A Representação da Mulher como Vítima Passiva e sem Agência no Discurso Público Português

Sobre um relato de uma relação abusiva publicado na imprensa portuguesa, o padrão de desmerecimento da mulher que representa, e as reacções de algumas elites intelectuais aos dogmas do momento relacionados com esse tópico.

O relato de uma relação abusiva de uma jovem estudante de direito, publicado há semanas na revista Visão, despertou vários tipos de reacções completamente distintas cuja variedade e carácter explosivo suscitam bons tópicos para debate, que vamos tentar aqui elencar. Primeiramente, dominam, como é natural — mesmo que tal não seja inteiramente justificado — as reacções de parabéns à pessoa por fazer o seu relato público da situação. Segundo, como também é natural — a “opinião pública” funciona assim e nada tem de novo que assim seja — juntam-se a este conjunto algumas reacções adversas, que vão desde o mero cepticismo quanto aos factos apresentados até ao insulto gratuito e ao dislate. Da nossa parte, entendemos intelectual e socialmente pertinente apresentar aquele que parece ser um ponto de vista também relevante: o da estranheza perante o facto de a mulher ser constantemente representada, neste tipo de peças na comunicação social e no discurso público, como uma criatura passivainertesem agênciavítima das circunstâncias, ao invés de como pessoa adulta, inteiramente responsável, que é — e como esta mensagem, obviamente, não é uma mensagem de “empoderamento” para ninguém, antes pelo contrário, e como de certo modo está em absoluta contradição com as correntes mais relevantes do feminismo clássico, que postulam a mulher como ser adulto e autónomo e não como ser dominado pelas circunstâncias. Para quem não sabe, lançar uma perspectiva destas, como a que lançamos, no charco intelectual que constitui o discurso público à portuguesa é o equivalente a receber uma fatwa. Tivemos o prazer de ser cobertos por insultosdifamaçõesataques pessoaisataques institucionais, campanhas de ódio e de assédio dirigido — tudo aquilo que os arautos da “tolerância e da inclusão” alegam combater.

É para nós um factor de curiosidade intelectual sermos participantes nestes fenómenos, que tornam bem claro como certas narrativas, no discurso público, não são questionáveis, e exigem do leitor uma subserviência acrítica acéfala aos deuses do vitimismo e do comércio da opressão. Não é esse o papel, porém, de uma publicação académica, nem é assim que em nenhuma universidade se devem abordar questões inteiramente abertas à dúvida, ao esgrimir de argumentos, ao debate entre pessoas crescidas. Por último, deixamos a questão: se desde um semi-conhecido comentador televisivo, Miguel Prata Roque, a dizer que se vai queixar à Comissão para a Igualdade Racia(?) por causa de um nosso artigo intitulado “como cozinhar racismo“, até à também comentadora, jornalista e directora da Revista Visão, Mafalda Anjos, que vem “denunciar“ a nossa posição acima descrita como de “misoginia (??) e sugere a apresentação de “queixa-crime (?!?), será possível que em Portugal, particularmente nas suas elites, se conviva muitíssimo mal com a liberdade de pensamento e de expressão e, consequentemente, com o debate académico sério, robusto e exigente? É uma hipótese a considerar.

Pela nossa parte, continuaremos a fazer exactamente o mesmo que sempre fizemos. E deixamos assim lançado o debate, a quem queira participar, sobre a questão em causa. Mas avisamos já que as “florzinhas de estufa”, os malcriados e os anões mentais é melhor ficarem lá fora: este é um espaço para adultos plenamente conscientes, não para pessoas incapazes da disciplina de pensamento que falar sobre estas questões requer.

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