
Destacamos, elogiamos e recomendamos quatro colunistas portugueses recentes, de renome e de grande qualidade: Vasco Pulido Valente, António Guerreiro, Alberto Gonçalves e Miguel Esteves Cardoso. São pessoas que, nos últimos 50/20 anos, nos habituaram a colunas curtas em periódicos com conteúdos de invulgar densidade e autoridade. O típico articulista português da transição entre século XX e XXI não é particularmente brilhante mas existem, como todos sabemos, excepções notáveis à regra. A qualidade da prosa é admirável em cada um destes rapazes, cada um à sua maneira: Miguel Esteves Cardoso, já antes, durante e depois da sua lendária co-editoria do muito irreverente semanário “O Independente” com Paulo Portas, foi dos cronistas mais de culto em termos de abordagem a uma série de temas de elite cultural de forma crua e descomplexada; Vasco Pulido Valente foi um lendário pessimista, particularmente quanto à vida sócio-política portuguesa no pós vinte e cinco de abril, até muito recentemente activo; Alberto Gonçalves é um mais recente observador da vida cultural e política portuguesa cuja causticidade anti-sistema, na tradição de Vasco Pulido Valente, tem causado mossa a muitos; e, por último, António Guerreiro é um crítico de cultura e arte muito capaz e hábil no seu domínio de categorias hoje um pouco esquecidas das escolas marxistas de crítica de arte e não só. No todo, distinguem-se de comentaristas vulgares, debitantes de banalidades, lugares comuns e truísmos — dos quais curiosamente emergiram actualmente um presidente e um primeiro ministro — e todos estes têm uma coisa muito em comum, além da necessária erudição mínima, decerto distante daqueles que fazem do comentário político ou cultural uma estação de paragem para ambições ulteriores: todos possuem um admirável domínio da prosa, uma arte que dá gosto ler. Recomendamos todos e prometemos partilha de conteúdos dos mesmos, todos, sem excepção. Uma última nota: do elenco destes quatro, aquele que despertou reacções mais indignadas e inflamadas foi o cronista muito mais recente Alberto Gonçalves; isto sugere que o tempo que a burguesia intelectual teve disponível para digerir as ferroadas de Esteves Cardoso e de Pulido Valente, cerca de trinta anos ou mais, ainda não sucede com o caso de Gonçalves; ou então sugere simplesmente que estamos a viver num clima intelectual muito mais acefalamente polarizado do que dantes. Qualquer das explicações é por nós desprezada: o cronista tem indubitavelmente qualidade na prosa, reconhecível para qualquer leitor sem palas nos olhos e disponibilidade e curiosidade mental. Convidamos todos a lerem estes quatro excelentes autores.
