O ensaio “Stump-Orator” (Orador de Tribuna) é o quinto panfleto da obra crítica de Thomas Carlyle, Latter-Day Pamphlets, publicada a 1 de maio de 1850. Tradução nossa.
Está profundamente enraizado nos nossos hábitos, confirmado por toda a espécie de disposições educativas e outras que remontam a vários séculos, considerar que o talento humano se manifesta melhor de tudo pela faculdade de falar eloquentemente. Os nossos primeiros mestres-escola ensinam-nos, como único dom de cultura que possuem, a arte de soletrar e pronunciar, as regras da expressão correcta; seguem-se a retórica e a lógica, os sublimes mistérios da gramática, graças aos quais podemos não só falar, mas também escrever. E, até ao último dos nossos mestres, na mais elevada universidade, continua a tratar-se, no fundo, de gramática, de gramática sob diversas formas. Falar várias línguas, discorrer sobre diversos assuntos, mas discorrer sobre todos eles, e exprimirmo-nos apropriadamente pela palavra ou pela escrita — eis o sublime objectivo para o qual toda a espécie de preceptores benévolos e professores eruditos, desde o mais elementar dos abecedários até aos graus mais elevados, continuamente nos impele e encaminha. O preceptor ou professor, contemplando a sua prodigiosa sementeira, seminário, como acertadamente lhe chama, ou colheita de jovens almas humanas, observa atentamente um dos órgãos das suas deliciosas plantinhas, que crescem para se tornarem homens: a língua. Espera que todos venhamos a conseguir falar, se o Céu assim o permitir. «Alguns de vós hão-de tornar-se escritores de livros, eloquentes redactores de revistas críticas, e assombrar a humanidade, meus jovens amigos; outros, de gravata branca, farão sermões segundo Blair e Lindley Murray, ou mesmo segundo Jeremy Taylor e o judicioso Hooker, e serão sacerdotes incumbidos de guiar os homens rumo ao Céu, brandindo habilmente o lenço e empunhando a tocha da retórica. Para outros, há o Parlamento e o barril de cerveja das eleições, e uma carreira que conduz os homens a alturas verdadeiramente consideráveis; esses abalarão a câmara legislativa, os jornais da manhã, abalarão as próprias esferas e, mediante o hábil movimento da língua, libertarão a humanidade dos seus grilhões, conduzindo o nosso país aflito, e a nós com ele, pelo caminho que devemos seguir. Um caminho onde talvez não se pratiquem feitos nobres, mas onde se pronunciam palavras nobres; um caminho que talvez não nos conduza à verdadeira Morada dos Deuses, mas pelo menos a algo que, com maior ou menor verosimilhança, se lhe assemelhe!»
Assim decorre a vida do filho de Adão nestas épocas de confusão; assim, desde o primeiro abrir dos olhos neste mundo até ao último fechá-los e à partida para o além. Fala, fala, oh, fala! Se tens alguma faculdade, manifesta-a pela palavra, ou morrerás sem que ela chegue a ser uma faculdade! Assim acontece nas universidades e em toda a espécie de escolas, femininas ou outras, das mais elevadas às mais humildes; e a Sociedade em geral, quando nela entramos, confirma, com todos os seus brilhantes artigos de crítica, publicações bem-sucedidas, círculos intelectuais de chá, gazetas literárias e eloquências parlamentares, a grande lição que recebemos. Na verdade, nos nossos tempos, não temos outra lição. Se existe um talento humano, que se aloje na língua e produza melodias por meio desse órgão. Que vale o talento incapaz de falar por si? Nada; ou, quando muito, uma coisa capaz de executar trabalhos meramente servis e de ganhar dinheiro, na melhor das hipóteses, através dos caminhos-de-ferro.
Tudo isto está profundamente enraizado nos nossos hábitos, nas nossas disposições sociais, educativas e outras; e tudo isto, quando o examinamos imparcialmente, é espantoso. Em frontal contradição com tudo isto, pode afirmar-se que falar está longe de ser a principal faculdade que um ser humano pode alcançar; que a excelência nesta arte está longe de constituir o melhor critério da sua excelência humana geral ou da sua utilidade neste mundo; mais ainda, que, se não tivermos cuidado, ela pode transformar-se no pior critério alguma vez concebido para avaliar essa utilidade. A questão estende-se muito longe, até às próprias raízes do mundo, onde o leitor britânico não me pode acompanhar convenientemente neste momento; mas atrevo-me a enunciar as três proposições seguintes, convidando-o a ponderar cuidadosamente a verdade que nelas possa descobrir, pouco a pouco:
Em primeiro lugar, que a excelência da expressão oral, mesmo quando genuína, não é, nem nunca foi, o principal critério da faculdade humana ou a medida da capacidade de um homem para desempenhar qualquer função verdadeiramente útil; pelo contrário, o silêncio excelente sempre teve de acompanhar a expressão excelente, sendo ele um dom muito mais raro e difícil de alcançar.
Em segundo lugar, que a expressão verdadeiramente excelente — que eu, possuindo a Bíblia hebraica, ou Livro, bem como outros livros na minha língua e em línguas estrangeiras, e tendo ocasionalmente escutado a palavra de um homem sábio entre a multidão dos insensatos, estimo quase para além do que consigo exprimir, como dom humano — corre terrivelmente o risco de ser confundida com a sua contrafacção, a expressão falsamente excelente! E, além disso, se a expressão humana verdadeiramente excelente figura entre as melhores coisas humanas, a sua imitação fraudulenta merece ser classificada entre as piores. A palavra falsa — capaz de se tornar, como alguém afirmou, a mais falsa e vil de todas as coisas humanas: suponhamos que alguém a escutava como se fosse a mais verdadeira e nobre! Ora, por pouco conscientes que estejamos disso, creio que esse é o triste destino de muitas almas excelentes entre nós, neste momento. Todos quantos admiram a eloquência parlamentar, a literatura popular divinizada e coisas semelhantes estão hoje terrivelmente sujeitos a esse engano; e nações e gerações inteiras parecem estar a asfixiar-se constitucionalmente até ao seu sono derradeiro, por efeito dessa mesma eloquência!
Pois, infelizmente, por muito que todos veneremos a palavra, há uma terceira afirmação que um homem pode atrever-se a fazer, convidando os que reflectem a meditarem nela: nestes tempos, e ao longo de várias gerações anteriores, não tem existido, em rigor, nenhuma expressão verdadeiramente excelente, mas apenas uma falsa excelência; isto é, uma expressão falsa ou quase falsa que se faz admirar e venerar, em vez de ser detestada e reprimida. Uma situação verdadeiramente alarmante; e não menos alarmante se descobrirmos que, por enquanto, ela nos é bastante agradável e que acolhemos o advento da asfixia como acolheríamos o de um sono natural e reconfortante — como, sob tantos aspectos, efectivamente fazemos! Houve juízes severos que não admiraram muito a «Bíblia da Literatura Moderna», nem coisa alguma que dela se pudesse destilar, quando comparada com as antigas Bíblias; e que concluíram que, no domínio da palavra, a nossa melhor excelência, quando se conseguia alcançá-la, era um silêncio excelente, o qual significa resistência e esforço, trabalho bem feito de lábios cerrados; e que a nossa expressão mais tolerável era da natureza de um lugar-comum honesto, introduzido quando indispensável, que apenas pretendia ser breve e verdadeiro, e não podia ser confundido com algo excelente.
São palavras duras para muitos leitores britânicos, que não têm consciência de sofrer qualquer dano e que, pelo contrário, reconhecem alegremente os muitos benefícios que retiram dessa parte dos seus bens. Certamente que, neste aspecto, se não noutros, as coisas não estariam assim tão mal para eles? As artes liberais haviam-lhes suavizado os modos; as eloquências parlamentares forneciam-lhes um sucedâneo do governo, e as literaturas populares, as mais delicadas sensibilidades do coração: seguramente que, deste lado mais favorável da existência, o leitor britânico não estaria mal servido? — Infeliz leitor britânico!
Na verdade, o prejuízo espiritual que sofremos inconscientemente em todos os domínios da nossa actividade, devido ao respeito submisso que prestamos ao poder da palavra, é incalculável. Trata-se, com efeito, da consumação natural de uma época como a nossa. Dada uma insinceridade geral do espírito ao longo de várias gerações, encontraremos certamente o Falador instalado no lugar de honra; e o Homem de Acção escondido na obscura multidão, com a sua actividade paralisada ou avançando penosamente por caminhos indignos dele. Todos os homens se prostram devotamente, adorando o falador eloquente; e ninguém percebe que ídolo escandaloso ele é. E dele resulta, da maneira mais suave, como se de um repouso natural e reconfortante se tratasse, a simples asfixia e a morte eterna! Provavelmente, não existe na Natureza fantasma mais desvairado do que o orador eloquente de lugares-comuns, tal como aparece nas tribunas, nos parlamentos, nos cepos de Kentucky, nos jantares de taberna, nestes tempos ventosos, vazios e insinceros como os nossos. O «excelente orador de cepo», como lhe chamam os nossos admiradores amigos ianques, é aquele que, perante qualquer conjunto de circunstâncias, consegue erguer-se de repente, subir ao seu «cepo», ao seu estrado, à sua tribuna, ao seu lugar no Parlamento ou a qualquer outra elevação disponível, e despejar a sua «excelente expressão» apropriada, a sua interpretação das circunstâncias em causa, de tal maneira que os pobres mortais ventosos à sua volta gritem bravo. Não é um artista que eu possa admirar muito, dadas as circunstâncias! Infelizmente, ele é, em geral, o mais ventoso dos mortais; e, ainda por cima, é admirado precisamente por isso. Qualquer imbecil ventoso que se mantenha calado está em melhor situação do que este excelente orador de cepo. Em melhor situação por muitas razões; entre elas, esta, se nenhuma outra existisse: o homem silencioso não é admirado; suspeita, talvez reconheça em parte, que é uma espécie de imbecil, e essa salutar consciência de si próprio está vedada ao excelente orador de cepo. Porta-voz do Caos para os pobres mortais mergulhados nas trevas, que o escutam como se fosse uma voz vinda do Cosmos, este excelente orador de cepo enche-me de espanto. As suas emissões musicais de vento não são vazias: estão prenhes de profecia; anunciam-me, com demasiada clareza, que o fim de muitas coisas se aproxima!
Que o leitor britânico reflicta um pouco sobre isto; também ele está profundamente interessado na questão. Na verdade, ele, e o leitor europeu em geral, mas sobretudo ele nos dias de hoje, terá de reflectir muito mais — e, se não me engano, tomar em breve medidas importantes em consequência disso. Entretanto, estando ele próprio mergulhado nesse mau elemento e lutando, como um homem atacado de icterícia, para distinguir as cores amarelas, terá de meditar longamente antes de conseguir apreender, em alguma medida, o imenso significado da questão; e de discernir, com espanto, alarme e quase terror e desespero, a que consequências fatais nos tem conduzido, na nossa Sabedoria Colectiva e noutros domínios, esta concepção do talento como sinónimo de expressão eloquente, tão obstinadamente sustentada há tanto tempo! Quem examinar atentamente as origens e as consequências descobrirá que a eloquência e o papel que hoje desempenha nos nossos assuntos constituem um dos fenómenos mais graves; e que o excelente orador de cepo dos nossos dias é não apenas uma figura ridícula, mas, mais ainda, profundamente trágica. Enquanto a multidão o escuta, os poucos habituados a pensar passam rapidamente por ele, soltando uma gargalhada de desprezo ou um grunhido de maldição impaciente; mas ele merece, por parte destes últimos, uma atenção muito mais séria.
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Na Antiguidade, quando as universidades e as escolas foram instituídas pela primeira vez, a função do mestre-escola de ensinar simplesmente a falar era natural. Naqueles tempos saudáveis, guiados por instintos silenciosos e pelas advertências da Natureza, os homens habituaram-se desde há muito a ensinar a si próprios aquilo que era essencial aprender, pelo único método seguro de aprender fosse o que fosse: a aprendizagem prática do ofício. Esta era a regra para todas as classes; infelizmente, hoje é a regra apenas para uma delas. O trabalhador procurava então apenas conhecer o seu ofício e educava-se suficientemente através do trabalho de lavrar e martelar, nas condições que lhe eram dadas e em relação adequada com as pessoas que lhe cabia conhecer. Tratava-se de um percurso educativo que, então como agora e sempre, era verdadeiramente rico em formação e instrução viris: ensinava-lhe muitas virtudes sólidas e conhecimentos indubitavelmente úteis, desenvolvendo nele numerosas faculdades valiosas, tanto para agir como para suportar; entre estas não se incluía, porém, a faculdade de elaborar expressões gramaticais complexas, visto ter tão pouco de extraordinário para dizer ou para aprender a partir da expressão oral ou escrita. A gramática da Natureza, que aprendera com a mãe, continuava a ser-lhe amplamente suficiente. Esta era, como continua a ser, a grande educação do trabalhador.
Quanto ao sacerdote, embora a sua profissão fosse claramente da ordem da leitura e da palavra, também ele sabia, naqueles tempos de veracidade, que a gramática, se necessária, estava longe de ser a única coisa necessária, ou mesmo a principal. A coisa de longe mais necessária, e na verdade a única, então como agora, era que nele existissem o sentimento e a prática da reverência para com Deus e os homens; que no âmago da sua vida habitasse, expressa ou silenciosa, uma centelha de sabedoria piedosa, capaz de iluminar os destinos obscuros dos homens. Não tanto que possuísse a arte da palavra, mas que tivesse alguma coisa para dizer! E, para adquirir este último requisito, o sacerdote também se preparava por meio da aprendizagem prática, da tentativa efectiva de exercer a sua função, de numerosas e prolongadas provações de natureza devota e penosa, tais como os seus superiores lhe prescreviam. Uma vez considerado satisfatório, este processo permitia-lhe receber a ordenação; e, nos bons tempos do sacerdócio, o estudo da gramática constituía para ele um elemento largamente acessório, como, na verdade, é intrinsecamente insignificante em comparação com o essencial, em todas as épocas.
O jovem nobre, por sua vez, para quem os mestres de gramática foram inicialmente contratados e as instituições superiores fundadas, também ele, desde tempos imemoriais, aprendera o seu ofício através da aprendizagem prática, independentemente das escolas ou para além delas. Antes da chegada do mestre-escola, como depois dela, o jovem nobre ia aprender com algum nobre mais velho; entrava como pajem ao serviço de um conde ou duque ilustre; e aí, servindo e ascendendo de grau em grau, sob sábia orientação, aprendia as suas artes da cavalaria, o manejo das armas e as regras da cortesia, os seus deveres e maneiras de barão, bem como aquilo que lhe competiria fazer e ser no mundo — através das suas próprias tentativas práticas e do exemplo de alguém cuja vida constituía para ele, diariamente, um modelo concreto. Para um homem assim, já dotado de substância intelectual e possuidor daquilo a que podemos chamar o ouro em barra da cultura humana prática, era evidente que seria vantajoso ensiná-lo a exprimir, quando necessário, aquilo que trazia dentro de si; que transportasse consigo uma nota bancária espiritual, susceptível de ser apresentada a pedido em troca do «ouro em barra» que, de outro modo, não seria tão facilmente negociável e que guardava nas caves da sua mente. Um homem que já tivesse adquirido sabedoria, discernimento e valor heróico exigia naturalmente do mestre-escola esta nova faculdade: a capacidade de formular, em palavras apropriadas, aquilo que possuía. Um valioso acréscimo de capacidade — e, no entanto, devemos recordar que dificilmente se tratava de uma faculdade nova; era apenas o sinal tangível das outras faculdades que o homem possuía em estado silencioso. E acredito que muitos chefes de homens, rudes e incapazes de se exprimir articuladamente, eram «educados» de uma maneira verdadeiramente invejável, embora não tivessem um único livro em casa; a sua assinatura, o verdadeiro sinal da sua identidade, consistia na marca da sua mão de ferro, devidamente embebida em tinta e impressa no pergaminho; e o seu discurso no Parlamento, semelhante ao rugido dos leões, transmitia efectivamente o que queriam dizer, mas teria destroçado os nervos de Lindley Murray! O mestre-escola adaptava-se naturalmente a um homem assim, na qualidade de professor de expressão gramatical; aquilo que devia ser expresso já existia. Eis o ponto essencial: que houvesse alguma coisa para exprimir! Talvez seja esta a razão por que, entre as nações sérias, como os Romanos, o ofício do mestre-escola era tido em pouca consideração; pois, enquanto mero professor de gramática, de cálculo no ábaco e coisas semelhantes, em que diferia ele muito do mestre de dança ou de esgrima, ou que grande consideração merecia? — Era esta a regra nos tempos antigos e saudáveis.
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Poderá haver dúvidas de que esta continua a ser a regra da educação humana; de que a criatura humana precisa, antes de tudo, de ser educada não para poder falar, mas para ter alguma coisa importante e valiosa a dizer? Se a palavra é a nota bancária de um capital interior de cultura, discernimento e nobre valor humano, então a palavra é preciosa, e a arte de falar deve ser honrada. Mas se não existe capital interior; se a palavra não representa uma cultura real da mente, mas uma cultura imaginária; não ouro em barra, mas o défice fatal e hoje quase irremediável desse mesmo ouro? Ai, ai! Nesse caso, a referida nota bancária é falsa; circula livremente no mercado, mas causa prejuízos ao destinatário, ao pagador e ao mundo inteiro, prejuízos que são, na triste realidade, inevitáveis e de magnitude incalculável. Poucos pensam nisso actualmente, mas a verdade permanece para sempre. Nos parlamentos e noutras assembleias ruidosas, a vossa conversa eloquente, desligada da Natureza e dos seus factos, é tomada por sabedoria e pela imagem correcta desses mesmos factos; mas a Natureza sabe perfeitamente o que ela é, não a aceitará como tal e um dia rejeitará a vossa nota falsa, impondo-vos custos enormes. Os comerciantes insensatos do mercado fazem-na circular livremente, sem qualquer suspeita, e regozijam-se com a execução habilidosa da falsificação; assim, ela passa de mão em mão e de classe em classe, descendo sempre em direcção à classe prática, até que, por fim, chega às mãos de um pobre trabalhador, que já não a pode passar adiante e tem de a levar ao banco para comprar pão. Aí, a resposta é: «Infeliz desgraçado, esta nota é falsa. Não significa trabalho realizado nem realidade, nos parlamentos ou noutro lugar, em teu benefício; significa apenas uma aparência enganadora de trabalho realizado. E tu, pobre enganado, serás posto no tronco por a apresentares aqui!»
Ai, ai! Ao olharmos em redor, para as dificuldades da Irlanda, os estabelecimentos de exploração do trabalho inspirados no modelo mosaico, as barricadas francesas e uma Europa anárquica, não parece que as populações do mundo inteiro se estejam a erguer, ou já se tenham erguido, numa loucura incendiária, incapazes de continuar a suportar tal avalanche de falsificações e das respectivas penalidades, acumuladas sobre elas? O orador é «excelente»; os discursos que profere são belos? Belos e perfeitamente adequados ao mercado, sim; é um artista excelente no seu ofício. Mas quanto mais excelente ele for, maior será o meu desejo de o agarrar pelos calcanhares e lançá-lo na esteira rolante da prisão, para salvar os pobres alfaiates explorados, os sans-culottes franceses e os sans-batatas irlandeses de suportarem o sofrimento!
Porque o sofrimento terá de ser suportado; alguém terá de o suportar, tão certo como Deus existir. Cada palavra humana é uma nota bancária ou uma nota falsa: julgais que estes céus eternos se esqueceram de levar as coisas a sério só porque os homens andam por aí a sorrir como macacos enfeitiçados? Almas insensatas, esta é agora, como outrora, a lei imutável da vossa existência. Se conheceis a verdade e a praticais, o próprio Universo vos apoia e vos conduz à vitória certa em toda a parte; e, reparai, à derrota certa em toda a parte se não praticardes a verdade. E, infelizmente, se conheceis apenas a aparência eloquente e enganadora da verdade, que probabilidade tendes de alguma vez a praticar? Creio que fareis algo muito diferente dela! Quem reflectir atentamente descobrirá que esta mesma «arte da palavra», tal como nós, modernos, a cultivamos, é um produto verdadeiramente espantoso dos séculos; e, quanto mais reflectir, mais espantoso e alarmante lhe parecerá. Considero-a a mais triste de todas as maldições que hoje pesam sobre nós. Com horror e espanto, percebe-se que esta «arte», tão celebrada e diligentemente praticada em todos os cantos do mundo, é a principal destruidora de todo o bem que nasce entre nós — encerrando-o, suave e rapidamente, como sob campânulas de vidro evacuadas de ar, onde sufoca e morre — e a grande fábrica de todo o mal que nos aflige; é, por assim dizer, a oficina de acabamento e envernizamento de todos os produtos do Diabo que circulam sob o Sol. Nenhuma falsificação diabólica está apta para o mercado antes de ser aqui polida e esmaltada; esta é a casa de ensaio geral dessas falsificações, onde os artistas as examinam e decidem: «Apta para o mercado; não apta!» As palavras não conseguem exprimir os malefícios que o mau uso das palavras causou e continua a causar nestas gerações tão sobrecarregadas.
Quereis que um homem deixe de pôr em prática aquilo em que acredita? Então encorajai-o a falar frequentemente disso. Cada vez que o fizer, diminuirá a sua tendência para o praticar. A conversa vazia sobre aquilo em que acredita será, para o homem sábio, motivo de cansaço e aflição. Mas desejais que essa conversa vazia se transforme, além disso, numa expressão insincera daquilo em que ele não acredita? Celebrai o seu dom da palavra; assegurai-lhe que, graças a ele, ascenderá no Parlamento e realizará grandes feitos sem nada fazer; que a expressão eloquente, seja ou não acompanhada de actos, é admirável. Meus amigos, a expressão eloquente sem actos, no Parlamento ou noutro lugar, é horrível! Que podemos pensar de um homem que profere, no Parlamento ou noutro lugar, um discurso belo e eloquente, não executa nada do que nele prometeu e o deixa ficar como se já tivesse sido realizado? Esse homem inscreveu-se entre os fogos-fátuos e os Filhos do Vento; pretende servir doravante nesse corpo como uma bela lanterna chinesa iluminada. Creio que, se fosse permitido, o serviço mais útil que lhe poderíeis prestar seria severo: cortar-lhe um pedaço da língua eloquente, como penitência e advertência; cortar outro pedaço se voltasse a falar sem agir; e continuar assim até lhe terdes cortado a língua inteira, libertando-vos a vós e a ele de, pelo menos, uma miserável impostura. «Pronto, amigo eloquente, vê agora, em silêncio, se existe em ti algum acto redentor; de eloquência ventosa e blasfema, pelo menos, já não teremos mais!» Quantos homens elegantes seguiram este caminho, escoltados pela mais bela música de marcha de todos os «órgãos públicos», para descobrirem, no fim, que ele conduzia aonde? É a estrada larga que leva directamente ao Limbo e ao Reino do Vazio. Homens dotados, nações outrora valorosas e, por assim dizer, o mundo inteiro, em uníssono, marcham para lá em triunfo melodioso, com todos os tambores e oboés a tocarem alegremente o seu Ça ira. É o estado de espírito universal do mundo actual. Meus amigos, tenho a certeza de que lá chegareis, a menos que pareis a tempo!
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Considerada como o acabamento final da educação, ou da cultura, do valor e das aquisições humanas, a arte da palavra é nobre, e até divina; é como acender uma luz celeste para nos mostrar que mundo glorioso existe e se aperfeiçoou dentro de um homem. Mas, se não existir nele mundo algum; se nele apenas existirem continentes de vapores vazios, presunções egoístas e mesquinhas, opiniões banais recebidas de segunda mão e vislumbres indistintos de um caos sórdido, para que servirá a «luz» que nos mostre tudo isso? Seria mil vezes melhor que tal homem não falasse e guardasse para si os seus vapores vazios e o seu caos sórdido, ocultando-os tanto quanto possível a todos os olhares. Contemplá-los não pode fazer bem a quem quer que seja; desviar deles o olhar só pode ser benéfico. E se, mediante as aparências ilusórias da retórica, da lógica, dos diplomas universitários de primeira categoria e da ajuda de professores de dicção e redactores parlamentares, o pobre proprietário desse caos for levado a convencer-se a si próprio e a convencer os outros — o que constitui a natureza da sua triste tarefa e, em certas épocas do mundo, é fatalmente possível — de que possui um cosmos; de que, sendo tão perfeito nos exercícios da língua e tão carregado de honras académicas, é um homem «instruído» e uma pérola de grande valor na sua geração; de que o mundo inteiro deveria reunir-se à sua volta e à volta do Parlamento que o escuta embevecido, como em torno de uma maçã de ouro divina, colocada num quadro de prata, para o adorar: o que será provável que aconteça a ele e ao mundo reunido à sua volta? Uma maçã de Sodoma entre os cachos de Gomorra: eis a definição, embora ele mal o suspeite, do pobre homem eloquente no seu caos, com o seu Parlamento em competição e o mundo miserável que o adora! Considerada como a totalidade da educação ou da cultura humana, como sucede hoje nos nossos costumes modernos — tendo-se tornado obsoleta toda a aprendizagem prática, excepto a dos ofícios manuais, e sendo, para nós, o «homem instruído» exclusiva e enfaticamente aquele que sabe falar bem, de viva voz ou por escrito, e assombrar os outros pela quantidade de palavras que ouviu («leitor insaciável», «enciclopédia ambulante» e coisas semelhantes) —, a Arte da Palavra pode provavelmente definir-se, neste caso, como o resumo de todas as Artes Negras reunidas.
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Mas o mestre-escola é um elemento secundário, mais efeito do que causa nesta questão: aquilo que ele, com as suas universidades, consegue ou tenta ensinar será determinado pelo que a Sociedade, com as suas actividades práticas, exige continuamente que os homens aprendam. Falámos outrora dos pulmões vitais da Sociedade; e, de facto, esta questão ergue-se sempre como o alfa e o ómega das questões sociais: que métodos tem a Sociedade para fazer ascender aos lugares elevados, onde possam ajudá-la e governá-la, a sabedoria que nasce em toda a parte e, naturalmente, sobretudo nos lugares mais populosos ou mais baixos? Se reflectirdes, vereis que esta questão exprime o resultado último disponível e a soma total de todos os esforços, lutas e actividades confusas que decorrem na Sociedade; e determina se são esforços verdadeiros e sábios, destinados à vitória, ou esforços falsos e insensatos, destinados à inutilidade, à sujeição e à miséria. Como ascendem os homens na vossa Sociedade? Em todas as sociedades, incluindo a Turquia e, suponho, também o Daomé, os homens ascendem; mas a questão decisiva é sempre esta: que espécie de homens? Homens dotados de qualidades nobres ou homens de qualidades vis? Uma coisa ou outra; e que questão de vida ou morte! Pois, em todos os lugares e em todas as épocas, por pouca atenção que lhe presteis, a Natureza exige, com o máximo silêncio mas também com inexorabilidade absoluta, que seja uma coisa e não a outra. Não tenteis impingir-lhe uma falsificação vil, chamando-lhe nobre: ela é juíza. E as suas penas, por mais tranquila que pareça, são terríveis: equivalem a terramotos mundiais, à anarquia e à morte eterna; e não admitem recurso!
Seguramente que a Inglaterra ainda se lisonjeia a si própria, julgando que tem pulmões e que ainda consegue respirar um pouco? Ou será que a pobre criatura, reduzida a um industrialismo cego e mecânico, mergulhada há tanto tempo em profundezas de muitas braças, como quem procura pérolas, revolvendo os bancos de ostras como nunca antes se viu, mal sabe — tão ocupada está no ventre do caos das ostras, onde nem sequer se pensa em «respirar» — se tem pulmões ou não? As nações de constituição robusta e peito amplo conseguem por vezes inspirar profundamente antes de mergulhar e viver muito tempo nas profundezas lamacentas sem voltar a respirar; mas também elas acabam por precisar de ar e morrerão se não o conseguirem obter!
Qual é, então, a carreira que permitirá à alma dotada que nasce em Inglaterra ascender, entre a poeira nobre dos Jogos Olímpicos, até aos deuses imortais? Para bem do seu país, que não deve perder o serviço que ele nasceu capaz de lhe prestar; para seu próprio bem, para que a sua vida não seja sufocada e pervertida, e a sua luz celeste não se transforme em relâmpago vindo do Outro Lugar, é essencial que exista uma carreira assim. O país que não conseguir oferecer-lhe uma carreira está condenado; mais ainda, já é um país morto: atraiu sobre si a maldição do Céu, rejeitará a luz celeste e preferirá o relâmpago do Outro Lugar, podendo considerar-se destinado a expirar, num dia determinado, entre terríveis tosses de mosquetes nas ruas ou de outra maneira, e juridicamente morto aos olhos da lei. Não existe país onde não haja alguma carreira que atraia ou o Herói nobre ou o Grego astuto do Baixo Império. Qual dos dois atraem as vossas carreiras? Não há questão mais importante. O tipo de carreiras que os países ainda vivos oferecem determina com exactidão absoluta a natureza da vida que neles existe: se é uma vida natural e abençoada ou uma vida artificial, galvanizada e maldita, e também o grau de vigor dessa mesma vida.
As carreiras que a Inglaterra oferece ao génio que nela nasce são de duas espécies. Existe a carreira silenciosa ou não erudita das actividades industriais, que entre nós são numerosas; e existe a carreira articulada ou erudita das três profissões: Medicina, Direito (no qual podemos incluir a Política) e Igreja. O génio que nasce, portanto, terá primeiro de perguntar a si próprio se consegue manter-se calado ou não. É verdade que todo o talento humano, sobretudo o talento profundo, é um talento para agir e tem, na sua essência, uma natureza silenciosa; é inaudível, como as harmonias das esferas e as melodias eternas, das quais constitui uma fracção encarnada. Creio que todo o talento genuíno, se escutasse apenas as advertências da Natureza, preferiria exprimir-se através de factos ritmados, e não de palavras melodiosas; estas últimas, quando servem para alguma coisa, são, na melhor das hipóteses, um eco débil, uma sombra ou uma prefiguração dos primeiros. Mas os talentos diferem muito quanto à capacidade de permanecer em silêncio; e as circunstâncias de posição, oportunidade e semelhantes modificam-nos ainda mais. Além disso, as advertências da Natureza, tantas vezes completamente abafadas por opiniões alheias, estão longe de ser as únicas a que se presta atenção na hora da decisão! As actividades industriais são todas de natureza silenciosa; algumas são heróicas e eminentemente humanas; outras, pelo contrário, podemos chamar-lhes não heróicas e não eminentemente humanas: são antes de natureza castoril, embora honestas; algumas são até rapaces, inteiramente desumanas e desonestas. O génio que nasce terá de escolher.
Se uma alma nasce com inteligência divina e tem os lábios tocados pelo fogo sagrado, consagrada a grandes empreendimentos sob o Sol, essa jovem alma ouvirá a Inglaterra perguntar-lhe, a cada hora e a cada instante: «Consegues transformar a tua inteligência humana em inteligência de castor, inventar soluções honestas e acumular capital? Se sim, faz isso; e evita a espécie rapace, que não te recomendo. Esperam-te triunfos honestos na engenharia e na maquinaria; esperam-te títulos financeiros, êxitos comerciais, o domínio do escritório de contabilidade e da bolsa; serás a inveja dos lacaios que te rodeiam e acumularás mais ouro do que um cavalo de tiro consegue transportar.» — «Ouro, tanto ouro assim?», responde a alma ingénua, começando a vislumbrar a inveja dos lacaios que a rodeiam; e, em muitíssimos casos, decide contrair-se até se reduzir à condição de castor e, com uma carga de ouro equivalente à que um cavalo poderia puxar — símbolo de um êxito jamais imaginado no heroísmo castoril —, deixar amarelos de inveja os lacaios que a rodeiam.
Este é o nosso percurso habitual; está, de certa maneira, aberto a toda a criatura e é aquilo a que chamamos a carreira do castor. Talvez esteja mais acessível em Inglaterra, incluindo a América, do que alguma vez esteve em qualquer outro país. E, na verdade, dela resultam boas consequências: quem poderá ignorá-las? Metade de um resultado excelente e opulento é assim alcançada; só se torna perniciosa quando pretende constituir, como demasiadas vezes acontece hoje, o resultado inteiro. Trata-se de um resultado parcial que será abençoado e celestial assim que se obtiver a outra metade: a sabedoria necessária para orientar a primeira. Honremos, cada qual no seu grau, toda a capacidade humana honesta de engenho e invenção. O intelecto do castor, enquanto recusar firmemente tornar-se rapace e responder com um honesto «Não, não» ao tentador que lhe aponta atalhos, é verdadeiramente respeitável aos meus olhos; e muitos oradores e cantores de grandes ambições que conheci me pareceram homens muito menos desenvolvidos do que certos amigos meus, proprietários de fábricas, agricultores, comerciantes, mecânicos ou dedicados a outras actividades industriais, que passaram a vida calados e prosseguiram silenciosamente o seu caminho. Se um homem conseguir manter silencioso o seu intelecto e até transformá-lo num castor honesto, várias virtudes morais viris, que correriam o risco de naufragar noutras carreiras, poderão coexistir harmoniosamente com essa condição e conferir-lhe um carácter genuíno e parcialmente humano. Dir-lhe-ei que, nos nossos dias, pode fazer muito pior consigo próprio e com o seu intelecto do que transformá-lo em castor e ganhar dinheiro honestamente com ele. Se conseguisse, de facto, tornar-se um industrial heróico e levar uma vida «eminentemente humana»! Mas isso não é fácil actualmente. Provavelmente, cerca de noventa e nove em cada cem almas dotadas que têm de procurar uma carreira seguem este caminho do castor. Deste modo, o primeiro resultado parcial, a riqueza nacional, é alcançado em abundância; só o segundo, ou seja, a sabedoria necessária para a orientar, fica terrivelmente atrasado.
Mas, se a alma dotada não for de natureza taciturna, se for viva, impaciente e rapidamente produtiva, aspirando intensamente a exprimir-se de maneira perceptível, verifico que, nesse caso, o campo de possibilidades que a Inglaterra lhe oferece é extremamente estreito; talvez mais estreito do que qualquer outro que alguma vez tenha existido neste mundo para o mesmo fim. Parlamento, Igreja, Direito: para onde quer que o jovem de espírito vivo se volte em busca de uma carreira, encontra, entre as condições variáveis, uma condição invariável e extremamente surpreendente: a excelência tem de ser demonstrada pela língua. Não se regista o heroísmo de quem não fala, mas apenas age. Quer isto dizer que a nação inglesa não precisa desse tipo silencioso, mas apenas do tipo falador? É espantoso. De todos os órgãos de que um homem dispõe, parece que nenhum conta, excepto a língua que utiliza para falar. O cargo de primeiro-ministro, o lugar de Lorde-Chanceler, a mitra episcopal e uma espécie de coroa: tudo se pode alcançar desde que se saiba falar com a devida competência. Em toda a parte, a prova decisiva consiste numa salva bem disparada de palavras. Aprende a falar bem e chegarás ao Céu, o Céu moderno dos Ingleses. Não fales bem, trabalha apenas bem e conserva heroicamente o silêncio: não terás qualquer hipótese de lá chegar; com o teu maior esforço, talvez consigas chegar a Threadneedle Street e acumular mais ouro do que um cavalo de tiro consegue transportar. Não será esta uma disposição verdadeiramente extraordinária?
Ouvi falar de corridas em que os mortais competem metidos em sacos; de aspirantes humanos que sobem ao Céu por um mastro ensaboado; agarram um porco ensaboado; ou tentam, a galope, apanhar com a mão aberta um ganso condenado, suspenso pelo pé. Estas proezas demonstram agilidade, resistência e outras faculdades úteis do homem; mas esta competição de falar habilmente é provavelmente tão estranha como qualquer uma delas. E surge a pergunta: não seria vantajoso substituir a prova exclusiva da palavra, que começa a tornar-se monótona pela sua longa duração, por algumas destas outras provas, ou talvez por uma alternância de todas elas, de vez em quando interrompida por uma sessão de caretas através da gola? Infelizmente, Senhor Touro, verifico que tudo isto pouco mais é do que uma prova de resistência, qualidade que respeito, acrescida de uma dose maior ou menor de falsidade e astúcia, que condeno inteiramente. Resistência mais astúcia: talvez um simples mastro de madeira erguido no Pátio do Palácio, devidamente ensaboado e sob a supervisão competente, fosse um método mais honesto. Nunca se ouviu falar, talvez, de um método como este, baseado numa prova de eloquência, para preencher os principais cargos da Igreja e do Estado, em todo o sistema solar. Tu estás perfeitamente habituado a ele, meu pobre amigo, e quase morto em consequência dele; mas, noutros planetas, tal como noutras épocas do teu próprio planeta, se o tivesses proposto, a ideia provocaria espanto incrédulo, gargalhadas olímpicas que acabariam em assobios tempestuosos, lágrimas e horror! Meu amigo, se, como tens feito há tanto tempo, não consegues encontrar ninguém que cuide dos teus assuntos a não ser o mais hábil dos faladores, então os teus assuntos e tu estão perdidos. A palavra nunca conseguiu governar os assuntos de um homem ou de uma nação, nem conseguirá governar os teus, excepto no caminho para o Limbo dos Pais, onde acaba por se alojar toda a conversa, salvo uma espécie muito selecta dela.
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A Medicina, também protegida por obstáculos preliminares e pelas terríveis cabeças de Medusa do charlatanismo, que afastam muitas almas generosas, pertence às profissões parcialmente articuladas e não atrai muito as formas ardentes de ambição. A inteligência exigida pela Medicina poderia ser inteiramente humana, e, segundo todas as regras, deveria sê-lo: a profissão daquele que cura os seres humanos é, na sua raiz, sagrada e está ligada aos mais elevados sacerdócios; mais ainda, ela própria constitui o resultado e o apogeu de todos os sacerdócios e das mais divinas conquistas da inteligência neste mundo inferior. Isto tornar-se-á evidente um dia, quando os homens retirarem os velhos óculos monásticos e eclesiásticos e voltarem a olhar com os próprios olhos! Na sua essência, a tarefa do médico é sempre heróica e eminentemente humana; na prática, porém, infelizmente, também ela se tornou em boa parte castoril, produzindo apenas resultados monetários. E aquilo que nela não é castoril não acaba também por se consagrar sobretudo à conversa engenhosa, à autopromoção e à conquista de simpatias? Um exercício ou desperdício parcialmente humano da inteligência e, ai de nós, parcialmente rapace — que torna mais impossível do que nunca a figura outrora sagrada do Iatros, ou aquele que cura os seres humanos!
Nos dias de hoje, basiliscos furiosos vigiam as portas do Direito e da Igreja, lançando um triste desalento sobre os aspirantes mais nobres. Oferecem-vos duras obrigações para assinar; é como se vos exigissem um compromisso solene de vos tornardes impostores antes mesmo de entrardes; que declareis acreditar no inacreditável e, em suma, que aceiteis o Caos como Cosmos e Satanás como Senhor de todas as coisas, desde que ele apareça com dinheiro nos bolsos e decentemente envolto em crina de cavalo e bombazina. São preliminares fatais, que dissuadem muitas almas jovens e ingénuas, levando-as a recuar diante do limiar; e espero que continuem a dissuadir cada vez mais. Mas, se entrardes, a condição é bem conhecida: «Falai! Quem sabe falar melhor aqui? A ele caberá a boca de ouro e a bolsa de ouro; e será a sua cabeça sagrada cingida pela minha mitra — que, segundo me disseram, era outrora o adereço de cabeça de mulheres infelizes.»
As almas ingénuas, a menos que sejam forçadas, estremecem hoje diante do limiar destas duas carreiras; e não poucas voltam desesperadamente para a selva, preferindo enfrentar uma fortuna muito dura e ser devoradas por animais selvagens, como é mais provável que aconteça. Mas, quanto ao Parlamento e à possibilidade de nele entrar, se tal for viável, não há ainda qualquer dúvida: a alma ingénua, se dispuser de capital monetário suficiente, está predestinada pelos pais e por toda a espécie de conselheiros a seguir essa carreira da palavra, e aceita-a com entusiasmo e o coração tranquilo, tendo apenas dúvidas sobre se conseguirá fazer um discurso. Coragem, meu bravo rapaz! Se conseguires subir a um mastro ensaboado de qualquer espécie, conseguirás certamente fazer um discurso. Todos os mortais têm uma língua e conseguem produzir alguma mistura, se não de pensamentos, pelo menos de coisas que possam dizer. O mais fraco dos animais tem um grito e consegue emitir a sua voz antes de morrer. Se fores suficientemente resistente e estiveres suficientemente determinado, garanto-te que conseguirás fazer um discurso; mas não garanto que esse seja o caminho para o Céu.
Estas são, pois, as duas carreiras que temos para o génio: o Industrialismo mudo, que raramente consegue tornar-se verdadeiramente humano e permanece sobretudo castoril; e as três profissões eruditas, isto é, capazes de falar. Não existe em parte alguma a menor procura pelos tipos heróicos ou superiores de inteligência humana em estado silencioso; aparentemente, o nosso país não precisa deles actualmente. Não posso informar M’Croudy sobre a oferta existente, mas ele próprio pode verificar que a procura no mercado é nula. Estas são as nossas três profissões que exigem inteligência humana, em parte ou na totalidade, não podendo contentar-se com uma inteligência meramente castoril; e tal é o papel que o dom da palavra desempenha em todas elas. Tudo o que não é castoril parece ter de se manifestar sob a forma de discurso. A tal ponto se desperdiça ou reprime a inteligência humana neste mundo!
Se o jovem aspirante não for suficientemente rico para entrar no Parlamento, se os basiliscos ou outras razões o dissuadirem de entrar no Direito ou na Igreja, e se não conseguir reduzir inteiramente a sua inteligência humana à condição castoril, nem se contentar com a perspectiva de ganhar dinheiro, que lhe acontecerá? É naturalmente o caso de muitos, e cada vez mais. Nessa situação, resta-lhe apenas uma saída e, curiosamente, também ela passa pela palavra: a Literatura, a tentativa de escrever livros. Não podendo ascender através da eloquência oral, por causa dos basiliscos preliminares, da falta de dinheiro ou da superioridade em relação ao dinheiro, que tente fazê-lo por meio da escrita eloquente e habilidosa. Felizmente, dispondo de três dedos e de capital suficiente para comprar uma resma de papel, pode tentar esta carreira até onde quiser, apesar de todos os mortais: não existe aqui qualquer impedimento público capaz de o fazer recuar. Só a fome privada — que constitui, ela própria, um fim ou uma espécie de objectivo — pode pretender impedir um britânico de prosseguir a Literatura até ao limite e de lhe arrancar o segredo final: «Há talento em ti; não há talento em ti.» Ao súbdito britânico que imagina poder albergar em si o génio, resta esta liberdade; e, bem vistas as coisas, é quase a única que possui.
A porta da Literatura está, por conseguinte, apinhada! É o refúgio dos espiritualismos desterrados e, infelizmente, também das vaidades e das imbecilidades lascivas desterradas. Para aqui voam as aspirações ventosas, as actividades frustradas, as ambições insensatas e as energias humanas malogradas, reduzidas à condição de palavras, como para o único abrigo que lhes resta; e a República das Letras aumenta a sua população mais rapidamente do que a própria República da América. Que regimento mais estranho ao serviço de Sua Majestade, este dos Soldados da Literatura! Gostaria Vossa Senhoria de marchar por Coventry na companhia deles? Aí se encontram os deuses imortais, irreconhecíveis sob os seus disfarces, mas também os mais vis lacaios arruinados: um regimento extremamente heterogéneo. Visto superficialmente, parece uma torrente incomensurável e multicolor de actores despedidos, funâmbulos, falsos profetas e cantores de baladas embriagados; e marcha não como um regimento, mas como uma multidão ilimitada de ralé, sem instrução militar, uniforme, comando ou alojamento, com uma proporção enorme de tocadores de tambor. Dir-se-ia um regimento inteiramente entregue aos tambores, onde mal se vê um bom mosquete: mais uma turba do que um regimento. É a ralé de todas as leviandades sonoras e de tudo quanto o Caos rejeita na sua peneiração geral, marchando pelo mundo de maneira ominosa e proclamando, para quem tiver ouvidos: «Décima segunda hora da Noite; túmulos antigos a abrir-se; pálidos e húmidos puseísmos a guinchar nos seus lençóis funerários; corujas agitadas nos bairros da Cidade; muitos duendes à solta! Despertai, vivos; deixai de sonhar; erguei-vos para o julgamento! O Caos e a Geena soltaram-se; o Diabo e os seus hospícios de loucos têm de voltar a ser acorrentados, e o Último dos Dias está prestes a despontar!» É isto a Literatura, neste momento, para a alma reflexiva.
Mas o que agora mais nos importa é que, também aqui, a procura é de palavras, sempre palavras. Em todos os percursos de actividade estabelecidos e em todas as carreiras pavimentadas para o génio humano, bem como nesta carreira não pavimentada, não estabelecida e mais ampla de todas, a Literatura, caminho largo que conduz tantos à perdição, o único dever que vos é imposto continua a ser este: falar, falar. Falai bem, com a pena ou com a língua, e tudo vos correrá bem; se não falardes bem, tudo vos correrá mal. Para o valor e a faculdade humanos, na nossa Inglaterra do século XIX, o movimento hábil e aceitável da língua constitui o único meio de ascensão. O silêncio, dir-se-ia, significa a aniquilação para o inglês do século XIX. O valor que não se exprimiu pela palavra não existe; ou existe apenas em potência, como se não existisse. A Vox é o Deus deste Universo. Se possuís inteligência humana, ela de nada vos servirá, a menos que a transformeis em castorismo ou faleis por meio dela. Transformai-a em castorismo e acumulai dinheiro; ou então transformai-a em discurso e reuni o que conseguirdes. Tal é a procura de palavras entre nós, e, naturalmente, a oferta é proporcional.
Dos jantares aos lugares de Lorde-Chanceler e às mitras divinas, muito se pode obter em Inglaterra através da palavra; sem ela, nada de natureza verdadeiramente humana. Terá a Sociedade transformado-se inteiramente num saco de vento, lastreado por guinéus? Serão os nossos interesses nela como o bronze que ressoa e o címbalo que tine? No Exército ou na Marinha, quando infelizmente temos uma guerra em mãos, existe, quase contra a nossa vontade, alguma procura por certos talentos silenciosos. Mas, em tempo de paz, também essa procura se reduz à ostentação, ao branco de Espanha e aos cartuchos de pólvora sem bala; e, à excepção dos marinheiros, que são ocasionalmente forçados, nas longas viagens, a manter a língua quieta e a conversar com os elementos mudos e os oceanos ilimitados, que gemem e rugem dentro e fora deles — o que constitui uma grande vantagem para o homem do mar —, os nossos pobres serviços militares têm de se transformar em foles conversacionais e lanternas de papel ostensivas, ou fazer coisa ainda pior, tal como os outros.
Meus amigos, terei então de afirmar aquilo que seguramente todos os homens sabem, embora pareçam tê-lo esquecido: nas profissões eruditas como nas não eruditas, e em todas as coisas humanas, em todos os lugares e em todas as épocas, a verdadeira função da inteligência não é falar, mas compreender e discernir com vista à acção! Uma inteligência pode facilmente falar em excesso e realizar demasiado pouco. Gradualmente, se adquirir o hábito nocivo da conversa, produzirá cada vez menos realizações, pois falar é tão deliciosamente fácil em comparação com trabalhar; e, por fim, deixará de produzir qualquer trabalho ou sequer de pensar nele. A conversa, excepto enquanto preparação para o trabalho, vale quase nada; por vezes, vale infinitamente menos do que nada e transforma-se, mal consciente do papel fatal que desempenha, no resumo geral de todas as formas de vacuidade pretensiosa e na maior de todas as maldições a que a posteridade de Adão está sujeita neste mundo sublunar! Se quereis descobrir a Átropos da Virtude Humana, a destruidora infalível, que extingue sem dor a veracidade, a capacidade de realização e a própria capacidade de realizar ou de ser verdadeiro, ei-la aqui.
A conversa insensata não tem rival na insensatez. O trabalho insensato, se persistir, luta em toda a parte para se corrigir e recuperar a saúde, pois continua em contacto com a Natureza, e toda a Natureza o contradiz incessantemente, acabando por o curar ou aniquilar. O mesmo não acontece com a conversa insensata, que, indiferente à Natureza verídica, se dirige ao sufrágio universal e aí pode, se for habilidosa, encontrar abrigo até que todos os sufrágios estejam falidos e tenham ido parar a Houndsditch; só então a Natureza intervém com o seu protesto. A expressão falsa, que podemos definir como o apogeu da expressão insensata, é capaz, como já dissemos, de se tornar a mais falsa de todas as coisas. A mais falsa de todas as coisas: aonde vos levará a inundação geral dessa falsidade, no Parlamento e na Sinagoga, nos livros e nos panfletos, a vós e aos vossos assuntos, meu amigo, quando vos tiverdes lançado nela, como agora?
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O Parlamento, Parliamentum, é, por definição expressa, o Aparelho da Palavra; contudo, nem sequer no Parlamento é a palavra, de modo algum, a função essencial. O essencial para qualquer Parlamento, tal como para qualquer homem, não é exprimir bem a sua opinião, mas possuir uma opinião boa e justa que valha a pena exprimir. Se conseguirdes formar uma opinião verdadeira, acabareis por comunicá-la de alguma maneira, melhor ou pior; e ela será uma bênção para todas as criaturas. Se tiverdes uma opinião falsa e a exprimirdes com a língua dos Anjos, de que vos servirá? Quanto melhor a exprimirdes, pior será!
No Parlamento e fora dele, em toda a parte deste Universo, a vossa única salvação consiste em discernir com justo entendimento e seguir com nobre coragem a lei do caso que tendes diante de vós, aquilo que o Criador determinou a seu respeito. Se conseguirdes obter isto de um só homem, estais salvos; se não o conseguirdes obter do mais augusto Parlamento, envolto nas peles de carneiro de mil anos, estais perdidos — vós, o vosso Parlamento e todas as vossas peles de carneiro! A conversa bela está longe de ser a necessidade mais urgente do Parlamento! Já tivemos no Parlamento uma dose razoável de conversa! Aquilo que a conversa fez por nós no Parlamento, e continua a fazer, até o mais obtuso de nós começa finalmente a perceber!
Muito se tem dito sobre a capacidade do Parlamento para formar homens aptos para os negócios, sobre a preparação que um funcionário recebe nesta escola de argumentação e conversa. Aí aprende a ser paciente e tolerante; vê como as coisas são na Nação e no Governo da Nação; adquire conhecimentos, cortesia e maneiras oficiais; em suma, é polido em todos os aspectos até alcançar uma expressão oficial e prepara-se, melhor do que noutro lugar, para governar os homens. Assim se diz. Sem dúvida, penso eu, verá e suportará muitas coisas no Parlamento, habituando-se a várias delas; com os olhos de que dispõe, acabará por ver, entre outras coisas, o próprio Parlamento: essa entidade obscura, de voo elevado mas impotente, que se debate sem cessar, tagarela incessantemente e permanece inarticulada e muda — certamente uma das coisas mais estranhas que existem actualmente sob o Sol. Se pretender conseguir que certas medidas sejam aprovadas, essa será, sem dúvida, uma aquisição importante. Mas quanto a formar-se como homem de acção, e muito mais como rei ou chefe de homens de acção, neste ambiente de conversa, confesso que tenho dúvidas fatais — ou melhor, infelizmente, não tenho dúvida alguma! A nossa maior desgraça actual, dificilmente remediável e, contudo, exigindo urgentemente remédio, é que nenhum britânico pode tornar-se estadista ou chefe de trabalhadores sem antes se ter provado chefe de faladores. Não será este, de todos os testes que se poderiam impor a um homem de acção, precisamente o mais falso e injusto?
Duvido, além disso, que seja provável encontrar o material mais adequado para um estadista ou chefe de homens de acção num ambiente como este. O vosso potencial chefe de homens de acção irá sequer até lá para experimentar se sabe falar? Serão os vossos pobres eleitores, habilitados pelo censo de dez libras, e o mundo eleitoral em geral, apaixonados pela conversa eloquente, os mais capazes de discernir que homem possui em si mundos de trabalho silencioso? Não. Ou será esse homem, mesmo que tenha nascido na posição social adequada, o mais propenso a apresentar-se e a solicitar os seus votos tão desejáveis? Mais uma vez, não.
A época que tanto admira a conversa tem pouco discernimento para o trabalho inarticulado ou para qualquer coisa profunda e genuína. Ninguém, ou quase ninguém, possuindo em si um sentimento sério da verdade, como poderá reconhecer uma Veracidade inarticulada, um facto da Natureza de qualquer espécie, e sobretudo um Homem de Acção, o mais complexo, profundo e inarticulado de todos os factos da Natureza? Ninguém consegue reconhecê-lo antes de lhe ser concedida uma patente, de receber algum selo público de autenticidade e de ser proclamado e declarado, em termos articulados, um homem de acção. Para o adorador da palavra, esse homem é um livro fechado. Uma alma humana excelente, saída directamente do Céu: como poderá a sua excelência tornar-se reconhecível para este infeliz? Só se anunciando e proclamando a si própria como excelente — coisa que, creio eu, será precisamente aquilo que menos se apressará a fazer.
A Sabedoria, a mensagem divina que cada alma humana traz a este mundo, a profecia divina da capacidade nova e peculiar que o homem recém-chegado possui para realizar alguma coisa, é intrinsecamente silenciosa. Não pode ser lida de imediato, nem sequer inteiramente, nas palavras; está inscrita em factos complexos, como os dons, a posição, os desejos e as oportunidades concedidas ao homem. Interpreta-se a si própria através de pressentimentos, lutas vagas e esforços apaixonados, e só se torna plenamente legível quando a sua obra está concluída. Não são as nobres advertências da Natureza, mas as ignóbeis, que mais tentam o homem a revelar em palavras o segredo da sua alma. Se possui um segredo, as palavras serão sempre inadequadas para o exprimir. Limitam-se a perturbar a verdadeira resposta dos factos, que poderia ser dada a esse segredo; perturbam-na, obstruem-na e acabam por a abolir e tornar impossível. Nenhum grande homem de acção pode falar abundantemente sobre os seus feitos. Guilherme, o Taciturno, exprimiu-se da melhor maneira através de um país libertado; Oliver Cromwell não brilhou pela retórica; Goethe, quando tinha apenas um livro em mente, descobriu que não devia sequer falar dele, se queria que fosse bem-sucedido.
Quanto à cortesia e à formação para os negócios: um funcionário tem de ser preparado para os negócios, naturalmente, e precisa de formação não só para as funções essenciais, mas até para os modos próprios do cargo. Para além das suas faculdades intrínsecas, sejam elas quais forem, tem de ser prudente, vigilante, discreto e, acima de tudo, reservado, paciente e cortês. Algumas destas qualidades são impostas pela própria natureza aos homens de posição, e eles são educados desde o nascimento para as exercerem. Nisso consiste a sua única qualificação intrínseca para o cargo; essa é a sua única vantagem na nova Downing Street projectada para esta Nova Era, e não será de grande valor nessa instituição. Uma vantagem, ou vantagem temporária, contra a qual pesam tantos factores contrários. É um requisito preliminar indispensável para o cargo, mas está longe de constituir uma preparação completa; sem mais nada, é uma preparação miserável.
Permita-me Vossa Senhoria afirmar que, na prática, as qualidades intrínsecas pressupõem também estes requisitos preliminares, mas o inverso não é verdadeiro. No conjunto, se possuirdes as qualidades intrínsecas, possuireis tudo, e os requisitos preliminares serão alcançáveis; mas, se possuirdes apenas os requisitos preliminares, ainda não possuireis nada. Um homem de verdadeira dignidade não achará impossível comportar-se dignamente; um homem de verdadeiro entendimento e discernimento descobrirá, logo nos seus primeiros estudos, quais são as leis da sua situação e conformar-se-á com elas. O rude e velho Samuel Johnson, que tantas vezes era um Bóreas turbulento e um urso árctico agreste, definiu-se, com toda a justiça, como um homem cortês. Possuía uma atitude de alma nobre e viril; um sentido claro, verdadeiro e leal do que os outros eram e do que ele próprio era transparecia através da sua rudeza. Esse sentido revelava-se como um ritmo grave e profundo quando o seu Rei o honrava e ele se recusava a «trocar cortesias com o Rei». Também se manifestava no modo indignado como esmagava os favores patronais de Chesterfield, as insolências feitas à medida por alfaiates e as contradições dos pecadores — movimentos que podemos chamar revolucionários, duros e peremptórios por necessidade, pois não podiam ser suaves como os seus movimentos naturais, quando os homens e os reis o reconheciam como aquilo que realmente era. Dado um homem nobre, creio que Vossa Senhoria poderá esperar que, mais cedo ou mais tarde, ele se torne um homem cortês. Não havia em toda a Grã-Bretanha homem mais cortês do que o rústico Robert Burns: as grandes duquesas ficavam cativadas pelas maneiras cavalheirescas daquele homem; reconheciam nele a verdadeira cavalaria e a divina nobreza de porte — como bem podiam, agora que o Deus Camponês e o Thor nórdico tinham voltado a descer entre elas! Era cavalaria, não como a praticada em Drury Lane ou nos salões do West End, mas como a praticada em Valhala e na Assembleia Geral dos Deuses.
Na verdade, quem inventou a cavalaria, a cortesia ou qualquer outra coisa nobre, melodiosa e bela entre nós, senão homens como Johnson e Burns? A pequena minoria que, ao longo das gerações deste mundo, foi sábia e corajosa concebeu tudo quanto existe de nobre nas relações entre os homens, apesar da esmagadora maioria de imbecis, adoradores preguiçosos do próprio ventre e indivíduos ruidosos e grosseiros. Estou convencido de que eles aprenderão a ser corteses, Vossa Senhoria, se lhes derdes uma oportunidade! O Parlamento também não se revelará, em primeiro lugar, uma escola de cultura humana, para esta ou qualquer outra virtude ou dom, nem será indispensável para esse fim. Tal como a experiência no rio é indispensável ao barqueiro, o conhecimento do seu Parlamento é indispensável ao estadista britânico, seja Peel ou Chatham; assim como o conhecimento do Œil-de-Bœuf era indispensável ao francês Choiseul. Saber onde e como se pode atravessar a vau, de barco ou a nado esse rio — seja ele o Parlamento, com os seus Wilkes, ou o Œil-de-Bœuf, com as suas Pompadour — e como transportar através dele as cargas heterogéneas chamadas «medidas», conforme a sua natureza, fazendo-as chegar vivas à outra margem sob a forma de factos: todos temos as nossas travessias neste mundo e temos de conhecer o rio e os seus modos, ou um dia afogar-nos-emos! Neste sentido, a experiência parlamentar é indispensável ao estadista britânico; em nenhum outro.
O Parlamento será também uma escola de maneiras e de várias outras coisas para o aspirante a estadista; uma escola melhor ou pior, tal como o Œil-de-Bœuf também o era e como o são, inevitavelmente, todos os ambientes em que os homens trabalham ou vivem. Sobretudo quando muitos homens trabalham em conjunto, o simples contacto entre eles desgasta as suas arestas e torna-os mais arredondados, mais «polidos», à sua maneira; e o funcionário, onde quer que o coloquem, nunca deixará de receber uma formação de tipos muito diversos. Não se pode chamar ao Parlamento uma escola de primeira categoria para ele — receio até dizer de que categoria é actualmente! Na medida em que o ensina a ser vigilante, paciente, corajoso, a ter resistência nos pulmões ou na alma e a nadar habilmente de alguma maneira, é uma boa escola. Na medida em que o obriga a falar quando a Natureza lhe ordena que se cale e, mais ainda, a proferir falsidades, ambiguidades vagas e a linguagem espumosa habitual nos parlamentos destes tempos, para que o mundo inteiro não descubra o seu segredo — o que muitas vezes destruiria esse segredo e pouco benefício traria ao mundo —, pode ser considerada uma das piores escolas alguma vez inventadas pelo homem; e creio que quase poderia desafiar o Œil-de-Bœuf a competir com ela em perversidade.
O Parlamento formará os vossos homens nas maneiras exigidas a um estadista, mas muito menos nas funções intrínsecas dessa condição. Nestas últimas, é capaz de os deformar como nenhuma outra instituição. O Parlamento ensinar-vos-á a falar e, acima de tudo, a escutar pacientemente quantidades ilimitadas de conversa insensata. Saber contar uma boa história a vosso próprio respeito e fazer parecer que cumpristes o vosso trabalho é alguma coisa, sobretudo nos países constitucionais; contudo, em todos os países, mesmo nos constitucionais, não é, na sua essência, nada — provavelmente, até menos do que nada. Pois não é função de qualquer mortal, em Downing Street ou noutro lugar deste mundo inferior, mexer a língua e fazer parecer que trabalhou; é antes mexer outros órgãos e trabalhar efectivamente. Não há qualquer perigo de que o trabalho não venha a revelar-se por si próprio, mais cedo ou mais tarde. Mesmo nos países constitucionais, tal capacidade pode tornar-se muito menos do que nada. Tendes alguma ideia de quanto menos? A criatura humana que uma vez se resignou a satisfazer-se com «aparências», procurando nelas a sua salvação, está a perder rapidamente a própria vida moral. Podeis ter a certeza de que Belzebu, Satanás ou qualquer que seja o nome que deis ao demasiado autêntico Génio da Morte Eterna já a tem nas suas garras. Mais cedo ou mais tarde, tereis uma gaita-de-foles parlamentar morta, enquanto o homem vivo terá fugido para nunca mais voltar!
Eu próprio ouvi tais gaitas-de-foles parlamentares tocar melodias que muito satisfaziam o público. Todas as melodias estão ao seu alcance; e a sua mente — pois ainda lhe chamam mente — está tão pronta como uma realejo, bastando rodar a manivela: «Meus Lordes, a questão que neste momento se encontra perante a Câmara…» Céus! Ó Silêncios divinos, existiria então no ventre do Caos um produto como este, susceptível de ser evocado pela arte humana? Enquanto as galerias aplaudiam com entusiasmo e o Quarto Poder olhava com os olhos iluminados, como se lhe tivésseis tocado nos lábios com um bastão mergulhado em mel, eu permanecia sentado, entregue a reflexões demasiado horríveis para serem exprimidas. Uma pobre criatura humana, um amigo erudito, outrora possuidor de muitos dons excelentes, de inteligência, veracidade e convicções viris sobre toda a espécie de assuntos, terá perdido tudo isso? Terá transformado tudo numa fosforescência cintilante que se manifesta no exterior, enquanto no interior tudo está morto, caótico e obscuro: um sepulcro caiado, cheio de ossos de mortos! Discernimento, conhecimento, inteligência, no sentido humano destas palavras, já nada disso resta neste homem. Não lhe perguntamos a sua opinião sobre assunto algum, pois ele não tem opinião, juízo ou discernimento sobre o assunto em si; só lhe interessa o que se pode dizer a respeito dele, como se pode argumentar sobre ele e que melodia se pode tocar para iluminar os olhos do Quarto Poder.
Devemos definir uma alma assim, embora aparentemente continue a mover-se no ambiente parlamentar, apresentando «moções» e aprovando leis, tanto quanto sei, como viva ou morta? Partridge, o autor de almanaques, cujas «publicações» continuam a aparecer regularmente, é reconhecidamente um morto! E o cão que se afogou no Verão passado e desde então flutua para cima e para baixo no Tamisa, levado pela enchente e pela vazante, não está morto? Infelizmente, nos meses quentes, encontramos aqui e ali um cão assim a flutuar; e, se viajarmos frequentemente nos barcos a vapor do rio, acabamos por reconhecê-lo à vista. «Lá está ele outra vez, ainda em movimento no seu elemento quase estígio!», exclamamos, desanimados, talvez enquanto lemos o jornal da manhã; e reflectimos, com dolorosa opressão do olfacto e da imaginação, sobre certos mestres consumados da eloquência parlamentar dos tempos modernos. Mortos há muito, mas sem repouso; continuam diariamente a apresentar moções naquela região de Westminster, indo de Vauxhall a Blackfriars e regressando, sem conseguirem escapar. Todos os dias, no jornal ou a bordo de um barco fluvial, podemos vê-los em algum ponto do seu percurso fatal, suspensos nos remoinhos, encalhados na lama ou avançando rapidamente com a enchente ou a vazante; e todos os dias o seu odor se torna mais intolerável, a sua condição apela de forma cada vez mais trágica aos deuses e aos homens.
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A Natureza não admite mentiras; a maioria dos homens afirma ter consciência disso, mas poucos o levam verdadeiramente a sério. Excepto nos domínios da manipulação puramente material, é como se, na prática, esta grande verdade fosse apenas um floreado retórico de cortesia. O que é uma mentira? Vale a pena que a mente prática inglesa coloque esta pergunta, de uma vez por todas.
Afastar-se voluntariamente, pela palavra, do facto tal como ele existe, tal como aconteceu e continuará a desenvolver-se: se um homem adoptar esta atitude, ela irá necessariamente induzi-lo em erro em todas as suas relações práticas com esse facto. Enquanto não expulsar de si tal afirmação e a rejeitar como coisa impura e venenosa, não poderá ter êxito na sua relação com a realidade. Se esse afastamento verbal da verdade for involuntário, lamentamo-lo como uma desgraça; e temos direito — pelo menos o próprio orador tem esse direito — a lamentá-lo profundamente, como a mais evidente das desgraças, como a perda indubitável do caminho e o desvio em relação ao objectivo, em vez de um avanço em direcção a ele, na corrida que nos foi proposta. Se o afastamento for voluntário, ao nosso pesar junta-se uma indignação justa: chamamos mentira a esse afastamento voluntário da verdade pela palavra e detestamo-lo, com razão, como a essência da traição e da baixeza humanas, como a deserção de um homem que se passa para o Inimigo dos homens contra si próprio e contra os seus irmãos. Um desertor perdido, que passou para o lado do Inimigo, chamado Satanás, e que não pode deixar de se perder nessa aventura! Assim é todo aquele que mente com a língua; e assim tem sido considerado em todas as nações e em todas as épocas. Os homens puxam-lhe pelo nariz e expulsam-no de casa, indicando-lhe, por meios peremptórios e expressivos, que não podem nem querem ter qualquer relação com ele. Tal é o afastamento verbal em relação ao facto; assim se comporta quem pratica essa triste arte.
Mas teremos reflectido suficientemente sobre o afastamento, no pensamento, daquilo que é o facto? Teremos considerado o homem cujo próprio pensamento é uma mentira para si e para nós? Também ele é um ser aterrador, que repete por toda a parte, a propósito deste Universo, aquilo que não existe e que se vê obrigado a repetir; é o arauto seguro da ruína de todos os que o seguem e que passam a conhecer as coisas através do seu conhecimento! E, se quereis aprender a produzir um pensamento mentiroso, não existe receita mais segura do que deixar a língua correr solta. Ou já tendes esse pensamento mentiroso, ou em breve o adquirireis por esse método. Aquele que mente com a própria língua deixou claramente de pensar com verdade há muito tempo. Será que, em algum sentido, ainda «pensa»? Todos os seus pensamentos e imaginações, se ultrapassarem o mero castorismo, a astúcia e a sensualidade, são falsos, incompletos, perversos e infiéis até para consigo próprio. Tornou-se um espelho falso deste Universo; não apenas um espelho pequeno, mas um espelho deformado, embaciado e inteiramente desarranjado. Mas todas as línguas soltas são também aparentadas com as línguas mentirosas: são, na melhor das hipóteses, insinceras e produzem um ruído incessante com pouco significado; o pensamento, se existir algum por detrás delas, jaz languidamente a grande distância. Gradualmente, pouco ou nada restará dele! Como poderia o pensamento de tal homem, aquilo a que ele chama pensamento, ser outra coisa que não falso?
Infelizmente, o mentiroso evidente, que mente com a língua, sabe pelo menos que está a mentir e conserva, ou poderia conservar, algum vestígio de remorso e alguma possibilidade de emenda; mas que esperança existe para o mentiroso imperceptível, cuja língua articula apenas lugares-comuns aceites, frases feitas e tagarelice, querendo dizer somente: «Admirai-me, chamai-me um excelente orador de cepo!»? O seu pensamento, aquilo que dele restava, permanece adormecido e só desperta para inventar palavras e verosimilhanças; enquanto a língua corre desembaraçada, o pensamento ausenta-se, vai à cata de não se sabe o quê e deixa-se entorpecer pelos aplausos de «Muito bem!». Que será de um homem assim? O seu pensamento ocioso degenerou e tornou-se falso, passando a produzir falsidades; a luz interior da sua mente apagou-se, e toda a sua luz será, doravante, mera putrefacção e fosforescência. Quem procurar a ruína, siga esse homem com confiança: ele, se não outro, está no caminho certo para a encontrar.
Bom Deus, entre o Pensamento mais sábio de um homem e a verdade efectiva de uma Coisa tal como existe na Natureza, seria de esperar que houvesse uma distância considerável! Ponderai isto — e considerai ainda as outras distâncias que introduzimos! A palavra mais fiel e ardente de um homem não passa de uma imagem imperfeita do pensamento que nele habita; a sua melhor palavra nunca transmitirá esse pensamento a outras mentes sem algum erro. E entre o seu pobre pensamento e o Facto da Natureza, que é o Pensamento do Eterno, haverá certamente discrepâncias e insuficiências! Falai com a máxima sinceridade, pensai com a máxima sabedoria: continuará a existir um grande abismo entre vós e o facto. E agora, se não falardes com a máxima sinceridade e, em consequência inevitável, não pensardes com a máxima sabedoria, mas apenas com a máxima verosimilhança e com o maior aparato para fins parlamentares, onde ireis parar, guiados por tal orientação? Convido o Parlamento britânico e todos os eleitores parlamentares e outros da Grã-Bretanha a reflectirem sobre isto até o compreenderem plenamente; e depois a perguntarem, cada um a si próprio, quais serão provavelmente os horóscopos do Parlamento britânico nesta época da História do Mundo.
Se, por qualquer pecado ou infortúnio, não conseguirdes descobrir qual é a verdade dos factos, estais perdidos no que lhes diz respeito! Se o vosso pensamento não representar o facto com fidelidade, mas o representar falsamente, tentareis em vão agir sobre ele. O facto não vos obedecerá; resistir-vos-á silenciosamente e continuará a resistir-vos com invencibilidade silenciosa, até conseguirdes representá-lo correctamente, em vez de o fazerdes falsamente. Não há salvação para vós senão alcançar uma imagem verdadeira do facto. De nada serve votar que uma imagem falsa é verdadeira; votá-la e voltar a votá-la por maiorias esmagadoras, por unanimidades jubilosas e universais; lê-la três ou trezentas vezes, aprovar leis parlamentares sobre ela até o livro das leis já não comportar mais nenhuma: nada disso ajuda minimamente. A coisa não é assim; é de outra maneira. E toda a posteridade de Adão, votando diariamente sobre ela até ao fim do mundo, não a alterará nem um pouco. Poderá o mais sublime sinédrio, Parlamento constitucional ou outra forma de Sabedoria Colectiva do mundo convencer o fogo a não queimar, o ácido sulfúrico a tornar-se leite doce ou a Lua a transformar-se em queijo verde? A realidade é precisamente o contrário. Até o Parlamento constitucional britânico se abstém de tais tentativas tão árduas no domínio das votações e deixa que a tabuada, as propriedades químicas, mecânicas e outras das substâncias materiais sigam o seu curso, consciente de que as votações, os discursos finais e os relatórios no Hansard não alterarão nada disso. Nisto, o Parlamento britânico procede indiscutivelmente com sabedoria.
Infelizmente, o Parlamento britânico ainda não compreende inteiramente que toda a espécie de coisas e relações entre coisas, tanto espirituais como materiais, todas as qualidades, entidades e existências deste estranho Universo visível e invisível, são igualmente inflexíveis por natureza; todas elas continuarão a obedecer à sua própria lei, e não à nossa, com exactamente a mesma obstinação, surdas como uma víbora a todo o encanto da eloquência parlamentar e a votações repetidas tantas vezes quantas se queira. Recusar-se-ão, silenciosa mas inflexivelmente e para todo o sempre, a mudar, tal como o ácido sulfúrico se recusa a tornar-se leite doce, mesmo que votemos nesse sentido até ao fim do mundo. Por vezes, parece-me que os Parlamentos britânico e outros ainda não assimilaram suficientemente esta verdade. O que constitui, seguramente, um grande infortúnio para esses mesmos Parlamentos! Pois, depois de todas as melhorias constitucionais e de tanto agitar de perucas em Westminster, o ponto essencial continua a ser exactamente o mesmo que era antes de se ouvir falar de qualquer constituição ou de a primeira peruca oficial ter brotado do nada: descobrir qual é, na realidade, a verdade natural da questão que temos em mãos! Assim é, na verdade, neste tempo e neste lugar, como em todos os tempos e lugares passados e futuros. Hoje, em St. Stephen’s, onde se encontram no almofariz grandes projectos constitucionais, filantrópicos e outros, tal como outrora na planície de Shinar, onde se pretendia construir uma certa Torre, igualmente de natureza muito filantrópica, na verdade uma das torres mais desejáveis de que alguma vez ouvi falar — mas que não pôde ser construída! Meus amigos, não me rio; estou, sinceramente, mais inclinado a chorar.
Obtende, por seiscentos e cinquenta e oito votos, ou sem voto algum, através da indicação silenciosa da vossa própria visão e entendimento, concedidos directamente pelo Céu e mais sagrados para vós do que qualquer coisa terrena ou do que todas as coisas terrenas, uma imagem correcta do facto em questão, tal como Deus e a Natureza o fizeram: eis a única coisa necessária; com ela, tudo vos correrá bem em tudo quanto tiverdes de fazer em relação a esse facto. Obtende, pelos mais sublimes métodos constitucionais, aclamados por todo o mundo, uma imagem incorrecta do facto: então as coisas correr-vos-ão mal; recebereis louvores de editores competentes e de massas vociferantes de seres humanos enganados, mas o Facto da Natureza, permanecendo silenciosamente tal como era, responder-vos-á apenas com a contradição. Que mais esperáveis? Mudará a Natureza, ou tornar-se-á o ácido sulfúrico leite doce, por causa do ruído de imbecis vociferantes? Seguramente que não. Garanto-vos que a Natureza não tem a menor intenção de o fazer.
Pelo contrário, a Natureza mantém silenciosamente um banco de poupança e um registo oficial de exactidão absoluta, até ao mais fugaz pormenor, de débitos e créditos relativos a cada um de nós. Regista silenciosamente: crédito por este ou aquele acto invisível de veracidade e heroísmo; débito por um erro ruidoso e impetuoso, cometido por vinte e sete milhões de pessoas ou por uma só, e por todos os actos, palavras e pensamentos que dele resultaram. Débito, débito, débito, dia após dia, com o rigor do Destino — pois é o próprio Destino que escreve. E, no fim das contas, tereis de pagar tudo, meu amigo; eis o problema! Nem a mais ínfima fracção de um farthing deixará de estar registada a vosso favor ou contra vós; e tereis de pagar à taxa de juro devida, de forma exacta e completa, tão certo como estardes vivos. Se viverdes, tereis de pagar até em dinheiro. Mas, pobre escravo, julgas que só existe pagamento em dinheiro? Há uma forma de pagamento que a Natureza exige rigorosamente aos homens e também às nações e que, quando a sua ira é mais severa, consiste, creio eu, em condenar-vos a possuir dinheiro. Possuí-lo; deixar que as vossas vaidades inchadas se tornem monstruosas, que as vossas paixões imundas sejam levadas à explosão, que o vosso coração e talvez até o vosso estômago sejam destruídos pela embriaguez; deixar que a vossa pobre vida e todas as vossas actividades viris sejam entorpecidas até à loucura e ao sono comatoso. Numa palavra, como diziam os antigos Profetas, perder a alma para sempre. A vossa alma: de tal modo que, ao longo das Eternidades, não tenhais alma nem qualquer vestígio viril de alguma vez a terdes possuído; e que apenas, durante breves momentos fugazes, tenhais possuído um saco de dinheiro, trocando fatalmente por ele a alma, o coração e, coisa ainda mais horrível, o próprio estômago. Miserável mortal, que vagueias pelo Templo de Deus julgando estar numa cozinha de brutos! A Natureza, quando o seu desprezo por um escravo se torna mais divino e fulgura como um relâmpago ofuscante contra a sua condição servil, lança-lhe frequentemente um saco de dinheiro, dizendo em silêncio: «Toma! Vai-te embora; esse é o teu destino!»
Pois a Natureza não favorece homem algum, nem qualquer grupo ou a maior multidão de homens, se estes romperem com os seus factos e com ela própria. Excelente orador de cepo, cadáver eloquente do Parlamento, que apresenta moções e aprova leis, noticiado nos jornais da manhã e considerado o «melhor orador em actividade»? Afastou-se do Universo dos Factos e associou-se ao Universo das Fantasmagorias; considera mais lucrativo negociar notas falsas, enquanto os lojistas insensatos as aceitarem. Para um homem assim, e para as nações que o seguem, a Natureza reserva os seus garfos de forca e as suas prisões de morte eterna. Duvidas disso? Infeliz mortal, nesse caso a própria Natureza seria Caos, e não Cosmos. A Natureza não foi criada por um Impostor; não ela, por muito numerosos que eles sejam! Na verdade, por dinheiro ou por qualquer outro meio, até à última fracção de valor calculável ou incalculável, cada um de nós terá de acertar o saldo exacto no referido banco de poupança ou registo oficial mantido pela Natureza: crédito pela quantidade de actos de veracidade que praticámos, débito pela quantidade de falsidades e erros. Não existe, por nenhum artifício concebível, a mais ínfima esperança de escapar a esse resultado, para qualquer um de nós ou para todos nós.
Isto era outrora um facto bem conhecido; e ainda hoje, diariamente, em certos edifícios, igrejas com campanários, templos de ídolos e outros templos sagrados espalhados pelo mundo, ouvimos um murmúrio indistinto afirmando que assim continua a ser, como sempre foi e para sempre será. Contudo, parece-me que caiu terrivelmente no esquecimento; e, de Dã a Berseba, procuramos em vão um homem que verdadeiramente acredite nisso no fundo do coração. No fundo do coração, acredita, como percebemos, que os títulos financeiros produzirão dividendos; mas que o Céu também possui um departamento de contabilidade, onde regista infalivelmente, a nosso favor ou contra nós, tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, conservando esse registo relativamente a cada criatura — isso não me parece que ele acredite verdadeiramente. Pobre imbecil, não: considera que todos os pagamentos se fazem em dinheiro ou podem aproximadamente ser representados por dinheiro; observa que o dinheiro segue um curso estranho, deixa de acreditar no pároco e no seu Dia do Juízo, não reconhece qualquer julgamento para além dos tribunais de pequenas ou grandes dívidas e vive, por enquanto, segundo essa estranha concepção do Universo. De que servem as suas «civilizações» e os seus «conhecimentos úteis», se esqueceu o princípio de todo o conhecimento humano, a primeira percepção da alma humana desperta neste mundo, o primeiro mandamento da inspiração celeste dirigido a todos os homens? Já não posso considerá-lo um homem, mas apenas uma espécie de castor humano que aprendeu a arte de fazer contas. Vive sem se precipitar a cada hora para o suicídio porque a sua alma, com todas as suas nobres aspirações e imaginações, está afundada no fundo do estômago, onde jaz entorpecida, sem aspirar, imaginar ou reflectir, como se fosse o princípio vital de um simples castor quadrúpede. Uma alma humana destinada a fiar algodão e ganhar dinheiro ou, infelizmente, apenas a caçar perdizes e receber rendas; para quem a Eternidade, a Imortalidade e todas as Nobrezas humanas e Factos divinos que não tenham repercussões na bolsa são fábulas sem sentido, vazias como o vento inarticulado. Um dia recuperará dessa convicção ou será reduzido a pó, creio eu!
A este estado foram reduzidos os homens e as nações nesta triste época: pelos nossos castorismos e mamonismos; pela repetição de fórmulas sobre a «graça preveniente» em toda a parte e pelo alojamento e sustento das nossas pobres almas, durante séculos, em ilusões posteriores igualmente infundadas; pelas nossas sordidezes estúpidas e tagarelices ociosas; pela fé no divino Orador de Cepo, na Palavrada Constitucional ou no augusto Sinédrio de Oradores. Não posso chamar felizes a estas nações; tenho de as considerar nações prestes a perecer, que ou começam a recuperar ou em breve morrerão. Há esperança de recuperação — sim, porque existe na Natureza uma Beneficência Omnipotente, e a Sua voz, divinamente terrível, pode ouvir-se agora no turbilhão do mundo, tal como se ouvia outrora e se ouvirá para sempre. A recuperação ou, em alternativa, a destruição e o aniquilamento são absolutamente certos, e a crise aproxima-se rapidamente; mas as minhas esperanças de recuperação há muito desapareceram no que respeita ao Orador de Cepo e à Palavrada Constitucional, por mais aperfeiçoados que estejam. Não serão eles, imagino, mas algo que lhes seja diametralmente oposto, a devolver-nos à verdade e a Deus!
Digo-vos que o intelecto ignóbil não consegue pensar a verdade, nem sequer dentro dos seus próprios limites, mesmo quando tenta fazê-lo seriamente! E que podemos esperar do intelecto ignóbil que nem sequer tenta fazê-lo seriamente e que chegou ao ponto de tentar seriamente o contrário, mentindo até com a própria língua? É horrível pensar nisso. A expressão sincera e sábia é apenas um corolário imperfeito e uma manifestação exterior insignificante do pensamento sincero e sábio. Aquele cuja própria língua profere falsidades, que terá feito há muito tempo o seu coração? O pensamento do seu coração não é o mais sábio, nem sequer o menos sábio: é o mais insensato; e até dele recebemos uma cópia falsa e insensata. Ora, aquilo a que queremos chegar, a propósito da questão em causa, é ao Facto da Natureza, ou ao Pensamento do Eterno; se não chegarmos lá, não salvaremos a questão, mas conduzi-la-emos ao naufrágio!
A prática dos parlamentos modernos, com redactores de imprensa sentados entre os seus membros e vinte e sete milhões de pessoas, na sua maioria insensatas, a escutá-los, enche-me de espanto. Não conseguimos obter, a propósito de qualquer coisa ou facto tal como Deus e a Natureza o fizeram, sequer o pensamento verdadeiro de qualquer cabeça honrada — mesmo na medida em que essa cabeça honrada ainda conserva a capacidade de pensar. Qual seria ou teria sido o pensamento mais sábio do honorável cavalheiro se, desde o nascimento, tivesse levado uma vida de piedade, veracidade séria e virtude heróica? Tu e ele próprio, pobre criatura profundamente afundada, só o conseguis conjecturar em vão, como se estivesse a distâncias imensas, muito para trás daquilo que ele é levado a dizer. E, muito para além do seu pensamento, a distâncias seguramente infinitas de tudo quanto ele poderia alguma vez pensar, encontra-se o Pensamento de Deus Todo-Poderoso, a própria Imagem do Facto, aquilo que procurais e que tendes de encontrar, sob pena de as coisas correrem ainda pior! Nem sequer o seu pensamento efectivo, a sua conjectura confusa, falsificada e vaga, ou quase-pensamento, vos é dado; recebeis apenas uma cópia falsificada daquilo que ele imagina poder agradar aos redactores de imprensa e aos vinte e sete milhões de pessoas, na sua maioria insensatas. E é com base nessa cópia que deveis agir. Com que êxito, esperais? É esse o pensamento que deveis tomar pelo Pensamento da Mente Eterna: uma falsidade duplamente destilada, produto da imbecilidade de um homem que é falso até enquanto imbecil!
Estarei a fazer-me entender por Mr. Peter? Talvez assim lhe surpreenda menos que a eloquência parlamentar me provoque mais espanto do que admiração e que o destino dos países governados por essa sublime alquimia não me pareça, actualmente, muito promissor. Não será por esse método que escalaremos os Céus e conquistaremos a Terra; não por esse, mas por outro.
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Um homem benevolente propôs-me certa vez, embora sem indicar os meios para o realizar, este plano de reforma para o nosso mundo mergulhado nas trevas: cortar as línguas a uma geração inteira, fosse a actual ou a seguinte, proibindo também a Literatura, e obrigar pelo menos uma geração a passar a vida em silêncio. «Eis-te aí, geração abençoada, libertada por benevolência da vã algaraviada da tagarelice. Tudo quanto o teu intelecto, concedido por Deus, te indicar como verdadeiro, quer venha da tradição quer seja original, irás praticá-lo. Na sua prática, encontrarás um veredicto: se for verdadeiro, manter-te-ás fiel a ele e voltarás a praticá-lo; se for falso, nunca mais tentarás fazê-lo e ficarás para sempre livre dele. Não é teu destino agir por causa das vãs opiniões alheias, nem dos grandes clamores do sinédrio dos insensatos — quantos mundos de sofrimento te serão poupados! A voz da Natureza, ouvida no teu próprio ser interior, e o Mandamento sagrado do teu Criador serão as tuas orientações, ó feliz geração sem língua. Saberás o que é bom e belo, e não apenas aquilo que se diz sê-lo. Não te caberá falar dos teus feitos e tornar-te a inveja dos lacaios que te rodeiam, mas saborear os próprios frutos do que fizeres. Pratica aquilo que as Leis Eternas sancionarem; tudo quanto os Evangelhos da Espuma e as multidões de boatos de orelhas compridas te ordenarem aos gritos não passa já de palha para ti, que o vento eterno arrasta rapidamente, sabes tu para onde.»
Bom Deus, se tal plano fosse exequível, como se poderia joeirar a palha de cada homem e de todas as coisas humanas! Noventa e nove centésimos do nosso vasto Universo, espiritual e prático, poderiam desaparecer ao vento, como torrentes de palha, ventos inteiros de palha com muitos quilómetros de profundidade, que avançariam continuamente com o rugido dos furacões em direcção a certo FOGO, que sabe o que fazer com ela! Noventa e nove centésimos levados pelo vento; todas as mentiras varridas e apenas um esqueleto de Universo espiritual e prático, verdadeiro, deixado de pé para nós! Ó Céus, será então para sempre impossível? Uma geração sem língua poderia realmente consegui-lo; mas não seria tão fácil com uma geração que a tivesse. Línguas, tribunas, parlamentos e quartos poderes; imprensa livre, literatura periódica e permanente: creio que quase todos nos reduzimos à língua, e o nosso destino é muito incerto.
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Na verdade, pouco se sabe actualmente, e deveria saber-se muito mais depressa, da ruína que geralmente provocamos na nobreza, na fecundidade e na felicidade do génio de um pobre mortal quando lhe ordenamos que fale e faça tudo com o objectivo de ser visto! Poucas coisas boas e fecundas foram alguma vez feitas, ou poderiam ser feitas, nessas condições. Silêncio, silêncio! E afastai-vos, profanos, com as vossas algaraviadas e tagarelices superficiais, quando um homem tem alguma coisa a fazer! O trabalho para ser visto — sabes o que isso é, pobre Inglaterra? Nestas tristes circunstâncias, o trabalho para ser visto é tudo quanto o homem consegue fazer; acaba por se tornar a única coisa que sabe fazer, a única que imagina que ele próprio ou qualquer outro homem alguma vez fez ou poderá fazer, em quaisquer circunstâncias. Triste, sem dúvida. Infelizmente, esta é a mais triste de todas as nossas desgraças, demasiado triste para ser mencionada neste momento, enquanto todos ou quase todos os homens a consideram uma aflição imaginária da minha parte!
Que a jovem alma inglesa, seja qual for a loja de lógica ou o estabelecimento de versos sem sentido — Eton, Oxford, Edimburgo, Halle, Salamanca ou qualquer outra Escola Superior de Acabamento — onde lhe estejam a ensinar a falar e a discursar, a imprimir sermões e artigos de crítica, demonstrando assim a si própria e aos seus protectores orgulhosos que possui uma ideia, leve isto solenemente a sério. Eis o meu conselho mais profundo para ela! A ideia que uma vez exprimiste, se é que era realmente uma ideia, já não te pertence; afastou-se de ti, levando consigo uma parte da tua vida e da tua virtude, e, a partir de então, as circulações vitais do teu ser, do teu destino e da tua actividade ficam privadas dela. Se não conseguisses exprimi-la, se ainda pudesses obrigá-la a permanecer em silêncio, serias tanto mais rico. É melhor conservares a tua ideia enquanto podes: deixa-a continuar a circular no teu sangue e a dar frutos; que te incite silenciosamente a boas acções e dê à tua vida espiritual uma saúde mais corada. Quando chegar o momento de a exprimires, fá-lo-ás com maior concisão, expressividade e propriedade; e, se esse momento nunca chegar, não a terás já posto em prática e exprimido como nenhuma palavra conseguiria? Pensa nisto, meu jovem amigo, pois nada é mais verdadeiro e nada está mais esquecido nestes dias miseráveis, ornamentados de galões de ouro. A intemperança constitui metade de todos os pecados humanos. E, entre as muitas formas desse vício vil, não conheço nenhuma mais vil, nem actualmente tão cruel e fatal, como essa mesma intemperança da língua. A «oratória pública», a «eloquência parlamentar»: eis um Moloch perante o qual as almas jovens são obrigadas a passar pelo fogo. Entram a chorar ou a rejubilar, enquanto pais amorosos as consagram ao Ídolo incandescente, como se fosse o Deus Supremo; e saem espiritualmente mortas. Mortas o suficiente para viverem, daí em diante, uma vida galvanizada de mera Oratória de Cepo, guinchando e balbuciando palavras sem sabedoria, sem veracidade, sem convicção que vá além da superfície. Será isto um dom divino? É algo que a gente vulgar admira e que é recompensado com lugares no Gabinete e outras preciosidades; mas, para os sábios, não é algo admirável ou digno de adoração. É antes desarmonioso, horrível e ominoso, como a fala de espectros amortalhados que percorrem as ruas à meia-noite!
Não sejas um Orador Público, bravo jovem britânico, tu que agora cresces para te tornares alguma coisa; não sejas um Orador de Cepo, se o puderes evitar. Não apeles ao vulgo, de orelhas compridas e lugares no Gabinete; não apeles ao vulgo por meio de palavras faladas. Detesta o vulgo profano e manda-o embora. Apela aos deuses através do trabalho silencioso, ou do sofrimento silencioso, se não houver trabalho; eles reservam-te coisas mais nobres do que lugares no Gabinete! Tens talento para a Literatura? Acreditas possuir tal talento? Não acredites; sê lento a acreditar! A Natureza não te ordenou imperiosamente que falasses ou escrevesses, mas ordenou-te que trabalhasses. E fica a saber isto: nunca existiu talento, nem sequer para a verdadeira Literatura — quanto mais para os talentos perdidos e condenados à produção de Literatura falsa —, que não fosse, antes de tudo, um talento para alguma coisa infinitamente melhor, de natureza silenciosa. No que respeita à Literatura, sob todas as suas formas, sê antes reservado do que o contrário, nos dias de hoje! Onde quer que estejas, trabalha, trabalha; faz aquilo que a tua mão encontrar para fazer, e fá-lo com mão de homem, não de fantasma; que essa seja a tua felicidade abençoada e a tua recompensa extraordinária, embora passe despercebida. Que as tuas palavras sejam poucas e bem ordenadas. Ama o silêncio mais do que a palavra nestes dias trágicos, em que, de tanto falar, a voz dos homens se tornou inarticulada para os próprios homens; e os corações, no meio desta tagarelice ruidosa, permanecem obscuros e mudos uns para os outros. Sê espirituoso? Acima de tudo, oh, não sejas espirituoso! Nenhum de nós é obrigado a ser espirituoso sob pena de castigo; mas todos somos obrigados a ser sábios e verdadeiros, sob as mais terríveis penalidades!
Bravo jovem amigo, que me és querido e que, num certo sentido, conheço, embora nunca te tenha visto nem venha a ver-te, tu estás na feliz condição de aprender a ser alguma coisa e a fazer alguma coisa, em vez de falares eloquentemente sobre o que aconteceu, sobre o que foi feito e sobre o que poderá vir a ser feito. Os velhos são aquilo que são e não mudarão; a nossa esperança está em ti. A esperança da Inglaterra e do mundo é que volte a haver milhões de homens assim, em vez de unidades, como agora. Macte; i fausto pede. E que as gerações futuras, novamente familiarizadas com os silêncios e conscientes, uma vez mais, do que é nobre, fiel e divino, olhem para nós com piedade e espanto incrédulo!
FIM
