
Deixamos um apontamento sobre vegetarianismo e a ligação inerente dessa prática e ética à dimensão humana da crença — religiosa, política, cultural. Com efeito, foi sempre uma prescrição de adopção minoritária ligada à purificação e/ou qualificação do sujeito para certa disposição ou função especial, como as de místico, padre ou filósofo, segundo a enciclopédia Britânica. Apenas em particular no hinduísmo e no budismo, ou, pelo menos, nas versões depuradas a que temos acesso, é indicado como prática adequada para as pessoas em geral. Porém, preside a parte do fundamento dessa ética um critério grosseiro, popularucho e pouco científico a que chamamos o da “senciência” dos seres vivos (tornado equivalente, nas versões seculares correntes, meramente àqueles que possuem sistema nervoso, ou seja, que sentem dor), deixando de fora a quantidade enorme de organismos vivos de pequena e até microscópica dimensão. É caso para dizer: longe da vista, longe do coração. Por isso lembramos quatro figuras cuja vivência das suas crenças fanáticas, com mais razão ou com menos razão, integra de modo quase indissociável o vegetarianismo. Um, pela obsessão da pureza racial que chega até a considerar outros seres humanos como espécies inferiores, ao mesmo tempo que muito apreciava animais como a cadela Blondi; outra, pela purificação ambiental, que almeja retirar o ser humano não só da cadeia alimentar conforme existe mas mesmo de qualquer influência no meio-ambiente, na natureza, ou seja, da criação no sentido bíblico; outro, pelo despojamento, pela pobreza, pela vida mendicante e monástica extrema; e um último, uma versão bonacheironamente falhada disso, já que a reencarnação presente do Bodhisattva da compaixão pertence à categoria de pessoas que gostaria de ser vegetariana mas não consegue pois o organismo não se aguenta sem soçobrar na anemia, tendo assim de ingerir quantidades frugais de carne.
