ESCRITA(S) NO FEMININO, por Ana Paula Santos, Licenciada em Humanidades (Universidade Aberta), Mestranda em Estudos de Língua Portuguesa (Universidade Aberta). Projecto: Senhoras das Letras (Instagram e Facebook). Email aqui.

Miss Auras, The Red Book
Sir John Lavery, c. 1905-7
As Humanidades Digitais na divulgação da Literatura Feminina
Humanidades e Humanidades Digitais
A área das Humanidades encontra-se em franca expansão, movendo-se entre terrenos plurais e utilizando procedimentos diversos, enquanto combina o meio digital com as metodologias tradicionais. Permite, sem dúvida, a (co)existência de novas formas de investigação, mas também de análise e de disseminação do conhecimento, num processo onde a relevância das fontes originais não é esquecida, antes pelo contrário.
“Em termos genéricos, as Humanidades Digitais englobam o conjunto de pesquisas e experiências que visam facilitar a utilização dos recursos digitais no âmbito das ciências sociais e humanas, tornando-os mais intuitivos e acessíveis” (Guerreiro e Borbinha, 2014: 64). Face a este propósito, muitos projectos digitais de âmbito literário têm surgido – em particular na última década –, com o propósito de tornar acessível e igualitária a oportunidade de acesso a obras literárias, quer sejam desconhecidas, quer sejam obras de referência. Deste modo, suprimem-se barreiras de vários tipos, principalmente limitações geográficas, para além de se manter o foco na preservação das fontes históricas.
Enquadramento
O presente artigo tem como base a reflexão integrada no II Congresso Internacional de Humanidades da Universidade Aberta[1], em 2025, onde tive a oportunidade e a honra de apresentar a comunicação “Os recursos digitais no resgate das autoras do passado”. O objetivo da mesma era relativamente simples: revelar de que forma os recursos digitais têm proporcionado a descoberta de elementos biográficos, assim como dos textos originais de escritoras portuguesas desconhecidas ou pouco divulgadas, de forma a trazê-las de volta ao espaço público. Tal ligação proporciona às autoras um merecido destaque, quer no panorama literário, quer a nível académico, concretizando-se, por fim, um verdadeiro resgate. E este resgate é, sem dúvida, necessário, na medida em que se constitui como uma preciosa colaboração para a História Portuguesa e para a Literatura Portuguesa. Aliás, arrisco a afirmar que devemos isto à nossa própria história, pois faltam as perspectivas femininas, as suas vozes e os seus anseios; mas também, as suas lutas e as suas conquistas. Falta, no fundo, acrescentar à Literatura Portuguesa a visão feminina de cada época.


O ambiente digital e as mulheres escritoras
O ambiente digital impõe-nos desafios diários; por outro lado, permite-nos alcançar dinâmicas que se expandem e se renovam a cada dia, perante as infindáveis possibilidades tecnológicas do presente. No campo da investigação, em particular no que diz respeito às autoras portuguesas, os recursos digitais têm gerado feitos valorosos no movimento de restituição de vozes subestimadas e olvidadas, ao longo dos tempos.
É importante dar nota que muitas destas mulheres revelaram possuir elevada mestria no mundo das letras, tendo dominado distintos géneros literários e congregado um volume considerável de escritos, sendo bastante valorizadas pelos seus conterrâneos. Algumas dinamizaram, ainda, salões literários com uma relevância fundamental para o panorama cultural da época, sendo vistas como um exemplo a seguir. No entanto, a maioria destas senhoras ficaram esquecidas numa espécie de “baú do tempo”, não sendo celebradas nem valorizadas pelas suas capacidades enquanto autoras, nem chegando a alcançar um lugar no Cânone Português.
Principalmente, ao longo da última década, têm surgido projectos deveras significativos, na medida em que permitem um acesso fácil e rápido a textos e a manuscritos que estavam anteriormente limitados ao espaço das bibliotecas físicas e das coleções privadas. Neste enquadramento, a digitalização de documentos históricos e a criação de bases de dados de teor biográfico-literário conduzem-nos a um conjunto pertinente de oportunidades de investigação, as quais não têm limites nem fronteiras. Através das possibilidades geradas por este “mundo novo”[2], torna-se exequível congregar e organizar vastas quantidades de dados, preparando-os para a partilha no amplo espaço digital, num verdadeiro movimento de valorização do passado e da tradição, sob o olhar atento do presente.
Em paralelo, o uso frequente das redes sociais, dos blogues, de podcasts ou de outros portais de teor social facilitam a divulgação de muitos destes nomes e dos seus trabalhos, atraindo, em simultâneo, uma camada de leitores ou de pesquisadores cada vez mais jovem, mas também de perfis diversificados, quer em Portugal, quer no Brasil, ou até mesmo junto de investigadores ingleses ou americanos, com especial interesse na cultura portuguesa. Desta forma, é possível trabalhar para a construção de uma análise crítica em torno do papel da mulher na Literatura, abrindo portas ao diálogo em relação à sua inclusão no Cânone Português, o que constata a importância inegável das Humanidades Digitais no processo.
As mulheres enquanto autoras
As mulheres, enquanto autoras, sempre se depararam com imensas dificuldades e barreiras, principalmente até ao século XIX. Graças à imprensa oitocentista, que contribuiu exponencialmente para uma mudança de paradigma, a mulher, enquanto ser familiar – filha, esposa e mãe – conquistou por fim o seu espaço social, sujeita a juízos desaprovadores, é certo, mas também trilhando um caminho feito de entendimento e de encontros, em especial com outras mulheres em situação semelhante. Através da imprensa periódica, a autoria feminina passou a consagrar-se como uma realidade com que toda a gente passou a conviver diariamente. E as mulheres tornaram-se tradutoras, autoras, colaboradoras ou redatoras de gazetas e de revistas, mas também editoras e tipógrafas.
Uma das fontes mais completas no acesso à imprensa periódica portuguesa é o website da Hemeroteca Digital de Lisboa, o qual contempla uma vasta seleção de revistas e de periódicos digitalizados, com as respetivas informações técnicas, criteriosamente redigidas. Destacarei apenas dois exemplos a que podemos aceder, através de um mero clique: Ribaltas e Gambiarras[3], que teve como redactor – ou redactora – Guiomar de Torresão, sob o pseudónimo Delfim de Noronha, e A Mulher[4], que teve como colaboradora assídua Maria Amália Vaz de Carvalho.


Numa fase inicial, os periódicos oitocentistas garantiram visibilidade às opções de escrita das mulheres autoras, através do anonimato ou de pseudónimos, permitindo uma colaboração anteriormente impensável. Os salões literários, assim como o esforço e a dedicação de homens das letras e de relevantes pedagogos no campo da instrução feminina, de que é exemplo António Feliciano Castilho, também foram peças fundamentais para a mudança subsequente, onde a importância da educação da mulher ganhou, finalmente, um merecido papel social.
O século XX chegou, entretanto, e mais transformações ocorreram. Mas, infelizmente, a partir do Estado Novo, a mulher voltou ao seu nicho doméstico e a luta permaneceu. Após os anos 80 e 90 do século passado, surgiu a necessidade de recuperar as mulheres escritoras, sendo também a fase em que Florbela Espanca – uma das escritoras portuguesas mais célebres – é finalmente apreciada e investigada. Muitas outras se seguiram, dando finalmente origem a um movimento de revelação, por meio de inúmeros estudos biográficos, projectos de reedições de obras, projectos digitais, e por aí adiante. E, felizmente, esse movimento não tem cessado, nem perdido o seu fulgor.
Um encontro com estas mulheres
Hoje, nem sempre o primeiro contacto com determinado título acontece através do livro propriamente dito. O mundo digital traz-nos, na maioria das vezes, a relação oposta: primeiro, existe uma primeira abordagem, a nível biográfico, com um nome que nos suscita, porventura, algum interesse, e depois avançamos para a pesquisa de mais elementos e de textos específicos dessa autora. Em qualquer um dos casos, o conhecimento é habitualmente transmitido através de projectos e de bibliotecas digitais que permitem a expansão das fronteiras, incluindo por parte de entidades oficiais, como acontece no caso da página digital da Biblioteca Nacional de Portugal.
Por fim, pode dar-se ou não o encontro final com o livro, após incessantes buscas em alfarrabistas ou através de editoras que reeditam obras antigas, transformando o livro na materialização de uma voz em franca recuperação. Neste contexto, gostaria de salientar a pertinência do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela editora Sibila Publicações[5], editora que tem reeditado, num formato tradicional – ou seja, em papel –, alguns títulos de Ana Plácido e de Ana de Castro Osório, mulheres que tiveram uma importância fundamental nas suas épocas, e que gradualmente estão a ser redescobertas. Ana Plácido usou o pseudónimo Lopo de Souza, sendo conhecida pela sua relação com Camilo Castelo Branco, e Ana de Castro Osório, é lembrada por ser uma importante feminista republicana, mas também uma pioneira na Literatura Infanto-Juvenil. À parte disto, falta sabermos muito mais. E, acima de tudo, lermos muito mais daquilo que foi criado por estas interessantes senhoras, e também por tantas outras.
Há alguns anos, deparei-me com o livro Poetisas Portuguesas, da autoria de Nuno Catarino de Cardoso, em versão digital, num website cuja digitalização pertencia à colecção da Universidade de Toronto. Este título, bastante raro, foi publicado em 1917, e reuniu dados biográficos e poemas – alguns inéditos – de cento e seis figuras femininas da época. Na altura da minha descoberta, eu não conhecia nem a antologia nem o autor, nem tampouco um terço das autoras que constam neste maravilhoso compêndio. Porém, através de uma simples pesquisa no Google, estava a absorver um conhecimento tão relevante para as minhas futuras pesquisas. Uma oportunidade única, à distância de uma “mera” pesquisa no espaço online. É incrível o mundo digital! É absolutamente indescritível o que nos permite fazer; até onde nos leva, no fundo!
Através deste livro, numa versão modernizada e de fácil acesso, conheci a poetisa Mariana Angélica de Andrade, e qual não foi o meu espanto quando me apercebi que viveu grande parte da sua vida na minha terra natal, Setúbal, sendo carinhosamente apelidada de Poetisa do Sado. Aqui, começou a minha busca pelos textos de Mariana, pois não me podia contentar com uma ínfima parte de si – somente em termos biográficos –, nem com apenas dois dos seus poemas: “A minha Estrella!” e “Mistérios do Toucador”. Mais tarde, consegui aceder ao seu primeiro livro de poesia, datado de 1870 e intitulado Murmurios do Sado, também em versão digital, noutra parte do mundo, desta vez num website cujo documento pertencia à Universidade de Michigan.
Hoje, consigo aceder a ambos os exemplares, em formato físico, nas suas primeiras e raríssimas edições: a “Mariana” chegou à minha casa há cerca de quatro anos, e o “Nuno Catarino” há um ano; ambos os exemplares adquiridos num alfarrabista e já fazendo parte da minha biblioteca pessoal.
Mas, e se a digitalização destas obras não tivesse ocorrido, a que caminhos – seguramente mais limitados – teria chegado a minha demanda? Como teria alcançado estas vozes?

Projectos de Humanidades Digitais
Existe, de facto, um infindável número de casos que associam a modernidade à tradição, através das possibilidades fornecidas pelas ferramentas digitais: websites, bibliotecas digitais, bases de dados, projectos nas redes sociais – nomeadamente no Instagram, que tem a sua popular dinâmica literária denominada Bookstagram – projectos no YouTube, blogues, e tantos outros. Destacarei apenas alguns que possuem elevada pertinência no domínio da pesquisa e investigação da autoria feminina, incluindo nesta selecção os projetos institucionais, mas também os projetos independentes, mantendo seguramente o foco no bom rigor das informações por eles partilhadas.
O website Escritoras em Português (antes de 1900) foi sujeito a uma nova imagem, tendo perdido algumas informações quanto às autoras oitocentistas. Porém, é um precioso auxílio na medida em que fornece uma detalhada listagem de autoras portuguesas, desde o século XV ao século XIX, incluindo os seus dados biográficos e bibliográficos, mas também contemplando informações referentes a bibliografia técnica e secundária, consagrando-se, no fundo, como uma abordagem vantajosa a investigações introdutórias na área.
O website Mulheres Escritoras: Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração fornece informações menos detalhadas em termos biográficos e bibliográficos, funcionando principalmente em formato de lista, e incidindo particularmente no século XX. É ainda possível fazer pesquisa através dos nomes das autoras ou dos títulos das obras, entre outras informações. À semelhança do projecto citado anteriormente, é uma página digital que fornece uma pesquisa inicial rápida e simples.
No que diz respeito a projectos que se caracterizam por serem, afinal, bibliotecas digitais, destacarei os projetos Bibliotrónica Portuguesa e Projecto Adamastor. A Bibliotrónica Portuguesa tem como missão proporcionar um acesso gratuito a textos que se encontram em domínio público, em formato PDF e disponíveis para download, sendo uma biblioteca recomendada pelo Plano Nacional de Leitura e pela Direção-Geral do Livro, entre outras entidades. Gostaria de enaltecer a forte presença feminina no seu catálogo de reedições, dada a disponibilidade de mais do que um título de Ana de Castro Osório, de Luthgarda Caires e de Maria Amália Vaz de Carvalho, juntamente com Inocente de Virgínia de Castro e Almeida.
Por fim, termino os exemplos mencionando o Projecto Adamastor, também com um catálogo disponível para download, embora os ficheiros se encontrem em formatos distintos, nomeadamente EPUB e MOBI, já que foram adaptados aos leitores digitais, como o Kobo. A missão deste projecto é disponibilizar, de modo gratuito, o usufruto de obras em Língua Portuguesa, também em domínio público, incluindo obras de autoras como Florbela Espanca, Ana de Castro Osório, Maria Amália Vaz de Carvalho e Virgínia de Castro e Almeida. A antologia Vozes Femininas também é um elemento essencial, aproximando o leitor a narrativas breves de autoras relativamente silenciadas.
No meio das autoras mencionadas, temos acesso a Murmurios do Sado de Mariana Angélica de Andrade, através de um processo de transposição do passado para o presente muito bem concretizado, onde tive o privilégio de participar. O mais interessante é constatar que o primeiro livro desta autora pouco conhecida – obviamente numa versão adaptada aos modos de leitura actuais –, se encontra a circular pelo mundo, devido ao seu formato e-book, aos e-readers e às parcerias criadas com lojas online como a Kobo. Tal feito é deveras precioso!

Considerações finais
Valorizar o passado e o presente, com uma intenção destinada às gerações futuras: eis o propósito das Humanidades Digitais. Como tal, projectos como aqueles que aqui foram mencionados, cuja pertinência cultural e histórica é notável, contemplam uma simbiose muito bem conseguida entre a valorização da História, da Língua e da Cultura portuguesas. Como tal, importa alertar para o facto de ser necessário apostar em mais digitalizações dos textos originais, de forma a se procederem a leituras e a investigações directamente da fonte. É urgente que as vozes literárias destas mulheres sejam trazidas para um circuito de divulgação geral, em especial para junto do meio académico: o meio por excelência da transmissão de conhecimento, dotado da pluralidade de métodos de aprendizagem.
Às leitoras e aos leitores, solicita-se que cumpram o seu papel enquanto receptores do melhor que cada livro contém: a alma de quem o construiu; que procurem e usufruam destas escritas femininas e as tragam, por fim, de volta. Talvez assim se dê a respectiva valorização a todas as mulheres escritoras enclausuradas no tempo. Talvez assim possamos proceder, em conjunto, à sua justiça literária, validando as suas palavras, as suas ideias e as suas intenções!
A rubrica Escrita(s) no Feminino pretende, acima de tudo, aproximar leitores a leituras à margem do Cânone, lançando, desde logo, um desafio a cada receptor: que confirme por si a pertinência de inúmeras vozes silenciadas, ao longo dos tempos, ainda que, na época, as mulheres em análise tenham sido alvo de admiração e elevação.
Recursos bibliográficos
Andrade, Mariana Angélica de. Murmurios do Sado. Setúbal: Typographia de José Augusto Rocha, 1870
Cardoso, Nuno Catharino. Poetisas Portuguesas. Lisboa: Livraria Scientifica, 1917
Guerreiro, Dália e Borbinha, José Luís. “Humanidades Digitais: Novos Desafios e Oportunidades”. Cadernos BAD, nº 1, jan.-jun., 2014, pp. 63-78
Lopes, Ana Maria Costa. Imagens da mulher na imprensa feminina de oitocentos, percursos de modernidade. Lisboa: Quimera Editores, 2005
Lista de recursos digitais
Biblioteca Nacional de Portugal: https://www.bnportugal.gov.pt/
Bibliotrónica Portuguesa: https://bibliotronicapt.pt/
Escritoras em Português (antes de 1900): https://escritoras-em-portugues.com/pt_pt/
Hemeroteca Digital de Lisboa: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Mulheres Escritoras: Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração: https://mulheresescritoras.pt/
Projecto Adamastor: https://projectoadamastor.org/
-
Título de um romance de Ana de Castro Osório, usado de forma intencional. ↑
-
Vide https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/periodicos/ribaltasegambiarras/ribaltasegambiarras.htm . ↑
-
Vide https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/AMulher/AMulher.htm . ↑
