Abordamos um paralelo muito descartado por visões pouco lógicas e objectivas mas que, à luz de uma análise cuidada, deve ser colocado a par: a dualidade das práticas da circuncisão masculina e da mutilação genital feminina, à falta de melhores nomes científicos. Ambas ancestrais, de fundamentos religiosos, e em geral efectuadas ainda quando a pessoa é recém-nascida. A primeira é comum nas comunidades judaicas, inclusive no ocidente, sem significativa objecção social, e consiste no corte da pele de uma parte do sexo masculino designada por prepúcio. A segunda recolhe muito mais objeção de movimentos sociais, existe pouco no ocidente mas subsiste nas sociedades rurais africanas, e consiste em cortar a secção do sexo feminino designada por clitóris. É possível que existam aqui aspectos de medo de antissemitismo e de medo — ou não tanto medo — de respeito pelas tradições locais africanas aqui envoltos. E temos também o quadro de valores liberais ocidentais sob o qual estas consideração se fazem — e que inclui também grandes relativismos quanto à autodeterminação das crianças. De uma perspectiva filosófica, da história das ideias ou, para quem preferir, semiótica, deixamos aqui a única explicação transversal e inteligível sobre estes dois assuntos: ambos se destinam a amputar a sobra ou a sombra do sexo contrário presente em cada um dos sexos. No feminino, o clitóris, o resto mais semelhante a um apêndice fálico; no masculino, a deformidade flácida do prepúcio, semelhante a uma vulva e aos lábios vaginais. Aqueles trechos cujas remoções definem a mulher como menos fálica e o homem como menos vaginal. Aparte isso, muitas outras considerações são possíveis e o debate está ainda muito em aberto: o certo é que o paralelo parece inteiramente válido, e deve ser estudado de cabeça fria, com curiosidade intelectual perante práticas sanguinárias e chocantes da história da cultura humana.
Circuncisão ou Mutilação?
Abordamos um paralelo muito descartado por visões pouco lógicas e objectivas mas que, à luz de uma análise cuidada, deve ser colocado a par: a dualidade das práticas da circuncisão masculina e da mutilação genital feminina, à falta de melhores nomes científicos. Ambas ancestrais, de fundamentos religiosos, e em geral efectuadas ainda quando a pessoa é recém-nascida.
