“The sense of smell” de Jan Brueghel and Rubens

No primeiro dia houve luz.
E, com ela nasceu também a possibilidade de espanto.
Deu Deus forma ao caos, separou mares, ergueu montanhas, acendeu os astros e encheu de vida toda a Terra.
Mas só ao criar o Homem surgiu algo de verdadeiramente novo, um olhar capaz de contemplar toda a beleza da Sua obra.
Deus exulta, e finalmente descansa.

Talvez tenha sido aí que nasceu a arte, não no instante da criação, mas no primeiro momento em que é contemplada.
Quando o belo deixou apenas de existir e passou também a ser visto, sentido.

Desde então que o Homem tenta replicar este milagre à sua escala, capturando o invisível, traduzindo as emoções e procurando representar a realidade à medida com a qual a compreende.
Das pinturas rupestres às canções de amor, faz-se arte com tinta, com pedra, com o próprio corpo,com palavras cantadas, com palavras escritas, e alguns tipos de arte caminham lado a lado na mesma procura pelo divino.

Hoje vou falar-lhe sobre o que gosto de chamar “Poesia olfativa”.

Como o poema adorna o pensamento, o perfume adorna o espaço.

E a perfumaria é criada pelos Egípcios, que começam a queimar resinas e óleos aromáticos, mirra e kyphi nos seus rituais, procurando, sempre acompanhados de hinos e recitais, enebriar-se entre ritmos e aromas num estado meditativo que os aproximasse do divino.

Encontramos este fenómeno esotérico nos primeiros momentos ora da poesia, associada aos ritos e à palavra cantada ora do perfume extraído das matérias primas disponíveis usado com o intuito de elevar o ambiente aos campos celestiais invisíveis.

E é com esta ponte que se desenvolvem ambas as artes, tanto nos seus propósitos como nas suas partes.
O poema, como o perfume, deve acima de tudo fazer-nos sentir, deve remeter-nos para um qualquer momento, lugar ou memória.
A sua estrutura, a conjunção das palavras e as rimas, muito se assemelha à construção por notas.
Nas notas de topo, geralmente o frescor que nos activa os sentidos, bergamota, lima, lavanda…assim como um primeiro verso que nos desperta o interesse.
Nas notas de corpo, uma dança entre ingredientes diferentes, das frutas às notas sintéticas de chocolate, a baunilha, as flores, são estes os versos que conferem personalidade ao poema, que o destinguem dos outros, que o tornam marcante.
E por fim as notas de fundo, geralmente as madeiras, os incensos, o âmbar, é o que permanece na pele por longas horas após aplicado o perfume, e que de pele para pele, de ph para ph se traduz num aroma único a cada um, como os tercetos de um soneto que condensam em si todas as quadras, uma interpretação que guardamos íntimamente, por vezes para sempre, e que é nossa somente.

Ler um poema é realmente como borrifar um perfume, quando tomamos o tempo para explorar este paralelo. Os perfumes são desenhados, nesta dança de notas, para assim como a dança de palavras propõe, remeter-nos a coisas que não se explicam, mas que são comuns ao Homem.
Sabemos o que é o “cheiro de casa” que não cheira a nada em particular mas se o sentirmos é a nossa casa que voltamos.
Sabemos a que sabe a traição de Duncan em “MacBeth”, porque não sendo nem um nem outro personagem, ao lermos as palavras saem da nossa memória “arquivos” quase palpáveis de momentos que vivemos.
No fundo, ambas as artes trabalham com a nossa imagética mais íntima, com as nossas interpretações próprias, com o conteúdo da alma, quando fechamos os olhos para ouvir o fado, para cheirar uma flor, e mesmo assim sentimos algo que pode não ser um fado nem uma flor.
Pode muito bem ser um qualquer dia em que passeámos por um jardim, em que ouvimos a rádio, em que as palavras e as flores nos disseram qualquer coisa.
E como os ritos dos Egípcios, se assim o quisermos, ainda de olhos fechados podemos vislumbrar o belo e o divino, criado com a Luz, com a forma, com o Homem – capaz de apreciar tudo isto.

Rudolf Ernst “The Perfume Makers”

Poderia acrescentar que, não caminhassem estas artes de mãos entrelaçadas, não teríamos em tantos poemas o uso da descrição da natureza, do fumo, da chuva, do mar, e a própria mênção do perfume como modo de vivificar os símbolos e as imagens transmitidas.

Antero de Quental, na sua obra, faz muitas vezes esta ligação, usando o perfume para transmitir a sensualidade, o amor, a devoção espiritual e a saudade.

“Há-de ecoar, e teu perfume extremo
No vácuo eterno se esvairá disperso…”
-de Espiritualismo

“O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente…”
-de Sonho Oriental

“Perfumei-o de almiscar recendente;
[…]
Ungi as mãos e a face com o nardo”
-de Visita

E talvez seja precisamente por isso que continuamos a escrever poemas e a criar perfumes: porque há experiências humanas que recusam permanecer apenas no pensamento. Precisam de corpo, de forma, de presença.
Tal como o perfume deixa um rasto invisível que permanece mesmo depois da ausência, também a poesia continua a ecoar muito para além do último verso. Nenhum se limitando a existir, ambos exigem ser sentidos. E é nesse território íntimo, entre a memória e a sensação, entre o visível e o invisível, que estas artes se encontram.
Diria que a poesia olfativa seja isto: a tentativa profundamente humana de transformar o efémero em eternidade. De fixar emoções que não cabem na linguagem comum. De criar, ainda que por instantes, uma ponte entre o sensível e o divino.
Porque desde o primeiro dia, quando houve luz e alguém capaz de a contemplar, a arte nunca deixou de ser isso mesmo: uma forma de o Homem responder à beleza da criação.