A Evolução Demográfica e Sociocultural de Alfama no Século XX e Início do XXI

Baseados num estudo de 1985, analisamos a origem rural maioritária da população de Alfama no séc. XX, via migrações em cadeia e articulações urbano-rurais, em contraste com a actualidade: perda de 80% dos residentes, envelhecimento, gentrificação e turistificação, segundo Censos 2021 e Diagnóstico Social 2025.

1. Introdução

Em 1985, António Firmino da Costa publicou na Análise Social um artigo seminal intitulado “Espaços urbanos e espaços rurais: um xadrez em dois tabuleiros”. Partindo de uma pesquisa inicialmente centrada no fado vadio em Alfama, o autor depara-se, por serendipidade — que propõe designar como “padrão de Pedro Álvares Cabral” —, com um facto imprevisto, anómalo e estratégico: uma grande parte da população do bairro histórico de Lisboa era de origem rural recente, mantendo laços activos com as terras de partida.

Este ensaio retoma as matérias trazidas à luz por Costa, citando amplamente o seu trabalho, para estabelecer a origem rural de muita da população de Alfama ao longo do século XX. Em seguida, confronta essas dinâmicas com a realidade contemporânea, apoiando-se em levantamentos oficiais (Censos 2021, Diagnóstico Social da Freguesia de Santa Maria Maior 2025) e estudos académicos recentes. O contraste revela tanto continuidades (na produção de identidade cultural) como rupturas profundas (do “entreposto” migratório rural para um bairro esvaziado pela gentrificação turística).

2. A Descoberta Serendipitosa: A Origem Rural da População de Alfama

Costa inicia o artigo reflectindo sobre a influência da pesquisa empírica na teoria sociológica. Recorrendo a Robert K. Merton, descreve a “serendipidade” como a observação de um dado imprevisto, anómalo e estratégico que força a reformulação de hipóteses. No seu caso, a pesquisa sobre o fado amador em Alfama — bairro popular por excelência, com forte densidade relacional, festas, sociabilidade de rua e identidade “lisboeta popular” — revelou um facto surpreendente: mais de 50% da população recenseada eleitoralmente em 1983 nas freguesias de Santo Estêvão e São Miguel (núcleo de Alfama) não havia nascido no concelho de Lisboa.

Considerando os naturais de Lisboa cujos pais eram de outras regiões, Costa estima que cerca de três quartos da população do bairro provinha de famílias de recente extracção rural. Os dados do recenseamento eleitoral são elucidativos. Dos 265 concelhos do continente, apenas 29 forneciam mais de metade (52,1%) dos migrantes; sete concelhos contribuíam com quase 30%. Mapas no artigo mostram uma forte concentração em zonas do interior (Beiras, como Pampilhosa da Serra, Góis, Lousã, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, Abrantes).

Estas não eram migrações aleatórias ou de ruptura total. Costa destaca o carácter em cadeia: as redes familiares e de origem orientavam os fluxos para Alfama, onde o porto e actividades conexas (estiva, comércio, serviços) ofereciam oportunidades. Muitos migrantes mantinham laços estreitos com as terras de origem — não cortavam definitivamente com o mundo rural, vivendo uma articulação permanente entre os dois espaços. “O facto imprevisto (…) conduziu a que um objecto de estudo inicialmente concebido como estritamente urbano passasse a ter de ser equacionado de forma a englobar também espaços rurais e as articulações entre o urbano e o rural.”

O autor questiona narrativas dominantes: a cultura popular urbana lisboeta não seria produto de linhagens milenares fixas, mas resultado de uma simbiose dinâmica entre migrantes rurais e o tecido social local. Alfama apresentava uma estrutura social inigualitária específica — simbiose clientelista e conflitual entre élites e plebe — que integrava os recém-chegados, produzindo uma identidade cultural forte (“maneira de ser lisboeta popular”, fado, festas, códigos de reconhecimento).

3. Alfama como “Entreposto” de Mobilidade Social e Cultural

Costa conceptualiza Alfama como um entreposto de mobilidade social. O bairro reunia densidade ecológico-urbanística (becos, vielas, sobreposição de residência, trabalho e sociabilidade), um pólo portuário central e práticas culturais articuladas que cimentavam o tecido social. Os migrantes rurais não se atomizavam na cidade; integravam-se num sistema de relações denso, reproduzindo e transformando formas de cultura popular urbana.

O autor recorre a noções como habitus (disposições incorporadas) e quadros de interacção para explicar como as origens rurais se articulavam com o contexto urbano específico de Alfama. Esta “produção continuada” de cultura popular urbana, em circunstâncias históricas mutáveis, desafiava visões de “sobrevivência” em vias de extinção. As migrações rurais-urbanas em Alfama relativizavam proposições gerais sobre ruptura de laços, atomização e reconversão em operariado industrial desqualificado.

4. Alfama Hoje: Dados Oficiais e Pesquisas Recentes

Os Censos 2021 revelam uma transformação drástica. A freguesia de Santa Maria Maior (que integra Alfama) contava com 10.051 habitantes, uma queda de 22,5% face a 2011 (quando eram 12.961) e muito mais acentuada do que a média de Lisboa. Estimativas locais e reportagens indicam que o núcleo histórico de Alfama tem hoje menos de 1.500-2.000 residentes permanentes — uma perda de cerca de 80% desde os anos 1940, quando o bairro rondava os 20 mil habitantes.

O Diagnóstico Social da Freguesia de Santa Maria Maior 2025 (CICS.NOVA) actualiza e aprofunda estes dados. Regista envelhecimento acentuado (redução acentuada nos grupos 0-14 e 15-24 anos), aumento de agregados unipessoais (muitos idosos), e um crescimento da população estrangeira. A dimensão média dos agregados subiu ligeiramente, mas o perfil mudou: mais diversidade étnica (brasileiros, nepaleses e outros) e pressão habitacional extrema. O turismo e o alojamento local (AL) converteram massivamente habitação permanente em usos turísticos, esvaziando o bairro de residentes.

Estudos académicos recentes, como o de Catarina Fontes e Graça Índias Cordeiro (2023) em Urban Planning, analisam como as práticas socioespaciais locais moldam o património em contexto de mudança acelerada por turismo. Alfama tornou-se um ícone de “velha Lisboa” para visitantes, mas isso gerou gentrificação: subida de rendas, saída de população tradicional e transformação do tecido social. Outros trabalhos destacam a acção colectiva (ex.: APPA) face a estes processos e o papel de estudantes Erasmus e novos residentes na revalorização patrimonial.

5. Contraste e Continuidades/Descontinuidades

O contraste é marcante. No século XX, Alfama era um receptor e integrador de migrantes rurais — um “entreposto” dinâmico que renovava a sua população e cultura através de fluxos do interior, mantendo laços rurais e produzindo uma identidade popular densa. Hoje, é um bairro esvaziado de residentes permanentes, onde o turismo e a gentrificação actuam como forças expulsoras. Os “migrantes” contemporâneos são, em boa medida, temporários (turistas) ou de perfis diferentes (imigrantes recentes em condições precárias de habitação partilhada).

Continuidades existem: a identidade cultural alfamista resiste (marchas, fado, associações), e algumas práticas de sociabilidade local persistem entre os residentes remanescentes (muitos idosos). O habitus e os quadros de interacção estudados por Costa ainda se manifestam na resistência e na produção simbólica do bairro.

Descontinuidades dominam: de articulação urbano-rural para turistificação global; de densidade populacional e mobilidade social ascendente para envelhecimento, perda demográfica e vulnerabilidades habitacionais. O “xadrez em dois tabuleiros” de Costa deu lugar a um tabuleiro dominado pelo mercado turístico internacional.

6. Resumo

O trabalho de António Firmino da Costa permanece extraordinariamente actual. A sua atenção às articulações urbano-rurais, à serendipidade empírica e à produção cultural em contextos desiguais oferece lentes preciosas para compreender não só o Alfama do século XX, mas as transformações contemporâneas. Se no passado o bairro renovava-se com gente do interior, hoje enfrenta o risco de se tornar um cenário museológico — belo, mas habitado principalmente por memórias e visitantes.

O Diagnóstico Social 2025 e estudos como o de Fontes & Cordeiro mostram que as questões levantadas por Costa — identidade, desigualdade, mobilidade — persistem, mas num quadro radicalmente alterado pela globalização turística. Defender a população residente de Alfama, como faz a APPA, implica reconhecer a continuidade histórica do bairro como espaço vivo de gente, e não apenas de património. Em última análise, Alfama continua a ser um espelho das relações entre campo e cidade, tradição e modernidade, em Portugal — um xadrez cujas peças não pararam de se mover.

Referências principais

  • Costa, A. F. da (1985). “Espaços urbanos e espaços rurais…”. Análise Social.
  • Costa & Guerreiro (1984). O Trágico e o Contraste.
  • Diagnóstico Social da Freguesia de Santa Maria Maior 2025 (CICS.NOVA).
  • Fontes, C. & Cordeiro, G. Í. (2023). “Portraying Urban Change in Alfama”. Urban Planning.
  • Censos 2021 (INE) e fontes complementares da Junta de Santa Maria Maior.

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