

Tradução e comentário crítico do poema «SYLVAE» de Diogo Pires: com base na antologia Latim Renascentista em Portugal, por Filipa Alexandra Ribeiro para a Prof.ª Ana Tarrío, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Literatura Latina Medieval e Renascentista, 2025.
Proposta de Tradução
DE SILVA, O QUAL PERECEU NA FILEIRA
MILITAR AFRICANA COM O REI SEBASTIÃO, EPITÁFIO.
- Silva, que seguiste o teu rei, caíste por terra
- Em guerras funestas, Oh!, outra causa do meu pranto.
- Ou se jazes num solo, qualquer que ele seja,
- Ou se lá estás imerso nas ondas para cá e lá dispersas,
- Queiras tu isto: toma por teu este breve canto.
- Quão bem, que foras distinta parte da nossa gente,
- Pereces, Silva, enquanto a pátria infeliz cai jazente.
Introdução
O presente ensaio versará sobre um poema de homenagem fúnebre a um indivíduo, conforme afirma Costa Ramalho (RAMALHO, 1994), incerto, podendo corresponder a Jorge da Silva ou a seu sobrinho Lourenço da Silva; já segundo o mesmo autor no seu artigo «Didacus Pyrrhus Lusitanus, poeta e humanista» (RAMALHO, 1983-1984) correspondendo a Lourenço da Silva, morto em Alcácer-Quibir, mecenas de poetas e regedor das justiças, em todo o caso referido unicamente enquanto Silva, alguém perecido na Batalha de Alcácer-Quibir, no poema «SYLVAE» da autoria do humanista português Diogo Pires, enquanto decorrente no contexto quer de vida do autor quer histórico de um Portugal no fim do século XVI e do uso do latim por este eminente poeta neolatino português. O presente poema, além de uma composição lírica que pode ser lida e desfrutada do ponto de vista da beleza neoclássica típica do Renascimento e da emoção provocada por tão singelo mas sincero testemunho de um vínculo pessoal – quer com um português singular quer com os portugueses no plural – e com o reino que forçou o primeiro ao exílio em Espanha, França, Itália e Ragusa (atual Dunbrovnik), na Dalmávia (ex-Jugoslávia, no leste europeu) onde viria a terminar a sua longa e atribulada trajetória de vida. Segundo afirma Álvaro Alfredo Bragança Júnior, no seu artigo «O LATIM HUMANISTA EM PORTUGAL: UMA DISCUSSÃO INTRODUTÓRIA SOBRE O POEMA DE EXILIO SUO DE DIOGO PIRES», publicado no ano de 2019 (JÚNIOR, 2019), o poeta judeu nasceu em Évora ou arredores em 1517 e morreu em Ragusa, atual Dunbrovnik, em 1606, aos 89 anos. Segundo António Manuel Lopes Andrade (ANDRADE, 2014), no seu livro O Cato Minor de Diogo Pires e a Poesia Didáctica do Século XVI, Diogo Pires, filho de Henrique Pires, provinha de uma família respeitável de mercadores cristãos-novos abastados e com uma vasta rede de contactos em vários pontos da Europa, tendo-se convertido no exílio à sua religião ancestral. O seu estatuto socioeconómico permitiu-lhe uma viagem mais confortável, contrariamente a muitos compatriotas judeus que, com toda a burocracia dificultada institucionalmente e entre a espada e a parede com o perigo da Inquisição, se sujeitavam a viajar em condições desumanas. O certo é que em 1533 estudava medicina em Salamanca, onde adotou os pseudónimos Dydacus Pyrrhus Lusitanus e Iacobus Flauius Eborensis, aludindo às suas origens lusitana e eborense. Passa por Liège, Louvaina, Ferrara, Ancona, Ragusa, chegou a estar em Constantinopla e em Jerusalém e, a partir de lá, regressou a Itália. A utilização do latim por Diogo Pires derivava do seu estatuto enquanto língua dos intelectuais da época na Europa, uma língua-franca, mais precisamente. Em Ferrara, a certa altura, os judeus deixaram de ser cordialmente acolhidos e Diogo Pires toma refúgio em Ragusa, onde virá a falecer sem jamais voltar a Portugal. «Sem regressar ao solo português, o poeta, como um Ovídio de então, repassou pedaços de sua vida, seus familiares que renegaram sua fé e não o ajudaram e analisou a situação portuguesa face ao perigo espanhol. Seus versos em dísticos elegíacos demonstraram seu domínio sobre a métrica clássica. Seu poema soa como um apelo de um filho, brutalmente separado da mãe, mas que não se esquece dela.», afirma Júnior. O poema SYLVAE pode e deve, portanto, ser analisado a partir de vários prismas.
Não me foi possível manter a quantidade de versos na tradução, que foi feita sem o auxílio da tradução do professor Costa Ramalho de cuja antologia Latim Renascentista em Portugal retirei o poema de Diogo Pires a ser tratado no presente ensaio, e muito menos a posição das palavras em língua portuguesa conforme estavam em latim, pelo que, para fins facilitadores do entendimento geral da turma, ao proceder a uma análise múltipla e cuidadosa verso a verso do poema – pequeno, mas muito rico em camadas – usarei para efeitos de numeração e transcrição dos versos a minha tradução em português, ainda que infinitamente mais rudimentar que a do professor Américo Costa Ramalho, por uma questão de honestidade intelectual.
Corpus
Conforme nos informa Carlos Ascenço André no seu artigo «Diogo Pires e a Lembrança de Erasmo» (ANDRÉ, 1989-1990), após passar por Paris, Diogo Pires vai para Itália e integra a armada de André-Dória contra os irmãos Barba-Roxa. Adota o nome de Isiah Cohen, dado confirmado por Américo Costa Ramalho na introdução da sua antologia Latim Renascentista em Portugal sob a variante de Isaías (RAMALHO, 1994), enquanto judeu reconvertido em Ragusa, onde virá a falecer, sofrendo um exílio doloroso, ainda que a nobreza local lhe votasse simpatia e admiração, beneficiando o humanista de privilégios aristocráticos não direcionados, por norma, aos judeus. Nunca chega a voltar à terra pátria. Tal deve-se a um contexto político conturbado no reino português da sua época. Ainda segundo Júnior (JÚNIOR, 2019), as perseguições da Inquisição desde o séc. XIV face a judeus, muçulmanos e suspeitos de bruxaria e alquimia levaram à saída de indivíduos comuns e de intelectuais como Diogo Pires de Portugal, reino lusitano esse que, através da literatura em língua latina a ser produzida por humanistas portugueses, enquanto língua-franca e língua do saber usada para o entendimento de um outro, o estrangeiro, tudo embora, se abria cada vez mais. O expansionismo português gerou uma supremacia portuguesa na Europa, o que levou o meio cortesão a ter maiores necessidades intelectuais. Já a partir da Baixa Idade Média ocorrem as seguintes transformações socioeconómicas: integram-se os rudimentos do capitalismo; dão-se a Reforma religiosa; o absolutismo político; as mudanças culturais antropocêntricas. O Renascimento em Portugal ocorre durante a dinastia de Avis, da qual D. Sebastião foi o último rei. Em 1487 a imprensa chegou ao reino e os humanistas italianos como Dante e Petrarca começaram a ser lidos. As transformações socioeconómicas que começaram na Baixa Idade Média viriam a fortalecer-se cada vez mais até se tornarem bem consolidadas no séc. XVI através da contínua influência italiana. A palavra «humanista» pauta-se por uma ligação de intelectuais renascentistas à exaltação da cultura clássica que, por todos os fatores supramencionados, acarretou a descentralização da intelectualidade do meio clerical, por consequência, o letrado passa a ser um homem leigo, como Diogo Pires, muitas vezes ao serviço da corte; num Portugal, apesar da opressão religiosa, envolto numa realidade mercantil derivada das conquistas além-mar, que criaram um clima eufórico e otimista no reino… Até à Batalha de Alcácer-Quibir, quando o rumo do reino lusitano viria a sofrer uma reviravolta, com a flor da nobreza e o rei mortos ou desaparecidos em combate e a crise dinástica decorrente de não haver um herdeiro direto ao trono português.
É de se fazer, portanto, notar que o poema foi escrito após a referida batalha em 1578, décadas após a saída de Portugal de Diogo Pires, aos dezanove anos de idade. Ainda assim, num acesso de patriotismo, no título completo de SYLVAE, o poeta refere-se não só ao seu amigo pessoal como também a D. Sebastião, o que demonstra claramente um não afastamento afetivo da terra pátria apesar da distância física que virá a culminar no lamento pela pátria figurativamente jazendo morta mais à frente no poema, bem como nos versos 1 e 2: «Silva, que seguiste o teu rei, caíste por terra / Nas guerras funestas[…]».
A segunda parte do verso 2, «[…]Oh!, outra causa do meu pranto» tanto pode referir-se à morte de D. Sebastião além da morte de Silva, quanto à morte conjunta de ambos como sendo uma causa distinta além de outra já existente, nomeadamente o exílio a que o poeta se viu forçado. As «guerras funestas» demarcam um caráter claramente pacifista, além de patriótico, que Carlos Ascenço André (ANDRÉ, 1989-1990) salienta no seu artigo «Diogo Pires e a Lembrança de Erasmo» enquanto característica herdada de um dos seus mestres humanistas de filiação intelectual, Erasmo de Roterdão, constituindo, portanto, a paz, um tema de culto que permeia toda a obra poética de Flauius Eborensis. O uso quase a beirar a informalidade de uma interjeição confere dramaticidade ao tom já de si fúnebre deste poema composto por três dísticos elegíacos.
Os versos 3 e 4, «Ou se jazes num solo, qualquer que ele seja, / Ou se lá estás imerso nas ondas para cá e lá dispersas» reiteram a incerteza quanto ao destino do cadáver de Silva à semelhança do de D. Sebastião e a tentativa posterior de dar alguma dignidade ao suposto finado com o epitáfio que em seguida lhe será atribuído («Queiras tu isto: toma por teu este breve canto», v. 5).
Segundo Américo da Costa Ramalho em «Didacus Pyrrhus Lusitanus, poeta e humanista» (RAMALHO, 1989-90), no poema dedicado ao seu amigo natural de Ragusa Nicolau Gótio, Diogo Pires exprime o seu anseio em fazer diversas perguntas sobre a terra pátria de cada vez que lá desembarca um português ou alguém proveniente da costa portuguesa, já que Ragusa era uma cidade marítima que tinha ligações para a Índia e efetuava trocas comerciais com Portugal. Diogo Pires, atesta Costa Ramalho, possuía uma simpatia de estranhar face à figura do rei D. João III, apesar de este ter introduzido a Inquisição em Portugal, o que o impediu de praticar livremente a religião judaica em Portugal e o coagiu a exilar-se, focando-se a sua ira nas figuras dos Reis Católicos, segundo a carta escrita em 1547 a Paolo Giovio.
Segundo António Manuel Lopes Andrade (ANDRADE, 2014), Diogo Pires chegou a perder o próprio pai em Ancona numa fogueira decorrente num auto de fé em 1556 promovido pela própria Inquisição, altura em que em Ferrara os judeus deixaram de ser bem-vindos, depois de, ao asilo de Ercole II, duque de Ferrara, o pai e os irmãos de Diogo Pires terem sido ludibriados num empreendimento comercial a expensas meias com o duque que não chegou a bom porto, sendo que havia sido expressamente acordado que ambas as partes cobririam a meias os danos do empreendimento no caso de este falhar, tendo sido enganados pelo duque, que abusou do seu poder, e impediu de sair dos seus domínios Diogo Pires e os seus parentes até estes o ressarcirem com uma soma avultada pela totalidade dos prejuízos causados, tendo estes de se apoiar em garantias pessoais de membros ilustres da comunidade judaica portuguesa presente na região para permanecerem em estabilidade até que a dívida fosse completamente saldada, tendo a família já perdido muitas riquezas ao deixar Portugal.
É neste panorama que tanto no título quanto nos últimos versos («Quão bem, que foras distinta parte da nossa gente, / Pereces, Silva, enquanto a pátria infeliz cai jazente.», vv. 6-7) que a fidelidade à coroa portuguesa e as preocupações com a sua soberania e com a sua gente, fidelidade essa fortemente exaltada, ainda que de forma discreta, pela infelicidade da «pátria infeliz» personificada que «cai jazente» com a flor da nobreza morta em batalha, se tornam implícitas, bem como a preocupação com uma terra natal que, já no fim de vida do poeta época em que este poema foi escrito, não se haviam desvanecido, muito menos o seu saudosismo. António Manuel Lopes Andrade (ANDRADE, 2014, p. 45) expõe que já em 1547, na sua carta a Paolo Giovio, o poeta «[…] alude à queda das praças africanas, em particular à trágica perda de Santa Cruz do Cabo de Guer, designada por ‘Hesperion Ceras’, e ao abandono posterior de Azamor e Safim. A praça de Santa Cruz do Cabo de Guer (Agadir) foi sujeita a um duro cerco a partir de 1541 e, não muito tempo depois, a 12 de Março de 1541, em circunstâncias dramáticas, acabou por soçobrar ao ataque desferido pelas forças inimigas. Esta derrota abalou por completo as posições portuguesas no Marrocos Meridional e levou à evacuação, no mês de Outubro de 1541, das praças de Azamor e Safim». Alcácer-Quibir e a sua consequente crise dinástica consumaram, então, o declínio do tão sonhado imperium que, tendo outrora imerso o reino em euforia, agora o submergia em luto. Também Diogo Pires foi levado «pelas ondas» ao embarcar no exílio, «para cá e lá dispersas», exceto para o regresso ao seu reino de nascimento, pelo que o verso 6 pode ser interpretado como uma hipálage em paralelismo com o verso 2 e a causa de suas lágrimas implícita além da «outra» descrita pelas mortes de Silva e D. Sebastião, uma alusão discreta ao estado de espírito fúnebre do exilado por si só, isento das causas externas que aqui se cantam, de forma cifrada, quase impercetível.
Conclusão
Em suma, o presente trabalho baseou-se numa tradução autoral, rudimentar ainda que airosamente bem intencionada, a fim de conseguir resgatar um poema de um autor desvanecido nas névoas do tempo que foi, além de humanista, um amigo fiel, patriota fervoroso e infeliz exilado perpétuo desde tenra idade, cujo animus, tudo embora, se manteve na terra que o viu nascer.
Silva perece, mas antes dele já havia espiritualmente perecido há muito o poeta exilado, por culpa da Inquisição espanhola, para todo o sempre de uma pátria que desejou sempre soberana, à qual se manteve fiel e que, com o declinar político e a perda de ilustres portugueses que levou à sucessão e dependência portuguesa da coroa de Espanha, vê a sua última consolação desvanecer-se e escreve antecipadamente um epitáfio cifrado que é, tocantemente, também o seu próprio…
Bibliografia
Ramalho, Américo Costa. Latim Renascentista em Portugal. 2ª edição, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.
Andrade, António Manuel Lopes. O Cato Minor de Diogo Pires e a Poesia Didáctica do Século XVI, pp. 27-148. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2014.
JÚNIOR, Álvaro Alfredo Bragança (2019). «O LATIM HUMANISTA EM PORTUGAL: UMA DISCUSSÃO INTRODUTÓRIA SOBRE O POEMA DE EXILIO
SUO DE DIOGO PIRES». Principia. Rio de Janeiro, nº. 39, pp. 83-101. Disponível em: https://share.google/ChlKQwPJ4sewb9wZS (consultado em 30-03-2026)
ANDRÉ, Carlos Ascenço (1989-90). «Diogo Pires e a Lembrança de Erasmo». Humanitas, Coimbra, vv. 41-42, pp. 81-98. Disponível em: https://share.google/JdHXvvGk8bE8ntkwI (consultado a 01-04-2026)
RAMALHO, Américo Costa (1983-1984). «Didacus Pyrrhus Lusitanus, poeta e humanista». Humanitas. Coimbra, vv. 35-36, pp. 1-18. Disponível em: https://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas35-36/01_Costa_Ramalho.pdf?utm_source=chatgpt.com (consultado a 01-04-2026)
TUCKER, G. H. (1992). «Didacus Pyrrhus Lusitanus (1517–99), poet of exile». Humanistica Lovaniensia. Lovaina, v. 41, pp. 175–198. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/23973853 (consultado a 01-04-2026)
