Sobre a Tendência das Espécies para Formarem Variedades; e sobre a Perpetuação das Variedades e das Espécies por Meios Naturais de Selecção. Por Charles Darwin, Esq., F.R.S., F.L.S. e F.G.S., e Alfred Wallace, Esq. Comunicado por Sir Charles Lyell, F.R.S., F.L.S., e J. D. Hooker, Esq., M.D., V.P.R.S., F.L.S., etc.
[Lido em 1 de Julho de 1858.]
Londres, 30 de Junho de 1858.
Meu caro Senhor,
Os trabalhos que temos a honra de comunicar à Sociedade Lineana, e que acompanham esta carta, versam todos sobre o mesmo assunto, a saber: as leis que influem na produção de variedades, raças e espécies, e contêm os resultados das investigações de dois incansáveis naturalistas, o Sr. Charles Darwin e o Sr. Alfred Wallace.
Estes cavalheiros, tendo concebido, de forma independente e sem conhecimento um do outro, a mesma teoria, de notável engenho, destinada a explicar o aparecimento e a perpetuação das variedades e das formas específicas no nosso planeta, podem ambos justamente reclamar o mérito de pensadores originaes neste importante ramo da investigação. Todavia, como nenhum deles publicou até hoje as suas idéas — embora o Sr. Darwin tenha sido, desde há muitos annos, repetidamente instado por nós a fazê-lo — e visto que ambos os auctores confiaram agora, sem reservas, os seus manuscritos às nossas mãos, entendemos que melhor servirá os interesses da sciencia apresentar à Sociedade Lineana uma selecção dos mesmos.
Dispostos pela ordem das respectivas datas, os documentos são os seguintes:
- Extractos de uma obra manuscripta sobre as Espécies[1], da autoria do Sr. Darwin, cujo esboço foi elaborado em 1839 e cuja cópia foi concluída em 1844. Essa cópia foi então lida pelo Dr. Hooker, sendo posteriormente o seu conteúdo comunicado a Sir Charles Lyell. A primeira parte da obra é dedicada à «Variação dos Seres Orgânicos sob Domesticação e no seu Estado Natural»; e o segundo capítulo dessa parte, de onde propomos ler à Sociedade os extractos ora apresentados, tem por título «Sobre a Variação dos Seres Orgânicos no Estado de Natureza; sobre os Meios Naturaes de Selecção; e sobre a Comparação entre as Raças Domésticas e as Verdadeiras Espécies.»
- Um resumo de uma carta particular dirigida ao Professor Asa Gray, de Boston, Estados Unidos da América, em Outubro de 1857, pelo Sr. Darwin, na qual este reitera as suas opiniões e demonstra que ellas permaneceram inalteradas entre 1839 e 1857.
- Um ensaio do Sr. Wallace, intitulado «Sobre a Tendência das Variedades para se Afastarem Indefinidamente do Tipo Original.» Foi redigido em Ternate, em Fevereiro de 1858, para leitura do seu amigo e correspondente, o Sr. Darwin, e enviado com o expresso desejo de que fosse encaminhado a Sir Charles Lyell, caso o Sr. Darwin o julgasse suficientemente novo e interessante.
Tão elevada foi a apreciação que o Sr. Darwin fez do valor das idéas ali expostas, que propôs, numa carta dirigida a Sir Charles Lyell, obter o consentimento do Sr. Wallace para que o ensaio fosse publicado com a maior brevidade possível. Aprovámos inteiramente essa iniciativa, contanto que o Sr. Darwin não continuasse a ocultar ao público — como fortemente se inclinava a fazer, em consideração pelo Sr. Wallace — a memória que elle próprio escrevera sobre o mesmo assunto e que, como acima referimos, um de nós lera já em 1844, sendo ambos conhecedores do seu conteúdo havia muitos annos.
Depois de expormos estas considerações ao Sr. Darwin, elle autorizou-nos a fazer da sua memória o uso que entendêssemos conveniente; e, ao adoptar o procedimento que agora seguimos, apresentando-a à Sociedade Lineana, explicámos-lhe que não atendíamos exclusivamente às pretensões relativas de prioridade entre elle e o seu amigo, mas antes aos interesses da sciencia em geral. Com effeito, entendemos ser altamente desejável que opiniões fundadas numa ampla deducção dos factos e amadurecidas ao longo de annos de reflexão constituam, desde logo, um ponto de partida para futuras investigações; e que, enquanto o mundo scientífico aguarda a publicação da obra completa do Sr. Darwin, alguns dos principaes resultados dos seus trabalhos, bem como os do seu distinto correspondente, sejam conjuntamente dados a conhecer ao público.
Temos a honra de subscrever-nos,
De V. Ex.ª, muito obedientes servidores,
Charles Lyell
Jos. D. Hooker
J. J. Bennett, Esq.
Secretário da Sociedade Lineana.
I. Extracto de uma Obra Inédita sobre as Espécies, por C. Darwin, Esq., consistindo numa parte de um capítulo intitulado «Sobre a Variação dos Seres Orgânicos no Estado de Natureza; sobre os Meios Naturaes de Selecção; sobre a Comparação entre as Raças Domésticas e as Verdadeiras Espécies.»
De Candolle declarou, numa passagem de grande eloquência, que toda a natureza se encontra em guerra, cada organismo contra os demais, ou contra a própria natureza exterior. À vista do aspecto sereno da natureza, isto poderá, à primeira vista, parecer duvidoso; mas a reflexão demonstrará inevitavelmente que assim é. Essa guerra, porém, não é constante: manifesta-se repetidamente, em grau ligeiro, a curtos intervalos, e com maior violência em épocas mais espaçadas; por isso mesmo, os seus effeitos passam facilmente despercebidos. Trata-se da doutrina de Malthus applicada, na maior parte dos casos, com uma intensidade dez vezes superior.
Assim como em todos os climas existem estações de maior e menor abundância para os seus habitantes, também todos os seres se reproduzem annualmente; e o freio moral que, em certa medida, limita o crescimento da humanidade, está inteiramente ausente. Mesmo a humanidade, cuja reprodução é relativamente lenta, duplicou em vinte e cinco annos; e, se lhe fosse possível augmentar os seus recursos alimentares com maior facilidade, duplicaria em menos tempo.
Nos animaes, porém, desprovidos de meios artificiaes, a quantidade de alimento disponível para cada espécie deve manter-se, em média, constante, ao passo que o crescimento de todos os organismos tende a seguir uma progressão geométrica, e, na grande maioria dos casos, a uma razão extraordinariamente elevada. Suponhamos que, num determinado local, existam oito casais de aves, e que apenas quatro desses casais produzam annualmente — contando mesmo duas ninhadas — apenas quatro crias, as quaes, por sua vez, se reproduzam ao mesmo ritmo. Ao fim de sete annos (vida curta para qualquer ave, abstraindo das mortes violentas), existirão 2048 aves, em vez das dezasseis iniciaes. Como semelhante crescimento é manifestamente impossível, somos forçados a concluir, ou que as aves não conseguem criar sequer metade das suas crias, ou que a duração média da sua vida, por força dos accidentes, fica muito aquém de sete annos. Muito provavelmente, ambos estes factores concorrem. O mesmo género de cálculo, applicado a todas as plantas e animaes, conduz a resultados mais ou menos notáveis, embora raramente tão impressionantes como no caso do homem.
Existem numerosos exemplos práticos desta extraordinária tendência para o aumento do número de indivíduos. Em determinadas circumstâncias, verificam-se multiplicações verdadeiramente extraordinárias de certos animaes. Assim aconteceu na região do Rio da Prata entre 1826 e 1828, quando, em consequência de uma grande secca, pereceram milhões de cabeças de gado, tendo todo o país ficado literalmente infestado de ratos.
Parece-me fora de dúvida que, durante a época da reprodução, todos os ratos — salvo alguns machos ou fêmeas em excesso — se emparelham normalmente. Assim, este espantoso crescimento verificado ao longo de três annos só pode attribuir-se ao facto de, no primeiro anno, ter sobrevivido um número muito superior ao habitual, reproduzindo-se depois esses sobreviventes, e assim successivamente, até que, com o regresso das chuvas, a população voltou aos seus limites ordinários.
Sempre que o homem introduziu plantas ou animaes num país novo e favorável, existem numerosos relatos de quão surpreendentemente depressa esse território ficou povoado por elles. Esse crescimento cessaria necessariamente quando o país estivesse completamente ocupado; e, todavia, tudo nos leva a crer, pelo que sabemos dos animaes selvagens, que todos continuariam a emparelhar-se na primavera.
Na maioria dos casos, é extremamente difícil imaginar onde actuam os factores limitativos — embora, sem dúvida, incidam geralmente sobre as sementes, os ovos e os indivíduos jovens. Mas, quando recordamos quão impossível é, mesmo no caso da humanidade (muito melhor conhecida do que qualquer outra espécie animal), deduzir, por observações casuaes repetidas, qual a duração média da vida, ou determinar a proporção entre nascimentos e mortes em diferentes países, não devemos estranhar que sejamos incapazes de descobrir onde actua esse factor limitativo em qualquer animal ou planta.
Importa sempre recordar que, na maior parte dos casos, esses factores limitativos actuam todos os annos de forma ligeira e regular, tornando-se apenas extraordinariamente severos durante annos excepcionalmente frios, quentes, secos ou húmidos, conforme a constituição do organismo em questão. Alivie-se, ainda que muito ligeiramente, qualquer desses obstáculos, e a capacidade de crescimento geométrico própria de cada organismo fará aumentar quase instantaneamente o número médio da espécie favorecida.
A natureza pode ser comparada a uma superfície sobre a qual repousam dez mil cunhas aguçadas, todas em contacto umas com as outras e continuamente impellidas para dentro por golpes incessantes. Para compreender plenamente estas idéas é necessária profunda reflexão. Deve estudar-se Malthus relativamente ao homem; e devem ponderar-se cuidadosamente exemplos como o dos ratos no Rio da Prata, do gado e dos cavalos quando foram pela primeira vez libertados na América do Sul, das aves no cálculo que apresentámos, e outros semelhantes.
Reflita-se sobre a enorme capacidade de multiplicação, inherente e posta em acção todos os annos em todos os animaes; reflita-se sobre as incontáveis sementes dispersas, anno após anno, por uma centena de engenhosos expedientes, por toda a superfície da terra; e, não obstante, temos todos os motivos para supor que a proporção média de cada uma das espécies que habitam um país permanece habitualmente constante.
Por fim, tenha-se presente que esse número médio de indivíduos de cada espécie (mantendo-se inalteradas as condições exteriores) é conservado graças a lutas incessantemente renovadas contra outras espécies ou contra a própria natureza exterior — como sucede nas regiões limítrofes do Árctico, onde o frio limita a vida — e que, ordinariamente, cada indivíduo conserva o seu lugar, quer pela sua própria luta e capacidade de obter alimento em alguma fase da sua existência, desde o ovo em diante, quer pela luta travada pelos seus progenitores (nos organismos de vida curta, em que o principal factor limitativo actua a intervalos mais longos) contra outros indivíduos da mesma ou de espécies differentes.
Mas suponhamos que as condições exteriores de um país se alteram. Se essa alteração for de pequena monta, as proporções relativas dos seus habitantes limitar-se-ão, na maior parte dos casos, a soffrer ligeiras modificações; mas, se o número dos habitantes for reduzido, como sucede numa ilha, se o livre acesso de organismos provenientes de outros países for limitado, e se a alteração das condições continuar a progredir (criando novas estações ou habitats), então os habitantes originários deixarão necessariamente de estar tão perfeitamente adaptados às novas condições como o estavam às primitivas.
Demonstrou-se já, numa parte anterior desta obra, que alterações desta natureza nas condições exteriores, actuando sobre o systema reprodutor, tenderiam provavelmente a tornar plástica, como sucede sob domesticação, a organização dos seres mais profundamente afectados. Ora, poderá duvidar-se de que, na luta que cada indivíduo tem de sustentar para obter os meios de subsistência, qualquer pequeníssima variação de estrutura, de hábitos ou de instintos, tornando esse indivíduo mais bem adaptado às novas condições, influiria favoravelmente no seu vigor e na sua saúde? Nessa luta teria maior probabilidade de sobreviver; e os descendentes que herdassem essa variação, por mais insignificante que fosse, gozariam igualmente de maior probabilidade de sobrevivência. Todos os annos nascem mais indivíduos do que aquelles que podem subsistir; e o mais pequeno peso lançado num dos pratos da balança acabará, mais cedo ou mais tarde, por decidir sobre qual recairá a morte e qual sobreviverá. Se esta obra de selecção, por um lado, e de eliminação, por outro, prosseguir durante mil gerações, quem ousará affirmar que ella não produzirá qualquer effeito, lembrando-nos do que Bakewell conseguiu, em poucos annos, no aperfeiçoamento do gado bovino, e Western no dos ovinos, recorrendo precisamente a este mesmo princípio de selecção?
Para apresentar um exemplo imaginário de alterações em curso numa ilha, suponhamos que a organização de um animal canino, que se alimentava principalmente de coelhos, mas por vezes também de lebres, se torna ligeiramente plástica; suponhamos ainda que essas mesmas alterações fazem diminuir muito lentamente o número de coelhos e augmentar o de lebres. O resultado seria que a raposa ou o cão se veriam forçados a caçar um maior número de lebres. Sendo, porém, a sua organização ligeiramente plástica, os indivíduos de corpo mais leve, membros mais compridos e vista mais apurada, por mínima que fosse a diferença, seriam modestamente favorecidos e tenderiam a viver mais tempo, conseguindo sobreviver precisamente na época do anno em que o alimento fosse mais escasso. Criariam igualmente um maior número de crias, que tenderiam a herdar essas pequenas particularidades. Os indivíduos menos velozes seriam inexoravelmente destruídos.
Não vejo maior razão para duvidar de que estas causas, actuando durante mil gerações, produziriam uma alteração sensível, adaptando a forma da raposa ou do cão à captura de lebres em vez de coelhos, do que para duvidar de que os galgos possam ser aperfeiçoados por meio da selecção e de uma criação cuidadosa.
O mesmo sucederia com as plantas em circumstâncias semelhantes. Se o número de indivíduos de uma espécie dotada de sementes providas de penugem pudesse augmentar graças a uma maior capacidade de disseminação dentro da sua própria área (isto é, se o principal obstáculo ao aumento da espécie incidisse sobre as sementes), então aquellas sementes providas de uma quantidade, ainda que muito ligeiramente superior, de penugem seriam, a longo prazo, as mais amplamente disseminadas; por conseguinte, um maior número dessas sementes germinaria e tenderia a produzir plantas que herdassem essa penugem ligeiramente mais bem adaptada[2].
Além deste meio natural de selecção, pelo qual são conservados os indivíduos — quer no estado de ovo, de larva ou de adulto — mais bem adaptados ao lugar que occupam na natureza, existe, na maior parte dos animaes de sexos separados, uma segunda força que tende a produzir o mesmo resultado: a luta dos machos pela posse das fêmeas.
Estas lutas são, em regra, decididas pela lei do combate; mas, no caso das aves, parecem decidir-se pelos encantos do canto, pela belleza da plumagem ou pelo poder de seducção demonstrado durante o cortejo, como sucede com o tordo-dançarino da Guiana. Os machos mais vigorosos e mais sãos, o que implica uma adaptação mais perfeita, são geralmente os vencedores dessas disputas.
Este género de selecção é, todavia, menos rigoroso do que o primeiro; não exige a morte dos menos bem sucedidos, limitando-se a conceder-lhes um menor número de descendentes. Além disso, esta luta tem lugar numa época do anno em que o alimento é geralmente abundante; por isso, o seu principal effeito consistirá, provavelmente, na modificação dos caracteres sexuaes secundários, os quaes não dizem respeito nem à obtenção de alimento nem à defesa contra os inimigos, mas antes ao combate ou à rivalidade entre machos.
O resultado desta luta entre os machos pode, sob certos aspectos, comparar-se ao obtido por aquelles agricultores que prestam menor attenção à selecção rigorosa de todos os seus animaes jovens e maior importância ao uso ocasional de um reproductor de qualidade excepcional.
II. Resumo de uma Carta de C. Darwin, Esq., dirigida ao Prof. Asa Gray, de Boston, Estados Unidos da América, datada de Down, 5 de Setembro de 1857.
1. É verdadeiramente admirável o que pode conseguir o princípio da selecção praticada pelo homem, isto é, a escolha de indivíduos possuidores de qualquer qualidade desejada, a sua reprodução e a subsequente escolha dos descendentes. Até os próprios criadores se têm mostrado assombrados com os resultados que alcançaram. São capazes de actuar sobre differenças imperceptíveis para um olhar inexperiente. A selecção só tem sido seguida de modo systemático na Europa durante o último meio século; todavia, foi praticada ocasionalmente, e até em certa medida de forma metódica, desde a mais remota antiguidade. Deve igualmente ter existido, desde épocas muito recuadas, uma espécie de selecção inconsciente, consistente na conservação dos animaes individualmente mais úteis a cada povo nas suas circumstâncias particulares, sem qualquer consideração pela descendência desses animaes. A operação a que os horticultores chamam roguing, isto é, a eliminação das variedades que se afastam do seu tipo, constitui igualmente uma forma de selecção. Estou convencido de que a selecção intencional e occasional foi o principal agente na formação das nossas raças domésticas; mas, seja como for, o extraordinário poder modificador da selecção ficou demonstrado de modo incontroverso nos tempos modernos. A selecção actua apenas pela accumulação de variações, maiores ou menores, produzidas pelas condições exteriores ou pelo simples facto de que o filho nunca é absolutamente idêntico aos seus progenitores. Mediante este poder de accumular variações, o homem adapta os seres vivos às suas necessidades; pode dizer-se que faz com que a lã de uma ovelha seja apropriada para tapetes, a de outra para pannos, e assim successivamente.
2. Suponhamos agora a existência de um ser que não julgasse apenas pelas apparências exteriores, mas que pudesse estudar toda a organização interna; que nunca fosse caprichoso e que prosseguisse a selecção tendo sempre em vista um único objectivo, ao longo de milhões de gerações. Quem ousará dizer o que esse ser não poderia alcançar? Na natureza encontramos, de tempos a tempos, ligeiras variações em todas as partes da organização; e creio poder demonstrar que a alteração das condições de existência é a principal causa de o filho não se assemelhar exactamente aos seus progenitores. Além disso, a geologia mostra-nos as alterações que tiveram lugar e continuam a ter lugar na natureza. Dispomos de um tempo praticamente illimitado; só um geólogo experimentado poderá avaliar plenamente a immensidade desse factor. Pense-se no período glaciário, durante o qual subsistiram, pelo menos, as mesmas espécies de conchas; durante esse período terão decorrido milhões sobre milhões de gerações.
3. Creio poder demonstrar que existe uma força infallível em actividade — a Selecção Natural (título da minha obra) — que escolhe exclusivamente o que é vantajoso para cada ser orgânico. O velho De Candolle, W. Herbert e Lyell escreveram admiravelmente acerca da luta pela existência; mas nem mesmo elles exprimiram essa idéia com suficiente vigor. Reflita-se em que cada ser vivo (mesmo o elephante) se reproduz a tal ritmo que, em poucos annos, ou quando muito em alguns séculos, a superfície da Terra não poderia comportar os descendentes de um único casal. Tenho verificado quão difícil é conservar constantemente presente a idéia de que o crescimento de cada espécie é travado em alguma fase da sua existência, ou em alguma geração que se repete a curtos intervalos. Apenas alguns dos indivíduos que nascem todos os annos conseguem sobreviver e propagar a espécie. Que insignificante differença basta, tantas vezes, para decidir qual sobreviverá e qual perecerá!
4. Consideremos agora um país sujeito a alguma transformação. Essa alteração tenderá a fazer variar ligeiramente alguns dos seus habitantes; não porque eu deixe de acreditar que a maior parte dos seres varia constantemente o bastante para que a selecção possa actuar sobre elles. Alguns desses habitantes serão exterminados; e os restantes ficarão sujeitos à acção recíproca de um novo conjunto de habitantes, factor que considero muito mais importante para a vida de cada ser do que o simples clima. Attenta a infinita variedade de meios pelos quaes os seres vivos obtêm alimento, lutando com outros organismos, escapam aos perigos nas diversas phases da vida, dispersam os seus ovos ou sementes, etc., não posso duvidar de que, ao longo de milhões de gerações, nascerão ocasionalmente indivíduos possuidores de alguma ligeira variação vantajosa para determinado aspecto da sua economia. Esses indivíduos terão maior probabilidade de sobreviver e de transmitir essa estrutura nova e ligeiramente diversa; e a modificação poderá augmentar lentamente, pela acção accumulativa da selecção natural, até atingir qualquer grau de utilidade. A variedade assim formada coexistirá com a forma progenitora ou, mais frequentemente, substituí-la-á, conduzindo à sua extinção. Um ser orgânico, como o pica-pau ou o visco, poderá assim tornar-se adaptado a uma multiplicidade de contingências, accumulando a selecção natural aquellas pequenas variações existentes em todas as partes da sua estrutura que, de qualquer modo, lhe sejam úteis em alguma fase da sua existência.
5. Esta teoria suscitará numerosas e variadas difficuldades a todos quantos a examinarem. Muitas dellas, creio eu, podem ser satisfactoriamente resolvidas. O princípio Natura non facit saltum responde a algumas das objecções mais evidentes. A lentidão da mudança e o facto de apenas um reduzidíssimo número de indivíduos se modificar em cada momento respondem a outras. A extrema imperfeição dos nossos registos geológicos responde ainda a outras.
6. Um outro princípio, que poderá designar-se por princípio da divergência, desempenha, segundo creio, um papel importante na origem das espécies. Um mesmo espaço poderá sustentar uma quantidade maior de vida quando for occupado por formas muito diversas entre si. Observamo-lo na multiplicidade de géneros existentes numa simples jarda quadrada de relvado, bem como nas plantas ou insectos de qualquer pequeno ilhéu uniforme, pertencentes quase invariavelmente a tantos géneros e famílias quantas as espécies presentes. Compreendemos facilmente o significado deste facto entre os animaes superiores, cujos hábitos conhecemos. Sabemos igualmente que foi demonstrado experimentalmente que uma parcela de terreno produz maior quantidade de matéria vegetal quando é semeada com diversas espécies e géneros de gramíneas do que quando recebe apenas duas ou três espécies.
Ora, cada ser orgânico, reproduzindo-se com tão grande rapidez, pode dizer-se que se esforça incessantemente por augmentar o seu número. Assim acontecerá também com a descendência de qualquer espécie depois de esta se haver diversificado em variedades, subespécies ou verdadeiras espécies. Daqui resulta, creio eu, que a descendência variável de cada espécie procurará — embora apenas poucas o consigam — conquistar o maior número possível de lugares, e os mais diversos, na economia da natureza. Cada nova variedade ou espécie, uma vez formada, virá geralmente occupar o lugar da sua forma progenitora menos bem adaptada, conduzindo assim à sua extinção.
Creio que reside aqui a origem da classificação e das affinidades dos seres orgânicos em todas as épocas; pois os seres vivos parecem sempre ramificar-se e subdividir-se como os ramos de uma árvore que partem de um tronco commum, destruindo os ramos vigorosos e divergentes aquelles que são menos robustos, ao passo que os ramos mortos e perdidos representam, de forma imperfeita, os géneros e famílias extinctos.
Este esboço é extremamente imperfeito; mas, em tão curto espaço, não me é possível aperfeiçoá-lo. A sua imaginação deverá preencher as vastíssimas lacunas que necessariamente ficaram.
C. Darwin
III. Da Tendência das Variedades para se Afastarem Indefinidamente do Tipo Original. Por Alfred Russel Wallace.
Um dos mais fortes argumentos aduzidos para provar a distinção original e permanente das espécies consiste em afirmar que as variedades produzidas em estado de domesticação são mais ou menos instáveis e revelam frequentemente a tendência, quando abandonadas a si mesmas, para regressar à forma normal da espécie progenitora; e considera-se que esta instabilidade constitui uma característica própria de todas as variedades, mesmo daquellas que ocorrem entre animaes selvagens em estado de natureza, representando uma disposição destinada a conservar inalteradas as espécies distinctas originalmente creadas.
Na falta ou escassez de factos e observações relativos às variedades que ocorrem entre os animaes selvagens, este argumento exerceu grande influência sobre os naturalistas e conduziu a uma crença muito generalizada, e até certo ponto preconceituosa, na estabilidade das espécies. Não menos generalizada é, porém, a crença na existência das chamadas «variedades permanentes» ou «verdadeiras variedades», isto é, raças de animaes que reproduzem constantemente indivíduos semelhantes a si próprias, mas que differem tão ligeiramente (embora de modo constante) de outra raça, que uma é considerada simples variedade da outra. Qual das duas constitui a variedade e qual representa a espécie original é, em regra, impossível determinar, salvo nos raros casos em que se verificou que uma das raças produziu descendência diversa de si mesma e semelhante à outra. Tal facto pareceria, todavia, incompatível com a «invariabilidade permanente das espécies»; mas a dificuldade é ultrapassada admitindo-se que semelhantes variedades possuem limites rigorosos e nunca mais poderão afastar-se do tipo original, embora possam regressar a elle, possibilidade que, por analogia com os animaes domesticados, é considerada altamente provável, quando não mesmo demonstrada.
Observar-se-á que este argumento assenta inteiramente na supposição de que as variedades que ocorrem em estado de natureza são, em todos os aspectos, análogas, ou mesmo idênticas, às dos animaes domesticados, sendo regidas pelas mesmas leis quanto à sua permanência ou ulterior variação. Ora, o objectivo do presente trabalho é demonstrar que esta supposição é inteiramente falsa; que existe na natureza um princípio geral que levará muitas variedades a sobreviverem à espécie progenitora e a darem origem a variações successivas, cada vez mais afastadas do tipo original, princípio esse que explica igualmente, nos animaes domesticados, a tendência das variedades para regressarem à forma progenitora.
A vida dos animaes selvagens é uma luta pela existência. O pleno emprego de todas as suas faculdades e de todas as suas energias é indispensável para conservar a sua própria existência e assegurar a da sua descendência. A possibilidade de obter alimento durante as estações menos favoráveis e de escapar aos ataques dos seus mais perigosos inimigos constitui a condição fundamental que determina a existência, tanto dos indivíduos como das espécies inteiras. Estas mesmas condições determinam igualmente a população de uma espécie; e, mediante um exame attento de todas as circumstâncias, poderemos chegar a compreender e, em certa medida, a explicar o que à primeira vista parece tão inexplicável: a extraordinária abundância de algumas espécies, ao passo que outras, muito estreitamente aparentadas com ellas, são extremamente raras.
A proporção geral que necessariamente existe entre certos grupos de animaes é facilmente observável. Os grandes animaes não podem ser tão abundantes como os pequenos; os carnívoros têm necessariamente de ser menos numerosos do que os herbívoros; as águias e os leões nunca poderão ser tão abundantes como os pombos e os antílopes; os asnos selvagens dos desertos da Tartária jamais poderão igualar em número os cavalos das mais luxuriantes pradarias e pampas da América. A maior ou menor fecundidade de um animal é frequentemente considerada uma das principais causas da sua abundância ou escassez; mas uma consideração attenta dos factos mostrar-nos-á que, na realidade, ella pouco ou nada tem que ver com a questão. Mesmo os animaes menos prolíficos augmentariam rapidamente em número se nenhum obstáculo os contivesse; todavia, é evidente que a população animal do globo tem de permanecer estacionária ou, talvez, devido à influência do homem, mesmo diminuir.
Poderão verificar-se flutuações; mas um aumento permanente, excepto em localidades restritas, é quase impossível. Basta a observação corrente para nos convencer de que as aves não augmentam todos os annos segundo uma progressão geométrica, como inevitavelmente aconteceriam se não existisse algum poderoso obstáculo ao seu crescimento natural. Muito poucas aves produzem menos de duas crias por anno, ao passo que muitas produzem seis, oito ou dez; quatro ficará seguramente abaixo da média; e, se suppusermos que cada casal cria apenas quatro ninhadas ao longo da sua vida, isso continuará ainda abaixo da média, desde que não morram por violência ou por falta de alimento. Contudo, mesmo a este ritmo, quão espantoso seria o aumento produzido, em poucos annos, a partir de um único casal! Um simples cálculo mostra que, em quinze annos, cada casal de aves teria dado origem a perto de dez milhões de indivíduos! E, no entanto, não temos qualquer razão para acreditar que o número de aves de qualquer país augmente, seja ao longo de quinze, seja mesmo de cento e cincoenta annos.
Com uma tal capacidade de multiplicação, a população de cada espécie terá necessariamente atingido o seu limite e permanecido estacionária poucos annos após a origem dessa espécie. É, pois, evidente que, todos os annos, um número immenso de aves tem de perecer — tantas, de facto, quantas as que nascem; e, como mesmo pela estimativa mais modesta a descendência annual é duas vezes mais numerosa do que a geração progenitora, segue-se que, qualquer que seja o número médio de indivíduos existentes num determinado país, o dobro desse número terá de morrer todos os annos. É uma conclusão notável, mas que parece, pelo menos, altamente provável, e talvez até fique aquém da verdade.
Resulta, pois, que, no que respeita à conservação da espécie e à manutenção do número médio de indivíduos, as grandes ninhadas são supérfluas. Em média, todos os indivíduos para além de um tornam-se alimento de falcões e milhafres, de gatos selvagens e doninhas, ou perecem de frio e de fome quando chega o Inverno. Esta conclusão é demonstrada de forma impressionante pelo caso de determinadas espécies, pois verificamos que a sua abundância em indivíduos não guarda qualquer relação com a sua fecundidade. Talvez o exemplo mais notável de uma população extraordinariamente numerosa de aves seja o do pombo-passageiro dos Estados Unidos, que põe apenas um ovo, ou, quando muito, dois, e do qual se diz criar geralmente apenas uma cria. Porque é esta ave tão extraordinariamente abundante, ao passo que outras, produzindo duas ou três vezes mais descendentes, são muito menos numerosas?
A explicação não é difícil. O alimento mais apropriado a esta espécie, e de que ella melhor aproveita, encontra-se abundantemente distribuído por uma região vastíssima, apresentando tal diversidade de solos e climas que, numa ou noutra parte dessa área, o abastecimento nunca falta. Além disso, a ave é dotada de um voo extremamente rápido e prolongado, podendo percorrer, sem fadiga, toda a região que habita e descobrir novos locais de alimentação logo que o alimento começa a escassear num determinado ponto. Este exemplo demonstra de forma eloquente que a obtenção de um abastecimento constante de alimento adequado constitui quase a única condição necessária para assegurar o rápido crescimento de uma dada espécie; pois nem a limitada fecundidade, nem os ataques incessantes das aves de rapina e do homem bastam, neste caso, para limitar o seu aumento.
Em nenhuma outra ave estas circumstâncias particulares se encontram reunidas de forma tão notável. Ou o seu alimento está mais sujeito a escassear, ou não possuem asas suficientemente poderosas para o procurar numa região extensa, ou, durante certa estação do anno, esse alimento torna-se muito raro, obrigando-as a recorrer a substitutos menos nutritivos; e, assim, embora produzam maior número de descendentes, nunca podem augmentar para além do que o abastecimento alimentar permite durante as épocas menos favoráveis.
Muitas aves apenas conseguem subsistir migrando, quando o alimento escasseia, para regiões de clima mais ameno, ou pelo menos diverso; mas, como essas aves migradoras raramente são extraordinariamente abundantes, é evidente que mesmo os países para onde se deslocam carecem de uma fonte constante e abundante de alimento apropriado. Aquellas cuja organização não lhes permite migrar quando o alimento escasseia periodicamente jamais poderão atingir uma população numerosa. Será provavelmente esta a razão por que os pica-paus são escassos entre nós, ao passo que, nos trópicos, figuram entre as aves solitárias mais abundantes.
Assim, o pardal-doméstico é mais abundante do que o pisco-de-peito-ruivo, porque o seu alimento é mais constante e abundante, conservando-se as sementes das gramíneas durante o Inverno e fornecendo os nossos campos cultivados e restolhos uma provisão quase inexgotável.
Porque motivo são, em regra, tão numerosas as aves aquáticas e, em especial, as marinhas? Não porque sejam mais prolíficas do que as outras — geralmente sucede precisamente o contrário —, mas porque o seu alimento nunca falta, encontrando-se diariamente as praias marítimas e as margens dos rios povoadas por uma nova abundância de pequenos moluscos e crustáceos.
As mesmas leis se applicam exactamente aos mammíferos. Os gatos selvagens são prolíficos e têm poucos inimigos; porque nunca são então tão abundantes como os coelhos? A única resposta intelligível é que o seu abastecimento alimentar é muito mais precário.
Parece, pois, evidente que, enquanto um país permanecer physicamente inalterado, o número da sua população animal não poderá augmentar de modo sensível. Se uma espécie augmentar, outras que dependam do mesmo género de alimento terão necessariamente de diminuir em proporção. O número dos indivíduos que morrem annualmente deve ser immenso; e, como a existência de cada animal depende exclusivamente de si próprio, os que perecem serão inevitavelmente os mais fracos — os muito novos, os velhos e os doentes —, ao passo que os que prolongam a sua existência só podem ser os mais perfeitos em saúde e vigor, aquelles que melhor conseguem obter alimento com regularidade e escapar aos seus numerosos inimigos. Trata-se, como observámos desde o princípio, de uma «luta pela existência», na qual os mais fracos e os menos perfeitamente organisados acabarão sempre por sucumbir.
É agora evidente que o que se passa entre os indivíduos de uma espécie deve igualmente verificar-se entre as diversas espécies aparentadas de um mesmo grupo; isto é, que aquellas que estiverem melhor adaptadas para obter um abastecimento regular de alimento e para se defenderem dos ataques dos seus inimigos e das vicissitudes das estações terão necessariamente de adquirir e conservar uma superioridade numérica; ao passo que as espécies que, por alguma deficiência de faculdades ou de organização, forem menos capazes de resistir às vicissitudes do abastecimento alimentar, etc., diminuirão em número e, nos casos extremos, acabarão por extinguir-se completamente. Entre estes dois extremos, as espécies apresentarão diversos graus de aptidão para assegurar os meios de conservar a vida; e é assim que se explica a maior ou menor abundância das espécies.
A nossa ignorância impedir-nos-á, em geral, de seguir com exactidão os effeitos até às suas causas; mas, se pudéssemos conhecer perfeitamente a organização e os hábitos das diversas espécies de animaes, e se pudéssemos medir a capacidade de cada uma para desempenhar os diversos actos necessários à sua segurança e existência em todas as circumstâncias variáveis que a rodeiam, talvez nos fosse mesmo possível calcular a abundância relativa dos indivíduos como resultado necessário dessas condições.
Se tivermos conseguido estabelecer estes dois pontos — primeiro, que a população animal de um país é, em regra, estacionária, sendo limitada por uma deficiência periódica de alimento e por outros obstáculos; e, segundo, que a abundância ou escassez relativa dos indivíduos das diversas espécies depende inteiramente da sua organização e dos hábitos que della resultam, os quaes, tornando em certos casos mais difícil do que noutros a obtenção de um abastecimento regular de alimento e a garantia da segurança individual, apenas podem ser compensados por differenças no número de indivíduos que podem subsistir numa determinada área — estaremos então em condições de passar ao exame das variedades, ao qual as considerações precedentes têm uma applicação directa e da maior importância.
A maior parte, ou talvez todas, as variações relativamente à forma típica de uma espécie devem exercer algum effeito determinado, por mais ligeiro que seja, sobre os hábitos ou as aptidões dos indivíduos. Até uma simples alteração de côr poderá, tornando-os mais ou menos conspícuos, influir na sua segurança; um maior ou menor desenvolvimento do pêlo poderá modificar os seus hábitos. Alterações mais importantes, como o aumento da força ou das dimensões dos membros, ou de qualquer dos órgãos externos, influirão, em maior ou menor grau, no modo de obtenção do alimento ou na extensão da região que os animaes podem habitar.
É igualmente evidente que a maior parte destas modificações influirá, favorável ou desfavoravelmente, sobre a capacidade de prolongar a existência. Um antílope com pernas mais curtas ou mais fracas sofrerá necessariamente mais com os ataques dos carnívoros felinos; o pombo-passageiro, dotado de asas menos poderosas, verá mais cedo ou mais tarde diminuída a sua capacidade para assegurar um abastecimento regular de alimento; e, em ambos os casos, o resultado será inevitavelmente uma diminuição da população da forma modificada.
Se, pelo contrário, alguma espécie produzir uma variedade dotada de faculdades, ainda que ligeiramente superiores, para conservar a existência, essa variedade acabará inevitavelmente por adquirir uma superioridade numérica. Estes resultados seguem-se com a mesma certeza com que a velhice, a intemperança ou a escassez de alimento produzem um aumento da mortalidade. Em ambos os casos poderão existir numerosas excepções individuaes; mas, em média, a regra verificar-se-á invariavelmente.
Todas as variedades se dividirão, pois, em duas classes: aquellas que, nas mesmas condições, nunca conseguiriam atingir a população da espécie progenitora; e aquellas que, com o tempo, alcançariam e manteriam uma superioridade numérica.
Supponhamos agora que ocorre alguma alteração das condições physicas da região — um longo período de sêcca, a destruição da vegetação por gafanhotos, a irrupção de algum novo animal carnívoro em busca de «novos pastos», ou qualquer outra mudança tendente a tornar mais difícil a existência da espécie em questão e a exigir o máximo das suas faculdades para evitar a completa extinção. É evidente que, de entre todos os indivíduos que compõem essa espécie, os pertencentes à variedade menos numerosa e menos perfeitamente organizada serão os primeiros a soffrer e, se a pressão fôr suficientemente intensa, depressa se extinguirão.
Persistindo as mesmas causas, a própria espécie progenitora soffrerá em seguida, diminuirá gradualmente em número e, com a repetição de condições igualmente desfavoráveis, poderá igualmente extinguir-se. Restará então apenas a variedade superior, a qual, regressando circunstâncias favoráveis, augmentará rapidamente em número e occupará o lugar deixado vago pela espécie e pela variedade extinctas.
A variedade teria então substituído a espécie, da qual constituiria uma forma mais perfeitamente desenvolvida e mais altamente organizada. Seria, em todos os aspetos, mais bem adaptada a assegurar a sua sobrevivência e a prolongar a existência de cada indivíduo e da própria linhagem. Uma tal variedade não poderia regressar à forma original, pois essa forma seria inferior e jamais conseguiria competir com ela pela existência. Admitindo, portanto, a existência de uma «tendência» para reproduzir o tipo original da espécie, a variedade continuaria sempre a predominar em número e, perante condições físicas adversas, seria novamente a única a sobreviver.
Mas esta nova raça, mais aperfeiçoada e numerosa, poderia, por sua vez, ao longo do tempo, dar origem a novas variedades, apresentando diversas modificações divergentes de forma. Qualquer uma dessas modificações que contribuísse para aumentar as probabilidades de conservação da existência acabaria, pela mesma lei geral, por se tornar predominante. Temos, assim, a progressão e a divergência contínua deduzidas das leis gerais que regulam a existência dos animais no estado de natureza e do facto incontestável de que as variedades surgem com frequência.
Não se pretende, contudo, afirmar que este resultado seja inevitável. Uma alteração das condições físicas de uma determinada região poderia, por vezes, modificá-lo profundamente, tornando a raça que antes era a mais apta para sobreviver, nas condições anteriores, na menos apta sob as novas circunstâncias. Poderia até provocar a extinção da raça mais recente e, durante algum tempo, superior, ao passo que a antiga espécie-mãe e as suas primeiras variedades inferiores continuariam a prosperar. Poderiam igualmente surgir variações em características de pouca importância, sem qualquer efeito percetível sobre as capacidades de preservação da vida; e as variedades assim dotadas poderiam seguir uma evolução paralela à da espécie ancestral, quer originando novas variações, quer regressando ao tipo primitivo.
Tudo o que sustentamos é que certas variedades tendem a conservar a sua existência durante mais tempo do que a espécie original, e que essa tendência acabará inevitavelmente por se manifestar. Embora a teoria das probabilidades ou das médias nunca seja plenamente fiável quando aplicada a um número reduzido de casos, os seus resultados aproximam-se cada vez mais do que a teoria prevê à medida que é aplicada a grandes números e, quando nos aproximamos de um número infinito de exemplos, tornam-se rigorosamente exatos. Ora, a escala em que a natureza opera é tão vasta — tanto no número de indivíduos como na duração dos períodos de tempo com que trabalha — que ambos se aproximam do infinito. Assim, qualquer causa, por mais ténue que seja e por mais facilmente que possa ser ocultada ou contrariada por circunstâncias acidentais, acabará inevitavelmente por produzir todos os seus legítimos efeitos.
Voltemo-nos agora para os animais domesticados e procuremos compreender de que modo as variedades que surgem entre eles são afetadas pelos princípios aqui expostos. A diferença essencial entre a condição dos animais selvagens e a dos animais domésticos reside no seguinte: entre os primeiros, o seu bem-estar e a própria existência dependem do pleno exercício e do bom estado de todos os seus sentidos e capacidades físicas; entre os segundos, essas faculdades são apenas parcialmente exercidas e, em alguns casos, permanecem totalmente inativas.
Um animal selvagem tem de procurar, e muitas vezes de se esforçar arduamente, por cada porção de alimento. Para isso, necessita de utilizar constantemente a visão, a audição e o olfato, tanto para encontrar alimento como para evitar perigos, procurar abrigo contra as intempéries e assegurar o sustento e a proteção da sua descendência. Não existe um único músculo do seu corpo que não seja posto em atividade diariamente, nem um único sentido ou faculdade que não seja fortalecido pelo exercício contínuo.
O animal doméstico, pelo contrário, recebe alimento sem esforço, dispõe de abrigo e é frequentemente mantido em confinamento para o proteger das variações das estações do ano. É cuidadosamente defendido dos ataques dos seus inimigos naturais e raramente cria as suas crias sem auxílio humano. Metade dos seus sentidos e capacidades tornou-se completamente inútil, e a outra metade é apenas ocasionalmente posta em fraco exercício, enquanto até o seu sistema muscular é solicitado apenas de forma irregular.
Quando surge uma variedade num animal desta natureza, possuindo maior capacidade ou desenvolvimento de algum órgão ou sentido, esse acréscimo revela-se totalmente inútil: nunca é posto em prática e pode até existir sem que o próprio animal alguma vez tenha consciência dele. No animal selvagem, pelo contrário, todas as suas faculdades e capacidades são plenamente mobilizadas pelas exigências da sobrevivência. Assim, qualquer aumento de capacidade se torna imediatamente vantajoso, é reforçado pelo exercício e acaba inevitavelmente por modificar, ainda que ligeiramente, a alimentação, os hábitos e toda a economia da raça. Cria-se, por assim dizer, um novo animal, dotado de capacidades superiores, que necessariamente aumentará em número e sobreviverá àqueles que lhe são inferiores.
Mais ainda, no animal doméstico todas as variações têm iguais probabilidades de se perpetuarem; e aquelas que tornariam claramente um animal selvagem incapaz de competir com os seus semelhantes e de assegurar a sua sobrevivência não constituem qualquer desvantagem em estado de domesticação. Os nossos porcos de rápido engorde, as ovelhas de patas curtas, os pombos-papo e os cães-caniche jamais poderiam ter surgido em estado de natureza, porque o primeiro passo em direção a formas tão desvantajosas teria conduzido à rápida extinção da linhagem; menos ainda poderiam hoje subsistir em competição com os seus parentes selvagens. A grande velocidade, mas reduzida resistência, do cavalo de corrida, ou a força descomunal, mas pouco ágil, do cavalo de trabalho agrícola, seriam igualmente inúteis na natureza. Se fossem libertados nas pampas, esses animais provavelmente extinguir-se-iam em pouco tempo ou, em circunstâncias favoráveis, perderiam gradualmente essas características extremas, que nunca seriam postas em prática, regressando, ao fim de poucas gerações, a um tipo comum. Esse tipo seria necessariamente aquele em que as diversas capacidades e faculdades estivessem proporcionadas entre si da forma mais adequada para obter alimento e garantir a segurança; aquele em que, apenas pelo pleno exercício de todas as partes da sua organização, o animal consegue sobreviver. As variedades domésticas, quando regressam ao estado selvagem, têm de aproximar-se novamente do tipo da estirpe selvagem original ou extinguir-se por completo.
Vemos, portanto, que não é possível deduzir conclusões acerca das variedades existentes em estado de natureza a partir da observação das variedades que surgem entre os animais domésticos. As condições de existência de umas e de outras são tão profundamente diferentes que aquilo que se aplica a umas dificilmente se aplicará às outras. Os animais domésticos são formas anómalas, irregulares e artificiais; estão sujeitos a variedades que nunca ocorrem, nem podem ocorrer, em estado de natureza. A sua própria existência depende inteiramente dos cuidados humanos. Muitos deles afastaram-se tanto da justa proporção entre as suas faculdades, desse verdadeiro equilíbrio da organização, que apenas permite a um animal abandonado aos seus próprios recursos conservar a vida e perpetuar a sua linhagem.
A hipótese de Lamarck — segundo a qual as mudanças progressivas das espécies teriam sido produzidas pelos esforços dos animais para aumentar o desenvolvimento dos seus próprios órgãos, modificando assim a sua estrutura e os seus hábitos — foi repetidamente e com facilidade refutada por todos os autores que escreveram sobre variedades e espécies. Tem-se considerado que, uma vez refutada essa hipótese, toda a questão ficava definitivamente resolvida. A perspetiva aqui desenvolvida torna, porém, tal hipótese inteiramente desnecessária, ao mostrar que resultados semelhantes decorrem inevitavelmente da ação de princípios que operam continuamente na natureza.
As poderosas garras retráteis das aves de rapina e dos felinos não foram produzidas nem aumentadas pela vontade desses animais; antes, entre as diferentes variedades que surgiram nas formas primitivas e menos especializadas desses grupos, sobreviveram sempre durante mais tempo aquelas que possuíam maior capacidade para capturar as suas presas. Também a girafa não adquiriu o seu longo pescoço por desejar alcançar a folhagem dos arbustos mais altos e por o esticar continuamente para esse fim. Pelo contrário, sempre que, entre os seus antepassados, surgiam variedades com pescoços um pouco mais compridos do que o habitual, estas obtinham imediatamente acesso a uma nova fonte de alimento na mesma área onde os seus companheiros de pescoço mais curto pastavam; e, nas primeiras épocas de escassez, conseguiam sobreviver quando os restantes sucumbiam.
Até as cores peculiares de muitos animais, especialmente dos insetos, que tanto se assemelham ao solo, às folhas ou aos troncos onde habitualmente vivem, podem ser explicadas pelo mesmo princípio. Embora, ao longo dos tempos, tenham surgido variedades de muitas tonalidades, as linhagens cujas cores proporcionavam melhor ocultação face aos inimigos seriam inevitavelmente as que sobreviveriam durante mais tempo.
Encontramos igualmente neste princípio uma explicação para o equilíbrio tantas vezes observado na natureza: uma deficiência num conjunto de órgãos é frequentemente compensada por um maior desenvolvimento de outros. Assim, asas poderosas acompanham pés fracos, ou uma grande velocidade compensa a ausência de armas defensivas. Com efeito, demonstrou-se que todas as variedades em que surgisse um desequilíbrio incapaz de compensação não poderiam manter-se durante muito tempo.
A ação deste princípio assemelha-se exatamente à do regulador centrífugo de uma máquina a vapor, que corrige automaticamente qualquer irregularidade quase antes de ela se tornar evidente. Do mesmo modo, nenhuma deficiência desequilibrada pode atingir grande expressão no reino animal, porque faz sentir os seus efeitos logo desde o primeiro momento, tornando a sobrevivência difícil e a extinção quase inevitável.
Uma origem como a que aqui se defende concorda igualmente com o caráter peculiar das modificações de forma e de estrutura observadas nos seres organizados: as numerosas linhas de divergência que partem de um tipo central; o aperfeiçoamento progressivo e o aumento da eficácia de um determinado órgão ao longo de uma sucessão de espécies aparentadas; e a notável persistência de características pouco importantes, como a cor, a textura da plumagem ou da pelagem, ou a forma dos chifres e das cristas, ao longo de séries de espécies que diferem consideravelmente em caracteres muito mais essenciais. Esta explicação fornece igualmente uma razão para essa «estrutura mais especializada» que o professor Owen aponta como característica das formas atuais em comparação com as formas extintas, e que seria evidentemente o resultado da modificação progressiva de qualquer órgão adaptado a uma função específica na economia do organismo.
Cremos ter demonstrado que existe na natureza uma tendência para a progressão contínua de certas classes de variedades, afastando-se cada vez mais do tipo original — uma progressão à qual não parece haver razão para atribuir quaisquer limites definidos. O mesmo princípio que produz esse resultado no estado de natureza explica igualmente a razão pela qual as variedades domésticas tendem a regressar ao tipo original.
Esta progressão, realizada por pequenos passos em diversas direções, mas sempre limitada e equilibrada pelas condições indispensáveis à preservação da existência, pode, julgamos nós, ser seguida de modo a explicar todos os fenómenos apresentados pelos seres organizados: a sua extinção e sucessão ao longo das épocas passadas, bem como todas as extraordinárias modificações de forma, instinto e hábitos que manifestam.
Ternate, fevereiro de 1858.
- Este manuscrito nunca foi destinado à publicação e, por isso, não foi redigido com especial cuidado. — C. D., 1858.
2. Não vejo mais dificuldade nesta explicação do que naquela que existe quando um agricultor melhora as variedades da planta do algodão. — C. D., 1858.
