Desvio em Relação ao Objectivo Sexual

Freud lembra-nos como a aproximação das mucosas dos lábios em forma de beijo está tão distante do objectivo sexual normal da cópula como o uso de outras partes do corpo, concluindo-se que todas as perversões são relativas; excertos de Três Ensaios para a Teoria da Sexualidade, 1914.

Excerto de Três Ensaios para a Teoria da Sexualidade, segunda edição, Nova Iorque, 1920, tradução de A.A. Brill e adaptação nossa.

A união dos órgãos genitais no acto característico da copulação é tomada como o objectivo sexual normal. Serve para afrouxar a tensão sexual e temporariamente saciar o desejo sexual (gratificação análoga à satisfação da fome). Todavia, mesmo no processo sexual mais normal, distinguem-se aqueles acréscimos cujo desenvolvimento conduz às aberrações descritas como perversões. Assim, certas relações intermédias com o objecto sexual ligadas à copulação, tais como o tocar e o olhar, são reconhecidas como preliminares do objectivo sexual. Estas actividades, por um lado, estão ligadas ao prazer e, por outro, aumentam a excitação que persiste até se atingir o objectivo sexual definitivo. Uma certa espécie de contiguidade, consistente na aproximação mútua das mucosas dos lábios sob a forma de beijo, recebeu entre as nações mais civilizadas um valor sexual, embora as partes do corpo em causa não pertençam ao aparelho sexual, mas constituam a entrada do tracto digestivo. Isto fornece, portanto, os factores que nos permitem relacionar as perversões com a vida sexual normal e que servem também para a sua classificação. As perversões são ou (a) transgressões anatómicas das regiões do corpo destinadas à união sexual, ou (b) uma demora nas relações intermédias com o objecto sexual que normalmente deveriam ser rapidamente ultrapassadas no caminho para o objectivo sexual definitivo.

(a) Transgressão Anatómica

Superestimação do Objecto Sexual. — A estimação psíquica em que o objecto sexual participa como meta do impulso sexual limita-se apenas nos casos mais raros aos órgãos genitais; em geral abrange todo o corpo e tende a incluir todas as sensações provenientes do objecto sexual. A mesma superestimação estende-se à esfera psíquica e manifesta-se como um ofuscamento lógico (diminuição do juízo) perante os dotes e perfeições psíquicas do objecto sexual, bem como uma obediência cega aos juízos emitidos por este último. A plena fé do amor torna-se assim uma importante, se não a primordial, fonte de autoridade.

É esta supervalorização sexual, que tão mal se concilia com a restrição do objectivo sexual à simples união dos órgãos genitais, que permite a outras partes do corpo participarem como objectivos sexuais. No desenvolvimento desta mais variada superestimação anatómica manifesta-se um desejo inconfundível de variação, coisa que Hoche designou por “fome de excitação” (Reiz-hunger).

Utilização Sexual da Mucosa dos Lábios e da Boca. — A importância do factor da superestimação sexual pode ser melhor estudada no homem, em quem unicamente a vida sexual se torna acessível à investigação, ao passo que na mulher permanece velada numa escuridão impenetrável, em parte por causa do atrofiamento cultural e em parte devido à reserva e desonestidade convencionais das mulheres.

O emprego da boca como órgão sexual é considerado uma perversão se os lábios (língua) de um entram em contacto com os órgãos genitais do outro, mas não quando a mucosa dos lábios de ambos se tocam. Nesta última excepção encontramos a ligação com o normal. Aquele que abomina as primeiras como perversões, embora estas sejam desde a antiguidade práticas comuns na humanidade, cede a um distinto sentimento de repugnância que o protege de adoptar tais objectivos sexuais. O limite de tal repugnância é frequentemente puramente convencional; aquele que beija fervorosamente os lábios de uma rapariga bonita talvez só consiga usar a escova de dentes dela com um sentimento de repugnância, embora não haja razão para supor que a sua própria cavidade oral, pela qual não sente repugnância, esteja mais limpa do que a da rapariga. Aqui chama-se a nossa atenção para o factor da repugnância que se opõe à supervalorização libidinosa do objectivo sexual, mas que por sua vez pode ser vencida pela libido. Na repugnância podemos observar uma das forças que provocaram as restrições do objectivo sexual. Em regra, estas forças param nos órgãos genitais; não há, porém, dúvida de que mesmo os órgãos genitais do outro sexo podem ser objecto de repugnância. Tal comportamento é característico de todos os histéricos, especialmente das mulheres. A força do impulso sexual prefere ocupar-se em vencer esta repugnância (ver adiante).

Utilização Sexual do Orifício Anal. — É ainda mais evidente do que no caso anterior que é a repugnância que estigmatiza como perversão o uso do ânus como objectivo sexual. Mas não deve ser interpretado como defesa de uma causa quando observo que o fundamento desta repugnância — nomeadamente, o facto de esta parte do corpo servir para a excreção e entrar em contacto com os excrementos repugnantes — não é mais plausível do que o fundamento que as raparigas histéricas têm para o nojo que sentem pelo órgão genital masculino por servir para a micção.

O papel sexual da mucosa do ânus não se limita de modo algum ao coito entre homens; a sua preferência não tem nada de característico do sentimento invertido. Pelo contrário, parece que a pedicação do homem deve o seu papel à analogia com o acto na mulher, ao passo que entre os invertidos é a masturbação mútua o objectivo sexual mais comum.

Significado de Outras Partes do Corpo. — A infracção sexual sobre as outras partes do corpo, em todas as suas variações, não oferece nada de novo; nada acrescenta ao nosso conhecimento do impulso sexual que aqui apenas anuncia a sua intenção de dominar o objecto sexual de todas as formas. Além da superestimação sexual, pode mencionar-se um segundo factor geralmente desconhecido entre as transgressões anatómicas. Certas partes do corpo, como a mucosa da boca e do ânus, que aparecem repetidamente nestas práticas, reivindicam, por assim dizer, ser consideradas e tratadas como órgãos genitais. Ouviremos como esta pretensão se justifica pelo desenvolvimento do impulso sexual e como se cumpre na sintomatologia de certas condições mórbidas.

Substitutos Impróprios do Objecto Sexual. Feticismo. — Causam-nos especial impressão aqueles casos em que, em lugar do objecto sexual normal, se substitui outro que lhe está relacionado, mas que é totalmente impróprio para o objectivo sexual normal. De acordo com o esquema da introdução, teríamos feito melhor em mencionar este interessantíssimo grupo de aberrações do impulso sexual entre os desvios em relação ao objecto sexual, mas adiamos a sua menção até conhecermos o factor da superestimação sexual, do qual dependem estas manifestações ligadas à renúncia ao objectivo sexual.

O substituto do objecto sexual é geralmente uma parte do corpo pouco adaptada para fins sexuais, como o pé, o cabelo, ou um objecto inanimado que tem uma relação demonstrável com a pessoa sexual e preferencialmente com a sexualidade da mesma (fragmentos de roupa, roupa interior branca). Esta substituição não é injustamente comparada com o fetiche em que o selvagem vê a encarnação do seu deus.

A transição para os casos de feticismo, com renúncia a um objectivo sexual normal ou pervertido, é formada por casos em que se exige uma determinação fetichista no objecto sexual para que o objectivo sexual seja atingido (determinada cor de cabelo, roupa, mesmo defeitos físicos). Nenhuma outra variação do impulso sexual que raiar o patológico reclama tanto o nosso interesse como esta, devido à peculiaridade ocasionada pelas suas manifestações. Em todos estes casos pode pressupor-se uma certa diminuição no esforço pelo objectivo sexual normal (fraqueza executiva do aparelho sexual). A ligação com o normal é ocasionada pela psicologicamente necessária superestimação do objecto sexual, que inevitavelmente invade tudo o que lhe está associativamente relacionado (objecto sexual). Um certo grau de tal feticismo pertence, portanto, regularmente ao normal, especialmente durante as fases de cortejo em que o objectivo sexual normal parece inacessível ou a sua realização adiada.

«Traz-me um lenço do seu seio — uma liga do meu amor.»
— FAUSTO.

O caso torna-se patológico apenas quando o esforço pelo fetiche se fixa para além de tais determinações e toma o lugar do objectivo sexual normal; ou ainda quando o fetiche se desprende da pessoa em causa e se torna ele próprio objecto sexual. Estas são as determinações gerais para a transição de meras variações do impulso sexual em aberrações patológicas.

A influência persistente de uma impressão sexual recebida na maior parte das vezes na primeira infância manifesta-se frequentemente na escolha de um fetiche, como Binet primeiro afirmou e como foi mais tarde provado por muitos exemplos — coisa que pode ser colocada em paralelo com o proverbial apego ao primeiro amor no normal («On revient toujours à ses premiers amours»). Tal ligação vê-se especialmente nos casos com apenas determinações fetichistas do objecto sexual. A importância das impressões sexuais precoces voltar-se-á a encontrar noutros lugares.

Noutros casos foi sobretudo uma associação de pensamento simbólica, inconsciente para a pessoa em causa, que conduziu à substituição do objecto por meio de um fetiche. Os caminhos destas conexões nem sempre podem ser demonstrados com certeza. O pé é um símbolo sexual muito primitivo já encontrado nos mitos. A pele (pelagem) é usada como fetiche provavelmente devido à sua associação com a pilosidade do mons veneris. Tal simbolismo parece depender muitas vezes de experiências sexuais da infância.

Sigmund Freud
Sigmund Freud
Sigmund Freud foi um médico neurologista austríaco e o célebre fundador da psicanálise, amplamente reconhecido como uma das figuras mais influentes e controversas do século XX. Nascido em 1856 na atual República Checa e falecido em 1939 em Londres, Freud revolucionou a forma como a humanidade compreende a mente, o comportamento e a sexualidade ao mapear o território do inconsciente.

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