A Odisseia de Homero abre-se com um verso que se tornou emblemático da literatura ocidental: «Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ / πλάγχθη…» (Canta-me, ó Musa, o homem polytropos, que muito vagou…). O quinto termo grego, polytropos (πολύτροπον), é um epíteto que define Ulisses antes mesmo de o nomear. Composto de poly- («muitos») e tropos (de trepō, «virar», «mudar de direção», mas também «modo», «maneira», «estilo»), o adjetivo carrega uma ambiguidade profunda: pode referir-se aos múltiplos desvios físicos da viagem do herói (os «giros» geográficos), à sua versatilidade mental (a capacidade de se adaptar, de «virar» estratégias) ou à sua astúcia polimorfa, que o torna simultaneamente herói e trickster. Essa polissemia não é acidental; Homero escolhe um termo raro e carregado para introduzir o protagonista, convidando o ouvinte (e o tradutor) a refletir sobre a natureza do homem que sobrevive não pela força bruta, mas pela inteligência flexível.
Ao longo dos últimos séculos, as traduções para o inglês, o alemão, o francês e o português revelam não apenas escolhas linguísticas, mas interpretações culturais, filosóficas e até ideológicas do herói. Cada versão reflete o espírito da época: o neoclassicismo do século XVIII privilegia a eloquência moral; o romantismo, a interioridade; o modernismo, a concisão; e o século XXI, a complexidade psicológica e moral. Focando nestas línguas, e dando destaque à tradução mais recente de Emily Wilson (2018), este ensaio examina como polytropos se transforma, preservando ou sacrificando facetas do original. O que surge é um retrato de Ulisses como espelho: o homem «de muitos giros» espelha as voltas que a própria tradução dá ao texto antigo.
As traduções inglesas: da eloquência ao “complicated man”
As traduções inglesas ilustram a evolução da receção de Homero no mundo anglófono. No século XVIII, Alexander Pope (1725-1726) opta por uma expansão retórica: «the man for wisdom’s various arts renown’d» («o homem renomado pelas variadas artes da sabedoria»). Aqui, polytropos é elevado à dignidade moral do herói iluminista, enfatizando a sophia (sabedoria prática) em detrimento dos «giros» ambíguos. William Cowper (1791) segue linha semelhante: «For shrewdness famed / And genius versatile» («famoso pela astúcia / e génio versátil»), introduzindo «versatile» que capta a flexibilidade, mas suaviza a conotação de astúcia manipuladora.
No século XIX e início do XX, as versões tornam-se mais literais ou poéticas. George Chapman (1616, mas influente) e outros românticos exploram o «many-sided-man» («homem de muitos lados»). Já no século XX, Richmond Lattimore (1967) propõe «the man of many ways» («o homem de muitos caminhos»), uma das mais fiéis etimologicamente: preserva o tropos como «way» (caminho/maneira), mantendo a ambiguidade entre viagem literal e versatilidade. Robert Fitzgerald (1961) opta por «skilled in all ways of contending» («hábil em todas as maneiras de contender»), destacando o aspeto agonístico e combativo do herói. Robert Fagles (1996), em versão mais dinâmica e acessível, escolhe «the man of twists and turns» («o homem de torções e voltas»), evocando vividamente os desvios físicos e mentais, com um toque de modernidade coloquial que tornou a tradução um best-seller.
A viragem mais comentada do século XXI veio com Emily Wilson, primeira mulher a traduzir integralmente a Odisseia para inglês (2018). O seu primeiro verso é: «Tell me about a complicated man» («Fala-me de um homem complicado»). Wilson justifica a escolha em ensaios e entrevistas: polytropos sugere camadas dobradas (do latim complicare, «dobrar junto»), capturando a complexidade moral de Ulisses — astuto, mentiroso, leal, cruel, herói e anti-herói ao mesmo tempo. Não é «cunning» (astuto) nem «resourceful» (cheio de recursos), termos que idealizariam o herói; «complicated» mantém a ambiguidade sem julgar, ressoando com uma leitura contemporânea que vê Ulisses como figura moralmente ambígua, marcada por trauma e manipulação. Críticos acusam o termo de anacronismo psicológico moderno (sugere «problemas emocionais»), mas Wilson defende que ele preserva a opacidade do original, convidando o leitor a desvendar o herói ao longo do poema. Esta escolha reflete uma sensibilidade feminina e pós-moderna: em vez de glorificar o trickster, expõe as suas camadas contraditórias.
Outras versões recentes, como as de Stanley Lombardo («cunning») ou Albert Cook («of many turns»), mantêm o literalismo, mas Wilson destaca-se pela ousadia interpretativa, tornando polytropos um convite à reflexão ética contemporânea.
As traduções alemãs: precisão e o “vielgewandter”
No contexto germânico, a tradução de Johann Heinrich Voss (1781, revista em 1793) tornou-se canónica: «Sage mir, Muse, die Taten des vielgewandten Mannes» («Dize-me, Musa, os feitos do homem muito versátil» ou «muito voltado»). Vielgewandter (de wenden, «virar») é etimologicamente próximo: capta os «muitos giros» tanto físicos como mentais, com uma conotação de adaptabilidade pragmática que ressoa com o ideal clássico alemão de Bildung (formação). Voss, influenciado pelo helenismo de Winckelmann, equilibra fidelidade e fluidez poética em hexâmetros.
Wolfgang Schadewaldt (1958), em tradução em prosa mais académica, mantém variação semelhante: «den vielgewandten Mann», enfatizando a versatilidade sem romantizar. Outras versões do século XX tendem a preservar o composto alemão, evitando abstrações morais. A tradição alemã privilegia a literalidade filológica — polytropos como «vielgewandter» ou «vielwendiger» —, refletindo o rigor da Altertumswissenschaft (ciência da Antiguidade). Diferentemente do inglês, onde o termo evolui para interpretações psicológicas, o alemão mantém o foco na Gewandtheit (destreza), ecoando a imagem de Ulisses como protótipo do homem renascentista ou do homo faber moderno. Esta consistência revela uma receção mais estável, menos sujeita a modas interpretativas.
As traduções francesas: os “mille tours” e a ruse literária
O francês, com a sua riqueza vocabular para a astúcia, oferece variações poéticas. Victor Bérard, cuja tradução em prosa (1924-1933) se tornou referência, escreve: «C’est l’homme aux mille tours, Muse, qu’il faut me dire» («É o homem dos mil giros/tours, Musa, que deves contar-me»). «Aux mille tours» joga com o duplo sentido francês de tour (volta física e truque/ardil), capturando perfeitamente a ambiguidade homérica. Bérard, influenciado pelo simbolismo e pela arqueologia, enfatiza a dimensão aventureira e astuciosa, alinhando Ulisses ao herói mediterrânico.
Philippe Jaccottet (1955, em verso) e traduções mais recentes, como as de Frédéric Mugler ou Emmanuel Lascoux (2021), variam: «aux mille expédients» ou «le polytrope» (mantendo o grego com explicação). A tradição francesa, mais literária e menos filológica que a alemã, privilegia o encanto narrativo: polytropos torna-se sinónimo de ruse (astúcia), ecoando o espírito galo-romano de inteligência prática. No século XX, com o existencialismo e o estruturalismo, surge uma leitura mais irónica do herói «polytrope», cujos «tours» prefiguram o absurdo moderno. Diferentemente de Wilson, as versões francesas raramente psicologizam; preferem a imagem concreta do «mille tours», que mantém Ulisses como figura épica e folclórica.
As traduções portuguesas: astúcia e versatilidade no luso-brasileiro
Em português, as traduções refletem a dualidade luso-brasileira entre fidelidade clássica e adaptação poética. Manuel Odorico Mendes e outros pioneiros usam termos como «o astucioso» ou «o versátil». Carlos Alberto Nunes, na sua influente versão (1941), traduz o verso como: «Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou…». «Astucioso» capta a mêtis (inteligência prática), enfatizando a esperteza de Ulisses sem perder o sentido de múltiplas voltas. Nunes prioriza a musicalidade épica, alinhando-se à tradição romântica portuguesa que via Homero como modelo de nobreza.
Outras versões brasileiras, como a de Mário da Gama Cury, usam «muito versátil». Leonardo Antunes explora «o das muitas origens, o versátil / o astuto / o das muitas faces», oferecendo alternativas que preservam a polissemia. Em Portugal, traduções como as de Frederico Lourenço mantêm opções literais como «o de muitos giros» ou «o multímodo». A tendência é equilibrar: «astucioso» ou «de muitos recursos» destaca a inteligência prática (ecoando o Ulisses camoniano de Os Lusíadas), enquanto «versátil» ou «de muitos caminhos» preserva o literal. Diferentemente de Wilson, as versões portuguesas raramente optam por termos psicológicos modernos; preferem qualidades heroicas positivas, refletindo uma leitura mais otimista do herói como símbolo de resiliência ibérica.
Conclusão: O polytropos como espelho da tradução
Ao percorrer estas traduções, vê-se que polytropos não é mero epíteto, mas um teste à arte do tradutor. As inglesas evoluem da eloquência moral (Pope) à complexidade ambígua (Wilson), espelhando mudanças culturais desde o Iluminismo até ao feminismo e ao pós-humanismo. As alemãs privilegiam a precisão etimológica («vielgewandter»), as francesas o encanto narrativo («mille tours») e as portuguesas a astúcia prática («astucioso»). Emily Wilson representa o ápice contemporâneo: ao escolher «complicated», não simplifica o herói; expõe as suas dobras, convidando-nos a questionar se Ulisses é modelo ou advertência.
Estas variações enriquecem a Odisseia. Cada tradução é um «giro» novo: o texto antigo vira-se para o presente, revelando que Ulisses, como o poema, é polytropos — múltiplo, adaptável, inesgotável. Em última análise, traduzir polytropos é traduzir a própria condição humana: a capacidade de virar, sobreviver e reinventar-se. Homero, ao escolher esta palavra, soube que o herói não se esgota numa só versão; cada século, cada língua, encontra nele o seu próprio reflexo. Assim, o ensaio da tradução continua, infinito como as voltas de Ulisses.
