Como o ódio jornalístico faz milagres nas urnas

Há uma teoria muito famosa que nos diz que o líder de um popular partido de direita em Portugal é um produto dos media. Que o "monstro" foi criado pela televisão, vendido ao povo a cada minuto de audiência. O problema é que não é bem verdade.

📺 Como o ódio jornalístico faz milagres nas urnas

Há uma teoria muito popular que nos diz que o Ventura é um produto dos media. Que o “monstro” foi criado pela televisão, vendido ao povo a cada minuto de audiência. O problema é que não é bem verdade.

Se bastasse exposição para criar fenómenos políticos, o bloco era hoje a religião oficial aqui no Tugão. Foram levados ao colo durante uma década, resultado? Hoje, alguns dão-lhe a mão de caminho para o cemitério, outros, estão lá à espera com a pá na mão.

Desapareceram do mapa. Portanto, não, não é o protagonismo que faz o político; é o tipo de protagonismo, e sobretudo, o contraste entre a atitude de quem entrevista, de quem dá a notícia, de quem edita a peça, e depois, do outro lado, aquilo que é a percepção do público.

Ventura, ao contrário do que julgam os sôtores da palrice, não ganha por falar para a plateia, ganha por ser atacado. Quanto mais lhe batem, mais o telespetador o sente como injustiçado. É o instinto humano básico; quando um jornalista parece mais juiz do que fiel da balança, o entrevistado passa a réu, inocente até prova em contrário. Ou até inocente pese embora culpado.

O público percebe quando o profissionalismo se transforma em militância, e o debate em inquisição. O Ventura só precisa de fazer o papel dele, da vítima, como todos nós, portugueses, vítimas do sistema. Demasiado fácil! É a alquimia perfeita da política moderna, um homem contra o sistema, encarnado ali mesmo, em direto, no pequeno ecrã, em nossa casa.

Depois há o caso Alexandre Évora, na CNN. A entrevista foi elogiada pelos eleitores do Chega. E Évora, ao que se sabe, não dorme com um retrato do Ventura na mesa de cabeceira. Fez o impensável, tratou-o como um político normal. Não interrompeu, não ironizou, não quis ganhar o debate. Limitou-se a entrevistar, uma prática cada vez mais radical. E o eleitorado percebeu isso, e pela primeira vez, o foco não foi o Ventura, foi o jornalista que o entrevistou. Porque fez bem o seu trabalho. Ventura não granjeou um único voto nessa noite.

É esse o segredo que os media ainda não decifraram. O excesso de agressividade não destrói Ventura, fabrica-o em série. Quem o odeia e faz questão de o demonstrar no exercício das suas funções jornalísticas faz-lhe o melhor favor, pintar-lhe a auréola.

Claro que no camarim chovem mensagens de elogios, porque apertaste bem com o Ventura, porque o deixaste à nora, enfim, porque meteste o facho na linha. Só que os falsos amigos não são representativos do sentimento do público, mas imagino que saibam a punheta ao ego, e eu sei que há muita carência por aí à solta.

Obrigado Alexandre.

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