O Fascínio das Massas pelo Fascismo: Uma Compreensão Psicanalítica

Onde se analisa a ascensão de nacionalismos autoritários contemporâneos através da psicanálise freudiana, como retorno do totemismo da horda primitiva: revolta, culpa e nostalgia pelo pai tirano. Explicações sociopolíticas são insuficientes; tudo isso habita em nós.

“Não é exagero se dissermos que Freud, apesar de estar pouco interessado na fase política do problema, claramente previu a origem e a natureza dos movimentos fascistas de massa em categorias puramente psicológicas” (Adorno & Horkheimer, 1951, p.3)

Aproximam-se as eleições intercalares norteamericanas que, entre outras coisas, avaliarão a prestação de Donald Trump na presidência dos EUA. Além disso, Flávio Bolsonaro, regressa para vencer as presidenciais brasileiras e, com isso, honrar o pai, Jair, reafirmando a direita radical e populista no Brasil. São, portanto, alturas de grande apreensão aquelas que se esperam para a segunda metade deste ano, com a possibilidade de continuar ou interromper agendas políticas nada abonatórias para os povos, tanto dos EUA, do Brasil, como do resto do Mundo.

Mas antes das eleições no Brasil e nos EUA, em setembro aconteceu o inevitável: uma vitória esmagadora da extrema-direita alemã, Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxónia-Anhalt. Ainda que sejam eleições de caráter estadual, o facto de termos uma vitória da extrema-direita na Alemanha levanta fantasmas que julgávamos enterrados pela roldana da História. Sobre a agenda desse partido, Rafael Barbosa escreveu no editorial do JN do dia 06 de setembro: “Um partido que quer mudar os manuais de História e retirar o peso ao estudo do regime nazi (…); que defende a ‘remigração’, ou seja, a expulsão de imigrantes e de cidadãos alemães cujo passado não seja suficientemente puro; que propõem a segregação de crianças refugiadas em escolas separadas; que promove as “famílias normais” em detrimento dos “desvios sexuais e os estilos de vida não reprodutivos”. Palavras para quê quando está tudo dito.

Enquanto os autoritarismos se afirmam na Europa e no Mundo, vão-se desenvolvendo várias explicações para o que está a acontecer. Elas têm-se focado, sobretudo, em dois aspetos: psicológicos e sociopolíticos. Quanto aos primeiros, vemos multiplicarem-se opiniões que visam compreender os instintos ditatoriais, primários e malévolos destas personagens autoritárias[1]. As explicações sociopolíticas têm sido esgrimidas nos diferentes fóruns do espaço público. A ascensão da extrema-direita tem sido acompanhada por análises políticas que atribuem à “decomposição” das democracias liberais ocidentais o antro privilegiado para o recrudescimento destas forças fascistas. A este respeito, Vladimir Safatle referia, em entrevista ao Jornal Expresso do passado dia 04/07/2026: “Há uma crise de imaginação política entre a esquerda. Essa crise de imaginação vem do facto de que a esquerda não tinha feito um bom diagnóstico das crises do capitalismo global. Acreditava que podia gerir de uma forma mais humana todas essas crises”. Também Hajo Funke, professor da Universidade Livre de Berlim e autor de vários livros sobre o fascismo referiu que a ascensão da extrema-direita pode ser explicada pela “falta de políticas sociais consistentes dos restantes partidos”. Tendo como foco a eleição de Ulrich Siegmund na Saxónia-Anhalt refere trata-se de uma “crise da democracia alemã” (JN, 04-09-2026, p. 27).

Se, em parte, estes dois eixos explicativos apresentam validade e legitimidade discursiva não resistem, porém, a um olhar psicanalítico sobre o tema. Importa ir além das leituras estritamente psicológicas e sociopolíticas dos referidos políticos e procurarmos perceber o por quê destes mesmos líderes terem tanta popularidade e adesão coletiva. O que estará então, por detrás, do “narcisismo maligno” de um líder ditatorial? Quais as lógicas profundas que governam as massas no seu apoio a admiração? Mais do que estudar as características dessas personalidades há uma missão científica, intelectual e jornalística de desocultar as reais motivações dos eleitores por esse tipo de personalidades.

O fascismo como regresso do totemismo

Um aspeto que temos que ter em conta quando pensamos na emergência de líderes ditatoriais diz respeito à psicologia das massas. Não falo, evidentemente, da “psicologia de grupo”, como uma análise mais superficial poderia sugerir. Falo mesmo das “massas” enquanto processo autónomo, inconsciente e indiferenciado de pessoas que faz brotar o lado mais malévolo de cada um. Contrariamente aos “efeitos de grupo” onde as características individuais tendem a ser sacrificadas para o funcionamento do coletivo, nas “massas” o funcionamento dá-se de forma contrária, isto é, pela ampliação das características pessoais mais negativas, traduzindo-se num funcionamento automático e espontâneo. Concordo, portanto, neste aspeto com Safatle (2016, in Santos, 2024) quando se afasta de uma conceção ortodoxa de sociedade, onde predominam os sistemas de valores, normas e regrais sociais para uma visão do laço social como estando constituído por um verdadeiro “circuito afetivo”. E, num circuito, circula de tudo um pouco tal como, por exemplo, no nosso sistema circulatório: oxigénio, nutrientes, dióxido de carbono, eritrócitos, plaquetas… Nesse sentido, Santos (2024, p. 73) refere: “Assim, se há uma adesão social construída a partir das afecções, compreender a dinâmica psicanalítica do discurso fascista implica a necessidade de investigar sobre como esses afetos são gestados socialmente, como motor de coesão política”. Estas considerações são cruciais para se entender a emergência dos autoritarismos na contemporaneidade pois afastam a ideia, até certo ponto romantizada do laço social puro e “assético” face às nossas emoções mais primárias.

Para entendermos a ação coletiva das massas pelo ângulo da psicanálise temos que entender a estrutura mitológica que governa essa ação. Antes de prosseguirmos convém termos bem assente que os mitos nos habitam deste que nascemos[2]. Lacan (1987/1953) considera que “o mito é o que confere uma fórmula discursiva a qualquer coisa que não pode ser transmitida na definição da verdade (…)” (p. 49). Nesse sentido, penso ser crucial resgatarmos o mito da horda primitiva que Freud descreve em Totem e Tabu para explicar o fascínio das massas pelo fascismo.

Este mito considera que a organização social se estrutura em torno de dois momentos decisivos: revolta e culpa. Num primeiro momento, há a revolta dos irmãos contra o pai tirano, seguindo-se a morte e a destituição do mesmo, ingestão dos restos do morto e, por essa refeição totémica, identificação ao pai. Porém, o segundo momento mitológico revela a fragilidade dessa emancipação. Julgar-se-ia, apenas de forma ilusória, que a morte destituiria o pai tirano, mas aí está a refeição totémica fraterna para atestar que tal é impossível. Segundo Freud, o Real do pai morto configuraria uma “obediência retroativa” de todos aqueles que estavam sob seu jugo: “Odiava o pai, que era um poderoso obstáculo à sua sede de poder e às suas pretensões sexuais, mas, por outro lado, amavam-no e admiravam-no. Depois de o terem eliminado, de terem aplacado o ódio que sentiam e de terem satisfeito o seu desejo de identificação com ele, as suas emoções, subjugadas no decurso desse processo, não puderam deixar de se manifestar. E isso deu-se sob a forma de um remorso, originando uma consciência de culpa que, neste caso, coincidiu com o remorso sentido por todos. O morto ganhou, assim, muito mais poder do que ele tinha em vida, tal como acontece, ainda hoje, com os destinos humanos” (Freud, 2001/1912-13, p. 202).

O que Freud nos revela nesta estruturação mitológica é que a nossa vida coletiva tem necessariamente um retorno e que qualquer ato revolucionário corre sempre o risco de ceder à ordem social vigente comprometendo a revolução operada. Dito de outra forma, não será apenas pela via da destituição e do combate ao “pai tirano” que esse pai desaparece do horizonte humano. Pelo contrário, o recalcado faz-se presente, como mostra a história do nascimento recente do fascismo (Riemen, 2012). Santos (2024, p. 71) ao realizar uma incursão da psicanálise pelos territórios políticos aborda estas conclusões da seguinte forma: “Na apresentação do mito, os restos mortais são repartidos igualmente como refeição cerimonial entre os irmãos, e o ato de devorá-los representa a identificação simbólica com o pai no interior do Eu. Isso faz do pai um sobrevivente, não de modo literal, mas como disposição fantasmática no inconsciente de cada um dos seus filhos”. Apesar dessa vingança contra o pai, e estando ainda dentro da estrutura mitológica, permanece um forte sentimento de culpa entre os irmãos por terem realizado esse ato revolucionário contra o pai. Assim, esta segunda fase caracterizada pela culpa e remorsos, conduziriam a uma forte nostalgia pelo pai perdido e por uma tentativa de reconciliação com ele configurando, para Freud, a transição da horda primitiva para o totemismo: “Esse movimento de ressurreição simbólica do pai, após o ato parricida, caracterizaria a transição do regime da horda primeva ao totemismo, fundando uma nova configuração social” (Santos, 2024, p. 72). As sociedades evoluiriam, então, após a morte do pai real, por períodos de “latências fantasmáticas” que: “(…) instigariam relações de assujeitamento social a um poder soberano, de modo a acalmar as assombrações superegóicas do pai simbólico” (Santos, 2014, pp. 78-79). Assim, os líderes ditatoriais que invadem os nossos jornais diariamente são espectros ilusórios da perda do pai[3]. E todos sabemos, pela simples análise da nossa vida privada, da força das fantasias na construção da nossa subjetividade[4].

A dissociação do pacto fraterno é por demais evidente no lado desagregador da nossa vida coletiva e a criação de personagens que são colocadas num lugar vazio, totémico, portanto, como tentativa de retornar ao estado de proibição inicial é outra da sua manifestação mitológica. Adorno e Horkeimer (1951), partindo das análises de Freud acerca da psicologia das massas, referem a este respeito: “A agitação fascista está centrada na ideia do líder, não importando se ele lidera de fato ou se é apenas o mandatário de interesses de grupo, porque apenas a imagem psicológica do líder é apta a reanimar a ideia do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo” (p. 8). Estas considerações de Adorno e Horkeimer deitam por terra as explicações meramente psicológicas em torno dos líderes.

Uma análise mais descuidada poderia fazer supor que o totemismo apresenta as mesmas características de um sistema religioso. Mas Freud distingue estes dois sistemas sobretudo no que diz respeito ao caráter inconsciente da adesão dos elementos ao totem e à ausência de justificações sobre as restrições que são impostas ao grupo: “As restrições impostas pelo tabu são diferentes das interdições religiosas ou morais. Não se reportam a mandamentos divinos, antes se impõem na realidade por si próprias; diferem das interdições morais na medida em que não se integram num sistema que, de uma forma geral, considera as abstinências como necessárias e fundamenta essa mesma necessidade.” (p. 38). Esta passagem é fundamental para compreendermos a atual segregação das minoriais que os grupos de extrema-direita sistematicamente cavalgam nomeadamente contra as mulheres e os imigrantes (os nossos irmãos), ao mesmo tempo que idolatram figuras que instigam o ódio, a rejeição e a misoginia.

Tendo em conta o mito da horda primitiva, a organização social atual estrutura-se, portanto, muito além do sentimento de culpa e por uma sensação de dádiva e gratidão pelo pai ausente: “Essas questões fazem do totemismo a materialização da dívida simbólica adquirida por uma sociedade inteira, paga de maneira parcelada através da moeda libidinal. O que o pai simbólico almeja é ser ressarcido com prazo indefinido, como um burguês que explora os seus filhos órfãos, impedindo-lhes de gozar ilimitadamente mesmo depois de morto.” (Santos, 2024, p. 74). Há um lado, portanto, saudosista, neste fascínio das massas pelo fascismo, algo que encontramos facilmente quando observamos com maior detalhe as figuras da direita radical nos tempos atuais.

Conclusão: compreender o fascista que há em nós

Para concluir foco-me numa curiosidade acerca de Ulrich Siegmund: antes de fundar a AfD era militante da CDU alemã. E quando analisamos mais de perto o percurso das “figuras” da extrema-direita por esse Mundo fora vemos percursos semelhantes. Um outro aspeto comum em todos os discursos autoritários: a repetição vazia de discursos ocos como propaganda fascista por excelência, tal como Adorno e Horkheimer (1951, p. 2) destacam muito bem no seu ensaio: “(…) reiteração constante e escassez de ideias são ingredientes indispensáveis a toda a técnica” (p. 2).

Porém, a reflexão que importa fazer não se deve cingir ao plano sociopolítico, como se isso fosse a tradução do “esvaziamento” do Centro político, como já aludi no início. Uma observação psicanalítica cuidada e atenta permite uma outra conclusão: o fascismo que julgávamos sempre no Outro nas suas mais variadas formas – políticas, culturais, económicas, geográficas, etc. – sempre esteve, afinal, no nosso meio. Freud é claro sobre isso quando relaciona a projeção animista que emana do Totem e sua relação com o interior psíquico dos indivíduos: “Tal como já referimos noutro local, os espíritos e os demónios não passam de projecções das emoções do homem; ele personifica os seus investimentos de afeto, povoa o mundo com essas personificações e vai reencontrar então os seus próprios processos psíquicos internos fora de si próprio (…)” (Freud, 2001/1912-13, p. 134).

O fascínio das massas pelo fascismo esconde, portanto, esta verdade: a incapacidade, qual totem, de observarmos o que se passa no nosso interior enquanto os nossos órgãos dos sentidos devoram e admiram o mestre tirano. Não é, portanto, de uma exterioridade que se trata, mas de algo que deriva de nós, que nos habita, que nos funda. Foi este também o sentido que orientou as análises do fascismo nos anos 50 do século XX por parte de Adorno e Horkheimer (1951, p.4): “(…) ter-se-ia que explicar por que homens modernos revertem a padrões de comportamento que contradizem flagrantemente seu próprio nível racional e a presente fase da civilização tecnológica esclarecida”. Ou seja, a questão que deve orientar as reflexões sobre o fascínio das massas pelo fascismo deve ter em conta as atitudes primitivas de homens supostamente civilizados e não o estudo e o aprofundamento dos “homens primitivos”. Ao contrário do que possa parecer, só aparentemente estas conclusões são derrotistas. Pelo contrário. Elas apontam para a necessidade urgente de atentarmos na singularidade de cada um para que percebamos o fascista que há em nós antes dele aparecer “do lado de fora”. Só assim conseguiremos atenuar um pouco mais o crescimento assustador do fascismo por esse Mundo fora em pleno século XXI.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Adorno, T. & Horkheimer, M. (1951). Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”. Acedido em: http://bibliotecasocialvirtual.files.wordpress.com

Freud, S. (2001/1912-13). Totem e tabu – alguns pontos de concordância entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos. Lisboa: Relógio D’Água.

Lacan, J. (1987/1953). O mito individual do neurótico. Lisboa: Assírio & Alvim.

Lacan, J. (2024/1966-67). Seminário 14 – A lógica do fantasma. Rio de Janeiro: Zahar.

Lévi-Strauss, C. (1970/1955). A estrutura dos mitos. In C. Lévi-Strauss (Ed.), Antropologia estrutural (pp. 225-253). Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro.

Riemen, R. (2012). O eterno retorno do fascismo. Lisboa: Editorial Bizâncio.

Santos, B. (2024). Psicanálise, fascimo e (de)colonialidade. São Paulo: Margem da Palavra.

  1. Alguns psicólogos têm atribuído a Donald Trump, por exemplo, características típicas de um “narcisista maligno” (termos do psicólogo John Gartner da University John Hopkins). O neurocientista Frank George considera que Trump passou de um “narcisista patológico” para um “narcisista maligno”. ↑
  2. Não é o foco deste artigo analisar a importância da estrutura mitológica nas nossas ações quer individuais quer coletivas. Para isso, convém ver Lacan (1987/1953) e o Mito Individual do Neurótico e Lévi-Strauss (1970/1955) em A estrutura dos mitos. ↑
  3. Curiosamente, a parte do livro de Santos (2024) onde o autor fala mais detalhadamente acerca do renascimento do fascismo na atualidade intitula-se: “Um espectro ronda a europa: o espectro paterno. A experiência política moderna através do aporte teórico freudiano”. ↑
  4. Tal é a importância da Fantasia e do Fantasma, que Jacques Lacan dedica a este tema um Seminário do seu Ensino: “A lógica do fantasma” (2024/1966-67). ↑

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