Scripta aliena surripere: Ricoeur e Burkert sobre Mitos e Mitologia

Ricoeur e Burkert sobre mitologia: o mito é narrativa tradicional que pretende sentido e verdade, tautegórica e não alegórica. Nem logos o esgota nem a função o decifra por completo; o mito é saber por histórias, síntese a priori que orienta o real, sem se reduzir a ele.

Imagem: Sandro Botticelli, Primavera (c. 1482).

Paul Ricoeur, “Mito: a interpretação filosófica” in Ricoeur, P. et alii, Grécia e Mito, Lisboa, Gradiva, 1988, pp. 9-11.

(…) O mito será encarado aqui como uma forma de discurso com pretensão ao sentido e à verdade. Como a filosofia é esse outro espaço do discurso em que a questão do sentido e da verdade se coloca radicalmente, onde fica então a pretensão do mito relativamente ao discurso filosófico?

O facto inicial donde procedem todas as discussões posteriores é que o mito se presta a duas avaliações opostas, como se dois «interesses» contrários da razão se afrontassem neste espaço. Por um lado, a razão condena o mito: exclui-o e afasta-o; há que escolher entre mythos e logos. Assim começou por dizer Platão no livro II de A República, antes de ele próprio inventar mitos. No entanto tratava-se ainda só dos mitos de Homero, de Hesíodo e dos trágicos; mas a hostilidade da filosofia é de princípio: procurar o fundamento e a razão de ser exclui o contar de histórias; será, pois, preciso considerar os mitos como alegorias, isto é, como uma linguagem indirecta, em que estão dissimuladas autênticas verdades físicas e morais; aprender essas verdades sob as roupagens do mito é ao mesmo tempo tornar inútil esse invólucro uma vez desvendado; foi o que fizeram os estóicos por influência do jovem Platão. (…)

A crítica moderna a partir de Marx, Nietzsche e Freud, apesar da sua argumentação muito diferente da do racionalismo clássico, situa-se no prolongamento desse exorcismo do mito pela razão.

O paradoxo desta luta é que ela nunca destruiu o adversário. O próprio Platão escreveu mitos. A sua filosofia provém do mito órfico e, de certo modo, a ele regressa. Alguma coisa nos diz que o mito não se esgota na sua função explicativa, que não é somente uma maneira pré-científica de procurar as causas, e que a própria função de efabulação tem um valor premonitório e exploratório em relação a certa dimensão da verdade que não se identifica como a verdade científica. Parece que o mito exprime uma capacidade de imaginação e de representação de que nada se disse ainda, visto que nos limitamos a classificar essa capacidade de «mestra do erro» e da falsidade. Os grandes filósofos, chamassem-se eles Kant, Shelling, Hegel, Bergson ou Heidegger, tiveram todos de se haver com este poder da imaginação. Qualquer que seja a resposta que dão à pergunta sobre se a imaginação ontológica implicada pelo mito será afinal inferior à verdade de ordem conceptual, a sua reflexão comum aponta para um fantástico transcendental, de que o mito seria apenas uma emergência.

O que está em jogo não é somente o estatuto do mito, mas o da própria verdade com a qual nos propomos medi-lo. A questão é, finalmente, saber se a verdade científica é toda a verdade, ou se alguma coisa é dita pelo mito que não poderia ser dita de outra forma. O mito, então, não seria alegórico, mas «tautegórico», segundo as palavras de Schelling; o mito diria a mesma coisa e não uma outra coisa. É por isso que, no debate sobre o mito, a própria questão da verdade fica em suspenso.

Walter Burkert, Mito e Mitologia, Lisboa, Ed. 70, pp. 16-19

(…) Na cultura antiga – pré-cristã – o poder dos mitos é de uma qualidade quase única: dominam poesia e artes figurativas, mesmo a religião se exprime de preferência por meio deles, e a filosofia nunca se emancipou deles completamente. Mas também na política são pressupostos como dado adquirido e actuante, emprestam o seu prestígio a grandes famílias e condicionam uma grande parte do que é compreensão própria para o homem comum. E, como a cultura grega era pensada e tinha força para se impor, não como uma norma jurídica ou pelo poder de escritos revelados, mas acima de tudo como forma artística, em toda a parte do domínio da sua irradiação se encontra a mitologia «clássica», nem que seja, em última análise, só como forma de cultura residual: é preciso, afinal, saber o que é um «Caos» ou uns «estábulos de Áugias», um «calcanhar de Aquiles» ou um «cavalo de Tróia».

Há muito que a Mitologia aparece de preferência sob a forma de um manual, que enfileira uma quantidade desorientadora de nomes em curiosos fios de acção e que, da vitalidade do mito, não preservam, afinal, mais do que um herbário preserva o suco e o perfume das plantas. Onde e sob que forma se pode encontrar o mito vivo, sobre isso não há certamente uma opinião unânime. O mito como moda aproxima-nos sobretudo de equívocos modernos, e em primeiro lugar deste, de que o mito radica de preferência nas profundezas irracionais ou em zonas-tabu para além da linguagem – ou, de modo mais banal, só o que é especialmente primitivo é mítico. Na verdade, mito não tem nada a ver com mística. A palavra grega «mythos» significa «fala, narração, concepção». No tempo do Iluminismo grego, contudo, transformou-se no termo próprio para designar à distância as velhas narrativas, que não eram verdadeiramente para serem tomadas a sério. Apesar disso, o mito revela-se numa cultura superior, adulta e madura.

Os mitos são – e isso é fundamental – narrativas tradicionais. Nessa medida, a mitologia é um domínio parcelar da investigação geral sobre a narrativa. Só é difícil delimitar os mitos no seu «verdadeiro» sentido da multiplicidade de tipos narrativos existentes. Um mito pode ser contado como um conto, no entanto, diferencia-se dele pelo facto de, normalmente, não ser contado por si mesmo e já não o ser nada, sobretudo, para crianças; mito é narrativa popular e, contudo, acessível a uma formulação individual, e até, em grego, receptáculo da poesia clássica do mais alto nível; o mito coincide, em grande parte, com a lenda e, no entanto, é duvidoso se é possível extrair dele um «núcleo histórico».

(…) As narrativas aparecem alternadamente como mitos «autênticos», como contos, sagas, lendas ou contos burlescos e, contudo, mesmo nessa forma, são extremamente significativos. Por isso se recomenda que não se procure a especificidade do mito no conteúdo, mas na função. (…) Mito é narrativa aplicada, narrativa como verbalização dos dados complexos, supra-individuais, colectivamente importantes. Neste sentido, o mito é fundamental como «carta de fundação» de instituições, explicação de rituais, precedente para aforismos mágicos, esboço de reivindicações familiares ou étnicas, e, sobretudo, como orientação que mostra o caminho neste mundo ou no do além. O mito neste sentido nunca existe «puro» em si, mas tem por alvo a realidade; o mito é simultaneamente uma metáfora ao nível da narração. A seriedade e dignidade do mito procedem desta «aplicação»: um complexo de narrativas tradicionais proporciona o meio primário de concatenar experiências e projecto da realidade e de o exprimir em palavras, de o comunicar e dominar, de ligar o presente ao passado e simultaneamente de canalizar as expectativas do futuro. Mito é «saber por histórias». Especialmente na cultura arcaica dos Gregos, tal «saber» era fundamental.

É, contudo, precipitada a suposição de que um mito possa decifrar-se imediatamente e por completo a partir da sua «aplicação», como se ele fosse um reflexo ou cópia transformada de uma determinada realidade. Narrativa é uma forma de linguagem que é condicionada, na sua sequência característica, pela linearidade da linguagem humana e, na sua dinâmica, é veiculada pelo tipicismo da vivência do homem. A narrativa tradicional está sempre pressuposta como forma verbal no processo do ouvir e do contar de novo e só pode sobreviver como forma estandardizada. Nesta medida, mito é uma síntese a priori. A «aplicação», a relação com a realidade, é secundária e a maior parte das vezes só parcialmente certa: a narração tem o seu «sentido próprio».

 

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