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- ______. Trad. Carlos Loures. 3a ed. Mem Martins: Europa-América, 2000
- ______. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.
- ______. Trad. Rosário Morais da Silva. Mem Martins: Publicações Europa-América, 2007.
- ______. Trad. Rosário Morais da Silva. Mem Martins: Publicações Europa-América, 2007.
- ______. Trad. Diogo Carneiro. – Matosinhos: QuidNovi, cop. 2010.
- ______. Trad. Maria João Lourenço; pref. Margarida Rebelo Pinto; rev. Rui Augusto. – 1a ed. – Lisboa: Clube do Autor, 2013.
- Noites brancas. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Lisboa: Estúdios Cor, 1970.
- Noites brancas : romance sentimental (recordações de um sonhador. Trad. e notas António Pescada. Lisboa : Relógio D’Água, 2020.
- Notas de inverno sobre impressões de verão. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 2 Lisboa: Arcádia, 1964-1968.
- ________________________. in A tímida e outras obras. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa: Estúdios Cor, 1970. 121-192.
- ____________________.in A submissa e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Lisboa: Presença, 2006
- ________________________. Trad. António Pescada. Lisboa : Relógio d’Água, 2020
- Notas do submundo. Trad. Rosário Morais da Silva. Mem Martins: Publicações Europa-América, 2007.
- Obras completas de Dostoievski. Lisboa: Arcádia, [D.L. 1964]. 4v. Crime e castigo. Trad. de João Gaspar Simões. Diário de Raskolnikov. Trad. de João Gaspar Simões. O jogador: das memórias de um jovem, 1866. Trad. de Maria de Lurdes Ludovice Paixão.
- Obras completas de Dostoiévski. Trad: . Trad: Alexandre O’Neil, A Brás Alfredo, Rui Costa, Pedro da Silveira, José Vaz Pereira, Fernando Gil, Natátlia Nunes, João Gaspar Simões. Lisboa: Arcádia, 1964-1968. 10 volumes.
Volume 1: Pobre Gente, O Sósia, Prokhartchin, A Hospedeira, Um Romance em Nove Cartas, Polzúnkov, A Mulher Alheia e o Homem Debaixo da Cama, O Ladrão Honrado, Nietotchka Nezvanova. Volume 2 : Coração Débil, Uma Árvore de Natal e Uma Boda, Noites Brancas, O Heròizinho, O Sonho do Tio, A Aldeia de Stepantchikovo, Notas de Inverno Sobre Impressões de Verão, Uma História Desagradável, Memórias Escritas num Subterrâneo. Volume 3: Humilhados e Ofendidos, Recordações da Casa Morta, O Crocodilo. Volume 4: Crime e Castigo. Diário de Raskolnikov, O Jogador. Volume 5: O Idiota, Volume 6 Demónios. Volume 7: O Eterno Marido, O Adolescente. Volume 8: Os Irmãos Karamazov. Volume 9: Diário de um Escritor (I). Volume 10: Diário de um Escritor (II). - Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. 16 vols. Lisboa: Estúdios Cor, 1963-1970.
O adolescente 2 vols. Cadernos do subterrâneo. Crime e castigo, 2 vols. Os demónios, 2 vols. Humilhados e ofendidos. Os irmãos Karamazoff 2 vols. O jogador e outras obras: No meu subterrâneo:“O crocodilo, O eterno marido”. Noites brancas. O pequeno herói e outras obras: Stepanchikovo e os seus habitantes,O sonho do tio. Pobre gente e outras novelas: O duplo, Romance em nove carta, Prokarchin. Recordação da casa dos mortos : um caso desagradável. A tímida e outras obras: Bobok, Historia de Natal, O campones Marie, A centinaria, O sonho de um homem rediculo, Notas do inverno impressoes de verao. Discurso sobre Pushkin, Paginas de autobiographia e critica. - “Padre e o diabo”. Trad.? Aurora, 9 (maio 1930). 186-187.
- Paginas de autobiographia e critica In A tímida e outras obras. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 215-218.
- A patroa. In A mulher do outro: aventura extraordinária”. Trad. Alice Ogando. Porto: A Portuense, 97-247.
- O pequeno herói. Trad. Consiglieri Sá Pereira. Lisboa: Inquérito, 1941.”
- O Heròizinho. Obras completas de Fiodor Dostoiévski. Lisboa: Arcádia, 1964-1968.
- “Paginas de autobiographia e critica.” in Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa: Estúdios Cor, 1970. 215-218.
- O pequeno herói e outras obras. Trad. Maria Franco. intro. Alexandre V. Soloviev. Obras literárias completas de Fiyodor Dostoievski, III. Lisboa: Estúdios Cor,1965. “O pequeno herói” 1-31; Stepanchikovo e os seus habitantes 39-258; “O sonho do tio” 261-396.
- “O Pequeno Herói” in O ladrão honesto e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. – 1a ed. – Lisboa: Presença, 2006
- O pequeno herói. Trad. Consiglieri Sá Pereira. Lisboa: Inquérito, 2007.
- “O pequeno mendigo” (condensação). Diário de Lisboa 31 de dezembro de 1956, 20
- Pobre gente. Trad. Alice Ogando. Porto: Liv. Civ. 1936.
- __. Trad. Alice Ogando. Porto: Liv. Civ. 1955.
- __ . Trad. Alice Ogando. Porto: Liv. Civ. 1960.
- Pobre gente e outras novelas. Trad. Maria Franco ; introd. João Gaspar Simões. Lisboa : Estúdios Cor. 1963. O duplo; Romance em nove cartas; Prokarchin.
- __. Trad A. F Pinto. Porto: Liv. Progredior,1964.
- Pobre gente. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1. Lisboa: Arcádia, 1964.
- Polzúnkov. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1. Lisboa: Arcádia, 1964.
- “Polzunkov” in O crocodilo. Trad. Isabel da Nóbrega; pref. João Gaspar Simões. Lisboa: Editorial Inquérito, 1966. 208-232.
- Os possessos. Trad. A. Augusto dos Santos. Porto: Progredior, 1939. (Also translated as Os demónios. 5 editions)
- __. Trad. Maria Franco. Lisboa: Minerva, 1950.
- __. Trad. de A. Augusto dos Santos. Porto: Livr. Progredior, 1951.
- __. Trad. M. F. Lisboa: Minerva, 1966.
- _. Trad. Adolfo Simões Muller. Mem Martins: Europa-América. 1970.
- _. Trad. Adolfo Simöes Müller. Mem Martins: Europa-América, 1981.
- Prokhartchin. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1. Lisboa: Arcádia, 1964-1968.
- Prokarchin. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Lisboa: Estúdios Cor, 1963-1970.
- Recordações da casa dos mortos. Trad. A. Augusto, dos Santos. Porto: Livr. Progredior, 1942.
- ______________. Trad. A. Augusto, dos Santos. Porto: Livr. Progredior, 1951.
- Recordação da casa dos mortos : um caso desagradável. Trad. Maria Franco. Lisboa: Estudios Cor.,1963.
- Recordações da casa dos mortos. Trad. Fernando Gil. Obras completas de Dostoievski. VIII. Lisboa: Arcádia, 1965.
- ______________. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues. – Mem Martins: Europa América, 1972.
- ______________. Trad. Fernando Gil, ver. Luís Bacão . Lisboa: Círculo de Leitores, 1977.
- ______________. Forte da Casa : Clássica Editora, 2021.
- ______________. Trad. António Pescada. Lisboa : Relógio D’Água, 2021.
- Romance em Nove Cartas. in Crocodilo. Trad. Isabel da Nóbrega; pref. João Gaspar Simões. Lisboa: Editorial Inquérito, 1966. 71-76
- Um Romance em Nove Cartas. Obras completas de Dostoiévski.Vol. 1. Lisboa: Arcádia, 1964.
- _____________. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Lisboa: Estúdios Cor, 1963-1970.
- O sonho do tio. Trad. de Domingos Monteiro. Lisboa: Gleba, 1943. (Also translated under the title: Um clube da má-língua. 3 editions)
- O Sonho do tio. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 2 Lisboa: Arcádia, 1964-1968.
- __. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Trad. Maria Franco. intro. Alexandre V. Soloviev. Vol. III. Lisboa: Estúdios Cor,1965. 261-396.
- Um sonho do tio: das crónicas de Mordássov. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. LIsboa: Presença, 2000.
- ———————————————————–. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. – Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
- “O sonho dum homem ridículo”. Trad. Cesar de Frias. Contos Eslavos. Lisboa: Ed. Fomento de Publicações, 1943. 9-34.
- ______________. Trad. Cesar de Frias. Lisboa: Edicao de Fomento de Publicações, (1957)
- _____________. In A tímida e outras obras. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 97 – 120.
- _____________. Trad. de Natália Nunes. – Vila Nova de Famalicão: Quási 2008.
- O sosia. Trad. Rui Costa. Lisboa: Arcadia, 1967.
- —————————————–. In A submissa e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Lisboa: Presença, 2006.
- Stepanchikovo e os seus habitantes. Obras literárias completas de Dostoievski. Trad. Maria Franco. intro. Alexandre V. Soloviev. Vol. III. Lisboa: Estúdios Cor,1965 . 39-258.
- Submissa. Trad. António Pescada. Porto: Livraria Civilização Editora, Lisboa : Contexto Editora 1997.
- A submissa e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Lisboa: Presença, 2006. “Uma História dos Diabos”, “Apontamentos de Inverno sobre Impressões de Verão”, “O Crocodilo”, “Notas de inverno sobre impressões de verão,” “ Bobok”, “A arvore de natal na casa de Cristo,” O moujik Marei,” “A centinaria,” “Krótkaia” , “Sonho de Um Homem Ridículo”.
- A tímida e outras obras. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. . A tímida e outras obras: Bobok 1-20, Historia de Natal 21-28, O campones Marie 29-38, A centinaria39-46, A timida 47-96, O sonho de um homem rediculo 97-120, , Notas do inverno impressoes de verao 121-192, Discurso sobre Pushkin 193-214, Paginas de autobiographia e critica 215-218.
- Um transe difícil. Trad. Armando Tavares. Porto: Progredior, 1944.
- __. Trad. Armando Tavares. Porto: Progredior, 1957.
- A voz subterrânea. Trad. Aurora Jardim Aranha. Porto: Livr. Civilização, 1926.
- __. Trad. Aurora Jardim Aranha. Porto: Livr. Civilização, 1937.
- __. Trad. Aurora Jardim Aranha. Porto: Livr. Civilização, 1954.
- __. Trad. Carlos Pereira Valle. Porto: Liv. Progredior, 1965.
- __. Trad. de Natália Nunes. Amadora: Ibis, 1968.
- __. Trad. Célia Henriques, Vítor Silva Tavares. Lisboa: & Etc, 1989.
- __. Trad. de Natália Nunes. Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi. 2008.
The Translation of Fyodor Dostoevski in Portugal: 1886 – 2021
Introduction: The bibliography defined in this study is based on a full examination of the Base Nacional de Dados Bibliográficos (PORBASE) of the Biblioteca Nacional de Portugal in order to identify all book translations of Dostoevski from his first translation in 1890 (Nietotchka. Lisboa: Ed. do Século. 1890) to 2021. An equally thorough survey of over one hundred Portuguese newspapers, magazines, and journals for the period 1846 to 1984 was conducted to identify additional translations. Every attempt was made to be as comprehensive as possible, and I believe that the list of the translations, the first of its kind in Portugal, is complete. It should be noted, however, that it was not always possible to identify all the titles in a few of the anthologies as well as all the translators, page numbers and dates of a number of the works included in the two editions of his Obras Completas due to an inability to directly examine the works in question. This in no way diminishes the primary objective of this study, i.e., to establish a bibliographical basis through which others interested in investigating the reception of Dostoevski in Portugal would have access to one of the most essential tools in defining the historical framework of that reception.
The history of the translation of Dostoevski in Portugal can be divided into three major periods: 1) 1886 to 1919 , when his first translation was published in Portugal and Eugene-Melchior de Vogüé’s pioneering book Le Roman russe was published in France,[1] resulting in a reassessment and enthusiasm for Russian literature throughout Europe that was curtailed only by the First World War; 2) 1920 to 1979, the most prolific and diverse period of the Portuguese reception of Russian literature both in terms of translations and criticism. Additionally, it was during this period that Russian literature had its most significant impact on Portuguese literature due primarily to the reassessment by the presentistas of Dostoevski’s works as inspired by Andre Guide; 3) 1980 to 2021, when, for the first time, all Dostoevski’s novels, his best novellas and short stories were translated directly from Russian.
Translation of Dostoevski 1886 to 1919
Any history of the translation of Dostoevski in Portugal must begin with an introduction into the role Eugene-Melchior de Vogüé’s celebrated book Le Roman russe[2] played in awakening of Europe and America to the genius of Russian literature. Prior to Vogüé’s insightful reading of such major Russian writers as Tolstoi, Dostoevsky, Gogol, and Turgenev, Russian literature was viewed by Europeans as a national one that could only be understood and appreciated by Russians. Shortly after its publication, Russian literature was acclaimed for its universal values and artistic innovation, resulting in an unprecedented boom in foreign translations and critical appraisal of Russian literature. Prior to the appearance of Vogüé’s book, the only work of Dostoevski that had been translated into Portuguese was his short story “A arvore de Natal” published in 1886.[3] After Vogüé, Crime and Punishment was published in serial form as early as 1889,[4] 12 years before it appeared in book form in 1901 followed by a second edition in 1910. [5] A year later, his first novel, Netochka Nezvanova[6] was translated, followed by his novella Katia (The Landlady), in 1900[7], an abbreviated serialized version of The Idiot in 1902[8], a short story, “O moujik Marey. Lembranças da Sibéria.”[9] and in 1908,two editions of his novel Um clube da má-língua (Uncles Dream) (1908).[10]
It is important to note that all the translations of Dostoevski during this period were based on French translations which had been seriously abridged to suit French taste because the<<French readership of the 1880s was not yet ripe for an unpolished Dostoevsky, that in order to give him a fair chance in the French book market it was necessary to soften the culture clash>>.[11] As result, the Portuguese translations suffered from the same defects and presented a simplified Dostoevski as a psychologist and moody realist whose philanthropy extended to the humiliated and disenfranchised.
1920 to 1979
The enthusiasm for Russian literature in Portugal peaked during the first decade of the twentieth century but quickly faded in the wake of World War I. The tremendous carnage and the suffering brought about by the War shook man’s belief in God and caused him to question the meaning and reason of his existence. To aid him in his search to redefine himself and discover new meaning in life, man turned to past and contemporary writers and philosophers who offered him both hope and a deeper understanding of his spiritual and existential dilemma. Just as Russian literature had provided man with a more human, realistic, and spiritual understanding of his world in the nineteenth century, in the twentieth century, it offered him, primarily through a reassessment of Dostoevski, a multifaceted vision of man in crisis, both metaphysically and existentially, and a means to resolve this crisis.
In his study on the Russian novel in France, Hemmings points out that the force behind the reevaluation of Dostoevski was the noted French critic and writer Andre Gide (1869 – 1951). Even before the War, Gide had argued that Dostoevski had been underappreciated, even misunderstood by Vogüé and other French critics and because of this, <<much of what had been written about Dostoevski was untrue or true to so limited a degree that it falsified the ordinary man’s conception of the writer and his works>>.[12] The primary objective of Gide’s early criticism was to establish that a vast deal remained to be said about Dostoevski’s works for those who still refused to admit his genius. It was only after the War, however, that Gide established himself as the keenest and most illuminating intermediary Dostoevski had in France owing to his famous 1923 lectures on Dostoevski,[13] which shed light on the complexity of Dostoevski’s novelistic craftmanship, his multifaceted understanding of man’s subconscious and search to give meaning to his existence. (Hemmings, Op cit. 227) In much the same way that Vogue’s Roman russe stimulated a reassessment of Russian literature, Gide’s lectures led to a reevaluation and recognition of Dostoevski’s genius throughout Europe. This was especially true in Portugal where the presentistas, inspired by Andre Gide’s criticism, and led by João Gaspar Simões, championed Dostoevski as a writer whose work embodied Presença’s position that literature should value <<o individual sobre o colectivo, do psicológico sobre o social, da intuição sobre a razão>>.
Presença’s championing of Dostoevski’s literary genius generated an unprecedented interest in his work as evidenced by the fact that translations of his work account almost half of the 37 book titles of Russian literature published in the 1930’s. In all, three different editions of Crime e castigo, (1936 (2), 1937), a second edition of A voz subterrânea, (1937), an edition of Um clube da má-língua, (Uncle’s Dream) (1936), and for the first time, translations of A mulher do outro: aventura extraordinária, (The Jealous Husband) ( 1936), A patroa, (The Land Lady)(1936), Pobre gente, (1936), Os irmãos Karamazoff (1937), O eterno marido, (1938), Os possessos (1939), and O jogador, (1939) were published. Additionally, the editing house Civilização published inexpensive, pocket-size, large, editions of five of his works: Crime e castigo, A voz subterrânea, A mulher do outro, Pobre gente and Um clube da má-língua, which greatly expanded his readership and fame.
In the 40s, translations of Russian literature increased almost three-fold (95 total) and once again, Dostoevski, with 26 separate translations, was the most widely published Russian writer with fifteen book titles, including first-time publications of three of his most important works: Humilhados e ofendidos (1940, 46, 47, 48), O idiota (194-, 1943, 44), and Recordações da casa dos mortos (1942) and seven other notable firsts: Está morta! (1940), Noites brancas(1940), A confissão de Stavroguine(1941), “O grande inquisidor” (1941), O pequeno herói (1941), Um adolescente (1945).
Dostoevski maintained his popularity in the 50’s as evidenced by repeat translations of almost all of his major novels and novellas published in the 30s and 40s. Beginning in the 60’s and continuing into the 70s the publication of individual titles by Dostoevski diminished, but two extensive editions of his complete works were published by Arcádia (10 volumes, 1964-68), which included, for the first time, a complete translation of his Writer’s Diary (Diário de um Escritor)[14] and Estudios Cor, (16 volumes1963-1970) (see bibliography for complete contents of both works). The publications of Dostoevski’s complete works represented a milestone in the translation of his work in Portugal. Not only did it make his complete works available to the reading public for the first time, but a conscious effort was also made to professionalize the translations of all the texts by consulting the best Spanish, English and contemporary French translations of Dostoevski’s work.
After five decades of continuous growth, translations of Russian literature fell dramatically from over 200 book titles in the 70s to just over 50 in the 80s and 40 in the 90s. This sharp decline in the number of translations is reflected significantly in the number of translations of Dostoevski. In the 70s, 22 translations of Dostoevski were published versus only 13 for the 80s and 90s combined.
1980 to 2021
Unexpectedly, Russian literature experienced its third renaissance in the first decade of the 21stcentury. Over 205 separate book translations of Russian writers were published from 2000 to 2010 followed by 90 in the next eleven years. Unlike before, this resurgence was not driven by any literary movement but rather by four publishing houses, most notably Relógio D’Água, Presença, Assírio & Alvim, and Europa-América, which, working together with three talented translators, Antonio Pescada, Filipe and Nina Guerra, whose translations of all the major Classic Russian writers as well as a wide variety of Soviet and contemporary Russian writers were direct from the Russian. The works of Dostoevski dominated their selection. The statistics speak for themselves. Of the 295 translations published from 2000 to 2021, the Guerras and Pescada were responsible for over half of the titles (170) of all Russian works published. Moreover, together, their 68 Dostoevski book translations (61 titles for the Guerras and 6 for Pescada) accounted for 80% of all translations of Dostoevski (79 total) including 13 editions of O idiota, 12 of his novella O jogador, 10 of Crime e castigo, and 4 of Os irmãos Karamazoff!
[i] Eugene-Melchior de Vogüé, Le Roman russe (Paris: Libriarie Plon, 1886)
[ii] (For more detail see: W. J. Hemmings. The Russian Novel in France (London: Oxford University Press, 1950), 27 – 30, 48 -52. William Edgerton’s: “The Penetration of Nineteenth-Century Russian Literature into the other Slavic Countries” In American Contributions to the Fifth International Congress of Slavists. Sofia, September 1963. Volume II: Literary Contributions. The Hague: Mouton & Co. 41-78.
[iii] Fyodor Dostoevski. “A árvore do Natal,” Correio da Manhã: Supplemento Litterário, 4 jan. 1886: 1-2.
[iv] Fyodor Dostoevski. “O Crime e o Castigo”. ? O Reporter, 1 Jan. 1889 a 9 Out., 1889. (217 folhetins)
[v] Fyodor Dostoevski Crime e castigo. Camara Lima. 2 vols.( Lisboa: Tavares Cardoso e Irmão, 1901); Fyodor Dostoevski. Crime e castigo. 2ª ed. Trad. Camara Lima; pref. Maria Amália Vaz de Carvalho (Lisboa: Empreza Litteraria Fluminense, 1910).
[vi] Fyodor Dostoevski, Nietotchka, Trad(?), (Lisboa: Ed. do Século. 1890).
[vii] Fyodor Dostoevski, Katia., O Ocidente. 20 de fevereiro 1900, 39,40; 28 de fevereiro 1900, 47,48; 10 de março 1900, 54 – 56; 20 de março, 1900, 63,64; 30 de março 1900, 71,72; 10 de abril 1900, 79,80; 20 de abril 1900, 86 – 88; 10 de maio, 105 – 107; 20 de maio 1900, 111 – 114; 30 de maio 1900, 123; 10 de junho 1900, 131,132.
[viii] Fyodor Dostoevski “O idiota”, A Epoca. Trad.? 3 de maio 1902 a 25 de novembro 1902. (147 folhetins).
[ix] Fyodor Dostoevski, O Seculo Revista Literária, 14 out 1906, 10.
[x] Fyodor Dostoevski, Um clube da má-língua, Trad. Manuel de Maced, (Lisboa: Typ. A Editora, 1908). Fyodor Dostoevski, Um clube da má-língua, Trad. Manuel Macedo. 2a edição, (Lisboa: Typ. A Editora, 1908).
[xi] Pieter Boulogne “Europe’s Conquest of the Russian Novel: The Pivotal Role of France and Germany”, https://core.ac.uk/display/34637129
[xii] W. J. Hemmings. The Russian Novel in France (London: Oxford University Press, 1950),226.
[xiii] Andre Gide, Dostoevsky, Trans. Arnold Bennett, (London & Toronto: J.M. Dent and Sons,1925).
[xiv] João Gaspar Simões notes In an interview given to this writer on May 17, 1979, that his translation is the only complete Portuguese translation that exists which he was only able to complete with the help of English and Spanish translations due to the fact that the French translations were incomplete. See William Rougle, A literatura portuguesa vista por autores portugueses, ( Lisboa: MIL, 1916), 82.
Chronological List Of First Translations Of Dostoevski’s Individual Works And A Number Of Subsequent Editions In Portugal
1886. “A árvore do Natal.” Correio da Manhã: Supplemento Litterário, 4 jan. 1886: 1-2. (9 additional editions)
1889 “O Crime e o Castigo”. Trad.? O Reporter, 1 Jan. 1889 a 9 Out., 1889. (217 folhetins)
1890 Nietotchka. Trad(?). Lisboa: Ed. do Século. 1890. (10 additional editions)
1900 “Katia”, O Ocidente. 20 de fevereiro 1900, 39,40; 28 de fevereiro 1900, 47,48; 10 de março 1900, 54 – 56; 20 de março, 1900, 63,64; 30 de março 1900, 71,72; 10 de abril 1900, 79,80; 20 de abril 1900, 86 – 88; 10 de maio, 105 – 107; 20 de mail 1900, 111 – 114; 30 de maio 1900, 123; 10 de junho 1900, 131,132. (Also translated as A patroa in A mulher do outro: aventura extraordinária” 1 editionAnd as A Hospedeira in Obras completas de Dostoiévski Vol. 1.Lisboa: Arcádia, 1964.
1901 Crime e castigo. Trad. Camara Lima. 2 vols. Lisboa: Tavares Cardoso e Irmão, 1901. (38 additional editions)
1902 “O idiota”, A Epoca. Trad.? 3 de maio 1902 – 25 de novembro 1902. (147 folhetins)
1904 Alma simples. Trad. José Sarmento. – Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1904.
1906 “O moujik Marey, Lembranças da Sibéria.” O Seculo Revista Literária. 14 out 1906. 10. (Also published as “O campones Marie” in A tímida e outras obras. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 29-38.1908
1908 Um clube da má-língua. Trad. Manuel de Macedo. Lisboa: Typ. A Editora, 1908. (3 additional editions) (Also translated under the title of O sonho do tio. 5 editions)
1914 Alma de creança. Trad. Henrique Marques Júnior. Lisboa: Guimarães, 1914.
1926 A voz subterrânea. Trad. Aurora Jardim Aranha. Porto: Livr. Civilização, 1926. ( 6 additional editons) ( Also published as Memórias Escritas num Subterrâneo Memórias do and subterrâneo and Notas do submundo)
1930 “Padre e o diabo”. Trad.? Aurora, 9 (maio 1930). 186-187.
1936 A mulher do outro: aventura extraordinária”. Trad. Alice Ogando. Porto: A Portuense, 1936. 3-95. Also published as A Mulher Alheia e o Homem Debaixo da Cama. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1.Lisboa: Arcádia, 1964-1968.)
1936 A patroa. In A mulher do outro: aventura extraordinária. Trad. Alice Ogando. Porto: A Portuense, 97-247.
1936 Pobre gente. Trad. Alice Ogando. Porto: Liv. Civ. 1936. (5 additional editions)
1937 Os irmãos Karamazoff. Trad. A. Augusto, dos Santos.Porto: Livr. Escolar Progredior, 1937 (16 additional editions)
1938 O eterno marido. Trad. de Campos Lima. – Lisboa: Livr. Guimaräes, (1938). (12 additional editions)
1939 O jogador. Trad., pref. César de Frias. – Lisboa: Guimarães, 1939. (24 additional editions)
1939. Os possessos. Trad. A. Augusto dos Santos. Porto: Progredior, 1939. (7 additional editions)(Also translated as Os demónios. 3 editions)
1940. Está morta! novela fantástica. Trad. de João Gaspar Simões. Lisboa: Inquérito,1940. (1 additional edition)
1940 Humilhados e ofendidos. Rev. de A. Augusto dos Santos. Pôrto: Progredior, 1940. (12 additional editions)
1940 Noites brancas. Trad. José Marinho. Lisboa: Inquérito, 1940. (15 additional editions)
1941 A confissão de Stavroguine. Trad. Consiglieri Sá Pereira. Lisboa: Editorial Inquérito, 1941.
1941 “O grande inquisidor: antologia: introdução aos grandes autores”. Vila Nova de Famalicão: Tip. Minerva, 1941
1941. O pequeno herói. Trad. Consiglieri Sá Pereira. Lisboa: Inquérito, 1941.” (4 additional editions)
1942. Recordações da casa dos mortos. Trad. A. Augusto, dos Santos. Porto: Livr. Progredior, 1942 (7 additional editions)
1943 A granja de Stepanchikovo. Versão livre de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, [1943]. ( Also translated as A aldeia de Stepantchikovo.2 editions) and Stepanchikovo e os seus habitantes. 1 edition),
1943 O idiota. Trad. Carlos Babo, Alexandre Babo. – Porto: Liv. Latina, 1943, (15 additional editions)
1943 O sonho do tio. Trad. de Domingos Monteiro. Lisboa: Gleba, 1943. (4 additional editions) (Also translated asUm clube da má-língua) (4 editions)
1943 O sonho dum homem ridículo. Trad. Cesar de Frias. Contos Eslavos. Lisboa: Ed. Fomento de Publicações, 1943. 9-34. (3 other editions.)
1944 Um transe difícil. Trad. Armando Tavares. Porto: Progredior, 1944. (3 additional editions)
1945 Um adolescente. Trans. Vasco Rodrigues. 2 vols. Porto: Progedior,1945. (5 additonal editions)
1950 Coração débil. Trad. Francisco Luís Amaro. -Lisboa: Portugália, 1950. (4 additional editions) (Also translated as Coração fraco)
1956 “Crueldade”. Diário de Lisboa. 8 de maio de 1956, 10.
1956 “O pequeno mendigo” (condensação). Diário de Lisboa 31 de dezembro de 1956, 20.
1963 – 1970 Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Lisboa: Estúdios Cor, 1963-1970. 16 vols.
1964-1968 Obras completas de Dostoiévski. Lisboa: Arcádia, 1964-1968. 10 volumes.
1963 O duplo. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Lisboa: Estúdios Cor, 1963-1970.( 4 additional editions)
1963 Cadernos do subterrâneo. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Lisboa: Estúdios Cor, 1963-1970. (3 additional editions)
1964 A aldeia de Stepantchikovo. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 2Lisboa: Arcádia, 1964- 1968. (1 additional edition)(Published also under the titles of A granja de Stepanchikovo, and Stepanchikovo e os seus habitantes )
1964 Cadernos da casa morta. Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra. Queluz de Baixo: Presença, 200
1964 O crocodilo. Trad. Natália Nunes. Obras Completas de Dostoievski, Vol.III. Lisboa: Arcádia. (3 additional editions)
1964 Demónios. Obras completas de Dostoievski, Vol VI. Lisboa: Ed. Arcádia, 1964-1968. (3 additional editions). (Also translated as Os possesses.(6 editions and Os Demónios. (1 edition)
1964. Diário de Raskolnikov. Obras completas de Dostoievski, Trad. João Gaspar Simões. Vol. IV. Lisboa: Ed. Arcádia, 1964-1968.
1964 “Uma História Desagradável”. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 2Lisboa: Arcádia.
1964 A Hospedeira. Obras completas de Dostoiévski Vol. 1.Lisboa: Arcádia. (1 addional editon)
1964 O ladrão honrado. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1 Lisboa: Arcádia. (2 additional editions)
1964 Memórias Escritas num Subterrâneo. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 2 Lisboa: Arcádia, 1964. ( Also published as Memórias do subterrâneo, Notas do submundo, andA voz subterrânea)
1964 A Mulher Alheia e o Homem Debaixo da Cama, Obras completas de Dostoiévski Vol. 1. Lisboa: Arcádia. (2 additional editions)
1964 Noites brancas. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Lisboa: Estúdios Cor, 1963-1970.
1964 Notas de inverno sobre impressões de verão. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 2Lisboa: Arcádia. (2 additional editions)
1964 Polzúnkov. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1. Lisboa: Arcádia.
1964 Prokhartchin. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1.Lisboa: Arcádia, 1964. (1 additional edition)
1964 Um Romance em Nove Cartas. . Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1.Lisboa: Arcádia, 1964-1968. (1 additional edition)
1967 Diário de um escritor.” Obras completas de Dostoievski. Trad. João Gaspar Simões. Vol IX, X. Lisboa: Ed. Arcádia, 1967.
1967 O sosia. Obras completas de Dostoiévski. Vol. 1.Lisboa: Arcádia, 1964. (1 additional edition) 1969 Contos. Versão Natália Nunes. Lisboa: Portugália, 1969.
1970 “Bobok”, in A tímida e outras obras. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 1-20
1970 “O campones Marie” in A tímida e outras obras. Obras literárias completas de Fiodor Dostoievski. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa: Estúdios Cor, 1970. 29-38.
1970 “A centinaria”, in A tímida e outras obras. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 39-46. (One addtional ediiton)
1970 “Discurso sobre Pushkin”in A tímida e outras obras. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 193-214.
1970 “Paginas de autobiographia e critica”. In A tímida e outras obras. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 215-218,
1970 A tímida e outras obras. Trad. de Maria Franco, introd. de A. Soloviev. Lisboa : Estúdios Cor, 1970. 47-96. ( 3 additional editions)?
1997 Submissa. Trad. António Pescada. Porto: Livraria Civilização Editora, Lisboa : Contexto Editora 1997.
2000 Cadernos do subterrâneo. Trad. Nina Guerra, Filipa Guerra. – Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.
2003 O duplo. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1ª ed. Lisboa: Presenca,2003.
2003 Cadernos da casa morta. Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra. Queluz de Baixo: Presença,2003 .
2003 “A arvore de natalna casa de Cristo.” In A submissa e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Lisboa: Presença, 2006.
2006 Coração fraco e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. Barcarena: Presença, 2006.
2006 Gente pobre. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Barcarena: Presença, 2006. (2 additional editions)
2006 “Uma História dos Diabos”. A submissa e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Lisboa: Presença, 2006.
2006 “Krótkaia”, in A submissa e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Lisboa: Presença, 2006.
2006 Neobiknovénnoe sobítie íli passaj v passaje” (Portugese title/) in .” In A submissa e outras histórias. Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra. 1a ed. Lisboa: Presença, 2006.
2007 Notas do submundo. Trad. Rosário Morais da Silva. Mem Martins: Publicações Europa-América, 2007. ( Also published as Memórias Escritas num Subterrâneo Memórias d subterrâneo and A voz subterrânea)
2010 O crocodilo: um incidente extraordinário. Trad. Viviana Parreira; rev. Alexandra Martins. Lisboa: Estrofes & Versos, 2010.
2011 Aforismos. Dostoevski Porto: Corpos, 2011.
2017 Memórias do subterrâneo. Trad. António Pescada. Lisboa: Relógio D’Água, 2017.
Dostoevski as Viewed by Portuguese Writers of the Twentieth Century
Although Dostoevski took Portugal by storm beginning in the late 1880’s when he was first introduced to Portugal through Eugene-Melchior de Vogüé’s renowned book Le Roman russe(Paris: Libriarie Plon, 1886) it was not until after the First World War that his fiction came to dominate the literary scene in Portugal. Although this is evident in the primary importance attributed to his work by the literary movement Presença, by the flood of translations of his fiction and criticism of his work, beginning in the 1930’s through the 1970’s, and by the influence his work had on such writers as José Regio, João Gaspar Simões, José Rodrigues Miguéis, Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Vergílio Ferreira, and Augusto Abelaira to name but a few, it tells us little how Dostoevski was personally received by Portuguese critics and writers during this period and how his work may have influenced their own. Such knowledge can only be had by speaking with the writers themselves. With this objective in mind, a series of fifteen interviews were conducted by this writer to define their personal experience and views on Russian literature. The fifteen interviews encompass two generations of Portuguese critics and writers.
Collectively, the interviews provide an overview of the impact Dostoevski’s had on the interviewees and rare insight into how each writer personally responded to him. Although the generations of João Gaspar Simões and Agustina Bessa-Luís are separated by twenty years, they shared two characteristics: 1) All those interviewed first came in contact with Russian literature in their adolescence through Dostoevski—a confirmation of how his fiction dominated this period for over thirty years; 2) While differing in focus and intensity in recalling their first contact, almost all interviewees agree that it was a defining moment in their lives which opened the door to a new and more imaginative world of literature to them. The majority were captivated by Dostoevski as a literary psychologist à la Andre Gide and Gaspar Simões or as a defender of the humble and the oppressed concerned with the common man’s everyday struggles and sufferings. Others, however, viewed Dostoevski’s metaphysical ideas to be of primary importance.
To best appreciate how Dostoevski was received by this group of writers, it is best to let them speak for themselves, assisted now and then by a helping hand that provides context for their comments.
João Gaspar Simões (MAY 11, 1979)
It is only fitting that this series of comments on Dostoevski begin with those of João Gaspar Simões, the critic most responsible stimulating an interest among the Portuguese in Dostoevski. His interpretation of Dostoevski was inspired by Andre Gide’s reassessment of Dostoevski’snovelistic skill and insight into man’s multidimensional psychological character. He notes in his inteview:
André Gide deu-nos um conhecimento mais profunda de Dostoievski. O seu livro levou-me a publicar na Presença, no final dos anos 20, um estudo intitulado “Depois de Dostoievski”, que é uma das primeiras coisas que se escreve em Portugal sobre este autor. Gide afirmava que a partir de Dostoievski o romance tinha adquirido uma outra estrutura (psicológica entenda-se). A concepção do homem uno que existia na literatura psicológica francesa, inclusivamente em Paul Bourget, tinha sido destruída por essa inconsequência psicológica que caracterizava as personagens de Dostoievski.
From his point of view, he adds, Dostoevski’s psychological man:
caracteriza-se pela inconsequência. Em lugar de ser um homem e de nos aparecer como um todo psicológico ou de ter uma homogeneidade de comportamento psicológico, o homem Dostoievskiano revela um comportamento psicológico contraditório. Toda esta simultaneidade de feições e de aspectos da psicologia humana que não tinha sido analisada até doravante passa a sê-lo. Daí que os próprios franceses quando traduziram Dostoievski pela primeira vez tenham procurado adaptá-lo ao seu modelo racional, decorrente dos romances psicológicos franceses dos séculos XVII e XVIII, desde a própria Madame de La Fayette. Com Dostoievski, o homem deixa de ser um ser racional, para se tornar um ser essencialmente contraditório e psicologicamente formado por várias camadas contraditórias, que escapam à racionalidade. Isso é uma novidade de que me apercebi sobretudo ao ler os ensaios de André Gide, onde ele revelou inclusive que as traduções francesas estavam viciadas, porque procuravam harmonizar o que havia de contraditório no comportamento humano das figuras de Dostoievski, para as tornar mais compreensíveis à luz da racionalidade ocidental e sobretudo francesa. ( 80, 81,)
More important was Dostoevski’s legacy:
Dostoievski alterou completamente a visão que a literatura tinha do homem. Esse é o lado que realmente mais me apaixonou nele e que terá deixado uma influência extraordinária em toda a literatura moderna. Creio que o próprio Kafka não teria existido sem Dostoievski. A alteração profunda na concepção do homem na literatura veio através de Dostoievski. (82)
Natália Nunes 5/25/1979
Natália Nunes was also interested in Dostoevski as a literary psychologist. When asked if Dostoevksi was a good psychologist she agreed but qualifies her observation by stating that the Russian writer 19th-century writer Berdyaev noted that:
Dostoievski era sobretudo um pneumatólogo, quer dizer, um observador do espírito. E eu concordo com ele. Dostoievski pratica uma metapsicologia e quase que entra na metafísica. Por meio do diálogo entre as personagens, ele conduz maieuticamente o leitor à descoberta de si, daquilo que ele não sabe sobre si próprio. É um autor que desce até às raízes profundas, espirituais da humanidade, ao problema da morte, de Deus, do bem, do mal, enfim, às questões fundamentais. (133)
Was Dostoevski a pessimist or an optimist?
Dostoievski apresenta personagens muito variadas. Não são lineares com as da tragédia clássica. Oscilam, são incoerentes, como todos nós. Têm traços bons e maus, são inseguras… Muitas delas parecem estar a caminho de uma definição do mal, quer dizer, são personagens resultantes de uma encarnação diabólica. Ele chega a afirmar algo como: «Eu creio num demónio, não num demónio transcendental, mas num demónio real, bíblico, encarnado.» Dostoievski acredita no diabo presente, embora algumas personagens, nomeadamente em n’O Idiota (estou a pensar no Aliocha) se aproximem de um protótipo de bem, de pureza, etc (133.134)
Agustina Bessa-Luís 8/25/1979
When asked what captivated her most about Dostoevski work she replied:
Portador de uma personalidade doentia, Dostoievski penetrava mais profundamente do que outros escritores na realidade humana. Hoje, com os conhecimentos que possuímos e com a linguagem técnica disponível, poderíamos 38 até dizer que ele era um tipo humano com taras. Creio que, à semelhança do que eu disse sobre Gogol, também não se pode considerar Dostoievski um autor clássico, porque há várias incoerências na sua maneira de escrever. Mas, ele conseguia atingir verdades muito profundas. Pela leitura das suas obras, vê-se como ele era genial; está aí reflectida a sua capacidade de dizer coisas sobre a nossa própria realidade. Eu considero-o o maior escritor russo. Os escritores da vida em família, dos pequenos pormenores atribuem essa honra a Tolstoi, que é mais clássico. Ele é realmente extraordinário, mas não atinge, como Dostoievski atingiu, verdades tão agudas, e de uma maneira tão viva. Dostoievski atinge-as quase por meio de uma anomalia, de um estado doentio. (37,38)
She also feels an affinity with Dostoevski’s psychologism because:
Dostoievski é um tipo humano marcado por uma determinada carga hereditária, que se reflecte numa hipersensibilidade. Isso traduz-se na rapidez de impressões que nos dá, numa razão lúcida e racional fora do comum. É isso que mais admiro nele. Dostoievski tem quase uma intuição feminina. Se o relesse, ele não produziria já o mesmo efeito em mim; estaria quebrado o estado de pureza para o ler. Eu não reagiria da mesma forma a muitas dessas páginas que ainda guardo na memória. Teria talvez a tentação de interpretar algumas passagens da sua obra à luz de uma análise psicológica do autor, até porque estudei psicologia e me interesso por planos de psiquiatria. Embora Dostoievski não exerça hoje o mesmo fascínio de outrora, considero-o um autor importantíssimo, de leitura incontornável. (40)
This affinity includes a special affectivity with Russian literature:
Estou ligada à literatura russa por laços de afectividade. É uma literatura emotiva, que não sinto vontade de reler, porque não a considero exactamente uma literatura de ideias. Tolstoi, por exemplo, era um homem cheio de problemas emocionais e passionais, e teve uma vida intensa até morrer. O mesmo 40 aconteceu com Dostoievski. São personalidades profundamente emotivas, movidas por paixões. O leitor português é muito sensível a esse tipo de literatura, por isso a acolheu tão bem. (39, 40)
Augusto Abelaira 7/25/1979
Augusto Abelaira’s comments on Dostoevski need little introduction and can be appreciated by themselves:
“O Grande Inquisidor” marcou-me muito, porque nessa altura eu começava a preocupar-me com questões políticas. E aqui há que evocar elementos da minha história de vida. Eu senti no seio familiar os ecos da guerra de Espanha, nomeadamente através do meu pai. Vivíamos sob a tutela do regime fascista e eu cheguei a ter familiares presos. Além disso, na juventude, assisti a uma revolução contra o regime, quando estava nos Açores. Tive, portanto, desde cedo, uma iniciação anti-fascista. Ora, a obra de Dostoievski, que punha Jesus em face de Torquemada, ou, pelo menos, de um grande inquisidor que eu identificava com Salazar ou com a PVDE, como se chamava nessa altura, não tinha apenas um alcance literário; tinha latente uma discussão religiosa e elementos que me pareciam promover a discussão política, entre o ditador, que seria o inquisidor, e Jesus, que seria, de uma certa forma, um revolucionário. O inquisidor criado por Dostoievski arremessava argumentos terríveis, que ainda hoje asfixiam e continuam a ser difíceis de rebater. Assim, nesse texto afloram-se aspectos que nos preocupam e têm um alcance político e social. A obra causou-me uma extraordinária impressão e estou convencido de que é daqueles livros que marcaram espiritualmente o meu percurso para todo o sempre. Posso dizer que esse excerto d’Os Irmãos Karamazov foi muito mais importante na minha formação que Tolstoi ou Andreiev, porque foi através dele que estabeleci o primeiro e o mais impressionante contacto com Dostoievski. Ainda hoje, ao reler de vez em quando “O grande Inquisidor” ou Os Irmãos Karamazov, sinto o espanto de outrora. Naquela altura, eu não terei percebido que “O Grande Inquisidor” era um pequeno extracto de um romance, que viria a ler integralmente e que se tornaria, no meu ponto de vista, até aos dias de hoje, um dos três ou quatro maiores romances da literatura universal. ( 50)
Sim, Nietzsche conhecia Dostoievski, mas Dostoievski não conhecia o autor de Assim falava Zaratustra, ainda que vivessem os dois na mesma cidade. Lembro-me de num livro de Stefan Zweig se sublinhar que o facto de estarem no mesmo ponto geográfico não ter sido suficiente para se encontrarem. Supostamente, Nietzsche terá falado nele e teria proferido a famosa frase: «Dostoievski foi o único homem que me ensinou alguma coisa em psicologia». Eu nunca encontrei esta frase entre os escritos do filósofo alemão; ela chegou-me sempre em segunda mão. Mas, verifica-se uma certa sedução pelo debate entre o ateísmo e o teísmo, e pelo diálogo niilista com Deus. Creio que foi essa vertente que mais me prendeu na altura. Reconheci em Dostoievski aquilo a que mais tarde se viria a chamar o absurdo, salvo as devidas diferenças. Na altura, suponho que encontrei em Dostoievski um certo sentido do absurdo, que veria traduzido, mais tarde, em termos camusianos. E lembro-me que uma das páginas que mais me impressionou a esse respeito terá sido, n’Os Posssessos, uma conversa entre o Kirilov, o indivíduo que se vai suicidar para demonstrar a Deus que Ele não existe, e o Chatov. Trata-se de uma conversa acerca da beleza das folhas e da felicidade que pode resultar da contemplação de uma folha. Penso que essa página, a par com os Irmãos Karamazov, seria uma das quatro ou cinco páginas mais impressionantes da história da literatura. (53,54)
On the question of affinities with Dostoevski’s work:
Como referi, registar-se-ão afinidades involuntárias. Por vezes, é possível encontrar em vários livros meus conversas a propósito de Deus que são uma aquisição dostoievskiana, até porque a minha educação foi de natureza ateística. Daí que alguns católicos encontrem um interesse pontual nas minhas obras. Faço comparecer personagens católicas em três ou quatro romances e estou convencido de que se não tivesse sido leitor de Dostoievski, desde muito cedo, nunca teria colocado o problema de Deus que me é trazido e reavivado pelo autor de Crime e Castigo… Mais tarde, licenciei-me em Filosofia e fui naturalmente encontrá-Lo em vários pensadores. Mas, suponho que é Dostoievski que me incute o desejo de conversar, de vez em quando, com Deus.(58)
Eduardo Lourenço 6/12/2015
On the innovation of Russian literature:
Eu penso que, ao longo do século, quer dizer, adoptando uma perspectiva propriamente ocidental, cada um dos grandes autores, sendo totalmente diferente, cria um universo próprio. Os outros reproduzem ou reciclam de outra maneira. Portanto, houve muitos momentos em que a literatura ocidental mudou de paradigma ou alterou os seus paradigmas. Este não é caso único. A verdade é que a descoberta do romance russo representou um grande acontecimento na história espiritual e literária do Ocidente, porque estávamos habituados a uma literatura auto-explicativa, mais clara e transparente, dos motivos que guiam a condição humana. Esta perspectiva subterrânea era uma novidade. (67)
On Os Irmãos Karamazov:
..se trata de uma saga infernal sobre a condição humana da família, ou seja, essa coisa natural, com uma solução tão difícil, consegue ser, ao mesmo tempo, o centro da tragédia. É verdade que os gregos tinham chegado primeiro a essa conclusão de que os deuses nos manipulavam a nós, e não o contrário, de maneira que essa tragédia faz parte das coisas mais ancestrais da literatura europeia. Mas, ali há um tom novo. Antes da reforma, e do seu lado optimista em particular, toda a leitura positiva do destino humano se baseava em algo que não era discutível. Quer num plano terreno, quer num outro plano havia uma solução e um sentido para as coisas. E tudo isso oscila quando a nossa literatura, já de origem protestante, luterana, começa a tratar os conflitos humanos e sobretudo as questões do poder entre os homens. Este é, no fundo, o único tema tratado por Shakespeare, no Hamlet – a dúvida, o destino… Lança-se a dúvida não só sobre os destinos em geral, mas sobre o nosso próprio destino, sobre o sentido e a ausência de sentido desse destino. Na verdade, está tudo em Shakespeare, na história, que deixou de ter sentido, contada por um louco. Esse sentido propriamente humano vai ser recuperado através do processo de laicização de uma parte da cultura europeia, através de um país chamado França, para o qual o triunfo das Luzes é uma resposta a essa depressão que a cultura tradicional sofre quando se descobre fragilizada e já não certa de que Deus garanta a nossa salvação.( 69,70)
On how Dostoevski’s novels are built on descriptions of life’s everyday occurrences:
Dostoevski funda na descrição as experiências dos fait-divers. O que é paradoxal é que a literatura de Dostoievski se baseia em fait- -divers. Mas, todo o fait-divers por ele tratado, mesmo o mais baixo, o mais ordinário, se transforma numa aventura metafísica e religiosa, num problema de salvação, de vida ou de morte. Perde-se ou ganha-se. É a primeira vez que irrompe a questão do assassinato. Já existia em Edgar Allan Poe e em toda essa tradição literária do crime, mas era uma tradição quase lúdica em função de um mistério que se resolvia pela astúcia e pela inteligência, pela perspicácia de quem apanhasse o criminoso. No Crime e Castigo é diferente: a personagem que mata a ve- lha sofre verdadeiramente uma tentação, que é a mais comum possível, mas que leva até ao fim, até se salvar através do pecado cometido. Isto passa-se com Dostoievski, mas não com Tolstoi. Talvez seja o facto de toda a gente se reconhecer naquelas personagens, nomeadamente nas d’Os Irmãos Karamazov, que o torna tão popular. Outro dos romances de Dostoievski de que gosto muito é O Idiota. Mas, O Idiota é uma reinvenção de um Cristo russo, tomado a sério, que se regenera pelo seu espírito de auto-sacrifício. Trata-se quase de um lado masoquista que existe apenas nessa literatura. Eu acho que a geração que mais se impregnou dessa atmosfera propriamente russa, desse problema da alma russa nos podia dar também, de outra maneira, a alma hispânica. Mas a alma hispânica está tão ofuscada por uma hierarquia, por uma instituição que gere um pouco os efeitos disso… O que caracteriza a literatura moderna é o facto de os seus sujeitos solitários terem de descobrir o caminho num mundo que é simultaneamente um labirinto e um enigma. Só Dostoievski e Shakespeare acedem a tal patamar, em função do génio e das situações de natureza política, fait-divers cometidos pelos reis. Essas são as personagens avant la lettre de Dostoievski, que matam, esfolam e regeneram, e que não existiam no Ocidente, porque a ética geral não lhes conferia dignidade. Eram diabólicas e infernais, e embora pudessem ser fascinantes, esse fascínio era liquidado pelo facto de serem personagens réprobas. Ainda antes de Nietzsche, Shakespeare abalançou-se para além do bem e do mal. Ora, isso não é característico da nossa literature. (72, 73)
Sophia de Mello Breyner 5/10/1979
On the comparison of Dostoevski with Tolstoi:
… são completamente diferentes. Uma vez escrevi um artigo em que dizia o seguinte: um bêbedo que lê Tolstoi sabe que é bêbedo e um bêbedo que lê Dostoievski julga que é um iluminado. Dostoievski enquadra-se num certo espírito de época do princípio do século e de uma certa linha intelectual que tenta romper as diferenças entre o bem e o mal. Tolstoi, pelo contrário, é um homem que tenta continuadamente alcançar a claridade, uma consciência das coisas, sem ultrapassar esse limite.
Vergílio Ferreira 5/23/1979
Vergílio Ferreira’s interview offers the most articulate and insightful analysis of the metaphysical aspect of Dostoevski’s fiction. He argues that even though the social and psychological aspects of his work have historically attracted the most attention, Dostoevski, through his own admission, was consumed by the singular question of whether God does or does not exist: “Numa carta que ele escreveu a um interlocutor cujo nome me escapa agora dizia algo do género: ‘Para mim, o único problema que me assaltou ao longo da minha vida foi este: saber se Deus existe ou não.” (181)
O aspecto metafísico resume-se para mim em duas frases, uma do Karamazov e outra do Kirilov. Karamazov diz: «Se não há Deus, tudo é permitido». E Kirilov diz: «Se não há Deus, eu sou Deus». Ora, no fundo o que mais importa a Dostoievski é a problemática da existência ou não existência de Deus. Não é apenas pela afirmação estrita se Deus existe ou não. É tudo o que vem atrás disso. Não nos esqueçamos de que esta problemática de Dostoievski vem juntar-se depois a uma problemática idêntica levantada por Nietzsche e que é fundamental no nosso tempo, porque se prende com a ordenação geral da vida. Tal como declarava Jaspers, e Malraux repetiu, estamos no início da primeira civilização agnóstica desde que o homem é homem. A problemática da existência ou não existência de Deus pressupõe a fundamentação de toda uma ética e de uma moral. Os problemas que se geram em torno desta questão e nela radicam têm que ver com a significação da vida e da sua justificação, mas também com a justificação da morte e com o absurdo. De modo que isso para mim é o mais importante. Claro que ele aflora outros problemas, nomeadamente na história do “Grande Inquisidor”, que não tem na raiz o aspecto metafísico. Nós estamos justamente no fim de um percurso bimilenário e sentimos o reflexo dessa dissolução de várias formas, desde logo nas relações familiares pais-filhos e na educação. Está patente nos problemas da filosofia, também ela em desagregação, e da arte, nas artes plásticas, na literatura, na música… Há de facto uma reorganização total da vida humana e esta reorganização assenta numa fundamentação religiosa, divina. (182,183)
Vergílio Ferreira acknowledges that Dostoevski’s quest had such a powerful impact on him that it became fundamental to his work as he sought to define the meaning of man’s existence and the implications of living in a world without God:
Sim, esse problema é fundamental na minha obra, embora ultimamente, na sequência disso mesmo, eu tenha colocado outras questões. O problema quanto a mim não se resolve, isto é, as grandes questões para a vida não se resolvem com receitas. Eu costumo distinguir dois tipos de questionação: a pergunta e a interrogação. São dois tipos muito diferentes. A pergunta tem uma resposta; a interrogação não a tem ou tem- na, mas não por deliberação, não porque nós a possamos dar. Dou-lhe um exemplo muito simples. Pergunto o que é uma pedra. Pois bem. E o geólogo responde-me, definindo o que é uma pedra. Esta pergunta tem uma resposta, de tal modo que é como se a pedra já lá estivesse. Quando eu digo o que é uma pedra, eu já a lá pus. Limitei o campo da pergunta. Agora é só dizer o que lá está. Mas, se eu disser assim: por que é que há pedras em vez de não haver nada? Isto é uma interrogação. Não tem resposta, porque a pergunta desenvolve-se num sentido horizontal, é visível e limitada. A interrogação desenvolve-se no sentido vertical e vai ao abismo, ao insondável. Ora, a interrogação tem uma resposta? Sim, mas não a podemos dar como a damos à pergunta. A resposta à interrogação é feita através do mito, da revelação de uma coisa que nós não sabemos porque é, mas que, de certo modo, nos orienta a vida. A vida é cheia de mitos e um dos aspectos fundamentais do nosso tempo é que justamente não há mitos. Os mitos esgotaram-se. Há muito sucedâneo de mito. Claro que posso levantar como mito ser adepto de um clube de futebol e levar a minha vida toda em torno dessa opção. Mas isso não é um mito. Eu falo de um mito que ordena uma vida. Não é por acaso que o comunismo tem tanta força, porque é um sucedâneo do mito ordenador. Que resposta é que eu dou ao problema levantado por Dostoievski? Nenhuma, a não ser uma resposta que se me levanta no limite, num horizonte muito distante, que eu não sei como se vai resolver nem se pode aparecer como verdade orientadora. Não vejo outra possibilidade senão que o homem aceite ou venha aceitar a sua condição de ser mortal, que tem de enfrentar uma vida que não tem significação. Todavia, pode ser que consiga absorver isto tudo em harmonia e plenitude, em tranquilidade. Isto é quase uma quadratura do círculo. Quando pensamos no que é o homem as dificuldades são grandes. Já é extraordinário pensar o que é o mundo, e haver mundo, estrelas, pedras, cães… Chegando à interrogação por meio da qual se tenta justificar a existência dos homens verifica-se que a distância é vertiginosa. Ora, pensarmos que a vida não tem significação nenhuma e que está votada a uma morte integral causa grande perturbação. Todo o problema do homem reside na reabsorção de tudo isso – num equilíbrio, numa aceitação, numa plenitude tal como aquela que se tinha quando a vida estava justificada face a uma transcendência. (183,184, 185)
