Quando D. Dinis encontrou o maior peixe que já havia visto

Há coisas que podem abalar uma Nação inteira: crimes hediondos, um grande terramoto, a corrupção, etc. Em 1321, D. Dinis viu-se obrigado a fazer um atestado público ao Reino por razão de uma destas hecatombes: ele encontrou o maior peixe que já havia visto. Ora vejam a carta.

Há coisas que podem abalar uma Nação inteira: crimes hediondos, um grande terramoto, a corrupção, etc.

Em 1321, D. Dinis viu-se obrigado a fazer um atestado público ao Reino por razão de uma destas hecatombes: ele encontrou o maior peixe que já havia visto. Ora vejam a carta. 

“Em Nome de Deus Amem. Saibam quantos este público estormento virem E ler ouvirem Como quinta-feira dia de S. Águeda, cinco dias do mês de fevereiro na Era de Mil E Trezentos E Cinquenta E Nove Anos, e no Ano da Nascença de Jesus Cristo de Mil E Trezentos E Vinte E Um Anos No Campo de Valada, termo de Santarém no lugar de Gonçalo Estevens de Alfangi, hu [onde] o muito Alto E mui Nobre Senhor Don Dinis pela graça de Deus Rei de Portugal E do Algarve vinha para jantar da fora à caça foi-lhe apresentado por Dom Guedelha arrabi-mor dos Judeus um solho vivo que filharam [capturaram] no Tejo onde chamam Montalvo a perto de Muja. O qual solho havia tão grande boca per que lhe metiam sendo ainda vivo um raposo morto E lançava-o logo fora de um sopro E havia no espinhaço pela coa da cabeça até o cabo trinta escamas assim como conchas E era de talho de um grande delfinho [golfinho] E era em longo dez e sete palmos E gordo grosso sete palmos bem medidos E pesou pelos pesos do Concelho de Santarém dez e sete arrôbas E meia bem pesadas que fazem quatro quintais E mais uma arrôba E meia. E porque então aí estavam presentes muitos homens de muitas terras E de desvairadas Nações que o dicto solho viram E diziam todos E comunalmente que por muitos solhos viram pelas terras onde andaram que nunca o tão grande nem tão bem feito viram como este E que o tinham por estranho E por tão grande maravilha que se o assim não vissem que adur [dificilmente] o poderiam crer E pera disto ficar certa memória pera os que depois vierem Por isso o dicto Senhor Rei teve por bem E mandou a mim Domingue Anes seu tabelião geral nos dictos seus Reinos que em sembra [juntamente] com os tabeliães E testemunhas adiante escritas a isto presente fui, que lhe desse então um testemunho sob meu sinal acostumado no qual outrossim mandou a esses tabeliães que posesem seus sinais. Feito foi no dia E no mês E na Era e no Ano E lugar sobreditos. Testemunhas que a isto presentes foram: Dom Afonso Sanches E João Afonso filhos do dicto Senhor Rei E Dom João seu genro; ricos-homens, Estêvão da Guarda uchão [encarregado da dispensa do Rei] e escanção-mor [encarregado do abastecimento de vinho], Frei João confessor E Capelão-mor do Rei, Mestre Henrique Alemão seu físico E João Domingues de Beja E Afonso Martins Prior de Chilheiros E João Domingues Calastão E Afonso Domingues da Cozinha E Gonçalo Vasques E Vicente Anes serviçais do Rei, Lourenço Martins E Vasco Rodrigues seus tabeliães gerais nos Reinos de Portugal E do Algarve, Gonçalo Esteves de Alfangi E Vasco Afonso Alcoforado E João Aires de Altero E Gonçalo Mendes de Alvelos cavaleiros, E Henrique Gil E Rui Martins da Chamusca E Álvaro Soares E Vasco Lourenço E Vasco Vicente E Pêro Gonçalves E Miguel Pires E Fernão Gil E Pêro Terrão E o Bom Terrão, o “pecador” E Gonçalo Fugão “homem sem sabor”, escudeiros, E Afonso “sem visão” E Lourenço Mendes açoreiros E João Martins E Afonso Fernandes de Baião Falcoeiros E Dom Guedelha arrabi-mor dos Judeus E Dom Davi seu irmão E Lourenço Anes copeiro [serviço à mesa do Rei] E Gonçalo Pires saquiteiro [responsável pelo abastecimento de pão] E Martim Durães fruteiro E Domingos Vasques camareiro E André Domingues E Cibrão Martins algozes E Martim Durães iguador [o que dividia porções] E João Pires E João Leitão cozinheiros, E Domingos de Cós E Domingos de Pinhel arinteiros [guardas de loiça] E Martim Esteves E Fernão Domingues porteiros E Francisco Domingues dizimeiro da Ribeira E Vedor dos pesos do Concelho de Santarém E outros muitos. E eu Domingue Anes público E geral tabelião do dicto Senhor Rei nos dictos seus Reinos de Portugal E do Algarve que o dicto solho vi E per minha mão medi E vi a muitos outros medir E nas balanças dos pesos prover e pesar. Disto E das outras cousas de suso dictas a que em sembra com os dictos tabeliães E testemunhas presente fui, per mandado do dicto Senhor Rei E pera memória dos que depois vierem este público estormento ende com minha mão escrevi E meu sinal em ele pungi que tal é, em testemunho de verdade: [sinal dele]”.

 – Gavetas, maço 2, doc. 1.

Partilhar Artigo:

Mais Artigos

Sobre a Arte de Escrever História na Cronica dell’Anonimo Romano, séc. XIV

Excerto de A Cronica dell'Anonimo Romano, do séc. XIV, com um prólogo muito interessante, onde o Cronista declara o seu gosto pela arte de escrever História.

D. João I e o Recrutamento dos Besteiros do Conto, 1417

Mais um documento logístico sobre carácter complexo dos Besteiros do Conto, um pergaminho onde o Rei D. João I dá instruções ao anadel-mor sobre o recrutamento dos soldados.

A Evolução Demográfica e Sociocultural de Alfama no Século XX e Início do XXI

Baseados num estudo de 1985, analisamos a origem rural maioritária da população de Alfama no séc. XX, via migrações em cadeia e articulações urbano-rurais, em contraste com a actualidade: perda de 80% dos residentes, envelhecimento, gentrificação e turistificação, segundo Censos 2021 e Diagnóstico Social 2025.

A Anatomia de um Salário Baixo

Os baixos salários em Portugal resultam da estagnação da produtividade, não de má vontade patronal. Numa economia de baixo valor que compete por preço, com elevada fiscalidade sobre o trabalho e pressões migratórias, reformas estruturais são essenciais para crescer a riqueza antes de redistribuir.