A Trégua de 1914

A trégua da Grande Guerra no Natal de 1914 não mudou o curso do conflito, mas mostrou que, mesmo dentro da lógica do poder, há momentos em que a obediência vacila. E, quando isso acontece, o inimigo deixa de ser um conceito e passa a ser uma pessoa.

No Natal de 1914, o primeiro da Grande Guerra, as armas calaram-se em vários pontos da frente ocidental. O cessar-fogo não foi decidido por generais nem autorizado por governos.

Homens cobertos de lama, exaustos e enregelados, abandonaram as trincheiras e encontraram-se espontaneamente em terra de ninguém. Ofertaram entre si aquilo que dispunham, cigarros, vinho, fotografias e pequenas lembranças. Alguns cantaram, outros apenas contemplaram o outro lado e verificaram que o inimigo tinha similar rosto e idade.

A trégua foi efémera, já que as autoridades militares se apressaram a restaurar a disciplina. As chefias temiam que aquele gesto contaminasse o espírito de combate e, no ano seguinte, as instruções foram explícitas: qualquer tentativa de contacto com o inimigo seria punida. A guerra lá prosseguiu, mais mecanizada e impessoal, com as trincheiras a tornarem-se fábricas de morte, onde o corpo servia exclusivamente de instrumento e obstáculo.

E se os impérios se ergueram em nome da civilização e da ordem, os seus exércitos apenas as encontraram quando deixaram de disparar. Entretanto, as fronteiras mudaram, as colónias esfumaram-se, os exércitos dissolveram-se. Restaram cemitérios alinhados e memórias difusas.

A trégua de Natal de 1914 não mudou o curso da guerra, mas mostrou que, mesmo dentro da lógica do poder, há momentos em que a obediência vacila. E, quando isso acontece, o inimigo deixa de ser um conceito e passa a ser uma pessoa. Hoje, mais de um século depois, essa é a ironia que persiste. Os impérios desapareceram, mas a fotografia de alguns homens a confraternizar no meio da neve e lama ainda circula como prova de que houve um instante em que a guerra se esqueceu de si própria. Porventura terá sido esse o momento mais genuíno de todo o conflito.

Aproveito para partilhar uma das minhas cenas cinematográficas favoritas do filme Joyeux Noël, que retrata este acontecimento:

Aos irmanados leitores, desejo um feliz renascimento!

Imagem colorizada usada no artigo:

“<a href=”https://www.flickr.com/photos/hansmichaeltappen/26644068665″ title=”Archiv5(E)E215 Weihnachtskarte, Erster Weltkrieg, WWI 1914-1918″>Archiv5(E)E215 Weihnachtskarte, Erster Weltkrieg, WWI 1914-1918</a>” by <a href=”https://www.flickr.com/photos/hansmichaeltappen/”>Hans-Michael Tappen</a>, <a href=”https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/deed.en” rel=”license noopener noreferrer”>CC BY-NC-SA 2.0</a>

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