Na mesa de café

Diálogo fantasioso entre Narciso Goldmundo, pombo-correio, que abandona a profissão por se ter tornado mero espectáculo com a chegada dos media e redes sociais, e José Wagner. Reflecte sobre a perda de missão, a liberdade e a obsolescência do intermediário humano num mundo de mensagens automáticas.

As mesas estavam todas ocupadas menos uma. Era uma zona turística e estavam a tomar o pequeno almoço.

Da mesa desocupada acercaram-se duas figuras, mais ou menos ao mesmo tempo. O empregado ainda não tinha vindo limpar e sobravam chávenas abandonadas e migalhas espalhadas naquele intervalo de desordem que fica.

– Posso?

– Força.

– Narciso. Narciso Goldmundo.

O outro olhou para ele. Não era costume apresentarem-se. Olhou para o seu porte, mas o que mais lhe saltou à vista foi o anel.

– José. Zé, habitualmente. Às vezes Wagner.

Narciso sorriu, ligeiramente, percebendo a ironia. O outro devolveu-lhe o sorriso. Ficaram um pouco calados, olhando para um lado e outro sem mais para dizer.

– De férias? – perguntou José, continuando a ironia.

– Acho que não – respondeu o outro a sério. – Estou mesmo em mudança.

– Esse anel não engana. Você tem a escola toda não é?

– Já o tentei tirar mas está apertado. E trai-me sempre.

– Não é só o anel ‘homem’. É tudo: a maneira de ser, o modo de falar. Percebe-se logo que tem a mania que sabe mais que os outros. E, porventura, até sabe.

– Mas não é minha intenção. Foram muitos anos! Ainda não me desabituei de determinados tiques da profissão.

– Mas não está mesmo só de férias!? – voltou o José quase a rir. – Não me diga que vai deixar essa boa vida. Segurança, comida na mesa todos os dias, prestígio, ser-se reconhecido por todos. É como desistir de ser uma figura pública!

– Você é um brincalhão! Já percebi. A vista de fora da ‘gaiola’ pode ser essa, mas, para quem lá está dentro todos os dias, a sensação é outra. E olhe, a nossa profissão já foi importante sim. Nós éramos verdadeiros mensageiros. Éramos úteis! As nossas mensagens eram lidas e ouvidas. Viajávamos milhares de quilómetros para apresentar mensagens a outros, para fazer propostas que tinham impacto. Em alguns casos, as nossas mensagens terão mesmo mudado o rumo do mundo. A nossa sede já foi um lugar onde as mensagens ainda importavam: uma instituição de conhecimento!

– Pois, acredito! E então como deixar isso tudo!?

– Já não é a mesma coisa há algum tempo. Primeiro foram as telecomunicações e, claro, talvez mais que tudo a Rádio e a Televisão. Todas as mensagens passaram a ser quase automáticas. E em tempo real. E, depois veio a internet e as redes sociais! Todos se tornaram comentadores. Cada um escolhe as mensagens em que acredita. O mensageiro tornou-se dispensável.

– Percebo! Mas ainda deve haver mensagens especificas que vocês conseguem passar não!? Interpretações específicas, mais profundas? Segredos mesmo que só vocês podem passar? Afinal vocês são especialistas! Pensei que continuassem a ter importância. Vejo-vos na mesma, com o mesmo porte, a fazer o mesmo…

– Caro José Wagner é só espectáculo! Está a ver estes turistas que vêm aqui. São atraídos pelo espectáculo da cidade, do património, das praias, da gastronomia e, acima de tudo, da publicidade que nos leva a consumir. E que até faz com que estejamos aqui os dois. Na minha profissão é o mesmo: tudo passou a ser um mero espectáculo. Continuamos a treinarmo-nos diariamente, continuamos a representar o papel de mensageiros e até a viajar, como era usual, para apresentar mensagens no outro lado do mundo. Mas nada disso é já real. É só mero espectáculo. E alguns de nós temos plena consciência disso. Por isso decidi partir de vez.

– Nunca tinha pensado nisso dessa maneira. Sempre olhei para vocês como privilegiados.

– A liberdade é a consciência em relação às nossas acções. Quando percebi que as minhas acções já não obedeciam a uma missão mas apenas à memória de uma missão… senti-me apenas engaiolado.

– A liberdade não é um tema ao qual me tenha dedicado. Penso mais em comer e beber! – disse Wagner mais uma vez com um toque de ironia trocista.

– Ninguém pensa muito sobre o que tem à disposição – Retorquiu Goldmundo com um toque de sarcasmo que também sabia muito bem usar.

– Touché – disse Wagner a rir. Depois mais sério: – De vez em quando também imagino como seria viver uma vida completamente diferente. Depois passa-me. Ou convenço-me de que passa.

Uma família de turistas, aproximava-se agora da mesa. – Olha, disse a jovem para os pais: é um pombo correio! Tem a anilha. – É. Deve-se ter perdido do pombal – disse a mãe da jovem.

Narciso trocou um último olhar com Wagner e abriu as asas. Não para regressar a um pombal. Apenas porque havia céu.

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