O fim do fim do fim de uma era

Viagem autobiográfica fragmentada que, via episódios pessoais (doença em Atenas, alergias, trabalho precário, relações e academia), formula "leis” existenciais e sociais: estupidez natural, capitalismo sem rosto, patriarcado, precariedade e o fim de ciclo da identidade e da democracia.

O fim do fim do fim de uma era ou “Cá dentro, inquietação, inquietação” (Inquietação, José Mário Branco), por Tomás Pereira Botelho

“De novo viver todos os dias

De novo morrer todos os dias”

Imre Kertész

“And if deaths coming for us all

Then let death come before our fall”

Five Easy Pieces Revisited, Kevin Morby

 

O presente ensaio não possui fio condutor. Não existe retórica adjacente, ou estrutura.

É composto por episódios presenciados e experienciados. Observações de amigos, familiares, acontecimentos.

O propósito do seguinte ensaio é produzir algo antagónico à fala.

Não sei se o apelidaria de consciência.

0.

A frase mais inteligente que alguma vez me foi proferida adveio do meu pai.

Deveria ter 14 ou 15 anos, talvez menos, e os dois testemunhávamos a votação de algo na Assembleia – talvez o aborto, ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Para minha surpresa, o PCP absteve-se da votação, posição anormal face a união da esquerda portuguesa relativamente ao assunto. Barafustei e protestei. O meu pai riu-se e respondeu: “em Portugal há duas instituições basilares: a Igreja Católica e o PCP”.

1.

A bandeira da Grécia desfraldava-se ao sabor do vento, vergastada por espasmos sem nexo, enquanto um grupo de turistas asiáticos se juntava para uma fotografia perto do poste que a sustinha. Para lá dela, Atenas desdobrava-se em colinas, prédios e casas, ruínas, bares, música e comida. Os turistas eram chineses, creio. Pelo menos um deles envergava um fato de treino com a bandeira chinesa estampada nas costas. O grupo implorava à presença da guia ateniense para uma fotografia; carne encarcerada, vigiada, domada por destinos de viagem pré-fabricados e pacotes de estadias meticulosamente planeados, clamava agora pela dominatrix cultural. Vem-me à cabeça o segmento de um ensaio de David Foster Wallace em que ele descreve os turistas americanos de um cruzeiro a desembarcar numa ilha tropical como gado bovino a dirigir-se ao pasto. A ateniense, uma mulher de meia-idade, baixa e de cabelo castanho estragado pela água rija da cidade, correu para o centro do grupo, que a acolheu com a energia com que um pai recebe um filho há muito perdido para um país estrangeiro.

Virei-me para o meu lado esquerdo.

O sol poente banhava as Cariátides, projectando sombras esculturais sobre a paisagem de pedra. A minha mãe tirava outra fotografia, de outro ângulo. Sempre à mesma paisagem. Ela rodou sobre os calcanhares, Iphone segurado de lado, enquanto filmava o Partenon. Parou diante de mim, endireitou o telemóvel e tirou-me algumas fotografias. Mais tarde mostrar-mas-ia, pitorescas cápsulas de um homem dobrado sobre si mesmo focado no ecrã do respectivo Iphone e que, com o passar das fotografias, erguia o olhar para o horizonte longínquo da cidade. Para onde estavas a olhar, perguntar-me-ia a minha mãe. Oeste, creio, responderia, para o meu bairro, nosso visto que me estás a visitar.

Estávamos no dia 24 de Dezembro de 2023.

O Partenon encontrava-se virtualmente vazio, pelo menos comparativamente ao espectáculo de carne suada a que eu e a minha mãe assistíramos em inícios de Setembro. Essa fora a sua primeira vez no Partenon, e penso que também a minha. Em Outubro, antes de ela regressar a Portugal, subimos a colina novamente, desta vez sob céus cinzentos e nublados. Começara a chover enquanto nos indagávamos se algum dia os ingleses iriam devolver os mármores roubados, pelo que tivemos de nos abrigar entre uma solitária árvore – um cipreste, talvez? – e o improvisado barracão de vigia dos muitos “guardas” que por ali se deslocavam, soprando apitos metálicos e gritando, em inglês e grego, com os turistas estúpidos que transpunham as guias delimitadoras, ou se comportavam como se tivessem sido mantidos numa cave a vida inteira e esta fosse a primeira saída em público. Havia algo de antropológico em observar turistas, nomeadamente americanos que se deslocavam a custo, munidos de ventoinhas elétricas e camisolas de equipas de futebol americano. Quem é que considerou boa ideia usar um top dos Washington Redskins (agora extintos) em plena Atenas?

Ao darmos a volta ouvimos um grupo de mulheres a falar português com sotaque de Cascais; tornámo-nos mudos. Fotografámos, continuámos, banhados pelo sol poente de Dezembro.

De olhos húmidos e, presumo, coração palpitante, a minha mãe sentou-se na beira de um rochedo protuberante, murmurando que aquele local, em particular as Cariátides, a deixavam sempre emocionada. É uma viagem espiritual, dizia, a minha peregrinação. Anuí, compreendendo a expansão da sua vida. Fora Professora de História durante mais de quarenta anos e contava-me, pela terceira vez, na terceira visita/peregrinação, o quão magnânimo era estar diante daquilo que tinha leccionado e compreendido apenas por imagens.

Continuei até perto das Cariátides, perscrutando o horizonte; pelo canto do olho direito re-encontrei o grupo asiático que escutava atentamente a guia ateniense a explicar, em inglês, a história dos ataques ao Partenon. Ela falava para uma espécie de rectângulo escuro, como se fosse um gravador-megafone, e cada turista tinha um par de auriculares que certamente traduzia o que a guia dizia para a língua nativa.

Tirei o telemóvel do bolso das minhas calças verdes escuras e tirei um conjunto de fotos às Cariátides.

A luz, de tons pêssego, beijava-as.

Esta visita fora realizada como uma espécie de peregrinação pessoal. Tinha saído do hospital há, talvez, semana e meia, e desejava unicamente saborear o fresco do Inverno ateniense.

Em inícios de Novembro dera entrada num hospital no centro de Atenas com uma grave infecção do sistema nervoso central que fizera espoletar uma impetuosa meningite. Encontrava-me meio inconsciente devido à febre alta e dores de cabeça avassaladoras quando me realizaram a primeira punção lombar. Ainda assim praguejei veemente em português, seguido de um fucking hell, can’t you guys give me painkillers? A neurologista respondeu que, dada gravidade da minha condição e a incerteza da origem da infecção, que qualquer tipo de anestesia poderia contaminar os resultados.

Fui levado para um quarto privado, utilizado para doentes com doenças infecciosas, e colapsei, de cansaço, de febre, de privação de sono e de neurose. Duas amigas próximas tinham-me acompanhado, pois eu não era fluente em grego e tinha medo de não conseguir transmitir correctamente a severidade da condição que me afligia, ou de não compreender as instruções dos médicos. Acordei algumas horas depois. Ambas encontravam-se na outra cama do quarto, a conversar. Informaram-me que tinham telefonado aos meus pais, em Portugal, e que a minha mãe iria embarcar num avião no dia seguinte. Era sexta-feira, a noite descia, fluida como a negritude do cosmos, e eu, desprovido da capacidade de sonhar, acariciado pela insanidade febril.

Tentei erguer-me na cama e reparei que tinha coisas espetadas no braço e na mão direita. Sacos de medicamentos intravenosos percorriam a corrente sanguínea. Banhado em suor, de cabelo gorduroso e cara inchada devido à febre, proferi algumas palavras às minhas amigas. Elas replicaram que não iriam para casa e que iriam dormir naquela cama adicional e ficar comigo, pelo menos até à minha mãe chegar. Era sexta-feira e sabia que uma delas tinha um encontro com uma rapariga que conhecera no Tinder. Chorei, perante tal demonstração de afecto e preocupação e fui abraçado por ambas.

De seguida ajudaram-me a sentar-me na cama e uma delas tirou uma fotografia de mim, tubos a saírem-me do braço, cabelo colado ao rosto. Tentava fazer um pirete, um definitivo gesto de rebeldia perante uma doença cujo origem eu desconhecia mas que se refastelava do meu cérebro. Fraco, não consegui erguer o dedo devidamente, pelo que no registo fotográfico parece que estou a tentar acariciar o clitóris de uma andorinha imaginária.

Durante a semana subsequente fui submetido a exames neurológicos diários. O neurologista chefe, que todos os dias reunia a equipa e visitava os pacientes, conversando, pelo menos, quinze minutos com cada um, informou-me que sobrevivera por uma questão de horas. “No dia seguinte estarias ou morto ou com danos neurológicos permanentes”, disse-me, em inglês com sotaque grego serrado. Procurei o nome dele no Google e descobri que era dos neurologistas mais conceituados da Grécia e que liderava investigações sobre Parkinson, financiadas pela fundação de Michael J. Fox.

Todos os dias, durante quase um mês, este homem de quarenta e muitos, sentou-se diante de mim e explicou-me como a doença progredia, o que estavam a fazer, que expectativas tinham, qual o percurso terapêutico e terminava sempre com a mesma pergunta: “como te sentes, mentalmente”? Ao ser internado expliquei que sofria de OCD (em inglês), depressão e stress pós-traumático e que tomava medicação diária. Fora decidido que não iriam interferir com essa medicação mas que eu deveria ser acompanhado, a cada três dias, por um psiquiatra.

Certa manhã, após ter vomitado o pequeno-almoço novamente, um homem alto de camisa perguntou se poderia conversar comigo. Quis saber se eu mantinha contacto com o meu psiquiatra português. Respondi que sim. Mantinha sessões de terapia agendadas? Anui. Acrescentei que consultava uma terapeuta especializada em OCD e que estava em permanente contacto com ela via mensagens. Ele sorriu e deu-me um cartão com o número privado dele. “A qualquer altura do dia telefona-me se te sentires claustrofóbico ou com medo de estar aqui”.

Durante a primeira semana de internamento foi descoberto que a infecção me danificara a nível renal e hepático e que o anti-viral, um poderoso medicamento que me era administrado em dose máxima 24 sobre 24 horas devido à severidade da condição, me iria conduzir ao estado de insuficiência renal. A pesquisa adensou-se. Removiam sangue várias vezes ao dia, recolhiam urina, entrevistavam-me para compreender que tipo de mosquitos existiam em Portugal e se eu tinha sido mordido por algum insecto nas últimas semanas. Indaguei os neurologista sobre a origem de perguntas tão peculiares. “O vírus do Nilo tem-se propagado aqui na Grécia”, respondeu-me uma médica de cabelos encaracolados.

Foi chamado um especialista em doenças infecciosas de outro hospital ateniense. Um homem de cabelos brancos, envergando um fato de aspecto caro. Fechou a porta do quarto, usualmente aberta, puxou da cadeira e explicou-me que precisava de saber a verdade e que a minha vida dependia disso. “Consomes drogas”? Sim, erva, nunca consumi mais que isso. “Tens a certeza”? O meu pai costuma dizer que quando alguém consome drogas está um estupor em Miami a rir-se, imagem que nunca me abandonou, pelo que nunca tive sequer curiosidade em experimentar outras coisas. “Fumas erva verdadeira ou daquelas vendidas pelas smart shops cheias de químicos”? Tenho uma amiga cujo dealer importa produto da Holanda, nunca confiei nessas smart shops. “És sexualmente activo”? Sim. “Usas protecção”? Sempre, não obstante ser alérgico a latéx. “Qual é o teu consumo de álcool diário”? Algum. “Dirias que bebes demais”? Inquestionavelmente. “Que tipo de bebidas? Alguma coisa caseira”? Principalmente bourbon canadiano ou whisky japonês, por vezes gin, sempre da mesma marca britânica. “Tiveste contacto com animais”? Visitei os meus pais em Portugal recentemente e estive com o husky de família, mas ele é muito bem cuidado, tens as vacinas em dia e as desparasitações actualizadas. “E animais mortos”? Não, nunca fui muito satânico, apesar de ter namorado com góticas e gostar de black metal escandinavo. “Tens piada. Estás a dizer-me a verdade”? Sim.

Dois dias depois descobriram que a causa da infecção do sistema nervoso central fora causada por uma falha no sistema imunitário – subsequente de abuso de álcool, má alimentação e excesso de trabalho – que inadvertidamente re-activara o vírus da varicela.

Esta é a lei da estupidez natural.

2.

Fiz dezassete anos e não pude desfrutar de um jantar digno.

O médico de família, um velho amigo dos meus pais, sentado diante de mim, à mesa de um restaurante em Lisboa, dava indicações ao empregado de como deveria ser cozinhada a comida. “Nada de óleos vegetais, nada frito, nada de molho no bife. Apenas arroz branco. Sem aditivos.”

Cumpria o primeiro mês de uma delicada dieta cujo objectivo primário era evitar a ingestão de alimentos que pudessem conter vestígios de frutos secos, ou os denominados E’s que incluem as famílias de conservantes, corantes e antioxidantes. Na semana anterior, durante um Carnaval passado à beira-mar, padecera de dois choques anafiláticos devido à ingestão de um quarto de amendoim. Seguia agora uma dieta calculada pelo singelo ideal de sobrevivência: cada refeição ecoava a guerra entre os malefícios das alergias alimentares e a inaptidão da resistência dos órgãos vitais.

À época ainda comia carne, embora esta esteja repleta de antibióticos e outros aditivos, cuja composição e existência bailam entre o fictício e a dificuldade da crença; poucos acreditam nas imagens recolhidas dos matadouros ou nos estudos sobre a quantidade de químicos injectados no gado. Contudo, aprendi que, paradoxalmente, a carne era o alimento mais “asséptico” que poderia ingerir. Nada acontecia; apenas a permanência.

Ainda estava vivo, refeição após refeição.

Esta é a lei da repetição.

 

3.

Tenho um jardim em casa. Ou melhor, as traseiras do meu apartamento dão para o jardim do prédio, cujo único acesso é feito através das minhas varandas. Não é bem um jardim, no sentido em que não tem relva. Somente terra, onde o meu gato gosta de rebolar e correr e escavar. Aprendo que os gatos escavam como os cães. Ou pelo menos o meu escava. O jardim tem algumas árvores de fruto, algo pequeno, delicado e laranja, cujo nome a senhora que toma conta dos assuntos do prédio me dissera mas que eu não retive e não conseguiria reproduzir de qualquer forma. “São comuns aqui na Grécia”, diz a senhora. Junto à parede alta e branca ao fundo do jardim jazem videiras, ligadas umas às outras por fios de cordel. O meu gato decide que o cordel é seu inimigo e ao fim de alguns dias encontro cordel na casa-de-banho e em cima da cama.

Uma das varandas está ligada à sala que uso para trabalhar. Por sorte, porventura estupidez natural, ou mero ocaso, conseguira assegurar um emprego totalmente remoto. A empresa cedera-me um computador, um router pessoal com internet de alta velocidade, cabos e outros apetrechos. Possuo uma mesa de jantar do Ikea de madeira clara que serve como secretária, metade ocupada pelo computador da empresa, metade repleta de livros de antropologia, um caderno cor-de-rosa e um Ipad onde vou escrevendo notas para a tese de doutoramento. Nos momentos lúcidos consigo trabalhar no doutoramento; nos momentos insanos tenho de preencher folhas Excel para uma tabaqueira japonesa.

Fixo-me no ecrã do computador da empresa e apercebo-me que tenho de ir ao oftalmologista pois sinto que estou a ver pior.

Esta é a lei da tecnologia.

Paro por alguns minutos para me servir de um copo de sumo de alfazema adquirido numa loja de produtos biológicos de aspecto moderno e asséptico, e dirijo-me ao exterior com a intenção de fumar. Nos ramos de uma das árvores encontra-se o meu gato zarolho, esparramado, isento de sentimentalismos. Ele é comprido e gordo, tal como todos os gatos gregos o são. O seu pelo é sedoso, assim diz o meu pai, cujo dedo grande do pé seria, uns dia mais tarde, perfurado pelos dentes do meu gato grego zarolho.

Encontrara-o debaixo de um carro na rua onde resido. Um rato, nem um mês de vida tinha, apenas um olho gravemente infectado e pêlo repleto de resíduos e parasitas. A minha mãe, que naquele Inverno me visitava, conseguira atraí-lo e embrulhá-lo num cachecol. Recorri à aplicação de táxis para atravessarmos quase meia Atenas: era noite e havia apenas um hospital veterinário aberto. O gato ficou internado durante a noite e parte do dia seguinte. Ao final da tarde fomos buscá-lo. Sofria de anemia severa, para além da infecção ocular que já o tinha cegado. O olho morto, um fungo ou furúnculo, poderia infectar o outro olho, pelo que teria de ser removido por cirurgia assim que ele recuperasse da anemia.

Regressámos ao bairro onde resido, Kypseli, e fomos a um café beber chocolate quente. Tiro uma fotografia à minha mãe, caneca diante de si, gato embrulhado num cachecol dentro do seu casaco.

Esta é a lei da compaixão.

4.

Lacrimejo por excesso de tempo diante de ecrãs. Na televisão desfilam carros a arder, corpos esquartejados, um maníaco que usa uma moto-serra para cortar em dois um taxista, em seguida saca de uma AK-47 e percorre a rua a abater membros de uma gangue cujas vestes púrpuras replicam a cultura pimp dos anos 60/70 em Nova Iorque. Um amigo de adolescência diz que devíamos comprar uma nova versão do videojogo, dado que o que estamos a jogar encrava a cada cinco minutos.

Removo o disco da Playstation e arrumo-o na caixa. Para ambos, o GTA San Andreas é igual parte totémico e saudosista. O rapaz afirma que numa loja de videojogos em segunda mão no centro comercial há uma cópia barata, mas antes de saírmos ele ingere amendoins que trouxera de casa. Não sendo adepto de frutos secos em geral, anuo, obstinado, em trincar um quarto de amendoim, cujo sabor se encontra interligado à memória de Homer Simpson a confundir ballet com o circo onde um elefante bebé conduz um carro em miniatura. David Foster Wallace tinha razão em várias teorias, mas será que alguma vez preconizou a gradual substituição de associações livres por fragmentos televisivos? Homer continua embalado pelo elefante e eu trinco o amendoim.

Passados dois ou três minutos – tempo suficiente para saírmos de casa e nos embrenharmos na humidade marítima de Fevereiro – começo a coçar-me. A pele que me cobre é um gato que necessita de mimos, ainda que numa versão Lynch em que sou o Agent Copper a quebrar o vidro da casa de banho enquanto repete, num ciclo de insanidade, “where’s Annie, where’s Annie?”. A comichão nada tem de sano, nem tão pouco de coerente. No espaço de segundos sou invadido por alienígenas e as escassas forças de rebelião fuziladas; reparo que tenho manchas vermelhas, violetas e negras, panóplias de escalas de cor, ao longo dos braços e do tronco. Dispo-me, despedaçando as pré-estabelecidas convenções sociais de que um homem não pode andar semi-nu na rua, muito menos em pleno Inverno. Repleto de uma espécie de quistos, a lividez dos membros é interrompida por colinas que faço sangrar de tanto coçar.

Afirmo que algo de estranho se passa, pelo que o amigo que se encontra comigo sugere visitarmos a minha ex-companheira, cuja casa se encontra a caminho do centro-comercial para onde nos dirigimos com a finalidade de comprar um videojogo em segunda mão para matarmos avatares e ficarmos ricos e termos carros que nunca poderemos sustentar. Respondo que a ideia é desprovida de inteligência (escrevo isto de forma meiga, não nos conformes da verídica afirmação), mas os montículos que irrompem pelo meu tronco possuem vontade própria, acabo por aceder e telefonar à rapariga.

Somos recebidos por ela com suspeita, e, creio, algumas reservas; no entanto ela providencia-me um anti-histamínico qualquer e seguimos caminho. Outrora tivera sentimentos complexos por aquela rapariga cuja tenacidade e instabilidade me conduzira por labirintos de estupidez adolescente e necessidades básicas de apoio emocional e sexual. Afinal, somos todos condicionados.

Esta é a lei da necessidade e do regresso.

5.

Após dormir o dia inteiro, recuperando consciência ocasionalmente para alimentar o gato – acto indispensável a qualquer pai – opto por desligar o cérebro e comprometer-me numa maratona de oito horas a jogar Final Fantasy XVI na Play Station 5. Às oito da manhã recebo uma mensagem de uma amiga a perguntar se estou acordado. Respondo que sim, que estivera a noite toda a jogar. Ela questiona se estou disponível para a acompanhar a uma clínica num bairro adjacente a Syntagma, pois necessita de realizar um conjunto de análises e não quer ir sozinha. Esta é a lei da ansiedade. Algo que nos puxa do nada, e que no entanto marca a geração a que pertenço; medo de estarmos sozinhos, medo do embate social, medo do próprio medo. Ermos de paralisação. Visto-me apressadamente, não olvidando um toque de perfume, e peço um táxi através de uma aplicação cuja origem eu desconheço; é apenas mais um meio de transporte. Seguimos para a casa dela, ela entra no táxi, olhos vagos e encovados. Diz que dormiu mal. Que tem dormido mal. Seguimos para a tal clínica. Conversamos escassamente sobre eventos que decorrem nos nossos respectivos países; ambos somos estrangeiros a viver em Atenas. Temos isso em comum. Chegamos à clínica e sento-me, enquanto ela explica o que deseja à senhora da recepção que enverga uma bata de enfermeira com uma placa onde o seu nome está explícito a qualquer humano que consiga pronunciar correctamente a densa língua grega. Reviro o olhar enquanto faço swipe no Instagram, não bem à procura do quê, apenas a verificar se havia algo novo. Opto por ir ao site da “A Bola”, mas são menos duas horas em Portugal, pelo que as notícias do dia ainda não figuram do site principal. Apercebo-me que me esquecera de ver o jogo do Porto na noite anterior. Procuro o resultado: ganharam, menos mal. O Samu marcou. Boa contratação. Odeio futebol. Prefiro ciclismo, o derradeiro desporto. Se pudesse jantar com duas pessoas do mundo do desporto seriam João Almeida e Tadej Pogačar. Possivelmente convidava também o Gonçalo Moreira, jornalista e comentar da Eurosport Portugal, cujo artigo no Público sobre o ciclismo Colombiano se destaca na página dos favoritos do meu browser. Ela desaparece num corredor de paredes brancas e ripas de madeira, luz azulada, esquizofrénica. Porque é que estes sítios têm sempre de nos fazer sentir mais doentes do que realmente estamos? Indago-me se ela estará doente. Não lhe perguntei, não por indelicadeza ou falta de educação, mas meramente por ter assumido que esta visita seria um acto de rotina. No entanto, pondero, se fosse rotina, porquê não recorrer ao hospital, visto que ambos somos portadores de número de saúde grego e temos acesso ao sistema nacional de saúde gratuito? Ela regressa ao fim de alguns minutos, manga arregaçada e tira de gaze sobre a pele morena. A enfermeira / recepcionista chama-a para pagar. Ela utiliza o cartão Visa do seu país nativo, que é prontamente rejeitado pela máquina grega. Tenta novamente, uma terceira vez, e à quarta desiste. A enfermeira informa-a que pode ir levantar dinheiro, mas que teria provavelmente de caminhar quase até Syntagma. Ouço a conversa, realizada em inglês, e voluntario-me a pagar a conta com o meu cartão do Banco Nacional da Grécia; ao contrário dela optei por abrir conta num banco grego para receber o meu ordenado. Apresento-me diante da máquina e pago via contactless. Funciona. A enfermeira coloca uma série de papéis diante de nós, e, de soslaio, reparo que um dos exames fora um teste de HIV. Percorremos a rua à procura de um café onde possamos beber um freddo expresso. Quando nos sentamos, de café em punho, pergunto que tipo de exames fizera e se estava bem. A reacção inicial é a da mentira, ou melhor, negação, seguida de um assomo de terror, finalizada por um instinto de auto-preservação. Exponho que não é do meu interesse intrometer-me em assuntos privados, mas que, como amigo próximo, estou preocupado com a sua saúde. Sorri, depois lacrimeja. Há uma semana atrás fora violada, em Gazi – bairro de Atenas -, por dois norte-americanos. Tentara resistir mas eles eram dois e mais fortes que ela. Fala sem sentimento, apenas um travo de raiva imperceptível a olho nu; infelizmente não era a primeira vez que algo do género lhe acontecia. Escolhera aquela clínica pela celeridade: tinha de saber se era portadora de alguma doença sexualmente transmissível. Informa-me que se inscrevera no ginásio e que iria levantar pesos e aprender técnicas de auto-defesa.

Esta é a lei da masculinidade hiper-moderna.

6.

Sempre detestei as luzes de centros comerciais. Tive, em tempos, uma companheira norte-americana que reclamava com as luzes brancas – por vezes azuis, consoante a ilusão. Em Copenhaga, onde nos conhecêramos, eu tivera um candeeiro LED com definições de luz branca, mas sempre que ela estivera presente no quarto obrigara-me a alterar para luz amarela, mais suave, quente e meiga. Porventura seja essa a génese do meu problema com as luzes de centros comerciais, embora esta questão persista desde criança, o que me leva a questionar a coerência dos argumentos aqui descritos.

Desabafos anacrónicos.

Independentemente da ausência de simetria temporal, os quistos articulavam a horologia consoante novos instrumentos de medição. A noite dissipara-se, com ela o Inverno, e até mesmo o ano por completo. Registava-se unicamente a dicotomia “estou-me a coçar de forma maníaca”/“estou-me a coçar até rasgar a pele”. Os interstícios, resguardados nano segundos ausentes de comichão, esgotavam-se sob o tecto de agonia alérgica. Anos mais tarde conheceria a personagem de Chuck, na série televisiva Better Call Saul, cuja matrix identitária revolve em torno de uma inexplicável alergia à electricidade; só então adquiri mecanismos de esclarecimento do quão nociva a luz do centro comercial fora quando penetrei no seu cerne sobre-aquecido por monstruosos ares-condicionados. Enquanto o frio gerado pela humidade marítima tivera o condão de aliviar a comichão, o bafiento endez da resplandecência da máxima do consumismo provocara a detonação de fastidiosas crises de coça-coça, sangra-sangra.

Afirmei que não me sentia bem, estava zonzo, o lugar movia-se em densas ondas e espasmos, as luzes danificavam a córnea, tinha sede, queria-me sentar. Fui colocado num banco, de costas com um casal idoso cujas pernas e veias certamente já não aquentavam o vigor juvenil do perpétuo consumo. Foi-me trazida uma coca-cola, o epítome do capitalismo para um homem moribundo. Como diz a canção, antes de o homem condenado à morte morrer ele verifica novamente o feed das redes sociais para ter a certeza de que nada lhe escapou.

Recordo-me de beber um trago. E depois nada.

Esta é a lei da incoerência traumática.

7.

Meses antes de ser internado em Atenas vira a minha avó materna a definhar numa cama de hospital. A senhora falecera de insuficiência renal, mas padecia de inúmeras agravantes. Tinha, penso, 94 anos. Ou 93. Não tenho a certeza, sempre fui péssimo a manter registos das idades e aniversários das pessoas. Os únicos que sei de cor são os dos meus pais e da minha avó, pois este era apenas alguns dias antes do meu.

Durante uma Primavera e um Verão vira a senhora a definhar, embrenhada em incoerências e delírios provocados pela morfina. A morte era inevitável, um mero formulário que necessitava apenas de aprovação do notário. A última vez que a vira consciente envergava um fato azul escuro com pintas vermelhas e dissera-lhe que fora contratado por uma tabaqueira japonesa e que me iria mudar para Atenas. “Não vás para esses sítios”, disse ela, conhecida céptica da vida de emigrante, “porque é que não podes ficar em Portugal? Não te chegou teres vivido na Dinamarca e em Itália? Para que é que vais embora outra vez”? Os salários são melhores, a vida é mais fácil, só vim cá para fazer o primeiro ano de doutoramento em Lisboa, agora quero ir embora. “Há quase dez anos que abandonaste o teu país”, respondeu a senhora. Eu sei vó, mas nunca gostei muito disto aqui.

Esta é a lei das fugas.

8.

Prévia à fatal insuficiência renal, a minha avó partira um osso na perna – não me recordo qual – e fora internada no hospital da minha cidade natal. Àquela época ela residia connosco, usufruindo da diversão de quando ela me regalava com histórias sobre o meu avó e a vida no Caramulo na grande era do sanatório.

A minha mãe visitava-a diariamente, por escassas horas, dado o regulamento hospitalar. Em contrapartida, em Atenas, ela passava a tarde e a noite comigo, assim como os meus amigos. Os meus pais viram-se gregos – ahah, que piada – para conversar com o médico responsável pela minha avó, de modo a não só obter respostas quanto à sua condição, mas também ao plano de recuperação e que tipo de equipamento teria de ser adquirido para a senhora viver confortavelmente enquanto a perna sarava. Reuniões eram marcadas, os meus pais, que ainda leccionavam, faltavam às aulas para conseguirem estar presentes, aguardavam horas e ao fim de momentos de sede, fome e calor, uma enfermeira informava-os que o doutor afinal não os poderia ver. Em contrapartida bastava-me pedir aos enfermeiros Elefthérios ou Spyros que chamassem um neurologista e em cinco minutos tinha um batalhão de médicos dispostos a apaziguar todos os meus receios e dúvidas.

Tal como em Portugal, o sistema de saúde grego encontra-se mal gerido, sub-financiado e sem vagas. No entanto a cultura do doutor é diferente; o foco é no paciente, não na distinção social. Na hierarquia imaginária. No dinheiro.

Pierre Bourdieu, num conjunto de palestras, explicara que as estruturas que nos regem, tal como as conhecemos, apenas existem devido à aceitação social massiva destas, ou melhor, graças a uma crença colectiva nas instituições. Acreditar na democracia ou num governo era como ter fé; para que funcione é preciso que as pessoas acreditem na sua existência.

Os gregos, ao contrário dos portugueses, acreditam nas injustiças sociais e demonstram o seu descontentamento através de sucessivas greves, manifestações e protestos. Os portugueses interiorizam o sofrimento mundano como uma punição necessário, um mal banal em que todos temos de chafurdar, pois o país é corrupto e nada muda. Encaramos a estagnação democrática com a mesma complacência e platitude com que negamos o nosso violento passado colonialista. Padecemos de saudosismo salazarista, crentes que a ordem existira e fora extinta pela revolução. Tendemos a preconizar uma espécie de whitewashing relativamente à figura que atormentou gerações de portugueses e nos manteve na pobreza e no isolacionismo.

Somos compostos por fascistas no armário, e em 2025 eles comandam.

Recorrendo novamente a Bourdieu, o Estado, ou um país, existe na medida em que os seus cidadãos e residentes acreditam nas estruturas ordenadas que compõem os seus quotidianos e moldam as suas vidas. O oposto disto será, em certa medida, o anarquismo, ou a total rejeição das forças e componentes regentes e que vigoram sobre a nossa vivência social.

Depreendo que, quando o Governo Português optou por adiar as celebrações do 25 de Abril, que, aplicando a lógica do sociólogo francês, este não só não acreditava na importância, legado e simbolismo da força da liberdade, como também não acreditava na necessidade que o povo que – supostamente! – representa tem de se sentir visto, acarinhado e relembrado que os seus políticos têm uma faceta humanista, republicana e, acima de tudo, laica, pilares fundamentais das nossas sociedades Europeias. A questão não se prende com o luto pelo Papa, pois não só é ridículo que tal seja idealizado num estado laico, como também é incoerente que se sobreponha à data mais importante no calendário português. A lógica do adiamento é somente uma de desrespeito institucional, democrático, e civil. Como pode um corpo político pedir que o cidadão acredite na sua estrutura, se o próprio corpo já não acredita na celebração fulcral da permanência da estrutura?

É um paradoxo, se não mesmo um acto fútil de barbárie institucional.

Após as eleições legislativas de 2015 encontrava-me num bar numa praia portuguesa a reler O Adeus às Armas de Hemingway com o propósito de registar os locais por onde ele conduzira as ambulâncias, na região do Veneto. Planeava uma nova viagem a Itália com o singular propósito de refazer as viagens do autor norte-americano.

Numa mesa imediatamente atrás de mim estava sentado um rapaz português, de cabelo castanho claro, calções brancos e camisa azul com um pin da bandeira portuguesa; um vendedor de bíblias ou pregador de abstinência sexual. Conversava, em inglês, com três raparigas louras, muito atraentes. Dizia, convencido da sua verdade pessoal, que Portugal era um caos político pois deixavam governar o Primeiro-Ministro eleito. Uma das raparigas emitiu um som, ou creio que uma expressão, que me permitiu perceber que eram francesas. O rapaz perseverava na retórica conservadora: “nós elegemos um Primeiro-Ministro e agora querem que o perdedor governe”.

Inflamado por uma raiva assassina, pousei o livro e expliquei, em francês, que o tipo era um conard e um pedante que lhes estava a mentir. O rapaz focou-se em mim, um tipo de cabelos compridos pintados de vermelho acabado de se licenciar; creio que ele não deveria ter mais que dezassete anos. De peito cheio de bravura inconsequente, desafiou-me a repetir o que dissera em inglês. Repeti, para seu deleite, que ele era um idiota e que, se tinha ido à escola, teria certamente tirado tanto proveito dela como um bebé tira de uma prostituta. Acrescentei que em Portugal não se elegem Primeiros-Ministros, que as eleições legislativas servem para elegermos representantes parlamentares e que, consequentemente, o partido com maior representação ou assentos parlamentares era convidado pelo Presidente da República a formar Governo, sendo que esta estaria sempre condicionado mediante aprovação por maioria parlamentar. Adicionei que a direita portuguesa não tinha maioria e que, como tal, de acordo com as regras, o Governo proposto fora chumbado, e que o que acontecera depois, ao convidarem o segundo maior partido com representação parlamentar, fora um mero procedimento comum.

As raparigas entreolharam-se e depois perguntaram ao rapaz se ele lhes tinha mentido. Este limitou-se a responder que eu era um socialista de merda. Pior, retorqui, sou um Marxista de merda, um perigoso esquerdista.

Mas isso é uma espécie em vias de extinção, pá…

Esta é a lei da ilusão e da desinformação.

9.

Yanis Varoufakis argumentou que poderíamos terminar com as taxas bancárias caso os bancos centrais emitissem cartões e permitissem a manutenção de contas, inclusive recorrendo a estes lucros para estabelecer o UBI, ou Universal Basic Income. As palavras do ex Ministro das Finanças da Grécia – ou melhor, da República Helénica – ecoam reminiscências de outra lei americana dos anos 30, a Glass-Steagall Act. Esta assimilação pode ser coincidência, e de facto sou eu, o narrador, que a elaboro; longe de mim saber o que Yanis Varoufakis raciocinou antes de enunciar os seus argumentos.

O núcleo da Glass-Steagall Act de 1932, e porventura a sua mais importante clausula, determina a separação entre bancos de investimento e bancos comerciais. Após a crise de 1928 fora considerado fulcral elaborar esta dicotomia de modo a que, em caso de ruptura ou crise da Banca, os investimentos pessoais de cada cidadão não fossem colocados em causa. Ou seja, que as nossas poupanças não servissem para um banco “simular” dinheiro para apostar em empresas e cotações. Ao longo das décadas foi parcialmente modificada, sendo que em Novembro de 1999 o então Presidente Bill Clinton revogou as remanescentes provisões, adjudicando – digo isto metaforicamente – que os bancos de investimento teriam direito ao dinheiro dos contribuintes, como se diz em bom americano. O colapso financeiro de 2008 é, parcialmente, atribuído à morte da Glass-Steagall Act, pois permitira aos Bear-Stearns, Lehman Brothers e Merril Lynchs desta vida investir e jogar, no sentido de gambling, ou jogos de azar, com as poupanças de inúmeros norte-americanos. De resto, sabemos como terminou a história para o lado português.

Uma década mais tarde encontro-me em Copenhaga. Sou aluno de Mestrado na Universidade de Copenhaga e frequento o Campus 2, um cluster de edifícios modernos de aço e vidro para lá de Christiania, em Amargerbro. Sou um imigrante convencional, e como tal, é-me atribuído um conjunto de documentos que devo certificar, comprovar, garantir, verificar, assinar, venerar, guardar para a vida, guardar com a vida, guardar independentemente da vida, aos quais nunca me devo assoar ou usar como guardanapos. Os serviços de estudante da Universidade de Copenhaga são gentis e explicam-me onde me devo dirigir para conseguir documentos oficiais da Dinamarca, como por exemplo o cartão de utente, o equivalente ao nosso CC, entre outros. É-me nodal obter esta panóplia de cartões de plástico, não só para o caso de ter um problema de saúde, mas também para abrir uma conta dinamarquesa e deixar de pagar balúrdios em taxas de conversão – o Euro é, e sempre será, mais fraco que o Krone nas suas facetas escandinavas.

Após as habituais peripécias que transversalmente caracterizam as interacções com burocracias, consigo obter um documento provisório que me permitirá abrir uma conta num banco dinamarquês. Não obstante, quando questiono o funcionário público na Casa do Imigrante em Copenhaga – creio que pelo nome da instituição é possível depreender de imediato o desprezo pelos não-dinamarqueses – se o documento me permite mesmo abrir uma conta ele responde, com escárnio e um ronco, que terei de ter sorte para um banco me aceitar. Quero responder com palavras pouco bonitas, mas sorrio cordialmente e percorro as ruas de Indre By à procura de um banco.

Experimento um aleatório: afinal, que sei eu sobre bancos dinamarqueses? Cedo me apercebo que o processo é bizarro; dou por mim a passar horas a preencher formulários sobre quanto dinheiro irei movimentar diariamente, semanalmente, mensalmente, anualmente, que quantias virão de contras estrangeiras, que quantias irão para contas estrangeiras, de que países virá esse dinheiro, sob que divisa, de quem, em que ocasiões, porquê, entre outras questões absolutamente idióticas que só lembrariam a um burocrata de carreira de Bruxelas numa comissão a portas fechadas. Posto em termos leigos: como raios é que eu poderei saber quanto vou gastar num ano a morar em Copenhaga se é o meu primeiro ano a morar em Copenhaga?

Por fim entrego os formulários a um funcionário dinamarquês de fato azul. Este perscruta os papéis, sem ruído ou mudança de expressão. Olho para o telemóvel; estou farto de bancos e quero ir ouvir música e beber uma cerveja. Ao fim de dez minutos o jovem coloca os formulários em cima da secretária e pergunta-me, em perfeito inglês, porque tenciono enviar dinheiro para uma contra estrangeira. Perplexo pela questão, peço que me esclareça o que quer dizer com isso. “Porque é que dizes aqui que vais enviar dinheiro para uma conta portuguesa?”, diz ele, apontando, com uma caneta Mont Blanc, para um linha algures numa das páginas. Bem, começo, eu sou português, e pretendo visitar o meu país, pelo que quando estiver lá, o dinheiro que ganhar em empregos aqui, será transferido para a conta nacional. Não faz sentido, acrescento, estar a recorrer a um cartão dinamarquês em Portugal e pagar taxas de conversão e comissões se posso, simplesmente, transferir as quantias para uma conta nativa. “Ah”, replica o jovem. “Pois, mas não podes fazer isso”, termina, riscando o segmento do formulário sobre transferências para o estrangeiro. Perdão?, indago. “Não podes transferir dinheiro para o estrangeiro, não se tiveres conta connosco”, diz o jovem, sem me mirar nos olhos. Olhe, ainda bem, digo, enquanto me ergo, pois sabe, eu vendo armas e trafico drogas para claques de futebol, e de facto seria chato ter um banco a intrometer-se nos meus negócios. O rosto do jovem funcionário contorce-se em algo análogo ao Grito de Edvard Munch.

Já novamente nas ruas gélidas de Copenhaga procuro no Google o nome do banco a que fui e descubro que este está particularmente visado pela Comissão Europeia por ter lavado biliões de rublos a oligarcas russos para depois enviar o dinheiro para contas inglesas e empresas falsas com o o objectivo de disfarçar a aquisição em massa de propriedades na cidade de Londres. Contudo, o perigo mais pertinente e iminente advém de um imigrante aleatório que não deseja pagar taxas de conversão quando visita o seu país nativo.

Esta é a lei das taxas bancárias e do preconceito.

10.

Desprezo religião em todas as suas formas e construções. A concepção de fé nunca integrou o meu léxico pessoal. Nick Cave disse que a sua concepção de fé não era religiosa, mas sim alicerçada no ideal de amor; aos dezasseis anos não possuía capacidades suficientemente sofisticadas para contemplar a acepção de amor tal como ele a descrevia, apenas um vislumbre fictício proposto e padronizado por Hollywood. Ou, como argumentaria Don Draper, “o amor foi inventado por tipos como eu para vender produtos a pessoas como tu”.

Foi, pois, com cepticismo, que acedi à consciência após ter colapsado no chão do centro comercial devido a um choque anafilático. Por mera casualidade, um dos seguranças era bombeiro voluntário e sabia realizar manobras de reanimação. Noutras palavras: salvou-me a vida quando os pulmões e o coração estagnaram.

Assumi o estado consciente arduamente. Não compreendia como fora parar ao chão de pedra – ou coisa a imitar pedra -, nem porque é que tanta gente me ladeava, enclausurando-me num círculo de voyeurismo. O segurança profere algo que, na complexidade da minha confusão interna, não compreendo, mas que respondo com um grunhido. “Tens de levantar o tronco, sentar-te”, repete. Balbucio algo incompreensível, pois o discurso é um acto inteligível. O segurança coloca uma mão por baixo de mim e tenta erguer-me. Eu resisto. No chão é mais fresco, sussurro, não tenho comichão. Duvido que o segurança tenha compreendido o que dissera, ou sequer o tenha escutado; como poderia ele saber que estava a digladiar-me com urticária severa? “Já chamámos o INEM, eles devem estar a chegar, tens de te sentar, por favor”, continua o segurança. Replico, novamente, que o chão é frio e mata a comichão.

Eventualmente ele consegue que eu erga o tronco. Não consigo descortinar o que me rodeia, apenas luzes reluzentes e rostos indecifráveis. Reparo que não consigo ler o nome das lojas, nem distinguir a silhueta de um banco da de um vaso com plantas artificiais. Não sei o que se passa; não tenho consciência de ter colapsado ou de me terem prestado primeiros-socorros. Só me recordo da coca-cola.

Uma mulher loura com o cabelo atado num energético rabo-de-cavalo, envergando o uniforme do INEM, aproxima-se carregando uma maleta, que parece uma daquelas malas que quem trabalha em escritórios leva, uma marmita abarrotada de tupperwares com comida do dia anterior. Este fio de conjecturas aparentemente aleatórias dá-me fome; não como nada desde o almoço e já deve passar das oito da noite. O segurança procura emitir um discurso uniforme, mas é mandado calar pela senhora loura que se dobra e me pergunta porque estou no chão e o que é que andei a beber. O meu amigo, que me apercebo estar perto, segurando a icónica cola-cola, responde que não bebemos nada. A senhora ri-se, com escárnio, pega no meu braço e puxa-me para cima; os meus joelhos enfraquecidos quebram e caio para cima do vaso com a planta falsa. “Estás nitidamente bêbedo”, diz a senhora loura. O segurança fala, mas a senhora loura ignora-o e berra comigo. Sou guiado para a saída, onde uma ambulância me aguarda, metralhado por questões sobre consumo excessivo de álcool e drogas. Replico que apenas tomei um anti-histamínico. “Vocês adolescentes ficam sempre num estado admirável no dia de Carnaval”, ouço, ao ser empurrado pelo centro-comercial.

Na ambulância ouço mais do mesmo, questões padronizadas sobre consumo de substâncias intoxicantes, sermões sobre ser menor – embora, à época, a idade legal para consumo de álcool fosse dezasseis – e desgraçar-me em público. O amigo está ao telefone com os meus pais, informando-os que estamos a caminho do hospital; ainda segura nas mãos a lata vermelha. “Eles estavam em casa, vão sair agora”, diz-me, enquanto bebe do néctar totémico. Um lastro de depressão existencial arrepia-me a espinha, as costas arqueiam e algo me sufoca. Julgo ter sofrido de uma quebra de tensão; não conhecia os detalhes de um choque anafilático, e não obstante uma quebra de tensão não explicar a urticária, considero esta como um fenómeno bizarro. No entanto, a senhora loura insiste que bebi demais, quer saber o que consumi, é excessivamente inquisitória. Tijolos invisíveis impedem-me de respirar livremente, comprimem os pulmões, doem-me as costelas quando inspiro, estalam ossos e ligamentos, músculos exauridos a rebentar de estagnação. Dentro da ambulância não vejo o mundo exterior, a única ligação que possuo com este é a vibração do chão e o ocasional buraco na estrada que me faz doer a cabeça, o cérebro esmagado contra o osso occipital quebrando a visão, está tudo envolto em nevoeiro, as luzes ardem, falo devagar e com dificuldade, cada arquear de lábio, cada espasmo de língua uma ruptura de um alvéolo.

Dou entrada no hospital com pulseira verde. A senhora loura informa as enfermeiras das urgências que estou bêbedo, ébrio, um adolescente inconsequente, rebelde sem causa ou talvez pela causa errada. Há um bizarro estigma social e profissional em ser-se enfermeiro na hierarquia da sociedade portuguesa: existem num limbo de decisões com consequência e simultaneamente inconsequentes pois os doutores facilmente as revogam. É-se menos que os doutores que não são doutores visto que o grau de Doutor envolve um Doutoramento. O termo doutor há muito que foi co-optado e usado como ferramenta do ponto ómega da consciência, último reduto da noosfera das hierarquias e valor individual.

Passados dez minutos de estar sentado os meus pais chegam, preocupados mas relaxados: existe uma crença colectiva e partilhada de que sofrera uma simples quebra de tensão, dado que não sabemos conectar os sintomas, como um daqueles desenhos de connect the dots que detestava fazer no infantário. A minha mãe senta-se à minha beira e pergunta-me o que aconteceu. Com dificuldade explico e ela denota que estou a falar com esforço, que algo não está correcto na maneira como arrasto as palavras e inalo ar. “Consegues respirar?”, inquire, ao que respondo com um árduo “dói-me muito o peito, não me faças falar por favor”. Munida de instinto de protecção maternal, ela pega no meu braço e leva-me pela portas de vidro para a zona dos quartos das urgências, clamando, angustiada e furiosa, que o seu filho não consegue respirar e só tem pulseira verde.

A serendipidade possui elementos imprevisivelmente desagradáveis, embora o ocaso seja, ocasionalmente, um antifaz que nos cega a objectividade; outras vezes é mera sorte.

A médica que é chefe das urgências está perto de nós e ouve os pedidos maternais de preocupação, aproxima-se, pede que lhe expliquem o que aconteceu, olha de soslaio para a pulseira verde, a cara contorce-se num espasmo de descrença na irresponsabilidade profissional da senhora loura, ergue-me a camisola e observa, com um estagnar irregular da visão habitualmente passiva, que estou coberto de bolhas vermelhas e escuras. Grita: “dêem-me já uma ampola de epinefrina que este rapaz está a ter um choque anafilático!”. De imediato surgem duas enfermeiras que me repatriam para um quarto. Sento-me e é-me entregue um saco de vómito. Para que serve isto?, indago. “Já vais ver”, responde a enfermeira. A médica chefe aparece munida de uma seringa e injecta-me. “Fica sentado, não te tentes levantar, vais ficar tonto mas é normal, se te apetecer vomitar usa o saco”, informa-me, enquanto atira a seringa usada para o caixote de desperdícios biológicos e as luvas para outro.

Epinefrina, usualmente conhecida como adrenalina, é uma droga consideravelmente agradável, caso consigamos aguentar os primeiros minutos. Numa questão de segundos todas as veias do meu corpo estalam, alargam-se como esparguete cozido a mais, o sangue corre à velocidade da luz, a caixa torácica parece que vai irromper como o pequeno Alien que emerge do interior do peito do cosmonauta, a cabeça explode em fogo de artifício imaginário, mais tarde explico aos meus pais que foi como se estivessem a acertar-me na nuca com um taco de baseball, os olhos estendem-se por quilómetros sem que os consiga conter nas órbitas, não vomito apenas porque o conteúdo do estômago é nulo.

A seguir, a bonança.

Caio para trás, na poltrona almofadada, assentos de um azul que procura emular o oceano mas queda-se pela ria poluída, grunho sem nexo, um fio de baba escorre-me pelo queixo, isto é melhor que qualquer erva que já alguma fumei, penso. “Estás a gostar disto um bocadinho demais para o meu gosto”, brinca a enfermeira, enquanto me mede a pulsação e me acaricia o braço, “sabes, isto é vendido como droga de recreação, embora as pessoas não compreendam que aumenta substancialmente o ritmo cardíaco e pode conduzir a fins desagradáveis”. Recordo-me de pensar que o desagradável proferido soa inadequado; porventura nefasto fosse melhor.

É-me injectado um cocktail de medicamentos quando recupero da epinefrina, a médica chefe explica aos meus pais que já descobriu quem me trouxe e que a vai repreender pessoalmente, que essa pessoa colocou a minha vida em risco ao recorrer ao preconceito juvenil ao contrário de seguir a conduta profissional adequada, acrescenta que posso ir para casa e que devo comer, mas apenas coisas cozidas, talvez uma posta de pescada e batata cozida, alguns verdes, só devo beber água, e caso sinto nova pressão no peito tenho de regressar imediatamente ao hospital.

Saímos para o ar húmido de Fevereiro e vamos para o centro da cidade onde, num restaurante, é pedida uma posta de pescada chilena cozida, batatas e couve. Não obstante pescada nunca ter perdurado no meu léxico gastronómico, após esta refeição ela nunca mais lá existirá, não só por abominar peixe cozido – peixe-espada preto grelhado é manjar divino – mas porque passo a associar a pescada à condição de doente em pré-falecimento, ou falecimento perpétuo, um corpo doente na corda bamba do bailado cósmico. Como canta Tom Waits, estava a dançar o mambo do obituário.

Observo que o meu pai está ao telefone com o médico de família, o mesmo que depois irá estabelecer a rigorosa dieta. Ele diz que o Tomás sofrera um choque anafilático e, do outro lado, a mais de cem quilómetros de distância, somente silêncio é expressado. “Mas… Mas ele está vivo?”, retorque o médico. Jorge, ele está à minha frente a comer pescada. “João, tu tens noção do que o teu filho acabou de passar?”. Mais uma vez silêncio, desta parte do meu pai.

Neste momento desejo produzir uma reflexão sobre cuidados parentais. Creio que, enquanto leitores, deverão estar a indagar-se como é que os meus pais não tinham consciência dos efeitos ou consequências de um choque anafilático. Na verdade eles tinham, ainda para mais dado que a minha tem um longo histórico de problemas de génese alérgica que provocavam frequentes desmaios e edemas da face – a serendipidade ditara que estes nunca se alastrariam a edemas da glote. O que ocorreu não foi um lapso parental ou descuido consciente de conhecimento, mas antes uma suspensão do processo de formação lógico provocado pelo premente e em tudo consumidor nervosismo e pânico associados à constatação factual de que o único filho estava num quarto de hospital a ser injectado com potentes drogas com o objectivo de impedir que o coração parasse. O conhecimento, a memória e compreensão de acontecimentos apenas existe num estado de perpétua possibilidade de raciocínio, nunca em momentos de terror. Daí surgem os lapsos de memória, as irrisórias irresponsabilidades, o sangue que jorra e se espalha como manteiga derretida. É preferível o inferno pessoal – como canta Youth Lagoon – ao inferno da prole.

Dou por concluída esta breve interjeição; regressemos às histórias.

Menciono que me dói o peito, os meus pais pagam a conta e regressamos ao hospital, onde me é injectada uma segunda ampola de epinefrina. A médica chefe considera prudente eu passar a noite em observação, pois o risco de novos choques anafiláticos é alto. Despeço-me dos meus pais, hesitante. Tenho dezasseis anos e a estupidez inerente a um adolescente cujos ídolos são The Strokes e Sonic Youth. A noção de mortalidade é inexistente e impraticável. Caíra imensas vezes do meu skate, esfolara pele, conseguira cair em cima de um pontiagudo bloco de mármore (tenho uma cicatriz acima do rim esquerdo para o comprovar), queimara a perna quando caíra num half-pipe; experiências dolorosas mas inconsequentes. A insipiência da consciencialização da finitude nunca fora alterada pela história pessoal. Nesse sentido era um adolescente “normal”.

É-me alocada uma cama no corredor das urgências de modo a que os médicos consigam observar-me a todos os instantes. O monitor não faz barulho, ao contrário dos dos filmes: é a primeira coisa que noto e que desvenda a real natureza hospitalar. Não consigo dormir: ficarei acordado durante as seguintes 72 horas, consequência da enormidade de adrenalina que me reveste. Durante a noite ocorrem eventos sobrenaturais: um alemão embriagado que pede a um taxista que o leve ao hospital para que possa urinar, um homem de braço partido que insiste que não andou à porrada com a bicicleta, um gigante de mais de dois metros que a cada cinco minutos grita que quer pudim. Registo cada cheiro, cada ruído, cada extraordinária ocorrência com a atenção de quem se está a preparar para um exame que determinará o rumo da vida.

A alvorada aproxima-se e é-me entregue um pacote de bolachas de água e sal e alguma compota, cujo sabor não me recordo. Quatorze anos mais tarde, em Atenas, servir-me-ão bolachas similares, compotas de laranja e pêssego e um chá cujo sabor não consigo explicar; infelizmente há sabores na culinária helénica cuja especificidade não possuo léxico para descrever. Os meus pais chegam por volta das nove da manhã e sou dispensado. Eles agradecem imenso à medica chefe, cuja amabilidade, prontidão e profissionalismo me salvara a vida. Parece um filme dramático com um final feliz nauseante.

Em casa, movido por energia equivalente a ter chupado cabos de electricidade, dou voltas pelo quarto a inscrever cada momento na minha memória e procurar relembrar os espaços em branco. Desisto, ao fim de algumas horas, e vou jogar Playstation. Apercebo-me que nunca chegámos a comprar o novo disco. Encolho os ombros e contento-me com uma versão que vai abaixo a cada cinco minutos. Paradoxalmente, também eu me fui abaixo a cada cinco minutos.

Esta é a lei da efemeridade.

11.

O gato grego zarolho observa-me a realizar um trabalho inconsequente e sem alma, cujo singelo propósito é pagar a renda do apartamento ateniense. Observa-me a gradualmente desistir do doutoramento; a tese que pretendia escrever torna-se uma tarefa cada vez mais herculeana, sufocada pela impossibilidade de realização de trabalho etnográfico durante a pandemia. Apercebo-me, com atraso catastrófico, que de nada me serve continuar a estudar. Ou ter estudado de todo.

A promessa social feita à minha geração fora a de que, por via da educação, iríamos obter melhor salários e qualidade de vida. Qualificação acima de tudo. Os meus pais, que viveram quase até aos vinte anos de idade sob o regime salazarista, são adeptos fervorosos dessa ilusão; para eles é um facto consumado que a educação traz frutos. Com o gradual passar dos anos o meu pai torna-se céptico: antigos alunos que chumbavam a todas as disciplinas agora ganhavam rios de dinheiro com cursos profissionais de computadores e porcarias afins.

E eu, um aluno de doutoramento, ali estava, a preencher folhas Excel, sem compreender o propósito de estar integrado nas engrenagens da máquina capitalista.

Não que a alternativa fosse melhor; nunca conseguira uma bolsa devido ao peculiar sistema da FCT, onde, por dois anos consecutivos, vira o meu projecto ser avaliado por profissionais de outra área científica que não a minha. Para melhor expor a problemática convido-vos a imaginar um serralheiro a efectuar uma operação ao cérebro. Mas esta é a lei da ciência portuguesa. “Doutores” que avaliam os próprios projectos, cumplicidade conhecida como “amiguismo lisboeta”, centros de pesquisa que invariavelmente terão financiamento assegurado.

Desistira da academia há muito. Regra geral cobravam-me entre 80 e e 100 euros para apresentar um paper numa conferência. As revistas científicas pediam substancialmente mais para publicar um artigo. Algures na Austria, ou talvez na Suíça, uma revista pediu-me 1500 euros para publicar um artigo sobre um grupo activista dinamarquês. Pedi financiamento ao centro de investigação a que estou associado. Nunca obtive resposta aos meus emails.

Enquanto antropólogo benefício (acento no i) de retóricas balizadas por normas de pensamento menos rígidas que a maioria das ciências sociais, pelo que aprecio focar-me não na verborreia sem rosto das estatísticas, nem na idiotice desenquadrada dos tudógolos envelhecidos que proliferam nos canais televisivos, mas antes na perspectiva das histórias pessoais e comuns que a minha geração partilhas, do ruído branco que nos atormenta e do esquecimento a que fomos – e estamos! – condenados. Como ser cientista social num país onde a cultura do conhecimento é vista como não só como um dispêndio desnecessário, mas inclusive como algo menor, como algo ignóbil e de baixo valor na estrutura hierárquica dos aforismos portugueses? Já dizia o anúncio: banco é Caixa; pimbolim é matraquilho; PhD não é Doutor; PhD não é Engenheiro – perdão, inginheiro.

Mesmo que, através de anos de esforço, dedicação e estudo consigamos reunir as condições sócio-económicas necessárias a almejar o avanço social e de classe que um Doutoramento nos proporciona, nada nos garante que este seja apreciado ou sequer justamente avaliado. Portugal possuí dos organismos científicos mais singulares e excepcionais do mundo, onde um cientista se pode auto-financiar e rever o próprio projecto, onde profissionais de outras classes podem considerar projectos que nada têm a ver com a sua área de pesquisa ou de conhecimento, onde mais que o valor científico, a originalidade de pensamento e o rigor, o que importa é quem temos a sorte e serendipidade de nos avaliar. Já dizia a velha história: o Professor atira os testes e os que caírem na cama têm positiva, os outros que tentem para o ano.

Sucintamente: a FCT transfigurou-se, inquestionavelmente, nesse mito. Para uns o ocaso beligerente, para outros a caixa multibanco do financiamento certo, inquebrável e inesgotável. Já em Atenas, leio que esta vai ser extinta, esquartejada, desmantelada, absolvida, dissolvida. Indago-me sobre o que a irá substituir. Duvido que o cerne se altere; somente a nomenclatura.

Esta é a lei da academia portuguesa.

12.

Em conversa com um colega de doutoramento, este conta-me que pediu um empréstimo a um banco português para financiar a sua pesquisa, que requer estadias de longa duração no Chile e na Bolívia. Trabalha com o conceito indígena de mapas, por contraste com a acepção ocidental. Retorqui que, a rapariga com que então namorava, era de Minneapolis e que ela me explicara que as tribos indígenas do Minnesota recorriam a pontos cardeais distintos, como por exemplo por debaixo da terra, no céu, ou dentro de nós. Acrescentei que a minha então companheira me ensinara que o nome Minnesota derivava da frase Dakota “Mni Sota Makoce”, ou “Land where the waters reflect the clouds”, ou “land of the cloud-tinted waters”.

O conhecimento é tão aleatório como as leis que nos regem. Se existe ontologia esta deveria ter como propósito não a teoria metafísica do ser, mas a exploração do horror existencial que nos domina quotidianamente. Talvez isso seja o existencialismo; nunca fui fã de Sartre. Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro, prega o perspectivismo, que teoriza uma cosmologia em que a natureza e a cultura não estão separadas, como dita o pensamento ocidental. Este teorema mental obriga-nos a questionar a existência não só do ser humano como alienado dos procedimentos da lei da natureza, mas também a prática de alteridade, ou a importância de corporizar-mos a perspectiva do Outro – no caso particular do antropólogo brasileiro a experiência ameríndia – sem o fatalismo ou a obsessão de a silenciar. Aplicado a um português a trabalhar para um tabaqueira japonesa na Grécia: repensar a porra da vida e começar a fazer o que gosto e não apenas o que necessito para pagar a renda e sobreviver na selva capitalista.

Esta é a lei da sobrevivência.

13.

Entre 2024 e 2025 a minha saúde sofreu vários revezes, pois, contrariando as recomendações dos neurologistas, regressara demasiado cedo ao trabalho. Quando estes me questionaram porque é que não tinha cumprido as suas regras, respondi que a empresa apenas me pagara 20% do salário durante os meses de baixa médica e que tinha rendas para pagar. “Mas podes pedir reembolso à segurança social dos restantes 80%”. Claro que sim, e irei fazê-lo, mas essas coisas levam o seu tempo e o senhorio não queria saber de constrangimentos para nada, apenas quer o dinheiro na conta. Eventualmente, após o terceiro burnout e mais um assomo inexplicável de febre alta, os neurologistas contactaram a empresa para a qual trabalhava e expuseram a gravidade da situação, defendendo que era de importância primordial que eu descansasse. Conseguiram um acordo com a empresa que me iria permitir estar de baixa por algumas semanas a receber o vencimento completo.

Ao fim de um ano e dois meses de relação laboral optaram por me despedir, citando a necessidade em cortar redundâncias e reduzir o tamanho da equipa. Mais tarde descobri, por via de um ex-colega de trabalho, que tinham contratado três pessoas para colmatar a minha ausência.

Esta é a lei do capitalismo sem rosto.

14.

Namorei, por alguns meses, com uma mulher grega de olhos escuros penetrantes. Cada vez que os mirava era recordado da cena dos The Sopranos em que Tony e Melfi debatem os olhos de Gloria Trillo, amante de Tony. “And those eyes… Those dark black eyes”, diz Tony. “Those eyes are deep”, acrescenta. A cena explora o conceito de amour fou, um amor que tudo consume no seu caminho, e sobre como certas pessoas são atraídas pelo fogo, por algo que as neutralize ou devore. Se a mulher grega padecia de tal desejo de ser neutraliza não poderei responder, mas poderei classificar o nosso romance como amour fou, tal como o de Tony e Gloria.

A existência da mulher grega era como um melisma sem melodia para ornamentar: provinha de uma família abastada, detentora de uma grande editora grega, estudara, vivera e trabalhara em Londres, conduzira, como primeiro carro, um Jaguar e actualmente estava empregue como especialista em recursos humanos numa multinacional alemã que instalava estruturas de energias renováveis e que fora contratada pelo governo helénico para conceber parques eólicos. Conduzia um híbrido, era vegan e reciclava. Lia livros de psiquiatria e psicologia por diversão e tinha o gosto musical de um emo de catorze anos. Numa das estantes da sua sala estava um gigante exemplar do manual de diagnósticos DSM-5, edição britânica.

Certa noite surpreendeu-me ao questionar-me sobre as possibilidades de eu regressar a Portugal. Retorqui que não sabia, e acrescentei que gostaria de saber porque é que ela me estava a perguntar isso. “A empresa quer que eu vá para Portugal por alguns meses para chefiar uma divisão”. Em que cidade, questionei. Ela disse que não sabia pronunciar, pelo que me mostrou o nome no computador. Viana do Castelo, eu disse, é um sítio engraçado, mas um bocado parado no tempo, pelo que tenho ideia, acho que fui lá umas três vezes. “Irias comigo”? Soltei uma gargalhada. Não faço tenção de regressar a Portugal. “Mas achas que deva aceitar a proposta? É uma boa cidade”? Não a conheço muito bem, mas tenho lá amigos, claro que não é Atenas, nem perto disso, vais ter dificuldade em manter uma dieta vegan, creio, mas podes sempre ir para o Porto ou para Braga quando te apetecer. Ela retorque que apenas o faria se eu fosse com ela e que não compreende como é que eu não tenho saudades de casa. “Quando estive em Inglaterra sabia que era temporário, que jamais conseguiria abandonar definitivamente a Grécia”. Pois, suspiro, mas Portugal não é a Grécia. “É melhor”, diz ela. Deixa-te de coisas, no fim do dia somos todos consumidores e nada mais.

Cito uma passagem de um romance de J. G. Ballard em que o autor escreve que o nosso único acto político será qual marca de electrodomésticos iremos escolher, e que, o seu antigo Ministro Yanis Varoufakis, dava palestras sobre como a economia mundial sofrera uma mutação abominável, e que ele agora a classificava de tecnofeudalismo. Existe uma tendência em “arrendar” espaços em plataformas de venda, como a Amazon, para vender os nossos produtos, sendo que pagamos uma quota ao sistema, neste caso a Bezos, tal como os agricultures pagavam para cultivar o terreno dos nobres. “És bastante céptico para alguém que só usa produtos Apple e tem uma Play Station 5 e uma Nintendo Switch”. Ah, minha querida, aí é que te enganas: a descrença, ou a carência de fé, nada tem a ver com a bonança; se sou obrigado a viver neste sistema, ao menos que seja entretido!

Um ano antes, encontro-me a jantar com uma mulher brasileira tatuada da cabeça aos pés e com dimple piercings. Somos um casal de amor de Verão, como os gregos dizem. Ela é alta, incrivelmente bela. Trabalha como engenheira de software para a Google, em São Paulo, e tatua nos tempos livres; faz isso para sustentar a mãe, uma senhora de idade que reside numa favela.

Entre pedaços de souflaki ela pergunta-me se eu acredito em espíritos. Replico que não, que nunca tive nem terei qualquer tipo de fé ou crença ou fascínio por eventos sobrenaturais. “Eu acredito”, começa, “pois passei tempo com uma tribo ameríndia no Maranhão e passei a entender que todo o ser vivo e não vivo tem uma alma”. Um bocado como diz o Viveiros de Castro? “Ah, você o conhece?”. Sou antropólogo, já o estudei e gosto bastante da sua obra. “Então porque é que você não acredita”? Encolho os ombros: prefiro optar pela ficção científica.

Meses mais tarde, depois do Ano Novo, estou num bar em Kypseli com uma mulher grega; há muito que planeávamos um encontro e finalmente conseguíramos uma data que funcionasse para os dois. Bebemos rum, ou talvez gin, não me recordo. Fico enjoado com o sabor e peço uma coca-cola. Ela conta-me que a coca-cola tem um sabor diferente em cada país: a empresa-mãe envia a receita para os fabricantes em cada território e eles ajustam as proporções de açúcar, xarope, gasosa, etc. De facto a coca-cola grega tem mais gás que a portuguesa e é menos doce. A mulher aproxima-se de mim e, recorrendo àquele peculiar estratagema léxico de “posso fazer-te uma pergunta” – que é em si uma pergunta -, pergunta se me pode fazer uma pergunto. Aceno que sim.

“Qual é o sentido da vida, para ti, que já quase morreste”? (Ela referia-se à meningite). Veridicamente já morrera uma vez, aos dezasseis anos, fruto de um choque anafiláctico. Não lhe contei essa história, pois seria demasiado longa e séria para um primeiro encontro.

Alternativamente, propus três hipóteses. A primeira, baseada em The Sopranos, alegava que tudo era, nas palavras de Livia Soprano a big nothing. Elaborei que Tony tinha razão ao referir que temos de saborear os pequenos momentos com aqueles que amamos, não obstante a omnipresente violência e vazio emocional. No entanto, concluí, que no fim iríamos para a escuridão sem saber como, ou citando Bobby Baccalieri, you probably don’t hear it when it happens.

A segunda hipótese convergia com a primeira: que o propósito reside nas conexões que fabricamos ao longo da vida. Esta ideia era baseada no videojogo Death Stranding, do lendário Hideo Kojima. Apesar do desespero beneficiávamos das ligações. E daí, acrescentei, que sei eu sobre o sentido da vida comparativamente a um refugiado Sírio ou a um Palestiniano que enfrenta genocídio?

Por último expus aquela em tendo a depositar a minha crença. No romance Whale do autor sul-coreano Cheon Myeong-Kwan, a personagem de Geumbok foge da sua aldeia com um vendedor de peixe e desagua numa cidade costeira. No primeiro dia, ao passear ao longo do cais, vê uma baleia azul a atravessar o horizonte e fica fascinada pela beleza do animal. Anos mais tarde volta a ver a mesma baleia a nadar e desta vez despe-se, corre para o oceano e tenta, sem sucesso, nadar até ao animal. É um acto tanto de entusiasmo como de fascínio, de inocência e busca de algo tangível, tal como Tony Soprano sentiu ao ter a família de patos na piscina. A história da baleia termina com esta a ser pescada e Geumbok a testemunhar homens a esventrarem o gigante mamífero e esquartejarem pedaços da sua barriga; a personagem fica destroçada, enojada e foge, louca.

“Qual é o teu argumento, então”, perguntou a mulher grega.

Que, enquanto espécie humana, adoramos destruir aquilo que de mais belo existe.

Esta é a lei da evolução.

15.

Regularmente falo ao telefone com uma amiga em Portugal. Nesta instância debatíamos um vídeo que ela me enviara sobre Darwinismo e o processo de selecção, na qual uma académica feminista advogava que a maioria dos cientistas se olvidara – porventura propositadamente – de que existe, paralelamente, um processo de selecção feminino no qual se opta pelos machos mais adequados. O vídeo continuava e a académica explorava essa vertente para explicar o declínio de crescimento populacional em vários países, nomeadamente nos Estados-Unidos, onde, afirmava, o homem comum se tinha banalizado, tornado mundano, estúpido, agressivo, conservador e intoleravelmente machista e opressor. Consequentemente o processo de selecção entrava em acção ao segregar e isolar esta espécie de americano, algo patente no fracasso da aplicação de encontros conservadora The Right Stuff, cujos utilizadores se queixavam da absoluta ausência de perfis femininos, equiparando-a à aplicação de encontros gay Grindr.

A amiga portuguesa, que conheço há mais de uma década, é irresolutamente alienada da estrutura social, não só por virtude das suas opiniões políticas de esquerda, mas também por consequência de anos de diagnósticos psiquiátricos erróneos. Como a maioria das minhas amigas, também ela é sobrevivente de violência sexual durante a adolescência, o que mais ou menos coincidiu com um período de grave depressão. O diagnóstico inicial foi de alterações hormonais, seguido de medicação pesada, um processo repleto de tranquilizantes de elefantes. Com o passar dos anos e de psiquiatras – maioritariamente homens – o diagnóstico foi-se alterando para OCD, depressão severa, hipóteses de doença bipolar, culminando com a certeza de que ela seria borderline, termo psiquiátrico que em português não tem tradução, assim me explicou a minha terapeuta.

Ao fim de anos de medicação ineficaz, flutuações de peso, crises depressivas e tendências suicidas, ela consultou uma neuro-psiquiatra que a diagnosticou, correctamente, como autista com ADHD, ou défice de atenção. A neuro-psiquiatra descobriu, também, que o motivo pelo qual a minha amiga não conseguia encontrar um ponto de equilíbrio mental, não obstante as quantidades perversas de medicamentos, era devido a uma resistência anormal do seu organismo ao tipo de drogas que, regra geral, nos deveriam fixar num plano aceitável. Sugeriu que ela participasse num estudo de Harvard – ou talvez Oxford, não me recordo – que tinha como objectivo compreender pacientes psiquiátricos, nomeadamente portadores de diagnóstico de autismo, cujos organismos resistiam à medicação e terapia.

Não sei se ela chegou a inscrever-se no estudo; dias depois de me contar essa história telefonou-me, banhada em lágrimas e cerrado praguejar, que a Segurança Social lhe tinha cortado o subsídio de doença sem qualquer tipo de explicação. O telefonema desencadeou uma reacção psicológica de desistência.

Um silêncio apaziguador brotou entre nós – eu, na cama em Atenas com um gato zarolho a dormir sobre mim, e ela, algures em Portugal, sozinha em casa. Falou, num murmúrio lacrimoso: “alguma vez consideraste suicidar-te”? Pensei por alguns momentos. Sim, creio que toda a nossa geração, em determinados momentos, tinha, inevitavelmente equacionado isso. “Serias capaz de o fazer”? Não, enquanto os meus pais fossem vivos, nunca, apenas numa circunstância específica gostaria de me suicidar. “Qual”? Se, um dia, quando for mais velho, sofrer de Alzheimer, quero morrer antes de perder a consciência de quem sou e as memórias de quem fui. “Não te preocupes, se chegares a esse ponto eu sufoco-te com uma almofada, como o Chief Bromden faz no One Flew Over the Cuckoo’s Nest”.

Esta é a lei da amizade.

16.

Numa sessão de terapia confesso que estou apreensivo quanto à edição do meu primeiro romance em português, um livro sobre um tipo que sofre de OCD. Afirmo que o enviei, há poucos dias, para inúmeras editoras, mas que esperava que ninguém o selecionasse. Afinal, quem é que quer ler ou publicar coisas sobre tipos que sofrem de problemas mentais? Para minha surpresa, a resposta foi convincentemente positiva: várias editoras propuseram-me acordos de publicação e tive a oportunidade de escolher aquela que considerei mais adequada às minhas expectativas enquanto autor.

Na sessão seguinte comentei isso com a terapeuta, que me respondeu que aos poucos a percepção sobre o estigma da doença mental estava a ser alterado. Perguntei-lhe se o mesmo se poderia afirmar sobre a doença mental feminina. A terapeuta revirou os olhos e disse que não, que infelizmente, tanto em Portugal como no resto do mundo, era comum ignorar ou desvalorizar sintomas e problemas no que toca a pacientes femininas. Falei-lhe do caso da minha velha amiga e dos seus anos de diagnóstico incorrecto. “Pois, infelizmente isso é muito comum em Portugal”. Poderia uma nova geração de profissionais começar a corrigir esse erro? “Talvez, mas há poucas oportunidades para eles trabalharem aqui e muitos vão-se embora, tal como o Tomás foi”.

Esta é a lei do esvaziamento categórico da geração mais qualificada.

17.

A violência obstétrica em Portugal assume proporções tremendas. Somos dos países Europeus com maior volume de casos de parto em que se recorre à prática de episiotomia, uma prática equiparada a mutilação genital pela Organização Mundial de Saúde. De acordo com dados da Associação Portuguesa pelos Direitos das Mulheres na Gravidez e Parto a episiotomia é uma prática recorrente, cuja taxa é superior a 70%. No website da Associação pode-se ler que “a episiotomia é um procedimento cirúrgico quase universal que foi introduzido na prática clínica sem evidência científica que suportasse o seu benefício. O seu uso continua a ser rotineiro apesar de não cumprir a maioria dos objetivos pelos quais é justificado, isto é, não diminui o risco de lesões perineais severas, não previne o desenvolvimento de relaxamento pélvico e não tem impacto sobre a morbilidade ou mortalidade do recém-nascido”, e que é culturalmente habitual realizar tal procedimento, sendo que a não realização é sinónimo de má prática obstetrícia.

Este é um assunto que me é particularmente sensível, dado que, como homem heterossexual, sempre que me questionam sobre a possibilidade de ter filhos, sinto tremenda culpa e responsabilidade pelos danos que poderei provocar à futura mãe. É fácil ejecular para dentro de um corpo; cuidar desse corpo, com dedicação e responsabilidade moral, é uma zona de trincheiras cinzenta, marcada pela negligência humana e médica. As relações de parceria devem ser um espaço comum de partilha, confiança mútua, respeito e consentimento, sendo que ambos os parceiros se devem apoiar mutuamente e responsabilizarem-se pelos seus erros. Uma relação saudável tem de ser, por definição, feminista, ou seja, fundamenta na e pela igualdade. Recorrendo a esta argumentação considero impraticável colocar em risco de mutilação ou danos permanentes alguém que amo.

Leio um artigo sobre a violência obstétrica no Público, e converso com uma amiga a quem fora detectado um quisto nos ovários sobre como tem sido a sua experiência com a medicina portuguesa. Segue-se um rol de comentários muito pouco favoráveis, queixas de abuso de autoridade, de desrespeito pela sua opinião enquanto paciente, de pedidos de exames invasivos desnecessários; ela grita que está a perder a sanidade e que o mundo é uma selva e ser-se mulher é a maldição moderna.

Ressurge uma memória de 2017 ou 2018, quando morava em Roma e namorava com uma estudante de mestrado em línguas clássicas e literatura, de naturalidade croata. Percorrer cidades italianas com ela era fascinante, pois o meu latim é paupérrimo e o dela exímio. Algures, existe uma foto de mim a percorrer uma praça em Roma, garrafa de San Pellegrini numa mão e pacotes verdes de pastilhas elásticas Brooklyn – as favoritas do meu pai – noutra, tirada pela croata numa das nossas vastas expedições a monumentos italianos.

Certa manhã, após uma sessão de sexo matinal, reparamos, com terror e receio, que o preservativo se rompera. Desconheço os motivos pelos quais tal acontecera, nem creio que sejam relevantes para esta história ou sequer adequados; o que interessa saber é que ele rompera e a croata não tomava pílula contraceptiva – devido aos perversos efeitos secundários que o seu uso continuado pode ter no organismo -, pelo que seria necessário comprarmos aquilo a que em Portugal chamamos de pílula do dia seguinte. Embarcarmos numa jornada por Roma em Outubro, caracterizada por calor intenso, elevada humidade e súbitas trovoadas e chuvadas.

Sob o sol inclemente encontrámos uma farmácia. Dirigi-me à farmacêutica e, em italiano, pedi o medicamento. Esta perscruta-me, não sei se desconfiada ou surpreendida, e pede para ver a receita médica. Digo que não temos, que o preservativo rompera, fora um acidente. Ela anuiu, mas insiste na receita médica. Repito que não temos. Sou informado que em Itália é necessário que um médico passe receita para a pílula do dia seguinte; em Portugal basta ir à farmácia e explicar o que acontecera (pelo menos à época, actualmente desconheço se a lei foi alterada). Questiono onde posso encontrar um médico nas imediações que nos receba de imediato e a senhora dá-me um endereço, escrito num cartão. Via qualquer coisa. Pesquiso no mapa e fica a dez minutos a pé. Sorrio, agradeço e despeço-me: buona giornata!

A croata está preocupada e assustada; debatemos que estirpe de médico nos irá calhar, se conseguiremos a receita e o que faremos se não a obtivermos. “Será que se formos a França conseguimos?”, ela questiona, de telemóvel em punho, procurando voos baratos. Garanto-lhe que vamos conseguir, não obstante desconfiar da minha afirmação. Regra geral sou céptico e pessimista, no entanto esforço-me por animar a pessoa que, à época, era minha companheira.

Já no consultório consigo que o médico nos veja de imediato. A senhora da recepção, embrenhada num nevoeiro aromático de Dior, é compreensiva e consegue “criar” uma vaga. A croata belisca-me: “eu não falo italiano”. Na nossa relação conversamos em inglês. Capto ocasionais palavras em croata, e ela em português, mas partilhamos somente a língua da rainha. Digo que servirei de interlocutor e tradutor entre ela e o médico, caso este não fale inglês. Ela sorri, um esgar medroso e acabrunhado. Mais tarde mudar-nos-íamos para a Dinamarca, eu para Copenhaga e ela para Aarhus. Faremos amigos novos, e aprenderei que pronuncio mal o nome dos jogares de futebol croatas, nomeadamente o de Luka Modrić. Ela irá ensinar-me que živjeli é o equivalente ao nosso saúde!, mas nunca consigo pronunciar correctamente o termo e grito, como brincadeira, Modrić! cada vez que brindamos com Carlsberg.

Somos direccionados para um consultório sombrio e abafado, onde, por detrás de uma centenária mesa de madeira escura, jaz um volumoso médico a chupar um gordo charuto. Ele acena para nos sentarmos, e assim o fazemos. Pergunto se fala inglês, ele acena que não. “L’inglese è per gli ignoranti”, clama.

Italiano será.

Exponho a situação, divulgo os acontecimentos e pormenores mórbidos e aguardo a reacção. Ele chupa novamente o charuto e refastela-se na poltrona de cabedal vermelho sangue de boi. “Pretendem ter filhos?”, inquire. A croata mira-me, pânico a brotar pelos poros. Não, somos muito novas para isso, talvez daqui a uns anos, minto. “São casados?”. Não, somos muito novos ainda, namoramos, é algo recente. “O que é que tu fizeste ao preservativo para ele romper?”. Devo tê-lo colocado mal com a pressa, invento. “Tens a certeza que o preservativo rebentou?”. Como assim? “Ela sentiu?”. A croata percebe que o médico está a falar sobre ela e aperta-me o cotovelo. Em inglês, traduzo a questão: confundida pelo fluxo de múltiplas línguas dirige-se ao médico, em croata. Este pergunta-me o que é que diabos é que ela está a dizer. Não sei, ela está assustada, não quer ser mãe. “Mas isso é o fluxo natural das mulheres!”. Pois, mas ainda estudamos, não temos dinheiro para sustentar um bebé. “Ah. Che peccato!”, brame, de olhos caídos. Chupa novamente o charuto e escrevinha um papel que me é entregue; conseguíramos a receita!

Novamente expostos aos elementos, interrogo a croata sobre o que é que ela dissera. “Chamei-o de machista de merda”. Faz sentido, digo, entre gargalhadas.

Esta é a lei do patriarcado.

18.

Em This is Water, David Foster Wallace abre o discurso com a seguinte fábula: “there are these two young fish swimming along and they happen to meet an older fish swimming the other way, who nods at them and says “Morning, boys. How’s the water?” And the two young fish swim on for a bit, and then eventually one of them looks over at the other and goes “What the hell is water?””

Indagarmo-nos sobre a nossa essência, os constrangimentos sociais e económicos, e a natureza do quotidiano que nos ladeia é vital à sobrevivência. Questionar-mo-nos sobre a origem da água em que nos encontramos embrenhados, cujas propriedades se tornaram a nossa habitação permanente, é, de uma forma ou outra, transversal a todos os seres humanos.

Ultimamente, e talvez este sentimento seja mais premente na minha geração (pessoas entre 25 e 35 anos), perdura a ideia, a emoção inarticulável de que atingimos o fim de um ciclo. Não me refiro ao conceito de late-stage capitalism, mas antes a algo mais pernicioso e virulento, capaz de se vincular com o nosso sentido de indivíduo no colectivo existencial. Um ardor? Uma raiva não denominada? Saudosismo? Consciencilização da efemeridade? Talvez uma, talvez todas. É soberbamente complexo e avassalador articular e elencar a fugacidade da nossa natureza, não só por esta ser intransigente na sua incapacidade de se desvincular da cacofonia de teias de problemáticas, mas também pela velocidade com que o nosso presente se torna passado e o futuro se torna um passado ainda mais distante. Imprevisível, aleatório: estes adjectivos são agora matriz de qualquer um de nós.

No primeiro episódio de The Sopranos, Tony desabafa a Melfi que é bom chegarmos a algo no início, mas que ultimamente tem tido a sensação que chegou no fim. Várias temporadas mais tarde, Melfi questiona Tony se é será assim tão mau que, após termos conseguido, enquanto espécie, garantir parâmetros fulcrais como alimentação, abrigo e segurança, nos confrontemos com as questões mais profundas da nossa psique. As problemáticas contemporâneas com ambas as questões de Melfi não são só pertinentes, como evidentes. Chegámos no fim de um período de crescimento económico e democrático: as instituições, que outrora se julgara impenetráveis e indestrutíveis, são agora migalhas numa praia de areia negra. As necessidades básicas e primárias de alimentação, abrigo (ou habitação) e segurança encontram-se quotidianamente em causa: os salários não dão para pagar a renda e, simultaneamente, alimentar a família, e basta procurar as estatísticas de violência doméstica e femicídio em Portugal para a espinha se arrepiar. A ilusão de prosperidade que perdurara atingiu um dramático final, obrigando-nos a aceitar, incondicionalmente, a transitória matriz identitária da desesperança e frugalidade auto-imposta.

Slavoj Žižek argumenta que o capitalismo nos vendeu a ilusão de que a precariedade é uma oportunidade. O ideal de movimentação profissional, de que, graças à educação e profissionalização, iremos atingir um patamar de mobilidade geográfica e de empregabilidade, é, argumenta o filósofo esloveno, uma ilusão que o sistema capitalista estabeleceu para vender e convencer gerações a abdicar do conforto da estabilidade. A noção de que nos poderemos empregar em qualquer lado, e a qualquer momento mudar de emprego, como mudamos de aroma de sabonete, dissimula o precipício da precariedade e da ausência de pilares identitários, tal como uma casa, uma unidade familiar, ou a essência da singular estabilidade. Condições de empregabilidade similares àquelas que David Graeber classifica como bullshit jobs.

Embora seja um autor frequentemente criticado e contestado, Slavoj Žižek produz alguns bons argumentos. Discordo, no entanto, da necessidade de unidades familiares; qual é o problema em sermos solteiros, em aprendermos a conviver com a nossa companhia? (Talvez isto seja material para outro ensaio).

A padronização dos dualismos é o maior veneno contemporâneo. As ideologias são sempre compostas por ficções que estruturam o corpo político e social, prendendo conceitos a realidades nem sempre correspondentes. Porventura o melhor exemplo deste género de falácias encontra-se na teoria económica que nos é ensinada. David Graeber argumenta que, contrariamente à maioria da história do dinheiro, o conceito de dívida é o mais antigo meio de troca e comércio, sendo que os conceitos de dinheiro e troca surgem mais tarde. Contrariamente ao que é teorizado em economia, a noção de troca nunca foi o primórdio; quando, em antigas civilizações “compravam”, por exemplo, alimentos ou armas, estas trocas não envolviam, à partida, trocas realizas no momento, mas antes a manutenção de um sistema de dívida, ou de favores. “Hoje dei-te uma espada, daqui a uma semana quando precisar de um porco pedir-to-ei, é uma dívida ou um favor que me deves.”

Um das minhas monografias preferidas é sobre os potlach praticados pelos indígenas da costa noroeste do Pacífico, o qual envolve a oferenda ou queima dos objectos de maior valor e prestígio. É praticado com o intuito de afirmar estatuto social, celebrar eventos como nascimentos, mortes ou casamentos, e distribuir riquezas e recursos. Marcel Mauss, na basilar obra Essai sur le don: forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques, demonstra que os primordiais sistemas de troca revolvem em torno de conceitos como obrigações, dar, receber e reciprocar.

Se, nos inícios, conseguíramos estabelecer sistemas benévolos e sociedades alicerçadas em modelos alternativos, porque é que hoje nos temos de conformar com a servitude do managerial feudalism, da incerteza e da dívida vitalícia?

Ou, como diz a anedota: Moisés e Jesus estão a jogar golfe, Moisés faz uma bela tacada, enquanto Jesus atira a bola para as árvores, mas olha para os céus e ergue os braços, subitamente o céu escurece, um trovão irrompe, chuva torrencial cai e forma-se um regato entre as árvores, a bola de golfe, flutuando na água, acaba na boca de um peixe que um pássaro caça, e, levando-os para cima do green, larga-os, metendo a bola no buraco com uma única tacada. Moisés vira-se para Jesus e diz: you wanna play golf or you wanna fuck around?

Esta é a lei da ganância.

19.

Numa coincidência peculiar, o aniversário da invasão da Ucrânia é no dia 24 de Fevereiro, coincidindo com o dia de Twin Peaks. Sou um ávido fã de David Lynch, e absolutamente louco por Twin Peaks. Enquanto observo, no Instagram, vídeos de Kyle MacLachlan – o actor que representa o mítico Agent Dale Cooper – durante a sua jornada anual de passar pelo sinal de Twin Peaks exactamente às onze e meia da manhã do dia 24 de Fevereiro, relembro-me, com amargura, do falecimento de David Lynch. Creio que nunca senti tanto a morte de alguém com quem não possuo qualquer tipo de relação; admito, com seriedade, que David Lynch é composto por partes iguais de mito e sonho, pois nunca o conheci nem pretendo fingir que alguma vez o conheci. Nesse sentido, é-me tão tangível como uma vítima da peste, seja da doença real ou do romance de Camus. Contudo, o que pesa nesta morte é não só a obra de David Lynch, mas também a sua qualidade humana.

Num ensaio seminal sobre a televisão – equiparável à obra de Marshall McLuhan e Neil Postman – David Foster Wallace advoga que a televisão nos faz sentir isolados ao demonstrar outras pessoas – fictícias – a divertirem-se e que simultaneamente a televisão é um paliativo a curto prazo para a solidão que ela inflige, pois o espectador convive com os seus “amigos” que estão dentro da televisão. O autor norte-americano apelida a televisão de uma malignant addiction. Noutro ensaio, David Foster Wallace passa algum tempo nas filmagens de David Lynch, tendo o autor admitido nunca ter conhecido o cineasta pessoalmente e que a primeira vez que o viu foi quanto este se encontrava a urinar contra uma árvore, algo que pelos vistos é comum dada a quantidade sobre-humana de cafeína que Lynch consume.

Stella, uma muito querida e próxima amiga norueguesa, diz-me, entre cocktails de mástique, que o que mais aprecia em Lynch é a sua falta de vontade de falar sobre os filmes que realiza. A história está no filme, e não na conversa sobre o filme, dizia Lynch. Bebemos à morte de Lynch, e confesso que o processo estocástico que rege a mundana experiência humana é uma valente porcaria ao ceifar os bons artistas e deixar vivos os abutres das democracias iliberais. Stella retorque que os podcasts noruegueses têm, ultimamente, sido dominados pelo debate se a Noruega deve ou não juntar-se à União Europeia, dilema que surge no âmbito do medo de uma invasão russa. Questiono-a se gosta de ser norueguesa, ao que ela me explica que sim, que o ama, pois a Noruega é uma sociedade organizada em que todos colaboram, todos têm regras e papéis definidos e as coisas funcionam. Solto uma gargalhada céptica e digo-lhe que os dinamarqueses costumavam responder-me o mesmo quando morei em Copenhaga.

“E tu? Gostas de ser Português?”, diz ela.

Eu sou português de papel apenas, só o sou porque tenho Cartão de Cidadão, nunca tive orgulho ou sentido patriótico e a última vez que apreciei algo sobre o meu país nativo ainda acreditava no pai natal.

“Então o que gostarias de ser, caso pudesses ser outra coisa?”.

Sabes, já pensei muito nisso e só recentemente descobri a resposta.

“Qual é?”

Gostava de ser inuíte.

Ela ri-se, com prazer, e de olhos vivos e melosos proclama:

“Ah, Bartleby! Ah, humanity!”[1]

Esta é a lei do fim de ciclo, da morte da identidade e da democracia.

  1. – do conto de Herman Melville – “Bartleby, o Escrivão” ↑

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