Sugestões: Livros para Levar para a Praia

A literatura mais pesada não tem de ser difícil nem desagradável. É para contrariar esta premissa tão amiga da divisão moderna entre trabalho e férias que recomendamos, com toda a frontalidade, que levem para a praia colecções absurdamente volumosas da literatura mais densa e exigente que encontrarem.

A literatura mais pesada — em todos os sentidos — não tem de ser necessariamente mais difícil nem mais desagradável, e a literatura mais leve — também em todos os sentidos, quer na dimensão física de bolso quer no conteúdo arejado e displicente — não tem de ser necessariamente mais descontraída nem mais prazenteira. É para contrariar estas premissas tão amigas da divisão moderna entre o trabalho e as férias que recomendamos aqui, com toda a frontalidade, que levem para a praia colecções volumosas da literatura mais densa e exigente que encontrarem. Vamos então divertir-nos, excitar a nossa imaginação e possivelmente fazer preparativos concretos para carregar estes veneráveis tomos até à praia.

Começamos por destacar um fabuloso conjunto de volumes da Macmillan and Free Press, em 12 tomos: a magnânime The Encyclopedia of Religion, coligida pelo famoso antropólogo Mircea Eliade. São doze exemplares, na edição original, e dezasseis, na edição melhorada, muito leves, tanto em termos de peso como de conteúdo — infelizmente não estão disponíveis em edição de bolso — sobre esse que é um dos capítulos mais relevantes da história das culturas e do pensamento: o domínio da religião, que alguns designam como o da espiritualidade, seja em forma de cultos organizados ou de disposições espirituais informais.

Adicionalmente, tendo em conta que não parece existir reunião de disposições mais perfeita do que estar na praia à torreira do sol a ler gigantescas enciclopédias sobre religião, acrescentamos outros títulos grandiosos e volumosos da mesma estirpe. A Schaff–Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, em treze volumes, a Encyclopaedia of Religion and Ethics, em doze, e, para aqueles que não estão para aturar edições abreviadas, têm a Theologische Realenzyklopädie, em trinta e seis tomos. Recomendamos também um estudo das complexidades da religião hindu em particular, numa edição muito recente, a Encyclopedia of Hinduism.

Recomendamos também a genial, incisiva e bastante numerosa colecção Loeb Classical, da Harvard University Press, que agrupa alguns — ou quase todos! — dos textos fundamentais da antiguidade clássica ocidental. Deste Platão a Aristóteles, passando por Plotino, literatura cristã inicial ou Santo Agostinho, e chegando até Marcos Vitrúvio e outros clássicos de temática diversa, a coleção, acima disposta na sua quase totalidade, possui a conveniência de estar configurada em volumes de bolso. Mas recomendamos que levem para a praia a totalidade da mesma, para terem muito por onde escolher, numa tarde de sol e mar.

Acrescentamos ainda recomendações de volumes cuja extensão não deixará ninguém aborrecido à procura de conteúdos noutro lugar: a edição completa da Wikipédia, com 27.000 páginas, e alguns dos maiores e mais longos livros jamais editados, produzida por Rob Mathews e também pelo mais recente projecto Printed Wikipedia, sobre os quais poderão ler mais aqui. Depois, se conseguirem encontrar quem faça uma cópia ou empreste o original, o lendário Atlas Klencke, um volume de 1,5 metros por 2 metros de comprimento e largura, ofertado por um consórcio de mercadores holandeses ao rei Carlos II de Inglaterra, em 1660. Estas edições acrescentam a vantagem de, além do carácter prático do seu transporte, poderem também ser usados como guarda-sol, corta-vento, etc. A literatura e a praia sempre tiveram, pelo menos para a burguesia da cultura, um casamento feliz: mas, neste caso, o agradável junta-se também ao materialmente útil, sendo estes volumes bastante práticos no auxílio contra as intempéries da beira-mar.

Por último, recomendamos literatura fundamental para quem frequenta intimamente o grande lençol das águas a que chamamos genericamente de mar: são manuais práticos com instruções explícitas sobre como salvar a vida a quem não sabe nada ou fique apanhado numa situação difícil na sua interacção com o oceano. Desejamos assim a todos excelentes leituras à beira-mar, segurança acima de tudo e que não tenham medo do que as pessoas acharem quando vos virem a carregar volumes de 12 quilogramas de pura leitura de férias para a vossa estadia no areal: a cultura não tem preço, mas, como todos sabemos, tem e tem de ter, necessariamente, peso.

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