A política continua cristã e negá-lo é fingir neutralidade moral

A maior fraude intelectual do nosso tempo é fingir que o Cristianismo saiu da política. Não saiu. Foi apenas empurrado para a esfera privada, onde continua a imperar, a julgar e a impor limites morais ao poder, enquantos todos fingem que agem em nome da razão, do progresso ou da neutralidade ética.

A maior fraude intelectual do nosso tempo é fingir que o Cristianismo saiu da política. Não saiu. Foi apenas empurrado para a esfera privada, onde continua a imperar, a julgar e a impor limites morais ao poder, enquantos todos fingem que agem em nome da razão, do progresso ou da neutralidade ética.

Há uma mentira confortável que estrutura o debate público na atualidade: a ideia de que vivemos numa sociedade pós-cristã, emancipada de valores herdados e politicamente neutra em matéria moral. Esta narrativa não apenas é falsa como é uma forma sofisticada de mentira intelectual. O Cristianismo não desapareceu da política. Mudou de forma. Deslocou-se do plano institucional para apenas o plano individual e passou a funcionar como uma cultura política interiorizada, moldando a forma como os cidadãos avaliam o poder, julgam os governantes e exigem justiça.

Hoje, o Cristianismo sobrevive menos como fé organizada e mais como um quadro moral consciente, ou que, pelo menos, deveria sê-lo a partir do qual temos uma lente analítica alternativa da autoridade política. Quando exigimos integridade absoluta a quem governa, quando não toleramos hipocrisia, quando julgamos intenções antes mesmo dos actos e quando reclamamos punição pública visível, não estamos a agir em nome de uma ética neutra ou de um racionalismo iluminado. Estamos a reproduzir, ainda que de forma “secularizada”, princípios centrais do Evangelho, o que é correto. A diferença é que o fazemos envergonhadamente, como se assumir esta herança fosse um retrocesso civilizacional.

Não acho que a secularização tenha libertado totalmente a política do Cristianismo; apenas retirou- lhe o nome e o espaço institucional. O resultado não foi menos moralismo, mas mais moralismo e pior e em outros moldes vendo nascer alguns novos dogmas. Sem uma estrutura, sem critérios e um plano de ação claros e sem responsabilidade, a moral cristã passou a atuar de forma difusa, envergonhada, emocional e por vezes, incoerente. Cada indivíduo sente-se investido de autoridade moral para julgar, condenar e exigir expiação pública, mas fá-lo sem assumir o código ético que legitima esse julgamento.

A esta cultura política cristã individualizada exige-se justiça e ação visível. Não por punitivismo primários, mas porque, na tradição cristã, a justiça tem uma função restauradora: reafirma limites, recompõe a ordem moral e devolve sentido à comunida política. E, ainda assim, este mesmo quadro favorece o perdão e corretamente segundo o meu ponto de vista mas apenas depois da assunção plena da culpa. O que hoje se pratica, porém, não é perdão; é absolvição selectiva. E isso não é Cristianismo: é oportunismo moral.

O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando a sociedade que proclama a morte do Cristianismo constrói novos dogmas seculares com pretensões morais absolutas. O liberalismo nos seus moldes atuais, apresenta-se como libertação de valores herdados, mas funciona, na prática, como uma teologia política disfarçada: define o bem e o mal, estabelece heresias, impõe excomunhões simbólicas e não admite redenção fora dos seus próprios rituais. Mudou-se o vocabulário, não a lógica.

Na minha opinião, não existe qualquer problema com o Cristianismo como herança moral pois não só é parte dos valores ocidentais como também constitui um capital ético indispensável para impor limites ao poder num tempo marcado pela corrupção, acordos de bastidores e desresponsabilização. O grande problema é a recusa em assumir esta posição.

Queremos a exigência moral sem admitir a sua origem; quer-se a condenação sem critérios estáveis, ou a virtude sem fundamento assumido.

Defendo, sem ambiguidades, que esta matriz cristã deve ser assumida, executada e acima de tudo, defendida no plano da cultura política individual. Assumida, para de uma vez assumirmos que a neutralidade moral ou ideológica do Estado seja ele qual for é uma ficção. Executada, para que o exercício de poder se revitalize e e volte a estar sujeito a um plano ético claro e não negociável. Por fim, defendida para que a política não continue a ser percecionado como um espaço de relativismo mascarado de progresso e de desresponsabilização.

A sociedade dita pós-cristã não é mais livre nem mais racional. Somos menos honestos e mais egoístas. Parecendo que não, a sociedade continua a obedecer à moral cristã mas fá-lo às escondidas ou muitas vezes sem se dar conta, sem coerência ou às escondidas. E enquanto esta negação persistir, a política continuará servil perante o moralismo histérico, da indignação seletiva e da polarização do debate público.

O Cristianismo ainda manda. A única questão é saber quem tem coragem de o dizer em voz alta.

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