Ensaio Documental — Paleografia de um Nascimento

Transcrição paleográfica, com notas, dos assentos de batismo e casamento dos pais, ambos em 1781, de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, de Lisboa. Corrige a data de nascimento, discute legitimação por matrimónio subsequente e metodologias de leitura setecentista.

Transcrição, com notas, do assento de batismo de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos

Transcrever um documento de 1781 não é copiá-lo. É negociar com uma letra que já ninguém escreve, com abreviaturas que pressupunham um leitor treinado a decifrá-las, com tinta que o tempo tornou, em alguns pontos, mais sombra do que sinal. O escrivão que lavrou estes dois assentos não escrevia para ser lido duzentos e quarenta e cinco anos depois. Escrevia para cumprir a lei do seu tempo, com a caligrafia apressada de quem tinha uma fila de outros assentos à espera. Transcrever é, por isso, um ato de tradução tanto quanto de leitura: entre uma grafia e outra, entre um regime ortográfico e outro, entre o que a pena disse e o que hoje se consegue afirmar com segurança que ela disse.

Publiquei, noutro texto, uma leitura destes dois documentos: o que a sua justaposição revela sobre um mecanismo jurídico do direito português de Antigo Regime, a legitimação por subsequente matrimónio. Mas uma leitura, por rigorosa que seja, não substitui o documento. Fica sempre a pergunta legítima de quem lê apenas a interpretação: e se eu quisesse ver o texto todo, tal como está escrito? Este texto responde a essa pergunta. Não interpreta. Transcreve.

O primeiro documento é o assento de batismo de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, lavrado a 1 de agosto de 1781 na Paroquial Igreja de São Miguel de Alfama, em Lisboa.[1]

Assento de batismo — 1 de agosto de 1781

“Em o primeiro dia do mez de Agosto de mil setecentos oitenta e um, nesta Paroquial Igreja de S. Miguel de Alfama […] baptizei […] a Luiz Joaquim, nascido a dezassete de Junho do presente ano, filho de Francisco José dos Santos Marrocos, natural e baptizado na freguesia de S. Pedro de Seixas, termo de Caminha, Arcebispado de Braga, e de sua mulher Bernarda Maria de Sena […] recebidos na freguesia de S. João da Praça […]. O Prior Joaquim Manoel de Carvalho.”

O segundo é o assento do casamento dos seus pais, Francisco José dos Santos Marrocos e Bernarda Maria de Sena, lavrado a 12 de julho de 1781, três semanas antes do batismo, na Paroquial Igreja de São João da Praça.[2]

Assento de casamento — 12 de julho de 1781

“Aos doze dias do mês de Julho de mil setecentos e oitenta e hum annos, nesta Paroquial Igreja de São João da Praça […] receberão por marido e mulher, com palavras de presente, Francisco José dos Santos Marrocos, solteiro, filho legítimo de […] dos Santos Domingues e de Maria Engrácia, natural e baptizado na freguesia de São Pedro de Seixas, termo da villa de Caminha, Arcebispado de Braga […]; com Bernarda Maria de Sena, solteira, filha legítima de Bento Rodrigues, já defunto, e de Maria Roza […]. O Prior Agostinho da Sylva.”

Este assento de batismo tem ainda um valor corretivo que ultrapassa o argumento da legitimação. A edição de referência das cartas de Luiz Joaquim, publicada pela Biblioteca Nacional de Portugal em 2008, regista a sua data de nascimento como tendo ocorrido em julho de 1781. O assento aqui transcrito, conjugado com uma carta autobiográfica do próprio punho de Luiz Joaquim, onde este refere ter completado anos “a 17 deste mês” num contexto que permite fixar o mês, confirma de forma inequívoca que o nascimento ocorreu a 17 de junho, não em julho. Não se trata de discrepância menor: é a data de nascimento do próprio biografado que a edição de referência estabelece incorretamente, e que este documento, lido com atenção, corrige.[3]

Algumas notas sobre a transcrição. Optei por modernizar a pontuação, onde a ausência dela no original tornaria a leitura corrida praticamente impossível a um leitor contemporâneo, mas mantive a grafia setecentista das palavras tal como está: “annos” e não “anos”, “hum” e não “um”, “Sylva” e não “Silva”. As passagens assinaladas com colchetes e reticências correspondem a trechos de fórmula notarial, repetitivos entre um assento e outro do mesmo livro, que omito por economia, sem que a omissão afete o conteúdo genealógico ou jurídico do texto. Nenhuma palavra do que aqui se apresenta como citação directa foi inferida ou reconstruída: onde a leitura paleográfica ficou incerta, o trecho foi omitido, não adivinhado.

Vale notar um pormenor que o meu ensaio anterior já assinalava, mas que ganha outro peso quando se lê o documento na íntegra: nenhum dos dois assentos declara a intenção que a sua sequência sugere. O escrivão de São Miguel de Alfama não escreveu que a criança nascera antes do casamento dos pais; disse apenas que estes se encontravam “recebidos” na freguesia vizinha, uma fórmula que, isolada, nada revela. É preciso ler os dois documentos em conjunto, e saber o que se procura, para que a data do nascimento, 17 de junho, o casamento, 12 de julho, e o batismo, 1 de agosto, se organizem em sequência jurídica reconhecível. O documento não interpreta a si mesmo. Isso cabe a quem o lê depois, com o cuidado de não lhe atribuir mais do que ele diz.

Estes dois assentos pertencem ao acervo público do Arquivo Distrital de Lisboa, digitalizado e acessível através da plataforma DigitArq. A sua leitura paleográfica aqui apresentada é, tanto quanto pude apurar, a primeira publicação da transcrição integral de ambos os documentos, articulados como par genealógico e jurídico. Deixo-a registada, com as suas notas, para que outros investigadores a possam usar, verificar ou corrigir.

Deborah Trois é escritora luso-brasileira e investigadora genealógica, autora de “O Segredo de Marrocos: A Última Carta do Bibliotecário Real de Dom João VI” (agosto de 2026, Portugal, em breve também no Brasil). É descendente documentada de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos e pós-graduanda em Arquivos e Bibliotecas pela Universidade Autónoma de Lisboa.

  1. Arquivo Distrital de Lisboa, Paróquia de São Miguel de Alfama, Livro de Batismos, fl. 193. Referência DigitArq: PT-ADLSB-PRQ-PLSB47-001-B8_m0586. ↑
  2. Arquivo Distrital de Lisboa, Paróquia de São João da Praça, Livro de Casamentos, fl. 92. Referência DigitArq: PT-ADLSB-PRQ-PLSB41-002-C1_m0987. ↑
  3. MARROCOS, Luís Joaquim dos Santos. Cartas do Rio de Janeiro (1811–1821). Org. Elisabet Carceller Guillamet. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2008. ↑
Deborah Magalhães Tavares
Deborah Magalhães Tavares
Deborah Magalhães Tavares (pseudónimo literário Deborah Trois) é pós-graduanda em Arquivos e Bibliotecas pela Universidade Autónoma de Lisboa e autora de "O Segredo de Marrocos: A Última Carta do Bibliotecário Real de Dom João VI" (agosto de 2026).

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