
Ouve-se a chuva que guerreia contra o chão empedrado, as paredes e as vidraças. É madrugada mas já se ouve o bulicío dos cavalos atrelados. Animais cheios de complacência e honrados pelo valor da fidelidade têm já o pelo molhado e suportam sem dificuldade os arreios que escorregam no seu dorso fazendo ranger o couro. Os cascos batem no chão e eles resfolgam renovando a sua paciência na intempérie que os fustiga.
Acendem-se os lampiões por toda a parte e o cocheiro dá uma última volta aos seus animais: Júpiter e Jade seguem na dianteira. São companheiros de uma vida nascidos no mesmo ano e criados no mesmo pasto e quando um deles prevê um movimento já o outro o executa. Atrás estão Baco e Lira, ambos aprendizes deste ofício que é a atrelagem, seguindo o exemplos dos dois experientes animais que estão à sua frente. Baco é dócil mas ainda dotado da rebeldia da juventude e Lira é também meiga embora bastante temerosa. O seu instinto encontra uma ameaça eminente nas poças de água e movimentos inesperados.
O trote dos quatro companheiros anuncia mais um dia de longas viagens que o grupo faz na esperança que ao entardecer a recompensa de um pouco de feno e uma generosa porção de água estejam à sua espera.
E lá estão as luzes das paredes das suas baias silenciosas e atentas que alumiam e testemunham a grandeza destas almas e aguardam o seu regresso.

Nos pórticos há soldados de guarda, mas neste não havia quando uma mulher de capa de veludo o atravessou, não sei antes olhar o horizonte.
Passo leve e confiante de quem sabe ao que vai sem temor algum. Não vai longe nem perto, não caminha mas também não corre, não chora nem sorri. Existe, apenas.
No momento em que os seus pés tocam o chão e as mãos acariciam as pedras das paredes a corrente do rio sossega, os pássaros descansam nos ramos das árvores, o vento é apenas uma brisa, as nuvens estão imóveis e as espadas ocultam o brilho das suas lâminas.
Dizem os búzios e as cartomantes, os padres e os druidas que há almas talhadas para a névoa. Que não encontram repouso em nenhum dos quatro elementos naturais e em nenhum ponto cardeal.
E sabe-o essa mulher e sabem-no as paredes e o horizonte e o universo em que se move.
Não há guardas nem aias, nem tochas a arder e ela passa uma e outras vez.
Onde vai? Ninguém sabe.

A casa que os Baluarte vieram a habitar na Rua do Malfadado anunciava já o percurso funesto desta família.
Abastados o quanto baste para serem recebidos pela nobre sociedade provinciana mas não tão bem posicionados para que fossem acolhidos nas mais elevadas esferas do poder, estes senhores viviam à luz de uns e na sombra de outros. Destino dos que na vida se lançam ao labor na honra que lhes é conferida pelo sangue.
Bem se sabe o que leva estas gentes à perdição: amor, vício, honra, poder, brio e desilusão.
Malfadados do berço à cova, são hoje um conto contado vezes e vezes, na esperança de que tal sina seja evitada pela Razão, essa inimiga do lema familiar que se encontrava cravado na pedra e mais tarde picado para que não se olhasse de frente para a má sorte.

Os gatos levam e trazem as vidas dos donos ou, na verdade, dos que se pensam seus donos.
“Venho aqui, como da comida que gentilmente me ofertas mas não te devo nada.”
E de manhã, lá está a patrulhar o quintal ou o terraço.
“Não o faço por ti, humano. Faço porque me afeiçoei ao teu tapete na entrada, ao cobetor que está pousado na cadeira do teu canto de arrumação e por me parecer de boa educação livrar-te dos ratos no barracão. Mas não penses que me amoleces com esse miado mal imitado de uma cria.”
Andam de casa em casa, avaliando as alturas dos telhados, testando a paciência dos pássaros e fazendo pouco dos caprichos dos homens.
Mas querem lá ver que afinal até nos querem bem? Dizem que realizam desejos e que afugentam almas penadas. Dizem que guardam as casas e as mulheres que com eles trocam olhares cúmplices.
Saber o que são ou o que fazem será sempre o maior segredo deles e a verdade dos homens.

“As andorinhas é que são rainhas/A voar as linhas da liberdade.”
A andorinha é a alma portuguesa moldada em barro. Mais do que uma ave, ela é o símbolo do nosso instinto mais profundo: o sentido de lar.
Pelas mãos de Bordallo Pinheiro esta ave tornou-se a guardiã das nossas fachadas, imortalizando em cerâmica o que nos define como povo.
A andorinha, com o seu ninho cativo, espelha essa necessidade tipicamente nossa de ter um porto seguro, um lugar de pertença onde a harmonia faz morada.
Para o portugueses, a casa não é apenas um espaço; é o ninho onde a saudade descansa.
E, em cada andorinha pendurada, reside a promessa de que, por mais mundos que se descubram, o coração regressa sempre onde a vida começou.
E esta casa é não apenas onde habito, mas também o local das minhas raízes e das minhas mais queridas memórias.
Tê-las penduradas à porta é um sonho realizado.

A Torre do Sino da minh’aldeia
É o que medeia o sonho e a realidade.
A Torre do Sino da minh’aldeia
É o pequeno intante da eternidade.
Versos humildes de aldeã que se enamora do chão comum de antecedentes, de tantas gentes que a memória não esquece.

Corre a água pela bocal da fonte. No banco de pedra aguarda-se a preparação dos cavalos para a partida. Veranear é um ato calculado pelos vestidos de cores garridas e flores exóticas e leques que se desdobram falando em sons inaudíveis.
Batem os cascos no lajedo, os arreios acabados de colocar são já cascatas de suor. Impacientam-se os animais cercados pelas moscas e parte-se para o campo como quem foge do espartilho da civilização.
As toalhas brancas de linho bordado competem com a alvura das peles que nelas se sentam bebericando Infusões e trincando frutas frescas trazidas pelos carregadores das madrugadas.
As sombras das árvores e o canto dos pássaros são palco do banquete de alívios que a alma humana requer no ssu fausto ato de viver.
Mas é junto aos ribeiros que o simples se faz coisa requintada e os acessórios indispensáveis à vida em sociedade são guardados em cestas de verga.
Reina agora o cabelo quase solto onde as fitas se vão desenlançando, os pés descalços sentindo a ancestralidade da terra e a liberdade dos olhos e dos corpos que se animam ao calor do sol e ao sabor do ar.

Na aldeia há ainda o correr da vida que se preserva como que guardada em cápsula.
Os pequenos gestos fazem-se grandes no simbolismo que carregam.
Quantos rituais perdemos? Quantas pequenas coisas olvidámos em prol do futurismo desenfreado da vida?
Pequenas terras de grandes pessoas que compreendem que a complexidade da vida é feita por mãos dobadeiras que antes da manta fizeram novelo.
E mãos que carregam caixas de pão de manhãzinha cumprindo o ritual silencioso do saco pendurado à porta como sinónimo de compra. Lá dentro um bilhete e o dinheiro.
O padeiro passa,
o sino anuncia as horas,
o sol desponta no horizonte,
Os gatos regressam a casa vindos de aventuras noturnas procurando o desjejum.
E o pão ainda quente recolhe às mesas de gente como hóstia do sacro mundo rural.

Onde antes havia gente e risos e choros e almas inquietas, há agora aves que trazem de longas paragens a vontade de renascer em casas vazias e terras pequenas.
As andorinhas.

No banco de pedra sentam-se almas de veludo onde o tudo é nada e o nada é tudo.
No banco de pedra ouve-se o som suave de vestido aos folhos e olhos de falcão que o contempla.
No banco de pedra e azulejos de flores testemunham-se amores, confissões e ardores.
Há um pequeno bilhete aqui pousado. O seu conteúdo que sendo mudo grita aos ventos, faz agora um coração repousado.
Há um pequeno bilhete aqui pousado mas não tem sinete e traz cuidado.
Há um pequeno bilhete aqui pousado. É este o seu fado.
No banco de pedra e azulejos de flores está um bilhete pousado.

Namoradeiras ou conversadeiras.
Sentam-se duas almas frente a frente.
Olham-se como dois estranhos, o que vieram ali fazer é estratégico, calculado, engendrado por instâncias superiores. O tempo é o pégaso galopando até à batalha do conluio cujo caminho é alumiado por archotes de mudança e revolução. As novas correm como formigas em carreiro e os mensageiros lutam contra os corações que tamborilam como tribos em rituais de passagem. O vento muda a direção, as aves recolhem aos ninhos e bandeiras guardadas em sacos de pano vêem a luz do dia.
Sentam-se duas almas frente a frente.
A primavera rainha-mãe das almas enamoradas veste os camposs de flores e aromas a magia trazida pelas fadas dos bosques circundantes. Há a ânsia da troca de palavras e toques e suspiros. O tempo é novamente pégaso galopando mas não se dirige à batalha. As shas asas que batem ao ritmo do coração levam o par à mais bonita volta ao mundo do encanto e da divinização do porvir.
Namoradeiras ou conversadeiras. Diferentes intentos, em tempos e em dimensões, que são apenas e só tensões momentâneas da vida que pulsa sem repulsa da intensidade da guerra e da paz.

O que há atrás desta porta?
A ruína do tempo, olvidada do pensamento dos descendentes. Pessoas cuja terra é apenas um pedaço de chão e um monte de pedras.
Ah! As vidas que não reconhecem outras são penadas já do ventre.
Inundada por raios de luz, o que resta deste casario são as memórias, um ou outo caco de cerâmica partida de um cântaro que de tanto ir à fonte se partiu.
Ora, que se faz com os retratos que não constam em paredes emoldurados em bonita talha dourada? Que se faz aos fragmentos perdidos de histórias que só alguns lembram? É muito simples, colocam-se nos caixotes do sótão de família, arrecadam-se as bugigangas que podem ter algum valor em vil metal e está assim continuada a linhagem de quem viveu da e na terra.
Vão os fios de sol ser coados nas rachas de uma madeira apodrecida de uma porta que já ninguém abre.
Mas minto se digo que são somente ruínas. Aqui há vida onde habitam os legítimos proprietários: os pássaros que dentro das prateleiras nas paredes fazem os seus ninhos, os gatos vadios que escolhem aquele espaço como ringue de lutas noturnas ou leito de amor fugaz.
Resgatar a vida é pô-la nas maçanetas de portas rachadas, em pedras caídas e cacos de loiça. Ou, pelo menos, trazê-la em palavras escritas onde o ontem permanece como se de hoje se tratasse.

Do tanto que se é casa também se é ruína. Do tanto que se faz por bem imperam as trevas.
E assim, como casa que foi e ruína que é, basta que a Mãe cubra com o seu manto verde e decrete o esquecimento do que agora não é casa nem ruína.
Onde há um altar há bichos por baixo dele que corroem o chão onde assenta.
Onde há o riso dr criança há o silêncio ancião que sabe que o tempo findou.
Tudo é grandioso e pequeno, virtuoso e vil, sagrado e profano.
Tudo é erro e acerto e chama e gota de água num oceano.
De tanto se ser casa também se é ruína.
