“Em causa própria: Apresentação d’Os Pássaros da Morte de Salazar:
Uma Tragédia em Duas Farsas” de Miguel Araújo Oliveira
Os Pássaros da Morte de Salazar: Uma Tragédia em Duas Farsas, reeditado em português em Janeiro de 2026, inspira-se no contexto histórico de António de Oliveira Salazar e do Estado Novo, regime autoritário que governou Portugal entre 1933 a 1974. Traduções em alemão (Die Todesvögel Salazars) e inglês (Salazar’s Angels of Death) surgiram em 2024, num momento simbólico: a evocação do cinquentenário da Revolução dos Cravos, que pôs fim à ditadura.
A ação dramática gira em torno de um grupo de jovens dissidentes (na maioria estudantes universitários) que sequestra um homem que acusam ter funcionado como um informador da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Num cenário de julgamento vigilante, os dissidentes responsabilizam-no por prisões arbitrárias, torturas e mortes ocorridas durante o regime. A tensão dramática intensifica-se quando o acusado procura justificar os atos do Estado Novo, relativizando ou negando a gravidade do fascismo. O clímax instala-se quando os jovens deliberam sobre o destino do prisioneiro — expondo o dilema moral entre a justiça e a vingança.
A peça destaca-se pelo retrato cru do medo, da violência e da repressão sob a ditadura. Ela dá voz às vítimas de tortura e da opressão, explorando temas como: a in/justiça, a responsabilidade histórica, a resistência política, a memória coletiva, a banalização do mal (segundo Arendt) e a ética da punição.
A estrutura da obra dialoga com a tradição do teatro político que convoca o público à reflexão crítica, evocando, em certos aspetos, a herança épica de Brecht em não querer apenas emocionar, mas sobretudo inquietar, fazer pensar e levar o leitor/espetador a agir.
O confronto verbal entre os acusadores e o acusado não é apenas jurídico — é principalmente ideológico. A tentativa do réu de normalizar, legitimar e absolver o regime ecoa nos discursos contemporâneos de extrema-direita que procuram relativizar ditaduras sob o pretexto da “ordem” ou da “estabilidade” nacional. Nesse sentido, a peça ultrapassa o enquadramento histórico e ganha a sua atualidade.
Os críticos têm destacado a obra pela sua linguagem direta e pela densidade emocional. A crítica sublinha a coragem da peça em revisitar feridas históricas num momento em que o crescimento de discursos extremistas e autoritários na Europa e no mundo torna urgente a reflexão sobre o nosso passado. Como autor pretendi que a obra pudesse ser lida (ou vista) como um alerta que lembra que regimes autoritários não se sustentam apenas pela sua propaganda (fake news e alternative facts), mas também pelo silêncio, pelo medo e pela cumplicidade social. Num tempo em que a distância temporal tende a suavizar ou mesmo a branquear a perceção da repressão, Os Pássaros da Morte de Salazar intenta relembrar que a liberdade política não é garantida — é conquistada e deve ser defendida, diariamente. Com certeza que a nossa democracia não é perfeita, aliás: “A democracia é o pior dos sistemas, à exceção de todos os outros”, segundo o muito citado Churchill.
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Miguel Araújo Oliveira é professor universitário e escritor, com trabalho desenvolvido nas áreas da literatura e da escrita crítica, explorando temas ligados à migração, censura e ao autoritarismo. Os Pássaros da Morte de Salazar consolida a sua investigação artística no cruzamento entre política, poética e cena.
