Resistir à Sedução Tecnológica: O Caso da Inteligência Artificial

A IA dá respostas imediatas, mas o capitalismo da vigilância extrai dados íntimos e gera um “sujeito algorítmico” incompatível com o desejo humano. Urge resistir eticamente à sedução das máquinas para preservar o equilíbrio entre técnica e humanidade.

Se tiver dúvidas sobre algo, não pergunte a ninguém. Vá antes a um sistema de Inteligência Artificial (IA) que ele dar-lhe-á uma resposta direta e precisa sobre o que quer saber. Melhor ainda: economizará imenso tempo, dispensando-o de andar perdido à procura do que necessita. A procura de informação deixou de ser aquela tarefa hercúlea que nos consumia tempo, energia e paciência. Ela agora está à mercê das nossas necessidades e vontades.

Assim têm sido estes tempos em que recorremos à IA para tudo e mais alguma coisa: desde o estado do tempo para a próxima semana até às mais recentes indicações terapêuticas de um fármaco que precisamos de tomar passando pelas confissões mais íntimas, tudo pode ser perguntado e tudo é respondido. Porém, há tarefas que se impõem a todos: resistir, dentro do possível, à sedução tecnológica, protegendo-nos da “ditadura das máquinas”. Tal resistência pode ser fundamental para garantir um equilíbrio desejável entre a dimensão tecnológica e humana.

Estamos numa fase da evolução da humanidade onde nunca tivemos tanto acesso à informação. A digitalização de conteúdos informativos, científicos, artísticos e culturais criaram um acesso praticamente ilimitado à informação, mas isso não nos foi dado de mão beijada. Houve, há e haverá um preço a pagar por esse free access: a nossa intimidade. O espaço privado está hoje controlado ao milímetro através de uma tecnologia da vigilância montada para nos cercar e impor o que considera ser melhor para nós a toda a hora e momento. Segundo Zuboff (2019, p. 22): “O capitalismo da vigilância reivindica unilateralmente a experiência humana como matéria-prima gratuita que transforma em dados comportamentais. Embora parte destes dados se destine a melhorar produtos e serviços, o restante é considerado um excedente comportamental que alimenta processos avançados de fabrico designados por «inteligiência automática» [machine intelligence], e transformando em produtos preditivos capazes de antecipar as nossas ações atuais, imediatas e futuras”.

O capitalismo da vigilância vive da exploração da nossa experiência imediata, das emoções mais básicas, do humor, dos pensamentos e da ação humana. Alimenta-se através de uma ação concertada de pilhagem de dados pessoais, privados e/ou íntimos, através dos cliques e dos likes que realizamos inadvertidamente em posts e fotos nas redes sociais, enfim, da nossa pegada digital, para, a partir disso, alimentar o Big Data, sobre o qual pouco ou nada sabemos. É com base nesta lógica circular e retroativa que se geram grande parte dos sistemas de inteligência artificial que hoje conhecemos. Soares, Bossa e Marques (2025, p. 10) referem a este respeito: “A cada clique, curtida ou busca, o sujeito alimenta bancos de dados que antecipam seus desejos, modulam suas decisões e retroalimentam seu comportamento de acordo com interesses corporativos.” A evolução desta economia digital tem ampliado, portanto, o leque de atuação do olho vigilante orwelliano que agora se esconde por detrás da web configurando uma verdadeira arquitetura de extração (Zoboff, 2019).

A elevada acessibilidade à informação por via da inteligência artificial está a ter consequências que não podem ser negligenciadas. Deixamos que o deslumbramento tecnológico evadisse a nossa vida privada e íntima sem que tivéssemos a devida consciência de que existia um autêntico saque por parte de empresas que afirmavam o “bem” e prorrogavam a importância do nosso bem-estar não só através da IA, como também das apps, das redes sociais e das plataformas de streaming. Zuboff (2019, pp. 70-71) refere a este propósito: “O capitalismo da vigilância recrutou maravilhas do mundo digital para que satisfizessem as nossas necessidades de uma vida eficaz, prometendo a magia da informação ilimitada e um milhar de maneiras de antecipar as nossas necessidades e amansar as complexidades de uma vida cheia de preocupações. Acolhemo-lo no coração e em casa com os nossos rituais de hospitalidade”.

O SUJEITO NÃO É UM ALGORITMO

Um das consequências deste capitalismo da vigilância é a criação de um “sujeito algorítmico” (Soares, Bossa e Marques, 2025), gerado por dados, previsível nas suas condutas e enredado em lógicas de controlo e vigilância digitais. Para quem trabalha com a psicanálise, o “sujeito algorítmico” jamais poderá articular-se com o “sujeito do inconsciente” pois se naquele reinam as certezas absolutas, não permitindo a elaboração dos equívocos e das falhas, o “sujeito do inconsciente” baseia-se num desamparo estrutural, numa falta constituinte que funda o desejo humano. A “ética da psicanálise” (Lacan, 2008/1959-60) não é, portanto, compaginável com a “ética tecnológica” (Soares, Bossa e Marques, 2025).

Um saber assim, sem qualquer hiato entre aquele que deseja conhecer e o objeto que se dá a esse conhecimento, anula a circularidade que deve residir na lógica do desejo humano. Além disso, para que esse desejo se constitua como tal terá que permanecer sempre algo da ordem do vazio e da fenda, sob pena de se transformar numa mera necessidade, com os seus alvos bem definidos, localizáveis e alcançáveis. Silveira, Paravidini e Neves (2026) trabalhando a relação entre a IA, o desejo e seu apagamento na contemporaneidade referem a este respeito: “(…) o processo contínuo de satisfação das demandas por meio da interação com a IA pode levar ao apagamento do sujeito desejante. A IA oferece substitutos rápidos e aparentemente satisfatórios para os objetos de desejo, obscurecendo a falta que caracteriza o desejo humano e resultando em uma satisfação superficial e ilusória” (p. 14).

Os sistemas de inteligência artificial dão-nos, a toda a hora e momento, respostas prontas para as nossas dúvidas. Mas, paradoxalmente, continuamos com as mesmas dificuldades em lidar com os outros, connosco e com o Mundo que nos cerca. Ou seja, os grandes problemas que nos assolam há milénios continuam, em pleno século XXI, sem qualquer resposta: qual será o algoritmo que descodifica o sentido da vida e o enigma da morte? Qual será a pilula para um mundo mais justo e fraterno? Enquanto esses problemas permanecem os mesmos e, nalguns casos, até se agravam, temos agora um acesso ilimitado à informação. Eis a prova de que o desenvolvimento tecnológico não é coincidente com o desenvolvimento humano, tal como Freud (2008/1930) já antevinha sabiamente. Numa excelente reflexão sobre este descompasso entre o poder da técnica e o declínio das humanidades, Maria Cândida Almeida referiu numa crónica intitulada Violência publicada no Jornal de Notícias no passado dia 31/05/2025: “A exacerbação do poder e da ganância espalha a morte e os genocídios, um pouco por todo o mundo. As guerras que se multiplicam como um vírus estranhamente tóxico matam segundo o desígnio do mais forte, do mais cínico, do mais desumano.” O que tem isto a haver com a IA? Tudo. Pois na mesma sociedade onde conseguimos desenvolver sistemas de inteligência artificial supostamente tão complexos não conseguimos retirar os arsenais militares dos campos de matança sanguinária por esse mundo fora.

SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ÉTICA

Como psicólogo, muitas pessoas que recorrem aos meus serviços apresentam um nível de sofrimento para o qual a IA pode assumir vários papéis: tanto valida emoções negativas, situações traumáticas e/ou ruturas relacionais dolorosas e orienta devidamente para ajuda profissional como fomenta ainda mais o sofrimento dessa pessoa, tendo, por vezes, consequências irreparáveis. Acompanho, por isso, com muita preocupação as notícias do desenvolvimento de modelos de IA cada vez mais sofisticados que prometem garantir soluções “empacotadas” no âmbito da saúde mental, problemas que têm uma raiz muito mais profunda do que aquela que se está a querer, literalmente, vender. Se há algo onde existe consenso na ciência psicológica é a de que o processo de ajuda implica sempre o estabelecimento de uma relação clínica bem sustentada no tempo e fortemente orientada na ajuda da pessoa que sofre. De modo que sem uma análise ética sobre o que está a acontecer permaneceremos cúmplices de um futuro que poderá ser catastrófico. A psicóloga Maria Nascimento Cunha escreveu na revista Visão do dia 28 de agosto de 2025: “Ou decidimos agora domesticar esta besta tecnológica, ou arriscamo-nos a acordar um dia e descobrir que já não temos escolha. E, nesse momento, será tarde demais.”

Vejo, por isso, com muito gáudio e esperança a introdução da ética no debate sobre o uso da IA não apenas no campo “psi” como em várias áreas. Pedro Ivo Carvalho alertou no Jornal de Notícias do passado dia 26 de julho sobre os perigos de um “abismo futurista” catapultado pela IA, destacando consequências mais nefastas do que benéficas para os indivíduos: “Porque essa realidade que julgávamos distópica está a progredir a uma velocidade vertiginosa, numa disputa perniciosa entre aglomerados empresariais, governos e geeks tecnológicos”. O carácter opaco, pouco transparente e, até certo ponto, incógnito da IA mereceu também destaque na crónica do diretor-adjunto do Jornal de Notícias: “A inteligência artificial está a secar tudo por onde passa, abrindo portas perigosas para lugares que ninguém sabe onde vão dar”.

A dimensão ética em torno da IA mereceu também uma reflexão da própria Igreja Católica. O papa Leão XIV refletiu já sobre os perigos do mundo digital em geral e da inteligência artificial em particular na sua carta encíclica de 15 de maio do presente ano. O capítulo III do referido documento eclesiástico intitula-se Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA. Neste capítulo, Leão XIV retoma a preocupação do seu antecessor, Papa Francisco, sobre a prevalência do paradigma tecnocrático nos tempos atuais, criando as condições para uma objetificação das pessoas e um atrofiamento dos relacionamentos interpessoais. Segundo o novo Papa: “Assim, torna-se mais evidente que a técnica não é um mero instrumento e que, quando se torna critério, acaba por determinar o que é importante e o que pode ser descartado, reduzindo a criação a objetos de exploração e as pessoas a engrenagens dum sistema que quer ser sempre mais eficiente”. O Papa não se opondo ao desenvolvimento tecnológico e à sua importância considera essencial uma reflexão espiritual, ética e política a par desse desenvolvimento para que o tecnocracismo não nos devore a todos. E considera que devem ser abordados três aspetos neste debate: a facilidade de obter um determinado resultado, a aparência de objetividade e a simulação da comunicação humana. Os dois primeiros estão intimamente e relaciona-se com a ideia de “respostas prontas” para problemas que podem ser complexos face à aparente objetividade da máquina, criando condições para a aceitação acrítica dos seus conteúdos. Relativamente ao terceiro aspeto, as palavras de Leão XIV são perentórias: “A imitação artificial da relação de cuidado ou de acompanhamento pode tornar-se perigosa quando se insinua num contexto pobre de relações e afetos concretos: então, o risco não é tanto que uma pessoa acredite estar a falar com outra, mas perca o desejo de procurar verdadeiramente o outro”.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: “NÃO SEI POR ONDE VOU (…) SEI QUE NÃO VOU POR AÍ”

O desafio que se coloca hoje diante da Inteligência Artificial é o mesmo que se coloca perante as mais diversas ameaças contemporâneas: o aquecimento global, o fascismo travestido de promessas filantrópicas, as brutais e vergonhosas desigualdades socioeconómicas e os autoritarismos. Para todos eles a resposta deve ser clara e unívoca: resistir.

No caso da Inteligência Artificial tal significa não sucumbir à promessa ilusória, qual cântico das sereias na Odisseia de Homero, em relação ao “saber total”, às promessas de conversão de todos e de cada um a uma espécie de “santos do saber#, deuses do cogito, mascarando a nossa eterna ignorância diante da supremacia das máquinas. A elaboração das nossas falhas, erros, equívocos e limitações deve orientar as nossas vidas, criando um Mundo menos egocêntrico, menos doente de narcisismo e frouxo de reflexividade e análise crítica. Resistir à sedução tecnológica garante que o humano se sustente, se equilibre e se desenvolva. Como noutras alturas da História, a resistência é a única e talvez a mais importante arma diante do pensamento único que se tende a impor e a dominar as nossas vidas.

Lembremo-nos que essa resistência terá que passar pela consciencialização, pela criação e sustentação de fóruns de discussão sobre a Inteligência Artificial, criando uma mobilização coletiva para os problemas e as ameaças que a humanidade está a enfrentar. Mas tal será insuficiente se não nos mobilizarmos individualmente, isto é, se no nosso dia-a-dia, não resistirmos um pouco mais à tentação sedutora das chatboxes da IA. Quer num caso quer noutro, seja a resistência realizada tanto no plano individual como coletivo, é imperioso resgatar os versos de José Régio no seu Cântico Negro que dizem assim: “Não se por onde vou, não sei por onde vou. Sei que não vou por aí”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Freud, S. (2008/1930). O mal-estar na civilização. Lisboa: Relógio D’Água.

Lacan, J. (2008/1959-60). A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda.

Leão XIV (2026). Sobre a salvaguarda da pessoa humana na Era da Inteligência Artificial: Documento disponível em: Carta Encíclica do Santo Padre Leão XIV Magnifica Humanitas (15 de maio de 2026).

Silveira, P., Paravidini, J. & Neves, A. (2026). Inteligência artificial, desejo e apagamento: uma perspetiva psicanalítica. Quaderns de psicologia, vol. 28 (1), 1-20.

Soares, C., Bossa, D. & Marques, S. (2025). A técnica como promessa da completude: uma leitura psicanalítica da inteligência artificial e do sujeito faltante. Contribuiciones a las ciências sociales, vol. 18 (8), 1-20.

Zuboff, S. (2019). A era do capitalismo da vigilância – a disputa por um futuro humano na nova fronteira do Poder. Lisboa: Relógio D’Água.

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