Não há machado que corte a raiz ao desalento?

Uma caricatura de Pedro Brito intitulada "Triangulação" e uma breve crónica associada.

Dizem que a realidade está fragmentada. Falam até de uma espécie de caos, provocado por ocultos engenheiros nas academias, nos tribunais e nos serviços públicos. O que sabemos, é que entre a sinistra entrincheirada e a destreza desmembrada, novos petizes emergem na nossa vida social e política. 

Novos petizes que prometem devoção e amor eterno aos seus líderes, são fiéis e dedicados, porém não suportam a traição, a frustração e a angústia, sempre que a sua relação dual é ameaçada. 

São garotos impulsivos, dotados de estranhos sentimentos ambivalentes. Por vezes, amam a liberdade e soltam as suas pulsões interiores, quase obscenas, num inebriante grito de glória patriótica. Outras vezes, reprimem os sentimentos mais lascivos e caem numa nostálgica santidade decrépita.

Vivem correlativamente, entre o desejo de trair o líder e encantar o manhoso, ou amar o chefe e decepar o subordinado.

Eles não fazem planos a longo prazo. Vivem o presente e querem soluções imediatas. Fomentam e alimentam teorias da conspiração, porque as fabulações e as fantasias são fontes de prazer libidinal, bem mais excitantes do que a realidade enfadonha.

Entre os gaiatos impulsivos e a triste realidade política e social, em que Portugal está mergulhado, eis que surgem os destros desmembrados para desanimar a nossa vida coletiva. Tentando a reconciliação com os mortos, prestam culto às memórias do passado. Fazem discursos acabrunhados e pouco convincentes. Não mobilizam afetos nem despertam pulsões. Estão conformados, inférteis e moribundos.

Surgem também os sinistros salvadores e obreiros das democracias, sua propriedade por direitos históricos adquiridos. Eternas promessas, eleições, conciliações, coligações frustradas, em movimento perpétuo, rumo à desgraça coletiva, que se auto regenera sempre que o abutre aparece para comer as vísceras.

Perante este malogrado cenário, será que estamos fatalmente condenados ao pesado, frio e dilacerante machado para cortar a raiz ao desalento?

Partilhar Artigo:

Mais Artigos

Desvio em Relação ao Objectivo Sexual

Freud lembra-nos como a aproximação das mucosas dos lábios em forma de beijo está tão distante do objectivo sexual normal da cópula como o uso de outras partes do corpo, concluindo-se que todas as perversões são relativas; excertos de Três Ensaios para a Teoria da Sexualidade, 1914.

Sobre Abraçar Jacarandás

Durante milhares de anos, o homem aproximava-se de uma árvore para sacar dela madeira, sombra, fruto, abrigo ou, em caso de extrema necessidade, um sítio onde enforcar alguém. O lisboeta contemporâneo aproxima-se para lhe transmitir afetos. É progresso, dizem. Não é. Eu diria antes que é o estágio terminal do conforto.

Excertos da Biografia de David Lynch

Excertos da biografia do cineasta David Lynch, Room to Dream, sobre crescer nos anos 50, a escola, amor platónico, o dia em que a música acabou, rock 'n' roll, masturbação, guardar úteros humanos em frascos, egoísmo, pais antigos e modernos.

A Emigração Portuguesa do Estado Novo para França e as Vagas Migratórias de África para a Europa Contemporânea

Num estudo comparativo de história das migrações europeias do século XX e XXI, apresentamos um dos contrastes mais reveladores entre movimentos de população aparentemente semelhantes na superfície e profundamente distintos na substância: a emigração portuguesa do Estado Novo para França e as vagas migratórias de África para a Europa contemporânea