos para agradar os likes e os swipes do Instagram e do Tinder. O objectivo último não é desfrutar, é contabilizar sucessos, acumular corpos e sensações.

    Esperemos que, ao menos, os ossos se salvem, porque a pele, esse exterior, é apenas um enfeite. Espero ter-vos agradado. Senão mudo o meu discurso.

    1. – Álcool, erva, MDMA, entre outros.
    2. – Recorro a esta expressão não de forma derrisória, mas no sentido mais amplo de ligeiramente apalhaçado e profundamente devoto, retendo a inocência juvenil relativamente ao amor.
    3. – Para bom entendedor, meia palavra basta.
    4. – Há muito que qualifico de pico evolucionário inenarrável a extensão do nosso ser interligado ao telefone quando nos encontramos na sanita. Se, anteriormente, a revista e o jornal possuíam um lugar dedicado junto à tigela de porcelana para proporcionarem entretenimento a quem sofresse de problemas crónicos de intestino, é fascinante observar como tudo foi substituído pelo “doom scrolling” que nos transforma as pernas e rabo em nacos dormentes e caímos com as calças enrolados pelos joelhos quando nos tentamos levantar. Felizmente nunca me aconteceu, mas conheço histórias e dramas familiares.
    5. – Permanece como regra basilar nunca ter o telemóvel na casa-de-banho.
    6. – Porventura seja útil esclarecer desde já que sou heterossexual, e como tal, o presente ensaio é escrito pela perspectiva antropológica de um homem hetero.
    7. – Role-playing games. Jogos em que assumimos uma personagem, criada ou não por nós, e jogamos através dela, sendo que simultaneamente somos a personagem.
    8. – Não deixa de ser curioso como até nas ciências sociais a necessidade de pensamento de múltiplas dimensões e não apenas bi ou tri-dimensional é basilar para a elasticidade teórica.
    9. – Aqui gostaria de colocar uma questão científica: o que é que define conteúdo? Pode ser uma série como The Sopranos ou um filme como La Grande Belleza estar equiparados a nível de conteúdo a um vídeo de alguém a atirar ovos do segundo andar para cima de amigos? Não desejo postular a questão como arte fina vs. arte comum, mas sim como a procura de uma definição basilar e compreensiva de conteúdo. Conteúdo não requer intuito? Conteúdo não veicula uma mensagem? Embora David Foster Wallace tenha preconizado a morte cerebral por mensagens e conteúdos dementes, será que ele alguma vez considerou o que actualmente enfrentamos?
    10. – Porventura demasiado habituais, considerando que talvez 80% das mulheres no Hinge na região de Atenas – nacionais e internacionais – só se sabem descrever à base destas três características especificas. Ah, adiciono ainda o amor pela massa, ou pasta, ou noddles – como as americanas dizem. Inegavelmente um dos maiores efeitos secundários pandémicos foi a homogeneização conceptual pelo gosto de atributos e produtos culturais italianos. Assim como pelo desejo de viajar; os confinamentos foram peremptórios ao nos moldar o paladar e o desejo.
    11. – Mais uma das propostas de contacto e apresentação apresentadas ao utilizador do Hinge.

    A Burguesia Racista Saiu à Rua

    Paulo Henrique Carvalho

    No clima político atual, no Ocidente, observa-se a extraordinária e lamentável situação em que eventos de natureza inócua dão origem a explosões de neurose coletiva que, subsequentemente, resultam em lavagem pública de consciência e de face, em geral representadas por manifestações de rua. No passado fim-de-semana, fomos confrontados com mais um exemplo disso.

    Ao longo da história recente da democracia portuguesa — um regime com cinquenta anos de existência — houve dezenas de operações das forças da lei em que, por questões logísticas ou por pura necessidade operacional de segurança, pessoas foram tratadas de forma tão sumária como os animais quando são organizados em grupo para um determinado fim. Ora, essas pessoas foram obrigadas a dispor-se em determinado arranjo, ora foram evacuadas de áreas com mais ou menos força, ora foram encostadas a paredes, carros ou até mesmo ao chão, de modo a serem pacificamente revistadas pelos agentes de autoridade. Qualquer pessoa sensata sabe que estas coisas acontecem, que são excecionais, e que, esperamos, têm justificação procedimental dentro da lógica da segurança interna.

    De um modo geral, Portugal não é conhecido — e isto é admitido até pelas massas mais suscetíveis de se indignarem com tais ações — como um Estado de excessos policiais. A percepção pública é a de que a relativa pacatez do país não suscita grandes demonstrações de força policial, e que, comparativamente, em países como a Inglaterra, os Estados Unidos da América, ou até na América Latina, as situações são muito mais severas e exigentes neste campo.

    O que se passou, então, numa revista policial, que de inédita não tinha nada, na rua do Benformoso, em Lisboa, há algumas semanas?

    O que se passou foi que a população visada tinha uma cor diferente. E isto gerou a indignação performativa e moralista de uma classe muito curiosa: as esquerdas que tratam as minorias como animais de estimação, que veem as pessoas, fundamentalmente, com base na cor da pele, e que alteram os seus critérios conforme o estatuto dessas pessoas na escala de vitimologia — uma escala à qual reduzem tudo o que as rodeia. Este é um comportamento racista execrável.

    Nunca, em qualquer outra rusga — e são muitas, particularmente em bairros com problemas de criminalidade, onde vivem pessoas de todas as cores, seja no Porto, Lisboa ou Setúbal — se assistiu a uma descrição de tais operações como sendo exercícios de discriminação racial. Milhares de pessoas já foram encostadas a paredes ou carros em operações stop, em eventos desportivos ou em controles de segurança de outros tipos como em discotecas e zonas de lazer nocturno. Nunca, até agora, o breve ou prolongado incómodo a que essas pessoas foram sujeitas pelas autoridades gerou o mínimo protesto ou manifestação pública. A indignação surgiu apenas quando um grupo de pessoas de cor diferente foi submetido a uma revista policial.

    Un employé du gouvernement sortant de chez lui, Jean-Baptiste Debre, 1834.

    Mas por que razão isto aconteceu?

    A explicação pode ser colocada de forma muito direta, representando uma realidade que é, ao mesmo tempo, asquerosa e elucidativa: a atitude das esquerdas face a grupos de pessoas de cor diferente é a atitude de quem as vê como animaizinhos — e não são uns animaizinhos quaisquer: são, particularmente, os seus especiais animaizinhos de estimação. Para este tipo de burguês indignado, não haveria motivo para protestar se vissem um grupo de tratadores a alinhar animais de criação contra a cerca da quinta, seja por razões logísticas ou sanitárias. No entanto, a mesma situação com os seus próprios animais de estimação — as suas “minorias étnicas” — é inconcebível. Ninguém suportaria ver os seus cães ou gatos tratados com dureza por terceiros, empurrados contra a cerca.

    Assim, se é legítimo para esta gente ver pessoas comuns, em determinadas situações, tratadas como animais — em gestão de multidões, concertos, grandes eventos, evacuações de emergência, situações hospitalares ou escolares — já não é legítimo, para essas esquerdas racistas, ver os seus “animais de estimação” — as minorias étnicas — tratados da mesma forma. Esta é a única diferença.

    A realidade, contudo, desmente a bolha protegida em que vive esta esquerda burguesa. Esta mesma esquerda, que passeia pela Mouraria ou pelo Martim Moniz para comprar caril, e que considera os bairros multiétnicos “muito típicos”, certamente ficou surpresa quando, não mais do que um dia após a manifestação, se noticiou uma rixa entre gangues com sete feridos (https://www.dn.pt/sociedade/rixa-entre-estrangeiros-na-rua-do-benformoso-provoca-sete-feridos) na zona da rusga. Será possível um exemplo mais flagrante de como estas elites estão desconectadas das preocupações da maioria da população, incluindo dos próprios imigrantes que vivem nessas zonas?

    A propaganda dessas elites protegidas não alcança as grandes massas. Sondagens feitas logo após a operação confirmam que a maioria da população portuguesa não vê com estranheza a realização deste tipo de operações nem considera que a escolha da rua do Benformoso, em Lisboa, constitua um ato de “racismo” (https://observador.pt/2025/01/11/maioria-concorda-com-operacao-da-psp-no-martim-moniz-revela-sondagem/).

    Agência Lusa.

    Se desenharmos o arco neurótico em que o projeto progressista frequentemente se afunda, encontramos nestas esquerdas de hoje o mais exemplar tipo de racismo. Se, numa sociedade hipotética onde ainda existissem distinções civis significativas baseadas na raça — como ocorre, por exemplo, na Índia — um grupo de pessoas de casta inferior fosse revistado, maltratado e espancado, os racistas achariam isso legítimo, pois cidadãos de cor diferente merecem ser tratados de forma diferente. Hoje, no entanto, um grupo de cidadãos de cor diferente é revistado, como qualquer outro grupo, e os racistas exigem que não o seja: de modo análogo, exigem que sejam tratados de forma distinta do cidadão comum.

    É nesta contradição grotesca que se revela o racismo de velha guarda desta esquerda burguesa, elitista e conservadora, habitante de um paradoxo mental e de costumes, vivendo suas vidas de classe média, bem protegidas, e longe das realidades que pretendem, falsamente, defender. São os herdeiros diretos dos supremacistas raciais e dos mercadores de escravos, aqueles que tratam o corpo etnicamente distinto como mercadoria. Se, no passado, esta mercadoria era vendida para a escravidão, hoje estes corpos são usados e trocados como moeda de vitimização, para a consolidação e beatificação da mentira que sustenta a vida desta esquerda.

    Todos os que participaram nesta manifestação racista e burguesa — uma manifestação de donos de animais — devem sentir vergonha. Todos, sem exceção. Mesmo aqueles que, por ingenuidade, não percebem o logro em que estão a incorrer. Já têm idade para ter juízo, e para saberem que o que defendem é, na verdade, uma grande hipocrisia.