Hoje já é tarde, mas ainda vou a tempo de vos apresentar um documento inédito onde, com medo da pancadaria generalizada da guerra, uns moradores de Lisboa tentaram eximir-se a ela, espancando generalizadamente os recrutadores da cidade.
É de 1422 este documento, veja-se.

Em Calhandriz, no dia 8/Fev, apareceu diante do tabelião geral da Estremadura, Estêvão Gonçalves, um homem chamado Vasco Vicente, que morava em Bucelas e era Anadel dos besteiros daquele povoado, mas também dos de Calhandriz, Alhandra, Sapataria, Torre da Negra e Vila del-Rei, presumivelmente eram todos um regimento autóctone. Nesse dia, Vasco Vicente mostrara àquele tabelião o rol, que continha todos os besteiros a serviço daquelas terras, documento que fora validado pelo então Anadel-maior de Portugal, Vasco Fernandes de Távora. Vistas as coisas, o tabelião ordenou ao Anadel que, no prazo de seis semanas a contar dali, comparecessem perante o dito Anadel com armas em boas condições [e teria de ser um tipo específico de besta, nada de afouxar as regras em modelos antiquados], além de 36 virotes, o projétil da arma. Aos que não tivessem dinheiro para as adquirir, que o Anadel se encarregasse de as comprar nos Armazéns del-Rei, em Lisboa. Além disso, o Anadel deveria constranger os besteiros, todos os domingos, a treinar o tiro de besta no terreiro de Calhandriz. Vai começar o aqui o problema.
Os besteiros destas terras eram 19, repartidos pelas várias localidades. Vasco Vicente, entretanto, chamara dois dos besteiros que constavam na lista [Afonso Fernandes e Gil Vasques], encarregando-os de fazer a vistoria da lista de besteiros no prazo de um mês, vindo ter com ele em Bucelas, onde morava, para tornar a teoria a prática. E estes dois pobres besteiros, que mal sabiam o que iria ocorrer, solicitaram aos juízes e besteiros de Alhandra que se apresentassem na Igreja de S. João da Alhandra, para a revista das armas Logo se justificaram estes besteiros, dizendo que tinham sido recrutados pelo Rei como galiotes [homens das galés] – tinham até, diziam, o soldo do ano seguinte -, pelo que não podiam servir como besteiros do conto. Os dois besteiros admitiram que, se comprovassem com carta régia aquilo que diziam, estariam livres de servir como besteiros. O problema é que eles recusavam-se a mostrar o que quer fosse, obrigando o Anadel a tomar medidas mais drásticas. No dia 9/Fev, Vasco Vicente solicitou ao tabelião público que fosse com ele, em pessoa, à dita Igreja de Alhandra, para cumprir a ordem régia. Foram chamados com antecedência, mas nenhum compareceu ao chamamento na porta da Igreja. Vasco Vicente viu uns besteiros refugiados dentro da Igreja (onde não se podia entrar com armas), assim como o juiz local, João Carrasco. O Anadel pediu ao juiz que lhe fornecesse os besteiros necessários para compor as ausências, além de ordenar devidamente os que desobedeciam. O juiz, em resposta, recusou-se, pois dizia que Alhandra era património do Arcebispo de Braga, pelo que deveriam obedecer ao seu mandato, e não ao de qualquer outro. Traduza-se, que o Anadel fosse fazer a reclamação com o Arcebispo, depois ver-se-ia. Mas, depois de alguma insistência, o juiz decidiu ir atrás do Anadel para o prender com o seu tabelião – ficaram presos dois dias quando, no dia 11/Fev, o Arcebispo enviou uma citação, acusando o Anadel de sacrilégio e dando o prazo de três dias para comparecer diante dele, para explicar os motivos que levaram à contenda. Ainda nesse dia, Vasco Vicente foi a casa do juiz de Alhandra, Martim Barroso, ordenando que alertasse João Afonso, morador em Marouços, que tivesse uma boa besta até ao prazo de duas semanas. Eis a parte gira: o juiz enviou Esteve Eanes Durdio à casa do sujeito, foi recebido pela mulher daquele, que dizia que ele não estava em casa (segundo consta o relatório do Anadel, este diz que claramente ouvia o marido dentro de casa a esconder-se, mas a mulher não o deixava entrar), e muito provavelmente houve aqui uma sessão clássica de espancamento feminil. O que é certo é que João Afonso não foi recrutado, graças à fiel esposa.
