A Batalha de Valverde é tão augusta e gloriosa, que se esqueceu, por infortúnio da memória, de falar sobre uma outra incursão a Castela feita imediatamente depois daquela Batalha, capitaneada pelo lisboeta Antão Vasques, cavaleiro de grande virtude e galhardia. Este homem…

…queria seguir com o Condestável nas expedições que levaram a Valverde mas, quando chega a Évora, percebe que o Condestável já havia partido, e decide fazer, ele mesmo, uma expedição. Mandou lançar pregão nesta Cidade [pregou algo como um pergaminho nos Paços do Concelho], onde emitia a informação de que, quem quisesse entrar em Castela com ele, que lhe viesse falar para preparar tudo. Só em Évora conseguiu 300 homens apeados; com os homens de Beja, juntou 400 apeados e 50 homens entre besteiros e encavalgados. Parte para Serpa e aí soube como o Condestável tivera uma batalha, e a vencera, estando já em Elvas. E, de Elvas, dez escudeiros do Conde, com sua permissão, seguem para Serpa, para auxiliar Antão Vasques na nova empresa – com Álvaro Vasques d’Alenquer, Aires Martins Gavião e João Esteves Correia à cabeça. De Serpa, numa terça-feira, passam de noite pela fronteira, chegando ao arrabalde de Aroche pela manhã. A duas léguas da vila, construíram duas escadas de timões de arado atados com cordas, para conseguirem subir ao castelo, no cimo de uma serra. Antão Vasques ordena a um seu homem, Lopo Afonso Adail, que inicie uma cavalgada na vila [que não era amuralhada], enquanto que os outros, à sua cabeça, subissem ao castelo – entretanto, as gentes da vila, acordadas com o barulho, fogem para as cercas do castelo e, por infelicidade das armas que ali possuíam, não foi possível empregar no castelo, tendo os Portugueses juntado imenso gado e muitos prisioneiros da vila. Seguem para Cortegana, mais para o interior de Castela, enquanto coletavam todo o trigo, cevada e milho que achassem no caminho. Chegando a ela, obrigaram os homens da vila a retroceder para o respetivo castelo mas, tal era a força Portuguesa, que os homens dali acordam-se em pagar aos Portugueses em troca de fugida sem peçonha. No entanto, quebram a promessa, pois enquanto os Portugueses esperavam o pagamento dos prometidos 20.000 reais de prata, os homens do castelo comunicam aos de Aroche e Aracena para os auxiliarem em armas. Os Portugueses descobrem, e queimam a vila, tomando tudo o que conseguiram. Por meio de um mensageiro do castelo, apanhado pela hoste de Antão Vasques, souberam como lhes era recomendado que fossem a Cortechã, onde os Portugueses tinham o arraial e, de noite, apanhando-os numa emboscada. Em retaliação, os Portugueses cortam a cabeça do mensageiro em frente às muralhas do castelo, e voltaram a Cortechã e, daí, a ribeira de Chança, já em Portugal. Na noite em que aí chegaram, encarregaram João Esteves Correia e outros escudeiros que vigiassem as proximidades. No entanto, este João Correia apartou-se dos escudeiros, passou para o lado de lá da ribeira, trotou até encontrar um contingente de 800 homens; foi encontrado, recuou até Antão Vasques, informou-o do ocorrido, e investem sobre esses homens, num conflito de ±400 contra ±800, no lado de lá da dita Ribeira. Estraçalhados, os Castelhanos fogem para Cortechã mas, entre estes tempos, 260 foram mortos e 140 já eram presos, além de 5 cavalos capturados. Do lado dos Portugueses, 1 morto e 3 feridos. Desistindo dos restantes, retomam a Serpa com um espólio impressionante de 4.000 vacas, 5.000 ovelhas, 1.000 porcos, armas de vário calibre, além de meia dúzia de prisioneiros que mantiveram até Portugal. Uma grande expedição de um homem da nossa Pátria.
