Em 1937 Ronald H. Coase perguntou por qual razão as empresas existem. A resposta que ele deu foi que as empresas existem uma vez que usar o mercado também tem custos, como tempo, informação, monitoramento, etc; sintetizados no conceito de custos de transação. Descobrir preços consome recursos e a firma emerge para organizar via hierarquia o que seria, de outra forma, mais caro por meio do mercado.
Agora, caro leitor, faça comigo um experimento mental. Pegue uma firma e remova o mercado ao redor dela. Não há preços, pois todos são fixados por decreto. Não há fornecedores, pois os insumos são alocados por cota de produção. Não há clientes que conquistar, pois a produção já nasce vendida dentro um plano de alocação geral. Não existe sequer falências! O que sobra nessa situação? O que é uma firma quando tudo aquilo que, segundo a teoria, justifica sua existência foi abolido?
A União Soviética foi um experimento natural único no teste dessa hipótese. Ela passou 60 anos contínuos experimentando várias formas de responder indiretamente essa pergunta. O que sobra é uma criatura que tem o formato externo de uma empresa, organograma, diretoria, metas, bônus, porém a anatomia interna de outra coisa completamente diferente. Parte dela parece uma repartição pública, outra parece um feudo, uma parece uma companhia de seguros e uma é muito similar a uma prefeitura.
O presente ensaio disseca essa criatura órgão por órgão.
Comecemos pelo cérebro da criatura. A empresa soviética, quando vista de longe, parece uma subsidiária dentro de um grupo empresarial maior. Acima dela há uma diretoria intermediária, o glavk, e acima do glavk existe algum ministério setorial que coordena o planejamento do setor, como o Ministério da Indústria Automotiva, e acima de tudo isso existe o Gosplan, o planejamento econômico central de toda a economia soviética.
Anualmente desce por essa cadeia o tekhpromfinplan, o plano técnico-industrial-financeiro, um documento que fixa para a firma não apenas quanto produzir, mas com quantos trabalhadores, quais salários pagar aos mesmos, quais insumos utilizar, qual o custo de cada um e de cada processo e com que lucro contábil deveria encerrar o período.
Quando olhamos dentro da criatura, sua estrutura de comando interna era guiada por uma instituição chamada troika. Conforme documentado por Granick (1960), a troika era uma composição de três cabeças.
A primeira era a diretoria, operando sob a doutrina do edinonachalie ou comando unipessoal. Toda a autoridade executiva era concentrada em um único agente e toda a culpa também, sendo o diretor o responsável por prestar contas com o planejador central.
A segunda cabeça era o partkom, o comitê do Partido Comunista dentro da corporação, formalmente encarregado da mobilização ideológica e informalmente encarregado de vigiar o diretor e reportar ao comitê regional do Partido sobre seu desempenho.
A terceira era o sindicato, que num país onde greve era crime sua função real era administrar a distribuição dos bens coletivos; como os apartamentos da fábrica, as vagas na colônia de férias e a fila de compra dos bens produzidos.

Granick também notou o paradoxo constitutivo de que o diretor soviético tinha, no papel, mais poder sobre sua fábrica do que qualquer CEO sobre a sua, e, na prática, menos autonomia do que um gerente de boutique de shopping. Ele não escolhia o que produzir, para quem, a que preço, com que insumos nem com quanta gente iria produzir. A única coisa que ele realmente geria era a diferença entre o plano no papel e a realidade no chão de fábrica.
O bônus do diretor era uma função descontínua do cumprimento do plano e a meta do período seguinte era função do desempenho do período atual. Isso poderia ser expresso formalmente como:
A figura abaixo ilustra o que isso significava em termos de comportamento econômico concreto. O painel esquerdo mostra a descontinuidade. Cumprir 99% do plano pagava zero em termos de benefícios aos gerente, cumprir 100% pagava o prêmio cheio, que podia representar um terço ou mais da remuneração total do diretor e cada ponto acima de 100% pagava um adicional, mas alimentava a catraca da segunda equação, elevando a meta do ano imediatamente seguinte.

O resultado é a zona sombreada do gráfico. O diretor ótimo entrega entre 100% e 105% do plano, nunca menos, jamais muito mais, e dedica sua verdadeira genialidade gerencial a esconder capacidade produtiva do glavk, negociando para baixo a meta do ano seguinte. Entrevistando gestores emigrados da URSS, Berliner(1957) documentou que muitos deles usavam estratégias como superestimar necessidades de insumo e reportar dificuldades ao ministério. O resultado é que a firma soviética superestimava e o ministério, que já sabia que ela mentia, inflava as metas num equilíbrio de desinformação mutuamente antecipada1.
Como o que importava era o resultado no final do mês, o período produtivo da fábrica soviética acabava sendo uma corrida de revezamento e todos os produtos fabricados no final do período sempre apresentavam a pior qualidade que você poderia imaginar.
E o que o plano media, afinal? Quais os KPIs das empresas soviéticas? Na maior parte da história, o indicador mestre foi o valor bruto de produto. Contudo, como todo estudante de administração sabe, isso é um tiro no pé. Se a meta é em toneladas, a fábrica produz o produto mais pesado possível e a URSS produziu, celebremente, os lustres mais pesados e as chapas de metal mais grossas do planeta. A anedota clássica dos russos até hoje para esse problema, imortalizada numa charge da revista Krokodil, é a fábrica de pregos que, avaliada por peso, produz um único prego gigantesco para atender as metas do plano.

Pois se a meta é em valor bruto, a firma maximiza custo, uma vez que insumo caro infla o valor da produção. Assim, a economia inteira ganhava bônus destruindo valor. E como nenhuma dessas métricas capturava qualidade, variedade ou adequação ao usuário, esses três atributos eram sistematicamente sacrificados por otimização2.
A inovação é ainda mais engraçada. Berliner (1976) dedicou um livro inteiro à pergunta de por que uma economia capaz de colocar o primeiro satélite em órbita produzia bens de consumo obsoletos e de péssima qualidade (pergunte ao seu pai sobre a qualidade dos Ladas). Parar a linha para retooling ameaçava o plano anual. Se a inovação desse certo, o sistema de metas confiscava o ganho do gestor elevando a meta; se desse errado, o edinonachalie garantia que a culpa tinha um endereço na figura do gestor. O gestor racional deixava a inovação para o instituto de pesquisa do ministério por interpretar que teria apenas prejuízos líquidos se fizesse isso.
O resultado é que a URSS era uma potência em tecnologia militar, mas um absoluto fracasso quando se tratava de tecnologia para produção de bens civis.

O processo de compras e suprimentos era ainda mais caótico. Os insumos não eram comprados, eles eram alocados pelo Gossnab, o comitê estatal de suprimentos, na forma de cotas físicas de insumos. Tantas toneladas de aço da usina X, tantos rolamentos da fábrica Y e tudo no trimestre Z.

O problema é que o sistema de cotas falhava com entregas atrasadas, especificações erradas, quantidades cortadas no meio do caminho por algum ajuste do plano ou coisas do tipo. A partir desse problema nasceu a profissão mais soviética de todas, o tolkach, o “despachante”. Ele era um agente que a fábrica mantinha, ilegalmente e em tempo integral, viajando o país para destravar entregas, trocar excedentes escondidos com outras fábricas e converter favores em insumos.
Berliner documentou que era uma profissão universal em toda URSS, cada fábrica tinha os seus. Estocava-se compulsivamente tudo o que aparecia, precisasse ou não, porque estoque funcionava como uma espécie de poupança de segurança da empresa e trocava-se estoque por estoque num escambo interfabril que era, na prática, o verdadeiro mercado atacadista do país; ilegal, sem preços e lubrificado por vodka, conheque e outros bens de alto valor3.
A consequência disso,prevista por Coase, é que as firmas soviéticas incharam até fronteiras verticais grotescas devido a ausência de possibilidades de compras em mercados descentralizados, internalizando tudo aquilo que não podiam confiar ao sistema de cotas e gerando o que Klein(1996) chamou de problema da fronteira vertical das firmas.
As fábricas de carros, como a AvtoVAZ, faziam seus próprios parafusos, fundiam seu próprio ferro, mantinha oficina de ferramentas, frota, gráfica, tudo. Ericson (1991) descreveu esse sistema como uma economia de conglomerados autárquicos justapostos; cada um reinventando internamente, a custo altíssimo, a divisão de trabalho que o mercado teria fornecido se existisse.
Então, o que sobra de uma firma quando se remove o mercado ao redor dela?
A função-objetivo deixa de ser lucro e vira um mero atendimento a uma meta. A corporação soviética não era uma corporação mal administrada; era meramente uma outra instituição usando o mesmo organograma de uma corporação capitalista e seus diretores, dentro das regras dementes que receberam, eram gestores tão racionais quanto qualquer um de Detroit ou Nova York.
BIBLIOGRAFIA ADICIONAL:
-GROSSMAN, Gregory. Notes for a Theory of the Command Economy. Soviet Studies, v. 15, n. 2, p. 101-123, 1963;
-KATSENELINBOIGEN, Aron. Coloured Markets in the Soviet Union. Soviet Studies, v. 29, n. 1, p. 62-85, 1977;
-NOVE, Alec. The Soviet Economic System. London: George Allen & Unwin, 1977;
-WEITZMAN, Martin L. The “Ratchet Principle” and Performance Incentives. Bell Journal of Economics, v. 11, n. 1, p. 302-308, 1980.
Notas
- O leitor familiarizado com teoria dos jogos reconhecerá aqui um jogo de sinalização com babbling equilibrium. Quando todo mundo sabe que todo mundo infla, a mensagem “preciso de mais insumos” perde conteúdo informacional e o ministério responde cortando pedidos por uma taxa média de desconto, o que pune o único diretor honesto do sistema e ensina-o a ser desonesto.
- A charge do prego é frequentemente tratada como piada da Guerra Fria, mas o fenômeno subjacente é o problema geral de contratos sobre métricas incompletas tratado por Holmström e Milgrom (1991). Recompense a métrica e o agente canibalizará as dimensões não mensuráveis. A URSS foi o maior experimento de multitasking mal remunerado da história nesse sentido.
- O estoque como poupança tem uma consequência macro interessante. A economia soviética exibia, cronicamente, escassez de tudo e estoques agregados gigantescos das mesmas coisas escassas, o paradoxo que Janos Kornai documentou em “The Economics of Shortage”.
