Marcas Portuguesas de Relógios: Entre a Técnica e a Identidade

O conceito de “marca portuguesa” está longe de ser linear. Quando observamos um relógio com um nome português no mostrador, o que estamos verdadeiramente a ver? Um produto concebido em Portugal? Um objecto fabricado cá? Uma marca registada em território nacional? Ou apenas uma ideia portuguesa produzida no estrangeiro?

A questão torna-se particularmente interessante na relojoaria, uma indústria historicamente internacional, dependente de cadeias de fornecimento espalhadas por diversos países. Um relógio pode ter desenho português, caixa chinesa, movimento suíço, montagem alemã e ainda assim apresentar-se como português. Mas será realmente?

Do ponto de vista legal, a nacionalidade de uma marca não corresponde necessariamente ao local de fabrico.

Em Portugal, uma marca torna-se “portuguesa” porque foi registada por uma entidade portuguesa junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, independentemente da origem dos componentes ou da produção. O mesmo sucede noutros países. Muitas marcas consideradas tipicamente suíças, francesas ou americanas fabricam grande parte dos seus componentes fora das respectivas fronteiras.

Existe igualmente uma diferença entre “marca portuguesa” e “produto português”. Um relógio pode pertencer a uma empresa portuguesa sem que exista qualquer fabrico nacional. Pelo contrário, existe produção de relógios em Portugal para marcas estrangeiras sem que isso seja remotamente perceptível ao público.

A própria legislação europeia relativa à indicação de origem tende a privilegiar o conceito de “transformação substancial”, o que deixa espaço para múltiplas interpretações.

Contudo, para a maioria das pessoas, a percepção é frequentemente emocional e cultural, mais do que jurídica. Uma marca é vista como pertencente a um país quando comunica uma identidade ligada a esse território — através da língua, da estética, da história, dos fundadores ou da narrativa que constrói em torno de si própria. É por isso que muitos coleccionadores consideram certas micro-marcas actuais como portuguesas, mesmo quando os relógios são integralmente produzidos fora do país.

Na relojoaria portuguesa, esta ambiguidade sempre esteve presente. Existiram marcas estrangeiras que montaram fábricas em Portugal tanto para fabricar componentes como para fazer acabamentos em território português; outras limitaram-se à importação de movimentos suíços, franceses, japoneses ou chineses, comercializando-os sob designações registadas em Portugal. Houve ainda marcas que se dedicaram sobretudo à colocação do seu nome no mostrador, enquanto algumas procuraram verdadeiramente desenvolver soluções técnicas próprias, aproximando-se de uma produção autenticamente industrial, como foi o caso da Reguladora. Todas estas realidades pertencem à história da relojoaria portuguesa, embora correspondam a níveis de intervenção, ambição técnica e identidade profundamente distintos.

Talvez a pergunta mais interessante não seja “o que é uma marca portuguesa?”, mas antes: até que ponto um país consegue reconhecer-se nos objectos que produz, idealiza ou comercializa?

É nacional uma marca que reflecte a forma como um país olha para si próprio, para a sua capacidade técnica, para a sua criatividade e para aquilo que acredita poder construir. Tudo isto vai muito para além de questões legais.

Uma proposta de classificação da relojoaria portuguesa

Ao abordar a história das marcas portuguesas de relógios, surge rapidamente um problema: nem todas pertencem à mesma realidade técnica, industrial ou cultural. Colocar lado a lado uma fábrica como a Boa Reguladora, um fabricante de relógios de torre e uma pequena marca comercial que apenas importava movimentos estrangeiros acaba por criar alguma confusão histórica.

Talvez faça sentido, por isso, propor uma distinção entre diferentes categorias de relojoaria portuguesa.

Esta divisão não pretende estabelecer hierarquias de valor, mas antes ajudar a compreender melhor as diferentes ambições, escalas e capacidades técnicas existentes ao longo da história da relojoaria nacional.

Relojoaria grossa

A designação “grossa” não deve ser entendida de forma pejorativa. Historicamente, o termo servia para distinguir este tipo de produção da chamada relojoaria fina, dedicada a mecanismos mais pequenos, sofisticados e minuciosos. A relojoaria grossa exige igualmente elevados conhecimentos mecânicos, sobretudo na construção de sistemas robustos, duradouros e concebidos para funcionar continuamente durante décadas.

Esta primeira categoria corresponde àquilo que tradicionalmente se designa por relojoaria grossa, isto é, a produção de relógios utilitários de parede ou mesa, maioritariamente de pêndulo, normalmente associados a contextos domésticos, comerciais ou institucionais. É neste domínio que se enquadra, de forma mais evidente, a Boa Reguladora.

A Boa Reguladora - nascida em 1892
A Boa Reguladora – nascida em 1892

Esta empresa produzia relógios em quantidades relativamente significativas, recorrendo frequentemente a processos semi-industriais e, em alguns casos, fabricando internamente componentes mecânicos, caixas e estruturas. Apesar de muitas vezes utilizarem soluções inspiradas na indústria alemã ou americana, possuíam já uma identidade industrial própria e uma capacidade real de adaptação ao mercado português.

Relojoaria monumental

Uma segunda categoria corresponde à relojoaria monumental, ligada sobretudo aos relógios de torre instalados em igrejas, câmaras municipais, estações ferroviárias e edifícios públicos. Ao contrário da relojoaria doméstica, esta especialidade exigia competências muito específicas: construção de estruturas de grandes dimensões, sistemas de transmissão mecânica, sinos, automatismos e mecanismos concebidos para funcionar continuamente durante décadas, muitas vezes expostos às intempéries.

Embora frequentemente ignorada nas histórias tradicionais da relojoaria, a relojoaria monumental representa provavelmente uma das expressões mais técnicas da mecânica portuguesa, envolvendo trabalhos de serralharia, fundição, carpintaria, metalurgia e engenharia mecânica de elevada complexidade.

Portugal conheceu diversas oficinas e fabricantes ligados a este sector, alguns dos quais alcançaram grande notoriedade regional ou nacional. Entre os nomes mais relevantes encontram-se:

  • Cardina, associada à Nazaré;
  • Jerónimo, em Braga;






  • CousinhaA Boa Construtora — Fábrica de Relógios Monumentais, em Almada, responsável por diversos relógios públicos portugueses, incluindo o do Arco da Rua Augusta, em Lisboa;uma das mais importantes empresas portuguesas de fabrico, conservação e restauro de relógios monumentais e sinos; oficinas regionais ligadas à manutenção de relógios de torre municipais e religiosos, muitas vezes associadas a serralharias mecânicas especializadas.

Ao contrário da relojoaria fina, centrada no objecto portátil e no acabamento minucioso, a relojoaria monumental privilegiava a robustez, a fiabilidade e a longevidade. Muitos destes mecanismos funcionaram continuamente durante mais de um século, tornando-se parte integrante da paisagem urbana portuguesa. Apesar da sua importância patrimonial, esta área permanece ainda pouco estudada, dispersa entre oficinas familiares, arquivos municipais e mecanismos esquecidos em torres de igrejas e edifícios públicos.

Entre as figuras contemporâneas que mais contribuíram para a preservação deste património destaca-se Hermínio Nunes, ligado ao projecto TicTac Temporis. O seu trabalho de documentação e divulgação ajudou a devolver visibilidade à relojoaria monumental portuguesa, tratando estes mecanismos não apenas como objectos técnicos, mas também como património histórico e cultural. Contudo muitos outros relojoeiros e relojoaria como o Tempo Minuncioso no Porto, possivelmente a mais activa actualmente, dedicam-se ao restauro e manuetenção de alguns destes relógios.

Relojoaria fina

Por fim, existe aquilo que se poderia chamar relojoaria fina portuguesa — um domínio muito mais fragmentado. Aqui incluem-se as tentativas de criação de relógios de maior sofisticação técnica, acabamento mais cuidado ou concepção mecânica própria.

Historicamente, Portugal nunca desenvolveu uma verdadeira indústria de relojoaria fina comparável à suíça, francesa ou inglesa. Ainda assim, existiram relojoeiros independentes, oficinas especializadas e marcas que procuraram elevar o nível técnico da produção nacional, seja através de modificações mecânicas, construção artesanal, decoração ou desenvolvimento parcial de componentes.

Isotope; Les Tugas: Exímio; Borealis; Bruno Moreira; Meia Lua

Nos tempos contemporâneos, algumas micro-marcas portuguesas voltaram a aproximar-se desta ideia de relojoaria fina, sobretudo através do design, da pequena produção independente e da valorização de uma identidade cultural própria, ainda que recorrendo quase sempre a fabrico internacional.

Entre a técnica e a identidade

Naturalmente, estas categorias não são absolutamente rígidas. Muitas marcas atravessam diferentes domínios, e a própria definição de “relojoaria portuguesa” permanece aberta à discussão. Contudo, esta divisão ajuda a compreender que a história relojoeira nacional não se resume a uma única tradição, mas antes a várias realidades paralelas: industrial, monumental, artesanal, comercial e contemporânea.

Talvez seja precisamente essa diversidade, mais do que a existência de uma grande manufactura nacional, que define verdadeiramente a relojoaria portuguesa.