A ideia de feminismo geracional mostra como a idade e a época mudam a luta das mulheres, as diferentes vagas do feminismo, os conflitos entre feministas de diferentes idades, e a forma como cada geração enfrenta desafios distintos, de acordo com as necessidades de cada época¹.
O que não é tão explorado é o “feminismo geracional” como conceito. Para refletir sobre a transmissão – ou perda – de conquistas, valores e expectativas entre gerações de mulheres. Uma autora, Iris van der Tuin, no seu livro, impede que este conceito se transforme numa guerra entre gerações. Esta peça não é uma defesa da ideia de que “cada geração tem o seu feminismo”. Ela propõe uma generacionalidade mais dinâmica, em que as gerações se concebem umas às outras, em vez de se substituírem².
Vamos por partes. As vagas do feminismo dividem-se em quatro fases históricas principais, que se vão modificando, adaptando, categorizando segundo as instâncias da altura. Num rápido resumo, a primeira vaga (entre 1788 e 1949) tinha como foco os direitos legais e políticos fundamentais, o direito ao voto, o acesso à educação e a igualdade de direitos de propriedade. A segunda vaga (de 1949-1990) centrou-se na igualdade, na carreira, no sexo livre. Libertação sexual, autonomia reprodutiva, pílula anticoncecional. Salientou o combate à violência doméstica, à discriminação no trabalho e aos papéis tradicionais de género. A distribuição de forma desigual do trabalho doméstico, dos cuidados familiares. A legalização do aborto. A terceira vaga (década de 90) introduziu a interseccionalidade e a pluralidade de identidades, bem como a desconstrução de um modelo único de mulher (incluindo raça, classe e orientação sexual). A quarta e atual vaga tem forte expansão através do ativismo online e das redes sociais, da denúncia massiva do assédio, da cultura da violação e da violência de género. Inclusão de debates sobre identidade de transgeneridade e pluralidade corporal. A carga mental, a violência psicológica, a desigualdade na parentalidade, ou a necessidade constante de provar competência em espaços ainda marcados por expectativas de género³.
São problemas diferentes.
Porém, não são problemas menores.
Podemos questionar se o feminismo conhecido como tal já existe há tanto tempo, por que razão a violência doméstica ou a legalização do aborto só se abordaram mais tarde? Não por ser menos essencial. A lista apresentada pelas vagas não tem como ordem a sua relevância. Pensa nos requisitos exequíveis a atingir em cada período temporal. Acham que conseguiríamos que a violência doméstica fosse um crime público se as mulheres ainda hoje não pudessem votar? Se as mulheres ainda hoje precisassem de um homem (pai, marido ou irmão) para abrir uma conta ou arranjar emprego? Não!
O feminismo da nossa avó era, muitas vezes, o direito a trabalhar sem autorização do marido. O da nossa mãe era conciliar carreira e maternidade sem ser julgada. O de muitas mulheres hoje passa pela carga mental, pela violência psicológica, pela autonomia do corpo ou pela desigualdade invisível. Problemáticas que sempre existiram. Apenas nunca tiveram espaço dentro da luta. Havia jogos culturais e valores que pareciam superiores. Que precisavam vir primeiro.
O direito ao voto não resolveu a desigualdade de género. Todavia, criou uma condição política para continuar a combatê-la. O acesso à educação não eliminou a discriminação profissional. Mas tornou possível disputar espaços que anteriormente estavam vedados. A autonomia económica não eliminou a violência doméstica. Mas tornou mais plausível que uma mulher pudesse abandonar uma relação da qual dependia materialmente. Cada geração acredita que luta contra problemas completamente novos, quando, na verdade, muitas das batalhas apenas mudaram de forma.
Portanto, aqui não vejo que os objetivos de cada vaga fossem devidos às prioridades de cada geração, mas sim a uma estratégia social e focada no presente e futuro.
As gerações seguintes, nós, fomos herdando muitas dessas conquistas. E é precisamente porque crescemos num contexto em que esses direitos parecem naturais que pudemos dirigir a atenção para outras formas de desigualdade – a linguagem, a representação, os padrões de beleza, a identidade, a performatividade do género ou os símbolos associados ao feminino, ao mesmo tempo que continuamos a lutar por igualdades salariais, violência doméstica e sexual, progressões na carreira, etc.
Não há nada de errado nesta mudança. Ela é o sinal de que o feminismo produziu efeitos concretos ao longo da história.
No entanto, o que acontece hoje, em 2026, é que as gerações mais jovens cresceram numa sociedade profundamente diferente daquela que formou os seus ascendentes e talvez irmãos/ãs. Nunca houve tanto acesso ao conhecimento, à educação e à informação. Nunca foi tão fácil encontrar respostas, construir opiniões ou participar no debate público. Contudo, a facilidade de acesso ao conhecimento não equivale, necessariamente, à experiência. A experiência continua a ser um produto do tempo, do erro, da privação e da exposição prolongada à realidade. E nem sempre uma experiência na primeira pessoa. Saber observar quem nos rodeia, as situações de vida das outras mulheres. Outras classes sociais.
Esta diferença ajuda a explicar por que motivo tantas vezes se observa um aparente desencontro entre gerações. Enquanto umas falam a partir da memória do que viveram, outras falam a partir daquilo que aprenderam. Ambas possuem conhecimento. Apenas diferem na forma como esse conhecimento foi adquirido, e em como é transmitido.
A própria investigação em psicologia do desenvolvimento tem mostrado que a transição para a idade adulta ocorre hoje de forma mais prolongada (emerging adulthood), marcada por uma maior dependência familiar e por uma fase alargada de exploração da identidade, resultado de profundas alterações sociais e económicas⁴ᐧ⁵. Paralelamente, outros autores e autoras sugerem que as sociedades contemporâneas tendem a proteger mais os jovens da frustração e a apreciar a expressão individual, influenciando a forma como interpretam conflitos sociais e políticos⁶ᐧ⁷ᐧ⁸. E com isto a literatura não descreve estes modelos como uma causa de fragilidade geracional. Reconhece que cresceram numa cultura que procura reduzir o desconforto, antecipar o fracasso e oferecer soluções imediatas para muitos dos obstáculos da vida quotidiana.
Adicionalmente, segundo a teoria do pós-materialismo de Ronald Inglehart, as gerações que crescem em contextos de maior segurança económica, estabilidade e proteção social, deixam de priorizar necessidades básicas (emprego, segurança, sobrevivência, autonomia económica) e começam a valorar mais questões de identidade, autorealização, autenticidade, expressão individual e reconhecimento social⁹. Quando um requisito básico está relativamente satisfeito, surgem outros¹⁰.
Não é que uma geração seja pior que a anterior. Tem apenas características diferentes. Porque cresceu numa realidade diferente. Cada geração aprende a preocupar-se, sobretudo, com aquilo que o seu tempo lhe permite ver. Quando uma conquista deixa de ser vivida como conquista, pode transformar-se numa evidência. E aquilo que parece evidente deixa de suscitar memória.
Pierre Bourdieu explica(ou) que quem nasce dentro de determinados privilégios deixa de os reconhecer como privilégios. Instauram-se como naturais¹¹. As mulheres que nasceram depois de muitas conquistas femininas podem interpretar esses direitos como algo inevitável. Não é ingratidão. Quem nunca conheceu a sua ausência dificilmente lhes atribui o mesmo peso simbólico que quem lutou para os conquistar.
Hoje, poucas mulheres portuguesas imaginam um país onde não pudessem votar, abrir uma conta bancária sem autorização do marido, exercer determinadas profissões ou decidir livremente sobre o seu percurso académico e profissional. Existe a consciência de que foi graças a outras mulheres que estes direitos foram transformados em normalidade. As mulheres podem votar desde 1893 na Nova Zelândia (primeiro a nível mundial), desde 1906 na Finlândia (a nível europeu) e desde 1911 em Portugal. Um direito básico que se tornou evidente e entranhado na sociedade que damos como garantido. [Tão garantido que há pessoas que não vão votar ou não entendem a importância de].
As gerações mais novas conhecem a história dessas conquistas, no entanto, nem sempre conseguem atribuir-lhes o mesmo significado emocional, porque nunca experimentaram a ausência desses direitos.
É precisamente aqui que nasce aquilo a que proponho chamar feminismo geracional. Não o vejo como uma nova corrente do movimento. De novo, Iris van der Tuin alerta precisamente para os perigos de compreender a generacionalidade através de uma lógica simplista de oposição entre feministas “velhas” e “novas”. A autora procura deslocar a ideia de geração enquanto categoria estática e conflitual para uma compreensão mais dinâmica. As gerações não existem isoladamente, mas produzem-se umas através das outras, num processo contínuo de transmissão, transformação e recriação². O conceito servirá para compreender cada indivíduo e chamar cada um e cada uma para o cerne da questão – a liberdade e o poder de escolha.
Ora, como exemplo, um corte de cabelo enquanto símbolo político só pode surgir numa geração cuja preocupação principal já não é conseguir autorização para ir ao cabeleireiro.
Isto não diminui o valor do corte de cabelo. Explica-o.
Nos últimos anos, tornaram-se mais frequentes debates em torno do significado político da aparência: usar ou não maquilhagem, depilar-se ou não, usar cabelo comprido ou curto, vestir-se de determinada forma ou rejeitar determinados padrões estéticos. Estas discussões têm relevância porque os corpos das mulheres continuam a ser alvo de normas e expectativas sociais. Porém, verifica-se uma onda feminista que descarta a dedicação visual e estética feminina. Como se fossem mais feministas por irem contra um conceito aparentemente patriarcal e capitalista. Contudo, será de facto assim? Muitas mulheres não têm a possibilidade nem a disponibilidade financeira para escolher que roupa vestir, que estilo usar, como se apresentar. Capacidade de compra de maquilhagem, liberdade financeira para ir ao cabeleireiro. Tempo para se olharem ao espelho no início da sua maternidade. Uma mulher detida num relacionamento abusivo. Uma rapariga presa numa religião em que não acredita. Uma mulher que acabou de ser mãe.
Quando escolhemos, deliberadamente, uma aparência “desleixada” como resistência à expectativa de que as mulheres devem cuidar da sua aparência para agradar companheiros, não estaremos a desrespeitar ou desconsiderar as mulheres que simplesmente não têm poder de escolher? Não defendo o desleixo nem o seu contrário. Defendo que, qualquer que seja a nossa posição, que a façamos com humildade e empatia para com todas as situações plausíveis.
Apresento um exemplo muito próximo de mim. Uma feminista, da geração Z. Preocupada com o seu visual, sempre que sai de casa, até numa simples ida ao supermercado – e com o visual de quem a rodeia. A primeira a apontar que não se veste bem para o seu namorado. Gosta de olhar para o espelho e agradar-se com o que vê. Sentir-se confiante com a sua individualidade em tudo o que usa. Fá-lo por si, exclusivamente.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se uma mulher escolhe usar cabelo curto ou comprido. Talvez a verdadeira pergunta seja: quem tem, efetivamente, possibilidade de escolher?
Nancy Fraser tem defendido que uma parte do feminismo contemporâneo privilegiou políticas de reconhecimento – centradas na identidade, na representação e no estatuto cultural – em detrimento das políticas de redistribuição, ligadas ao trabalho, aos rendimentos e às condições materiais da vida¹²ᐧ¹³. A sua crítica intende recordar que a liberdade simbólica depende, na maioria das vezes, de condições económicas concretas.
Uma mulher sem autonomia financeira dificilmente escolhe livremente onde vive, quando sai de uma relação abusiva, como cuida da sua saúde ou que imagem apresenta ao mundo. Para ela, o problema pode não ser decidir se o cabelo curto desafia normas de género. O problema pode ser conseguir pagar um corte de cabelo.
É aqui que, por vezes, o diálogo entre gerações se quebra.
Estas investigações não permitem concluir que uma geração seja “mais fraca” ou “mais fútil”. Apenas cresceram num contexto em que determinadas conquistas já faziam parte da paisagem. O conceito “feminismo geracional” volta a entrar, permitindo compreender por que motivo determinadas preocupações ocupam hoje um espaço tão central no debate público. Este conceito vem transformar gerações em blocos separados e mutuamente antagónicos.
Regressando ao nosso exemplo – talvez o privilégio não esteja em usar cabelo curto ou comprido. O privilégio esteja em poder escolher.
E talvez o maior legado do feminismo não seja uma determinada estética, uma determinada linguagem ou uma determinada forma de expressão. Seja a criação das condições que tornam a escolha provável. Quando esquecemos essas condições, corremos o risco de transformar a liberdade num símbolo, esquecendo a estrutura que a sustenta.
Na verdade, disse em cima uma palavra importantíssima – privilégio – seja entre gerações, com impacto no feminismo, no meio laboral, nas relações com pares, mas também na diferença entre classes. O mesmo fenómeno observa-se quando deixamos de olhar apenas para as gerações e passamos a olhar para as diferentes classes sociais. A forma como cada ser experiencia determinada posição ou situação é inevitavelmente influenciada pelas condições materiais em que vive. Uma pessoa economicamente privilegiada poderá atribuir maior importância a questões de representação, identidade, linguagem ou liberdade de expressão individual; uma pessoa em situação de vulnerabilidade económica tenderá a colocar no centro da sua luta a autonomia financeira, o acesso ao trabalho digno, à habitação, aos cuidados ou à possibilidade real de abandonar uma relação abusiva.
Nancy Fraser descreve esta tensão através da distinção entre políticas de reconhecimento e políticas de redistribuição, defendendo que uma sociedade verdadeiramente justa exige ambas: o reconhecimento da dignidade e identidade das mulheres, bem como a redistribuição dos recursos que torna essa dignidade exequível¹³ᐧ¹². De igual modo, Bell Hooks alerta para o facto de um feminismo centrado apenas na experiência de mulheres privilegiadas correr o risco de ignorar as necessidades daquelas que continuam a enfrentar formas mais profundas de exclusão económica e social¹⁴. Também Kimberlé Crenshaw, ao desenvolver o conceito de interseccionalidade, demonstrou que o género nunca atua isoladamente. Cruza-se com fatores como a classe, a raça ou a origem social, produzindo experiências muito distintas de desigualdade¹⁵.
Assim, tal como acontece entre gerações, também entre classes sociais as prioridades diferem porque os pontos de partida são diferentes. Contudo, essa diversidade não representa uma fragmentação do feminismo. Pelo contrário, recorda-nos que a igualdade não pode ser construída a partir de uma única experiência feminina. No fundo, todas caminhamos na mesma direção – uma sociedade em que nenhuma mulher veja a sua liberdade limitada pelo facto de ser mulher. O que muda não é o destino, mas sim o trilho que cada uma precisa de percorrer para lá chegar.
O feminismo não é uma herança garantida. Direitos conquistados por uma geração podem ser desvalorizados ou mesmo perdidos pela seguinte. E isto não é uma problemática apenas no feminismo. É transversal.
É por isso que proponho pensar o feminismo geracional como um exercício permanente de memória. Porque nenhuma geração começa a luta do zero. E nenhuma conquista permanece garantida apenas porque nos habituámos a viver com ela.
O feminismo geracional convida precisamente a esse exercício de continuidade. Reconhece que as mulheres de hoje beneficiam do trabalho de quem veio antes. Reconhece também que as mulheres do futuro dependerão da coragem das mulheres de hoje.
Notas e Bibliografia
¹ S. Pinto e J. Nash, “Special Issue: Intergenerational Feminisms,” *Feminist Theory*, vol. 26, nº 3, 2025.
² I. v. d. Tuin, *Generational feminism: new materialist introduction to a generative approach*, Lexington Books, 2014.
³ L. Vicente, “As quatro vagas feministas,” em *Feminismo de A a Ser*, OBJECTIVA, 2019, pp. 56-81.
⁴ J. J. Arnett, “Emerging adulthood: a theory of development from the late teens through the twenties,” *American Psychologist*, vol. 55, nº 5, pp. 469-480, 2000. https://doi.org/10.1037/0003-066X.55.5.469
⁵ Z. Abrams, “How to support young people on the road to adulthood,” *Monitor on Psychology*, vol. 57, nº 4, 2006.
⁶ C. Urone, C. Verdi, C. L. Iacono e et al., “Dealing with overparenting: developmental outcomes in emerging adults exposed to overprotection and overcontrol,” *Trends in Psychol.*, 2024.
⁷ J. M. Twenge, *iGen: why today’s super-connected kids are growing up less rebellious, more tolerant, less happy—and completely unprepared for adulthood—and what that means for the rest of us*, ATRIA BOOKS, 2017.
⁸ G. Lukianoff e J. Haidt, *The coddling of the american mind: how good intentions and bad ideas are setting up a generation for failure*, PENGUIN BOOKS LTD, 2019.
⁹ R. Inglehart e C. Welzel, *Modernization, cultural change, and democracy: the human development sequence*, Cambridge University Press, 2005.
¹⁰ C. M. Aanstoos, “Maslow’s hierarchy of needs,” EBSCO, 2024. [Online]. Available: https://www.ebsco.com/research-starters/psychology/maslows-hierarchy-needs.
¹¹ P. Bourdieu, *Outline of a theory of practice*, Cambridge University Press, 2013.
¹² N. Fraser, “From redistribution to recognition? dilemmas of justice in a ‘post-socialist’ age,” *New Left Review*, vol. I/212, 1995.
¹³ N. Fraser, *Fortunes of feminism: from state-managed capitalism to neoliberal crisis*, VERSO BOOKS, 2020.
¹⁴ B. Hooks, *Feminism is for everybody: passionate politics*, South End Press, 2000.
¹⁵ K. Crenshaw, “Demarginalizing the intersection of race and sex,” nº 1, pp. 139-167, 1989.
