Na bela estação dos cogumelos que estamos a atravessar vão-se sucedendo passeios organizados para os ver na natureza, aparecem fotos nas redes sociais de novos achados, é um tema que regressa cada ano. Para além do “mistério” que lhes vem pregado (mais mal que bem), são fotogénicos, encantam.

Vê-los na natureza é uma ótima oportunidade para dá-los a conhecer. E bem falta isso faz, pois o público português não sabe praticamente nada sobre estes seres vivos, incluídos no grupo a que chamamos fungos, a não ser noções gerais dalguns serem comestíveis, doutros serem venenosos, doutros ainda causarem doenças. Iremos ver neste ensaio como é proveitoso saber-se mais, conhecimento todo ele acessível para o grande público. O “mistério” só alimenta um falso “feudo de especialistas”, o que não é bom.
A maior parte dos cogumelos não nos conhecem a nós, diga-se de passagem! Essa maior parte habita em paisagens onde os humanos só vão em visitas fugazes. Essas paisagens são tão especiais e tão reduzidas que os humanos as tentam defender com regimes de proteção. Apesar de ter-se pensado essa proteção sempre para outras espécies (conforme a velha visão do mundo natural composto por animais, vegetais e minerais), essa maior parte de cogumelos, “raros”, beneficia por tabela. Nada mal.
É uma relação distante, a que temos com os cogumelos e os fungos em geral. Distância muito propícia aos mal-entendidos da nossa parte. Será que estamos dispostos a aproximarmo-nos, mais do que nessas visitas fugazes, mais do que meramente perguntar:
Este cogumelo é bom para comer?
OK, vamos supor que se dá a resposta: sim, ou não, ou sim mas tem de ser bem cozido, ou sim mas não convém levar daqui porque é uma espécie rara, ou não mas há quem o use para temperos sem problemas, etc.. A resposta que se vá dar dificilmente satisfaz a curiosidade de quem pergunta, pois falta dizer muito mais para dar a quem pergunta a capacidade de reconhecer esse cogumelo e, já agora, prepará-lo da melhor maneira. O que requer tempo e dedicação, que não cabe num breve contacto. Dar a resposta não encoraja, apenas reforça o “mistério”, sobretudo se vier carregada com nomes em latim. Isso é percebido em pouco tempo, e deixam de perguntar. Logo ali.
Não é esse o caminho para aproximar as pessoas dos cogumelos. É por isso que a resposta
Não digo!
não é má-criação, não é tabu, não é andar a esconder seja o que for; é pedagogia — vem num contexto onde se presta atenção a outras coisas que também podem satisfazer o interesse e permitem enquadrar uma nova relação com estes seres. É para dar alicerces.
Confesso, porém, que um dos maiores prazeres na minha prática de orientar passeios micológicos ou oficinas de micologia é, mesmo no final, juntar cada espécie que eu reconheço ser comestível num montinho e convidar quem quiser a levar alguns cogumelos consigo, recordando algumas pistas sobre a maneira de reconhecê-los. Isto faz parte da mesma pedagogia, pois até esse ponto os comestíveis estavam no meio de todos os outros, enquanto se falava de fungos, de como vivem, de como os observamos, sem estarmos condicionados pela perspetiva de comê-los; e ao fazer a triagem, transmito a ideia de que apontar uma espécie como comestível acarreta uma responsabilidade, e para estar capaz de assumi-la é preciso estudar.
E muitas pessoas assim iniciadas aceitam o convite, algumas mesmo perguntam por guias de campo para aprenderem mais. Assim se vá encurtando a distância.
Identificar espécies
Se vemos um cogumelo e queremos saber se é comestível, precisamos de identificar a espécie a que pertence. O mesmo se tem de dizer para qualquer outro tipo de utilidade que nos interesse dum organismo, este tem de ser identificado ao nível da espécie. Espécie é uma noção abstrata que serve para reunir organismos segundo características biológicas em comum, isto é, diz-nos o que esperar reconhecer nos indivíduos que lhe pertencem ꟷ da mesma maneira que Homo sapiens significa indivíduos com uma postura ereta exceto nas fases iniciais da vida, assim o conhecimento sobre qualquer espécie nos dá as características distintivas, suas variações e condicionantes, que se podem encontrar nos respetivos membros.
A utilidade de ter como referência a espécie fica logo patente quando olhamos para um cogumelo e nos perguntamos se se pode comer, e em que condições, pois identificando-o não precisamos de andar a prová-lo para ter a resposta[1]. Mas então faz falta o conhecimento sobre o modo de identificá-los corretamente, e aí está uma questão que não é nada trivial.
Há uns anos atrás vi na televisão uma reportagem de “caçadores de cogumelos” num pinhal. Com o grupo encontrava-se também a Profª Guilhermina Marques, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, e ela mostrou para a câmara dois cogumelos, vistos pelo lado do chapéu; a imagem era notável pois pareciam idênticos (e note-se que é geralmente isso o que se vê antes de os apanharmos), mas quando ela os virou para revelar como eram por baixo (o pé, e as lâminas debaixo do chapéu) as diferenças eram evidentes. Quantos não são enganados porque só olham para o que está virado para cima?
Muitas vezes a ganância dos coletores de cogumelos do campo leva a que apanhem uma série deles duma assentada, sem examinarem cada um como teria de ser, e fazê-lo com atenção. Não é que a espécie “boa” vá ser contaminada pela proximidade doutra “má” nas suas atividades naturais, o problema acontece quando se juntam exemplares das duas no mesmo tacho. Muitas histórias de intoxicações, por vezes mortais, são a consequência desta precipitação na colheita, e de não se examinarem todas as colheitas, sobretudo no momento em que são feitas.
Lá está, em diversas situações esse cuidado não tem cabimento: muitos coletores de cogumelos, os tais que são mais gananciosos, “caçam” ainda de madrugada, em visibilidade duvidosa, e com muita pressa pois sabem estarem a fazê-lo clandestinamente, mas também porque querem ser os primeiros a “limparem” o terreno onde apanham os cogumelos, antes de virem outros. Fica para depois, nos centros de triagem, alguém separar os “bons” dos “maus” do meio da confusão que vem nas caixas ou cestos, o que até corre bastante bem em geral; mas a coisa complica-se quando se guardam alguns para levar para casa ꟷ e, pior ainda, quando se metem os cogumelos em sacos de plástico e eles acabam por ficar irreconhecíveis ꟷ pois vão à mesma (sem o tal exame cuidadoso ainda no campo) para o tacho.
A clandestinidade com que se opera no mundo dos cogumelos silvestres para consumo humano é um problema que vai muito para lá das colheitas feitas no lusco-fusco. Havemos de voltar ao tema, mas agora há que continuar a falar da identificação das espécies.
Previne-se que este texto não irá ensinar nada sobre as técnicas de identificação de cogumelos.
Devemos a Lineu (Carl von Linné), naturalista sueco que viveu mais ou menos na época do Marquês de Pombal, um sistema de classificação das espécies que se mantém até hoje como um dos pilares fundadores da Biologia e doutras ciências dependentes do mundo vivo, como a agricultura, pecuária, veterinária, medicina humana, indústria alimentar, etc.. Este sistema ajuda a estruturar a gigantesca diversidade de espécies numa hierarquia de agrupamentos, isto é, por níveis taxonómicos: espécies agrupadas em géneros, géneros em famílias, famílias em ordens, ordens em classes… Estes agrupamentos pretendem definir-se por critérios “naturais”, no sentido em que são inerentes às espécies, e por graus de semelhança. Por exemplo a espécie a que pertencemos (Homo sapiens) está no mesmo género que outras Homo (todas fósseis e muito próximas na forma, como Homo neanderthalensis, Homo heidelbergensis, Homo habilis); o género Homo agrupa-se por sua vez na família Hominidae, com outros fósseis menos aparentados como os do género Australopithecus, bem como outros géneros atualmente presentes, como Pan (chimpanzés e bonobós), Gorilla (gorilas), e Pongo (orangotangos); a família Hominidae forma com outras famílias a ordem Primates (primatas, como por exemplo gibões, babuínos, saguins ou lémures), e esta com outras ordens integra a classe Mammalia (mamíferos). Assim sucessivamente até ao que chamamos os reino animal (Metazoa). Todos estes níveis vão indicando características que unem as espécies que contêm: a nossa espécie constrói camas ou “ninhos” e tem um cóccix reduzido como os restantes Hominidae, tem unhas como os Primates, tem pelos como os Mammalia.
No que respeita aos fungos, o número de espécies é desconhecido, mas segundo as melhores estimativas as cerca de 150000 espécies conhecidas andarão por uns meros 6% do número total. Todos os anos são descritas mais de 1000 espécies de fungos novas para a ciência, e a esse ritmo estaremos longe de conhecer tudo nos próximos séculos! Investigações baseadas no DNA ambiental, obtido por exemplo de solos florestais, revelam repetidamente que nesses ambientes encontra-se uma maioria de espécies ainda não catalogadas. Os motivos para este “atraso” no conhecimento dos fungos é em parte relacionado com a dificuldade em identificar todos, em parte também porque a maior parte das espécies não se dão a conhecer facilmente ꟷ só uma minoria produz estruturas vistosas e detetáveis a olho nu como os cogumelos, e mesmo entre estas a maior parte está em paragens inexploradas ou, mesmo que a viverem debaixo dos nossos narizes como por exemplo num vaso de flores, permanecem “escondidas” no seu ambiente.
Haverá sempre, desgraçadamente, quem repita as falsidades sobre “atalhos” para dizer se um cogumelo é tóxico: o “truque” do alho no tacho, o “truque” da colher de prata, o dar um pedaço a comer ao (sacrificial) animal de estimação… São tudo métodos com uma fraca sensibilidade (há espécies “más” que passam por boas, e esperemos que no uso duma “cobaia” animal isso não aconteça) e uma fraca especificidade (há espécies “boas” que passam por más). O único método é o da abordagem científica: identificar a espécie! Mas, sendo científica, não está fora do alcance de quem se interesse por este desafio, é tudo uma questão de inclinação natural e trabalho, muito trabalho.
Seguem dois exemplos de géneros de fungos onde há espécies para todos os (des)gostos, e para sublinhar o fundamental que é realizar uma identificação precisa.
O primeiro exemplo é o género Amanita. Produz alguns dos cogumelos mais conhecidos popularmente, geralmente médios a grandes e muitas vezes espetaculares. Tipicamente agaricoides, isto é, com um chapéu encimando um pé, apresentando no lado inferior do chapéu dezenas de lâminas dispostas radialmente, têm a importante particularidade duma cobertura na base do pé, muito variável entre espécies: a volva. Sobre o chapéu e também ao longo do pé podem ver-se em várias espécies restos da mesma estrutura de que ficou a volva: estes cogumelos apresentam-se no início envolvidos por ela, alguns até parecendo um ovo, e quando se desenvolvem rompem-na, podendo ficar no chapéu uns restos em forma de flocos ou placas, ou não ficar nada. Ilustrando com algumas espécies:

Amanita muscaria tem um chapéu tipicamente vermelho vivo (mas também pode ser alaranjado) normalmente coberto de flocos de volva, um pé inteiramente branco com um anel membranoso como que a formar uma saia, e lâminas brancas. Esta imagem muito popular surge-nos em diversos ambientes florestais (até nas plantações de eucalipto que tenham arbustos como as estevas a crescer lá dentro), solitário ou em grupos, que às vezes cobrem extensões consideráveis. Não tem cheiro nem sabor dignos de nota, e é tóxico, provocando distúrbios gastrointestinais, taquicardia e perturbações neurológicas.
Amanita caesarea tem um chapéu laranja vivo e as lâminas e pé (anel incluído) são amarelos, e restos de volva na base do pé, embora possa ficar alguma placa no chapéu num ou noutro exemplar. É um excelente comestível, mas quem não dê atenção à cor do pé (provavelmente por desconhecimento) pode colher uma Amanita muscaria com chapéu alaranjado que perdeu os flocos de volva, uma confusão que irá indispor e não é pouco.
Mas repare-se na base do pé destas duas espécies. Enquanto na primeira temos um alargamento em bolbo com um rebordo “circunciso” e uma correia de flocos brancos logo acima, na segunda a volva fica como que a formar um saco de cor branca a contrastar com o amarelo do pé, de abas irregulares subindo quase até à altura do anel. Esta comparação ajuda a mostrar o contraste entre as duas espécies para quem esteja atento, mas também para fixar uma regra que se aplica a todas as colheitas, de qualquer cogumelo: nunca, mas mesmo nunca, podem crer que nunca por nunca, se corta o pé dum cogumelo para o colher![2] A colheita tem de incluir a totalidade do cogumelo, pois muitas espécies só podem ser identificadas visualmente se a base do pé puder ser observada. Uma boa analogia com essa prática de cortar o pé: deixar a placenta na barriga da mãe após cortar o cordão umbilical —é na base do pé que está a ligação do cogumelo à estrutura que o sustenta, para nós invisível[3]. Assim, tem de trazer-se tudo cá para fora, mesmo quando está a uma boa dezena de centímetros de profundidade como é frequente acontecer com os cogumelos do género Amanita.
Nunca cortar o pé, certo? É sempre oportuno insistir neste ponto.
Amanita ponderosa é um cogumelo muito apreciado em partes de Portugal e Espanha (tradicionalmente na província de Huelva e, do lado de cá, no Alentejo) com uma cor uniforme que começa por ser branca e passa a ocre depois de colhido, e que “enrubesce” onde se esfrega no chapéu ainda branco. Tem uma volva em saco na base do pé, maciça, e às vezes nota-se um anel “cremoso” no pé, que deixa de ser visível à medida que cresce. Mal chega a emergir do solo, pois fica semienterrado, e ocorre entre fins de inverno e primavera, em solos pesados, relativamente magros, onde se encontrem estevas, sargaços, roselhas, etc. (espécies vegetais do género Cistus).
Amanita verna também é branca, tende a aparecer na mesma época do ano e nos mesmos locais que a Amanita ponderosa; mas é tóxica mortal, e facilmente se imagina como é frequente a intoxicação de consumidores de Amanita ponderosa… No entanto, a confusão é em teoria difícil de fazer (para quem conheça as duas espécies): Amanita verna nunca muda de cor, tem um anel membranoso, e a volva na base do pé, embora seja em saco, tem uma consistência mole. Mas até os mais conhecedores têm “acidentes”, que com este cogumelo podem ser fatais.
Podíamos continuar a desfiar os “bons” e “maus” só dentro do género Amanita. Mas passemos a outro tipo de fungo, dos que se costuma designar “microfungos” pois só os conseguimos reconhecer com a ajuda dum microscópio: o género Aspergillus.
Só um parêntesis antes de prosseguir, para uma pequena explicação sobre os nomes científicos. São sempre apresentados em itálico pois, para além de estarem em latim, se destacam desta maneira do restante texto. A esta convenção acrescenta-se um contributo perene de Lineu: nomes das espécies consistem de duas palavras, a primeira delas identificando o género e a segunda o epíteto específico, diferenciador em relação ao das outras espécies dentro do género e sempre em minúsculas. Em lugar de usarmos nomes comuns (vernáculo) para as espécies, em Biologia são os nomes científicos, em latim, que servem. E isso por duas razões: a transnacionalidade, cuja importância parece desnecessário estar aqui a sublinhar, e a exclusividade — só há um nome científico válido para cada espécie, e uma espécie para cada nome científico. Em contraste, os nomes comuns são demasiado locais, demasiado dialetais, e quando mudamos de região podemos dar com o mesmo nome para uma espécie bem diferente.
As espécies do género Aspergilus são reconhecidas por formarem uma estrutura microscópica com a forma de aspersório, o conidióforo, nome que alude à produção de células reprodutoras que funcionam como sementes, os conídios (figura). São fungos muito comuns nos solos e materiais em decomposição, e os conídios encontram-se um pouco por toda a parte, nomeadamente no ar que respiramos. Para poder conhecer estas espécies e identificá-las é necessário isolar o fungo em culturas de laboratório: usando um substrato gelificado com agar-agar e contendo substâncias nutritivas para os Aspergillus, os conídios que nele caiam podem germinar e crescer para tornar-se numa colónia visível a olho nu. O trabalho em seguida consiste em transferir cada colónia para novas culturas de modo que o que resultou dum único conídio fique isolado (cultura pura), e só a partir daí vem a observação em condições padronizadas e a identificação. Alguns exemplos de espécies:

Aspergillus flavus produz colónias verde-amareladas na face em contacto com o ar (“acima”) e amarelo a castanho-avermelhado na face em contacto com o agar-agar (“abaixo”), a haste do conidióforo é longa e rugosa, incolor, podendo ou não exibir métulas, e os conídios apresentam-se em fiadas dispostas radialmente. Além disso, pode formar massas castanhas chamadas esclerócios. Tem impacto na agricultura, diminuindo as colheitas e contaminando produtos armazenados, e na saúde, principalmente pela ingestão de aflatoxinas em comida contaminada por esta espécie, que causam crises digestivas agudas por vezes mortais ou, por exposição crónica, cancro do fígado.
Aspergillus fumigatus produz colónias verde-azulado a cinzento acima, branco a castanho claro abaixo, e tem a particularidade de ser termotolerante, crescendo sem problemas acima dos 40 ºC e até dos 50 ºC; a haste do conidióforo é curta, lisa, incolor ou esverdeada, não tem métulas e os conídios dispõem-se em fiadas paralelas (“colunas”). É o principal causador da aspergilose, uma infeção dos pulmões que se diz oportunista pois “só” atinge indivíduos cujas defesas imunitárias estão comprometidas (por exemplo, quem tenha recebido um transplante, esteja a ser tratado para certos tipos de leucemia, sofra de SIDA…) ou têm doenças respiratórias crónicas (asma, fibrose quística, outras insuficiências respiratórias) ou lesões pulmonares (por antecedentes de tuberculose). A forma invasiva deve-se à propagação para outros órgãos e tem elevada taxa de mortalidade, pelo que a cada vez mais frequente resistência aos medicamentos usados para combater esta infeção está-se a tornar muito preocupante. A aspergilose também pode ser causada por outras espécies (o já mencionado Aspergillus flavus é um exemplo), e tem a sua versão nas aves, atingindo não só os pulmões mas também os sacos aéreos. O Aspergillus fumigatus, uma vez instalado no hospedeiro, produz toxinas como a gliotoxina, que reduz as defesas do organismo.
Aspergillus niger produz colónias pretas acima e esbranquiçadas abaixo; a haste do conidióforo é longa e lisa, tem métulas, e as fiadas de conídios são colunares. É de grande utilidade na indústria alimentar (como principal fonte de ácido cítrico e do pré-biótico FOS, entre muitos outros exemplos) e de enzimas (por exemplo, um biossensor da glucose). Mas também causa problemas de saúde quando contamina a comida (“bolor negro”), produzindo lesões renais pela libertação de ocratoxina A, ou ainda infeções do ouvido, aspergilose…
Aspergillus terreus produz colónias castanhas (cor de canela ou mais escuro) acima e branco a castanho abaixo; a haste do conidióforo é curta, lisa, incolor, com métulas, fiadas de conídios colunares compactas, e produz aleuriconídios (conídios fora do conidióforo). Produz enzimas importantes para a indústria, por exemplo a xilanase usada para branquear a pasta de papel, e recentemente demonstrou-se a sua capacidade de digerir polipropileno, um plástico muito difícil de reciclar.
Poderá perguntar-se porque é que espécies que vivem da decomposição de matéria orgânica fabricam toxinas e mais toxinas. Há duas respostas possíveis: a mais simpática, é que estas toxinas são importantes para afastar a competição (outros fungos, bactérias… lembrem-se, por exemplo, antibióticos de origem fúngica como a penicilina); a menos simpática, é que as espécies de Aspergillus também gostam de explorar oportunidades dadas por organismos que possam estar debilitados, e ajudá-los a morrerem. Esta segunda interpretação encaixa-se com a noção de que muitos fungos ꟷ a maior parte? ꟷ são capazes de várias estratégias de obtenção de alimento. Na segunda parte este assunto volta a ser abordado.
Com os géneros Amanita e Aspergillus explorámos a importância de diferenciar as espécies com precisão. E da necessidade de combinar o treino da observação com informação de referência, para saber como identificá-las.
Daí que faça pouco sentido estar a dizer se este ou aquele cogumelo é bom para comer, quando a informação que isso representa não ajuda a voltar a identificá-lo. Pelo contrário, na primeira aproximação aos cogumelos a atenção pode e deve virar-se para o conhecimento do que são os fungos, do que fazem no mundo que nos rodeia e porque isso importa, muito para lá do deleite gastronómico que algumas espécies, sem dúvida, propiciam. Quem se interesse por estes aspetos não deixará de interessar-se pela identificação e, assim, ganhar uma competência muito útil porque bem enquadrada pelo conhecimento adquirido.
Os fungos nos ecossistemas
Para muitas pessoas a palavra ecossistema faz pensar em restrições ao desenvolvimento da economia, em extremistas que se sentem no direito de “protestar” de maneira destrutiva, ou em biólogos fofinhos que dedicam as suas vidas a coisas sem importância mas com a áspera inclinação para dizer aos outros que andam a portar-se mal. Desde já admito que essa reação é compreensível, pois a mensagem que passa sobre os ecossistemas é distorcida por simplificações, ou vem acompanhada de conversa complicada, ou é martelada com chavões anestesiantes como “alterações climáticas” e “biodiversidade” ꟷ enfim, também porque já se banalizou e os “programas de vida selvagem” se reduzem a entretenimento e turismo de sofá.
Caro David (Attenborough), tu que tanto fizeste por transmitires a mensagem correta, imagino como te sentes ao veres o interesse pelos ecossistemas nunca ter “descolado” realmente, e como vem regredindo com os negacionismos que passaram a proliferar com a web 2.0! Apesar dos melhores esforços para ajudar o grande público a compreender o que são ecossistemas e o seu funcionamento, e como a atividade humana pode ser equilibrada para garantir a sua continuidade, os resultados são muito modestos.
E mesmo que a mensagem fosse sempre correta, nunca deixou de haver um problema fundamental: trazer as imagens dos ecossistemas para os lares precisa do movimento contrário, das pessoas para os ecossistemas, em proporção muito maior do que acontece; o contacto direto é insubstituível, enquanto o usufruto da natureza a partir de casa é demasiado complacente, não mobiliza as consciências.
Um ecossistema é uma comunidade de seres vivos, e o meio físico que os enquadra, e ainda as interações que ocorrem entre tudo isso. É a realidade mais complexa da Biologia. Mesmo um simples aquário redondo ꟷ com um par de peixinhos dourados, umas plantinhas e a areia do fundo ꟷ é complexo, primeiro porque para além desses elementos facilmente visíveis há outros, invisíveis, que contribuem para o seu funcionamento: micro-organismos como bactérias e microfungos. E depois, porque mesmo num exemplo como este, compreender todas as interações não é tarefa simples. Mas uma coisa sabemos: que a água tem de ser mudada de vez em quando, pois todo o ecossistema evolui e nem sempre é para melhor.
Apesar dos desafios da complexidade dos ecossistemas, a Ecologia (ramo da Biologia que estuda os ecossistemas) tem maneiras de compreender alguma coisa e daí tirar lições muito importantes. Delas, uma das que se tornou cada vez mais patente, é a importância imensa dos fungos em todos os aspetos do funcionamento dos ecossistemas terrestres. Não que não haja outros grupos de organismos com capacidades semelhantes, mas os fungos são quem predomina. Dando três exemplos relacionados com as florestas, só para aperitivo do que será desenvolvido na segunda parte deste texto:
Muitas árvores de climas temperados e frios deixam cair as folhas depois do verão. As imagens de belas copas de cores douradas e alaranjadas traduzem uma estratégia dessas árvores de deixarem de investir na produção de energia a partir do sol, reduzir a sua atividade e sustentar-se das reservas que acumularam até que a temperatura volte a aumentar. O tapete de folhas caídas iria acumular-se até submergir as próprias árvores se não houvesse organismos decompositores, principalmente fungos, que vão reduzindo as folhas (e ramos ou restos de flores e frutos também caídos) em matéria que se incorpora no solo e continua a ser decomposta até ficar mineralizada.
Entre 323 e 252 milhões de anos antes da nossa era os ecossistemas terrestres passaram por uma fase de acumulação de restos vegetais de que resultaram cerca de 90% das reservas de carvão que chegaram aos dias da revolução industrial. Até se chamou Carbonífero ao primeiro período desta fase, e embora os fenómenos fossem complexos houve um fator que entrou em cena por estas alturas, após o que a formação de tais depósitos de carbono fossilizado se reduziu drasticamente: fungos capazes de ꟷ finalmente ꟷ decompor a lenhina, a principal substância da madeira, e que até aí não era biodegradável. Antes disso a lenhina acumulava-se em vastíssimas áreas e só muito lentamente saía de cena quando ficava soterrada e assim iria dando origem às jazidas de carvão. Foram os fungos (um certo grupo deles, especializados nesta abundância de Carbono sequestrado na lenhina) quem se encarregou de muito mais rapidamente a reciclar para, mais ou menos diretamente, reconduzir o Carbono para a atmosfera. Sem eles a reposição do dióxido de Carbono da atmosfera iria depender cada vez mais da caprichosa atividade vulcânica, provavelmente com constrangimentos ao crescimento dos organismos vivos pelas limitações impostas à fotossíntese.
As árvores crescem não só em função da energia solar mas também dos minerais e água que captam do solo. Praticamente nenhuma planta terrestre pode passar sem a colaboração de fungos na obtenção destes nutrientes do solo, e no caso das árvores florestais há uma categoria de fungos ꟷ entre os quais os que dão cogumelos “bons” para comer, mas também os “maus” ꟷ que são os agentes predominantes desta colaboração. A maior parte das espécies do género Amanita são apenas uma parte do numeroso elenco desses fungos florestais. A importância desta dependência é ao ponto de, segundo uma estimativa, o montante do “investimento” das árvores florestais em fungos que, no solo, as ajudam a crescer, representa cerca de 40% da energia captada da luz solar pela fotossíntese.
Foram três breves exemplos de funções de enorme importância dos fungos nos ecossistemas florestais, e que pode facilmente estender-se a outros tipos de ecossistemas, sobretudo os terrestres. Se admiramos e reverenciamos as plantas por serem a base para todos os ecossistemas, façamo-lo também pelos fungos, que a otimizam, reciclam e mantêm viável.
Poderá reparar-se em como Ecologia e Economia utilizam a mesma lógica. E nem é por partilharem a raiz ‘eco’, que vem do Grego οἶκος (casa), mas também porque faz sentido essa partilha. A energia captada da luz solar pela fotossíntese é a “fonte de riqueza” e “moeda de troca” em todas as “transações” que se operam entre os “agentes ecológicos” dos ecossistemas, sendo que cada um pode armazenar o “lucro” da sua atividade.
Compreender os fungos, mesmo que limitadamente (há tanto ainda por saber!), abre a compreensão do modo de funcionar dos ecossistemas. Não é à toa que mesmo o mais maniacamente glutão dos coletores de cogumelos aprende a apreciar o ecossistema onde os pode encontrar, pela simples razão de ter de aproximar-se e sentir-se dentro dele. Daí o comentário acima de ser fundamental trazer o público “à natureza”: quem se aproxima, não tendo de descartar uma perspetiva utilitária, acrescenta-lhe algo de muito importante, nomeadamente acaba por perceber a multiplicidade de serviços prestados ꟷ gratuitamente ꟷ pelos ecossistemas, e por isso ganha uma visão mais ampla onde se apercebe da complexidade dos mesmos, valorizando-os por tais serviços.
Ver os ecossistemas do ponto de vista dos fungos é uma excelente aprendizagem de Ecologia.
- Por certo o conhecimento sobre serem comestíveis ou tóxicos implicou alguma vez, desde tempos muito antigos, a aventura de prová-los! ↑
- Há quem defenda que “é para deixar a base do cogumelo para ele continuar na natureza”, o que é um embuste — salvo se for fruto de repetição acrítica daquilo que se ouve. Oportunamente se voltará a este ponto. ↑
- Não se pense que um cogumelo que (por exemplo) cresce num tronco caído se alimenta diretamente da madeira: a madeira alimenta essa estrutura que nos é invisível. Oportunamente se voltará a este ponto. ↑
