Aspectos sociais em contos de Eça de Queiroz

Com uma notável obra elaborada ao longo da segunda metade do século XIX, Eça de Queiroz consagrou-se como um dos escritores que caracterizaram a época e, consequentemente, o rumo da literatura portuguesa. Aqui discutimos os trâmites das diversas camadas sociais abordados pelo autor através da análise de alguns contos da sua autoria.

Imagem: Men of Progress (Homens do Progresso), de Christian Schussele (1862)

A Ciência e a Natureza

O Portugal do século XIX é caracterizado por diversas mudanças técnicas e sociais resultantes dos progressos técnicos e científicos, bem como da maior credibilidade atribuída aos estudos científicos. No conto “Civilização” (que conduziria, mais tarde, à edificação de A Cidade e as Serras), a residência de Jacinto possui um compêndio de livros e aparelhos tecnológicos:

“[…] os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios […]”[1].

“O que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento – a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios.”[2]

Deliciado pela inovação que lhe é contemporânea, esse aspecto é alterado aquando do episódio do mau funcionamento do fonógrafo, que repete ininterruptamente, como se de um mantra se tratasse: “Quem não admirará os progressos deste século?”[3] Os presentes são assombrados pelo barulho incessante de uma máquina incontrolável e, acima de tudo, indomável: “Logo da antecâmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «admirará … progressos … século! … »[4] Só de tarde um electricista pôde emudecer aquele fonógrafo horrendo.”[5]

O principal eixo narrativo consiste na viagem de Jacinto, acompanhado pelo narrador, à cidade serrana de Torges. Fazendo-se acompanhar de uma bagagem que espelha a condição aristocrática da qual usufrui, a perda das suas malas traça a mudança da experiência da personagem, que se vê coagida a experienciar na íntegra a vida rural. A jornada por Torges metamorfoseia-se, deste modo, transcendendo o plano geográfico e adentrando no campo gnosiológico e ideológico; Jacinto torna-se alheio aos encantos do furor urbano em dinamização no século em análise ao contactar com o meio natural já enaltecido pelos artistas românticos, contemplando a própria condição humana:

“O homem nas capitais pertence à sua casa, ou, se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante Natureza – os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida urbana … Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges!”[6]

No plano da perquirição de Jacinto, é possível inferir o papel da Natureza como elo de ligação do Homem a si mesmo, sendo, deste modo, alvo de primazia face ao urbano e artificial. No entanto, o elogio feito à Natureza não resulta de quaisquer tipos de hostilidade para com a Ciência, mas da perda do encanto do autor em relação à agitação social e intelectual do positivismo.

Eça de Queiroz incorre, assim, num elogio da ruralidade à semelhança de outros autores oitocentistas (como é exemplo a figura de António Feliciano de Castilho).

A crítica política e social

Sendo o século XIX o teatro de diversas alterações – e muitas delas previamente inconcebíveis –, Eça de Queiroz tece várias considerações acerca da dicotomia progresso/estagnação, justapondo-as numa análise à sociedade e ao zeitgeist em vigor. Observemos esta passagem presente em “O Milhafre”:

“E depois, meus caros amigos, eu acho admirável a sociedade moderna, a sua política perfeita, a sua indústria magnífica, a sua agiotagem providencial, o seu luxo simpático, a sua retórica florida, a sua arte económica, os seus sonhos de oiro, mas persisto em invejar aqueles que como o antigo Daniel podem contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra.”[7]

O âmbito destas reflexões é posto em evidência na discussão da justiça, pelo que se torna imperativo salientar os eixos temáticos do conto “Memórias de Uma Forca”, que pretende arquitectar uma crítica à pena de morte, abolida no século em análise. No conto, humanizar a forca é o recurso invocado para enfatizar a desumanização presente no acto de enforcar: “O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre cheias de cadeias, de cordas e de pregos, tinham vindo aos carvalhos austeros buscar um cúmplice!”[8] A narração na primeira pessoa, atribuindo uma natureza personificada à figura da forca, é instrumentalizada de modo a salientar a inadequação deste método no âmbito judicial: “Oh! meu Deus, soluçava eu ainda, eu não quero ser relíquia de tortura: eu alimentava, não quero aniquilar: era a amiga do semeador, não quero ser a aliada do coveiro! Eu não posso e não sei ser a justiça.”[9]

A crítica realizada em “Memórias de Uma Forca” afirma, portanto, a inviolabilidade da vida humana, o que é também constatado na Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822: “Toda a pena deve ser proporcionada ao delicto; e nenhuma passará da pessoa do delinquente. Fica abolida a tortura, a confiscação de bens, a infamia, os açoites, o baraço e pregão, a marca de ferro quente, e todas as mais penas crueis ou infamantes.”[10]

Concomitantemente ao crescente espírito de tolerância e à fecundidade de ideias cada vez mais progressivas, a forca testemunha, todavia, – e uma vez que é a principal interveniente – a execução de um pensador: “Enforquei um homem – um pensador, político, filho do bem e do verdadeiro, alma formosa cheia das formas do ideal, combatente da luz. Foi vencido: foi enforcado.”[11]

A condição da literatura e o ofício do poeta

Apesar do precedente aberto por Camilo Castelo Branco, o ofício de escritor, tanto monetariamente quanto face à percepção social da sua criação, é ainda reprovado e alvo de diversos entraves quanto à sua dinamização. Tais dificuldades – que se tornam gritantes ao serem aprofundadas aquando da discussão do ofício do poeta lírico – não são ignoradas na escrita de Eça de Queiroz, o que pode ser observado na reflexão com a qual principia o conto “O Milhafre”:

“Seria mesmo talvez melhor a profissão de poeta lírico, se não fosse uma profissão perigosa. Ainda há pouco, um pediu em casamento não sei que doce açucena, moradora na Baixa; o pai dela interrompeu a história dos idílios sacrossantos e municipais para perguntar ao namorado gentil qual era a sua profissão. «Sou poeta lírico, respondeu ele, e vivo do meu estado.» O velho ergueu-se de golpe, tomou uma bengala e espancou o poeta lírico, laureado em três cançonetas exóticas.”[12]

No mesmo conto, é também elaborado um comentário acerca do estado das produções literárias nacionais: “Meus amigos. A literatura em Portugal está a agonizar: burguêsmente e insipidamente: nem ao menos tem os efeitos de luz extravagantes de todos os ocasos celestes.”[13] A ideia de um domínio social e ideologicamente burguês traduz uma crítica à estagnação cultural e literária. Mais do que uma inércia do panorama literário, o autor adverte para uma recessão do pensamento filosófico: “Faço deste canto de boa vontade o lugar de espectáculo para assistir às últimas agonias do pensamento em Portugal.”[14]

O Questionamento Religioso

A abordagem queiroziana às questões religiosas foi possibilitada pela génese da separação entre o Estado e a Igreja. Deste modo, Eça de Queiroz debruça-se sobre o mecanismo narrativo bíblico, contaminando-o com a racionalidade do pensamento oitocentista e desmantelando parte da atmosfera intocável que rodeava a Igreja Católica Apostólica Romana.

Na minha concepção analítica, o apogeu da indagação acerca das histórias bíblicas expressa-se ao longo do conto “Adão e Eva no Paraíso”, que é trespassado por um tom irónico e diametralmente oposto à reverência utilizada por antepassados face aos episódios do Livro de Génesis abordados no conto. O texto inicia-se com uma aproximação banalizada da criação de Adão: “Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde…”[15]

Títulos como “Pais Veneráveis”/”Os Nossos Pais Veneráveis” acompanham todas as menções de Adão e Eva de modo a satirizar a sacralização exacerbada destas duas figuras. Para evidenciar a natureza indubitavelmente humana das personagens (o que constitui uma ruptura com as suas características enquanto elementos da narrativa bíblica), Eça de Queiroz atribui-lhes propriedades imperfeitas – das quais são exemplo a violência, a pulsão para a opressão e o pecado da gula – ainda antes do fatídico acto da ingestão do Fruto Proibido:

“A Bíblia, com a sua exageração oriental, cândida e simplista, conta que Adão, logo na sua entrada pelo Éden, distribuiu nomes a todos os animais, e a todas as plantas, muito definitivamente, muito eruditamente, como se compusesse o Léxicon da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Lineu, já com os seus óculos. Não! Eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente augustos, porque todos eles se plantavam na sua consciência nascente como as toscas raízes dessa palavra pela qual verdadeiramente se humanou, e foi depois, sobre a Terra, tão sublime e tão burlesco.”[16]

“A sua crassa gula, entre aquela abundância do rio, também apetece uma presa: e atira a garra, colhe, no seu voo soante, cascudos insectos que farisca e trinca.”[17]

“Era toda a animalidade do Paraíso, que, sabendo o primeiro homem adormecido, sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de o destruir, e eliminar da Terra a força inteligente, destinada a submeter a força bruta.”[18]

Outro eixo narrativo refutado no conto é o espaço; o Jardim do Éden perde a sua descrição paradisíaca e idílica para ser explorado enquanto antro de tristeza, solidão e melancolia, uma vez que este local tornar-se-ia a Terra conspurcada pelos mais nefastos seres e as suas respectivas acções:

“Liberto da animalidade, em caminho para a sua humanização, o arvoredo que lhe fora abrigo natural e doce só lhe pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. E esses ramos tortuosos, empecendo a sua marcha, não seriam braços fortes que se estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos?[19]

“Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a imensa brasa do Sol candente coriscava furiosamente num céu cor de cobre, em que o ar baço e grosso crepitava e arfava.”[20]

Impulsionados pelo pensamento positivista e a respectiva crença na Razão, Adão e Eva são assoberbados pela tentação da Razão, sendo esta descrita como algo inerente ao Homem e à condição humana: “Mas, de cada um desses tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais humano, mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da racionalidade, nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral […]”[21] Eça de Queiroz acerca-se deste tópico como se de algo perigoso se tratasse, o que é justificado pelos séculos de perseguição a que foram sujeitos diversos pensadores (por vezes culminando em execuções como em “Memórias de Uma Forca”), sendo estas levadas a cabo maioritariamente pela Igreja Católica Apostólica Romana. É de salientar que o Tribunal do Santo Ofício permanece em funcionamento até ao século em análise, sendo extinto em 1821 por intermédio da reunião de Cortes Constituintes na elaboração da Constituição de 1822.

A Razão é ainda utilizada numa demonstração dicotómica face à irracionalidade do sagrado, concluindo o conto com a sua ideia basilar: à semelhança da conjugação (apesar do conflito) entre a Ciência e a Natureza em “Civilização”, a Razão e a Crença, nas considerações do autor, podem coexistir de modo a guarnecer as capacidades intelectuais do indivíduo. É com essa ideia que Eça de Queiroz conclui “Adão e Eva no Paraíso”: “Sobretudo continuemos a usar, insaciàvelmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons, o mais puro, o único genuìnamente grande, o dom de O amar – pois que não nos concedeu também o dom de O compreender.”[22]

Após submeter alguns contos de Eça de Queiroz a esta leitura, é possível destacar o papel do escritor na preservação de registos da sociedade oitocentista portuguesa na história da literatura nacional. A importância da produção textual queiroziana é reforçada pela inclusão de diversas camadas sociais e de eventos cruciais na definição do período, enriquecendo o conjunto de registos e evidenciando as mudanças sociais trazidas pela implementação do regime liberal em Portugal.

Bibliografia e Notas

  • Constituição Politica da Monarchia Portugueza. Imprensa Nacional, 1822.
  • Jardim, Cila Maria. A Função Do Melodrama Em Alguns Contos Queirozianos. Tese de Doutoramento. Universidade Estadual Paulista, 2008.
  • Queiroz, Eça de. O Suave Milagre e Outras Páginas. Biblioteca Universal, 1973.
  1. Queiroz, Eça de. O Suave Milagre e Outras Páginas. Biblioteca Universal, 1973, p.27.
  2. Idem, ibidem.
  3. Idem, ibidem.
  4. O tratamento gráfico da edição utilizada mobiliza o espaço entre reticências, mesmo não sendo usual entre publicações mais recentes.
  5. Idem, ibidem, p.28.
  6. Idem, ibidem, p.41.
  7. Idem, ibidem, p.101.
  8. Idem, ibidem, p.119.
  9. Idem, ibidem, p.121.
  10. Constituição Politica da Monarchia Portugueza, Artigo 11. Imprensa Nacional, 1822, p. 14.
  11. Queiroz, Eça de. O Suave Milagre e Outras Páginas. Biblioteca Universal, 1973, p.121.
  12. Idem, ibidem, p.48.
  13. Idem, ibidem, p.101.
  14. Idem, ibidem, p.101.
  15. Idem, ibidem, p.65.
  16. Idem, ibidem, p.71.
  17. Idem, ibidem, p.73.
  18. Idem, ibidem, p.79.
  19. Idem, ibidem, p.68.
  20. Idem, ibidem, p.81.
  21. Idem, ibidem, p. 68.
  22. Idem, ibidem, p. 96.

Partilhar Artigo:

Mais Artigos

O Calendário como Testemunha — Reconstrução de uma Legitimação Setecentista

Ensaio metodológico sobre um caso de 1781 em que uma criança nascida fora do casamento se tornou legítima porque os pais se casaram depois (legitimação por subsequente matrimónio). Através do cruzamento de datas em registos paroquiais, discute-se a prova indireta, o acaso na investigação e a posição do investigador-descendente.

O Labor Intelectual e a Transcendência

Sobre a transcendência na cultura ocidental (filosofia grega, ius romanum, revelação cristã) comum a Portugal e Brasil. Destaca-se a universidade medieval, dignidade do labor intelectual hierárquico vs. materialismo igualitário, e o papel das ideias na sociedade e no bem comum.

The Heresies of Mr Nolan

On how Christopher Nolan is not a true artist in the grand sense of the term: his concept-driven films lack emotional-spiritual fusion, poetic unity and depth. Desaturated, materialistic, his work fail to confront death or the soul, unlike real artists like Tarkovsky, Kubrick, Eliot, etc. Popular but overhyped.

Porque Existem Exactamente Dois Sexos

Onde se sustenta que em todas as espécies anisogâmicas existem apenas dois sexos, definidos pelo tipo de gâmeta produzido. Analisam-se e refutam-se os principais argumentos contrários, defendendo uma definição de sexo assente na função reprodutiva e na biologia evolutiva.