Sobre Abraçar Jacarandás

Durante milhares de anos, o homem aproximava-se de uma árvore para sacar dela madeira, sombra, fruto, abrigo ou, em caso de extrema necessidade, um sítio onde enforcar alguém. O lisboeta contemporâneo aproxima-se para lhe transmitir afetos. É progresso, dizem. Não é. Eu diria antes que é o estágio terminal do conforto.

Fui recuperar este vídeo de várias criaturas adultas em Lisboa a acariciar jacarandás. Umas de forma mais amistosa, outras, já no campo da sexualidade.

E fui porque é nestes momentos que uma civilização inteira cabe, ali, em poucos segundos de vídeo.

Camaradas, durante milhares de anos, o homem aproximava-se de uma árvore para sacar dela madeira, sombra, fruto, abrigo ou, em caso de extrema necessidade, ainda que mais frequente do que se possa pensar, um sítio onde enforcar alguém. O lisboeta contemporâneo, esse, aproxima-se para lhe transmitir afetos.

É progresso, dizem. Não é. Eu diria antes que é o estágio terminal do conforto.

Quando uma sociedade passa tempo suficiente sem ser obrigada a lutar por coisa nenhuma, começa inevitavelmente a inventar pequenas tragédias que lhe permitam continuar a sentir-se moralmente viva. Primeiro comove-se com os animais. Depois com as plantas. Em breve é expectável termos vigílias pelo sofrimento emocional do mobiliário urbano.

E é aqui, curiosamente, que eu encontro mais um argumento a favor das fronteiras. Não por hostilidade a outros povos. Por piedade para connosco.

Um povo que já chegou à fase de fazer festinhas a jacarandás não está psicologicamente preparado para descobrir que grande parte do planeta continua a funcionar segundo critérios ligeiramente anteriores ao surgimento da terapia ocupacional.

Fomos amaciando a sociedade, retirámos as arestas, arredondámos as palavras, pusemos proteções nas tomadas da linguagem corrente e começámos a olhar com desconfiança para tudo o que está fora desta harmonia maricas. A autoridade tornou-se uma grosseria administrativa. A polícia, uma presença emocionalmente perturbadora. O “não”, essa pequena palavra indispensável à educação de crianças, cães e civilizações, foi sendo discretamente retirado do vocabulário das pessoas decentes. Restou-nos uma sociedade de portas abertas, sempre muito vigilante quanto à possibilidade de alguém se sentir desconfortável, mas curiosamente distraída quanto à possibilidade de, um dia, já ninguém saber muito bem quem estabelece as regras dentro de casa.

Foi talvez assim que chegámos aqui, ao jacarandá.

Não há nisto propriamente culpa da árvore. O prodígio está no adulto que se aproxima dela como quem vai comungar ao domingo de manhã. Pousa-lhe a mão no tronco, fecha ligeiramente os olhos e ali permanece, em comunhão vegetal, enquanto a cidade à volta continua, por milagre, a ter eletricidade, água canalizada, tribunais, ambulâncias, supermercados cheios e homens pouco espirituais a reparar esgotos.

Não é milagre. E é esta distância entre a delicadeza das nossas emoções e a brutalidade das coisas que as tornam possíveis que me diverte imenso, confesso.

Criámos gente extraordinariamente treinada para detetar violência numa palavra, opressão numa regra e trauma numa contrariedade, mas que olha para as estruturas duras que sustentam uma sociedade, a autoridade, fronteiras, deveres, polícia, integração, como antigas peças de maquinaria industrial que deveriam estar no museu. Tudo lhes parece excessivo, desde que funcione. Só descobrem para o que servia quando deixarem de funcionar.

Por isso talvez a fronteira, afinal, não deva ser vista como uma muralha erguida contra o mundo. Pode ser coisa bastante mais terna tipo a pequena vedação à volta de um jardim botânico. Construímos um ecossistema delicadíssimo. Uma civilização de criaturas de pele fina, princípios muito largos e sistema nervoso sensível.

Os romanos protegiam Roma porque acreditavam que dentro das muralhas havia uma civilização.

Nós talvez tenhamos de proteger a nossa porque dentro delas há pessoas adultas a acariciar um jacarandá.

E, francamente, alguém tem de proteger esta gente. Se os muros não são os do Júlio de Matos, então, as fronteiras terão de servir.

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