Sobre escaramuças em notável inferioridade numérica no Interregno Português

Em 1384, o Escudeiro Gil Fernandes d'Elvas foi enviado pelo Mestre de Avis a Campo Maior, para falar com o Alcaide, Paio Rodrigues Marinho, e convencê-lo a seguir a sua causa. Chegando, esse Alcaide recusou-se a ir ter com aquele, senão dentro do Castelo e com homens d'armas protetores. Foi enganado.

No Interregno Português, há escaramuças em notável inferioridade numérica.

Em 1384, o Escudeiro Gil Fernandes d’Elvas foi enviado pelo Mestre de Avis a Campo Maior, para falar com o seu Alcaide, Paio Rodrigues Marinho, e convencê-lo a seguir a sua causa. Chegando, esse Alcaide…

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…recusou-se a ir ter com aquele, senão dentro do Castelo e com homens d’armas protetores. Foi enganado. Ao cumprimentar Paio Rodrigues Marinho, com um abraço, este veio a tirar-lhe a espada e, com o auxílio dos seus escudeiros, colocou-o na prisão do Castelo, a par dos poucos escudeiros que vieram com Gil Fernandes para Campo Maior. Só após o pagamento de duas mil dobras [exigido pelo Alcaide, e pago em objetos requintados como cruzes, cálices ou espadas], Gil Fernandes foi libertado – quanto aos escudeiros, também se exigiram duas mil dobras para a libertação [cinco escudeiros presos em Campo Maior, mais dois escudeiros capturados em Arronches pelo próprio Paio Rodrigues Marinho]. Gil Fernandes d’Elvas ficou… com queixume, e logo procurou empreender em Castela após ser libertado. Juntou em Elvas 500 homens a cavalo e apeados, passou por Olivença e Alconchel, que estavam por Castela, foi a terra de Xerez, e capturou imenso gado para volver a Elvas. Entretanto, Xerez e lugares circundantes juntaram 300 homens para fazer frente, cercando-o no lugar de Maceira das Porcas, mas perdendo por desvalida estratégia, sendo os 300 homens desbaratados e o gado levado para Elvas sem problemas [gado tanto que chegava para um/dois anos sem qualquer comércio – aos pobres fôra dado algum sem qualquer pagamento]. O Alcaide de Campo Maior, furioso, enviou 20 homens a cavalo, para realizar uma investida no arrabalde de Elvas, mas parece que Gil Fernandes o previu, pois logo acavalou 50 homens [dos 80 que tinha disponíveis] e realizou uma emboscada na primeira vaga de cavalos que chegavam, capturando 6 escudeiros. Agora, o momento da maior escaramuça. O Alcaide de Campo Maior foi avisado de tal captura, e revolveu a Elvas com 80 homens a cavalo [diz Fernão Lopes que só dois do lado de Paio Rodrigues andavam apeados – um besteiro e um lavrador que utilizava as pedras do caminho como projétil], prendendo-o a um cabeço. Entre os 80 de Paio Rodrigues, estava Nuno Fernandes Cogominho [conhecido das Guerras Fernandinas] que, em Conselho privado, era pela batalha, ironizando o mau estado das tropas de Gil Fernandes, que tinha escudeiros como Afonso das Vacas e João Ruivo [apelidos plebeus]. Ademais, Paio Rodrigues já subira uma ladeira, e matara um bom escudeiro de Gil Fernandes, Afonso Esteves, com uma lança que perfurou a sua armadura. Gil Eanes, primo de Gil Fernandes, pregara uma lançada no cavalo de Paio Rodrigues, fazendo-o cair em terra, mas não o invalidando. As tropas lusas estavam imóveis. O conflito era iminente, e desvantajoso ao lado Português. No entanto, recebera Gil Fernandes uma crítica nojosa de um escudeiro seu, Martim Vasques, apelando à batalha. Antes ainda da ordem disposta pelo nosso lado, Martim Vasques saiu sozinho contra o lado inimigo; o resultado: cortou a cabeça a Paio Rodrigues, ao Cogominho mencionado, ao escudeiro Álvaro Fernandes, ao escudeiro Pêro Fernandes Biscainho, e a outros 21 homens a cavalo, sendo parado pelo próprio Gil Fernandes, que percebeu o exagero da trama, e ordenou que se levasse o restante que não fugiu a Elvas, como cativos. Ficara Elvas riquíssima em víveres pelo período do Interregno inteiro. Martim Vasques ficou, então, com um grande arauto do Augusto Mestre de Avis.

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