“ImBestigação” da Cooperativa: o socialismo e o milagre da multiplicação dos peixes, um livro de investigadores do ISCTE, leis laborais mais rígidas que reduzem a precariedade jovem.
Com estes ingredientes todos, já sabes não é?
Só falta saber porquê.
Nada grita mais balelas do que isto!
Apresentação do livro académico chamado Governing Solidarity in European Labour Markets: Atypical Employment and Minimum Wage Reform in Spain and Portugal, editado pela Routledge. A obra compara as reformas laborais em Portugal e Espanha e defende que maior proteção no mercado de trabalho não implica necessariamente destruição de emprego. Pelo contrário, segundo os autores, pode coexistir com mais estabilidade, produtividade e crescimento económico.
O livro é assinado por investigadores do ISCTE, da Universidade Nova e da Universidade Autónoma de Barcelona.
O dado principal é a evolução dos contratos temporários entre jovens dos 15 aos 24 anos. Entre 2015 e 2025, Espanha e Portugal registaram, segundo a peça, a maior queda numa década do emprego temporário jovem desde o início da série do Eurostat, em 1995.
Em Espanha, a percentagem de jovens trabalhadores dos 15 aos 24 anos com contrato temporário caiu de 70,4% em 2015 para 44,4% em 2025. Isto representa uma descida de 26 pontos percentuais.
Em Portugal, a percentagem caiu de 67,6% em 2015 para 49,8% em 2025. Ou seja, uma descida de 17,8 pontos percentuais, arredondada na manchete para 18 pontos. A comparação entre os dois países serve para mostrar que ambos reduziram a temporalidade laboral jovem, mas que Espanha teve uma redução mais intensa!
A conclusão apresentada por Paulo Marques, coautor do livro, investigador e docente no ISCTE e coordenador do Observatório do Emprego Jovem em Portugal, é dupla,primeiro, é possível reduzir a precariedade jovem sem destruir emprego; segundo, a estabilidade contratual é compatível com ganhos de produtividade e crescimento económico.
Como vês, isto ainda é melhor do que o milagre da multiplicação dos peixes. Choca é com a realidade.
fonte de informação:https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/entre-2015-e-2025-os-contratos-a-prazo-nos-jovens-cairam-26-pontos-em-espanha-e-18-em-portugal/

Bom, eu acho sempre abusivo dizer que temos sucesso com o emprego jovem quando 19,8% destes estão no desemprego em Portugal. Em Espanha, o supra-sumo da barbatana, em 2025, pior, nos 24,7%.
Quase 1 em cada 5 jovens ativos entre os 16-24 está desempregado em Portugal.
E isto num país que passa a vida a fazer congressos sobre talento, futuro, inovação, qualificação, transição digital e outras palavras muito elegantes para dizer a um miúdo de 23 anos que talvez haja uma vaga para estágio, recibo verde, 900 euros e uma grande oportunidade de aprendizagem”.
Espanha está pior, sim. Em 2025, andava perto dos 25% de desemprego jovem. Mas Espanha partir de um buraco ainda maior não transforma o buraco português numa varanda com vista para o mar.
Em Portugal olhamos para 19,5% de desemprego jovem e fingimos todos que isto é normal. Não é.
A precariedade não começa apenas no contrato a prazo. Começa antes, na porta de entrada fechada.
Depois admiram-se que eles façam as malas. Claro, em 2015 era pior. Pois era, relembro só que a Troika tinha acabado também ela de fazer as malas.
fonte de informação:https://fred.stlouisfed.org/data/SLUEM1524ZSPRT

Entre 2015 e 2024, emigraram de Portugal cerca de 205 274 jovens dos 15 aos 24 anos.
Ou seja, todos os anos lá vai uma pequena cidade jovem porta fora, com mala.
Pois caíram.
Melhor do que ter jovens precários é mesmo ter menos jovens disponíveis para serem precarizados.
Xuxas a ser xuxas, não resolvemos o problema; exportamos a vítima. Fica tudo mais limpo na estatística. Parabéns!
fonte de informação:https://ffms.pt/sites/default/files/2025-12/18.12.2025%20PR%20Pordata%20Migra%C3%A7%C3%B5es.pdf

O mesmo Jornal Económico que destaca as maravilhas socialistas retratadas no livro do ISCTE, há um mês, no dia do trabalhador, pintava o cenário preto, mas preto, para os jovens portugueses!
Isto é poesia!
Fonte de informação:

Há uma forma muito elegante de reduzir a precariedade jovem nas estatísticas, importar adultos para ocupar os empregos precários.
Em 2015, Portugal tinha 388.731 cidadãos estrangeiros residentes.
Em 2024, já tinha 1.543.697.
Quase quatro vezes mais.
Segundo dados do Banco de Portugal, entre 2010 e 2024 entraram cerca de 1,4 milhões de trabalhadores estrangeiros no sistema da Segurança Social; 1,2 milhões só desde 2018.
E onde entraram?
20% em atividades administrativas e serviços de apoio, onde cabem limpezas, outsourcing, trabalho temporário e serviços operacionais.
18% em alojamento e restauração.
15% em agricultura e pescas.
14% em construção.
10% no comércio.
7% na indústria.
Ou seja, hotéis, cafés, restaurantes, limpezas, obras, estufas, apanha de fruta, armazéns, lojas, reposição, turnos, sazonalidade, baixos salários e contratos frágeis.
O país não fez desaparecer a precariedade. Mudou-lhe a nacionalidade.
Em 2025, quase 34% dos trabalhadores estrangeiros em Portugal tinham emprego temporário, contra quase 14% dos nacionais.
Na UE, a diferença era bem menor: 19,2% nos estrangeiros contra 12% nos nacionais.
Portanto, quando nos dizem que os contratos a prazo dos jovens caíram, convém olhar para o outro lado da fotografia.
Saíram jovens. Entraram imigrantes.
E muitos foram precisamente para os setores que sempre viveram de trabalho barato, rotativo, sazonal e precário.
Melhor do que resolver a precariedade jovem foi arranjar quem a aceitasse no lugar deles. Estatisticamente, fica impecável.
fonte de informação:https://www.rtp.pt/noticias/economia/estrangeiros-em-portugal-estao-a-trabalhar-defende-governador-bdp_n1729195

☢️ Em conclusão: o sucesso é um mero falhanço escondido
Entre 2015 e 2025, diz-nos o estudo, a percentagem de jovens dos 15 aos 24 anos com contratos temporários caiu em Portugal de 67,6% para 49,8%. Em Espanha, essa queda foi ainda mais vistosa, de 70,4% para 44,4%. E pronto, com estes números bem penteados, nasce a conclusão luminosa de que afinal, reforçar direitos laborais, limitar contratos a prazo e proteger mais os trabalhadores não destrói emprego; pelo contrário, pode coexistir com crescimento, produtividade e estabilidade.
É uma história bonita. Tem académicos, tem conferência, tem Espanha como exemplo ibérico, tem Portugal como aluno aplicado, e tem, claro, dedo xuxa. O problema é que, quando se sai da manchete e se desce à terra, a coisa perde o verniz. Porque o tal sucesso português, que nos é servido como prova de maturidade laboral, significa que, depois de dez anos de suposta melhoria, quase metade dos jovens empregados por conta de outrem entre os 15 e os 24 anos continua com contrato temporário. Quase metade. Não estamos a falar de uma pequena bolsa residual, de um fenómeno marginal, de uma imperfeição estatística perdida no rodapé. Estamos a falar de 49,8%.
Chamar a isto sucesso exige um certo talento para a ilusão.
O desemprego jovem mostra bem a dimensão do embuste. Em 2025, Portugal podia orgulhar-se de uma taxa de desemprego geral à volta dos 6%, valor suficientemente apresentável para ministros, comentadores e relatórios de fim de ciclo. Mas, quando se olha para os jovens dos 16 aos 24 anos, o número sobe para 19,5%. Quase um em cada cinco jovens ativos estava desempregado. Num país que fala todos os dias de talento, inovação, competências digitais, transição tecnológica e inteligência artificial, quase 20% dos jovens que querem trabalhar não encontram trabalho. E os que encontram, muitas vezes, entram pela porta estreita do estágio, do contrato tremido e do salário miserável.
A seguir vem a emigração, esse grande purificador estatístico que os governos tratam sempre com a delicadeza de quem não quer acordar um morto. Entre 2015 e 2024, somando emigração permanente e temporária, saíram de Portugal cerca de 205 mil jovens dos 15 aos 24 anos. Todos os anos, qualquer coisa entre 18 mil e 23 mil jovens nessa idade pegou na mala e saiu do país.
A narrativa do sucesso do livro do ISCTE começa a ganhar contornos de anedota trágica, certo? Melhor do que acabar com a precariedade jovem é não ter jovens disponíveis para serem precarizados. Não há jovem, não há contrato a prazo jovem. Não há contrato a prazo jovem, baixa a percentagem. Baixa a percentagem, nasce a tese. Nasce a tese, aparece a conferência. Aparece a conferência, todos concluem que o modelo afinal funciona. É brilhante. Não se resolve o problema, exporta-se a vítima. Fica tudo mais limpo no Excel.
Por fim, a imigração. Em 2015, Portugal tinha cerca de 389 mil cidadãos estrangeiros residentes. Em 2024, tinha mais de 1,5 milhões. Quase quadruplicou. A restauração, os hotéis, as limpezas, as obras, a agricultura, os armazéns, a distribuição, o comércio e uma fatia relevante dos serviços de apoio assentam hoje numa massa enorme de trabalhadores estrangeiros. O problema está no tipo de economia que os absorveu e nas condições em que demasiadas vezes os absorveu.
Muitos foram para os setores onde a precariedade sempre teve morada fixa: alojamento e restauração, construção, agricultura, limpezas, trabalho temporário, outsourcing, logística, comércio, serviços operacionais. Setores de rotação alta, salários baixos, horários partidos, sazonalidade, dependência hierárquica forte e contratos frágeis. A precariedade que antes apanhava muitos jovens portugueses à entrada do mercado passou, em larga medida, a ser suportada também por imigrantes, frequentemente mais vulneráveis, mais disponíveis para aceitar más condições e com menos margem para dizer não.
Em Portugal, quase 34% dos trabalhadores estrangeiros tinham emprego temporário. Portugal conseguiu, com aquele toque de reverse midas que nos caracteriza, transformar uma fragilidade europeia numa especialidade local. Importámos mão de obra para sustentar setores que não quiseram ou não souberam subir salários, melhorar produtividade e oferecer condições capazes de fixar quem cá nasceu. Depois olhámos para a queda dos contratos a prazo nos jovens e fizemos cara de quem descobriu a pólvora.
O “sucesso espanhol”: Espanha, apresentada nesta história como o grande farol, também merece menos incenso, camaradas. É verdade que reduziu mais a temporalidade jovem, descendo de 70,4% para 44,4%. É verdade que a reforma laboral espanhola foi mais funda e que os resultados no indicador são mais impressionantes. Mas convém não perder o pudor, 44,4% dos jovens empregados dos 15 aos 24 anos continuam com contrato temporário. Quase metade. Além disso, o desemprego jovem espanhol continua superior ao português. Portanto, se Espanha é o suprassumo da barbatana laboral, então estamos perante um peixe bastante triste. Melhorou, sim, mas melhorou a partir de um buraco tão fundo que qualquer degrau parece uma varanda.
É esta a grande fraude moral da década. Passámos anos nas mãos de ilusionistas xuxas que nos venderam estabilidade como se fosse prosperidade, salário mínimo como se fosse política industrial, turismo como se fosse estratégia nacional, imigração como se fosse solução mágica, Estado como se fosse motor económico e legislação laboral como se fosse justiça social embalada em decreto. Enquanto isso, a produtividade continuou medíocre, os salários continuaram curtos, a habitação ficou impossível, a juventude foi adiando a vida e o país habituou-se a confundir ausência de colapso com sucesso.
Podemos apenas imaginar o que seria hoje Portugal se não tivesse perdido uma década nesse teatro. Um país mais flexível, mais dinâmico, menos burocrático, menos desconfiado de quem quer contratar, investir, crescer e arriscar. Um país onde fosse mais fácil criar empresas robustas, contratar cedo, promover depressa, pagar melhor por produtividade real e permitir que os jovens entrassem no mercado sem terem primeiro de atravessar o pântano dos estágios, dos contratos a prazo, da dependência familiar e da emigração como plano B. Talvez não fosse perfeito. Nenhum país é. Mas dificilmente seria pior do que esta espécie de socialismo administrativo que protege tanto o trabalhador que acaba por lhe proteger o lugar fora do país.
A retórica oficial gosta de dizer que flexibilizar é precarizar. Portugal não é um sucesso no emprego jovem. Espanha, com todo o aparato da reforma exemplar, também não é propriamente o paraíso. São dois países com juventudes ainda demasiado expostas ao desemprego, à temporalidade, à emigração, à instabilidade e à promessa eternamente adiada de uma vida normal.
O país não resolveu problema nenhum. Aprendeu a apresentá-lo melhor. O jovem vai embora, o imigrante ocupa o turno, o contrato continua frágil, o salário continua curto, a casa continua impossível, a produtividade continua rasteira, mas a percentagem melhorou. E, se a percentagem melhorou, alguém há de chamar-lhe sucesso.
Eu chamo-lhe outra coisa, um falhanço escondido.
Tenho dito.
