A Anatomia de um Salário Baixo

Os baixos salários em Portugal resultam da estagnação da produtividade, não de má vontade patronal. Numa economia de baixo valor que compete por preço, com elevada fiscalidade sobre o trabalho e pressões migratórias, reformas estruturais são essenciais para crescer a riqueza antes de redistribuir.

Porque é que os salários são baixos em Portugal? A pergunta é feita quase sempre em tom de acusação — como se houvesse um culpado, um patronato mesquinho ou um Estado distraído, e como se bastasse uma lei, um decreto ou uma boa dose de indignação para a resolver. Não basta. O salário baixo não é uma escolha moral de ninguém; é o resultado aritmético de uma estrutura. E vale a pena descrever essa estrutura com frieza, porque só quem a percebe pode mudá-la.

O ponto de partida é uma verdade económica desconfortável e quase tautológica: no longo prazo, o salário é o espelho da produtividade. Uma empresa não pode pagar de forma sustentada mais do que o valor que cada hora de trabalho cria. Pode fazê-lo por um ano, à custa do lucro; não o pode fazer por uma década. Logo, a pergunta “porque são baixos os salários” é, no fundo, a pergunta “porque é baixa a produtividade” — e a essa juntam-se depois quatro mecanismos que agravam o problema: a especialização nos setores errados, a competição a preço em vez de a valor, uma fiscalidade que acaba por recair sobre o trabalho, e dois fluxos migratórios que apertam a distribuição pelas duas pontas.

A raiz: uma economia que não cresce

Tenho argumentado, ensaio após ensaio, que Portugal não teve neste século uma crise, mas algo pior: um declínio lento e confortável. O rendimento por pessoa está preso há duas décadas em torno de 78% da média europeia; somos o 22.º de 27 Estados-membros; e países que eram mais pobres do que nós — a Polónia é o caso exemplar — ultrapassaram-nos. A causa próxima é sempre a mesma: a produtividade quase não cresce. E a razão para isso não é misteriosa. De Solow sabemos que o motor último do crescimento é a produtividade; de Romer, que ela vem das ideias; de Aghion e Howitt, que o processo é de destruição criadora e exige concorrência e entrada; de Mokyr e da escola das instituições, que tudo repousa sobre regras do jogo que recompensem a inovação.

Portugal falha em quase todos estes pontos, e já os enumerei antes: uma carga fiscal das mais pesadas da OCDE sobre um dos rendimentos mais baixos, e — pior do que o nível — um código fiscal que muda todos os anos e impede o planeamento; regulação e licenciamento excessivos, profissões fechadas, barreiras à entrada que protegem os instalados; um mercado de trabalho rígido que congela a realocação; um tecido de 99% de micro e pequenas empresas que não conseguem crescer; um mercado de capitais praticamente inexistente para as empresas médias; uma justiça lenta; um Estado que não consegue parar de crescer. Nada disto é sobre salários — e é tudo sobre salários. Porque enquanto o valor criado por hora de trabalho não subir, o salário médio não tem de onde subir. Os salários até têm crescido na última década, é certo; mas partem de uma base baixa e batem sempre no mesmo teto, o da produtividade que não acompanha.

A especialização nos setores pouco produtivos

Sobre esta base assenta um segundo problema, mais específico: Portugal especializou-se nas atividades pouco produtivas. A economia foi-se inclinando para setores de baixa produtividade e não transacionáveis — alojamento, restauração, comércio, serviços pessoais — e afastando-se dos setores de alta produtividade que pagam salários altos. O turismo, hoje celebrado como o motor da economia, é o sintoma mais visível: representa cerca de 12% do PIB e uns notáveis 20,8% de todas as exportações, quase metade das exportações de serviços. É emprego a mais num setor de valor acrescentado por trabalhador estruturalmente baixo.

O dado mais revelador de todos vem do PlanAPP: nas últimas duas décadas, praticamente todos os ramos que conseguiram ganhos de produtividade perderam peso no emprego, e a maioria perdeu relevância na economia. Ou seja, o emprego português migrou sistematicamente na direção contrária àquela de que a prosperidade depende — para onde a produtividade é menor. Uma economia que desloca gente das fábricas produtivas para os cafés e os hotéis está, por construção, a baixar o seu salário médio.

A isto soma-se o poder de mercado. Vários setores centrais — a banca, a distribuição, a energia, as telecomunicações — não são mercados competitivos, mas oligopólios concentrados que extraem rendas em vez de competir. Convém ser rigoroso: o problema não é que a banca pague salários baixos em termos absolutos — não paga. O problema é duplo. Primeiro, a concentração e as rendas sufocam o dinamismo e o investimento em toda a economia, travando a produtividade de que todos os salários dependem. Segundo, onde os empregadores são poucos — numa região, numa profissão — o mercado de trabalho torna-se um monopsónio: o trabalhador tem poucas alternativas, o empregador tem poder para fixar o salário abaixo da produtividade marginal, e a evidência europeia confirma que a concentração do mercado de trabalho está associada a salários mais baixos e a menor segurança no emprego. O poder de mercado nas contratações é uma forma silenciosa de manter os salários em baixo.

Competir a preço, não a valor

Mesmo o setor exportador — supostamente a parte nobre e competitiva da economia — compete quase sempre pela via do preço, não do valor. Vendemos sol, praia e simpatia no turismo; vendemos têxtil, calçado e componentes a quem procura fornecedores baratos e fiáveis. Falta o essencial: propriedade intelectual, marcas globais, produtos que ninguém mais sabe fazer e que por isso comandam margens altas. E a raiz disso está nos números da inovação. Portugal gasta 1,75% do PIB em investigação e desenvolvimento, muito abaixo da meta europeia de 3% e da média da UE. Nas dotações públicas para I&D por habitante, somos o quinto pior da União — 78,7 euros por pessoa, contra uma média europeia de 284,7. Um país que quase não investe em ideias não gera patentes nem marcas; e um país sem patentes nem marcas vende trabalho barato incorporado em bens baratos.

A diferença é tudo. Uma empresa que vende um medicamento patenteado, um chip que mais ninguém desenha ou uma marca de luxo cobra um preço muito acima do custo, e essa margem paga salários altos. Uma empresa que compete a preço não tem margem para partilhar: qualquer aumento salarial destrói-lhe a única vantagem que tem, que é ser barata. Competir a preço é, por definição, competir com salários baixos. Foi essa a estrada que Portugal escolheu, e ela conduz sempre ao mesmo sítio.

A cunha fiscal — e a incidência escondida do IRC

Chega a fiscalidade, e ela morde de duas maneiras. A primeira é conhecida: a cunha fiscal sobre o trabalho, das mais pesadas da OCDE, ronda os 40% do custo total. Torna cada aumento salarial brutalmente caro para a empresa — é mais barato, como já se demonstrou publicamente, pagar três salários de mil euros do que um de três mil. O Estado interpõe-se entre o que a empresa gasta e o que o trabalhador recebe, e fica com uma fatia que torna o aumento do salário líquido um luxo dispendioso.

A segunda é mais subtil e quase nunca é dita. O imposto sobre as empresas, o IRC — hoje com taxa geral de 19% e derramas que empurram o topo para perto dos 30% —, é apresentado como um imposto sobre o capital. Não é, não inteiramente. Numa pequena economia aberta, com capital perfeitamente móvel, o resultado clássico da teoria da incidência fiscal é implacável: o capital exige uma rentabilidade líquida fixada pelos mercados internacionais e, se um país o tributar demasiado, ele simplesmente vai-se embora. O imposto acaba então por recair sobre os fatores que não podem mudar de país — sobretudo o trabalho. A literatura empírica confirma-o com dados de milhares de empresas. Arulampalam, Devereux e Maffini, analisando 55 mil empresas de nove países europeus, mostram que os empregados suportam diretamente uma parte importante do imposto (European Economic Review, 2012). E Fuest, Peichl e Siegloch, explorando 6.800 alterações fiscais em municípios alemães, estimam que os trabalhadores suportam cerca de metade da carga total do IRC — e, o que é mais cruel, que os mais atingidos são os jovens, os menos qualificados e as mulheres (American Economic Review, 2018). O imposto chega ao salário por duas vias: diretamente, na negociação salarial, e indiretamente, através de menos investimento, menos capital por trabalhador, menos produtividade. Portugal tributa o trabalho duas vezes: uma às claras, na cunha; outra às escondidas, através de um imposto sobre as empresas que julga cair sobre o capital e que, em boa parte, cai sobre quem trabalha.

Os dois fluxos que apertam a distribuição pelas pontas

Falta o último mecanismo, e é demográfico. Nos últimos anos, dois fluxos migratórios apertaram a distribuição salarial portuguesa simultaneamente pelas duas pontas.

Pela ponta de baixo, a imigração. O número de estrangeiros residentes em Portugal quadruplicou em sete anos — de cerca de 421 mil em 2017 para perto de 1,5 milhões em 2024 —, concentrando-se em setores de baixos salários. Aqui é preciso honestidade: a economia da imigração é contestada, e a melhor evidência internacional aponta, em média, para efeitos pequenos sobre os salários dos residentes. Mas o caso português é precisamente aquele em que a pressão de curto prazo é mais plausível: um choque de oferta de trabalho maciço, rapidíssimo e concentrado nos escalões mais baixos. Quando a oferta de trabalho pouco qualificado dispara desta forma, o preço desse trabalho — o salário mais baixo — sofre uma pressão descendente que nenhuma quantidade de indignação anula.

Pela ponta de cima, a emigração qualificada. Perto de 30% dos jovens portugueses vivem hoje fora do país, uma das taxas mais altas da Europa. E mesmo aceitando o estudo do Banco de Portugal segundo o qual quem emigra não é, em média, mais qualificado do que quem fica, o efeito sobre a distribuição salarial é claro: quem parte retira-se de um mercado onde receberia salários acima da média, e a mera existência da porta de saída fixa um teto ao que o país consegue pagar ao talento. Nenhum empregador português compete com o líquido de Amesterdão. Resultado: mais gente a competir pelos salários baixos, menos gente a sustentar os salários altos. A distribuição comprime-se para baixo pelas duas forças ao mesmo tempo.

O que isto significa

Juntem-se as cinco peças e o salário baixo deixa de ser um mistério ou uma injustiça pontual e passa a ser o que verdadeiramente é: o produto lógico de uma economia que não cresce, especializada nas atividades erradas, a competir a preço em vez de a valor, com uma fiscalidade que recai sobre o trabalho, e sujeita a dois fluxos migratórios que a apertam pelas pontas. Nenhuma destas causas se cura por decreto.

É por isso que a tentação recorrente — subir o salário mínimo por lei e declarar o problema resolvido — é uma ilusão perigosa. O salário mínimo pode legislar-se; o salário mediano não. Este último tem de ser ganho, e só há uma forma de o ganhar: tornar cada hora de trabalho mais valiosa. Tudo o resto é redistribuir uma tarte que não cresce — ou, cada vez mais, apanhar um voo para a redistribuir noutro país. O único aumento salarial durável é aquele que a economia produz. E a economia só o produz quando lhe removemos os obstáculos que há décadas descrevo: os impostos, a regulação, as profissões fechadas, a rigidez, o mercado de capitais que não existe, o Estado que não pára de crescer. Os salários portugueses são baixos porque a economia portuguesa foi desenhada, peça a peça, para que assim fosse. A boa notícia, a única, é que o que foi desenhado pode ser redesenhado.

Share post:

Mais Artigos

A Evolução Demográfica e Sociocultural de Alfama no Século XX e Início do XXI

Baseados num estudo de 1985, analisamos a origem rural maioritária da população de Alfama no séc. XX, via migrações em cadeia e articulações urbano-rurais, em contraste com a actualidade: perda de 80% dos residentes, envelhecimento, gentrificação e turistificação, segundo Censos 2021 e Diagnóstico Social 2025.

J.D. Bernal (1929) sobre Transhumanismo, Ciborgues e Colonização Interplanetária

Algumas observações do cientista, historiador e marxista John Desmond Bernal, em 1929, sobre transumanismo, ciborgues e colonização interplanetária.

Uma Casa Portuguesa

Insatisfeito com o emprego, um indivíduo cria uma comissão para "preservar a casa portuguesa", que rapidamente incha em Instituto com dezenas de funcionários, viagens e altos custos, satirizando a burocracia estatal parasitária. Texto de Vasco Pulido Valente publicado originalmente no Diário de Notícias, a 5 de Fevereiro de 1984.

Marcas Portuguesas de Relógios: Entre a Técnica e a Identidade

O conceito de “marca portuguesa” está longe de ser linear. Quando observamos um relógio com um nome português no mostrador, o que estamos verdadeiramente a ver? Um produto concebido em Portugal? Um objecto fabricado cá? Uma marca registada em território nacional? Ou apenas uma ideia portuguesa produzida no estrangeiro?