Excertos da Biografia de David Lynch

Excertos da biografia do cineasta David Lynch, Room to Dream, sobre crescer nos anos 50, a escola, amor platónico, o dia em que a música acabou, rock 'n' roll, masturbação, guardar úteros humanos em frascos, egoísmo, pais antigos e modernos.

Excertos da biografia do cineasta David Lynch, Room to Dream, David Lynch and Kristine McKenna, Random House, 2018. Tradução nossa.

Sobre Crescer nos Anos Cinquenta

“Os miúdos então tinham muita liberdade para andarem por aí. Íamos a todo o lado e nunca estávamos dentro de casa durante o dia. Estávamos lá fora a fazer coisas e era fantástico. É horrível que os miúdos já não possam crescer assim. Como é que deixámos que isto acontecesse? Não tivemos televisão até eu estar no terceiro ano, e vi alguma televisão enquanto criança, mas muito pouca. O único programa que realmente via era o Perry Mason. A televisão fez o que a Internet está a fazer ainda mais agora: homogeneizou tudo.”

“Há uma coisa nos anos cinquenta que é tão importante e que nunca mais vai voltar: havia diferenças entre os sítios. Em Boise as raparigas e os rapazes vestiam-se de uma certa maneira, e se se fosse para a Virgínia vestiam-se de uma maneira completamente diferente. Se se fosse para Nova Iorque vestiam-se de uma maneira completamente diferente também, e ouviam música diferente. Ia-se para Queens e as raparigas tinham um aspecto — nunca se tinha visto nada assim na vida! E em Brooklyn são ainda diferentes de Queens! Aquela fotografia da Diane Arbus do casal com o bebé, e a rapariga tem um certo tipo de cabelo grande e bonito? Nunca se veria isso em Boise ou na Virgínia. E a música. Se se apanhar a vibração da música de um sítio, basta olhar para estas raparigas e ouvir o que elas estão a ouvir, e tem-se o quadro completo. O mundo em que vivem é completamente estranho e único e quer-se saber sobre esse mundo e sobre aquilo de que gostam. Esse tipo de diferenças praticamente desapareceu. Ainda há diferenças menores, como os hipsters, mas encontram-se hipsters noutras cidades que são exactamente iguais aos hipsters da nossa cidade.”

“Aquela coisa das pequenas cidades dos anos cinquenta é diferente, e captar esse ambiente é importante. É sonhador, é qualquer coisa. O ambiente dos anos cinquenta não é completamente positivo, no entanto, e eu sempre soube que havia coisas a acontecer. Quando andava de bicicleta depois de escurecer, algumas casas tinham luzes acesas lá dentro que eram de algum modo quentes, ou eu conhecia as pessoas que viviam na casa. Outras casas, as luzes eram ténues, e em algumas casas estavam quase apagadas e eu não conhecia as pessoas que lá viviam. Eu tinha uma sensação dessas casas de coisas a acontecer que não eram felizes. Não me debruçava sobre isso, mas sabia que havia coisas a acontecer por detrás daquelas portas e janelas.”

Sobre a Escola

“Lembro-me sobretudo dos Verões porque o Inverno significava escola, e nós, seres humanos, bloqueamos mentalmente a escola porque é horrível. Quase não me lembro de alguma vez ter estado numa sala de aula, e não me lembro de nenhuma das minhas disciplinas excepto a de arte. Apesar de ter um professor de arte muito conservador, lembro-me de a ter adorado. Ainda assim preferia estar lá fora.”

“No oitavo ano gostei de ciências por alguma razão, por isso quando comecei o nono ano inscrevi-me em todas as disciplinas de ciências. Agora quase não acredito. Os quatro anos todos perdidos com ciências! Depois, no nono ano, conheço o Toby Keeler e ele diz-me que o pai é pintor — não, não pintor de casas, um pintor de belas-artes — e, literalmente, bum! Uma bomba explode-me na cabeça. Todas estas coisas devem ter-se juntado como uma bomba de hidrogénio e foi isso, era tudo o que eu queria fazer. Mas tinha de ir à escola, e o liceu foi o pior. Ir àquele edifício tantas horas por dia parecia-me simplesmente ridículo. Tenho cerca de três memórias de salas de aula do liceu, e nenhuma delas é boa. Lembro-me de dizer ao Sam Johnson: «Diz-me, diz-me, diz-me!» Estávamos prestes a ter um teste, e ele dizia-me as coisas e eu tentava lembrá-las o tempo suficiente para fazer o teste. Nunca estudava e não conseguia sair daquelas disciplinas de ciências, e fui expulso do conselho de estudantes porque chumbei a física e me recusei a ir às aulas. Em vez de ir, descia ao gabinete da frente e implorava: «Deixem-me sair disto; eu não quero ser físico», e eles diziam: «David, há coisas na vida que se têm de fazer goste-se ou não.» O meu irmão mais novo desde cedo se interessou por electrónica e foi isso que acabou por seguir, e penso que se sabe o que se vai fazer quando se é miúdo. Deviam tirar-nos da escola e deixar-nos concentrar-nos só naquilo. Meu Deus! Podia ter estado a pintar todo o tempo que passei na escola! E não me lembro de nada. Nada! Não me consigo lembrar de uma porra nenhuma do que aprendi na escola.”

Sobre Amor Platónico

“Só uma rapariga me partiu o coração e o nome dela era Nancy Briggs. Era a namorada do meu amigo Charlie Smith, e não sei se ele sabia que eu gostava da namorada dele. Ela, porém, não me amava. Estive louco por ela durante toda a primeira metade do meu ano de faculdade em Boston, e fiquei simplesmente de coração partido. 

Durante as férias de Natal, quando andava na faculdade em Boston, fui à Virgínia e andava a sofrer de saudades, e o David Keeler disse: «Porque é que não a levas simplesmente a almoçar e vês o que se passa?» Por isso telefonei à Nancy e fomos ao McDonald’s. Levámos a comida para o carro e perguntei-lhe se ela gostava de mim, e ela disse que não, e foi isso. Fiquei com aquilo na cabeça durante muito tempo e sonhava com ela. O que é que tinha a Nancy Briggs? Eu simplesmente amava-a, e quem sabe por que razão nos apaixonamos por alguém. Nunca aconteceu nada com ela, mas eu simplesmente não conseguia tirá-la do sistema. Depois de terminar as filmagens de Blue Velvet estava em Wilmington, e por alguma razão decidi: Vou telefonar à Nancy Briggs. De alguma forma consegui o número dela e telefonei-lhe, e no segundo em que ouvi a voz dela a saudade desapareceu completamente. Passou de um sonho para a realidade, e o sonho era a coisa poderosa. É incrível o que fazemos nos nossos cérebros. Porque é que andei a sofrer todos aqueles anos? Vai-se lá saber…”

Sobre o Dia em que a Música Acabou

“As experiências da infância podem moldar-nos, e os meus anos de infância em Boise foram extremamente importantes para mim.
Era uma noite de Agosto de 1960. Era a nossa última noite em Boise. Há um triângulo de relva que separa a nossa entrada da entrada dos Smith, ao lado, e o meu pai, o meu irmão, a minha irmã e eu estávamos naquele triângulo a despedir-nos dos miúdos Smith, o Mark, o Denny, o Randy e o Greg. De repente aparece o Sr. Smith e vejo-o a falar com o meu pai, depois a apertar-lhe a mão. Fixei aquilo e comecei a sentir a seriedade da situação, a enorme importância daquela última noite. Em todos os anos em que vivi ao lado dos Smith nunca tinha falado a sós com o Sr. Smith e agora ali estava ele a caminhar na minha direcção. Estendeu-me a mão e eu apertei-a. Pode ter dito qualquer coisa como «Vamos sentir a tua falta, David», mas eu não ouvi realmente o que disse — comecei simplesmente a chorar. Apercebi-me de quão importante a família Smith era para mim, depois de quão importantes eram todos os meus amigos de Boise, e senti aquilo a crescer a um nível cada vez mais profundo. Era mais do que tristeza. E depois vi a escuridão do desconhecido em que ia entrar no dia seguinte. Olhei, através das lágrimas, para o Sr. Smith enquanto terminávamos o aperto de mão. Não consegui falar. Foi definitivamente o fim de uma belíssima era dourada.”

Sobre Rock’n Roll

“Há muito rock ’n’ roll em Wild at Heart. O rock ’n’ roll é um ritmo e é amor e sexo e sonhos a nadarem todos juntos. Não é preciso ser jovem para apreciar o rock ’n’ roll, mas é uma espécie de sonho juvenil de se regozijar na liberdade.”

“Lembro-me de ter descoberto o rock ’n’ roll quando era miúdo, também. O rock ’n’ roll faz-nos sonhar e dá-nos uma certa sensação, e foi tão poderoso quando o ouvi pela primeira vez. A música mudou desde o nascimento do rock ’n’ roll, mas a diferença não é nem de perto tão grande como foi quando o rock ’n’ roll surgiu, porque o que o tinha precedido era tão diferente. É como se tivesse vindo do nada. Faziam rhythm and blues, mas nós não o ouvíamos, e também não ouvíamos realmente jazz, excepto o Brubeck.”

Sobre Masturbação

“As pessoas chegavam à idade adulta muito mais tarde nos anos cinquenta. No sexto ano circulava uma história sobre um miúdo da nossa turma que já precisava de se barbear e era maior do que a maior parte dos miúdos. A história era que ele tinha ido à casa de banho dos rapazes e tinha feito aquela coisa com o pénis e saíra um fluido branco. Eu disse: O quê? Não acredito no que estou a ouvir, mas qualquer coisa me dizia que era verdade. Eu equiparo isso a transcender com a meditação. Não se consegue realmente acreditar que alguém possa atingir a iluminação, mas qualquer coisa dentro de nós diz-nos que pode ser verdade. Foi a mesma coisa. Por isso pensei: Vou experimentar isto esta noite. Demorou uma eternidade. Não acontecia nada, pois não? E de repente esta sensação — pensei: De onde vem esta sensação? Uau! A história era verdadeira e era inacreditável. Foi como descobrir o fogo. Foi exactamente como a meditação. Aprende-se esta técnica e, eis senão quando, as coisas começam a mudar e lá está. É real.”

Sobre Guardar Úteros Humanos em Frascos

“Lynch estava ansioso por deixar Dune para trás, mas a sua relação com a família De Laurentiis manteve-se forte. «O David é obcecado com partes do corpo, e eu tive de fazer uma histerectomia depois de Dune», recordou Raffaella De Laurentiis. «O David disse: “Vais fazer uma histerectomia? Posso ficar com o teu útero?” Eu disse que sim, porque não, e pedi ao hospital que mo dessem, mas olharam para mim como se eu tivesse perdido o juízo e recusaram. Por isso mandei o meu enteado ir ao talho buscar o útero de um porco, e pusemo-lo num frasco com formol, colámos-lhe a pulseira de identificação do hospital e demos ao David. Alguém me disse que ele o guardou no frigorífico durante anos, e uma vez teve de passar pela alfândega com aquele frasco. Provavelmente foi uma das suas mulheres que o deitou fora.»”

Sobre Egoísmo

“Lynch acabou por sair do México no princípio de Fevereiro de 1984 e mudou-se para um apartamento modesto em West Los Angeles, onde viveu durante os seis meses seguintes enquanto o filme era montado. Brandstein fez parte da sua vida durante esse período e recordou: «O David via-me como alguém que vivia a vida de artista, que era uma coisa que ele desejava intensamente — ser um criador e fazer arte era tudo para ele. Falámos muito sobre arte e espiritualidade, e ele fez-me sentir bem por ser artista e ajudou-me a avançar nesse sentido. A relação causou conflito emocional a ambos, no entanto. O David não gostava de estar a magoar a Mary, e estava constantemente a tentar equilibrar as coisas porque quer os dois lados. Quer uma relação que exista num estado excitante e despertado, mas também quer o conforto da vida doméstica, aquela coisa de rapaz de quinta do Midwest. Precisa dos dois, e isso tem sido a estrutura da sua vida e o motor da sua criatividade. Eu teria casado com o David num instante, mas ele não estava disponível, e sentia uma espécie de vazio na relação, por isso quando conheci outra pessoa em 1985 segui em frente.»”

“Uma coisa que tem sido constante ao longo da vida de Lynch é que ele é como erva de gato para as mulheres. «Não há malícia no meu pai e ele não faz estas coisas por egoísmo — não é de todo isso», disse Jennifer Lynch. «É só que ele sempre esteve apaixonado por segredos e travessuras e sexualidade, e é traquinas e ama genuinamente o amor. E quando ele te ama, és a pessoa mais amada, e ele fica feliz e eufórico e tem ideias e torna-se criativo e a coisa toda é loucamente romântica.»

“Fisk sempre tivera consciência deste aspecto de Lynch, mas não estava preparada para enfrentar a situação em Los Angeles. «O David ia e vinha da Virgínia para L.A. enquanto montavam Dune, e durante esse período disse-me que estava muito preocupado com o nosso casamento», recordou Fisk. «O meu irmão disse que pensava que ele estava a ter um caso, mas eu não quis pensar nisso. Fui lá à festa do elenco e da equipa e as raparigas estavam todas em cima dele, e lembro-me de ter pensado: Isto é estranho. Mas depois apercebi-me de que era assim que ia ser.»”

Sobre Pais Antigos e Pais Modernos

“Quando a minha filha nasceu, os pais nunca entravam na sala de partos, e quando perguntei se podia entrar, o tipo olhou para mim de lado. Disse: «Vou observar-te e ver como te sais», por isso tirou sangue à Peggy e eu não desmaiei, e ela vomitou um monte de coisas e isso não me incomodou, por isso ele disse: «Estás apto a entrar.» Então lavei-me e entrei. Foi bom. Queria ver só para ver. Ter um filho não me fez pensar: Pronto, agora tenho de me assentar e ser sério. Foi como… não exactamente como ter um cão, mas como ter outro tipo de textura em casa. E os bebés precisam de coisas e havia coisas que eu podia contribuir. Ouvimos dizer que os bebés gostam de ver objectos em movimento, por isso peguei num pacote de fósforos e dobrei todos os fósforos em direcções diferentes e pendurei-o num fio, e balançava aquela coisa à frente da cara da Jen e fazia-a rodar, como um móbile de pobre. Acho que lhe aumentou o QI, porque a Jen é tão inteligente!

Sempre senti que o trabalho era a coisa principal, mas há pais agora que adoram passar tempo com os filhos e vão a actividades escolares e tudo isso. Não era a minha geração. O meu pai e a minha mãe nunca iam aos nossos jogos de basebol. Estás-te a passar? Aquilo era a nossa cena! Porque raio é que eles haveriam de ir? Supunha-se que estivessem a trabalhar e a tratar das suas coisas. Isso era a nossa cena. Agora estão lá todos os pais, a puxar pelos miúdos. É simplesmente ridículo.”

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