
| Por muito que as considerações da filósofa Agnes Callard sobre o amor e as relações amorosas, muito influenciadas pela sua própria experiência, possam parecer, para alguns, extraordinariamente aborrecidas e banais ou, para outros, imbuídas de fundamentos teóricos aristotélicos e de um espírito filosófico no sentido clássico absolutamente louváveis, trazemos aqui esta longa peça da New Yorker sobre a autora a propósito de alegações em relação a professores, estudantes e investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. E trazemos Callard para lembrar simplesmente isto: a filósofa, sendo ainda casada, iniciou um romance, a princípio do tipo “platónico“ mas depois concretizado em casamento com um estudante de doutoramento de uma faixa etária significativamente mais jovem. Isto não levantou nenhum tipo de problema para ninguém, e bem, por duas razões (1) o superior hierárquico é uma mulher e não um homem e (2) tratam-se de pessoas adultas. Este é um lembrete para aqueles que querem infantilizar em absoluto a sociedade e as relações humanas achando que superiores e inferiores hierárquicos, assim como colegas de trabalho porventura, não devem contrair relações de amizade, amorosas ou meramente eróticas. Enquanto membros inseridos em várias unidades académicas em Portugal, rejeitamos em absoluto essa visão totalizante, moralmente ortodoxa e tendencialmente infantil das coisas. Existem seguramente casos, talvez até numerosos, de assédio moral, e casos possivelmente não tão numerosos de assédio sexual entre professores, alunos e investigadores e as várias posições hierárquicas aí existentes— e, nesse ponto, queremos lembrar também o princípio basilar moral e judicial absolutamente indispensável que é o da presunção de inocência; mas isso não inviabiliza de modo algum que pessoas adultas sejam infantilizadas em absoluto ao ponto de se achar que relações de amizade, amor ou erotismo entre “hierarquias” diferentes devem ser em absoluto excluídas da sociedade. Lembramos, por fim, que em Portugal a maioridade civil atinge-se aos 18 anos. |
