Aviso ao leitor desprevenido: um autor a escrever sobre o seu próprio livro, sem, pelo menos, um lapso de tempo significativo desde o momento da sua escrita deve gerar ceticismo em que o lê. Seja, assim, cético, leitor, pois é disso que aqui se trata.
Autor desconhecido, sem atenção da crítica literária (ainda existe tal coisa?) nem da promoção mediática que por ela passa, sem amigos famosos nem meios próprios de autopromoção, não tive como dizer que não à sugestão da Minerva – Revista Universitária e abandonar a vergonha e os escrúpulos e ser recenseador em causa própria.
Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida, eis o nome da obra em questão, audaciosamente publicada pela independente e voluntarista Zigurate no passado mês de abril. Dada a inusitada situação de autopromoção elevada a artigo académico, ou vice-versa, parto para este artigo com uma abordagem peculiar: atiro-lhe, leitor, perguntas exploratórias, respondo e explico. Faço a festa, atiro os foguetes, apanho as canas. A relação de tais especulações com a obra em questão ficará para o fim, sendo neste caso a dita cuja mais pretexto do que objeto.
Questiono, então:
«Está caduco o modelo político democrático-liberal? Se, sim, significa isso a inevitável ascensão ao poder de projetos autoritários de direita, ou pode a esquerda, em determinadas condições, disputar a brecha aberta pela falência de tal modelo?»
Começando pelo fim e incorrendo no spoiler: sim e sim. Assim respondo às questões enunciadas. Vamos por partes.
O modelo democrático-liberal vive uma crise profunda (o que não significa necessariamente irreversível, mas certamente de difícil recuperação). Haverá diversos motivos para tal, interligados entre si numa espiral de retroalimentação. Eles são, sem ordem de importância: a) o fim da centralidade do Ocidente como eixo do desenvolvimento económico e político do sistema internacional de estados; b) a rutura do contrato social vigente desde o pós-Segunda Guerra nas democracias-liberais; c) a progressiva extinção das classes médias, não apenas como segmento social, mas sobretudo como estrato ideológico e cultural legitimador do modelo democrático-liberal; d) a ascensão de correntes políticas autoritárias conservadoras, que sendo consequência das primeiras duas variáveis, intervém posteriormente sobre elas, aprofundando-as, usando parte dos estratos sociais órfãos nascidos da variável c) como base política e eleitoral de choque; e) a emergência de uma nova esfera pública global, apelidada levianamente de «redes sociai», controlada, manipulada e transformada em terreno para extração quase infinita de valor por uma ultraminoritária clique ubercapitalista conhecida como «oligarquia digital», esfera esta que tende a substituir, ou pelo menos subordinar, a «sociedade civil» tradicional que oxigenara, mais ou menos, os interstícios sociais e políticos das democracias liberais.
Cada um destes pontos dava, não um artigo específico, mas um livro — ou um doutoramento, uma cátedra ou até mesmo uma Universidade própria. Nas suas reflexões sobre o tema e para chegar às conclusões aventadas nas cinco alíneas enunciadas, o autor destas linhas e da obra que, passe o desvio, é objeto deste artigo, alimentou-se enormemente de autoras e autores como Nancy Fraser, Richard Seymour, Esteban Hernández, Jacques Rancière, Didier Eribon e Giovanni Arrighi.[1] É lê-los. Mas um zapping por telejornais avulsos, um scroll enviesado pelo ragebait algorítmico, uma conversa de café no subúrbio ou um passeio pelo centro gentrificado de Lisboa, se munidos das lentes e abertura de mente necessárias e treinadas para o efeito, empurram-nos na mesma direção.
Podemos só, em jeito de parêntesis, acrescentar que os elementos acima enunciados sob a forma de sintéticas alíneas não apenas se refletem na nossa lusa pátria, como, sobretudo, que não nela particularmente agudos. Sendo esta uma nação inaugural dos desenvolvimentos históricos que ajudaram a deslocar para o centro do mundo a periférica e fragmentada Europa há uns quinhentos anos; o último dos impérios coloniais a cair, com estrondo revolucionário ainda para mais, após uma longa e agónica decadência; uma democracia-liberal tardia, montada em contraciclo, nos alvores do movimento neoliberal global, destruidor do contrato social que subjaz a tal modelo; e um dos países da Europa e do Mundo mais afetados pela engenharia social financeirizante operada como fuga em frente da grande crise do capitalismo global de 2008, que tomou forma nestas paragens como a chamada «crise das dívidas soberanas» – sendo Portugal tudo isto e até mais, é palco e laboratório particularmente expressivo da crise da democracia-liberal que aqui tratamos.
Ora, não podia isto deixar de influenciar a forma de fazer política. A própria ideia de Esquerda e Direita – que o autor não decreta como ultrapassada, mas certamente merecedora de reinterpretações – surgiu da e com a democracia-liberal ocidental que aqui diagnosticamos em crise. Na verdade, mais do que este modelo de governança e dominação, toda a uma cultura assente em mediações de classe apresentadas como universais se encontra questionada: a ciência, o jornalismo, a literatura, a academia, entre outras. Difícil é encontrar uma esfera da sociedade civil que não padeça do que se apresenta como uma desconexão conflituosa entre representantes e representados, base e superestrutura, ideologia e realidade material concreta. É como se o mundo se tivesse movimentado tão rapidamente que a inércia das camadas superiores organizadoras da sociedade se tivesse tornado tão pesada e evidente que, permitindo-se ultrapassar pela aceleração do desenvolvimento material das coisas, deixou expostas em carne viva as feridas mal cicatrizadas do capitalismo global e das suas maleitas inerentes: a desigualdade, a guerra, a alienação, a devastação ecológica. O que sobra? Muitos e confusos fragmentos, uma ordem política e social que tenta sobreviver adaptando-se, uma intensa procura de significação política e até ética das massas populares deixadas para trás. Em suma, luta de classes. Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida mais não é do que uma abordagem inicial, incompleta, provocatória, experimental e salpicada de ironia e humor de como pode a Esquerda adaptar-se a esta realidade fluída e desconcertante.
Porquê a Esquerda? Por que é nela que se localiza o autor, marxista heterodoxo como só se pode ser nos dias de hoje. E porque as direitas estão mais avançadas nesse processo de adaptação, o que explica, em grande medida, o seu sucesso presente. Isto dito, desengane-se quem anteveja nesta proposta uma saída autoritária para a crise do modelo democrático-liberal. Pelo contrário, procura-se, de um modo provocador e bem-humorado, estabelecendo pela escrita em jeito de autoajuda uma relação dialética entre conteúdo e forma da própria obra, reinscrever a Esquerda portuguesa numa tradição crítica que aponta a este modelo liberal as suas limitações democráticas e não eventuais «excessos», como pretenderão alguns.
Se tal aventura teórica-política, ainda para mais embrulhada numa inusitada inspiração (auto)irónica em diálogo com a literatura de autoajuda é útil ou sequer legível… bom, isso caberá aos leitores de decidir e não ao autor – apesar de tudo, há limites. É lê-lo e opinar.
- Sem cumprir o cânone da referenciação, mas indo além do bacoco name dropping:
Nancy Fraser é autora do recém-traduzido e publicado entre nós Capitalismo Canibal, da Antígona, onde aprofunda a combinação entre as crises ecológica, da reprodução social do trabalho e da representatividade liberal.
Richard Seymour é um marxista norte-irlandês e o seu Disaster Nationalism – The downfall of the liberal civilization da Verso Books, aborda o tema que fica evidente no título de uma forma original. Parte do argumento que desenvolve pode ser encontrado aqui.
Esteban Hernandez é um jornalista espanhol que tem publicado inúmeros longos ensaios em que analisa de forma cirúrgica e particularmente inspirada a crise das sociedades ocidentais. Destaco o seu livro El nuevo espiritu del mundo: politica e geopolítica na era Trump, da castelhana Deusto.
Jacques Rancière dispensa apresentações, mas destaco, dentro do tema aqui tratado, um livrinho chamado O ódio à Democracia, traduzido para português do Brasil pela Boitempo.
O Regresso a Reims, de Didier Eribon, da Dom Quixote, é uma leitura incontornável para pensar o lastro político e cultural das novas direitas nas massas populares e trabalhadores marginalizadas pela globalização neoliberal.
Adam Smith em Pequim, mais um inédito em Portugal, falha editorial quase criminosa e sintomática, de Giovanni Arrighi, entre muitas outras coisas, analisa o longo movimento de perda de centralidade do Ocidente no contexto de ascensão da China. Está publicado em português do Brasil pela Boitempo. ↑
