A Ideologia de Género e o Grande Dragão

A ideologia de género, entendida aqui não como a existência de pessoas com sofrimento real, mas como um sistema normativo que separa linguagem, identidade e lei da realidade, encaixa estruturalmente numa definição de caos que quando não é enfrentado cresce e exige sacrifícios humanos. 

Em Mapas do sentido, A Arquitetura da Crença (1999), Jordan B. Peterson recupera uma estrutura simbólica antiquíssima para explicar fenómenos psicológicos e civilizacionais recorrentes: a oposição entre ordem, caos e a figura do herói que medeia entre ambos. O dragão, nesse sistema, não é um elemento ornamental do mito, mas a personificação do caos não integrado — aquilo que foi evitado, mal nomeado ou deliberadamente ignorado. A tese de Peterson é esta: o caos que não é enfrentado quando ainda é pequeno cresce, organiza-se e acaba por exigir sacrifícios humanos. Esta não é meramente uma imagem literária, mas uma lei antropológica.

A ideologia de género, entendida aqui não como a existência de pessoas com sofrimento real, mas como um sistema normativo que separa linguagem, identidade e lei da realidade, encaixa estruturalmente nesta definição. 

As suas raízes teóricas são identificáveis e documentadas. Em Gender Trouble (1990), Judith Butler propõe o género como uma construção performativa independente do sexo. Em La volonté de savoir (1976), Michel Foucault descreve o poder como algo exercido através do discurso e da redefinição do que conta como verdade. Os Yogyakarta Principles (2006, revistos em 2017) traduzem essas categorias para o plano jurídico e institucional. O resultado não é apenas uma teoria cultural, mas um mecanismo activo de reorganização do real através da linguagem.

judith butler as a cute dragon with rainbows

Tal como o dragão mitológico, este sistema começa pequeno. Nos anos 1990, permanece maioritariamente confinado à academia, apresentado como exercício crítico sofisticado e inofensivo. Não é confrontado porque parece abstracto e porque questioná-lo implica custos reputacionais. Aqui ocorre o primeiro erro descrito por Peterson: a recusa em nomear o caos enquanto ele ainda é manejável. O que não é enfrentado não desaparece; acumula-se.

Na fase seguinte, entre o início dos anos 2000 e a década de 2010, dá-se a mutação decisiva. A discordância deixa de ser tratada como divergência intelectual e passa a ser moralizada. Questionar conceitos torna-se “discriminação”. A mentira deixa de ser apenas tolerada por compaixão; passa a ser considerada virtuosa. Hannah Arendt já tinha descrito este processo em The Origins of Totalitarianism (1951): quando os factos deixam de ser o critério último, o poder assume a função de definir a realidade. É neste ponto que o dragão deixa de se esconder e passa a ser protegido por tabu moral.

A partir de 2013, o processo entra na fase adulta. O caos simbólico cristaliza-se em lei, políticas públicas, educação e medicina. O Bill C-16 no Canadá (2016) integra linguagem ideológica no direito. Currículos escolares passam a apresentar a identidade de género como facto ontológico. Em Portugal (2018), entram termos como “identidade de género”, “expressão de género” nas leis. A ciência e a clínica sofrem pressão institucional, algo reconhecido explicitamente pelo Cass Review no Reino Unido (2020–2024), que apela à prudência e à evidência no tratamento de menores. O dragão já não pede aceitação; exige obediência. A crítica não é apenas desencorajada; é punida.

cute dragons in a legislative assembly

O erro central que permitiu este crescimento não foi a maldade, mas a confusão entre compaixão e verdade. Em 12 Rules for Life (2018), Peterson insiste que a compaixão desligada da verdade degenera inevitavelmente em crueldade. Ao confundir sofrimento psicológico real com afirmações ontológicas falsas sobre o corpo e a realidade, a ideologia de género substitui o Logos — a palavra que ordena o mundo — por uma linguagem terapêutica incapaz de estabelecer limites realistas. O resultado não é libertação, mas desintegração simbólica.

O confronto com este dragão não é violento nem repressivo; é estrutural. Começa na linguagem, através da reposição de definições claras, em linha com o princípio da não-contradição formulado por Aristóteles na Metafísica (século IV a.C.) e com a advertência de George Orwell em Politics and the English Language (1946). Continua na lei, pela distinção rigorosa entre sexo biológico e identidade subjectiva, protegendo a liberdade de consciência, como defendeu John Locke em A Letter Concerning Toleration (1689). Passa pela protecção da infância, recusando a experimentação ideológica em crianças, e pela defesa da ciência contra a captura ideológica, como alertou Thomas Kuhn em The Structure of Scientific Revolutions (1962). O dragão enfraquece quando perde a névoa simbólica que o alimenta.

Há, contudo, um limite moral essencial. Peterson é explícito: quem enfrenta o caos sem Logos transforma-se nele. Não se combate mentira com mentira, nem coerção com coerção. São Tomás de Aquino formula o critério clássico na Summa Theologiae (século XIII): amar a pessoa, rejeitar o erro. O dragão não é derrotado pela fúria, mas pela verdade dita a tempo, no lugar certo e com a medida justa.

the family has normal clothes

Jordan Peterson nunca afirmou literalmente que a ideologia de género é o dragão. No entanto, segundo os próprios critérios simbólicos, psicológicos e morais que ele estabeleceu em 1999, a correspondência é plausível. Trata-se de um caos não nomeado, tolerado por medo, protegido por tabu moral e institucionalizado por falsa compaixão. E, como todo o dragão, cresce exactamente na proporção em que se evita enfrentá-lo. A verdade, quando finalmente nomeia o caos, não destrói: restaura a ordem.

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