A Cronica dell’Anonimo Romano, do séc. XIV, tem um prólogo muito interessante, onde o Cronista declara o seu gosto pela arte de escrever História. Assim ele o diz:
“O Santo-Escolar glorioso, Mice Isidoro, diz nas suas Etimologias que o primeiro Grego a descobrir a escrita foi…

…um homem chamado Cadmus. Antes dos tempos desse homem, ninguém conhecia o uso das letras. Como resultado, quando precisavam de enaltecer algo, não podiam escrever sobre ele. Em vez disso, faziam memoriais de cousas em esculturas de pedra e imagens marcadas, que colocariam em proeminentes localizações, onde muitas gentes o encontrariam. Alternativamente, colocavam-nos nos exatos locais onde os eventos se realizaram, tal como um sítio de uma grande batalha ou vitória, derrotas ou tragédias […], e vários animais em pedra, assim como homens armados, em referência à cousa materializada. Elevavam essas pedras em lugares onde cousas famosas aconteceram, como sinal de lembrança perpétua. Não produziram livros, porque até aos Gregos não havia escrita. Esta também era a lógica de fazedura entre os Romanos na Itália e França, e especialmente em Roma. Por julgarem que os seus descendentes deveria conhecer os seus feitos, criavam arcos triunfantes e inscrições funerárias, com batalhas, homens armados, cavalos, e outras cousas que hoje podemos encontrar em Perugia e Rimini. Quando Cadmus fez saber a arte de escrever, as gentes começaram a escrever os seus feitos e várias outras cousas, famosas e particularmente magnificentes, para que se aliviasse a inadequação da memória. De tal forma Tito Lívio escreveu um livro que descrevia o período entre a fundação de Roma até à idade de Octaviano. Lucano escreveu os feitos dos Césares. Salústio e outros escritores recusaram-se a deixar o passado glorioso de Roma esvaziar no tempo. De tal forma, deveria eu permitir que não fossem recordadas as cousas que eu vi neste mundo, pela graça de Deus, e que são notáveis de lembrança pela sua notável excelência e galhardia? Seria dificilmente aceitável que a sombra da ignorância prevalecesse por razão da relutância em escrever. Pela guisa, eu gostaria de produzir uma narrativa verdadeiramente especial neste livro. É uma grande e bela empresa, a que eu acarretarei responsabilidade por várias razões. A primeira é para que o Povo encontre lembranças de eventos, semelhantes àqueles que eles mesmos viram, e para que se enquadre a verdade das palavras de Salomão, que disse: “Nada há de novo sob o sol, o que parece novo não o é”. Outra razão para esta empresa é de recordar muitos exemplos, bons e belos, para que o Povo saiba evitar o que é perigoso e, em vez disso, escolha e adopte o que o não é. Eu espero, então, que ler este livro não seja feito com uma mera utilidade trivial. A terceira razão é o meu próprio respeito pela magnificência destes eventos, como já disse. Não há razão para problematizar-nos com cousas triviais. Deixá-las estar! Devemos escrever sobre grandes mestrias. A quarta razão é a mesma que moveu Tito Lívio Tito Lívio escreveu isto na sua primeira década, onde ele discute Alexandre da Macedónia: quantos soldados de pé e cavalaria ele tinha, o quão longo foi o seu governo, e quanto do mundo conquistou. Depois, ele diz que a grandeza de Alexandre não era nada comparada à de Roma Por dizer isto, ele responde a um qualquer Romano que lhe possa ter perguntado: “Recordando a História dos Romanos, por que causa julgas necessário discutir Alexandre”? Em resposta, Titio Lívio diz, “Eu faço o dito para descansar a mente”, assim como nós dizemos, “A minha mente foi inspirada a escrever estas cousas. Eu quero tratá-las de tal forma que satisfaça a minha mente”. Pois, eu digo, “Por Deus, a minha mente inspirada jamais poderá descansar sem que antes coloque por escrito estas belas coisas e novidades que eu vi na minha curta vida”. A quinta razão é outra que Tito Lívio escreve no começo do seu trabalho, na primeira década. Ele diz, “Quando eu estou empregado em escrever estas cousas, eu aparto-me do presente pútrido e não vejo as crueldades de que a nossa cidade padece hoje, por muito tempo” Então eu digo, “Tomando prazer neste trabalho, eu aparto-me do presente pútrido e não sinto a guerra e as misérias que afetam a minha terra, devido à tribulação profunda que não apenas afeta as testemunhas tristes e incapazes nesses eventos, mas também que apenas as ouve depois”. O que eu escrevo é absolutamente verdade. Deus é minha testemunha, e aqueles que estavam comigo são também, as cousas aqui escritas são todas verdadeiras. Eu as vi, eu as escutei. Este é o caso acima de todos com cousas que ocorreram na minha terra e foram notadas por pessoas confiáveis, cujas narrações corroboram as outras. Eu, por isso mesmo, coloquei certas indicações a meio da escrita do livro que indica quando tal ou tal pessoa concordou sobre algo. Deixo esses sinais assegurar o leitor, para que não desconfiem o que aqui digo Ademais, eu escrevi esta Crónica em vernáculo, para que até as gentes meãs e modestas, que só conseguem ler cousas simples, possam abraçar a obra na sua utilidade, por exemplo, os mercadores simples e outras boas gentes as quais uma escrita requintada não é entendida. Eu, então, acarreto este trabalho vernacular para o bem comum e a diversão comum, da mesma forma que eu já produzi uma versão em um Latim eloquente, embora essa peça não esteja tão ordenada e completa quanto esta”.
